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Caxias do Sul - RS - Brasil 2013


© 2013 by Costa, André Editor: Arcangelo Zorzi Projeto gráfico: Rafael Augusto Machado Capa: Rodrigo Marcon, com ilustração de Taís Elena Carpeggiani Gelain Ilustração do autor: Natália Cavagnolli Revisão: Marcus Facciollo

Dados Internacionais de Catalogação na Fonte (CIP) Biblioteca Pública Municipal Dr.Demetrio Niederauer Caxias do Sul, RS

C837d Costa, André O desprezível tem um sentido que você não entendeu : minicontos / André Costa. _Caxias do Sul, RS: Ed. Maneco, 2013. 72 p. ISBN 978-85-7705-199-2 1. Contos brasileiros.I. Título 13/37

CDU: 821.134.3(81)-34

Catalogação na fonte elaborada pela bibliotecária Maria Nair Sodré Monteiro da Cruz CRB10/904

Editora Maneco Rua Giácomo Zatti, 2656 Fone/Fax: (54) 3028-6645 editora@maneco.com.br www.maneco.com.br


Limão. O gelo (antes, água dos poços da cidade do interior). Açúcar. Às vezes, viro piada. E, nessas horas, invoco quem soube converter energia negativa. Esse homem não petrificou em frente à praça. Ainda bem! Ele não merece os dejetos dos pombos, ao contrário de São Pedro, que negou Cristo por três vezes. Sempre tomo o cuidado de extrair a parte branca do limão. Ela é amarga. A cidade amargou a queda no conto do mágico. Ele cortou a cabeça de um galo e fugiu com o dinheiro sem recompô-lo como havia prometido. Esse vexame virou orgulho quando Elóy Kunz usou a ave no rótulo de suas bebidas. A “Rajska” é herdeira da era Kunz. “A vodka mais vendida no Sul do País.” Espremo bem com o socador, despejo-a. Pronto. Mágico. Ninguém mais ri.

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I Eles riem antes da última sílaba quando confesso cursar filoso... hahaha! Riram quando fui reprovado na autoescola por atropelar uma velhinha e derrubar duas balizas. As balizas foram sem intenção. Sem prestar socorro, fujo da cena cômica e apanho um ônibus com destino ao trágico. O palhaço esguicha ácido da flor na lapela.

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II

Para quem não me conhece – e está perdendo com isso – saiba: busco a felicidade nas simples coisas. Nunca fumei maconha. Se tivesse fumado, diria: “Nunca fumei maconha”. Barganho alguns níqueis com flanelinhas pelo auxílio ao estacionar. Eles perguntam sobre o modelo do meu veículo, eu confesso não ter comprado um ainda. A minha vida não renderia um curta-metragem na TV Cultura. Nos momentos de solidão, recorro aos andantes. Pergunto sobre a atuação do Wellington Monteiro, improvisado na lateral direita, mesmo sem ter o mínimo interesse em saber a opinião deles sobre isso. Um idiota autêntico. Com eufemismos, apenas excêntrico.

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III

A partir de agora, sou eu interpretando. A encenação estreia quando percebemos o rosto barbeado, a camisa passada, o casaco, o sapato e o monitor. Este é Flávio Campos. (Eu sou Flávio Campos, entende?) Tremendo esforço para até aqui chegar. Ele poderia estar lixando móveis ou perdendo dedos na morsa. Seu chefe chega atrasado. Flávio estaria conformado se o sorriso do seu superior não entregasse o motivo da demora. Quatro anos de estudo, quase graduado. Faltam cinco minutos para que Lurdes, dos recursos humanos, ligue no seu ramal e peça para Flávio comprar bolacha Maria. Se não tiver, apanhará “aquela da vaquinha”, conforme recomendado. O caminho até a padaria é uma vertente de inspirações malignas. Seu plano consiste em obter uma informação, ouvir um diálogo, vasculhar arquivos e tomar conhecimento de detalhes que ele jamais teria como saber. Detalhes de um furto. Sumiram vasos de flores do cliente K, no dia dd/mm/yyyy e, nessa hora, somente dois empresários teriam tido acesso àquela sala. Flávio está numa reunião com esses empresários. Inventa, na hora, uma teoria conspiratória explicando minuciosamente como conseguiu furtar, assumindo a culpa indevida.

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IV

Floricultura. Compro uma rosa vermelha e a entrego à primeira dama que passa pela rua. Na conveniência da rodoviária, consigo um carregador de bateria emprestado. Hostilizei a Igreja W, a proprietária me repreendeu. E, só por isso, cobrou cinco reais pelo empréstimo. Entro no bar, o dono pergunta: “Mais uma?”. A esposa dele apareceu: “Pro senhor?”. O dono, então, disse: “Ele não é um senhor; é um guri novo, e já conhece o caminho”. Ando em direção ao terminal e paro num beco sem saída. A saída é o bispo da Igreja W comandar a nação. Doenças proliferam. A vida atribulada transforma os ricos em transtornados. Os pobres querem comer, curar reumatismos e quitar carnês. As pessoas sofrem com a baixa autoestima e precisam dos pastores da Igreja W para despertar a esperança. O bispo é merecedor dos meus cinco reais, de toda fortuna que acumula e de todos os veículos de comunicação. É merecedor porque reabilita alcoólatras e dependentes químicos, reprime os criminosos e tem o dom de converter o charlatanismo em assistência social, ironicamente sendo Deus.

