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Kalunga

NÃO DEIXE MORRER MEU SONHO

Ilustrações: Karen Basso

Leitura indicada pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ)

Caxias do Sul - RS - Brasil 2013


© 2013 by Kalunga Editor: Arcangelo Zorzi Projeto gráfico: Rafael Augusto Machado Capa e ilustrações: Karen Basso

Dados Internacionais de Catalogação na Fonte (CIP) Biblioteca Pública Municipal Dr.Demetrio Niederauer Caxias do Sul, RS K14n Kalunga Não deixe morrer meu sonho / Kalunga; ilustrações Karen Basso. _Caxias do Sul, RS : Ed. Maneco, 2013. 28 p. : il. ISBN: 978-85-7705-201-1 1. Literatura infantil. I. Título. 13/51

CDU 821.134.3(81)-93

Catalogação na fonte elaborada pela bibliotecária Maria Nair Sodré Monteiro da Cruz CRB10/904

Editora Maneco Rua Giácomo Zatti, 2656 Caxias do Sul (RS) Fone/Fax: (54) 3028-6645 editora@maneco.com.br www.maneco.com.br


QUERIDINHA

O nome fui eu que escolhi. Era o mesmo de uma tia minha de que eu gostava muito. Eunice. Que bom se ela, quando crescesse, se tornasse parecida comigo. Tivesse a pele morena e lábios grossos. Gostasse de tratar bem as pessoas, fossem elas quem fosse, e às vezes, ser até confundida com alguém que não se desse muito valor, ficando até meio constrangida ao receber um elogio. Mas qual! Sempre eu quis ter uma filha, um filho seria bom também, mas uma filha, desejo antigo. Mariana não tinha preferência, menina ou menino, tudo bem, vontade de Deus, dizia, católica que era. Eu não, queria mesmo era uma filha. As primeiras noites, por ser inverno e eu morar numa região muito fria, foram cansativas. Eunice chorava muito e Mariana, tinha horas, me chamava para auxiliá-la. No outro dia, no trabalho, eu estava com sono e feliz. Sorria, todo bobo, a lembrar minha filha no seu berço cor-de-rosa. Um, dois meses. Dois, três anos. E lá vai Eunice pela vida, ou melhor, pelas calçadas da vida, brincando e tropeçando muito, sujando de areia suas roupas e ficando rouca com o sereno. Vai vivendo Eunice, sua meninice. Era lindo chegar em casa na espera da espera dela. Na minha mão escondida, um chocolate. Na mão escondida dela o que os olhos não escondiam: a curiosidade em saber o que eu lhe trouxera desta vez. Ontem foi um picolé. Eunice no primeiro ano. Vejam só! Seis anos já. Uma pequena mochila a lhe curvar as costas, um compromisso obrigatório de se encontrar com os demais coleguinhas e com a professora. Chuva ou sol, sempre ia Eunice. Às aulas, faltar nunca. Queria ser doutora de gatinho. Sabia que para isso tinha que estudar muito. “Falta muito ainda pai?”, ela me perguntava. “A gente encurta o tempo”, eu respondia. Seus sonhos eram sempre com gatinhos gripados. Os tempos difíceis, o agora a desafiar a gente, e eu pensando

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no amanhã. Eunice era o meu amanhã. Mariana fazia ou comprava para ela vestidinhos lindos e sempre a deixava formosa. Minhas dez horas de trabalho eram suaves, pois eu as cumpria acompanhado pela imagem de Eunice, que no meu faz de conta dizia ela ser eu o seu herói. O tempo passou mesmo. Foi tudo tão ligeiro! Primeiro grau, segundo, namoros e cursinho, chegou à faculdade. Veterinária. Minhas dez horas continuavam. Aposentadoria? Nem pensar. Mariana começou a costurar para fora. Eu tinha orgulho dela. As amigas de Eunice sabiam quem eu era, quem Mariana era. “Esse gato é o meu paizão, essa mocinha elegante é a minha melhor amiga”, ela sempre dizia quando nos apresentava a alguém. Quantas vezes eu chorei por gostar tanto da minha filha. Certo dezembro ela ficou doutora. Como estava bonita naquela roupa escura! Muitos me abraçaram. O senhor é o pai da formanda? Meus parabéns. Mariana, uma hora, até desmaiou. O médico que estava do nosso lado e a atendeu disse que foi de emoção. Nem precisava ser médico para saber. Eu não. Na formatura nem chorei. Depois que ela recebeu todos os abraços, e demorou um bom tantinho, chegou a minha vez. Dei um beijo bem demorado no rostinho dela. Escondi a minha mão, como fazia quando ela era pequena. Ela estendeu a dela, sorrindo baixinho. Nos seus olhos a mesma curiosidade. Um miau bem fraquinho denunciou a minha surpresa. Dei um gatinho de presente para a minha doutora.

