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No cerne  do  afeto   Ronaldo Fraga sabe a exata definição da palavra alumbramento. E espalha os significados dela em cada história que conta. Porque dizem por ai que ele faz roupa. É mentira. Ele conta. Conta de um amor, de um passado, de um sonho, de um escritor. Conta com detalhismos imaginários e verdades tão lindas que parecem sonhadas. Ronaldo Fraga sabe de carinho, faz contornos nas memórias que todos dividimos e, no final, coloca na passarela, na arara, no corpo da pessoa. E da história que ele conta cada um aumenta um ponto. E vira vida. Pegue um café, sente confortável, ouça o silêncio e venha conhecer pedacinhos dele. Algumas coisas você já sabe, outras sequer imagina.

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Você já declarou várias vezes que se tornou estilista no susto. Como assim? Quando eu falo isso é porque eu não tive uma mãe costureira, não venho de uma família onde as irmãs ficavam provando roupas e tal. Eu nunca tive essa vivência pessoal com roupas, moda. Sempre gostei de desenho, e como meus pais morreram muito cedo, qualquer curso de desenho que fosse de graça eu fazia, podia ser curso de personalizar porca de parafuso, sabe, que ensinasse a desenhar cadeira, que ensinasse a desenhar caricatura, qualquer coisa. Até que um dia encontrei com uma vizinha no ponto de ônibus e ela estava com uma pasta cheia de desenhos, eram desenhos de moda e eram lindos. Perguntei onde ela estava aprendendo a desenhar aquilo e ela me disse: no SENAC, e é de graça. Então eu falei “nossa é nesse que eu vou.” Fui lá, me inscrevi pro curso, sem essa pretensão de que isso ia se tornar profissão, isso ai eu tinha sei lá, quinze anos. Você queria era desenhar. Era pra desenhar, eu queria só desenhar, só isso. E era muito divertido porque nossa sala de aula, lembrando que, isso em 84, não existia curso de moda no país, né? Daí no curso de moda do SENAC você tinha aquelas senhorinhas de cabelo lilás, azul, eram as modelistas, costureiras, que estavam tentando aprender a desenhar para desenhar para as clientes, para desenhar o figurino das clientes. As costas dos figurinos das clientes. As clientes levavam a folha da revista para a costureira e não tinham as costas do desenho! Metade da turma eram essas senhorinhas e metade travestis, que queriam aprender a desenhar as roupas pro carnaval. Era uma farra. – E esse SENAC ainda hoje em Belo Horizonte é na boca do lixo, em uma zona extremamente quebrada, e eu lá, adolescente fazendo este curso, aprendendo a desenhar drapeado, a desenhar plissado. Terminado o curso, eu tive a melhor nota da sala. Mas porque eu já tinha facilidade, sempre desenhei. Mas sem essa de “ohh, vou ser estilista, nunca pensei nisso.” Uma semana depois, o setor de formação profissional do SENAC me ligou e falou “olha, tem uma loja de tecidos que está precisando de figurinista” daí eu perguntei: mas e quanto eu tenho que pagar? Tudo

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eu pensava antes: quanto eu tenho que pagar? Quando eles me disseram que era um trabalho, pirei. Eu pensava “ vou trabalhar o dia todo, desenhar o dia todo e ainda vão me pagar por isso? Eu não acredito.” Só que não era beeem assim. Quando abriu a loja, era uma loja de tecidos no centrão da cidade, eu tinha que atender 30 clientes com o rolo de tecido na mão esperando o desenho. Alta, magra, gorda, baixa, amarela azul, roupa pra batizado, para casamento, para enterro, para encontros amorosos, para trabalhar, pra tudo. E quando eu fui ver, eu não tinha nenhum registro de roupa na minha memória, eu nunca tinha prestado atenção na roupa de ninguém. Então o que eu fazia: eu ficava tentando fazer com que a pessoa me falasse a roupa que estava no imaginário dela. E aí eu ouvia historias. Por isso quando falam “você é um contador de historias” eu concordo. Não consigo fazer minha