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V

São Chico roubava vinho no seminário. Segundo um livro de história, ele teria se suicidado jogando-se da janela de um templo maçônico. Mas ele não tinha cacife para frequentar esse templo sem janelas. Antes, fora expulso do convento. O motivo fora um desvio de hóstias para uma igreja concorrente. Passou a ser pedreiro e foi demitido por desvio de ferramentas. Investiu o dinheiro da indenização trabalhista na constituição de sua empresa. Quebrou. Mendigava cachaça, saía do bar, escolhia um ponto cardeal e o costurava como se fosse colateral. Frequentou a Igreja W e viveu sóbrio por sessenta dias. Passados dois meses, baixou no hospital e se extinguiu por falência múltipla dos órgãos. Usando apenas as mãos, curou um enfermo de gripe em menos de dois dias na noite anterior.

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VI

Começou na passagem de Edward pela São Chico, quatrocentos e sessenta e nove. Esse território pertence à jurisdição poética de Marc. Dois pensadores que habitam a mesma região não devem compartilhar os mesmos cenários. Isso gera a mesmice poética. Peritos comprovam a imprudência de Ed ao encontrarem, nas entrelinhas de suas obras, as folhas secas da São Chico. Edward e Marc passaram então a se odiar e agora são dois oponentes confrontados na recepção. No décimo quinto andar, trabalha o criminalista mais conceituado do estado. A vida dos cavalheiros andara em sentido único quando trocaram correspondências e se bifurcou com ameaças seguidas de mútuas tentativas de homicídio por conta da invasão. A liberdade agora é o elevador mais rápido.

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VII

Edward, artista, canalizava toda sua erudição de forma anárquica. Colecionou inimigos sensatos e inimigos profanos que não compreendiam sua arte. Foi quando, então, desbravou a existência de outro movimento artístico muito anterior ao de sua época. Popular, inspirador, pacífico e simples. Sentiu inveja.

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VIII

Problema psicológico é o argumento dos advogados de defesa dos pedófilos. Solicita-se redução da pena. Esse é o caso do frei australiano Alexander Cull. Chegaremos ao consenso: adultos que mantêm relações sexuais com crianças apresentam problemas mentais. No mesmo instante, pensaremos nas meninas de doze anos com calças justas no calçadão e um novo consenso se estabelecerá: esse padre merece apodrecer na cadeia.

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IX Fotos. Político encarcerado. O carcereiro de chapéu de palha o libertou. E seguiu o arraial. Outras fotos voltaram a assombrar esse político. Presume-se que tenha sido surreal o ato de beijá-la em frente da câmera, desmascarar Walter e agredir o travesti. Seria corriqueiro, no máximo um motivo a mais de chacota para os amigos. No entanto, houve grande repercussão: concorria agora a um cargo público.

WWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWW Você é esse aí de preto, no outro lado da festa junina. O seu irmão agarra a namorada de um elemento Y. Empurra esse indivíduo contra a fogueira. Apanha dele; você nota seu irmão apanhando e, para defendê-lo, espanca o desconhecido. Portanto, a paixão vence. A razão teria triunfado se você tivesse afastado os dois, apurasse a ocorrência e ajudasse o elemento Y a bater no seu mano querido.

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X

O político bebe a quinta cerveja pensando sobre o quanto vale a pena reprimir suas vontades para conservar as aparências. Imagina um país onde poderia matar quem não gostasse e mesmo assim obter votos. Sem conseguir guiar o carro ele entra no ônibus. A cobradora tira dele a garrafa e a esvazia pela janela. Desperdiça bebida com tanta gente sóbria no mundo. Ele senta e inicia uma conversa com um jovem vestido como um astro de rock: “Comecei a ler O apanhador no campo de centeio — o mesmo livro cultuado pelo assassino do John Lennon. Não tem medo que eu te mate também?”. “Eu não sou John Lennon.” “Eu também não sou o cara que matou o John Lennon, imagine.” Uma facada...

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XI

Estou sentado à sombra de um cacto, na praça, no instante em que surge uma miragem. Ou seria um manifestante? O seu discurso gira em torno de agrupar o demônio com as privatizações. Eu sou Adrian Bonart, um estressado ocasional. Subo no banco – para contrariá-lo - e atraio a atenção de, pelo menos, cinquenta civis: “Quem for contra a privatização tire do bolso e atire o primeiro telefone. Repito: quem for contra a privatização atire o primeiro aparelho!”. Permaneço de olhos fechados e braços abertos. Nenhum aparelho do demônio foi lançado contra mim. Algumas pessoas estáticas ainda me observam ao abrir os olhos. Outras, menos curiosas, apenas diminuem os passos e seguem.

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XII

Adrian Bonart é filósofo, criador da Razão Retórica. Basicamente, o estudo considera a razão inexistente. A “falsa razão” atribui-se à melhor capacidade de argumentar. Segundo a teoria, a cantiga Atirei um pau no gato, por exemplo, gera adultos violentos. (Cem por cento dos presos ouviram essa música na infância.) Bonart, Adrian, Ph.D., palestra na Universidade W. No espaço reservado às perguntas, um aluno o deixa constrangido. Adrian está certo, mas sente dificuldade em expressar por meio de palavras seus conhecimentos. Nas últimas poltronas, rapazes levam uma conversa comum entre universitários: “Tem mulher gostosa aqui no campus, né?”. “Pegaram quantas?” (Esta última é sobre o número de disciplinas a serem cursadas.) Um cabeludo entra no auditório com focinheira de porco e alargador de orelha. Está acostumado com olhares repulsivos e precisa provar que é algo além de um rostinho bizarro, afastar o preconceito e quebrar um paradigma. De repente, ele ergue o braço. Defende uma tese irrelevante com um vocabulário rico e se sente amparado pelo olhar de Bonart, Adrian, Ph.D.

