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QUESTÃO DE ORDEM

Fanatismo

Julho | 2010 — Edição 2 — Ano I

EDIÇÃO ESPECIAL

A RELIGIÃO MUÇULMANA RAÍZES DO TERRORISMO A TRAGÉDIA AMERICANA DEZ ANOS DO 11 DE SETEMBRO


AO LEITOR Blogosfera

Editorial Dez anos do 11 de setembro Antecipando o aniversário de 10 anos da tragédia que parou o mundo, a segunda edição do jornal ―Questão de Ordem‖ traz novas questões a respeito do 11 de setembro, acrescentando um maior conhecimento sobre o assunto, através de uma abordagem bastante original, que tem como foco as causas e conseqüências do ato terrorista. Diante do desastre ocorrido, nossa redação tentou aproximar as possíveis realidades do fato, respeitando as vítimas da tragédia e buscando entender os motivos que levam pessoas a agir de maneira tão violenta. A partir de uma reflexão sobre as maiores catástrofes sofridas pela humanidade, vimos o mundo parar para assistir a queda de um dos maiores impérios construídos após a decadência de Roma. Embora tenha surpreendido pela forma devastadora e maquiavélica, o atentado terrorista ao Estados Unidos foi mais um dos desastres provocados por atitudes insensatas, revelando o potencial humano de destruição em massa. Talvez o 11 de setembro tenha se tornado inesquecível por representar o fim da invulnerabilidade norte-americana, já que outros atentados terroristas, tão graves quanto este, não tiveram o mesmo destaque na mídia, como o caso ocorrido na Espanha em 2004, quando quatro comboios da rede ferroviária de Madri foram alvos de explosões, deixando 191 mortos e 1.800 feridos. Embora tenha sido bastante discutido, este último incidente não teve a mesma repercussão exaustiva que o 11 de setembro, deixando, sem dúvida, a imagem das Torres Gêmeas sendo atingidas por aviões para sempre em nossa memória. Para relembrar o fato, não podemos esquecer das grandes catástrofes que marcaram o mundo. Os campos de extermínio nazistas, as torturas medievais, a intolerância política. O ser humano, único ser capaz de raciocinar e produzir aquilo que lhe é necessário para viver, é o principal responsável pelas maiores atrocidades cometidas contra a própria humanidade. Dessa forma, Stanley Kubrick ilustrou bem a maneira como tudo começou, ao deixar que o macaco descobrisse o poder de dominação através da força, no filme Uma Odisseia no Espaço. Em 1945 o Japão foi palco de uma das maiores tragédias da humanidade. A cidade de Hiroshima, com cerca de 250 mil habitantes, foi completamente destruída por uma bomba atômica. Três dias depois, era a vez da cidade de Nagasaki sentir a fúria de uma das maiores potencias mundiais. O bombardeio levou o país a ruína, vendo-se obrigado a se render e, dessa forma, encerrar a Guerra. Mais de 176 mil pessoas foram mortas em decorrências da tragédia. A explosão de um reator nuclear na cidade de Chernobyl, em 1986, deixou cerca de 4.000 mil mortos, vítimas da radioatividade liberada pelo acidente. Vinte anos após o desastre, a região continua desabitada e a população da antiga União Soviética e parte da Europa Oriental ainda sofre as conseqüências provocadas pela explosão. No dia 11 de setembro de 2001 quatro aviões com destinos diferentes foram seqüestrados por 19 integrantes do grupo de terrorismo denominado Al Qaeda. Mais tarde esses quatro aviões se chocaram com os principais prédios das cidades de maior fluxo econômico dos Estados Unidos, destruindo vidas e revelando a fragilidade do império norte-americano. Usando imagens do instante da colisão entre os aviões e as torres do World Trade Center, procuramos reconstruir o incidente, apresentando números e dados que marcaram o momento que o mundo jamais irá esquecer devido a brutalidade deste ato. Dessa forma, buscamos, com esta publicação, apresentar novas maneiras de direcionar o olhar diante do catastrófico atentado terrorista que acometeu os Estados Unidos.

Steve McCurry, o fotógrafo que capturou os primeiros momentos da tragédia O renomado fotógrafo estadunidense Steve McCurry coincidentemente estava no seu escritório a três quarteirões de distância das Torres Gêmeas no momento do atentado.

O crime artístico do século XX Em 1974, o artista francês Philippe Petit, um apaixonado pelas artes do malabarismo e do equilibrismo, atravessou oito vezes o espaço entre uma torre e outra a uma altura 417 metros.

A tragédia também inspirou o mundo da arte Os atentados do 11 de setembro foram inspiração para diversos filmes e livros com abordagens tradicionais e arrojadas acerca da tragédia.

“Loose Change Final Cut” Documentário sobre o atentado Documentário que tem como base a ideia de que os atentados do 11 de setembro não foram orquestrados por membros da Al-Qaeda, mas por membros do governo dos EUA.