Ninguém lembra, sabe, estamos meio que mecanizados, mas tem uma coisa, que pra todo mundo é igual, arrebatadora, é uma relação de amor, é uma historia de amor. Por mais simples, por mais banal que seja, mais linda ela é. E com a roupa, vivemos uma relação de amor. É uma relação com quem você é, com o corpo que você tem ou com o ser que você gostaria de ser e acha que não é. Então a escolha da roupa tem sempre uma relação amorosa, sem dúvida. Pra escolher uma peça é preciso se apaixonar? Não. Você tem que ser apaixonado, ou por você, ou por alguém que gostaria de ser e acha que não é, ou por alguém que você quer se mostrar mais interessante. Santo de devoção? Ah, bom...eu tenho fases, mas tem um que pra mim é o máximo, que é Iemanjá. Com Iemanjá vem Dorival Caymi, vem o mar, vem a exuberância, os outros que me perdoem, mas Iemanjá é o santo que pode ter apelo sexual, que pode seduzir, aqueles cabelos longos, aquele vestido azul céu. Azul céu. Você inventa nomes novos para as cores. moda de outra forma. A minha formação vem disso, então por trás de cada roupa, tem que ter uma história. A roupa pra mim é uma estrutura para o personagem que cada um quer ser, que cada um pode ser. Porque a moda pode ser um grande playground, uma grande brincadeira. Em todo o seu trabalho, o amor em suas diversas maneiras de existir está presente, esparramado, vivo. Porque? De onde vem esta generosidade amorosa? Eu tenho uma coisa, que...realmente, eu sou um romântico inveterado, poucas coisas eu acho, que poucas coisas emocionam agente, poucas coisas te tiram do chão. Lembra a ultima vez que você chorou? Não.

Todas as cores são lindas e elas têm uma forma e um jeito de ser mais bonitas quando elas se casam com outras, daí quando você pensa assim: “ah minha cor não combina”, não existe isso, todas as cores combinam entre si. Olha o que é o verde e rosa, olha o que é o roxo batata, com o laranja amanhecer, entendeu? Eu acho que é muito bacana também, na memória que eu tenho, hoje menos, mas assim, de ouvir as minhas tias, as amigas delas, as pessoas mais velhas comentarem a cor da roupa falando “mas aquele azul céu, ta muito lindo com aquele amarelo gema” Então quando você traz um adjetivo pra cor… na verdade é isso, a cor carrega adjetivo, substantivo e verbo, então, quando você fala verde mar, você explica exatamente pro outro a cor que você esta vendo e que vai acabar sendo a cor verdadeira. Daquela roupa ou daquele momento.

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Suas coleções são histórias contadas com começo, meio e fim. Antes de começar a desenhar você contextualiza a coleção com uma narrativa? Ou começa a desenhar e então percebe que as roupas dizem coisas? Eu parto do contexto. A ultima coisa que importa na moda é a roupa. Poucas pessoa entendem quando eu digo isso. Mas pergunte a um estudioso de moda brasileira, o que um estilista apostou enquanto forma, cor, tecido, na coleção de – vamos falar de agora - verão de 2005. Ninguém vai lembrar. Agora quando você fala do que ele contou, dai o estudioso vai “eu vi essa coleção, eu vi este desfile”. Então, eu parto do contexto mesmo, do que eu quero falar como um todo. Se eu quero falar do rio São Francisco, se quero falar do universo drumondiano, se quero falar do universo das costureiras, se quero falar do universo de uma loja de tecidos eu olho este mundo particular, percebo o que tem nele e a roupa vem fácil, através de. Quem trabalha diretamente com você? Com quem você divide as idéias? Quem dera que a roupa fosse feita pelo estilista né? Que eu pudesse fazer tudo sozinho. Pensar, pesquisar, desenhar e a roupa está pronta. Graças a Deus que não é, porque graças a isso você acaba tendo boas surpresas. Porque passa na mão da modelista, as vezes ela entende errado aquilo que você quis dizer, mas te da uma solução muito melhor do que aquela que você queria. Passa pelas mãos da piloteira que vai fazer um acabamento que você também não tinha imaginado, e essa construção do grupo passa por vários olhares. Então eu tenho modelistas, tenho costureiras, tenho assistentes, e, quando eu defino o tema da coleção, a historia da coleção e coloco pra eles, essa historia também passa a pertencer a eles. Com isso, cada um traz o seu olhar, um olhar de observação, de análise, é legal quando no meio do processo, por exemplo, na seleção de tecidos, a pessoa fala alguma coisa como “esse tecido é tão drumondiano” ou esse tecido é aquele “guimaraesciano” no caso de Guimarães Rosa. E eles te ensinam o que? Estas participações de quem trabalha comigo são um um prazer especial no desenvolver de uma

