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Aos  17  anos,  Evelyn  decide  se  afastar  dos  pais  problemáticos  e  ir  viver  com  a   tia   na   minúscula   e   invernal   cidade   de   Whitehorse,   extremo   norte   do  Canadá.   O   trabalho   de   meio   período   e   a   faculdade   na   Yukon   College  preenchem   todo   o   seu   tempo   livre,   mas   ela   não   consegue   esconder   seu  fascínio   pelos   lobos   da   região.   Quando   o   verão   chega   e   um   grupo   de   garotos  aparece   na   cidade   para   perturbar   o   pacato   conforto   de   Whitehorse,   Evy  descobre   que   uma   atração   estranha   e   irrefreável   pode   levá-­‐la   a   viver   um amor  para  além  do  real...


NOTAS INICIAIS As personagens dessa história são fictícias. A cidade de Whitehorse existe, mas os lugares e as descrições são criações de minha autoria. Algumas lendas foram adaptadas, mas suas origens são verídicas.


- Então isso explica tudo. Nas terras civilizadas, acho que não sobrou nenhuma bruxa; nem mágicos, nem feiticeiras e nem bruxos. Mas a Terra de Oz nunca foi civilizada porque vivemos separados do resto do mundo. E é por isso que ainda temos bruxas, feiticeiros e magos. O Mágico de Oz


PRÓLOGO O FRIO SE INFILTRAVA pelas minhas roupas enquanto eu caminhava pela margem do rio congelado, minha respiração formando torvelinhos de nuvens no ar. O som dos meus passos na neve fofa era seco e áspero; os pedaços cristalinos de gelo encobriam o desenho da Barbie na ponta das minhas botas de plástico, não conseguia me mover direito com aquele casaco que fazia com que eu parecesse um astronauta, mas estava tudo bem – tudo estaria bem enquanto tivesse minha caixinha de biscoitos, presente de natal de um dos amigos do meu pai. Quando os sinos das músicas natalinas ficaram distantes, virei para trás e olhei ao redor. Lá embaixo, Whitehorse se espalhava no terreno irregular, as casinhas iluminadas pontilhavam de colorido a paisagem branca; a neve preenchia as ruas e os espaços por entre elas como uma calda de marshmellow. Caminhei pelo deck. A madeira rangeu sob meus pés, a fina camada congelada craquelava quando eu pisava. Sentei na beirada, deixando meus pés flutuarem no espaço vazio entre a plataforma e a superfície lisa como vidro lá embaixo. Então coloquei a caixa de biscoitos no colo e sorri – hora de abrir meu presente. A caixa era de latão, como qualquer outra embalagem de conservados, mas coberta por um desenho colorido de um gorducho Papai Noel entregando presentes para cinco crianças mais ou menos da minha idade. Eram presentes sem graça, cavalinhos de madeira, ioiôs e um treco com penachos que eu nunca tinha visto antes, mas mesmo assim achei a tampa linda. Tirei a fita de cetim vermelho e abri a embalagem. Os biscoitos estavam dispostos em fileiras, aninhados em papeis dourados e azuis, e tinham formatos de ursinho, renas, trenós e pinheiros, tudo polvilhado com um


açúcar fino como areia. Mordi o lábio enquanto escolhia qual deles provar primeiro, embora soubesse que tinham todos o mesmo sabor. Optei pela rena; o gosto doce dissolveu na minha boca e o confeito ficou grudado nos meus lábios como um batom. O recheio de geleia de morango tinha uma textura maravilhosa, mas grudava nos dedos, tinha que ficar me lambendo feito um gato entre um biscoito e outro. Foi quando percebi alguma coisa se movendo do outro lado da margem, por entre os pinheiros. Pensei que fosse uma ilusão, uma sombra fantasmagórica deslizando na névoa. A forma ondulou na brancura espessa da neve, a silhueta se destacando aos poucos até entrar em foco: patas alongadas, cauda felpuda e cabeça triangular com focinho e orelhas pontudas. Não olhava na minha direção. A poucos metros para a esquerda algo menor saltitou depressa na neve, uma lebre cinzenta. O ataque foi rápido e preciso, quase sem levantar neve; de repente havia uma lebre e um lobo, e num piscar de olhos era apenas um lobo destroçando algo mole e sangrento no chão. O vento gelado soprou pelo rio congelado, uivando baixinho. A voz de minha mãe me chamando veio de muito longe, uma perturbação no silêncio cósmico; o lobo ergueu a cabeça e um par de olhos estreitados me encarou à distância, vidrados e inteligentes. Os pelos embaixo de sua mandíbula estavam eriçados, fios vermelhos desciam por entre os caninos afiados, formando um rastro rubro sobre a pelagem cor de pérola.


CAPÍTULO 1 VISTA DE CIMA, WHITEHORSE parecia uma daquelas cidades em miniatura que ficam dentro de bolas de cristal decorativas. Da janelinha do avião, a cidade lá embaixo tinha o formato de uma amêndoa, com pequenos aglomerados de casinhas cobertas de neve espalhadas ao redor. Lagos congelados salpicavam a região, como espelhos costurados numa renda delicada, e um adensamento de taigas, pinheiros e espruces se estendia pelo horizonte. Era como se alguém no passado tivesse aparecido com a brilhante ideia de construir um vilarejo no meio da floresta, e agora lá estava eu, pousando numa terra gelada e isolada que seria minha casa pelos próximos... Sei lá, oito meses? Um ano? O motivo que me fez deixar a radiante cidade de Nova Iorque e despencar para a minúscula Whitehorse tinha a ver com meus pais. Tinha tudo a ver com eles. Separados há mais ou menos seis meses, eles faziam da minha vida um inferno. Elizabeth e Scott SaintClair se amavam, da maneira como dois adolescentes que esqueceram que viraram adultos se amam. Eu havia crescido no meio das brigas exageradas e das reconciliações apaixonadas dos dois, e agora, finalmente com dezessete anos, decidira sair da mira daquela relação conturbada. Teria sido perfeito se minha tia Jenna morasse em Boston. Ou na Flórida. Ou no Rio de Janeiro. Mas Jenna trabalhava na logística de uma empresa de transporte aquaviário alocada em Whitehorse há quinze anos e não tinha absolutamente a menor expectativa de viver em outro lugar. Para ela, Whitehorse era perfeita. Para mim, era um capítulo à parte que começava na minha vida, mas eu tinha esperanças de que sobreviver à Whitehorse fosse mais fácil do que sobreviver ao amor cataclísmico de meus pais. Eles me lembravam uma


batedeira ligada à deriva, respingando confeito para todo lado. Por isso, quando o avião pousou no diminuto aeroporto local, eu respirei fundo e tentei me animar. Ficou melhor depois que a esteira rotativa entregou minha mala e eu saí pelas portas automáticas – o rosto da minha tia surgiu inconfundível bem diante de mim, quase exposto demais entre as três únicas pessoas no saguão. Jenna tinha ficado com toda a tranquilidade e suavidade da família. Ela era basicamente o oposto da minha mãe. Seu rosto claro e luminoso estava sorridente como eu me lembrava, e os olhos castanho escuros ainda tinham o mesmo brilho romântico de uma universitária. Eu adorava os cabelos dela, longos, ondulados e de um castanho avelã suave, nada parecido com o ruivo flamejante dos meus. Todos aqueles anos em Whitehorse a tornaram incrivelmente branca, mas o resultado final era maravilhoso. Enrolada em seu cachecol rosa claro, ela parecia fresca como uma manhã de primavera. E foi exatamente essa a sensação que tive ao abraçá-la. Aspirei seu perfume floral delicado enquanto a apertava nos braços. “Seja bem vinda, querida”, ela segurou meu rosto entre as mãos e me olhou melhor, “Ah, veja só...”, suspirou, afastando meu cabelo do rosto para contornar com o dedo o formato de minha orelha direita. “Achava que esse defeito da família não fosse chegar até você.” Eu corei, puxando de volta o cabelo por sobre as orelhas. O defeito que tia Jenna se referia era algo que eu mesma detestava. Minhas orelhas não eram grandes, mas uma delas tinha uma ligeira deformação na ponta superior, repuxada para cima no formato de uma folha. Mamãe escapara, mas tia Jenna não. A dela era exatamente igual. “Ficou pior de uns anos para cá”, fiz uma careta, lembrando da época em que o defeito ainda era inexpressivo em meu rosto infantil.


“Pense pelo lado positivo”, tia Jenna piscou um olho para mim, “Você sempre tem a opção de se fantasiar de Arwen no Halloween.” “Isso não é um ponto positivo, tia. Ela sequer é minha personagem favorita de Senhor dos Anéis”, era Eowyn. Eu herdara a pele clara da família de tia Jenna e os cabelos finos e leves. O corte diagonal, maior na frente e curto atrás, ajudava a esconder minhas orelhas, embora o verdadeiro motivo para mantê-lo assim era o fato de mamãe detestá-lo curto. A cor loiro avermelhada como ouro recém derretido e o nariz pequeno também eram da minha família materna, mas a parte boa parava por aí. Eu havia crescido tentando camuflar minhas cores excêntricas, evitando roupas de tons berrantes e estampas grandes e jamais pintava as unhas nem usava maquiagem, mas a sensação era sempre a mesma – a de que, não importava o quanto eu me esforçasse, a impressão geral que eu passava era de cores demais misturadas numa confusão de sardas, olhos indistintamente verdes e cabelos chamativos. Depois dos primeiros cumprimentos, arrastamos minha mala até o Corolla vermelho de Jenna, a acomodamos na traseira e pegamos a estrada. Não queria ser a sobrinha chata que reclama de tudo, então mantive o bom humor enquanto atravessávamos a rodovia e Jenna me contava um pouco sobre seu trabalho na empresa, mas eu estava a ponto de congelar. Duvidava que os termômetros lá fora marcassem algo diferente de vinte graus negativos, e o aquecimento interno do carro não podia fazer muita coisa contra isso. E aquela claridade ofuscante, que em Nova Iorque era amenizada pelo cinza fosco dos prédios, estava me dando dor de cabeça. Como pessoas podiam viver naquele lugar? Como podiam acordar, sair de casa e serem felizes? Parecia impossível que meus músculos ficassem ainda mais rígidos do que estavam, mas ficaram quando Jenna perguntou, passando do tom


descontraído para algo mais cauteloso e formal: “Como estão as coisas com seus pais?” “O mesmo de sempre”, fingi indiferença enquanto olhava a floresta salpicada de branco passar na janela ao meu lado. Falar sobre eles sempre fazia meu peito apertar com nós desagradáveis, “Eles estão tentando.” “Estão tentando há vinte anos.” “Um dia eles conseguem.” Jenna deu uma risadinha descrente e ficou em silêncio. Isso me incomodou, porque significava que ela estava refletindo sobre o assunto, então inventei depressa algo para desviar sua atenção daquele tópico. “Como é morar aqui? Você gosta, não é?” Ela sorriu para o para-brisa. “Whitehorse é legal depois que você se acostuma. A cidade está quieta agora, mas... bom, acho que os problemas daqui são passageiros. Um dia eles vão embora e fica tudo bem.” Não entendi bem o que ela estava querendo dizer, mas tive a sensação de que aquele eles era um pronome pessoal e não tinha nada a ver com problemas. Ou, ainda, eram a mesma coisa. “A Yukon College é ótima, você vai gostar”, ela me encorajou, “Não está entre as dez melhores do Canadá, mas tem um programa razoável e instalações impecáveis. Fica um pouco longe da nossa casa, mas você pode ficar com o carro durante a semana, não preciso dele.” Gostei do fato dela se preocupar em me deixar à vontade falando nossa casa. Era bem a cara dela.


“Não vai de carro pro trabalho?” “Vou de carona.” Pouco a pouco a floresta deu lugar a pequenas casas de madeira préfabricada de dois andares, e me dei conta de que estávamos nos arredores de Whitehorse. Eram todas muito parecidas, com janelas quadradas cobertas de neve em cima que lembravam biscoitos gingerbreads natalinos. A região mais densa da cidade, que imaginei ser o centro, estava razoavelmente movimentada àquela hora, com pessoas passando nas calçadas e atravessando as ruas amplas. Jenna apontou para uma esquina quando paramos num sinal. “Ali é o Baked, o lugar que lhe falei”, ela lançou um olhar terno para mim e então pegou minha mão, “Querida, você sabe que não precisa fazer isso...” “Eu trabalhava em Nova Iorque, porque não ia trabalhar aqui?”, isso não era exatamente verdade, eu não trabalhava realmente, só ajudava mamãe no escritório de advocacia nas horas vagas, mas Jenna não precisava saber disso. Inclinei a cabeça para ver a fachada do prédio. Podia-se dizer que era arrumadinha, com um toldo comprido que se estendia sobre a calçada, mas não dava para concluir muito mais do que isso quando todas as casas parcialmente soterradas sob a neve eram igualmente indefinidas, “Parece legal. Qual o meu turno?” O sinal abriu e Jenna acelerou devagar com um suspiro frustrado. “Das duas às oito. Dá tempo de ir em casa e almoçar. A gerente é uma garota novinha e extrovertida, você não vai ter dificuldades para lidar com ela.” Jenna havia organizado minha agenda muito antes de eu me mudar para Whitehorse. Eu já estava regularmente matriculada na Yukon, com um emprego tranquilo de balconista numa cafeteria aparentemente bem


conceituada na cidade e provavelmente já tinha providenciado o meu quarto também... Não podia evitar que uma onda de carinho aquecesse meu peito quando olhava para ela, apesar do frio que me enrijecia por dentro. Às vezes, tinha a impressão de que Jenna seria uma boa mãe, equilibrada e tranquila. Não entendia porque ela insistia em ficar sozinha. A casa de Jenna ficava do outro lado da cidade, depois de uma região tomada por condomínios fechados de luxo. Era simples, de dois andares e um mezanino, com paredes vermelhas e portas e janelas cor de chocolate. Ela estacionou do lado de fora e, depois de ter me ajudado a puxar a mala para dentro, deixou as chaves no balcão da cozinha e colocou uma chaleira com água no fogão. Por dentro, a casa de Jenna era rústica, pequena e aconchegante. Os armários e o home theater, de madeira escura, foram perfeitamente estruturados para conter uma rede de iluminação embutida cor de âmbar. O mobiliário e a decoração combinavam em perfeita harmonia, misturando tons de cinza, cereja e vinho em texturas que iam da seda ao veludo cotêle. Mas vi tudo isso só depois, porque a vista panorâmica do lago atrás da casa tirou meu fôlego por alguns segundos. Através dos enormes janelões nos fundos da sala, a paisagem que se abria era ao mesmo tempo ártica e selvagem, dividida em três faixas horizontais distintas: sobre a linha ampla e envernizada do lago congelado azul cobalto se sobrepunha a floresta de pinheiros e bordos e, acima das coníferas longas e pontiagudas, uma cadeia de montanhas e picos glaciais se erguia, os cumes brancos se misturando às nuvens esticadas no céu como chumaços de algodão. Quase valia a pena morar em Whitehorse. “Seu quarto fica lá em cima, no mezanino”, Jenna cantarolou da cozinha. Ainda em estado de graça, subi as escadas sem corrimão até o mezanino. Era surpreendente o que ela havia feito em quinze anos ali, como tinha


conseguido erguer seu pequeno império. Isso só me deixava ainda mais perplexa por não querer uma família. Galguei o último lance de escadas e afastei a única porta com um empurrãozinho tímido. Mordi o lábio, tentando impedir que um sorriso muito amplo se formasse. Era melhor do que eu esperava, e tinha uma parte do teto reclinado que terminava numa janela simplesmente enorme que mostrava não apenas a floresta do outro lado, mas o céu de um anil esmaecido que já anunciava o começo da noite. “Não foi demais?”, Jenna falou de repente atrás de mim. Estava apontando para uma faixa de cetim cor de rosa presa nos cantos da janela com fita adesiva, onde se lia em letras douradas: SEJA BEM-VINDA! Encolhi os ombros timidamente. “Não. É fofo, tia, obrigada.” “Sei que você prefere algo mais... quente”, ela olhou insegura para os vidros da janela, “E menos exposto... Mas eu tinha que tentar mostrar o lado bom de Whitehorse pra você.” “Tem razão, é uma vista fantástica”, contemplei a paisagem cinematográfica. Jenna soltou um muxoxo presunçoso. “Não é disso que estou falando.” Ela me deu as costas e voltou para a cozinha, levando seu enigma consigo. Tomamos café empoleiradas em seu sofá macio como a cama de um gato, falando sobre os prós e contras de morar em Nova Iorque. Os metrôs sujos contaram como um ponto negativo de peso o qual Jenna fez questão de salientar várias vezes, e acabei perdendo a argumentação quando confessei


que um Milkway podia ser comprado por um dólar e trinta nos supermercados de Manhattan – segundo Jenna, numa mercearia em Whitehorse era possível achá-lo por um dólar canadense. Quando anoiteceu, preparamos sanduiches de peperoni, Jenna serviu duas taças de vinho e subimos para o quarto dela. Estávamos na metade de O Demolidor, bem na parte em que o Ben Affleck toca o rosto da garota na chuva, quando um grito estridente ecoou lá fora, medonho. Era agudo e ecoava no espaço como se não tivesse fim. “Malditos!”, Jenna esbravejou de repente, atirando uma almofada na janela. Me espantei com sua agressividade atípica, “Santo Deus, não comecem!” Ela levantou e saiu do quarto pisando duro. Fiquei paralisada de terror enquanto os gritos se prolongavam na noite, agora não apenas um, mas vários, se sobrepondo um após o outro numa cacofonia sombria. E então me dei conta, não eram gritos. Eram uivos. A compreensão tirou meu fôlego. Lobos. Muitos. Perto. O horror me pôs em movimento. Saí da cama e fui atrás de Jenna. Ela com certeza havia descido para verificar se todas as portas e janelas estavam fechadas, era o óbvio a se fazer numa situação dessas, mas quase entrei em choque quando cheguei na cozinha e vi a porta da frente escancarada. O vento entrava em rajadas fortes, fazendo-a quicar na parede com batidinhas secas e espalhando flocos de neve pelo chão. A imagem foi tão assustadora que o nó em meu peito apertou até quase me sufocar. Os uivos estavam mais altos agora, como se os lobos estivessem se aproximando. “Jenna!”, gritei.


Com o coração disparado, olhei ao redor à procura de algo longo e pontiagudo, ou qualquer coisa que pudesse ser usada como arma. Havia um cepo sobre o balcão da cozinha; agarrei o cabo de uma faca sem pensar duas vezes. Lá fora fazia um frio intolerável, mesmo assim avancei através da corrente de ar que zumbia em meus ouvidos e atirava meus cabelos contra o meu rosto. Afastando-os dos olhos, procurei Jenna em meio à brancura áspera. “Mas que droga!”, ela xingou de algum lugar à minha frente. Por um segundo assustador pensei que estivesse sendo atacada, mas seu tom era errado, não parecia em nada com o que se espera de alguém em desespero. Aos poucos, a cena entrou em foco diante de mim. O Corolla vermelho estava quase totalmente coberto por uma espessa camada de neve, de modo que teria sido impossível enxergá-lo naquela nevasca, mas a silhueta agitada de Jenna era bem perceptível atrás dele. Curvada para dentro da traseira aberta do veículo, ela parecia estar empenhada em procurar alguma coisa. Os uivos ficaram mais urgentes, impacientes. “Já vou, já vou!” A situação era tão bizarra quanto incoerente. “Jenna, o que você...”, comecei a andar até ela, mas parei no meio do caminho. Por puro reflexo, olhei para o lado quando algo passou correndo na minha visão periférica, e então eu os vi, formas sombrias se esquivando por entre as árvores raquíticas que circundavam a casa. Um a um eles foram ganhando consistência diante dos meus olhos – uma alcateia de lobos


grandes, espreitando na nossa direção através de incontáveis pares de olhos amarelos luminosos. Entendi depressa porque não os tinha visto antes. Eram brancos, quase impossíveis de identificar na paisagem glacial. Enquanto eu os fitava, boquiaberta, um deles ergueu a cabeça no ar e emitiu o uivo mais forte até então, autoritário e exigente, seguido por um rosnado desafiador. “Onde diabos eu coloquei...” Dei um passo incerto para trás até bater com a mão nas costas de Jenna. Meu sangue ganhava uma estranha consistência ácida em minhas veias, me queimando por dentro enquanto minha carne congelava lentamente por fora. Meus dedos inertes agarraram instintivamente a barra do casaco de Jenna. “Jenna, acho que está acontecendo alguma coisa...” “Espere, eu sei que está aqui! Comprei hoje depois do trabalho...” Os lobos uivaram baixo uns para os outros, sussurros na escuridão. “Eles estão conversando”, arquejei. “O que?”, Jenna falou de dentro da mala, “Ah, achei!” Ela puxou algo como um embrulho para fora e o abriu com um puxão nas laterais. Mal pude acreditar no que veio a seguir: deliberadamente, Jenna atirou o conteúdo do pacote na direção dos lobos. Quase acreditei que eram pedras, mas eles avançaram num alvoroço de patas e caudas e começaram a disputar o que ela jogava, levantando uma poeira nebulosa de neve no ar. Comida. Ela os estava alimentando.


“Parem, meninos, não briguem, tem pra todo mundo”, ela arremessou a comida em direções opostas, dispersando o bando. Quando o embrulhou ficou vazio, ela o amassou e o atirou também. A bolinha acertou o flanco de um deles e quicou suavemente na neve, sem causar maiores danos. “Agora deem o fora e me deixem em paz!” Jenna fechou a mala do carro com um baque surdo, me pegou pelo cotovelo e me arrastou para dentro de casa. O calor do ambiente interno lambeu minhas bochechas queimadas pelo frio, mas eu estava abalada demais até mesmo para me dar conta da sensação reconfortante. Minha tia tirou o casaco e o pendurou nos ganchos atrás da porta, depois alisou os cabelos desalinhados para trás e suspirou, até que seu olhar vagou distraidamente na minha direção, como se só então desse conta de que eu estava ali. Esquadrinhando minha expressão – que não podia ser das melhores – ela franziu a testa, depois parou na faca que eu ainda erguia pateticamente no ar. “Porque diabos está segurando isso?” “E-eu a-achei que eles estivessem atacando v-você!”, gaguejei na defensiva. “Você saiu só de camisola!”, Jenna aspirou pesadamente, “O que deu em você? Está ficando roxa, santo Deus!” Puxando-me pelo pulso, Jenna me levou para o banheiro. Eu nunca a vira tão exasperada, e não conseguia entender porque – ela tinha saído no meio da noite com uma dúzia de lobos lá fora, eu é quem deveria estar agitada. Indignada era a palavra certa, era como eu me sentia. Mas, depois que Jenna me ajudou a tirar as roupas úmidas e se virou para abrir as torneiras da banheira, me vi olhando para o reflexo de uma garota pálida e trêmula


no espelho e entendi sua preocupação. Um vermelho agressivo manchava minhas bochechas em contraste com a pele cor de cal, e meus lábios ganhavam uma tonalidade azul-hematoma horrível, assim como a pele inferior dos meus olhos. Meu cabelo tinha virado uma massa pegajosa e aguada salpicada de flocos de neve achatada ao redor do crânio e na minha nuca, intensificando os espasmos que percorriam minha coluna. Meus braços estavam cruzados sobre meus seios, duros e colados a mim mesma como se nunca mais fossem sair dessa posição, meus dentes rangiam tão alto que abafavam o som da água corrente, e me surpreendi por não ter me dado conta de nada disso antes. Jenna me guiou até a banheira quando esta encheu até a metade. Me abaixei nela com dificuldade porque meus ossos pareciam meio congelados. O vapor morno calcinou minha pele fria, me arrancando guinchos de dor, mas sufoquei todos eles, envergonhada por dramatizar tanto a situação. “O que...”, comecei a perguntar, mas reformulei a pergunta, uma vez que era bem evidente o que Jenna havia acabado de fazer, “Eles são seus?” “Meus?”, ela riu, mas pareceu chocada com a pergunta, “Claro que não, que ideia!”, com um suspiro resignado, Jenna sentou na tampa da privada e ficou um momento em silêncio antes de recomeçar, “Quando cheguei aqui, quinze anos atrás, eles perturbavam a senhora McPherson, até que o marido dela se cansou disso, pegou o rifle e acertou um deles. Eles sumiram por uns tempos, mas depois começaram a circular por aqui”, ela deu de ombros, “O que eu podia fazer? Não ia atirar neles, já tem gente demais fazendo isso lá fora.” “Eles podem caçar, não é?”, sugeri timidamente. “Caçar o quê? Não tem nada por aqui, só salmão, e nessa época os rios ficam congelados. Não tem ursos nem coelhos, nem esquilos... nada. Eles podiam


ir para o Sul, onde é um pouco mais quente, mas não sei por que insistem em ficar aqui.” Então não era só eu que achava aquele lugar frio demais para existir vida. E as rajadas de vento causavam uma sensação térmica glacial que espantava qualquer criatura que tivesse uma segunda opção. “Desculpe por isso, esqueci de avisar sobre esses... carinhas.” “Eles nunca morderam você? Me pareceram bem agressivos.” Jenna sorriu com ternura. “E são. Mas nunca tentei chegar perto nem nada do tipo. Um deles já avançou no filho dos Walker, mas o garoto inventou de cutucá-lo com um ancinho quando achou o animal revirando o lixo no quintal. E já andaram invadindo algumas casas atrás de comida. Eles não são cachorrinhos de estimação, são lobos, mas ficam na deles se ninguém der uma de idiota.” “Nunca tinha visto um tão de perto. São enormes!” Lembrei das formas escuras entre as árvores. Embora fossem apenas um pouco maiores que um Husk Siberiano, eu jamais teria confundido aquilo com um cachorro. “O veterinário da cidade já deu uma boa olhada neles, de longe, é claro. São maiores que um lobo normal, mas talvez seja alguma disfunção. Ele não soube explicar, mas disse que às vezes pode acontecer, é como uma mutação da espécie. Parece que já acharam um lobo de 77 quilos no Alaska.” “Uau”, arregalei os olhos. “Esses não devem ter mais do que quarenta, eu acho.”


Olhei para ela de relance. “Era disso que você estava falando quando disse que os problemas um dia vão embora? Tem esperanças de que um dia eles se cansem de Whitehorse?” “Não”, Jenna fechou a cara, “Os lobos não são um problema, só um inconveniente. Vou trazer uma dose de conhaque, você ainda está tremendo e precisa de algo quente por dentro.” O silêncio reinou pelo resto da noite. *** Acordei de madrugada com um clarão estranho dançando no teto. Abri os olhos e rolei para cima, sonolenta. Através da claraboia sobre minha cama, observei a segunda coisa estranha acontecer naquela primeira noite em Whitehorse. Não estava amanhecendo como pensei a princípio, ainda era noite e a nevasca havia passado. No céu escuro, agora uniforme, sem nuvens, estrelas ou lua, luzes vaporosas dançavam como fantasmas verdes, fundindo-se a uma profusão de tons que coroavam o firmamento, véus de seda multicoloridos ondulando no ar. As cores tremeluziam, sumiam e voltavam, indo do verde neon ao rosa pink, do anil ao laranja pêssego, do roxo escuro ao azul turquesa, até finalmente esvanecerem diante dos meus olhos úmidos. Foi a primeira vez que vi uma Aurora Boreal.


CAPÍTULO 2 COMO MINHA MANHÃ DE sábado estava livre, resolvi fazer um reconhecimento pela cidade no Corolla que Jenna havia deixado disponível. Em meia hora eu já tinha percorrido todas as ruas de Whitehorse, feito uma nota mental de onde ficava o supermercado e o posto de gasolina, pedido um chocolate quente para viagem e dado uma boa olhada nos jornais locais. Eu estava certa, as temperaturas estavam mais baixas que de costume, e ao que parecia elas despencariam mais ainda hoje. Que delícia. A boa notícia era que o ar de Whitehorse era divinamente puro; meus pulmões novaiorquinos viciados em monóxido de carbono experienciavam o nirvana a cada tragada. A neve engrossava, caindo como chuva, e antes do meio dia os tratores já passavam para liberar as pistas, formando montinhos nas calçadas. Fiquei estacionada perto da praça central, observando o movimento com o desembaçador ligado, matutando sobre algo que a conversa com Jenna naquela manhã havia despertado no meu subconsciente. Quantos anos eu tinha naquela época, uns cinco? Não podia ser muito mais que isso, e eu lembrava daquela noite com uma perfeição assustadora. A imagem daquele lobo ficara gravada na minha mente como uma tatuagem, sem nenhuma razão lógica. Saí da cidade, me afastando em direção aos elevados ao norte. Antigamente Jenna morava naquela região, longe do centro, num condomínio de casas geminadas, e foi de lá que eu saí caminhando naquela noite de natal, procurando um lugar sossegado para abrir minha caixa de biscoitos. A casinha amarela ainda existia, agora coberta quase até a metade por uma camada de neve, mas as cortinas que Jenna costumava deixar abertas estavam fechadas, e haviam sido trocadas por persianas modernas. Desci


do carro e caminhei pela colina até achar a trilha entre a vegetação esbranquiçada. O gelo formava pingentes de cristal nos galhos retorcidos, tão frágeis que podiam quebrar ao menor toque. O lago surgiu diante de mim como uma visão, um enorme espaço a céu aberto, e o deck ficava a poucos metros de distância, camuflado embaixo da manta branca que se estendia por toda a paisagem. A pequena subida havia me deixado ofegante, pois o ar áspero era difícil de respirar, e fiquei um tempo parada recuperando o fôlego. Sentia minhas bochechas como que assando e meus lábios ressecados com certeza iam rachar no dia seguinte. Lá adiante estava a floresta de pinheiros, exatamente igual como eu me lembrava. Meu coração começou a acelerar, uma reação incoerente. Havia magia naquele lugar, a sensação perturbadora e ao mesmo tempo vital de habitar um segredo, algo que pertencia a outra dimensão. Me perguntei se a Evy pequena sentira isso na época e caminhara até ali totalmente consciente, atraída. Por alguma razão, só conseguia pensar naquela garotinha como um ser à parte de mim. Eu esperei que o extraordinário acontecesse; que o céu se abrisse, que a lua aparecesse perto do sol, que a terra mudasse a rotação. Esperei por ele. Mas durante os vinte minutos seguintes absolutamente nada aconteceu; tudo continuou estático, como se o frio fosse grande o bastante para paralisar o tempo. Voltei para o carro e fui para casa. * * * Jenna saiu cedo no dia seguinte e eu fiquei em casa sozinha. A neve que se espalhava pela cidade como uma praga refletia a claridade do sol tal qual um espelho, fazendo meus olhos arderem e lacrimejarem o tempo todo,


mas descobri que se enfiasse o travesseiro na cara podia dormir pelo menos até oito horas da manhã. Ainda tinha uma semana pela frente antes que meu emprego no Baked e minhas aulas começassem, então aproveitei para instalar meu note e desfazer a mala. Não tinha levado muita coisa, só o suficiente para uma temporada; no fundo, eu não acreditava que podia aguentar tanto tempo longe de casa e minha mãe secreta e confiantemente apostava o mesmo. Por fim, pendurei minhas sapatilhas de balé no espelho sobre a cômoda. Contra todos os protestos de Elizabeth SaintClair – ela jamais cedeu ao absurdo de tirar o nome de meu pai do lado do dela –, eu não tinha seguido em frente com a dança. Apesar de saber que não teria tempo para fazer balé em Whitehorse, estava fora de cogitação deixar minhas sapatilhas para trás. Toquei o cetim rosa claro com a ponta dos dedos... O que eu sentia quando entrava no amplo estúdio de balé em Manhattan (uma sala no topo de um prédio comercial com vista panorâmica para a cidade) era absolutamente sagrado. Eu não dançava para minha mãe, para minha professora ou para uma plateia. Dançava apenas por mim, e era sempre melhor quando fazia isso sozinha, e esse era um motivo mais do que justo para não sonhar com uma carreira. Por volta das dez e meia, depois de ter lido meus e-mails recentes e falado meia hora com minha mãe ao telefone, desci para preparar um chocolate quente. Levei o material para a bancada e me entreguei à gratificante tarefa de preparar minha bebida cheirosa e quentinha. Estava perdida entre dois pensamentos vagos e inconsistentes quando alguma coisa estalou lá fora e eu levantei o olhar para a janela sobre a pia. Arquejei mais de prazer do que de susto, derramando chocolate em pó nos meus dedos. Do outro lado do vidro, sentado duramente na neve, um lobo branco me


observava, taciturno. Não consegui lembrar se era um dos que Jenna alimentara na noite passada, foi tudo muito rápido e confuso. E se não fosse? E se aquele ali tivesse chegado tarde para o banquete, quando não havia mais nada? Será que estava esperando comida? Lembrei da história que Jenna contou sobre andarem invadindo as casas para roubar comida e meu olhar disparou depressa para as janelas da sala, felizmente fechadas. O que eu devia fazer? Mas provavelmente ele iria embora se eu não ligasse, estava sozinho e não com o bando. Não podia ser tão perigoso. Cerrei a persiana e terminei meu chocolate. Depois me aninhei no sofá da sala e assisti um pouco de televisão. Mas não consegui me concentrar de verdade, pensando que aquele lobo ainda estava no pátio, talvez com fome, talvez faminto. Não deu outra: quando voltei para deixar a caneca vazia na pia, afastei duas palas da persiana e o vi do lado de fora. Ele não tinha sequer se movido. Peguei meu celular e disquei para Jenna, mas no segundo toque comecei a me imaginar dizendo “tem um lobo parado do lado de fora da casa” e me senti imediatamente ridícula. Com um suspiro derrotado, deixei o celular de lado e, relutante, abri a geladeira para verificar o cardápio. Muita comida em conserva, bolos e doces industrializados, vinho, queijo, pastas diversas... Tive mais sorte com o freezer; achei vários pedaços congelados de peixe. Não tinha a menor ideia do que eram, mas conclui que lobos não tinham preferências tão refinadas, pelo menos não aqueles. De qualquer modo, Jenna talvez não gostasse de saber que eu andava alimentando lobos com comida cara, então achei melhor abrir uma lata de sardinha e despejá-la num pires. Parecia meio descabido servir comida para um lobo num pratinho, ainda mais depois daquele discurso de Jenna sobre eles não serem cachorrinhos adestrados, mas não me veio nada melhor à cabeça. Abri a porta e hesitei na soleira. Ele virou a cabeça na minha direção, fazendo meu sangue gelar. Não estava nevando agora, de modo que eu


podia vê-lo melhor. Era mesmo maior que um cão de grande porte, mas nada que o tornasse uma aberração. Na verdade, era fascinante. Uma camada felpuda de pelos claros como algodão emoldurava sua cabeça triangular, cintilando ao sol. Mas a pelagem escurecia em direção aos flancos, ganhando uma sedosa tonalidade areia que me lembrou as páginas envelhecidas de um livro. Havia certa elegância na postura ereta e no modo como se sentava sobre as patas traseiras, embora eu não gostasse nada da maneira como me olhava. Quer dizer, lobos não deviam encarar, não é? “Eu... Hã... Eu achei isso”, comecei a me explicar, mas me calei antes que a situação ficasse muito embaraçosa. Coloquei o pires no chão e recuei. Fechei a porta e fui para janela observar. Os olhos dele me seguiram até encontrarem os meus através do vidro outra vez. Todos os lobos que Jenna havia alimentado eram brancos e parecidos, mas eu sabia, mesmo sem compreender como, que aquele ali era o meu lobo. O que eu havia encontrado na beira do lago congelado doze anos atrás. Não havia pista alguma que esclarecesse isso a não ser a euforia em meu peito. A sensação aparvalhada do reencontro. Ele parecia inteligente, do modo que lobos podem parecer inteligentes, eu acho, e enquanto nos observávamos, vi a reprovação se formar em seu olhar estreitado. “Quanta insolência”, murmurei com uma pontada de indignação, “Então fique com fome!” Subi para o quarto e passei o resto da manhã e a tarde toda com a cara enfiada nos livros. Já estava escurecendo quando Jenna voltou trazendo lasanha pré-cozida e pretzels de canela. Ela riu quando contei sobre o episódio da sardinha.


“Eles são esnobes. Levei algum tempo até encontrar a ração certa. Eles torcem o nariz às vezes, acho que enjoam do gosto, mas acabam se conformando. Pobrezinhos, não tem uma dieta substancial.” Mas eles não vieram uivar na nossa porta aquela noite, o que rendeu um comentário amargo de Jenna. “Estão intimidados com a sua presença.” “É só o que faltava”, bufei.


CAPÍTULO 3 A SEMANA CORREU DEVAGAR. Às vezes eu olhava pela janela da cozinha e me dava conta de que andava esperando encontrar alguma coisa lá fora. “Eles nunca passaram tanto tempo sem aparecer”, Jenna falou certa noite, enquanto desfrutávamos da televisão em meio a um silêncio cósmico. Ela estava acostumada com eles a ponto de sentir falta, mas eu só podia pensar que esse sumiço repentino tinha a ver com o lobo branco. Era loucura concluir isso, mas ele não gostava de mim, e comecei a pensar que tinha aparecido naquela tarde só para esclarecer as coisas entre nós. Aquele olhar matador era um sinal claro do tipo não somos amigos. Talvez estivesse proibindo os outros de pedir comida. É claro que essas conclusões eram absurdas. Animais não pensam como pessoas e pessoas não pensam como animais, de modo que o que quer que estivesse causando o sumiço deles, provavelmente não tinha nada a ver comigo. A Yukon College era realmente legal. Não tão grande quanto as universidades nova-iorquinas, mas organizada e moderna. Meus pais ficaram tão agitados e cheios de si por eu começar uma faculdade que me mandaram um telescópio de presente. Ele chegou na casa de tia Jenna coberto de selos postais, numa embalagem de papel pardo e com um cartão; até mesmo Noah assinara, desenhando um Saturno verde no canto da folha. Por anos e anos eu havia pedido uma maravilha dessas para eles, e eu não teria ficado mais feliz se tivesse ganhado um carro. Instalei o telescópio bem debaixo da claraboia do quarto e passei as três


noites seguintes insone, girando a luneta para lá e para cá, embevecida, apaixonada. É claro, talvez meus pais soubessem desde sempre que meu destino era Whitehorse, e estavam esperando o dia em que eu teria uma bela janela para observar as constelações num céu aberto, ao invés da imensa lona negra que abafava a Ilha de Manhattan. O emprego no Baked superou minhas expectativas. Não esperava que fosse nada além de servir mesas ou anotar pedidos, mas na verdade eu só tinha que ficar atrás do balcão preparando as bebidas, ou, em dias de muito movimento, ajudar no caixa. Chloe, a gerente, tinha vinte e oito anos, era bonita e quase tão magra como uma bailarina. Pequena e com uma pele fina feito papel de arroz, falava depressa e sorrindo. Seus gestos enérgicos e o olhar cheio de vitalidade passavam segurança e confiança. O corte de cabelo curto repicado dava a impressão de ser uma pessoa prática e despojada. “Aqui é onde você vai operar”, ela parou ao lado de uma grande máquina de expresso que mais parecia um trem futurístico, “É fácil de usar, você vai ver. Ali embaixo do balcão tem uma colinha que as meninas prepararam, você pode olhar sempre que esquecer como se faz um drink. As garrafas de licor têm dosagem, então você não vai se perder quanto a isso, mas cuidado com os engraçadinhos que pedirem dose dupla”, ela piscou um olho para mim, “Nesse caso, cobre o dobro”, sua atenção se prendeu no meu cabelo, “Aliás, que tom você usa?” Passei os vinte minutos iniciais no meu novo emprego tentando decorar o cardápio de bebidas, mas fiquei feliz por meu único erro no primeiro dia ter sido esquecer o marshmallow no mocaccino Alabama de um cliente. Rosalina e Megan eram as outras garotas que dividiam o turno comigo. Rosalina atendia as mesas e Megan auxiliava a nós duas nos dias de aperto, que segundo Chloe costumavam ser nas últimas duas semanas de


Dezembro e nos feriados, além da alta temporada, de Abril a Setembro. Rosalina era alta e curvilínea, com cabelos louro claros meio ondulados que ela prendia de modo a ficar parecida com uma pin up. Reparei que em geral a clientela masculina liberava mais gorjeta para ela do que a feminina, que tendia a fingir que ela não existia quando se aproximava para anotar os pedidos. Megan era morena e baixa, com um humor um tanto sarcástico. Ela havia criado uma piadinha interna falando que o turno da tarde era cor de rosa e o da manhã era colorido. Tirei minhas próprias conclusões sobre isso. Megan se aproximou de mim enquanto eu amarrava o avental do uniforme na cintura e cochichou: “Na verdade, existem umas coisas que você precisa saber sobre ela”, indicou com o queixo Rosalina limpando uma mesa no salão, “Primeiro: jamais, JAMAIS a chame de Rosalina. É em homenagem à personagem secundária de Romeu e Julieta, e Rose não suporta Shakespeare. Segundo: não a irrite. Para alguém que tem dinheiro o suficiente para encomendar as próprias calcinhas da França, Rose é bem pouco tolerante. Terceiro”, Megan sorriu, “Ela é uma das pessoas mais incríveis que você já teve a sorte de conhecer. Depois de mim.” Em Nova Iorque, uma cafeteria ficaria aberta até duas horas da manhã, mas isso era totalmente estapafúrdio em Whitehorse, de modo que sete e meia Chloe já estava fechando o caixa e nos mandando trocar de roupa no vestiário atrás do estoque. Me despedi das garotas e andei até o carro, estacionado atrás do quarteirão. O frio estava novamente impossível, e me arrependi de não ter trazido um cachecol extra. Aquela parca da Burberry era linda e eu admitia que a tinha enfiado na mala mais por vaidade do que por necessidade, mas começava a desejar ter trazido um saco de dormir ou um uniforme de isolamento térmico espacial.


Ainda não tinha andado por Whitehorse à noite e fiquei boquiaberta com o deserto à minha volta. As luzes estavam apagadas na maioria das casas e Whitehorse só não mergulhava na mais completa escuridão por causa da iluminação dos postes. A neve densa que cobria a cidade chegava até a metade de algumas portas. Um trator havia passado de tarde retirando o excesso e liberando as ruas, mas a paisagem ainda era desoladora, com o topo das casas pairando sobre um mar branco granuloso. Minhas pernas, cobertas por uma ínfima meia calça, certamente iam necrosar antes que eu chegasse no carro. O ar era tão áspero e gelado que doía respirar, ardia nas bochechas e penetrava pelas mangas da parca como o vento soprando por debaixo de uma porta. “Santo Deus”, tiritei. Abri a bolsa para procurar minhas luvas. Meus dedos rígidos doeram quando esbarraram na carteira, e tive que parar um segundo embaixo de um foco de iluminação para achar o par. Quando ergui os olhos para o Corolla vermelho de Jenna, vi uma forma grande e alva parada ao lado dele, me observando através dos olhos amarelos apertados. Meu coração deu um looping enquanto meu estômago ia parar entre as pernas, o que obviamente era uma reação absurda para se ter por um animal. Houve um segundo de reconhecimento entre nós – no qual quase fiquei feliz em revê-lo – e então um ruído baixo e hostil vibrou por sua garganta e ecoou pelo silêncio mortal da rua, congelando imediatamente a delicada bolinha de calor que começava a se formar em meu ventre. O som da fúria. Avaliei minhas possibilidades: eu podia correr de volta para o café, mas a essa hora Chloe já teria trancado a loja. Fora isso, ele com certeza era mais rápido do que eu e ganharia fácil uma corrida. Eu também podia ficar


quieta e figurar como um objeto pouco interessante até que ele se entediasse e fosse embora, mas descartei essa última hipótese depois que um minuto inteiro se passou e ele não aparentou estar com a menor disposição para sair dali. “O que você quer?”, sussurrei rispidamente para ele. A distância entre nós era de pelo menos uns dez metros, mas eu sabia de algum modo que ele podia me ouvir, assim como sabia que podia me entender, “Não tenho comida pra você agora, será que poderia desencostar do meu carro? Preciso ir pra casa!”, ele piscou preguiçosamente, “Por favor?” Olhar inexpressivo. Oh, droga, mas que droga! Sem tirar os olhos dele, atravessei a rua devagar e tentei uma aproximação. Jenna havia dito que eles não atacavam quando não eram perturbados, mas eu não ia perturbá-lo, apenas daria a volta para entrar sorrateiramente no carr... Ele se ergueu nas quatro patas tão depressa que não vi o movimento. Seu focinho se projetou para frente e se franziu sobre os caninos afiados e brancos enquanto aquele som ritmado explodia em seu peito num ladrar potente. Os pelos de suas costas ficaram em pé, como se seu grande corpo fosse atravessado por uma descarga elétrica. O aviso em seu olhar era claro como uma sirene: NEM. MAIS. UM PASSO. “Tudo bem, tudo bem!”, ergui as mãos e recuei de novo, suplicante, “Meu Deus, me desculpe pelas sardinhas, ok?” Aquilo era tão patético. O som suave de pneus rolando no asfalto úmido me inundou de alívio. Talvez o motorista pudesse ver minha situação e buzinar para espantar o lobo, mas me dei conta de que o animal estava espertamente parado nas sombras. Dificilmente alguém o veria de longe, no máximo acharia que eu


estava louca por ficar plantada sozinha no meio da rua e acabaria passando direto. Mas minhas pernas amoleceram de alívio quando ouvi um sussurro familiar às minhas costas: “Evy? O que está fazendo aí?” Sem pensar duas vezes, corri na direção do carro de Rose, abri a porta e me joguei no banco do passageiro. Lá longe, um par de olhos dourados cintilou na escuridão, e pareciam estar rindo para mim. “Tem um maldito lobo parado bem na frente do meu carro!” “Fala sério”, Rose debochou, mas esticou o pescoço para tentar ver, “Caramba, eles estão cada vez mais impossíveis!” Ela travou as portas e deslizou pela cidade, deixando o Corolla de Jenna e o lobo nervosinho para trás. “Ele não gosta de mim!”, confessei, meio magoada e irritada com a umidade em meus olhos, “Ele me odeia!” “É só um lobo, garota, não tenha um ataque, essas coisas acontecem. Você está acostumada com a civilização e...” “Não, Rose, você não entendeu. Esse lobo me detesta. Desde que cheguei aqui ele está me hostilizando!” Rose caiu na gargalhada. Eu estava furiosa demais para achar aquilo engraçado e o frio de rachar piorava meu mau humor. Mas não estava ficando louca, aquele lobo tinha alguma coisa contra mim, só que talvez fosse melhor parar de ficar admitindo isso em voz alta.


* * * No dia seguinte saí com Jenna bem cedo para buscar o carro. Sua carona, eu descobri, era Carl, o veterinário da cidade, um rostinho que com toda certeza tinha destruído corações no período da faculdade. Aparentava ter pouco mais de trinta e cinco anos, falava com a mesma serenidade com que dirigia e provavelmente nunca teria problemas de calvície. Quando ria de alguma coisa, seus olhos azuis joviais se estreitavam nos cantos como os de um garoto. Um garoto muito sexy. Para minha felicidade, a grossa manta de neve que cobria a cidade começou a derreter em meados de Abril. As temperaturas aumentaram consideravelmente, embora ainda fosse impraticável sair de casa sem luvas e gorro. Passei a acordar todos os dias com o som da água escoando do telhado e passando pelas calhas numa cascata. Já era possível ver pontas esverdeadas na floresta do outro lado do rio, que agora corria sobre as pedras nas margens em ondas sedosas. A umidade pegajosa deixava minhas roupas frias o tempo todo, escorria pelas janelas de Yukon College durante as aulas e grudava nas minhas meias, enrugando meus pés. Duas meninas do meu curso me convidaram para um jantar de garotas num domingo à noite, num pub recém-inaugurado no centro da cidade. Como era meu dia de folga no Baked aproveitei para começar a me arrumar mais cedo, já que manter meu cabelo seco naquele lugar parecia uma missão impossível. Depois do banho, enrolada numa toalha azul escura, comecei a secá-lo no quarto, de frente para o espelho sobre a cômoda, encaracolando a ponta das mechas antes de soltá-las. A ideia era deixar que os cachos se firmassem e então escondê-los num gorro de lã até chegar ao restaurante – era o máximo que eu podia fazer contra toda aquela umidade irritante. Jenna passaria o dia todo na despedida de solteira de uma amiga, então


aproveitei para perambular só de toalha pela casa. Dedilhei a pequena coleção de CDs de minha tia (já minguada após os adventos futurísticos da Apple) até encontrar algo familiar entre coletâneas de jazz e música pop mainstream. Encaixei o CD na plataforma ejetável, a empurrei de volta e dei play. A voz arrastada e meio rouca de Norah Jones encheu a sala, junto com as notas de um piano ao fundo e a marcação suave de um hi-hat. As palavras vagaram baixinho pela casa enquanto eu preparava um sanduíche e servia uma taça de vinho. Eu vou voltar para Manhattan, Como se nada tivesse acontecido Quando eu cruzar aquela ponte, como se isso não existisse... Eu sentia falta da minha casa em Nova Iorque como se fosse um membro amputado do meu corpo. As cortinas de seda branca do meu quarto filtrando a claridade das manhãs, a maciez felpuda do tapete no corredor, a visão de Marie, nossa gata angorá, enrolada nas almofadas de brocado no sofá da sala quando eu chegava da escola, as sinfonias de Ravel ecoando nas tardes de sábado enquanto mamãe se arrumava para algum evento social, o cheiro do amaciante de roupas que saía do meu armário nos dias quentes – cada lembrança causava uma doce sinestesia, mas também trazia a dor apertada de ter sido forçada a me desfazer de tudo isso. Mas eu não podia culpar meus pais por serem tão imaturos e apaixonados. Talvez eles nunca fossem deixar de ser o casal de adolescentes intolerantes e orgulhosos que se conheceram no campus da Universidade de Columbia. Na verdade, adultos eram assim mesmo. Esfregando a pele molhada abaixo dos olhos, acompanhei Miss Jones com uma afinação satisfatória até a sexta música, quando me dei conta, com uma onda estranha de choque que formigou em meu ventre, que era


observada. Estava passando da sala para a cozinha levando meu prato vazio para a pia e percebi pelo canto dos olhos algo parado lá fora. A paisagem recortada pelo janelão da sala de Jenna era sempre igual, com o lago, a floresta e as montanhas ao fundo, mas dessa vez havia um elemento novo adicionado a ela, sentado sobre o deck. Seu pelo branco tinha ficado mais escuro, talvez por causa da umidade, mas seu olhar continuava penetrante e implacável e me deixou totalmente paralisada. Engoli em seco. Ele estava relativamente perto, apenas uns quatro metros e os vidros fechados nos separavam, de modo que me senti muito... exposta. Há quanto tempo ele estava me observando? Com a mão livre, apertei mais a toalha em volta do corpo. Por Deus, é só um animal, lembrei a mim mesma. Mas não era bem verdade, não é? Quer dizer, é claro que era só um animal, mas, minha nossa, um animal não olhava desse jeito. Era impressão minha ou ele estava checando minhas pernas? Num impulso, estiquei o braço e puxei as correias da persiana, fazendo-a deslizar com estrépito até o outro lado. A sala mergulhou na escuridão, e me senti imediatamente estúpida. Qual o problema desse cara? * * * Aquilo estava me matando. Parecia imbecil que eu estivesse tão preocupada por um lobo idiota não ir com a minha cara, mas quando me dei conta de que isso começava a me


afetar mais do que deveria, resolvi que tentaria algo arriscado. O lobo branco obviamente não queria minha companhia, mas eu estava decidida a desafiá-lo, até porque minha rotina em Whitehorse não incluía nenhuma outra atividade mais interessante. Passei no supermercado logo cedo, comprei dois quilos de carne crua cortada em pedaços e segui para o lago congelado. Coloquei as luvas, apanhei o pacote de carne e subi pela trilha, minhas botas afundando na camada espessa de neve. Ainda era cedo demais para o sol aquecer a ponta dos pinheiros, de modo que o frio era, como sempre, cruel e matador. Lá de cima, a cidade começava a acordar, poucos carros circulavam nas ruas, o céu tinha tonalidades mosqueadas de roxo e laranja. Comecei a distribuir os pedaços de carne pela margem do rio, me aproximando do local onde eu lembrava ter visto o lobo caçar a lebre muito anos atrás. Quando terminei, me afastei novamente para o outro lado e esperei, muito quieta e atenta. Minha respiração queimava, o ar gelado ardendo tanto nas narinas que eu precisava ofegar pela boca. Por quase uma hora, absolutamente nada aconteceu – o vento soprou, galhos estalaram, eu arfei em meio ao silêncio. A paisagem era inteiramente árida, branca e hostil, o tipo de lugar que jamais seria o recanto de alguém, mas as baixas temperaturas não me intimidavam ali. Fazia parte, como miragens fazem parte de um deserto. Eu olhava ansiosa e cheia de esperanças para as brechas entre as árvores, desejando ver um vulto fantasmagórico, um par de olhos ambarinos, uma respiração quente rastejando rente ao chão. “Vamos”, sussurrei, tiritando e torcendo as mãos, “Onde você está?” E então, quando eu já não conseguia mais suportar, ele apareceu. A princípio imaginei que fosse uma alucinação. Algo claro permeou a bruma vaporosa do outro lado do lago, e eu pisquei várias vezes antes de


enxergar sua forma. Ali estava, grande e imponente, caminhando altivo sobre as quatro patas cor de creme. A cabeça erguida e as orelhas empinadas eram um sinal explícito de que ele sabia que era observado e não deixaria isso passar em branco. Meu coração acelerou tão de repente que emiti um arquejo de expectativa. Não senti medo, apenas euforia, uma sensação obtusa, levando em conta que se tratava de um animal carnívoro com uma coleção de dentes afiada o bastante para me estripar. Não é legal andar pelo território deles, Evelyn, a parte mais racional de mim mesma repreendeu, São caçadores e não têm muito o que comer por aqui. Mas minha parte impulsiva me manteve exatamente no mesmo lugar. Ele parou onde meu rastro de carne começava, onde eu o vira pela primeira vez, doze anos atrás. Olhou diretamente para mim, como se pudesse me encarar daquela distância, como se aceitasse o desafio. Santo Deus, era tão lindo. Todo pelos felpudos e densos, e imaginei como seria tocá-lo, experimentar o calor morno da carne macia sob meus dedos, sentir a força selvagem dos músculos alongados dos flancos... Ele parecia tão viril, mesmo que eu não tivesse como checar seu sexo – algo a ver com o modo como se movia, o olhar imperturbável, aquela tarde encarando minhas pernas. Seu focinho desceu até a carne, farejou e, embora eu soubesse que estava faminto, rejeitou minha comida. Eu sorri, dividida entre o fascínio e o pesar. “É uma trégua”, falei, sabendo que ele ouviria e entenderia e, para comprovar minhas palavras, agachei sobre os tornozelos para fitá-lo da mesma altura, “Você lembra de mim? Sabe quem eu sou? Porque eu sei quem você é. Já nos vimos antes, nesse mesmo lugar.” Ele sentou duramente sobre as patas traseiras, como se esperasse que eu fizesse melhor. No dia seguinte tentei a mesma estratégia. Dessa vez, ele sequer apareceu.


CAPÍTULO 4 OS TURISTAS COMEÇARAM A chegar em Whitehorse no final de Abril, quando o frio se tornou algo próximo do tolerável. A grande maioria vinha atraída pelas trilhas e cascatas da região, além dos River Safaris. O centro da cidade ficou mais movimentado, as pessoas circulavam em carros esportivos ou em grupos pelas praças, bebendo cafés fumegantes e tirando fotos das casinhas coloridas, e eu passei a fazer hora extra no Baked, que agora fechava às dez. Depois de ter me flagrado seminua cantando Norah Jones na sala de Jenna, o lobo branco não deu mais as caras, assim como nenhum dos outros. Jenna tentava disfarçar, mas às vezes eu a pegava lançando olhares compridos para a floresta lá fora enquanto assistíamos televisão no sofá, até que uma noite ela suspirou fundo, resignada. “Ah, bem, a essa altura eles já foram embora.” “Embora? Pensei que você tinha dito que eles não deixavam Whitehorse nunca.” “Não para sempre”, ela levantou e se alongou no pijama de flanela, “O calor não os agrada, eles fogem para regiões mais frias, mas voltam no final do outono.” O calor? Santo Deus, eu estava com uma calça de moletom, um abrigo por cima da camisa de manga longa e polainas, e ela achava que fazia calor?! De qualquer modo, aquela primeira semana de “calor” foi diferente na Yukon College, e não só pela atmosfera alegre e contagiante que a primavera trazia, mas porque algum acontecimento que eu não fazia a menor ideia do que era estava deixando todo mundo agitado.


Numa manhã agradável em que o sol resolveu se espreguiçar timidamente por entre as nuvens no céu eternamente cinza cor de jornal molhado de Whitehorse, eu descobri o motivo. Estava fazendo umas pesquisas com Amber na biblioteca quando uma barulheira danada lá embaixo tirou minha concentração. O ruído de uma profusão de motos patinando no asfalto molhado me deixou intrigada – não lembrava de ter tantos estudantes com motos na Yukon, mas então me dei conta de que não dava para cantar pneus sobre a neve. Nossa mesa ficava perto da janela, de modo que estiquei o pescoço e olhei para o pátio. Levei alguns segundos percorrendo o olhar pelos estudantes que relaxavam na grama agora seca até encontrar o foco da bagunça: num canto do estacionamento, alguns caras desmontavam de seus veículos, uma coleção de motos reluzentes estilizadas. Contei cinco caras e uma garota, e com exceção dela, todos eles se vestiam como se estivessem indo passar uma temporada na Califórnia – regatas folgadas que revelavam o físico magro e comprido que todos tinham em comum. Estavam rindo e falando alto uns com os outros, suas vozes graves e ressonantes criando uma bolha de agitação ao redor deles que atingia um raio de dez metros, provocando olhares feios e caras amarradas. Mas não foi nada disso que chamou minha atenção. Eles não tinham nada a ver com o pessoal de Whitehorse. Bom, e talvez fossem jogadores de basquete, isso explicava todo aquele tamanho. A pobre garota no meio deles parecia desaparecer, embora soubesse que não era tão menor do que eu. Enquanto olhava, eles retiraram os capacetes em meio a mais uma rodada de risadas espalhafatosas. “Eeeee eles estão de volta...”, Amber cantarolou à meia voz, sem erguer os olhos de sua leitura. “Quem são eles?”, um vácuo se abriu ao redor do grupo. Duas garotas sentadas no meio fio perto deles levantaram e foram embora, parecendo deslocadas. Eu podia entendê-las um pouco – a presenças daqueles garotos


desregulava a atmosfera, como se o mundo tivesse que encontrar uma nova maneira de girar agora que eles estavam nele. “Chamamos de os irmãos Lycan, mas é só um apelido, eles não são irmãos, são mais como uma facção.” “Isso não me diz muita coisa.” Amber me olhou por baixo dos cílios emplastrados de rímel. “Meu pai já prendeu eles doze vezes.” Uau. O pai de Amber integrava o corpo policial da cidade, mas nas duas vezes em que fui convidada para jantar na casa dela, ele não me pareceu uma pessoa especialmente intimidadora, o que de fato dizia muita coisa sobre aqueles garotos. Voltei a observá-los. Um deles, o Menor de Todos, estava mexendo com a garota, mas julguei que esse não era o namorado dela, porque de repente o Maior de Todos interviu, dando um empurrão no ombro do garoto. Houve um momento rápido de tensão no ar, em que outro deles se meteu e eles se empurraram bruscamente, e então alguém soltou outra piadinha e todos caíram na gargalhada. Eles nem pareciam perceber que estavam incomodando todo mundo ao redor. Eram como um bando fechado, uma gangue... uma família. “Não lembro de tê-los visto antes”, numa cidade com pouco mais de vinte e dois mil habitantes, onde eu já tinha visto todo mundo pelo menos umas duas vezes, isso era um fato realmente estranho. “Porque eles não são daqui”, Amber explicou secamente. “De onde eles são?”


“Não sei. Ninguém sabe muita coisa sobre eles.” Avaliei seu mau humor repentino. “Você não perece gostar muito deles.” “Ninguém gosta!”, ela lançou um olhar rancoroso pela janela, “Eles são inconvenientes, grosseiros e exibidos. Reze para não cruzarem o seu caminho.” Amber tirou da mochila os fones de ouvido em formato de pompons e os ajustou nas orelhas, e tive a impressão de que não foi apenas para abafar a barulheira lá fora. Sua reação ressentida parecia excessiva, mas o recado era explícito. Como seria difícil me concentrar com aquela algazarra, fiz o mesmo e apanhei meu Ipod, mas por alguma razão não consegui voltar a folhear meu livro, talvez porque aqueles garotos fossem a coisa mais interessante que tinha acontecido em Whitehorse desde que eu chegara. Eles atravessaram o campus indo em direção ao refeitório, e no meio do caminho a garota saltou nas costas do namorado e o abraçou pelo pescoço. Embora as roupas e as maneiras agressivas os tornassem quase selvagens, havia algo de atraente no modo como andavam, uma elegância natural e desenvolta que os diferenciava de um punhado de adolescentes comuns. Reconheci a garota como sendo Lianne Johnson, uma estudante do segundo ano de física. Eu a tinha visto poucas vezes, mas enquanto a observava sorridente e à vontade nas costas do garoto, senti uma pontada de inveja. Fui recebida no Baked àquela tarde pelo cheiro de maçã e canela dos cookies recém-saídos do forno. Megan ainda os arrumava na bandeja de exposição quando entrei na cozinha amarrando o avental na cintura. “Ei”, ela acenou para mim. “Ei. Chloe já chegou?”


“Está lá atrás, na administração”, ela limpou as mãos numa toalha seca e recostou na bancada de aço inox, virada para mim, “Eu e Rose vamos ao Tagish Lake nesse fim de semana, quer ir com a gente?” “Tagish Lake?”, perguntei surpresa enquanto afastava a franja longa para trás da orelha. “A família dela tem uma casa lá.” “Humm. Vou falar com a Jenna.” “Ela pode ir também se quiser”, Megan riu e deu de ombros, “Eles têm dinheiro e com certeza a casa é uma mansão com trinta quartos. Ninguém nem vai notar.” Fingi que não tinha percebido sua malícia. “E o Baked?” “Joseph e Anton vão nos render no sábado, já falei com eles, e a loja vai fechar no domingo para pintura. Um fim de semana inteirinho pra gente, baby!” Saí da cozinha e comecei a preparar os três pedidos que já estavam anotados em lembretes pop-ups e grudados para mim debaixo do balcão. Eu já operava a máquina de expresso com a mesma habilidade de um piloto operando um Boing, o que me rendeu elogios de Chloe. O sininho vermelho sobre a porta não parava quieto, de modo que eu estava o tempo todo ocupada e nem vi quando Jenna entrou e sentou num dos banquinhos de vinil branco do balcão. “Um café latte, por favor.” Reconheci sua voz macia e me virei com uma taça de Mexican Chocolatte


pronta. Sorri para ela enquanto pinçava duas gotas de chocolate com menta do pote e os servia de acompanhamento no pratinho ao lado da taça. Rose passou a arrebatando assim que a pousei no balcão. Jenna aspirou profundamente. “Adoro o cheiro desse lugar! Baunilha, açúcar mascavo e chocolate... Como foi seu dia?”, ela olhou para trás por sobre o ombro, “Nossa, está cheio hoje, hein? Vai sair às dez de novo?” “Acho que sim.” Ela me olhou com ternura. “Querida, você está com olheiras. Não precisa trabalhar, eu ganho bem o suficiente para...” “Estou bem tia, sério.” Puxei outro pedido do balcão, uma fatia de torta de limão e dois expressos duplos. Apanhei o prato de sobremesa e me abaixei na vitrine para cortar a torta. Jenna esperou que eu voltasse à tona para argumentar. “Podia pelo menos falar com Chloe para reduzir seu turno.” “Não dá, a loja fica cheia até as dez”, me virei para preparar os expressos. Não ficava tão cheia, mas eu estava preferindo me manter ocupada o tempo todo, assim não haviam chances de pensar em Nova Iorque e em meus pais. “Então posso tentar arranjar algo mais leve para você. Um estágio, talvez.” Chloe passou atrás de mim para apanhar alguma coisa no armário e achei melhor mudar de assunto. “As garotas estão planejando uma viagem ao Tagish Lake nesse fim de semana”, comentei ao deixar o pedido no balcão à espera de Rose, “Pensei


que seria legal conhecer a região. O que você acha?” O sorriso que Jenna deu dispensava uma resposta. “Sensacional! É um lugar lindo, você vai amar!” Jenna ficou tão explicitamente feliz com a expectativa de me ver curtindo com algumas amigas que deixei escapar um sorriso de excitação para ela. É claro, não dava para culpá-la, eu não era do tipo que anda cercada de gente e tem uma vida social intensa, com festas toda sexta-feira. Em Nova Iorque eu ficava em casa a maior parte do tempo, com exceção das vezes em que as brigas entre meus pais me forçavam a ir para a rua. Não é que eu não gostasse de sair, mas raramente havia algo que me interessasse lá fora. Em Whitehorse isso não havia mudado, mas conhecer um lugar novo não era de todo ruim. “Adivinha quem vem passar as férias com a gente?”, Jenna fez mistério depois que servi seu café latte, mordiscando o muffin de anis que ficou por minha conta. “Não tenho a menor ideia.” “Noah!” Olhei para ela boquiaberta, um sorriso enorme oscilando em meus lábios. Um prazer alarmante encheu meu peito. Quando Jenna falou seu nome, descobri que estava absolutamente louca para revê-lo, meu irmãozinho de dez anos, mas não conseguia imaginar que tipo de programação lúdica Whitehorse tinha para oferecer a uma criança exigente como ele. Nós ficamos separados quando meu pai saiu de casa pela última vez. Noah fora morar com ele, e quase não nos víamos porque seus dias eram ocupados com judô, aulas particulares de inglês e biologia, futebol, francês e natação aos sábados. Era estranho que eu fosse ter mais tempo com ele


agora que morava em Whitehorse do que quando estávamos em Nova Iorque, a cinco quadras de distância. “Quando ele chega?”, perguntei, meio eufórica. Calculei rapidamente em que mês estávamos. “No final de Maio, em algum feriado. Lizzie me ligou hoje para dar a notícia. Você tinha que ver como ele estava agitado, acho que aborreceu sua mãe todo esse tempo até que ela finalmente gritasse um está bem!”, nós duas rimos. É claro que a história envolvia boletins impecáveis e chantagens dos dois lados, mas Noah nunca teve problemas para lidar com nada disso, “Ela vai mandá-lo assim que as aulas terminarem.” Fiquei uns bons quinze minutos sorrindo como uma boba enquanto conversávamos sobre coisas triviais, e estava tão avoada pensando nos lugares que mostraria a Noah que não ouvi o sininho tilintar sobre a porta, nem o silêncio mortal que recaiu no salão depois que ela se fechou com um clique suave. Olhei por sobre o ombro de Jenna. O Baked estava movimentado naquele dia, mas com a entrada dos cinco sujeitos mais altos que eu já vira na vida ela ficou praticamente lotada. Reconheci o grupo de baderneiros no estacionamento da Yukon por causa das jaquetas pretas de motoqueiro e da redoma hostil que eles criavam ao redor de si mesmos por onde passavam. Lianne Johnson estava com eles e pareceu se encolher embaixo do braço do namorado sob a tensão desconfortável. E então, de repente, um deles soltou um assovio decrescente que soou como algo broxando. “Vocês conhecem aquele ditado: os incomodados que se retirem?”, o que estava na frente do grupo falou, se dirigindo abertamente para todos no salão. Tinha um modo arrogante de pronunciar as palavras que me fez lembrar das gangues do Brooklin, “Então saquem só, que tal todo mundo dar o fora agora?”


Uma senhora sentada perto da saída com o neto apanhou a bolsa e saiu puxando o garoto porta afora; Megan se apressou a recolher a gorjeta que ela havia deixado na mesa. A maioria das pessoas voltou depressa para seus cappuccinos e o grupo avançou por entre as mesas, indo se acomodar numa de oito lugares no fundo do salão. Eram barulhentos e expansivos e se moviam esbarrando nas costas dos clientes, embora pedissem desculpas por isso. “Argh”, gemeu Jenna, “Era disso que eu estava falando a você sobre os problemas que um dia vão embora.” Fingi que estava limpando o balcão para cochichar com ela. Chloe zanzava razoavelmente perto, de modo que tive que manter minha voz num nível realmente insignificante. “Estavam na Yukon hoje cedo, mas Amber não quis me contar muita coisa sobre eles.” Jenna bebericou seu café latte antes de responder, dando de ombros. “Ninguém sabe muita coisa sobre eles. Andam sempre juntos, não costumam falar com ninguém mais que o essencial, são mal educados e agem como se a cidade fosse só deles.” Rose se aproximou da mesa dos irmãos Lycan para anotar os pedidos, mas nenhum dos garotos pareceu notá-la, embora eu nunca tivesse visto Rose passar despercebida para um cara, muito menos para cinco. Eles estavam novamente se divertindo com piadinhas internas, e a garota Lianne, sempre sob a guarda protetora do namorado, os olhava com fascínio. Aquele braço enorme devia pesar sobre seus ombros estreitos, mas ela não dava sinais de incômodo, pelo contrário. Era mais como se estivesse inebriada com o contato. Rose pigarreou alto, finalmente atraindo a atenção do mais próximo, o que


havia convidado os clientes a se retirarem minutos atrás. Uma barba rala cobria seu rosto jovem e os olhos azuis estreitados e vivos se moviam depressa e sem hesitar. Notei que era o que menos falava no grupo e cujas risadas morriam mais rápido. “Um milk shake de caramelo”, ele disse com uma voz de barítono, os olhos percorrendo o cardápio, “dois sanduíches de pastrami, uma fatia de torta de pistache, um wrap de frango e um Macadamia Paradise”, virou-se para o cara ao lado, “O que vai ser, Liam?” Liam, que parecia ser o mais novo do grupo e, agora eu reparava, não podia ter mais que quatorze ou quinze anos, olhou inseguro para Rose antes de puxar o cardápio e folheá-lo aleatoriamente. Quase acreditei que estivesse com dificuldades para ler o menu, quando então o cara de barba se adiantou mais uma vez: “O mesmo pra ele. Ethan?” “Uma coca diet e uma salada Cesar”, o garoto chamado Ethan, com um nariz bonito coberto de sardas, devolveu o cardápio fechado para Rose. O namorado de Lianne, sentado do outro lado da mesa, abaixou o cardápio que estava avaliando e fez uma careta enojada. “Salada Cesar? Coca diet? Ei” ele bateu com as costas da mão no braço do garoto perto de Lianne, virado de costas para mim, “Saca só, estamos criando um gatinho.” “Que merda, Kyle”, Ethan sibilou, apertando o estômago, “Essa porra toda está me fazendo passar mal.” “Ele está naqueles dias”, o cara de barba debochou, no que o namorado de Lianne, Kyle, sacudiu os ombros com uma risada contida. Os olhos dele eram impossivelmente negros e ancestrais, e seu cabelo cortado rente era


uma camada escura sobre o crânio. Ele parecia o tipo de cara que teria milhões de tatuagens, embora eu não lembrasse de ter visto nenhuma em seus braços nus. O outro ainda acrescentou: “Daqui a pouco ele vai estar ouvindo Ellie Goulding.” “Ei, Matt, tinha umas coisas de New Age no Ipod dele”, acusou o garoto chamado Liam com um sorrisinho torto. Algo nele incomodava, o tom de sua pele era errado, cadavérico, e seus olhos e cabelos muito claros o faziam parecer à beira da translucidez. Então ele encarou Rose longamente e disse: “Você é linda.” O momento foi uma ruptura, um ruído errado no ritmo harmônico deles. Não soou ultrajante, nem mesmo deseducado. Na verdade, foi a primeira vez que vi Rose reagir a uma cantada com constrangimento, embora tendesse a esnobá-las. Ela abriu a boca e o olhou, muda, depois olhou para os outros, igualmente chocados, e por fim sua boca coberta de cor de rosa oscilou num sorriso confuso. Talvez porque soasse mais com um elogio terrivelmente franco do que com uma tentativa machista de se exibir. Talvez porque os irmãos Lycan parecessem mais afetados do que ela. Eles ficaram subitamente sérios. Matt, o de barba engoliu em seco, penalizado. Ethan mexeu nervosamente um joelho. Lianne pigarreou. “Você é muito linda”, Liam repetiu, ainda mais solenemente do que antes, como se a falta de resposta de Rose significasse que ela não tinha ouvido, “A coisa mais bonita que já vi desde que abri os olhos.” “Liam”, Kyle disse. “Está tudo bem”, Rose enfim murmurou. O blush em sua bochecha ganhou um reforço extra. “Seu moleque!”, Ethan de repente deu uma chave de braço em Liam, e todos


riram forçadamente. A coisa toda foi esquisita e nada convincente, como se estivessem tentando encenar o que os outros esperavam que eles fizessem e não o que eles consideravam certo fazer. De repente o simples ato de anotar pedidos virou um pandemônio para Rose. Ela arregalou lentamente os olhos para os caras falando alto e se tacando cardápios e guardanapos com uma expressão de desespero mudo. “Parem.” A voz veio do cara que estava de costas para mim. Não dava para dizer se ele estava rosnando ameaçadoramente ou apenas falando baixo, mas o efeito foi instantâneo: os garotos relaxaram instantaneamente e retornaram aos pedidos, voltando ao clima descontraído e civilizado. Fiquei alguns segundos olhando para a faixa de pele castanho-avelã que aparecia entre a gola da camisa escura e a linha dos cabelos. O V invertido que os músculos do trapézio formavam em sua nuca quando ele abaixava a cabeça era coberto por uma finíssima penugem dourada ao sol. Aquela pele parecia quente. Quando Rose terminou de anotar tudo e veio deixar o papelzinho comigo, Liam lançou um olhar discreto para o traseiro dela, ganhando uma cotovelada do namorado grandalhão de Lianne por isso. Jenna tinha escutado toda a conversa junto comigo e agora segurava um risinho. Quando percebeu que eu estava olhando para ela, ergueu as sobrancelhas numa tentativa improvisada de manter a expressão neutra enquanto liquidava seu café com um último gole. Apanhei o pedido deles e voltei ao serviço. Não era muito educado ficar avaliando os pedidos dos clientes, mas não dava para deixar passar essa. Olhei chocada para a lista interminável de itens – aqueles cinco caras tinham pedido comida para pelo menos dez


pessoas. Entre bolinhos e folhados, estavam sanduíches de carpaccio, tortas e quiches de quase todos os sabores disponíveis, sem mencionar as bebidas que eu com certeza levaria uma hora para terminar de preparar. Felizmente Megan veio para o balcão dividir o fardo comigo e eu me posicionei na frente da máquina de expresso para preparar as bebidas com café, erguendo os olhos vez por outra para avaliá-los. Para alguém que ingere aquela quantidade de calorias numa refeição eles eram bem magros, mas talvez queimassem tudo em alguma atividade esportiva. Isso explicava os músculos definidos sob a pele. E tinham olhos incríveis que faiscavam como ágatas num dégradé de cores: azul celeste para Liam, cinza prata para Matt, ônix para Kyle, azul cobalto para Ethan. De longe, eram como vidros filtrando a luz do sol. Estava entretida com meu terceiro Macadamia Paradise quando a voz familiar soou atrás de mim: “Um chocolate quente trufado”, sem por favor. Uma ordem, sem chances para dúvidas. Virei-me parcialmente para ele, meio agitada, sacudindo o tubo de chantilly com uma mão. “A garçonete não anotou o seu pedido?” “Estou pedindo para você”, ele respondeu devagar. Sua voz tinha um timbre rouco e baixo que percorreu minha espinha. “Certo”, forcei um sorrisinho, “só um segundo.” A eletricidade repentina dentro de mim e que eu não sabia de onde vinha me deixou desnorteada. Depositei o chantilly na superfície fumegante da bebida, mas por alguma razão idiota eu estava nervosa e o gracioso caracol


que eu costumava fazer saiu mais parecido com uma bomba. O despachei para a bandeja de Rose, junto com o restante do pedido, e me virei para o garoto. Estava parado bem ao lado de Jenna, que revirava a bolsa depressa em busca da carteira. Quando a achou, tirou uma nota de dez dólares e a arrastou pelo balcão na minha direção. “Tenho que ir. Até mais tarde, querida!” Sem esperar o troco, ela jogou um beijinho para mim e desceu tão rápido do banquinho que num piscar de olhos estávamos a sós, eu e ele. Sabia que devia me comportar normalmente e que não tinha nenhuma razão para agir como uma retardada, mas eu não conseguia me mover. Não conseguia piscar nem lembrar o que dizer. Na luz baça da manhã, um par de olhos verdes acinzentados me fixava, minúsculos pontinhos amarelos manchavam as íris cristalinas. “Qu-Qual o seu pedido?”, consegui encontrar minha voz. “Acabei de falar, um chocolate quente trufado”, ele murmurou de modo arrastado. Verde acinzentado. Os dele são verde acinzentados. Com dourado no meio. Não, um chocolate quente trufado, vamos lá. Verde acinzentado com dourado. Havia prata também? Puxei a colinha com a receita dos drinks que Rose e Megan haviam preparado debaixo do balcão e me concentrei em fazer a bebida. Certo, um chocolate quente é fácil, Evelyn, você vai tirar um A. Apanhei a xícara de porcelana e a posicionei embaixo do dispositivo do cooler, pressionei a alavanca e esperei o chocolate cremoso subir até a borda.


“Chantilly?”, perguntei sem olhar para cima. “Não.” Servi o chocolate quente no balcão, empurrando-o delicadamente para perto de seu braço. Na verdade, fiquei feliz por ele ter pedido algo tão simples, teria sido vergonhoso me atrapalhar com as garrafas de licor ou com os botões da máquina de expresso. Eu já havia desregulado o termostato do moedor e queimado a torra. Levou três dias para que o cheiro de café carbonizado saísse da loja, eu nem queria imaginar correr esse risco agora. O garoto encarou a xícara. “Esqueceu minhas raspas de chocolate.” Droga. “Desculpe”, reavi a xícara e adicionei as rapas, devolvendo-a em seguida. A sugestão de um sorriso perpassou seus lábios simétricos. Aproveitei os breves segundos em que ele se entretinha mexendo a bebida com o palitinho de waffer para dar a mim mesma um momento de contemplação. Quando se mora em Nova Iorque, a beleza é algo com que você tem que se conformar em conviver. Há cartazes de modelos impossivelmente lindos por toda a parte, e a maioria deles cruza com você nas ruas, rostos da Diesel, da Armani, da Hugo Boss, da Calvin Klein. Artistas de cinema e celebridades sentam na mesa ao lado da sua nos restaurantes. Sempre achei que existia algo de vazio e frígido na beleza de todos eles e me sentia esquisita por não conseguir desejá-los. Naquele garoto, a beleza incomodava. Não dava para saber se era feio, ou belo, ou as duas coisas, dependendo do ângulo ou da luz. Era o tipo de


pessoa que você analisa várias vezes, tentando entender porque não consegue parar de olhar. De onde saiu aquele queixo, aquele nariz, aquele maxilar? E a cor do cabelo dele, agora eu percebia, era de um curioso tom de castanho escuro que me lembrava chumbo. Mas não era só isso que estava mexendo com meus nervos; algo naquele garoto me atingia em níveis estranhos. Na verdade, todo o grupo dele, os cinco caras fanfarrões que perturbavam a calmaria cristã da pacata cidade de Whitehorse me intrigavam. Desviei o olhar depressa quando ele ergueu os olhos para mim de repente. Flagrada. Mas que droga. Rose veio para trás do balcão apanhar uma fatia de bolo e me dei conta de que não estava fazendo meu serviço. “Está tudo bem”, ela disse gentilmente quando me abaixei para ajudá-la, e acrescentou num sussurro, dando uma piscadela, “Só tente não parecer tão na dele.” Olhei para ela perplexa, sentindo que minhas bochechas ardiam. Eu inteira estava quente. Estava assim tão na cara? Levantei e tentei me ocupar com os pedidos recém-colados para mim, mas a caligrafia graciosa de Rose não passava de rabiscos ininteligíveis uma vez que meu cérebro emperrara. Era realmente muito difícil me concentrar sentindo o olhar do garoto queimando minhas costas enquanto eu ia pra cá e pra lá misturando ingredientes. “Você não é da cidade.” Não era uma pergunta, então não dei uma resposta, e de qualquer jeito a inflexão tranquila das palavras deu a entender que ele não esperava uma. “De onde você é?” “Nova Iorque”, me ouvi dizendo meio depressa demais. A xícara em minhas mãos estremeceu de leve.


“E o que uma garota de Nova Iorque veio fazer aqui?” Ergui os olhos, surpresa com a intimidade implícita na pergunta. “Isso não...”, é da sua conta, “é o tipo de coisa para se dizer a um estranho”, tentei sorrir apesar de tudo, lembrando-me que ele era um cliente. “Ian Lycan. Problema resolvido.” Deixei uma risadinha nervosa escapar. Não passou despercebido o fato de que ele não estendeu a mão para mim. Ao invés disso, ele cruzou os braços sobre o balcão enquanto seus olhos penetrantes me observavam. Chloe não ia gostar de me ver fazendo amigos no horário de expediente, mas não era como se ele estivesse tentando ser amistoso. Era mais como se estivesse me sondando. Porque alguém precisava ser educado ali, eu estiquei a mão que não segurava o café e disse: “Evelyn SaintClair.” Ele encarou minha mão oferecida, parecendo travar algum tipo de batalha interna. Quando falou novamente, seus olhos me miravam cheios de hostilidade agressiva. “Então, o que veio fazer aqui?” O tom autoritário me deixou sem palavras por um segundo, como se eu estivesse invadindo sua privacidade. A voz de Jenna soou em minha mente, como uma nota de rodapé: agem como se a cidade fosse só deles. Minha reação foi tão automática que eu já estava respondendo antes que pudesse me conter: “Não interessa.”


Dei as costas a ele e voltei para meus pedidos. Minhas mãos estavam trêmulas, embora eu não soubesse até onde era só por causa da raiva. Que ultrajante! E pensar que tinha chegado a flertar com alguém tão grosso. Dava para ver porque ninguém gostava daqueles caras, por Deus! Terminei um expresso a jato e deixei o balcão, saindo enfurecida para a cozinha. Os fornos estavam ligados, assando uma leva de croissants, e o cheiro da manteiga e da massa folheada perfumavam o ar. Transmitia calor e conforto. Queria ficar ali até a raiva passar, mas depois de alguns minutos eu ainda estava bufando e os pedidos provavelmente se acumulavam à minha espera, então respirei fundo algumas vezes e voltei, desejando ardentemente que o garoto e sua gangue já tivessem ido embora. Não tinham. Rose equilibrava duas bandejas – uma na mão e outra presa contra o ombro e o antebraço – enquanto colocava os pedidos na mesa deles, esforçando-se para arrumar espaço entre o suporte de guardanapos e os vidros de baunilha e açúcar. Os garotos tagarelavam sem parar, se divertindo entre si dentro da bolha particular de antagonismo, esticando os pescoços para verem uns aos outros por trás do braço dela. Vi de relance o vulto de Ian Lycan no balcão, mas proibi meus olhos de se arrastarem até ele. Megan apareceu de repente ao meu lado. “Pode cuidar das mesas para mim um segundo?”, ela sussurrou, “Preciso atender uma ligação urgente.” Fiz isso, aliviada por ter uma boa desculpa para me afastar do balcão. Recolhi pratos e copos vazios e liberei as mesas vagas, sem perceber que estava circulando muito perto da zona de perigo. “A que horas você sai?”, sua voz fria me atacou subitamente pelas costas.


