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Questão de Ordem

A Al-Jazeera, atualmente, é a maior rede de televisão do Oriente Médio. Segundo o site da emissora, ela possui hoje 35 escritórios espalhados pelo mundo, um site bilíngue e quatro canais. Um deles, em inglês, foi lançado em novembro de 2006 e é transmitido para quatro países: Estados Unidos, Catar, Malásia e Inglaterra. A rede se tornou conhecida na mídia mundial em 2001, quando mostrou as passeatas populares contra a ocupação norte-americana no Afeganistão e o vídeo onde Osama Bin Laden, o homem acusado de planejar o atentado às Torres Gêmeas, se pronuncia como responsável pelos acontecimentos. Para o professor americano do Instituto Watson para Estudos Internacionais da Universidade Brown, James Der Derian, se trata do “efeito AlJazeera”: a rede de notícias está sendo usada para apresentar outro ponto de vista, a visão do Oriente Médio. O professor de Comunicação da Universidade Federal da Paraíba, Rubens Weyne Volpe, concorda. “Acho importante, porque os árabes passaram a ter uma voz que transmite os fatos a partir de seus filtros, e não importados dos americanos ou europeus”, ressalta. Em fevereiro de 2000, o regime Talibã convidou a CNN americana para instalar um escritório no país, porém a rede não aceitou o convite. A AlJazeera, ao contrário, manteve contato e fontes com o regime e com a população afegã, o que facilitou a cobertura durante a ocupação americana no ano seguinte. Esse contato da emissora com o regime fez com que ela fosse acusada de dar voz ao Talibã e à Al-Qaeda, e tivesse seu nome ligado ao “eixo do mal”, formado por Iraque, Irã, e Coréia do Norte, países que representavam o terrorismo para o governo Bush. A Al-Jazeera foi a única empresa de comunicação a receber os comunicados do líder da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, e de seus outros membros. Desde os ataques dos Estados Unidos ao Afeganistão, a emissora veicula reportagens sobre Bin Laden, continuando até hoje como única rede pela qual a Al-Qaeda se pronuncia, o que fez com que a então conselheira nacional de segurança dos Estados Unidos, Condoleezza Rice e o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair procurassem entrar em contato com a rede, tendo como intuito diminuir a influência de Bin Laden, conseguindo assim aproximar-se do público árabe. A rede trata os homens-bomba palestinos e outros muçulmanos suicidas como mártires, com a explicação de que essas pessoas tinham dado a vida por uma causa, o que chocou o público ocidental. O uso de imagens do drama vivido pelos civis muçulmanos ajudou a aumentar esse choque. No ocidente, a Al-Jazeera se tornou conhe-

Fonte: BH-News

“Studio 99”, o novo complexo da Al-Jazeera em Sarajevo, Bósnia-Hezergovina: emissora em expansão

cida por divulgar o que acontecia no mundo árabe. No Oriente Médio, foram suas polêmicas “domésticas” que a tornaram célebre. Um dos programas de auditório mais famosos, o Al-Sharia wal-Hayat (“Religião e Vida”), conta sempre com a participação do xeque Yusuf alQaradawi, um dos mais respeitados religiosos do Oriente Médio. Na TV, ele critica a falta de habilidade dos

O que mais impressionou na cobertura da invasão norte-americana no Afeganistão e depois no Iraque foi a subserviência da imprensa diante do poderio político e econômico dos Estados Unidos e sua conivência diante dos massacres e genocídios. Na verdade, a imprensa pediu guerra e foi atendida. A primeira matéria dada em todos os veículos de comunicação mundial foi sobre o estresse da tripulação do porta-aviões americano, o Enterprise. Entrevistas com os soldados foram proibidas, e os jornalistas não podiam escrever a não ser quando e o que o governo permitia. Esse tipo de situação deixou alguns jornalistas incomodados, mas eles não chegaram a questionar a guerra de Bush. Ao contrário de questionamentos, a imprensa americana estava interessada em injetar patriotismo no noticiário 24 horas por dia, sete dias por semana, como publicou o The New York Times. A imprensa parecia perdida. No final de novembro e durante o mês de dezembro de 2001, os jornais O Globo e o Estado de São Paulo, reproduziam matéria de jornais americanos intituladas: “Paquistão: Bin Laden pode estar aqui” e “Caverna cercada: Bin Laden