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coleção. Porque a ação de criação em grupo é uma via de mão dupla, acho que todos se alimentam nessa relação. Porque infelizmente, quase todo mundo acaba convivendo com os mesmos tipos de pessoa, com as mesmas referências e vivências então, quem se permite transitar livremente outros grupos como por exemplo as costureiras e esta turma toda que se envolve com o fazer da roupa, eu acho que é a chance de escutar, aprender, somar. Quem veste a sua roupa? Houve uma época em que eu dizia assim “ a minha roupa eu jogo pro ar, quem pegar, é dele. “ Isso era uma meia verdade, apesar de que eu continuo jogando pro ar, e quem pega é dele, mas eu eu falava isso pra tentar desviar daquele tipo de estilista, que responde “é uma mulher da classe A, poderosa, que vai pro exterior não sei quantas vezes por ano, malha, é turbinada, rica e muito famosa.” Eu tinha muito medo de falar alguma coisa, de limitar. Mas hoje eu tenho muito claro de quem é que veste, eu falo pra esse grupo e tenho muito orgulho de poder falar que o meu trabalho é para um grupo que eu admiro muito. É um grupo de pessoas que consomem cultura, que precisam de cultura para viver, que sabem o quanto a cultura é um instrumento transformador no meio em que


elas vivem e entendem a moda como mais um instrumento de afirmação cultural. Então esse é meu consumidor, não me interessa se é adolescente, se tem 20 anos, se tem 40, se tem 80, porque todos entram aqui. - Ronaldo faz um sinal para a porta da loja que aliás, está lotada. - Eu sei exatamente qual coleção que me trouxe o cliente tal, por exemplo, aos sábados na minha loja, como eu trabalho com o publico infantil, você vê um monte de mães com as crianças, você vê os adolescentes, você vê os pais, mas você vê senhorinhas sabe, 70 anos, que hoje são independentes, donas do próprio nariz, compram a roupa que elas querem ter... normalmente são muito mais interessantes que os maridos, porque na verdade a mulher é mais interessante que o homem mesmo. E elas vieram com a coleção do Drummond, com a coleção do Lupcínio Rodrigues. As coleções me trazem clientes novos. Mas clientes novos dentro deste universo. Você cursou pós-graduação na Parson School. O que te assustou? O que te fez ir em frente? Se você for ver a minha historia, não era nem pra eu ter vindo para São Paulo (risos) – era pra eu ter ficado em Belo Horizonte, então assim, tudo que eu vivi e vivo me dá a impressão de que eu já fui longe demais. A primeira vez que eu vim para São Paulo de avião, foi como finalista de um concurso, concurso esse que me deu a vaga de finalista no curso da Parsons em NY. (NR: Concurso de Estilismo da Santista Textil) Minha mãe morreu eu tinha 7 anos, meu pai morreu eu tinha 11, então assim, tivemos uma adolescência muito pobre, pobre mesmo, de falta de coisas. Mas que não era pobre de valores ou de educação. Foi em uma outra época, uma época onde o valor do ensino público era outro né? A gente se alimentava de outras formas. Então quando eu ganhei esse concurso, que foi um concurso longo, era um concurso de dois anos, complexo, com 5 eliminatórias. Eles receberam 1800 projetos, desses 1800 projetos separaram alguns – não lembro agora quantos. Ai, você tinha que esquecer o que tinha feito e mandar uma nova coleção, ficaram 600 projetos. Destes, ficaram 40 e estes 40 vieram para São Paulo desenvolver uma coleção em uma semana. Escolheram 5 e estes