Estaquei. Tentei ignorar o fato de que o tom daquelas palavras soava tão brusco quanto some da minha frente e me concentrei no fato de que, no meu universo feminino e cosmopolita, que horas você sai? é uma forma implícita de dizer passo aqui pra te buscar. Será que ele sabia disso? Santo Deus, é claro que sabia. Para que diabos iria perguntar que horas eu saía? No entanto, quando voltei para o balcão, ele me olhava sem nenhum calor nos olhos. Verde acinzentados. Ou eu não estava acompanhando muito bem ou aquele cara tinha uma maneira muito peculiar de chegar numa garota, porque apesar de pateticamente lisonjeada, sentia como se estivesse sendo ameaçada de morte. Mas quem sabe os caras de Whitehorse se comportassem assim? Dizem que o frio congela o coração das pessoas. Uma comoção súbita chamou minha atenção para a mesa no canto. Os grandalhões estavam levantando enquanto Rose terminava de destacar às pressas a via do cliente expelida pela máquina do cartão de crédito e entregava-a para Matt. Eles atravessaram o salão do mesmo modo expansivo e indiscreto com que tinham entrado, e o namorado de Lianne bateu nas costas de Ian ao passar por ele, lançando um olhar gélido na minha direção. “Estamos indo, cara”, sua voz ficou mais grave, “Liam não está se sentindo bem.” “Já terminei”, disse Ian. Ele sequer piscou. Mesmo depois que eles saíram pela porta, continuou imóvel, olhando para mim. “Que horas você sai?”, ele repetiu com uma ponta de impaciência.


“Às dez”, arquejei. Ele levantou, impassível, molhou os lábios enquanto apanhava a carteira no bolso traseiro do jeans, tirava uma nota de dez dólares e a jogava sobre o balcão, como Jenna havia feito. Quando foi embora, seu olhar invasivo ficou queimando minha pele como uma impressão digital marcada a ferro quente. Olhei para a xícara de chocolate quente no balcão. Intocada. * * * Às nove e meia Megan e Chloe começaram a conferir o caixa. Às dez para as dez, o último casal de clientes saiu do Baked e Rose foi limpar a mesa que eles haviam utilizado. Guardei as bebidas e os alimentos perecíveis na geladeira da cozinha, lacrei as garrafas de licor e passei um pano úmido sobre o balcão. Dez em ponto cruzei a soleira da entrada do Baked e me prostrei na calçada, olhando para a rua agora quase sem movimento. A noite estava relativamente agradável, com a temperatura oscilando em torno dos oito graus, e o céu aveludado e estrelado anunciava uma manhã limpa e razoavelmente aberta no dia seguinte. Algum tempo depois Megan saiu e acenou para mim, ocupada demais com um cara no celular para gritar uma despedida. Afastei a manga do sobretudo e olhei o relógio. Dez e quinze. Meu coração disparou quando escutei o ronco de uma moto, mas era só um entregador de pizza dando a volta na praça. “Quer uma carona?”, Rose perguntou ao sair, sendo seguida por Chloe, que ficou de costas trancando a loja.


“Estou com o carro de Jenna”, me justifiquei. “Tudo certo amanhã? Passo na sua casa às oito.” “Claro.” Ela me lançou um olhar estranho e preocupado, e então as duas se afastaram, tabulando uma conversa animada sobre algum filme que entraria em cartaz naquela semana. Pouco a pouco, o silêncio foi se restabelecendo ao meu redor, sendo quebrado vez ou outra por uma risada abafada dentro de uma casa ou pelo som seco da porta de um carro batendo ao longe. Ficar parada no frio estava me deixando com os ossos doloridos, então resolvi andar um pouco, indo e vindo na frente do Baked. Minhas mãos estavam frias mesmo enluvadas e enfiadas nos bolsos do meu sobretudo. Eu tinha entendido alguma coisa errada? Ele havia perguntado que horas eu sairia, porque ia querer saber isso se não fosse para me encontrar? Repassei mentalmente toda a nossa conversa truncada e desastrada, tentando encontrar uma mancada que justificasse o cada vez mais evidente bolo que eu acabava de levar. Não encontrei nada. Olhei pela última vez para o final da rua, depois para o início, e então para a praça deserta. Ele não viria. Meu coração se encolheu como se tivesse levado um beliscão dolorido. Grande coisa, ele era um babaca, porque eu me importava? Além disso, é pouco indicado sair com um cara que tem os modos de um açougueiro. Irritada, frustrada e magoada, atravessei o quarteirão e entrei no Corolla vermelho de Jenna. Lá no alto, a lua era uma vírgula prateada separando as estrelas do céu.


CAPÍTULO 5 ROSE CHEGOU NUMA PICAPE prata oito e vinte. O irmão dela, Derek, que até então eu só conhecia de nome, estava ao volante, enquanto uma animada Rose e uma sonolenta Megan dividiam o resto do banco da frente. Megan pulou para trás quando entrei, mais para tentar arrancar de mim alguma informação sobre a noite passada do que por ter sido acometida por uma vontade solidária de não me deixar viajar sozinha. “E aí?”, ela perguntou antes mesmo que eu pudesse ajustar o cinto de segurança. “Ele é um idiota”, dei a ela o que ela queria. Megan e Rose arfaram em uníssono, mas o choque de Rose pareceu mais genuíno. “Não acredito que aquele babaca bossal teve a coragem de deixar você plantada a noite toda na calçada!” “Perdendo o festival de pizza que Jenna organizou”, choraminguei teatralmente, me esforçando para não dramatizar a situação. “Que otário”, Derek falou, me olhando fixo pelo retrovisor. Dessa vez nós três ficamos surpresas, e enquanto eu corava, Rose e Megan trocaram um olharzinho perplexo e divertido. A viagem até Tagish Lake não era muito longa e apesar das estradas estarem movimentadas, chegamos bem antes das dez. A mansão da família de Rose – não havia como chamar de outra coisa – ficava no alto de uma pequena elevação, de frente para o lago congelado. Tinha três andares e uma arquitetura em estilo elegante que misturava o rústico com o


moderno, ou talvez a atmosfera campestre ficasse por conta da coleção de pinheiros ao redor. Derek, como pude constatar assim que descemos da picape, era tão alto quanto os garotos motoqueiros de Whitehorse, mas pelo menos duas vezes mais largo, tinha o mesmo tom de cabelo loiro perolado de Rose e o rosto com ângulos proeminentes, apesar dos olhos brilhantes e ansiosos atenuarem as feições duras. Pelo modo como Rose convenientemente nos deixava as sós, imaginei que tinha me convidado mais para fazer companhia ao irmão do que a ela. Como ela sumiu com Megan para o segundo andar assim que descarregamos as malas, Derek se incumbiu de me apresentar a casa, cuja vista, enquadrada de diversos ângulos pelos janelões da sala, tirou meu fôlego. “Quanto você calça?” “Trinta e seis.” “Acho que temos o seu número.” “Meu número de quê?” “Patins”, ele deu um sorriso enorme e cheio de dentes quadrados, “Vamos patinar no gelo. Ali embaixo”, indicou o lago com o queixo, “Com certeza você já fez isso em Nova Iorque.” As notícias corriam depressa em Whitehorse. “Ah, bom, sim. No natal os lagos congelam no Central Parque, mas...”, olhei lá para baixo, para a imensa bacia que se formava dentro do vale verdejante, “Não é nada parecido com isso.” Derek riu. “Sensacional, não é? Vai começar a descongelar daqui a umas três semanas,


mas ainda está firme. Quando nossos primos vêm para Yukon formamos times e jogamos hóquei.” Olhei de relance para ele. Com aquele tamanhão todo devia ser realmente difícil derrubá-lo. Rose e Megan desceram depois de algum tempo com dois pares de patins de botas brancas e Derek saiu para buscar os nossos. Desnecessário dizer que fui motivo de piadinhas enquanto as duas colocavam os coletes acolchoados por cima das camisas e se preparavam para descer. “Você me paga, Rose”, prometi funestamente. “Não me diga que vai passar o fim de semana amargurando o bolo que aquele cara te deu? Derek é um ótimo consolo!” Megan não estava tão propensa a rir daquele comentário, o que me levou a crer que talvez estivesse com um pouco de ciúmes. Quando Derek voltou, elas novamente deram um jeito de desaparecer. Aquilo estava me deixando seriamente constrangida, principalmente porque eu não tinha a menor intenção de ficar com Derek naquela viagem. Não é que ele não fosse bonito, eu realmente devia ser grata por ele estar sendo tão gentil comigo, eu só não sentia vontade de ter nada além de amizade com ele. E isso não tinha nada a ver com o cara da gangue de motoqueiros. Não mesmo. Nem um pouco. Derek já tinha vestido o colete e me ajudou com o meu, um modelo cor de creme com o emblema da Nike costurado em cinza no bolso da frente. Descemos a encosta do elevado e sentamos no tronco de um pinheiro caído para colocar os patins antes de deslizar para a pista. Derek puxava assuntos triviais intercalando tiradas inteligentes e criando um clima descontraído, mas a tensão entre nós dois estava o tempo todo implícita, sobrecarregando o ar e me deixando pouco à vontade.


Eu não levava o menor jeito com caras. Em Nova Iorque tinha saído poucas vezes com alguém, na maioria delas porque alguma amiga forçava a situação, como agora. Odiava isso, fazia com que eu me sentisse inexperiente e despreparada, meio que na obrigação de não desapontá-las. Meu histórico amoroso era desastroso e minguado, com uma lista que não chegava a encabeçar três nomes. Eu era tímida demais para ser a garota popular da escola, garotas extrovertidas e animadas como Megan sempre levam a melhor. Isso explicava em grande parte porque no fundo eu não estava tão espantada com o bolo de Ian Lycan. Era mais do que óbvio e previsível, e devia ser o bastante para me obrigar a tirá-lo da cabeça. Só que eu ainda me sentia machucada e dolorida por ter sido tão espetacularmente rejeitada. De noite, Rose levou velas perfumadas para o salão de massagem, encheu a banheira aquecida de oito lugares, abriu uma garrafa de espumante e nos chamou para mergulhar. A água estava maravilhosamente quente, e os sais de banho a deixavam sedosa em contato com a pele. Felizmente Derek preferiu assistir o jogo na televisão de tela plana de umas quatrocentas polegadas na sala, nos deixando sozinhas. A vista dali também era panorâmica, mas nem Megan nem Rose pareciam ligar para isso. Elas bebericavam o espumante enquanto tagarelavam e riam dos clientes engraçados que apareciam no Baked, e no momento de silêncio entre uma risadinha curta e um comentário pouco interessante, elas voltaram a atenção para mim, quieta do outro lado da banheira imensa. “É verdade que Jenna está saindo com o veterinário?”, Megan perguntou como quem não quer nada. Encolhi os ombros.


“Não que eu saiba”, o que não era totalmente mentira, nem totalmente verdade. “Ele leva ela pro trabalho todo dia.” “Devem ser só amigos”, Rose argumentou, igualmente desinteressada. Em algum lugar muito longe, um uivo ecoou na noite. Rose e Megan arregalaram os olhos antes de caírem na gargalhada. “Caramba! Eu sempre fico arrepiada quando escuto isso”, Megan murmurou. Ficamos em silêncio, esperando ouvir mais um uivo, mas nada aconteceu. “Sabem o que andam dizendo?” Rose retomou, “Que é muita coincidência os lobos de Whitehorse sumirem justamente quando aqueles caras aparecem na cidade.” “E daí?”, Megan deu de ombros. “E daí que... Esquece.” “O que tem?”, instiguei, porque o assunto de repente me deixou em alerta. Rose se remexeu inquieta, ficando subitamente muito séria. Pousou a taça num canto e mergulhou um pouco mais na água. Flutuando para o centro da banheira, murmurou misteriosamente: “Vocês vão me achar louca, mas eu também acho isso muito estranho”, a luz âmbar das velas criava um jogo de sombra e luz em seu rosto grave, “Existem umas lendas dos índios algonquinos bem antigas na região que falam sobre lobos que viram homens...” Megan engasgou com uma gargalhada estridente que atraiu Derek para nós. Ele surgiu no arco da porta enquanto Rose esguichava água na cara de


Megan. “O que é tão engraçado?”, ele cruzou os braços e se encostou na parede. Não pude deixar de notar que seu olhar percorreu meus ombros nus antes de pousarem na confusão de risadas e respingos entre Megan e Rose. “Sua irmã está contando umas piadas ótimas!”, tossiu Megan, uma lágrima acumulando no canto de seu olho direito. “Não é piada! Derek também acha que faz sentido, de que outro jeito você explica os caras aparecerem na cidade todo ano na mesma época? E esse nome Lycan... Já viu como eles andam sempre em bando? E são quantos?” “Cinco”, fui eu que respondi, “E Lycan é um sobrenome comum. Em Long Island. Eu acho.” “Estão falando dos irmãos Lycan?”, Derek ergueu as sobrancelhas, “Pra mim eles não são normais. Quer dizer, tem alguma coisa errada acontecendo com eles. Quando o velho Bill acertou um dos lobos no inverno retrasado, um dos caras apareceu com o braço enfaixado no verão, bem onde Bill atirou.” “Porque Bill atirou?”, não tinha ideia de quem era Bill, mas já nutria por ele algo pouco amigável. “Eles mataram o arminho da filha dele”, Rose explicou solenemente. “Porque sentem fome”, reagi, a raiva me deixando impaciente, “Eles não têm o que comer, só estão tentando sobreviver! Porque diabos precisam ficar atirando ao invés de tentar ajudar?” “Eles não são coisinhas fofas, Evy”, Megan me censurou, agora fazendo uma careta enojada, “São animais selvagens, não têm que ficar no meio das pessoas. O lugar deles é na floresta, mas se querem insistir em se misturar


com a gente, então vão sofrer as consequências.” “Se misturar com a gente?”, bufei uma risada incrédula, “Esse é o habitat deles, Megan, nós é que viemos para cá. Eles já estavam aqui bem antes, nós é que insistimos em tomar o lugar deles!” “Uau, nunca ouvi você falar tanto!”, Derek aplaudiu. Encolhi-me outra vez, voltando à realidade. Derek se aproximou e sentou na beirada da banheira, ainda de braços cruzados. “Olha só, Evelyn, eu concordo com você quanto a isso de habitat, mas o fato é que a Megan tem razão, lobos não devem conviver com pessoas no meio da cidade. Eles precisam ir embora e procurar um lugar mais seguro onde não precisem passar fome.” “Enxotá-los debaixo de tiros é uma ótima solução”, retruquei, ácida. “Essa é a questão”, Rose recapitulou depressa, me ignorando “Não estão vendo? Se fossem lobos comuns já teriam ido embora, mas eles ficam, e todo ano desaparecem e então quem chega na cidade? Os irmãos Lycan!” “Esse tipo de coisa não existe, Rose”, Megan foi categórica. Ela revirou os olhos e confidenciou para mim: “Derek vai se formar em jornalismo no final semestre. Aposto como essa história de lobos é um plano para conseguir uma boa matéria e um estágio em algum jornal grande.” “Um jornal grande?”, Derek falou em tom de deboche com as sobrancelhas erguidas, pescando os cochichos de Megan, “Se eu conseguir provas, garanto um cargo de jornalista chefe no New York Times!” “E você acha que aquela sua geringonça vai provar alguma coisa?”, Rose retrucou. Três pares de olhos inquisidores se voltaram para Derek. Ele franziu a testa


para Rose e lhe lançou um olhar reprovador. “Ah... É só uma coisa que inventei, mas ainda faltam alguns ajustes”, ele explicou, parecendo arrependido de ter levado o assunto tão longe. “Uma coisa...?”, Megan se inclinou na direção dele. “Um... rádio ou coisa assim. Funciona como um emissor de frequência, na verdade.” “E como isso pode tirar a prova dos nove?”, o tom de voz brincalhão de Megan deixava claro que para ela aquilo tudo não passava de uma conversa divertida numa noite na casa de campo da amiga, uma versão mais requintada de uma noite em volta da fogueira contando histórias de terror. “Os lobos têm uma audição muito sensível”, Derek explicou pausadamente, “Podem escutar os sons mais imperceptíveis na natureza, uma folha caindo, um esquilo respirando, uma gota de orvalho rolando num caule. O emissor de frequência pode atingir uma altura realmente alta para eles sem que nenhum ser humano sequer perceba”, ele olhou significativamente para Megan. “Então, se você ligar essa coisa e os irmãos Lycan reagirem...”, ela acompanhou. Derek deu de ombros, abrindo os braços e virando as palmas das mãos para cima. “Puta que pariu!”, Megan caiu na gargalhada outra vez, “Isso é bizarro!’ Rose derramou o resto de sua taça de espumante no ralo ao lado da banheira e saiu, reclamando do frio e do sono. Derek apanhou uma toalha para ela e para Megan, e embora eu estivesse realmente começando a tiritar, não podia ir embora agora que finalmente algo de interessante havia


chamado minha atenção. Disse que ia ficar mais um pouco – o que deve ter obviamente parecido para Rose que eu finalmente ia corresponder às investidas de seu irmão. Quando ficamos a sós, Derek tirou a camisa e entrou na banheira. Eu estava intrigada demais com aquele assunto de lobos para me maravilhar com sua esplendida constituição física, mas tive o bom senso de corar ao me dar conta do que aquilo devia estar parecendo. “Esse seu aparelho”, pigarreei, observando-o cautelosamente deslizar na minha direção, “Quão alta essa frequência pode ser? Quer dizer, é algo capaz de... machucar?” Derek parou a alguns centímetros de mim. Seu olhar verde claro fixo no meu era predatório e experiente, e me perguntei quantos anos ele teria. Vinte? Vinte e cinco? Ele parecia bem mais velho do que eu, mas não podia realmente ser se, de acordo com o que Megam dissera, ainda cursava a faculdade. “Quer mesmo falar sobre isso?”, ele murmurou, avançando um pouco mais. Fiquei imóvel, encarando-o de volta. “Sim”, respondi no mesmo volume. Ele estava muito perto agora, a ponto de eu conseguir ver em detalhes a textura de sua pele lisa e os contornos retos de sua boca. Engoli em seco. A luz das velas refletia na água limpa, que por sua vez refletia na pele clara dele, criando tonalidades bonitas, mas ao invés de isso me agradar, me perturbou. Ele tinha um tipo de beleza sinistra, intensa e perigosa. Derek tocou a curva do meu rosto, contornando meu maxilar até o queixo, e a aproximação derradeira finalmente aconteceu. Fechei os olhos para receber o beijo, mas não separei os lábios, e mesmo depois que ele forçou


entre eles, tentei resistir ao máximo até que ele finalmente parasse. Não era que eu não quisesse, mas não estava exatamente ansiosa por isso, o que era verdadeiramente curioso, umas vez que já havia beijado garotos bem menos interessantes que Derek. “Você é uma garota difícil, Evy”, ele falou com os olhos na minha boca, “Mas eu sou um cara paciente e você vale à pena.” “Não prometo nada.” “Quer saber o que acontece se eu ligar meu aparelho perto dos lobos? Na frequência máxima?”, havia algo de macabro em suas palavras sussurradas e enganosamente sedutoras, mas eu assenti mesmo assim, “Eles vão ganir até seus tímpanos estourarem.” Estremeci por dentro. Não sei por que continuei sustentando seu olhar, apenas sabia que não podia recuar. E tampouco ia afastá-lo; de algum modo adivinhava que ele era o tipo de cara que ficava excitado ao intimidar uma garota. Derek me beijou mais uma vez, os dedos buscando a curva do meu pescoço. Sua língua áspera e quente causou calafrios incômodos em meu estômago, mas isso não foi pior do que a sensação sombria que me percorreu quando ele se afastou e se recostou na borda da banheira de braços abertos. Seus lábios finos e curvados num sorriso eram como o esgar traiçoeiro de um chacal.


CAPÍTULO 6 IAN COM O CORAÇÃO DISPARADO, abri os olhos e fitei o teto branco do quarto. Apenas o ressonar de Kyle, dormindo na cama no outro lado do cômodo, interrompia o silêncio matinal. A camiseta de algodão colava em meu corpo ensopado de suor e eu ofegava como se tivesse corrido por todo o Canadá de uma ponta a outra. Minha pele estava em chamas. “Merda!”, levantei num pulo e tirei a camiseta no caminho para o banheiro. As calças foram descartadas enquanto eu abria o chuveiro. A movimentação brusca fez minha cabeça latejar a ponto de tirar meu fôlego, mas não havia tempo a perder. Àquela hora da manhã a água devia estar em torno dos cinco graus, e sentila caindo sobre mim foi como uma bênção, eu quase gemi de satisfação. Na verdade, fiz isso, várias vezes. Apoiei os braços no azulejo branco e deixei que ela escorresse pela minha nuca e costas, acalmando o fogo. Abaixei a cabeça de boca aberta, entregue ao alívio, e o fluxo desceu pelo meu queixo, formando uma pequena cascata até o chão. Um, dois, três, quatros, cinco, seis... Contar os segundos ajudava a manter a calma. Chegar até trinta era seguro, chegar a um minuto era crítico, significava que a água gelada não ia resolver. Abri os olhos e encarei minhas mãos fechadas em punhos apertados contra a parede. Há quanto tempo eu não tinha uma recaída? Dois anos? Kyle chegou a acreditar que eu finalmente estava curado. E então os sonhos com a garota ruiva desencadearam o processo todo de novo.


A garota ruiva. Maldita fosse. Pensar nela fez minha dor de cabeça atingir níveis insuperáveis. “Porcaria!”, rosnei palavrões, apertando um olho com a palma da mão. Arquejando de dor, tentei me concentrar em apenas respirar devagar e manter a mente limpa, mas a imagem da garota era simplesmente difícil demais de apagar. Por fim, encostei a testa na parede e deixei que o fluxo de pensamentos seguisse curso livre. Não sonhávamos na forma de lobo – ou não lembrávamos depois da transformação, o que dava no mesmo. A mente de um animal, embora complexa em sua lógica, não é suficientemente ampla para acomodar as sensações e os sentidos da mente humana. É como tentar traduzir letras para números. Ethan acreditava que em parte nossas dores de cabeça descomunais eram consequência disso – disso e dos sonhos reais demais que tínhamos. Na maioria das vezes eram formas e cores sem sentido, nada concreto ou significativo, mas às vezes eram imagens muito nítidas, com texturas e sensações. Essas eram sem dúvida as piores, porque deixavam rastros. Rastros irritantes, no meu caso, porque traziam à tona coisas que eu não queria sentir. Coisas incômodas e confusas que eu não sabia o que significavam. Do meu último período como lobo eu havia trazido poucas memórias, como a dor da fome, as paisagens brancas da floresta e os gritos ríspidos dos homens da cidade. A sensação do perigo era constante e nos marcava como uma cicatriz, transformando nossa personalidade.


Mas captei o cheiro da garota no Baked no mesmo instante em que transpus a soleira da porta – uma lembrança involuntária. Todos os meus sentidos me alertaram, pulsando como sirenes, embora eu não entendesse o porquê. A princípio, era sutil demais para ser percebido, e se perdia, frágil, entre os odores de pele humana, café, desinfetante, cigarro e o açúcar dos doces na vitrine. Mas quando consegui isolar seu cheiro suave e fugidio, percebi que vinha de algum lugar atrás do balcão. A sensação do reconhecimento ajustou-se aos poucos até tomar sua forma real e então não havia mais nada. Havia apenas isso: Evelyn SaintClair. Agora eu sabia como se chamava. Ela virou o rosto para o outro lado enquanto eu olhava, distraída por uma agitação qualquer, e uma longa mecha de cabelo liso resplandecente despresdeu do grampo na lateral da cabeça e resvalou sobre sua bochecha. O clarão da manhã transpassava os vidros da vitrine, desbotando tudo ao redor, mas as cores dela eram vivas como numa aquarela ainda fresca – o branco madrepérola da pele e o rosa claro das pálpebras, o coral dos lábios que combinava perfeitamente com os tons de um pôr do sol de verão dos cabelos cortados no estilo boneca. A boca era um pouco larga e carnuda demais para um rosto tão pequeno, mas parecia perfeita quando ela sorria. E a curva elegante do pescoço exposto... Me fez querer beijá-la só para saber como era a sensação de segurá-la pela nuca. Sua nova imagem se sobrepunha à lembrança rudimentar e fragmentada que minha mente animal ainda guardava. E agora grudava em todos os cantos do meu cérebro como um chiclete velho sem que eu pudesse impedir. Estava me deixando louco. Aos poucos minha temperatura interna estabilizou, assim como meus batimentos cardíacos e minha respiração. A tranquilidade se estabeleceu outra vez, e então terminei o banho. Para alguns – a maioria, pelo que eu sabia – a readaptação era mais rápida. Kyle e Ethan, por exemplo, não passaram nenhum tipo de trauma nos


primeiros anos a não ser pelas dores de cabeça matadoras. Um lobo precisa reter calor o tempo todo e o organismo humano demora um pouco para se desfazer dos velhos hábitos; o resultado disso eram picos de elevações de temperatura constantes. Dava para controlar após alguma prática, mas às vezes reações físicas desencadeavam o calor sem nenhum aviso. Eu estava indo muito bem até os sonhos com a garota fazerem minha temperatura voltar a disparar durante a noite. Esse já era um excelente motivo para detestá-la. Quando saí do banheiro, apanhei uma calça jeans limpa na gaveta, uma das camisetas de Matt e saí do quarto descalço. Ethan estava de pé na cozinha vendo o noticiário local encostado na bancada da pia e ergueu as sobrancelhas para mim à guisa de bom dia. Evitei olhar para ele, agora que a camada caótica de cabelos que emoldurava seu rosto tinha uma familiar tonalidade avermelhada. Eu vinha tentando evitar essa cor, desde que ela mexia comigo em níveis estranhos. Enchi uma tigela com Kelloggs, despejei leite e comi encostado na bancada, como Ethan. Depois de um momento, ele desviou os olhos da televisão e fixou-os nos meus. A compreensão foi instantânea – um dos lados bons de sermos o que somos é que as palavras não são nossa única forma de comunicação. “Liam”, engoli em seco. Droga. Eu não ia suportar mais essa agora. Larguei a tigela cheia na mesa e fui para o quarto que Matt dividia com Liam. O fato de Matt estar acordado àquela hora da manhã e sentado na cabeceira da cama de um Liam não adormecido, mas visivelmente sem sentidos, apagado por uma febre que o tornava vermelho e ofegante, me deixou mortalmente em choque. Eu estava vendo o mesmo filme pela segunda vez, só que agora era Matt quem


estava no meu lugar. Os olhos de Matt se ergueram para mim. Não havia vida neles. “Quanto?” “Quarenta e cinco graus”, ele informou monotonamente. Passei uma mão pela cabeça. Quarenta e cinco não era bom... Mas ele ia resistir, éramos feitos para resistir. “Desde que horas?” “Quatro e meia da manhã.” “Porque não me acordou?” Ele deu de ombros. “Pode ser só uma febre”, ele murmurou com uma voz cansada, “O mesmo de sempre.” “E pode ser que não seja”, apanhei meu celular no quarto e comecei a digitar. “São seis da manhã, Ian...”, Matt não tinha forças nem para argumentar. Matt sem forças. Isso evidenciava bem seu estado de espírito. Tocou uma seis vezes e caiu na caixa postal. Desliguei e liguei de novo. Dessa vez, Carl atendeu no segundo toque com uma voz grogue, mas profissional, como se tivesse acabado de sentar em sua mesa no consultório. “Dr. Carl Broomy.” “Ei, Carl”, pigarreei para disfarçar a ansiedade, “Desculpe ligar essa hora, é uma emergência. Liam está... Hã, tendo aquelas febres. Pode ser só o


mesmo de sempre, mas não queremos correr riscos, entende?” Um momento de silêncio, que eu julguei ser o tempo que ele precisava para esfregar o rosto e colocar seu cérebro no modo acordado. “Tudo bem. Estou a caminho.” Desliguei o celular no segundo em que Kyle surgiu na porta, despenteado e ainda usando a calça do pijama, a testa franzida para a situação diante de si. “Febre?”, sua voz grave trovejou pelo quarto. Reagindo ao vigor daquele som, Liam produziu um gemido baixo na garganta, a cabeça virando no travesseiro na direção de Kyle. Cara, dava dó ver o garoto assim, principalmente porque todos nós sabíamos que, sendo sua primeira vez, emocionalmente ele era tão frágil quanto um garotinho de cinco anos. Matt havia afastado as cobertas, então seu corpo magro e comprido afundava no colchão macio. A camisa azul escura estava empapada no peito arfante e gotas porosas salpicavam sua testa, bem abaixo da linha do couro cabeludo. Suar não era boa coisa, não era natural para nós, mesmo na forma humana. Ainda não tínhamos cortado seu cabelo, de modo que uma camada de uns dois dedos mais ou menos, cor de trigo claro, crescia livremente em sua cabeça e emplastrava nas laterais, onde o suor criava caminhos úmidos sobre a penugem aveludada das têmporas. “Banho de imersão”, pensei alto. “Ele pode entrar em choque”, Matt rebateu depressa, a expressão subitamente alarmada. “Podemos ir regulando a água aos poucos”, Kyle assegurou, já se adiantando para pegar Liam no colo.


Matt levantou num pulo e o agarrou pelo pulso. “Não”, seus dentes ficaram expostos numa careta feroz. Kyle pouco se comoveu. Empurrou a mão de Matt. “Controle seus traumas, cara.” Balancei a cabeça para Kyle, censurando-o, mas ele não viu. Estava totalmente imerso em Liam. O garoto abriu os olhos ao perceber que estava sendo removido da cama, mas seu olhar vago não se fixou em nada nem em ninguém. O banheiro era pequeno demais para três caras do nosso tamanho, mas Matt não ia ficar para assistir. Ele observou Kyle me passar Liam para abrir as torneiras da banheira, os olhos esbugalhados e assombrados. Seu autocontrole desapareceu numa fração de segundos, seu rosto sempre sério e estável torceu-se numa máscara de sofrimento. “Saia, Matt”, rosnei para ele, “Não vai aguentar ver isso.” “Liam... não façam isso com ele, não...”, ele soltou um gemido estrangulado. Quando a água estava pela metade, Kyle a experimentou e fez um gesto para que eu baixasse Liam na banheira. Encarei o rosto lívido de Matt, vendo a lucidez abandonando-o... De repente, Matt sufocou seus pesadelos e tropeçou para fora do quarto. Sua expressão torturada beliscou minha consciência depois que ele se fora. As maldades que haviam feito com ele atingiam a todos nós em níveis profundos, e eu teria dado os dedos da minha mão para livrá-lo delas, mas era impossível. Matt seria sempre uma peça danificada. “Ian, ponha-o na água”, o comando de Kyle me trouxe de volta. Escutei os resmungos entrecortados de Liam, seu ofegar e o rilhar de dentes que começou assim que Kyle fechou a torneira quente e deixou


apenas a gelada aberta. Liam embolou-se sobre si mesmo, apertando os joelhos ossudos contra o peito magro, e uma nódoa cor de sangue ficou exposta sobre os calombos de sua espinha dorsal. Eu e Kyle trocamos um olhar rápido. “Isso estava aí antes?”, ele me perguntou em voz baixa, sob o chiado do fluxo de água. “Não lembro”, na verdade, era a primeira vez que víamos Liam sem roupas. Eu me abaixei ao lado da banheira e alisei a mancha vermelha. Sua textura era ligeiramente aveludada, “É um sinal de nascença.” “Dessa cor”, a inflexão de Kyle sugeria que o sinal poderia ser azul ou listrado, e ainda assim teria sido melhor do que vermelho. Em nosso universo, onde as luas de sangue significam mais do que apenas um fenômeno raro, vermelho é uma ótima cor para decorar funerais. Meia hora depois, um Liam estarrecido e de lábios roxos esperava Carl na cama, de roupas secas e limpas. Carl se espremeu entre nós quatro para chegar até Liam e olhou ao redor. “Alguém tem que sair. Está abafado aqui.” “Eu saio”, falei, mas Kyle colocou a mão pesada em meu ombro. “Você fica, cara”, ele disse ao passar por mim. Não sei o que li no olhar dele, talvez compaixão, talvez a visão de Liam frágil o perturbasse demais. Não fazia parte da nossa natureza adoecer, e no entanto nos primeiros anos isso era praticamente uma rotina. Depois que Kyle e Ethan saíram, o quarto pareceu ter aumentado uns vinte metros quadrados. Matt sequer se moveu, estático ao lado da cama, sentado no banquinho de madeira que mal acomodava metade de seu


traseiro. O pavor havia desaparecido de seu rosto, mas outro tipo de pânico o dominava agora. Todos éramos irmãos, não havia um grau maior ou menor para isso, mas desde antes de Liam se transformar Matt já tinha uma ligação paternal com o lobo branco areia. Seria mesmo impensável pedir para que ele saísse do quarto. Carl avaliou as pupilas de Liam com a ponta luminosa de uma caneta fina, depois mediu sua temperatura e tirou sua pressão. “Está alta, mas isso é normal em vocês”, informou calmamente, “Não me parece nada realmente grave, o organismo dele está reagindo às mudanças bruscas, só temos que impedir as convulsões. Os banhos de imersão são bons, já que os antitérmicos normais não funcionam com vocês”, ele olhou sério para mim e Matt por cima do ombro, “E nem pensem em medicar esse garoto, ouviram?” Eu e Matt nos entreolhamos e engolimos em seco. Não sabíamos disso quando Colin teve as crises, Carl ainda não estava do nosso lado, o entupimos de remédios comuns comprados em farmácia e isso provavelmente piorou seu estado. A febre não apenas continuou aumentando como cozinhou seus miolos até que as convulsões o matassem. “É o seu primeiro ano, garoto?”, Carl sussurrou de modo descontraído para Liam, como um pai orgulhoso do filho que acabava de entrar para a faculdade. Liam assentiu com uma careta de desgosto, “Você vai sair dessa. Com Ethan foi pior, pelo menos você não está chorando que nem uma menininha.” Nós quatro demos uma risada, a de Liam não passou de um grunhido instável. Eu lembrava perfeitamente do primeiro ano de Ethan. Quando as dores de cabeça ficavam insuportáveis, ele urrava e se lamuriava vergonhosamente, mordendo o travesseiro e arranhando as paredes. Dava


pena, mas também era engraçado, porque nenhum de nós tivera tão pouca dignidade. “Está tudo sob controle”, Dr. Carl guardou os instrumentos e tirou uma seringa lacrada da maleta, “Mas vou levar umas amostras de sangue para o meu laboratório, se vocês não se importarem.” Matt encarou a seringa, a pele cor de bronze ganhando feias tonalidades de verde vômito. “Ah, melhor não, doutor”, comentei causalmente, afastando com delicadeza a mão de Carl com a seringa. Lancei um olhar sugestivo para Matt, e Carl franziu a testa, tentando acompanhar. Quando tudo estava acabado, levei Carl até a porta, depois de ele ter recusado o café da manhã oferecido por Ethan e o pagamento ofertado por Kyle. “Não deem essas coisas a ele”, Carl apontou de repente para um pacote de Pop-Tarts em cima da mesa da cozinha, lembrando de última hora de uma recomendação importante, “A alimentação de vocês durante o inverno não tinha o nível de gordura suficiente, então ele não está acostumado com porcarias. Peixe e cereais por enquanto, e quando ele estiver digerindo bem e sem as regurgitações, introduzam carnes vermelhas, pão e outras proteínas na dieta”, ele hesitou na porta, olhando fixo para o sanduíche triplo de salame e parma que estava a meio caminho da boca de Kyle, então assentiu para si mesmo, “Isso mesmo, tratem de ganhar peso.” A van Sprinter branca que ele costumava usar para transportar animais estava parada no cascalho em frente à nossa casa, e enquanto ele andava até ela notei que não estava usando o costumeiro jaleco branco por cima da camisa de botão azul clara, arrumada de qualquer jeito sobre a calça na pressa de ver Liam.


“Carl.” Ele jogou a maleta no banco do motorista e se virou para mim. O cabelo meio despenteado caía de qualquer jeito na testa larga e marcada por rugas leves, havia olheiras escuras embaixo dos olhos azuis néon e a pele estava opaca e sem brilho, sinais de um dia exaustivo que começara bem antes do planejado. “Sim?” “Obrigado por tudo.” Ele assentiu com um sorriso despretensioso e começou a se voltar para entrar na van. “Tem mais alguns minutos?”, insisti. “Tenho pelo menos umas duas horas antes de abrir o consultório, Ian. Está bom para você?” Carl endireitou os ombros e recostou no carro, cruzando os braços numa postura relaxada. Cocei a nuca e fixei o adesivo prateado na traseira da van. Não tinha noção de como começar, a simples ideia de me ver confessando coisas pessoais para alguém, mesmo meus irmãos, me deixava nervoso. Carl tinha se provado uma pessoa de confiança, mas mesmo assim... “Ian?” “Hã...”, talvez fosse mais confortável tentar inferências, “Até onde você sabe sobre nós?” Carl deu de ombros e torceu o lábio inferior, pensando no assunto. “Muito pouco, eu diria. Só estou estudando vocês há poucos meses. É muito,


muito pouco tempo para descobrir algo significativo sobre uma espécie.” “O que você pode dizer apenas... nos observando?” Ele franziu a testa, respirando fundo como se essa pergunta fosse mais complicada de responder. “Vocês são independentes”, gesticulou para a casa às minhas costas, “Vivem bem sozinhos, são razoavelmente organizados, não gostam de fazer amigos, são intratáveis, alegres uns com os outros, mas mal humorados com pessoas estranhas, pouco receptivos, fechados, irritadiços...” “Pode passar para a lista boa agora.” “Fiéis”, ele soou solene, e vi em seu olhar a mesma admiração que dirigia a seus pacientes no consultório veterinário. Foi por isso que Kyle confiou nele logo de cara; Carl tinha uma espécie de humanidade rara e perceptiva. Ele se ajeitou e sua expressão ficou grave, “Ian, tenho trinta e oito anos e moro em Whitehorse há dez. Antes disso vivi em Boston e fiquei dois anos em Dallas. Nunca, em todo esse tempo lidando com animais vi qualquer coisa parecida com o que vocês têm. E não posso nem avaliar a situação como um comportamento humano porque seria ainda mais absurdo: seres humanos são criaturas egoístas por natureza. Agem pura e simplesmente pelo impulso da conveniência, e não estou sendo excessivamente acadêmico, apenas prático. Animais são instintivos, mantém laços pela sobrevivência, pelas circunstâncias. Mas vocês? Eu... Simplesmente não sei como avaliar isso.” Fiquei grato por Carl não conseguir nos entender, isso dava a sensação de que estávamos de alguma forma protegidos. “Está falando de mim e meus irmãos, certo?” “É claro.”


“Mas eu estou falando de um envolvimento com terceiros. Alguém fora de nosso bando.” “Como eu, por exemplo?”, ele ergueu as sobrancelhas, tentando acompanhar. “Como Kyle e Lianne.” Seu rosto relaxou gradativamente enquanto sua boca se abria até formar um O. A compreensão o atingiu ao mesmo tempo em que eu me arrependia de ter começado aquela conversa sem pé nem cabeça. “Esquece isso”, cocei a nuca, “Deixa pra lá.” “Kyle e Lianne são uma exceção.” “Sim, uma exceção”, afirmei energicamente. O olhar atento de Carl se estreitou em mim. “Ian, você...?” Oh, droga. Fechei os olhos e abafei um palavrão. Era tarde para desconversar. “Ian...” “Acho que sim, doutor”, minha voz saiu abafada. Pigarreei, “Eu... pensava que não ia mais acontecer, você sabe, estou nos últimos anos.” Depois da transformação tínhamos no máximos mais cinco verões. Eu já estava no meu quarto. “Sim”, os olhos de Carl estavam arregalados agora, duas bolas azuiscelestes agarradas a cada palavra minha, “Sim, sim. Ah, bem, é outro grande mistério. Não sei se posso chamar de amor, pelo menos não pelo ponto de


vista humano, já que é muito raro vocês aceitarem laços. Acho que posso dizer que é mais como posse. Algo territorialista, talvez...” “O que Kyle tem por Lianne é bem mais do que isso”, censurei-o, mas me repreendi depressa. Detestava o modo como eu conseguia soar tão cortante mesmo quando não tinha a intenção. Mas Carl não se ofendeu. Na verdade, meu tom o fez refletir e recomeçar. “Tem razão”, ele forçou a mente, vincos profundos formando-se entre suas sobrancelhas, mas por fim pareceu desistir, “Não sei, Ian, sinceramente não sei como descrever o porquê do vínculo que vocês criam com certas pessoas da nossa espécie. Só posso dizer que parece irremediável.” Claro. Isso era evidente para ele, não nos dávamos com ninguém, mas Kyle não conseguiu abrir mão de Lianne. Ele teria passado por cima de nós por ela, e isso estremeceu nosso bando durante muito tempo. Até que fomos forçados a aceitá-la, já que não suportaríamos perdê-lo. Fitei meus próprios pés, a ponta encardida dos Converses batendo no cascalho. “Quando aconteceu?”, Carl perguntou num tom contido. “Não sei direito”, engoli em seco. Meus dedos apertaram instintivamente os cabelos em minha nuca enquanto eu a esfregava, “Talvez tenha sido até antes da transformação...” “Antes?” “Eu a reconheci, Carl”, a ideia era estapafúrdia até mesmo para mim, que tinha total certeza do que senti quando entrei naquele maldito café, “O cheiro dela, a voz dela, eu já sabia como era, já conhecia!” Ele esfregou o queixo, parecendo incrédulo e constrangido. Com Kyle tinha


acontecido bem depois. “Isso é curioso, um dado novo para os meus estudos... Até hoje eu pensava que a sua espécie era incompatível com a minha em praticamente todos os aspectos. Pensava que Kyle e Lianne eram uma exceção...” “Eles são”, enfatizei outra vez, “Isso não muda nada. Sou só outra exceção”, mas nem eu me convenci disso. Várias exceções criavam uma regra, só que eu me recusava a aceitar que a submissão aos humanos estivesse se tornando o fator comum em nossa espécie. Seria quase tão surreal quanto um refém se envolvendo com seu raptor, “É uma fraqueza”, esclareci, “Como nos mitos de vocês, o tal calcanhar de Aquiles.” “Ouça, Ian”, ele ergueu a mão, como se propusesse um meio termo, “Estudei muitos anos o ciclo da natureza, não posso simplesmente aceitar que isso que você chama de exceção seja um acaso infeliz. Não quando vejo Kyle e Lianne juntos. Até mesmo o mais insignificante dos organismos tem razões para ser como é.” Reprimi a vontade de revirar os olhos. Onde eu tinha lido sobre essa lengalenga que ele falava? Algo a ver com Teoria de Gaia, mas não importava. A ciência nunca foi suficientemente racional para mim. Não quando aplicada ao nosso caso. Carl interpretou errado meu ar distraído. “Estou falando de sobrevivência, Ian. Talvez essa exceção seja uma solução e não uma fraqueza.” “Certo”, concordei de má vontade. Ele recuou. Deixei que visse em meu rosto a sugestão óbvia de que a conversa não ia mais muito longe, era o máximo que eu permitia me expor. Ele assentiu devagar, então entrou no carro com um suspiro resignado. Era


difícil encará-lo agora, eu me sentia pouco à vontade depois daquela conversa, mas me esforcei para não parecer grosseiro. “Você não vai me dizer quem é, imagino”, ele falou pela janela depois de dar a partida. “Sem chance.” “Contanto que não seja a Jenna”, ele deu uma risada sombria, e apesar de ter me identificado com o modo possessivo com que disse o nome dela, não gostei dos calafrios em meu ventre quando lembrei que a garota ruiva estava conversando com Jenna no balcão do Baked. “Não prometo nada, doutor”, respondi com um sorriso malicioso que se desfez assim que a van branca sumiu na estrada.


CAPÍTULO 7 DEPOIS DE QUATRO DIAS de febre alta e banhos de imersão, Liam estava com o humor de um presidiário torturado num interrogatório, mas pelo menos sua saúde melhorou e as dores de cabeça o deixaram em paz por um tempo. Matt considerou voltar ao trabalho interrompido no final do último outono – técnico numa loja de informática – e já não fazia tanto estardalhaço quando deixávamos Liam sozinho em casa. O fato é que todos nós tínhamos que trabalhar enquanto estivéssemos vivendo naquela forma, não porque precisássemos de dinheiro, mas pela razão óbvia de que cinco garotos saudáveis e obsoletos num povoado como Whitehorse chamava atenção. Liam ainda era muito novo para trabalhar e de qualquer forma nenhum de nós fazia muita coisa no primeiro ano a não ser tentar aprender o máximo possível sobre tudo. Ethan, Kyle, Matt e eu nos revezávamos nos períodos em que estávamos em casa para ensiná-lo algumas coisas. Naquele sábado era o meu dia de folga, então acordei cedo, tomei um banho frio de congelar a alma, joguei uma camiseta cinza do Deep Purple por cima do jeans rasgado de sempre e bati na porta do quarto que Liam dividia com Matt. “Entra”, sua voz baixa e entediada deu permissão. Ele estava sentado na cama folheando algumas revistas de mulheres peladas, com a cabeça inclinada num ângulo estranho, como se as garotas pudessem ficar mais interessantes vistas meio de cabeça para baixo. “Elas não andam assim na rua”, ele observou. “Não.” “Então porque tiram fotos sem roupa nessas posições?”


Encostei no batente da porta e enfiei as mãos nos bolsos. “Por dinheiro, eu acho”, dei de ombros. “Tudo aqui é por dinheiro?” “Quase tudo.” Liam fechou a revista e a atirou para o pé da cama com uma expressão desanimada. Sorri comigo mesmo, lembrando do quanto tinha sido confuso tentar entender as necessidades dos humanos quando as exigências de um lobo eram bem mais básicas. “Acha que a garota do Baked faria essas coisas? Será que ela se importa tanto com dinheiro também?” Abri a boca para protestar, porque a única garota do Baked que existia para mim era Evelyn SaintClair, e imaginá-la figurando sem roupa numa revista como aquela fez meu sangue ferver de maneiras desconhecidas e incômodas. Mas então me dei conta. “Rose, a garçonete?” “É. Eu não tenho dinheiro, Ian”, ele ergueu os olhos grandes e assustadiços para mim, lúcidos e crentes demais para esse mundo, “Não sou ninguém. Mas a parada é ter dinheiro, não é? Tipo, status. Então quero trabalhar e ajudar vocês, e quero ter dinheiro para impressionar Rose.” Mas o que diabos Kyle, Ethan e Matt tinham na cabeça para não terem avisado Liam até agora sobre nossas regras de relacionamento? Depois do incidente na cafeteria, teria sido de se imaginar que Liam fosse urgentemente alertado, não era possível que esperassem que ele não pensasse nesse tipo de coisa agora, quando todos sabíamos que os primeiros anos eram uma provação física e psicológica, o período em que


os instintos masculinos do nosso lado humano atingiam níveis dolorosamente irritantes. Tudo bem, eles tinham me deixado com o trabalho sujo. Justo no dia em que minhas mãos estavam limpas. Apanhei as chaves da minha RD350 – batizada benevolentemente por Kyle de Viúva Negra – , joguei um capacete para Liam e ajustei o meu, depois subimos e disparamos para o centro da cidade. As mãos de Liam estavam queimando na minha camisa e seu corpo magro ainda era frágil, quase não pesava na garupa. O calor constante nunca ia passar, era um efeito colateral sem cura – Whitehorse sempre seria verão para nós enquanto andássemos sobre pernas, sobretudo porque transpirávamos muito pouco ou quase nada. Mas em breve ele ia ganhar peso e massa muscular, talvez ainda naquele ano, talvez no próximo, e as dores o fariam desejar morrer. Eu ainda lembrava dos três dias seguidos em que fiquei amarrado à cama, amordaçado, mordendo o pedaço de pano que Kyle enfiou na minha boca para sufocar meus gritos enquanto eu sentia todo o meu corpo rasgar por dentro, crescendo, inchando. Quando tudo acabou, eu estava com trinta quilos a mais e minhas camisas pareciam ter encolhido na máquina de lavar. Dei a volta na praça central e parei numa esquina menos movimentada, e tive sorte de encontrar o que procurava logo adiante, num banco em frente a uma floricultura. “Está vendo aquilo ali?”, apontei para o casal que tomava sorvete com as mãos entrelaçadas. Liam assentiu por sobre o meu ombro. “E então, acha que estão felizes?” “Acho que sim.”


“Agora imagine que é você ali, e que a garota é Rose. Pense no que somos e no que Matt contou sobre nós e responda: eles estão felizes?” O som de Liam engolindo duramente em seco foi audível. Seus dedos apertaram minha camisa. “Não.” Girei o corpo para olhá-lo nos olhos através das aberturas de nossos capacetes. Ele ainda prestava atenção no casal, mas não dava para dizer se estava triste ou apenas frustrado, era difícil administrar as emoções no começo. “Porque não?” “Por que...”, sua voz sumiu. “Essa é nossa regra principal, Liam. Não nos envolvemos com humanos por inúmeras razões: é arriscado, é desastroso e é incompatível. Já temos inimigos demais sendo apenas lobos, você não vai querer comprar mais um. Rose surtaria se soubesse o que você é, talvez tentasse nos matar, como a Claire fez com o Matt”, era pouco provável que Matt tivesse contado para Liam sobre Claire, mas um dia ele teria que saber e eu não via porque não ser agora, “Ela descobriu quando Matt tinha só dois anos, mal tinha entrado na fase adulta, era tão fraco quanto você é agora. Ela se convenceu de que ele era uma aberração da natureza e um dia, quando ele estava na casa dela, Claire pediu a ajuda do irmão mais velho e arrastou Matt para a banheira. Eles tentaram afogá-lo. Também tentaram eletrocutá-lo atirando aparelhos elétricos na água.” A cabeça de Liam virou lentamente para mim. Ele estava em choque. Com certeza a maldade humana não era algo a se subestimar, e ele estava tendo suas primeiras lições. Esperava que fosse esperto o bastante para nunca mais esquecê-las.


“Isso explica porque Matt nunca sorri”, ele murmurou, a voz engasgada abafada pelo capacete. “Não, não é por isso”, de repente senti uma necessidade sufocante de ser muito claro e preciso com Liam, de fazê-lo entender a todo custo. Tirei o capacete e desci da moto, depois afrouxei o dele e o fiz tirar também. Coloquei as duas mãos em seus ombros magros e disse devagar, olhando-o nos olhos: “Tem outras razões para nunca nos envolvermos com ninguém, especialmente garotas. Ainda não sabemos por que e como acontece, mas apesar de toda a incompatibilidade, às vezes queremos alguém. Então ficamos presos a essa pessoa. E não é bom, Liam, entende isso? É muito raro, vai contra nossa natureza e nossas regras, e quase sempre não termina bem, mas não é algo que possamos controlar, é como uma maldição. Claire era assim para o Matt. Ele não liga para o que ela fez, ele a compreende, mas não se perdoa por tê-la perdido. Eu sei, está vendo, é doentio”, a careta de Liam me deixou aliviado por razões egoístas. “Mas deu certo com o Kyle”, o vinco profundo na testa de Liam sugeria que sua cabeça estava dando nós para encaixar as peças do enigma. “Porque Lianne o aceitou, para ela não fez diferença.” “Mas ela sabe...?” “Não. Kyle não quer contar.” “Mas um dia vai acontecer.” Quem sabe nesse outono, pensei, mas não desenrolei o tópico. Só eu e Matt sabíamos que esse ano talvez fosse o último de Kyle, e embora Lianne soubesse de grande parte dos nossos segredos, esse em especial ela talvez nunca viesse a descobrir. “Como eu disse, nunca termina bem”, sorri para encorajar Liam. Não queria


decepcioná-lo, mas não podia enganá-lo nem adiar as verdades. Depois que Colin morreu, ainda novo, cheguei à conclusão de que a inocência, algo tão raro nos humanos, não podia mesmo permanecer em nós por muito tempo. Apertei seu ombro de leve quando ele começou a desviar os olhos tristes para o chão, “Isso que você sente pela garçonete do Baked é um reflexo da sua humanidade. Homens são assim, reagem a garotas bonitas, mas não somos homens, Liam. Não misture as coisas.” “Mas...”, ele apertou a boca e a linha tênue entre suas sobrancelhas ficou marcada, “Nós somos uma mistura, não somos? Duas espécies ao mesmo tempo.” Balancei a cabeça, mas não sabia mais como argumentar quando ele, teoricamente, estava certo. Éramos duas espécies, mas não significava que pertencíamos a dois lugares. Na verdade, era mais como não ser nada. Nossa segunda parada foi na região dos galpões. Ficava no subúrbio de Whitehorse, uma zona abandonada e as vezes revisitada por caminhoneiros de passagem que queriam tirar um cochilo longe do barulho das estradas. Antigamente, Kyle dizia que os galpões estocavam a produção que saía das indústrias, até que um incêndio destruiu grande parte das estruturas e agora a área era estava eternamente em manutenção. Por fora, ainda dava para ver as manchas enegrecidas por onde as línguas de fogo haviam passado. A maioria das janelas estavam quebradas, e as remanescentes foram pintadas de preto. Não era um cenário de sonhos. “Aqui acontecem o que eles chamam de Torneios”, falei, “No verão, apostadores da região trazem cachorros para brigarem nas arenas montadas de improviso. O dinheiro rola solto e tem gente que faz disso um negócio.” “E o que acontece no inverno? Eles fecham?”


Eu sorri com ódio. “São os Jogos de Inverno. Você consegue imaginar quais as atrações principais?” Os olhos azuis de Liam congelaram, como se o horror dele atingisse suas veias. “Lobos”, ele murmurou, engasgado. “Não existe nada de bom para nós aqui, Liam.” A pergunta que ele deveria fazer a seguir era simples: então porque não vamos embora? E eu teria adorado conseguir respondê-la. Liam não a fez porque sabia, como todos nós já nascíamos sabendo, que Whitehorse nos mantinha enclausurados em seus limites como um domo invisível. Eu já havia feito um teste e ido pela estrada de moto até quase ultrapassar as fronteiras de Yukon, quando então parei e fitei o asfalto se perdendo na névoa branca com a e sensação sombria de que não existia nada depois dali. Kyle já estava em casa quando voltamos, e pelo cheiro de bolo de laranja que recendia até o pátio, Lianne estava com ele. Pigarrei alto assim que entramos, interrompendo um beijo prolongado que acontecia em cima da bancada da pia da cozinha. Kyle se afastou, limpou os respingos de massa de bolo no nariz da namorada e então sua expressão mudou totalmente ao se voltar para mim. “Senta aí, cara. Vai querer ouvir isso.” Eu atirei as chaves da RD sobre a mesa, junto com o celular e a carteira, e puxei uma cadeira para ficar de frente para ele. Kyle cruzou os braços e se apoiou no balcão da pia antes de lançar um olhar


significativo para Lianne. Ela acenou para mim, saltou para o chão e foi jogar Xbox com Liam na sala. “Lianne está achando que tem outro bando se transformando. ” Apoiei um braço na mesa e esfreguei o queixo, pensando sobre o assunto. Desde meu primeiro ano, não tínhamos notícias de nenhum outro bando disputando território com a gente. Chegava a ser estranho que apenas cinco lobos dominassem Whitehorse e, segundo Paul, o irmão que havia criado Kyle antes de Matt se transformar, foi assim durante muitos anos. Então, de certa forma, eu já esperava que nosso reinado acabaria em breve. A questão não era essa. “São quantos?”, perguntei, minha voz soando quase ríspida. “Não sei, Lianne desconfiou por causa do comportamento de um deles. Ela tirou essas fotos”, Kyle sacou o celular e o atirou para mim. Desbloqueei a tela e vi o que pareciam sequencias de fotos tiradas num refeitório, pela manhã. Em todas elas aparecia um garoto por volta dos dezessete anos, cabelos castanho claros ensebados usando um moletom encardido. Eram fotos banais, exceto por uma, cujo ângulo da objetiva havia captado um reflexo perolado lunar ao redor dos olhos dele. Mesmo de longe, a identificação era óbvia – nenhum olho humano saía assim numa foto, mesmo se ela fosse muito mal tirada. Larguei o celular na mesa. “Caralho, Kyle”, inclinei o corpo para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, e envolvi a cabeça com as mãos. Se o cara não sofria de um tipo raro de catarata precoce, havia quase 100% de chances de ser um dos nossos. “Por alguma razão idiota, os imbecis estão tentando se misturar com os cidadãos, é a única explicação para estarem matriculados na Yukon.”


“Isso vai dar merda.” “Se você quer saber, acho que eles estão perdidos. Novatos sem a menor noção do que são e do que não são.” “Sem um tutor? Não faz sentido.” “Nada fez sentido até hoje.” Eu era obrigado a concordar com ele. Quando Paul foi embora, não deixou um legado muito interessante para nós. Ele não era um bom tutor, sempre envolvido em negócios ilegais, dinheiro sujo e mulheres que tinham mais DSTs no corpo do que tatuagens. Estávamos por nossa conta desde que eu podia me lembrar, tentando montar o quebra-cabeça da nossa espécie num quarto escuro. “Vai ter uma festa nos rochedos hoje à noite”, Kyle retomou, “Lianne conseguiu entradas.” Meu olhar encontrou o de Kyle e eu entendi bem depressa o que isso significava. Festa. Barulho alto. Pessoas aglomeradas. Muitas. Nem. Fodendo. Levantei da cadeira, empurrando-a para trás com tanto ímpeto que ela deslizou com estrépito antes de cair de pernas para cima. Lá na sala, a conversinha amistosa entre Lianne e Liam morreu na hora. Apanhei as chaves da moto, a carteira e o celular antes de me virar para sair. “Estou caindo fora.” “Ian, não sabemos quantos são”, Kyle manteve a calma, o que só me irritava ainda mais, “Vou precisar de reforço.” Eu voltei, apenas para dizer na cara dele no que aquela ideia genial ia dar.


“Da última vez que estivemos no meio de tanta gente, Matt quase arrancou o fígado de alguém”, Kyle assentiu pacientemente para mim, “É perigoso, é uma merda, não fico confortável nessa situação, não vou. Supere isso.” Foi no meu terceiro ano, eu tinha acabado de passar para a fase adulta, ainda desengonçado com meu corpo duas vezes maior. Matt inventou de ir na festa surpresa de aniversário da Claire, e Kyle decidiu que podíamos tentar. Foi claustrofóbico. Num determinado momento apagaram as luzes e ligaram bolas giratórias que emitiam lasers de neon, e a porcaria ficava girando vertiginosamente, apontando para todas as direções. Os sons eram ainda piores, a música alta nos nauseava, confundia nossos sentidos e azedava nosso humor. Lá pelas tantas, um otário mexeu com Claire, dizendo alguma gracinha em seu ouvido, e para azar do filho da mãe, Matt viu. Ninguém soube muito bem o que aconteceu a seguir, nem como o cara sobreviveu. Tudo que as pessoas sabiam é que, quando enfim eu e Kyle conseguimos arrancar Matt de cima do pobre coitado, ele parecia ter saído de uma máquina de retalhar macarrão. “Matt nunca teve controle, Ian”, Kyle murmurou, um monge, “E não vai ter a mina de ninguém lá, só a Lianne, e eu me garanto com ela.” Algo naquele argumento me deixou em alerta, mas não entendi de imediato porque. Fui entender muitas horas mais tarde, quando Kyle parou a Dodge em meio à confusão de carros estacionados no descampado aos pés dos rochedos, na fronteira de Yukon. Eu, Kyle, Ethan e Matt descemos ao mesmo tempo, batendo as portas quatro portas em sincronia. Num lugar como Whitehorse, cujas opções de diversão se resumiam a pubs que ficavam às moscas e cinemas improvisados no estacionamento do Walmart, o Espelho, como eram chamados os rochedos da fronteira, serviam de casa noturna. Os motivos eram óbvios: era longe o bastante da cidade para que o som alto não atraísse a polícia e a parede de pedra era


esticada o suficiente para ecoar a música, espalhando-a sobre a plateia. Caminhamos em direção à multidão que pulsava mais adiante. Atrás das pessoas, o paredão de rochas esbranquiçadas se erguia, cintilando à luz da lua como uma lâmina. Eu soube que ela estava ali antes mesmo de vê-la. A noite trouxe seu cheiro doce e suave até mim, como a última nota de um violino se perdendo no ar. Meu subconsciente chutou meu traseiro, xingando-me por não ter imaginado que ela era uma universitária e, portanto, frequentava as festas da Yukon. E não vai ter a mina de ninguém lá. Passei a mão pela nuca, amaldiçoando Kyle. Rondamos o perímetro, mantendo distância da aglomeração. Aqueles que nos reconheciam lançavam olhares curiosos, algumas garotas sorriam e uma delas ofereceu uma bebida para Matt. Tive pena dela quando ele passou o olhar por cima de sua cabeça como se ela fosse transparente. “Relaxem”, recomendou Kyle, tentando elevar a voz à cacofonia da música horrível e da gritaria. “Sejam discretos, pouca gente nos reconheceu. Sentiram alguma coisa?” “Vontade de vomitar”, respondi. “Eles estão aqui”, Ethan falou, os olhos perscrutando a multidão, “Merda, um deles tem um cheiro escroto pra cacete.” “Vou procurar a Lianne. Encontro vocês em um minuto”, Kyle se afastou com o celular na mão. Ao lado da pista, num palanque improvisado, um DJ agitava as mãos, instigando as pessoas a se divertirem. Do outro lado, havia uma tenda


imensa de bebidas decorada com filtros de sonhos. Aqui e ali calouros circulavam com uma cabeça de lobo enfiada até os ombros; esse era o trote padrão que os veteranos da Yukon aplicavam em suas vítimas, um modo vulgar e ofensivo de sacanear as lendas de Whitehorse, mas, ao que tudo indicava, as pessoas gostavam, porque estilizavam suas cabeças lupinas com lacinhos e cartolas. Os mais irreverentes incrementavam a fantasia com uma capa vermelha e uma cesta. Enquanto olhávamos para a pista, a voz animada do DJ sobrepôs-se à música: “Senhoras e senhores, veteranos e calouros da Yukon, vejam quem veio nos prestigiar: deem as boas-vindas para os irmãos Lycan!” Ele apontou o dedo na nossa direção, e a profusão de cabeças se voltando para nós teve o mesmo efeito de um holofote sendo enfiado bem no meio do nosso rabo. “Caralho”, Ethan resmungou, desviando o olhar como se não fosse com ele. “Maldito filho da puta”, Matt rugiu baixo. As pessoas gritaram e aplaudiram, milhares de rostos desconhecidos se distorcendo sob a pulsação das luzes. “Puta que pariu”, olhei para os lados quando Ethan avançou e se embrenhou em meio à massa de corpos. Devia ter pelo menos umas cento e cinquenta pessoas ali se acotovelando, se abraçando, se esfregando. Eu mal conseguia respirar com a possibilidade de me esgueirar no meio daquilo. “Você já fez coisas piores”, Matt bateu nas minhas costas com um sorrisinho sombrio ao seguir atrás dele. Tomei fôlego e andei até a pista. Foquei na parte de trás da cabeça de Matt,


que seguia Ethan, o que tinha o olfato mais refinado do bando. Pés pisavam nos meus, braços esbarravam em mim. Usávamos jaquetas para proteger o contato com a pele, mas mesmo essa precaução extra não anulava a sensação de sufocamento; corpos uniam-se diante de mim, fechando a passagem, e eu tinha que afastá-los. Cada encontrão, cada toque, mesmo por cima do couro grosso, me deixava zonzo. “Ethan”, chamei alto por sobre a barulheira. Projetei minha voz grave o máximo que consegui, o que atraiu a atenção de duas garotas que dançavam perto. Uma delas se meteu na minha frente, sorrindo. “Você tem uma voz sexy”, quando ela se apoiou em mim para falar no meu ouvido, aquilo foi demais. Eu a empurrei para o lado num reflexo brusco; a garota tropeçou nos saltos e caiu nos braços da amiga. Eu olhei para ela por sobre o ombro, murmurando um pedido ríspido de desculpas que ficou entalado na minha garganta. Elas me olharam com mágoa nos olhos maquiados, como se eu fosse um machista cretino. Pela segunda vez naquela noite, desejei matar Kyle. Voltei a atenção para frente e então eu havia perdido o rastro de Matt. Parei e girei nos calcanhares, olhando em todas as direções, forçando a vista através das mãos estendidas no ar e os flashs pulsantes sobre a pista. Apurei o olfato, mas era difícil filtrar o cheiro de nossa espécie entre tantos odores diferentes. De tanto me virar de um lado para o outro, comecei a ficar realmente mal. Mãos me puxavam. A música me ensurdecia. Alguém agarrou a parte de trás da minha jaqueta, me tirando do meio do caminho, eu rosnei em resposta, prevendo o pior prestes a acontecer. “Vocês estão se divertindo?”, a voz do DJ reverberou pelo espaço sobre


nossas cabeças, e as pessoas urraram em resposta, “Vou fazer uma pausa de vinte minutos, mas a festa vai até a última pessoa vomitar arco-íris!” Mais ovações e então ele diminuiu o volume da música, abafando a batida eletrônica sob um rap pesado. As pessoas começaram a dispersar. Procurei meus irmãos, mas o que vi desviou totalmente o meu foco. Uma cabeleira ruivo dourado se movendo à distância. Reconheci os gestos dela e os contornos do corpo. A garota do Baked usava uma calça jeans escura e justa que deixava as pernas compridas e os quadris esguios em evidência, botas sem salto e uma blusa de mangas compridas azul escura. Por uma fração de segundos, só enxerguei ela de costas. Até que um braço musculoso envolveu seus ombros estreitos. Derek. Eu conhecia aquele babaca de vista. Andava sempre com os caras mais velhos da Yukon, jogava no time de hóquei e gostava de desfilar pela cidade com a coleção de carros de luxo do papai. Ele nunca foi nada além de lixo para mim, até agora. Antes que pudesse reagir, ela virou de repente a cabeça, olhando para trás por sobre um ombro. Como se algo nos conectasse, seu olhar atingiu o meu. Não pode ter durado mais do que milésimos de segundos, mas um milhão de estrelas cadentes cortaram o céu até que Kyle bateu com a palma da mão na minha coluna. “Ethan os encontrou.” Nos afastamos da pista. Algumas pessoas se reuniam ao redor de uma fogueira, e foi fácil identificar o bando desgarrado: roupas como trapos, aparência deslocada, reflexos brancos nas retinas. Eram três, e Kyle dera o palpite certo: estavam perdidos.


“Não existe dominação”, Ethan nos informou, olhando para outra direção com uma cerveja na mão enquanto fingia jogar conversa fora, “Eles estão sozinhos.” “Pode haver um líder”, ponderou Matt, observando-os abertamente. “Não. Se existe, ele os abandonou. Estão com medo, está no cheiro.” “Olha só para eles”, eu observei, “Pequenos e abaixo do peso. Estão todos no primeiro ano.” “Não me venha com caridades”, resmungou Ethan, bebericando a cerveja com as sobrancelhas erguidas. “Porque eles foram abandonados?”, perguntei para Kyle. Ao lado dele, Lianne cutucava no celular, forçando-se a ficar alheia à conversa. Essa era uma das razões pela qual eu a aceitava na família; ela sabia fingir que não existia. Kyle deu de ombros antes de responder: “Vai saber. Não existe uma relação de prole ou coisa do tipo, é só uma responsabilidade agregada. Não é fácil criar um bando, principalmente se você não tem nada a ver com isso.” Nós quatro ficamos em silêncio. Nascer de uma loba e ter que se virar num mundo que ia de encontro à nossa natureza podia ser traumatizante. Na nossa condição, quem se transformasse primeiro era o pai dos próximos. Querendo ou não. Eu não culpava meus irmãos por serem como eram quando nem eu mesmo conseguia lidar com isso. Assim como não podia culpar o cara que havia abandonado aquele bando. Matt acendeu um cigarro e soprou a fumaça no ar gelado. Do outro lado da


fogueira, os Garotos Perdidos nos encararam. Dois deles nos fitaram com raiva, o outro, o que aparecia nas fotos de Lianne, arriscou um aceno amistoso. Kyle o encarou sério antes de virar as costas e se afastar com a namorada. EVELYN Eu tinha que admitir: aquela festa era louca. Nada assim seria possível em Nova Iorque. Para começar, eu nem lembrava de um dia ter realmente visto o céu em Manhattan. A primeira coisa que fiz ao descer do carro de Rose foi olhar para cima – a via láctea descia pelo firmamento formando um rastro de estrelas, o centro emitindo uma delicada luz perolada pulsante. Eu havia discutido com Rose, inventado desculpa para não ir à festa, mas agora sentia vontade de chorar de gratidão. Uma coisa era ver a via láctea pelas fotos da Scientific American, outra bem diferente era vê-la acima da minha cabeça, brilhando em cores vivas. Mas a empolgação durou pouco. Rose pegou minha mão e me arrastou para a pista. A maioria das pessoas já estava bêbada quando chegamos, pulando no ritmo da batida acelerada de Prothotypes, e eu me sentia deslocada e careta, até que Derek empurrou um copo de cerveja na minha mão. Eu detestava cerveja, mas precisava fazer alguma coisa a meu favor. Entornei o copo em três goles, arrancando palmas de Rose e uma piscadela de aprovação de Megan. Consegui ficar numa boa apenas com aquele copo, mas Megan e Derek foram mais longe. Depois de quatro rodadas, Megan já estava rebolando na


pista, esticando as unhas compridas na direção no peitoral de Derek. Saí com Rose para retocar a maquiagem num dos retrovisores dos carros. Na verdade, foi uma deixa para que Megan e Derek se agarrassem, o que seria providencial. Rose destampou o batom cor de rosa e o passou nos lábios. Eu encostei no carro ao lado dela, incapaz de parar de olhar para o céu. “Nunca estive num lugar tão incrível.” “Isso é porque você está apaixonada, e não é pelo meu irmão.” Endireitei a postura, franzindo a testa para ela. “Quer saber? Isso é muito insensível da sua parte.” Rose fez biquinho para espalhar a cor, guardou o batom e colocou as mãos na cintura. “Evy, desde que os irmãos Lycan entraram no Baked, seu cérebro virou do avesso.” Eu abri a boca, indignada. “Está errando os pedidos o tempo todo. Mal enxerga os outros caras na sua frente, na verdade, não enxerga ninguém! E agora está toda ‘que lugar lindo, a lua, as estrelas...’”, ela deu uma risadinha. Meus ombros cederam, “Eu só quero um nome.” “Nem morta.” “Qual dos três?” “São cinco.” “Dois não contam”, ela balançou a cabeça e se recostou no carro perto de


mim, virando o rosto para cima e me fazendo companhia, “Matt Lycan é uma ovelha negra, e tem aquele outro, o mais novo, que vai ser a perdição em pessoa quando crescer, mas agora está fora do circuito. Seja qual deles for, não faça isso consigo mesma.” “Isso o quê?” Rose suspirou, o hálito morno formando uma fumacinha na brisa gelada que espiralou para cima. “Nenhum deles vai ser seu namorado dos sonhos.” “Não quero um namorado.” “Você é nova na cidade, então escute o que estou dizendo: esses caras são agressivos. Tem alguma coisa neles, uma raiva, uma violência... Você não vai querer nenhum deles na sua vida.” Voltamos para a pista. Megan e Derek tinham parado de dançar e conversavam animados perto do bar; o sorriso de Derek se alargou quando viu que eu me aproximava, seu braço pesado me puxou para perto, e toda a animação de Megan morreu na hora. Ela estava no meio de uma frase, mas então fez uma careta de desdém, balançou a cabeça e puxou assunto com Rose. Foi aí que eu o senti. Virei a cabeça para olhar para trás na direção da força que me atraia. Mal consegui raciocinar quando me deparei com Ian Lycan parado no meio da pista que esvaziava, parecendo um monte de coisas ao mesmo tempo, menos à vontade. Um cara surgiu atrás dele e disse algo que o fez quebrar o contato visual e se virar para ir embora, me deixando desolada debaixo do braço de Derek, com o coração disparado. Depois disso, a festa se arrastou. As pessoas voltaram para a pista, Derek tentou me puxar para dançar, mas dei a desculpa de que não estava me


sentindo bem. Fiquei nas proximidades, sentada numa pedra larga onde um casal se beijava na outra extremidade, dando risadinhas e gritinhos excitados que eu fingia ignorar. Quando cansei, comecei a andar em direção aos carros. Minha intenção era deitar no teto de um deles e ficar olhando as estrelas até que Rose e Derek se cansassem e decidissem que era hora de voltar para casa com Megan, mas uma presença na minha visão periférica atraiu minha atenção. “Ei, você!”, eu já estava chamando antes de me conter, mais por culpa do meu sangue quente do que pela bebida. Ele se virou. Na escuridão, seus olhos claros emitiram um brilho metálico como madrepérolas negras. Observei em transe sua aproximação, o modo como ele se movia era predatório, e isso mexia comigo como se ser perigoso o tornasse sexy. “Você é...”, ele franziu a testa, “A garota do Baked?” “Você sabe quem eu sou”, agora que estávamos cara a cara e ele me encarava do alto de seus quase dois metros de altura eu não sabia o que dizer. Limpei a garanta e ergui o queixo, “Você me perguntou que horas eu saía, lembra?” Ele assentiu, a expressão indecifrável. Eu quase perdi a pose olhando para ele; havia confiança em sua postura, no fato de que ele não escondia as mãos nos bolsos, não desviava o olhar e não forçava sorrisos. Aquilo me desestabilizou por um momento, mas meu orgulho levou a melhor: “Eu fiquei esperando.” Ian hesitou, confuso, mas retomou a guarda depressa. “Esperando o que?”


“Esperando o que?”, bufei, e levei alguns segundos até conseguir fechar a boca, “Você com certeza está se achando, não é? No seu mundo de caras hipócritas e machistas, saber que deixou uma garota plantada na calçada pensando em você é o ápice da vaidade! Vocês são tão arrogantes!” “Você ficou...?” “Sim, eu estava pensando em você, seu idiota!”, avancei um pouco mais e ele ficou rígido como pedra, os olhos arregalando-se devagar, a frieza calculada dando lugar a uma expressão perdida. Era cruelmente delicioso e chocante saber que eu, uma garota pequena, podia intimidá-lo, “E não, não vou fazer joguinhos, então, se quer saber, você foi o único cara que me fez esperar porque, por alguma razão estúpida, eu achei que valia à pena! E estou sendo ridícula em confessar, mas que se dane, eu...” “Hey, hey!”, a voz de Derek nos sobressaltou. Ele vinha sozinho, sem Rose ou Megan, com um copo de cerveja oscilando na mão. Os passos eram incertos e o sorriso debochado estava ali, ainda mais vaidoso depois de uma camada de álcool por cima. Seu braço tornou a recair sobre meus ombros e eu cambaleei tentando sustentá-lo, “Olha só quem está aqui, Ian Lycan!” Derek ergueu o copo em deferência. Ian o encarou como se pensasse na melhor maneira de estripá-lo. “Atrapalhei alguma coisa?”, Derek olhou de mim para Ian, o sorriso dando lugar a uma carranca esquisita. Passei o braço ao redor da cintura dele para equilibrá-lo, meus joelhos vergando sob seu peso. “Você está machucando ela.” Derek voltou a atenção para Ian, o olhar subitamente sóbrio. Um sorriso maldoso se abriu em seus lábios e ele magicamente recuperou a lucidez e ficou ereto.


“E o que você tem com isso, babaca?” “Derek”, falei em tom de aviso, mas quando achei que a coisa ia ficar feia, ele irrompeu numa gargalhada cacarejante. “É brincadeira, cara”, e então Derek cometeu um erro. Foi rápido demais para que meu cérebro pudesse processar uma reação; o irmão de Rose estendeu a mão para dar palmadinhas no ombro de Ian, e embora Derek fosse duas vezes mais largo que Ian, seu corpo já estava no chão antes que alguém pudesse gritar TKO. Derek gemeu, apalpando o queixo como se não esperasse encontrá-lo mais ali. Eu arregalei os olhos para Ian, sem saber ao certo o que pensar. “Qual é o seu problema?!”, gritei para ele, me agachando ao lado de Derek para ajudá-lo. “Sinto muito”, Ian recuou alguns passos, olhando fixamente para mim, e eu imediatamente soube que ele não estava falando de Derek. Naquela fração de segundo, rápido demais para sequer guardar na memória, ele se deixou revelar para mim. Meu coração encontrou um ritmo próprio, como se seguisse um padrão misterioso que nos mantinha conectados. Pessoas nos cercaram, quebrando nosso contato visual, e eu pisquei atônita, voltando à realidade; Rose e Megan surgiram ao meu redor e com a ajuda de outros caras enfim conseguimos rebocar Derek para a Picape. Fui no banco de trás com a cabeça de Derek no meu colo. Um fio de sangue escorria pela lateral de sua boca, o soco pareceu chacoalhar o álcool no cérebro dele e tivemos que encostar duas vezes para que ele vomitasse. O que eu tinha visto em Ian? Ou melhor, o que ele havia mostrado para


mim? Medo? Desejo? Culpa? Eu não sabia o que interpretar, mas me sentia lisonjeada por causar reações tão intensas em sua alma congelada. “Durma comigo essa noite”, o irmão de Rose lamuriou-se, puxando o pingente no final do meu cordão comprido, “Preciso de cuidados.” “Cala a boca, Derek”, afastei a mão dele e olhei pela janela, perdida em pensamentos.


CAPÍTULO 8 IAN O BLUE MOON FAZIA parte do legado de Paul para Kyle. Era um bar no subúrbio da cidade, perto da zona industrial, um galpão sujo e obscuro que reunia nas madrugadas dos fins de semana a clientela mais esquisita num raio de vinte quilômetros. Viciados, maridos de saco cheio da esposa, calouros e veteranos da Yukon que achavam as festas n’O Espelho caretas demais e dançarinas cujo gênero era duvidoso. Junto com o bar, Paul deixou dívidas e contatos do submundo. Kyle tentou se desfazer da coisa toda quando entendeu no que estava se metendo, mas já era tarde. Sair daquele buraco de tráfico e dinheiro fácil não é tão simples como ele gostaria que fosse. Com o passar dos anos acabamos nos conformando com o fato de que, querendo ou não, tínhamos um antro de libertinagem para administrar. Kyle acabou se mostrando menos santo e mais ágil nos negócios, mais esperto e sensato do que Paul, de modo que enfim nos livramos das dívidas e começamos a fazer dinheiro. Muito. Depois da merda com Derek, aportamos no Blue Moon para esfriar a cabeça com cerveja gelada em meio à névoa de charuto e cigarro ao redor das mesas de bilhar. Eu joguei uma partida com os caras, mas depois larguei o taco num canto e fui sentar no balcão. Minha mão ainda doía pelo encontro suave com o queixo de Derek, mas a satisfação de tê-lo arrebentado era gratificante. E isso não tinha nada a ver com o que eu era. “Boa noite, Ian”, cantarolou Alex.


Ergui os olhos da minha cerveja para a bartender do outro lado do balcão. Alexia Carlton usava hoje um top de vinil preto cujas alças sumiam por debaixo da cabeleira negra e ondulante. Sob o reflexo das luzes negras acima das garrafas de tequila, os olhos azuis dela brilhavam como plâncton no mar noturno. “Alex”, encarei aquelas duas bolas de neon ao virar um gole da cerveja. “Começamos bem”, ela sorriu ao ver a vermelhidão nos nós dos meus dedos. Suas mãos ágeis enxugavam copos e os enfileirava sobre o balcão. Apenas assenti. “Algo está incomodando Ian Lycan”, Alex insistiu, mas eu estava ok. Ela era uma das poucas que conseguia me azucrinar a paciência sem receber uma grosseria em troca. Alexia era uma boa garota, estudava para pagar a faculdade de direito, estava sempre de bom humor e não arrumava casinhos durante o trabalho, por mais que os caras forçassem com ela. Os pais morreram num acidente de carro quando ainda era adolescente, e ela teve que começar a vida do zero enquanto cuidava do irmãozinho de nove anos. À primeira vista, Alex parece o tipo de garota fácil e vulgar que tem aos montes por aí, por causa das roupas que veste e da maquiagem pesada, mas eu já a vi enfiar os saltos nas bolas de um idiota que tentou agarrá-la à força nos fundos do estacionamento. Três dias depois, quando encontrei o infeliz numa loja de conveniência, ele ainda andava aberto. “E deve ser sério”, ela alinhou o último copo diante de mim e cruzou os braços, “Porque ainda está me ouvindo tagarelar e você não é desse tipo, hum? Tudo bem, é o seguinte, meu boleto da faculdade chegou hoje, penhorei a última joia da minha mãe para pagar, estou de TPM e preciso conversar, e adivinha só, você será a vítima da noite.” Eu torci a boca para o lado.


“E espere aí, vi um sorriso? Ian Lycan está sorrindo, o que é isso, minha gente, ação de graças?” “Pegue suas coisas, Alex. Seu expediente acabou.” Ela sumiu para os lados da administração e quando voltou dez minutos depois com a bolsa pendurada num ombro e o cabelo preso num rabo de cavalo, acenou para meus irmãos e saímos. Não havia nenhum lugar atraente para passear às quatro e meia da manhã por aquela região, então apenas andamos a esmo na noite, os pés chapinhando no cascalho branco ao luar. Fazia frio, e Alex abraçou o próprio corpo enquanto andávamos devagar. “Quem começa primeiro?”, ela perguntou. “Você.” “É claro”, ela suspirou, “Estou de saco cheio. De trabalhar e estudar ao mesmo tempo, de estar sempre cansada e sem paciência. Estou cansada de ser fodida financeiramente e levar cantadas enquanto tento ganhar dinheiro para pagar meu aluguel.” “É um pedido de demissão?” “É, com certeza”, Alex encolheu os ombros, “Como se eu tivesse escolha.” “Não é muito inteligente dizer isso para o seu chefe.” “Você não é meu chefe. Kyle é.” “Então é um pedido de aumento.” “Seria interessante.” “E o que mais?” Ela ergueu os olhos para mim em expectativa.


“Ah, bem. Se você pudesse... Se conseguisse... oh, droga.” Fiquei desanimado. Já sabia o que viria a seguir pelo modo como ela me encarava, suplicante, os olhos excessivamente azuis transbordando de esperança, mas eu não podia fazer nada a respeito. “Essa é uma batalha perdida, Alex. Esqueça.” “OK”, ela apertou os lábios, mas não desistiu, “Parece estúpido, eu sei, mas ele precisa sair dessa. Acho que se conhecesse a garota certa...” “A garota certa era Claire. Desculpe, Alex, mas é assim. Matt não tem nada para oferecer a você.” “Deviam dar mais crédito a ele. Sabe de uma coisa? Eu nunca levei a sério isso que dizem sobre vocês, essas fofocas idiotas de que guardam um segredo horrível e tal, mas, sinceramente...” “Cuidado, Alex”, o tom em minha voz a calou, “Posso não ser seu chefe, mas sou irmão dele.” Ela engoliu em seco, desviando do assunto. “Bom, sua vez.” “Eu não disse que ia confessar nada.” “O que houve com sua mão?” “O queixo de um babaca caiu em cima dela.” “Esse queixo andou próximo de uma boca feminina?” “Nada de garotas, Alex.” “Sei”, ela olhou para o alto como se estivesse ponderando, “Devo ficar calada quanto a isso também? “Aconselho a...”


