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É isso, amigos. A nossa recém debutada XôXatice agora despe seu vestido rodado para dar as caras pela última vez. Sem chororô! Afinal, foram quinze anos muito bem vividos, diga-se de passagem. Tivemos nossa primeira vez com ela em março de 67, na universidade: um bando de cabeludos punheteiros com vontade de fazer alguma coisa diferente na vida. E fizemos! A nossa princesinha passou de Garganta Profunda à Árvore dos Sexos (confira nossa retrospectiva na página 12 com classe e pose) acompanhando a evolução do espetáculo que se tornou o pornô nosso de cada dia. O motivo do encerramento da revista não é segredo pra ninguém, como há muito se vem especulando por aí, então não vamos perder tempo cho-

rando mágoas ou apontando culpados. Vamos brindar! Um brinde aos 15 anos! Não é qualquer folhetim que sobrevive tanto tempo sem chatice. Um brinde às grutinhas! À elas o nosso muito obrigado e um até logo. Um brinde à falta de papas na língua, um brinde à liberdade de expressão! Ainda temos muito o que falar e os nossos papas foram rezar missa longe daqui! A XôXatice brinda aos seus fiéis leitores, gente de mente aberta que nos deu motivação pra falar de tanta coisa boa por tanto tempo. Um brinde de rei aos nossos colaboradores, aos amigos e parceiros de xoxotagem. Sem pesares, é em grande festa que apresentamos a última edição da XôXatice. Desejamos a todos uma boa leitura. Gozem bem!

Ana Lidia Guerrero

XOXATEIROS

4 Entrevista Linda Lovelace 6 Aconteceu

Editora Ana Lidia Guerrero Redação Gisela Duarte Irene Niskier Rita Martins Revisão Bruna Rossi João Flores Direção de Arte Isadora Assis Rafael Bizachi Agradecimento Andréia Resende

Nem Deus resiste ao tesão de uma puta revolução

8 Fotografia O corpo como tela 10

Capa O último gozo de XôXatice 16 Novidade A coisa tá suja 18 Quem é? Punheta literária

20 Rapidinhas Porque falar pou-

co está na moda foco: AIDS

21 Bem Estar Saúde em

23 Crônica Maravilha de fim

Rio de Janeiro, Maio de 1982 3


ENTREVISTA

Linda Lovelace Protagonista do maior clássico da indústria pornográfica, atriz comenta os dez anos da obra e relata sobre seu atual envolvimento com o ativismo anti-pornográfico. Por João Flores

Dez anos se passaram, porém a relevância de “Deep Throat” para a indústria de conteúdo adulto continua incontestável. Além de desafiar as leis de obscenidade americanas e tornar-se o primeiro de seu tipo a ser exibido em cinemas tradicionais, o filme também consagrou a jovem Linda Lovelace como musa eterna do cinema pornográfico. Agora envolvida em outros projetos, a ex-atriz nos contou (via telefone, direto de sua residência em Center Moriches, na ilha Long Island, estado de Nova Iorque) um pouco sobre as mudanças de rumo em sua vida, sobre como resolveu inserir-se no ativismo feminista e sobre as polêmicas que se desenrolaram após o ápice de sua maior obra. Este mês “Deep Throat” completa uma década de lançamento. Como você avalia o sucesso do filme e o legado que ele deixou? Literalmente milhões de mulheres foram levadas aos cinemas por seus namorados ou maridos para aprender o que uma mulher poderia fazer para satisfazer um homem se ela realmente quisesse. Este valor instrutivo parece ter sido o principal motivo da popularidade do filme… E como você avalia esse tipo de comportamento? Definitivamente foi o que fez explodir a película, não foi? Eu repudio. O sucesso do filme se deve inteiramente a seu caráter “inovador”... Ninguém estava acostumado a ver a coisa toda de forma tão explícita. Mas, de qualquer forma, mulher nenhuma deveria ser obrigada a tomar o filme como lição… É assédio, sabe? Experiência própria, isso é terrível. E em que proporções isso se deu contigo? Bem, recentemente eu lancei o meu livro “Ordeal”. Está tudo lá. Assim que conheci o Chuck (Traynor, seu ex-marido e empresário), conheci também a sexualidade… Daí para as imposições, maus tratos e minha inserção no mundo da pornografia foi um passo… 4

