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CRILLANOVICK, Quéfren. Corpo e identidade na performance: monitores na pele. 2002. 133 f. Dissertação (Mestrado em Arte) - Departamento de Artes Visuais, do Instituto de Artes, da Universidade de Brasília.

4.4 ESTOU NA PELE

Esta performance foi realizada na Galeria de Arte da Universidade de Brasília, em 11/08/2001, no âmbito da exposição Dois Zero Zero Um, que também reuniu alunos do mestrado da turma de 2000.

4.4.1 Registro da performance

Naquela noite, em frente à Galeria da UnB, podiam ser vistos vinte baldes vermelhos, de tamanho médio, com alças metálicas prateadas. Eles se encontravam sobre um plástico branco, dispostos em fileiras, lado a lado, quatro por cinco, sobre o chão. Os baldes estavam com água, cheios até a metade de sua capacidade. Numa ponta do plástico branco via-se depositado um par de luvas antitérmicas, também vermelhas. Em dois lados do plástico, tinham-se fontes de luz, voltadas para o centro. Eu vestia, como de costume, uma calça jeans e uma camiseta branca. A calça era tamanho 38. A camiseta, M. As meias e a cueca também eram brancas, de algodão. O tênis, de couro, marrom. Além dos óculos e das obturações, nenhuma outra prótese. Eram quase 20h30 quando comecei a caminhar em direção aos baldes, mais especificamente, às luvas. Em frente a estas, parei por um instante. Respirei devagar e profundamente, algumas vezes. De cócoras, peguei as luvas, calcei-as. Novamente, respirei devagar, com pausas, e entrei no território do plástico branco e dos baldes vermelhos. Caminhei em linha reta até chegar ao quarto balde. Curvei-me para frente, agarrei-o com as mãos, levantei-o no ar sobre minha cabeça


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e derramei a água sobre o corpo, devagar e continuamente, em jorro uniforme. Frio, arrepios, tremores. Minha pele reagia. Respirei. Após um intervalo de aproximadamente um minuto, fui em direção a outro balde, que estava ao meu lado. Repeti as mesmas ações. Curvar-me para frente, agarrar e levantar o balde no ar, derramar a água sobre mim, respirar. Mais frio, mais arrepios, mais tremores, e agora um início de dores e descontrole muscular. Apenas minhas mãos continuavam relativamente protegidas e aquecidas pelas luvas antitérmicas. Novamente, após um minuto, caminhei em direção ao próximo balde. Outra vez, os mesmos gestos, as mesmas sensações, intensificandose. Minha roupa molhada colava-se cada vez mais a minha pele, a cada fluxo, jorro, jato, golfada, espraiamento de água. Os 20 graus celsius aproximados que faziam naquela noite e o vento que soprava no espaço aberto onde se realizou a performance constituíam uma ambiência perfeita para a hiperbolização das sensações térmicas decorrentes de vinte banhos, seguidos, com água fria. A água passava entre meus olhos e os óculos, deixando muitas gotas na lente, o que impedia uma visão clara. A percepção do que ocorria a minha volta vinha, basicamente, pelo ar, com o som. Ouvi um garotinho – sempre os garotinhos! - dizer à mãe que queria tomar banho também. Não ouvi a resposta dela. Escutei muitos burburinhos, que não se fixaram em minha memória. O frio era tão intenso que ocupava quase todas as minhas conexões neuroniais. Não havia lugar para muitas elaborações. Eu era basicamente sensação. Depois de derramar a água do vigésimo e último balde, saí por onde entrei, uma das extremidades do plástico branco. Voltei-me para os baldes, que continuavam em sua posição original, mas agora vazios. Respirei fundo. Retirei as luvas antitérmicas vermelhas, colocando-as sobre o plástico branco. Afastei-me do território da performance. O extraordinário acabara. Outra vez, eu não era mais o mesmo.


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Figuras 33 a 46 – Quéfren Crillanovick na peformance Estou na Pele, Brasília 2001. Fotos: Enilson Ferreira Bastos.