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cinco voltaram para casa e receberam os tecidos da tecelagem para desenvolver mais uma coleção e voltar para São Paulo para apresentar. Só então, anunciavam o finalista, tipo concurso de miss. Você ganhou este concurso. E ai? E eu pensava “você veio longe demais, e talvez você não tenha oportunidade de voltar, então aproveite até o ultimo momento”. Daí eu não tive essa coisa de crise existencial, de não saber o que fazer, eu só não queria ficar sofrendo, precisava aprender inglês, porque eu tive que assinar um termo, que o 1º prêmio era a pós graduação nos Estados Unidos, mas pra isso você tinha que atingir 500 pontos no TOEFL, e o segundo prêmio era uma viajem de 1 mês no circuito de moda europeu. Aí claro, com os amigos todos dizendo “tem que escolher o curso” e eu pensava, mas e se eu não conseguir? Porque chegando lá eles iam aplicar o TOEFL, e se eu não passasse não ia poder fazer o curso, e ainda perderia a viajem para a Europa. Eu tinha um primo que morava em Londres, e eu fui pra Londres para tentar reforçar meu inglês, eu tinha só 1 ano de curso básico, e fui passar 3 meses em lá. 3 meses em Londres com inverno, festa todo dia e que eu pensei “gente, eu não vou aprender aqui.” O tempo passando e eu com medo de não dar certo. Daí um belo dia olhei no espelho e decidi “eu tenho que mudar de máscara, eu não posso chegar com essa humildade toda lá”. Deixei a barba crescer, coloquei uma corrente da orelha até o nariz, coloquei um prato na cabeça e raspei o restante, ficou só uma bola de cabelo, arrumei uma calça que era uma saia na frente e me mandei pra Nova York, e quando me falavam coisas que eu não entendia, e eu fazia cara de excêntrico. Conclusão: esqueceram de aplicar o teste. Mas nem tudo era truque, né? Eu queria aproveitar tudo, tudo. Então eu me enfiava na biblioteca pública, me lembro que a aula era das 8 da manhã às 6 da tarde, o resto, eu ficava na biblioteca, e decorava as aulas que eu ia apresentar no dia seguinte, e foi assim que eu aprendi inglês, já lá. E foi maravilhoso, eu tive uma pontuação alta no final do curso. De lá, fui pra Londres e fiz um curso de chapelaria. Eu fazia chapéu para vender nas feiras e isso pagava a St. Martins, que onde eu fazia todos os cursos possíveis.

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E de Londres, chapeleiro maluco, você voltou para BH? Voltei para o Brasil no auge do Phytoervas fashion, no boom da moda brasileira, e uma amiga minha dizia pra eu mandar o projeto e tal, mandei, que foi a coleção “Coração de galinha”, uma grande metáfora, fui selecionado, ganhei o prêmio de estilista revelação daquele ano e aí não parei mais. Há um tempo atrás você quase perdeu o próprio nome. Existem algumas versões sobre o fato. Qual é a verdade? Foi o seguinte, eu fiz o Phytoervas, 3 edições, depois a semana de moda, ai trabalhei com um grupo em Belo Horizonte que tinha meu nome na etiqueta, e que pra mim foi um blefe de trabalho. Então, recebi uma proposta de uma pessoa, um dito empresário sério, querendo produzir, bancar a produção das minhas peças. Eu sabia que lá fora isto acontecia há muito tempo e pensei que aquele era o caminho. Fizemos um contra-