Eu ia chegar lá, mas você adiantou um pouco as coisas... Como era sua relação com Chuck Traynor? O conheci ainda muito jovem… Me recuperava em casa de um acidente que tive. Desde o começo ele foi violento e controlador. Até que fomos para Nova Iorque e tudo tomou uma proporção inesperada… Lá eu fui obrigada a me prostituir e a fazer tudo o mais que ele mandasse. Carrego, ainda hoje, marcas de toda a violência que sofri naquela época. Isso é realmente muito assustador. Na época você tinha 23 anos, como você lidou com tudo isso? Eu era um fantoche, simplesmente isso. Tudo o que fiz ou o que falei durante aquele período foi sobre a mira de uma arma, tanto antes quanto depois do sucesso do filme. Meu corpo foi usado para encher os bolsos daquele cara… Dele e do Gerry (Damiano, diretor do filme). “Pornô Chique” agora era a nova metáfora para brutalidade…


E de que forma você se inseriu nesse mundo? Como se deu sua escolha para o elenco do filme? Bem, eu aprendi alguns truques na marra… Na época das ruas. Você sabe, um mundo hostil exige adaptação. Descobri como agradar aos caras… Isso tudo chegou à visão do Gerry e ele resolveu escrever sobre. Você se refere a “técnica sexual” que intitula o filme? Também… Bem, fugindo um pouco do assunto, o filme estourou nas bilheterias e rendeu 600 milhões de dólares, tendo sido custeado com apenas 25 mil. Ao que parece, de tal montante, nem sequer um dólar foi repassado a você, a principal estrela do filme. O que aconteceu? Pergunte ao Chuck o que houve… Essa foi uma dele. Ao que sei, ele lucrou 1250 dólares e nada mais. Eu era um objeto… Era diversão. Ainda hoje procuro meios para conseguir ressarcir tudo o que deixei de ganhar com o sucesso do filme… Tem sido uma luta. Falando em luta, conte-nos um pouco sobre como você conheceu o movimento feminista, assim como o que te levou a escrever “Ordeal”. Tudo começou a funcionar à partir de 1978, depois que minha história veio a público naquela entrevista com o Mike McGrady... As coisas começaram a melhorar a partir daí. Já havia fugido do Chuck… Senti a necessidade de contar minha história, de fazer com que ou-

tras mulheres não sofressem o que sofri… Até recebi propostas absurdas para fazer novos filmes, porém, recusei todas veementemente. Tive meus filhos, precisava tirar essa mancha do meu nome. Então conheci o movimento feminista. Senti, que, como mulher, deveria lutar. Lancei “Ordeal” e desde então venho contando minha história em palestras país afora.

poderia levá-las a sério”, assim como, também disse “ter criado Linda Lovelace“. O que você pensa desses argumentos? Tão falsos quanto os orgasmos que fingi durante o filme. Bem, nosso tempo está acabando. Gostaria de deixar um recado final para o leitores de nossa revista? Respeitem-se.

Recentemente, em relação as revelações apresentadas em seu livro, Traynor disse à imprensa que suas acusações eram “tão ridículas que não 5


ACONTECEU

Nem Deus resiste ao tesão de uma puta revolução A arte pornô fez revolução na Praia de Ipanema, fazendo todo mundo tirar a roupa e pedir bis. Por Ana Lidia Guerrero