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PRIMEIRO AMOR

Na tevê, o Jornal Nacional. Fim de tarde, a rotina de sempre. Preparativos para o jantar, novela depois, hora do banho. A mãe distribuindo tarefas e tentando colocar tudo nos seus devidos lugares. Eu, um tanto dispersivo confesso, pego uma revista e tento saber o que está acontecendo mundo a fora. Lá fora, aqui, chove. Um frio gostoso me faz pensar nas coisas boas de relembrar. Porém, minhas lembranças desaparecem quando vejo desolada, no sofá, Clarisse. Clarisse tem quinze anos. Lê muito, gosta de poesia e seu esporte preferido é vôlei. Com certeza, no jantar, vai pedir batatas fritas e um bife bem passado. Só que hoje estou achando Clarisse diferente. Pensativa, olhar perdido, parece estar longe de casa. Detenho-me nela. Pergunto: - Viajando, menina? Seus olhos me procuram. Um sorriso leve. A resposta: - Longe, pai, muito longe. Os carros passam fazendo barulho. Pela janela, noto o principio da noite. - Algum problema na escola? Ela cruza as pernas. Põe as mãos sobre os ombros. - Quem dera que fosse! Suas palavras ficam por ai. Continuo tentando saber mais. - Já imagino o que seja, minha filha. Apaixonada? A mãe avisa que o jantar está servido. - Minha primeira paixão, pai. Não sei se vou jantar. Nem fome eu tenho. Levanto-me e levemente beijo Clarisse. - Pode ficar sonhando, minha filha. Eu explico para a sua mãe. Meu carinho cúmplice arranca dos seus lábios um “obrigada” bem fraquinho.

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FOTOGRAFIA

“Tá fazendo, hoje, dois meses que estou fora de casa. Não vejo a hora de voltar pra perto da minha mulher, dos meus filhos, dos meus amigos lá da minha pequena cidade. Não tem barzinho, batepapo, diversão, que me distraia mais que alguns instantes. Logo volta a saudade e o desejo de pegar o primeiro avião, ônibus, trem o que for, e me tocar depressa pra junto deles. Você também tem filhos? Dois? Então deve sentir o mesmo que eu, não é? Ontem liguei pra casa e falei um tempão com a turma. O Jorge Luiz, o mais velho, está fazendo testes num time da capital. Quer ser jogador de futebol e dizem que se parece muito com o Lúcio, aquele zagueiro da seleção brasileira, lembra dele? A Maria Amélia sempre chora quando fala comigo. É emotiva, puxou o pai, quer saber como eu estou, se me alimento bem, estas coisas. A Leninha, muito sapeca, só pede presente e mais presente. E os seus, também são assim? Ah, você acha o menino mais exigente? O que me deixa preocupado e totalmente perdido é saber quando um deles está doente. Rapaz, quase não durmo de tanta ansiedade. Ainda bem que eles têm saúde boa e a mãe cuida muito bem deles. Não fosse ela, não sei não. A sua mulher também segura as pontas? Pois é, rapaz, e às vezes a gente não dá a nossa companheira o valor devido, não é mesmo? Mas já estamos aqui há algumas horas e nem se notou. Pudera, falando dos filhos o tempo passa livremente e sempre dá a impressão de ser pouco. Não é? A gente pede a conta agora? Antes quero lhe mostrar uma fotografia, da minha turminha. Esta é a Laura, a minha mulher. O da esquerda é o Jorge Luiz, a do meio, agachadinha, é a Maria Amélia e esta aqui, fazendo careta, é a Leninha. Agora me diz: São ou não são umas graças?”

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SERÁ QUE A PROFESSORA DE DESENHO AINDA ESTÁ VIVA?