E muito mais no nosso blog: www.umolharsobreoterror.blogspot.com

A Equipe

Expediente: EDIÇÃO Michelly Pedrosa Othacya Lopes Rafaela Gambarra

REDAÇÃO Michelly Pedrosa. O ponto de vista de um muçulmano Crônica: Para alguém que não vai voltar

DIAGRAMAÇÃO Michelly Pedrosa Othacya Lopes Rafaela Gambarra

Othacya Lopes. Fanatismo leva muçulmanos ao terror Entrevista com a francesa Laura Lahaix

REVISÃO FINAL Michelly Pedrosa Othacya Lopes Rafaela Gambarra

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Rafaela Gambarra. Anti terrorismo X Direitos Humanos Perfil: Do topo aos escombros

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CAPA FANATISMO LEVA MUÇULMANOS AO TERROR Construção de mesquita próxima ao local do atentado ao WTC causa debates junto à população estadunidense Divulgação

Mesquitas são alvo de polêmicas Othacya Lopes

TEMPLO. Condenado pelos atentados do 11 de setembro, este prédio, localizado a dois quarteirões do WTC, pode virar centro islâmico Othacya Lopes No dia 25 de maio deste ano foi aprovada a obra de uma mesquita islâmica a duas quadras do ―Ground Zero‖, o local onde ficavam as torres gêmeas, antigos prédios pertencentes ao complexo Word Trade Center e que foram destruídas pelos atentados do 11 de setembro. Os partidários da ideia afirmaram que a mesquita ajudará a desfazer os estereótipos negativos sobre o Islã que prevalecem na cidade desde que extremistas muçulmanos derrubaram as torres gêmeas, matando 3.000 pessoas. Grandes protestos estão acontecendo na cidade em torno dessa construção. Os adversários questionam o projeto porque dizem que ele insultará a memória das vítimas. O ataque de 11 de setembro de 2001 matou 2.752 pessoas no centro de Nova York e condenou o edifício de cinco andares da empresa, localizado dois quarteirões ao norte do World Trade Center; o prédio está abandonado há oito anos. Mas já há alguns meses, longe dos olhos do público, um portão de ferro é aberto a cada tarde de sextafeira e, diante dos ruídos de construção no local de atentado, centenas de muçulmanos acorrem ao local, se voltam à Meca e oram. Esse modesto começo indica ambições muito maiores: um centro islâmico perto do local mais sagrado da cidade, para servir como um dos mais inesperados e surpreen-

dentes vizinhos do novo World Trade Center. A localização foi um dos atributos decisivos para o grupo de muçulmanos que adquiriu o edifício. Que acreditaram que dessa forma passariam uma mensagem diferente sobre o islã daquela que ficou após o atentado. "Queremos contragolpear os fanáticos", disse um dos idealizadores do projeto, Feisal, 61 anos. Grande ansiedade está presente entre alguns dos envolvidos e outros observadores do projeto quanto à possibilidade de que ele venha a se tornar

“O objetivo é construir um lugar de paz, de serviços e soluções para a comunidade” um foco de ataques contra os muçulmanos. Mas, quando entramos em contato com religiosos e sociólogos a opinião é unânime: construir o centro tão perto é admitir a parte deles na tragédia, e uma forma de dizer que aquilo foi realizado por pessoas que se dizem muçulmanas, e os demais muçulmanos agora desejam trabalhar para reparar os danos. "A ideia de um centro cultural que reforce os elos entre os muçulmanos e as pessoas de todas as fés e origens é positiva", afirma o estudioso em ciências das religiões Vicente Gayoso, que diz que não se pode confundir isla-

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mismo com terrorismo. ―Essa iniciativa pode começar a mostrar que o islamismo não prega a guerra, isso é obra dos fanáticos‖, pontua. Construído em 1923, o edifício de Park Place foi adquirido por Sy Syms, e por seu sócio Irving Pomerantz, em 1968, para sediar uma das primeiras lojas de Syms. A loja fechou em 1990, os sócios se separaram e a família de Pomerantz alugou o local. Em 11 de setembro, a loja, com 80 funcionários, era uma das 250 unidades da cadeia Burlington nos Estados Unidos. O teto do prédio foi derrubado por destroços de um dos aviões que atingiram as torres gêmeas, quer o voo 11 da American Airlines. "Eu acredito que o objetivo deste projeto é oferecer um lugar de paz, de serviços e soluções para a comunidade que sempre procura diálogo entre as religiões", diz a socióloga Cristina Araújo acerca da construção da mesquita. "É excelente se pensar na comunidade muçulmana buscando compartilhar uma visão de pluralismo e tolerância", declarou Vicente Gayoso. "O que aconteceu naquele dia", ele diz, "nada tem a ver com o Islã". Apesar dos pensamentos positivos acerca da visibilidade da religião muçulmana após a construção da mesquita, ainda são grandes e prometem continuar por um bom tempo os debates e as polêmicas sobre o tema. Mesmo após nove anos, o 11 de setembro ainda possui marcas inesquecíveis.