A arte pornô fez revolução na Praia de Ipanema, fazendo todo mundo tirar a roupa e pedir bis. O Coletivo Gang presenteou a cidade do Rio de Janeiro com mais uma de suas fabulosas performances no último sábado (13). Diferentemente das costumeiras sextas-feiras na Cinelândia, foi a Praia de Ipanema o palco para a volúpia poética, desta vez com a presença da imprensa e o dobro de público. A expectativa era grande quando dois rapazes e cinco moças começaram o show com poesias e brincadeiras com muita sacanagem. 6


em uma espécie de “ditadura artístico-literária”. Ele ressalta que outra das intenções do coletivo é a de contestar a ideia do pronto e acabado, de que tudo já está feito. Segundo Kac, eles têm o dever de levar a poesia a espaços e contextos onde, normalmente, ela não se dá,

O que interessa é o corpo vivido, de seus desejos verbais a seus prazeres textuais, (...) desde o corpo social até o corpo individual, de sua carnalidade a sua carnavalização.

to da Arte Pornô, elaborado em 80 quando o coletivo ainda estava nascendo, com frases como “A Arte é penetração e gôzo” e “Masturbação literária não gera porra nenhuma”. Também lançaram o Pornô Comics, de Ota, uma divertidíssima historinha de oito páginas, protagonizada pelos próprios membros da Gang, cujo enredo é justamente a passeata pornô. No gibi, a polícia chega e acaba com a festa. Felizmente, na realidade, isso não aconteceu.

“Para curar um amor platônico, só uma trepada homérica!”, bradavam, seguidos em coro pela enorme roda que se formou em volta deles. Depois de cerca de quarenta minutos, tiraram suas próprias roupas - que já não eram muitas - convidando o público a fazer o mesmo. Nús e com considerável adesão da platéia, saíram numa passeata de mais ou menos trezentos metros, terminando em um mergulho coletivo nas geladas águas do posto 9. A pedidos, voltaram ainda para mais porno-poemas, num sarau gozador até o pôr-do-sol. “O objetivo do movimento não é, para nada, fazer a pornografia comercial, a pornografia clássica. O objetivo é compreender a lógica da pornografia, trazê-la para um universo de subversão e fazer dela uma ferramenta de combate político” explicou Eduardo Kac, idealizador e principal condutor do movimento, dizendo que vivemos

assim justificando a ação pública realizada pela cidade, que também possibilitaria uma noção de corpo distinta ao artista. Durante a performance, o grupo distribuiu panfletos com o manifesto do Movimen7


FOTOGRAFIA

O Corpo como Tela Piercing. Tatuagem. Maquiagem. テ田ulos. Brincos. Esmalte. Colar. Pulseira. Que tom vocテェ dテ。 a sua tela? Por Gisela Duarte

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9


CAPA

O Último Gozo de XôXatice Nessa última edição, trazemos os detalhes íntimos do que rolou debaixo dos lençóis da Indústria Pornográfica durante os 15 anos da revista. Por Gisela Duarte e Rita Martins

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a? Eta! Primeira capa ĂŠ sempre bonit

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CAPA

Linha do tempo Muito aconteceu desde nossa primeira vez em 1967, ainda em solo universitário. Não poderíamos imaginar, ainda virgens, por quanta coisa o gênero Pornô ainda passaria. No início, podíamos compará-lo a um jovem recém-saído da puberdade, que havia acabas do de descobrir quem era reo p tem iceis almente. No início, podíamos comdif pará-lo a um jovem recém-saído da puberdade, que havia acabado de descobrir quem era realmente. A Libertação Sexual, que se iniciou nos anos 60, nos passa esse sentimento,

ao nos depararmos com a sociedade finalmente “saindo do armário”, passando a aceitar o sexo antes do casamento, a masturbação, as fantasias eróticas, a pornografia e a sexualidade. Apesar dos filmes adultos existirem desde o cinema mudo, quando eram gravados em bordéis, foi na década de 70, durante a Revolução Sexual, que eles ganharam novo fogo com a Indústria Pornográfica. Ainda nessa década, é aprovada a eliminação do Código de Produções e é institu-

1960/70

ída a Classificação de Filmes por faixa etária. Com essas medidas, as películas pornôs deixam de ser um subproduto criminal e passam a ser exibidas em cinemas próprios. Essas transformações foram as preliminares do que ainda estava por vir...