“Ela estava na festa? Ouvi Ethan comentando sobre uma festa n’O Espelho.” “O que a faz achar que uma garota tem a ver com isso?” Alex parou de andar e ficou de frente para mim. Agora que eu estava reparando ela parecia mais magra que o normal, com os ombros ossudos despontando sob a pele branca e olheiras surgindo por debaixo da camada de corretivo. Longe das luzes do Blue Moon, os olhos dela não tinham brilho. “Caras que não sabem lidar com o que sentem por uma garota muitas vezes se tornam agressivos. É um mecanismo bem primitivo.” Fiz um ruído de deboche, mas no fundo sabia que estava certa e que eu precisava contornar a situação antes que ela fugisse do controle. Voltei até o bar para pegar as chaves da Dodge com Kyle e levei Alexia em casa. Esperei até que ela entrasse e fechasse a porta, então liguei para ele. “E aí.” “Dê um aumento para ela.” “É mesmo?”, ao fundo, o som de um taco se chocando com uma bola e as outras se espalhando pela mesa, “Tenho que checar as finanças.” “Não seja idiota, temos de sobra. Um aumento de pelo menos cinquenta por cento. E preste mais atenção nos seus funcionários, porra. Não queremos zumbis trabalhando para a gente, queremos?” “Não, cara. Não queremos.” “Existem outras pessoas no mundo além da Lianne”, desliguei sem me despedir. Se estar com uma garota significava ser alheio ao mundo, eu tinha mais um motivo para evitar Evelyn SaintClair. Apesar disso, manobrei pelas ruas da cidade até a casinha vermelha à beira


do lago. Todos nós sabíamos aquele caminho porque ele ficara gravado em nossas lembranças de animal, era instintivo, o lugar para onde íamos quando precisávamos comer – a casa de Jenna. Amanhecia, e o ar ainda tinha cheiro de orvalho. O Corolla vermelho estava estacionado diante da casa e tudo ao redor parecia tranquilo e sereno. Desci do carro e andei até o deck. A madeira úmida rangeu sob meus tênis, perturbando o silêncio sagrado do alvorecer. Ela estava em casa, eu podia sentir por causa da energia que nos envolvia; minha pele ficou sensível, eriçada, minha pulsação mudou como se tentasse encontrar a sincronia da dela. Vaguei ao redor da casa como uma mariposa tentando chegar ao centro quente e iluminado de uma lâmpada. Tinha alguma coisa muito errada acontecendo comigo e talvez o melhor a fazer fosse ceder de uma vez. Quando tomei essa decisão, o lobo em mim espreitou, nada satisfeito.


CAPÍTULO 9 EVELYN PASSEI A TARDE NO Baked errando os pedidos. Queria colocar minha mente no modo automático e simplesmente cumprir meu expediente, mas não era boa em me “desligar” e Chloe já estava ficando nervosa com as reclamações dos clientes: “Eu pedi um expresso simples e isso aqui está com gosto de baunilha.” “Era sem chantilly.” “O que tenho que fazer para comer um maldito waffle sem mel?” “Não vou pagar por isso!” Será que aquelas pessoas não podiam se esforçar para ter um pouquinho de paciência? Era pedir muito? Santo Deus! Rose e Megan iam encontrar com uns caras depois do trabalho e me chamaram, mas mesmo antes de saber que Derek estaria entre eles eu dei uma desculpa qualquer para ir para casa. A van de Carl estava estacionada do lado de fora da casa de Jenna. Parei o Corolla de frente para ela, sem me preocupar muito em não ser espaçosa, e rezei para não interromper nada na sala. Mas então me lembrei de que Jenna e Carl eram adultos, pessoas sensatas e contidas e que o tipo de cena que eu esperava condizia mais com dois adolescentes. Por uma fração de segundos me vi no sofá da minha casa embaixo de Ian, e minha mãe chegando de repente, nos flagrando e derrubando no chão as compras da semana. O pensamento foi tão engraçado quanto quente, mas o suprimi depressa porque não queria que Jenna me visse com cara de boba quando eu entrasse em casa.


Ela estava na cozinha preparando uma salada enquanto Carl lhe fazia companhia sentado no banquinho do balcão, com duas taças de vinho pousadas ao lado de seu cotovelo. Ele acenou para mim enquanto eu pendurava meu casaco no vestíbulo. “Oi, querida!”, Jenna deu um de seus sorrisos radiantes. Estava corada e sua pele tinha um brilho bonito, e não soube se era por causa da agitação da cozinha, do vinho ou por Carl, “Lizzie acabou de ligar.” Servi uma taça de vinho para mim. Então larguei a bolsa na mesinha de centro e me encarrapitei no sofá. Apanhei o telefone sem fio ao lado e disquei para ela. Ela atendeu no primeiro toque, e tive a impressão de que estava de tocaia ao lado do telefone. Quase pude imaginá-la em nossa sala lendo uma revista com Marie no colo. “Noah está surtando aqui sem você”, ela confessou depois que trocamos algumas banalidades, “Ele veio passar o fim de semana comigo.” Fiz um barulhinho suave com a garganta. Não entendi como me passou pela cabeça que eu conseguiria ficar tanto tempo longe dele. A rotina em Whitehorse era corrida demais para me dar conta da saudade que eu sentia do meu irmãozinho, mas ela veio com tudo assim que ouvi a voz da mamãe. Depois ela colocou Noah na linha. “Oi, mana”, sua voz soou descontraída. “Oi, monstrinho. Contando os dias?” “Na verdade, nem um pouco. Vou ficar um mês longe do meu Xbox”, ele suspirou tristemente, “Mas pelo menos a tia Jenna contou que nas montanhas tem competições de trenós nos festivais de verão, com cães e tudo! É verdade que dá para ver auroras bonais?” “Boreais”, corrigi com ternura, “É, dá, mas só em certas épocas do ano.”


“Caramba”, ele parecia impressionado, “Você já viu os lobos? Jenna disse que você tem medo deles.” Aquilo soou como uma provocação maliciosa, e estreitei os olhos para o telefone, imaginando que o motivo de Jenna dizer isso era eu ter abandonado o carro dela na neve por causa do lobo mal encarado. Bufei. “Bom, me desculpe se sou uma garota e estava sem nenhuma arma no momento”, ironizei, sabendo que ele entenderia muito bem, “Porque, pelo que tenho visto, as pessoas aqui resolvem seus problemas com os lobos atirando neles.” “Parece uma solução simples”, a voz de Noah era inexpressiva, quase desanimada. “Claro”, suspirei. Afinal, eu estaria sendo hipócrita se defendesse a selvageria humana. Eu realmente tinha desejado ter uma arma na hora, por puro impulso, “Mas eles só aparecem no inverno. Os menos quinze graus do verão de Whitehorse é muito quente para eles.” “Estou vendo que vai ser um saco”, lamuriou-se Noah, mas não parecia tão chateado quando queria fazer crer. A conversa se estendeu por quase meia hora, e depois ele devolveu o fone para mamãe, que me contou sobre as novas peripécias do meu pai (estava saindo com uma garota da minha idade, o que era um exagero, eu sabia. Ela devia ter no mínimo uns vinte e cinco, o que já era bem menos do que mamãe), depois falou um pouco sobre os acontecimentos no escritório e eu contei a ela sobre o que andava fazendo em Whitehorse. Não havia muito a acrescentar desde a última vez que nos falamos, a não ser a obsessão cada vez mais maluca que eu nutria por Ian, mas deixei isso de fora da conversa. Quando desliguei, Jenna tinha subido para o banheiro e Carl me observava com um ar intrigado.


Ergui as sobrancelhas para ele, meio desconcertada. Ele franziu a testa e se endireitou no banquinho. “Sabe, sua voz é muito tranquila, Evy”, ele disse, como se isso fosse um dom raro, “Nunca tinha reparado nisso.” “Ah”, foi minha resposta criativa. Ele balançou a cabeça e sorriu um pouco. “Falei isso porque tenho um... um amigo que sofre de dores de cabeça terríveis e tem alergia a qualquer analgésico. Estava pensando se a sua voz...”, ele franziu a testa de novo, e então fez uma pausa, “Acho que sua voz pode aliviá-lo.” “Minha voz?”, eu sabia dos métodos pouco ortodoxos que Carl usava com seus pacientes, como cantarolar para animais doentes, deixá-los ouvindo música clássica no volume baixo e colocar bichinhos de pelúcia perto dos filhotes em reabilitação, mas envolver minha voz no meio do esquema me pareceu um tanto duvidoso. “Ela tem um timbre realmente muito calmo”, ele afirmou, “Se importaria se tentássemos? Ele está sofrendo muito.” Mordi o lábio. Não podia negar ajudar alguém, mesmo que a ideia fosse meio louca. “Claro...”, murmurei, “Porque não?” “Posso passar amanhã de manhã para buscar você? Umas nove horas, está bom?” “Tudo bem.” Carl lançou um olhar para a escada.


“Mas não conte para Jenna”, ele falou tão baixo que tive de fazer leitura labial, “Pelo menos por enquanto.” No dia seguinte, acordei pensando em Ian e atirei o travesseiro na parede. Definitivamente eu não tinha o menor talento para ser uma garota apaixonada – não ser dona dos meus próprios pensamentos e das minhas vontades me deixava de mau humor. Sua atitude suspeita na noite anterior despertou emoções conflitantes dentro de mim – ele tinha sido rude como sempre, mas descobri que havia algo por trás disso. Ele não era indiferente a mim, pelo contrário. Eu o afetava mais do que imaginava, só faltava descobrir o porquê. Carl chegou quinze minutos atrasado, e desconfiei que estava esperando Jenna sair para sua corrida matinal. Quando me aproximei do carro, ele desceu a janela e falou: “Pegue um livro.” “Um livro? Que tipo de livro?” “Qualquer um!” Voltei para casa e apanhei um exemplar de uma coletânea de Allan Poe. Era de Jenna, mas eu tinha a mesma coletânea no meu quarto em Nova Iorque e por alguma razão me pareceu a escolha certa na hora. Estava prestes a enfiá-lo na bolsa quando algo deslizou por entre as folhas e caiu no chão, aos meus pés. Apanhei o que parecia um pedaço de papel dobrado em quatro partes, com manchas amarelas do tempo salpicando a superfície. Olhei sem entender. Reconheci como sendo um documento, com selos e brasões e, no centro, o que se assemelhava a uma árvore genealógica, a tinta preta da impressão desbotada em alguns nomes. Num vislumbre rápido, não reconheci nenhum deles. “Evelyn!”, Carl berrou lá de fora, “Estamos atrasados!”


Dobrei o papel outr avez, empurrando-o de qualquer jeito entre o dorso de um livro e outro, saí com pressa e fechei a porta atrás de mim. Atravessamos Whitehorse na direção oeste, passamos pelos condomínios luxuosos da região e adentramos uma área meio erma e tomada por pinheiros que ladeavam a estrada. Carl pegou um atalho estreito e saímos um quilômetro depois numa área aberta. Cercada pela floresta, havia uma casa pequena de madeira com janelas e portas simples e uma coleção de motos pretas estacionadas na frente, além de uma picape Dodge imensa e reluzente que imaginei ser um Transformer disfarçado. Senti um calafrio percorrer meu estômago. “Evy”, Carl me chamou assim que desligou o carro, “Pedi para você não falar nada para Jenna porque ela conhece as pessoas que moram nessa casa e não gosta muito delas. São os...” “Irmãos Lycan”, engoli em seco. “É. Você já sabia?” “Acabei de descobrir”, encarei a RD350 parada sobre o cascalho. A tarde em que os irmãos Lycan haviam atrapalhado meus estudos com Amber ao chegarem em suas motos barulhentas parecia ter acontecido em outra vida. “Mas eles são garotos bons, ao contrário do que todo mundo fala”, olhei para Carl, e ele estava descontraído. “Para quem eu vou ler?”, fiz a pergunta que estava fazendo minha língua coçar. “Liam, o mais novo.” Isso me deixou aliviada, mas também preocupada. Aquele garoto de olhos grandes e sinceros que havia levado um tapa do irmão por encarar o


traseiro de Rose... Esperava que ele não fosse um adolescente imprevisível e irritante. Destravei o cinto de segurança e desci do carro. Atravessei o pátio coberto de pedrinhas brancas e areia, e elas estalaram embaixo dos meus tênis com ruídos secos no silêncio em suspenso da manhã. Estava muito quieto, nenhum som vinha de dentro da casa, nada de ruídos de televisão, música, risadas ou conversas. Era como se do outro lado da porta todos também prendessem a respiração. Parei há alguns metros da soleira. “Você contou a eles?”, perguntei a Carl. A tensão em minha voz me fez sussurrar sem querer. “Sim. Hoje.” Então eu era esperada. Mas isso não queria dizer convidada. Dei um passo adiante e me posicionei. Vi Carl esticar o braço e estalar três batidas na madeira ressecada da porta, que ecoaram as batidas do meu coração. Ela foi aberta devagar, como se o anfitrião estivesse decidindo se queria mesmo fazer isso, e reconheci de imediato o garoto por trás dela, o ruivo com o nariz bonito. De perto havia mais detalhes em seu rosto que eu não tinha reparado antes: lábios um pouco descorados e sobrancelhas claras franzidas sobre um par de olhos da cor do mar no inverno, envoltos por um halo azul cobalto. Que me fixaram longamente, sem interesse. “Oi, Ethan”, Carl passou por mim e pelo garoto, dando uma palmadinha em seu ombro ao desaparecer na escuridão da casa. Ethan sequer piscou. Carl falou gentilmente por sobre o ombro: “Entre, Evy.” Apesar do convite, Ethan não se moveu, e eu tive que virar de lado para seguir Carl. Quando fiz isso, a pele de nossos braços esbarrou e ele ficou todo tenso, como Ian tinha ficado quando Derek o tocou e do modo agressivo como reagiu. Será que era algum tipo de trauma coletivo?


A casa era menor por dentro do que parecia ser por fora, embora a mobília fosse escassa. Tirando um sofá de dois lugares encostado a uma parede e uma televisão de plasma gigante afixada na outra, com um Xbox conectado a ela, não havia mais nada na sala. Nenhum toque pessoal, um porta retrato, um quadro ou um vaso de plantas. Quando olhei ao redor, entendi porque a casa parecia tão apertada: os quatro caras parados no meio dela tomavam sozinhos todo o espaço disponível. “Ei, pessoal”, Carl os cumprimentou, e então parou de frente para eles e cruzou os braços numa postura estranha, como se fosse confrontá-los, mas sua voz continuou pacífica quando gesticulou para mim, “Essa é a Evelyn SaintClair, a garota com a voz bonita.” Ele sorriu, mas ninguém o acompanhou. Encarei os quatro grandalhões diante de mim. Se vestiam mais ou menos parecidos, com jeans surrados, tênis rotos e camisetas de cores escuras e sem desenhos ou logotipos, o tipo de roupa que uma pessoa escolheria se quisesse ser invisível, embora eu não concebesse como isso seria possível no caso daqueles caras. Apesar dos trapos, eram bonitos e bem cuidados, com cabelos bem cortados, maxilares musculosos, sobrancelhas atraentes e peles lisas e limpas, sem tatuagens ou cicatrizes. Havia um cheiro característico no ar, uma mistura curiosa de loção pós-barba, desodorante masculino, gasolina e biscoito de queijo. Encolhi os ombros e dei um aceno breve para eles. “Evelyn, esse é Kyle”, Carl indicou o Maior de Todos, de braços cruzados e encostado numa parede que dava para a cozinha. Kyle, o namorado de Lianne, usando uma jaqueta de couro sobre as roupas gastas, ergueu uma sobrancelha para mim, no que julguei ser seu modo mais simpático de dar boas vindas, “Aquele é Matt”, o cara loiro de barba foi apontado, e estava sentado numa cadeira na cozinha, atrás de Kyle, com os cotovelos apoiados


nos joelhos e as mãos cruzadas sob o queixo. Ele me avaliou dos pés à cabeça antes de encarar Carl sem um pingo de gratidão, “Ethan”, ele esticou o braço e deu outra batidinha no ombro do cara ruivo, e por fim maneou o queixo na direção de Ian, o garoto de olhar taciturno recostado no balcão da cozinha, em segundo plano, “E Ian.” Pensei que o ritmo de meu coração não podia ser mais desmoralizante, mas o jorro de emoções que senti ao ouvir o nome dele provou que eu estava errada. “Oi”, ele falou, e me surpreendi com o fato de alguém estar falando comigo naquela casa. Ele estava falando comigo. “Oi. Como vai?”, perguntei timidamente. Ian engoliu em seco e se remexeu inquieto. “Bem.” “Liam está no quarto”, Carl pousou a mão em minhas costas e me guiou para um corredor escuro. Meus olhos continuaram pregados nos de Ian, mas fiquei um pouco decepcionada por ele estar tão concentrado na mão de Carl que sequer percebeu. O quarto onde Liam estava era pequeno, tinha duas camas de solteiro bagunçadas, um guarda-roupa grande que ocupava uma parede inteira e uma janela pintada com tinta preta, sem cortinas. Sobre uma cômoda pequena havia livros e cadernos em pilhas organizadas, mas não reparei muito em mais nada além disso. Reconheci Liam deitado numa das camas. Carl acendeu um abajur na mesinha de cabeceira mais distante, graduando a claridade no mais baixo possível, e pude ver melhor seu rosto contraído pela dor. Um vinco profundo marcava sua testa e formava um v entre as sobrancelhas douradas. Ele estava de olhos fechados.


“Oi, Liam”, murmurei, sentando no banquinho que Carl posicionou ao lado da cama. Ele gemeu. Mordi o lábio e olhei para Carl. Ele lançou para mim um olhar encorajador. “Hum, reconhece minha voz?” Liam tentou me observar pela fresta dos olhos, mas tornou a fechá-los bem apertados depressa. Apesar disso, falou: “A garota do Baked? A do balcão...” Uau. Boa memória para alguém que deveria lembrar apenas do traseiro de Rose. “Carl é um amigo da minha tia Jenna e me convenceu a ajudar você. Disse que minha voz pode anestesiar sua dor de cabeça, já que os remédios não funcionam.” Liam apenas abriu a boca e respirou. “Você gostaria que eu lesse alguma coisa?”, perguntei. Ele moveu a cabeça minimamente, um não talvez. Olhei para Carl de novo. “Ele não tem muita noção literária”, Carl cochichou no meu ouvido, “Leia o que você trouxe.” “Ele não parece muito receptivo.” “Ele não está gritando. É um bom começo.” Virei-me para pedir mais explicações, afinal eu não estava preparada para lidar com o surto de um adolescente, mas Carl já tinha saído e encostado a porta devagar. Puxei o ar e olhei para Liam. Ele respirava depressa,


ofegante, o corpo pulsando no ritmo de sua enxaqueca. Abri minha bolsa e peguei o livro. Inclinei-me um pouco mais na direção dele. “Você já ouviu falar de Edgar Allan Poe?”, sussurrei, mas não esperei uma resposta, “Um poeta alemão que eu gosto muito. Vou ler algumas coisas dele para você, certo? Tente se concentrar na minha voz e nas palavras, tudo bem?” Liam parecia tão descrente quanto eu. Um gemido débil saiu de sua garganta. Arrisquei as primeiras tentativas, olhando de vez em quando para ele, mas aparentemente não havia nenhuma mudança. Minha voz podia ser calma e suave, mas não tinha nenhum efeito comprovadamente anestésico. E talvez não estivesse ajudando o fato de minha cabeça estar focada no que havia do outro lado daquela porta, no brilho amarelado por trás de olhos estreitados como fendas. Mas dei a mim mesma uma última chance antes de desistir e folheei o livro em busca dos meus poemas preferidos, deixando que as palavras rolassem pelos meus lábios devagar, como morangos sendo degustados. IAN Tínhamos feito uma votação depois que Carl sugeriu um tratamento para Liam. Matt votou não para Evelyn SaintClair. Ethan votou não para Evelyn SaintClair. Eu votei não para Evelyn SaintClair. Kyle se absteve. E, por alguma razão inexplicável, mesmo sendo três contra um, Carl ganhou e agora a garota estava na nossa casa, uma completa desconhecida bem embaixo do nosso teto. É claro, depois que Carl ressaltou incisivamente o quanto seria bom se ela conseguisse curar as dores de cabeça de Liam, Matt passou para o lado dele e por fim Kyle deu de ombros e disse a frase


decisiva: “Talvez ela seja como Lianne.” No fundo ninguém queria aceitar outro risco. Lianne tinha sido um problema que milagrosamente se tornou a solução, seu amor por Kyle nos protegia, confiávamos nela apenas porque ele confiava primeiro. Quando Kyle fosse embora, ela seria afastada. E Evelyn? Quem ia botar a mão no fogo por ela? “Ela não vai descobrir nada”, Carl nos garantiu. “Liam ainda é muito novo, pode deixar alguma coisa escapar sem querer”, eu lembrei a eles. “Isso é arriscado, Carl”, Matt reforçou, mas sua voz sempre desgastada fez com que o alerta parecesse um comentário evasivo. “Vamos fazer uma única tentativa”, ele sugeriu, “Olha, quero ajudar Liam tanto quanto vocês. Apenas tentamos uma única vez, ok? O que me dizem?” Matt olhou para Kyle, que olhou para Ethan, que olhou para Matt, que olhou para mim. Encarei o chão. Quando a reunião terminou, saí da casa e sentei na margem do rio nos fundos do quintal. Fiquei atirando pedrinhas na água, emburrado, até que o cascalho duro começasse a se fundir com meu traseiro, então Kyle surgiu do nada e veio sentar ao meu lado. Ficamos calados por algum tempo, e então ele disse, olhando na direção oposta: “Isso não vai adiantar, Ian.” Fingi que não tinha ouvido. Arranhei a lateral do meu Converse com um graveto. Kyle virou o rosto para mim.


“É uma péssima estratégia, eu tentei isso com Lianne e foi desastroso”, ele sorriu para si mesmo e balançou a cabeça, “É como tentar parar de respirar, chega uma hora em que não dá mais. Não tem muito o que você possa fazer, veja só o Matt. Ele teve azar porque Claire não era uma garota legal, e eu tive sorte. Cara, eu tive muita sorte. Lianne é... sensacional. Mas se ela não fosse, eu estaria tão na merda quanto Matt agora.” “Não sei do que você está falando.” Kyle ficou em silêncio e quase acreditei que tinha desistido. “Sabe”, ele falou de repente, observando as árvores do outro lado da margem, “Lianne tem uma teoria. Ela acha que somos uma falha da genética.” “Que gentil”, debochei com uma risada bufante. “Não, escute, faz sentido, porque nós somos uma falha. O que somos não é... natural. Por isso muitos morrem na transformação. A ligação que temos com alguns humanos pode ser uma tentativa da natureza de corrigir o erro.” “É a coisa mais estúpida que já ouvi.” Kyle ficou olhando para mim, uma sombra enevoando seus olhos pretos como carvão, e então, de repente, nós dois rimos. “É, acho que sim”, ele confessou. “Não podemos ficar de verdade com uma humana”, eu disse, “E essa é a parte que Lianne não sabe.” A expressão descontraída de Kyle se desfez. Ele franziu a testa como se o sol forte o atingisse, e uma nuvem de fumaça condensada saiu de sua boca quando ele expirou com força no ar frio da manhã.


“A gente não sabe”, ele disse. “Não temos certeza.” Ele se referia às lendas que nos assombravam, as que diziam que quando alguém da nossa espécie fica com um humano o resultado é um lobo doente. Kyle, o primeiro de nós a se transformar, ouvira essas histórias de Paul, mas nem mesmo Paul sabia de um exemplo vivo, de modo que só tínhamos suposições ao vento. De qualquer forma, era um pesadelo pensar em ser responsável por colocar no mundo algo ainda pior do que já éramos. “Você vai arriscar?”, devolvi para ele. “Não. Meu tempo com a Lianne está se esgotando, você sabe”, o sorriso que Kyle deu foi uma coisa triste de se ver, “Não tenho porque pensar em coisas futuras com ela.” “Ela já sabe disso?”, meu irmão abaixou a cabeça diante da minha pergunta e eu chamei um palavrão, “Você não contou.” “Já tentei... Eu não consigo”, Kyle olhou para o horizonte como se já pudesse se ver indo embora, desaparecendo deste mundo. Olhei para as árvores do outro lado e assenti várias vezes. “Eu sei.” * * * Carl saiu do quarto de Liam e voltou para a sala. Olhamos para ele. Eu não queria fazer parte daquilo, então fui para o meu quarto e fechei a porta. Não queria realmente ser agressivo nem nada, só não conseguia suportar estar ali entre todos eles, sabendo que se desse certo, Evelyn SaintClair tinha grandes chances de voltar no dia seguinte. E no outro. E depois do outro. E, sobretudo, não podia suportar o olhar de Kyle, do tipo Pare de


resistir, cara. Nós ainda sonhávamos com os pesadelos de Matt. Nosso subconsciente coletivo compartilhado era muito útil quando éramos lobos, mas passava a ser uma maldição enquanto éramos humanos. Os pesadelos de Matt me assaltavam quase todas as noites, a diferença era que agora não era Claire que me empurrava para dentro da água, era Evelyn. Começava com as feições infantis de Claire, deturpadas pela superfície da água, mas logo as cores desbotadas entravam em chamas. Uma cascata flamejante de cabelos aparecia por trás da água agitada enquanto eu tentava desesperadamente subir. A água gelada entrava em meus pulmões, queimando como ácido, e eram as mãos delicadas de Evelyn que apertavam meu pescoço, e se eu abrisse os olhos enquanto engasgava, era seu rosto bonito que eu via, sorrindo para mim sem culpa. Como eu podia não lutar contra isso? A parte de trás da minha cabeça quicou com um baque oco quando recostei na porta. O cheiro dela ficaria na casa inteira, baunilha e dama-da-noite, e não apenas eu o sentiria como também todos os outros. Quatro machos respirando o perfume fresco e limpo de Evelyn, a ideia me deixava nervoso. Fechei os olhos para tentar me acalmar, mas isso só fez com que a imagem dela fixasse mais em minha mente – ela entrando na sala, um braço em volta do estômago e a outra mão agarrada à alça da bolsa no ombro. Parecia uma estranha anomalia que seu coração batesse sempre tão depressa, duas vezes mais rápido que o das outras pessoas, mas ele estava quieto quando chegou, e disparou assim que nossos olhares se cruzaram. Um rosa perolado cobriu suas faces, e era apenas um tom mais claro que os lábios entreabertos. Pegajoso, essa era a palavra para descrever o que eu sentia por ela. As impressões, as cores, os gestos, os sons que ela fazia, tudo ficava


entranhado nos cantos mais desconhecidos de mim mesmo. E as paredes da casa não podiam abafar a voz dela, não para nós. Quando Evelyn começou a ler, eu soube que daria certo. A cadência das palavras era macia, lembrava o roçar das folhas de outono correndo pela grama, ou de um campo de trigo inclinado na brisa de verão. Dedos tocando pele aveludada, lábios passando pela orelha. Lembrei dos versos de um soneto que tinha lido em algum verão passado, na biblioteca de Paul, folheando Neruda. Chamava-se A Dança, e os versos diziam: Te amo como se amam certas coisas sombrias... secretamente, entre a sombra e a alma. Te amo sem saber como, nem quando, nem onde...


CAPÍTULO 10 EVELYN “OS DEMÔNIOS DEVEM DORMIR”, murmurou Liam de repente, distraído, e me espantei com sua voz serena e pausada, “ou eles nos devorarão. Devem ser mergulhados no sono, ou nós pereceremos.” Ele estava com os olhos abertos agora, não arregalados, mas serenos, e a pele de sua testa era lisa novamente. Eu tinha lido aquela passagem há uns cinco minutos atrás e me surpreendi por ele tê-la decorado tão rapidamente. “Acho que sei o que ele quer dizer”, emendou Liam, “É triste, ser um demônio.” “Talvez não seja exatamente isso”, fechei o livro, e Liam olhou para mim. O azul claro e limpo de seus olhos tinha uma tristeza implícita, como se ele soubesse de coisas que eu não podia entender. Apesar do alerta de Ian, estiquei a mão e afastei com a ponta do dedo uma mecha de cabelo em sua têmpora, “Quer que eu continue?” “Estou com sono”, suas pálpebras desceram e subiram devagar, “Você pode voltar amanhã?” “Sim, posso passar aqui na hora do almoço.” Ele assentiu. Sorri satisfeita por ele me deixar tocá-lo, embora eu estivesse tomando muito cuidado para não fazer nenhum movimento brusco. De repente me lembrei de como havia tentado me aproximar do lobo branco no inverno, e de como ele me observava, arisco às minhas tentativas de carinho e amizade. “Corrija-me se eu estiver errada”, tateei o terreno com cautela, “Vocês não


gostam de ser tocados?” “Não, a gente não gosta. Mas você é diferente, você não vai me machucar.” Meu coração apertou. O que tinha acontecido com aqueles garotos? Porque eram tão hostis? “Não, não vou machucar você, Liam”, depois acrescentei quando a dúvida nublou seu rosto, “E também não vou machucar seus irmãos.” Ele piscou depressa e me avaliou com mais intensidade. “Nem Ian?” “Principalmente ele”, percebi que estava sendo mais sincera com Liam do que era comigo mesma. “Mas acho que um dia você talvez faça isso quando souber...” A porta foi aberta e um halo de claridade banhou o quarto. Eu e Liam apertamos os olhos até nos acostumarmos com a nova luminosidade. “Olha só, não é que funcionou”, Matt falou de um jeito estranho, sondando minha mão pousada no travesseiro ao lado da cabeça de Liam. Como prometido, voltei no dia seguinte depois da faculdade. Resolvi continuar com Allan Poe, já que Liam tinha se interessado. Ele não estava na cama e sim no sofá, com a cabeça tombada para trás no encosto fofo, a expressão torturada. Suspirou profundamente quando cheguei. “Graças a Deus!” Não havia ninguém em casa, o que me deixou mais à vontade. Mas quarenta minutos depois me despedi de Liam e estava saindo da casa quando me deparei com Ian no pátio da frente, apoiado na RD350 preta que eu havia registrado antes, de braços e tornozelos cruzados. A visão dele sempre me


deixava meio zonza, mas hoje ele estava especialmente irresistível. Sua expressão fechada era ao mesmo tempo atraente e intimidadora. “Oi”, parei na soleira da porta por um momento, mas então conclui que ele não parecia estar a fim de me matar naquela tarde e me aproximei. Ian estreitou os olhos enquanto eu encurtava a distância entre nós. Estava com o cabelo molhado e me perguntei de onde tinha vindo. Talvez de um clube ou academia com chuveiro, porque quando parei diante dele, mais perto do que pretendia, senti cheiro de sabonete e roupas limpas. E, o mais importante de tudo, a barreira gélida que encobria seus lindos olhos havia desaparecido. “Oi”, um sorriso contido curvou seus lábios cheios. Dentes muito brancos e alinhados surgiram de repente, com caninos ligeiramente proeminentes como os de um predador, “Tem um minuto?” “Sim”, respondi sem pensar. Eu não tinha. Na verdade, pretendia almoçar antes de ir para o Baked e já estava atrasada vinte minutos, mas suportaria uma bronca de Chloe se o preço fosse pelo menos mais um sorriso daquele. Ele indicou a floresta atrás da casa com um movimento de cabeça. “Vamos dar uma volta?” Abracei meus cadernos com mais força. Fomos por uma trilha lateral até o quintal, por onde um riacho estreito corria sobre o cascalho cor de ferrugem. Ian colocou as mãos nos bolsos e caminhou ao meu lado sem pressa. O som de nossos passos estalando na areia fresca seria relaxante se eu conseguisse ao menos respirar, mas a presença sólida de Ian me deixava em suspenso. E havia o modo perturbador como ele pisava, quase sem fazer ruídos. Me fez pensar nas patas macias de um animal na floresta.


"Obrigado pelo que tem feito pelo Liam”, ele falou. Sua voz estava séria, mas o timbre rouco e caloroso a tornava muito agradável. “Ele é um garoto legal”, dei de ombros, “Lembra um pouco o meu irmão.” “Você tem um irmão”, parecia mais uma nota mental do que uma pergunta, “Qual o nome dele?” “Noah Evan.” “Quantos anos ele tem?” “Dez.” “Ele está aqui?” “Não... ficou com minha mãe em Nova Iorque.” Ian assentiu e abriu a boca como se fosse fazer mais perguntas, mas a fechou depressa e olhou para frente. Fiquei observando o perfil dele, a curva do pescoço e a linha escura de cabelo sobre a nuca castanha. A testa formava um ângulo profundo na junção com o nariz comprido, e as maçãs altas do rosto estreitavam seus olhos. Ele parecia eternamente em alerta. “Ele confia em você”, ele disse. “Noah?” “Liam. Isso é um pouco constrangedor, porque nós o ensinamos a não confiar em ninguém.” “Porque ensinaram isso a ele?” “Porque as pessoas não são confiáveis”, ele abaixou os olhos duramente na minha direção, como se dissesse isso não é meio óbvio? Eu desviei o olhar e hesitei um pouco, “Eu sei o que você está pensando, que é um exagero.”


“É um exagero”, murmurei. “Só estamos protegendo ele.” Ian estava conversando comigo de verdade e isso era meio fascinante. Não sabia se estava me pedindo conselhos ou sugestões, de qualquer forma isso não tinha muito a ver com o jeito dele, e eu não queria quebrar aquele momento, então argumentei com cuidado: “Deviam deixá-lo decidir isso. Pode ser que ele faça boas escolhas.” Ian parou de andar e ficou de frente para mim. Encarei seu peitoral amplo na altura dos meus olhos, então os ergui lentamente. Suas íris prateadas faiscaram nas minhas. “Tipo você? Você se julga uma boa escolha?” “O que você acha que eu faria com Liam?”, perguntei um tanto exasperada, “Caramba, o que você acha que eu faria com você?” Ian piscou, e eu vi o início de uma relação pacífica escorrendo pelo ralo. Mas que droga! Respirei depressa, vasculhando em meu cérebro uma maneira de consertar a confusão. “Como está o Derek?”, Ian mudou de assunto de repente, passando por cima do meu chilique. Era completamente desnorteante acompanhar o humor dele e eu levei alguns segundos para desfazer minha carranca e camuflar minha irritação, porque agora ele soava quase divertido. “Não tenho ideia. Talvez tenha perdido um dente ou dois. Porque diabos você o atacou?” “Reflexo.” Eu balancei a cabeça, atônita. Ian Lycan era inacreditável.


“Então está tudo bem?”, ergui as sobrancelhas. Não dava para me conter quando ele agia tão displicentemente em relação a tudo, “Você me deu um perdido, depois fingiu que nem me conhecia e deu um soco no irmão da minha amiga, agora está sendo gentil e simpático porque estou ajudando seu irmãozinho. É só uma questão de conveniência?” Ian riu, deu de ombros e disse simplesmente, a voz baixa e rouca vibrando em seu peito: “É bem mais dramático quando você fala”, eu arregalei os olhos, perplexa com tanto descaso, mas Ian se empertigou e disse, complacente: “Eu não quis deixar você esperando, Evy, só achei que não era uma boa ideia. Nós dois. Mas estou mudando de opinião agora. Entendo se for tarde demais, e sinto muito se magoei você, nossas reações não são exatamente... previsíveis.” Minha mente ficou em branco e minha pulsação retumbou em meus ouvidos. Eu estava tão imóvel e o tempo ficou tão estático que consegui sentir as batidas do meu coração afoito me fazendo oscilar para frente e para trás como um pêndulo. “Minha e dos meus irmãos, eu quis dizer”, apesar de choque, não deixei passar o fato de que a voz dele estava calma, quase arrastada. “Mas estou sendo sincero agora, sem joguinhos, como você disse. Acha que dá para começar de novo?” Meu rosto aqueceu ao som daquelas palavras. A respiração dele era controlada e a minha afoita, ele estava completamente contido e minhas pernas estavam bambas e quando dei um passo para frente, me aproximando mais, Ian engoliu em seco, os olhos descendo até meus lábios. A água borbulhava atrás de mim, correndo tranquila pelas margens do rio. O ar cheirava a Ian, misturado a pinho, terra molhada e orvalho. Fazia frio,


nossos hálitos quentes desenhavam nuvens diante de nós, mas eu estava com calor. Sentia minhas bochechas e minhas costas pinicando. Ele não ia me beijar, e eu não ia dar esse passo agora, mas não consegui evitar de desejar que acontecesse. “Tudo bem”, me ouvi dizendo, “Vou voltar amanhã.” “Vou estar aqui”, ele murmurou com suavidade. Quase fechei os olhos quando sua voz acariciou meu rosto, mas eu estava completamente presa sob seu olhar vigilante. “E quero ver você”, as palavras soaram desiguais em minha voz instável. Ele não respondeu nem que sim nem que não, mas vi em seu rosto a sugestão de um acordo. Voltamos para o pátio sem dizer mais nada, parecia estranho falar depois do que havia acontecido lá atrás, e de qualquer modo aquele silêncio era diferente, de cumplicidade, cheio de significados. Quando entrei no Corolla de Jenna estava um pouco ofegante e afogueada e dirigi até o Baked repassando cada palavra dele, cada olhar, cada movimento de sobrancelhas, até perceber que estava começando a ver coisas que talvez não tivessem acontecido. Foi uma tarde inútil atrás do balcão, porque eu estava tão avoada que Megan precisou me substituir antes que eu explodisse a máquina de expresso. Conversei como uma tagarela com Jenna em casa, apostando que se eu a entupisse de assuntos ela não ia reparar na minha alegria. Não dormi direito, mas acordei revigorada, tomei um banho de quarenta minutos na banheira, com os sais de banho de Jenna, sequei o cabelo e fiz cachos sedosos e brilhantes, escolhi minha melhor calça jeans, coloquei uma camisa de mangas compridas de caxemira verde escura e um cachecol xadrez vermelho (presente de aniversário do meu pai) em volta do pescoço, apanhei minha mochila e saí. A caminho da Yukon, me certifiquei


de que Allan Poe ainda estava na minha bolsa. As aulas daquele dia passaram arrastando, mas finalmente acabaram e eu dirigi em direção à casa de Liam. Passava do meio dia e meu estômago costumava reclamar a essa hora, mas não sentia a menor fome, embora só tivesse comido uma torrada no café da manhã. Liam estava melhor, preparava alguma coisa cheirosa no fogão quando entrei. Ele pediu para que eu ficasse à vontade e eu sentei na beirada do sofá enquanto ele servia a mesa. Para dois. “Eu só sei fazer massa”, desculpou-se ele, colocando a panela no meio dos dois pratos, “Espero que goste.” “Ah, Liam, não precisava se incomodar!” Ele encarou o chão. Meu estômago reagiu ao cheiro do parmesão derretido e eu corei, me perguntando se ele não andava me entregando esse tempo todo. Será que Liam tinha ouvido os roncos? “O que você trouxe para mim hoje?”, ele perguntou quando aceitei sentar à mesa com ele. A toalha era branca e de um material impermeável. Apesar de simples e pequena, a cozinha era limpa e organizada. “Allan”, confessei timidamente. “Ah, tudo bem”, Liam deu de ombros, “Estou gostando desse cara, ele diz umas coisas interessantes.” “Está doendo muito?” “Menos do que ontem, mas melhora depois que você lê. Carl acertou em cheio, Matt custou a acreditar.” A comida estava boa, era espaguete ao molho branco com ervilhas. Para um garoto tão novo, tudo estava no ponto certo. Observei Liam comendo


devagar, enrolando o macarrão no garfo apoiado na colher, depois levandoo à boca sem se sujar. Seus cabelos estavam penteados e pareciam limpos, assim como sua camisa azul escura sem vincos. Agora eu estava reparando, o loiro claro refletia na luz e tinha uma tonalidade levemente acinzentada, como a casca de um bordo. “Liam”, murmurei depois de um tempo, “Onde estão seus pais?” Ele ficou mastigando de boca fechada, observando uma gota de molho branco na beirada do prato. Engoliu duramente. “Matt diz que não é legal mentir, e eu não quero mentir pra você, Evy, então prefiro não responder.” “Tudo bem, desculpe”, sorri para não deixá-lo desconfortável. Tentei ajudá-lo a lavar a louça quando terminamos, mas ele me mandou ir para o sofá e ofereceu a sobremesa, pudim de leite com calda de amoras, feito por Lianne. Estava divino. Depois veio se sentar ao meu lado, com as pernas cruzadas e virado para mim. Imitei a postura dele, apanhei o livro e comecei a ler. O tempo passava rápido quando eu lia para Liam, e logo ouvi o ruído da moto de Ian nas pedras lá fora. Minha concentração evaporou. “Hã, Liam...” “Já sei, já sei”, ele revirou os olhos com um meio sorriso sugestivo, desceu do sofá e ligou o Xbox, “A gente se vê.” Ian estava descendo da moto com dois pacotes pardos com emblemas de alguma lanchonete da cidade, usava uma jaqueta de couro de motoqueiro por cima da camisa cinza e óculos escuros. “Trouxe seu almoço”, ele me saudou com seu sorriso de dentes brancos.


Peguei um dos pacotes e o abri. Sanduíches turcos de peru com molho de mostarda. O aroma era maravilhoso, e tive certeza de que traçaria um daqueles sozinha se não tivesse acabado de devorar um prato de espaguete. Levantei os olhos para me desculpar com Ian, mas ele estava farejando o ar acima da minha cabeça. “Queijo”, ele franziu a testa para mim, “Você já comeu”, soou como uma acusação, e eu me encolhi. “Liam fez espaguete. Desculpe.” Ian tirou o pacote da minha mão com mais delicadeza do que eu esperava de suas mãos grandes. “Sem problemas, fico com os dois.” Andamos para os fundos da casa. Os raios do sol passando entre os galhos das árvores lá em cima cortavam o ar em fachos luminosos e formavam desenhos variados no chão, como borboletas douradas cintilando sobre o cascalho. Seu cabelo estava úmido de novo. Pensei em perguntar onde ele estivera, mas Ian não me dava muita abertura para perguntas pessoais. Descemos pela margem do rio, avançando uma distância maior do que a que tínhamos chegado no dia anterior, mais longe da casa. Achamos o tronco de uma árvore tombada, onde nos sentamos. Ian abriu seu sanduíche e sua cocacola e começou a comer devagar, mas com vontade, como Liam, como se aproveitasse o sabor ao máximo. Ele tirou a jaqueta depois de um tempo debaixo do sol, e os músculos em seus braços magros e compridos flexionaram sob a pele castanha acetinada. Era uma cor incrível e rara e, assim como com Liam, despertou minha curiosidade. Fosse qual fosse o pool genético deles, era espetacular. “Porque você veio para cá?”, ele perguntou depois que sua fome foi


parcialmente saciada. “Meus pais brigam muito”, dobrei as pernas e apoiei o queixo nos joelhos. “Porque eles não se separam?”, ele deu um gole no refrigerante. “Eles já fizeram isso. Cinco vezes.” As sobrancelhas negras de Ian surgiram sobre a armação dos óculos escuros. “Era cansativo viver com eles”, expliquei. “Eles sabem disso?” “O que?” “Eles sabem o que você pensa sobre isso?” “Eles nunca me perguntaram.” Ian engoliu seu último pedaço de sanduíche, limpou a boca com o guardanapo e olhou para mim. Vi meu reflexo distorcido no vidro escuro das lentes. “Eu gostaria de ver os seus olhos”, eu disse do modo mais gentil que pude. Ele abaixou a cabeça para tirar os óculos, então a ergueu novamente e me encarou. O sol atingiu em cheio seus olhos, acendendo as minúsculas manchas douradas em torno do anel cinza escuro, tornando-os claros como citrino. “Gosta de Whitehorse?”, sua voz assumiu um tom mais grave. “Não sei ainda. Sinto falta da minha casa. Do barulho dos carros, das luzes da cidade à noite, dos metrôs sujos e dos meus CDs. Whitehorse é muito pequena, parece uma cidade de brinquedo.”


Ian riu. Sua risada também era rouca e contagiante, mas morreu depressa. “Uma cidade de brinquedo. Engraçado.” “O que ela parece pra você?” Ele ficou sério. Uma sombra esquisita nublou seu olhar cristalino. “Um pesadelo.” “Então, tudo depende do ponto de vista”, sugeri com um sorriso simpático que ele não retribuiu, mas observou com cautela, “Talvez seja porque as pessoas daqui odeiam vocês.” “Provavelmente, sim”, ele brincou com os óculos escuros entre os dedos. “Porque não fazem nada para mudar isso?” “Ficamos na nossa, mas isso também os irrita. Acontece que eles querem saber coisas que não estamos a fim de contar. De certa forma, sermos odiados é conveniente.” “É um segredo assim tão grande?”, provoquei. Ian me fitou longamente antes de murmurar: “Não.” “E você não vai me contar.” “Não.” “Porque não confia em mim.” “Não.” Ele rolava distraidamente os óculos de uma mão para a outra, a armação era frágil em seus dedos fortes. Há uns duzentos metros adiante as


margens do rio se abriam, formando um lago em forma de balão cercado de pinheiros, com montanhas assimétricas no horizonte. A silhueta de Ian recortada contra a paisagem era viva e destacada. O sol tinha secado quase completamente seus cabelos, revelando a cor castanho escura acinzentada. Quando ele virou a cabeça para olhar a água por um instante, vi a penugem dourada na lateral de seu pescoço. “Posso tocar em você?”, parecia uma pergunta bizarra para se fazer a uma pessoa, mas eu sabia que havia limites com Ian, por mais que não fizesse ideia dos motivos. Ele franziu a testa. Parecia não ter certeza do que responder. “Ou você pode tocar em mim, se quiser” emendei depois do silêncio. Ele me olhou desconfiado, como um animal decidindo se deve ou não se aproximar de um estranho, “Não sei por que vocês não gostam de contato, mas é algo totalmente normal. Quer tentar?” Coloquei minha mão no tronco, perto dele. Ian a olhou fixamente, e então, muito devagar, deslizou os dedos para baixo, deixando-os perto dos meus. Prendi a respiração, fascinada. Sua cor era tão bonita, a pele sedosa sobre as veias e os tendões grossos, as unhas bem cortadas e limpas. Seu indicador estremeceu e ele encostou no meu anelar, observando, concentrado, percebendo a sensação, assim como eu. Queria segurar a mão dele, saber como era a textura de sua pele, a temperatura, mas apenas esperei. Seu polegar roçou a parte de cima da minha mão e migrou para a região mais fina do meu pulso, cada avanço me afetava profundamente. Sobretudo quando ele acariciou minha pele com uma doce fricção. Era só um toque de mãos, mas disparou chispas de prazer em todas as direções do meu corpo. Ian soltou o ar numa lufada e o prendeu depressa outra vez, como se não


acreditasse no que estava fazendo. Bom, eu sabia muito bem o que estava começando a acontecer ali. Ele havia se inclinado na minha direção sem se dar conta, seu rosto estava a poucos centímetros do meu... Uma mecha do cabelo dele resvalou para frente, roçando o olho direito, e eu levantei a outra mão para retirá-la. Ian se afastou num sobressalto e recolocou os óculos tão depressa que pareceu um gesto defensivo. A pequena bola de calor que ameaçava surgir em meu peito desfez-se num vazio gélido e desolador. O que eu tinha feito de errado? “O que foi?” Ele levantou e começou a recolher os pacotes de papel e a latinha de refrigerante vazia com movimentos bruscos de impaciência. “Nada. Vamos voltar, chega de conversa por hoje, você já está atrasada.” “Ainda tenho dez minutos!” Ian me deu as costas e pegou a trilha de volta à casa. Eu fiquei de pé e o segui, sentindo uma mistura estranha e paralisante de frustração e desejo.


CAPÍTULO 11 EU SABIA BEM PORQUE estava no Corolla de Jenna com Ian Lycan sentado ao meu lado no banco do passageiro. Quer dizer, além da razão óbvia de que estávamos isolados ali por causa da chuva. O problema é que eu tinha crescido enfurnada em livros e nada de bom pode resultar disso. Enquanto as garotas da minha escola se apaixonavam pelos jogadores do time de futebol americano ou até menos pelo nerd tímido do clube de xadrez, eu me apaixonava por Julien Sorel, um francês por volta de dezoito ou dezenove anos, cabelos cacheados revoltos e castanhos, olhos sombreados por cílios espessos embaralhados, a pele tão branca como uma nuvem. Eu sonhava com ele dia e noite, completamente embevecida, procurando pelas ruas os vulto de uma cabeleira castanha indisciplinada, o brilho sedutor de um par de olhos quentes, ingênuos e impetuosos. Julien Sorel era capaz de invadir o quarto de uma garota no meio da madrugada, pulando pela janela e enlouquecê-la completamente até o raiar do dia. A questão toda era que Julien Sorel era o ambicioso filho de um carpinteiro do século XIX. Sendo assim, todo meu amor platônico por ele teve que ser superado assim que última página de O Vermelho e o Negro enfim chegou. Foi a primeira vez que tive meu coração partido, o que muitos podem achar um exagero, mas não ter mais Julien Sorel todos os dias em minha mente em meu coração foi, sim, seriamente triste. Sinceramente, havia muito dele em Ian Lycan, essa é a verdade. Não existiam boas intenções em Julien, embora ele fosse, a uma desprevenida primeira vista, um príncipe. Com as pernas esticadas sobre o painel – ele precisou afastar o banco quase um palmo para trás para que elas coubessem com algum conforto – usando


roupas agressivas que eram uma mistura de couro, jeans e metais, Ian não podia ter nenhuma intenção boa. Tudo nele era explícito e sinalizava um alerta, mesmo que não houvesse piercings, tatuagens ou alargadores expostos. Ele era sujo sendo inadvertidamente limpo. “Você encara as pessoas o tempo todo ou é só comigo?”, ele mordeu o sanduíche macio de salmão que trouxera, encarando o para-brisa encharcado. Suas sobrancelhas estavam retas de um modo que deixava óbvio, pelo menos para mim, que ele queria fingir não se importar. Meus olhos despencaram para o meu almoço, um croissant crocante recheado com ricota e espinafre. “Só com você”, o que era muito sincero. A maioria das pessoas entrava e saía da minha vida como visões embotadas num deserto de cores, era necessário ser muito extravagante, ou muito bizarro, ou impossivelmente normal para que eu conseguisse prestar atenção. Isso dizia muito sobre Lycan, já que sua simples presença fora capaz de me deixar sem fome. Eu embrulhei o croissant de volta no papel manteiga em que ele viera, deixei o embrulho sobre o freio de mão e me virei de frente para Ian. Ele mastigou. Engoliu. Mordeu. Mastigou. Engoliu. Abaixou o sanduíche e encostou a cabeça no estofado do banco. “Isso é irritante.” “Desculpe.” “Mas você não vai parar.” “Não. “É falta de educação.” “Como se você ligasse para isso.” Os lábios dele repuxaram para baixo no esforço de não sorrir. Tive a ligeira


impressão de que a vontade de erguer o dedo do meio para mim foi algo muito vivo em sua mente, mas em vez disso ele falou: “Se você começar a fazer todas as perguntas que estão na sua cabeça, vou dizer uma coisa bem feia para você, Evelyn SaintClair.” “Eu sei.” “Não pode se contentar em apenas estar aqui?” “Claro que posso. É o que estou fazendo”, e, depois de um breve momento, em que ele quase chegou a erguer o sanduíche até a boca outra vez: “Posso fazer aquilo de novo?” Estava abafado. Com as janelas fechadas e nossa respiração quente contra a chuva gélida lá fora, os vidros embaçavam e a sensação era claustrofóbica, mas eu não saberia dizer se Ian tirou a jaqueta por causa do calor ou como um sim ao meu pedido. Ao pedido de tocá-lo mais uma vez. Ele largou o sanduíche ao lado do meu e ficou encarando o vidro esbranquiçado diante de si, um punho fechado sobre um joelho e outro apenas aparentemente relaxado sobre a coxa, os dedos se roçando. Sua expressão não era afetuosa nem convidativa, era reflexiva, selvagem. Por baixo da camisa preta, seus ombros estavam travados de tensão; ela percorria suas veias e tendões como cianureto, fazendo-os saltarem sob a pele bronzeada. “Isso realmente te perturba”, não era uma pergunta, e de qualquer forma ele não ia responder, “Dizem que nosso cérebro é capaz de gostar de uma música ruim se a escutarmos muitas vezes seguidas. As ondas sonoras, o padrão, tudo se adapta e fica fluido. Então pode ser que seja como uma música ruim: apenas uma questão de costume.” Ian assentiu vagamente. Até parece que ele ia engolir assim tão fácil. “Eu sei que...”, ele começou, então desistiu. Assentiu outra vez. Seu maxilar


ficou marcado pela contração de um músculo. Seus olhos, vidrados no parabrisa, estavam praticamente arregalados, e sua jugular pulsava sobre a pele fina do pescoço. “Está tudo bem.” “Não é com você”, primeiramente, soou como uma afronta, um desafio, mas depois percebi que ele estava se justificando, do tipo: O problema não é você. Esse era um padrão Ian Lycan, parecer atacar mesmo quando estava se defendendo. “Você quer?” Para minha surpresa, ele riu. Não foi uma coisa bonita, no entanto, porque Ian não tinha o tipo de beleza incondicional. Dava para dizer que existiam dois Ians: um negro, cruel e letal e um mais vazio, disforme e escorregadio que tentava o tempo inteiro se moldar sobre o primeiro numa espécie de camisa de força. E era isso que acontecia quando ele sorria, na maior parte das vezes. Sobreposições. “Eu não devia querer”, e essa era sua forma de dizer quero. Ele ergueu o queixo e puxou o ar devagar, olhar fixo à frente como quem espera o impacto iminente de um trem, “Eu tinha um irmão. Mais um, quero dizer. O nome dele era Colin e ele está morto.” Era o tipo certo de coisa a se dizer para me deixar desconcertada. Abri a boca, mas qualquer palavra pareceu tola e inútil, além do mais, Ian prosseguiu, tão indiferente quanto conseguia ser: “Ele era um pouco como eu, do mesmo modo que Liam parece com Matt. Um dia, Colin teve febre alta, tão alta que as convulsões o levaram. Éramos só garotos e ficamos gritando em volta dele sem saber o que fazer. Tínhamos todas as opções e ao mesmo tempo nenhuma: foi rápido demais para que pudéssemos processar. Uma hora ele estava ali, doente, e na outra se debatia no chão.”


“Porque não chamaram um médico?” O sorriso macabro voltou. Ian puxou o laço do cadarço do tênis sobre o painel. “Era o certo a fazer, não é? Nenhum de nós jamais sequer pisou num hospital, mas Matt já viu muitas agulhas. Claire, a ex namorada dele, tinha um irmão viciado em heroína. Você pode imaginar o resto.” A chuva tamborilou alegremente no capô do Corolla. Ao nosso redor, os vidros choravam em profusão; através do para-brisa, Whitehorse era um borrão opaco. No calor da carro, a dor de Ian era uma coisa viva inchando entre nossos corpos. “Não levamos Colin ao hospital, mas no meio do desespero enfiamos remédios em sua boca, o que foi bem pior. As minhas lembranças da infância”, ele fez uma pausa, e por alguma razão tive a impressão de que a infância dele tinha um sentido totalmente diferente da minha, “são de sobrevivência, apenas isso. E solidão faminta. Às vezes, armas e tiros no escuro. O que quero dizer é que você pode estar olhando para mim agora e vendo uma pessoa bem diferente de quem sou, Evelyn.” Levei um momento para responder, não porque não soubesse o que dizer, mas porque estava esperando que o bolo em minha garganta não fizesse minha voz soar da forma errada: “Não estou criando nenhuma expectativa.” “É, até parece”, ele ergueu o queixo novamente, um gesto arrogante de vaidade. “Não se trata de você, sabe. A cidade inteira odeia vocês, vocês odeiam a si mesmos, eu não quero ser mais uma. Sou a favor da contrariedade.” “É uma péssima justificativa.”


“Vai ter que servir.” Fez-se silêncio, em meio ao qual Ian apertou os botões do rádio no painel, procurando uma estação. Numa delas, o locutor anunciou o top dez das músicas mais pedidas da semana, no que Ian trocou para a estação seguinte quase desesperadamente, até parar numa rádio de notícias. Nós ficamos quietos escutando o informativo do dia, espancamentos, homicídios, furtos e estupros, em alguns casos tudo junto. “Está chegando como uma onda”, Ian murmurou contra o vidro gelado, “A violência.” Eu olhei ao redor, sentindo-me segura, quente e protegida naquele carro ao lado de Ian como jamais havia me sentido em meu quarto em Nova Iorque. Eu o olhei de novo, esperando enxergar um cara diferente agora, depois de suas confissões, alguém que metesse medo ou incitasse a raiva e o desprezo, mas continuei vendo a mesma pessoa – um garoto de beleza esfarrapada, trazendo uma mácula negra debaixo da pele, a pele brilhando sob a respiração forte, irresistível e vital como uma planta carnívora. Não existia nenhum motivo para amar Ian Lycan e existiam todos os motivos para amá-lo. Sem aviso, segurei sua mão. Ele estava com o punho fechado, então só pude apertá-lo em minha palma. Eu devia falar alguma coisa, qualquer coisa, mas Ian não se moveu. Era sua forma de dizer obrigado.


CAPÍTULO 12 OS DIAS SEGUINTES FORAM muito parecidos uns com os outros. Todos, exceto um. Eu ia para a Yukon, depois lia para Liam, sentava naquele tronco com Ian, conversávamos algumas coisas, voltávamos e eu ia para o Baked. Mas numa dessas tardes ele me pediu para ler as coisas que eu lia para o irmão e eu fiz isso, sentindo seu olhar meticuloso sondando meu rosto. “Aqueles que sonham acordados”, eu estava dizendo, citando uma de minhas passagens favoritas, “têm consciência de mil coisas que escapam àqueles que sonham apenas à noite.” Dessa vez tínhamos deixado o tronco de pinheiro para trás, avançamos ainda mais e nos espalhamos na margem coberta de folhas perto do deck sobre o lago. Eu estava deitada de barriga para baixo, com o livro aberto entre meus cotovelos, e Ian, encostado num bordo frondoso, vigiava a paisagem. Seu olhar foi rapidamente atraído para mim quando li aquele trecho. A brisa da tarde tinha cheiro de algodão doce e a superfície do lago estava calma, com o grito das águias cortando o silêncio ao longe. “Porque você escolheu esse livro para o Liam?” “Foi meio aleatório. Mas ele gosta.” “Acho que sei porquê”, Ian sorriu, enigmático, “Esse cara parece saber de algumas coisas.” “Allan Poe era inteligente. Com certeza sabia de muitas coisas.” Olhei para Ian, e ele estava me observando outra vez daquele jeito desconfiado, mas seu olhar suavizou enquanto nos encarávamos.


“Estou falando de coisas que as outras pessoas nem desconfiam.” Eu reli a passagem com toda atenção, esperando que as palavras brilhassem para mim ou algo do tipo, revelando o mesmo segredo obscuro que Ian havia desvendado, mas elas só ficaram ali paradas na folha de papel como se zombassem da minha inteligência. “Que estação você mais gosta?”, ele perguntou. “Outono”, essa era fácil, “E você?” “Não gosto do outono”, Ian lançou um olhar pesaroso para o meu cabelo, “Me lembra algo como o fim da linha.” “O fim da linha? Isso tem mais a ver com o inverno.” “É a mesma coisa.” Às vezes era difícil acompanhar a linha de raciocínio dele. Quase sempre eu boiava. Tinha dormido pouco naquelas últimas noites – aliás, desde que ganhara o telescópio – e estava cansada, de modo que cruzei os braços sobre a grama verde e deitei sobre eles, usando o livro como travesseiro e olhando na direção oposta em que Ian estava. A presença dele não me deixava mais ansiosa, e isso era bom, estávamos nos acostumando um com o outro e eu sabia que isso significava mais para ele do que para mim. Fechei os olhos e senti o calor doce de maio em minha bochecha. Embaixo de mim, a terra fazia ruídos esquisitos, como um estômago roncando. A quietude aos poucos me deixou num transe tranquilo, e eu estava quase pegando no sono quando uma rajada um pouco mais forte ergueu a barra da minha camiseta, deixando à mostra uma faixa de pele nua. Fiquei imediatamente apreensiva. Não queria que Ian pensasse que eu me oferecia ou coisa do tipo. Estava prestes a abaixar o braço para colocar a camisa no lugar


quando senti o contato quente de sua mão pousando na base da minha coluna. Ele deixou a mão ali por um momento, esperando minha reação, e eu fiquei muito parada, tentando parecer indiferente, mas as batidas do meu coração contra o chão eram como tambores reverberando pela terra. “Posso...?”, ele se interrompeu, incerto. “Sim”, respondi depressa demais, quase desesperada. Seus dedos se abriram sobre minha pele, abarcando mais da metade das minhas costas. Eram quentes, um pouco pesados, mas gentis quando deslizaram para cima, provocando sensações atordoantes. Meu corpo respondeu involuntariamente, se erguendo um pouco, me entregando, mas não me importei. Ele subiu bem devagar pela minha espinha dorsal por baixo da camiseta, e precisou se sentar e se curvar para frente para ir mais longe. Escutei o farfalhar das folhas embaixo dele quando fez isso. Cada centímetro de pele que ele encostava ardia e eu sentia as consequências em vários lugares do meu corpo. Flutuava numa espécie de êxtase mudo, esperando desesperadamente não estar ronronando feito uma gatinha. Minha abençoada camiseta, cuja gola folgada caía pelos ombros, facilitava o acesso à mão dele, mas ele desviou discretamente do fecho do sutiã, deixando claro que sua intenção não era descortês. Ian tirou a mão e por um momento quase arfei de frustração. Queria mais, queria que ele me tocasse assim pelo resto do dia. Mas então sua mão voltou, dessa vez sobre minha nuca. Os dedos passaram sobre os cabelos macios, enroscando-se nas mechas finas ao redor da minha orelha, se demorando ali, depois experimentaram a curva do meu pescoço até que, por fim, se foram. Percebi que não estava respirando e puxei o ar devagar, sentindo-o expandir meus pulmões e arrefecer meu desejo. E então rolei no chão, ficando de barriga para cima. Ele abraçava os joelhos afastados, a mão que havia estado em mim agora contida pela outra na altura do pulso.


Havia uma intensidade desconcertante e ao mesmo tempo complacente em seus olhos. Talvez fosse a cor incrível, mas eles pareciam mais penetrantes que o normal. A primavera soprou seu hálito de flores, revirando as folhas secas ao nosso redor, fazendo-as correr para o lago ao passarem roçando pelos meus braços. A vontade que eu tinha de tocá-lo chegava a doer, teria dado qualquer coisa para senti-lo exatamente como ele tinha feito comigo agora, mas sua postura era austera, sua expressão estava séria, e eu soube que as concessões eram dele e não minhas. “Desculpe, eu só queria saber como era”, ele parecia realmente arrependido, embora esfregasse os dedos como se tentasse reter a sensação. “Pode fazer isso quando quiser.” Sua expressão se fechou ainda mais. “Não.” Apoiei-me nos cotovelos para encará-lo mais de perto, mas Ian evitou categoricamente meu olhar. “Você também gostou”, falei suavemente, mas então me dei conta. Havia uma razão para Ian sempre se afastar de mim, me manter numa distância segura. Ele estava mostrando isso o tempo todo e eu me senti burra por ter demorado tanto a entender. Ele tinha uma namorada. Era estranho e doloroso pensar isso, mas o fato é que a ideia tinha sim passado pela minha cabeça assim que o vi pela primeira vez, no balcão do Baked – só que meu inconsciente suprimiu por conta própria essa


possibilidade. “Você está com uma pessoa”, a afirmação se auto sabotava no tom de uma pergunta que desejava imensamente ser negada. O sorriso de Ian foi amargo. “Nunca fiquei com uma garota...”, ele se interrompeu de súbito, parecendo preocupado. O alívio me inundou, mas então outra questão se impôs. Oh, não. Era ainda pior. “Você é gay.” Isso o deixou surpreso. Seus olhos cinzentos se voltaram para mim, o sol brincando nos pontinhos dourados. Eu não soube onde esconder minha cara, mas inexplicavelmente ele riu. Não uma risada contida, não algo sombrio, mas um gesto natural. O som era profundo, reverberando por sua garganta e fazendo estremecer o pomo de adão. “Eu devia saber que você ia concluir isso”, ele negou com a cabeça, “Certo, acho que devo uma explicação”, seu rosto voltou a ficar sério, os olhos assumindo intensidade nos meus, “Evelyn, eu nunca fiquei com uma pessoa antes, não completamente, mas se tivesse que separar relações por categorias, eu diria que fico feliz por ser um cara, e você, uma garota.” “Isso quer dizer que você não é gay?”, embora a lógica fosse óbvia, eu tinha que obrigá-lo a dizer. Precisava que ele dissesse. “Quer dizer que eu quero você, Evelyn SaintClair.” Respirei fundo. “Uau. Você não diz nada e de repente diz uma coisa dessas.”


Ele assentiu para si mesmo, concordando comigo e começando a recuar, penalizado. Sentei depressa. O movimento o deixou em alerta. “Quando você diz... que nunca esteve com uma garota antes... completamente”, fitei a boca dele, fechada numa linha rígida, “Quer dizer em que sentido?” Não dava para acreditar que alguém como Ian não tivesse experiência alguma com garotas. Não que ele emanasse um poder de sedução irresistível – na verdade, na maior parte do tempo ele parecia odiar a atenção que atraia com o sexo oposto. Mas era impossível ficar indiferente a Ian, ele simplesmente tinha uma presença intoxicante. E, por mais envolvida que eu estivesse, sabia que não era só comigo. Ian pensou por um momento, e quase achei que ia me deixar sem resposta, mas então ele falou quase sem mover os lábios: “Foi uma situação forçada.” “Que situação?”, me aproximei. E mais um pouco. “Não faça isso”, havia pânico nos olhos dele. “Foi tão ruim assim?”, mais alguns centímetros para frente. Ian ficou totalmente congelado, respirando pela boca entreaberta. Parei, mas não me afastei. Apenas a distância de menos de um palmo nos separava. Um galho se moveu lá em cima, empurrado pela brisa, e a pele de Ian, cor de avelã, faiscou nas têmporas. Transpassado pelo sol, o cinza claro dos olhos dele ficou tão cristalino como a superfície congelada de um lago. Mas queimavam, indecentes. Cobri metade do caminho até a boca dele e me detive perto o suficiente para ver as estrias e os salpicos de ouro ao redor


de suas pupilas negras. “Evy...”, ele murmurou, fazendo com que nossos hálitos se misturassem, mas então se calou. Os pelos da minha nuca arrepiaram quando a expectativa do que estava por vir passou diante dos meus olhos num flash. Minha boca pressionou a dele devagar. Ian ficou muito parado e sua respiração se interrompeu abruptamente por um segundo. Ele não reagiu, mas eu insisti, empurrando delicadamente seus lábios até que se abrissem para mim. E então aconteceu – bem devagar, eles se afastaram e ele correspondeu ao beijo, a princípio da maneira que eu esperava, hesitante, reconhecendo aos poucos os movimentos, e depois, quando o contato ficou muito bom, segurando-me pela nuca e assumindo o controle. Sem muito jeito, sua língua áspera e quente girou na minha. A força que ele fazia ao me puxar para si e apertar nossas bocas era mais do que agressiva – era voraz e faminta. Eu estava esmagada por dentro, aquecida a ponto de ofegar, puxando-o pela gola da camisa embora o beijo não pudesse ficar mais intenso. “Devagar”, segurei seu queixo. Ian recuou. Ele ofegava, engolindo em seco sem parar, devassado, eufórico. Eu nunca tinha beijado um garoto desse jeito antes, de modo tão estabanado e ao mesmo tempo tão delicioso. Sorri. “Você beija todas as garotas assim?” É claro que ele não respondeu. Era óbvio. Ele nunca tivera nenhuma preocupação em beijar uma garota com cuidado, porque muito provavelmente isso não fazia a menor diferença, e de repente eu entendi o sentido da palavra completamente, como ele havia usado. Ele estivera com garotas apenas por prazer, para satisfazer necessidades. E elas com certeza também não estavam interessadas num beijo de verdade. Senti pena por Ian, deve ser triste viver amores esquálidos, mas ao mesmo


tempo fiquei lisonjeada, porque a expressão nos olhos dele era complexa, sensações transbordantes oscilando em meio ao brilho ardente neles, coisa que nenhuma daquelas outras garotas jamais teve. Eu o beijei outra vez, um breve encostar de lábios. Ian passou a língua nervosamente pela boca, tentando me capturar. Isso era maravilhoso. Sorri outra vez, de olhos fechados. Podia beijá-lo assim o dia inteiro. Experimentei o modo como nossas bocas podiam se encaixar, de leve, maciez contra maciez, e provei-o entre os dentes. Deixei que ele fizesse o mesmo. Explorei as diversas formas que nossas línguas podiam encontrar de se enlaçarem. Entre cada uma delas, sons escapavam, murmúrios, gemidos baixos indiscerníveis. Deitei de costas no chão, trazendo-o comigo. As mãos grandes e quentes de Ian deslizaram pelo meu pescoço, os polegares roçando minhas bochechas, meu lábio inferior e meu queixo. O vento soprou outra vez, as folhas secas sussurraram em meus ouvidos como suspiros. Ian tinha gosto de carne e coisas necessárias, o sabor que permanece debaixo das pálpebras após ter acordado de um sonho dourado. Deus, a pele dele, eu precisava chegar à pele dele... Minhas mãos procuraram a barra da camisa de Ian e se esgueiraram por baixo do tecido. Ele gemeu em meu ouvido, o som mais selvagem e erótico que eu já tinha ouvido, e em resposta ao estímulo o corpo dele impulsionou para frente, prendendo-me sob o domínio de todo o seu tamanho. Desesperada, obcecada, dissolvendo inteira debaixo do peso dele, deixei meus dedos subirem pela curva de sua espinha dorsal, tateando o desenho rígido dos músculos e sentindo a força poderosa deles. Talvez eu não sentisse tamanha satisfação com um simples contato de pele se isso não significasse tanto para Ian, mas fiquei tão atordoada que minhas unhas o apertaram. Ele era mais do que quente, era surrealmente incrível, parecia


uma incoerência que recusasse tanto o contato físico, quando eu o sentia agora e sabia: Ian nascera para isso. Folhas secas se espalharam ao nosso redor quando girei por cima dele. As mãos de Ian me equilibraram sobre sua barriga, subindo e descendo por minhas costas como se dedilhassem um violoncelo. Beijávamos como se falássemos um idioma particular, uma linguagem nossa, em que cada movimento, cada roçar de pele contra pele era uma frase sublime. Com um beijo, eu dizia a Ian que faria qualquer coisa que ele me pedisse agora; com um beijo e um aperto forte em minha nuca, Ian respondia que não teria problemas em fazer suas exigências. Rolamos outra vez, o peso dele voltou sobre o meu, mas sua boca deixou a minha para trilhar caminhos pelo meu pescoço, clavícula, ombros. Não era um momento delicado, no entanto. Eu nunca vivera nada assim com um garoto antes, por mais sensacionais que os amassos tivessem sido. Isso era diferente, fazia meu peito inflar de sentimentos e desejos, era brutal e arrasador. Então existia de verdade. A tal química mágica entre duas pessoas – passei a vida toda lendo em livros, assistindo em filmes, sem realmente acreditar, mas estava ali, meu coração batia tão depressa a ponto de me fazer passar mal. Eu ardia por dentro, queimava numa espécie de suplício doce, queria dizer Ian, espere um pouco, por favor, é demais, e no entanto só conseguia puxá-lo mais e mais para mim, até que nós dois respirássemos apenas um ao outro, fossemos apenas uma única chama. Eu sentia que podia desenhá-lo com a ponta dos dedos, traçando cada parte dele – as costas, os braços, a curva da coluna, o pescoço – e jamais aprender realmente como Ian era. Um conjunto de músculos, ângulos, tendões, força, texturas, cheiros e gostos e sons. Eu queria sentir tudo de uma só vez, e depois várias vezes seguidas.


Algo assim deixaria marcas. Eu sabia que ficaria roxa em vários lugares, embora Ian não estivesse me machucando; ele apenas estava tão envolvido quanto eu. Na verdade, um pouco mais. Isso ficou bem óbvio quando senti uma fisgada de dor entre o beijo. Antes de se afastarem, os lábios dele espalharam o gosto doce de sangue sobre os meus. “Ah, droga, desculpe”, Ian murmurou, quase sem voz. E depois, sem jeito: “Não é uma boa ideia.” “O que?”, eu sabia, pela latência em meu lábio inferior, que tínhamos passado um pouco do limite, mas não achava que isso era um bom motivo para parar. “Não vai dar certo”, ele se afastou para me olhar. Suas sobrancelhas estavam franzidas, o olhar ao mesmo tempo desfocado e ardente. Ian engoliu em seco e a linha de seu maxilar enrijeceu, ele ficou distante, hipnotizado por uma lógica que só ele via, “Lua crescente... é lua crescente.” Eu puxei o ar várias vezes até ter fôlego o bastante para raciocinar. É difícil voltar à tona quando se está indo muito fundo em direção ao paraíso. “Do que está falando?” “Ah, droga...”, ele fechou os olhos com força, me soltou e recuou. A ausência do calor e do peso de Ian sobre mim foi um choque que levei alguns segundos para absorver, assim como a noção de que minha blusa estava levantada até quase a altura dos seios e minhas pernas se abriam numa posição completamente desconcertante. Santo Deus, eu nem ao menos tinha percebido que estávamos avançando dessa forma! Fechei as pernas e sentei na grama, tão atordoada como se tivesse sido revirada do avesso por um tornado. Quanto tempo aquele beijo havia durado, um minuto? Parecia menos, e no entanto fora tempo o suficiente


para me devastar de maneira cruel. Olhei para Ian. O modo como se afastou de mim foi brusco e eu esperei vê-lo levantar e ir embora, mas ele ficou sentado na minha frente, rodeando os joelhos afastados com os braços e parecendo torturado, perdido e... furioso. Tive a horrível impressão de ter cometido um erro, mas reprimi uma crise de autocomiseração; eu precisava parar de achar que me envolver com Ian era um problema, especialmente depois de um beijo como aquele. Beijá-lo fora tudo, menos errado. “O que foi isso?”, o gosto dele ainda queimava minha boca. Ian me encarou enquanto recuperava o fôlego. Pelo menos fiquei satisfeita em ver que eu o havia afetado também, ao menos agora não parecia que era um jogo injusto. Ele abaixou a cabeça e agarrou os cabelos da nuca – um gesto que eu aprendera a identificar como um sinal de que ele estava sob pressão. Para mim, era no mínimo assustador. Olhei para Ian, e uma sensação fria atingiu minhas entranhas; eu provavelmente nunca mais teria isso de novo com outra pessoa. O modo como me sentia com ele, o que ele era capaz de provocar em mim com um olhar, um toque, um gesto... Era apenas esse momento, ele era único e jamais retornaria. Pensei em meus pais, separando e voltando o tempo todo, desajeitados com os próprios sentimentos como se o amor fosse um sapato apertado ou um terno grande demais. E o fato de que Ian teimava em ser um total desconhecido para mim partia meu coração em mil pedaços, porque eu não podia suportar a ideia de ter com ele um amor tão escorregadio quanto o de meus pais. Meu peito queimou com um tipo diferente de sentimento e ergui o queixo com ímpeto. “Onde você trabalha?”, a pergunta escapou pelos meus lábios como um


disparo, forte o bastante para jogá-lo contra a parede. Ele não respondeu essa, então pulei para a seguinte. “Onde estão seus pais?”, silêncio. Próxima: “Que diabos foi isso de lua crescente? O que você faz todos os dias antes de me encontrar aqui? Chega sempre com o cabelo molhado, por quê?” “Está fazendo perguntas pessoais”, ele murmurou secamente por entre os joelhos. “É, estou. Existe algum tipo de regra que proíba isso com você?” Ian bufou uma risada amarga. “Você é impossível.” “Só quero conhecer a pessoa que acabei de beijar e por quem estou apaixonada. Acho que não tem nada de errado nisso.” Quando ele levantou a cabeça para mim, me dei conta de que tinha me declarado, e pelo modo como seu olhar oscilou no meu, Ian também estava muito ciente disso. Meu rosto queimou, mas não me importei, não havia sentido em fingir que não estava acontecendo nada entre nós. “Eu trabalho num estúdio de tatuagem”, ele começou a falar com uma voz monocórdica e retesada, e eu identifiquei ali uma meia verdade, “No vilarejo do outro lado do rio. Mas a casa só funciona de madrugada, porque fica na região dos pubs, então eu tomo um banho antes de vir para cá, para estar mais acordado quando...”, houve um momento de hesitação em que a palavra pareceu ficar retida na garganta dele, e então foi expelida delicadamente, “encontrar você.” Meu peito apertou com uma pontada de remorso. Havia mais nuances ali do que ele queria me fazer acreditar, mas uma verdade parcial ainda é


melhor do que o silêncio. “Eu não sabia... Você devia ter me dito, esses encontros devem acabar com você...” “É”, ele esboçou um sorriso misterioso, “mas não da forma que você pensa”, e engoliu em seco, “Não me importo de gastar meus dias com você se esse for o único tempo que temos disponível, mas tem coisas que você realmente não deve saber, Evelyn.” “Mas por quê?” “São segredos”, a voz dele estava mais macia agora, embora ainda tivesse o timbre rouco que eu adorava, talvez porque ele estivesse sussurrando, “E segredos apenas devem ser mantidos.” Eu não estava conformada, mas tinha conseguido mais do que esperava. Não seria tão fácil com Ian, mas eu seria paciente, porque não existia outra maneira. “Tudo bem”, cedi, “Mas e seus pais?” “Segredo?”, ele sugeriu com as sobrancelhas erguidas. “Esse talvez seja um segredo que não estou disposta a abrir mão”, finquei pé. “Nem eu.” Como o impasse o favorecia, desde que o segredo era dele, deixei essa passar, por hora. Haveria muitas tardes para persuadi-lo, o que fez a pontada de remorso acender outra vez. “Bom, esse não é o único tempo disponível que temos. Tipo, que horas você atravessa o rio?”


“Meia-noite”, suas sobrancelhas escuras se franziram, “É muito tarde para você.” “Não tanto. Saio do Baked e vou para o cais. Vamos preservar suas tardes de sono.” “Teremos pouco tempo”, ele disse num sussurro rouco. “Mas quero uma garantia”, brinquei, “Como posso saber se você não vai mudar de ideia como da última vez? Vou matá-lo se furar comigo de novo, Ian Lycan.” Ian soltou uma risada curta, mais parecida com um latido de satisfação. “Não sou assim tão instável.” Sério? “Você é”, talvez fosse um caso de transtorno bipolar. “E que tal isso...”, ele percorreu os dedos pelo fino cordão de couro em volta do pescoço, que ficava quase sempre escondido por debaixo da gola das camisas, e quando o ergueu pela cabeça, notei que havia uma pequena medalha furada no meio e amarrada numa extremidade. Ele passou o cordão pela minha cabeça e ajustou-a com cuidado sobre minha garganta, “Fique com ela.” Olhei para baixo. A medalha era de cobre e com certeza ficava muito mais bonita na pele castanha de Ian do que na minha, mas mesmo assim achei que ela tinha um certo charme, porque não parecia o tipo de bijouteria que eu encontraria à venda. De um lado havia o desenho de duas feras devorando a cauda uma da outra, elas envolviam o buraco vazado no centro e seus contornos eram delicados, porém assustadoramente realísticos. Quando a peguei, ela estava quente; do outro lado, o metal fino


era coberto de inscrições numa língua que eu não conhecia, tão minúsculas que eu precisaria de uma lupa para lê-las. Eu a revirei entre os dedos. “Eu conheço esse símbolo”, falei, “É um ouroboros. Significa a eternidade...” “É um símbolo pagão”, Ian disse com sarcasmo amargo, “Sim, tem um monte de significados, mas para mim representa o perigo da existência. De viver um dia depois do outro caminhando na direção da morte.” “Credo. Eu gostava desse símbolo”, suspirei, “Agora, graças a você, acho horrível.” “De onde você o conhece?” “Do meu livro favorito. A História Sem Fim.” Ian sorriu enigmático e assentiu, mas não disse nada. “E o que está escrito?”, emendei, “Do outro lado.” “É uma lenda dos índios algonquinos, foi feita há muitos anos e passada de geração em geração. Existem apenas oito dessas no mundo inteiro.” “Como você conseguiu essa?” “Kyle me deu. E eu ia dar para uma pessoa, mas ela ficou pouco tempo comigo”, uma sombra escura e triste perpassou os olhos cinza esverdeados de Ian, dissolvendo-se depressa quando pousaram nos meus, “Guarde, então terei que encontrar você para buscá-la.” “Kyle disse sobre o que fala a lenda?” A seriedade que congelou o rosto de Ian foi tão profunda e demorada que pensei ter dito alguma besteira. “Fala de homens com espíritos de lobos”, sua voz soou solene.


Subitamente uma energia estranha pairou entre nós, um silêncio pesado e cheio de significados que eu não compreendia, mas que me deixou arrepiada da cabeça aos pés. Lembrei das bobagens que Rose, Megan e Derek falaram naquela banheira, no fim de semana no Tagish Lake. Pude ouvir a voz de Rose ecoando em minha mente, cheia de ansiedade e expectativa: “Existem umas lendas dos índios algonquinos bem antigas na região que falam sobre lobos que viram homens...Sabem o que andam dizendo? Que é muita coincidência os lobos de Whitehorse sumirem justamente quando aqueles caras aparecem na cidade.” Os irmãos Lycan. Ian Lycan. Aqueles olhos inteligentes e cautelosos, aquele tom prateado que refletia nas íris de todos eles como o clarão da lua cheia numa noite sem estrelas. Nem mesmo os olhos negros de Kyle escapavam, e o efeito era tão bonito quanto bizarro. Mas eu estava levando aquela história longe demais, era apenas uma coincidência, lendas sobre lobos existiam em muitos lugares, porque não em Whitehorse? “Isso assusta você?”, Ian perguntou, tirando-me do transe. Agora sua expressão era cuidadosa, como se estudasse minha reação. “Não”, me espantei com a verdade daquilo. Não era medo que aquelas invenções me causavam, era algo mais próximo do fascínio, “Gostei dela”, acariciei a medalha, “Parece especial.” Antes de nos despedirmos, nos beijamos outra vez, encostados à porta do Corolla vermelho de Jenna. Dessa vez, a pressão do corpo dele foi leve, quase tenra. Com as mãos, experimentei a pele morna de seu pescoço, muito lisa e acetinada na nuca, e também a maciez aveludada do couro cabeludo. Era maravilhoso tocá-lo, não só porque Ian era realmente muito bom de sentir, mas porque havia aquela sensação esquisita, magnética e inebriante de estar sendo atraída para algo não permitido para mim.