A mesquita que será construída próxima ao Ground Zero não é a primeira a causar polêmicas. Também em Londres, a construção da maior mesquita da Europa gera grande debate. Embora o governo tenha sinalizado seu apoio, cresce a resistência ao edifício, que abrigaria até 12 mil fiéis ao lado do Parque Olímpico de 2012. A grande mesquista de Abbey Mills seria então o maior edifício religioso do Reino Unido e a maior mesquita da Europa. Mas o empreendimento está sendo duramente criticado pelos moradores da região. Na Suíssa aconteceu fato semelhante. Lá foram proibidas as construções de minaretes, que são as torres das grandes mesquitas. Essa decisão pode trazer até perdas econômicas como também causar danos à imagem do país. A Suíça obtém uns 10 mil milhões de euros por ano em negócios com os países muçulmanos. Os líderes muçulmanos apelam à calma. Em Volklingen na Alemanha, congregação muçulmana solicitou a construção de um minarete e três cúpulas douradas no telhado de um antigo cinema convertido em mesquita. O partido de extrema direita do estado de Saarland, incentivado pela proibição aos minaretes na Suíça, logo se manifestou sobre o assunto, chamando a proposta do minarete de 8,5 metros de ―baioneta do islã‖. Debates e disputas amargas sobre o islã, especialmente em relação a manifestações religiosas mais visíveis como mulheres usando lenços, véus e burcas continuam em passo acelerado. São comuns questões acerca da construção de mesquitas, de minaretes e das manifestações religiosas ligadas ao islamismo. O preconceito se mostra como argumento principal para o ‗medo‘ do avanço da religião, mas muçulmanos serão muçulmanos com ou sem aumento de demonstrações religiosas.

MESQUITA DE OMAR Um dos locais mais importantes para a doutrina muçulmana. Lá ocorreu o encontro de Maomé com Alá.

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TERRORISMO ANTI TERRORISMO X DIREITOS HUMANOS Medidas tomadas após o 11 de setembro na guerra contra o terror desrespeitam os direitos básicos dos cidadãos Divulgação

Rafaela Gambarra A Suprema Corte dos Estados Unidos resolveu manter, sem alterações, a lei federal que proíbe os americanos de darem qualquer tipo de apoio a grupos estrangeiros considerados organizações terroristas pelo governo americano. A lei, que vai de encontro àqueles que argumentam ser uma medida de violação dos direitos constitucionais de associação e de liberdade de expressão, foi adotada em 1996 e reforçada pelo Ato Patriota dos EUA adotado pelo Congresso pouco tempo depois dos atentados de 11 de setembro. Segundo o professor de Direitos Humanos da Universidade Federal da Paraíba, José Baptista de Mello Neto, Em uma primeira análise, há violação local dos direitos humanos. É que a decisão da Suprema Corte atenta contra as liberdades civis dos próprios norteamericanos, como a de associação e manifestação do pensamento. Já no âmbito externo, a decisão, assim como a própria lei, mantém uma política excludente, privilegiando grupos e países, criando mais um instrumento de seleção de aliados e fomentando a criação e manutenção de "inimigos". A lista de Organizações Terroristas designadas pelo Departamento de Estado americano a qual se refere a lei teve sua primeira compilação em 1997 e consta que, até o ano de 2007, a maioria das organizações consideradas terroristas eram ligadas, em primeiro lugar, ao Islamismo, seguido pelos partidos comunistas e por grupos nacionalistas / separatistas. Para a identificação dos grupos que foram designados houve um monitoramento contínuo das atividades dos grupos ativos em torno do mundo. Após esse processo, observaram-se três critérios legais: o de ser um grupo estrangeiro; o de acoplar uma atividade terrorista ou reter a possibilidade e a intenção de atividades terroristas; e, por fim, o que se refere à ameaça concreta à segurança dos Estados Unidos, as suas relações estrangeiras ou a seus interesses econômicos. Desde o 11 de setembro de 2001, os temas relacionados ao terrorismo e à segurança têm dominado os meios de comunicação - não só nos Estados Unidos, como no mundo inteiro. Considerando atualmente o terrorismo como um dos cinco principais problemas globais, a Organização das Nações Unidas, a Onu, desde o ano de 1972, apontou as primeiras resoluções da Assembléia Geral e do Conselho de Segurança (CS) referentes ao tema. Após o atentado do 11 de setembro, resolveu-se implementar a resolução número 1373 do CS que obriga os Estados a punirem indivíduos que apóiam atividades terroristas, bem como a