Nos EUA, é aprovada a eliminação do Código de Produções e é instituída a Classificação de filme por faixa etária. É constituída a Indústria Pornográfica. 1970

A Revolução Social, ou liberação sexual acontece. O cinema pornô passa a ter destaques e premiações.

ito a pelo -dirWeashington, 70 Passeatlh s e das mu er

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Com o advento do cinema pornográfico, em 72, quando a Indústria atinge seu ponto G, é lançado o que viria a se tornar o maior clássico do gênero, o longa Garganta Profunda (Deep Throat no original americano). Estrelado por Linda Lovelace, o filme conta a história de uma mulher que por não conseguir ter orgasmos, decide inovar, se dedicando ao sexo oral. O papel mais ativo desempenhado pela mulher em Garganta Profunda, rendeu a Linda o título de símbolo da revolução sexual feminina.

G

Em seu aniversário de 10 anos, a revista fez reportagens especiais sobre o filme estrangeiro “Tal Mãe, Tal Filha” e a pornochanchada nacional, “A Árvore dos Sexos”.

1972

1977

Deep Throat (ou Garganta Profunda), primeiro filme de grande sucesso da indústria pornográfica.

1979 Com o abrandamento da Ditadura Militar, os filmes pornôs começam a ser exibidos no Brasil nas salas de cinema locais.

cena Cartaz feilme do

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CAPA Apesar do sucesso, anos mais tarde, já na década de 80, ao lançar a biografia “Provação”, a atriz conta como foi coagida pelo ex-marido a entrar na Indústria Pornográfica, além de explanar outros abusos sofridos. Após largar o marido e a vida de atriz pornô, Lovelace se tornou ativista contra a produção de filmes eróticos e contra os abusos sofridos pelas mulheres. Já no Brasil da Ditadura Militar, surge a Pornochanchada, gênero que, na tentativa de nos desobrigar do pensar crítico, trazia para os filmes, altas dose de erotismo (fato que a aproximava do gênero pornô, apesar de não haver cenas de sexo explícito), linguagem fácil, apelo excessivo, muita comédia, roteiros fracos e baixa qualidade técnica.

Provação: Biografia de Linda Lovelace, protagonista de Garganta Profunda. 1970/80

1980

O Gênero da Pornochanchada: filmes feitos para o puro entretenimento das massas, que na verdade, refletiam um período que pretendia nos desobrigar do pensar crítico, a Ditadura.

am (79), Histórias que Nossas Babás nao Contav Lotaçao (78), da a A Banana Mecânica (74), A Dam e Seus Dois Maridos (76) Flor Nos Tempos da Vaselina (79), Dona 14


Em 79, com o abrandamento do Governo Militar, os filmes pornôs começam a ser exibidos no Brasil nas salas de cinema locais e o movimento da Pornochanchada perde força. A Ditadura amoleceu, resultando no orgasmo da cinematografia pornográfica brasileira, “Coisas Eróticas”, em 82. No início da década de 80, ainda sob a Ditadura Militar, um grupo de jovens iniciou um movimento que usava o corpo (quase sempre nu) para subverter a arte, utilizando a estética e a performance como resistência política e ferramenta para a inovação. A primeira atividade do grupo foi o Topless Literário, que invadiu o posto 9 da praia de Ipanema. Liderado por Eduardo Kac, o grupo intitulado Gang ia as ruas tentar perpetuar o gozo no meio artístico. Apesar de buscar o strip-tease da arte, o grupo nunca produziu pornografia tradicional, ou pelo menos ainda não o fez.

1981

Lançamento do 1º filme pornográfico brasileiro, “Coisas Eróticas”

1982

Movimento de Arte Pornô - Gang

Arte feitoa pelo grup em 1981

Apesar do fim de nossa revista ser um ponto final, ainda há muito dessa história para ser escrito. A você que nos acompanhou, desejamos exclamações e reticências. Que a chatice nunca tome conta de seus lençóis!