governantes árabes, o casamento contra a vontade da mulher e defende a democracia e o uso da tecnologia. A emissora que mudou o modo de produção midiático no Oriente Médio e que tem liberdade para tratar dos assuntos mundiais tem apenas 1% da sua programação direcionada a abordar o cenário local do país-sede da emissora, o Catar. O editor Ayman Gaballah afirma que o país, por ser pequeno,

Pode estar lá”, além de “Somália pode ser o destino de Bin Laden”. O paradeiro do homem mais procurado do mundo era absolutamente incerto. Além de parecer perdida, a imprensa ocidental também era omissa. No dia 24 de outubro de 2001, a TV Al-Jazeera do Catar noticiou que só os ataques do dia anterior haviam matado 93 civis em uma aldeia perto de Kandahar, incluindo 28 pessoas da mesma família. A emissora mostrou corpos alinhados e cobertos com panos brancos. A imprensa americana, as agências de notícias e jornais brasileiros declararam que a veracidade da denúncia não podia ser confirmada por fontes independentes. A intenção de omitir o fracasso da “Guerra ao Terror” e da “Caçada a Bin Laden”, não eram as únicas preocupações da imprensa, eles também tentavam contribuir fortemente para melhorar a imagem do presidente George W. Bush, tanto que, depois dos atentados, foi censurada qualquer menção feita ao polêmico resultado das eleições presidenciais de 2000, entre o presidente Bush e o candidato Al Gore. A principal emissora de TV americana, CNN, adotou de imediato

não gera uma grande quantidade de notícias, porém diz não se lembrar de nenhuma entrevista a algum membro da oposição catariana ser exibida no canal. Existem teorias de que a rede é apenas parte de uma estratégia política do emir (o equivalente árabe a príncipe) do Catar, Hamad bin Khalifa Al Thani, que tem boas relações com os países vizinhos e vem estreitando laços com Israel e Estados Unidos. Os funcionários defendem a Al-Jazeera, citando exemplos como um episódio de Al-Ittijah al-Muakis (“Direção Oposta”), que discutiu se era correto manter a base aérea americana de AlUdeid no país e o julgamento dos conspiradores que pretendiam dar um golpe e tirar do poder o xeque Hamad, mostrando assim a transparência do emissora. A Al-Jazeera tem seu mérito por apresentar ao mundo o que acontece no Oriente Médio, sem deixar que questões nacionalistas e ideológicas interfiram no modo como são representados os fatos e por mostrar a importância de redes regionais para que se quebre o monopólio de informações das grandes redes internacionais. Por Ana Amélia Lima

uma postura declaradamente a favor do governo Bush. Ela obrigou seus repórteres a serem patrióticos, fez propagandas em prol da guerra e censurou qualquer pronunciamento de quem era contrário à sua posição. A CNN ganhava com a guerra. Quando estava praticamente falida e sofrendo com a grande concorrência da Fox News e da CNBC, apostou alto na cobertura da Guerra do Golfo, no início da década de 90, e teve de volta seu prestígio e dinheiro. Tudo o que a emissora americana noticiava era tido como verdade, mas o que ela não contava era com o surgimento de uma emissora oriental, que mostrava os fatos de um ângulo diferenciado, nada favorável aos americanos, a Al-Jazeera. A saída para a CNN foi determinada pelo seu presidente, Walter Isaacson. Ele exigiu que as imagens fossem “equilibradas”, ou seja, que se reproduzissem as imagens das mortes de civis no Afeganistão, cedidas pela Al Jazeera, mas sempre ressaltando que o Talibã apoiava e protegia terroristas assassinos. Por Hévilla Wanderley


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