A manhã seguinte foi agitada, não apenas porque tive um seminário para apresentar, mas porque Derek apareceu na hora do almoço. Acompanhado do mesmo bando de amigos grandalhões que tinham passado o fim de semana conosco no Tagish Lake, ele atravessou com a Ferrari branca o pátio da Yukon e acenou para mim enquanto eu e Amber atravessávamos o gramado úmido e escorregadio. O som do rock pesado escapava pelas janelas abertas do conversível. Estacionaram numa vaga para deficientes físicos (embora tenha ficado óbvio, quando os quatro garotos saltaram, que nenhum deles possuía isso), e Derek veio na minha direção com um sorriso caloroso e ofuscante. Algumas alunas do quinto ano viraram as cabeças em sua direção, fascinadas. “Ei, Evy!”, ele gritou por sobre o barulho, passando um braço deliberadamente por minhas costas e me puxando para um abraço. “Achei que a vaga fosse para deficientes físicos”, comentou Amber morbidamente, mas sua voz monótona soou alta o bastante para que Derek ouvisse. “Quem é essa aí?”, ele abanou a cabeça na direção de Amber, como se ela não fosse capaz de se apresentar sozinha. “Amber Syenfield”, respondi. “Mas estou vendo que é para deficientes auditivos!”, ela acrescentou, berrando para superar os decibéis que sacudiam o carro. Derek encarou Amber como se ela fosse tão interessante quanto um rabanete, então voltou a atenção para mim. “Então, estou imaginando que você não sabe nada sobre o Festival de Verão.” “Festival de verão?”, estranhei. Era possível que um dia Whitehorse


chegasse a conhecer o calor? “É, pessoas da região vestidos de índios, barracas, comidas típicas, cerveja de graça e essas coisas. É nesse fim de semana. O pessoal está pensando em comprar uma mesa.” “Hum”, aquilo me parecia um convite, mas Derek era arrogante demais para chamar uma garota para sair de maneira tão objetiva, e aproveitei a deixa para me fazer de sonsa, “Parece legal, vou convencer Jenna a comprar uma mesa também.” O semblante de Derek anuviou. Ele franziu as sobrancelhas douradas e estalou a língua. “Ah... Na verdade, vocês podem ficar com a gente.” Lancei um olhar para o grupo de garotos encostados na Ferrari lá atrás. “Acho que não vai ter espaço.” “Jason e Logan estarão na Califórnia, vão sobrar dois lugares”, Derek ergueu uma sobrancelha, triunfante. Amber virou-se discretamente para o lado, fingindo interesse na paisagem. “Mas talvez Jenna queira levar o Carl...” “Pelo amor de Deus, Evelyn, fique logo na mesa desse idiota!”, Amber soprou para mim pela lateral da boca. “Tudo bem”, aceitei, infeliz, “Combino tudo com Rose.” “Beleza”, ele se inclinou na minha direção para me dar um beijo na bochecha, mas sua mão pesada apertou de leve a base do meu pescoço, mantendo-me no lugar, e sua boca passou direto pelo meu rosto, indo parar na minha orelha, “Senti sua falta.”


Ele se afastou antes que eu pudesse responder, gesticulou um tchau por sobre o ombro – que não se estendia à Amber –, e voltou para o carro. Os garotos entraram e a Ferrari partiu com uma manobra agressiva que assustou dois caras que passavam distraídos pela calçada.


CAPÍTULO 13 IAN LUA CRESCENTE. Apesar do que a maioria das pessoas pensa sobre nós, a lua cheia não é nosso maior pesadelo, é a fase logo antes dela. A lua cheia, na verdade, é uma tortura suportável, mas nada parecido com a sensação de ter dentro do peito uma granada prestes a estourar. Isso é a lua crescente, um acúmulo de energia estimulante que gera necessidades que não temos como controlar, porque nossos níveis de testosterona aumentam vertiginosamente. E com isso quero dizer basicamente o desejo incontrolável por três coisas: violência, comida e sexo. A primeira é fácil de resolver, por isso treinamos no clube de luta clandestino nos limites da cidade, geralmente inutilizado desde que não há tantos esportistas em Whitehorse, o que é bom. Ele é praticamente exclusivo para nós. Eu e Kyle treinamos nele todas as manhãs durante a lua crescente, Matt e Ethan ficam com o horário da noite; seja como for, é praticamente impossível passar pela lua crescente sem extravasar o excesso de energia acumulada. Basicamente, é exatamente isso que a lua crescente significa: expansão. Seja no sentido territorialista, no sentido físico ou... genético. Desde que somos os únicos lobos da região (lobos com dominância, portanto, os desgarrados não contam), o modo menos prejudicial de descontar a vontade de arrumar uma boa briga é socando sacos de areia até que os músculos gritem por clemência. A fome não chega a ser um inconveniente e Carl muitas vezes


nos alertou sobre nossa dieta pobre em calorias durante o inverno. Aumentar e ganhar massa é praticamente uma necessidade de sobrevivência e eu não estou reclamando nem um pouco por precisar ingerir dez quilos de carne por dia. O que é realmente uma merda, o que nos deixa humilhados e miseráveis é a terceira coisa... Numa manhã de treino como outra qualquer, enquanto Kyle fazia flexões no chão e eu me distraía com os sacos de boxe, fomos interrompidos pela presença de uma terceira pessoa que surgiu do nada no meio da academia deserta. Virei o rosto para coçar a testa e vi o vulto pequeno pairando ao lado da arena. Reconheci como sendo um dos garotos desgarrados que encontramos perto da fogueira na festa, o guri da foto, que tinha sorrido para a gente tentando se enturmar antes de Kyle lhe virar as costas. Por volta de 1,60, magro a ponto da calça jeans ficar folgada nos joelhos, pele da cor do cal e olhos cinzentos, ele era uma peça completamente errada no cenário. Pigarrei alto para chamar a atenção do meu irmão. Ele interrompeu os exercícios e ficou de pé num único movimento sincronizado. Olhou ofegante para o intruso, medindo-o de cima a baixo. Trocamos um olhar rápido que significava lá vem problema. “Como nos achou aqui?”, apesar do esforço, a voz de Kyle era firme e tranquila. “Eu...”, o pobre diabo não era apenas fisicamente um desastre, mas sua voz não transmitia nenhum tipo de virilidade. Estava aterrorizado, e talvez isso explicasse o cheiro bizarro que exalava; a mistura de uma forte essência de menta ao odor ocre do medo dava náuseas, mas eu não podia criticá-lo. A imagem de dois caras seminus e do tamanho de postes exalando testosterona no meio de uma arena de luta não é exatamente pacífica.


Kyle começou a avançar, impaciente, e eu ergui uma mão para detê-lo. “Onde estão os outros dois?” “Eles n-não sabem que vim”, o garoto arregalou os olhos como se acabasse de perceber que estava vulnerável, mas eu assenti, encorajando-o, “Vocês são... Quer dizer, estão aqui a mais tempo, e eu achei q-que...” “Onde está o mais velho?”, Kyle perguntou, puxando do bolso lateral da calça de náilon uma bandagem de proteção e começando e a enrolá-la na mão esquerda. Só fazia isso quem estivesse se preparando para enfiar socos, o que o garoto aparentemente compreendeu corretamente, porque recuou dois passos. “M-mais velho?” “Caralho”, Kyle xingou, mas só eu ouvi. “Esse é o seu primeiro ano”, não era uma pergunta, mas o menino me olhou como se fosse responder, “Quem estava aqui antes disso?” “Vocês”, ele disse, os olhos muito abertos e sinceros pulando de mim para Kyle. Kyle acertara, então. Não havia dominância entre eles. “Quantos são?”, perguntei, deixando que Kyle cuidasse da tarefa de ameaçálo apenas com o olhar. Ele tinha esse poder, e sabia a hora de usá-lo. Não se tratava de humilhar o garoto, mas de estabelecer um comando, e isso é instintivo. “Eu e mais dois, Mike e Taylor, que estavam comigo na festa.” “Porque diabos você se matriculou na Yukon?”, Kyle estava com raiva, e tinha razão para estar. Ter um dos nossos se misturando no meio de um monte de humanos, mesmo que não fosse da nossa família, era um risco grande.


“É o que as pessoas da minha idade fazem, não é?”, o olhar dele oscilou depressa de Kyle para mim, como se esperasse que um de nós dois confirmássemos, o que não aconteceu. “Você não é uma pessoa”, meu irmão agora rodeava o menino, obrigando-o a girar nos calcanhares. Seus olhos assustados tentavam se manter nele e em mim ao mesmo tempo, e o resultado dava um pouco de pena, “Se não percebeu isso até agora, não vai sobreviver aqui.” “Qual é o seu nome?”, eu perguntei antes que o garoto abrisse a boca para responder a Kyle, em parte porque sabia que, o que quer que ele dissesse, só ia enfurecer meu irmão ainda mais. “Adrian.” “Adrian, acho melhor dar o fora.” Os olhos assustados de Adrian outra vez foram de mim para Kyle num ritmo frenético. Caramba, se ele fizesse isso mais uma vez teria uma convulsão. Sua pele pálida de repente ficou vermelha, as veias de sua testa pulsaram, formando um Y entre as sobrancelhas finas. “Vocês não entendem? Não temos para onde ir!” O que provavelmente era verdade. Sem um irmão mais velho para recebêlo na primeira transformação, você fica à deriva, sem casa, sem família, sem dinheiro, sem rumo. Por um momento, senti pena por Adrian, Mike e Taylor. Isso explicava os trapos que usavam, a aparência suja e cansada. Então me dei conta de uma coisa. “Espere aí, a Yukon exige documentos para a matrícula, como conseguiram entrar se não têm nenhum?” Adrian ficou de boca aberta, pego desprevenido. Ele chegou mesmo a acreditar que íamos deixar passar essa?


Kyle parou na frente dele e o encarou. Adrian deu dois passos para trás, aproximando-se da porta. “Ele não está matriculado”, falei alto, embora fosse óbvio, “Está burlando a segurança para filar o almoço no refeitório.” Inclusive, isso fazia mais sentido. Nossa natureza dificilmente levava numa boa estar no meio de muita gente, exceto se fosse por sobrevivência. “Some daqui, garoto”, Kyle estalou os dedos contra a palma da mão. Adrian recuou afoito, quase tropeçando nos próprios cadarços, mas em tempo de ouvir: “E volte amanhã. Ou quando tiver bolas.” Quando o garoto sumiu, eu e Kyle xingamos palavrões diferentes ao mesmo tempo. “Que merda, Kyle, não podemos deixá-los morrer de fome.” “Não vão morrer de fome”, meu irmão passou as mãos pelos cabelos cortados rente, os músculos dos ombros tão tensionados que chegavam a trincar. “Isso é cruel, cara”, estendi a mão para ele num gesto de trégua. “É, é, eu sei, quer calar a boca e me deixar pensar?”, ele esbravejou, passando por mim para se enfurnar nos vestiários. Segurei o saco de areia e encostei a testa no vinil duro, puto com a situação. Tentar preencher os buracos gigantes que formavam o mistério que envolvia nossa espécie fazia meus miolos ferverem. A raiva disparava nossa temperatura, já quente por conta dos exercícios, e comecei a fazer minha contagem mental, onde 60 segundos é o número crítico. Antes de Evy, eu pensava no som de córregos, notas de um piano, gotas de chuva caindo na grama para me acalmar. Agora, invocava a sensação do toque da pele dela, mais macia do que algodão, e no cheiro de seus cabelos quando vinha do Baked, baunilha e torta de maçã, e no modo como deslizavam para frente,


encobrindo parte de seu rosto pequeno como a sombra da Terra sobre uma lua minguante. E também sua voz falando comigo, aveludada e doce, e nos olhos inteligentes e atentos, de um verde vívido como cobre oxidado. Mas, merda, eu havia passado dos limites com ela, se não fosse pelo fiapo de lucidez que resgatei, não teríamos parado. O que nos traz de volta à terceira coisa. Kyle tem Lianne, e para ele a solução é simples, por mais que seja repulsiva para todos nós a ideia de passar nossos genes adiante. É mais do que um complexo de inferioridade; é a consciência realista do que somos e do quanto nossa condição é uma merda. Isso provavelmente devia sentenciar a aniquilação da espécie, mas, contrariando a lógica, continuamos existindo e, nos próximos invernos, certamente mais uma leva de amaldiçoados vai se transformar. O que nos faz crer que, assim como Rômulo e Remo, somos filhos de uma loba. Matt conheceu Claire em seu primeiro ano, então não teve tempo de passar por uma lua crescente sozinho e, depois que ela tentou matá-lo, não havia mais lua para ele. Não havia mais porra nenhuma a não ser uma bolha escura e vazia. Esse era o mundo de Matt. A princípio tentei resolver meus problemas no Blue Moon. Mas, na primeira chance que surgiu, ferrei com tudo. Foi no meu segundo ano. A garota se deixou levar com facilidade, mas no caminho para a casa o instinto de perigo foi mais forte do que a necessidade por sexo. Por mais que eu precisasse, a expectatiava de contato – o embate íntimo – era repugnante. Não foi uma coisa bonita de se ver. Eu dei meia volta para devolver a garota ao Blue Moon e ela não digeriu bem a rejeição. Entre bolsadas na minha cabeça e xingamentos aos berros, resolvi que corria menos riscos resolvendo meus assuntos sozinho.


Depois disso, houve uma segunda tentativa, dessa vez chegando ao que interessava e encerrando a questão, mas foi ainda mais traumático. Apesar de ter tido o cuidado de não escolher uma virgem, a garota adorou tanto a sessão quanto teria gostado de ser chamada de vaca. Em termos práticos, o sexo não é um problema. Já faz algum tempo que me dei conta de que existe uma quantidade razoavelmente grande de garotas prontas para serem levadas para cama por mim e por meus irmãos. Nossa fama de caras escrotos, por incrível que pareça, as atrai mais do que buquês de rosa e anéis de diamante. Para elas, a barreira de hostilidade que criamos para manter os outros afastados não significa nada além de um fetiche. Sei disso pelo cheiro que elas exalam as vezes, quando nos aproximamos, picante e forte como um tempero afrodisíaco. Então, deveria ser simples escolher uma e solucionar a questão. Sim, deveria. Se não fosse nossa inabilidade em lidar com o contato. Aparentemente alguns lobos, como Ethan, por exemplo, simplesmente são menos humanos do que outros. Para ele, o toque é mais do que uma dificuldade a ser superada, é um gesto repulsivo. Na forma de lobo, ele é o mais desconfiado de nós cinco, o que prefere passar fome a arriscar um petisco fácil na casa de Jenna. O que me traz de volta a Evy. Fora uma infeliz coincidência que a lua crescente estivesse se aproximando depressa justamente quando eu havia entrado num acordo com o lobo de que não resistiria mais ao efeito dela sobre mim. Com a retaguarda baixa e os hormônios em explosão, era impossível estar perto de Evy sem imaginar uma miríade de cenas com ela. Só que Evelyn não era como as prostitutas do Blue Moon, nem como as universitárias desbocadas da Yukon. Ela se vestia sem nenhum propósito de parecer sexy, não se entupia de maquiagem e não fazia questão de


comprar as mesmas bolsas e sapatos que todas as outras garotas estavam usando. Ela nem mesmo parecia estar neste mundo. Um dia, quando eu e Kyle atravessávamos a praça principal da cidade para chegar até a mercearia da esquina, vimos as telas de um artista local expostas ao ar livre, escoradas contra o imenso chafariz desligado. Fazia sol e as cores saltavam nas telas, na maioria paisagens bucólicas, a interpretação clichê dos cenários de Whitehorse. Mas havia uma... Um lago no verão. 98% da tela era verde e azul, um amálgama aquoso e entediante de pinceladas para lá e para cá, e então uma minúscula e frágil cabana escondida num canto, toda feita em tons de cobre enferrujado. Talvez não passasse de uma mancha acidental. Mas, pelas próximas três semanas vaguei por Whitehorse tentando achar aquele cenário, aquela casa. Que tipo de pessoas viviam nela? Como seriam suas vozes? Suas risadas ou suas lágrimas? Eu me perguntava se só eu via Evelyn assim, se só eu queria desesperadamente conhecer tudo que ela não mostrava. Além disso, sua pele me fazia lembrar a delicada camada sob a penugem de um pássaro contra a luz do sol, fina, delicada e aveludada, o que a resumia muito bem. Ela estava claramente embaralhando meus sentidos. Quando nos encontrávamos durante o intervalo espremido que ela tinha entre o Baked e a faculdade, Evy andava ao meu lado abraçada aos cadernos, corada e radiante, e eu me amaldiçoava por ter ficado a manhã toda na academia socando sacos de areia enquanto pensava em todas as posições em que queria colocá-la na minha cama. Deus, era tão pequena. Só uma estudante. Apesar disso, as coisas que dizia, o modo como me enfrentava, a franqueza despretensiosa, a ousadia e a falta de medo diante de mim ou dos meus irmãos... Inferno.


Na noite anterior ela estava me esperando dentro do carro, como prometera que faria. Sorriu assim que me viu, e eu me aproximei apenas o bastante para podermos conversar pela janela do Corolla. Isso a deixou confusa e frustrada, mas se eu descesse da moto, se ela viesse até mim, estaríamos perdidos. Foi um diálogo rápido; ela logo fechou a cara e inventou uma desculpa para ir embora. Não gostava de ser contrariada, eu estava aprendendo depressa sobre Evelyn. Ela era uma menina calma, mas havia uma força incontida dentro dela, dava para ver no fundo de seus olhos verdes quando alguém a magoava. Quando eu a magoava. Eles incandesciam. Odiava fazer isso, mas sou o que sou e devo me proteger, e a ela também. Eu não podia deixar as coisas passarem para o patamar seguinte sem contar a ela tudo – absolutamente tudo. Ela merecia saber o que teria de mim, o quão ruim poderia ser. Então, eu só precisava de um pouco de tempo até que a lua crescente arrefesse desejos para, com calma, contar a verdade. E esperar que Evelyn não saísse correndo. Ou tentasse me estrangular. Kyle reapareceu de banho tomado, camisa branca, calças limpas e a mochila preta num dos ombros. “Você vai treiná-lo”, ele apontou um dedo na minha cara, e eu empurrei o saco de areia sobre seu peito num reflexo. Kyle o rebateu para o lado sem se abalar. “Porque eu?” “Porque é você a Madre Teresa aqui. Treine o menino em defesa pessoal, faça-o ganhar músculos e força, ensine-o e conte a ele tudo que sabemos.” “Mas vou treinar um desgarrado. Isso é...” “Eu sei bem o que isso é, Ian”, Kyle me lançou um olhar de quem recusa argumentos e foi andando para a saída.


“Ei, e quanto ao resto? Vai deixá-los na rua?” “Vou passá-los para o Oz.” Oz havia feito nossas identidades falsas e era a quem recorríamos quando precisávamos de favores ilegais. Fora um contato deixado para nós por Paul, mas evitávamos recorrer aos favores de Oz pelo simples fato de que, com implantes de chifres ao redor da cabeça, tatuagens pelo corpo inteiro e próteses de dentes imitando presas, o cara era uma versão menos humana do anticristo. Mas, se Adrian e os irmãos fossem espertos, iam aceitar essa oportunidade de cabeça baixa e gratidão. Era a única chance que tinham de sobreviver. EVELYN Pedi para Chloe para que minha folga da semana fosse na sexta-feira e planejei usar o dia para ficar imersa nos livros da faculdade. Também passei cedo na casa dos irmãos Lycan e avisei a Liam que teria que suspender nossa leitura com a desculpa de que precisava colocar em dia alguns trabalhos da faculdade, o que não era de todo mentira. Isso ia me fazer esquecer de Ian e do jeito frio com que havia me tratado na noite anterior, quando fui encontrá-lo no cais. Ele nem ao menos se dignou a descer da moto para me cumprimentar, e tabulamos uma conversa rasa pela janela, como se ele fosse um estranho de passagem me parando para pedir informações sobre o retorno mais próximo. Era simplesmente revoltante. Como ele podia me beijar como se estivesse fora de si e horas mais tarde me tratar como se eu transmitisse lepra?


Ele merecia um gelo, e era precisamente o que teria. Uma mensagem de Amber chegou no celular, interrompendo minha fúria. Ei, que droga de texto é esse que temos que ler? Não estou entendendo porcaria nenhuma. Ao mesmo tempo, o aparelho vibrou, acusando uma segunda mensagem. De Ian. Escolha a opção correta. Depois da noite de ontem, você está: a)Irritada b)Emputecida c)Corro risco de vida d)Todas as anteriores e uma opção impublicável. Se quer uma sugestão, não perca tempo escolhendo. Não vai fazer nenhuma diferença para mim. Estreitei os olhos para a tela do celular. Não sabia bem o que me dava mais raiva, ele saber que tinha agido como um idiota ou estar fazendo gracinha sobre o assunto. Ignorei a mensagem dele e respondi para Amber: Está me dando dor de cabeça entender esse texto. Talvez devêssemos subornar Jeremy para que ele nos dê um resumo. Jeremy era um garoto magricela de olhos miúdos que costumava entender e decifrar absolutamente todo o conteúdo das aulas, até mesmo os mais escabrosos. Sabíamos que tinha mania de fazer resumos, e Amber já havia roubado um de dentro do fichário dele no começo do curso, quando a fama de cdf de Jeremy se alastrou pela classe. Em geral, eu não tinha tantas dificuldades com a matéria quanto Amber, mas meus neurônios estavam no momento muito ocupados com o esforço de entender o comportamento incoerente/sádico de Ian para darem atenção a qualquer outro tema.


Ótima ideia, respondeu Amber, Mas não precisamos suborná-lo, posso roubar dele no intervalo. Isso não é muito correto. Amber respondeu com o emoji de um diabinho sorridente. Esbarrei nas teclas sem querer e o que eu ia mandar para ela, uma carinha rindo, acabou indo parar na janela de conversa de Ian. Oh, droga. Ele respondeu depressa: Você sempre me surpreende. Agora que está tudo bem, podemos voltar a nos falar? Eu digitei com o sangue fervendo: Não está tudo bem! Mas não queria ter que explicar porque estava zangada, apesar de ser óbvio. Quer dizer, justamente por ser óbvio. Acabei não mandando a mensagem para evitar uma briga exaustiva, pois Ian certamente acharia justificativas para tudo que eu argumentasse, ou pararia de me responder, o que era ainda mais exasperante; além do mais, discutir com ele me exauria psicologicamente. Redigitei a mensagem e a enviei com um suspiro resignado. É claro, mas não me contive, podemos começar com você explicando porque está me evitando. Ele não respondeu o que eu esperava, que seria não estou evitando. Em vez disso, digitou: Foi você quem me deixou esperando hoje na hora do almoço. Eu devia ter imaginado. Ian era especialista em virar o jogo e desviar todo o foco da atenção para longe de si com a facilidade de quem abana uma mosca. Deixei o livro que estava lendo de lado e teclei uma resposta para ele no celular. A janela de conversa de Amber piscava com mensagens novas, mas


eu agora estava totalmente vidrada na de Ian. Você sabe porque não fui. Não consigo acompanhar suas variações de humor, e não sei lidar com caras bipolares. Aliás, qual foi o lance da lua crescente, é seu período de TPM? Você tem que me avisar, para que eu possa me preparar para os seus surtos de “quero você” e “agora não quero você”. Ian devolveu simplesmente: Eles ocorrem ao mesmo tempo. Fechei os olhos e respirei bem fundo. Eu sabia que garotos davam trabalho, mas Ian Lycan me deixava louca. Era assim com os caras também, quando eles diziam que nós, garotas, éramos difíceis? Pois Ian Lycan tinha o temperamento impossível de uma garota, embora todo o resto – incluindo o humor – fosse indiscutivelmente masculino. Lá se fora meu dia de estudo. Olhei para a pilha de apostilas sobre a escrivaninha, aguardando para serem abertas, e soube que iam permanecer assim pelo resto do dia. Rose estava certa quando dizia que eu andava avoada, nunca fui boa em conciliar romance com afazeres diários, o que me irritava profundamente. O celular vibrou em minha mão com uma chamada recebida. Levantei o visor e li o nome de Ian na tela. Atendi de má vontade, não porque não quisesse falar com ele, mas porque sabia que, não importava o que ele dissesse, eu não ia conseguir ficar com raiva por muito mais tempo. “Oi.” “Desculpe”, a voz dele era monótona, mas suave. Deliciosa de ouvir. “Tudo bem.” “Precisamos conversar”, o tom mudou de leve para sério. “Já estamos conversando.” “Não assim. Pessoalmente”, havia um toque de tensão nas palavras, como


se ele estivesse se obrigando a pronunciá-las, “Posso ir até aí? Chloe liberaria você mais cedo?” “É minha folga hoje. Estou em casa.” “Chego aí em cinco minutos”, e desligou. Saltei da cama num pulo. Não esperava fazer as pazes com Ian tão depressa, e isso só comprovava o quanto eu era molenga. Troquei a calça de plush por uma calça jeans preta, escolhi uma camisa limpa de mangas compridas e calcei uma sapatilha simples. Meu cabelo estava ok, liso e invariavelmente ruivo, e não havia tempo para fazer nada mais elaborado com ele. Deixei solto. Já tinha escovado os dentes depois do almoço, mas repeti o ritual apenas por garantia. Ao olhar no espelho me achei pálida e sem graça, mas não ia passar maquiagem, seria muito para o ego arrogante de Ian. Do tipo, gastei tempo demais me arrumando pensando em você. Esperei que ele tocasse a campainha da porta da frente, mas em vez disso ele chegou pelo deck que dava para o lago, nos fundos da casa. Ele caminhou pela varanda externa e deu três batidinhas no vidro da porta. Usava uma jaqueta de couro que eu lembrava já ter visto num dos outros Lycan, talvez no moreno, o mais velho, Kyle, e uma camisa branca por baixo, bem esticada sobre o dorso rijo. Cheirava a limpeza; o cabelo molhado estava mais escuro que o habitual, as mechas curtas esticadas para trás expunham a testa lisa cor de bronze escuro, com a familiar penugem aveludada nas têmporas, os olhos esverdeados pareciam mais límpidos, mais prateados do que dourados, mais glaciais e faiscantes. Mas havia algo estranho no modo como o pomo-de-adão dele se movia na garganta, como se estivesse engasgando discretamente. “Evie”, ele murmurou meu nome como uma saudação. Seus olhos sorriram de leve, mas a boca não. Afastei para o lado a fim de deixá-lo passar. As pesadas botas de Ian


estalaram quando ele gingou para dentro da sala, curvando a cabeça um pouco para baixo, embora sua altura não chegasse a brigar com o comprimento da esquadria. Ele caminhou contido diante do sofá, e me dei conta de que ele combinava tanto com as almofadas de tia Jenna quanto teria combinado com as cortinas de mamãe. Torci a boca para o lado. Apesar disso, ele era indescritivelmente sexy. Principalmente por causa disso. “Então”, estalei os dedos nervosamente, “O que é?” Ian relanceou um olhar pela sala de Jenna, especulativo, e eu indiquei desajeitadamente o sofá. “Fique à vontade”, era tão ridículo. Porque eu o estava tratando como se ele fosse um corretor de imóveis? Porque ele está impondo barreiras novamente, devolveu uma voz pequena e vaporosa no fundo da minha mente. “Hã, será que...”, ele se interrompeu, arrependido do que ia dizer, mas então retomou quase bruscamente, “Você está sozinha?” “Estou.” Isso pareceu aliviá-lo. Ele sentou na beirada do sofá, mas parecia desconfortável, mesmo quando afastou as pernas e apoiou os cotovelos nos joelhos. Passou uma mão pelos cabelos, assentindo para si mesmo. Eu sentei de pernas cruzadas no chão, bem diante dele, e esperei pacientemente, como já estava acostumada a fazer com tudo em relação a Ian Lycan. “Vou ser direto”, ele começou, mas parou. Engoliu em seco. Esfregou a nuca. “Ian, você fez algo errado?” Ele balançou a cabeça em negativa, mas a expressão não era muito


convicta. Peguei as mãos dele entre as minhas e as afaguei. Eram grandes e quentes, e estavam um pouco trêmulas. O olhar de Ian no meu era feroz, e eu vi toda a pressão que ele carregava vindo diretamente para mim como uma enorme âncora oscilando na minha direção. “Meus irmãos e eu”, ele retomou outra vez, “temos um problema com confiança.” “Isso eu já percebi.” “Ótimo”, mais assentidas. A musculatura de seu maxilar contraiu, marcando os ângulos de seu rosto, “Só me dê um pouco de tempo e eu acho... pode ser que melhore.” “Pode ser?”, eu suspirei, cansada. Ian me encarou com a expressão martirizada, então deixei os ombros caírem e mantive a calma, “Tudo bem, não tem problema. Só não me afaste outra vez”, a ideia veio num relâmpago e nem tive tempo de avaliar se era boa ou ruim: “Quer ver uma coisa?” Apenas uma sobrancelha de Ian se dispôs a reagir. “Que tipo de coisa?” “O tipo de coisa...”, bem, eu não sabia como colocar em palavras as minhas manias, “O tipo de coisa que quero que você veja. É lá em cima”, eu apontei para o teto e corri escada acima, mais por vergonha de olhar para a cara dele do que por pressa. Ele me alcançou no pequeno corredor que antecedia o meu quarto, eu abri a porta e fiquei recostada nela, aguardando que ele passasse. Quando o fez, foi com os olhos nos meus, mais significativos e intensos do que o recomendando para a ocasião. Durante toda a minha vida, as duas coisas mais desafiadoras que haviam entrado no meu quarto em Nova Iorque foram minha persa Marie e um aspirador de pó portátil. As regras em casa seguiam a rigidez improvável de um colégio interno, e eu jamais havia parado para pensar nas


implicações disso até agora. Eu tinha inventado aquela ideia vexante de mostrar uma coisa para Ian, mas mal sabia como lidar com sua imensa presença no meio das minhas coisas. Ali, parado sobre o meu tapete de pelúcia lilás, Ian era uma força masculina, destoante e complexa, todo ombros, pernas compridas e mãos grandes. Diferente do contraste que exercia com o resto da casa, ele transformava o meu quarto num lugar que eu ansiava redescobrir. “Legal a vista”, ele apontou distraidamente para os janelões de vidro, procurando meu olhar por sobre um ombro. Não dava para dizer que ele estava tenso, certamente não tanto quanto eu, mas sua postura era vigilante. Eu apontei para o telescópio, o vulto negro debaixo da claraboia que, àquela hora do dia, contra o sol, desenhava a sombra de um monstro articulado na parede. Ian se aproximou da luneta, os dedos passaram sobre sua extensão como se acariciassem as costas exóticas de um imenso lagarto. Ele não chegou a se abaixar para olhar através da lente. Em vez disso, encarou a claridade pungente lá fora. “Posso garantir que de noite é espetacular”, murmurei, forçando um sorriso. Ainda estava imprensada contra a porta e dei um passo à frente, mas continuei com as mãos enfiadas nos bolsos traseiros da calça, bem firmes sobre as nádegas. Uma pose indefinida entre o despojado e o excessivamente deselegante. Ian passou a mão pelos cabelos, alisando os fios rentes. O gesto pareceu nublar sua expressão. Ele lançou um breve olhar inspecionador ao redor, prendendo-se nas minhas sapatilhas de cetim sobre a escrivaninha e no sutiã cor de vinho pendurado na cadeira. Puta merda. As palavras atropelaram a oportunidade:


“Desculpe, eu só queria te mostrar isso”, apontei desnecessariamente para o telescópio, minha voz soando esganiçada de um modo que eu sabia que odiaria lembrar mais tarde, “É a coisa mais legal que tenho. E a mais preciosa também”, dei de ombros, desenterrei as mãos dos bolsos e as cruzei sob os seios, “Então, agora você sabe onde eu estudo, onde eu trabalho e...”, fiz um gesto aleatório na direção do telescópio, mas Ian estava parado diante dele, e pareceu que ambos faziam parte do acervo de uma loja de raridades excêntricas, “É isso aí. Essa sou eu.” Ele ainda encarava o maldito sutiã, mas com uma intricada expressão especulativa que a peça não seria capaz de inspirar. De repente, ele deslizou os olhos cinzentos para mim. “O que está tentando fazer, Evelyn?” Mordi os lábios e, em seguida, estiquei-os para a frente. Não respondi, porque era bem óbvio, e eu odiava ser óbvia bem mais do que detestava dias de ventania. De repente, Ian deu um breve sorriso divertido. “E não precisa ficar assim por causa disso”, ele apontou o sutiã e eu corei furiosamente, “Não é como se eu nunca tivesse visto um na vida.” O modo como as palavra soaram, despretensiosas, indicava que ele vira não apenas um, mas vários sutiãs na vida. Fingi ignorar o comentário. “Foi um presente dos meus pais”, admiti, mas não conseguia mais olhá-lo nos olhos, “Sempre quis um. É um desejo bobo, eu sei, mas é o tipo de coisa importante, que você pensa em salvar no meio de um incêndio.” “Elas também?”, ele apontou para minhas sapatilhas com um sorriso zombeteiro. “É, elas também.” “Então essa é você. Telescópios e ballet.”


“E cappuccinos. Sem açúcar.” Ian mordeu o lábio inferior ao enfiar as mãos nos bolsos e me olhar com ar divertido e ao mesmo tempo comovido. Arrisquei encará-lo, e ficamos algum tempo assim, ele em pé no meio do quarto, eu apoiada na penteadeira de braços cruzados, fazendo caretas estranhas com minha boca, menos de um metro e uma mochila velha nos separando. “Eu sei o que está fazendo”, ele murmurou de repente, uma nova luz derretendo seu olhar, “Está tentando me passar confiança.” “Acho que sim”, dei de ombros. Mas não achava que ia funcionar, de qualquer modo, “É assim que passo a confiar nas pessoas, quando sei quem são, como cheiram, o que guardam, onde dormem, o que colecionam, o que temem.” Na verdade, é assim que nos apaixonamos por uma pessoa, o que era uma grande incoerência, já que não sabia muito sobre Ian e, no entanto... Ele também entendeu isso, porque abaixou o olhar e encarou o chão, penalizado. “Eu sinto muito, Evelyn”, foi tudo o que disse, a voz quase morta. “Deixe-me tocar você, Ian. De verdade.” O silêncio no quarto foi arrasador, do tipo que precede uma explosão. Os pés dele recuaram, um gesto inconsciente, como se eu o tivesse empurrado. Eu desencostei da penteadeira e avancei devagar; Ian sentou suavemente em minha cama e eu me abaixei entre suas pernas, tomei seu rosto entre as mãos e o beijei, não sem antes registrar seu olhar – medo mitigado, mas também resolução. O contato com ele, fosse como fosse, era bom o bastante para dissolver as minhas preocupações. Seus lábios cederam e se abriram nos meus, encaixando o beijo. As mãos me trouxeram gentilmente para mais perto,


deslizando pelos meus ombros e pelas minhas costas, até que eu estivesse apertada num abraço ao mesmo tempo frágil e firme. “Deixe-me tocá-lo”, supliquei outra vez num sussurro. Ian se afastou e retirou a jaqueta com um movimento de ombros. A respiração estava levemente alterada, os olhos brilhavam feito prata líquida. A pele que surgia por debaixo das mangas da camiseta branca era lisa e castanha, uma cor linda e vigorosa. Ian pousou os braços sobre as coxas, as palmas das mãos voltadas para cima como quem aguarda uma benção, e ficou completamente imóvel e concentrado, me olhando fixamente. Comecei pelos pulsos. Segurando-os por baixo, deslizei o polegar sobre a pele mais fina, sentindo a pulsação acelerada e a textura suave. Depois subi pelo antebraço, sobre a protuberância maleável das veias, a rigidez dos músculos e o calor latente dos bíceps. Num determinado momento, Ian contorceu-se de leve e franziu as sobrancelhas, mas não soube dizer se era de agonia ou de prazer. Voltei para os pulsos. Desci até as palmas. Entrelacei os dedos nos dele. “Isso é bom”, confessei, um tanto excitada, “Tocar em você.” Ian molhou os lábios e puxou o ar com força. Sua barriga estava contraída, a musculatura parecia trincada mesmo por baixo da blusa. O tecido tremulava sobre o peito arfante. Ele emanava calor sobre mim, como se seu sangue fervesse. Sua beleza agora chegava a ser perturbadora, vulnerável e desejável, mas achei ter visto um lampejo selvagem percorrer seus olhos quando ele tentou fixá-los novamente nos meus. “Espaguete”, ele falou, desviando o olhar para baixo, “Ao molho de queijo. Coleciono jaquetas. Kyle também. Não gosto de frio nem de calor, não gosto de roxo, nem de laranja, não gosto de flores, elas fazem meu nariz coçar. Gosto de chuva, as de verão. Nadar pelado. Pablo Neruda. Os poemas, quero dizer. Odeio cantigas de ninar, qualquer uma, mas meu gosto para música é


o de um velho de setenta anos. Tenho medo de machucar meus irmãos, e é ainda pior porque sei que é inevitável, somos assim, desgovernados. Gosto de motos, mas isso você já sabe. São informações idiotas, Evelyn, não dizem nada sobre mim. Não dizem o que realmente importa, e o que importa eu não sei como dizer.” “Dizem alguma coisa. Mas você tem razão”, toquei a boca dele com a minha numa leve pressão, “Seus gestos dizem mais sobre você do que qualquer preferência, e o que você não conta quando está me olhando como se tentasse dizer tudo.” “Você já me conhece”, há tormento velado na voz rouca de Ian. Ele acariciou meu cabelo, afastando a franja para poder me beijar outra vez, “Mais do que qualquer pessoa.” “Preciso de mais”, o beijo se prolonga, e parece que já não estou falando só sobre confiança. Minhas mãos correm livres pelos braços dele, reconhecendo mais uma vez as sensações; num impulso, guio Ian para cima da cama. Não era nada disso que eu estava pensando quando o trouxe para cima, mas, como por encanto, cada gesto, cada passo, cada palavra entre nós nos levou a isso, e tenho a impressão de que sempre será assim, o desejo inescapável, a vontade paralisante que sinto por ele. IAN Matt está parado no meio da neve. Seu olhar é agudo e seu focinho está levemente contraído, os pelos do peito e do flanco espetados. Ele solta um rugido animal quando o tiro perfura o silêncio em nossa direção, e corremos espalhados como pinos de boliche. Alguém gane, parece Liam. Ele ainda é novo, está assustado e faminto, como todos nós. Nos afastamos da casa, deixando para trás o cheiro da comida rejeitada nas latas de lixo no quintal, o homem com a espingarda e o olhar raivoso de sua esposa, logo


atrás, na soleira da porta. Ela está grávida e, por alguma razão que minha mente animal não compreende, isso me choca. Não demora muito para sabermos que um de nós foi atingido. Eu. A dor é como uma faca em chamas perfurando minha perna direita. Giro mancando, atordoando pela sensação; ao meu redor, há uma mistura disforme de neve, areia escura e sangue espesso. Meu ganido se mistura com o de Liam e logo estamos todos os cinco uivando de frustração e miséria. Corremos no frio, porque é o que nos resta. É sempre assim. Quando o lobo sabe que estamos perto de algo arriscadamente íntimo, ele faz lembranças remotas explodirem em nossas mentes como alertas. Tenho que admitir que é inteligente, mas também é um erro. Ele não foi tão cruel das outras vezes, com outras garotas, e essa lembrança em específico é meu ponto fraco, porque foi quando comecei a ter verdadeira repulsa por qualquer tipo de aproximação com Homens. É um golpe baixo, mas o lobo em mim está fazendo isso porque percebeu, ele sabe. Ele entende que Evelyn não é apenas mais uma necessidade física. Ele a odeia. Embaixo de mim, Evelyn é tudo, menos detestável. Nossas bocas não se largam. Não são apenas beijos, são fricções, apertos, deslizes, encaixes. A respiração dela é ofegante, sua pele macia está quente e levemente suada, fazendo a camisa aderir no corpo, e consigo sentir seus ossos leves e delicados afundando sob o meu peso, os membros me envolvendo em abraços inquietos. O cabelo dela cheira a coisas doces, calda de maçã e nuvem de açúcar, o pescoço é morno, quase irresistível em minha língua, e estou pressionando-a em lugares demais, amassando-a contra a cama e não posso dizer que é à minha revelia. O lobo a odeia. Se eu fechar os olhos com força, é como se pudesse suprimi-lo por um


momento. Só por um momento, para que eu possa senti-la, o modo como me puxa, seus dedos leves roçando a base da minha coluna, e os sons que ela faz – eles fazem com que isso seja real demais, intenso e vibrante como uma memória presa num tempo esquecido. Mas o momento é breve e ele volta, pinicando os cantos da minha consciência. É difícil me concentrar quando ele está mordiscando meus sentidos. Quando parei, a cabeça afundada na curva pulsante do pescoço de Evelyn, ela se mexeu inquieta sob mim, não para me afastar, mas para me instigar. Não conseguia me mexer, precisava de um minuto. Meus pulmões ardiam, minhas costas pinicavam, meus dedos rasgavam os lençóis. “Ian”, ela sussurrou, a voz pecaminosa de tão sensual. Apertei seu corpo flexível um pouco mais, meus músculos retesando com o esforço de ir devagar. Era uma resposta automática, como a coreografia de uma música que já decorei. Minha mão tinha ido parar debaixo de sua blusa, sobre o estômago tépido, e eu podia senti-la respirando depressa. Evelyn a cobriu com a sua própria e a arrastou devagar para cima, até que minha palma estivesse pousada sobre o volume do seio esquerdo. Estávamos inteiramente vestidos, mas a impressão é que nossas peles palpitavam por baixo das roupas, ganhando nova sensibilidade. Isso, esse contato, era o mais perto que eu já estivera de ser um garoto comum, com anseios, movimentos desajeitados e medos. Era tão formidável e ao mesmo tempo tão proibido que meu rosto assumia expressões surpreendentemente desconhecidas. Como seria estar com ela? Agora, sem nada nos separando, com a mente limpa e tranquila? Sabia que ia ficar obcecado com esse pensamento para o resto da vida, porque significava ter tudo, Evelyn inteira, o corpo, as palavras sussurradas que ela está dizendo para mim, os silêncios entrecortados, os gemidos, e tudo que ela é, já foi ou se tornará. Seus erros


e seus acertos. Eu aceitaria e tomaria tudo, cada segundo de Evelyn, tudo que a compõe. Ter algo assim, viver algo assim, é sublime e apavorante. Não conseguia sequer me imaginar significando nada parecido para uma pessoa. Mas, pela forma como Evelyn parecia perdida, os olhos fechados numa espécie de agonia divina, achei que talvez... Ah, Evy. O pensamento disparou choques pela minha coluna, me impulsionando para a frente. O lobo se eriçou em mim, uma mensagem clara de PARE. Em minhas veias corria adrenalina pura, sentia como se estivesse em transe, no meio do caminho entre e céu e o inferno. O lobo fez nova tentativa – mandou imagens de outros lobos dilacerados no inverno, não lobos como nós, mais animais, de qualquer forma. Essa lembrança é das arenas, quando eu e Kyle acabamos indo parar naquela região enquanto procurávamos por comida. O cheiro do sangue nos atraiu, e escapamos por pouco de sermos jogados nas arenas de disputa. Realmente, era impossível esquecer os gritos dos homens, incitando os animais a se estraçalharem. O lobo ainda teve a minúcia de cuidar dos detalhes – as vísceras pelo chão, os olhos vazios e as línguas arroxeadas jogadas para o lado, por sobre os dentes, moscas adejando as pupilas arregaladas. Ele é um animal e se sente acuado, está lutando com todas as armas e não posso culpá-lo. Esse é o mal, era isso que o lobo queria me fazer entender. Era isso que eu deveria temer. Para ele, não havia diferença entre Evelyn e aqueles homens. Eram todos perversos. Veja só Claire, por exemplo. Cedo ou tarde, eles se revelam seus amores obscuros. Consegui suprimir as imagens mais uma vez, o que me custou um gemido de dor quando minhas têmporas repuxaram em protesto. No fundo sei que é inevitável. Mesmo assim, insisti.


Minha mão estremeceu sobre o coração de Evy. Ela era macia ali também, mas túrgida, perfeitamente arredondada e acetinada. A renda do sutiã escondia mais texturas e formas que eu precisava descobrir. O compasso de seus batimentos ficou afoito, mas duvidava que o meu estivesse muito melhor. Quando girei o polegar, fazendo menção de ultrapassar a renda, Evelyn segurou os cabelos em minha nuca com mais força. “Ian”, ela chamou meu nome novamente, dessa vez com uma nota de urgência. O cheiro que exalava era hipnótico e não podia existir nada mais fantástico do que respirá-lo. Senti as coxas de Evelyn deslizarem ao meu redor, erguendo-se até minha cintura, o contorno de seus tornozelos ajustando-se à curva da minha coluna numa posição explicitamente favorável. Alguma coisa desconexa e suja saiu de minha boca, provavelmente algo que jamais planejei dizer para uma garota. As mãos de Evy puxaram a barra da minha camisa para cima, mais e mais, e o lobo desejou rugir em resposta à força dos membros dela me aprisionando. Reunindo toda a força que me restava, levantei a cabeça e a encarei. Ela estava rosada, a pele cor de madrepérola fulgurando de satisfação, bonita o bastante para me fazer enfim perceber o que estava em vias de acontecer, o que ela silenciosamente implorava para mim. Os lábios dela se partiram para pedir, e então... “Droga”, foi tudo que consegui dizer antes de rolar para o lado e cobrir os olhos com o braço. Com essa distância imposta, o lobo se acalmou, porque agora sente que vou me controlar. Ainda não contei para ela, não consegui. A verdade é que preciso de mais tempo. Quero, pelo menos uma vez na vida, me dedicar a algo que não seja desejar que minha existência acabe e preciso fazer isso sem afobação. Quando tirei o braço da frente do rosto, vi Evelyn sentada na cama com as


pernas para o lado, os cabelos alvoroçados espalhando-se ao redor da face em finas mechas loiro avermelhadas, os olhos muito abertos, cheios de um brilho febril. Ele transformava o verde intenso das írises numa cor quase néon. “Você disse que está de folga, certo?”, perguntei. Minha voz falha fez as palavras parecem imprecisas. Evelyn assentiu, confusa. Limpei a garganta. “Que horas precisa voltar para casa?” “Meia-noite”, ela arfou. Então desviou os olhos, fugindo de mim, da minha rejeição. Estiquei o braço e segurei seu queixo, trazendo-a de volta para mim. “Vou mostrar para você, como você mostrou para mim.” EVELYN Quando descemos as escadas, precisei ir devagar, me apoiando na parede. Minhas pernas eram como sacos de batata, não conseguiam se firmar. Estar com Ian da forma como estivemos minutos atrás era um pouco demais para mim, a descarga de emoções fora avassaladora. Eu deveria ter algum pudor, ao menos para me envergonhar por praticamente suplicar para que continuássemos, mas só conseguia sentir frustração por termos parado. Tentei imaginar eu e Ian no meu quarto, em Nova Iorque, dominados por um amor completamente selvagem sobre meus travesseiros de pelúcia cor de rosa, com os bibelôs de gatinho de mamãe chacoalhando o outro lado da parede. Meu estômago revirou. Definitivamente, não havia como encaixá-lo em minha vida, perto dos meus pais, da minha família, de toda uma existência regrada e fervorosamente cristã. Isso deveria ser o bastante para afastá-lo, mas a verdade era que eu mesma


não conseguia me encaixar na minha própria vida. Ian me levou de volta à varanda, andando em direção à RD350 preta estacionada na frente do terreno. Havia um capacete descansando sobre o banco de couro, o sol prismando as cores do arco-íris no vidro do visor, fazendo parecer que íamos caçar tesouros, mas o sorriso que Ian deu ao ajustá-lo em minha cabeça prometia aventuras bem mais sombrias. “Você tem habilitação para dirigir essa coisa”, é meio que uma afirmação esperançosa fundada na lógica de que, se estou aceitando fazer isso, é porque sou responsável e cautelosa. Diante de mim, as costas largas de Ian cobertas pela jaqueta de couro tomavam todo o meu campo de visão, o que era providencial. Não estava muito certa de que queria enxergar agora. “Isso não faz diferença quando se dirige uma garota como essa”, Ian deu uma risada sórdida por cima de um ombro e tornou a girar o guidão, fazendo o motor vibrar com mais força. “Ela se chama Viúva Negra, a propósito.” Uma explosão me fez estremecer quando a moto roncou alto debaixo de nós. “É um nome fúnebre para uma moto”, gritei por sobre o barulho ensurdecedor. À guisa de resposta, a moto pegou no tranco e disparou; numa curva acentuada para pegar a estrada, Ian inclinou a RD até quase seu joelho raspar o asfalto e eu berrei, agarrando-me desesperadamente à jaqueta dele. Apesar de reclamar e xingá-lo, eu estava sorrindo.


CAPÍTULO 14 IAN QUASE NOS LIMITES DA cidade há uma construção abandonada. Ela foi interrompida antes que uma forma exata fosse definida, de modo que ninguém entende onde as paredes de concreto deveriam chegar. Não é nada que pudesse ilustrar um cartão postal, a não ser pelo que existe atrás. No verão retrasado, quando descobri o terreno por acaso, quando tive que sair com Kyle para procurar Matt após um de seus sumiços com Claire, a camada cinzenta de cimento ainda cobria a construção, falhando aqui e ali e deixando expostos os tijolos vermelhos como feridas na pele de um zumbi. Ainda me impressionava o fato de que, quase três anos depois, a prefeitura ou uma empresa imobiliária não tivesse tomado conta da área – ao invés disso, a hera e o mato se apossaram de tudo, cobrindo inclusive a fiação dos postes ao redor. “Caramba”, foi tudo que Evelyn disse quando parei na estradinha diante do prédio. Eu desliguei a moto e fiz menção de descer, mas ela me segurou com mais força pela jaqueta. “Está com medo?”, olhando-a por cima do ombro, vi seus olhos arregalados por trás do visor do capacete. Evelyn o removeu e suas bochechas ficaram cor de rosa no lugar onde a espuma do revestimento as apertou, a cabeleira acobreada espalhada ao redor do rosto afogueado. “Não, isso é incrível.” Olhei para a construção, tentando vê-la pelo mesmo ângulo que Evy. Se eu fosse uma garota, teria medo. Se eu fosse uma garota e estivesse comigo num lugar saído de um episódio de Goosebamps, seria louca. No entanto, ela


desceu da moto e praticamente correu até os antigos portões enferrujados. Estavam escancarados como uma boca podre, mas ela parou onde o caminho de pedras cobertas de limo começava e disse: “Tem uma energia inacreditável”, era um comentário prosaico, como se ela estivesse falando vai chover ou acabou o café. Ela ergueu uma mão, parecendo tocar um som que só ela ouve, a cabeça ligeiramente inclinada para o lado, “Sente isso?” Eu sentia. Meus irmãos sentiam. E acho que, na verdade, é por isso que ninguém chega perto daqui. Não é uma energia sinistra, no entanto, é mais como algo que aflige por ser grande demais, como olhar para o céu por muito tempo e sentir que se está caindo no cosmos. “Eu e Kyle temos uma teoria”, coloquei a mão deliberadamente por debaixo de seus cabelos, acomodando minha palma grande contra sua nuca frágil e quente. Estava apenas guiando-a para a frente, mas Evelyn pareceu perturbada e maravilhada ao mesmo tempo, seus olhos verdes ficaram desfocados, vidrados, “Whitehorse está em cima de um ponto de energia. Como Stonehenge, as pirâmides ou qualquer porcaria do tipo.” “É tão vago”, Evy murmurou suavemente. Ela estava falando daquele modo macio, o mesmo que usava para ler para Liam, transformando as palavras em sopros, e desconfiei que esse era também um indício de que estava sobrecarregada. Emocionada. Eu a puxei mais para perto, de maneira que um ombro seu encostou na cavidade do meu peito. “Você está indo muito rápido”, eu disse perto de sua cabeça, mas não sei se estava me referindo às respostas de seu corpo ao meu ou à velocidade de seus passos. Ambas as coisas me perturbavam. Evelyn respirou fundo e lentamente.


“É vago porque isso significa que existem pontos geológicos predefinidos capazes de possuírem essa energia”, ela começa, “Mas acho que depende mais das ações.” “Que tipo de ações?” “Magia”, estávamos andando absurdamente devagar. Evelyn praticamente recostou em mim, meu polegar subia e descia sob sua jugular, captando sua doce pulsação. Ela estava quase em transe, “Estou falando de rituais... reverter ou anular uma energia, transformando-a em boa... ou ruim”, ela riu, parecendo despertar, a cabeça desencostando do meu peito. A hera cobriu portas e janelas, mas não estava interessado nelas. Levei Evy pela lateral do terreno, era um caminho que seria praticamente intransponível se eu e Kyle não tivéssemos arrancado raízes e galhos até abrir uma espécie de túnel. Enquanto o atravessávamos, duas borboletas vagaram erráticas sobre Evelyn. Ela as abanou, e elas desaparecem adejando para cima. Então ela perguntou: “O que era aqui?” “Um hotel, talvez. Mais um condomínio de luxo, quem sabe, como os de Tagish Lake.” “Um lugar como esse em Nova Iorque já estaria tomado por sem-tetos.” “Essa é a mágica, não é? O silêncio, a vibração, como um segredo perdido no tempo.” “Como sentir saudades sem saber do quê”, ela soltou uma risada que soou como um arquejo. Seu cheiro se misturou à umidade, ao odor da decomposição de centenas de anos e ao perfume de flores silvestres. Mas era muito fraco, a insinuação de um aroma. Por fim chegamos aos fundos do terreno. Era um espaço tão amplo e tão aberto que não dava para mensurar o tamanho. Estava, como todo o resto,


cercado de árvores que eu não sabia o nome, mas lembram uma floresta secreta. Bem no centro, quase soterrado pelas plantas, estava o que realmente tinha vindo mostrar para Evelyn. Um antigo chafariz. Ele faz tanto sentido ao lado da construção insossa de ângulos retos como faria as ruinas de um templo indiano ao lado do Empire State. Era imenso. Tão grande que, na época em que foi instalado, com certeza dava para nadar dentro. Composto por três níveis circulares, onde o último ultrapassava em muito a minha altura. O cobre oxidado manchava toda a superfície do chafariz com uma espécie de estampa azul esverdeada. “É lindo”, Evelyn tocou a borda proeminente de um dos níveis. “É justo”, dou de ombros, “Seu telescópio pelo meu chafariz.” Ela sentou na beirada da borda e ergueu a cabeça para o alto. O mormaço tocou a ponta de seu nariz e sua testa, faiscando nos fios ao redor da orelha pontuda. Poeira dourada cintilou à nossa volta, espiralando no ar. Em meio ao arrulho preguiçoso dos pássaros, uma borboleta sobrevoou a cabeça de Evy, as asas azul metálicas relampejando ao sol. “Porque?”, Evy falou, movendo um pouco o rosto. O calor começava a corar suas bochechas e a umidecer a pele aveludada das têmporas. Havia espaço suficiente ao lado dela para que eu sentasse, mas escolhi ficar em pé, na frente dela, longe o bastante para não tampar sua luz. De onde eu estava, Evelyn era uma criatura curiosa, pequena e fotossintética. “Nunca saí daqui”, declarei. Era o mais perto que já tinha estado de contar o que não devia para Evy, mas ela não pareceu pressentir isso, porque nem ao menos abriu os olhos; em vez disso, suas pálpebras finas estremeceram ao som da minha voz, “Então, esse lugar é o mais perto que já cheguei do...” “Inacreditável?”, ela tentou. Outra borboleta voou perto dela; Evelyn a afastou com um floreio. A borboleta oscilou na minha direção, mas então


mudou bruscamente o rumo, como que repelida. “Não gosto de como essa palavra soa”, falei, “Parece tola. Eu ia dizer incomum.” Os lábios dela repuxaram para baixo numa careta reflexiva. “Não posso acreditar nisso”, ela desceu a cabeça e olhou diretamente para mim. Ao sol, seus olhos são de um azul tão intenso que poderiam ser verdes, ou tão verdes que chegam a ser azuis, “Não vindo de você.” “Não.” “Ian”, ela sussurrou, e era como se tentasse não repreender um garotinho malcriado, então encolheu os ombros e suspirou, “Sabe, você pode apenas ler livros.” Era tão surreal que achei graça. Não gostava de como minhas risadas soavam, descaradamente obscenas, mas não dava para evitar. O mundo de Evy era uma versão sem censura e bem mais leve do meu. As vezes isso era invejável. Mas na maioria delas, era apenas apavorante. “Gosto de livros”, confessei, “Mas sei que há um limite. Eu poderia me perder neles, mas seria loucura, só isso.” “Sorte a sua”, ela me deu um sorriso brincalhão, “Eu não faço a menor ideia de quais são os limites.” Lentamente, a folhagem encobriu o sol. Mostrei a Evelyn as moedas que eu e Kyle atiramos no fundo da fonte desligada, pedindo desejos baratos. Elas brilhavam como escamas no fundo da fonte, escuras, acobreadas, prateadas. Evelyn segurou minha mão e ficou brevemente solene, como se os níqueis cintilantes no limo fossem, cada um deles, os sonhos que eu e meus irmãos tínhamos enterrado para sempre. Entendi que não havia como evitar que Evelyn nos visse como exatamente


somos. Mesmo que ela não soubesse tudo, emanávamos essa aura melancólica e ela a captou da mesma forma que uma antena parabólica, do mesmo modo que absorveu a energia deste lugar. Os cílios de Evelyn tremem ao sol. São dourados e imprimem riscos caóticos de sombras no fundo das íris cor de azinhavre. Olhar para eles é quase como desvendar a lógica que há por trás do que significamos, eu e ela, juntos. EVELYN Ian parou no posto de gasolina para abastecer. Já passava do meio-dia, então entrei na loja de conveniência e comprei pretzels de canela para nós e um guia de viagem de Moscou. “Para você”, pressionei contra seu abdome o pretzels e o guia. Ian aceitou a comida e encarou o guia. “O que vou fazer com isso?” “Olhar as fotos. São bem incomuns.” Partimos em direção às colinas. O mundo é bem mais emocionante do alto de uma RD350, talvez porque andar de moto com Ian Lycan seja o mais perto que já estive de morrer. E estou quase cem por cento certa de que ele não tem habilitação. Ian enveredou por uma estradinha aberta no meio da relva e só paramos quando o caminho começou a se confundir com o mato. Largamos a moto e andamos sob o sol translúcido da tarde até achar um declive na encosta. Ian sentou na grama úmida e eu me recostei entre suas pernas, a coluna alinhada contra seu peito, o guia de Moscou que ele abriu entre os joelhos flutuando diante de mim. “Isso aqui parece um palácio feito de doces”, observei, apontando uma foto do guia.


“É muito colorido”, é a contribuição de Ian para a conversa. Cheguei a acreditar que ter escolhido um guia de viagens de Moscou fosse um acaso, mas agora que Ian está achando tudo muito colorido percebi que no fim das contas foi uma escolha consciente. É um lugar que eu jamais pensei em ir, como jamais cogitei ir até Saturno. Ou Dubai, o que dá no mesmo. Encarei Whitehorse estendida preguiçosamente lá embaixo e me dei conta de que também nunca imaginei morar aqui. Tomei o guia das mãos de Ian e o fechei sobre minha barriga. As mãos dele ficaram vazias e ele pareceu não saber o que fazer com elas. Foi um gesto natural o de me recostar contra ele, mas senti sua tensão às minhas costas, sua energia opressora me cercando. “Para onde você quer ir?”, perguntei. Gostei de como a pergunta soou, solta, sem anexos, muito leve. “Califórnia”, sua voz era muito baixa, mas meus ouvidos captaram a reverberação em seu peito, assim como as batidas vigorosas de seu coração, “Istambul. Panamá”, pelo modo como ele enumerou, consegui visualizar um globo apoiado em sua mesa de cabeceira, todo marcado com alfinetes que trilhavam uma rota infinita e ensolarada pela costa dos continentes. “México. Atravessando o deserto.” A risada tranquila de Ian me sacudiu suavemente. Estava cercada por ele, suas coxas e seus braços me rodeavam, seu calor tinha cheiro de pinho, terra e sândalo. Seu corpo era supreendentemente confortável, apesar da rigidez dos músculos pressionando minhas omoplatas, e não consegui não pensar em outras coisas. Mais coisas. Inclinei a cabeça contra a pulsação em seu peito. As cigarras gritavam enlouquecidas, um cicio distante que ecoava por toda a parte. As mãos de Ian continuavam soltas sobre os joelhos, à deriva, cheias de dedos morenos e unhas largas. O que era para ser apenas


uma leve pressão com minha cabeça em seu peito se transformou no pedido silencioso de um beijo. Do ângulo que enquadrei Ian, ele era escuro, coberto de sombras, e sua respiração adejante roçou minha bochecha. Seu peito me empurrou um pouco quando ele se ajeitou para chegar mais perto. O toque de sua boca foi macio, o encaixe lento, quase como se ele estivesse retendo a sensação. Antes mesmo que sua língua encontrasse a minha, eu já estava diluindo. “O que mais, Ian?” “Hm?”, não chega a ser um som, é mais um estremecer embaixo de mim. “O que mais tem para ver? E não estou falando de cidades.” Ele levou tempo para responder e, quando falou, sua voz soou um pouco distante, como se estivesse falando para o horizonte, para as cigarras, para qualquer outra coisa que não eu: “Se nós fizermos isso, será cada vez mais íntimo.” Senti meu corpo arder. Uma chama irradiou entre meus seios e pelo meu rosto, me deixando ligeiramente torpe e ofegante. “Eu sei.” Deixamos a hora escapar mais um pouco, e então nos levantamos e voltamos para a moto. No caminho até ela, tudo ficou um pouco desfocado e impreciso; fiquei tonta, minhas coxas e meus braços latejavam nos lugares em que ficaram expostos ao sol, meu sangue circulava queimando em minhas veias. Era uma sensação lasciva e ao mesmo tempo pura, como deve ser o renascimento de uma fênix. Ao meu lado, Ian caminhava com as mãos nos bolsos, cabeça baixa e olhar vago. Sua nuca faiscava ao sol, de um tom de castanho quente que me faz imaginá-lo sem nada, apenas pele, músculos e ruídos. Se tocá-lo era uma barreira proibida, eu deveria me retirar. São os limites


dele, não os meus para desejá-lo. Não é certo se apropriar do que não querem te dar, mas Ian Lycan está andando comigo neste momento, que é real e em cores, e não há nada mais certo do que isso que estou sentindo. E ele me deixou pegar sua mão quando estiquei a minha. Nossos dedos se roçaram no ar, entre nossos corpos, pele resvalando contra pele. Meu coração bateu depressa. Queria que ficasse assim para sempre.


CAPÍTULO 15 IAN “O QUE É ISSO nas minhas costas?” A voz poderia ter vindo do além. Virei-me na cama e vi Colin parado no vão da porta; estremeci. Um olhar mais apurado revelou o reflexo loiro claro dos cabelos de Liam e o brilho melancólico de seus olhos azuis. Ele não pareceu se importar com o fato de que todos estão dormindo ou seu desespero é grande demais para esperar até o amanhecer. Na penumbra do quarto, suas olheiras suadas e a respiração tísica são os indícios de uma febre exaustiva. “Liam”, era apenas a constatação sonora de que não era Colin, mas Liam fluiu até mim como se tivesse recebido permissão para se aproximar. Ele parou no meio do quarto, no entanto, e ficou olhando desconcertado para os ângulos que a sombra desenhava no chão de madeira. “O que é, Liam?”, mas no fundo ele sabe, porque já está triste. Afastei as cobertas e sai da cama. Levei Liam para a cozinha, servi leite gelado numa xícara para ele e tomei minha porção no gargalo. É um pouco como ensinar a não dizer palavrão falando olha a língua, caralho, mas Liam não protesta. Sua índole é incorruptível, o tipo de criatura que jamais irá entrar sem pedir licença ou esbarrar sem pedir desculpas. E, apesar disso, era com ele que estava a mancha vermelha. “Eu tenho algo”, ele falou, soando grave, do modo que pode soar uma criança cheia de responsabilidades, “O que vai acontecer agora?” “Não sei.” “Tem a ver com o frio?” “Sim e não”, mas Liam ficou me olhando, implorando por mais explicações.


Agarrei os cabelos no alto da cabeça, porque era irritante demais não ter o que dizer, “Olha, pode ser só um sinal, tá? Não fique pensando nisso. O frio é só o frio. Você não vai se transformar se chegar uma frente fria no meio de Julho. É mais do que isso, tem a ver com Whitehorse, o inverno daqui, apenas daqui.” “Então podemos ir embora?” Mas que merda. Minha voz não tinha vida quando respondi: “Não, Liam.” “Vocês se certificaram?” Era um pouco surpreendente que ele estivesse tentando achar saídas. Eu mesmo já esqueci de procurá-las. “Sim”, mas não era totalmente verdade, não é? Tudo que sei é o que Kyle nos disse e o que Kyle nos disse foi dito por Paul, que por sua vez aprendeu tudo com sabe-se lá quem. É um efeito dominó trágico, um telefone sem fio de proporções inimagináveis. Na manhã seguinte, Kyle estava dando a partida na Dodge quando sai para o pátio e acenei. Ele parou em meio a uma manobra, desceu o vidro do lado do passageiro e inclinou a cabeça para mim. Sua pele estava mais escura do que de costume, talvez por causa da barba recente e do cabelo escuro crescido. “Você se certificou?”, repeti a pergunta de Liam na madrugada anterior. “De...? Ah. Aquilo”, aquilo era o modo como nos referíamos às pesquisas que fizemos no verão passado e no retrasado e em todos os outros. Infrutíferas. “Liam perguntou?” “É. Ele não é idiota.” Kyle assentiu, não para a observação sobre a inteligência de Liam, mas para


as próprias interrogações em sua mente. “Você sabe, Ian, só temos uma pista e ela não nos leva a lugar algum.” A pista que tínhamos era a antiga casa de Paul. A que ele herdou de seu tutor. A casa na qual moramos agora fica no outro extremo da cidade, bem longe, o que indica que, o que quer que tenha levado Paul a comprar esta segunda casa, foi ruim o bastante para fazê-lo procurar um terreno o mais afastado possível da primeira. Por algum tempo esse também foi o motivo que fez a mim e Kyle acamparmos na antiga casa de Paul atrás do fio de Ariadne, uma ponta solta que, uma vez puxada, trouxesse consigo todas as respostas que procuramos, mas tudo que achamos foram enlatados fora de validade, uma meia sem par e canudos de cocaína. Além de um alçapão recheado com notas de cem dólares. Desistimos da casa e ela permaneceu trancada desde então. Mas, bem. Uma casa é uma casa. Possibilidades. A chave estava no pescoço de Kyle, e eu olhei para o cordão pendendo por dentro da gola de sua camisa. “Eu gostaria de tentar mais uma vez”, declarei. O rosto de Kyle sustentou uma leve contração, mas ele enfim deu de ombros e me entregou a chave. “Como quiser, cara”, e ele ficou me encarando quando girou o volante e acelerou gradativamente em direção à estrada. Não havia como deixar passar o aviso explícito em seus olhos negros: não faça nenhuma merda. Mais tarde, enquanto a tarde escorrega para a noite, escolho ir até a casa de Paul com a Dodge de Kyle em vez da Viúva Negra, pela simples razão de que enxerguei da janela da sala o exato momento em que Liam se esgueirou pelo pátio e deslizou sorrateiro para baixo da lona que cobre a traseira do carro. Não sei em que momento ele entendeu o plano, se de manhã, quando


falei com Kyle, se na hora do almoço, quando Kyle me ligou para lembrar que eu devia pegar a segunda bifurcação à esquerda, e não a primeira, ou se foi a cinco minutos atrás, na cozinha, quando Kyle destampou uma cerveja com os dentes e disse, apontando para mim: “Seria uma tremenda viagem se você abrisse aquele alçapão de novo e encontrasse mais dinheiro.” “Melhor isso do que encontrar um corpo em decomposição”, respondi, também apontando para ele, só que com a chave da casa entre dois dedos, como se fosse uma carta de poker. “Ou drogas.” “Ou uma mulher nua”, e em seguida eu e Kyle nos encaramos em suma discordância. Kyle apontou para mim novamente: “Cuidado com a polícia. Eles sabem que a casa está fechada e vão suspeitar se virem movimento.” “Talvez eu deva usar meus poderes de telecinese.” Atrás de mim, o vulto insólito de Liam falou: “Vou dormir”, ao mesmo tempo em que Kyle tossiu e expeliu cerveja pelo nariz. Ele me olhou com olhos arregalados, e eles faziam a mesma pergunta que os meus: quanto tempo faz que Liam está ouvindo a conversa? Então Kyle atirou a chave da Dodge no meu peito, e ela fez uma trajetória desafiadora diante dos olhos de Liam antes de pousar nas minhas mãos. É, talvez tenha sido nesse momento. E sim, ele provavelmente pegou a conversa inteira. Dei a partida, ajeitei os retrovisores e saí. A cidade estava quieta, como sempre estaria. Passei pela entrada para a casa de Jenna, pelo Baked e pela


Yukon College. Evy havia pedido mais. Eu não gostava de fechar os olhos e ver o rosto dela, os grandes olhos filtrando minha alma como filtraram a luz do sol no chafariz, mas para onde iríamos agora? E eu não estava sendo nem um pouco cuidadoso. Se ela descobrisse, se não descobrisse, não fazia diferença para mim, pelo menos não em questões práticas. E embora a pergunta ela ficaria? fosse importante, a questão mais perturbadora era eu ficaria? Não. Dirigindo a noventa quilômetros por hora na estrada vazia, arroxeada pela noite, eu estava parado. Paralisado por uma decisão que jamais tomaria. Isso era irritante, era tão irritante. Apavorante. Os faróis da Dodge finalmente iluminaram a varanda da casa de Paul. Dava para resumir aquela casa em duas palavras: desnecessariamente grande. Como um buda ocioso e pesado, ela ficava assentada num terreno verde à beira de um pântano, e a umidade estava em todos os lugares, entre as frestas da madeira que a revestia, nas maçanetas, no vidro das janelas, no ar com cheiro de fotossíntese. Após tanto tempo desocupada, o mato crescia ao redor, trepadeiras subiam pelas paredes externas como mãos puxando a estrutura para baixo da terra. E, mesmo assim – exatamente por isso –, era uma casa que eu gostaria de morar. “Já chegamos, Liam”, gritei ao saltar do carro. A lona se mexeu para o lado e ele me olhou, nem um pouco culpado. Eu apontei para ele, como Kyle teria feito, “Você veio atrás de dinheiro, drogas ou mulheres nuas?” Ele quase me respondeu, mas eu passei o braço por seu pescoço quente e o arrastei na direção da casa. Era um pouco doloroso abraçar Liam, seu corpo pontudo não se encaixava anatomicamente em nenhuma curva, e apesar disso eu tinha vontade de mantê-lo perto. Ele era menor do que deveria ser e não estava ganhando peso como o esperado. Nem com Colin tinha sido


tão desanimador. Puxei Liam mais firme, uma mão em seus cabelos desgrenhados. “Quem morou aqui?” “O tutor de Kyle. Tente não derrubar nada.” “É uma cena do crime?” “É mais ou menos isso, onde a casa inteira é uma evidência.” Enfiei a chave na fechadura e a girei três vezes. Ela estalou como um velho tossindo, o cheiro do mofo subiu e empesteou nossos narizes. Na escuridão, os moveis antigos e as paredes angulosas pareciam as entranhas de uma baleia. Os olhos de Liam brilharam, pequenas lanternas feéricas na noite recém-nascida. Eu havia estado muitas vezes ali, e em todas era noite, então sabia para onde devia ir, conhecia cada corredor, cada quina, e sabia até mesmo os lugares onde o piso era inclinado feito o convés de um navio; mas, mesmo se não soubesse, não havia dificuldade. Nossos olhos discerniam o menor dos detalhes ainda que no breu, como por exemplo a estranha coleção de plantas que Paul cultivava antes de ir embora e que, por uma razão além da minha compreensão, continuavam crescendo e florescendo mesmo em meio ao abandono. Ficavam no jardim do lado de fora da casa, mas eram tão altas quanto um homem e dava para vê-las através da janela sobre a pia da cozinha, oscilando lentamente no vazio do quintal. As flores, de um azul violeta quase florescente na escuridão, eram como um amontoado de borboletas amassadas empilhadas em formato cônico. Nunca soubemos identificá-las; na verdade, Kyle e eu evitávamos chegar perto dela. Minha orelha esquerda estremeceu ao captar o ping ping ping da torneira mal fechada na cozinha. A respiração de Liam atrás de mim soava áspera e ofegante. Dava para pressentir o estado de nervos dele me assombrando


por cima dos ombros, mas não podia ser medo. Era mais provável que fosse a euforia de estar num lugar proibido, de alguém que fora, de uma forma corruptiva e distante, um irmão seu também. Os quartos estavam intactos – três ao todo –, com exceção de uma camada extra de poeira sobre as colchas de cama. Havia um baú no quarto maior, que deveria ter sido de Paul, mas permanecia vazio. Igual aos armários. Nas prateleiras do escritório, livros descansavam sob uma fina renda de teias de aranha: Moby Dick, A Metamorfose, Frankenstein, Drácula e, escorado neles, Freud, coleções inteiras. Paul fora obcecado por Freud bem mais do que o recomendado. “O que é isso?”, Liam estava apontando para uma escultura em bronze equilibrada sobre um pilar de madeira no canto do escritório. “É a loba amamentando os gêmeos Rômulo e Remo, os fundadores de Roma, segundo a mitologia grega”, Paul era fascinado por mitologia, mas nada superava o fascínio que sentia pela história de Roma, o que, dadas as circunstâncias, era perfeitamente compreensível, “Na verdade, é uma longa história, mas o resumo é: Rômulo matou Remo e fundou a cidade de Roma.” Liam encarou a estátua sem aparentar emoção. Piscou e se virou para mim. “Paul tinha essa estátua feia por causa de um mito em que um irmão mata o outro e funda uma cidade idiota?” “Roma não foi uma cidade idiota”, eu avaliei a estátua, considerando que, de fato, era um tanto grotesca, “Foi uma cidade poderosa e sanguinária. Paul acreditava que a lenda é verdadeira porque via em Rômulo a violência, o ímpeto e a selvageria que temos. Ele colecionava registros, documentários, livros de história, tudo que dissesse respeito à Roma, mais especificamente ao mito da loba. Ele não só achava que era verdadeiro como tentou encontrar ligações entre Rômulo e a nossa espécie ao longo de tempo.”


Nesse ponto, Liam pareceu ligeiramente interessado. “E conseguiu?” “Kyle contou que não”, eu passei os dedos pela lombar da loba, sentindo os calombos da espinha feitos no bronze frio, e depois no rosto de uma das crianças que se esticava embaixo dela, as boca abertas sob as tetas pontudas, “Paul era tão obcecado por descobrir nossa origem, a razão para existirmos, que teria feito qualquer coisa, ido muito longe atrás das respostas. Mas o fato de ter tido tão pouco tempo como homem o limitou. Kyle e eu fizemos pouco progresso, senão nenhum.” “Da nutriz loba em fulva pele ovante, Rômulo há de erigir mavórcios muros, e à recebida gente impor seu nome. Metas nem tempos aos de Roma assino”, Liam leu a frase escrita na placa dourada logo abaixo da estátua e franziu a testa, “Não sei bem se entendi.” “É um trecho da Eneida, de Virgílio, a parte em que narra a fundação de Roma e a lenda de que Rômulo, afinal, se alimentou de uma loba. Paul mandou gravar esses versos e acrescentou ao pé da estátua pouco antes de morrer.” “Ele matou o próprio irmão”, Liam disse de modo simples, “É claro que não tem nada a ver com a gente”, então olhou para as prateleiras de livros, depois para o escritório ao redor, ignorando completamente a estátua, “O que estamos procurando?”, sua voz era baixa e ansiosa. “Não sei. Rastros, eu acho.” Tem algo nessa casa, uma presença fugidia, ou uma ausência estranha. É como um dejá vù às avessas, a sensação de que deveria existir uma parte na história, mas que foi retirada e você não se lembra muito bem de como soube disso. “Onde fica o alçapão?”, as palavras de Liam ficam distantes quando ele se


embrenha no coração da casa. Num lugar onde ninguém jamais imaginaria. Um lugar pouco provável para esconderijos. “No banheiro do corredor.” Encontrei Liam já lá dentro, olhando ao redor com a cabeça abaixada. Apontei para a privada. “Ali.” “Impossível.” “É falso.” Ao lado da porcelana havia uma alça pequena o bastante para caber apenas no dedo mindinho. Eu a puxei, não sem esforço, e as dobradiças da madeira reclamaram. Lá embaixo, o espaço acomodaria quatro pessoas abaixadas nos calcanhares. O fundo poeirento e arranhado revelou-se mais vazio do que o cérebro de um viciado. Liam roçou os dedos pela beirada do buraco, decepcionado e esperançoso ao mesmo tempo, duas emoções que nele ficavam perfeitamente combinadas para gerar uma terceira, inominável. “Quem faz uma coisa assim debaixo de uma privada?”, ele murmurou, agora definitivamente inconformado. “Paul.” Nós dois caímos de lado, recostados nas paredes de ladrilho que, agora eu reparo, são beges, cor de osso. Não me dei ao trabalho de fechar a tampa, e ela ficou suspensa, a privada falsa emborcada, uma imensa boca negra aberta na ponta de nossos Converses. Liam encolheu os ombros, a camisa azul celeste que estava usando um dia pertencera a Matt e o cheiro dele ainda jaz entranhado nela, junto com a característica fragrância de fundo de armário que todas as nossas roupas têm. Matt deixou de usá-la por não


caber mais, mas ela está folgada em Liam a ponto da gola escorregar pelos ombros pálidos. Por trás do reflexo metálico de seus olhos acesos, vi inquietação. “Quer ir para casa?”, perguntei ao encostar na lateral de seu pescoço, um hábito que estávamos absorvendo sem nos dar conta desde que Liam chegara, sonolento e febril. Mas sua temperatura estava controlada agora. “Eu achava que aconteceria algo aqui”, ele confessou, “Foi por isso que eu vim.” É fácil para um garoto recém surgido esperar bem mais do mundo, e estávamos sendo um tanto injustos mostrando a ele só a parte ruim do que somos, mas não existia mesmo nada de incrível, fantástico ou esplendoroso para Liam ver neste lugar. Nesta cidade. Nesta vida. Puxei-o para mim, embrenhando os dedos em seus cabelos finos e desgrenhados. Ficamos em silêncio, dentro de uma casa tumular e que aos poucos escorria para baixo da terra. No meu bolso, o celular vibrou. Uma mensagem de Kyle. Temos um desafio. E então, eu já sabia como dar a Evelyn o que ela achava que queria.


CAPÍTULO 16 EVELYN IAN LYCAN APARECEU DEBAIXO da minha varanda uma hora da manhã. Ele não atirou pedrinhas na janela nem assoviou em código morse nem saltou como um gato possuído para aterrissar no meu chão. Em vez disso, mandou uma mensagem pelo celular. Você precisa ver o que está acontecendo aqui do lado de fora. Agora. Levantei da cama num salto e colei o nariz no vidro gelado, espreitando a noite quieta. Ele mandou outra: Que droga, achei que você dormia só de calcinha. Ele estava parado no deck, uma figura escura e comprida segurando um ponto de luz mortiça entre os dedos. Eu digitei em resposta: Se você estivesse na minha cama, quem sabe. De longe, vi sua boca esticar num sorriso perigoso. Olhei para o meu celular, mas não veio nenhuma outra mensagem. Suspirei. Numa vida distante, num universo paralelo, um garoto estava aceitando prontamente o convite de uma garota para se unir a ela debaixo de um céu lindamente estrelado. Neste mundo, nesta vida minha, eu apenas me vesti depressa e desci um tanto emburrada para encontrar Ian Lycan virando um gole de cerveja no gargalo de uma garrafa avermelhada. Eu a roubei para uma prova antes de empurrá-la contra seu peito firme e dizer: “Não me prometa nada que não se pareça com um sonho. Porque era isso que eu estava tendo antes de você chegar.” “Pega de motos nos rochedos.” Dei de ombros. “Dizendo assim até parece legal.”


“Vai ser perigoso, irresponsável e”, ele deu um passo para mim, curvou o pescoço elegante e murmurou no meu ouvido: “íntimo.” “Afora o fato de que sua versão de intimidade não se parece nada com a minha”, o que não é necessariamente ruim, mas eu estava mau humorada e só por isso o mundo é detestável. Ian deu um gole em sua cerveja em resposta. O trajeto na Viúva Negra e a bebida compartilhada de Ian terminaram de me acordar. Antes mesmo que nos aproximássemos dos rochedos meu coração disparou, não como disparava quando eu e Ian estávamos tendo um momento intenso, era mais como quando eu precisava apresentar trabalhos na frente da classe inteira; a sensação de que havia inúmeras possibilidades de dar merda. Eu havia consultado meu mapa astral naquela manhã e encontrado um Mercúrio retrógrado, mas não tinha ideia do que isso queria dizer e se o fato de já estarmos no dia seguinte tornava mercúrio menos retrógrado ou infinitamente avançado. De todo modo, a lua era crescente. A primeira coisa que ouvimos ao sair do perímetro da cidade foi a música. Na verdade, um embolado distorcido de batida eletrônica com rugidos de motores, gritos e buzinas. Uma coisa dessas certamente chamava atenção. Ergui o visor do capacete para gritar para Ian: “Isso vai atrair a polícia!” A risada debochada de Ian quase me fez acreditar que eu havia mesmo feito uma piada, o que não era de todo incompreensível. Se eles já tinham sido presos doze vezes, eu devia ter soado como uma idiota. A moto quicou quando adentramos uma estradinha por entre a floresta. O barulho ficou abafado por entre as árvores, mas então Ian acelerou, a moto vibrou e rosnou embaixo de nós numa espécie de aloha selvagem antes de


aterrissar na gigantesca clareira dos rochedos. A Viúva Negra deu um cavalo de pau dramático e parou meio de lado, e o cenário se desenhou: Uma meia lua de gente coroava o espaço diante de nós. Carros de todas as marcas, motos e caixas de som tornavam a paisagem caótica, colorida e disforme, lembrando a medição oscilante do estéreo de uma música psicodélica. Atraídas pela entrada agressiva de Ian, as pessoas se calaram. Por toda a planície, as vozes foram sumindo, sumindo, à medida que os olhares se voltavam para nós, como se fossemos aberrações, a próxima atração a se apresentar. Em algum lugar uma garrafa se espatifou no chão. Um xingamento sussurrado, seguido por uma risada estridente, ecoou pela planície. Depois, cochichos. E tudo voltou ao normal. Ian desceu da moto e andou na direção da multidão. Não, não da multidão. De Kyle. Ele caminhava ao nosso encontro, os milhares de faróis acesos cortando as pernas de suas calças jeans em fachos de luz branca. Eles também iluminaram um par de pernas atléticas enfiadas em shorts curtos e botas pretas. Kyle apontou na direção das colinas e disse: “Os calouros arrancaram com os carros, depois serão os veteranos. Depois, a gente.” “Desistências?” Kyle bateu sua cerveja na de Ian em deferência antes de piscar um olho e virar um gole. “Até parece.” Ian estudou a multidão com seus olhos em fendas. Parecia desprezá-los ao


mesmo tempo em que os achava dignos de uma tese. Seu rosto feito de ângulos estava mais sombrio e ilegível do que de costume, os ombros altivos bem alinhados e o pescoço alongado e sensual flexionando de um lado para o outro em busca de um alvo. “Ele não está aqui.” Kyle balançou a cabeça e trocou um olhar com Lianne, parada na diagonal dele. Ela molhou os lábios, respirou fundo e desviou o olhar, subitamente interessada num grupo de garotas que pulava na traseira de uma camionete. Claramente contrariada. “Ele quem?”, intervi. Kyle não respondeu, mas Ian disse após um longo gole, cuspindo a palavra na pressa de se livrar dela: “Derek.” “Toda noite de torneio começa com um desafio”, Lianne começou a falar, a cabeça ainda virada na direção oposta, “Um cara desafia outro a uma disputa de pegas, então o torneio é marcado e outros desafiantes podem se inscrever. Kyle cuida das inscrições. Ele organiza o evento. Raramente alguém desafia ele ou os irmãos, mas esse ano eles tiveram um oponente”, ela se interrompeu e mordeu os lábios por dentro. Então moveu o rosto e encarou Ian abertamente. Oh, droga. “Foi por causa da briga?”, eu praticamente saltei na frente de Ian, porque ele era bem mais alto do que eu e eu ficava muitos centímetros abaixo de sua linha de visão; porque ele estava explicitamente evitando me olhar; porque retaliação não era uma palavra suficientemente digna. Mas combinava imensamente com os Lycan. Era uma palavra que alguém que veste uma jaqueta de couro com tanta raiva sabe usar muito bem.