Uma vez, no quinto ano, minha professora de desenho falou que eu desenhava ridicularmente. Bem assim ela falou. Passei semanas sem saber o que fazer com o material de desenho. Eu, que pensava ser engenheiro, não sabia desenhar nem mesmo um barquinho a navegar num rio pouco caudaloso. Acabei reprovado no final do ano. Desejei que a professora morresse bem nas férias, perto do Natal. Depois, como ela não morreu e ser um exímio desenhista não é tão importante assim, fiquei bem mais aliviado. Se bem que ela não estava totalmente errada. Minha linha reta é curva, meus círculos são quase quadrados. Até uma sobrinha perguntou-me o que eu havia desenhado em seu caderno de anotações familiares. Um sol – eu respondi. Pensei que fosse uma bola de futebol furada – ela respondeu. Minhas deficiências em desenho, eu tentei supri-las em outras matérias que não exigissem tanta arte e controle motor. Não fossem os acentos e colocações verbais, o português seria uma boa opção. Mas, convenhamos, decorar regras e mais regras gramaticais não é uma boa. Matemática acho lindo, admiro quem apresenta facilidade para cálculos, trigonometria, raiz cúbica e tantas outras nuances desta ciência. Eu, confesso, com números também não dou sorte. E isso que um dia pensei em ser engenheiro, lembram? Tentei praticar esportes. Comecei com a ginástica obrigatória nos primeiros anos de escola e terminei no futebol. O maior feito que consegui na minha vida de atleta foi ser desclassificado nas oitavas-de-final de um torneio de pingue-pongue. Venci duas por WO e perdi a terceira partida por capote. Isso que meu pai sempre me incentivava dizendo que um dia eu chegaria lá. Mas lá aonde, pai? Eu perguntava a ele. Cresci, casei, tenho três filhas lindas, netos maravilhosos, e vejo os tempos mudarem. Todos dominam a tecnologia por mais moderna e rápida que sejam suas transformações. Eu, por precaução, evito

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comentar o que me apresentam como fácil e, para me incentivar, dizem que seria legal eu aprender a conviver com as variadas opções que o computador nos oferece. Afinal, tenho consciência do que eu não sei, e por mais que me esforce, não saberei jamais. Dias destes, minha netinha pediu-me que eu a auxiliasse no desenho de uma casa numa colina, tendo ao fundo nuvens brancas e algumas estrelas. Conversamos e a convenci de que a vovó, por ser professora, faria melhor do que eu o que ela queria. Um tanto decepcionada, ela concordou, sem entender como um homem grande como eu não sabia ainda fazer um desenho tão simples. Com certo constrangimento em relação a minha neta, vendo ela se afastar lentamente em direção à cozinha onde sua vó estava, pensei comigo: “Será que a professora de desenho, depois de tanto tempo, ainda está viva?”

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LETICIA

Seguidamente passeávamos pela avenida e corríamos de mãos dadas pelos parques ajardinados da cidade. Eu e Letícia éramos duas crianças, livres e despreocupadas, puras e brincalhonas. Ela se entende, naturalmente, pois acabara de completar sete anos. Eu – quem nos via ficava surpreso – beirando os quarenta anos rejuvenescia tentando acompanhar minha menina. Num certo dia de sol resolvemos fazer um piquenique, aproveitar a sombra de grandes árvores e, se o tempo continuasse a nosso favor, talvez até dar um mergulho no velho rio que nos deliciava com sua calmaria. E fomos. - Pai, você se chateia de passear comigo? - Claro que não, minha filha. Eu gosto demais de passear com você. - Mas, me diz, não prefere ficar em casa conversando com os amigos? Falando de futebol, sei lá... - Que é isso, guriazinha? Sair com você é muito melhor. - Tem certeza? - Huuum... quer que eu jure? - Quero. - Então eu juro. Já tínhamos caminhado alguns quarteirões quando tentei convencer Letícia a pegarmos o lotação e assim chegarmos mais depressa ao nosso destino. Ela me olhou com certo ar de superioridade, diria até que notei um sorriso maroto em seu rostinho quando falou: - Pai, você tá cansado, é? - Eu, cansado? Nem pensar, minha filha. Sou um grande atleta, e não é qualquer caminhada que vai me amedrontar. - E essa aguinha correndo da sua testa, o que é? - Bem... acho que é o sol, ele está bastante forte, você não acha? - Ih, agora me deu fome. E sede. Pai, me compra um refri e um cachorro-quente? - Não estou vendo nenhuma carrocinha por aqui. A gente pode - 18 -