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XIII

Cristiane achava o namorado da sua irmã fofo. Os dois estavam em crise e em processo de transição. Apenas seriam cumpridos alguns compromissos marcados como a palestra do primo aleatório, sem identidade e paisagístico nos porta-retratos deste conto. Cristiane saía do banho, virgem, em período fértil, quando sentiu a supremacia do corpo sobre a alma e foi seduzida pelo namorado da mana. Primeiramente bancando o sensível, em seguida, deslizando as mãos pelas costas de Cristiane, que teve de tomar um novo banho, desta vez com sentimento de culpa.

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XIV

Assumi a culpa por trancar Saimon e Henrique no compartimento da lenha. Dias antes, fiz, no teste psicológico, o desenho da árvore. Indicou ambivalência sexual. Recebi a notícia com serenidade até esclarecerem o significado de “ambivalência”. Reproduzi uma árvore idêntica àquela em frente da sala de aula. Passei meses acreditando ser gay em standby com medo de o botão vermelho do controle ser pressionado. Saimon e Henrique, descontrolados, ficaram presos entre gravetos por mim cortados da árvore de ambivalência sexual.

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XV

A mulher abre a porta e vê o marido sentado no sofá. Ele fica quieto, mas os quatro anos de matrimônio são o suficiente para saber quando se rompe a normalidade. Ela sabe o motivo e sente culpa. Fica vermelha. Sua frio. E sua mente se ocupa inventando uma desculpa para contornar o problema vindouro. O marido começa a ler a troca de mensagens via correio eletrônico entre a esposa e o amante. O que era para ser apenas uma aventura mudou sua vida e se transformou em tortura. Os infindáveis segundos entre o término da leitura e a primeira palavra da esposa trazem à tona a pasta dos itens excluídos, a qual deveria se chamar arrependimento.

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XVI

Zem Empresas Aéreas – Fidelidade & Segurança. Zembruski, proprietário da Zem, lançaria sua autobiografia em duas semanas se estivesse vivo. A intenção era presentear os funcionários da empresa com o livreto, conforme iam aniversariando. Não se tratava de narcisismo de empreendedor esnobe que deu certo. Era apenas um estímulo para os subordinados. Mas o corpo do empresário Janir Zembruski, cinquenta e dois, e da modelo Andréia Pfouzi, vinte e quatro, foram encontrados ontem, na costa leste catarinense, em meio a destroços do helicóptero da Zem Empresas Aéreas. Janir deixa esposa e dois filhos. Seguem as buscas pelo piloto André Madi, trinta e quatro.

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XVII

Bonitão. Empresário bem-sucedido. Comunicativo. Tem uma fala doce (usa um tom abaixo do normal quando conversa com as mulheres). E você vai se acostumar com o luxo – você é acomodada que eu sei – e vai acabar morando com ele.

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XVIII

O desencontro de almas gêmeas pode se resumir a um encontro: o nariz marcou com o queixo e estão prestes a colidir. Obesa, depressiva e carente, pinta os lábios de negro. Chamamna de gótica. Nada disso... O preto emagrece. Frequentava bares onde era homogênea próxima dos cabeludos fumantes de camiseta preta. Sem dinheiro, sem medo de estupros, andava pela rua sozinha, de madrugada, no subúrbio. Um marginal a aborda. Ela não tem medo até sentir uma lâmina no pescoço e o indivíduo justapor as genitálias ainda protegidas pelas vestes de ambos. O encontro de almas gêmeas passa a ser reconsiderado.

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XIX

Estou preso no aposento do castelo emitindo risadas maquiavélicas de cinco em cinco minutos. O domínio do mundo parece supérfluo. Minha enfermeira chama. É tão boba quanto a moça mais histérica dos programas de auditório. Desço e levo uma surra antes que suba e me bata. Esse estilo de vida começou quando apareci no posto de saúde com um curativo-adesivo na cabeça. Levei um tiro. O tiro foi de bala de borracha (o batalhão me confundiu com um manifestante incendiário). Reclamei que fazia sexo somente em fevereiro — época da distribuição de preservativos na estação rodoviária. Aproveitei e pedi uma amostra grátis da pílula do dia seguinte. Casei com uma ricaça infiltrada entre servidores da saúde pública para descobrir a verdadeira essência da bondade nos corações. Namoramos pelas ruas, escadas, corredores. Elevadores espelhados são desanimadores. Ela me acha inteligente e eu sou o suficiente para passar essa falsa impressão, que entra em decadência com a convivência. Procuro na consciência uma absolvição.

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XX

Meu nome é Alfredo Pallicci, poeta. Na verdade, agricultor. Eu precisava casar, ter filhos e capitalizar os recursos de mais uma geração. Todo imigrante italiano nasce com essa instrução. Minha esposa me julga tão mau quanto meu negro humor. Sua mãe tem mania de limpeza, seu pai, câncer no intestino. Só pensa em comer pinhões no vespertino. Pense positivo: assim que ele partir não haverá mais cascas espalhadas por aí. Em novembro, depois do café e do Globo Rural, visitarei os vermes almoçando o velho no cemitério municipal. O culto aos finados melhora a aceitação dos vivos. E é o caminho a ser seguido se a saída é a adaptação.

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XXI

Trilha sonora para chegar à estação a tempo de salvar um relacionamento. Câmera lenta. Os transeuntes indicam o caminho. Eles são apenas coadjuvantes. Você é o personagem central com uma meta. Continua correndo, some do campo visual dos figurantes. Chega ao seu destino depois de inventar um objetivo para se distrair no caminho. (Você entra no ônibus, ele passa na frente daquela igreja e os fiéis somem do seu campo visual.)

Quando a esposa morreu, ele começou a se tocar. Contou isso ao padre. O frei, perplexo, perguntou qual era seu pecado. “Matei minha esposa”. “Mas ela não morreu de câncer, Antenor?” “Sim. Desculpa! Pensava que masturbação fosse pecado.” Antenor tira um peso das costas e segue um objetivo que alguém inventou para ele se distrair no caminho.