“Ian, isso tudo é pelo que aconteceu n'O Espelho?”, ele enfim me olhou, sem um pingo de humor no rosto contraído. Na noite mal iluminada, seus olhos eram uma mistura fugidia de cinza escuro e ouro esverdeado. “Você disse que queria me conhecer”, ele se inclinou na minha direção e murmurou, as palavras roçaram meu cabelo e a pele tépida do meu pescoço, “Isso é o que faço. Eu e meus irmãos. Evelyn, talvez pareça algo ruim...”, Ian de repente colocou a mão no meu ombro e me puxou para mais perto, falando com urgência, “Para Derek, é só uma forma de exibicionismo, mas quero que entenda, preciso que entenda o que significa...” “Ian”, Kyle chamou, lançando um olhar estranho de advertência para o irmão, “Vamos, precisamos esquentar os motores.” Ian se calou, mas continuou me olhando como se tudo que não pudesse dizer gritasse em silêncio para mim. Seu polegar acariciou minha bochecha num toque gentil antes que ele me desse as costas e acompanhasse Kyle e os outros Lycan. “Se ele amarelar”, ele ia dizendo, já se afastando, os ombros e os quadris gingando daquela forma confiante e predatória, “Vou até a casa daquele filho da mãe trazê-lo arrastado para cá pelas bolas...” A voz de Ian sumiu, engolida pelas batidas da música eletrônica. “Evyyyy.” Os braços de Megan se jogaram ao redor do meu pescoço. Seu rosto pequeno sorriu para mim, corado. Ela usava um top feito com bandanas vermelhas e azuis, uma mini saia jeans com rasgos e, como Lianne, botas até a metade das coxas. A diferença é que, em Lianne, aquela peça parecia perigosamente sexy, enquanto que em Megan parecia apenas de mau gosto. O cabelo estava preso com tranças nas laterais, que terminavam em mechas esticadas que lembravam sardinhas.


“Toma, fique com o meu”, ela encaixou o copo de bebida na minha mão frouxa, deu um beijinho em minha bochecha e me puxou na direção de uma rodinha de caras bem vestidos que fumavam na brisa. Eles deslizaram os olhos cintilantes por mim quando cheguei, e só então parei para refletir sobre o que usava. Uma calça jeans skinny escura, uma regata folgada sobre um top e tênis de cano alto. Tudo em cores sóbrias. Até que Megan esticou o braço e despenteou a parte de trás do meu cabelo num gesto meio afoito, como se lembrasse de última hora de um detalhe importante. Os caras se entreolharam e tragaram. “E aí”, um deles falou comigo, agora encarando a parte da frente da minha regata, “De qual ano você é?” Antes que eu pudesse responder, Megan falou por mim: “Ela é nova na cidade. Precisa fazer amigos.” “Não preciso”, sussurrei secamente. “Ei, Jean, saca só o olho dela”, um dos caras me apontou com o queixo, “Maneiro.” “Você tem aquela coisa?”, outro deles, que supus ser o tal Jean, me perguntou, depois virou-se para Megan “Como é o nome?” “Heretocromia”, Megan respondeu, satisfeita, como se a palavra soasse difícil e acadêmica. “O que?”, eu a olhei, confusa. Para mim, soava como uma disfunção sexual, “Seja o que for, não tenho isso.” O rosto de Megan apareceu na minha frente, me encarando. “Você tem uma mancha no olho esquerdo”, ela colocou o dedo bem na minha cara, “Parece... uma fadinha.” Os caras riram, perdendo subitamente o interesse na conversa e nos dando


as costas. Havia, sim, uma pequena mancha no meu olho esquerdo, logo abaixo da pupila; de perto, formava um aglomerado de pontos descoloridos sobre o verde chamativo, como uma pintura incompleta, nada tão interessante e bonito como as manchas prateadas e douradas de Ian. Mas, se Megan estava enxergando fadinhas neles, era hora de afastá-la das bebidas. “Olha ali”, ela encostou o queixo no meu ombro e segredou, apontando para o extremo oposto, para onde um aglomerado de garotas se recostava nos carros, “Aquela é a fila.” “Fila para o que?” Megan desencostou de mim e fez uma careta esquisita, algo entre tá falando sério? e oh, meu Deus, ela está! “Ah, tudo bem”, ela abanou o ar, por muito pouco não acertando meu copo, “Esqueço que você não é daqui. É o primeiro ano que os irmãos Lycan vão correr. Elas estão enlouquecidas.” “Ainda não entendi em que contexto o fato de estarem em fila se encaixa aqui”, beberiquei a bebida. Tinha gosto de algodão doce e bala de menta; eu a despejei para o lado enquanto Megan dizia: “Exatamente! É isso que estou querendo dizer! Elas vão se estapear e arrancar os cabelos, mas nenhum deles vai levar nenhuma delas na garupa. A não ser o Kyle. Acha que eu poderia conseguir ir na garupa do Ethan? Ele é gostoso. Eu curto ruivos. Geralmente são bem dotados.” “O que?” “Ah, são as estatísticas, elas dizem...” Eu não sabia com o que exatamente estava enfurecida. Era verdade que, a essa altura da existência, eu já devia estar conformada com a quantidade pululante de seres idiotas habitando a camada terrestre, mas aquelas


garotas estavam mesmo disputando para ver quem ia correr risco de vida primeiro? Ou a ira incandescente em meu peito se devia ao fato de Ian não ter me contado absolutamente nada a respeito de todo esse circo? Adiante, carros começaram a emparelhar. Megan me puxou para ver de perto a largada; um Lexus e um Eclipse ronronavam em meio aos gritos, ovações e palmas. Seus revestimentos reluziam na noite, feras adormecidas, os faróis desenhavam triângulos compridos no escuro. Dois garotos assumiram as direções, e eu os reconheci como estudantes da Yukon, talvez prestes a se formarem. Depois que eles sentaram, as garotas se aproximaram, um conjunto de peles nuas, cabelos ao vento e bocas de batom. O ritual de escolha foi rápido e galanteador; os garotos tocaram a mão da preferida, segundo seus próprios critérios de beleza, e as puxaram delicadamente pelo braço até encostar os lábios nos nós dos dedos delas. Debaixo de aplausos e risadinhas, as garotas entraram pelo lado do passageiro, as portas foram batidas e a música aumentou. Um cara sem camisa e suado se adiantou entre os dois carros. Ele parecia alucinado além da conta, desleixado, mas transbordando um tipo de vitalidade voraz. Alguém lhe passou uma garrafa dourada. Seu corpo magro era definido e ágil; ele ergueu os braços, exibindo as axilas cabeludas. Uma tocha surgiu diante de seu rosto, ele soprou com força. A chama apareceu no ar feito mágica, explodindo para fora com tanta força como a língua de um dragão. Então, os dois carros haviam desaparecido. Ao meu redor, o barulho ficou ensurdecedor. Quando as chamas se recolheram e a noite se acalmou, vi a inconfundível forma de Rose caminhando pela planície, cabelos muito louros, pernas muito longas. Ao lado dela, o irmão, alto e impressionante, sua versão masculina e irresistível. Atrás dele, quatro sombras o acompanhavam. Eles entraram no círculo iluminado pelos faróis, acenando e batendo as mãos com quem quer que oferecesse a sua, despojados, milionários e


soberbos. Megan abraçou Rose com tanto entusiasmo como havia feito comigo, a diferença é que Rose reagiu com bem mais compostura do que eu: “Certo, queridinha, não estrague meus cachos.” “Essa noite”, Derek berrou para ninguém em especial, enquanto alguém lhe passava uma garrafa cheia de vodka e tapinhas eram dados em sua jaqueta de aviador, “Vai ser foda!”, ele virou dois goles antes de fazer uma careta e pousar os olhos ardentes em mim, “E aí, Evy. Cabelo rebelde. Gostei.” Eu chupei o dedo do meio antes de erguê-lo para ele. Derek acariciou um canino com a ponta da língua. Seu sorriso era devasso. “Vou te deixar subir na minha garupa só por causa disso.” “Rose”, Megan arfou, ofendida. Rose ergueu os ombros, fingindo inocência. Megan apontou para si mesma, lançando olhares nada discretos para Derek. “Ah, está bem”, Rose disse com desinteresse estudado, “Derek, Megan quer ir com você.” Ele passou um braço pesado pelos ombros nus de Megan e riu, obviamente nos achando hilárias. Megan cambaleou debaixo do peso, mas respirou inebriada o perfume de Derek; centenas de euros e qualquer coisa com ieur no final. Eu jamais ia entender o que a família de Rose tinha vindo fazer em Whitehorse quando sua conta bancária poderia levá-los para um cruzeiro ao redor do mundo. Apesar disso eles estavam aqui, muito dourados e muito limpos, tão descabidos no meio das outras pessoas como pepitas de ouro entre montes de poeira. “Onde está o seu garoto intocável?”, Rose murmurou no meu ouvido, levando-me para longe da conversa.


E então lá estavam eles, bem diante de nós. Kyle, Ethan, Matt e Ian. Era tão diferente olhar para eles depois de ter visto a gangue de Derek. Com um grupo havia a jovialidade exuberante, os sorrisos mordazes, as roupas caras, o brilho envernizado dos cabelos bem penteados; com o outro era a sensação um tanto aterrorizante de não saber definir de onde vinham os calafrios em minha espinha. Sem que eu me desse conta, as motos haviam sido organizadas lado a lado na clareira. Reconheci a Viúva Negra entre as outras três, igualmente obscuras, cobertas de metal, escapamentos e couro. Perto delas, outras quatro estacionadas e idênticas, a pintura avermelhada reluzindo como escorpiões ao luar. “Porque todos vão participar?”, sussurrei para Rose, “Entendi que só Ian tinha sido desafiado.” “Até parece que iam deixá-lo correr sozinho. E até parece que Derek já não sabia disso. Para esses caras isso não é uma brincadeira, é uma marcação de território.” Olhei para Rose, encantada. Incrível como ela havia conseguido resumir tão bem a questão. O foco da atenção já havia há muito passado dos carros dos veteranos para as motos. Agora, as pessoas rodeavam as máquinas enquanto os irmãos Lycan vestiam as luvas, aqueciam os motores e exerciam confortavelmente a função de serem deliberadamente arrogantes. Derek e os outros transformavam a tarefa do aquecimento numa confusão de piadinhas exibicionistas, tragos e antagonismo barato. “Você vem?”, Megan gritou para mim, apontando a traseira das motos dos amigos de Derek, porque, evidentemente, ela sabia que não tinha chance de ocupar a de Ethan e já havia um grupo sólido de garotas encobrindo a moto do irmão de Rose.


“O que há nisso, de verdade?”, perguntei para Rose, “Só a vontade de esfregar as coxas num garoto bonito?” “Não, querida. É o ritual. A garota que vai atrás é o às da sorte, a Helena de Tróia. Além disso, é melhor do que qualquer montanha russa que você já tenha ido. E você não se esfrega no cara, é bem menos pornográfico do que parece. Olha só. Olsen, posso ir com você?” Olsen, um cara com olhos perigosamente verdes com tatuagens nas laterais do pescoço sorriu predatório para Rose. Ele era escuro nas sombras, seu crânio raspado perfeitamente redondo era marcado com mais tatuagens e parecia o tipo de pessoa que palitaria os dentes com um canivete. Já estava sentado em sua moto vermelha e, embora a sua garupa não fosse muito disputada, Rose sentou-se elegantemente sobre ela, não da forma que eu esperava, mas na beirada, de costas para Olsen, os joelhos devidamente fechados. Ela olhou desdenhosa para mim, então esticou os braços para trás envolvendo o dorso de Olsen; ele retirou uma corda do bolso da jaqueta e a amarrou forte ao redor dos pulsos de Rose. Ela deitou-se teatralmente nas costas dele, como uma diva espreguiçando-se, e então Olsen fez sua moto estremecer e empinar. Rose gargalhou e berrou enquanto era inclinada na direção do chão, ondas douradas sacudindo num ângulo tonto: “Quando terminar você decide se vai beijar seu vencedor ou não! Olsen, já chega! Estou folgada!” Observei mortificada Rose afastar os cabelos do rosto com abanos de cabeça enquanto a moto voltava à terra firme e Olsen apertava ainda mais as amarras por volta de seu pulso. Teria sido bastante depravado se Rose encaixasse em Olsen da maneira tradicional, pernas ao redor dos quadris dele, a saia se erguendo o suficiente para que o contato fosse além do íntimo, mas estar de costas, os braços presos ao redor dele, totalmente


vulnerável, submissa e entregue à aventura... era sexy de um modo primitivo. Irresponsável e bem pouco recomendável. Eu queria. Com Ian. Preciso que entenda, ele havia dito. Mesmo que Kyle não tivesse permitido que completasse o raciocínio, eu era capaz de preencher as lacunas sozinha. Diferente das outras motos, nenhuma garota tinha ousado se aproximar dos irmãos Lycan, embora orbitassem nas proximidades, disponíveis o suficiente caso um deles tivesse de última hora a ideia de puxar uma. Antes de subir na garupa de Kyle, Lianne passou por trás dela com um isqueiro na mão no exato momento em que Kyle apertou a embreagem, o escapamento rugiu e uma chama azul neon riscou o ar. As pessoas uivaram e bateram palmas. Pela primeira vez vi na expressão feroz de Lianne de onde tinha vindo sua compatibilidade com um Lycan. Derek sibilou algo impublicável para eles. Cada um montou sua máquina. Megan havia assumido a garupa ao lado da de Rose, e as duas se entreolhavam, eufóricas e meio ofegantes. Ian não tinha me convidado para ir com ele, mas nos dois sabíamos que essa era uma escolha apenas minha. Um voto de confiança limpa e sutil que ele esperava que eu desse apenas a ele. Se eu não desse, ele iria sozinho. Olhei para suas costas curvadas sobre a Viúva Negra. Sua presença sólida, mas solitária. Intocável, como Rose dissera. De repente pensei no que ele havia me falado antes, sobre este ser um momento íntimo. No fundo, minha concepção de intimidade não estava tão distante da dele. Fui até sua garupa e me acomodei da melhor maneira que pude. Atrás de mim, Ian ficou muito parado, apenas respirando. Quando estiquei os braços


para trás, entregando meus pulsos, minha vida e minha vulnerabilidade, Ian segurou minhas mãos por um momento antes de murmurar para mim por sobre um ombro: “Obrigado.” Fechei os olhos. “Amarre com força.” Senti os nós ásperos da corda beliscando minha pele. Doía, mas não tinha a menor importância. “Engate os pés nos pedais!”, Rose alertou. Eu abri os olhos e obedeci. Mesmo assim, ainda não parecia seguro. Do meu lado direito, todas as garupas estavam vazias, com exceção da de Kyle. Ethan e Matt mal pareciam se importar; suas motos escorregavam para a frente e para trás, panteras loucas para se soltar. Seus corpos grandes se curvavam sobre as máquinas, e embora elas fossem puro aço, potência e perigo, eles a faziam parecer dóceis corcéis domados. Do meu lado esquerdo, todas as garupas iam ocupadas. A de Derek era enfeitada por uma morena longilínea que ganhava a vida apenas sendo perfeita. Uma fileira de joelhos expostos e peles pálidas no clarão dos faróis. Éramos pequenas e indefesas, recostadas contra ombros duros cobertos por couro, cercadas de testosterona. Ninguém usava capacete. Eu tinha um motivo bem diferente do delas para estar ali. Era absurdo, de qualquer forma, mas necessário. Não vi quando a largada foi dada, nem se houve fogo, como da outra vez. Houve apenas um ruído destruidor de motores explodindo, gritos, o som arrasador de pneus abrindo a terra, e então o vento, apenas vento e inércia. Minha coluna deu um tranco para frente quando Ian arrancou numa velocidade estrondosa. Foi desesperador, principalmente porque não


conseguia encontrar minha voz. O pânico a consumira. Lá longe, a multidão se tornou um borrão de cores e luzes saltitando na noite. Senti o movimento das motos ao meu redor, elas mudavam de posição, deslizando à nossa volta. O cabelo de Rose era uma mancha dourada no breu. As motos de Derek e sua gangue mal passavam de lampejos rubros, pássaros sangrando. Eu ia cair, sair voando da traseira da moto feito uma bandeira. A pressão era tão forte que senti meus pulsos repuxando, estalando, a pele rasgando. Meus ombros ardiam, esmagando minhas omoplatas. Tudo que me mantinha ali era a força de Ian; se ele mudasse o ângulo de sua inclinação apenas um pouco, o equilíbrio seria desfeito. Meu Deus. Como poderia haver uma fila para isso? Mas ele não se mexeu. Seu dorso permaneceu firme em meu abraço às avessas. No turbilhão de vento e velocidade, consegui encontrar meu ponto fixo. Era ele, somente ele. Sua força, sua presença maciça atrás de mim. Só então me dei conta de que não estava respirando – o ar explodiu para fora dos meus pulmões e, junto com ele, um grito, o único som plausível, a manifestação sonora de tudo que eu estava sentindo. Calor e frio, adrenalina e medo, euforia e excitação. A mão de Ian apertou meu braço. “Não!”, berrei, mas não tinha certeza se ele podia me ouvir. Mãos na direção, na direção! Metros para a esquerda, Rose gargalhou. Olsen ficava cada vez mais para trás e parecia puto com isso, mas sua carona estava facilmente tendo uma noite muito divertida. Pelo canto do olho, vi uma agitação assomar. Derek apareceu na minha frente, o rosto obscurecido pela obstinação e pela fúria por sua nova


colocação; agora, ele estava atrás de Ian e dos Lycan. Ele me encarou, e havia uma promessa estranha pulsando em seu rosto distorcido. Sua moto deu uma guinada para a esquerda, o que foi estranho, até que, com um segundo de atraso, eu entendi, ao mesmo tempo em que os olhos de Derek se arregalavam e ele berrava algo que soou como um alerta. Ou um xingamento. Ou uma mistura estranha dos dois. Os outros garotos dispersaram, de repente confusos. Na ventania, não consegui distinguir o que gritavam, mas suas expressões corporais eram idênticas, frustração, indignação, revolta. Porque eles permaneciam correndo em linha reta. Mas os Lycan projetaram-se numa curva acentuada para a direita, mudando a rota sem aviso, deixando-os para trás, abobados e traídos. E então, do nada, o cenário mudou. A escuridão afunilou, sombras compridas e densas nos envolveram, e o cheiro fresco da umidade e da terra. Tínhamos entrado na floresta. Meu estômago contraiu. Isso era mais do que arriscado, era uma forma bastante inesperada de se matar. Na velocidade em que estávamos seria um milagre não colidir diretamente com uma árvore. “Ian, pare!” No entanto, ele sequer desacelerou. Nenhum dos caras de Derek nos seguiu, a corrida parecia desfeita, o propósito mudara vertiginosamente para algo pessoal e grandioso, muito maior que uma disputa. A profusão de troncos se fechou à minha volta, entidades imensas e negras agrupando-se diante de mim até formar uma barreira que escondeu toda a clareira lá longe. Ian manobrou para lá e para cá. Atropelamos uma pedra, ou um animal; a Viúva Negra saltou felina no ar e bateu no chão de volta, meu traseiro ficou suspenso acima do assento antes de se chocar com ele desastrosamente. Meu coração se tornou algo leve, imaterial e dolorido em


meu peito. Virei a cabeça para enxergar adiante, mas meus cabelos ricochetearam em meus olhos, não havia como afastá-los. Meus ombros foram empurrados para a frente, meus braços esticaram ainda mais. Ian estava acelerando e acelerando e acelerando. Em meus ouvidos o vento rugiu, confundindo-se com os motores das máquinas. A Viúva Negra tornou-se imprevisível, descambando para um lado e para o outro sem o menor aviso, e a cada curva violenta eu continuava impossivelmente viva. Os Lycan se reorganizaram, assumindo uma formação triangular e correndo na mesma velocidade. Ethan e Matt coroavam as extremidades e como Kyle não estava visível, presumi que ficara na dianteira. No breu selvagem, seus olhos refletiam uma luz inexistente. Eu não tinha certeza do que estava vendo, olhos normais não deviam se comportar assim, e por vezes parecia só impressão. Então eles se moviam e o reflexo voltava, como o lampejo prateado de uma moeda sendo revirada ao luar. A temperatura baixou. Havia algo de hipnótico e aterrorizante naqueles olhos, como se eles transformassem os rostos de Ethan e Matt em superfícies vazias – ou, na verdade, transbordantes. Como rostos em meio a um ritual. Matt gritou algo para Ethan e os dois balançaram a cabeça, piscando sem parar, mas quando o brilho não desapareceu de seus olhos, eles quebraram subitamente a formação, sumindo das minhas vistas. O clarão me pegou por trás quando enfim saltamos para uma área aberta novamente. Senti a velocidade diminuir suavemente, o alívio me inundou. Quando paramos totalmente, comecei a me agitar e alguém cortou minhas amarras às pressas. Saltei da traseira da moto como um gato enervado e tropecei em minhas pernas trêmulas; as mãos de Kyle me firmaram antes de se afastarem num reflexo.


Encarei todos eles. Ian descia tranquilamente da Viúva Negra. Os outros já estavam de pé, me olhando em expectativa velada. Até mesmo Lianne. “O que...”, olhei para trás, mas vi apenas a borda sombria da floresta pela qual acabávamos de sair, “Que merda foi essa? Porque desviaram o caminho?” “Não tenha um ataque, Evy”, Ian falou, de costas para mim, ajustando alguma coisa no painel da moto, “Eles vão aparecer.” Eu encarei sua nuca tensa, o trapézio erguido e os ombros esticando a jaqueta. Tudo nele era uma recusa. Tudo nele era viril. “Isso não foi uma corrida justa”, sentenciei. Ethan alongou casualmente os dedos atrás do pescoço. “Ninguém prometeu uma disputa. Nós não disputamos, nunca.” “Isso foi humilhante”, insisti. Parte de mim queria apenas calar a boca e parecer tão à vontade entre eles quanto Lianne ficava, mas minha porção sensata (a que eu menos gostava), se recusava a ser tão leviana. “Ei, você pode voltar no colo daquele idiota se quiser”, Matt sibilou para mim, tragando um cigarro e soprando a fumaça numa baforada obscena. “E quanto aos seus olhos? E os dele”, indiquei Ethan com o queixo, retendo a vontade de ir até eles para virar seus rostos na escuridão à procura do reflexo, “O que foi aquilo?” Kyle lançou um olhar para Matt que dizia “calma”. Matt lançou um olhar para Ian que dizia “a culpa é sua”. Ethan lançou para mim um olhar de puro ódio que não precisava de traduções. Atrás de nós, um rugido distante emergiu no silêncio. Eu me virei a tempo de enxergar quatro motos avermelhadas percorrendo o terreno sob o céu apocalíptico. A mão quente de Ian apareceu em minha nuca, movendo-me


sorrateiramente para trás. Agora que ele havia descido da moto, tudo nele era enigmático, todos os Ians que eu conhecia e os que eu jamais conheceria habitavam seu rosto. As motos de Derek e dos outros pararam em derrapagens afoitas. Canivetes e faquinhas foram sacadas, e por um segundo meu coração disparou enquanto Derek usava a dele para cortar as amarras de sua carona sem muito cuidado, saltando da moto com a lâmina apontada na direção dos Lycan. “Seus filhos da puta trapaceiros!” “Ninguém trapaceou, cara”, Kyle disse com polidez estudada, “Nós levamos a corrida para um nível mais difícil. Vocês amarelaram.” “Na floresta?” Derek rugiu, “Vocês estão de sacanagem.” “Guarda essa merda”, Matt sibilou, encarando a faquinha na mão trêmula de Derek. Atrás de Derek, um dos caras gritou um “vamos embora, D” com uma nota aguda na voz. As garotas nas garupas tinham mudado de posição e agora sentavam com as pernas encaixadas nos quadris dos motoqueiros, preparadas para partirem, parecendo assustadas e arrependidas de terem vindo. “Está com medo, Matt?”, Derek maneou a cabeça, firmando a mão com a lâmina. Uma mecha úmida de seu cabelo dourado soltou-se das demais e pendeu em arco sobre os olhos febris, “Não tem ninguém aqui, só a gente. Seria justo, quatro contra quatro. O que acha?” “Acho que você é um babaca”, foi Lianne quem respondeu. Kyle deu um passo para o lado e a encobriu com o corpo. “Sem armas”, Ian começou a se adiantar. Havia um tom perigoso e gélido em sua voz. Os punhos estavam fechados.


Até então, tratava-se apenas de ego masculino. Ainda havia como acalmarem os ânimos e todos voltarmos para casa em segurança; dava para ver que Derek esperava por isso, mexendo-se irrequieto no lugar, e os amigos dele também, e eu e as outras garotas. Mas então uma coisa aconteceu, tão singela e definitiva como uma sentença. O olhar dos Lycan – de todos eles – acendeu na noite. Não apenas se iluminaram com o fulgor metálico que eu havia visto em Ethan e Matt na corrida, mas estreitaram-se em fendas e, através delas, arderam com uma promessa mortal. Matt jogou o cigarro no chão. Ethan deu um passo à frente. Lianne me puxou para longe, meu coração apertando e disparado ao mesmo tempo. Derek passou a mão pelos cabelos, o rosto subitamente tenso. Os garotos lá atrás perceberam o que viria a seguir e desceram das motos para correr até ele. “Espere, mas eles estão armados!”, eu falei para Lianne; ela já estava montando na moto de Kyle e aquecendo as embreagens. A expressão em seu rosto parecia muito com a de Derek segundos atrás. “Suba logo”, ela puxou meu braço outra vez, com mais força do que era esperado para uma garota de aparentemente 50 quilos. Eu subi, olhando por cima do ombro. Onde antes estavam parados os Lycan e Derek agora havia uma confusão de braços e punhos e músculos. O som indistinto e animalesco da briga só piorou quando os amigos de Derek chegaram. Era uma cena horrível e assustadora, mas Lianne estava mais preocupada em nos tirar dali do que em ajudá-los, e eu não podia culpá-la. Obviamente tínhamos mais a perder do que eles. Ela arrancou e, ao passar pelas outras garotas abandonadas, acenou com urgência. Rose e a morena de Derek assumiram a direção, atrapalhadas, as outras duas passaram para suas garupas e então nós partimos, contornando a floresta. Enquanto nos afastávamos, fechei os olhos com


força, tentando impedir que uma imagem se formasse em minha cabeça – o rosto bonito de Ian, geralmente impassível e imperturbável, transfigurado por algo que eu não sabia se podia entender. Ou aceitar. *** Sonhos são feitos de uma matéria fantástica. Você pode sonhar com qualquer cenário, e estar nele, e sentir, tocar, sofrer e rir e acordar com o coração pulando no peito como se tudo tivesse sido real. Mais do que real. Parece um pouco com a sensação do azul do céu numa manhã limpa de verão – aquele azul profundo e infinito impossível de captar, mas intenso e sufocantemente azul. Todas as noites eu sonhava. Minha mãe não sonhava; sonhar para ela significava o espaço de tempo inutilizado entre a pílula de Rivotril e o despertador no dia seguinte. Meu pai revelava muito pouco sobre si mesmo para contar esse simples detalhe, mas se eu tivesse que arriscar, diria que ele tinha pesadelos, sonhos pintados de negro e roxo. Noah apenas morria durante algumas horas e voltava na hora de ir para a escola. Sonhar, para eles, podia ser resumido como palavras chaves de uma busca – desnecessário, temeroso, vazio. Não para mim. Havia solenidade e respeito em sonhar. Para onde eu ia, com quem encontrava, o que sentia; não se tratava de um produto inócuo e vago da imaginação. Eram premonições. Às vezes, partes de uma vida que eu não conhecia, mas que era minha. Por isso, quando sonhei com lobos naquela noite, acordei escandalizada. Havia neve por toda a parte, mas eu não sentia frio, o que teria sido por si só um bom indicativo de que eu não devia levar este sonho em específico a sério. Mas eu estava nua. E esperava, olhando fixamente a floresta de


pinheiros à minha frente, escutando o canto áspero do vento em meus ouvidos. Ele parecia recitar nomes élficos: ressar azer athland glor vatinu... rastaror rastaror penglooooor A nevasca jogava as palavras para lá e para cá, fazendo-as girarem ao meu redor, distorcendo-as, prolongando-as em sussurros. Lá adiante, uma sombra tênue se moveu. Branco sobre branco. Dizem que os esquimós possuem mais de trinta nomes diferentes para tonalidades de branco, e em meu sonho eu sabia todas elas. Aquele branco em movimento era familiar e quente como um vermelho, doce como um lilás, intenso como um laranja. Impossível como um azul. Patas macias afundaram na colcha de neve. Eu me abaixei para recebê-lo na minha linha de visão. Era surpreendente fato de que eu sabia suas proporções exatas, o formato da cabeça triangular, o comprimento do focinho felpudo, a rigidez dos membros, mesmo sem jamais tê-lo visto tão de perto. Meu coração disparou quando ele parou bem na minha frente e desceu a cabeça sob o meu toque. Estávamos ambos despidos, ele sem medos, apenas vontades. Eu o acariciei. Ele era gelado, como um copo de Coca-cola, um inverno no Alaska, um corpo sem vida. Mas seus olhos brilharam para mim, vítreos, da cor de uma madrepérola ao luar. Lá atrás, encobertos pela névoa, mais quatro pares de pequenas esferas prateadas me fitaram, vigilantes. *** No dia seguinte, acordei envolta num emaranhado de toalhas úmidas, sem roupas e sentindo-me desgrenhada. O quarto cheirava a orvalho e terra fresca e o céu lá fora era cinzento e úmido como um algodão embebido. Na


cozinha, encarrapitada no alto do banquinho à beira do balcão, Jenna tomava seu café quente perfumado. Ela ergueu os olhos para mim e respondeu minha pergunta formulada em meu silêncio: “Você é sonambula, querida. Saiu para o deck de madrugada, no meio da chuva.” “Desculpe”, foi tudo o que meu estarrecimento me permitiu dizer. “Não se preocupe. Eu também sou.” Voltei para o quarto meio alheia. Estava tentando lembrar do segundo sonho, o que começou logo depois dos lobos e me deixou com uma sensação ruim e amarga no fundo da garganta. Um homem, havia um homem. Com tatuagens nos dedos, formando uma palavra, mas que eu não conseguia lembrar qual era, como se as letras se apagassem na minha memória, mas pareceram muito negras em sua pele quando ele ergueu a mão e colocou a franja teimosa para trás da minha orelha. Podia ser um gesto simpático, mas os olhos dele... Eram o pesadelo.


CAPÍTULO 17 PARANDO PARA PENSAR, ERA óbvio que eu fosse sonâmbula. Ninguém que sonha tão intensamente pode apenas dormir. O que me espantava era ter vivido dezessete anos sem saber disso. “Uma coisa que você tem que aprender quando está com os Lycan”, Rose estava dizendo, “é que eles sempre vão arruinar tudo.” O Baked estava razoavelmente movimentado para uma tarde fosca e desinteressante, e ela desfilava entre as mesas levando pedidos e recolhendo pratos e xícaras usadas em sua bandeja branca. Não dava para ver suas olheiras por baixo da camada iluminadora do corretivo, mas, como eu, ela certamente havia tido uma noite péssima. Ela pregou um pedido debaixo do balcão para mim e eu comecei a prepará-lo, totalmente sem ânimo. “Ainda não entendi o que foi aquilo ontem”, confessei, “O desvio da rota, o modo como eles agiram, a briga. Como você pode saber que ninguém se machucou? Eles estavam armados!” possuídos, acrescentei para mim mesma. “Ah, eles se machucaram bastante, sem dúvida. Derek está com um bife de ancho colado na cara até agora e acho que acertaram uma costela ou um rim dele. Quanto aos Lycan, não se preocupe, eles brigam com os caras da Yukon todo verão, e sempre estão por aí, procurando mais confusão. É por isso que todo mundo os odeia, eles são imunes.” O café machiatto que eu servia transbordou pela xícara enquanto eu encarava Rose, perplexa. Aquilo era um tipo de violência tão surreal que chegava a ser piada. Pelo visto, era mesmo verdade, porque o pessoal da Yukon falou tanto do assunto naquela manhã quanto teriam falado se


tivesse nevado em Whitehorse. “Não sei se consigo digerir isso tão bem quanto você, Rose”, falei para ela, de cara fechada. “Ah, eu não acho legal, Evy, mas Derek também não é um santo. Era só questão de tempo até arranjar confusão com os Lycan”, ela se inclinou para perto de mim sobre o balcão e baixou a voz, sorrindo de modo debochado, “Eles pegaram leve ontem. Pelo menos, ninguém foi parar no hospital. Sabe, até acho que Derek mereceu, ninguém nunca o confronta e os amigos dele são uns puxa-sacos.” Meu queixo caiu. “Como pode dizer isso?” Rose deu de ombros. “Amo meu irmão, mas cresci o vendo fazer maldades. Ele tem uma espécie de raiva reprimida por qualquer pessoa que pareça ser melhor do que ele no que quer que seja, e os Lycan, você sabe, quando chegam na cidade, são o centro das atenções.” Quando conheci Derek, no carro a caminho de Tagish Lake, ele pareceu um cara legal e gentil, tentando me deixar à vontade quando Rose e Megan claramente não se importavam tanto. Mas não demorou para mostrar que tinha um lado bem feio por trás da beleza de garoto bem nascido. Só que, pensando bem, Ian e os irmãos talvez fossem ainda piores. “Isso é uma coisa que não entendo”, admiti para Rose, “São populares e ao mesmo tempo são odiados. Nunca vi nada assim.” “Não sei, nunca parei para pensar, mas é mesmo estranho. Acho que é inevitável.” “O que é inevitável?”


“Que sejam assim”, Rose ficou séria, passando o dedo sobre uma manchinha de gordura no vidro do balcão, “É algo deles, de todos eles, até o mais novo. São magnéticos, mas aí, quando você tenta se aproximar, se tornam babacas.” “Não acho que Liam seja assim”, eu defendi. Rose fez uma careta de reprovação. “Espere só para ver.” O assunto morreu quando Chloe nos interrompeu para sinalizar delicadamente uma mesa recém ocupada no canto do salão. Rose se foi, e eu finalizei os pedidos. Lá pelas tantas, Ian Lycan apareceu no balcão, óculos escuros na cara fechada. Eu o encarei longamente, partilhando do mesmo tipo estranho de raiva que a cidade inteira nutria por eles. “Você está bem?”, perguntei secamente. Ele assentiu sem emoção e puxou o cardápio, embora eu soubesse que não tinha ido até ali para provar croissants. Sua pele estava intocada, irritantemente imaculada. A boca formava uma linha dura, lindamente incólume. As mãos, cobertas por luvas de couro de motoqueiro que deixavam os dedos de fora, eram grandes, limpas e firmes. Eu o odiava. “O que vai querer?”, cantarolei. Ian levantou a cabeça para mim. “Ei.” Ergui o caderninho de pedidos, praticamente esfregando-o na cara dele. “O que vai querer?” “Evy.” “Que tal o Frapuccino da casa?” “O que é o Frapuccino da casa?”


“Aquele que só servimos para idiotas. Com pedaços de suma da minha frente e uma dose de vai se foder.” Ele arregalou os olhos. É, bem, sei chamar palavrões tão bem quanto você. Abandonei o caderninho e me virei para a máquina de expresso. Rose me lançou um olhar arregalado ao vir me entregar mais um pedido – não soube se por ter me ouvido dizer um palavrão ou pelo fato de eu estar discutindo com Ian Lycan no meio do expediente ou simplesmente por ele estar ali, intacto e divino, habitando a mesma atmosfera mundana que o resto de nós –, o que foi excelente, porque teria sido patético ignorar Ian sem ter nada para fazer. “Você pode falar comigo, por favor?”, ele estendeu o braço por cima do balcão, a mão esticada na minha direção, uma postura bem diferente da que teve da primeira vez que sentou naquele mesmo lugar. Eu ergui os braços ao passar perto para pegar o liquidificador e os dedos dele roçaram minha cintura, “Eu fui mesmo um idiota, me desculpe. Pode pelo menos me ouvir?” “Eu ouvi isso, a parte do sou um idiota. O resto não faz diferença.” “Lembra que pediu mais?”, a voz dele estremeceu, como se a emoção o engasgasse. Eu o encarei. Os olhos dele eram duas bolas cor de aço fixas em mim. Não era a primeira vez que Ian me olhava como se tentasse me forçar a enxergar algo muito maior, “Estou dando o que pediu. O que aconteceu ontem fui eu não mentindo para você. Não escondendo nada. E quer saber? Posso ter feito a coisa certa, mas do jeito errado.” “Você fez a coisa errada de um jeito escroto.” “Você vai suportar, Evy, toda a verdade?” “Não seja ridículo”, estremeci. A forma como ele me confrontava era implacável e ameaçadora. Lembrei de como tinha agido na clareira na noite


passada, a expressão cruel deformando seus traços adoráveis. Ele seria capaz de se voltar assim contra mim? “Evelyn...” “O que vocês fizeram ontem, o que você fez ontem, não posso tolerar”, murmurei rispidamente para ele, segurando o liquidificador para o lado, como se tentasse salvá-lo de Ian. Ainda estava longe o bastante para que ele entendesse que não haveria trégua, mas perto o suficiente para que as pessoas na confeitaria não percebessem que estávamos brigando, “E Rose disse que poderia ter sido pior. Vocês costumam mandar pessoas para o hospital?” Ele recuou um pouco, cauteloso. O encarei com fúria. “Suma. Daqui.” Ian esfregou os cabelos, espiralando ruidosamente. Então travou as mandíbulas, assentiu para si mesmo, levantou e saiu, batendo a porta com força. O sininho sobre ela estalou com estrépito e o burburinho agradável no salão foi subitamente interrompido. A música de fundo ficou pairando no silêncio. Chloe me olhou com as sobrancelhas erguidas, mas eu dei de ombros, como se não tivesse ideia do que tinha acontecido. Antes que as conversas voltassem, a voz de alguém se ergueu em tom de comentário: “Esses garotos ainda vão acabar matar alguém” *** Olhei para o esquema no quadro, um emaranhado de setas e rabiscos. A aula avançava cruel e deliberadamente sem a menor pressa. O professor


nos dera dez minutos para ler um artigo que havia distribuído e, sete minutos depois, eu mal havia conseguido deixar o primeiro parágrafo. Não é que o assunto fosse chato, ou eu não estivesse a fim. As letras andavam no papel, flutuavam, trocavam de posição e piscavam num delirium tremens. Pensei que talvez Jenna estivesse certa sobre eu estar trabalhando muito, mas depois que se começa a ganhar dinheiro, é difícil parar. O emprego no Baked rendia boas gorjetas e eu estava começando a ter uma pequena poupança – mesmo que não soubesse como a usaria, era bom saber que ela existia e engordava dia após dia. E também pensei que, no meu universo utópico particular, o dinheiro seria uma moeda criada com a força da imaginação. Imagine. Puf – dez dólares. Imagine mais. Puf – cinquenta dólares. Imagine um dia inteiro. Puf – uma viagem para o Tahiti. Eu me sentia cansada e lerda, as poucas horas de intervalo entre a Yukon College e o Baked eram preenchidas com Ian, o que era cansativo; emoções demais para administrar. E o que me restava, a borda onírica da madrugada, eu usava para estudar e fazer os exercícios da faculdade. Meu celular vibrou no meu colo. Era apenas uma mensagem de Rose, mas isso me fez pensar no Baked, e em Ian sentado no balcão no dia anterior. Peguei o aparelho, abri o aplicativo de mensagens e digitei para ele: Sobre ter feito a coisa certa do modo errado. Explique-se. Ele só me respondeu no terceiro período, e levou quase cinco minutos inteiros para digitar, o que me fez pensar que tinha acabado de acordar depois de ter encarado uma madrugada toda no estúdio de tatuagem. Maldito mundo massacrante do capitalismo, somos muito novos para já estar nas suas garras. Você pediu que eu te mostrasse mais de mim. Não sabia como fazer isso de um modo cuidadoso, porque esse é o meu modo. Velocidade, perigo, mentiras e medo. É assim, apenas isso. Não estou pedindo para você aceitar, estou te


mostrando e te dizendo que não vou mudar, que não posso mudar. Mais um momento, então ele enviou outra mensagem: Mas gostaria que você aceitasse. Eu já não estava mais tão aborrecida com ele, o que era uma droga. Eu tendia a ser mais inteligente quando estava com raiva. Tudo bem, respondi. Não foi a corrida em si, foi a briga depois. Odeio isso, Ian. Por favor. Ele visualizou, mas não respondeu. Jesus, porque? Aparentemente, ter sido vista na garupa da moto de Ian Lycan nas corridas fez de mim uma espécie de canal para outro mundo, uma mediadora acessível para fofocas. Amber me abordou nos corredores da Yukon durante o intervalo entre duas aulas, e me perseguiu até a biblioteca, me crivando de perguntas enquanto eu assinava a devolução de dois livros. “Quer dizer, tirando aquela Lianne, ninguém nunca conseguiu se aproximar deles”, ela refletiu, recostada no balcão ao meu lado, me olhando de cima a baixo como se eu fosse a sobrevivente lendária de uma catástrofe televisionada, “Como eles são? Usam drogas? Quantas tatuagens ele tem no corpo? Você viu todas?” “Eles não usam drogas, até onde sei, e nunca vi nenhuma tatuagem neles. Especialmente em Ian.” “Então ele te mostrou... enfim, tudo”, ela mordeu os lábios grudentos de gloss, parecendo gulosa. “Amber, eu só subi na moto dele e participei daquela corrida idiota. Depois Lianne me levou para casa, não houve nada para ser mostrado, eles não são tão malignos quanto parecem.” “Isso é impossível. E sobre o pacto, é mesmo verdade?”


“Que pacto?” Amber deslizou até colar seu quadril ao meu, então cochichou: “É o que dizem, que o diabo levou a família deles e que são amaldiçoados. Isso explica o lance dos olhos”, ela esticou os dedos em V, apontando para si mesma. “Ah”, eu a encarei, de repente hipnotizada, “Você também viu?” “Não”, Amber agarrou meu braço, “Oh. Meu. Deus. Você viu!” “Eu...acho que”, vi, “foi impressão minha. Eles só têm olhos muito brilhantes, é só isso. Reflexo.” Durante o almoço, outras quatro garotas se aproximaram para tentar extrair informações. Eu lembrava de tê-las visto na clareira antes das corridas, inclusive disputando um lugar na fila de caronas, mas até agora nenhuma tinha parecido particularmente interessada na minha amizade. Elas eram bem mais discretas que Amber, fingindo interesse súbito num assunto aleatório, indo pelas beiradas para depois avançarem: “Então, Ian Lycan?”, risada. “Eles são legais? Não perecem ser.” “Você foi na casa deles?”, risada e assombro. “Eles cheiram bem?” “Aposto que sim.” “Qual deles tem três bolas?” “Três bolas?!”, risada. “Que coisa idiota, é só maneira de dizer, porque eles são, tipo, muito machões”, risada e revirar de olhos.


“Ele beija bem?” “Ele parece ser muito quente”, risada. E abano. Pensando bem, elas não eram tão discretas, e felizmente falavam o bastante entre si para não me darem chance de responder. À uma e meia em ponto, Liam estava me esperando no vão da porta de madeira de sua casinha moribunda. Ele vinha se tornando cada vez mais pálido, suas cores mais e mais claras, o azul dos olhos descorando a ponto de beirar a translucidez. Eu passei os dedos por seus cabelos finos. “Hoje, eu vou ler para você”, ele avisou ao entrar na escuridão da casa. Os Lycan tinham hábitos estranhos, e um deles era o de não acender as luzes em casa. Como moravam numa região razoavelmente arborizada, o sol não era uma entidade muito presente. Mas, quando Liam andou pela cozinha em tons de marrom e cinza, sua imaterialidade pareceu mais aceitável, como se suas cores tivessem passado por um escurecimento no photoshop. Ele sentou na cabeceira da mesa e colocou uma mão sobre a capa dura de um livro. “É do Matt. Chama-se O Corcunda de Notre Dame.” “Eu conheço a história”, falei com gentileza, mas Liam murchou, e eu acrescentei depressa, “Mas não lembro do final.” “Tudo bem”, ele arrastou o livro para longe, “Pode ler para mim então.” Apertei minha bolsa de tecido contra o corpo, sentindo as pontas angulosas dos livros que eu havia trazido. Como Liam nunca reclamava de Allan Poe, não me incomodei em trocar. Não pensei que ele talvez sentisse falta de algo mais... narrativo. Mas Liam nunca reclamava de nada; até mesmo as dores de cabeça ele havia aprendido a aceitar. “Bom, hoje vamos só conversar, certo? O que achou da história?”


Liam continuou com o braço esticado, a ponta dos dedos roçando a lateral amarelada das folhas do livro. Parecia um afago, como se tivesse pena da história. Dos personagens. “Acho que não gostei. Mas não consigo parar de pensar nele. Quasímodo”, então ele esticou mais os dedos, empurrando o livro para mim. Eu o abri casualmente, e logo na primeira página havia uma dedicatória rabiscada em letras sensuais: Há algo de diferente em você. Eu sinto isso. Tenho medo. Claire. “Você também sente?”, os olhos de Liam podiam ser desbotados, mas eram perspicazes e, no momento, me avaliavam minuciosamente. Talvez eu estivesse errada quanto à cor; não o tornavam imaterial. O tornavam velho. “Sim”, minha confissão foi hesitante, não porque não confiasse em Liam, mas porque tinha medo de feri-lo. “E tem medo?” “Não”, e então: “Sim. Mas é o tipo de medo que sinto quando olho pelo meu telescópio. A grandiosidade assusta, mas é tão...vital”, Liam ficou em silêncio, o maxilar apertado numa reação que presumi ser de todos eles. Uma marca que os unia como uma única criatura mitológica. Eu disse baixinho: “Não há problema nenhum em ter um segredo, Liam. Eu tenho alguns.” Ele assentiu, mas depois de um momento levantou a cabeça e me encarou do outro lado da mesa com seus olhos ambíguos. “Quero mostrar uma coisa a você”, ele esperou um instante antes de acrescentar, a voz um sussurro arranhado: “Meus irmãos não vão gostar, por isso não pode contar para eles que eu mostrei.” Sem saber o que esperar, fiz que sim. Liam ainda esperou, me avaliando. Mantive a expressão o mais neutra possível, o que, a julgar pelo suspense


todo, não era tão convincente. Ele levantou; o arrastar da cadeira no linóleo velho foi seco como o pigarro de uma bruxa, e então Liam puxou a camisa pela cabeça. Seu físico era magro para um garoto com sua altura, mas, ao contrário do que as camisas folgadas faziam parecer, não chegava a ser um caso preocupante. Era exatamente como o corpo de um adolescente prestes a eclodir, quando os hormônios sugam incansavelmente todo o estoque de energia disponível, deixando apenas músculos tenros e tendões sob a pele fina. Ele engoliu em seco antes de soltar a camisa na mesa e dizer: “Bem, é isso”, e virou de costas para mim. Bem no centro de sua espinha dorsal havia uma marca do tamanho e no formato de uma impressão digital borrada. Parecia quase extravagante no meio da brancura imaculada das costas, de um rubro vivo e orgânico. Eu estiquei a mão para tocá-la, porque é o tipo de coisa que pede para ser sentida, mas então me lembrei de ter cuidado quanto a isso. “Hum, eu posso... Posso tocar?” “Tem certeza?”, Liam perguntou de um modo estranho, como se estivéssemos falando de um filhote de dinossauro. A textura era ligeiramente aveludada. Quando deslizei o polegar sobre ela, Liam se retraiu, o que me fez crer que era uma região sensível, como a parte interna de um umbigo. Ele agarrou a camisa e a pôs de volta meio apressadamente. Então ficamos sentados na mesa, nos encarando, Liam agora menos oprimido do que antes. “Esse é o meu segredo.” “Não é um segredo tão ruim assim.” Liam não respondeu.


*** Decidi ocupar minha folga no Baked naquela tarde com uma visita um tanto quanto inesperada a Ian Lycan. Acontece que eu já não estava mais tão aborrecida, e essa era uma qualidade/defeito meu que eu nunca saberia superar. As brigas de Ian com Derek não eram da minha conta, o que era muito da minha conta era o modo como Ian vinha se comportando comigo antes da corrida e eu não tinha muitos pontos negativos quanto a isso para reclamar. Depois de ter partilhado seu segredo comigo, Liam se sentiu mais à vontade para partilhar outras coisas que eu desconfiava que não tinha o direito de saber ou não era permitido a ele contar, como por exemplo, o endereço da academia onde eles treinavam. Eu joguei o endereço na busca do celular e os resultados me mostraram uma região meio deserta no subúrbio de Whitehorse, o que, levando em conta quem eram os irmãos Lycan, não me surpreendeu. Passei em casa, devorei um sanduíche frio às pressas e então parti no Corolla de Jenna em direção ao local estranho. Ficava perto das montanhas. O GPS piscou e avisou, numa voz mortiça, que eu havia chegado ao meu destino quando estacionei num espaço aberto coberto de cascalho em frente ao imenso galpão com portas horizontais sanfonadas de metal. Estavam fechadas, e havia uma placa logo acima, ainda embrulhada em plástico preto, como uma loja recém-inaugurada. Desci do carro e circulei ao redor. A Viúva Negra estava displicentemente largada na lateral do galpão. Passei a mão pelo couro do acento como se acariciasse um cãozinho – sem ressentimentos. Ela realmente não era culpada pelas atrocidades que Ian


Lycan a obrigava a praticar. Através das janelas sujas, vi o interior do galpão apinhado de aparelhos de musculação, sacos de areia e uma arena no centro. Estava vazia, a não ser pela movimentação a um canto. Ian. De costas para mim. Praticando socos num dos sacos de areia. Horas mais tarde, estacionada no topo das montanhas e agarrada ao volante do Corolla de Jenna, com o coração de Whitehorse pulsando muitos metros abaixo, tive certeza de que acabara de presenciar uma espécie de turning point de proporções desconhecidas. O momento em que tudo muda e os dados são lançados. O impulso que joga todas as escolhas que ainda não foram feitas para o ar e você precisa pegar alguma, qualquer uma, porque o tempo está se esgotando. Ele acertava golpes no saco de areia sem parar. No começo, achei fascinante, a concentração, a precisão e a força; as correntes que prendiam o saco aos ganchos no teto chilreavam e sacudiam, epiléticas. Usava uma calça de treino e uma camiseta sem mangas esfiapada nas extremidades, e os tendões e os músculos saltavam por debaixo da pele castanha, até que ele inteiro fosse só isso, potência e ritmo, potência e ritmo. Desenfreado. Era quase difícil acompanhar. As duas mãos avançavam e recolhiam, girando o dorso numa sincronia perfeita. Ian era alto, grande, mas agora também era ameaçador. Uma força da natureza. Até então, eu não tinha me dado conta do quanto um homem pode ser bonito. Quero dizer, é claro que Ian era, mas olhando-o daquela forma, sua beleza ia muito além do físico. E foi aí que a impressão estranha tomou conta de mim. O assombro e a certeza de estar vendo o que não devia estar vendo, porque nada, ninguém deveria ser capaz de possuir tanta força, tanta velocidade. Além disso, quando acidentalmente encontrei os olhos de Ian pelo reflexo de um espelho na parede, eles estavam acesos. Vivos.


Horas mais tarde, no Corolla de Jenna, enquanto a CBN anunciava no rรกdio uma nova onda de atentados terroristas, meus ouvidos zuniram com um chiado oco e crescente. Ian Lycan tinha segredos que eu talvez nรฃo quisesse descobrir. Lรก embaixo, Whitehorse respirava adormecida, isolada e alheia.


CAPÍTULO 18 IAN “NO ÚLTIMO VERÃO NÓS usamos três por cento das nossas economias pagando fiança, Ian”, Kyle estava dizendo enquanto observávamos Matt digitar uma infinidade de códigos em seu notebook, “Você sabe disso, não é?” A conexão de internet em nossa casa era um tanto quanto precária, então entramos na Dodge de Kyle, atravessamos a cidade e estacionamos num campo aberto. Muitos quilômetros abaixo, para a direita, Whitehorse era um rasgo cintilante no terreno escuro. Kyle viera para exercer seu controle irrevogável sobre nós; Matt viera porque era ele quem entendia de hackear sistemas e invadir firewalls; Liam veio porque Matt não queria deixá-lo em casa sozinho, em meio a uma crise de febre daquelas e, por fim; Ethan viera porque sua diversão da noite seria nos aborrecer com suas carrancas de reprovação cada vez mais aprimoradas. Eu tinha vindo porque a ideia fora minha. “Ninguém vai saber que fomos nós, Kyle”, eu rebati a bolinha de tênis que encontrei debaixo do banco contra o teto, movimento que vinha fazendo desde que estacionamos e que se provava um ótimo exercício para dissipar minha ansiedade e criar uma nova em Ethan, “Se estivéssemos no Pentágono, talvez, mas aqui, no meio do nada? Quem vai ligar se a energia da cidade cair por uns minutinhos?” “Horas”, a voz grave de Matt veio do banco do passageiro à minha frente, “Vai levar horas para restaurar as configurações. Bom, talvez eu consiga em quarenta minutos, mas só se tiver uma cerveja na minha frente.” “Ethan pode providenciar isso”, eu disse. “Uma ova”, o adorável Ethan redarguiu, enfiando mais a aba do boné na


cabeça. No escuro, ele era uma enorme presença sólida e rabugenta, mas pelo menos sua perna estava servindo bem de travesseiro para Liam, “Estou aqui para lembrá-los que estamos nos metendo em problemas, mais uma vez, por uma razão completamente à parte dos nossos interesses.” Tirando o fato de que foi minimamente indelicado ele citar mais uma vez, numa referência explícita ao caso de Claire, não dava para dizer que Ethan estava errado. Estávamos ali pela única razão de que eu queria pedir desculpas para Evelyn de um jeito que ela não pudesse ignorar. A ideia era usar os medidores digitais que cada casa tinha para invadir o sistema de rede elétrica e fazê-lo cair. Eles usavam conexão de internet para atualizar, era a brecha perfeita, segundo Matt explicara. Imersa na total escuridão, o céu de Whitehorse se transformaria num imenso painel estrelado, do tipo que poucos seres humanos já presenciaram. Eu sabia que ela ia gostar porque tinha uma luneta profissional no meio do quarto, e ninguém tem uma coisa dessas se não curte muito olhar estrelas. É claro, eu não estava me desculpando por achar errado o que tinha feito, mas Evelyn reagiu muito pior do que eu esperava. E eu devia desculpas infinitas por não fazêla sorrir sempre. “Isso é o lobo?”, o murmúrio imaterial da voz de Liam fez todos pararem. Matt olhou por sobre o ombro e Kyle ergueu a vista pelo retrovisor. Liam apontou para o rosto de Ethan, cujos olhos em fendas raivosas deixavam escapar um brilho prateado sobrenatural, “Quando ficam acesos, é um sinal do lobo?” “Só um reflexo, Liam”, eu respondi, porque ninguém pareceu à vontade para fazer o mesmo, “É como olhar um lago e ver a lua no fundo. Ela não está realmente lá, é só uma ilusão.” “Mas ele está aqui”, Liam suspirou, a febre o deixando cansado até mesmo para pensar, “Eu o sinto o tempo todo, confundindo minhas emoções.”


“É a sua bussola interna”, Ethan resmungou, “Use-a com sabedoria, já que ninguém mais aqui nesse carro além de mim se importa em fazer a coisa certa.” “Porque só você está assim?”, Liam quis saber, ainda analisando Ethan. Apesar de estarmos numa situação de adrenalina, não era o suficiente para nos deixar acesos. “Porque ele está puto”, Matt respondeu, de volta ao trabalho. Qualquer um de nós poderia ter acrescentado: e porque ele é Ethan, menos Matt. Ele jamais fazia observações degradantes, não porque não tivesse vontade de zoar com a cara de Ethan, mas porque, de todos nós, Ethan seria o único que não pensaria duas vezes antes de rebater com um comentário vingativo. Muito certamente sobre Claire. “Algumas emoções nos deixam ligados”, Kyle explicou, “Ethan está certo, é mesmo uma espécie de bússola natural, mas você ainda está no controle.” “Agora fale de quando ele não vai estar no controle”, Ethan riu uma risada negra. “Em alguns casos específicos”, Kyle lançou um olhar mortal para Ethan, mas no fundo eu concordava com meu irmão ranzinza. Liam tinha que saber, “O lobo é mais do que uma mera sombra em você. Você se torna a sombra dele, um eco numa mente animal.” Liam levantou do colo de Ethan e alinhou a coluna. Seu cabelo fino oscilou ao redor da cabeça até assentar suavemente sobre as orelhas. “Quando isso acontece? Na Lua cheia?” “Não!”, nós quatro respondemos depressa, abanando exageradamente o ar e fazendo caretas contorcidas de sarcasmo, “Não, não, cara. Não mesmo!” “Esqueça essas idiotices de conhecimento popular...”, Kyle começou a dizer.


“Porque isso te preocupa tanto?”, Ethan sibilou do escuro, algo no tom que usou fez Kyle se calar. Através do retrovisor, vi a mesma imagem aterradora se formar nos olhos dele: a mancha vermelha sobre a espinha dorsal de Liam. Liam deu de ombros. Eu baguncei seus cabelos, porque era legal vê-los tentando se reorganizar novamente, caindo devagar como neve. E porque ele parecia precisar de contato físico mais do que qualquer um de nós. “Você não tem que pensar em nada disso agora. Lua cheia, o lobo em nós, quando fica pior, nada disso. Só precisa se concentrar em resistir às febres, ok?” Ele assentiu vagamente e tombou em meu ombro de olhos fechados e boca arfante, uma ruga resoluta de resistência vincando o espaço entre as sobrancelhas. “É agora”, Matt falou, “Em três... dois... um.” Whitehorse esvaneceu, como uma alma sendo varrida de um corpo. Dava para ver a sombra escura da cidade, densa e impenetrável e, acima dela, um manto estrelado, pulsante e vital, um rastro salpicado com inúmeros micro diamantes. Kyle xingou um palavrão em reverência. Matt riu. Liam arfou em meu ombro. Ethan esticou a cabeça para fora da janela e pareceu esticar a boca num sorriso pasmo. “Que legal, cara”, ele disse para ninguém em específico. Parecia nostálgico, uma sensação que todos nós partilhamos. Enquanto lobos usávamos as constelações para nos orientarmos. Não era apenas a lua que nos influenciava, as estrelas eram essenciais, mais importantes até; nós aprendíamos a posição de cada constelação como um químico decora desde cedo os símbolos numa tabela periódica. Peguei o celular e liguei para Evelyn. Ela atendeu no quarto toque, com voz


alarmada. “Ian”, Evy pronunciou meu nome como se temesse que eu me materializasse diante dela. “Pode me fazer um favor? Pode ir até a janela?” Ruído de lençóis roçando pela cama. Respiração suave. Já passava da meianoite, é claro que ela estaria deitada. Um breve silêncio, enquanto eu a imaginava atravessando o carpete macio até a janela. E então... “Meu Deus.” “É, também estou vendo. Inacreditável, não é?” Ela não respondeu. Dava para sentir a emoção dela fluindo pela linha, no modo como ficou muda, embevecida. “Vá até a luneta”, instrui, dei-lhe alguns segundos e então falei: “à sua direita, acima da linha das montanhas? É Libra, a constelação de Kyle. Logo abaixo, quase na linha do horizonte? Escorpião, a constelação de Ethan.” Havia uma vantagem em não ter uma data definida de nascimento, a de podermos escolher nossas constelações. O primeiro dia da transformação poderia ser usado como parâmetro, mas as descrições astrológicas nunca batiam, então ignoramos os signos solares e ficamos apenas com as constelações que mais nos identificavam. Não passava de uma brincadeira, e isso ficou claro quando Matt escolheu a sua: Hydra. “Qual é a sua?”, Evelyn perguntou. “Áries”, na verdade, eu estava enjoando dessa e provavelmente trocaria. Evelyn ficou quieta enquanto esperava instruções para procurá-la, então acrescentei: “Mas não dá para ver daqui”, e depois, me ajeitando no assento, “Isso não é incrível, Evy?” “É mágico.”


“Posso ensiná-la todas, cada uma delas”, fiquei na expectativas, mas ela hesitou, “Vamos lá, você não pode ficar irritada comigo a vida inteira.” Evelyn suspirou. Não sei porque, quando respondeu, eu a vi com a testa recostada no vidro gelado, o cabelo curto e suave por sobre o rosto, uma camisa larga e comprida de gola esgarçada caindo pelos ombros e expondo o elegante perfil do pescoço nu e pálido: “Ian”, dessa vez, meu nome soou preguiçoso em sua voz macia, “eu gostaria que você estivesse aqui agora. Isso soa como se eu estivesse irritada?” “Nem um pouco.” Sem que tivéssemos dito nada além disso, a conversa ficou de repente íntima demais e eu desci do carro. Eu andava pensando em Evelyn mais do que era saudável, e a lua crescente estava deixando meus miolos moles de desejo por ela, mas não era tão simples. Em termos práticos, amá-la era bem parecido com amar uma fobia. Recostei na traseira da Dodge e escutei o ruído suave de Evelyn expirando; o ritmo ligeiramente ofegante indicava que não era só eu que andava querendo o que não podíamos ter. Minha pulsação atingiu meus ouvidos e desceu. Todo o meu corpo foi tomado por um frenesi, como se o ar gelado da noite estivesse carregado de promessas frágeis. Como se o cosmos inflasse até me comprimir. “Ian”, Evelyn chamou, mas pareceu incapaz de continuar. Fechei os olhos. Um pouco mais daquilo e eu ia estourar. Minutos depois, Kyle bateu na lateral do carro para chamar minha atenção. “Tenho que ir”, pigarrei para limpar a voz. Evelyn produziu um som indistinto e quebrado. “Tudo bem.”


Desliguei depressa, com medo de que, se me despedisse, se dissesse um maldito e formal tchau, até amanhã, o encanto se desfizesse. Assim, interrompida, a voz de Evelyn pairaria em minha mente até tomar todos os cantos escuros do meu medo, uma lembrança embrionária.


CAPÍTULO 19 EVELYN “QUAL O PROBLEMA EM saber onde você treina?” O carro de Jenna agora cheirava a desodorante masculino, sabonete de glicerina e um toque de Ian, algo dificilmente definível. Ele usava uma calça jeans escura que marcava perfeitamente suas coxas musculosas e compridas e uma camisa sem mangas preta. O cabelo molhado possivelmente nem fora penteado, mas, uma vez que eram curtos, ficava ainda melhor. Enquanto o olhava sentado no banco do passageiro, uma perna apoiada no porta luvas e um cotovelo apoiado no joelho erguido, decidi que gostava dos braços dele. A cor, o formato meio quadrado dos ombros, a elegância das linhas e a forma como terminavam em mãos grandes e potentes. Gostava tanto que quase podia relevar o mau humor dele impregnando meu intervalo de almoço. “Não é lugar para você”, ele disse para o vidro fechado da janela. Sua silhueta era a única coisa discernível contra a paisagem rústica lá fora enquanto percorríamos a estrada. “Que exagero”, eu o olhei de relance ao passar uma marcha, e Ian inteiro exalava amargura, “Ou... você está com medo de que eu tenha visto algo que não deveria?” Ian dobrou um fiapo de mato que havia encontrado no chão do carro. Seu maxilar estava fazendo aquele contorno saltado de quando ficava puto. Ou arredio. Sinal de que o assunto estava morrendo, então usei minha melhor tática para trazê-lo de volta. Funcionava apenas com Ian, porque eu não conhecia nenhuma outra pessoa que se abrisse mais facilmente quando ficava em choque, como se mostrar que eu podia ser mais excêntrica do que ele o aliviasse. Aprendam:


“Quero fazer uma tatuagem. Tipo, agora.” Eu esperava que ele risse com deboche, ou se revoltasse, mas não esperava aquela reação. Ian parecia genuinamente mortificado. Me senti eufórica. “Na verdade, você vai fazer uma em mim”, arrematei quando ele não respondeu, jogando a seta para a esquerda e fazendo o retorno em direção às docas. Ian relaxou a expressão e balançou a cabeça com um muxoxo de descrença. Por algum tempo ele apenas ficou em silêncio, do tipo que sobrecarrega o ar e pinica na pele. E então, conformado: “É uma necessidade. As corridas, os treinos. Você. Quer dizer... aquele beijo. Você sabe”, ele cruzou os braços com as mãos por baixo das axilas e pensou por um momento. Talvez fosse só impressão minha, mas parecia que estava tendo trabalho para filtrar as informações que devia ou não me passar, “É só que precisamos... colocar para fora, entende?”, os olhos dele encontraram os meus. Na penumbra do carro eles eram escuros e brilhantes como marcassitas. “Precisamos?” “Eu e meus irmãos. É coisa de família.” Bem, fazia sentido. Pelo menos explicava grande parte da agressividade deles, embora Liam fosse uma das criaturas mais gentis que eu já conhecera. Não sabia exatamente o que sentia sabendo que estava saindo com um cara que lutava, trabalhava num estúdio de tatuagem, dirigia motos além do limite de velocidade, disputava pegas e tinha péssima reputação. Não que tudo isso influenciasse na atração que eu tinha por ele; é só que Ian Lycan e seu estilo de vida não combinavam com minhas sapatilhas de balé e com os recitais de música que minha mãe sonhava em me ver frequentar. “Eu sei”, murmurei, “Foi por isso que decidi fazer a tatuagem. Colocar para fora.”


“É, você tem mesmo muita coisa reprimida.” Eu o estapeei no braço; Ian recuou. O contato com sua pele nua e nossas risadas desestabilizaram a tensão de minutos atrás, eu desci os dedos pelo antebraço dele até encontrar a palma de sua mão. *** O estúdio de tatuagem onde Ian Lycan trabalhava era o The Tattooist e ficava, assim como a academia, afastado do centro urbano, numa vila pequena de casinhas de dois andares espremidas uma ao lado da outra. O símbolo na placa era uma caveira estilizada fumando um cigarro vaporoso, e pelos olhos dela saíam trepadeiras e rosas vermelhas. Pitoresco. Ian afastou a porta para que eu entrasse e veio em seguida. Havia um garoto alto e magricela no balcão da recepção, para quem Ian limitou-se a acenar com a cabeça à guisa de cumprimento. O cabelo dele, espetado e num tom de loiro aguado, tinha mechas verdes berrantes, e ele usava alargadores nas duas orelhas. Os olhos azuis eram um pouco esbugalhados e quando sorriu para mim notei um canino de ouro sob o lábio superior. “O que está fazendo aqui, Lycan? Faltam mais de seis horas para o seu turno.” “Ei”, Ian apontou para ele, “Cuida da sua vida.” Os dois se encararam por um segundo e o sorrisinho do cara murchou. Eu ergui as sobrancelhas e desviei o olhar, então Ian voltou-se para mim. “Espere um pouco aqui. Já chamo você.” Lançando um último olhar de advertência para o magricela colorido, Ian se afastou para os fundos do estúdio. Eu encolhi os ombros, avaliando a


decoração, os quadros pelas paredes e as fotografias de tatuagens espalhadas por todos os lados, até que o cara quebrou o silêncio. “E aí, qual é a sua?” “Chase!”, Ian berrou lá de dentro. “Só estou conversando!”, Chase revirou os olhos ao apoiar os cotovelos ossudos no balcão e piscar para mim, “E então?” “E então o que?” “Qual é a sua com o Lycan?” Mordi os lábios por dentro. Ele parecia realmente impressionado comigo, como se eu fosse um bichinho exótico, e comecei a desejar não ter vindo. “Somos amigos”, respondi, dessa vez confrontando-o com o olhar. Chase riu, acenando com a cabeça, mas o som fez parecer que estava se afogando. “Sei. Esses caras não têm amigos. E você é uma garota”, o olhar dele percorreu a parte da frente da minha blusa justa e desceu por minhas pernas, “Se quer saber, é até estranho.” “É estranho que ele tenha uma amiga?” Chase fez aquele movimento de cabeça outra vez, como se eu tivesse contado uma piada legal. Respirei fundo e me balancei suavemente no lugar. “Um deles andava com uma garota um tempo desses”, Chase puxou assunto de novo. Sua fala era arrastada e embora a voz fosse baixa e tranquila, me causava arrepios desagradáveis, “O Matt. Ele era gente boa. Sabe, o pessoal daqui gostava dele. Eu fiz uma tatuagem nele até, o nome dela. Era Claire. Foi aqui, no meio das costas”, ele apontou para trás de si, me olhando fixo, “Aí aconteceu algum troço fodido e a garota desapareceu. Dizem que ela


saiu da cidade, mas acho que ele sumiu com ela. Esses caras são sinistros, é só olhar para eles.” Eu o encarei. Não merecia ouvir que os irmãos Lycan eram sinistros pela boca perfurada de argolas de um cara que era uma vitrine ambulante de horrores. “Já fui avisada, obrigada.” “Tudo bem, baby”, Chase ergueu as mãos e deu de ombros, “Não está mais aqui quem falou.” Apesar disso, ele ficou ali parado, me encarando feito uma raposa esperta até que Ian voltou e acenou para que eu entrasse. “Falei para cuidar da sua vida.” Chase levantou o polegar para Ian numa reação amistosa, no que Ian retribuiu com o dedo do meio. “Minha nossa, o que foi isso?”, perguntei quando entramos em sua sala e Ian fechou a porta. “O que?” Abri mais os olhos para ele. “Sério? Você tem uma relação de trabalho bem bizarra com seus colegas aqui.” “Ele não é meu colega. É só o Chase.” Eu assenti e abracei a mim mesma, observando Ian atravessar a sala e se recostar na bancada afixada à parede, de frente para mim, de braços e tornozelos cruzados. “Ele te contou aquela história da Claire, não foi?” “Eu não acredito. Não ligo para o que falam.”


“Mas devia. Nem tudo é fofoca.” Houve um momento em que nos olhamos em silêncio. Ian ficou muito sério, a expressão indecifrável, e então sorriu para mim, daquele modo que fazia seus olhos se estreitarem e parecerem cheios de segredos irresistíveis. “Você não presta”, cocei a testa, sem graça por ter caído em sua armadilha. “Ficou com medo.” “Só porque você quer.” “Isso é um pouco frustrante, Evelyn. Estou me esforçando para ser o cara mais escroto que você já conheceu e não está funcionando. Você é imune à minha cretinice.” “É, e você quase conseguiu, mas não sou uma garota facilmente impressionável.” “E aquela besteira de ter tatuado meu irmão nas costas? Pura mentira.” “É uma pena, teria combinado com ele. O que aconteceu?”, perguntei depois de um momento, quando nós dois paramos de sorrir, “Com a garota, Claire.” Ian remexeu-se inquieto. Uma ruga surgiu entre suas sobrancelhas castanhas. “Ela era namorada do Matt. E sim, ela saiu da cidade depois que eles... discutiram.” Eu lembrava vagamente de Ian ter citado Claire como ex de Matt em algum momento, mas não fiquei exatamente curiosa sobre ela, até agora. “Uau. Ela devia ser muito apaixonada por ele para deixá-lo mudar sua vida assim”, eu jamais deixaria minha cidade por causa de um garoto. Um esgar irônico torceu os lábios de Ian e ele olhou para cima ao


pressionar a língua na parte interna da bochecha. Quando voltou a me fitar, seus olhos estavam blindados. “E aí, o que vai ser?” Revirei a mente, esperando ter uma súbita inspiração divina. A verdade era que eu nunca tinha pensado em fazer uma tatuagem – até hoje. De repente tive uma ideia pouco cristã. “Não sei. Porque não me mostra as suas primeiro?”, Ahá. Só esperava que ele não tivesse tatuado nada no traseiro ou em lugares menos pudicos. Oh, Deus. E se tivesse? Ian me olhou com o início de um sorriso sagaz nascendo no canto dos lábios. “Não tenho nenhuma. Mas se queria que eu tirasse a camisa era só pedir.” “Não acredito nisso. Você é tatuador, mas não tem nem umazinha sequer?”, isso era inédito. Um pouco decepcionante, mas era menos uma coisa para minha mãe reprovar nele. Ian ficou sério. Droga, e agora o quê? “Pode começar me dando uma ideia do desenho.” Fiquei estalando a língua contra a bochecha enquanto pensava. “Precisa ser algo que tenha a ver com a gente, não é? Bom, tem umas coisas estranhas sobre mim”, dei um sorriso amarelo, fitando o chão, “Quando eu tinha dois anos meus pais me levaram para um piquenique no parque. Uns garotos estavam atirando pedras para derrubar frutas das árvores, e uma delas atingiu uma colmeia. Eu estava brincando perto do lago nessa hora, bem embaixo da árvore, e as abelhas voaram enfurecidas para cima de mim”, mordi o lábio. Não lembrava disso, mas minha mãe costumava contar para todo mundo quando queria impressionar.


Ian ergueu uma sobrancelha. “Que merda.” “É, mas deu tudo certo. Quer dizer, essa é a parte bizarra. Eram muitas abelhas e nenhuma delas me picou. Na verdade, elas formaram uma nuvem ao meu redor, uma espécie de bolha. É um comportamento esquisito para um enxame de abelhas revoltadas. Não sei como me livrei delas, mas meus pais dizem que elas simplesmente dispersaram, como que sob um encanto”, tomei ar para continuar, porque a partir dali as coisas ficavam mais loucas, “Pássaros de várias espécies amanheciam na janela do meu quarto, o barulho era tão insuportável que tivemos que nos mudar para um apartamento em Manhattan, bem no meio dos arranha-céus. Sempre gostei de animais, talvez um pouco mais que o normal para uma criança, era uma fixação, mas nada superou o que eu tive com... um lobo.” Uma luz acendeu os olhos de Ian. De repente, eles ficaram vidrados. “Um lobo”, a voz dele era cautelosa. “É”, eu sabia que estava ficando vermelha, mas agora que tinha começado era melhor terminar, “Gosto de lobos, mas... Bom, eu deveria temê-los. A primeira vez que vi um foi no último natal que passei aqui em Whitehorse. Faz tanto tempo, mas nunca consegui esquecer e... Sei que vai soar idiota, mas eu o encontrei de novo nesse inverno.” “Era outro”, Ian disse depressa, como que na defensiva. Minhas sobrancelhas se uniram. “Não, era o mesmo, eu sei.” “Fale mais”, a expressão dele ficou mais ansiosa. Os músculos dos ombros retesaram por baixo da camisa. “Hm, ele é todo branco...”


“Existem vários lobos brancos por aqui, Evelyn. São uma praga”, ele deu uma risada nervosa, que eu não correspondi. “Era ele, Ian. O mesmo lobo. Vai me deixar continuar?” “Você disse que o viu muitos anos atrás. Com certeza é outro.” “Tudo bem, então acredite nisso você. Eu sei que não é, é o meu lobo”, começava a ficar mau humorada por ser contrariada, mas apesar da minha resposta atravessada Ian sorriu para mim de um jeito quase carinhoso, “Como eu estava dizendo, tenho esse lance louco com animais, além de outras bizarrices. Mas, por hora, vamos ficar com o lobo. É muito clichê?” Ian jogou a cabeça para trás numa gargalhada eloquente. Eu arregalei os olhos e encolhi os ombros, sem saber como reagir. Certo, a ideia da tatuagem era idiota, mas ele não precisava me humilhar. “Desculpe”, ele ofegou por fim, balançando a cabeça em reprovação à própria atitude, “Não estou rindo de você, é só que... tatuar um lobo na sua pele...”, ele parecia tão maravilhado quanto contrariado, “Não é nem um pouco clichê.” “Milhares de pessoas no mundo tatuam lobos”, dei de ombros, “Vou ser mais uma.” “Não é a mesma coisa. Você sabe o que isso significa para você.” “Certo”, cutuquei uma mancha escura no chão com a ponta do tênis, um pouco arrependida por ter falado sobre o meu lobo para ele. Era óbvio que Ian não entendia, mas estava tentando ser gentil. “Podemos começar?” Pesquisei em meu celular tatuagens mais ou menos no modelo que queria e mostrei para Ian. Ele pareceu bem mais disposto a fazer a tatuagem do que estivera a princípio. Decidi que o local ia ser na lateral esquerda do corpo, sobre as costelas. Conversamos sobre o tamanho, que deveria ser grande o bastante apenas para chegar até a cintura. Ian me perguntou várias vezes


se eu estava certa de que queria começar com algo desse tamanho. Respondi sem hesitar que sim. Ele então rabiscou um modelo pequeno no papel e me mostrou. “Uau. Você é bom”, estava perfeito. Era como se ele tivesse entrado em minha mente. “Tire a camisa.” Eu levantei os olhos do papel para Ian, mas ele me deu as costas, foi até as janelas e fechou as persianas. Tudo ficou escuro. De repente, a situação ficou íntima demais, como se o que fossemos fazer precisasse de privacidade. E não apenas porque eu estaria seminua. “Como vai enxergar nesse breu?” “Não preciso de luz”, na penumbra os olhos dele se estreitaram nos meus. Por um segundo imaginei ter visto aquele reflexo perolado em suas íris. Um arrepio estranho percorreu minha espinha até a raiz dos cabelos, mas Ian não fez questão de esconder. Parecia estar me provocando ou desafiando de algum modo. “Isso não significa que não pode usá-la.” “É mais tranquilo assim, a luz tira minha concentração.” Eu respirei fundo e sentei na cadeira de frente para o encosto enquanto Ian preparava as agulhas. Tirei a camisa e imediatamente senti o ar frio roçar a pele nua das minhas costas e dos meus ombros. Estremeci de leve, ciente do quanto estava exposta. “Não estou muito segura disso”, murmurei para ele. Ian andava para lá e para cá atrás de mim, fora do meu campo de visão, as botas pesadas estalando nos tacos de madeira do chão. Quando falei, ele estacou em algum ponto à minha esquerda.


“Quer desistir?” “Não, mas não tem claridade nenhuma aqui. Não tem a menor chance de dar certo e isso vai ficar na minha pele para o resto da vida.” “Arrisque-se. Vai se sentir livre quando terminar”, a autoconfiança em sua voz me constrangeu. “Não acho que sair daqui com um borrão indiscernível sobre as costelas é uma prova inteligente de liberdade”, soltei uma risada nervosa. “Fique quieta.” Eu balancei a cabeça e sorri para mim mesma. Que loucura. E o pior é que no fundo eu confiava totalmente em Ian. Havia um interruptor de luz ao lado da porta, mas ele me tatuaria no escuro, e eu queria acreditar que daria errado, mas não conseguia. “Isso é uma espécie de teste de desistência?”, porque só estava me deixando com mais vontade ainda. O toque de Ian em meu ombro me pegou desprevenida. Ele desceu o indicador pela alça de renda do meu sutiã até encontrar o fecho. Engoli em seco, mas ele retirou a mão e disse: “Isso também.” Puxei o ar com tanta força que soou como um suspiro abafado. Tirei o sutiã e cobri os seios com as duas mãos, ajeitando a postura a seguir. Por um momento passou pela minha cabeça que Ian Lycan tirava proveito da situação, mas não me senti ofendida. Na verdade, a constatação fez meu coração perder o ritmo. Ian acomodou-se atrás de mim. Sua presença era sufocante; embora a sala não fosse pequena, era como se ele estivesse me comprimindo, era difícil respirar. Ele começou a limpar minha pele. O algodão gelado anestesiou o


local. Escutei o zumbido agudo da agulha sendo ligada e apertei os olhos com força. A mão livre de Ian pousou na curva da minha cintura, o polegar roçou a parte inferior das minhas costas. O contato quente me deixou momentaneamente em transe. “Está tudo bem?” “Sim.” “Vamos começar?” Deus, o timbre da voz dele... Eu assenti, sem lembrar que estávamos no escuro, mas, de todo modo, Ian viu, porque o que veio a seguir foi a ardência incômoda da agulha desenhando em minha pele. Não foi ruim. Foi... estimulante. Depois dos primeiros minutos, achei que na verdade o escuro tornasse tudo mais confortável. Enquanto a agulha me marcava para sempre, traçando os contornos do meu lobo, a outra mão de Ian tocava de leve minha pele, as vezes limpando a tinta com o algodão, as vezes acariciando a região sensível. Conforme o desenho foi se estendendo para cima, na direção do meu dorso, os dedos de Ian começaram a roçar a pele fina logo abaixo do meu seio, e a dor aguda dissolveu em meio às ondas quentes que me derretiam por dentro. Arrisquei olhar para trás algumas vezes, mas Ian estava absolutamente concentrado, totalmente alheio às sensações que seu toque causava em mim, os ombros tão duros e firmes que mal se moviam. Tudo aquilo estava me deixando excitada de um modo perverso e desconhecido. Agora eu entendia porque as pessoas se tatuavam, era um ritual de libertação, de afirmação. Eu me sentia tão diferente da Evelyn que o mundo conhecia, e mais próxima da Evelyn que só conseguia ser quando estava com Ian. “Está tudo bem?”, ele fez uma pausa e afagou minha nuca. Sua voz tinha um timbre rouco e profundo.


“Não quero nem ver”, balancei a cabeça, “Se isso ficar bom, você não é humano.” Ian não respondeu. Muitos minutos depois, ele desligou as agulhas, levantou e andou até a porta. A luz foi acesa, machucando meus olhos. Ele apontou para um espelho num canto. Fiquei de pé, mantendo as mãos cruzadas sobre os seios, e andei até ver meu reflexo por inteiro. Virei de lado. “Santo Deus.” Não era um lobo branco, era totalmente colorido, preenchido por um céu de galáxias pink, anil, púrpura e violeta, pontilhado de estralas. Contra a minha pele muito alva, as cores saltavam, vibrantes, mágicas. Não era um lobo branco, mas era o meu lobo, o olhar era igual, um pouco faminto, um pouco cruel, um pouco doce. O mesmo formato triangular da cabeça e a pelagem felpuda do pescoço. Ian não apenas o fizera no escuro e com perfeição, como soubera exatamente captar a essência selvagem e intocável do animal que me fascinava desde criança. Passaram-se vários minutos até que eu me desse conta de que estava de boca aberta. “Como foi que você... Conseguiu?”, quando não obtive resposta, procurei Ian através do reflexo no espelho. Ele estava recostado novamente na bancada, esfregando o rosto com uma mão sem parar, os olhos úmidos. “Você...”, a voz dele saiu trêmula, e ele teve de pigarrear para limpá-la, “Você gostou?” Eu a olhei de novo. Nunca ia cansar de olhar para ela. É o tipo de coisa que, apesar de nunca ter estado ali, fazia com que eu inteira existisse só para têla. “É a coisa mais linda que já vi”, uma obra de arte em minha pele. Uma obra


de arte de Ian em minha pele. “Ficou linda.” Eu me encolhi. Ficara tanto tempo seminua na frente dele que já estava me acostumando, mas a forma como ele avaliou minhas costas nuas foi explícita e emocionada. “Obrigada. Pode sair para eu me vestir?”, era um pedido idiota depois do significado do que acabara de acontecer, mas eu não estava pronta para me revelar tanto assim, especialmente entre quatro paredes não familiares. Ian protegeu a tatuagem, passou as recomendações e me deixou sozinha. Eu ainda fiquei admirando-a por mais algum tempo antes de me vestir e sair. Ian me aguardava recostado na porta e Chase atendia um cara no balcão. Ele ergueu os olhos arregalados para mim e me encarou como se eu e Ian tivéssemos acabado de transar em seu estúdio, e eu o detestei por isso. Por mais que me sentisse renovada de um modo que imaginei ser muito semelhante aos primeiros momentos após uma primeira vez, não gostava da ideia de que eu e Ian pudéssemos ter algo vulgar. “Ainda temos alguns minutos antes do seu turno”, Ian falou enquanto montávamos em sua RD350 e dava a partida. “Onde vamos agora?”, perguntei por sobre o ombro dele, abraçando-o por trás. “Para um lugar que combine com sua nova tatuagem”, havia humor em sua voz, mas soava como humor negro.