to, que era super claro, e fomos indo. Quando fui chamado para fazer uma alteração contratual de endereço – o documento foi chamado assim – foi incluida uma clausula a mais no contrato na qual eu passava 50% do meu nome pra ele, de tudo que eu tivesse relacionado a moda. Eu assinei e não sabia da existência deste documento. Até que um dia, eu fazendo meus trabalhos ali na confecção e tal, essa pessoa chegou e sugeriu que eu parasse de trabalhar pra coisas que não fossem com ele. Eu achei muito esquisito, e naquele vai não vai, eu não queria parar de fazer mais coisas, foi quando decidimos terminar a sociedade. Foi quando eu descobri da existência deste documento e fiquei na rua sem uma máquina de costura. Estava tudo em nome dele? Tudo que nós tínhamos não havia sido investimento dele e sim de trabalhos que eu fazia, uniformes que eu desenhava para telefônicas, pras meninas do vôlei de minas e tal. Mas o maquinário todo estava em nome dele. Isso coincidiu com quando o Paulo Borges me ligou e disse que o Morumbi Fashion estava se transformando em São Paulo Fashion Week e que iriam entrar 2 novas marcas. E uma delas era a minha. Da noite pro dia eu tinha que reunir forças para me reerguer. Algumas pessoas que já trabalhavam comigo há muito tempo vieram a mim e me disseram que estavam ao meu lado. Trabalhei muito, me prostitui muito, no sentido de trabalhar para muitas marcas, desenhando pra muitas confecções pra poder bancar isso, pra pode pagar o salário de quem trabalhava comigo, e estreei no SPFW, com a coleção de Ruth Salomão, que era a história de um judeu ortodoxo com uma cristã nova. Foi um sucesso arrebatador. E os direitos ainda eram dele? Este cara tinha registrado o site e as pessoas acessavam e o que viam eram roupas horríveis, calças justas de jeans com purpurina, correntinha no tornozelo, modelos de tomara – que – caia com aquele peito baguete, uma coisa horrorosa. Daí as pessoas perguntavam pela roupa do SPFW, e eles respondiam que aquela era a roupa conceito, mas que a roupa Ronaldo Fraga era a que estava a venda no site. Teve mil coisas, de advogado que era meu,

e que depois uma amiga viu saindo do escritório dele, então eu mudei de advogados, até que encontrei o meu advogado de direito intelectual e ganhei todas as causas. Fiquei uns quatros anos virou passado. Então, quando falam e sócios neste sentido, eu tenho urticária, eu já passei por isso, ainda bem que isso aconteceu em um momento em que ficou num âmbito regional, lá em Minas, não caiu em um âmbito nacional, imagina se hoje, eu tivesse roupas levando a minha etiqueta que não foram desenhadas por mim, enfim, eu teria uma sincope. Esta sua experiência pode servir de aviso para que as pessoas tomem muito cuidado com a propriedade intelectual? Algumas pessoas acham que se associar a uma pessoa para que o sonho saia do papel é a única saída, não é a única saída, é uma das possibilidades. Mas é que essa coisa de mensurar valor de criação, de mensurar o valor de um mote de trabalho, ainda é uma coisa muito nova mesmo no Brasil e no desespero, aquele estilista que acha que nunca vai poder levantar um negócio próprio entra em umas roubadas dessa e isso acontece. E este tal empresário, fez o que quando começou a perder na justiça? No final, quando ele viu que estava perdendo tudo, colocou faixas em toda a zona sul de Belo Horizonte, anunciando peças Ronaldo Fraga por R$9,90. Todo o meu acervo, as minhas primeiras coleções, foram nessa. A lição desta história? Hoje eu posso dizer que apesar de todas as dificuldades para ser estilista, empresário, dono, criador, empregador, tudo ao mesmo tempo, é um prazer imenso saber que aqui apito eu. Eu sei o valor de cada coisa, sei o sei do limite do dinheiro, do valor do dinheiro e o que não tem condição de ser feito. E tenho que dar satisfação para um crítico implacável, que sou eu mesmo. Você define o valor final do que vai para a arara da loja? Tenho uma equipe, minha irmã no financeiro, minha mulher que passa por todos os departamentos, mas a última palavra é sempre a minha.