SAIBA + 4

GUANTÁNAMO Os atuais 181 prisioneiros - considerados ‘”combatentes inimigos” - ainda continuam sendo vítimas das torturas negarem apoio financeiro e logístico direitos inalienáveis dos cidadãos. mente no ano de 2008 foi decidido, aos terroristas e também a comparti"Acredito que a possibilidade de através do caso Boumendiene versus lharem informações a respeito de gru- determinar a finalidade da ajuda, por Bush, que os presos, nacionais ou espos que estejam planejando os ata- exemplo, construção de casas, esco- trangeiros, detidos por atos de terroques. las, pontes, e promover um efetivo rismo pelo Governo dos EUA poderiUm ano após os atentados em controle da utilização desse auxílio am ter a legalidade de suas prisões Madrid, capital de Espanha, o Secre- seria uma forma de atender aos inte- contestadas em Tribunais americanos. tário-Geral das Nações Unidas, Kofi resses da lei norte-americana e, a um Segundo matéria publicada no Annan, lançou, na Cúpula Mundial só tempo, as necessidades de milhares jornal norte-americano The Washingde 2005, o relatório "Unindo contra o de seres humanos", afirma o professor ton Post, os Estados Unidos já gastaterrorismo: recomendações para uma José Neto. ram meio bilhão de dólares em obras estratégia global contra-terrorista‖. e manutenção das instalações da base Neste relatório, Annan ressalta o fato GUANTÁNAMO naval do país, situada na baia de de que a defesa aos direitos humanos O centro de detenção militar Guantánamo. Ao invés de o governo é um aspecto essencial nesta luta, pos- americano de Guantánamo, em Cu- americano utilizar-se do dinheiro púto que os terroristas ferem, dentre ou- ba, que abrigava, desde o 11 de setem- blico que gerencia, tornando acessível tros, a dignidade humana de cada u- bro, prisioneiros acusados de ligação a todos o seu sistema de saúde, por ma de suas vítimas. aos grupos Talibã e Al-Qaeda, tam- exemplo, que é o mais caro entre os bém já fora motivo de indignação in- grandes países industrializados, prefeternacional e alvo de duras críticas. riu-se utilizar os recursos na manuten“O governo norte direitos reconhecidos pela Con- ção da prisão, que chegou a manter americano não vê Os venção de Genebra (série de tratados sob custódia 680 prisioneiros em maique desrespeitar os que definem as normas para as leis o de 2003, número que foi sendo reinternacionais relativas ao Direito duzido até chegar aos atuais 181. direitos humanos Humanitário Internacional) aos prisiO atual presidente dos Estados também é terrível” oneiros de guerra, entretanto, não são Unidos, Barack Obana, logo que cheaplicados aos prisioneiros de Guantá- gou à Casa Branca em janeiro de Observa-se, porém, que a medi- namo desde a criação desta prisão, 2009 assinou a ordem de fechamento da estabelecida pela lei mantida pela pois, segundo o governo americano, da penitenciária às margens do CariSuprema Corte dos Estados Unidos eles são "combatentes inimigos". be, no entanto até hoje não houve necriminaliza toda e qualquer forma de Dessa forma, durante muitos nhuma medida concreta ou foi marcaauxílio aos grupos considerados terro- anos, os indivíduos que eram vistos da nenhuma data, de fato, para que ristas, seja na forma de "treinamento", como sendo um perigo para os Esta- ocorra o fechamento de Guantánamo. de envio de "pessoal" ou de dos Unidos eram presos sem serem Apesar das promessas — hoje em dia "aconselhamento", mesmo que seja submetidos a julgamento ou até mes- são proibidos, ao menos oficialmente, com fins pacíficos e humanitários em mo a uma acusação formal, ferindo o qualquer tipo de tortura aos presos caso de tragédias. Para alguns críti- hoje consagrado principio jurídico do os direitos humanos continuam sem cos, defensores dos direitos humanos, devido processo legal. Submetidos à configurar como prioridade na luta essa seria, portanto uma lei que fere tortura, violência e humilhação, so- contra o terrorismo.

No Afeganistão, há uma outra prisão americana acusada de violar os direitos humanos: o Centro de Detenção de Parwan.

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GENTE O PONTO DE VISTA DE UM MUÇULMANO Como a tragédia do 11 de setembro afetou a vida de pessoas de todas as classes e religiões do mundo inteiro Arquivo Pessoal