CAPÍTULO 20 ALEXIA O BLUE MOON ESTAVA agitado quando cheguei, pouco depois do meio-dia. Faltavam menos de duas horas para o estabelecimento abrir, e eu me esgueirei por entre os fornecedores que entravam e saiam com caixas de cerveja e engradados de refrigerante e água até o vestiário. Normalmente, chegava atrasada, mas hoje era o dia de organizar o estoque e as reposições e precisava fazer isso antes que o movimento da tarde começasse. Troquei minha blusa de botões comportada pelo vestido justo preto que havia trazido na bolsa e saltos. Retoquei a maquiagem e reforcei o gloss, substituí os brincos de pérola por algo maior e mais sexy, prendi os cabelos num coque desleixado e fui para o bar. Comecei separando as garrafas vazias de vodka sobre o balcão. Estava contando a coleção de Cirocs quando meu olhar foi atraído pela pessoa que acabava de entrar pela porta. Matt Lycan. Ele raramente aparecia no Blue Moon e quando o fazia era com os irmãos. Eu estava acostumada a lidar com Kyle e Ian. No começo foi difícil administrar o humor intratável de Kyle e o comportamento ambíguo de Ian, e Ethan talvez fosse um eremita, antipático e frio por opção, mas Matt... Ele era totalmente inacessível para mim ou para qualquer outra criatura deste mundo. E, pelo que eu sabia, não tinha nada a ver com uma escolha pessoal. Coração partido era o nome de sua doença, mais especificamente Claire Danniels. Eu a conhecera. Estudara na Yukon, era uma garota bonita, parecia meiga, discreta e romântica. Bom, ela teve sorte, porque Matt chegara na cidade e os dois tiveram uma espécie de atração fatal. Não tive a menor chance. Os irmãos Lycan eram assim, eu havia aprendido: não ligam para garotas, até


que um belo dia, talvez pelo ângulo da luz ou pelo alinhamento dos planetas, uma delas cruza o caminho deles e a mágica acontece. Então, o mundo todo deixa de existir. Eu achava doentio e irritante, até me dar conta de que no fundo era só a maneira que meu coração renegado havia encontrado de negar a existência de Matt Lycan. Eu não desejava o mal deles, mas no fundo esperava pela chance e pelo dia em que eles terminariam e Matt ficaria livre. Só que, quando isso aconteceu, Matt não ficou livre. Ele praticamente morreu. Ninguém sabia ao certo o que tinha mesmo acontecido. Eles eram como astros de cinema, daqueles que você vê em fotos clandestinas de paparazzi, flagrados em momentos de amor e alegria obscena; do mesmo modo que Lianne e Kyle, Claire e Matt andavam por aí ostentando a beleza melancólica da paixão incompreendida. Até que, da noite para o dia, Claire Danniels sumiu, as correspondências começaram a acumular debaixo da porta do apartamento que ela dividia com uma amiga, Julie Parker. Julie evitava falar no assunto e respondia às perguntas invasivas dos vizinhos dizendo que Claire se mudara para Toronto. Ponto final. Claire Danniels se foi, e nesse mesmo inverno, como em todos os outros, os irmãos Lycan foram embora. Quando retornaram, no verão seguinte, Matt parecia mais velho e mais distante. Raramente era visto nas ruas. Só saía de madrugada. Erin Brooks, o caixa que atendia na lojinha de conveniência do posto da cidade, disse ter visto Matt Lycan seis vezes naquele verão; em todas elas, Matt havia mandado descarregar em sua caminhonete todo o estoque de Old Parr do estabelecimento. Eu sabia que era cruel pensar assim, mas a solidão e a reclusão o tornavam mais irresistível, uma espécie de lenda, um herói de guerra que havia impossivelmente sobrevivido. O que não fazia a menor diferença. Ele não interagia mais com as pessoas, muito menos comigo.


Por isso, quando ele chegou no Blue Moon naquela noite, sozinho, e veio em direção ao meu balcão, fiquei paralisada. Sobretudo quando ele puxou um banco, acomodou-se e ergueu os olhos azuis prata para mim. “Oi, Alex. Manda uma Corona.” Eu me limitei a sorrir. Não tinha a menor ideia do que dizer, ainda estava embasbacada por aquela aparição magnífica. Ele usava uma camisa branca por baixo da jaqueta de couro escura, e o cabelo loiro molhado e penteado para trás em conjunto com o par de olhos tristes e baixos davam a ele um ar de James Dean magoado. A barba curta e homogênea desenhava o contorno de seu rosto desde as costeletas, e eu adorava o tom dourado dela, quase castanho, e do modo como brilhava sob a luz, acetinada. Destampei a Corona e a coloquei diante dele. Matt respondeu com um aceno de cabeça. Parecia pior do que o normal. “Problemas no paraíso?” “Só esperando o tempo passar”, o modo como falou deu a entender que estava mais do que entediado. Estava desesperado. “Desculpa, mas eu tenho que perguntar. Você nunca aparece aqui.” “Isso não foi uma pergunta”, ele balançou a cabeça, virou um gole da cerveja e me encarou. Deus, era lindo. "Ei. Seus olhos são bonitos." A expressão de Matt ficou neutra, ele piscou devagar para mim, quase com preguiça. De repente, entendi que Matt teria sido um bom garoto, o bom homem, o mais gentil e doce dos Lycan. Aquilo ainda estava guardado nele, resistindo à escuridão que ameaçava tragar sua alma. De repente, separar garrafas vazias se tornou o melhor serviço do mundo. Voltei a elas, deixando que Matt desfrutasse de sua Corona gelada. Depois de um tempo, mais duas pessoas entraram pelo salão. Reconheci Ian, e ao lado dele vinha uma garota bonita, de pele muito clara e cabelos da cor do


pelo de uma raposa. Eles pararam ao lado de Matt, que ergueu o olhar, pouco interessado. “Os lobos saem à noite”, Ian provocou o irmão com um tapinha no ombro dele. “Senha errada”, Matt respondeu, sem emoção, “A senha certa é vá se danar. E aí, Evy.” “Oi”, ela deu um aceno tímido para ele e um sorriso franco e simples para mim. Gostei dela de cara. O modo como seus olhos verdes brilhavam, muito vivos e atentos, pareciam desprovidos de qualquer malícia. Mesmo assim, parecia esperta, do tipo que tem respostas prontas para qualquer pergunta. Ela tinha um magnetismo raro, era o tipo de pessoa que a gente gosta de estar perto e o que quer que tivesse com Ian Lycan, me deixou feliz. Talvez ela fosse a garota certa, a chance improvável que ele teria de ser feliz. “Acho que ainda não agradeci pelo que fez por Liam”, Matt forçou um sorriso, e meu coração deu uma pontada de aflição. “Ele é um bom garoto”, ela disse simplesmente, de forma humilde “Fico feliz por estar ajudando-o, não precisa agradecer.” “Que seja”, murmurou Matt, indiferente. Ian molhou os lábios enquanto olhava para o irmão, reprovando-o, então puxou um banco e acenou para a garota ao seu lado fazer o mesmo. “Alex, esta é Evelyn. Evelyn, Alex, nossa bartender.” Piscamos uma para outra, como confidentes. “O que vai beber?”, perguntei para Evelyn, no que ela ficou de boca aberta avaliando as garrafas coloridas atrás de mim. Uma novata. Dava para ver que não dormia sem escovar os dentes e consultava sua tabela menstrual regularmente.


“Absinto.” Ian tossiu. Abri mais os olhos para ela. “Você sabe o que é isso, não sabe?”, ele perguntou num sussurro, inclinando-se para ela. “É aquilo ali”, Evelyn apontou para as garrafas verdes atrás de mim. E acrescentou: “Com gin, sem gelo.” “E você, Ian?”, eu ainda a encarava, tentando encaixá-la num novo conceito. “Não absinto”, nós duas rimos, “Tudo bem então, fico com uma Corona.” Eu servi Ian e comecei a preparar a bebida dela enquanto os dois conversavam. É, é isso aí, eu estava certa: ela era a garota. Ian jamais teria olhado para uma garota qualquer como olhava para ela, embora ela mal se desse conta. Era um tanto desligada, e dava para ver o quanto isso o fascinava. “É legal aqui”, ela olhou ao redor, “Mas parece um pouco...” “Ilícito”, foi Matt quem completou, ressurgindo do limbo. “Eu ia dizer impróprio”, Evelyn sorriu, “Mas ilícito serve.” “Na verdade, não vamos ficar muito tempo”, Ian falou em tom de desculpas, passando o polegar pela camada de gelo sobre sua Corona, “É que você ainda não sabe, mas aquela cozinha ali serve os melhores nachos de Whitehorse.” “Que horas abrem?” “Agora”, apontou Ian triunfante. Quando servi o drink dela numa taça de Martini, ele me lançou um olhar rápido. O horário de funcionamento da cozinha só começava às duas, mas desde que os donos do bar estavam ali, ela podia abrir a hora que quisessem. Certamente sob muitos protestos de Jay, o cozinheiro, e Miranda, a ajudante.


“Quem vai no Festival de Verão amanhã?”, perguntei depressa numa tentativa de poupar Jay e Miranda de vestirem os aventais duas horas antes. “Rose reservou uma mesa para nós”, Evelyn se voltou esperançosa para Ian, “Posso tentar arrumar mais uma com ela para vocês, o que acham?” “Acho que não”, a pele de Ian Lycan empalideceu a ponto de ressaltar o suave arroxeado das olheiras. Ele e Matt trocaram um olhar de pânico velado. “Reunião de família”, Matt limpou a garganta. Evelyn assentiu, provavelmente arrependida por ter feito o convite. “Você não é daqui, né?”, puxei o assunto para um tema mais leve. “Sou de Nova Iorque. Cheguei faz poucos meses.” “Você vai adorar o Festival, é muito animado, a cidade inteira sai para as ruas, tem fogos, música e a comida é deliciosa!”, Evelyn sorriu, educada, mas Ian e Matt pareciam prestes a vomitar, “É uma espécie de comemoração. Mas é claro, para quem prefere outra opção, estaremos abertos até às quatro da manhã”, acrescentei ressentida. “Não vem com essa, Alex”, Ian disse, “Não vou te dar folga amanhã. Vai ser nosso dia mais cheio da semana.” Fiz uma cara feia para ele. “Isso aqui é seu?”, Evelyn empurrou o canudinho rosa de sua bebida para longe, absolutamente surpresa. Foi Matt quem respondeu, com uma risada de hiena sórdida: “Nosso. Herança de família.” “É uma herança...”


“Ilícita.” “Eu ia dizer... diferente.” “É claro que ia”, Matt virou a cara. “Vão querer os nachos afinal?”, perguntei. Ian assentiu e eu fui até a cozinha fazer o pedido, recebendo xingamentos de Jay e Miranda em troca. Quando voltei, os dois estavam tendo uma conversa descontraída sobre tatuagens, da qual Matt não participava. Ele assistia inexpressivo à transmissão do campeonato de hóquei pela televisão. Reparei que sua primeira Corona chegava ao fim, mas ele não pareceu gostar muito dela, então destampei uma Brooklyn e a arrastei sobre o balcão, atraindo sua atenção. “Muito intuitiva”, ele murmurou num tom monótono, mas aceitou minha oferta. “A gente precisa aprender a ler expressões faciais quando o seu trabalho exige que você compreenda o que caras estão pedindo na linguagem universal da embriaguez.” “Estou imaginando que cara devo ter para inspirar Brooklyns.” Eu tentei soar o mais doce possível ao responder: “Olhando pra você agora, eu diria que sua cara é de quem está contando os minutos para tudo acabar.” Matt me encarou. Durante os segundos que transcorreram, meu coração palpitou tão depressa que o tempo parecia estar acelerando ao meu redor. A sensação que tive foi a de que estava tocando numa parte muito profunda e vulnerável dele, e ele estava totalmente consciente disso, porque algo mudou em seu olhar gélido. De repente, Matt era ameaçador. "Estou só brincando", ergui as mãos na defensiva.


Ele bebeu um gole, ainda me encarando, e disse, sem a menor animosidade: “Então deve ser uma cara boa”, ergueu a garrafa em deferência antes de pousá-la de volta no balcão. Então a agarrou de volta e a liquidou em três longos goles, soltando em seguida um ruído de satisfação que me deixou nas nuvens. Suas sobrancelhas se ergueram e depois franziram, os olhos se estreitaram ao deslizar pelo rótulo da embalagem. "E agora, estou fazendo cara de que?" Eu sorri. Fui até a geladeira, agarrei a última North Coast no fundo do freezer e a servi para ele, mordendo a boca enquanto o observava experimentar a bebida com toda calma. Em seguida, fui agraciada com um meio sorriso hesitante e um tanto surpreso. Matt tirou a carteira do bolso e deslizou vinte dólares para mim. Eu olhei para a mão dele sobre as notas, as unhas limpas e bem cortadas, a palma grande e forte. Mãos solitárias que não tocavam uma pele quente há muito tempo. “Não posso aceitar”, falei. Ele levantou os olhos para mim, a expressão séria. “Porque não?” “Porque você não é meu cliente, Matt”, respondi no mesmo tom, colocando minha mão sobre a dele e recuando o dinheiro em sua direção. O contato o deixou imediatamente tenso, “Além do mais, ainda não comecei meu expediente.” “Mas está me servindo.” “Porque quero.” Os olhos dele estavam cravados na minha mão, que eu não havia retirado.


Eu sabia sobre a regra dos Lycan, eles detestavam ser tocados, era o tipo de coisa que qualquer um com pelo menos vinte e quatro horas de convivência saca sobre eles, mas isso não me abalou. Era ridículo. Eu já havia esperado tempo demais para agir. Além do mais, a temperatura dele contra a minha pele era boa o bastante para valer qualquer coisa. Ele engoliu em seco e sua respiração dobrou de intensidade. O maxilar trincou. Achei que ia arrancar minha mão fora, mas em vez disso ele puxou a dele delicadamente debaixo da minha, levando o dinheiro junto. Eu respirei fundo e me abaixei para pegar as garrafas de tequila vazias. Alinhei todas na extremidade do balcão e um funcionário passou recolhendo-as, anotando na prancheta as quantidades que precisavam de reposição. “Você trabalha muito”, Matt falou de repente quando voltamos a ficar sozinhos novamente. Ian e Evelyn, imersos num mundo particular, não faziam mais parte do meu cenário. “Como você sabe?”, ergui uma sobrancelha em desafio, mas estava sorrindo. Já havia tristeza demais do outro lado do balcão, eu queria ser a parte tranquila e graciosa da conversa, “Quase nunca vem aqui. Na verdade, fiquei surpresa que soubesse meu nome.” “Alexia Carlton. Estudante. Vinte e um anos. Está tentando juntar dinheiro para comprar um apartamento.” “Um carro”, corrigi. Matt esboçou um sorriso um tanto arrogante. O segundo da noite. “Eu sei quem você é. Só nunca tinha olhado de perto.” “Fique à vontade”, tirei a franja dos olhos com um aceno de cabeça, espalmei as mãos no balcão e deixei que os olhos de Matt viajassem para onde quisessem. Eles hesitaram no meu rosto, depois desceram para a


minha boca, mas se desviaram para a cerveja quando o clima ficou óbvio demais. Tentei parecer ocupada, e funcionou. A sorte virara, Matt Lycan estava olhando para mim da forma que eu sempre desejei que olhasse. Mas durou pouco. Do nada, ele esvaziou a North Coast, acenou leviano, levantou e se afastou para os lados da sinuca. Malditos Lycan escorregadios. Muitos minutos depois, mais duas Coronas para Ian e uma água com gás para Evelyn, eles enfim foram embora. Eu já havia reposto todas as bebidas, limpado o balcão e organizado os copos, e faltava menos de vinte minutos para o Blue Moon abrir. Quando a casa enfim começou a encher e as mesas de sinuca foram ocultadas por vultos e fumaça de cigarro, a dúvida nublou minha mente. Matt não apareceu mais para pedir bebidas pelo resto da tarde. Eu tinha me saído bem? Ou arruinara a única chance que havia tido com ele em todos esses anos? EVELYN Depois do turno no Baked, Ian passou para me levar em casa. Andamos pela lateral do terreno por entre as árvores frondosas. Ao meu lado, acompanhava o ritmo dos meus passos, e não escutávamos nenhum barulho além do riacho que corria sobre o cascalho em algum lugar ali perto. Respirei o ar puro e gelado da noite. Quando o soltei, uma nuvem branca de fumaça se formou diante do meu rosto. “Achei que nunca ia me acostumar com esse frio”, comentei, “Os invernos em Nova Iorque atingem temperaturas bem baixas, mas aqui... É diferente.


É tão frio que parece que vai congelar o incongelável.” “Você se acostuma.” E era verdade. Eu chegara em Whitehorse totalmente despreparada para as temperaturas glaciais daquele lugar, mas aos poucos meu corpo aprendia a suportar. Mesmo no verão as noites eram frias, mas eu não usava mais luvas e o ar gelado já era agradável em minhas bochechas, um sopro fresco e delicado. “Bem, vocês não se acostumaram ainda. Vão embora quando chega o inverno. Para onde vão?” Ian enfiou as mãos nos bolsos e achei ter visto sua mandíbula contrair de tensão. “Pergunta proibida?” “Sim.” “Vocês são agentes secretos ou coisa do tipo?”, nós rimos, “Só espero que seja algo bom. Quer dizer, não quero estar saindo com um traficante de órgãos. Digo, é uma coisa boa, não é? O que vocês fazem quando vão embora, ou porque vão embora, não é nada que possa terminar em sangue, certo?” Ian me olhou com benevolência. “Você sabe que não.” “Sim, eu sei”, afastei para longe um vaga-lume que flutuava ao redor da minha cabeça. Ele deu uma volta graciosa no ar e orbitou em torno de mim outra vez. Em poucos segundos, eu estava andando com luzes piscando à minha volta como uma árvore de natal, “Oh, droga. Desculpe por isso.” Desisti de espantá-los, eram muitos. E dançavam lentamente perto de mim, como que embalados por uma canção de ninar.


“Vamos ter que nos conformar com as companhias essa noite”, dei um sorriso amarelo para Ian e encolhi os ombros. Ele esticou a mão e tocou na medalha que havia me dado, agora presa na corrente em meu pescoço. “Pode pegar de volta, agora que sei que não vai me dar um perdido.” Comecei a retirá-la, mas Ian segurou minha mão. “Fique com ela.” “Ou talvez eu esteja entendendo tudo errado”, soou como uma pergunta. Só porque tínhamos passado o dia juntos e as coisas pareciam estar se encaixando não significava que eu tinha algo verdadeiro com Ian. Até porque a barreira ainda estava ali, bloqueando seu olhar o tempo todo, colocando limites entre nós. “Pare com isso”, ele murmurou, agora mais perto. As palavras roçaram suavemente o meu rosto e seu polegar desenhou círculos lentos em meu queixo, “Vamos devagar, ok? Estou fazendo tudo que posso, só me dê mais tempo, por favor.” “Está bem.” “E você não entendeu nada errado.” “Que bom.” A casa estava escura e quente quando entrei. Tirei o casaco e as botas e subi para dar um beijo em Jenna. Ela estava lendo um livro, meio sonolenta e encolhida em sua colcha de cetim. Tomei um banho, sequei os cabelos e fui para o quarto enrolada na toalha. Aumentei o aquecedor, me desfiz da toalha para vestir uma calcinha e então meu olhar bateu no meu reflexo no espelho atrás da porta. Meus dedos percorreram o desenho recém feito em minha pele. Os poros se eriçaram pelo frio, a região sensível contraiu como se a tatuagem, assim como o lobo, recuasse ao meu toque. Que engraçado. Durante todos esses anos em Nova Iorque eu havia sentido


falta dele, talvez fosse como a sensação de ter um gêmeo distante. Mas agora ela havia desaparecido. Não era como se ele tivesse morrido, eu sabia que estava vivo. Era mais como se estivesse mais perto do que nunca. Como sentir saudades sem saber do quê. Fui até a janela e olhei para a paisagem. O lago de águas paradas, as colinas com os picos cobertos de neve e a lua, quase cheia, coroando o firmamento estrelado. Meus olhos vagaram à procura de uma pelagem branca por entre as árvores até arderem. "Onde você está agora?", meu hálito quente embaçou o vidro da janela. Sobre a camada turva, desenhei o formato de uma pata. Depois vesti o pijama e deslizei para baixo das cobertas.


CAPÍTULO 21 EVELYN ACHAVA QUE WHITEHORSE ERA pequena demais, mas em algum momento durante a noite ela dobrara de tamanho. Apenas isso explicava a capacidade que a cidade adquirira de abrigar tanta gente. Derek teve que rodar por mais de vinte minutos até achar uma vaga, e era longe da aglomeração da praça central pelo menos umas três quadras. Luzes coloridas enfeitavam a noite, penduradas por fios de barbantes presos aos postes. As casas de madeira dos moradores locais tinham sido decoradas com lanternas de papel e algumas varandas abrigavam artesanato. Pendurados nos telhados, uma variedade de filtros-de-sonho balançava suavemente à brisa, as penas mescladas dedilhando o ar sobre nossas cabeças. As conversas altas se misturavam à nossa volta e a noite tinha cheiro de churrasco, cerveja e couro curtido. A música era diferente de tudo que eu já ouvira, completamente distinta das batidas masterizadas da atualidade. Na verdade, a melodia soava num ritmo leve, mas ritmado, tambores, chocalhos, flautas e vozes ululantes se combinavam numa espécie de mantra, e o efeito era tão inebriante que afetou meus sentidos. Quando começamos a adentrar a multidão, Derek pegou minha mão e me puxou para frente, e eu fechei os olhos apenas por um momento, levada pelas notas ondulantes do coral que parecia imitar os movimentos de uma rajada de vento sobre folhas secas de outono. Foi como voltar ao passado, quando a magia e o místico habitavam juntos as crenças dos nossos ancestrais, e na escuridão da minha mente Ian surgiu ao meu lado, a palma quente que eu conhecia me puxando para si, roçando os lábios em meu ouvido. Abri os olhos e a realidade voltou sobre mim como se alguém tivesse aumentado seu volume ao máximo.


“Evy, Derek!”, alguém estava nos chamando. Vi o braço erguido de Megan acenando mais adiante, numa mesa comprida quase totalmente ocupada. Abrimos espaço pelos corpos para chegar até ela. À medida que nos aproximávamos do centro da praça a música ficava mais alta e mais viva, até que pude enxergar ao redor do grande chafariz um grupo de músicos vestidos como índios norte-americanos manejando instrumentos, e um pequeno coral de homens e mulheres sentados ao redor, cantando como se conversassem entre si. Embora eu não fizesse ideia de que língua estavam falando, a sonoridade era doce e forte ao mesmo tempo. No momento em que nos unimos à Megan, Rose e os outros amigos de Derek, as mulheres iniciaram um canto quase triste, suas vozes macias abafadas pela galhofa alta da multidão. “O que elas estão dizendo?”, perguntei aleatoriamente para qualquer um na mesa. “O fim será como o começo, e isso é belo.” Procurei por quem havia respondido e vi Lianne sorrindo timidamente para mim do outro lado da mesa, ao lado da figura resplandecente de Rose; as ondas loiras, brilhantes e voluptuosas de minha amiga ofuscavam toda a atenção que Lianne poderia atrair para si. Enrolada num cachecol de seda leve, a namorada de Kyle parecia deslocada ali, e eu compartilhei com ela um sorriso cúmplice. Lembrei do ouroborus na medalha de Ian e meus dedos foram imediatamente para ela. O fim será como o começo. Um ciclo. E sim, belo. Ian podia não gostar do símbolo, mas ele sempre me fascinaria. “Também não sabe como veio parar aqui?”, perguntei para Lianne. “Cidade pequena”, ela deu de ombros e olhou rapidamente na direção de alguns amigos de Derek que eu lembrava de já ter visto no campus da


Yukon. “Sabe falar a língua deles?”, me inclinei mais para frente para tentar conversar com ela em meio à tagarelice animada dos outros. “Algumas coisas, mas eles não são realmente índios, estão só se apresentando. É um grupo local.” “As músicas são muito bonitas.” Lianne me deu um sorriso de lábios apertados e encolheu os ombros. De perto, sua pele era levemente aveludada, os cabelos longos e escuros faziam ondas suaves que chegavam até a cintura e ela os usava presos para trás e meio cheios em cima numa versão usável do penteado de Amy Winehouse. Os olhos puxados e o formato quadrado do rosto me fizeram imaginar se sua descendência era coreana. Derek, que havia propositalmente me encurralado entre um de seus amigos ao sentar na beirada do banco, bloqueando minha rota de fuga, parecia sofrer de uma necessidade irrefreável de se inclinar sobre mim, a ponto de seus ombros começarem a me sufocar. Quando a situação se tornou muito desconfortável, pedi licença e saí. A essa altura a música havia se tornado mais agitada, e algumas crianças dançavam alegremente ao redor do chafariz ligado. Os turistas assistiam a tudo e se destacavam pelos tênis de alpinista e caretas sem graça, como uma estudante que chega no baile de fim de ano sem ter ensaiado a coreografia da turma. Havia algo naquele lugar. De uma forma obscura aquela música, a energia que vibrava pela noite, as auroras boreais, os lobos – era difícil admitir, mas aos poucos Whitehorse me puxava para uma espécie de sonho; não parecia um lugar real. Era como estar num vórtice de energias, como quando visitei Stonehenge pela primeira vez e senti os pelos dos meus braços se


arrepiarem. O frio ali era glacial, o silêncio tinha voz. A natureza que cercava a cidade pulsava quieta, como se velasse segredos antigos. Às vezes eu me perguntava se estava levando Whitehorse muito a sério. Se não andava criando coisas que não existiam. Mas era cada vez mais difícil ignorar a vibração. Mais distante da multidão, encontrei uma pequena loja de souvenirs aberta. Ao lado da porta, num letreiro neon, havia uma placa informando sobre uma exposição de artefatos antigos da região. Um grupo de adolescentes bebia na escada, fumando e fazendo a fumaça espiralar para cima entre uma risada e outra. Passei pelas prateleiras de artesanato e acabei escolhendo um brinco de pena comprida cujas tonalidades se mesclavam discretamente ao meu cabelo e um filtro de sonhos para pendurar no retrovisor do Corolla de Jenna. Paguei tudo e ganhei de brinde uma entrada para a exposição que acontecia nos fundos da loja. O espaço era pequeno. Corredores escuros e estreitos haviam sido improvisados, as paredes cobertas por veludo negro exibiam desenhos muito antigos de índios da região. Índios algonquinos de pele muito vermelha, olhos puxados e escuros como uvas passas e maxilares angulosos. Perdi o fôlego olhando para cada imagem, chocada com a beleza realística de suas roupas adornadas em vermelho e azul turquesa; penachos multicoloridos cobriam a cabeça e desciam pelas costas até os tornozelos e os cabelos compridos quase sempre apareciam presos em tranças ou amarrados com medalhas. Alguns usavam um adereço curioso atrás das orelhas, um tipo de acessório que lembrava a cauda listrada de um guaxinim. Quando entrei nos corredores com fotografias, por uma razão que não compreendi meu coração começou a acelerar.


Passei a mão pelas plaquinhas abaixo de cada foto, fascinada com as legendas. Datavam do século XIX e eram em preto e branco. Numa delas, alguns índios flagrados em meio a uma cavalgada às margens do lago olhavam para a câmera, parecendo desconfiados e rabugentos, os corpos atarracados embrulhados em camadas de couro e pele. Fora tirada nos arredores de Whitehorse, quando a cidade nem ao menos tinha nome. De volta às ruas, vaguei pelas barracas de comida, experimentando aqui e ali algo diferente. Queria que Ian estivesse aqui, Derek e seus amigos barulhentos não tinham nada a ver comigo, embora mamãe provavelmente dissesse o contrário ao vê-los em suas polos caras e carros esportivos do ano. Rose e Megan eram legais, mas eu teria gostado mais de conversar com Lianne. Parei diante de uma casinha cuja pintura desbotada da porta parecia ter sofrido uma tentativa infeliz de envernizamento. Na placa acima dela lia-se em letras de circo: LADY BLANCA ARTIGOS MÍSTICOS O mais curioso – e o que me levou a entrar – era o horário de funcionamento. Das 9 às 22, 28 dias por ano Estamos abertos hoje! Eu jamais teria imaginado o que aquela portinha carcomida escondia. Atrás dela havia uma loja ampla, um tanto nebulosa, preenchida por labirintos de artefatos de todos os tipos, desde baús de couro, máscaras feitas à mão e


sinos de cristal até roupas em estilo cigano. Eu rodei muito tempo pela loja sem ver nem sinal de um vendedor ou da tal Lady Blanca, mas não me incomodei. Estava fascinada. Peguei uma bola de cristal com um lobo branco envolto em neve de isopor e separei – tinha que levar. Os postais com fotos antigas da região também foram parar na cesta. As roupas ciganas eram lindas, mas separei para levar uma bata branca comprida de mangas largas, com aplicações de renda tão delicada que pareciam ter sido feitas por mãos de fadas. Para combinar com ela, sei lá porque diabos, peguei uma coroa de flores brancas. Chuvas de prata, na verdade, ou flores do campo, como a maioria conhece. Aquele lugar, assim como Whitehorse, acordava algo em mim que eu sempre soube que existia, mas deixara escondido sob camadas de incompreensão e preconceito. Estava tudo ali, os cheiros que eu gostava, amadeirados, misteriosos, exalando dos incensos e essências espalhados pela loja. Os livros com capas de couro, as mandalas feitas à mão, os anéis de pedras incomuns, inclusive uma que eu nunca vira antes, escura como a noite, com minúsculos brilhos no interior que lembravam as constelações. Eu estava tentando achar um do meu tamanho quando uma voz feminina, firme e sedutora soou atrás de mim. “São blue sandstones.” Eu me virei. Uma mulher de estatura mediana sorria para mim um sorriso de Monalisa. Sua pele era fresca e perolada como o interior de uma concha, os olhos tão grandes e claros como pedras da lua e cabelos loiros frisados da cor do champanhe. O nariz alongado e um tanto adunco teria dado errado em qualquer outro rosto que não fosse o dela. Ela me lembrou imediatamente de Liam. “Sou Lady Blanca. Tome, este aqui irá servir”, ela inclinou-se na minha direção para pegar um anel e seu perfume me atingiu. Dama-da-noite e lírios brancos. Era nova demais para ser uma lady, mas algo em sua postura


imponente fazia jus ao título. Ela me entregou o anel, eu o coloquei e sorri. “Sim, está perfeito. Essa pedra é linda, nunca vi nada tão incrível.” “Foi feita pelos monges na época em que os alquimistas tentavam criar a tal pedra filosofal”, os olhos dela brilharam ao percorrer meu rosto num reconhecimento que não compreendi e, se era possível, ficaram ainda mais claros, “Escolha interessante, pois é a nossa pedra.” Não entendi o que ela quis dizer com nossa pedra, mas não me preocupei, ainda estava sob o efeito da blue sandstone. Se eu a virasse na luz, as minúsculas partículas cintilantes em seu interior oscilavam, ganhando tons de roxo profundo, dourado e azul-noite. “Sua loja é maravilhosa”, confessei, passando a rondar a seção atrás do balcão de bijuterias, “Porque só 28 dias por ano?” “Fique à vontade”, ela limitou-se a sorrir, como se só estivesse disposta a comentar sobre a primeira parte do que eu havia dito. Havia uma espécie de calendário lunar pendurado na parede, mas era diferente dos que eu conhecia. Para começar, havia um monte de nomes de luas estranhas, como Lua de Sangue, Lua Azul e Lua de Flores, além das tradicionais. No pequeno quadradinho destinado à Lua Cheia havia um símbolo complexo e estranho, uma estrela de cinco pontas sobreposta numa cruz, ambas envoltas num círculo. Quatro meia luas cercavam o círculos, as pontas para fora como chifres. “O que é isso?” “Um mapa lunar antigo. Você deve levar um”, Lady Blanca vaticinou, sem a menor possibilidade de discussão. Ela pegou um atrás do balcão, o enrolou, passou uma liga em volta do canudo e me entregou. Eu o peguei, pois achei no mínimo exótico.


“O que significa o símbolo na lua cheia?” Lady Blanca respondeu sem olhar para o mapa: “O inesperado.” Eu assenti, incerta. Ela me observou enquanto eu andava pela loja, tocando e examinando tudo. Sentia uma curiosidade quase voraz, como se aquela loja fosse meu universo oculto, um portal para um sonho. “Hoje é lua cheia”, Lady Blanca murmurou. Eu me voltei. Achei que ainda me analisava, mas ela olhava pensativa pela janela, uma minúscula ruga de preocupação maculando sua tez impecável. Uma nesga de luar penetrava pelas vidraças, incidindo sobre ela, toldando-a com uma luminescência prateada angelical e mística acentuada pelo vestido branco e simples que ela usava, preso na cintura por um cinto de madrepérolas. Então, ela voltou-se para mim, cravando os olhos na medalha de Ian em meu pescoço, “Sabe o que é isso que está carregando?” Eu toquei a medalha de modo possesivo. “É de um amigo. Ele disse que só existem oito dessas no mundo, é uma espécie de talismã passado de geração em geração.” “Errado. É uma marca antiga e chama-se ouroboros. Tem uma infinidade de significados, mas esta aí é bem específica. Essas medalhas foram feitas no século quinze para assinalar os amaldiçoados, e marcadas atrás com esse símbolo para sinalizar o pecado recorrente e o mal, que sempre tentará o homem. Uma congregação anônima da igreja inventou essas inscrições, é um monte de baboseiras. E não existem apenas oito, e sim seiscentos e sessenta e seis delas. Você deve imaginar o porquê desse número”, ela quase pareceu sorrir com deboche, “Essas medalhas foram entregues para as matriarcas das famílias cujo membro havia sido acusado na inquisição. Eram sempre mulheres. Milhares delas foram queimadas, e milhares delas


fugiram para cá, o Novo Mundo”, Lady Blanca se aproximou de mim e puxou o cordão de prata de dentro da própria blusa, revelando uma medalha idêntica à de Ian, “Minha família foi agraciada, é claro. Se você não sabe o significado, é só uma bijouteria bonitinha. Olhando assim até parece especial. Mas não é.” Levei vários segundos digerindo a informação. Não achava que ela estava mentindo ou tentando me impressionar, havia mágoa e rancor o suficiente em seu olhar para legitimar suas palavras e, além disso, eu já estava levando muitos itens de sua loja, ela não precisava encenar nada para ter minha atenção. Gostava de pensar que aquela medalha era algo bom, que representava tudo que havia de puro e sincero que Ian partilhava comigo, então eu podia simplesmente pagar minhas coisas e ir embora, mas a versão dela da história me atraía. Porque era macabra. Porque era proibida e historicamente legitimada. Porque os olhos dela pareciam conectados diretamente aos meus. “Eu jogaria isso fora, se fosse você. Não tem porque usar isso, vai te trazer má sorte. Além do mais, não é sua para carregar. Ou é?” Eu a encarei, impassível. Não gostava de receber ordens, sobretudo de desconhecidos. Apesar de todo o fascínio e poder que ela emanava, não gostei que estivesse me mandando jogar fora algo que sequer lhe pertencia. Ela leu depressa em meu rosto a reprovação. “Ouça, menina, não tenho meias palavras”, Lady Blanca tornou, dessa vez mais impaciente, “Eu percebi o que você era assim que entrou aqui, e você sabe o que eu sou da mesma forma. Então, pare de se enganar. Você sabe de tudo, de todos os segredos, sempre soube, só não consegue admitir. Você vê as engrenagens do mundo, não vê? Enxerga cada uma das camadas aqui”, ela apontou para a própria cabeça, desafiando-me com o olhar afiado, “Não é uma esquisitice, nem uma impressão. O seu mundo de aparências não te


permite acreditar, mas vai ter que fazer uma escolha cedo ou tarde”, ela desceu o olhar novamente até a medalha confortavelmente aninhada entre meus seios. Sua boca se franziu e sua expressão era contrariada. Soltou um muxoxo e abanou a mão ao se afastar, “E volte aqui mais vezes. Está totalmente perdida.” Ela desapareceu por uma portinhola antes que eu pudesse responder. O ar custou a sair de meus pulmões; de repente a lojinha ficou sufocante. Catei na bolsa o dinheiro para pagar as mercadorias que havia colocado na cesta – embora ela sequer tivesse requisitado o pagamento –, deixei em cima do balcão e saí apressada pela rua. Experimentava a horrível sensação de ter comido algo azedo e repulsivo. Meu peito apertava e eu sentia falta de ar, um peso enorme parecia fazer pressão em meus ombros. Sem me despedir dos outros, peguei um táxi até a casa de Jenna, apanhei as chaves do Corolla penduradas na cozinha, entrei no carro e arranquei. Eu precisava testar. Deus, fazia tanto, tanto tempo. Quando fora a última vez? Eu não conseguia lembrar, parecia que fora só um sonho borrado nas bordas. Dirigi afoita e sem destino. Só queria me afastar da cidade, do tumulto, procurar um lugar vazio e silencioso. Então o lugar perfeito pipocou em minha mente feito mágica: a fonte de Ian. Não apenas porque era abandonada, mas porque eu havia sentido a magia ali. A vibração. A escuridão da noite espreitava. Larguei o carro em frente ao portão empenado, saltei e atravessei o terreno deserto. De dia era muito mais agradável. Agora, sem luz nenhuma e com o cicio áspero dos insetos, era aterrorizante. A vibração, antes extasiante e prazerosa na presença de Ian e do calor do sol, tornara-se pesada e intumescida. Vagalumes se aglomeraram ao meu redor, e eu estapeei o ar com irritação. O arco de galhos que formava o pequeno corredor até a fonte pareceu maior,


iluminado apenas pelo foco luminescente do meu celular. E lá estava ela, uma imensa forma piramidal no meio da vegetação. “Meu Jesuszinho”, murmurei ao apontar o foco de luz para o chão, afastar as folhas secas e deitar, rezando para que nenhum bicho peçonhento grudasse em meu cabelo ou subisse pelo meu rosto. Não podia pensar nessas bobagens, tinha que me concentrar. Enxergar as engrenagens do mundo. As camadas. Anos atrás, eu havia inadvertidamente subido até a cobertura do meu prédio em Manhattan. Nada além de uma aventura ilícita com Noah que, para variar, ficou me passando sermão enquanto eu subia os degraus da escada de incêndio até os geradores. Para uma garota de doze anos, fazer qualquer coisa protocolada como perigosa ou não permitida pela sociedade castradora é tão eletrizante quanto um voo em queda livre. Eu só queria ver as estrelas mais de perto, pois elas podiam ser mais brilhantes ou coloridas se eu conseguisse diminuir a distância até o céu. E elas eram mesmo mais brilhantes, e talvez minha memória tenha acrescentado com os anos um deslumbramento exagerado e, de fato, tornado-as coloridas, mas o que aconteceu ali foi maior. Eu vi. Não com os olhos, mas com um sentido que eu sequer sabia que tinha. A sensação de esmagamento, o peso do mundo, todas as dores e toda a tristeza, a infinitude da Existência, as milhares e milhares de camadas. Como se o mundo, as pessoas, os sons, as cores, fossem a ponta minúscula de um iceberg imensurável. Insuportavelmente belo. Foi só uma picada em minha alma, mas durou o bastante para me assustar. Ali, deitada ao lado da fonte de Ian, respirando aos arrancos, de olhos bem fechados, eu procurei pela picada. Minhas pálpebras estremeciam, sensíveis aos ruídos da noite, ao ronco da terra embaixo de mim, aos estalos das folhas sob o meu corpo. A vida pulsando ao meu redor, em


todos os lugares. Eu fazia parte disso. Como uma onda, começou sem que eu nem percebesse; primeiro era a natureza sibilando, e então meu coração encontrando o ritmo dela. Até que eu inteira pulsasse junto com a Vida. Era tão intenso como choques perpassando o meu corpo, fazia meus olhos girarem para trás, como se tentassem ver o meu avesso, dilatavam meus sentidos, esgarçando minha alma. Abri os olhos e agarrei a medalha em meu peito. A delicada conexão foi bruscamente interrompida. Pisquei para limpar meus olhos marejados. Lady Blanca podia ter dito um monte de besteiras, mas sobre uma única coisa ela estava certa. Eu estava mesmo perdida.


CAPÍTULO 22 O CAMINHO DA CIDADE até o cais levava cinco minutos. O cais se limitava a um ancoradouro para balsas e barcos de pequeno porte, um deck cercado por cordas grossas e um punhado de postes de iluminação dispersos. Havia um catamarã atracado no final do deck, mas depois de quinze minutos inteiros mofando no Corolla vermelho de Jenna, compreendi que tinha chegado cedo demais. Deixei o carro em ponto morto e apoiei o queixo no volante. Lá fora, algumas pessoas chegavam para atravessar o rio, mas fora isso não havia movimento algum. Talvez fosse um mau ponto de encontro, embora eu já não sentisse o menor medo de Ian. Era apenas o tipo de lugar que minha mãe reprovaria, tanto quanto reprovaria o próprio Ian. A simples visão dele parado na nossa asséptica sala em Nova Iorque, com mamãe chegando do escritório e o encontrando ali, era tão abominável que senti os espetinhos de cervo que havia comido no Festival revirar em meu estômago. Certamente Ian não combinava com os ovos Fabergé herdados por gerações que enfeitavam as cristaleiras de mamãe, nem com as almofadas de cetim da Barney’s, e muito menos com as festas beneficentes que ela frequentava. Ian era o pesadelo de uma mãe tão refinada quanto a minha, e isso me deprimia, porque significava que obviamente o que quer que acontecesse entre a gente, não ia durar muito. Um adensamento de nuvens pesadas encobriu a lua lá no alto, e a noite ficou, por um momento, tão escura como um apocalipse. Mas elas se afastaram depressa, e a lua cheia, imensa e branca como a barriga de uma grávida, refletiu no rio à minha frente, banhando o deck inteiro. A balsa de onze e meia partiu e o cais ficou absolutamente deserto. Toquei a pequena medalha no cordão. Meus dedos trêmulos sentiram a depressão dos símbolos místicos impressos no metal. Eu não queria acreditar naquela


mulher estranha, mas ela havia dito para mim o que minha parte mais obscura vinha o tempo todo tentando me convencer: eu sabia o que era. As abelhas, os pássaros em minha janela, os pressentimentos que eu tinha sempre que algo ruim ia acontecer, a ligação com meu lobo branco, a noção cada vez mais nítida de que eu via o que ninguém mais via... Nada disso era normal. Os irmãos Lycan não eram normais. E o que eu tinha com Ian definitivamente também não era. Qual era o problema? Quer dizer, considerando-se que havia um. Certo, ele não era o tipo de cara com quem eu sairia em Nova Iorque, ou até mesmo em Whitehorse, mas a distância que nos separava ia além disso. Como se ele fosse de outro mundo, ou... de outra espécie. O que era totalmente insano. E excitante. O pensamento me causou calafrios, ou talvez fosse apenas Whitehorse, afinal. Francamente, as pessoas só podiam estar de brincadeira com essa história de Festival de Verão. A temperatura caíra pelo menos quinze graus e fazia uma noite quase tão fria como as do Inverno tinham sido, e enquanto eu pensava em Ian, minha mãe e em espécies diferentes, a voz incorpórea no rádio anunciava uma chuva de granizo a qualquer momento. Seria perigoso esperar mais, se a chuva que as estações metrológicas prometiam caísse, Jenna ficaria enlouquecida por eu não estar em casa. Sufocando a frustração e a raiva, liguei o carro e manobrei para fora do cais. Ian não viria trabalhar hoje, não pegaria a balsa para chegar ao estúdio de tatuagem e eu estava fazendo papel de boba. Por estar ali. Por ter tentado ter algo normal com uma pessoa que jamais confiaria totalmente em mim. Por sequer pensar em submeter Ian ao meu mundo burguês, sufocante e


preconceituoso. Por sermos incompativelmente apaixonados. A medalhinha dele queimava em minha garganta, uma lembrança que agora eu preferia não carregar.


CAPÍTULO 23 IAN “ESTÁ NO MÁXIMO!”, ETHAN gritou para mim por cima do barulho ensurdecedor que enchia a casa. Kyle havia ligado o som no volume máximo para abafar os gritos de Liam, e agora o Tv On The Radio berrava a plenos pulmões em nossos ouvidos enquanto tentávamos desesperadamente aquecer a maldita casa. Os três aquecedores estavam trabalhando na potência máxima, mas Liam ainda ofegava e se contorcia com os tremores que percorriam seu corpo. “Droga, não é o bastante!”, esbravejei para Ethan, arrancando as cobertas da minha cama e arrastando-as para a sala. Quando as atirei sobre Liam, ele agarrou meu pulso. Seus olhos azuis e muito claros estavam do tamanho de bolas de tênis, apavorados. “Por favor, Ian, não quero que aconteça, não deixe acontecer, por favor, por favor...” “Shh, está tudo bem, são só tremores, acontece sempre no primeiro ano.” Ele fechou os olhos e gemeu, as convulsões sacudindo-o enquanto ele resistia com todas as forças. “Dói...” Engoli em seco. Não ia dar a ele a feliz notícia de que as dores eram a melhor parte do processo. Suas pupilas estavam retraídas, dois pontinhos minúsculos em meio à imensidão azul, e já dava para sentir o cheiro animal exalando da pele dele, meio azedo, familiar. O frio havia atingido os ossos de Liam, a lua cheia estava gigante e imponente lá no céu, agora era só questão de tempo até termos um lobo descontrolado e assassino no meio


da sala. Não podia ser verdade. Mas era. Só que não podia. Não era certo. Levantei a cabeça e encarei os outros três pares de olhos me fitando, e em todos eles encontrei a mesma compreensão irremediável. “Maldição!”, Kyle chutou uma cadeira da cozinha. Com toda aquela barulheira, nem deu para ouvir o estalo metálico que ela fez ao desabar no chão. Então ele andou em círculos ao redor da mesa com as mãos na cintura, olhou nos olhos de cada um de nós e murmurou, de modo que Liam, no sofá, não escutasse: “Essa porra está mesmo acontecendo.” “Uma ova”, Ethan produziu um barulho que soava como uma risada sufocada, “São as oscilações do primeiro ano, só isso.” “É mesmo, gênio? Então porque o calor não está funcionando?” “Vai funcionar.” “Não fode, Ethan!”, Kyle chutou outra cadeira. Se continuasse assim, terminaríamos a noite sem termos onde nos sentar, “Nós estamos na merda, e o que está acontecendo aqui não são oscilações de um novato, é uma maldita de uma transformação inversa!” “Isso não existe, cara”, a boca de Ethan tremeu ao dizer isso, quase uma súplica, e por um momento tive pena dele. Só por um ínfimo momento. “É uma lenda estúpida.” “Nós somos uma lenda. É assustador demais para você? Acostume-se, o inferno tem muitas camadas. E aquela ali”, Kyle apontou para Liam gemendo e se retorcendo no sofá, “Talvez nem seja a mais profunda.” “Então vai acreditar numa idiotice que Paul falou? Aquele babaca era um drogado escroto, mentiu sobre um monte de coisas para você, foi um


mentor inútil e egoísta e deixou todos nós sozinhos, sem nada!” Kyle molhou os lábios como que se preparando para cair na porrada com Ethan, mas mudou a postura, balançou a cabeça para afastar os maus instintos e se aproximou de Ethan, soletrando cada palavra diante de seu rosto lívido numa cadência de mantra: “Você se acha muito superior ao Paul, hã? Então vou lhe dizer uma coisa: meu mentor era um lobo. Assim como eu e você. E ele tentou de todas as formas viver com esse fardo, assim como eu e você estamos tentando. Como fazer isso, Ethan? Como ter uma alma animal em meio aos desejos humanos? Hã?” O maxilar de Ethan enrijeceu. A respiração dele dobrou de intensidade, mas ele nada respondeu. A ira pulsava em cada veia saltada de seu pescoço, mas ele jamais peitaria Kyle, a menos que quisesse sofrer sérias consequências. “Ficando louco”, Kyle cuspiu as palavras, rosnando ao soletrá-las, “Essa é a resposta certa. O que torna eu, você e Ian errados. Pontos fora da curva. Paul perdeu o juízo, e mesmo assim nos deixou uma casa, um bar e muitos dólares para sobrevivermos, mesmo sem saber que um bossal arrogante como você se juntaria ao bando para sugar minha paciência. Você está ouvindo?”, o sermão foi pontuado com um tapa na lateral da cabeça de Ethan, que rugiu baixo e engoliu a revolta; ela desceu devagar por sua garganta como um ouriço, ferindo seu orgulho próprio. “Está ouvindo?” “Estou”, todo o corpo de Ethan tremia, como se ele estivesse implodindo por dentro. “Tem outra coisa que ele deixou, Ethan. Especialmente para você. Me pergunte o que é.” “O que é?”


“Um sonoro vá se foder.” Com um último olhar ameaçador, Kyle lhe deu as costas. Liam soltou um berro de dor tão alto que o som distorceu, como se a potência tivesse arrebentado suas cordas vocais. “Temos que trancá-lo”, ouvi minha própria voz dizer, distante e abafada, e depois repeti, gritando por cima do ombro, “Temos que trancá-lo, Kyle! Agora!” Kyle passou as mãos pelo cabelo, respirando profundamente. “Matt não vai gostar disso.” “Por favor, por favor...”, Liam pedia sem parar num cicio delirante, “Façam parar!” Afastei-me de Liam para falar com Kyle. Emparelhei com ele, olhando-o na cara. “Já está acontecendo”, a urgência me fez rosnar, “Você sabe o que vai acontecer se não o trancarmos...” “Espere aí, não é para tanto. Ele vai nos reconhecer, Liam é diferente dos outros, ele é esperto, está muito ligado emocionalmente com...” “É o primeiro ano dele, Kyle! Mas que droga, não tem isso de estar ligado emocionalmente, as recaídas de um lobo recém transformado são sempre a mesma coisa!” “Por favor...”, a súplica de Liam se quebrou em meio a um soluço sufocado. Ethan apareceu no corredor. “Vamos tentar a banheira”, ele sugeriu. Seu rosto estava tão lívido quanto o de Kyle. Só Deus sabia como estava o meu. Nenhum de nós tinha passado


pela experiência de ter uma transformação inversa, mas qualquer um da nossa espécie sabia as implicações disso, “Liguei as torneiras na água quente.” “É, pode dar certo”, Kyle colocou apressadamente uma chaleira no fogão. “Que ideia genial!”, berrei para as costas dele, depois lancei um olhar irado para Ethan, “Vamos queimar Liam! Porque não o enfiamos logo dentro do forno?” Ethan ergueu as mãos na defensiva, aproximando-se de mim. “Ei, cara, é só uma experiência...” Afastei a mão dele com um rosnado, e o que quer que tenha passado pelo meu rosto foi convincente o bastante para fazê-lo recuar. Os choramingos de Liam engrolaram numa sequência de urros roucos. O último terminou num grito longo e sobrenatural que parecia jamais ter fim, alto o bastante para fazer com que as caixas de som se envergonhassem. “Merda!”, Kyle xingou. “Colocando a casa nessa temperatura”, Ethan começou, “estamos correndo riscos também, principalmente você, Ian. Quando foi que teve o último pico?” Tinha sido na noite passada, depois do sonho com Evelyn SaintClair, como sempre. Eu achava que fora suficientemente silencioso ao ir para baixo da ducha gelada durante a madrugada, mas aparentemente Ethan havia descoberto meu segredo. O que me deixou ainda mais puto. Agarrei-o pela gola da camisa e o puxei até nossos narizes quase encostarem. “Isso não é da sua conta”, sibilei num rugido baixo. Quando a música acabou e o silêncio evidenciou a agonia de Liam, apenas o


toque patético de um celular ficou vagando entre os segundos que se passaram até a música seguinte iniciar. Uma veia tremulou abaixo do olho direito de Ethan, e reconheci em seus olhos azul cobalto o instinto violento de nossa espécie pulsando como um coração vivo. Comigo, ele não teria restrições. “É da conta de todos nós”, ele respondeu num tom gélido, o prelúdio de uma bomba prestes a explodir. “Está insinuando que aquela garota me deixa vulnerável?” “Estou dizendo isso com todas as letras, idiota.” Os punhos dele começaram a se fechar em torno da minha camisa no exato segundo em que o braço de Kyle se meteu entre nós dois, e em seguida seu peitoral de aço empurrou o meu, enquanto seu ombro mantinha o rosto de Ethan a uma distância que meu cruzado não alcançaria. “Discutam o relacionamento depois”, ele nos empurrou para trás, lançando um olhar de advertência para cada um, algo que deixava claro que a coisa ia ficar bem feia se não colocássemos o rabinho entre as pernas, “Quero ajuda para segurar Liam na banheira”, e acrescentou sombriamente: “...caso não funcione.” Meu ódio estava longe de acabar ali. Eu queria arrancar a cabeça de Ethan com os dentes, e a vontade de cair numa boa briga aflorava em mim como uma urticária, mas os gritos cada vez menos humanos de Liam adiaram meus planos. A mágoa se misturava à fúria no rosto de Ethan, já enrijecido pelo estresse, e por uma razão meramente egoísta, tola e obscura, gostei disso. Foram precisos três pares de braços para arrancar Liam do sofá e levá-lo para a banheira, e não apenas porque o garoto se debatia como se levasse choques no traseiro, mas porque todo aquele calor estava mesmo


perturbando nossos sentidos. Minha cabeça girava e minhas têmporas latejavam, minha visão turvava e eu sentia a pressão em meu crânio forçando por trás dos meus olhos, me deixando zonzo, amolecendo minha carne como a de um peixe deixado para secar ao sol. Kyle piscava freneticamente, como se estivesse dopado, e Ethan engolia em seco sem parar, a pele branca adquirindo uma horrível coloração cinza doentia. O banheiro estava infernalmente quente, e ficou insuportável quando Kyle despejou na banheira já cheia pela metade mais três chaleiras com água fervente. Todos os vidros embaçaram imediatamente, e a condensação pegajosa escorreu como lágrimas pelos ladrilhos e pelo espelho sobre a pia. Tiramos as camisas em meio ao calor sufocante, mas não teria melhorado mesmo se arrancássemos a própria pele. Liam não mais implorava; grunhia sons indistintos, as unhas afundando-se em nossa pele como as de um gato quando o abaixamos na água, braços e pernas sacudindo-se e espalhando água para todos os lados. Mas foi em vão, como eu já sabia que seria. “É tarde demais!”, pisei em Ethan ao retroceder pelo chão molhado. Puxei o ombro de Kyle para trás, mas ele continuava lutando insanamente com o garoto, forçando-o para baixo, “Temos que sair! Ele já está se...” De repente, Liam estacou. Congelamos, mal ousando respirar, enquanto Tv On The Radio cantarolava alegremente na sala: Tenho uma maldição que não me deixa Que brilha quando o pôr-do-sol se move Quando a lua está redonda e cheia Preciso arrebentar aquela caixa, preciso estripar aquele peixe


O rosto de nosso irmão, distorcido pela dor, paralisou numa máscara esquisita de agonia, e por uma fração de segundo vimos o halo prateado que envolvia sua íris expandir e expandir até seu olhar toldar inteiro com um reflexo lunar. Uma voz saiu de sua boca, grave e baixa, impossivelmente lúcida: “Não sinta medo.” “Droga”, Kyle afastou-se num sobressalto, aparentemente alheio à voz, “Saiam! SAIAM!” Ele e Ethan tropeçaram em mim na pressa de sair pela porta, nossos corpos enormes espremendo-se pelo espaço ínfimo, mas me agarrei ao batente, mantendo-me contra o fluxo – eu tinha que ver com meus próprios olhos... Uma mão puxou meu braço, mas não soube se era de Kyle ou de Ethan. Alguém gritava alguma coisa, a música estava mais alta do que nunca, talvez porque agora nenhum urro saísse pela boca de Liam. A adrenalina e o medo colocaram tudo em perspectiva; o corpo de Liam se contorcendo na água em violentos espasmos convulsivos, uma mão apertando a lateral da banheira, os dedos curvados em garras tirando lascas da tintura, a água esparramando-se em todas as direções, criando uma cortina caótica que ocultava o vulto disforme. A mão desapareceu de vista. Rosnados e ganidos gelaram o meu sangue e finalmente meu instinto de sobrevivência levou a melhor; mas ainda vi pelo canto do olho, enquanto me voltava para o corredor, uma forma saltando pela banheira, e em seguida patas desajeitadas patinando no piso úmido. Por um tempo mais curto que uma batida de coração, o lobo virou a cabeça na minha direção. Os olhos leitosos se estreitaram, focando-se nos meus, estranhamente vazios; o focinho repuxou-se para cima, revelando uma coleção de dentes pontiagudos como estiletes. Aquele animal, todo o corpo grande e anoréxico era apenas morte, irracional e instintiva.


Não reconheci meu irmão, e o que quer que estivesse ali dentro, não reconheceu o Ian do lado de fora. Disparei pelo corredor, sentindo a enorme presença atrás de mim, o hálito quente bafejando meus calcanhares. Me atirei na primeira porta aberta que encontrei – o quarto de Liam e Matt. A porta estremeceu violentamente quando o animal se chocou contra ela, o corpo mais pesado agora que carregava uma força maligna. Poderíamos fugir num carro roubado Mas eu acho que não iríamos tão longe Antes que a transformação comece E que a sede de sangue se instale E que desejos sejam satisfeitos A maçaneta estremeceu embaixo da minha mão. Virei a chave depressa. Santo Cristo, era bizarro imaginar que um lobo conseguisse girar maçanetas, mas não se tratava de um lobo qualquer e sim de Liam. Que tipo de consciência aquele lobo tinha? Liam passara pouco tempo como humano, mas fora o bastante para que se adaptasse ao nosso estilo de vida. O que estaria passando na cabeça daquele animal agora? Ele tinha alguma consciência? Era mesmo verdade que não nos reconhecia? Se os mitos fossem todos verdadeiros, então aquele lobo tinha sede de sangue e nada mais era do que uma criatura hedionda e torturada, nem homem nem animal, mas uma mistura perigosamente letal dos dois. A verdadeira maldição. A respiração do lobo bufou pela fresta da porta, farejando, sua sombra se movia de um lado para o outro no corredor, e ele não parava de produzir aquele rosnado horripilante. Um uivo ululante ergueu-se de repente, uma


exclamação de frustração. Deslizei pela parede até sentar no chão, então vigiei a movimentação do animal. Ele estava inquieto e inconformado, e ao que tudo indicava, disposto a fazer vigília pelo resto da noite até que uma das portas se abrisse, ou até que a lua cheia finalmente fosse embora. Como eu não tinha mesmo muita coisa para fazer até de manhã, peguei o celular no bolso traseiro e redigi uma mensagem de texto: onde vcs estão? Kyle respondeu depressa, como se já estivesse com o dele na mão: no seu quarto, c Ethan. Está tdo bem? Eu: eu disse p gente trancar o Liam antes que ele se transformasse. O q está no nosso corredor agora é uma aberração. Kyle: Estamos fodidos. Ethan respondeu ao mesmo tempo, abaixo da mensagem de Kyle: Isso é um pesadelo. Por um tempo, ninguém escreveu nada. Meus dedos pairaram sobre as teclas digitais. Sabia qual era a sensação de incredulidade que meus irmãos experimentavam, a impressão de que a realidade fizera uma curva no tempo, deformando-se horrivelmente. Matt está a caminho, Ethan comentou após alguns minutos. Eu: ele n pode fazer nda agora, só vai piorar tdo. Kyle: foi o que Ethan disse a ele, mas o cara é paranoico, vc sabe. Disse que vai ficar n picape do lado de fora, só por precaução. Não havia mais nada a ser feito. Olhei para o quarto escuro e pequeno. A janela aberta mostrava a noite iluminada lá fora. Não dava para ver a lua, mas é claro que ela estava lá, redonda e inconveniente. A campainha do aplicativo soou, anunciando outra mensagem de Ethan: Ei, Ian, foi mal pelo


que eu disse sobre suas recaídas. Não tem nada a ver com a garota. Encarei a mensagem uns bons cinco minutos antes de responder: Eu sei. A tela não piscou mais depois disso, então dobrei uma perna e estiquei um braço sobre ela, relaxando. Nossa casa era pequena e antiga, nada preparada para o surto psicótico de um lobo. Por hora o animal parecia controlado, apenas esperando, mas era impossível prever seu comportamento. O calor excessivo cobrava seu preço; minha língua pastosa molhava em vão os lábios ressecados, meus olhos ardiam e eu me sentia fraco e sonolento. Vaguei até o aquecedor e o desliguei – ao invés de voltar para a porta, fiquei perto da janela, recebendo a brisa gelada que soprava na noite. Depois de um tempo meu celular apitou de novo. Matt: O quão ruim é? Kyle: Imagine o pior. Ethan: Daí multiplique por dez. Matt: Ele está machucado? Eu: Não, mas Kyle e Ethan tiveram a brilhante ideia de criar uma estufa na csa, e agora estamos ressecados. Matt: Isso foi imprudente. Vou estacionar fora do perímetro da casa, porque não sei o quanto a audição de Liam é boa agora. O motor pode perturbá-lo. Ethan: Pelo amor de deus, cara, não é o nosso irmão no corredor! Tem que ouvir os sons que essa coisa faz. Pare de falar como se ele fosse um filhotinho indefeso. Os alertas continuaram, mas eu já não estava lendo. Normalmente, quando


nossa temperatura interna subia demais, como acontecia nos picos, os danos eram irreversíveis. Nossos miolos fritavam, literalmente, e não era algo que se pudesse consertar, como engrenagens de um carro, e essa era a razão pela qual nunca deixaríamos Whitehorse. Nascíamos na neve e a odiávamos, mas morreríamos no calor. O frio era nossa ruína, mas também um bálsamo. Franzi a testa, estranhando a quietude no corredor. O cd terminara e agora o silêncio reinava, profundo demais depois da gritaria. Olhando pela fresta, não vi nenhuma sombra se mexendo. Estava erguendo o celular para perguntar a Ethan e Kyle o que estava acontecendo quando estalos vieram lá de baixo, o estraçalhar distante de vidro se quebrando. Oh, merda. Se Matt tinha dúvidas quanto a audição da coisa, aí estava – era excelente. Merda, merda, merda. Liguei para ele, que atendeu no segundo toque, com a voz sobressaltada. “Onde você está?”, perguntei depressa. Uma segunda ligação entrou na linha, provavelmente Kyle ou Ethan. “Parei na floresta, perto da estrada.” “A quantos metros?” “Uns... oitocentos”, seu tom de voz endureceu, “O que foi, Ian?” “Liam es... o lobo escapou. Pode estar em qualquer lugar agora.” Matt praguejou, perdendo o fôlego. Lá fora, um trovão estrondou na noite, sacudindo as janelas da casa. “Ele vai se perder”, as palavras dele saíram quebradas, “Liam não conhece a região, ainda não fizemos as rondas com ele, temos que achá-lo.”


“Ele vai para a floresta, Matt. Vai ser impossível encontrá-lo, quando amanhecer nós vamos nos dividir em...” “Amanhã é tarde”, ouvi o ofegar da respiração de Matt abafando a ligação, “Mas que droga, que droga!”, ele socou alguma coisa, o volante talvez, depois o silêncio, interrompido apenas pelo bafejar áspero de sua expiração, “Tudo bem, amanhã então.” Quando desliguei, as ligações de Kyle e Ethan se acumulavam no registro de chamadas perdidas, mas não retornei nenhuma, não tinha necessidade de falar o óbvio. Estávamos ferrados. Comecei a imaginar as manchetes do jornal do dia seguinte, todas com fotos hediondas mostrando pessoas repicadas, e o prefeito oferecendo uma recompensa para quem matasse o animal assassino; apertei um olho com a palma da mão para conter a dor de cabeça fulminante. E depois, a culpa de Liam quando ele voltasse para a gente, seu tormento escurecendo seu olhar como fazia com Matt, porque ele era um bom garoto e não ia suportar saber que tinha matado pessoas. Assim como Matt era uma pessoa feliz antes de Claire. Que família linda. Ouvi minha própria risada zombeteira na quietude do quarto, amarga e desconhecida. A raiva deixou um gosto azedo em minha língua ressecada, e só piorou quando escutei o ronco de um motor no pátio lá embaixo. Bufando, agarrei o celular no bolso traseiro outra vez e liguei para Matt. “Não seja idiota”, rosnei para ele antes mesmo de ouvir a saudação, “Fique onde está, não vai ajudar em nada dar uma de herói agora.” “Não saí do lugar, Ian”, Matt respondeu em seu habitual tom cansado, “Estou na beira da estrada, com os faróis apagados, rezando para que nenhuma patrulha passe e venha me encher de perguntas.” “Não, você está...”, mas a raiva tinha passado.


Uma nova sensação me gelou lentamente, como se uma pedra de gelo descesse através dos meus intestinos. O aparelho deslizou pela minha mão à medida que eu compreendia que nossos problemas eram muito piores do que eu tinha imaginado – o baque surdo que fez ao cair no carpete pareceu distante e desolador. A tela brilhou, anunciando uma nova mensagem, e depois outra. É claro, a janela do quarto onde Ethan e Kyle estavam – o meu quarto – dava para a frente da casa, e eles viam agora mesmo quem estacionava. O tempo todo tentavam me alertar. Eu não precisava ver para saber – quanto tempo ela esperou no cais até perceber que eu não ia aparecer? As decisões se agruparam em minha cabeça abruptamente; fiquei de pé num salto, abri a última gaveta da cômoda de Matt e apanhei o 38 escondido embaixo das meias enquanto discava para ela. Sua voz tranquila parecia uma piada de mau gosto ao atender. “Oi, Ian. Você está em casa?” “Não saia do carro.” “O que?”, plaft. O som de uma porta sendo batida, e depois passos sobre o cascalho. Inferno. O pânico me invadiu, e a visão de meus próprios dedos manuseando a arma com precisão enquanto verificava o canhão foi irreal. Estava carregada. “Então você está em casa”, havia decepção em sua voz, “Achei que tinha acontecido alguma coisa, mas...”, ela suspirou. A imaginei parada do lado de fora da porta, pequena e desprotegida, e isso foi o bastante para me impelir para o corredor, “Ian, eu não sei o que pensar”, a casa estava mortalmente quieta. As sombras na sala pregavam peças, mas não vi nenhum par de olhos brancos me encarando no escuro, então passei para a cozinha; e lá


estava, a vidraça da janela em cima da pia estilhaçada no chão, o vento enregelado passando pelo buraco e espalhando os guardanapos pelo tampo da mesa, “... vim devolver sua medalha. Não posso ficar com ela...” “Fique quieta.” “Descupe-me se... Como é?” Forcei a porta da frente, mas estava trancada; a chave tinha ficado com Kyle.


CAPÍTULO 24 EVELYN ENCAREI O CELULAR, INDIGNADA. Olhei instintivamente para a porta da pequena casinha de madeira à minha frente e vi a maçaneta girar. Contudo, a porta não se abriu para mim, deixando-me exposta do lado de fora da casa, e tive a sensação desagradável da compreensão tardia. Um arrepio subiu por minha coluna à medida em que eu ia captando os sinais – as luzes da casa todas apagadas, como se os irmãos Lycan tentassem se fingir de mortos, o silêncio que soprava como um mau presságio. O farfalhar distante de uma moita crepitando, o estalo de um graveto sendo esmagado no chão. Um relâmpago cortou o negrume do céu, iluminando a clareira e as copas das árvores. Recoloquei o celular no ouvido. “Ian, o que está acontecendo?” “Você precisa sair daí”, as palavras soaram afiadas, num tom gélido que eu nunca o ouvira usar antes comigo, “Volte para o carro.” A maçaneta havia parado de girar. Um uivo baixo como um assovio se ergueu na noite, tão perto que arquejei de susto. Olhei ao redor, procurando sua origem, e a calmaria agora parecia suspeita e proposital. Senti olhos em minhas costas, mas quando girei nos calcanhares só havia o pátio de cascalhos. Todos os meus alarmes internos de perigo foram acionados, entrei no modo irracional – fugir. Apenas fugir o mais rápido possível do que quer que estivesse me espreitando na escuridão das árvores.


“Ian?”, recuei dois passos, olhos fixos na porta, esperando que ela se abrisse para me dar abrigo nos últimos segundos. Não aconteceu. Meu coração galopava no peito, e um segundo uivo, quase zombeteiro, veio de algum lugar à esquerda. Vire e comecei a correr. IAN Investi contra a maldita porta três vezes, mas quando ela finalmente cedeu, já era tarde demais; a cena à minha frente se desenrolou em frações de segundos: o lobo avançando pela lateral do terreno, cercando Evelyn e obrigando-a a se afastar do carro e correr na direção oposta, Matt surgindo ao longe, o rosto pálido e desesperado, o olhar atormentado pregado avidamente na criatura, seguindo-a pela clareira. Minha mão se ergueu, o cano da arma surgiu diante do meu rosto como na perspectiva de um vídeo-game em primeira pessoa. Mirei no lobo, mas ele era simplesmente rápido demais e minha visão estava embaçada. Pisquei freneticamente para limpá-la, mas as lágrimas brotavam e ardiam à medida que eu via o animal atravessando o pátio, o pelo claro brilhando ao luar como os cabelos de Liam. O tiro saiu desajeitadamente, sem mira e sem foco, o impulso do disparo refletindo em meu ombro e me jogando para trás. O som foi agourento e ecoou pelo espaço amplo, forte o bastante para distrair o animal e acordar Matt.


“Não!”, ele gritou, de repente enraivecido, “Não pode fazer isso!” Os olhos vazios do lobo voltaram-se lentamente na minha direção. Havia algo de humano no modo estudado com que se movia e encarava, embora não tivesse semelhanças com Liam além da pelagem platinada. O focinho contraído se abriu, sua garganta produziu um rosnando de alerta cheio de ódio e repulsa, os pelos se eriçando nos flancos e na nuca. As patas traseiras flexionaram e ele disparou para frente outra vez, não para mim, mas para Evelyn – um desafio claro. Ele havia reconhecido a garota ruiva como meu ponto fraco e ia me punir pelo tiro. Tentando salvá-la, eu havia marcado Evelyn como um alvo. Cristo. “Maldição!” fui atrás deles, ouvindo Matt em meus calcanhares. Nos embrenhamos na floresta, mas as chances eram remotas; de nós quatro, o lobo era o mais rápido e Evelyn a mais fraca. Mirei apressadamente no vulto branco saltitando pelos troncos alguns metros adiante. Puxei o gatilho; dessa vez um guincho de dor reverberou pelas árvores. “Pare!”, Matt gritou, e seu peso bruto chocou-se com minhas costas, atirando-me no chão. Meu peito bateu na terra dura e o ar foi expelido de meus pulmões bruscamente. Lutei com as mãos de Matt que tentavam alucinadamente agarrar a arma. “Ele é nosso irmão, porra!”, a voz dele feria, cheia de desespero. Ele não entendia e não havia tempo para explicar. Acertei seu queixo com o cotovelo; o peso em cima de mim sumiu, me arrastei até conseguir me agachar e ficar de pé, mas ele estava me puxando outra vez, me girando, e


então o golpe duro veio de encontro ao meu rosto. Caí de costas nas raízes encurvadas, o 38 voou para longe. Matt ficou em pé, parado e ofegante, o rosto desfigurado pelo terror e pela mágoa. EVELYN Alguém estava atirando, mas eu não podia olhar para trás, não podia me distrair. Os troncos compridos da floresta passavam ao meu redor, e eu tinha consciência apenas de duas coisas – do meu assassino atrás de mim e dos obstáculos no chão à minha frente. Só isso importava. Começou a passar pela a minha cabeça a ideia de escalar uma árvore, mas se eu falhasse, seria o fim. Contudo, depois do segundo tiro, os rosnados e o farfalhar das folhas atrás de mim ficaram mais distantes. Fixei uma árvore à minha direita, um teixo baixo e gordo. Minhas mãos e meus pés se encaixaram agilmente nos galhos retorcidos; os anos de ballet tornaram meus músculos flexíveis e leves, mas mesmo assim resvalei três vezes no musgo ensebado antes de conseguir finalmente me erguer. Quando encontrei um galho firme e alto o bastante, apoiei os pés na base rente ao tronco e agarrei com força outro logo acima da minha cabeça. O medo me içava para cima, cada vez mais alto. Olhei para baixo, avaliando a distância do solo, mas não tinha certeza de com o que estava lidando. Um lobo comum não escalava árvores, mas aquela coisa não era um animal qualquer. Corria como uma pantera, rugia como um javali e tinha olhos prateados que brilhavam diabólicos na escuridão. Um trovão pulsou no céu, uma veia acendendo no firmamento. Lembrei da previsão de chuva de granizo para aquela madrugada e pensei em Jenna. Se


a chuva durasse a noite toda, ela teria que esperar até o amanhecer para me procurar, o que era um alívio. Não sei porque pensei nisso, mas me ocorreu que, nas lendas e contos infantis, o dia claro nunca era um bom cenário para a fantasia. Quando amanhecia, as carruagens viravam abóboras. Olhei para cima e vi o globo branco emitindo uma débil luminescência por trás da camada de nuvens cinzentas. Agora, só restava esperar. IAN Matt estava ajoelhado, tateando a terra em busca da arma. Os ganidos agonizantes do lobo não se distanciavam, o que significava que ele estava parado e que Evelyn ganhara tempo. Meu deus, eu tinha acertado Liam. Por mais que soubesse que a criatura odiosa não era meu irmão, não conseguia dissociá-los completamente; quando o dia nascesse, seria Liam quem apareceria ferido. “Matt, pare com isso”, as palavras não tinham força. Sentei ofegante e o observei apalpar a terra, cutucando entre as raízes. Tive pena dele, “Esqueça essa porcaria, temos que encontrá-lo antes da tempestade.” Matt levantou bruscamente, tendo enfim achado o 38. Suas mãos tremiam e sua respiração era afoita – o alívio o rejuvenesceu cinco anos, deixando-o com cara de garoto assustado. Eu mal lembrava a última vez em que o vira tão vivo, e essa era uma constatação tão triste, porque não era a alegria que o despertava de seu eterno coma e sim o desespero irracional por Liam. Sem me olhar, ele andou na direção dos uivos baixos. Levantei penosamente e o segui, mas o som era cada vez mais moribundo, e depois de circularmos pelo local onde as manchas de sangue começavam, não havia nada para levar para casa. “Ele fugiu”, Matt concluiu, olhando para além das árvores.


“Vai encontrar um lugar seguro”, garanti, afinal, antes de mais nada, era um animal e tinha instinto, “Temos que achar a Evelyn.” Retomei o caminho, mas logo me dei conta de que estava sozinho. Olhei por sobre o ombro e vi Matt me encarando, rancoroso e frustrado, e ficou óbvio que ele não viria comigo. EVELYN O quanto eu tinha corrido? Pareciam horas, mas talvez eu não tivesse ido tão longe. Meu celular havia caído no pátio dos irmãos Lycan, o que significava que eu estava totalmente isolada ali. O silêncio ao meu redor era tão funesto que a floresta parecia morta; nem mesmo uma coruja piava, nenhuma folha trepidava. O ar parado me fez lembrar de uma vez na saída da escola, na sétima série, quando entrei no conversível de meu pai depois das aulas. Quase sempre era mamãe quem ia me buscar, mas ela ficara presa numa audiência. Ele esperou que eu ajustasse o cinto de segurança antes de dar a partida, olhando para as árvores no bosque da Saint Anne com o cenho franzido. “Vai cair uma tempestade”, ele comentou. Foi uma observação muito estranha, porque eu estava acostumada com a alienação de mamãe, sempre cutucando o celular ou distraída com uma chamada no viva-voz. A natureza era algo como um cenário para ela, uma coisa que estava ali e fazia parte da vida, mas nada que merecesse muita atenção. Durante toda a minha existência, fora meu pai quem partilhara comigo a sensibilidade pela natureza.


“Como você sabe?”, avaliei o céu, totalmente sem nuvens. “Não está ventando. Veja só, as folhas nem se mexem.” Ainda estávamos atravessando a ponte quando o tempo fechou de uma hora para a outra. Em seguida, uma cortina de água desabou sobre o parabrisas do carro. Esperava que a potência da chuva não fosse proporcional à estagnação do vento. Passos estalaram de leve lá embaixo e eu fiquei muito quieta. Uma silhueta grande e escura parou no pé da árvore, e reconheci a voz grave e ressonante de Kyle ecoando no silêncio: “Evelyn, desça. Vou levá-la para casa.” Hesitei, testando o galho com os pés. “Kyle, não sei se é seguro, não fique aí parado, eu acho que...” “Ele foi atingido”, havia rancor no modo como torceu as palavras, raiva contida e amargura, “Apenas desça, ok? Tenho que levar você para casa.” Eu comecei a descer com cuidado. O fato de o lobo ter sido atingido por alguma razão só me deixava mais aflita, como se Kyle estivesse me dando a notícia de que um amigo meu sofrera um acidente, o que não fazia o menor sentido. A chuva desabou assim que pisei na terra; apenas água fria, não granizo. A mão de Kyle pairou sem jeito sobre meus ombros, tentando me amparar, mas recuperei o equilíbrio sozinha, o que pareceu deixá-lo grato. Cambaleei atrás dele pela trilha até retornarmos para o chão de cascalhos que cercava a pequena casa dos irmãos Lycan. Enquanto eu trotava pela areia grossa, meus pés chiando sem parar, olhei vidrada para as janelas escuras e a porta aberta abandonada. Abri a boca para falar – tinha uma


centena de perguntas, mas o choque me travou. A única coisa que consegui dizer numa voz estrangulada foi: “Ian.” Kyle abriu a porta do passageiro do Corolla de Jenna para mim, esperando pacientemente que eu entrasse, depois deu a volta e veio se acomodar ao volante. “Chaves”, ele estendeu uma mão para mim, então seu olhar negro estreitouse sobre minha figura encolhida e trêmula, “Evelyn, não tenha um colapso agora, por favor.” Eu assenti. Por alguma razão, Kyle xingou um palavrão e esfregou o rosto com força. “Tudo bem, escuta aqui, Ian vai ficar bem. Estamos no meio de um problema agora, uma coisa séria, mas tudo que você precisa entender é que vou levá-la para sua casa, você vai dormir e amanhã será um novo dia, e tudo o que viu essa noite vai parecer uma bobagem.” “Aquele lobo...”, tiritei, sentindo a umidade da chuva aderir em minha camisa e enregelar meu peito e minhas costas, “Os olhos dele eram... tinham um brilho...” Eu não sabia explicar. A única comparação plausível que me vinha à mente era uma pedra da lua, como os olhos de Lady Blanca, só que mais surreais. Como os olhos de Ian às vezes, na escuridão. As íris daquele lobo eram como pedras da lua, leitosas, quase prateadas. Mas não sabia como colocar isso em termos práticos para Kyle; de qualquer modo, pela forma como ele fechou os olhos como se não desejasse estar vivendo aquilo, a compreensão foi instantânea. “Ian trouxe você até nós, Ian vai lhe dar as respostas. São as nossas regras.


Agora passe as chaves.” Kyle dirigiu em completa mudez até a casa de Jenna. Eu só abri a boca para indicar a ele o caminho e agradecer quando ele me passou meu celular resgatado. Quando descemos, fiquei parada na frente da porta de casa, abraçando a mim mesma debaixo da chuva. Kyle me olhou por um momento, triste, então começou a se afastar a pé pela estrada. Eu o chamei. “Não vou contar”, garanti, embora ele não tivesse me pedido nada, “Sobre o lobo.” Kyle não havia dito que era um segredo, mas era óbvio que tornar confidenciais os acontecimentos dessa noite era a forma mais rápida e criar alarde, de modo que entendi depressa sua estratégia. Fingir que não tinha importância, que era uma coisa tola. Fato que, a julgar por sua expressão e pelo meu estado de espírito, parecia impossível. Na escuridão da noite, Kyle assentiu duas vezes antes de me dar as costas e se afastar. Entrei em casa e fechei a porta atrás de mim. Ele não me dava nenhum crédito.


CAPÍTULO 25 IAN DEPOIS DE UMA MADRUGADA inteira de chuva gelada, uma névoa fina pairava rente ao chão, encobrindo parte da floresta atrás da nossa casa. O ar tinha um cheiro fresco, mas o gosto era alcalino. Gosto de sangue coagulado. Passei a manhã toda sentado nos cascalhos atrás da casa, olhando para a frente, esperando ver a figura diminuta de Liam cruzar a bruma perolada em minha direção, mas não aconteceu. Matt e Ethan fizeram uma busca pelas redondezas e retornaram com caras idênticas de preocupação. Nenhum dos dois tomou café e sequer olharam na minha direção quando cruzei com eles na cozinha. Kyle se esforçava para parecer ocupado a ponto de não me notar na casa, então peguei minha jaqueta, apanhei as chaves da Viúva Negra e fui até o ponto mais distante do lago. Fiquei acocorado nas margens, fitando meu reflexo inexpressivo e cansado na superfície serena, me perguntando quanto tempo levaria até que eu me odiasse o bastante para tomar a decisão de ir embora. Antes de voltar para a estrada, tirei do cós da calça a arma que havia disparado contra meu irmão e a joguei na água. Ela afundou como um corpo escuro descendo até o vazio. EVELYN Kyle tinha razão – a noite passada parecia um sonho agitado, uma história esquecida de um livro empoeirado na estante. Quando a realidade é muito distorcida a ponto de não mais ser realidade, é como se ela deixasse de


existir; como se migrasse para o fundo mais obscuro de nossa mente, quase se transformando numa memória falsa. Mas eu sabia que não estava inventando coisas. O lobo da noite passada, o que tentara me atacar e cujos olhos continham o próprio clarão da lua à meia-noite não era um sonho. Eu sabia pelo gosto debaixo da minha língua, e pelas marcas doloridas que minhas unhas haviam deixado nas minhas palmas enquanto eu as apertava durante o sono. Acordei escutando a conversa que tivera com Megan e Rose em Tagish Lake, sobre as lendas algonquinas. Os lobos de Whitehorse. Os irmãos Lycan. O experimento de Derek. Tudo parecia interligado de algum modo, embora eu não conseguisse enxergar as interseções. Levantei, tomei banho e desci para o café. Era dia de semana e Jenna já havia saído para trabalhar, então fiquei sentada no sofá da sala com minha xícara de chocolate quente entre as mãos, respirando o vapor perfumado que subia dela, de olhos muito abertos e vidrados na paisagem lá fora. A névoa que cobria o pico das montanhas se alastrava pela vegetação e começava a deslizar por cima do rio. Seria difícil ver alguma coisa lá fora, caso alguém procurasse. Um lobo branco se camuflaria facilmente na floresta. Liguei para o número de Ian, mas ninguém atendeu. Enquanto a ligação caía na caixa de mensagem com um biiip frustrante, me enrolei num cachecol e saí no Corolla de Jenna em direção à casa dele. O pátio de cascalho estava deserto, sem as motos que costumavam ficar estacionadas ali. Desci do carro e bati na porta – havia a esperança de que Liam estivesse em casa, ele quase nunca saía, e só agora eu constatava o quanto isso era esquisito para um adolescente cheio de hormônios.