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NOVI DADE

A coisa tá suja Sobre as revistas pornográficas no Brasil Por Irene Niskier

Coisa boa! 16

Chegou à redação a informação de que a revista britânica Penthouse vai aportar em terras brasileiras.


Deliciosa !

Para quem não está familiarizado com o título, basta dizer que seu fundador é o milionário norte-americano Bob Guccione e que a primeira edição da publicação causou grande turbulência quando chegou às bancas em 1965 na Inglaterra. A Penthouse é um misto de lifestyle das grandes cidades, artigos de opinião e, obviamente, pornografia leve de alta qualidade. Aqui na terrinha, principalmente no contexto político que estamos enfrentando, as chamadas “revistas proibidas” são atingidas por todos os lados: os movimentos da esquerda acusam-nas de alienantes e a direita conservadora afirma que a sacanagem é veículo de formação comunista. NÃO IMPORTA, A PENTHOUSE VAI SAIR. A versão brasileira já tem até um slogan: “A Revista Internacional para o Homem” e já prevê uma entrevista quente com Fernanda Montenegro para o segundo número. A quem interessar possa, o projeto lusófano foi idealizado pelo empresário curitibano Faruk El-Khabit, dono da editora Grafipar (especializada em quadrinhos). O diretor de redação, Sílvio Lancelotti prometeu reunir grandes nomes do nosso jornalismo e, até o fechamento da nossa edição, o nome Jaguar (um dos fundadores de O Pasquim) era certo para a realização de charges.


Quem É?

Punheta literária Na última seção Quem é?, nos recordaremos de um nome que foi muito significativo para a criação da revista XôXatice, e que já deu muito o que falar: Carlos Zéfiro. Por Ana Lidia Guerrero

Durante muito tempo, grande parte do imaginário erótico brasilero, mas principalmente carioca, foi embalado pelas histórias contadas em singelos quadrinhos feitos por esse tal Carlos Zéfiro. Chamadas de catecismos, nada continham com o fim de catequizar: transas dentro do caminhão, no mato, na casa do vizinho, peitinhos, “grutinhas” e “membros avantajados” de fora, nas mais diversas posições. A clandestinidade dos quadrinhos deixava a garotada em alvoroço, e a venda nas bancas era sempre um ritual: além dos preços sempre altos, os jornaleiros os obrigavam a comprar também uma publicação “séria” e punham o catecismo dentro dela. Um testamento era o mesmo que 12 catecismos encadernados e uma bíblia era composta por 24 destes. Uma máfia muito bem organizada.

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Jamais se soube quem era Carlos Zéfiro. Quando a ditadura se instalou , o cartunista ficou na mira dos censores, mas não encontraram aquele que conseguia produzir, imprimir e distribuir clandestinamente sua revista em tudo quanto era lugar. Em 1970, conseguiram prender o editor Hélio Brandão depois de encontrarem cerca de 50.000 exemplares de catecismos em Brasília. Não conseguindo arrancar coisa alguma do coita-

do, tiveram de soltá-lo depois de três noites na cadeia. Coincidentemente, pouco tempo depois do ocorrido, pararam as publicações. Há mais de dez anos temos que nos conformar em simplesmente reler antigas histórias. Mais de dez anos se passaram, e nada se soube de fato sobre Carlos Zéfiro. As revistinhas que, por algum motivo, não circulam mais, ainda figuram a sombra da ditadura e a imaginação de muito mar-

manjo por aí. Elas podem e devem ser consideradas como um fato inédito dentro da literatura popular brasileira, e Zéfiro é especialmente memorável nesta edição da XôXatice. Uma grande parcela de contribuição teve ele quando alguns colegas de faculdade resolveram, apenas por diversão, fazer uma revista que falasse sobre as grutinhas sem chatice que ele ilustrou. Por isso, e por muitos anos de punheta literária, somos gratos.

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Quem RAPI DINHAS É?