Michelly Pedrosa

Assalam waleikum‖, assim começa minha conversa com Ahmed Andrade Al Falluji – nome adotado por Antônio Andrade dos Santos Júnior ao se converter ao islamismo – depois de alguns minutos de apresentações. Em seguida ele me revela o significado das palavras anteriores: ―Que a paz esteja contigo‖ e então me sinto mais a vontade para iniciar nossa entrevista. Filho dos paraibanos Ivonete Gomes e Antônio Andrade, Ahmed se reverteu para a religião muçulmana em 2007, após conhecer a comunidade islâmica de João Pessoa e se identificar com a religião, que segundo ele, está cada dia mais evidente, especialmente depois do atentado do 11 de setembro e do conflito com a Palestina. Aos 24 anos, Ahmed se formou em Publicidade e Propaganda e trabalha hoje na sua própria empresa, enquanto cursa, paralelamente, Marketing Avançado, pretendendo torna-se um consultor autônomo. No dia 11 de setembro de 2001, Ahmed, que na época ainda se chamava Antônio, se acordou mais tarde que o de costume, já que não freqüentava mais a escola e estudava em casa para o vestibular daquele mesmo ano. Sua mãe fazia pintura em tecido enquanto o almoço cozinhava e seu pai dava banho no dálmata da família, se molhando mais que o próprio cachorro. ―Liguei a TV e tinha um prédio em chamas em todos os canais. Fiquei eufórico quando ouvi falar do atentado terrorista e comemorei efusivamente‖, relembra Ahmed. Aos 18 anos, o jovem garoto de olhos azuis não tinha bem a noção do estrago ocorrido, mas gritava e pulava como se comemorasse um gol da seleção na final da Copa do Mundo. Para ele tudo que estava acontecendo era conseqüência das ações praticadas anteriormente pelos Estados Unidos e, dessa forma, o atentado representava uma lição para o país americano. ―Fiquei muito agitado e só pensava em ir para a casa de um amigo que também devia estar comemorando‖, afirma. Enquanto se vestia para sair, Ahmed ouvia atentamente as notícias da CBN pelo rádio, e então descobriu que as torres gêmeas do World Trade Center haviam sido derrubadas, matando mais de mil pessoas inocentes, que saíram de casa para trabalhar e nunca mais voltaram. Como qualquer outro jo-

SAIBA +

“Grande

MULÇUMANOS Ahmed faz parte da Comunidade Islâmica de João Pessoa desde 2007

vem dominado pelo sentimento antiamericano, Ahmed pôs a bandeira do Brasil nas costas e saiu na rua em busca do companheiro com quem dividiu a euforia e frustração de ter que justificar a alegria naquela hora. ―Tentávamos nos convencer que aquilo era uma espécie de lição que os Estados Unidos merecia‖, declara meio sem graça ao imaginar o que se passava pela minha cabeça diante daquelas palavras. Após discutirem as causas e conseqüências daquele ato de atrocidade, Ahmed e seu amigo, Daniel Gomes de Almeida, foram para frente da TV assistir as últimas notícias do caso até anoitecer. Em casa, ao deitar a cabeça no travesseiro, pensou em tudo que tinha acontecido naquele dia e, percebendo a gravidade do atentado, se arrependeu de suas atitudes. ―Apesar de ter ficado

chocado, eu queria acreditar que era algo justo, porém por volta de três dias depois de passada a euforia, a ficha caiu para mim. Foi um atentado! Absolutamente injustificável e sem propósito‖, ressalta Ahmed. Quase três mil pessoas foram mortas no 11 de setembro, deixando para trás filhos, maridos e esposas, que acreditavam num futuro melhor ao lado daqueles que se foram. Muitos, provavelmente, esqueceram de dar ―bom dia‖ antes de sair de casa para trabalhar, ou até mesmo de colocar o lixo para fora. Outros saíram atrasados devido aos problemas com a mãe que estava sempre cobrando algo e se arrependeram no meio do caminho pelas duras palavras pronunciadas. Depois, tantos anos após a tragédia nada disso mais importa, apenas a lembrança da última vez que foram vistas sem imaginar que

suas vidas seriam interrompidas exatamente no lugar onde buscavam melhores condições de sobrevivência. Na mesma época, numa cidade vizinha, um pastor evangélico assistia àquela cena apavorado com tamanha desgraça. ―Em voz baixa, pedi a Deus que tivesse piedade das pobres almas que haviam sido usadas pela força do mal para destruir vidas inocentes‖, relata o ex-pastor, convertido para o islamismo, João de Deus. Mal sabia ele que dali há alguns anos se tornaria muçulmano, vindo a descobrir os motivos que impulsionaram fanáticos religiosos a adotarem uma postura tão violenta. Cinco anos mais tarde, João de Deus viajou em destino a Jordânia para estudar a doutrina islâmica, abandonando definitivamente o cristianismo. Em 2007, cruzou o caminho de Ahmed numa das primeiras reuniões do jovem iniciante e incentivou a permanência do mesmo na religião. Sem o apoio dos pais, Ahmed buscou nos livros e na internet teorias que dessem suporte ao seu conhecimento sobre o islamismo e assim, começou a freqüentar a Comunidade Islâmica de João Pessoa. Ahmed acredita que a mídia foi a principal responsável pela difusão da cultura islâmica, gerando polêmicas e atraindo os curiosos para conhecer a religião. Foi exatamente após o atentado terrorista que as questões muçulmanas passaram a ser mais discutidas, tornando-se uma das religiões que mais cresce no mundo. ―O 11 de setembro não foi o motivo, nem teve peso algum na minha conversão, foi apenas o que tornou o islã mais visível para mim‖, afirma Ahmed. Ao questionar seu sentimento de culpa por comemorar a morte de tantas pessoas inocentes, Ahmed pensa um pouco, enquanto olha o vazio. Depois pousa suavemente seus grandes olhos sobre mim procurando as palavras certas para me convencer. ―Na hora eu me entorpeci. Não lembrei das vítimas, pois só conseguia pensar que era o começo de uma reação dos oprimidos contra os opressores‖, revela. No final da entrevista, ele me oferece um chá e se concentra para lembrar as ervas que possui em casa. Agradeço, educadamente, e peço para não se incomodar, o que é rebatido de imediato. De perto, até mesmo um mulçumano paraibano não parece tão estranho assim.

