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Questão de Ordem

Quem a vê passar na rua não é capaz de enxergar ou desconfiar o que há por baixo de todo aquele tecido negro. A burca esconde não apenas uma mulher semelhante a tantas que existem no mundo, mas também toda sua personalidade e história de vida. A roupa revela seu credo, mas ela não é somente isto. As pessoas que cruzam com ela pelas ruas a estranham, a veem como um perigo, como se ela tivesse planos diabólicos e a qualquer momento fosse explodir ou atacar quem estiver à sua frente. As mulheres que usam burca não são as únicas a passar por isso. Homens, mulheres e crianças que tenham a “cara” do Oriente Médio ou de islâmicos geralmente são vítimas de atitudes assim. O país que prega a liberdade como essencial para qualquer um, às vezes esquece que este princípio deveria ser de caráter igualitário, sem excluir ninguém. Em alguns casos, até os que não são islâmicos nem são do Oriente Médio terminam sendo confundidos com estes, como os indianos, o que faz com que esta paranoia americana seja notada pelo mundo e amplamente discutida. Em alguns casos, criticada e contestada. Não é de hoje que a xenofobia dos americanos é posta em evidência. Há muito se ouve falar de problemas com latinos, com árabes e com qualquer um que eles julguem ter ido ao país para roubar empregos ou vidas. Porém, o problema com os islâmicos ganhou uma maior amplitude depois do ataque terrorista do 11 de setembro. Antes disso, já existia algum receio devido aos princípios da religião islâmica, que podem ser “perigosos” de acordo com a intenção e com o extremismo do praticante.

Era a última semana do governo democrático. Fim de inverno no Chile, em 8 de setembro de 1973, o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, todos comandados pela CIA, começam a se mexer para o golpe de Estado, sob o comando do Comitê 40, uma organização de caráter semiclandestino, ligado à Casa Branca e à CIA para desestabilizar governos que não estavam de acordo com os interesses norte-americanos. Na noite de 10 de setembro, técnicos testavam conexões para o discurso de Allende sobre um plebiscito, que seria transmitido na manhã seguinte. Do outro lado da rua, técnicos do lado golpista faziam o mesmo, mas com outro objetivo. Mas por quê? Salvador Allende Gossens, político chileno, não agradava em nada aos Estados Unidos, naquele auge da

Fonte: Divulgação

Os olhos de uma mulher podem revelar muita coisa. Dentro da burca, está contida toda a complexidade e disciplina de uma cultura rígida e milenar

Apesar disto, não se pode definir o caráter de alguém de acordo com sua religião. O governo dos Estados Unidos pode até espalhar aos quatro ventos que não tem nada contra o Islã, e tentar passar a imagem pacífica em relação aos seguidores da religião. Pode ser uma boa iniciativa, porém inútil quando representa-se uma maneira de ser para os olhos do mundo e agir de maneira diferente na forma que a sua população trata os islâmicos. É certo que o governo americano tenta passar que não são todos do Oriente Médio a representar perigo, apenas alguns. O que acontece é que, internamente, o preconceito ainda existe. Logo após o episódio dos atentados, os terroristas começaram a ser “caçados”. E como não podiam deixar passar nada, qualquer pessoa “estranha” era consi-

derada suspeita até que se provasse o contrário. Desde então, o americano, que já tinha “fama” de paranoico, desconfia até de sua própria sombra. Fato que passa a fazer parte mais ainda da sua cultura. E também é o fato que exclui e discrimina como nunca, os adeptos do Islã. Estes que desde sempre sabem o que é ser considerado perigoso, terrível ou terrorista e também são perseguidos por causa deste julgamento. O que sempre esquecem no momento de estabelecer o seu ponto de vista sobre alguém, é que são pessoas como nós, como qualquer outra, que esta diferenciação preconceituosa é o que distingue o caráter de cada um. Esquecem todas as coisas que eles já passaram e que em sua maioria foram causadas por sua civilização.

É claro que atitudes terroristas não devem ser esquecidas e sim repreendidas. A questão é que não se pode generalizar atitudes isoladas, ou seja, não se pode classificar como terrorista uma sociedade, ou religião, porque alguns extremistas resolvem se exceder. É importante lembrar que se trata da cultura milenar islâmica. E agindo de forma preconceituosa, não são atingidas poucas pessoas. Somente nos Estados Unidos, existem seis milhões de muçulmanos, de acordo com o Departamento de Estado, o que dá uma boa ideia da grandiosidade do problema. Atitudes assim são justamente as que nos fazem repensar nosso modo de viver e nosso caráter.

Guerra Fria, pois ele já havia se candidatado duas vezes à presidência do Chile, era esquerdista, apoiava Cuba, e vinha crescendo a cada eleição. Mais uma eleição, mais outra candidatura, Allende agora estava na mira dos americanos. Incentivando a candidatura de Eduardo Frei Montalva, a CIA derruba Allende. Candidatando-se novamente em 1970, apesar dos contratempos causados pelo Comitê 40, Allende foi eleito com 36,3 % dos votos, precisando apenas da aprovação do Congresso, que o consagrou eleito com 153 votos a favor, para desespero do presidente americano Richard Nixon. Com o propósito de barrar os avanços significativos que Allende começa a fazer, o governo americano espalha terror, apavorando empresários, fazendo-os reduzir a produção.

Muitos profissionais paralisaram seu trabalho, enquanto recebiam dinheiro de multinacionais americanas prejudicadas com estatização promovida por Allende. O Comitê 40 aprovou a emtrega de US$ 100 mil a organizações empresariais, tudo de forma clandestina. Como se tudo isso não bastasse, em meados de 73, a Casa Branca decidiu apertar ainda mais o Chile. Nada funcionava: greves de motoristas, paralisação de comerciantes, protestos de colégios e escolas técnicas, bombas, e “apagões”. Nesse estado de calamidade, o comandantechefe do exército, general Carlos Prats não resistiu, renunciando em agosto de 1973. Como novo comandante-chefe do exército, o presidente Allende designou o general Augusto Pinochet, futuro pior ditador da América Latina. Depois de grandes traições, o dia 11 de setembro de 1973 foi marcado pe-

lo fúnebre som dos aviões de guerra e pelo rumor de helicópteros, o som do começo do fim. Pinochet, ao lado da CIA, comandou o golpe. Já eram quase 11 da manhã quando surgiram os primeiros disparos do lado de fora do palácio do governo chileno. Allende estava lá dentro com os seus mais fiéis companheiros, e de lá não tencionava sair. A primeira bomba explodiu, mais uma, várias se seguiam. O incêndio escurecia o céu com uma fumaça negra. 13h20, era a hora de se render. Fazendo com que todos saíssem, deixandose por último, ninguém percebeu quando Allende voltou ao Salão da Independência, sentou-se no sofá de veludo vermelho, gritou: “Allende não se rende!”, e pegou uma pequena metralhadora. Apenas se ouviu uma frase, gritada: “O presidente morreu!”

Por Camila de Lima

Por Hévilla Wanderley


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