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1 PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO DA UFBA (PPGD/UFBA) MESTRADO EM DIREITO PRIVADO – 2012.02 DATA: 19/03/2013 Disciplina: Metodologia da Pesquisa em Direito Professores: Rodolfo Pamplona e Nelson Cerqueira Aluna: Carolina Grant FICHAMENTO 28 OBRA: FEYERABEND, Paul K.. Tratado contra o método. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977. Disponível em: <http://ebookbrowse.com/paul-feyerabend-contra-o-metodo-pdfd100226065>. Acesso em: 16 mar. 2013. CITAÇÕES: Introdução A ciência é um empreendimento essencialmente anárquico: o anarquismo teorético é mais humanitário e mais suscetível de estimular o progresso do que suas alternativas representadas por ordem e lei. (FEYERABEND, 1977, p. 17). Este ensaio é escrito com a convicção de que o anarquismo, embora não constituindo, talvez, a mais atraente filosofia política, é, por certo, excelente remédio para a epistemologia e para a filosofia da ciência. (FEYERABEND, 1977, p. 19). É possível, naturalmente, simplificar o meio em que o cientista atua, através da simplificação de seus principais fatores. Afinal de contas, a história da ciência não consiste apenas de fatos e de conclusões retiradas dos fatos. Contém, a par disso, idéias, interpretações de fatos, problemas criados por interpretações conflitantes, erros, e assim por diante. Análise mais profunda mostra que a ciência não conhece “fatos nus”, pois os fatos de que tomamos conhecimento já são vistos sob certo ângulo, sendo, em conseqüência, essencialmente ideativos. Se assim é, a história da ciência será tão complexa, caótica, permeada de enganos e diversificada quanto o sejam as idéias que encerra; e essas idéias, por sua por sua vez, serão tão caóticas permeadas de enganos e diversificadas quanto as mentes dos que as inventaram. Inversamente, uma pequena lavagem cerebral muito fará no sentido de tornar a história da ciência mais insípida, mais simples, mais uniforme, mais “objetiva” e mais facilmente accessível a tratamento por meio de regras imutáveis. (FEYERABEND, 1977, pp. 20-21). Há, certamente, pessoas para as quais isso “não parece tão claro”. Comecemos, portanto, com uma apresentação geral da metodologia anárquica e de uma correspondente ciência anárquica. Não há por que temer que a decrescente preocupação com lei e ordem na ciência e na sociedade — que é característica desse tipo de anarquismo — venha a conduzir ao caos. O sistema nervoso humano é demasiado bem organizado para que isso venha a ocorrer. Poderá, é claro, vir tempo em que se faça necessário conceder à razão uma vantagem temporária e que será avisado defender suas regras, afastando tudo o mais. Não creio, porém, que estejamos vivendo esse tempo. (FEYERABEND, 1977, p. 23). I Isso é demonstrado seja pelo exame de episódios históricos, seja pela análise da relação entre idéia e ação. O único princípio que não inibe o progresso é: tudo vale.


