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A DĂŠcima SĂŠtima R.G.Ansel


Para Janeclay Lindholm,que me ensinou que nĂŁo podemos julgar ninguĂŠm,seja ele vampiro,filho da lua e etc.


Sempre pensei que pertenço a outro lugar,mas geralmente,imagino que esse lugar seja como algo que não exista,eu não me encaixo,não sou extremamente normal o bastante para essa sociedade,que não gostam de anormais.


Um. Sinto a grama abaixo de mim,meus dedos dos pés roçam nas folhagens molhadas por pequenos respingos de chuva. Apesar de estar de olhos fechados,posso imaginar a sombra da macieira acima de mim,perfeitamente,ouço e sinto o aroma de coisas variadas,não importa qual seja a real distância. Posso ouvir as asas de uma joaninha de abrindo,e logo fazendo um zunido irritante ao decolar voo.Posso ouvir os leves e rápidos passos de uma formiga,que esta em cima de um cupcake destroçado e jogado no meio da rua.Posso ouvir os passos de um rato que esta dentro da casa de meu vizinho da esquerda,Senhor Chase. Posso sentir o leve aroma que a brisa trás consigo,torta de laranja.Posso sentir o cheiro de terra molhada,que vem do quintal em construção de meu vizinho d direita,Senhor Swan.Posso sentir outro cheiro,um cheiro não comum,na realidade,dois cheiros,o cheiro do pneu queimando quando entra levemente em contato com o asfalto quente,e também sinto outro cheiro,um cheiro delicioso que me faz lamber os beiços...carne. Na realidade carne com molho madeira,provavelmente tudo isso esta armazenado num pote grande para viagem do Lea’s. É bom saber que mamãe esta trazendo esse presentinho para mim. Me levanto da grama,dou uma batidinhas de leve na lateral do corpo e no traseiro,para me certificar que não há grama ou nenhum tipo de inseto colados a meu corpo. Entro em casa pela porta frente,olho para minha casa,o único ambiente que conheci a vida toda,por mais que tenha dezesseis anos nunca frequentei uma escola normal em Holy Cross. Minha mãe é professora,formada em sabe-se lá quantas áreas,ela sempre me deu aula em casa. Eu nunca consegui frequentar uma escola de verdade,eu sempre tive mais intelecto que as outras crianças,e sempre senti coisas estranhas,como o olfato,e a audição mais eficientes. Minha mãe já consultou diversos especialistas,mas tudo o que eles dizem é: “O exame dela não deu nenhum resultado diferente.” Ou:


“Deve ser uma variedade humana convencional.” Então decidimos esquecer isso,e continuar vivendo,eu comecei meio que aceitar essa “variedade humana convencional”,é legal saber os sons que as outras pessoas só conseguem saber com vários e vários equipamentos. Escuto um som na porta,me viro e vejo minha mãe,Rebecca,loira e alta,tem o cabelo preso num rabo de cavalo,e veste o uniforme preto e sem graça da Universidade do Alasca. Ela coloca o pote de carne na mesa,e joga varias outras sacolas com compras no sofá da sala. Ela tirou o par de saltos altos pretos dos pés e se espreguiçou. -Como esta? – ela perguntou,se direcionando para seu quarto,no primeiro andar. -Bem,e você? – perguntei,indo em direção ao pote de carne,e deslizando o dedo pela sua lateral,que tinha uma gota suculenta e cheirosa de molho madeira. -Exausta!Pode comer o pote todo,estou de dieta! – minha mãe gritou de seu quarto. Não gosto quando as pessoas gritam,meu ouvidos ficam estranhos e doloridos. -Tá bem! – eu grito em seguida. Ligo a televisão em um jornal local,me jogo no sofá e acabo com a carne em segundos,logo depois largo o pote no chão e me concentro na noticia que mudara vidas,que diz: “um astro do rock vai se casar.”