comer mais adiante um pouquinho. Dá para esperar? - Acho que não, e agora também me deu uma baita vontade de fazer xixi. Me leva no banheiro? - Mas... agora? - Ué, pai, por acaso tem hora certa pra tudo, tem? Letícia tinha cabelos loiros, e a brisa fazia-os voar por sobre os ombros. Os olhos azuis, com toda certeza, herdara da mãe. Parecido com Débora tinha igualmente o caminhar elegante e aquela mania de ser dona da verdade. Tão pequenina... tão semelhante... - Quando é que gente vamos ao cinema? - É só passar um filme legal e o pai te leva. - Então vou esperar um ano, não é? - Você sabe que não é bem assim, Letícia. Vamos ver o programa no jornal, daí escolhemos um desenho bem animado e levo você. - Você deixa eu levar uma boneca? - E precisa? - Claro. - Então deixo. Certa noite, pensando estar sozinho, como de costume, senteime na sala para me deliciar com a leitura de um romance, hábito que eu cultivava há bastante tempo. Minha vida, depois da separação, resumia-se em Letícia. Trabalho, Letícia, Fórum, Letícia, Audiência, Letícia, Férias, Letícia. Eu vivia unicamente para ela e gostava de proceder assim. Talvez fosse reflexo de, ainda, não ter esquecido Débora. Obrigava-me a ser pai e mãe, amigo e companheiro. Acho que estava conseguindo. Surpreso, vi surgir por entre as flores aquele vulto delicado. Pés descalços, pijaminha amarelo, cabelos em desalinho. Já era quase meia-noite. - Oi, pai, tudo bem? - Tudo... mas você já deveria estar dormindo, o que houve? - Estou com prisão-de-ventre, sabe? - Prisão-de-ventre? - Han...han... - Quer um remédio? - Você vai me dar chá de losna?

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- Como é que você sabe? - Intuição, entende? - Intuição?? Claro...claro... Sem querer, olhamos juntos para o céu. Estava lindo, estrelado, lua cheia. - Pai, quantas estrelas existem? - Mais de mil, Letícia, mais de um milhão. - Estrela é homem ou é mulher? - Acho que é mulher, pois são todas lindas como você. - Elas se casam que nem a gente? - Casam sim para nascerem as estrelinhas. - Mas... agora mesmo você me disse que elas são mulher. - Ah... esqueci de falar nos astros para você. Eles são os pais das estrelinhas. - Os astros...os astros... e a lua? - O que tem a lua? - Ela não tem ciúme das estrelas? - Nenhum, nenhum, pois ela é que ilumina a noite para que as estrelas possam passear pelo céu. - Tá bom. - Bem, agora você vai dormir que já é muito tarde. - E você? Vai ficar aqui fazendo o quê? - Não demora nadinha, também vou deitar. Só vou ler mais um capitulo do meu livro. - Falando em livro, me conta uma historinha para eu dormir? - Que história você quer ouvir? - Hum... deixa eu ver... conta aquela da menininha que tinha tudo que as outras menininhas queriam, tinha um paizão que passeava com ela, tinha um cachorro grande, tinha muitas bonecas, bastante brinquedos, nas férias conhecia lugares lindos, mas todas as noites chorava um pouquinho, bem escondidinha embaixo das cobertas para ninguém ouvir o seu choro. - Esta o pai não conhece... ela chorava por quê? - Ela chorava com saudades da mãezinha dela, eu acho... - Boa noite, pai. - Boa noite, minha filha. - 20 -


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ROSAS VERMELHAS

- Você quer rosas? – perguntei para a moça que estava debruçada na janela, dois pequeninos seios à mostra e feições inocentes no rosto. - Quanto custam? – perguntou ela, concentrando seu olhar num pequeno botão vermelho que o orvalho ainda não tinha abandonado. - Um real, uma, e dez reais a dúzia – respondi olhando dentro dos seus olhos e achando o celeste deles mais singelo que o vermelho das minhas rosas. - Você quer as rosas? – tornei a perguntar. Ela não deixava de admirar o botão vermelho. Só para ele ela olhava. Seus olhos nem piscavam e isso me deu uma vontade muito grande de presenteá-la com ele. Mas... eu não podia me emocionar com estas coisas, pois trabalhava com flores e flores cativam. Tinha que pensar que a minha mãe e os meus irmãos menores dependiam muito das vendas que eu fazia. Todas as manhãs eu levantava bem cedo e ia ao jardim apanhar as rosas para vendê-las na cidade. Sempre colhia mais rosas vermelhas do que das outras cores, pois gostava bem mais delas. Às vezes um espinho me acompanhava pelo dia todo e fazia com que eu ficasse um pouco chateado com as minhas rosas, mas isso passava logo. Não sei por quê estou me detendo tanto nesta janela. Tá certo que a moça é bonita, mas eu já podia ter vendido algumas rosas e ela não diz que compra nem que não compra, me deixando parado aqui. - Você não gosta de rosas? – perguntei. - Acho que não existe nada mais bonito! Começou ela a responder. Que bom seria se eu pudesse viver entre as rosas, sentir todo o tempo o perfume delas envolvendo meu corpo, o colorido delas colorindo meu mundo. Eu gosto muito de flores, especialmente de rosas, disse ela finalmente. - Então, por que você não compra pelo menos uma? – e completei: compra o botão vermelho que você não para de olhar. - 22 -