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4.4.2 Envolva-me com seus braços

Ao idealizar Estou na pele, uma concepção bastante literal de corporalidade norteou a proposta de experimentação de meus limites físicos a partir do uso da água. Não podia eu imaginar, porém, que as sensações que viria a experimentar me levariam de um extremo a outro, do desconforto intenso ao prazer inesperado. Aos poucos, o desconforto metamorfoseava-se em refrigério, lavagem intensa, que me afastava de mim mesmo, que me trazia para mim mesmo. Estou na pele e não estava ali. No mesmo instante, estava intensamente ali. Queria mais baldes, queria mais águas, queria mais banhos. Ao mesmo tempo, muitas vezes desejei sair, procurar um aconchego conhecido, de preferência em um corpo quente de outro humano. Os desejos eram um misto de racionalidade e irracionalidade. Beiravam o paradoxo. Mas ambos eram absolutamente verdadeiros. E meus. Como não desejava abandonar aquele território que havia me proposto a construir, tudo que eu queria era o próximo balde, a única coisa capaz de aplacar um pouco o frio que estava sentindo, embora soubesse que cada novo balde traria consigo, por trás do refrigério imediato, a intensificação final do desconforto. Sabia que a água traria o frio, mas não esperava que ele fosse tão intenso e dominador. Meus tremores aumentavam cada vez mais. Decidi não mais buscar o controle das minhas sensações. Surpreendentemente, passei a não mais querer sair daquele território, aparentemente topofóbico, que exigia de mim um árduo controle corporal. O descontrole muscular, cada vez mais indisfarçável, aos poucos se tornava desejável. Não intencionalmente, descobri que a entrega era a melhor estratégia para a superação do desconforto e o alargamento dos limites de meu corpo. O frio continuava ali, mas eu estava me acostumando com ele. A violência contra meu corpo era explícita, mas eu começara a descobrir o prazer no aparente desprazer. Queria permanecer ali, imerso naquele território, que eu estava inventando, por muito mais tempo.


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Não restam dúvidas de que eu estava manipulando a materialidade de meu corpo, incluindo tudo, minhas sensações, emoções e pensamentos. Na água eu transgredia, eu negava a racionalidade imposta ao corpo de evitar o desconforto. Eu era um estranho, criando uma suprarealidade, ajustável a meus projetos identitários. Diante da minha impotência em face do mundo, eu procurava controlar meu corpo. Eu procurava ser apenas corpo. Negando o desejo de controle, dos meus tremores e do meu frio, por exemplo, eu retomava a possibilidade do controle numa escala ampliada, onde não havia mais uma batalha entre um eu e um corpo. Eu era o corpo. Só isso. Claro que em alguns momentos tudo não passava de racionalização, de tentativa de encontrar uma solução para o enfrentamento que vivia. Tinha horas que a cisão era explícita. Existia um eu. Existia um corpo. O eu sofria com o corpo. O corpo mortificava o eu. A percepção da dor e do desconforto expressa uma maneira do eu relacionar-se com os limites e possibilidades do corpo, o que ocorre a partir de escalas de sensibilidade variadas. No território da performance, minha escala mudara. Em alguns momentos, eu não estava mais naquela minha antiga pele. Isso era uma surpresa para mim. O prazer sentido na dor e no desconforto obviamente reporta-me, agora, ao universo sadomasoquista, muitas vezes tão caro a tantos performers, como Gina Pane, Marina Abramovic e Rudolf Schwarzkogler. Sou forçado a reconhecer: Eu senti prazer na dor. Como já disse, eu não queria parar, não queria sair dali. Eu estava plenamente consciente do prazer que vinha do submergir nas águas dos baldes. Não há como não lembrar de que Estou na pele era uma ritualização de um ato banal, corriqueiro, que é o banhar-se, o lavar-se, o limpar-se. Sentir a pressão da água caindo sobre meu corpo resgatava memórias conscientes de uma relação erotizada com a água, transpassada pela busca de limpeza, saúde e beleza. Aquela pressão por si só também atuava como um estímulo libidinal, uma carícia profunda, que despertava minhas terminações nervosas, de início as mais superficiais e depois as mais e mais internas e pouco exploradas. O vento vinha a