Acabei cochilando,o que quer dizer que não vou conseguir dormir durante a noite,eu poderia ficar lendo,mas já decorei minha estante inteira. Eu poderia ficar no facebook,mas ele já perdeu muito a graça para mim. Ou eu poderia ficar sentada pensando na vida. -Elisa!!! - escuto minha mãe me chamar,ela esta em seu quarto,por conta dos efeitos sonoros em sua voz. Me levanto toda preguiçosa,sinto todos os tecidos de meu corpo se esticando.

Quando cheguei no quarto de minha mãe,ela estava sentada em sua cama de casal branca,com roupa de cama branca,e travesseiros brancos.


Me sentei na cama,e arqueei a sobrancelha. -Lis...você sabe que,eu é Sean vamos nos casar certo? – minha mãe perguntou,eu confirmei com a cabeça. Observei o quarto de minha mãe,teto alto,uma luminária amarelada,cama de casal branca,guarda-roupas embutido na parede a direita,tapete de lã marrom,e cheiro de melancia. Minha mãe estava com o cabelo loiro num coque mal feito,usava regata branca e shorts folgado com estampa de palmeiras. -Você sabe que eu te amo,não é Lis? – minha mãe perguntou. Pude perceber algumas rugas se acumulando no canto de seu olho direito. -Sim,mãe... – eu respondi,forçando um sorriso. Eu podia imaginar: Mamãe iria se casar com Sean,e provavelmente me queria fora do caminho,meu pai morreu durante minha gestação,não temos parentes,talvez ela sugira um colégio interno em Boston. -Sean e eu estávamos pensando em... – ela fez uma pausa,e suspirou. -...durante a lua de mel e tudo mais... A interrompi. -Colégio interno? - perguntei. Minha mãe franziu a testa. -Não...Sean estava pensando em te colocar em um intercambio... Intercambio. -Mas,eu não teria que...trocar de lugar com alguém,se não querem uma conhecida aqui,por qual razão iriam querer um estranho? – perguntei. Minha mãe pegou minhas mãos. -Seu pai era da Romênia...ele tem parentes lá...eu mantive contato com eles e...estão dispostos a cuidar de você...pode estudar por lá! Suspirei. Não fazia ideia de que tinha outros parentes,sangue de meu sangue. Cocei a nuca,eu fazia isso quando estava nervosa,por isso minha pele vive descascando.


-Vem cá! – minha mãe disse,me puxando para a sala. Senti o chão gelado abaixo de mim,estava sem meias,parecia que neve tinha tomado cada músculo de meu pé. Chegamos na sala e mamãe puxou o notebook da mesa de centro,me sentei no chão e ela no sofá,comecei a imaginar como seriam os parentes de meu pai. Não a cor da pele ou dos cabelos,não o sotaque,não o físico,só o jeito,bons ou ruins? -Olha Lis! – minha mãe me entregou o notebook,tinha um email lá,que dizia o seguinte: Querida Rebecca, Levei um susto quando recebi sua carta,não nós vemos a anos,claro,desde a dolorida morte de Peter,mas enfim,Elisa deve ser uma garota fantasticamente bonita e educada,acho que se enquadraria em nossa escola. Estamos ansiosos em ter ela em nosso lar. Um abraço, Família DiLauren. -E então? – minha mãe perguntou. -Pode ser. – respondi forçando um sorriso. -Ah meu Deus! – minha mãe disse sorrindo,então me puxou para um caloroso abraço de urso. -Mamãe... -Sim,querida? – ela disse olhando para mim. Eu via a felicidade em seus olhos,em seus sorriso. Engoli seco. -Quando vou embarcar? – perguntei. -Provavelmente...depois de amanhã! – minha mãe disse,exibindo seu dentes brancos perfeitamente alinhados. Eu sorri.