parte dos muçulmanos, atualmente, acreditam que os atentados não foram praticados por fanáticos religiosos”

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ENTREVISTA “sentimos medo da reação dos EUA” A francesa Laura Lahaix conta como ficou o clima de tensão na Europa após os atentados do 11 de setembro dos após o atentado, eu, particularmente, mas a maioria dos debates eOthacya Lopes ram sobre a política dos Estados Unidos após os ataques.

Arquivo Pessoal

Laura Lahaix QO: E os debates acerca do terrodos muçulmanos, das ranasceu e sempre viveu em rismo, zões religiosas dos ataques, tamforam presentes nas discusLyon. Em 2010 ela veio bém sões européias? para o Brasil passar seis LL: Não. Eu me lembro especificade não termos comentado muimeses para estagiar e mente to sobre as atitudes muçulmanas ou os debates devido ao terrorismo. concluir seu mestrado sobre Nossa maior preocupação, desde o foi a reação dos Estados Uniem literatura francesa. início, dos, pensamos que eles poderiam ver a como possíveis ameaças, lembro Em meio às todos que não tivemos debates sobre o terroaulas ela me concedeu rismo nas escolas nessa época. O que você achou da reação uma entrevista na qual QO: dos Estados Unidos pós-atentado? especificou algumas LL: Eu acredito que guerra não se recom guerra, então não posso te lembranças do dia 11 de solve dizer que estou de acordo com a polítiEstados Unidos. Se eu te disse setembro, os caquedosnosso maior medo era a reação dos Estados Unidos é porque ele exprisentimentos dos miu um terror demasiadamente exacerbado, dessa forma mundo inteiro Franceses acerca do ficou em dúvida em orelação ao que eles iriam fazer, principalmente atentado e como ele tratar de uma potência mundialporquese repercutiu na Europa. possui grande poder bélico. Q.O: Por falar em guerra, a Questão de ordem: O que você se “guerra ao terror”, contra o Afeganistão e o Iraque durou mais de lembra do dia do atentado? oito anos, você acha que os EstaLaura Lahaix: Eu tinha quatorze a- dos Unidos utilizaram a caça a Bin nos, e lembro que fui à escola, normal- Laden como um mero pretexto? mente. Na verdade eu estava lá quando aconteceram os atentados às torres gêmeas e os professores organizaram uma série de debates acerca do tema. Lembro-me também que no dia seguinte nós já tivemos aulas preparadas sobre os atentados do onze de setembro com debates, discussões e tudo mais.

LL: Com certeza, acho que o mundo inteiro foi movido por uma polêmica que ainda está à tona. De vez em quando aparecem nos noticiários movimentos que reivindicam explicações para o 11 de setembro, mas se formos avaliar bem, realmente não houve mesmo uma explicação plausível. A guerra durou mais de oito anos como QO: Como ficou o clima na Euro- você mesma falou, e foi uma guerra LAURA volta para a França no mês que vem, mas diz que sentirá muita saudade do Brasil em um país que não se rendeu até o pa frente aos ataques? fim, foi uma guerra por um motivo rativas. Se não se tem uma explicação a respeito? LL: A tensão era evidente na face de que, inicialmente, foi o atentado, mas exata, então se especulam novas explicações, é assim que a sociedade fun- LL: Na França, o sentimento sobre o cada francês. Na escola fazíamos um que depois não teve mais motivo. ciona. atentado foi muito forte, eu não conminuto de silêncio todos os dias, lemQ.O: E o que você pensa a respeicordo com a construção dessa mesquibro-me com se fosse hoje, em respeito to das teorias conspirativas do 11 Q.O: Atualmente está havendo ta. Lá não se pode ter nenhuma maniàs mortes ocorridas durante os atentados. Ficamos todos muito contidos de setembro? um debate ferrenho devido à cons- festação religiosa, eu não tenho precom a tragédia, sem saber bem o que trução de uma mesquita islâmica conceitos, mas para mim construir uLL: Quanto às teorias conspirativas eu próxima ao local onde se encon- ma mesquita próximo ao local dos afazer, como reagir. Sei que a coisa que nós mais te- acredito que essas dúvidas que acabei travam as torres, o que você pensa tentados chega a ser desrespeito com as famílias das vítimas. míamos era a reação dos Estados Uni- de falar já levam a essas teorias conspi-