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Mas essa história de preço, de produção, pelo menos isso eu delego. Se você me perguntar quanto custa aquela peça ali – aponta para as peças da nova coleção, impecavelmente penduradas em araras de ferro com pés de galinha. eu não sei. Eu só sei que, quando o financeiro me passa o target, preço médio de produto, o preço médio de matéria prima, daí eu tento acompanhar. Mais o menos, né? Você ministra oficinas de criação em comunidades carentes. Como é este trabalho? Eu vou para estes lugares, que tem uma manufatura construída, bem amarrada e desenvolvo produtos, pra que as pessoas possam utilizar e trabalhar. Agora por exemplo eu estou participando de um projeto chamado Talentos do Brasil que são seis designers trabalhando em áreas mapeadas pelo Brasil, alguns ficaram com mais, outros com menos, eu fiquei com 3 comunidade, que são: Uruguaiana e São Borja no RS, onde há um trabalho belíssimo com crina de cavalo, em Coxim, no Mato Grosso onde as pessoas trabalham com couro de peixe e na Paraíba, com o pessoal que mexe com renda labirinto. E eu sempre tive muito pudor de divulgar isso no meu site, de falar “eu faço isso” ou “minha marca é uma marca que olha para a sustentabilidade”, porque tá na moda dizer isto, né? Mas é coisa muito séria. O trabalho desenvolvido ali entra de que maneira na marca Ronaldo Fraga? Hoje eu tenho dois pontos de venda, estou satisfeito com a forma, com o lugar, e a partir desta estação, eu vou ter um espaço na minha loja onde você vai ter produtos desenvolvidos por mim dessas comunidades. Com uma etiqueta explicando tudo. Peça Ronaldo Fraga, desenvolvida no grupo tal, da cidade tal, assinada pela artesã tal, com o nome dela. Porque o grande problema das pessoas que trabalham com isto é que o trabalho nem sempre chega ao grande público. E esta foi a forma que encontrei de fazer com que todo este trabalho complete o ciclo, que chegue a quem tem condição e pode entender, valorizar e consumir estes produtos. O que você leva destes trabalhos? O ideal seria que quem trabalha com o que a gente trabalha, com a cultura, com criação ligada a cultura, nunca pode abandonar a escola. Você tem que voltar para a escola todo ano, e hoje pra mim isto é inviável, então quando eu desenvolvo estes projetos, work shops nesses lugares mais absurdos, nestas comunidades, encaro como aprendizado. Ensino e aprendo ao mesmo tempo. Este tipo de coisa, esta troca com o país é – ou pelo

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menos deveria - ser um compromisso civil dos designers. Pra que a gente não perca a capacidade de construção de identidade de um lugar através de produtos. Como? O foco de trabalhos como este é desenvolver um produto que gere emprego e renda, com reafirmação cultural. Você compra um produto que venha um pouco do Rio Grande do Sul, que venha um pouco da beleza do Vale do Carirí na Paraíba, que venha com um pouco desse Brasil que é tão diferente, que tem tantos cheiros, tantas formas, que é tão emocionante. Assim como você carrega Minas. De lá você tem o sotaque e? Tem uma coisa muito engraçada, uma vez conversaram com Manoel de Barros sobre essa coisa de identidade e tal, e ele falou “olha você pode carregar ou não o lugar que você nasceu. Até um certo ponto, é quase que inevitavel abrir mão dele, e em outro ponto vai ficar aquilo que é sua marca, que foi tatuado em você na sua primeira infância, na sua segunda infância, e que é o lugar seguro pra onde você corre.” Eu acho que de Minas o que veio junto, é o que eu vejo em outros mineiros, a reação de observador do tempo, e já dizia nosso poeta maior, e ele odiava que o chamasse assim - Carlos Drummond de Andrade, e o marca da obra dele é observar o tempo, e você vai perceber isso em qualquer mineiro, pode chamar de memória afetiva, de respeito ao passado. Você tem uma relação bonita com a palavra, com a história, com o que dito em voz alta ou baixa. Seus desfiles tem títulos imensos e auto-explicativos. Adoro essa coisa do nome e título, detesto obra sem título, as vezes eu vejo algo que é lindo, e quando vou olhar é uma obra sem título, eu fico “aahhh”. - ele faz uma expressão de desapontamento. Daí eu lembro, sempre gosto de contar esta história, mas Miró, nunca foi um artista que me emocionasse, mas estava em Barcelona, ai me falaram, que eu tinha que ir na fundação Miró, que era muito linda e tal, e eu fui, claro, é maravilhoso, que você começa a entrar pela infância dele, registro fotográfico maravilhoso, as obras começam a aparecer e você começa a entender aquela explosão de cor e quando você chega ao último quadro do Miró, que ele pintou dois dias antes da morte, ele morreu com 90 e alguma coisa, e o quadro é um quadro branco, com respingos pretos escorridos, e o título era “uma inesquecível imagem de um reveillon em Paris” daí você vê