Mexi e remexi em minha estante,espanei meu computador ano 2008,fiz as unhas,descasquei as unhas,e ainda não consegui dormir. Pensei em arriscar tomas umas aspirinas,o remédio sempre me acalmou,acho que me ajudaria a dormir,mas pensei melhor e me toquei de que mamãe daria falta de uma capsula,perguntaria o motivo pelo qual eu havia tomado,eu diria que estava sem sono,ela diria que eu estava nervosa,e então ficaria magoada por eu não ter aceitado bem a ideia de ir a Romênia.

Decidi reler o email da Família DiLauren,para ver se tinha alguma ironia não detectada,mas nada,eu li e reli o email uma porção de vezes,acho que decorei o texto de onze linhas,perfeitamente escritas. De alguma maneira desconhecida eu dormi,mas acordei com minha mãe balançando freneticamente meus ombros. Ela disse que hoje iríamos a um shopping no centro do Alasca,para comprar roupas,malas,meias,chinelos,remédios e etc. Mamãe vestia uma calça jeans larga,uma regata Pink,um par de chinelos e uma bolsa pequena da Vogue. Vesti uma camiseta polo azul,fiz um coque meio soltinho,vesti uma calça de moletom preta e chinelos. Coloquei meu celular no bolso de trás da calça,ninguém iria me ligar mesmo,mas nunca se sabe,não é?

Minha mãe ligou o nosso carro,um fusca reformado,o que nos fazia parecer uma família vintage,encostei no banco e com muito sacrifício abri meu vidro. Faz anos que não vou ao shopping.

Quando chegamos ao destino,estava chovendo,sem raios ou relâmpagos,apenas água. Eu e mamãe corremos em direção a porta principal,que se abriu automaticamente,aquele lugar estava lotado,algumas pessoas tomavam suco natural em uma loja de sucos naturais,outras comiam pizzas e carnes de molho madeira no Lea’s. Eu e minha mãe fomos até o elevador,com nós entraram também uma mulher e um garotinho,que aparentava ter oito ou nove anos.


Estávamos todos em silêncio,quando o garotinho me encarou,eu dei um leve sorriso e ele grilou os olhos,e depois começou a gritar: -MAMÃE ELA QUER ME MATAR! – Apontava para mim durante os gritos. – ME TIRA DAQUI!POR FAVOR! -Harry! – disse a mulher pegando o garoto no colo com dificuldade e sussurrando algo para ele. Eu olhei para minha mãe,ela me encarava. -Me desculpe,ele é autista... – disse a mulher,saindo com o garoto da cabine de elevador. Não lembro onde exatamente,mas li que,autistas veem as coisas exatamente como elas são,e se eu for um monstro assassino?

Primeiro fomos a uma loja chamada Vera’s,não entendo,quase todas as lojas daqui tem um nome,uma aspa e um “s”,isso é ridículo. A Vera’s vendia artigos de viagem,como malas,mochilas,botas plástico,jaquetas,garrafas de água,potes,e várias outras coisas.

de

Geralmente lá na Romênia era frio,pois eu iria viajar no inverno,e pelo o que sei,no inverno as temperaturas chegam a -4 negativos. Comprei no Vera’s uma mala roxa de rodinhas,uma mochila amarela (era essa cor ou laranja),e um encosto de pescoço,pode ser que não se chame assim,mas é que não sei o nome correto.

Depois fomos ao Lea’s comer,mamãe pediu uma salada de alface,tomate seco e batata. Eu pedi uma porção de carne com molho madeira,cogumelos e batatas fritas. Minha mãe comprou uma Diet Coca de 600 ml,e dividiu entre dois copos de plástico.

Depois fomos a uma loja chamas Twrek,ela vendia roupas de moletom e etc.


Comprei umas sete camisetas de lã na loja e algumas calças de moletom,acho que só repeti de cores nas pretas que eram três.