Mas a expectativa que eu tinha mingou à medida em que me dei conta do silêncio e da quietude ao meu redor. Nenhum som de televisão ligada. Nenhum ruído de louça sendo lavada, água correndo do chuveiro ou música tocando no rádio. A calmaria era tão grande que chegava a ser estática. Voltei para o carro e esperei alguns minutos na expectativa de que um dos Lycan aparecesse. Nada. Dirigi para a Yukon College. Tentei o celular de Ian mais três vezes naquela manhã. Nada. * * * Vinte graus. Céu limpo, reflexos coloridos de sol prismando no vidro do carro. O verão, cintilante e morno, perfumado como uma calda de caramelo. Noah chegou na segunda semana da estação mais quente trazendo uma mala média, um gorro dos Red Sox vermelho e um bilhete de recomendações da mamãe afixado na etiqueta da mochila. Assim que descobriu a armadilha, Noah arrancou o bilhete, o amassou e o atirou no lixo antes mesmo de deixarmos o aeroporto. “Porque ela faz isso?”, ele gemeu, arrastando as solas dos Converses verdes até o Corolla de Jenna. “Tudo bem, vou ligar para ela e pedir as recomendações quando chegarmos em casa”, acomodei a mala dele no banco de trás, esperei até que ele colocasse o cinto de segurança, ajustei o meu e então me dei alguns segundos de contemplação, “Ei, o que é isso na sua cara?”


“Nada”, ele emburrou. “É um pelo?”, cutuquei seu queixo imberbe, rindo quando Noah afastou minha mão, as bochechas corando, “É, é um pelo! Meu irmão está virando um homenzinho.” Tentei agarrá-lo para uma chave de braço, mas ele sempre foi mais rápido do que eu nisso – convivendo com Pernella, nossa tia-avó, era preciso desenvolver técnicas de esquiva se quiséssemos sobreviver aos seus beijos que acertavam nossas bochechas como socos e abraços capazes de trincar nossas clavículas. “Sai fora! Sempre fui homem, garota.” Noah não se parecia com a mamãe, muito menos com o nosso pai. Vendo fotos de nossos tios e avós, não dava para achar nenhuma semelhança dele com a nossa família. Seus cabelos escuros eram quase pretos, muito lisos e grossos, os olhos refletiam uma alma velha, inteligente e ranzinza, mas o nariz comprido e os traços delicados suavizavam a expressão eternamente fechada. Era bonito agora, já tinha sido um dia e com certeza seria no futuro. Quando ele deslizava os óculos de leitura pelo nariz, eu conseguia vê-lo assumindo cargos altos em empresas, cheio de disciplina e exigências, vestindo ternos Armani como nosso pai e casando com uma linda e elegante dama da sociedade nova-iorquina. É claro que agora, na iminência de seus treze anos, nada disso estava nos planos de Noah. Até onde eu sabia ele só queria estudar robótica e jogar World of Warcraft. “Ok, ok”, ergui as mãos num gesto de trégua, então dei a partida e manobrei para fora do estacionamento, “Espero que goste de cappuccino Alabama. É a minha especialidade.” “Você disse que ia tirar o dia de folga!”, ele puxou o ar e franziu as


sobrancelhas, visivelmente magoado. Eu ri. Teria sido uma falha irreparável não estar totalmente à disposição de Noah. “E eu estou. Hoje, quem vai servir seu pedido será a Rose”, pisquei para ele, como se encerrássemos um acordo, “Lamente por isso. As porções de creme dela são as menores.” “É verdade que onde você trabalha dá para se servir de porções extras de chantilly de graça?” “É isso aí. E granulado também.” “Irado”, ele sorriu, não como um garotinho sorri, libertino e despreocupado, mas meio de lado e totalmente consciente de que, quando fazia isso, suas intenções pareciam claramente as piores. Ele tirou o notebook da mochila, o abriu e começou a digitar num documento novo do word. “Está escrevendo um livro?”, perguntei, e já estava a ponto de me arrepender pela intromissão que eu sabia que ele iria detestar quando Noah ergueu os olhos para mim, francos e diretos, e disse: “Não conta para a mamãe, tá? Ela vai me encher o saco para ler e isso me deixa apreensivo. E não é um livro, são relatos de viagem.” “Do tipo On the Road?” “É, mais ou menos. Só que não vai ter mulheres nuas dançando com cigarros de maconha na boca.” “Graças a Deus.” Ele riu. “Por falar em garotas...”, sondei.


“Ninguém falou em garotas. Eu disse mulheres nuas.” “Ah, ok. É claro.” “Não seja idiota, Evy. Você sabe.” “Eu sei?” “É, sobre a Brooke.” Eu ergui as sobrancelhas, sem emitir nenhum som. Bem, Brooke era a filha de uma amiga da mamãe. Noah e eu conhecemos Brooke num jantar que nossos pais deram em nossa cobertura quando ainda estavam juntos, um jantar para amigos mais próximos. Na época, Noah tinha oito anos e Brooke, quinze. Era simplesmente absurdo pensar que ele sequer lembrava desse dia. “Aquela Brooke?”, infligi uma entonação casual. No fundo, estava chocada. “Ahn-hã.” “Ela tem namorado, não é?” “E daí? Eu também tenho.” A revelação de que meu irmãozinho Noah tinha uma namorada me deixou estarrecida. Eu mesma só tinha dado meu primeiro beijo com quinze anos! E, na época, foi tão desastroso que jurei nunca mais experimentar. Eu o olhei, boquiaberta, e tentei imaginá-lo pegando uma garota, mas a cena só me fez torcer o rosto numa careta. O Baked estava cheio. Eu havia pedido folga para Chloe e ela concedeu com a condição de que eu deveria levar meu irmãozinho para ela, Rose e Megan conhecerem assim que ele chegasse, e eu estava não apenas cumprindo minha promessa como também me beneficiando do ar quente,


reconfortante e doce da confeitaria. Desde o acidente na noite do Festival de Verão eu me sentia vazia por dentro, desolada, principalmente porque Ian estava categoricamente me evitando. A aglomeração de corpos, a balbúrdia das conversas baixas e o som do sininho vibrando sobre a porta a cada vez que um cliente entrava eram um alívio, um lembrete de que o mundo real ainda estava intacto ao meu redor. Escolhemos uma mesa mais reservada onde Noah pudesse escrever seus relatos de viagem e me contar quem afinal era sua namorada sem sermos incomodados. Chloe, Rose e Megan vieram conversar com a gente depois que fiz o pedido, muffins de mirtilo e cappuccinos com porções extras de chantilly, mas o mau humor de Noah as espantou em dois tempos. Normalmente eu teria o repreendido por isso, mas me surpreendi ao me dar conta de que estava rindo. O azedume de Noah era adorável perto do que eu havia experimentando com os Lycan. Rose veio entregar o pedido e lançou um olhar engraçado para ele pelas costas, como se Noah desse choque. De repente lembrei que tinha algo muito importante para perguntar a ele. “Noah, você sabia que sou sonâmbula?” Ele não ergueu os olhos do notebook, mas apertou os lábios como se tentasse colá-los. “Noah.” “É claro que eu sabia!” Eu arfei. “Porque nunca me contou?” “Porque a mamãe não deixou!”, ele agora parecia furioso por obrigá-lo a


desobedecer uma ordem. Noah era paranoico com ordens, especialmente as de nossa mãe. “E por qual razão ela faria isso?” “Sei lá”, ele afundou mais na cadeira e, só para não ter que me responder mais nada, esticou o braço, pegou o muffin e o enfiou inteiro na boca. No fim de semana Carl nos levou para descer as corredeiras de caiaque, programa para o qual Jenna torceu o nariz a princípio, sob o pretexto de que era perigoso e a água gelada podia nos deixar resfriados, mas nada que adulações minha e de Noah não resolvessem. De noite, assamos pizza no forno a lenha de Carl. Sua casa era pelo menos duas vezes maior que a de Jenna, tinha uma adega imensa, um jardim de inverno e mesa de sinuca. Entre uma partida e outra, eu olhava meu celular, apenas para constatar que Ian não havia respondido nenhuma das minhas treze mensagens de texto nem retornado minhas nove chamadas. “Tenho uma coisa para você”, Carl falou para mim quando encerramos a última partida de sinuca, depois de marcar o placar no quadro afixado à parede – 4 para mim e Jenna, 5 para ele e Noah. “Meu aniversário é só daqui há três semanas.” “Sei disso”, ele largou o taco sobre a mesa, deu uma piscadela para mim e foi até o bar, de onde tirou de detrás do balcão uma sacola preta com o brasão da Yukon College. “Oba. Apostilas. Nada melhor do que estudar nas férias.” Carl voltou até mim e, sob os olhares curiosos e divertidos de Jenna e Noah, pousou calculadamente a sacola sobre o revestimento de veludo verde da mesa. Depois estendeu a mão na direção do presente, convidando-me a abri-lo.


Desfiz o laço azul que unia as laterais da embalagem, retirei os adesivos que a mantinham fechada e tirei de dentro um moletom azul hortênsia. Comecei a sorrir, mas então o tecido desdobrou, e a revelação da estampa impressa na frente congelou minhas emoções. Debaixo de um arco com os dizeres Primavera nas Montanhas, oeste, 1973, um lobo branco uivava para o alto. Embaixo da cabeça felpuda, a palavra Lobos de Whitehorse escrita em letra estilizada. Eu encarei Carl chocada. “Isso... é um presente... legal, Carl. Quer dizer... Nossa, obrigada!”, apesar das minhas palavras, eu sabia que não parecia nada feliz. Carl também notou. E Jenna. Ela olhou de mim para o veterinário, discretamente confusa. Ele havia errado feio, embora ninguém ali soubesse o porquê. Eu respirei fundo várias vezes, me esforçando o máximo que podia para bloquear as lembranças da minha última noite com os irmãos Lycan. Noah foi o primeiro a falar. Ele apontou para o moletom e disse: “Mega irado. Quero um igual.” “Tudo bem, querida?”, Jenna perguntou delicadamente, tocando meu ombro, porque eu ainda estava inerte. “Claro, eu adorei”, não era exatamente uma mentira, eu tinha mesmo gostado. Só que, no atual momento, a simples lembrança dos lobos de Whitehorse me dava vontade de vomitar. Procurei o olhar de Carl novamente; ele me observava com a expressão taciturna e diligente de quem estuda um sintoma. Como se esperasse que eu entendesse algum tipo de recado. Eu disfarcei com um sorriso exagerado e torto, “Mas porque está me dando um presente agora? Você vai estar, tipo, viajando no meu aniversário?” Ele deu de ombros, totalmente casual. “Lembrei de você, quis comprar. Vocês estão aqui hoje e eu pensei: porque


não?” “Bom, então você deveria dar um desses para mim”, Jenna arregalou os olhos teatralmente, agora me segurando por trás pelos dois ombros, quase me abraçando. Ela estava radiante por estar com a gente e com Carl, e só por isso relevei o mal estar na boca do estômago, “Teoricamente eu sou a mulher dos lobos.” “Você é uma alma caridosa”, Carl enfiou as mãos nos bolsos e assumiu uma postura evasiva, “Não deixaria uma criatura morrer de fome nem que fosse um monstro. Mas Evelyn tem uma paixão, não é?” Eu apenas pisquei. A cena parecia se passar em dois universos distintos: num deles Carl estava apenas sendo simpático e gentil e, no outro, mais obscuro e incerto, Carl me perscrutava através dos olhos azuis apertados em fendas, lendo minha alma de um modo que eu não podia impedir. “Os lobos”, ele assentiu, concordando com uma resposta que eu ainda não havia dado, “Você gosta deles, não é?” “Ela tem esse...”, Jenna fez um gesto com uma mão enquanto procurava a palavra certa, “Fascínio por lobos. Acho que é isso mesmo, não é, querida? Você não teve medo deles naquela noite que eu saí para alimentá-los, não foi? Mas eu tive. Tive medo que eles a atacassem, porque são agressivos. Mas eles também não estavam com medo, até chegaram mais perto.” A lembrança voltou vaga e disforme. Eles tinham se aproximado? Só seus olhos brilhantes na escuridão estavam nítidos nas minhas memórias, isso e a sensação de que eu podia ouvi-los conversando através do vento frio, como se pudesse ler seus pensamentos. Os lábios de Carl curvaram para baixo numa consideração e depois se abriram num sorriso ensaiado.


“Interessante, não sabia disso. Você tem um dom. E eu acertei", sua expressão suavizou, como se acabasse de encaixar uma peça faltando em seu quebra-cabeça mental. “Não sei”, e fui sincera. Qual era o limite entre o meu medo e o meu encanto? Afinal, eu podia dizer que era fascinada por lobos? Eu com certeza era fascinada por dias de outono e por sorvete de menta. Era fascinada por blue sandstones, a pedra que Lady Blanca me apresentara em sua lojinha, e era fascinada por Edgar Allan Poe e pizza de pepperoni. Mas estações do ano, sabores e livros são facilmente elegíveis e eu poderia desgostar de cada um deles na próxima temporada. Mas eu jamais conseguiria me desvincular dos lobos de Whitehorse. “Já está tarde”, Jenna enfim falou depois dos vários segundos de silêncio esquisito que minha falta de tato com Carl impôs, “Vamos indo, meninos.”


CAPÍTULO 26 IAN SEGUNDO DIA SEM NOTÍCIAS de Liam. Acordei de madrugada ouvindo um disparo ao longe, mas caí de volta nos travesseiros ao perceber que eram fogos de artifício, a cidade comemorando outra noite do Festival de Verão. Ao meu lado, a cama de Kyle estava vazia. Ele provavelmente tinha ido dormir na casa de Lianne, o que só provava o quanto estava sendo desconfortável para ele aturar minha presença, uma vez que descansar em teto alheio não costumava ser uma opção para nossa espécie. Ou talvez o cara só estivesse tentando aproveitar o máximo possível os últimos momentos com sua garota. Levantei para sondar a casa; abri a porta do quarto de Matt e encontrei as camas feitas, os lençóis lisos no lugar. Ethan também não estava em canto algum. Nunca, desde que me transformara pela primeira vez, nosso lar estivera tão vazio. Sem conseguir dormir, troquei de roupa, apanhei a jaqueta e uma lanterna e vaguei pela floresta atrás da casa. O facho de luz varria a escuridão, mas só iluminava troncos de árvore e vegetação, às vezes sobressaltando uma coruja ou uma lebre. A essa altura eu já ansiava até mesmo por ver um par de olhos branco leitosos e predatórios me encarando na noite, o pelo branco areia cintilando ao luar, mas Liam não estava em parte alguma. Esperava desesperadamente que meus irmãos estivessem errados, que os tiros disparados por mim contra Liam não fossem a razão para ele estar demorando tanto a voltar. Queria acreditar que era culpa da transformação inversa, pouco sabíamos sobre ela, podia ser que durasse muitas noites. Ele ia voltar. Precisava voltar.


Em meio aos pensamentos depressivos, algo que eu já esquecera que existia vibrou no bolso interno da minha jaqueta. Meu celular andara apitando e chiando muito nos últimos dias, mas eu não tinha ânimo para sequer tocá-lo. Dessa vez, porém algo me dizia que eu devia atender. Apanhei o celular com as mãos trêmulas – um reflexo que costuma acompanhar por uns tempos mãos que apertam gatilhos pela primeira vez. “Ei”, era Kyle. Sua voz estava mais séria do que o normal, “Onde você está?” “Na floresta. Procurando.” Houve um silêncio de pesar e cumplicidade do outro lado da linha, mas não durou tempo bastante para que nosso laço de afeto fosse restaurado. “Hoje é noite de Lua Negra”, ele disse apenas, e esperou pela minha compreensão. Noite de Lua Negra. Para nossa espécie, não era uma fase da lua. Era um código. Significava um dia de sacrifícios. Não sabíamos de onde tinha vindo o sentido da expressão, mas nós a seguíamos instintivamente, como uma lei suprema e inata. Ácido puro deslizou por dentro do meu peito, indo parar no fundo do meu estômago. “O que... o que vocês estão...” “Ian, tomamos uma decisão. Você precisa vir até aqui, diz respeito a você e ao que aconteceu com o Liam.” “Não sabemos o que aconteceu com ele ainda. Temos que esperar e...” “Não vamos mais esperar. Não podemos. O que foi feito, foi feito. Precisamos fazer uma escolha.”


Uma escolha. O ácido em meu estômago começou a queimar. Curvei o corpo um pouco para frente, apoiando uma mão no joelho, como se a posição pudesse forçar o ar preso em meus pulmões a sair mais facilmente. “Tudo bem. Onde vocês estão?” “Na clareira.” “Chego em dez minutos.” Ao fazer a trilha de volta à casa em direção à RD350, tentei achar o medo em mim. O medo que havia me impelido a agarrar aquela maldita arma e disparar contra o lobo sedento no qual meu irmão havia se transformado. O medo que me fez recusar a ligação que eu tinha com Evy tantas vezes. Não achei nada. Naquele momento, eu não era capaz de sentir coisa alguma além do frio enregelando minhas mãos, acalmando minha pulsação. Ao dar a partida, tive um segundo de autoconsciência em que me dei conta de que o frio ficaria comigo quando tudo mais me deixasse. Para sempre. *** Eles estavam me esperando nas margens do rio Yukon. Foi ali que me transformei pela primeira vez, e a simbologia daquilo não era legal. Kyle, Matt e Ethan permaneciam em pé lado a lado, suas silhuetas alongadas como totens contra o clarão da lua formavam tiras negras sobre o cascalho cinzento. Estacionei a Viúva Negra na areia granulosa, distante


da deles, e caminhei até meus irmãos. Não tínhamos uma hierarquia de alfas e betas, não na forma humana. Não devíamos obediência a ninguém, éramos livres em nossas escolhas, mas enquanto animais estabelecíamos conexões que permaneciam enquanto homens; Liam tinha isso com Matt, e Colin um dia tivera comigo. Kyle havia tido com Paul, que fora o lobo mais velho antes dele. Não cheguei a conhecê-lo. Era uma ordem necessária, uma vez que a vida humana, tão cheia de demandas, exige aprendizado e alguém para nos guiar nos primeiros anos. Contudo, ia muito além de ser apenas uma relação de tutoria. Colin fora um pedaço de mim. Algumas lendas da nossa espécie, contadas de geração em geração, dizem que o lobo é um todo feito de partes indivisíveis, jamais uma única entidade – é como se nossa alma, em essência, se atrelasse a elementos capazes de mantê-la coesa: a natureza, e por isso somos tão sensíveis a ela, a atração instintiva que nos conecta uns aos outros e, num nível mais complexo e obscuro, o lobo inseparável de nosso espírito humano. Em alguns casos, uma garota. Mas não podia pensar nisso agora. Quando olhei para Kyle, procurando qualquer sinal de emoção, vi apenas um rosto inerte e duro com a mesma expressão que se replicava nos rostos de meus irmãos. “Fizemos uma votação”, foi Ethan quem começou, o que me surpreendeu. Ele não costumava tomar as rédeas da situação, apenas confrontá-la quando era de seu interesse. “Sobre?”


“Sobre você.” Não havia raiva em sua voz grave, o que me irritou. Não gostava quando as pessoas camuflavam suas intenções, me deixava ainda mais alerta. “Sobre o que você fez com Liam”, Matt emendou à meia-voz e, de ombros caídos como estava, parecia incapaz de suportar o peso do próprio corpo. Eu não consegui encará-lo. Vinha tentando conversar com cada um deles desde a maldita noite em que Liam sumira, mas não me deram brecha. E agora tentavam me encurralar. “Então diga você, Kyle”, o indiquei com o queixo, “O que você teria feito?” “Não estamos falando dele”, Ethan interveio. “Eu estou falando! E se fosse Lianne?” Kyle negou com a cabeça, voltando a atenção para algum ponto em meus joelhos, como se enxergasse um lado da situação que eu ainda não vira. É claro, ele não ia responder. E não precisava. “Você atirou em nosso irmão por causa de uma garota”, Ethan acusou, tomando a palavra uma vez que os outros dois permaneceram mudos, e eu entendi porque ele estava todo imponente essa noite. Era o único ali que permanecia totalmente fiel às tradições, sozinho, isolado e agressivo, “Não sabemos o que aconteceu com ele, mas você fez uma escolha.” “Ele ia matá-la, merda! Eu tinha que deixar?”, senti uma ardência atrás das retinas – o lobo aflorando, mas eu saberia mesmo que não houvesse sintomas. Sabia pela forma como as palavras rasgavam minha garganta. “Está com medo de admitir o que essa garota se tornou para você. Mas que droga, Ian, diga! Diga agora que traiu sua família por uma vadia, seja


sincero pelo menos uma vez na vida!” Enquanto Ethan falava, vi o lobo vindo à tona nele também – o brilho prateado surgindo por trás de suas íris, acendendo-as de modo ameaçador. Isso foi um milésimo de segundo antes de eu acertá-lo no queixo, uma reação mais de proteção do que de ataque, porque ele já estava praticamente em cima de mim. Houve violência, minha e dele. Existe algo de muito peculiar em ser o que somos, e está diretamente relacionado à nossa parte animal: nossos punhos têm garras, nossas bocas possuem presas, e esse é apenas mais um dos mistérios sobre nós que não conseguimos desvendar. Não é nada trash, como se unhas afiadas explodissem em nossos dedos e caninos brotassem para fora; na verdade, fisicamente nada se altera. Mas um soco é capaz de rasgar. Mordidas arrancam pedaços. As feridas se abrem de dentro para fora, como que rompidas por lâminas invisíveis. E o mais importante: a ligação emocional de um lobo com outro é poderosa, mas também frágil. Uma luta como a que eu estava tendo com Ethan ultrapassaria os limites da violência – ela arrebentaria todo e qualquer laço tecido ao longo de nossa infância lupina. A noite se encheu de sons ásperos e estranhos, mas lutamos sem gritar ou xingar, quase em deferência. Kyle e Matt interviram, e quando conseguiram nos separar, fixei os olhos na imagem de Ethan se contorcendo no aperto firme de Matt. A luta durou menos de um minuto, mas quando dois lobos lutam sem intervenções podem chegar a se matar num piscar de olhos. E não existe meio termo. A camiseta de Ethan parecia ter passado num triturador, e agora faixas desfiadas pendiam do torso dele como tiras de pele solta. A parte superior do corpo estava escura pela profusão de cortes; num deles, que atravessava o ombro esquerdo, a carne fora rasgada tão fundo que dava para ver o feixe


da musculatura exposta. O supercílio fora aberto acima do olho direito e ele piscava freneticamente para limpar o sangue que descia sobre a visão. Os cabelos cacheados eram uma coisa louca e disforme agitando-se ao redor de sua cabeça, e ele me olhava em choque, os olhos como duas imensas esferas metálicas de ira. “Chega!”, Kyle rugiu no meu ouvido, me arrastando para trás. Engoli em seco e senti gosto de sangue fresco no céu da boca, “Matt é quem vai decidir.” “Decidir o quê?”, berrei, o animal que eriçava sob minha pele distorcendo as palavras, tornando-as indistinguíveis. Ethan moveu-se bruscamente tentando se soltar, fazendo com que Matt mudasse de posição; de repente, o clarão da lua atingiu-o em cheio no rosto. Foi então que eu vi. Meu Deus, os olhos dele... A pergunta que eles emitiam num grito mudo era: até onde é possível suportar tanta dor? Claire e Liam estavam ali, ou melhor, a ausência deles, refletidos na mágoa azul de seu olhar como fantasmas atormentando seu juízo. Vi Matt, e embora já o tivesse visto milhares de vezes, enxerguei o que ele de fato havia se tornado – um grande e incurável câncer de si mesmo. Consumido pelos cortes profundos de seu passado. E, ao puxar aquele gatilho, eu o brindara com mais um. Minhas pernas fraquejaram e ficou difícil para Kyle sustentar todo o meu peso. Meus joelhos se chocaram contra as pedrinhas pontiagudas do chão, cortando e arranhando, ao mesmo tempo em que o fervor do lobo em meu peito se transformava depressa numa bolha sufocante de angústia. “Matt...”, arfei, acreditando de verdade que meu coração tinha parado de


bater. Ele soltou Ethan, que tropeçou para o lado, igualmente derrotado. Em sincronia, a compreensão do que realmente acontecia ali abalou todos nós. Não se tratava de mim. Não era o fato de eu ter atirado em Liam ou escolhido Evy, porque não foi mesmo como se eu tivesse tido tempo de pensar, e eles sabiam disso. A questão era mais simples e primordial – eles não estavam mais aguentando os ecos da dor de Matt. Precisavam me afastar dele o mais rápido possível antes que Matt enlouquecesse o bando inteiro. Olhei minhas mãos sujas com o sangue escuro de Ethan. Ele respirava rápido e profundamente a dois metros de mim, ainda tentando se restabelecer dos meus golpes, o som de seus tênis raspando o cascalho era a única coisa audível. Desculpe. As palavras ficaram barradas na minha garganta, não porque eu não quisesse dizê-las, mas como ia suplicar pelo perdão deles se nem eu mesmo conseguia achar uma razão para ser perdoado? “Eu votei a favor”, Ethan cuspiu sangue e limpou a boca, “Kyle votou contra. Você já deve imaginar o voto de Matt.” Kyle votou contra. Afinal, ele também teria protegido Lianne, ao menos fora um voto limpo. “Você foi debelado do grupo, Ian”, Ethan anunciou, e eu agradeci por ser ele a dizer isso. Teria sido odioso ouvir o modo como aquelas palavras soavam na voz torturada de Matt ou como elas poderiam parecer hipócritas na de Kyle.


Fiquei ali, de joelhos no chão, sentado sobre os calcanhares. Matt foi o primeiro a sair, apático do modo que são as pessoas que já não lutam mais. Ethan foi logo atrás, passando pela minha esquerda. Kyle ficou. “Ei, cara”, senti a mão dele pesando em meu ombro, mas não consegui reagir. Ele me balançou para frente e para trás, ou talvez tenha sido involuntário, apenas meu sistema nervoso me embalando numa cantiga silenciosa. Não sabia em que estado estava e a adrenalina aquecia meu sangue, anestesiando tudo. Se Ethan tivesse arrancando uma mão minha fora na briga eu não teria notado. “Ian...” “Não”, seria insuportável ouvir qualquer coisa deles agora. Até mesmo de Kyle, o que de certa forma havia me criado. Com ele era ainda mais difícil. “Você tem que dizer a ela”, sentenciou ele, “Tem que contar tudo agora.” Fui deixado sozinho. O ronco alto das motos se elevou no silêncio à medida que cada um arrancava. Achei que poderia sentir nossos elos se distendendo como um músculo sendo estirado até romper, mas só senti frio. Apenas frio.


CAPÍTULO 27 EVELYN “OLHA SÓ, EU NÃO sei o que está acontecendo, mas estou ficando puta, Ian. Parece que fiz uma coisa errada, uma coisa horrível, e você está me mantendo afastada sem me dar explicações. Quando vou na sua casa ela está sempre vazia. Encontrei com Matt no posto de gasolina ontem, perguntei onde você estava e se estava tudo bem e sabe o que ele respondeu? Nada. Ele só ficou me olhando como se eu fosse transparente! Isso está me deixando maluca.” Desliguei o celular sabendo que as chances de que minha mensagem de voz fosse ouvida era algo perto de menos um. Duvidava muito que Ian Lycan se desse ao trabalho de ouvir mensagens de voz, mas eu não tinha mais escolha. Quando joguei o aparelho em cima da penteadeira, meu olhar bateu na sacola de compras que eu havia trazido da loja de Lady Blanca. Eu a abrira para pegar o anel de blue sandstone que usava agora, mas todo o resto tinha permanecido intocado no fundo do embrulho. O levei até a cama e virei as compras sobre a colcha – caíram emboladas, a coroa de flores do campo, a bata branca, a bola de cristal com neve rodopiando em volta do lobo branco, o calendário lunar esquisito. Peguei o calendário e uma caneta na gaveta, sentei no chão, desatei o elástico que o envolvia e o desenrolei sobre o tapete. Escrevi no quadradinho do dia 28 de Abril: Conheci os irmãos Lycan. No canto inferior esquerdo do quadrado havia o desenho de uma lua minguante. Eu não sabia muito bem para onde ir a partir dessa primeira anotação. Depois desse dia, tive um par de encontros com Ian que ficaram no insucesso. Não apenas ele, mas todos os Lycan agiam sempre em sincronia – quando um estava estúpido, todos os outros também estavam. Ele me


dera um bolo logo no nosso suposto primeiro encontro. E depois, nos rochedos, fingiu que não me conhecia e socou Derek – agora eu sabia – por ter sido indevidamente tocado. Então Liam entrou na história. As dores de cabeça, a terapia alternativa sugerida por Carl. Isso foi mais ou menos na primeira lua nova após tê-los conhecido. E foi também a época em que Ian quase baixou a guarda para mim. Ele me deixou tocá-lo. Me deixou beijá-lo. Ah, não era mais lua nova. O que ele tinha me perguntado? Em que lua estamos? Lua Crescente. Fechei os olhos ao lembrar de como tinha sido. Nunca, em nenhum momento, Ian fora tão... caloroso. Sua frieza e antipatia, todas a barreiras que ele mantinha entre nós foram abaixo. Foi tão maravilhoso, e tão rápido. Uma conexão rara, um momento de magia. Isso foi no final da primavera. Percorri o olhar pelo calendário, encontrando a próxima fase da lua. Lua cheia. Quando tudo desandou. O incidente com o lobo no quintal dos irmãos Lycan. Ian desapareceu. Todos eles ficaram distantes, ressabiados e ressentidos, como uma família se recuperando de um grande trauma. Para mim, lua cheia significava o caos. Era romântica, costumava emoldurar lindamente varandas de mocinhas apaixonadas, mas havia algo de singelo e místico numa lua cheia, o prenúncio do descontrole. Além disso, luas cheias eram exaustivamente conhecidas por representarem a transformação. Como por exemplo, nos mitos: o lobisomen. “Isso não pode estar acontecendo”, murmurei, esfregando o rosto sem parar, como se pudesse obrigar meus olhos a não enxergarem o que estava desenhado diante de mim. Um esquema perfeito. Um ciclo. Estávamos exatamente na lua cheia. ***


Passava da meia-noite quando meu celular enfim vibrou sobre a mesinha de cabeceira. Acendi o abajur e li a mensagem na tela, uma única palavra que fez meu coração disparar: deck. O número remetente era de Ian Lycan. Levantei apressada e espiei pela janela. Vi a sombra vaga de uma RD350 preta estacionada perto das árvores, mas os galhos tampavam a visão do deck. Coloquei uma calça jeans por cima da calcinha e vesti uma jaqueta sobre a regata de malha, calcei os tênis, ajeitei o cabelo e desci. Vi Ian sentado na beirada do deck, os pés flutuando sobre as águas paradas do rio. A imagem dele, os contornos bonitos e masculinos destacados sobre a lua prata era tão melancólico e doce como a última nota de uma flauta. Ele olhava para o outro lado, para as silhuetas pontiagudas das montanhas no horizonte. Achei que contemplava serenamente a paisagem, mas quando sentei ao seu lado percebi o ritmo intenso de sua respiração fazendo com que as costas subissem e descessem, esticando o tecido da camisa sobre os músculos tensos. “Você sumiu por dias”, apesar de eufórica por tê-lo tão perto novamente, eu estava decepcionada. Magoada. Ian voltou a cabeça apenas um pouco na minha direção e respondeu apenas: “Estive ocupado.” “Ocupado demais para sequer responder minhas mensagens?” Deus, era muito difícil. Amar Ian Lycan era como tentar abraçar um ouriço. Não dava para estar com ele sem ficar muito, muito machucada. Como eu já esperava, fiquei sem resposta. Ele estava fugindo outra vez,


embora estivesse bem ali, a um palmo de distância. “Vou contar uma história”, ele falou para o horizonte, mas sua voz era perfeitamente clara para mim no silêncio, “E você me diz o que acha dela, certo? Um dia eu ouvi uma música como nenhuma outra. Uma música com alma. Era quase difícil suportá-la, havia algo nela, algo vivo. Eu pesquisei sobre o compositor, um violinista que se chamava Niccolo Paganini. Descobri que havia uma lenda sobre ele, algo um pouco assustador. Diziam que ele havia feito um pacto com o Diabo e por isso era capaz de tocar notas sobrenaturais, numa velocidade assustadora, as vezes uma composição inteira numa única corda. Ele as arrebentava no ímpeto de tocá-las, uma por uma, até que sobrasse uma única. Cada concerto terminava numa erupção de aplausos e arquejos descrentes. Até hoje, quando um violinista toca as composições de Paganini, parece possuído por uma força que não pode ser humana. A velocidade, a fúria de cada nota... É preciso ser mais do que muito bom para tocá-las, poucos conseguem”, Ian fez uma pausa, ainda olhando na direção oposta à minha, “E eu me pergunto: como o Diabo pode fazer algo tão bonito? Isso é certo? O que você acha?” “Acho que...”, eu conhecia Paganini, é claro. Uma aluna de ballet deve conhecer os clássicos, faz parte da formação. Mas ele não era mais meu preferido do que Ravel, “Acho que certas coisas estão além de conceitos de bem e mal. A música é uma delas.” Ian pareceu rir. Suas costas estremeceram. Fitei sua nuca, a penugem platinada ao luar estava arrepiada. “O caso é que ele colocava sua alma nas músicas, Evelyn. Entende? Mas era uma alma corrompida. E, no entanto, capaz de fazer coisas extraordinárias. Divinas, eu diria.” “E o que isso significa?”


“Diga-me você. O que acha?” “Eu acho que preciso escutar Paganini de novo”, eu ri, um tanto nervosa com aquela conversa. Parecia um engodo para me distrair ou, pior, uma armadilha para me testar. “Ian”, tentei tocá-lo, mas ele se voltou, e o que vi me deteve. Um hematoma grande começava a se formar ao redor do olho esquerdo e o lábio fora cortado fundo, praticamente destruído. As duas maçãs tinham sido rasgadas e tive a horrível impressão de que aquilo esbranquiçado entre a carne lacerada era osso. “O que foi que aconteceu?”, eu mal conseguia respirar de horror. “Vamos”, Ian levantou afobado, estendendo a mão para me erguer. Eu a aceitei, perturbada demais para discutir. “Quem fez isso com você?”, quando dei por mim, estávamos diante da RD350 preta dele. Ian a montou com pressa, girando a embreagem até que a máquina rugisse debaixo de si, impaciente. “Eu disse que andei ocupado.” “Que merda está acontecendo?” “Suba”, era um comando. “Você precisa de um médico! Não vou a lugar algum até que...” “Mas que droga, suba!” Minha boca pendeu aberta no meio da frase. Os olhos dele brilhavam ejetados na escuridão, hipnóticos, cheios de raiva incandescente. Tive vontade de estapeá-lo, mas ao invés disso fiquei estática, encarando-o impassível. Engraçado como alguém pode se tornar tão irreconhecível em


segundos, e não tinha nada a ver com sua face desfigurada. “Suba, Evelyn”, dessa vez soou como um pedido, quase uma súplica. Continuei balançando a cabeça, não apenas como uma resposta a ele, mas como um gesto de negação legítimo àquela loucura, “Se eu disser que esses machucados não são tão importantes quanto o que vou te mostrar agora, vai acreditar em mim?” “Nem um pouco.” “Então não confia em mim?” Meu primeiro impulso foi optar pelo imediato não. Mas, parando para pensar uns dois segundos, descobri que até agora tinha confiado em Ian bem mais do que seria capaz de confiar em mim mesma. “Para onde vamos?”, me ajustei atrás dele, ainda seca. A sensação de estar tão próxima teria sido quente em outra ocasião, mas agora era apenas constrangedora. Ian olhou uma última vez para as colinas, e eu segui seu olhar. Os picos cintilavam na noite, parcialmente encobertos por uma fina e eterna neve translúcida. * * * Subimos a estrada em direção às colinas em completo silêncio. Sentia que algo inevitável dava início e agora não havia como olhar para trás – eu já estava envolvida. Tive medo de perder Ian, um nó amargo sufocou meu peito e eu o abracei por trás apesar do modo como ele havia me tratado. Ele tirou a mão do guidão para entrelaçar os dedos nos meus por um momento, a palma quente envolvendo minha pele fria, e eu soube que havíamos nos perdoado.


Pegamos uma trilha e quando não havia mais como prosseguir descemos e continuamos a pé. A temperatura começou a cair bruscamente à medida em que subíamos. A vegetação ficou mais fechada, os pinheiros formavam colunas apertadas por entre as quais passávamos devagar. Aos poucos a terra e as pedras deram lugar à neve. Sobre nossas cabeças, a esfera da lua emitia um brilho perolado, azulado e intenso. “Ian...Espere. Está tão frio...”, ficou difícil respirar. O ar rarefeito pesava em meus pulmões, eu já não conseguia acompanhar o ritmo dele. Olhei para frente e o vi distante, caminhando com tanta leveza como se andasse pela grama. Ele parou, porém, e esperou que eu o alcançasse. Eu não havia trazido um casaco apropriado para o frio, não achei que Ian tivesse planos para ir além do deck de Jenna esta noite. Comecei a tiritar tão alto que Ian teve que me passar a jaqueta dele. “Mas e... vo-você?”, eu ajeiei a jaqueta sobre meus ombros. O couro grosso era duro e confortável ao meu redor. Ele apenas me olhou enternecido pela preocupação, virou as costas e seguiu em frente. “Porque estamos escalando a colina a essa hora?”, perguntei quando não suportei mais. “Não faça perguntas agora”, sua voz era suave, mas distante de um modo preocupante, “Terá suas respostas daqui a pouco. Vamos andando.” Atingimos uma clareira. Arrastei os pés pela neve; adiante, metros e metros abaixo, Whitehorse se espalhava, as casinhas com suas luzes cintilantes lembrando uma pequena galáxia. O campus da Yukon College era uma sombra escura no subúrbio. Para além dele planícies ermas, mais colinas, rios e lagos. Depois de meses imersa no cotidiano de Whitehorse, quase havia esquecido o quanto estávamos isolados ali.


Eu estava congelando por dentro, cada músculo do meu corpo se contraía de frio como se facas de aço me atravessassem, meu estômago apertava em espasmos, mas apesar disso lágrimas surgiram em meus olhos – banhada pela lua, Whitehorse era linda. Mitológica. “É incrível. É tão adorável, Ian...” “Evelyn.” Eu me virei. Parado a uns dez passos de mim, bem debaixo do clarão prateado, Ian tirava a camisa. Fazia pelo menos dez graus negativos ali, mas isso sequer parecia incomodá-lo, a névoa fria era como o vapor quente de uma banheira para ele, confortável e convidativa. Na noite fria, ele revelou o dorso coberto por cortes profundos. O sangue das feridas já havia secado e endurecido ao redor da carne lacerada. “Oh, meu Deus...”, cobri a boca com uma mão, mas a outra foi atraída na direção dele, para o corte aberto em seu lábio inferior. “Escute, Evy, eu não posso mais fazer isso”, sua voz soou baixa e irregular e seu hálito quente roçou a ponta do meu polegar. Ele parecia tão frágil agora, não fazia sentido. Isso foi o que mais me assustou. “Do que está falando?”, toquei com um beijo cuidadoso o machucado em sua boca, “Foi uma briga? Vai ficar tudo bem, vamos resolver isso.” “Você se lembra quando perguntei em que lua estávamos?”, a tristeza cobriu seus olhos de cinza chuva, eu não conseguia mais enxergar os lindos pontos dourados no fundo deles, “E quando tatuei você no escuro? Você disse que, se desse certo, eu não podia ser humano. Eu estava tentando te fazer perceber, sem ter que te assustar. Andei pensando em mil formas de fazer você descobrir, mas a verdade é que eu não queria precisar mostrar.” Fazia tanto silêncio. Estávamos tão distantes de tudo. Em meu peito, meu


coração começou a galopar mais depressa, pressentindo o clímax que meu subconsciente viera suprimindo, a expectativa de que enfim o dia chegara. O momento em que as meias verdades seriam enfim inteiramente reveladas. Esperava sentir medo. Depois de ter analisado o mapa lunar tantas vezes naquela noite, imaginei a mim mesma vivendo algo semelhante a essa cena, só que mais desesperada, mais dramática. Talvez não aceitando, mantendo o protocolo e as aparências, relutando estoicamente contra o abismo que me separava de Ian até o fim. E, no entanto, eu apenas estava ansiosa pelo que viria. Ansiosa para tê-lo. “Está tudo bem”, eu repeti, desejando que essas simples palavras envolvessem todo o meu estado de espírito. A bruma gelada deslizou sorrateira até nos abraçar por completo. Eu estremeci, sentindo o frio se alastrar por minhas entranhas como punhais. Era difícil até mesmo pensar, eu tinha certeza que jamais havia experimentado uma sensação tão dolorosamente congelante. Ardia respirar. Meus pulmões arranhavam como que preenchidos por agulhas, meu sangue parecia correr cada vez mais espesso em minhas veias... cada vez menos líquido... A despeito do estado de Ian e do que quer que tínhamos ido fazer ali, fiz menção de recuar. O frio acertava minhas bochechas feito socos. Foi então que a mão de Ian sobrepôs-se à minha, e ele fez com que minha palma encaixasse sobre a proeminência de seu peitoral. Eu tentei retirá-la; embora meu tato estivesse anestesiado, eu pressionava bem em cima de uma ferida. “Ian, não quero machucá-lo”, mas a pegada dele era firme, me manteve presa, os dedos colados em sua pele quente. “Preste atenção”, algo brilhou no fundo dos olhos dele.


Eu não me dei conta do que estava acontecendo até que ficasse evidente. Até que um leve formigamento debaixo da minha mão chamasse minha atenção. Não apenas debaixo da minha palma, mas no corpo inteiro dele, em todos os lugares feridos. Acho que, no fundo, esperava algo mais cinematográfico. Embora o que eu tenha visto não deixasse nada a desejar para os efeitos especiais das telas de cinema. Em choque, apenas assisti, incapaz de piscar. E mesmo depois que terminou eu não podia acreditar, mas foi claro e óbvio, ele se regenerou, os machucados fecharam, a pele se colou, voltando a ser lisa e perfeita, flexionando sobre os tendões, ossos e músculos. Cicatrizes da cor da prata surgiram onde antes havia carne exposta, fissuras brilhantes no castanho quente da pele, e lentamente, quase naturalmente, desapareceram por completo. O rosto dele assumiu novamente as feições que eu conhecia, marcantes e belas. Os olhos, no entanto, não eram dele. Um halo os envolvia, semelhante à luminescência que envolve a lua. Olhos sobrenaturais. Olhos que eu já tinha visto antes, no rosto raivoso do lobo que me perseguiu na noite do Festival. “Não tenha medo, Evy”, ele disse, e foi um espanto que sua voz fosse a mesma de sempre. Minha cabeça girava como que atingida por um taco de baseball. Acho que cambaleei para trás, porque ele de repente estendeu a mão. Eu ergui as minhas na defensiva. “Como fez isso?” “O frio. A névoa, o ar gelado”, ele soletrava cada palavra devagar e elas


soavam hipnóticas para mim, eu não conseguia me desprender delas por mais que meus sentidos de alerta gritassem para mim. O rosto dele torceu de leve num sorriso amargurado, “Whitehorse fazendo sua mágica.” Ian avançou na minha direção. O frio ainda turvava meus pensamentos, a névoa cobria tudo como num sonho. “Entende porque não queria mostrar?”, ele disse, respirando depressa agora, o halo brilhante ao redor das pupilas filtrando as emoções de forma sinistra, “E isso nem chega perto de ser tudo. É só uma boa oportunidade, a melhor maneira que encontrei de fazer a coisa certa. Evy”, ele se aproximou ainda mais, como se precisasse ter certeza de que nenhum detalhe daquilo me escaparia, “Está percebendo o que acabou de ver?” Balancei a cabeça, experimentando um misto de fascínio e descrença. Por mais que eu estivesse saturada de provas, mesmo que ele estivesse forçando a verdade bem diante do meu nariz, era difícil absorver. Os cortes haviam se curado em segundos, sequer um único hematoma sobrara. Na solidão da neve prateada, despido da cintura para cima, Ian Lycan era perfeito. Ele estava se revelando. Seu segredo era de fato aterrador, mas eu estava surpresa por não estar chocada e histérica como deveria. Meu coração parecia prestes a sair pela boca, minhas mãos tremiam, minha boca estava aberta e arfante de espanto, mas eu não sentia por Ian nada sequer próximo à repulsa. O que eu realmente sentia... era alívio. Em minha mente, girava uma lembrança, um lobo branco na neve, sujo de sangue. Depois daquele Natal, passei anos me achando louca por me importar tanto com um lobo esfomeado que eu provavelmente nunca mais ia ver na vida. E agora, finalmente, tudo se encaixava. Se soubesse, desde então, quem aquele lobo era, que guardava dentro de si a pessoa pela qual eu iria me apaixonar, não teria me censurado por tanto tempo.


Pensei que Ian podia ter escolhido mil formas de dizer a verdade e, no entanto, eu não conseguia imaginar nenhuma mais mágica, não quando ele me olhava como estava fazendo agora. “Estou assumindo todos os riscos agora”, Ian ainda falava, cada vez com mais urgência, embora eu tivesse parado de recuar. Olhava para ele sem conseguir piscar, sentindo um estranho nó de calor onde antes havia apenas frio inclemente, “Porque eu não acreditava que fosse possível ter o que quer que fosse com uma garota. Pelo que sou, pela minha natureza, pela raiva e pelo medo que sinto das pessoas. Eu via Kyle com Lianne e pensava que eram um erro, uma distorção. Mas nesse inverno, quando você chegou, eu a vi com Jenna. Estava lá quando ela nos alimentou, eu reconheci o seu cheiro, rastreei você. Consegue entender o que isso significa?” Eu balancei a cabeça, mais para uma questão que surgia em minha mente do que para o que ele estava perguntando. “Admita”, ele sussurrou. Não como um pedido, mas um comando gélido traído por uma nota de desespero. “Está tudo bem”, murmurei. Minha voz pareceu tão baixa e suave como quando eu lia para Liam. “Evelyn, eu preciso que você...”, Ian começou a dizer entredentes, com ímpeto, mas estacou e piscou, de repente pálido, “O que?” “Eu já sabia.” “Você...”, ele me olhava como se assistisse a um filme cujo enredo mudara abruptamente de rumo. “É claro que peguei os sinais. Todos eles. Sabia que havia algo estranho acontecendo com você e seus irmãos, eu podia sentir, acho até que, no fundo, sabia exatamente o que era. Quando você me tatuou no escuro, eu


tentei negar, mas só estava mentindo para mim mesma. Eu sabia, mesmo ali. Acho que descobri desde a primeira vez que nos beijamos. Não era nada parecido com beijar um cara comum”, eu encarei o chão um tanto triste, lembrando da sensação naquela tarde, de como meu peito havia se preenchido a ponto de doer e, ainda assim, existir a necessidade de ter mais, muito mais de Ian, “Você pode não saber, mas seu segredo emana de você, é tão fácil para mim sentir. Eu só não me preocupei em dar nomes e, de qualquer forma, quando eu tentava chegar perto do seu segredo, você recuava. Seja como for, queria que tivéssemos mais tempo.” “Como assim?”, algo na expressão de Ian oscilou. Toda firmeza e rigidez de seu rosto esmaeceu numa máscara de dor. Seu olhar ficou de repente muito, muito brilhante, coberto de umidade. “Eu teria tido pressa. Porque você está me deixando, não é?” Nós éramos tão bons nisso, entender nas entrelinhas. Intuir. Sim, acho que sempre intui que Ian nunca seria meu. Como dois elementos que não se misturam, mas coexistem, eu sempre o teria pelas beiradas, porque Ian não nascera para pertencer. “Você me trouxe aqui para me mostrar o que você é”, eu mal conseguia falar. O bolo em minha garganta estava me sufocando, mas colocá-lo para fora só me afogava mais e mais, “Mas a verdade é que você está indo embora. Afinal esse é o seu grande segredo e jamais o teria revelado se não fosse numa despedida, do tipo sair sem ficar para ver o estrago”, eu ergui a cabeça e o fitei abertamente, já sem me importar se meus olhos estavam cobertos de lágrimas ardentes e como eu devia parecer tola, “Porque precisa agir assim, Ian? É tão frustrante!” “Evelyn”, ele ia começar alguma coisa, mas perdeu o ritmo, como se o simples esforço de organizar as palavras o exaurisse.


“Porque tem tanto medo de mim?”, insisti, “Está me machucando para não ter que me ver deixar você primeiro? É assim tão mesquinho?” “Não é isso.” “É claro que é!” “Eu fui expulso do bando!”, a voz dele se ergueu sobre a minha, potente e súbita como uma avalanche. Sua boca se contorceu ao cuspir as palavras, “Por ter errado com meus irmãos, e por ter escolhido você! Eu poderia só ir embora, teria sido mais fácil, você nunca ia descobrir... Eu quase fui! Fiquei sentado naquele deck uma hora inteira pensando em como te contar, escolhendo as palavras e, na minha mente, desisti mais de dez vezes.” “Bom, não teria feito diferença. Se é tão importante para você colocar rótulos, coloque-os. Invente nomes, siga suas regras, mas não me obrigue a aceitá-las. Eu sou uma garota ordinária e você é um lobo. Soa melhor assim? Tem sua paz de espírito?” Ian abriu a boca e a manteve assim, gaguejando e me fixando com olhos perplexos. Ele dizia algo como você não é uma garota ordinária, mas nem me dei ao trabalho de responder. “O que importa é a razão pela qual decidiu me contar tudo agora. Eles te machucaram? Foram eles, não foram?”, eu gostaria de odiá-los, mas então lembrava dos rostos deles, Kyle, Matt, Liam e até mesmo Ethan. Conseguia sentir indiferença, mas não encontrei forças para nada além disso. “Não foi nada pessoal. Não é como você está pensando, foi uma escolha de todos nós...” “E tiveram que brigar?”, havia incredulidade debochada em minhas palavras.


Ian se calou, mas um reflexo feroz perpassou suas íris metálicas. Respirei fundo. A agitação da discussão e a consciência de que eu o estava perdendo me fez esquecer de minhas entranhas congeladas; elas agora pareciam vazias. “Esqueça”, limpei o rosto com a mão, “Eu me apaixonei por você, até pelo que estava escondido. E agora você está indo embora.” Um músculo do rosto de Ian repuxou para o lado, quase desenhando um sorriso em sua boca rígida. Nós dois nos olhamos em meio à névoa prateada, sem saber qual direção tomar agora que todos os caminhos estavam livres. “Você aceitou tão facilmente”, ele disse, parecendo maravilhado, mas então uma sombra negra apagou sua expressão. “Você não é uma pessoa ruim”, afirmei, “Era isso que queria dizer com a história do violinista? Acha que ser o que é te torna abominável?” “Talvez”, ele desviou os olhos, não sem que antes eu pudesse ver um lampejo diferente neles, “Eu sei o que sou, Evelyn. Você nunca conseguirá entender.” “Quando cheguei aqui, a cidade inteira os detestava, até mesmo minha tia. Eu mesma não encontrei motivos para pensar diferente depois que você me deixou esperando na porta do Baked. Mas então conheci Liam. E conheci você. Como posso odiá-lo pelo julgamento dos outros agora?”, pressionei a palma da mão em seu peito. Ian ergueu os olhos metálicos para mim, a tensão neles refletia as batidas de seu coração agitado, “Mas seus irmãos te julgam por ter me defendido. Devem me odiar o bastante para colocarem o que temos acima do que vocês têm.” “Eles só precisam de um tempo, os ânimos estão todos... exaltados. E não se trata só deles. Eu tive que fazer escolhas, não tinha como não fazê-las. Cada


uma delas.” A verdade que senti nas palavras dele tornou minha raiva inútil. Porque estávamos brigando quando a decisão dele não ia mudar? “Eu não posso te prender aqui...”, um gosto amargo subiu até minha boca e eu o engoli de volta, “Mas vou encontrá-lo. Pode apostar”, soava mais como uma ameaça, mas era a minha forma de mostrar que eu não desistiria. Não havia nenhum motivo para desistir de Ian Lycan. Ele colocou as mãos quentes e grandes na lateral do meu pescoço, erguendo meu queixo com os polegares como costumava fazer quando queria me beijar e eu estava aborrecida demais para pensar em romance. Dessa vez, porém, deixei que ele conduzisse minha boca até a sua. Seu corpo sólido era uma chama viva contra minha inércia, sua língua tomou a minha devagar, como num primeiro beijo. Na verdade, era mesmo nosso primeiro beijo. O primeiro em que ele era inteiramente meu. O único, depois de todos os outros atrapalhados, ofegantes e interrompidos, que se estendeu até o infinito. “Para onde você vai?”, murmurei entre seus lábios; as palavras foram imediatamente levadas pelo vento. Mas eu sabia, como sabia de tantas coisas que ele não me dizia, que ficaria sem resposta. Voltamos pela estrada em silêncio. Enfim acontecera. Ian não me diria hoje porque estava indo embora e, como de costume, eu não o pressionaria por respostas. Havia feito isso uma vez, quando seu beijo me deixou vulnerável e exposta, mas não cometeria esse erro agora. Agora, eu só precisava de mais tempo. Só mais uma noite. Mas quando desci da moto, desprendendo-me da solidez de Ian, me senti vazia e sem esperanças. O bolo de emoções preso em minha garganta finalmente se libertou em forma de lágrimas.


“Só me diga que não é o fim”, implorei delicadamente, parada ao lado dele. Ian se surpreendeu; talvez porque fosse uma reação sem cabimento, afinal. Nos conhecíamos há poucas semanas, nosso relacionamento nem mesmo chegou a se aprofundar. Eu sabia que estava sendo dramática e tentei engolir as lágrimas, mas meu peito apertava porque, apesar de não ser lógico, eu me sentia apegada demais a Ian. Ele segurou meu rosto entre as mãos e falou comigo num tom suave que eu jamais o ouvira usar com ninguém: “Não vou deixá-la, Evy, não poderia”, ele afagou minha bochecha, limpando as lágrimas que agora corriam livres. Embora a voz fosse gentil, os olhos exprimiam uma miríade de emoções, refletindo tudo que eu sentia. Ele ficava lindo assim, simplesmente se expondo, tão verdadeiro e único. Deslizei a ponta de dois dedos pelo maxilar de Ian e a pele dele contraiu ao meu toque; reconheci o gesto como algo contra o qual eu havia lutado desde que chegara em Whitehorse, mas ele respirou fundo e devagar e a tensão já não estava mais lá. “Eu preciso de respostas”, ele franziu as sobrancelhas, me olhando com veemência. Era estranho como podia ser tão reprimido e ao mesmo tempo tão intenso, “Nosso tempo aqui é curto. Vocês têm uma vida inteira, mas nós só temos alguns anos, e passamos grande parte deles tentando nos adaptar. Quando as questões mais importante surgem, já é quase tarde demais. ” Funguei, passando o punho da camisa pelo rosto. Algo no que ele acabara de dizer clareou subitamente minhas ideias. “O que quer dizer? Só alguns anos, como assim?” “Evy...”, Ian me fitou penalizado.


“Não, Ian, chega de meias verdades. Me conte, agora.” Ele soltou meu rosto, mas pousou as mãos em meus ombros, como se procurasse apoio. Levantou os olhos para cima, reflexivo, e então voltou a me encarar novamente, uma nova resolução fortalecendo suas palavras: “Esse ano talvez seja o último de Kyle. Ele tenta fingir que está tudo bem, que pode lidar com isso, mas agora que... Agora sei como é deixar alguém que importa. A sensação de estar sendo arrancado da família, das momentos bons, do calor do corpo de uma garota...”, Ian observou o próprio polegar deslizar pelo oco entre minhas clavículas. Eu lembrei do beijo que tínhamos dado na minha cama e soube, só de olhá-lo nos olhos, que ele também estava lembrando, “Ele vai perder tudo isso. Não porque escolheu, mas porque será tirado dele. Nós, Lianne, tudo.” “Porque só você precisa procurar as respostas?”, balancei a cabeça, de repente com raiva, “Estão sendo egoístas e...” “Nós procuramos, Kyle e eu, exaustivamente. Não achamos nada.” “Então porque?”, arregalei os olhos, incrédula. “Porque não quero e não vou acreditar que não existe saída. Vou procurar uma todos os dias, até o fim. Caso contrário, o que somos é uma condenação, e você me fez entender que isso é mentira. Não tem que ser assim. Então vou buscar minhas respostas, mesmo que Kyle já tenha desistido.” “E precisa ir tão longe?”, apesar de ele não ter confessado para onde ia, era óbvio que a solução não estava em Whitehorse, ou já teriam desvendado. “Na verdade, ainda não sei bem onde procurar. Não está nesta cidade”, ele fitou o horizonte, as colinas muito além, “Só sei que preciso sair daqui para encontrar o que quer que seja. É uma necessidade.”


Nossas testas se tocaram, os lábios se procurando numa carícia doce que tinha gosto de lágrimas, neve e orvalho. “Quando cheguei aqui”, falei, “tentei me aproximar de você, mas você nunca chegava perto o bastante, não importava o quanto eu me esforçasse, e quando o verão veio e nos conhecemos você fugiu de mim, do meu toque. Está tudo ligado, não é?” Esboçando uma reação, a expressão de Ian ficou complexa. “Estou a bem pouco tempo nesse mundo, mas é o suficiente para perceber o quão distantes vocês são uns dos outros. Aglomerados, mas solitários. Intensos, mas perdidos. Caóticos e sem rumo. Superficiais em suas necessidades, egoístas em seus desejos e brutos. É por isso que somos como somos, é o resultado de se viver entre os da sua espécie”, ele apanhou minha mão e a esticou sobre a própria palma. Elas repousaram juntas como dois corpos íntimos, “Mas você... você é uma criatura tátil, Evy, percebe isso? Afetuosa por natureza, e impossível de deter. Diz o que quer, enfrenta o que for com a calma de um rio vencendo as pedras. É claro, havia a atração física, porque você é magnética para mim, mas lidar com o seu afeto? Não era nem ao menos algo que eu soubesse como começar a entender.” Ian tocou com a outra mão as costas da minha, o indicador traçando o contorno macio de cada reentrância. Uma carícia gentil que ele estudou com olhos semiabertos na escuridão. “Mas naquela tarde em que beijei você, e aquele dia no meu quarto, não pareceu nada difícil”, falei, “Você... Nós poderíamos ter ido mais longe.” Tive a impressão de ouvir uma risada seca, mesmo não captando humor algum em sua voz: “Eu ainda não tinha conseguido contar para você, achei que não seria justo.


Se eu tivesse ido adiante, me odiaria agora?”, não era uma pergunta que Ian fazia na esperança de ser rejeitado, havia apenas um brilho real de curiosidade em seus olhos estreitados enquanto eles me avaliavam de perto. “Talvez”, sorri quando ele engoliu em seco, “Mas não iria me arrepender.” E com aquelas palavras, que eram a promessa de um reencontro sem data marcada, Ian me beijou pela última vez e partiu em sua Viúva Negra. *** Deitei na cama com a sensação de que duzentas horas haviam se passado desde a meia-noite, mas não correram mais do que duas horas. Eu tinha tantas perguntas para fazer e elas giravam todas soltas em minha mente, porque fizeram isso com você?, como começou?, o que significa? que erro tão grave você cometeu? Meus olhos ardiam, minha garganta apertava, minha cabeça era um galpão desorganizado que eu não sabia por onde começar a arrumar. No meio de tudo isso havia a ansiedade e a inquietação. Um calor vivo crescendo em meu ventre, a vontade de que Ian aparecesse ali de alguma forma, no meu quarto, porque a noite estava incompleta. A revelação de seu segredo nos ligara ainda mais, e eu precisava de uma comprovação física disso. Mas ele não subiu pela janela, como nos romances adolescentes. Não dormiu comigo, como eu esperava. E eu me sentia tão dolorosamente pronta. Depois de algum tempo uma sombra comprida surgiu no vão da porta. Eu estendi a mão imediatamente, como se um ímã me puxasse desesperadamente para ele, e Noah veio até mim, deitou com as costas


apoiadas nos travesseiros e passou o braço magro ao redor dos meus ombros. Eu solucei, deixando que as lágrimas se infiltrassem no lençol embolado em meu rosto. “Eu quero saber alguma coisa sobre isso?”, Noah murmurou no escuro do quarto. “Não.” “Obrigado.”


CAPÍTULO 28 IAN “...ISSO ESTÁ ME DEIXANDO maluca.” Kyle me encontrou sentado na RD350, no estacionamento da Yukon College, ouvindo a mensagem de Evelyn pela quarta vez seguida. Era bom ouvi-la falando. Ela tinha uma maneira peculiar de pronunciar as palavras, fazendo-as soar mais leves do que realmente eram, pedaços de algodão. Ele parou a Dodge poucos metros para a direita e desceu. Os coturnos pesados arranharam o cascalho enquanto ele caminhava na minha direção, as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta de motoqueiro. Entre as lapelas, a frase estampada em sua camisa preta dizia La Mafia. “Passou a noite aqui?”, a voz dele atravessou o ar modorrento do meio-dia, rouca e pastosa, anunciando uma noite tão mal dormida quanto a minha. “Não devia ter vindo”, guardei o celular no cós da calça. Kyle apontou o aparelho com o queixo. “Ela não vai esperar para sempre. Até mesmo a Evelyn, sua garota complacente, tem um limite e você está arriscando perdê-la, sabe disso.” “As regras do conclave são claras, membros debelados não podem ficar no mesmo território do bando, então cai fora.” Ele me encarou, totalmente de boa. “Nenhuma porra de votação vai me impedir de falar com meu irmão. Além do mais, você não precisa fazer isso, Ian. Essas regras são idiotas, quem disse que não podemos quebrá-las?” “Estou me fodendo para as regras.”


“É claro que está”, ele me olhou de lado, quase sorrindo, mas então assumiu uma seriedade solene, “Está sendo difícil, cara. Para todo mundo.” “Eu sei.” “Ontem falei com Lianne sobre... meu tempo. Ela não reagiu bem”, Kyle apontou uma pequena coleção de arranhões feitos a unha na lateral do pescoço, “Ficou emputecida porque não contei antes. Foi uma merda. E o pior é que ela tem toda razão.” Assenti. Sabia que ele estava me contando aquela história triste para me preparar para o que viria. Cedo ou tarde Evelyn me odiaria por deixá-la para sempre, assim como já me odiava por me afastar quando nosso tempo juntos escoava nas areias da ampulheta do destino. Eu passei a mão pelos cabelos e me ajeitei sobre a Viúva Negra, roçando a sola de um dos tênis sobre o acelerador e brincando de fazê-la rugir. Em algum lugar no estacionamento, a porta de um carro abriu e o som de uma música pesada para aquela hora da manhã ecoou pela área aberta. Eu e Kyle fingimos prestar atenção na letra por alguns segundos. Nós enterramos a luz do sol, nós enterramos a luz do sol... “Estou indo embora”, anunciei, embora fosse o esperado. Kyle pestanejou, os punhos se fecharam em bolas dentro da jaqueta e ele assentiu como se batesse a cabeça no ritmo dos acordes histéricos. “Não é por causa da votação”, ele disse através das mandíbulas retesadas. “É sim.” “Uma ova, Ian. Eu treinei você, seu idiota. Sei quando está mentindo e sei quando está planejando fazer merda.” Tinha sido exaustivo me despedir de Evelyn na noite anterior. A carga


emocional de nosso último encontro foi tão forte que eu ainda estava sentindo os efeitos; meu raciocínio lento tornava qualquer faísca de discussão uma mera ladainha. “Seu tempo está acabando”, expliquei devagar, “Alguém tem que procurar uma saída.” “Não existe saída.” “Matt está sofrendo demais até mesmo para existir, Ethan é...Ethan. Nada de perder tempo com o que é inútil. Pelo menos, é o que ele acredita...” “E é a verdade. Você não está sendo razoável, Ian, que merda!” “... e você precisa ficar aqui. Com Lianne e com eles. E procurar Liam, porque ele está por aí e eu sei disso. Eu não o matei, Kyle.” A porta foi fechada e a música bruscamente interrompida. Nos encaramos em silêncio. “Sabe, sempre me perguntei como se morre”, ele confessou de repente, “É o tipo de coisa que nunca sabemos, já que todos os outros antes de nós somem no último ano. Foi isso que a Lianne me perguntou ontem, depois da discussão. Se vou morrer assim ou... na outra forma.” “O que é pior?” “Para ela? Da outra forma.” “E para você?” “Dessa forma. Há mais consciência”, ele bateu o indicador na própria cabeça. “E quando você vai sumir, Kyle? Ela também te perguntou isso, não foi?”


“Eu não sei”, meu irmão fitou o asfalto sob seus coturnos e balançou a cabeça sem parar, como se estivesse decepcionado consigo mesmo por não ter respostas, “Ainda não senti.” Um lobo sente quando chega a hora. Ele sabe. Por mais que nenhum de nós tivesse passado pela experiência ainda, era uma espécie de conhecimento comum. “É isso que não posso suportar”, eu disse, “Não poder escolher morrer.” “Ninguém escolhe morrer, Ian.” “Mas as pessoas vivem sem saber quando acontecerá. É uma dádiva, não percebe? E quanto a nós?” “Ian, por favor...” “Eu quero viver, Kyle. Só isso”, eu apontei na direção da estrada que passava pela lateral do terreno da Yukon e seguia livremente até desaparecer entre o horizonte verdejante de pinheiros, “Já tentou sair daqui?” “Para fora de Whitehorse?” Eu assenti. Kyle tentou ler a lógica daquela pergunta no meu rosto e, quando conseguiu, continuou balançando a cabeça, dessa vez sorrindo. “Pare de ter ideias, Ian.” “É só uma experiência. Não posso ficar aqui de qualquer forma, Whitehorse é pequena demais para dois bandos.” “Não somos dois bandos, caralho. Você sempre será um Lycan.” “Se eu pegar essa estrada para o norte até o Alaska, acha que vou ter um colapso, me desintegrar ou algo do tipo?”


“Provavelmente não, mas vai ter um puta efeito colateral. Existe uma redoma ao redor de Whitehorse, a nossa redoma, e estamos vivendo nela há tempo demais. No inverno, nossa mente animal fica presa aqui, sentimos a barreira como um campo psíquico, mas como homens somos livres.” “Livres só até o próximo inverno.” “É isso aí. Então, você vai ter que voltar.” “E o que acontece se eu não quiser voltar?” “Eu não sei, Ian”, os olhos de Kyle me imploraram. Eu desviei a atenção para a pista outra vez para não sucumbir, “Fazer isso seria como brincar de roleta russa.” “Você já tentou?” A expressão de Kyle mudou, dava para jurar que estava encabulado, e eu me dei conta de que ele havia tentado desviar dessa pergunta. “É, eu tentei, no meu primeiro ano. Paul me deu uma surra por isso, mas eu estava me perguntando o mesmo que você, o que ia acontecer. Não fui muito longe. O fato é que, enquanto estava lá, correndo na estrada a mais de 120, louco para deixar esse maldito lugar para trás, eu senti como se estivesse cometendo um erro grave. Foi por isso que voltei. Na época pensei que era só culpa por ter desobedecido Paul, mas hoje acho que era... Por causa da Lianne.” “Como assim?” “Ela estava aqui, e eu a conheci logo depois. Claire também estava quando Matt se transformou, e Evelyn se mudou para cá. Não vê nenhuma coincidência nisso?” Acariciei um canino com a língua enquanto matutava nisso. Não, nunca


tinha visto que existia uma coincidência, mas agora que Kyle estava falando... “Mas Evelyn estava em Nova Iorque. É cruel pensar que ela só veio para cá no meu – talvez – penúltimo ano.” “Está esquecendo de Jenna. Ela nos manteve aqui também, de certa forma, nos alimentando quando teríamos facilmente morrido de fome. Vocês já estavam conectados, foi só uma questão de tempo.” Tempo. Era tudo o que não tínhamos. Não gostava de pensar que eu dependia de Evelyn, que estávamos invariavelmente conectados como marionetes de um plano maior. Isso não tinha graça. Existia um milhão de razões pelas quais eu me apaixonara por ela, e simplesmente inevitável não era uma delas, ainda que nossa atração inicial tivesse mesmo vencido meus próprios instintos. Também não gostava de falar sobre o que eu tinha com Evelyn com ninguém, nem mesmo Kyle, então mudei de assunto descaradamente. “Você disse que eles somem no último ano. E se eles não somem? E se Paul e todos os outros apenas descobriram uma maneira de viver além da barreira?” Kyle franziu o nariz. Era engraçado, mas mesmo quando sua expressão suavizava, ele não perdia a postura tensa e vigilante. A postura de um líder. “Isso sim seria do caralho, heim?”, ele murmurou, não levando fé, “E a sua garota?” Foi minha vez de rir. Senti um gosto amargo na garganta, como chorume. Empurrei o acelerador e acenei para Kyle uma despedida; já que a conversa não seria como eu queria, ela ia terminar.


“Ela ainda não é minha. E é melhor assim.” Comecei a manobrar para fora do estacionamento, deixando meu irmão para trás. Minhas próprias palavras ficaram ressoando em minha cabeça, ecos sombrios que no fundo faziam parte de uma consciência compartilhada. A liberdade é solitária.


CAPÍTULO 29 EVELYN ESTOU PARADA DENTRO DO carro, olhando, através do para-brisa do Corolla de Jenna, para a vitrine da lojinha de artigos místicos de Lady Blanca. Conto mentalmente os dias que se passaram desde que estive aqui pela última vez, torcendo para que, no final das contas, eu ainda esteja dentro do período de 28 dias e que ela ainda esteja aberta ao público. Desligo o motor e saio para o ar abafado de uma tarde opaca em Whitehorse. O tempo parado não sopra nenhum vento pelas ruas; embora as pessoas andem para lá e para cá, vivendo suas vidas pacatas, sento-me numa cidade fantasma. Na verdade, este mundo tornou-se um imenso pano de fundo descolorido atrás de um mais novo, mais vibrante e mais nítido. Um mundo onde as lendas existem e o inimaginável pode ser visto, tocado e sentido. O mundo onde Ian Lycan é o meu lobo. Empurro a porta carcomida e entro na loja. Como da primeira vez, ela está vazia, e começo a me perguntar, depois das revelações que me foram feitas, se essa loja é mesmo real, ou se só eu posso vê-la, se estava ultrapassando um portal mágico ao pisar sobre o assoalho antigo e bater a porta atrás de mim. Os cheiros me atingem – incenso, lavanda, dama da noite, terra molhada, flores do campo, mirra e o aroma agridoce do cravo da índia. Talvez eu esteja mesmo em outra dimensão, porque aqui tudo era mais intenso, como os perfumes de um verão indiano. Como num sonho. “Olá?”, diferente da primeira vez, não estou interessada em vasculhar a loja nem em comprar nada, então fico em pé no meio da loja, esticando o pescoço para olhar para além dos baús e bugigangas exóticas.


Ela surge detrás de uma cortina vermelha, amarrando um lenço branco ao redor da cabeça como se finalizasse um penteado. Sua beleza ainda tira meu fôlego, mas não é tão impactante à luz do sol quanto à luz da lua – o prateado lunar ressaltava sua pele cor de pérola e acendia o champanhe de seus cabelos. O sol apenas a descolore. “Olá, criança”, sua voz de sinos está tranquila, mas seus olhos translúcidos me encaram com gravidade e certa clarividência. Sei que ela sabe porque estou aqui, da mesma forma que sempre adivinhei que Ian era especial. Ela faz um gesto com as mãos delicadas, “Venha cá, vamos. Temos pouco tempo e precisamos começar do zero.” Eu a sigo. Subimos por uma escadinha lateral, estreita e escura, e me encontro no segundo andar, numa espécie de salão místico, mas simples. Peles de animais adornam as paredes, uma imensa tapeçaria indígena cobre o chão gasto, e lindas almofadas de couro curtido espalham-se sobre ela. Ao lado, um gracioso bule de chá fumegante nos esperava, com cheiro de hortelã fresca. “Venha”, Lady Blanca senta-se no tapete e cruza as pernas. Sua postura é impecável, ereta, tornando-a imponente e majestosa mesmo em sua estatura pequena. Enquanto me acomodo entre as almofadas, ela diz: “Comece.” Eu só consigo olhá-la, sentindo-me uma completa idiota. “Hm... Começar o que?” “As perguntas!”, ela bate nas próprias coxas e eu tenho a impressão de que pode ser bem indulgente quando perde as estribeiras, “Se não estiver disposta a ser totalmente sincera comigo, não gaste meu tempo. Só tenho vinte e oito dias e a lua está voltando neste exato momento.” Faço que sim com a cabeça, mas a verdade é que ser totalmente franca com alguém não é minha melhor qualidade. Detesto falar de mim, então passo o


foco para ela. “Quem é você?”, minha voz não passa de um sussurro, como se o que estamos para revelar aqui fosse um grande segredo cósmico. “Não”, ela maneia a cabeça, mas parece estar ponderando sobre minha pergunta, “Quem é você?” Não sei o que ela espera que eu diga, então só ficamos nos encarando, até que Lady Blanca fala: “Você é aquela que se sente sozinha, porque enxerga uma camada extra no mundo que ninguém mais vê, e isso a perturba. É a que compreende olhares, gestos, silêncios, sem que digam uma palavra. A que vê o futuro através do presente, a que espera, cuida e sacrifica. Foi assim a vida inteira, não é? Sem muitos amigos, isolada, reflexiva demais, posso ver nos seus olhos a tristeza da distância que impôs a si mesma para se proteger. Para proteger o que você tem aí dentro, mesmo sem entender o quanto é forte”, ela faz uma pausa e retoma, suave: “Você deduziu o calendário, não foi?” “Sim.” “Então sabe que existem os ciclos. O que acha que sou?” “Como eles? Como os irmãos Lycan?” “Mais”, ela murmura a palavra, soprando-a no ar para mim com um sorriso, “Eu sou os quatro elementos. A intercessão. Os dois gêneros. As três raças.” Ceeeeerto. Espero que ela não revele ser uma marciana. Isso seria muito brega. “Muito bem”, ela bate as mãos numa palma e espeta o ar com o indicador, “falta leitura”, Lady Blanca levanta, vai até o primeiro andar e volta com um livro grosso, cujas folhas amareladas já estão carcomidas nas extremidades.


Ela me passa o grande tomo e eu leio, sobre a capa grossa, as palavras marcadas com cinzel: MALLEUS MALEFICARUM – O MARTELO DAS FEITICEIRAS. “O que é isso?” “É sua enciclopédia. Sua história e a minha. Foi por causa desse livro que vim parar aqui, no Novo Mundo, que vocês agora chamam de América do Norte”, ela franze o nariz e lança um olhar de desprezo para o livro em minhas mãos, “Foi escrito em 1484 por dois malditos inquisidores. Foi por causa dele que a perseguição efetivamente começou. É claro, era mais fácil perseguir bruxas quando se tem um manual explicando como reconhecê-las. Naquela época, eu não podia imaginar o que era, não fazia ideia que a minha sensibilidade, os meus sentidos apurados, significavam alguma coisa proibida e não cristã...” “Espere, espere”, eu a interrompo abruptamente, porque a informação é descaradamente assombrosa, “Você estava lá? Em 1484?” “Querida, sinceramente, se ainda não assumiu tais fenômenos como eventuais, não sei o que veio fazer aqui.” Ela está certa. Preciso me lembrar de não esquecer de ser crédula. “Então”, ela retoma, enfática, “o que estes dois inquisidores fizeram foi descrever baboseiras do tipo: como reconhecer uma bruxa, como excomungála, derrotá-la, purgá-la e mais uma infinidade de absurdos hipócritas." “Como elas são?”, deixo escapar. Estou tão maravilhada que quero saber tudo, mesmo o que não importa. Lady Blanca me olha como se minha pergunta fosse uma mosca varejeira incomodando-a. “Basicamente, lindas. Ora, veja bem, essa porcaria foi escrita por dois


homens, numa época de pensamento tacanho, mesquinho e machista, acha mesmo que não existe uma razão por trás disso? Ruivas, com cabelos cor de fogo, tentadoras, olhos da cor do ouro, da cor do hálito de um dragão, o toque de vermelho, a cor do diabo, está tudo aí”, ela pisca um olho para mim, relanceando para meus cabelos, “Você teria sido desavergonhadamente condenada naqueles tempos.” Encaro o chão, sem graça. Como se zombasse de mim, meu cabelo desliza pela lateral do meu rosto e paira sobre meus olhos, as mechas flamejando na luz como fogo vivo. Eu o afasto com um movimento de cabeça irritado. “Além disso, você não deve esquecer que Eva foi e ainda é o maior símbolo da tentação masculina e a desgraça de toda a humanidade. Sob alguma influência, Botticelli sabia bem o que estava fazendo quando pintou sua Venus, ela é o retrato perfeito da beleza proibida e incompreendida”, Lady Blanca suspira, “Mas, apesar de idiotas, eles estavam um pouco certos, aqueles inquisitores. Não éramos mesmo como os outros mortais. Minha mãe era só uma curandeira num vilarejo pobre na Inglaterra, mas tinha os olhos dourados como duas pedras de citrino, e por isso foi perseguida e queimada viva por suas práticas pouco ortodoxas. Eu tinha uma vida comum no campo, com meu marido gentil e minhas filhas. Quando a Inquisição chegou, ele previu o que aconteceria e conseguiu nos colocar num navio que zarpava para cá, o Novo Mundo. Sabe, não lembro tão bem de tudo, minha memória deu para falhar de umas décadas para cá, mas nunca vou esquecer que perdi Jonam e nossa primogênita, Erin, nessa viagem maldita. Mas não só isso. Eu sabia que estava deixando meu nome para trás, Anne Marywather, e que devia esconder o que era para sempre. Embarcamos no porto de Londres com setenta e oito tripulantes, e chegamos no Novo Continente com apenas trinta e duas pessoas. Eu e minha filha mais velha, Gabrielle, estávamos entre os sobreviventes.” “Chegamos em pleno o inverno. Foram dias difíceis. Algumas famílias


seguiram com outras caravanas, mas eu e Gabrielle andávamos sempre com o grupo maior, era uma forma de conseguir proteção, mesmo que não inspirássemos muito afeto. Éramos mulheres de comportamento estranho, muito quietas, observadoras. Pessoas assim sempre foram e sempre serão perturbadoras, desencaixadas. Mas eu acho que, no fundo, eles pressentiam o que éramos, e tinham medo, e medo se transforma facilmente em ódio.” “Habitamos às margens de uma densa floresta. Naqueles tempos, uma menina nova e abandonada como eu logo era presa fácil para um homem mais velho, mas eles não conseguiam se aproximar de mim, nem de Gabrielle. Sempre que tentavam, algo esquisito acontecia, janelas batiam sem parar, fogueiras explodiam em chamas, panelas caíam, trovões riscavam o céu, qualquer evento assustador o bastante para repudiá-los. Eu mesma não sabia explicá-los. E, no meio desses eventos, surgiu algo... uma criatura...”, ela desenha um círculo sobre a felpa do tapete e suas palavras ficam carregadas de significados e emoções, “Que surgia para mim nas luas cheias. Um lobo branco, solitário, sem alcateia. Ele me acompanhava durante as caçadas e me protegia dos perigos da noite, sempre vigilante. Estava comigo quando eu precisava ir até o rio, banhar e lavar a roupa, espreitando entre as árvores qualquer presença masculina que tentasse se aproximar. Eu o encarava e via inteligência em seus olhos amarelos, e uma força vital e poderosa. Acho que, além de minha mãe, Jonam e minhas filhas, foi o único ser que se preocupou comigo e, por isso, eu o adorava, tanto quanto você o adora”, nossos olhares se encontram, o dela, intenso, transbordando adoração, tristeza e pesar. Sinto meu coração acelerar. A menção de Ian me deixa em alerta, mas também abre meus sentidos e quase posso enxergar a conexão de Lady Blanca com esse lobo, e é forte o bastante para me desestabilizar, “No fundo, sei que ele via em mim o que sou. O que todos adivinhavam, mas, diferente deles, eu não o repugnava. É uma estranha ligação que temos com a natureza, como se falássemos a língua primordial que ninguém mais fala, ninguém mais escuta. Mesmo sendo mulher e animal, nós nos entendíamos. Eu jamais o toquei, ele


não permitia, mas sua presença era mais marcante em minha vida do que a de qualquer pessoa, até mesmo Gabrielle. Ela era uma garotinha esperta, mas bem longe de ser adorável. E então, aconteceu o pandemônio.” “Todos falavam na vila que uma criatura abominável estava atacando as moças. Era um ser amaldiçoado que chegava nas luas cheias invadindo as casas das famílias e roubando a inocência das pobres virgens. É claro que você, a essa altura, já consegue entender a complexidade das lendas, não é? São só mitos criados para proteger verdades que não poderiam ser ditas. E, veja só, a verdade era que havia um homem, Lucius, cujo olhar malicioso eu já havia interceptado muitas vezes, inclusive na direção de Gabrielle. Ele não tinha coragem o suficiente para se arriscar com ela nem comigo, mas infelizmente não acontecia o mesmo com as outras garotas. Acho que, justamente por sermos tão inatingíveis para ele, foi justamente contra mim que ele se voltou, dizendo que eu havia atraído o demônio para a vila deles, que eu era uma bruxa que conversava com lobos, animais impuros. Eu já não conseguia sair de casa sem ser acusada, apedrejada e até mesmo agredida. Mas eles não tinham provas, não podiam realmente me julgar. Até que, numa noite, enquanto eu voltava da floresta, eu vi. Era ele, entrando na casa de uma viúva cuja filha acabara de completar treze primaveras. Eu o persegui, pronta para denunciá-lo, mas o mundo não era justo ainda então, e eu era fraca, tinha apenas a minha palavra contra a dele, um homem trabalhador e tido como honesto por todo o vilarejo. E quem eu era? Quem falaria por mim? Foi fácil para ele dizer que eu era o monstro. Eu incitava o diabo a corrompêlo, ele era a vítima e fez um verdadeiro espetáculo. No fim, fui julgada, amarrada à fogueira e deixada para morrer na manhã seguinte.” Estou estarrecida demais para falar, mas minha expressão fala por mim, porque Lady Blanca estende a mão e acaricia meu rosto, um gesto de reconforto. “A vida sabe ser grata a quem a respeita, querida, não fique tão aterrorizada.