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XXII

Parecia assistir à televisão de madrugada, quando apareceram cores listradas. A camisa zebrada louvava minha palestra. A câmera, atrás de mim, seguia pelos trilhos da direita para a esquerda até a blusa com dois volumes. Ela também lisonjeava meu discurso. O foco seguia sua trajetória e parava na gravata; subia alguns centímetros e, aos poucos, revelava professor Santos; este, por sua vez, me classificava como um impostor. É noite. Amarro o sapato, apanho o táxi com o motorista caolho. Na verdade, ele não é caolho, mas seria fantástico se fosse. Em busca de vingança, procuro seu endereço. Lá está. Confirmado. As pistas eram verdadeiras. Provavelmente, deve ter acreditado na vendedora da loja de ternos quando disse que aquele lhe caía bem. Peço para o taxista de dois olhos saudáveis encostar e despejo a raiva por meio de insultos.

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XXIII

A mente sem gancho apanha cartões para telefones públicos e ofende seus desafetos. Se as ligações realmente aconteceram é um mistério. A recepcionista de plantão vem à porta, solicita o cartão do plano. Dois crioulos munidos de seringas eram aguardados. Entre um sonífero e outro, no leito de uma clínica, a mente sem gancho telefona para Denise. Quando ela atende, rompe-se a lógica. Embora a loucura supere a coerência, isso me absolve de explicações sobre o acesso a telefones no sanatório. Denise preferia não existir a perder a reputação como a mente sem gancho estava perdendo. Pensa assim porque sabe como é não existir. Ela recebe um beijo na boca de quem esconde o comprimido do moço de branco embaixo da língua. A paixão da mente sem gancho era dizer aquilo que sempre quis sem ter certeza se o fez. Antes pensava. Agora faz ligações.

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XXIV

Wesley ligou para a rádio e ganhou uma gaita de boca quebrada por uma celebridade. Os amigos sugeriram queimá-la. Wesley a vendeu para comprar mil caixinhas de fósforos e um perfume – cujo efeito é neutralizado pela fragrância universal: a do cigarro. A cortina de fumaça do boteco suspendia adultérios, amores não correspondidos e dificuldades financeiras. De repente, o dono ameaça cortar os próprios pulsos com uma faquinha de rocambole. Wesley, no lado de fora, escorado na ambulância do hospício, acende um cigarro na companhia do blues. O blues é o seu amigo mais triste contando os mesmos problemas.

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XXV

Grande parte dos problemas da humanidade vem da morbidez. O inspetor de polícia traça o perfil do psicopata: infância difícil e mora no interior. Apareceu no noticiário: um garoto de seis anos roubou da mãe adotiva o dinheiro do leite para comprar um filme pirata. Ele foi punido, mas se comportou no resto do ano. Por isso, no Natal, ganhou de presente uma roupa do seu super-herói favorito. A história desse menino é curiosa. Recém-nascido, fora abandonado na porta do convento. A comunidade inteira foi recrutada pelo frei Dante Sacanon, que suplicou preces para fazer jorrar leite do peito de uma das freiras. Dois dias depois, irmã Eduarda amamentava o bebê. Seis anos mais tarde, num belo e mórbido dia, um casebre, inexplicavelmente, pegou fogo. No seu interior havia uma menina de cinco meses, sozinha no berço. O garoto vestia a roupa do aracnídeo humano, com a qual fora presenteado e, como no filme, resgatou a vítima do incêndio.

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XXVI

Ao despertar, a tontura. Por um segundo passa um compacto de lembranças. O recomeço da tempestade traz mais recordações. Ando pelas vielas. Algumas pessoas parecem sorrir ao me perceber. Antes, estive na agência lotérica e perdi um molho de chaves enquanto escolhia os números. A possibilidade de ganhar na loteria sem fraude é cinquenta vezes menor do que um raio entrar na minha cabeça. Regresso à agência e pergunto se encontraram o molho de chaves. As atendentes seguram o riso. Percebo minha barba chamuscada, em seguida, as sobrancelhas e um volume no bolso esquerdo. A mão direita, lentamente, retira as chaves derretidas e resquícios irreconhecíveis do bilhete premiado.

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XXVII

Atravessava a praça quando rasantes de quero-queros, defensores de filhotes, atacaram-no. Amparou-se no restaurante e pensou ser um chamado do destino quando viu aquela garçonete nipodescendente. “Tenho namorado, mas podemos ser amigos.” Até eu – vendedor de onomatopeias – usaria essa desculpa diante de figura tão feia. “Não quero ser seu amigo, eu quero te comer!” Patrícia Terasaki o chamou de idiota. Não há problema em ser idiota se você não sabe disso. Doloroso é ter essa consciência. A saída é abraçar a idiotice e com ela obter algo material que reduza sua condição de idiota absoluto.

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XXVIII

Amelly, sua filhinha, costumeiramente, ao despertar, liga a televisão e espera o café da manhã. Enquanto o pai atendia um vendedor de onomatopeias, Amelly apanhou um cigarro como se tivesse feito isso antes e prendeu a fumaça. Aos berros, chamou seu pai para ver o Pica-Pau perseguindo o Pato Donald. Dois minutos antes: tum-tam-tuoc (onomatopeia atípica para batidas na porta, considerando o relevo dela). O pai larga o baseado no cinzeiro da sala. Era um vendedor de onomatopeias. Ele contava que vendeu Splish Splash para Roberto Carlos quando foi interrompido pelos gritos da menina. Dois anos antes: os colegas desenham o Sol e a casinha. Amy desenha a casinha com chaminé e fumaça.