Depois fomos a uma loja de biquínis para mamãe comprar alguns,a lua de mel seria em Salvador,no Brasil.Você deve estar se perguntando,se vou viajar amanha,como vou ver o casamento de minha mãe? Ela vai se casar no cartório,acho que não é preciso toda uma cerimônia para isso.

Depois fomos para o carro. Ainda chovia,mas nem eu nem minha mãe nos importamos,continuamos a andar até nossa fusca vintage. Colocamos as sacolas nos bancos traseiros,mamãe foi para o volante e eu para o banco do passageiro. Estava um silencio constrangedor,decidi falar algo: -Mãe,quando vou poder dirigir? Ela arqueou um sobrancelha. -Talvez possa pedir para Thomas te ensinar. – ela disse. -Thomas? – eu realmente não sabia quem era. -O filho mais velho dos DiLauren. -Eles tem filhos? -Sim. Se eles tinham filhos,eu teria que conviver com crianças,e eu não sou acostumada com isso. -Quantos? – pergunto -Dois. – Ela respondeu. –Sophia e Thomas. -Idades? – perguntei. Mamãe suspirou. -Se não me engano,Thomas tem dezenove e Sophia dezoito. Suspirei.


-Que foi? – ela perguntou. -Nada,só estou um pouquinho nervosa. – disse coçando a nuca. Minha mãe forçou um sorriso. -Sabe que pode voltar para casa depois da lua de mel. Ficamos quietas,vi que minha mãe estava indo em direção ao supermercado. -Quer que eu vá?Ou...? – eu perguntei -Compre nachos,e molho. -Tá bem. Ela me entregou vinte dólares.

Abri a porta do fusca vintage,a chuva havia cessado um pouco,corri para a porta principal,pensei se iria ser necessário pegar uma cesta,mas eram apenas duas coisas. Fui até o corredor de massas,peguei um pacote de nachos,e um pote de molho. Quando estava indo em direção ao caixa,uma mulher de aparentemente setenta e poucos anos estava se matando para conseguir um pote de sopa,que estava no alto. Coloquei minhas coisas num cantinho e fui até ela. -Quer ajuda senhora? – perguntei,ela se virou e sussurrou um “sim”. A mulher tinha várias rugas pelo rosto e mãos,olhos puxados e usava panos,devia ser uma cigana. -Pronto! – digo lhe entregando o pote,sorrindo forçadamente e indo em direção a meus nachos e ao pote de molho. -Querida? – a mulher perguntou. Me virei. -Sim? -Como é seu nome? Engoli seco,eu deveria dizer meu nome para uma estranha? -Elisa. – respondo. -Oh,sim.Vou te colocar em minhas orações. – ela sorriu. –Obrigada,pela sopa... A mulher se virou e saiu.


Fui até o caixa com menos fila,esperei uns cinco ou sete minutos até conseguir ser atendida. Depois encarei a chuva e fui para o carro,estava escuro,era possível ver o pinguepongue nas gotas de água do chão,por conta dos faróis ligados. Do outro lado da avenida,a mulher da sopa,ela estava atravessando,parou na calçada. Um carro passou em sua frente,e então ela desapareceu. Como mágica.

Entrei no carro totalmente molhada por chuva,e com minha calça cheia de pedacinhos de concreto colados...minha mãe falava ao telefone,provavelmente com Sean. -Uhum... – ela disse ao telefone. –Ela acabou de chegar,Esta toda suja coitada. – ela disse gargalhando ao telefone. -Oi,Sean. – eu digo. -Lis disse oi. – ela diz ao telefone. –Ele disse,oi! – Ela fala para mim sorrindo. Olho para a calçada em que a mulher desapareceu e engulo seco. -Tenho que ir para casa... – ela diz a Sean no celular. –Depois te ligo,beijos,tchau... Ela desliga seu IPhone e o joga na sua bolsa falsa da Vogue. E logo da partida no carro. -Que foi? – ela perguntou para mim. –Parece incomodada! -Não,não é nada mãe...acho que,cansaço... -Oh,sim.Claro. – ela diz sorrindo.