Eles cometeram um erro, mas eu não tinha culpa, e foi meu lobo quem me salvou. Ele surgiu quando todos haviam se recolhido e mordeu as cordas para me soltar. Eu fugi para a floresta, deixando para trás uma fogueira pronta para arder, um vilarejo que me detestava e uma vida de infortúnios. Mas eu havia sido machucada demais por dentro e não consegui me recuperar. Perder minha mãe, Jonam, Erin... Gabrielle Marywather podia ser inteligente e astuta, mas era só uma garotinha, era quase impossível que sobrevivesse sozinha, e bonita demais para o próprio azar. Se não tivesse o mesmo destino que eu, a fogueira, teria caminhos talvez ainda mais dolorosos. Eu queria morrer. Não existia mais nada para mim neste mundo, apenas escuridão e maldade. Foram dias e noites vagando, esperando pelo fim. Meu lobo me perseguia, trazia lebres e esquilos mortos, mas eu não sentia fome, não sentia nada. Quando enfim a morte chegou, eu apenas desejei estar segura e, de algum modo, ainda ser pura, apesar de tudo o que haviam me acusado. Eu só rezava para não odiá-los, para que meu coração ainda fosse bom, mesmo por debaixo de tanta dor.” Lady Blanca está olhando pela janela, a luz incidindo diretamente sobre seu rosto claro, ressaltando seus traços fortes, mas femininos. Com olhos que não são os mesmos que enxergam, e sim os que sentem, percebo sua aura poderosa de eras e imensa sabedoria. Ela pisca demoradamente, como que acordando de um sonho, e se volta para mim. “Quando acordei, corria sobre quatro patas. O que eu era, a minha essência, estava amalgamada num corpo que reconheci de imediato. O meu lobo. Ele concedeu a mim a única coisa que sua condição animal possuía, a solidez de um invólucro, a agilidade, o instinto de sobrevivência. Seu sacrifício me tornou imortal. Essa foi a magia da vida para mim, o meu milagre. E ele perdura até hoje.” “As cidades cada vez maiores, o barulho, a hostilidade, os carros e a indústria, vi tudo isso começar e crescer ao longo das décadas, e corri para longe,


escapando do perigo, em busca de um lugar seguro. Foi assim que me estabeleci aqui, quando essa cidade era só uma planície vazia, um ponto distante e isolado o bastante para ainda ter lendas, mitos, crenças. Um lar para minha magia.” “Você é a origem”, consigo murmurar. Não estou mais chocada. Há uma serenidade solene pairando no ar através das partículas douradas de poeira que descem até nós, elas formam uma cortina cintilante por entre a qual nossos olhares se encontram. “Sim.” *** O chá morno é um bálsamo para minha mente agitada com tantas perguntas; Lady Blanca está quieta diante de mim, servindo uma segunda xícara para si, e enquanto a observo, de repente sei qual é a pergunta mais urgente: “Você entendia o lobo.” “Precisamente.” “Como?” “Através da mente. Você já faz isso, só não se dá conta.” “Ian está... ele foi... para algum lugar longe daqui. Preciso, quer dizer, eu gostaria de conseguir me comunicar com ele.” “É claro”, ela pousa o bule sobre o tapete, mexe o chá com a colherzinha sem a menor pressa e o beberica. Quero sacudi-la de tanta ansiedade, “É só dormir.” “O que?”


“Dormir”, Lady Blanca repete sobre a borda de porcelana da xícara, “É quando nossa mente fica mais aberta e suscetível. Você pode procurá-lo durante o sono; se ele também estiver dormindo, podem construir um cenário e se comunicar, mas se ele estiver acordado, será apenas como ver um filme à distância.” Santo Deus. Será que todas as teorias malucas sobre sonhos lúcidos são verdadeiras? “Isso é possível? Posso fazer com qualquer pessoa?” “É claro que não”, ela me olha com espanto, o rosto jovem de repente perplexo, “É preciso um grau de intimidade muito grande para se ter acesso à mente de alguém, mesmo no sono. E por intimidade não quero dizer contato físico, e sim empatia verdadeira e pura, o tipo de coisa bastante rara de se ter com alguém.” De repente fico agitada, como se estivesse andando à beira de um abismo cheio de possibilidades. “Como faço para chegar até Ian assim?” “Você vai precisar de algum treino, certamente. Mas sendo como eu, pressentirá o caminho certo. Para começar, deixe a mente limpa antes de dormir, leve e vazia o bastante para ser como uma folha em branco, pronta para ser preenchida. Na verdade, estou dizendo besteiras: é na escuridão total que encontrará a força vital do seu garoto, e ela brilhará como uma chama. É lindo, você vai gostar. Em sonhos, experimentamos o mundo com outros sentidos, bem mais intensos do que estes aqui”, ela toca os próprios braços, e todos os seus gestos são graciosos e pacientes, “Sua mente vai atrás do que seu coração quer, então sinta-o aqui”, ela toca o próprio peito, “E, quando os olhos de sua mente se abrirem, do outro lado, você estará com ele.” Parece fácil. Mas sei que é impossível.


“É só um primeiro momento”, ela explica, prevendo minha pressa e franzindo os lábios num sorriso que forma covinhas em suas bochechas claras, “Existem muitos níveis a serem alcançados, vai levar anos, mas com a prática você poderá entrar em qualquer mente, em qualquer estado, a qualquer momento. Mas não pense nisso agora, é uma etapa difícil e desgastante, algumas de nós nunca chegam a conseguir.” Lady Blanca deu uma piscadela de um olho só para mim. Essa foi a última coisa que registrei antes que ela, as almofadas coloridas, o chá perfumado e a lojinha inteira escoassem para fora da minha mente feito um punhado de folhas levadas pelo vento. O relógio do meu celular marcava cinco e vinte da manhã, e o céu lá fora era daquela suave cor azul, serena e aveludada. O cheiro de Noah ainda estava no meu travesseiro, roupas limpas, shampoo de hortelã e sal, assim como a umidade das minhas lágrimas. Um sonho. Em minúcias, cheio de cores vibrantes, formas e texturas. Fiquei encarando o nada, tentando reter todas as informações em minha mente, mas eram tantas que parecia como tentar agarrar muitos peixes com as mãos; as lembranças de debatiam e fugiam. Empurrei os lençóis para longe e me tranquei no banheiro. Achei que um bom banho quente pudesse me ajudar a organizar toda aquela loucura, mas o som da água caindo só me deixou mais ansiosa, e fez saltar em minha mente detalhes preciosos que brilhavam em meio à névoa do sonho feito pérolas na areia. Gabrielle. Gabrielle Marywather. Esse nome tamborilava insistentemente na minha cabeça da mesma forma que a água. Gabrielle Marywather podia ser inteligente e astuta, mas era só uma garotinha, era quase impossível que sobrevivesse sozinha, e bonita demais para o próprio azar. Se não tivesse o mesmo destino que eu, a fogueira, teria caminhos talvez ainda mais dolorosos. E se não? E se, afinal, ela tivesse conseguido fugir?


Durante o café da manhã, mal escutei a conversa animada de tia Jenna com Noah. Ela reclamava alguma coisa sobre eu não largar o celular, mas a verdade é que eu não estava neste mundo agora. Passei meia-hora fazendo uma busca na internet e o fato de ter encontrado o que andei procurando me chocou. “Preciso imprimir uma coisa”, declarei, já apanhando minha bolsa atrás da porta. Tia Jenna pareceu perturbada, “É um trabalho da faculdade.” “Ah, certo. Acho que tem uma impressora no consultório de Carl. Porque não passa por lá?” Olhei para Noah, empoleirado num dos bancos altos da bancada da cozinha americana, o cabelo espetado atrás e a gola larga da blusa deixando exposto o pescoço alvo. Olheiras azuis decoravam seus olhos úmidos de sono e as sobrancelhas estavam bagunçadas sobre a armação dos óculos. Ele me lembrava Liam agora, no pijama de flanela. Eu o abracei por trás para beijálo no alto da cabeça. Cheirava a travesseiro e ovos mexidos de Jenna. “Obrigada”, murmurei em seu ouvido macio. Ele se remexeu de má vontade e resmungou alguma coisa, rabugento, “O que vão fazer hoje?” “Trilha”, anunciou Jenna alegremente. Mamãe teria achado o fim do mundo ter que fazer qualquer coisa que envolvesse natureza, mosquitos e suor, mas Jenna ficava radiante com a possibilidade de passar algumas horas com Noah, mesmo que ele retribuísse como a mesma empolgação de um zumbi. “Você pode vir com a gente se quiser. Vamos fazer aquele caminho pelas montanhas. Noah quer ver Whitehorse de cima.” “Ah, obrigada, mas preciso mesmo terminar esses trabalhos da faculdade.” Ela esticou o braço por cima do balão para afagar meu rosto, trazendo junto o aroma dos morangos recém fatiados que acabara de preparara para Noah.


“Tudo bem. E, antes que me esqueça, Lizzie comprou as suas passagens.” “Minhas passagens?” “Ela quer que você passe uns dias em Nova Iorque”, explicou Jenna, servindo uma taça de frutas frescas diante de Noah, “Está com saudades.” “Na verdade, ela tem um plano”, ele arrematou, inexpressivo, mas então deu um sorrisinho incontido, “Um evento beneficiente. Tudo não passa de tortura.” Jenna riu, mas eu revirei os olhos e meus ombros despencaram. Os eventos beneficentes de mamãe costumavam ser luxuosos e recheados de gente chique e metida. Eu fora apenas em um até hoje, mais precisamente quando fiz quinze anos, ocasião em que ela encomendou um vestido de gala para mim, azul marinho e cravejado de swarovskis. Foi a festa mais chata da história, com músicas que não davam para dançar, muita gente mais velha falando sobre política, fofocas de Hollywood e cirurgias plásticas, canapés esquisitos e apresentações sem fim. Só muito depois fui descobrir que ela tinha feito o evento para me apresentar à sociedade, e quase morri de vergonha. Noah até veio esfregar na minha cara uma nota que saíra no jornal, com minha foto tirada por um paparazzi enquanto eu subia as escadas do salão, toda ombros magricelos e boca. A manchete dizia FILHA DE ELIZABETH SAINTCLAIR DEBUTA, e passei três semanas inteiras sem falar com mamãe. Fiquei imaginando qual seria agora o motivo de me arrastar para suas festas extravagantes. Meia-hora mais tarde, Carl me olhava de soslaio enquanto eu observava absorta sua impressora chacoalhar e chiar, depositando meu material impresso na bandeja. Fingi o tempo inteiro que não havia nada de errado em imprimir um material como aquele, mas acho que nosso fingimento mútuo já estava ficando descarado.


A impressora entregou a última folha e descansou com um estalo alto de alívio. Organizei as folhas com cuidado, abracei o bloco grosso contra o peito e virei para encarar Carl. Sua expressão era uma mistura desconcertante de perspicácia e divertimento. “Obrigada”, falei, forçando um sorriso amarelo. Carl acenou na direção da impressora. “Disponha.” De volta ao Corolla, coloquei o amontoado de folhas em meu colo e fiquei encarando, incrédula e extasiada, o título em letras grandes na primeira página. Malleus Maleficarum. Parecia muito com algo que um cara de dois metros de largura por três de comprimento tatuaria no bíceps, cercado por caveiras e cobras. Decididamente não era um livro que eu deveria estar ansiosa para ler. Quando voltei para casa, Jenna e Noah já tinham saído. Larguei a bolsa e o material no sofá e percorri os dedos ansiosamente pela prateleira de livros. A folha dobrada estava no mesmo lugar que eu colocara antes. Meio trêmula, sentindo meu coração acelerar de expectativa, abri a folha sobre a mesinha de centro de Jenna e me ajoelhei diante dela. Percebi o padrão familiar de uma árvore genealógica, cheia de nomes e ramificações. O nome que encabeçava a lista era o de Gabrielle Marywather, e não me surpreendi com isso. Depois dele, havia uma porção de ramificações sem nome, como se a pessoa que montara a árvore tivesse percorrido um caminho infrutífero em suas pesquisas a partir daquele ponto. E então, um par de nomes novos, Adele Marywather e Patrick Smith, 1828, Nova Orleans. Depois deles, a árvore estava totalmente preenchida, com datações às vezes rasuradas. Em 1989, os registros dos nomes passavam a ser de Nova Iorque. O sobrenome Marywather acompanhava sempre uma mulher e, por coincidência ou não, sempre havia uma mulher em cada geração. Às vezes,


todas as descendentes eram mulheres. Ao final da lista, havia: Elizabeth e Jennifer Marywather. Não havia sobrenome para mamãe, ambora estivesse ligada a Scott SaintClair, como se ela não tivesse sido marcada com a descendência. E, abaixo do nome delas, sem ramificações, apenas flutuando solto ao pé da página, o meu. Evelyn M. SaintClair.


CAPÍTULO 30 IAN REFLETIDA NOS RETROVISORES, WHITEHORSE ia ficando para trás à medida que eu acelerava, fazendo a Viúva Negra rugir entusiasmada – para viver como um garoto, eu precisava sufocar partes indomáveis em mim, mas não a minha RD350; ela jamais se reprimia. Uma devassa, minha cara metade em duas rodas. Mas a necessidade por velocidade cobrou seu preço e precisei parar para abastecer na saída da estrada antes do que previa. Depois de estacionar em frente à máquina, fui até a loja de conveniência para pagar. Estava vazia para a alta temporada, mas tão melhor assim. Peguei um pacote de bacon frito e cheguei até a balconista, uma colegial albina que tentava esconder os cílios brancos abaixando a aba do boné até o nariz. “Dezessete dólares na bomba dois”, anunciei em meu modo mais amistoso: o monotonal, deslizando o pacote de bacon na direção dela, junto com duas notas de dez, “E isso aqui.” Ela levantou o boné alguns centímetros e por um momento ficou em dúvida entre contar o dinheiro e encarar os meus olhos, e eu facilitei para ela ao virar a cabeça para o lado e espiar a paisagem vazia por trás dos vidros. Na verdade, agora que tinha outro cliente lá fora, o posto não estava mais tão abandonado, especialmente porque o carro parado logo atrás da Viúva Negra era uma caminhonete Toyota modelo antigo, toda grandalhona e musculosa como um Rocky Balboa. O motorista se curvava para frente, parecendo mais interessado na minha moto do que em encher o tanque. “Dezoito dólares”, a garota murmurou, “Você usa lentes de contato?” “Não. Fique com o troco”, peguei o pacote de bacon e saí da loja gritando


para o cara lá fora: “Ei! Ei, você!” Ele se endireitou na hora. Meus alertas piscaram mais do que sirene de ambulância em dia de ano novo, e acho que isso, afinal, o intimidou, porque ele recuou e ergueu as palmas das mãos na defensiva. Ethan gosta de dizer que exalamos o cheiro do perigo quando estamos realmente putos, o que eu acho que concordo. Pelo menos, até hoje poucos sujeitos insistiram em continuar na minha frente quando entrei no modo fodeu. Como neste exato segundo. “E aí, cara? Desculpe, só estava olhando o modelo, é mesmo uma RD350?” Ele era quase tão alto quanto eu, usava calças escuras surradas e justas nas coxas fortes e compridas, camisa desbotada e uma jaquetona de motoqueiro cheia de espiques nos ombros e nos cotovelos, como um imenso porco-espinho. A pele morena, quase tão escura quanto a de Kyle, era curtida na região dos olhos e da boca, mas embora sua aparência geral seja descuidada, a barba espessa ao redor do queixo era brilhosa, pontilhada de fios brancos. Depois de encarar seus olhos amarelados, observei as esporas afiadas em suas botas, deixando claro que o registrara de cima a baixo. “É”, respondi sem rodeios. Ajustei a mangueira no tanque da RD350 e selecionei o combustível mais barato. A bomba disparou após ter sido liberada e meu tanque começou a encher. “Maneiro, cara”, ele sorriu, parecendo realmente fascinado. Quando apontou para a Viúva Negra, notei tatuagens no dorso dos dedos, mas não consegui identificar o que são, “Sabe, não vejo uma dessas por aqui desde que lançaram aquelas porcarias a preço de custo. São umas merdas, sucatas descartáveis, mas isso aqui é uma máquina, de verdade. Parabéns.” Dei um passo à frente, invadindo seu espaço pessoal num gesto do tipo:


está na hora de cair fora, babaca. Ele se abaixou para olhar o calibre dos meus pneus. “Você é do tipo colecionador?”, comentou, a cara enfiada entre os cilindros de nitrogênio que instalei junto com Kyle no verão passado, “Sabe, que cuida e aprimora? É, você é”, ele assente para si mesmo, rindo. Seus caninos são protuberantes e muito brancos, dando a seu sorriso um ar zombeteiro e predatório que eu mesmo já vi muitas vezes em meu próprio rosto, “Eu gosto de motos. Já tive centenas, também brincava com elas, acoplando peças, turbinando os motores... dá para ganhar um dinheiro, mas aqui em Whitehorse ninguém liga para o quão refinado é seu conhecimento sobre máquinas. Aqui as pessoas só sabem fazer biscoitos natalinos e pescar. Uma merda.” Enquanto ele falava, a bomba travou, avisando que meus dezessete dólares se foram. Desencaixei a mangueira e a devolvi ao suporte. Atrás de mim, o cara ainda perguntava: “Sei que não vai fazer isso, mas por quanto venderia essa garota?” “Pelas suas bolas numa bandeja”, sussurrei, mas ele escutou e arregalou um pouco os olhos. Ergui a perna para passar por cima da moto e o movimento o sobressaltou quando a sola do meu coturno deslizou a menos de um palmo de seu queixo. Ele ficou de pé e se afastou num salto, a expressão um tanto atordoada. “Qual é, cara, só perguntei...” Minha resposta foi o ronco da Viúva Negra abafando sua voz – e ela sabia como rugir quando estava de mau humor. “Caralho”, ele resmungou, ofendido ou admirado, mas não senti nenhum pesar.


*** Vinte minutos após ter deixado o posto de gasolina, os indicadores no painel da Viúva Negra começaram a oscilar desgovernados. Desacelerei, prevendo uma pane ou curto circuito. Que merda. Todo o planejamento de estar fora do estado de Yukon pela manhã foi por água abaixo. Parado no acostamento, verifiquei os pistões, as correias, os freios. Tudo parecia ok, mas obviamente não estava. Se Kyle estivesse aqui, sua mente teria encontrado o problema e a solução em segundos; ele aprendera com Paul a falar a língua das máquinas. Digitei uma mensagem de texto para ele: Deu merda com minha garota negra. Os indicadores do painel estão malucos. Que porra é essa? Mal terminei de enviar e eu e minha moto fomos iluminados por fachos de faróis que banhavam todo o acostamento de cascalho, a floresta atrás de mim e a pista sem fim. Pestanejei para a luz até conseguir discernir o formato de uma grande caminhonete Toyota se aproximando devagar. Ela emparelhou comigo, os vidros desceram e um par brilhante de olhos ambáricos me encarou do breu da cabine. “E aí” o cara disse com um sorriso cretino. Maldito filho da mãe, “Tendo problemas?” Em minha posição, recostado na RD350 de braços cruzados, sustentei seu olhar, pensando no porquê de detestá-lo tanto quando, racionalmente, todo o mal que ele me fez foi ter elogiado minha moto. Mas não era só o fato de detestar pessoas que me impelia a repudiá-lo, era a estranha sensação da familiaridade. Eu o conhecia. E o erro imperdoável estava em não conseguir lembrar de onde. Droga. Ficar longe de Evelyn fazia meu temperamento ruim aflorar como um par de asas negras à minha volta, tornando tudo mais embaçado e


estressante. Ou quem sabe simplesmente fosse o calor. “Ei”, acenei para ele de volta. Meu tom já não era tão hostil, e meu orgulho gritava para que eu o escorraçasse sem piedade, mas a situação não me favorecia e eis uma coisa que deve-se aprender sobre nós: somos sumariamente interesseiros, “Você entende dessa merda?” Ele ergueu as sobrancelhas e franzia a boca numa careta. “Posso dar uma olhada. E aí, qual vai ser?” “Tudo bem”, desencostei da lateral da moto para dar espaço para que ele descesse da caminhonete e se aproximasse. Esperava que fizesse alguma gracinha por conta da minha postura grosseira no posto de gasolina, teria sido justo, mas ele apenas analisou a Viúva Negra como Kyle teria feito, concentrado, paciente e meticuloso. Sob o clarão dos faróis, identifiquei as tatuagens em seus dedos parcialmente cobertos pelas luvas de couro: a palavra ROMA. A tinta preta reluzia oleosa sobre a pele, como as escamas de uma cobra. “O que significa?” O cara ergueu a cabeça para me encarar, mas seu rosto ficou submerso na luz. Da luz, veio a voz: “Exatamente o que diz.” Eu poderia ter achado a piada engraçada, se as tatuagens não me incomodassem de verdade. Lembravam as etiquetas nas prateleiras da biblioteca de Paul, ordenadas com números romanos em vez da tradicional ordem alfabética. “Sou Lars, aliás”, ele falou por sobre o ombro ao perceber que era analisado, “Não tem nada com sua moto, cara”, Lars terminou de avaliar os


pedais antes de ficar de pé, “Seja o que for que esteja causando isso”, apontou para os painéis desajustados, “não tem nada a ver com a mecânica. Talvez seja algo na bateria.” “Certo.” “Olha, podemos tentar ir até a próxima cidade, mais ao norte. Existe uma oficina boa na Klondike Highway. Está fechada agora, mas conheço o dono, posso dar um jeito, é só colocar sua garota na traseira da caminhonete. Fica há uns quinze minutos daqui.” Meu lado preferido dizia para que eu recusasse a oferta e esperasse por Kyle, meu irmão, alguém em quem confio, mas meu lado manso, aquele que aprendeu com Evelyn SaintCalir a ser mais humano e cordial, me falava para baixar a guarda e ir com Lars até a maldita oficina. Além do mais, se Kyle viesse até aqui, eu corria o risco de ser arrastado de volta para Whitehorse e não podia ficar. Continuar aqui seria estar parado e não há mais tempo para qualquer coisa que não seja a busca por respostas. Foi isso, mais do que tudo, que me fez responder: “Vamos lá.” Ele me ajudou a colocar a Viúva Negra na traseira da Toyota e então entramos no carro e partimos. Ainda estou me perguntando quanto isso vai me custar. Se alguém ameaçasse minhas bolas e tentasse chutar minha cara, eu cobraria caro por um favor. Caro o bastante para fazer sangrar. *** O rádio de Lars estava sintonizado numa estação de rock, mas no volume baixo, e o que predominava no carro era o silêncio dos que se toleram. “Sou Ian.”


Lars olhou na minha direção como se tivesse esquecido que me deu carona. “Ah, sei. Dos irmãos Lycan, não é? Vocês são uma lenda por aqui, cara. Foi mal pelo que falei no posto de gasolina, se soubesse quem você era teria ficado na minha”, ele riu. Os dentes são erroneamente brancos, em desacordo com o resto da aparência desleixada. “Porque?” “Todo mundo sabe que vocês são... reservados.” “É uma forma nova de interpretar a palavra escrotos.” “É isso aí”, e ele passou a mão pelo cabelo. O corte é moderno, quase raspado nas laterais e um pouco maior na frente, as mechas negras caindo sobre a testa lisa como o quepe de um policial. A música foi interrompida por anúncios e, quando o locutor retomou, começou a passar o boletim de informação do dia. Um aviso sobre o trânsito nas principais rodovias da cidade. O clima. Os horários de visitação dos parques, uma chamada para doação de sangue do posto médico de Whitehorse. Sobre a voz lacônica do locutor, um uivo prolongado se estendeu na noite lá fora, e eu praticamente descolei as costas do acento. “Puta que pariu”, Lars murmurou, interpretando minha reação como susto, “Isso é de arrepiar, não é? Toda vez que escuto esse som fico com um cagaço dos infernos.” Desliguei deliberadamente o rádio. “Está perto.” “Espero que não. Não estou a fim de atropelar nenhum maldito lobo essa noite.”


“São só lobos”, engoli em seco. Não reconheci Liam naquele som, mas isso não significava nada – também não o reconheci na noite da transformação inversa, nem ele a mim e, no entanto, foi nele que atirei. “Você sabe o que estão dizendo? Que tem um lobo rodando pela região, ele foi visto no quintal de uma moradora, atacando os coelhos de estimação dela”, Lars balançou a cabeça, mas não dá para saber se está mesmo debochando. Havia algo estranhamente caloroso no modo como ele falava, uma cadência tranquila e forçada. O carro cheirava a ração velha, plástico queimado e comida mofada; um cheiro quase artificial de tão forte, como o perfume mentolado de Adrian. “Não, não escutei nada disso”, virei para o outro lado. Pelo reflexo do espelho escurecido pela noite, Lars me observou atentamente. “Todo mundo está falando. Parece que não é um lobo normal, dizem que é... deformado. Os olhos como o inferno. Dá para acreditar?” “Não.” “É”, ele riu, “acho que não. Mas Whitehorse tem dessas coisas, cara. Não tem nada de mágico aqui.” O modo como ele diz isso soa como um assassino entoando uma prece. O uivo se repente. Minha espinha dorsal se esticou debaixo da minha pele, como se minha alma estivesse saindo do corpo, puxada pelo magnetismo daquele apelo familiar. Outro uivo. “Merda”, Lars cantou, os olhos fixos na estrada, “Calem a boca, calem a boca.” Mas ele não parecia estar com cagaço algum. Seu medo era uma espécie de


seda fina encobrindo uma couraça áspera de ansiedade e agitação. Obriguei-me a recostar de volta no acento, mas todos os músculos do meu corpo estavam rígidos de agonia. Meu coração disparou de um modo ruim, apertando ao mesmo tempo; a sensação geral era de risco, desespero e sufocamento. Meus batimentos descompassados refletiram em minhas costas imprensadas contra o estofado. Lembrei do que Kyle dissera sobre os efeitos colaterais de ultrapassar os limites de Whitehorse. Queria acreditar que era isso. “Você está bem, cara?” Lars lançou olhares desconfiados para mim quando agarrei o puxador acima da porta com força total. Em vez de responder, me concentrei em respirar. Minha camisa começou a encharcar na gola, um calor incandescente tomou minha pele como se ácido puro atravessasse minhas veias. Isso estava intenso demais para ser só um efeito colateral. Volte, minhas células gritavam através da súbita lucidez que tomou meus sentidos. Não, não era isso. Saia daqui, era o que estavam me dizendo. Saia A-G-O-R-A. No bolso traseiro da calça, meu celular vibrou. Eu o apanhei com as mãos trêmulas. Kyle respondeu: Nada demais. É efeito magnético. As vezes acontece pela proximidade do polo norte. Está tudo bem com sua garota. Você deve estar bem longe agora, fora do perímetro da cidade. Efeito magnético. É claro. Qualquer um que entenda de verdade de


máquinas e more aqui deveria saber disso. Eu mesmo deveria saber, se não tivesse passado a vida inteira preso em Whitehorse, se fosse um cara acostumado a cruzar as fronteiras. Como Lars. A compreensão tardia aconteceu ao mesmo tempo em que levantei os olhos para contestar Lars e o peguei olhando para a tela do meu celular. A reação dele foi assustadoramente rápida; seu cotovelo coberto de espinhos de aço atingiu meu nariz com força brutal, atirando minha cabeça para trás e fazendo-a quicar no encosto. O carro girou em meio à briga quando errei o rosto de Lars e acertei seu ombro com um chute. Os pneus gritaram ao rasgar no asfalto, ondulando na pista como uma serpente. O segundo chute, no entanto, acertou o queixo dele em cheio. O carro era como um barco à deriva sobre as ondas, gingando frenéticamente na pista, nos jogando um contra o outro, o que tornava a luta difícil. Tentei encontrar desajeitadamente a maçaneta da porta, mas Lars esticou-se sobre mim, agarrou minha nuca e a colidiu contra o painel. Subitamente, um solavanco mudou tudo de lugar; nós estávamos sentados, e então estávamos no teto, e depois atirados sobre os assentos, embolados num redemoinho de braços, pernas, ossos, músculos e ferro. O espaço era pequeno demais para dois machos grandes se atacando, e ficou ainda menor quando a caminhonete capotou, afundando o metal contra o concreto, fazendo os vidros explodirem para dentro e a lataria achatar em ângulos. Os sons são altos o bastante para estourarem meus tímpanos. O mundo se calou, deixando um retinir metálico em meus ouvidos e um rugido sem fim. Em meio ao atordoamento, vi a linha do asfalto diante de mim, iluminada por clarões que não tinha ideia de onde vinham; estava a meio caminho da inconsciência, mas ainda existia raiva e força para lutar e o perigo e a violência da situação trouxeram à flor da pele o animal primitivo escondido em minhas entranhas. Foi ele que me arrastou para fora das ferragens e


procurou Lars com fúria assassina. O acidente nos destroçara; ele mancou na minha direção, a perna direita coberta de sangue, e por alguma razão eu não conseguia esticar o dorso sem que uma dor paralisante perpassasse minhas costelas. O rosto dele era sombrio, cheio de sulcos profundos, e ele se movia para a frente levando a perna inutilizada como quem arrasta um membro morto. Olhando bem para ele, entendi que não seria uma luta justa, porque Lars não é um homem justo. Ele nem ao menos é um homem – seus olhos amarelos brilhavam por sobre uma nítida camada prateada na noite. Eles me encaravam com um único propósito: me matar. Nem em minhas piores lutas encontrei algo assim. Os reflexos dele eram mais rápidos, frios, os golpes maciços, seu tempo de recuperação era impossível de cobrir e ele me atingiu vezes seguidas, sem parar, sem me dar chance de defesa. Kyle não teria dado conta, e eu só conseguia pensar, enquanto minhas pernas se esforçavam para não envergarem sobre o peso dos golpes, que nunca havíamos estado sozinhos em Whitehorse. O nocaute de Lars foi derradeiro. Quando minha cabeça enfim bateu contra o asfalto, o choque do crânio sobre o concreto produziu um som seco que reverberou em algum lugar da minha inconsciência. A sensação de apagar após tanta porrada foi surreal. Não sentia mais dor, porque minha mente se desligava aos poucos. Não escutava, porque meus tímpanos se foram. Só havia uma única constatação trêmula e solitária no vazio dos meus sentidos: não vai haver amanhã.


CAPÍTULO 31 MINHA NUCA ARDE, UMA estranha pressão está tornando os músculos do meu trapézio dormentes. Apenas quando abro os olhos entendo porque: minha cabeça está pendendo para baixo sobre o peito, meu queixo praticamente encostando no vão entre os ossos da clavícula. Minha cabeça inteira parece coberta de agulhas enfiadas em meu couro cabeludo até o cérebro. Não consigo identificar um único ponto ao redor dela que não esteja latejando de dor e fica insuportável quando tento retornar à posição ereta – o sangue volta a circular à toda, escalonando o suplício à décima quinta potência. Acho que estou gritando. Xingando. E, por baixo desse som horrível e chiado que minha garganta gorgolejante produz, latidos e rosnados crescem como uma sinfonia agourenta. O esforço de simplesmente suportar a dor me deixa exausto. Minha cabeça não encontra apoio, girando no topo de minha espinha dorsal como uma azeitona bamba no palito. Sinto um fedor de sangue apodrecido, odor animal, urina e fezes, além do cheiro forte de gasolina. A muitos metros acima da minha cabeça, vejo tubulações enferrujadas, grades de ventilação, teias de aranha e goteiras. Num movimento languido, minha cabeça pende para frente e eu enxergo o bonito cenário diante de mim. Uma arena. Não uma arena de luta, um octógono ou coisa do tipo – um espaço improvisado com arames, formando um círculo sobre o chão de terra vermelha batida. Ao redor, arquibancadas de madeira, e eu estou numa delas, amarrado a uma cadeira sobre um patamar alto. Então, olho de novo para a arena e percebo que a terra não é vermelha, afinal. Está manchada. E o cheiro de sangue podre faz todo sentido. É a arena de lutas de cães que mostrei ao Liam poucos meses atrás.


“Você está bonito, Ian Lycan”, diz uma voz. Lars surge no último degrau da arquibancada, lá embaixo. Seu rosto está coberto de escoriações, mas não dá para saber quais delas foi cortesia minha e quais foram do acidente. O que me importa é que ele está todo fodido. “A diferença entre nós dois”, eu murmuro, mas tenho que limpar a garganta para dar mais dignidade ao modo como as palavras soam em meio à dor, “é que você nunca foi bonito.” Ele ergue as sobrancelhas, mas o movimento abre os cortes em seu rosto e ele desiste. Existe um rastro de sangue descendo pela lateral esquerda de seu pescoço e sei que ele está praticamente surdo, como eu, captando os sons através de uma membrana de estática. “Sabe, você não deveria ter empurrado o volante da caminhonete”, ele começa a subir a arquibancada devagar. Pelo modo como se move, deve ter quebrado uma costela também, além de um joelho, “Podia ter nos matado de verdade e eu não poderia te trazer até aqui para assistir ao espetáculo. Passei muitas horas planejando esse show, Ian, escolhi a dedo cada participante. Será uma boa distração para termos enquanto conversamos.” Lars se aproxima o suficiente para chegar até uma caixa térmica deixada num degrau abaixo do meu. Ele levanta a tampa e tira uma garrafa de cerveja gelada lá de dentro, erguendo-a para mim em deferência, então se senta no mesmo degrau que eu, destampa a cerveja e a vira num longo demorado gole. “Puxa, está gelada demais”, ele encara a garrafa como se a admirasse solenemente, então encosta a superfície congelada do vidro sobre um corte na testa, “Ah, cacete. Amo essa sensação...”, ele geme, em transe, enquanto a laceração cicatriza sob o efeito do gelo, primeiro adquirindo um tom prateado, depois desaparecendo, “Isso é... puta merda. Sensacional.”


Eu estou rindo e assentindo ao mesmo tempo, isso faz as agulhas em meu crânio cravarem ao limite, e lágrimas de dor escorrem pelo meu rosto, levando até minha boca gosto de sangue e suor. “Pois é, cara”, Lars fecha os olhos e sorri, ainda em êxtase, rolando a garrafa sobre os ferimentos, cicatrizando-o um por um, “Agora estou bem melhor que você, hã?” “Seu maldito filho da puta.” “Sim, cale a boca. Você não podia mesmo achar que eram os únicos por aqui, francamente. Essa merda de lugar é o antro dos infernos, é a lei da sobrevivência, só isso. É isso que estou tentando fazer aqui, Ian, sobreviver, você não pode me julgar”, ele abre os olhos e me encara. Através de nossa raiva, vemos um ao outro, nossos animais se reconhecendo e se desprezando mutuamente, embora exista, sim, a compreensão natural da espécie, “é isso aí, você sabe, você tem um puta instinto de sobrevivência, Ian. Chega a ser impressionante.” Estamos cansados. Muito devastados. Mas Lars pode dar as ordens agora, porque estou imobilizado, e sei que, apesar de estarmos no mesmo barco, de sermos irmãos em espécie, ele não vai me poupar. Não existe nenhuma simpatia em seu olhar, apenas um vazio profundo e desumano. “Vamos logo começar”, ele liquida a cerveja num último gole, atira a garrafa longe e enxuga as mãos nas calças. Ficando de pé num fôlego só, ele manca de volta para baixo. A arena é rodeada por acessos que somem na escuridão, mas é de lá que vem a confusão de latidos e rosnados. Isso é doentio. Lars empurra uma grade ao longe, o som é alto, metálico e brusco, e em seguida uma agitação toma a arena – três cães de briga surgem no centro, se atacando em desespero. Não consigo distinguir raça ou sexo, eles se


movem como feras indistintas, dentes, saliva e sangue. Os corpos são magros, marcados pela força crua, deixados para definhar à beira da miséria para que a fome os transforme em máquinas de matar. É impossível imaginar que animais possam reproduzir tanta violência, mas vejo Lars olhando-os com orgulho e sei que foi ele mesmo quem os treinou. Não pela honra, pela necessidade instintiva da Lua Crescente ou pela responsabilidade de ensinar um irmão a se proteger. Pelo que sou, por tudo o que passei, sei que podemos odiar, temer, mas temos escolhas. Eu e meus irmãos sempre escolhemos o isolamento à destruição, e sermos detestados por todos é um preço muito pequeno a pagar pela nossa sanidade. Escolhemos ser o melhor que podemos ser, dentro de nossa condição. As escolhas de Lars, no entanto, o aproximam de um tipo de criatura animal que jamais conheci, que nunca poderei compreender e cuja existência me enoja. “Pare com isso”, sibilo entre dentes. Minha fúria não é maior que a minha tristeza, não consigo suportar ver essa cena. Mesmo fechando os olhos, os gritos, os uivos de dor e os ganidos de fúria torturam meus sentidos. “Você está ouvindo bem, Ian?”, Lars grita, Sua voz ressoa em meus ouvidos arrebentados como o retorno agudo de um microfone, “Posso parar agora mesmo. É só você me dizer onde está a garota.” “Que garota?”, eu digo, mas os gemidos lamuriantes abafam minha pergunta. Eu não quero olhar para a arena, porque sei que um dos cães está sendo abatido neste exato momento, “QUE GAROTA? “Ora, vamos, eu sei que vocês têm uma garota. Ela está sob a proteção do seu bando.” O que? Só consigo pensar em Lianne, mas não consigo imaginar o que esse lunático pode querer com ela e, mesmo que soubesse, jamais diria nada


sobre Lianne para Lars, em respeito a Kyle. “Não temos nenhuma garota, seu imbecil! Não existem fêmeas na nossa espécie, só machos!” Levo alguns segundos para me dar conta de que Lars está rindo ao se aproximar novamente. Ele galga os degraus no mesmo ritmo agonizante, sua mão se projeta para frente e agarra minha garganta, apertando-a. “Então eu tenho uma informação que os Lycan não tem?”, seu rosto está muito próximo, pulsando de adrenalina, os olhos lampejam com fervor sobre o sorriso incontido. Ele morde o lábio inferior enquanto me encara, assentindo, “Isso me deu umas ideias, Ian, o que acha de fazermos um joguinho? Eu conto tudo que sei e, em troca de cada informação, você leva um belo soco, o que acha? É justo, não?” Antes que eu responda, sua mão atinge minha face, mas o contato é inesperadamente brutal, estourando minha pele e abrindo-a fundo. Só depois que minha cabeça gira no pescoço de volta à posição original eu vejo o soco inglês que ele ergue diante de mim, coberto de espinhos de metal para combinar com a jaqueta. Atrás dele, é possível ver as letras ROMA gravadas no dorso dos dedos largos, a tinta preta como piche na luz fria do galpão. “É assim que funciona”, Lars apoia uma das botas sobre o assento da cadeira, no espaço entre minhas pernas afastadas, e se curva sobre mim, apertando com força a gola da minha camisa. Eu mal consigo divisá-lo através da neblina de dor que entorpece meus sentidos, “Existe uma fêmea, nossa mãe”, seus olhos estão arregalados, ejetados, uma mancha de sangue coagulado se espalha ao redor de uma das íris metálicas, “Mas a vadia não é rastreável, ninguém nunca conseguiu encontrá-la, não tem cheiro, nem deixa pistas, nada, mas ela está por aí, é claro, como uma fonte de vida espalhando o horror noturno. Nós. Mas você está certo sobre uma coisa,


Ian, fêmeas da nossa espécie são mais do que raras – são sagradas. E a razão é tão simples quanto maravilhosa: elas são a chave. A solução”, coroando essas palavras, vem outro soco. Esse é tão forte quanto o primeiro e minha nuca chega a estalar com o impacto. Escuto os latidos na arena, os ganidos, misturados aos meus próprios sons indistintos – ofegos, gemidos. A cada segundo que passa o inferno fica pior. Lars me puxa pela gola para recuperar minha atenção, “Neste exato momento, tem uma fêmea nesta cidade. Sinto o cheiro dela nas ruas, sinto a presença dela perto de vocês. E agora vem o mais importante, garoto. O grade trunfo.” Roma acerta minha cara outra vez, mas não houve nenhuma nova informação relevante. A mão de Lars está pingando sangue. “Eu me antecipei”, ele explica, “Porque agora vou contar porque quero atraí-la. Lua Negra”, o mero som dessa palavra me causa ânsia de vômito. Uma vaga lembrança da votação, das expressões atormentadas de meus irmãos, pulsa em minha mente como um espasmo, mas Lars continua cuspindo seus delírios diante do meu rosto sem parar, “Reza a lenda que, se um bando sacrificar uma fêmea nossa num ritual de Lua Negra, eles serão agraciados com a dádiva da imortalidade. Entende o que isso significa, Lycan? É isso que aquele símbolo nas medalhas quer dizer, o início e o fim são iguais, eu desvendei o enigma. E isso vale dois socos, um porque eu posso, já que você está aí e eu aqui. E outro porque sigo as regras do meu jogo”, Lars cumpre o prometido, dois socos bem desferidos, e volta a me sacudir pela camisa, talvez porque eu já não esteja mais conseguindo firmar a cabeça. Ele está gargalhando e chorando ao mesmo tempo, a pele fina abaixo dos olhos enrugada de emoção, o rosto marcado por veias latejantes e músculos saltados, “Não me julgue, Ian, tenho vivido miseravelmente desde que saí dessa maldita cidade. Ah, sim, é possível sair daqui, mas o preço é muito caro, algo que você e seus irmãos idiotas nunca teriam como pagar, e não se trata de dinheiro. Não”, ele recua, ainda me


encarando com olhos alucinados, e suspira, “Como é linda a promessa de liberdade.” Ao ouvir isso, uma pontada de urgência enfim me tira da inércia. Quando abro a boca, uma bola de sangue ameaça subir pela minha garganta; eu engasgo, tusso e consigo empurrá-la de volta. “Como...”, é quase doloroso falar, não há fôlego, as palavras soam rasgadas e fracas como meu próprio corpo, “Como saímos daqui?” Lars sorri com satisfação. “É por causa do seu irmão, não é? Este é o ano dele. Sim, é. Você acha que se ele conseguir sair de Whitehorse, estará livre da morte.” Na verdade, estou imaginando que se eu puder sair de Whitehorse, posso explorar outros lugares em busca de informações para salvá-lo, porque não acho que Kyle acreditaria que existe uma saída. Paul fizera um excelente trabalho com ele, ensinando-o a não ter nenhum tipo de esperança. Mas não faz sentido explicar isso para Lars e, de todo modo, fico exausto só em organizar esse pensamento. “É possível, Ian”, diz Lars, “É possível sair daqui tanto quanto é possível enganar a morte. A prova disso é que Paul está, neste exato momento, em Nova Iorque, que é, você há de concordar, um lugar bem mais interessante do que este fim de mundo aqui. Você sabe, prostitutas de luxo, drogas, muito dinheiro e vida, vida pulsante e inesgotável como só uma cidade grande pode abrigar. E agora, quantos socos essas informações valem?” Valem cinco socos. Eu conto porque cada golpe é um desespero, e quando enfim Lars para, ofegante e possuído, segura meu queixo de forma bruta e firma meu rosto diante de si. Então diz, quase gentilmente: “Dê-me o que eu quero e eu dou o que você quer.”


“Eu não sei...”, balanço a cabeça, mas isso faz meu crânio latejar como se estivesse em combustão, “Não sabemos quem é essa garota... Por favor, me diga como ajudar meu irmão...” “Nada feito.” “Lars...” Ele está fora de si. Em sua ira, começa a apertar minha garganta como se esmagasse uma bola de golfe entre os dedos. Quando a solta, aspiro o ar com tanta força que começo a tossir e arfar ao mesmo tempo. Os solavancos que as tosses produzem parecem prestes a me romper, e só então sinto que tem algo acontecendo dentro de mim, algo partido, com defeito, e sei que não tenho mais muito tempo. Pelo modo como me observa, Lars sabe disso também. “Dê-me a maldita garota”, ele murmura diante do meu rosto. Sinto sua fúria incandescente deslizar ao meu redor feito lâminas. Eu o encaro. Na verdade, quero dizer que não consigo responder, que não sei nada sobre essa loucura, mas ele interpreta como uma negação teimosa. “ME ENTREGUE A GAROTA!”, ele berra em meu ouvindo. A dor é forte o bastante para quase me apagar. Com um rugido, ele me solta e se afasta, bufando, “Você estragou a porra toda, seu idiota, não era para ser assim, com você à beira da morte e eu sem tempo, merda!”, Lars passa as mãos pelos cabelos oleosos, exasperado, e anda em círculos no degrau logo abaixo do meu. Parece procurar desesperadamente um jeito de consertar seus planos, mas ele olha para mim e vejo refletida em seu rosto a certeza de que não há uma maneira de me salvar e isso o enlouquece, “Certo, então vamos fazer o que dá. Que tal levá-lo ao limite?” Não consigo imaginar como isso pode ficar ainda pior. Não consigo imaginar que posso sobreviver mais alguns minutos para experimentar


qualquer coisa que seja. Percebo enfim que o acidente foi minha sentença de morte; enquanto o carro girava, alguma ferragem se desprendeu e me atingiu. A gravidade disso, a percepção de que estou arrebentado por dentro, é apavorante e incrível. E, apesar de tudo, há uma esperança nova para Kyle, para meus irmãos, e a percepção desesperadora de que não viverei para contar a eles. Lars me desamarra e me arrasta arquibancada abaixo, o que é um esforço enorme para ele. Meu corpo não tem a menor sustentação ou coordenação e ele precisa me amparar para que eu não caia. Ele me faz sentar no chão e consegue, com muito custo, apoiar minhas costas na coluna de concreto diante da arena. A movimentação faz coisas dentro de mim estalarem, algo quente sobe pela minha garganta e é expelida no chão entre minhas pernas. A bola de sangue. Lars agarra os cabelos em minha nuca e ergue minha cabeça. Suas unhas raspam sobre o machucado em meu couro cabeludo e eu fecho os olhos, mas ele me sacode, obrigando-me a ficar atento. “Não feche os olhos agora, Ian”, sussurra em meu ouvido, “A melhor parte vem agora.” Lars se afasta para abrir mais grades. O que resta na arena é apenas um cão, e ele manca ao redor de si mesmo, o pelo escuro e arrepiado úmido de sangue. Vou ser obrigado a ver animais se matando até o fim. Nunca quis isso, é uma forma muito, muito triste e cruel de morrer, assistindo criaturas inocentes se mutilando, mas lembro que não posso ir embora agora, deixando meus irmãos e Evelyn desprotegidos. Lars é insano o bastante para caçar cada um deles. Sobretudo se acreditar que Lianne ou Evelyn podem ser as tais fêmeas. Preciso viver para alertá-los. Encaro Lars à distância e levo uma mão às costas, tateando meu bolso. Mas não estou com o celular. Ele provavelmente está destroçado agora, em meio à bola amassada que se tornou a caminhonete de Lars.


Não há nada a ser feito. Não há saída. A realidade se abate sobre mim e, junto com ela, um engasgo fraco leva à minha boca mais um jorro de sangue. Mais três cães invadem a arena, sobrepujando de imediato o que já estava ali. A briga é injusta e termina em segundos, uma carnificina. O ar cheira a sangue e vísceras. Lars está novamente ao meu lado, certificando-se de que estou olhando o espetáculo. “Sabe o que isso me faz pensar?”, ele diz, lacônico, “No senso de civilização. É interessante, não acha? Sem isso, seríamos como esses animais aí. No fundo, eu e você somos exatamente assim. Esse é o nosso tormento, o que existe em nós, o que ninguém pode ver, o maior segredo de todos. Foi por isso que escolhi você, Ian Lycan, porque de todos eles é você quem realmente entende o que somos. Achei que seria mais fácil barganhar com alguém que enxerga de verdade os dois lados da nossa alma, a sua noção é algo raro em nós. Você pode contar para os outros o que é, mas a verdade da qual nunca poderá se esconder, a verdade sem tabus, é: nós desejamos a violência. Não há como controlar, e é muito melhor deixar rolar, é a expressão mais pura da liberdade. Acho que vou tatuar essa palavra, o que acha? Ela é muito bonita. Aliás, não expliquei para você como fiz essa aqui”, ele olha para os nós dos dedos com ternura, “Quando tudo que aprendemos se torna inútil, certos rituais perdem o sentido. É só pele. O que realmente somos está por baixo dela, o caos irrefreável. Enquanto fazia, achei que ia morrer. Aquela merda de agulha me marcando era uma violação e tanto, uma dor inimaginável que te acerta aqui”, Lars aponta a própria cabeça, crispando os lábios salivantes, “É tão fulminante que você deseja coisas absurdas, como comer as próprias vísceras. Te deixa louco mesmo. Mas aí acaba e você está vivo. E não existe sensação melhor no mundo do que saber que conseguiu vencer o maldito lobo. É um bálsamo para a alma. Uma pena você não ter tido tempo de aprender nada disso. Paul teve. Veja agora,


Ian, veja”, ele murmura com carinho. Minha visão está embaçando aos poucos, mas ainda consigo enxergar quando uma forma branca e imensa se esgueira pela arena, vinda das sombras. Ela caminha devagar, não os movimentos desvairados dos cães, mas com elegância predatória. Seu pelo é logo e felpudo e cintila debaixo das luzes, e seus olhos são duas esferas cegas e leitosas como madrepérolas. Sua presença causa alvoroço nos cães. Como qualquer criatura viva, eles presentem a morte e se debatem contra as grades, mordendo a si mesmos e aos outros, enlouquecidos, enquanto a forma branca domina todo o espaço, acuando-os, os olhos claros e inteligentes selecionando qual deles abater primeiro. “Liam”, eu o chamo, mas minha voz não passa de um espectro, “Não faça isso...” “Ele é magnífico, não é?”, Lars segreda para mim, uma nota de entusiasmo tingindo sua voz fria. Numa perfeita sincronia, o lobo branco abre as mandíbulas, franzindo o focinho e expondo os dentes afiados, cobertos de saliva. Lars aponta para os cães se retraindo contra a grade, como se exibisse um belo safari pela África “Veja como compreendem, como temem. É fascinante observá-los, como a consciência da morte os apavora. É nessa hora que mais se parecem com homens. Veja como sabem, como entendem. Será que sempre souberam que esse dia chegaria? E veja só o lobo... Belo em todos os sentidos, não há nada de fraco nele, nem mesmo nossa porção humana. Uma força da natureza.” O que fascina Lars me aterroriza. Conheço meu irmão e sei que sua natureza, ao contrário do que possa parecer agora, é doce. Que tipo de destino foi capaz de pervertê-lo assim?


O que vejo a seguir não é uma briga. É apenas uma caçada, rápida e voraz. Mesmo quando Lars levanta para abrir mais grades, liberando mais cães de briga, o lobo extermina todos, saltando sobre seus corpos com destreza. Eu assisto, repetindo sem parar que isso pare, e as palavras se tornam um mantra macabro em meio à matança barulhenta. “Quero a garota.” “EU NÃO SEI! NÃO TEMOS NENHUMA PORRA DE GAROTA!” O lobo ergue a cabeça na direção da minha voz. Após ter destroçado quase dez cães, a arena está vazia e silenciosa, e seu rosnando baixo fica retinindo entre as paredes. Seus olhos sem íris se fixam nos meus, cheios de uma compreensão própria. De novo, não vejo Liam ali, mas jamais desistirei de procurar. “Esse é o seu limite, Ian Lycan?”, Lars fala comigo, “Tudo bem, também é o meu. Talvez eu tenha errado e você seja ignorante o bastante para não entender a importância disso. Estou tentando fazer um favor a você, à nossa espécie, livrando o mundo dessa praga que somos, dessa merda que você acabou de ver! Mas vocês são todos egoístas e não há nada que eu possa fazer. Está terminado, vamos acabar logo com isso.” Meus olhos reviram de alívio. No entanto, Lars me agarra pela camisa e me levanta de qualquer jeito. A dor volta a irromper dentro de mim e, quando sangue grosso vem à minha boca, engasgo com ele. Escuto o som metálico de grades e sou atirado ao chão. Tento sentir as extremidades do meu corpo para entender em que posição estou, mas existe apenas dor, uma dor incapacitante que permeia tudo o que sou. Acima da minha cabeça, vejo a ponta de uma grade e Lars pairando do outro lado dela. Ele joga algo em minha direção, e sinto o peso maciço da coisa quicando perto do meu braço. Num ímpeto, agarro-o pela camisa, porque não posso deixá-lo ir sem fazer uma última pergunta. A mais importante.


“Se você é o que é...”, as palavras são débeis e soam vagas entre rugidos e arquejos, “Se é como nós, como eu... Porque?” Uma nova luz se forma nos olhos escuros de Lars. Ele quase parece feliz com minha pergunta, como se estivesse desejando secretamente que eu a fizesse. “E porque não?”, ele sorri, inclinando a cabeça para o lado num gesto sugestivo, mas rapidamente o sorriso some e ele está novamente me encarando, inexpressivo, “Acabou, Ian. Boa noite.” Lars se vai. As luzes se apagam. Agora, eu estou do lado de dentro da arena.


CAPÍTULO 32 EVELYN PEGO NO SONO, MAS acordo antes da meia noite e lembro que preciso praticar. Me reviro na cama, afastando tudo que está poluindo minha mente – bruxas, cabelos de fogo, feitiçarias, demônios, caldeirões. Como nuvens negras encobrindo o céu, essas ideias se afastam pouco a pouco, revelando o breu. No meio dele, um rosto surge, belo como me lembro, sob o clarão de uma imensa lua prateada. Ele está olhando para mim, os olhos verde acinzentados como esferas metálicas no escuro. Sua mandíbula está retesada, como costuma ficar quando ele está se esforçando para conter as próprias emoções. Não tenho certeza se já estou com ele. Parece que sim, porque o calor em meu peito aumenta, e meu coração reage involuntariamente, pulsando depressa contra meu pulmão. Foi mais simples do que imaginava. É um alívio. Eu havia prometido que iria atrás dele onde quer que estivesse e fico satisfeita por poder cumprir minha palavra mais cedo do que pensava. “Oi”, eu falo, mas Ian sequer pisca. Eu estendo a mão para tocá-lo, mas por alguma razão é como se meu corpo não estivesse ali, só minha mente. Tudo bem para uma primeira vez, “Veja, Ian, posso ver você. Você consegue me ver?” Ele abaixa a cabeça e percebo que também está se abaixando de joelhos no chão. Por um segundo, penso que está fazendo algum tipo de reverência a mim, o que é ridiculamente engraçado. Mas então, ele se curva sobre si mesmo como uma bola. Uma posição muito, muito estranha. E errada, de muitas formas.


“Ian”, eu o chamo, alarmada. Em resposta, ele leva as mãos até a cabeça e entremeia os dedos pelos cabelos como se quisesse arrancá-los, o corpo oscilando para frente e para trás, “Ian, pare com isso.” Ele produz sons que parecem chiados, algo que tenta sair, mas está engasgado em sua garganta. Vejo os tendões e veias de suas mãos saltando com a força que faz ao apertar a própria cabeça – não estou sonhando, estou tendo um pesadelo, e não quero mais continuar aqui. Procuro desesperadamente pela saída, mas só vejo Ian. Ele está tomando conta de tudo, minha consciência inteira, e sua dor começa a me sufocar. Ele está machucado, está dilacerado. Os golpes são profundos, irreparáveis, cortando mais do que sua carne, destruindo sua mente e estraçalhando seu juízo. Minando sua vida. Antes de abrir os olhos, sinto algo em meu peito – na verdade, a ausência de algo, e esse vazio, esse buraco, pulsa numa dor lancinante. Ian agora está gritando muito alto, e esse berro é como um uivo sem fim, rompendo o tecido dos sonhos e me trazendo de volta à realidade num tranco. Sento na cama e agarro os lençóis em desespero. Meus olhos estão muito abertos e inundados, e não consigo respirar. Meu coração bate com muita força, prestes a explodir, como um pássaro se debatendo, tentando voar na direção do sol. Agarro o celular na cabeceira da cama e disco o número de Ian. A chamada mal completa, como se o aparelho e a linha nem existissem. Santo Deus. Afasto as cobertas, enfio uma calça jeans e uma camiseta e desço as escadas. Já é tarde, Noah e Jenna estão deitados, então pego as chaves do Corolla e parto em direção à casa dos irmãos Lycan. Não há tempo a perder. Estaciono sobre os cascalhos e desço sem a menor


graciosidade. Kyle abre a porta antes mesmo que eu bata e sua expressão está atônita. “Onde ele está?”, eu praticamente o empurro para passar pela porta. Os outros Lycan estão ali, agrupados no espaço pequeno com caras idênticas de susto, “O que vocês fizeram com ele?!” “Evelyn, tem algo errado com...”, Kyle começa a dizer, mas eu o fuzilo com o olhar. “É claro que tem! Vocês o deixaram ir embora e agora ele está em apuros!” “Como você sabe?”, é Ethan quem pergunta, me observando desconfiado. “Eu vi!”, mas não vou perder tempo explicando o que nenhum deles entenderá. Nunca foram amistosos comigo, principalmente o ruivo, não tenho porque dar nenhum crédito a eles, também. “Nós sentimos”, Kyle murmura. Ele é o único que parece disposto a partilhar esse momento de aflição comigo, enquanto os outros só torcem o nariz para mim como se eu cheirasse ruim, “Faz poucos minutos.” “Muito bem, então foi por causa da ligação, não foi?”, eu me aproximo dele, olhando-o de frente, embora ele seja muitos centímetros mais alto que eu, “Então que tal usar essa porcaria para encontrá-lo?” “Não é um maldito GPS”, Ethan sibila, “Quem contou para ela sobre nós? Mas que droga, ninguém consegue ficar de boca fechada?!” É a gota d’água. Eu os detesto, cometi um erro vindo aqui. Dou as costas a todos eles e volto para o carro. Kyle vem correndo atrás de mim e chega a me segurar pelo braço. Seu contato quente e firme faz as lembranças do toque de Ian aflorarem com tudo e quase perco o rumo. “Espera aí, como você o viu, Evelyn?”


Não quero mais conversar, mas há seriedade nos olhos de Kyle, e gravidade. Ele quer de verdade saber, não vejo a postura arrogante de sempre tentando me subjugar agora. “Nos meus sonhos.” “Você sonhou com ele e deduziu que ele está em perigo?”, Kyle solta uma risada curta de incredulidade, “Nós sentimos, faz pouco tempo, mas não achamos que ele estivesse realmente encrencado. Pelo que sei, pode ser uma reação ao distanciamento físico, Ian está deixando Whitehorse. Mas você aparece aqui falando que teve um sonho ruim e isso é mais do que uma coincidência.” “Não. Eu não sonhei, eu o vi nos meus sonhos, é diferente. E vocês também sentiram, então é mais uma comprovação. Não entendo porque estão parados, esperando para agir!” “Eu já disse, nós...”, mas ele parece desistir de insistir e muda rapidamente a direção da conversa, “Você não viu mais nada no sonho? O lugar?” “Não, era tudo escuro”, balanço a cabeça, como se pudesse deslocar alguma memória escondida em minha mente, mas a verdade é que lembro com perfeição e não havia nenhum cenário, apenas Ian. “Tente de novo”, o aperto de Kyle em meu braço aumentou. “O que?” “Se você o viu, chegou mais perto dele do que todos nós. Não sei porque nem como conseguiu fazer isso, mas é a única pista que temos agora. Se consegue chegar até ele assim... Precisa tentar de novo.” “Eu...”, depois do horror do que senti, sequer cogitei voltar a dormir. Mas é claro que Kyle estava certo, “Sim. Sim, eu tenho que dormir. Meu Deus,


como vou dormir agora?” Eu me sentia tão acordada como jamais estivera na vida. A adrenalina praticamente me fazia quicar no lugar. “Vamos”, Kyle passou o braço ao redor dos meus ombros e me guiou de volta para dentro da casa. Nossa aproximação inesperada fez Ethan arregalar os olhos e Matt franzir a testa, mas Kyle não deu explicações a nenhum deles, apenas me levou pelo corredor até um quarto com duas camas de solteiro. Sei onde estou por causa do cheiro. É Ian, por todos os cantos, seu perfume masculino, seu desodorante, o cheiro de sua pele e de suas roupas limpas. É um quarto grande o bastante apenas para comportar duas camas de solteiro e uma cômoda antiga. Não há nada nas paredes encardidas, quadros ou pôsteres de banda, é como um quarto de hotel, organizado e prático, mas sem nenhum toque pessoal. E, no entanto, a presença dos Lycan é forte e pesada como uma aura magnética impressa na casa inteira. “Que merda está acontecendo aqui?”, Ethan chegou e parou sob o vão da porta, me olhando com raiva. “Ela precisa dormir”, Kyle disse secamente, ajeitando os travesseiros na cama de Ian, que ficava recostada num canto. “O que? Por que ela tem que...” De repente fez-se o silêncio, e por um momento achei que Ethan se engasgara, mas então olhei por sobre o ombro e vi Kyle o encarando, e era mesmo o tipo de olhar capaz de calar qualquer boca. Quando Kyle terminou de preparar a cama, fez um gesto para que eu ficasse à vontade. Seu rosto estava lívido e os músculos de seus braços, tensos, a respiração pesada. Sentei sobre o colchão e alisei os lençóis de Ian,


como se tentasse captar o calor vital de seu corpo, mas estavam frios. Fechei os olhos para conter as emoções. Precisava me concentrar para dormir. “Eu vou...”, Kyle espetou o polegar por cima do ombro, indicando qualquer lugar fora do quarto, e começou a recuar, empurrando um Ethan mau humorado para fora consigo, “Fique à vontade.” Antes de fechar a porta, ouço Ethan rosnando entredentes: “Na nossa casa? Na cama do nosso irmão? Caralho, que merda, Kyle, isso é asqueroso...” Tudo ficou muito quieto. As luzes estão apagadas e só o clarão da lua ilumina o quarto. É um ambiente agradável, afinal, fresco, arejado e calmo, o tipo de coisa que eu jamais esperaria dos Lycan. Deitei na cama. O cheiro de Ian nos travesseiros é divino, atinge meu peito e liberta minhas emoções; elas fluem em jorros de alegria e amor e me acalmam. Tenho que encontrá-lo. Preciso achá-lo, o tempo está acabando... A porta se abriu novamente, a luz do corredor entrou e banhou o quarto, revelando a silhueta alta e larga que reconheço como sendo de Matt. Kyle não é tão alto quanto os outros, embora os ombros sejam mais largos e quadrados, e Ethan tem o dorso mais denso e pernas mais musculosas. É curioso que, mesmo sem ter convivido muito tempo com eles, sei suas proporções o suficiente para identificá-los no escuro. Matt fechou a porta ao entrar e puxou o banquinho da escrivaninha para se sentar à minha frente. Sua postura é vigilante, com os cotovelos apoiados nos joelhos espaçados e as mãos fechadas em punhos debaixo do queixo. “Nós nunca conversamos”, ele falou. Sua voz é grave como me lembro, mas parece ainda mais poderosa agora, no silêncio do quarto, “Não de verdade.”


“Matt, eu preciso...” “É, Kyle me disse. Precisa dormir para ver o nosso irmão. Não vou demorar”, ele abaixou as mãos, mas elas continuaram se apertando, ansiosas, “Então, como funciona? É uma espécie de telepatia?” “Não sei como se chama.” “Como sabe que é real?” “O que vocês sentiram sobre Ian antes de eu chegar, foi real?” “Sim.” “É dessa forma”, eu sorri, mas ele apenas assentiu, muito sério. “Eu fui contra. Na votação que fizemos para decidir se você deveria vir ajudar o Liam. Eu sinto muito, não tenho nada contra você, mas não tive experiências legais com outras pessoas. Nenhum de nós teve, então tentamos nos preservar, é só isso.” “Tudo bem, eu entendo perfeitamente”, estava ansiosa para ficar sozinha, mas achava que sabia porque eles não estavam tão desesperados quanto eu. Quando expulsaram Ian, perderam a sensibilidade com ele. Apenas pressentem um perigo, mas é só um incômodo, como a lembrança de um membro amputado. O fato de que eu agora seja a pessoa mais ligada a Ian me deixa perplexa de um modo que não sei definir se é maravilhoso ou terrível. Matt assentiu outra vez. Isso é tão difícil para ele quanto foi para Ian comigo, no começo, e não posso mais detestá-lo. Esses garotos impetuosos escondem em seus corpos grandes e olhares metálicos uma total falta de jeito com o mundo. “Eu não tive sorte, Evelyn”, Matt voltou a apoiar o queixo nas mãos


inquietas. Esfregou o rosto com tanta força que chegou a repuxar a pele sob os olhos, “Não tive mesmo. E meus irmãos pagam por isso, são assombrados por pesadelos que deveriam ser apenas meus. Então, se você conseguir ajudá-lo, tire isso dele. Eles não precisam carregar a minha dor.” “Ele ama vocês”, minha voz soou ligeiramente trêmula pelas lágrimas que ameaçam vir, “Só quer que fiquem em paz.” Ele abaixou a cabeça e agarrou os cabelos na nuca. Pensei tê-lo ouvido praguejar. Reprimi o impulso de afagá-lo, porque sabia que não funcionava assim com eles. “Ele é um filho da puta incrível”, Matt disse, assentindo sem parar, fazendo uma careta de angústia, “Traga-o de volta, porque somos um bando de incompetentes desgraçados.” Achei graça. Num gesto incontido, me estiquei para segurar uma de suas mãos, apertando-a e imobilizando-a na minha. Matt ficou todo tenso, mas já reconhecia essa reação e ela não me incomoda mais. “Está tudo bem. Só me dê um minuto, ok?” Matt colocou a outra mão sobre a minha, o gesto muito breve e estabanado de quem se obriga a ser simpático quando não sabe como sê-lo; logo ele se ergueu e saiu. Fechei os olhos, me concentrando em limpar a mente, afastar as nuvens escuras. Criar nela um enorme espaço vazio...


CAPÍTULO 33 IAN A PELE É SAGRADA para nós. É a superfície que nos cobre, um órgão extrasensorial. As tatuagens de Lars em seus dedos, a tinta preta marcando-os... deve ter sido mais do que apenas doloroso. É uma mácula que fere profundamente a camada mais profunda do que somos. Não consigo sentir minha pele. Isso é errado demais, é um sinal alarmante. No momento em que Lars se vai e as luzes se apagam, sinto o cheiro da morte ao meu redor. Escuto o sibilo baixo do lobo há alguns metros. Nem todas as luzes foram apagadas, uma ainda resiste solitária num canto, piscando em curto-circuito, e é por causa dela que enxergo a movimentação na arena. Um cão que eu julgara morto consegue escapar graças à nova distração do lobo: eu. Ele se ergue oscilante sobre as patas dianteiras e começa a se arrastar para o lado, mas o lobo o abocanha na jugular e o aperta, sem mover os olhos dos meus. O sangue escorre por sua mandíbula, os dentes afundam na carne, um último ganido histérico ecoa antes do silêncio total. Meu coração dispara. Não é o medo, é meu corpo lutando para viver nos últimos segundos. Então é assim. Antes de morrer, vivemos intensamente, negamos com toda força. Nenhuma revelação divina. Nenhum filme da sua vida passando diante dos seus olhos. Só a espera inerte. Interessante. O lobo larga o corpo agora mole, atirando-o para o lado com um movimento desinteressado de cabeça. Lars estava certo, esse animal é uma máquina de matar, e está vindo na minha direção. Eu pisco devagar, encarando-o, não quero perder um único vislumbre de Liam surgindo em seus olhos, porque sei que acontecerá. A qualquer momento. Ele está lá,


meu irmão. O animal abaixa a cabeça, as orelhas empinam, os dentes já estão expostos e ensanguentados. Não sei porque não me ataca como fez com as outras vítimas – comigo, está fazendo todo um ritual, talvez porque saiba que minha consciência é diferente da de um cão. Mais elaborada. Penso na cena que Lars tão teatralmente me apontou, dos cães sentindo a morte, e penso nos dias em que passei desejando que tudo acabasse. Eu tinha inteira noção de que morreria, e a ideia não me apavorava; ao contrário, era apaziguante. Até mesmo agora, com o lobo branco se aproximando de mim, sua presença assassina pairando tão perto, não há o desespero. Mas há, sim, a consciência da morte, do tempo se esgotando. A compreensão de que não, não quero isso. Não por covardia ou medo, mas por Evelyn. Porque foi rápido demais, porque gostaria de ter mais tempo com ela. Porque ainda não a toquei como gostaria, porque preciso senti-la mais vezes, ouvi-la, prová-la. Isso me faz bem. Mais do que bem. Desejo não morrer porque agora quero viver, quero isso mais do que jamais quis algo. Mas sei que vou morrer. É tarde demais. E o lobo atravessando a arena quer prolongar esse tormento. Só que não encontra o medo. Não acha o que tão facilmente farejou nas outras vítimas. Ele para, as orelhas imóveis, a respiração lenta. Ele parece confuso, pego desprevenido, não sabe como fazer comigo, porque sou uma novidade. Um desafio. O que Liam havia dito antes de se transformar? Não sinta medo. Era uma estranha forma de confortar alguém, mas então compreendo – ele não estava me consolando, e sim instruindo. Ele pressentia o ponto fraco do animal em si, o cheiro do medo. Era uma dica, um apelo. Até mesmo a escolha de palavras, não sinta medo, em vez de não tenha medo. Agora, as duas coisas não podiam ser mais diferentes.


Os olhos do lobo perscrutam os meus, atentos ao mais ínfimo sinal de pânico e desespero. Está esperando apenas essa única brecha. Como na noite em que fui debelado, não sinto medo, por mais que saiba que deveria sentir. Merda, como queria sentir – mas estou frio por dentro outra vez. Faço um movimento espasmódico com a mão e meus dedos roçam em algo sólido. Sem jamais deixar de encarar o lobo, movo os dedos pouco a pouco, arrastando o que quer que seja para mais perto, até que meus dedos encaixam numa espécie de alça anatômica. Um gatilho. Lars jogou uma arma para mim. Mal posso acreditar na ironia desse desfecho. Rômulo matou Remo para erguer seu império, então, porque não? Cães se mataram na arena, homens se matam todos os dias por questões bem distantes de puramente instinto de sobrevivência. Eu atirei em Liam. Somos assim tão diferentes, afinal? Seria tão fácil. Erguer o braço e atirar. Provavelmente acabaria tão rápido que eu estaria a salvo antes mesmo que o lobo entendesse que fora atingido. Aliás, eu já havia feito isso antes, não é? Onde está? Procuro os buracos de bala pelo flanco do animal enquanto ele volta a se aproximar lentamente, o lombo ondulando sobre as patas esguias, mas esse desvio de atenção o provoca; ele rosna com força, os pelos se eriçando por todo o corpo. Eu volto depressa a encará-lo nos olhos leitosos. “Não vou fazer de novo”, murmuro. As orelhas dele estremecem, registrando minha voz. Ele está perto o bastante para que eu possa sentir seu hálito quente e com cheiro de carne, sua presença é o alerta máximo para meus instintos, mas eu os calo. Chega. “Não vou escolher te machucar outra vez.”


Então acabe logo com isso. Num estalo, acho que entendo porque ele não está me atacando. Não é só a ausência do cheiro do medo, porque sei que ele é inteligente o bastante para me provocar, quem sabe mordendo minha perna ou meu braço, até que eu esteja berrando, implorando. Olho para os cães mortos que ele não comeu, apenas trucidou... A compreensão me atinge, mas já estou muito fraco para ter qualquer tipo de emoção. Ele não curte cadáveres. EVELYN Não há como dormir, isso é um fato. Preciso encontrar um jeito de ir até Ian acordada. Por fim, passo tanto tempo imersa no negrume dos meus pensamentos que encontro a linha fina que me prende à materialidade deste mundo. Ela é quase imperceptível, mas surge para mim, muito delicada e evidente agora que a vejo. Eu a puxo, me içando para fora deste corpo, desta mente, deste lugar. Procuro por Ian, mas seu sinal vital me escapa, ele não está em lugar algum, sua presença foge da minha, é como tentar aprisionar fumaça entre os dedos. Minha mente é como uma estação de rádio em busca de uma sintonia boa, mas não há nenhuma. Nenhuma, a não ser aquilo que não parece uma sintonia. É uma estática diferente, vibrando em outra frequência, embora poderosa. Emparelhar com ela é algo esquisito, como tentar entrar num uniforme espacial dois números menor – espremo minha consciência para adequá-la ao máximo e, ainda assim, ela se recusa a me aceitar. É muito rudimentar, mas é a única coisa que paira ao redor da débil força vital de Ian, e eu insisto. Insisto até começar a suar e ofegar. Não estou dormindo. Entrei em transe, e isso me permite sentir meu corpo, mesmo estando


muito longe dele. Uau. Encontro a barreira que me bloqueia. Ela é grossa, nada parecida com a barreira que me separa mentalmente de Ian – suave, flexível e gentil. Essa barreira nova me repele, resiste, enfurecida, mas ela precisa me deixar entrar. Ela é tudo que tenho agora e me agarro a ela com a mesma obstinação com que ela me repele. Mais concentração. Estou num estado tão cósmico que capto até mesmo vibrações que não previra – os irmãos Lycan, e suas forças vitais são incríveis, belas e muito, muito poderosas, rutilantes como cristais na escuridão. Sinto a vibração da natureza ao redor da casa, o vento, a essência da vida cercando tudo, todo o espaço e o firmamento estrelado. São energias tão intensas que ameaçam me tomar e me desintegrar, mas algo me mantém compacta, algo que sempre soube que tinha, mas nunca explorei. Sou eu mesma. É a minha força. E é apenas quando tenho total consciência dela que a barreira se rompe para mim e eu a adentro completamente. IAN É porque já estou morrendo. Ou é porque não estou com medo? Ou a razão de eu ainda estar vivo é porque estou morrendo e, consequentemente, já não tenho porque sentir medo? Sem nenhum aviso, o lobo deixa de rugir. Seus olhos claros ficam subitamente calmos, quase mansos, e tenho a impressão de ver um vislumbre de vida neles, algo quente tremeluzindo no reflexo perolado. Então sua cabeça se ergue depressa para olhar ao redor, como se


enxergasse uma movimentação adiante. Eu fecho os olhos porque estou aliviado, porque apesar de toda a maldade que acabei de presenciar, Liam está ali, e está seguro, e porque, finalmente, meu coração cansa de lutar. EVELYN A primeiras imagens através desses novos olhos são embaçadas, como se um vidro sujo me encobrisse. Eu pisco sem parar e enfim a minha visão está limpa. É um galpão. É muito grande e escuro, mas há uma luz oscilante incidindo sobre mim, e ela vem de algum lugar à direita. Ao meu redor, vejo arquibancadas vazias, como que abandonadas. Pilastras manchadas de sangue. Minha própria língua tem gosto de sangue, e eu a mastigo sem parar, tentando me livrar desse amargor horrível. Ao meu redor, limitando o espaço, cercas improvisadas de arame, uma espécie de arena. É então que olho para baixo. Há corpos de cães espalhados ao meu redor, dilacerados, as línguas para fora, os olhos revirados. Oh, meu Deus. O que quer que tenha acontecido aqui, causou uma energia ruim demais, e ela é escura e sombria, pesada feito piche. Preciso encontrar Ian e ir embora daqui... O que vejo me choca e minhas patas recuam pela areia, minha garganta reproduz um som estrangulado – é a reação deste corpo mais compatível com um grito de dor humano. Ian está estirado logo abaixo de mim, estivera tão perto que quase o pisoteei. Seu rosto está desfigurado por uma violência que mal posso imaginar, e uma poça crescente e vermelha o envolve. Reconheço seu corpo grande, o mesmo que muitas vezes desejei, mas tudo está fora de lugar, e ele parece muito, muito pequeno, como uma criança. As partes expostas de sua pele que não estão cobertas de sujeira e sangue estão horrivelmente pálidas, as veias que percorrem a parte interna de seu


braço esticado são tão azuis que parecem feitas de tinta. Os músculos e os tendões estão saltados e muito rígidos, não de uma forma sensual, como da vez em que ele treinou diante de mim, mas de um modo grotesco. Entendo imediatamente porque não encontrei sua energia vital. Eu grito. É tudo o que posso fazer de mais urgente. Grito alto, muito alto, lançando o som para o céu como sinalizadores. Em algum lugar fora da casa dos irmãos Lycan, uivos irrompem a noite.


EPÍLOGO ADRIAN MIKE ESTÁ IRRITADO HOJE. Está com raiva dos Lycan, porque eles haviam prometido que iriam me treinar, mas nenhum deles tem aparecido na academia nos últimos dias. O clima está uma droga. Nossa casa, um quarto imundo de motel na beira da estrada, fede a álcool e urina. Tyler não faz nada além de resmungar dia e noite e discutir com Mike. Sinto que minha presença entre eles é como um atiçador de chamas piorando seus gênios intratáveis, então passo a maior parte do tempo na Yukon. Já é quase Junho agora. Os corredores estão ficando cada vez mais vazios, então evito os refeitórios. Preciso conseguir comida de outra forma, mas não consigo pensar em nada que não seja arriscado. Acabo conseguindo alguma coisa nos fundos dos restaurantes – ninguém duvida da minha condição quando olham para minhas roupas. Ando sem rumo pelas ruas. De dia, é agradável, mas de noite o frio me obriga a voltar para casa. Mike me recebe sempre com violência. Na maioria das vezes, está chapado, mas depois, quando a lucidez volta, seus olhos me encaram com culpa, avaliando os hematomas que sua mão deixou em meu rosto e ele cai no choro, implorando perdão. Apesar de sermos gêmeos, não temos nada em comum. Talvez, por baixo da sujeira, dos trapos e da confusão caótica de nossos cabelos, exista mesmo semelhança. Na verdade, o formato do rosto e o nariz são parecidos. Mas Mike vive irritado e isso repuxa sua boca para baixo numa careta permanente de azedume. Apesar disso, é o que assume os riscos. Foi ele quem encarou Oz quando os


Lycan nos mandaram arrumar documentos falsos. É ele quem vai atrás de dinheiro e arruma bicos aqui e ali para termos um lugar para morar. Tyler é o mais sortudo de nós três, pelo menos em relação à beleza. As garotas gostam dele, o que é bom, pois ele consegue dormir em camas macias e perfumadas e tem sempre comida boa, embora nunca traga nada para mim e Mike. Ele adora falar comigo sobre sexo. “Depois da primeira vez, é bem melhor.” “Como foi que você conseguiu domar?”, isso me interessa, porque é de sabedoria comum que nossa espécie tem muita dificuldade em manter contato e, em relação ao sexo, a primeira vez pode ser assustadora e traumática. “Ah, foi uma merda. Não é nada sutil, sabe. Mas eu tive sorte, porque a garota gostava de ação.” “Você a machucou?” “Provavelmente. Não tem como controlar.” Às vezes, Tyler perde um pouco a noção e começa a descrever o ato para mim. “Não quero saber disso.” “Qual o problema?” “Eu não quero saber, está bem? Que droga.” Ele não entende. Seu pavio é curto e o simples fato de não querer partilhar com ele suas aventuras eróticas o deixa bravo, mas a verdade é que Tyler é a única pessoa que tenho no mundo para conversar. É uma pena que seus


assuntos sejam tão limitados. Bem, existe um assunto o qual quase não falamos, e nunca na frente de Mike. É esse assunto que o faz me odiar tanto e me bater. Ele me culpa e sente medo do que esse segredo pode trazer de ruim para nós, e não posso dizer que está errado. Essa noite, ele está impossível porque me viu trocando de roupa. Eu tive cuidado, mas é muito difícil não cometer um deslize ou outro convivendo com mais duas pessoas num espaço tão apertado. “Cobre essa merda!”, ele está gritando para mim enquanto coloco a blusa o mais rápido possível, “Que droga, você não tem noção! E se passar alguém pela janela?” “As cortinas estão fechadas”, Tyler murmura da cama, o polegar pressionando o controle remoto a cada segundo, fazendo as imagens mudarem na televisão, as luzes coloridas lançando reflexos em seu rosto absorto. “Não é só isso!”, Mike berra. Seu pescoço está tão vermelho que parece prestes a explodir, “Parece que está provocando a gente, mostrando essas porcarias, esfregando na nossa cara o quanto somos duplamente amaldiçoados!” Eu cruzo os braços diante do corpo, um reflexo que já me acostumei a ter toda vez que Mike chama meus seios de essas porcarias. “Cara, dá um tempo, ela só está se trocando...” No fundo, eu entendo meu irmão gêmeo. Ser o que somos é uma merda, mas ser o que somos e ainda ser o que sou é muito pior. Eles não sabem lidar com isso, é uma espécie de medo coletivo, como se eu fosse um enigma que eles não suportam não conseguir desvendar e tentam


desesperadamente sufocar. Além disso, existe a sensação. Mike a tem, e Tyler também, só que ele finge que ela não existe. A sensação é como chamamos a impressão constante de que estamos sendo seguidos. E não é por uma boa velinha vendendo flores. É isso que está acabando com os nervos de Mike. “Tudo bem, Tyler, eu já terminei. Vou indo”, eu me estico para dar um beijo rápido em sua bochecha, o que é um erro idiota, mas só me dou conta tarde demais. A fúria de Mike se eleva ao limite. Ele me agarra pelos braços quando passo a caminho da porta. “Você não é uma garota”, as palavras saem apertadas por entre os dentes. Ele está ameaçador como nunca vi antes, e só posso deduzir que a sensação o perseguiu hoje na rua, “Você é um garoto, e garotos não dão beijinhos, entendeu? Mas que droga, Adrian!” Ele me solta, me empurrando com força contra a cama, mas eu me levanto depressa e me esgueiro por entre ele e a televisão para escapar para a noite. Ele ainda tenta me agarrar, mas sou mais rápida. Eu gostaria de poder confortá-lo, ou ao menos sentar ao seu lado e ter uma conversa tranquila, entender porque anda tão irritado, mas Mike não suporta estar mais do que um minuto ao meu lado. Ele diz que meu cheiro é indiscreto, abominável, que preciso camuflá-lo pois ele vai nos arruinar, é por causa dele que a sensação começou. Os únicos presentes que ele me deu até hoje foram um perfume enjoativo de hortelã e uma loção pós barba de menta, que sou obrigada a passar no rosto e no pescoço toda vez que saio de casa.


Dessa vez, no entanto, esqueci. Espero chegar tarde o bastante para encontrá-lo dormindo quando voltar para não ter que passar por sua inspeção vexante. Esta noite, não vou andar sem rumo, sei para onde meus pés me levam. Eu pego um ônibus e ele me leva o mais próximo possível do lugar, depois tenho que cobrir a distância a pé. A academia onde os irmãos Lycan treinam está fechada a essa hora, mas é exatamente por isso que vim. Sorrateira, consigo entrar pelo basculante de um dos banheiros e a manobra me deixa um tanto dolorida. Caio no vestiário masculino. Tento ser silenciosa, mas meus movimentos, mesmo os menores, ecoam pelos ladrilhos úmidos. Chego até a área de treinamento. Está tudo escuro, só a luz da lua entra pelos vidros lá em cima, rente ao teto, mas para meus olhos essa luz já basta. Ando por entre os sacos de areia enfileirados lado a lado. Esse lugar tem um cheiro masculino demais, suor e testosterona e isso incita meus hormônios, aqueles que devo estrangular a todo custo. Mas não é por isso que estou aqui. É pela promessa de força deste lugar. Mike quer que os Lycan me treinem e, sinceramente, sei que ter aquele garoto Ian como treinador vai acabar comigo. Ele tem benevolência, posso sentir, mas aqui não há espaço para gentilezas e, pela forma como o mais velho me tratou, eles vão fazer o possível para me detonar nos treinos. E, no meu caso em específico, não existe chance para ser fraca. Porque pressinto o perigo lá fora, ele é opressor e sorrateiro como a morte, tenho que me preparar. Não, não é por Mike, nem pelo magnetismo dos Lycan que estou aqui. É para sobreviver.

CONTINUA...


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