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XXIX

Devia, aproximadamente, oitocentos contos para traficantes. Estava jurado de morte. Num ato de desespero, seu pai o tranca no quarto. O filho quebra todos os móveis. Arranca a porta do armário e improvisa uma ponte que conecta o parapeito da janela ao telhado de uma casa vizinha. No momento em que caminha sobre a porta, ela cede, arrebenta. Ele despenca e fica estirado com uma possa de sangue perto da cabeça. A câmera sobe lentamente e o cadáver fica cada vez mais distante. Aparece a logomarca das Casas Bahia.

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XXX

O tema eram os sete pecados capitais. Os carros alegóricos enfeitados diante da banca. O charme do sem-conteúdo é alimentado pela revista mais vendida. Seguindo o argumento de defesa da dona dessa banca “não faço, apenas revendo”, poderíamos absolver a maioria dos traficantes brasileiros. O traficante financiou a escola de samba, mas exigiu desfilar no carro da soberba. No dia da apresentação, não compareceu.

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XXXI

Ando em passo apressado para fugir de um biltre. O pelintra alarga e intensifica os passos. Na próxima variação de comportamento, chamá-lo-ei de sacripanta. O sacripanta põe-se a correr. Amparo-me na agência do Banco W - onde aproveito para fazer um financiamento em setenta vezes. “Senhor Cláudio, boa tarde! Devido ao seu bom relacionamento com o W, vírgula, e por constar no nosso banco de dados como cliente facilmente manipulável...” Interrompo indignado, e o estagiário responde: “Desculpe senhor Cláudio, esse era um dado confidencial do nosso controle interno”. Descaracteriza-se o sacripanta avistado através da basculante do banco ao conseguir apanhar a lotação.

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XXXII

Fabinho era católico. O melhor aluno da catequese. O único a conseguir rezar a salve-rainha até o fim. Descobriu mais tarde o quão ingênuo fora e ao que se submeteu. Adotou como lema a doutrina espírita. Levou uma vida politicamente correta e espiritualmente exercitada. Por engano, foi apanhado em uma batida policial e, inspirados num filme, enfiaram-lhe o cabo da vassoura no ânus. Recuperado fisicamente, sem agir de forma passiva, armou uma emboscada ao seu agressor e acabou cravando uma adaga na jugular dele. O menino puro que rezava salve-rainha do início ao fim sem derrapar no “[...] a vós bradamos os degredados filhos de Eva” desencarnou no exato momento que um policial lhe enfiou um cabo de vassoura no ânus.

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XXXIII

Um frio terrível. A neve percebida pelos faróis do automóvel freando para poupar o ciclista. Estava prestes a entrar em área restrita. Áreas restritas guardam mistérios... Por mais insossos que sejam os bastidores, eles me fascinam. Uma placa proibitiva colore meu rosto pálido. Parece infantil, mas, se quebra a morbidez, é válido. No anseio de quebrar a morbidez, invadi o depósito de uma fruteira. Dediquei óperas às peras. Óperas ásperas. Afinal, eu sou um gênio da música tropical. Os malefícios de ser um viciado e mestre nesse gênero eu enumerei de um a cem. Enquanto minha mente circulava com a luz da sirene nas paredes, pensei numa vantagem em contrapartida: gera excelentes biografias.

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XXXIV

Acordou com os tremores. Pensou em assalto. À medida que as xícaras se moviam, as entidades do mal passaram a ser suspeitas. Era só um terremoto. Nem precisava ter pulado da sacada, amputado o pé e comprado muleta. Literalmente com o pé na cova e com apenas um a perder, entra na cafeteria próxima do prédio. Desde os quatro anos, nunca viu um cliente sequer nesse estabelecimento. Ele resolveu abordar a atendente. “Isso aqui existe?” “Não! É uma miragem”. “Eu não perguntei no sentido físico, é no sentido jurídico.” Atrás da porta dos fundos, poderia haver uma clínica de aborto, drogas ou, até mesmo, isopor de cenário. Quem sabe, uma quadrilha com britadeiras cavando um túnel. Ordenou que abrissem a porta. Sem nada a temer, a funcionária calmamente atendeu ao pedido em tom de ordem. Apenas duas vassouras e um balde são visualizados no momento em que os clientes começam a chegar.

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XXXV

Fui excluído dessa viagem. A queda da aeronave e a consequente morte dos meus amigos deseja o lado sombrio do meu inconsciente. Acendo uma vela para iluminar o sótão e viver na sombra do passado. Uma fita de vídeo entre teias de aranha traz uma recordação em preto e branco: eu voava com a turma dos selecionados e recebia o troféu. No meu discurso, utilizei a palavra “plenitude”. (Lia o dicionário, naquela época, e estava na letra p, de pedante.) Esse vídeo precisa ser digitalizado antes que meus amigos regressem ilesos da viagem maravilhosa que será descrita em detalhes.

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XXXVI

Agora ela usa argolas. Seu namorado, cabelo moicano vermelho. Um velhinho caminha e encara o casal sem disfarçar. Ela percebe e pergunta: “O senhor nunca fez nada de diferente na juventude?”. “Sim. Uma vez transei com uma arara e tava vendo se esse aí não era meu filho.” Vagarosamente, o velhinho segue seu destino, e o jovem casal vê ficar cada vez mais distante a velhice em plenitude.