Quando chegamos a nossa casa eu desço para abrir a nossa garagem,depois mamãe entra e a fecha. Entro em casa pela porta da garagem,só consigo ouvir as gotas de chuva batendo no vidro,acendo a luz,minha casa é de longe muito aconchegante. Tiro os nachos e o molho da sacola.E os coloco lado a lado na bancada da cozinha. -Lis? – minha mãe me chama.


Olho para ela. -Sim? -Quer tomar um banho?Eu preparo os nachos... Coço a nuca. -Tá bem... – eu digo,forço um sorriso e subo para meu quarto.

Desfiz meu coque,meu cabelo estava todo marcado.Minhas roupas coladas,e meu pé imundo. Entrei em baixo da água,era como uma cachoeira de água quente.

Quando estava no topo da escada,senti o cheiro de nachos,desci os degraus com passos rápidos e leves. -Quer ajuda? – pergunto. -Pegue os pratos,por favor. – Vou até o armário,e pego dois pratos. Um deles é verde e tem uma rachadura,ele me lembra muito um dos colares que a senhora da sopa usava. Acabei o guardando e pegando um de vidro,para acompanhar o outro.

Minha mãe serviu os nachos,foi até a geladeira e pegou uma garrafa de Coca-Cola. -Não é diet? – pergunto. -Não,gosto do sabor dessa. Sorrio.

Sentamos uma do lado da outra no sofá beje da sala,e minha mãe liga o noticiário. Na verdade nós duas vamos conversar,então não tem necessidade de assistirmos televisão. Mas todos se sentem seguros com uma ligada. -Ansiosa? – pergunto,colocando um pouco de nachos na boca. -Hum...Salvador? – ela diz com a boca cheia.


-É. -Muito. – La diz pegando o copo de Coca-Cola-Não-Diet na mesinha de centro. -E você? – ela pergunta. Engulo seco. -Sim,ansiosa... – respondo. Ficamos em silencio e voltamos nossa atenção para o noticiário. Na verdade ele havia entrado comercial. Nós observávamos o cara falando sobre os benefícios de ter uma boa saúde,e por isso você deveria comprar uma maquina que transforma repolho em suco. O jornal voltou depois desses sofridos quarenta segundos. Uma repórter embaixo de chuva estava falando. -O corpo foi encontrado exatamente aqui,a mulher tinha setenta e cinco anos... O chão não tinha nenhum sinal de morte,apenas uma coisa,o pote de sopa industrializada. A mulher da sopa havia morrido.


Dois Eu iria até a rodoviária local de carro com minha mãe,e depois algum dos ônibus me levaria até o aeroporto. Não sabia quanto tempo exatamente iria ficar no avião,sem minha mãe para me orientar. Minha mãe estava no banho,minha malas estavam prontas,peguei o notebook e pesquisei: “Quanto tempo dura uma viagem do Alasca até a Romênia?”. Não encontrei nada,então meio que depois de meia hora eu simplesmente calculei que no mínimo oito horas. Observei meu quarto. Paredes brancas e mofadas,uma estante roxa desbotada cheia de livros,desde Paula Pimenta a Jay Bonansinga,uma pintura de fada no teto que eu e mamãe tentamos fazer no meu aniversario de nove anos,minha cama com um edredom amarelo cheio de flores...apanhei o edredom,e o levei ao nariz,tinha cheiro de casa,era aconchegante,acho que nunca me sentiria tão segura,em nenhum lugar do universo como me sinto com esse cobertor velho e encardido. Minha cabeça estava tão lotada de acontecimentos,do barulho irritante da água caindo do chuveiro no quarto de minha mãe,das lembranças do sorriso da mulher da sopa,da rachadura no velho prato verde... A chuva já tinha parado de cair em Holy Cross,agora eram cinco da manhã,e a chuva parou as quatro,ou seja,o asfalto estava molhado. A água do chuveiro parou. Depois de uns minutos mamãe subiu para meu quarto,sorriu,e me ajudou com as malas. Não foi difícil leva-las para baixo,depois saímos pela porta da cozinha e chegamos a garagem,abri a porto do passageiro e coloquei minhas malas lá atrás. Puxei o banco para trás e me sentei,mamãe fez o mesmo. Saímos pela porta da garagem.O carro estava com um clima chato. -Esse radio ainda funciona? – pergunto a minha mãe. -Acho que sim. Bato com a ponta do indicador no “On”,e a musica não começa.