2 A idéia de conduzir os negócios da ciência com o auxílio de um método, que encerre princípios firmes, imutáveis e incondicionalmente obrigatórios vê-se diante de considerável dificuldade, quando posta em confronto com os resultados da pesquisa histórica. Verificamos, fazendo um confronto, que não há uma só regra, embora plausível e bem fundada na epistemologia, que deixe de ser violada em algum momento. Torna-se claro que tais violações não são eventos acidentais, não são o resultado de conhecimento insuficiente ou de desatenção que poderia ter sido evitada. Percebemos, ao contrário, que as violações são necessárias para o progresso. Com efeito, um dos notáveis, traços dos recentes debates travados em torno da história e da filosofia da ciência é a compreensão de que acontecimentos e desenvolvimentos tais como a invenção do atomismo na Antigüidade, a revolução copernicana, o surgimento do moderno atomismo (teoria cinética; teoria da dispersão; estereoquímica; teoria quântica), o aparecimento gradual da teoria ondulatória da luz só ocorreram porque alguns pensadores decidiram não se deixar limitar por certas regras metodológicas "óbvias" ou porque involuntariamente as violaram. (FEYERABEND, 1977, p. 29). Há circunstâncias — que ocorrem com apreciável freqüência — em que a argumentação (ou o debate) perde sua característica antecipadora para tornar-se obstáculo ao progresso. Ninguém sustentará que ensinar crianças é puramente uma questão de debate (embora a argumentação possa fazer parte do ensino e dele devesse fazer parte em maior extensão do que a habitual) e quase todos hoje admitem que um aparente resultado da razão — o domínio de uma linguagem, a existência de um mundo perceptível ricamente articulado, a capacidade lógica — é devido, em parte, à doutrinação, e, em parte, a um processo de desenvolvimento que atua com a força de uma lei natural. E quando os argumentos parecem produzir efeito, isto se deve mais à repetição física do que ao seu conteúdo semântico. (FEYERABEND, 1977, p. 30). É claro, portanto, que a idéia de um método estático ou de uma teoria estática de racionalidade funda-se em uma concepção demasiado ingênua do homem e de sua circunstância social. Os que tomam do rico material da história, sem a preocupação de empobrecê-lo para agradar a seus baixos instintos, a seu anseio de segurança intelectual (que se manifesta como desejo de clareza, precisão, “objetividade”, “verdade”), esses vêem claro que só há um princípio que pode ser defendido em todas as circunstâncias e em todos os estágios do desenvolvimento humano. É o princípio: tudo vale. (FEYERABEND, 1977, p. 34). II Cabe, por exemplo, recorrer a hipóteses que contradizem teorias confirmadas e/ou resultados experimentais bem estabelecidos. É possível fazer avançar a ciência, procedendo contraindutivamente. Examinar o princípio em pormenor concreto significa traçar as conseqüências das contra-regras que se opõem a algumas regras comuns do empreendimento científico. Para ter idéia dessa forma de operação, consideremos a regra segundo a qual é a “experiência” ou são os “fatos” ou são os “resultados experimentais” que medem o êxito de nossas teorias, a regra segundo a qual uma concordância entre a teoria e os “dados” favorece a teoria (ou não modifica a situação), ao passo que uma discordância ameaça a teoria e nos força, por vezes, a eliminá-la. Essa regra é elemento importante de todas as teorias da confirmação e da corroboração. É a essência do empirismo. A “contra-regra” a ela oposta aconselhanos a introduzir e elaborar hipóteses que não se ajustam a teorias firmadas ou a fatos bem estabelecidos. Aconselha-nos a proceder contra-indutivamente. (FEYERABEND, 1977, p. 39). A resposta é clara: não podemos descobrir o mundo a partir de dentro. Há necessidade de um padrão externo de crítica: precisamos de um conjunto de pressupostos alternativos ou — uma vez


3 que esses pressupostos serão muito gerais, fazendo surgir, por assim dizer, todo um mundo alternativo — necessitamos de um mundo imaginário para descobrir os traços do mundo real que supomos habitar (e que, talvez, em realidade não passe de outro mundo imaginário). A primeira fase da crítica que dirigiremos contra os conceitos e processos comuns, o primeiro passo na crítica aos “fatos” há de consistir, portanto, em uma tentativa de romper o círculo vicioso. Temos de inventar um sistema conceptual novo que ponha em causa os resultados de observação mais cuidadosamente obtidos ou com eles entre em conflito, que frustre os mais plausíveis teóricos e que introduza percepções que não integrem o existente mundo perceptível. Esse passo é também de caráter contra-indutivo. A contra-indução, portanto, é sempre razoável e abre sempre uma possibilidade de êxito. (FEYERABEND, 1977, pp. 42-43). REDAÇÃO DE APROVEITAMENTO: O texto de Paul Feyerabend corresponde a uma crítica lúcida, contundente e atual à “ditadura do método único”, sobre a qual, inclusive em paralelo com Heidegger (em “A questão da técnica”), seria possível afirmar que revela o fato de o método, enquanto conjunto de técnicas de pesquisa, dever construir-se e permanecer à serviço desta, do pesquisador e da melhor (mais adequada) abordagem do objeto da pesquisa, e não o contrário; não deve, pois, o método “escravizar” o pesquisador e ditar, por si só, os rumos da pesquisa. Essa crítica, que traz consigo a proposta de conjugar diferentes métodos no alcance dos resultados pretendidos, representa a principal contribuição do autor para o debate central da disciplina Metodologia da Pesquisa em Direito, em análise e oposição consistentes ao tradicional racionalismo científico e sua correlata pretensão de verdade absoluta, algo que se aproxima bastante do que pretendo realizar em minha pesquisa de Mestrado, ao examinar os pressupostos filosóficos da Bioética.

Fichamento 28 paul feyerabend tratado contra o método  

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