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XXXVII

Capítulo um Desconheciam-se os amores do velho Miro até sua morte, quando o caseiro revelou os encontros no sítio. Suspeitavam da sexualidade de Miro. Por que suspeitavam da sexualidade de Miro? Porque ele ficava com as mulheres para si. Não contava para ninguém. E Waldenei, durante o ensino médio, sempre ouvia os colegas contando vantagens a respeito das garotas. Waldenei evitava o assunto porque vivia sozinho. Ficava avulso, sem graça, depois pensava: “Um dia vou ser um conquistador discreto como o velho Miro”. Esse dia nunca chegou. Capítulo dois Waldenei fala erado em vez de errado. É albino. Depressivo. Narigudo. Classe média. Videogame. É esquelético e tem barriguinha. Mas evita admitir isso em público devido às regras da atração. Está sozinho e com insônia num dia chuvoso. Para enganar o sono, vale-se de jogos eletrônicos. E, no momento em que controla o chinês Liu Kang desferindo um golpe — que permanece no ar, sapateia e avança sobre o oponente —, falta energia elétrica, fazendo Liu despencar de costas. Quebrar a espinha. LLLL-oL L __ Capítulo três Sentou-se quase entre o casalzinho. Para abortar o silêncio constatou: “Que merda essa vida de coadjuvante”. Conheceu irmã Eduarda. Ela disse que uma das maiores 47


loucuras do homem é querer protagonizar tudo. “Pra que subir no palco, quando ficar na frente é o suficiente?” Waldenei vibrou por se sentir um coadjuvante da própria vida. Capítulo quatro Questionado sobre seu futuro no café da manhã, a resposta súbita: “Astronauta ou programador de games”. Sempre escolhe duas opções para ficar indeciso. “E se não der certo?” O destruidor de sonhos apanha leite no interior da porta da geladeira. Capítulo cinco Desistiu de ser astronauta e programador. Vai se formar psicólogo para resolver seus problemas. Os remédios combatem a depressão, e seus efeitos colaterais causam impotência e, de carona, uma nova depressão. Capítulo seis Waldenei externa seus conflitos. Isso o transforma num revolucionário: “Em qual cidade morreu Che Guevara, moça?”. Quando não obtém respostas, Waldenei subentende como permissão para continuar fazendo perguntas: “Como você não sabe me responder se está escrito Informações, bem aqui?”. “Não é esse tipo de informação que eu presto!” “Já que você não presta, vou reclamar na gerência, sabe onde fica?” Capítulo sete O gerente soqueava a mesa, por conta da queda das ações. Seus anos de estudos em investimentos o rebaixaram a um patamar inferior ao do tio que joga no bicho. Combinaram o aluguel de uma das suas acompanhantes para a formatura do dia quinze. 48


XXXVIII

Entro na papelaria. Prometo perdoar a atendente por me destruir com um amor não correspondido se admitisse emendar pizza com motel, depois da missa. Sorriu. Os incisivos e um prémolar responderam à pergunta. A atendente é metade de um casal normal. Ainda bem. Sai um peso dos meus ombros. Jogo uma folha dentro da mochila. Em casa retiro-a toda amassada. Pego emprestada outra folha de ofício em branco de uma colega. Estou dirigindo até o centro da cidade com o propósito de tirar uma cópia frente e verso da folha. De repente, mudo a direção. Encosto na papelaria, compro uma pasta e entendo porque não sou correspondido.

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XXXIX

Resolvi, então, ensinar um truque para quem domina o assunto. Com a mão estendida, perguntei à cigana como poderia ter seu coração. “Atirando na minha cabeça”, foi sua resposta. Sem hesitar, disparei. Eu era o primeiro na lista de transplante do hospital. Foi-se a filha caçula e agora sua mãe ajeita apenas três pratos na hora do almoço.

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XL

Prestigiaria o jogo no dia seguinte. Desejou-me sorte e partiu sem deixar endereço. A cor da pele, o sorriso, o perfume e todos os atributos de praxe que apaixonam os simplórios despertaram em mim um desejo de revê-la. Queria queimar a cara com ela na praia. Exploda-se a Copa do Mundo. Ela só acontece no intervalo das guerras. Recebi a bola na direita, ameacei cruzar e enganei o goleiro chutando direto. As mesmas duzentas mil pessoas que urravam, de repente, emudeceram. Silêncio embaraçoso. Constrangedor. Abafei o som da brisa. “Roberta, te encuentro en la tienda del Pacheco después del juego.” Roberta mandou uma amiga avisar que não viria. Pacheco serviu um refresco de morango com o canudo voltado ao sentido oposto de minha boca.

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XLI

Comprou um chiclete caracterizando-se de cliente. Por consequência, dono da razão. De terno e gravata recebeu a homenagem. E não há nada mais soberbo que um homem de terno e gravata mascando chicletes. Depois da homenagem, recebeu um ultimato de seu superior: se a empresa não aumentasse os lucros no próximo bimestre, seria demitido. Anthony Garcez, ao longo de sua carreira, foi dispensado sete vezes. Esqueci de mencionar: contando com ele, serão extintos duzentos empregos. Garcez busca nos profissionais da psicologia o equilíbrio emocional para contornar essa situação delicada. “Nossa empresa vai quebrar. Como posso aumentar a margem de lucro?” A psicóloga responde: “Você precisa deixar uma reserva no caixa, separar os rendimentos pessoais dos empresariais e rever os empréstimos bancários.”

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XLII

Reunião executiva. Proponho à comissão o reaproveitamento da matéria-prima para a confecção de bambolês. Apresento os benefícios do bambolê, sua história: os egípcios faziam com fios de parreira, as mulheres usam para modelar a cintura. Ocultei o problema de coluna que ele causou nos ingleses. Entra na sala de reuniões uma modelo esbelta, cinturinha de violão, contratada para as demonstrações. Eu — Flávio Campos — agradeço a apresentação, ela se retira. Entram crianças (uma delas é minha filha caçula — a mais sapeca) e começam a brincar com os bambolês enquanto explico a outra função: a de pular amarelinha pisando entre os aros sobre o piso. Fui demitido. Dirijo-me à empresa concorrente com um computador cheio de informações confidenciais e com o projeto dos bambolês. No caminho, me aborda J. Rolón — professor de ética. Mascarado, com uma sunga sobre a calça e a letra E estampada no peito, ele me espanca até a morte.