Fiquei preocupado quando me dei conta de que o tempo estava passando e eu ainda não tinha arredado o pé de perto da moça. E, pior, não sentia vontade nenhuma de ir embora. Ela parece que me atraia e não deixava que eu seguisse vendendo minhas rosas pelo dia afora. Tive a impressão de que só ela existia naquela casa, pois não surgia pessoal alguma e nenhum passo se ouvia. - Você tem namorado? – perguntei de repente. Pude notar que ela ficou corada como se tivesse eu perguntado algo bem grave. - Não, não tenho – ela respondeu depois de se recuperar, tentando sorrir e ficando, é claro, mais bonita ainda. - Ah bom! Se tivesse, ele certamente lhe daria muitas flores – disse eu, querendo ser simpático. - Talvez – respondeu ela, vagamente. - Você é bonito? – perguntou a moça. Eu fiquei pensando por que a pergunta, se ela estava bem na minha frente, podia me ver e até, se quisesse, me tocar. Achei que ela queria brincar comigo e saber se eu me considerava bonito ou feio. - O que você acha? – respondi perguntando. Finalmente ouço uma voz que vem lá do fundo da casa. - Com quem você está conversando, minha filha? – perguntam. - Com um moço bonito que vende flores – foi a resposta. Ela sorriu, eu também. Não sei por quê, mas senti-me feliz olhando a moça na janela, estando eu ali com um balaio de rosas nos braços. A senhora aproxima-se da moça. Afaga-lhe os cabelos e não esconde um ar de sofrimento e ternura. Ela não enxerga – me diz – A minha filha não pode ver a beleza das suas flores, nem os flamboyants na calçada, nem o castanho dos teus olhos. Uma tristeza forte me fez companhia quando ouvi a senhora falar. Nos últimos tempos, eu só chorava de alegria vendo nascer as minhas rosas. Agora, minhas lágrimas eram diferentes, e eu me achava um tanto perdido entre as rosas e a moça na janela. Peguei um papel dourado que sempre trazia comigo e fiz o mais

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lindo bouquet de rosas que lembro ter feito em toda a minha vida. Procurei depois as mãos dela e coloquei as flores junto do seu peito. - O que é isso? – ela disse, não escondendo a surpresa. - Uma dúzia de rosas – respondi. - Mãe, traz o dinheiro pro moço. - Não precisa – me apressei em dizer. - Muito obrigada – agradeceu apertando as flores com carinho. - Quando a senhora chegou perto da janela e viu a moça com as rosas, sorriu pra mim. - O moço bonito me deu – ela disse simplesmente. - São maravilhosas – respondeu a senhora. Já era tarde. Eu voltei para casa e pelo caminho meu pensamento se alternava, Eu ora via rosas vermelhas, ora via a moça, rostinho feliz, me agradecendo as flores. Coloquei a mão no bolso vazio. O dinheiro que deixei de ganhar ia fazer falta. Minha mãe talvez não entendesse o que eu fiz. Eu mesmo, um dia, talvez achasse estranho o meu comportamento. Mas, naquela hora, fiquei muito em paz comigo por ter agido daquela maneira.