Porque falar pouco está na moda Por Irene Niskier

Coisa nova no pedaço Hilda Hilst é a mais nova aquisição do Programa do Artista Residente da UNICAMP. A ficcionista, poeta, dramaturga e cronista garante que o tema principal de sua obra é a tensionada relação entre Deus e o Homem. Vale lembra que este ano mesmo, dona Hilst publicou A obscena senhora D. já considerado um clássico da literatura brasileira, o romance está sendo considerado pela crítica um sintetizador do pensamento e da obra da renomada autora.

Fim da linha para a chanchada? Em cartaz há algumas semanas, o primeiro filme pornô brasileiro, Coisas Eróticas promete ser um marco histórico para a sem-vergonhice áudio-visual em nosso país. A estimativa é que alcance a marca de 4,5 milhões de espectadores em breve, tornando-se uma das maiores bilheterias do cinema. A considerável aprovação do público em relação às cenas de sexo explícito levantou uma polêmica: a chanchada será esquecida? 20

Ousadia artística O coletivo Gang está desde 1980 desenvolvendo o Movimento de Arte Pornô, mas é agora, dois anos depois que ele chega ao conhecimento do grande público. Vale a pena ficar ligado em nomes como: Eduardo Kac, Glauco Mattoso, Denise Trindade, Cairo Assis Trindade, Ulisses Tavares, Bráulio Tavares e outros. E como todo mundo sabe que uma imagem vale mais que mil palavras...

Sacanagem e poesia Em breve, chegará às livrarias o primeiro livro editado no Brasil por uma mulher apenas com poemas eróticos. O nome da vanguardista é Olga Savary e a publicação se chama Magma. Grande amiga de Ferreira Gullar e musa de Drummond, a escritora garante que a descoberta tardia de sua sexualidade foi um dos elementos mais importantes que a levaram a escrever sobre ela. Nas palavras da própria “foi a falta e não o excesso que me levaram a isso”.


BEM estar

Saúde em foco - AIDS Surgindo no cenário mundial como uma doença transmissível, sem cura e mortal, a chamada AIDS chega despertando medo e curiosidade da nossa sociedade. Por Bruna Rossi

As cinco mortes registradas no ano passado nos Estados Unidos por uma doença ainda pouco conhecida têm preocupado médicos e cientistas em todo o mundo. Pouco se pode afirmar sobre a enfermidade misteriosa recém descoberta. Os primeiros casos de morte pela doença, até então desconhecida, foram deflagrados no Haiti, África Central e Estados Unidos ainda no final dos anos 70. Este ano, foi identificado o primeiro caso no estado de São Paulo, e foi o que, de fato, começou a alarmar as autoridades brasileiras e a saúde pública. No que concerne à historicidade da doença, foi no ano de 1981, quando cinco norte americanos foram diagnosticados pelo Centro de Controle de Doenças (CDC) 21


BEM estar

com uma espécie de pneumonia rara, percebendo-se entre esses pacientes certas características em comum denotativas de um quadro preocupante aos olhos dos pesquisadores. Ocorreu de descobrirem a homossexualidade de todos os cinco, o que foi uma informação relevante. Sendo assim os cientistas somaram esse histórico ao fato de todos já terem mantido relações sexuais com um comissário de bordo que cruzava o atlântico, um franco-canadense identificado como Gaetan Dugas e conhecido como “paciente zero”. Assim, a doença foi apelidada pela imprensa de “Peste-Gay” ou de GRID - Gay-Related Immune Deficiency.

X NOVIDADE

Estudos mais recentes, datados de junho deste ano, revelaram a possibilidade da transmissão da doença pelo ato sexual, pelo o uso de drogas injetáveis e também pela transfusão sanguínea. Logo, um nome provisório seria adotado: Doenças dos 5H, devido às cinco características semelhantes entre todos os pacientes até então registrados - homossexuais, hemofílicos, haitianos, heroinômanos (usuários de heroína injetável) e prostitutas (hookers em inglês). Contudo, já em julho, essa nominação começou a ser questionada, uma vez que os atingidos, começaram a apresentar perfis diferentes. Inclusive vêm sendo registrados 22