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XLIII

Frank Roberto, compositor à beira da morte, chama seu desafeto Erick Paulo para fazer algumas revelações. Depois de diagnosticada a doença terminal, Frank descobriu petróleo nas profundezas do mar de ego. Por isso queria selar a amizade – embora tardiamente –, revelando os segredos do seu sucesso: “Erick, todas as conexões estão nos rios, na chuva, nos mares, no dia, na noite, na natureza. Sempre use a Lua para metaforizar o amor, e o Sol para sugerir a alegria e a volta por cima”.

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XLIV

Abandonado na multidão esbarrou em uma moça abandonando a condição de figurante ao articular as primeiras palavras: “Oi! Lembra de mim? Eu sou a Josi do jornalismo”. (A memória são papeizinhos enrolados num canto do cérebro à mercê de incêndios provocados por possíveis papéis enrolados inimigos.) “Não. Mas se você tivesse significado alguma coisa pra mim, eu lembraria. Sabe por onde anda a Denise?” Nem terminou a pergunta e ela apareceu. Denise era uma antiga paixão nunca declarada. Conversaram e aconteceu um beijo com gosto de amor prescrito. A Lua era apenas um satélite cumprindo sua rotina na hora do beijo tardio.

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XLV

“Um vive do jornalismo. O outro desembrulha peixe do jornal.” Uma crônica anuncia o desafio entre o colunista Carlos Rabelo e o cozinheiro da TV, Zé Tonho. – Amigo... quem você acha que vai vencer? Zé Tonho ou Carlos Rabelo? – Quem é Carlos Rabelo? É uma busca por um significado maior nas coisas simples traçando um comparativo entre a crônica e um bolo de fubá. Começa o desafio. Uma mulher come o bolo enquanto se abana com um livro de receitas. Um livro de Zé Tonho Oliveira Machado, o autor mais influente do Brasil. Tudo que ele escreve vira realidade.

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XLVI

Nelson Rodrigues escrevia sobre o debate. Acho que ele escrevia semanalmente. Minto. Diariamente. (Eu poderia deletar esse “semanalmente. Minto.” e substituir por “diariamente”. Mas foi intencional para demonstrar como ele escrevia: à máquina.) Empunhando uma bandeira, fui até o local do debate. Nesse momento, passei a ser objeto de estudo de Nelson Rodrigues. – Por que você faz esse papel de militante? – perguntou o palhaço de uma loja. Ou era o Nelson disfarçado?

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XLVII

Perseguia a seriedade. Na quinta série, Marco se esforçava para desenhar um coelhinho decente. Ficava péssimo. Para disfarçar, inseria um balão com a fala: “A enxaqueca me deixou assim”. Aquele coelhinho impostor passou a persegui-lo. Certo dia, Marco foi a uma festa. Estava triste. Para não bancar o antissocial, posou para uma foto. No dia seguinte, era mais um entre os jovens maquiados simulando sorrisos na coluna social. Folheou algumas páginas e percebeu que o ladrão de veículos era o mais honesto. O marginal correu o risco de levar um tiro na cabeça. Teve técnica e audácia para arrombar um caminhão. Foi pego. Levou tapas na nuca. Cabisbaixo e sujo, o criminoso estampou um sentimento verdadeiro nas páginas policiais.

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XLVIII

Capítulo um Foi recrutada para entrevistar um músico. Ele se comprometeu a responder apenas a uma pergunta pelo fato de odiar a mídia. “Perfeito! Eu odeio a banda! Vamos ser coniventes com nossos ódios para amplificar a conexão com quem nos ama?” Capítulo dois Vamos nos conhecer na praça. Fui tendencioso na escolha do cenário. Talvez ela reclame, talvez diga que me repito. Talvez diga. Mas ela precisa entender: é o único cenário na minha mente, justamente por viver nele. E a função dela é me mostrar outros cenários. Capítulo três Trinta e quatro graus na metrópole. Fabiane atravessa a praça em direção à assessoria de um empresário criminoso. Ela usa salto. Ela não se acha atraente. Nem alta. Escuta qualquer bobagem de um ambulante. A mulher tem uma tendência natural a rebolar, considerada a largura dos quadris. E isso se agrava quando usa salto. Sobe as escadas com dificuldade e se prepara para transcrever o irreal. Capítulo quatro São treze horas. Fabiane senta no banco da praça, em frente da redação. Aproveita o tempo para editar uma entrevista. Com uma caneta destaca-texto, ela colore o bloco. Fabiane, concentrada, não percebe quando um homem de camiseta amarela, quase verde-limão, com o rosto igualmente colorido, senta ao seu lado trazendo um girassol entre as mãos. Antes que ela pu59


desse dizer alguma coisa depois de percebê-lo, o rapaz abre um sorriso amarelo: “Sou o Homem Destacado – a parte mais importante do parágrafo.” Capítulo cinco O Homem Destacado captura a essência. Sugeriu a Fabiane a publicação das notícias de forma aleatória, em resposta à preferência dos brasileiros pelas páginas esportivas e classificados. O seu objetivo com isso era ampliar os horizontes de uma sociedade iletrada, torná-la culta – por consequência, arrogante – e com senso crítico voltado às artes. Capítulo seis Fabiane Frezze cobria uma exposição de arte para deficientes visuais. O palestrante explicava o universo de significados escondidos nas obras. Homem Destacado, gentilmente, cumprimentou a jornalista. Ela não o reconheceu. – Fabiane, eu até achava que a gente combinava por eu ser o Homem Destacado e a senhorita ter um destaque natural. Sim, porque “Fabiana”, no programa de texto, não aparece sublinhada em vermelho, mas “Fabiane” aparece. Cheguei à conclusão de que tu foste o maior erro que cometi. Senhores - fala para os cegos - posso afirmar com plena convicção: não há nada nesses quadros que eu possa enxergar além de vocês.