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RETRATANDO Os números 4 aviões sequestrados 25 prédios danificados em Manhattan 44 mortos na Pensilvânia 125 mortos no Pentágono 242 bombeiros mortos ou desaparecidos 265 mortos nos quatro aviões 2.654 mortos no WTC

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DIÁLOGOS DO TOPO AOS ESCOMBROS A história das torres que foram construídas como símbolo da civilização industrial e acabaram sendo destruídas pelo fanatismo religioso Divulgação

Rafaela Gambarra As Colunas de Hércules, simbolizadas por duas torres e situadas no Estreito de Gilbratar, muito se comparam às Torres Gêmeas do World Trade Center. Elas eram um elemento legendário de origem mitológica que marcavam os limites entre o universo civilizado, conhecido e controlado e os perigos e incertezas do mundo além do Mediterrâneo. Como que por ironia, acredita-se que o símbolo das torres foi usado nas primeiras cunhagens da moeda americana, como marca da ousadia da coragem e do orgulho dos homens que atravessaram os portões de Gibraltar para conquistar o mundo. Em setembro de 2001, outras duas torres marcaram os limites entre o conhecido e as incertezas: as Torres Gêmeas do complexo World Trade Center. O complexo contava com sete torres — das quais se destacavam as duas enormes Torres Gêmeas –. ocupava um espaço de 1,24 milhão de metros quadrados e apesar de ter, durante anos, simbolizado a hegemonia que foi sendo adquirida pelos Estados Unidos no período pós-Segunda Guerra Mundial, acabou destroçado pelo atentado terrorista do grupo alQaeda no tão lembrado 11 de setembro de 2001. No local onde antes havia as Torres Gêmeas, conhecidas em todo o mundo devido a suas aparições em filmes e programas de TV, hoje se reconstroem cinco novos arranha-céus e um memorial em homenagem às vítimas do atentado. Segundo a mitologia grega, Hércu-

les, para se apurar da loucura de ter matado seus 12 filhos, teve que ficar a serviço do rei de Tirinto, Euristio, durante 12 anos. Em um dos trabalhos exigidos pelo rei, ele teve que transpor um estreito marítimo e, para isso, separou as duas rochas para abrir o caminho ao Oceano Atlántico, o que deu origem as chamadas ―Colunas de Hércules‖. Já o complexo do WTC ficava no coração do centro financeiro de Nova Iorque, a ilha de Manhattan, e foi construído para estimular a renovação urbana da área. Apesar do período de intenso desenvolvimento em que se encontravam os EUA, a área baixa da ilha de Manhattan estava relegada a segundo plano e, por isso, o presidente do Banco Chase Manhattan, David Rockefeller, e seu irmão, o então governador de Nova Iorque, Nelson Rockefeller, deram início, na década de 1960, a empreitada de construir aquilo que deveria ser um ―centro de comércio mundial‖ tendo como finalidade o estímulo econômico daquela região. Como toda atitude ousada, a construção do Complexo atraiu inúmeras críticas. Alguns afirmavam que ele seria muito desproporcional aos outros prédios próximos, o que acabaria por desfigurar a homogeneidade da baixa Manhattan; já o então governador de Nova Jersey, Robert Meyner, afirmava que era injusto o estado de Nova Iorque receber US$ 335 milhões para o projeto. Mesmo assim, em 1970, a construção do WTC foi finalizada, simbolizando a supremacia econômica dos Estados Unidos na era da globalização. Os sete edifícios que formavam o

complexo eram: as Torres Gêmeas, compostas pela Torre Norte, na qual havia no seu 107º andar o restaurante chamado Windows on the World e pela Torre Sul que, também em seu 107º andar, tinha um posto de observação denominado Top of the World Trade Center Observatories; o Hotel Marriot; e mais quatro torres onde havia escritórios de grandes empresas e órgãos do governo. Além disso, por baixo das Torres Gêmeas existia um terminal de metrô que continuou operando mesmo após o atentado. Hoje, no local onde antes havia as Torres, está sendo construído um novo complexo, de mesmo nome. O projeto do complexo prevê que uma das cinco novas torres, a Freedom Tower, terá 541 metros de altura, 124 metros a mais que as Torres Gêmeas. Aqueles que trabalharam nos escombros do WTC finalmente ganharam na Justiça o direito à indenização. Bombeiros e policiais que tiveram sua saúde lesada devido aos danos causados pela atividade receberão indenizações de até um milhão de dólares. O que antes foi motivo de orgulho, hoje é novamente fonte de incertezas e polêmicas. As Colunas de Hércules, em Gibraltar, são envolvidas por uma fita onde há os dizeres ―NON PLUS ULTRA‖ (Não ultrapassarás). Aqueles que as ultrapassaram deram início à quebra das fronteiras entre os oceanos e países, mudando o cenário internacional para sempre. Teriam sido os atentados também responsáveis pela chegada de uma nova – e melhor – era? Isso, só o tempo vai dizer...