levantou, amou, morreu. Eu acho que com isso você consegue entender a coisa dos contextos, e como roupa entra ali, na vida. Eu lembro de uma crônica que o Drummond escreveu sobre a Cecília Meireles e falava que quando a Cecília Meireles morreu o marido ofereceu para o governo a casa onde eles moravam pra ser construído um memorial. Ele estava disposto a sair e deixar tudo, a maquiagem, a penteadeira, tudo. Isto acabou não acontecendo e anos depois, Drummond escreveu uma crônica dizendo que se perguntava onde estavam os vestidos da Cecília. Vestidos esvoaçantes, coloridos, que pareciam ter sido pintados no corpo dela. Os vestidos da Cecília! Então quando você lê sobre a vida de alguém, a roupa está ali, não tem nenhuma história bem contada, que a roupa não ocupe um papel de destaque. O que tem no seu bolso agora? Tem sempre um papel, um papelzinho dobrado, esse papel pode ser um papel do ticket do avião que ficou, uma pequena nota fiscal, pode ser um telefone anotado, pode ser um cartão que inevitavelmente eu não vou lembrar quem me deu, mas tem sempre um papel. Se eu quiser anotar alguma coisa, no meu bolso sempre em alguma coisa para anotar ou desenhar. todas as cores, todas as luzes, da pra ouvir o tilintar da taça de champanhe, e provavelmente é nos 20, 30, os risos, está tudo ali. Quer dizer, voce tem uma vida inteira trabalhando com cor, com formas, pra chegar ao essencial, pra entender, conseguir falar tudo através de um risco. E um título. Se aqui estivesse sentado um estudante de moda e perguntasse: o que eu preciso ler? Uma vez perguntaram ao Jorge Luis Boges: imagina se 50 anos depois da sua morte, no céu, fosse permitido receber livros da terra pra que você tivesse noticia, e somente livros de uma única ciência, qual seria ela? Ele disse: “Ciência? Livros? Livros não, revistas de moda. Com as revistas de moda da pra entender em que ponto que o mundo está.” Vou fazer o inverso. A última coisa que eu indico é livro de moda. Adoro uma biografia bem escrita, essa coisa de olhar de longe a vida de um outro, de alguém que construiu, tropeçou,

O que tem no seu avesso? No meu avesso tem rendinhas fininhas escondendo costuras. Tentando fingir que são bem acabados. Na loja de costuras eu escutava coisas como “ a minha avó costurava muito bem, a roupa dele não tinha avesso, você tinha vontade de usar ela do avesso” e eu busco isso, uma roupa que se a pessoa quiser vestir e virar do avesso, o avesso é tão lindo - abre o blazer e mostra o forro, com tecido tão bonito quanto o que está do lado de fora - que vira outra roupa, é isso que eu busco, busco isso na minha pessoa, Ronaldo, embora eu tenha muitos pontos torcidos. Claro que tem muitas linhas emboladas, mas até o último capítulo eu pretendo resolve-las.

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