alguns casos ocorrentes em recém nascidos e mulheres. Nessas circunstâncias, a nova doença é batizada oficialmente de AIDS - sigla em inglês para Síndrome de Imunodeficiência Adquirida. E AGORA? X PARA ONDE VAMOS? Ainda não se tem uma maior perspectiva sobre sua repercussão no futuro, resta rezar agora para que o governo brasileiro faça os seus investimentos numa rede eficiente de acesso aos serviços de saúde pública - infraestrutura, insumos básicos e pessoaç especializado - a fins de nos pre-

caver de uma pandemia que está a ponto de nos consumir. Por justamente não termos muitas pistas, é importante estarmos atentos a sua contaminação. Não há ainda um modo de detectar a doença, por isso, o mínimo de cuidado é preciso e nessa nossa edição procuramos defender o sexo com camisinha, pois é uma maneira de prevenção e sinal de responsabilidade. Se acontecer de sentir aquele resfriado repentino, dores no corpo e indisposição, procure imediatamente um médico.


CRÔNICA

Sob um pequeno muro de pedra bruta, repousa um miúdo gato preto, preguiçosamente a admirar o breu. Sua pelagem a quase confundir-se com a noite. Seu miado agudo a embalar o silvo do vento dentre as vielas do centro da cidade. Nada parece se importar com nada. O crepúsculo frio do chegar prematuro de um inverno, em conjunto à segunda-feira, não parece convidar muitos as ruas. Mas, contrariando a boa lógica, lá está o Cortesão, virando a esquina e adentrando a Mendes Sá, ao tilintar das duas e meia. Cortesão, porque era rico. Cortesão por saber esbanjar. O Cortesão da boêmia, da simpatia. O Cortesão das festas, dos bailes, das mulheres e das orgias... Cortesão porque podia, sim! E como podia... No seu passo torto e em seu bambear, doses e doses de sabe Deus o que, ditam seu caminho, até quem sabe onde. Num delírio submergido em álcool e tarjas-pretas, pensa agora encarar a Riachuelo, a tropeços e a se valer da inércia, mirando os prédios e a arquitetura, vagueando sozinho pelas

esquinas de sua antiga corte. Não por ser um vadio, imaginem, e nem por ser um doente, a não ser que se entenda por doença, o gozar pleno dos prazeres da vida. Mas por ser um dândi de berço! Pertencente a nobreza, ora essa! Por adorar a vida e sentir que ela o fez especial, diferente e não à toa, mas para desfrutar do que seria seu por direito: A esbórnia.

Maravilha de fim Por João Flores

Ao dar por si, está de volta, à Mendes Sá. Vê não muito longe os Arcos, abre o sorriso, coça a gonorreia, e põe-se a desequilibrar-se Lapa acima. Dois metros a frente estranha um vulto em um muro à sua direita. De trás de uma neblina, sorri um felino. Cauda a balançar, olhos caídos, sorriso vago em seu rosto peludo. Indiferente a tudo. - Você poderia me dizer, por favor, qual o caminho para sair daqui? - Disse o Cor-

tesão. - Depende muito de onde você quer chegar - disse o Gato. - Não me importa muito onde... - foi dizendo o Cortesão. - E essa conversa não é realmente necessária. Pôs-se então de volta a caminhada e, ao chegar aos Arcos, percebeu sua solidão. Era tarde para seguir em frente e voltar não saciaria sua fome por experiência. O que o Gato tinha a dizer já era tarde para ser ouvido. Agora estará entre loucos e nem saberá onde ele mesmo se encaixará. Tarde demais, arrogante. Desequilibra-se e cai em um gesto cômico. Deitado então ao admirar o céu negro e homogêneo do início de junho. Volta as sua alucinações, pensa sua vida... Excessos penetrando excessos e ejaculando em excessos. Pervertendo corpo e alma. Você poderia ao menos ter terminado aquele livro, Cortesão... Ouvido o Gato... De certo te livrarias de tal fim. Fecha os olhos e morre por ali mesmo, às três e meia. O Cortesão teve a vida que mereceu.

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XôXatice