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NÃO DEIXE MORRER MEU SONHO

A minha casa fica bem ali, entre aqueles edifícios, toda amarela, parece um ovinho tão pequena que ela é, se comparada com tudo que existe em sua volta. Desde que me conheço por gente que moro nela, e o que ela tem de mais legal é o pátio, que dá perfeitamente pra brincar de tudo quanto é brinquedo, de jogador de futebol e até de marinheiro, pois quando chove, nada mais gostoso do que deixar a água cair no corpo e fechar os olhos pensando estar em alto mar. O que me estraga o barato é ter de sair todos os dias de manhã bem cedinho pra rodoviária, procurando freguês que se disponha a passar um lustro nos sapatos. E pode ser dia de sol, vento, frio ou calor, é tudo a mesma coisa, não tem desculpa, eu tenho de ir pra luta. Até com febre alta eu já fui trabalhar, pois se eu não for, a minha mãe, como é que fica? Ela não pode se mover na cama, e a mana ajuda, mas só de noite, pois, de dia ela tem de dormir pra se recuperar. Eu tenho quatorze anos, a mana ( o nome dela é Catarina, por causa da avó, se não me engano) faz dezessete no fim do ano. Ela é muito bonita, mas o corpo já não parece mais de menina, também pudera, coitada. Tem noites que ela chega chorando, louca de dor nas pernas, de marcas feias no pescoço. E mesmo assim ela disfarça, olha pra mim e diz que está tudo jóia, que um dia a gente sai do sufoco. Nós nos abraçamos e a gente assim juntinho, se engana e se mente, pois sabe que vai ser difícil acontecer o que ela diz. A mãe sempre finge que está dormindo quando ela chega, ta certa a velha, pra que ficar acordada e perguntar se está tudo bem? Assim, é menos uma dor pra elas duas. Certo dia, eu sai de casa e fui pensando pelo caminho. Os carros passavam por mim apressados, mas eu nem tava. Tinha tanta gente boa morando nos apartamentos do lado da nossa casa, mas eu acho que bondade é uma coisa engraçada. Às vezes vale a pena a gente ser bom, outras vezes, não. Amaná nunca fez mal a ninguém, e adiantou alguma coisa? Ela se matou procurando emprego de copeira, lavadeira e faxineira nos apartamentos dos casais que - 26 -


moravam no edifício ao lado, e adiantou alguma coisa? Ou era a roupa modesta, que eles não aceitavam, ou era a beleza dela que podia ser perigosa para as dondocas cheias de pelanca, que tinham medo de perder os maridos. E a mana ali, se virando, achando tudo natural. Também, fazer o quê? A mãe, eu pensei, um dia morre. Deus que me perdoe, mas eu acho até que vai ser melhor para ela. Assim ela descansa e não precisa mais fingir que dorme quando a mana chega em casa, quando eu choro com fome. É... a mãe um dia morre e alivia esse compromisso que a gente tem com ela. Deus me perdoe, más é. Numa manhã dessas, eu engraxei o sapato de um senhor todo bonitão, anel no dedo, gravata e pasta de couro, daquelas grandonas. Perguntei para ele se era doutor, ele me disse que sim e riu baixinho. Eu fiquei meio sem jeito, mas ele era tão legal que voltei a falar e perguntei de que ele era doutor. “Sou doutor de criança – ele me disse – e, pelo jeito, você está muito bem de saúde”. “Por fora, eu tô“ – respondi só pra mim. Se bem que por apenas meia hora, ficamos amigos. Então eu pensei: “Caramba! Eu tenho um chapa que é doutor de criança” , e fiquei feliz da vida, louco pra chegar em casa e contar pra mãe e pra mana que eu tinha um amigo que era doutor de criança. Quando abri a porta, o meu grito ficou no ar, preso que nem passarinho em gaiola. A mãe, que não podia se levantar da cama, estava deitada no chão da pequena sala, e a mana, esta que podia andar por onde quisesse, estava atirada e gemia, gemia, com a cabeça parecendo enfeitada com uma fita vermelha, só que não era enfeite o que ela tinha, mas era, nem gosto de lembrar, era sangue, sangue de uma estocada dada por algum malandro, pois mais dia menos dia, isso tinha de acontecer. Eu ainda tentei fazer alguma coisa, mas acho que era tarde demais. A mãe chorava, eu chorava, mas a mana não, ela só respirava forte e no seu rosto não dava pra perceber tristeza pela morte, tão pertinho. Apenas uma calma satisfeita, uma espécie de vontade escondida de descansar.

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Antes que ela morresse de vez, cheguei bem pertinho do seu ouvido, contei alegre do meu encontro com o doutor de criança, e ela parecia esperar que eu terminasse de falar para se despedir da gente. Daí eu ainda olhei, mais uma vez, nos olhos dela, disse que ela esperasse um pouquinho mais, só um pouquinho, e falei: - “Maninha, tu que vai primeiro, diz pra Deus que a gente é bom, conta pra ele que eu te contei do doutor, conta que eu só tenho quatorze anos e que agora a mãe precisa mais do que nunca de mim, diz pra ele maninha, que se der eu quero mudar de vida, ser alguém, tu sabe, não precisa ser grande coisa, tipo assim famoso, só ser alguém. Maninha...maninha... escuta... diz pra ele que não deixe morrer o meu sonho, tá? Vai com Deus, maninha, vai com Deus...”

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Não deixe morrer meu sonho