CRÔNICA

PARA ALGUÉM QUE NÃO VAI VOLTAR Michelly Pedrosa Querido David, Se aproxima mais um aniversário da sua morte e nesta data sempre penso em como estaríamos se eu não tivesse te deixado sair de casa naquela manhã fria de setembro. Tentei te avisar para levar o casaco, mas você não quis me escutar. Saiu de casa, mais uma vez, com raiva dessa minha mania de horários. Preparei o seu café, como de costume, com ovos e torradas, as quais você nem sequer olhou, pois estava novamente atrasado. Você sempre perdia a hora, e isso muitas vezes me tirava do sério, mas como era bom perder um pouco a noção do tempo ao seu lado! Como era bom perder a cabeça e algumas peças de roupas enquanto as horas passavam correndo pela janela do quarto! Hoje eu gostaria de te pedir pra ficar e aproveitar um pouco mais a cama que estava tão quente até bem pouco tempo antes de você partir. Se eu soubesse o que ia acontecer, teria retribuído aquele beijo que duramente desprezei, imaginando o que viria depois.

8

Não pude nem me das as esperanças de te ver novamente. despedir de você com um Naquele instante senti o chão sumir debaiolhar mais sincero e menos xo dos meus pés e parecia que o mundo furioso. Deixei que você partisse sem ao havia caído sobre minha cabeça. Todos os menos dizer o quanto sua existência foi nossos planos e promessas foram desfeitos importante pra mim, sem saber que, da- numa atitude impensada de pessoas que quele dia em diante, você não estaria mais sequer havíamos visto antes. presente na miQuando nha vida. Quanviemos morar Deixei que você do a porta bateu, aqui, você choraesperei por al- partisse sem ao menos va de saudade dos gum tempo que dizer o quanto sua seus pais que ficavocê retornasse com aquele sor- existência foi importante ram no Brasil, mas logo nos ariso largo no pra mim daptamos a essa rosto para me abraçar e moscorreria incessante de Nova Iorque. Constrar que tudo ficaria bem. Mas você não truímos tudo que um dia pudemos sonhar, voltou. Depois de caminhar um pouco e então você foi embora, deixando uma pela casa, liguei a TV e coloquei o arroz pequena parte de si, que nunca veio ao no fogo para cozinhar. Enquanto isso, mundo. Devido as emoções sofridas pelo passava os olhos sobre os móveis intocavelmente limpos, brilhando de tão novos. desastre, tive problemas com a gestação e O noticiário interrompeu meu sono, afas- perdi o filho que esperava. Passei a tomar tando os pensamentos anteriores e cobran- grandes quantidades de remédios e sentia do insistentemente a minha atenção. Foi cada dia mais a sua falta. Não queria falar quando soube da tragédia que havia te com ninguém, larguei o emprego, joguei levado para sempre de mim, destruindo fora todos os possíveis contatos que putodos os nossos sonhos e arrancando todessem querer me tirar dessa solidão. Não

Julho 2010 | Questão de Ordem

tinha mais sentido viver num mundo do qual você não fizesse mais parte. E eu não pude nem ao menos me despedir. Minha mãe veio passar dois meses aqui, você acredita? Ela, que nunca teve coragem de sair do Rio de Janeiro, pegou o primeiro avião com destino a Nova Iorque e ficou comigo durante um bom tempo. Tentou me convencer a voltar para casa, mas resisti bravamente. Ela nunca aceitou que viéssemos morar tão longe. Não havia te contado antes, pois sabia que isso te aborreceria. Mandei consertar aquele mural de fotos que a faxineira havia derrubado e o coloquei de volta na parede. Achei melhor não derrubar a parede da cozinha que reclamávamos tanto e comecei a gostar da cor do piso que você escolheu. A casa está da mesma forma que você deixou, mas já não sinto a sua presença aqui. Procuro de todas as formas usar o mesmo perfume, mas aos poucos o seu cheiro está indo embora. De repente, percebo que você não vai voltar e isso, de alguma maneira, ainda soa estranho para mim.

www.umolharsobreoterror.blogspot.com

Questão de Ordem - os 10 anos do 11 de setembro  

Edição do jornal Questão de Ordem das alunas Michelly Pedrosa, Othacya Lopes e Rafaela Gambarra

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