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acentuar aquelas sensações. O frio aproximava-se do arrepio, o toque da água, da mão desvendadora. A água era o outro, um outro envolvente, que me cobria de toques fortes, provocadores, manipuladores de meu desejo e de minha vontade. Eu me senti seduzido, atraído, conduzido, dominado. À medida que minhas roupas iam ficando mais e mais encharcadas, eu sentia que os contornos de meu corpo produziam um apelo ao lúbrico, ao desregrado e ao sensual. Meu corpo – entendido como eu – buscava o toque, despudoradamente, exibicionistamente, aparentemente alheado da presença de todo e qualquer outro que não fosse a água. Hoje penso como teria me sentido ao longo da performance se estivesse sem roupas. Possivelmente, o frio beiraria o insuportável, mas esta também já foi a sensação que senti. Provavelmente, porém, a dimensão erótica do contato com a água ficaria muito mais explícita. Ao mesmo tempo, seria tudo muito mais óbvio, não deixando espaços para que as subjetividades individuais processassem o que estavam vendo. Redomesticar meu corpo foi o caminho para permanecer em minha pele, naquele território. O corpo mais que nunca foi transformado em artefato, moldado a suportar condições adversas, com as quais não estava habituado. Eu vivia uma metamorfose, uma conversão corporal, um renascimento identitário. A partir da estética performática que construí, minha intenção era provocar uma experiência sensorial no outro, em um exercício explícito de condensação de alteridades. Eu queria que o outro sentisse o meu frio, o meu tremor, o meu desconforto, a minha dor. E também, que sentisse a minha entrega, o meu prazer, o meu encantamento, a minha transformação. Eu queria que o outro estivesse sob a minha pele. Os espectadores estavam sendo convidados a decodificar meus movimentos, gestos, comportamentos, a partir não de suas próprias experiências sensoriais, mas das minhas. O frio era meu, não deles, mas, finalizada a performance, algumas pessoas me disseram que começaram literalmente a sentir frio, mesmo estando agasalhadas.


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Aquela ação performática gerava um contexto emocional específico, mas que era apropriado de maneiras diversas pelos presentes, a partir de suas próprias referências existenciais e identitárias. Lembro-me especialmente de uma senhora que, ao final da performance, procurou-me e disse-me de seu intenso desejo de interromper a ação, retirar-me dali e aquecer-me. Ela não disse, mas eu imagino que seu desejo estava relacionado a minha aparente situação de abandono, fragilidade, perigo. É claro que outras pessoas leram tudo o que estava acontecendo a partir de outras perspectivas, talvez mais individualistas, e que não se fundavam em qualquer preocupação com o que estava acontecendo com o performer. Tudo não passava de um espetáculo e como tal teria um final não ameaçador. Para estas pessoas, o foco era a performance, não o performer. Em Estou na pele, assim como em Monitores, apenas uma criança explicitou o desejou de ingressar no território que eu criara. Esta é uma constatação que me permite refletir até que ponto, para os espectadores/participantes, o universo da performance muitas vezes ainda se confunde com o do teatro. Ninguém, literalmente ninguém, interagiu comigo de forma mais direta. Ninguém ameaçou interromper a ação. Ninguém levou-me uma toalha e envolveu-me em seus braços. Ninguém brincou com a água. Ninguém derrubou os baldes. As pessoas assistiram, embora certamente plenas de afetos variados. A postura era a existente numa platéia de teatro. Prevaleceu o distanciamento físico, não a interação. __________________________ Com Monitores e Estou na Pele, refleti sobre o vivido. Investiguei meu corpo. Busquei minha identidade. A partir do meu umbigo, tentei dar sentido ao inominável: A energia da performance. Busquei o outro. Apresentei-me ao outro. Entreguei-me. Este texto faz parte da Dissertação apresentada, como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em Arte, ao Departamento de Artes Visuais, do Instituto de Artes, da Universidade de Brasília, na área de concentração Arte Contemporânea. Orientadora: Professora Doutora Suzete Venturelli.


Performance: Estou na pele