-Bem,acho que não... – eu disse,batendo a ponta do indicador no “Off”. Minha mãe suspirou. -Que foi? – pergunto. Ela franze a sobrancelha. -Você nunca saiu de casa,faz anos que não vejo os DiLauren e... – ela balança a cabeça. –Estou com medo de estar fazendo a coisa errada. -Mãe... – engoli seco,procurei as palavras corretas. –Vai ser melhor,não posso ficar para sempre dentro de casa. -Tem razão... – ela fez uma pausa. –Vou te mandar todo mês quatrocentos dólares esta bem? -Mãe... -Sem mãe,vou enviar e ponto final. Suspiro. Já tínhamos chegado ate a rodoviária,minha mãe abre a porta do carro,e eu faço o mesmo. Pegamos minhas malas. -Aqui. – disse ela me entregando uma bolsa pequena. Suspiro. -Então...ate logo. Meu coração estava apertado. -Ate logo. Minha mãe me abraçou e eu fiz o mesmo,nos duas começamos a chorar,estava começando a chover novamente. Quando nos soltamos enxuguei minha face na manga de meu sobre tudo,e minha mãe fez o mesmo em sua jaqueta roxa. Eu sorri. -Obrigada. -Pelo que querida? -Mãe,por tudo...eu te amo.


-Eu também te amo filha. “Ultima chamada para aeroporto.” Olho para os ônibus. -Mãe... -Vai lá. Sorrio. -Tchau. -Tchau. Então eu vou em direção aos ônibus,dando meu ultimo adeus a Holy Cross. Entrego minha passagem ao motorista,ele bate um carimbo,sorri e diz:”boa viagem”. Meu banco era o 65. Fui até ele,por sorte ninguém ia se sentar do meu lado,já que após eu entrar o ônibus fechou as portas. Coloquei as malas de rodinha no chão,e as de mão no banco a meu lado,me sentei na janela. Pequenos respingos brancos começaram a cobrir o vidro a meu lado,neve. Estava bem frio,não é muito legal ficar no Alasca no inverno,ainda bem que minha mãe não ficaria. Ligo meu telefone,com o intuito de ter algo para fazer,acabo é ficando todo o caminho até o aeroporto jogando Fruit Ninja.

Sou a ultima a descer do veiculo,o vento frio agita meu cabelo,fazendo fios castanhos ficarem presos em meu rosto. Caminho até a porta da frente do aeroporto,e verifico se minha passagem esta mesmo no bolso da direita do sobre tudo. Fico um pouco mais de meia hora na fila para entregar a passagem. Depois vou até a padaria do aeroporto,compro um tipo de pão quente que não sei o nome e chocolate quente,logo depois de terminar e ir ate o banheiro meu voo é chamado.


O avião é grande e quente por dentro,minha cadeira é uma das primeiras 008,vou para lá,por pura sorte a cadeira é na janela. Um casal de turistas senta a meu lado,seus nomes são Eddie e Emma. Mas acho que eles perceberam que eu não queria falar e se aquietaram por um tempo. -Estão servidos? – passa uma mulher perguntando,por mais que eu tivesse tomado café no aeroporto,nunca dispenso uma carne assada. -Sim. – respondo. Ela me entrega uma embalagem e dois talheres de plástico. -Obrigada. -Por nada. – ela diz sorrindo e sai. Corto a carne pequenos pedaços. Depois,espeto um por um e levo a boca,conto as mastigações até vinte e oito.