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XLIX Edward, artista, dispensa reconhecimento. Apenas deseja subsistir a fim de continuar a produzir e a pintar o mundo imperfeito para deixar seu nome no canto direito. As geraçþes posteriores agradecem.

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L

Estava preocupado pelo fato de sua mãe não recomendar mais casacos em dias de clima com pequenas oscilações. Procurou suprir o descaso desabafando com sua vizinha – uma poetisa com a qual nunca havia trocado uma estrofe sequer. Os dois chegaram a um consenso: deveriam conversar mais porque “aquela poesia do saguão é sua, e a do corredor é minha, e ambos não sabiam disso”. Pregaram um mundo da arte sem assinaturas. E a máxima mais espetacular criada por um deles foi: “Para ser genial, insira Willian Shakespeare entre parênteses no fim” (Willian Shakespeare).

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LI

Ler é pensar com a cabeça dos outros, segundo o livro que leio. O autor defende uma literatura arquitetada. Por isso, planejei meu novo romance: será o relato de uma viagem. Pretendo comer várias mulheres nessa saga. Discorrer sobre fontes históricas e debochar dos costumes do ser humano para me elevar à condição de visionário. A missão é assassinar um autor que plagiei e ameaça entrar na Justiça. Sua morte precisa ser original e de fácil adaptação cinematográfica para eu faturar com os direitos autorais. Chego até seu casebre com uma caminhoneta roubada, um exemplar do livro furtado e dez espigas de milho. Iniciamos um diálogo inspirado citando trechos do meu, digo, do seu livro. Aponto uma arma para a cabeça daquele caipira criativo e procuro por uma panela de pressão. (Amasso a folha.) Esse capítulo não é promissor. Seria difícil simular uma morte por meio de espigas de milho na cabeça, impulsionadas por uma panela. (Recomeçando.) Estou chegando com minha caminhoneta – presente de mamãe – ao seu casebre. O caipira me convida para tomar um café. Acontece uma conversa inspiradora, digna de frases reproduzidas em agendas de estudantes impressionáveis e convites de formatura. Ele se arrepende e me agradece por ter feito o mundo pensar com sua cabeça.

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LII

Prazer. Sou um miniconto fermentando igual a vinho. Posso vazar sem ser degustado se o autor perceber minha fuga da literatura para ser apenas uma ideia. O editor mudou o título, censurou alguns trechos. E, como todos, o escritor deixou-se e deixou-me corromper. O livro anterior vendeu. E a editora só vai me publicar se eu falar sobre aquele tema. Esse assunto saturou. Entretanto, as exigências serão atendidas. Quem me escreve não quer fazer literatura. Quer viver de.

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LIII

Eu tentava estragar vidas com uma pergunta: “Ser feliz é pra conseguir o quê?”. A autora dessa frase é Clarice Lispector. Ela não escreve. Faz pinturas com sono ao despertar. É abstrata. Ao término da leitura, sentimos um desejo de frequentar lojas de material para construção. Queria descobrir o segredo de Clarice. Bebi um chá recomendado por uma estudante de biologia, aprovada com nota sete em cogumelos. Infelizmente, fui privado da internação, e isso prejudicou minha biografia. Não descobri o segredo de Clarice. Entretanto, escrevi uma história para entreter as crianças e para os crescidos letrados perseguirem um sentido inexistente.

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LIV

O produtor tenta convencer o agente de uma gravadora a aceitar os satânicos da Destruction at the Construction. A banda é formada por construtores civis. O agente sugere capacetes e luvas de debutantes. O vocalista cai do andaime e chega ao inferno. Lá encontra o diabo com um processo trabalhista. Diabo: “Você me usou como garoto-propaganda. Temos contas a acertar”. Seu companheiro de banda (inconformado com a perda) joga inconformismos no teclado, e o mundo acha demais seus problemas banais a ponto de ele ser idolatrado e resolver todos seus problemas depois do mundo conquistado. Ou depois de oferecer uma alma. Como queiram.

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LV

Ontem vi aquele músico encenando um bêbado. Não me convenceu. Pior! Não convenceu Gorete. O ex-marido dela, um dia, chegou em casa e a porta da garagem estava fechada. Ele buzinou, buzinou, buzinou. Ninguém abriu. Decidiu entrar arrombando-a. Pressionou a embreagem, acertou a marcha à ré para embalar e pisou no acelerador. O carro desceu o barranco no outro lado da rua. Os faróis iluminaram as janelas do quarto. O ex-marido adormeceu na diagonal, e permaneceu lá até o amanhecer.

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Limpei as lentes da câmera. Enquanto eu registrava sua vida, Elóy Kunz vivia. Pediu um cigarro. Nem fumo. Conseguiu com outro e morreu de infarto. Preciso confessar: nunca vi Elóy. Apenas cismo, depois da vodca, que se forma uma aura ao meu redor. E por que não chamá-la de encosto? Sonhei com uma ligação do centro espírita onde alguém me repassava um recado psicografado. Nele, Elóy reclamava por eu ter exposto sua vida de forma irresponsável. Acordei de ressaca e ricocheteei o corpo no corredor em direção ao banheiro com um incontrolável desejo de fumar.

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O desprezível tem um sentido que você não entendeu