Quando começamos a sobrevoar a Romênia consegui ver nuvens gigantes e negras,emitindo raios,me encolhi no banco. Pode parecer estranho mas tenho medo de tempestades,bastava uma se iniciar e eu me trancava em casa e me encolhia como uma pequena bola de meia na minha cama. -Odeio tempestades e... – digo me virando para o casal de turistas,mas eles não estão mais lá,o que era estranho,já que para pousar deveríamos permanecer sentados nas poltronas. Uma aeromoça passava verificando os acentos e cintos. -Com licença... – digo. -Sim? – ela diz se virando para mim. -Tinha um casal de turistas aqui, - digo indicando os bancos vazios. –e vamos pousar,não acho bom e sensato que eles fiquem circulando pelo avião. -Senhorita...não tinha ninguém sentado aqui...com licença. Engoli seco,e me ajeitei na poltrona.


Senti minha espinha gelar por inteiro. “Estamos nesse exato instante sobrevoando a Romênia,favor verificarem novamente seus cintos de segurança.” E depois a frase foi repetida umas sete vezes,em outros sete idiomas.

Quando o avião pousa ficamos mais alguns minutos antes de desembarcarmos. As pessoas começam a descer,sou uma das primeiras. O ar lá fora é gelado,já esta anoitecendo,e esta nevando.Bocejo e ajeito meu cachecol envolta de meu pescoço. Atravesso o pátio de aterrissagem e entro no aeroporto,vou em busca de minha malas,mas quando vou até a esteira não as encontro. -Imaginamos que podia ser sua... – quando me viro me deparo com o casal de turistas. Cada um segura uma de minha malas na mão. -Hum...obrigada. – digo levando a mão em direção a mala de rodinhas na mão do homem,ele a esquiva. -Não seria adorável irmos tomar um chocolate quente? -Seria! – disse a mulher. -Não,obrigada. – digo,indo pegar minhas malas. O homem Poe suas mãos em meu ombro e mulher faz o mesmo. -Mas esta uma grande nevasca lá fora, - olha para a mulher,ela usava um colar como o da senhora da sopa,fico em alerta. –e alem do mas... -Senhorita Elisa? Viro o pescoço bruscamente,um homem alto e magrela de aparentemente sessenta anos esta ali. -Sim. – digo me soltando dos turistas. -Sou o mordomo dos DiLauren,vim aqui para busca-la. -Mordomo? – quase engasgo ao pronunciar a palavra,então eles eram muito ricos... Ele balança a cabeça positivamente,e vai em direção aos turistas. Pega minhas malas.


-Emma... – ele diz olhando para mulher. –Eddie... – diz olhando para o homem. – O ministério vai saber disso. Emma segura o braço do mordomo. -Edson,você não pode contar... -Eu posso,e vou. – ele diz se soltando e ajeitando a lapela do terno que usava. -Obrigada. – digo,o acompanhando até a porta.

Um carro meio que digamos medieval nos aguardava na porta,eu parei ao velo,nunca estive perto de algo tão refinado. -Você esta bem? – disse o mordomo. Ele já estava colocando minhas malas no carro e eu ainda estava paralisada no porta. -Oh,sim.Desculpe. – disse indo em direção ao carro. O mordomo abriu a porta para mim,e eu entrei. O interior do carro era preto,com minúsculos detalhes de prata. O estofado dos bancos era de seda,e o veiculo cheirava a rosas brancas. -Senhorita Elisa? – o mordomo perguntou,já tínhamos saído do estacionamento do aeroporto. -Sim? -Se importa de eu ligar o radio? – ele perguntou -Hum...não. Ele sorriu E eu tive de me segurar para não gargalhar quando um rap começou a ser tocado.


"A Décima Sétima"