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Participação

JOVENS A I U G ES Õ Ç A DE

Social

Organizadoras Maria Stephanou Diana Maria Marchi Carmem Zeli de Vargas Gil Ana Mariza Ribeiro Filipouski


Coordenação geral Maria Stephanou

Produção, organização e composição do guia Ana Mariza Ribeiro Filipouski Carmem Zeli Vargas Gil Diana Maria Marchi Maria Stephanou

Elaboração das estratégias Ana Mariza Ribeiro Filipouski Ana Cristina Accioly Carmem Zeli Vargas Gil Diana Maria Marchi Denise Nunes Maria Ângela Paupério Gandolfo Maria Cecília A. Torres Mariana Nunes Maria Stephanou Paula Fogaça Marques

Bolsistas de Iniciação Científica Andrea Milán Vasquez Fernanda Lanhi da Silva

Projeto gráfico e diagramação Caroline Meregalli Machado

J86

Jovens e participação social : guia de ações / Organizadoras Maria Stephanou...[et al.] ; coordenação geral Maria Stephanou ; produção, organização e composição do guia Ana Mariza Ribeiro Filipouski...[et al.]. Porto Alegre : UFRGS, 2006. f. 226 Promoção : Parceiros Voluntários. 1.Jovens Participação social. 2. Educação Participação social. 3. Educação Solidariedade. 4. Educação Cidadania. I. Stephanou, Maria. II. Filipouski, Ana Mariza Ribeiro. CDU: 37:316.454.2-053.6

CIP-Brasil. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Biblioteca Setorial de Educação da UFRGS, Porto Alegre, RS (Jacira Gil Bernardes, CRB/10-463)

Março/2007


Sumário Apresentação

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PARTE I - Fundamentos Juventudes Participação Social

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PARTE II - Proposta Educativa As dimensões da educação para a participação Princípios Processo educativo, educador e práticas Aprendizados de uma escuta: o que dizem jovens sobre participação social Retomar para sublinhar

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PARTE III - Estratégias Educativas 1. Juventudes: iguais e diferentes 2. Protagonismo juvenil e participação social: que idéia é essa? 3. Narrando experiências de participação 4. Atitude: discutir valores 5. Juventudes e cidadania na cidade 6. Humanidade e natureza: compromisso presente e futuro 7. Políticas públicas de juventude: projetos de diálogo 8. Arte e cultura: a trama das identidades juvenis 9. Expressões musicais e identidades juvenis 10. A cultura do hip hop 11. Arte: múltiplos olhares e fruições 12. Patrimônio cultural : um releitura da cidade 13. Empreendedorismo cultural: construindo espaços de encontro 14. Leitura como experiência social e solidária 15. Escola: espaço de diálogo intergeracional 16. Prática esportiva e participação social 17. Jovens em rede: o blog como ferramenta de mobilização 18. Infância: tema de mobilização 19. Vivenciando a participação social: uma construção coletiva 20. Como elaborar projetos de ação Referências

Jovens e participação social. Guia de ações

30 39 48 57 64 72 84 95 102 110 122 131 138 150 158 167 175 186 197 210 223


O que é o Guia de ações O Guia de Ações Jovens e Participação Social é o resultado de um processo de definição de princípios, pressupostos e objetivos de formação de jovens para a participação social, com vistas a orientar educadores para a mobilização e engajamento em ações solidárias e voluntárias. Pretende oferecer uma educação que faça sentido para os jovens, que seja sensível aos seus interesses e expectativas e que lhes possibilite, a um só tempo, reforçar a estima pessoal, ampliar as perspectivas de vida e futuro e favorecer a convivência social através do reconhecimento da condição e dos interesses juvenis. Constitui-se como um desdobramento importante da pesquisa Jovens e Participação Social, realizada entre 2004 e 2005, a partir de um convite da ONG Parceiros Voluntários dirigido ao Núcleo de Integração Universidade & Escola/Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul¹. A pesquisa, reconhecendo que os jovens têm muito a dizer, querem expressar suas opiniões e vivências e têm expectativas de encontrar uma escuta sensível nos espaços em que circulam e atuam, abriu espaço para suas vozes, a partir das quais foram identificadas as principais experiências e motivos que mobilizam e engajam jovens na direção de uma participação social solidária. Assim, a partir das falas dos próprios jovens e das reflexões que suas palavras suscitaram, o Guia elabora e apresenta sugestões para educadores e professores que atuam em escolas e diferentes espaços, sejam instituições, ONGs, movimentos e campanhas em torno de bandeiras sociais diversas. As sugestões estão organizadas na forma de estratégias educativas a serem desenvolvidas em grupos de jovens, sem um número definido a priori, que têm interesse em reunir-se, trocar idéias, manifestar suas produções, pertencer a uma rede de amizade, solidariedade e atuação social. Desse modo, o intuito é estimular os jovens a refletirem e experienciarem formas positivas de inserção na sociedade, assegurando-lhes, simultaneamente, condições de acesso à cultura, ao lazer, ao esporte, à convivência com a diferença, à atuação em equipe, ao exercício da autonomia e da autoria na vida social. As estratégias pretendem criar situações que favoreçam a reflexão a respeito da responsabilidade social, estimulando que os jovens protagonizem transformações do contexto local e global, ou ainda que contribuam na preservação de valores, patrimônios, experiências, saberes e histórias de uma coletividade. O Guia de ações poderá ser utilizado em situação de educação formal ou não formal e propõe-se a uma abordagem transversal de conteúdos de formação da cidadania, privilegiando competências de convivência, autoria e autonomia juvenil. Por isso, constitui-se como ¹A pesquisa qualitativa, em sua primeira etapa, se assentou na realização de treze grupos de conversação constituídos por jovens de 15 a 24 anos, de diferentes sexos e segmentos sociais, da Região Metropolitana de Porto Alegre, envolvidos em ações de participação social solidária, além de três grupos compostos por educadores, professores e pais. Os resultados da primeira etapa foram contrastados com dados colhidos através de questionários distribuídos a jovens estudantes do Rio Grande do Sul, participantes da ação Tribos nas Trilhas da Cidadania, no ano de 2004, ação de voluntariado jovem de iniciativa da Parceiros Voluntários. Jovens e participação social. Guia de ações

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uma proposta educativa que busca tornar os jovens sujeitos plenos em suas ações no mundo, em relação a si mesmos e aos outros, de forma solidária e voluntária. Vale destacar, ainda, que as estratégias apontam alternativas para problematizar o contexto próximo e para agir criticamente sobre ele, no intuito de favorecer a inserção em uma realidade que está em permanente mudança. Ao mesmo tempo, propõem aos adultoseducadores um jeito de fazer que é também educativo e que exige mudanças, sugerindo pensar diferentemente e positivamente sobre as juventudes, em sua diversidade e singularidade, questionar suas relações com os jovens, além de qualificar os movimentos do pensar e do agir em ações de participação social solidária e voluntária. A proposta educativa que norteia o Guia valoriza igualmente os âmbitos da socialização, da subjetividade e do saber, implicados na formação de pessoas solidárias e engajadas em uma ação voluntária, como parte fundamental do viver em sociedade. O eixo da socialização constitui um âmbito imprescindível, pois, através das sociabilidades juvenis e intergeracionais, os jovens assumem valores, pertencimentos, projetos de vida, responsabilidades, ou ainda, constituem suas identidades. Assim, não menos importante, o eixo da subjetividade, ou os modos como os jovens pensam a si mesmos, cultivam em si estilos e opções de vida, manifestam suas necessidades afetivas e comunicativas, impõe que suas expectativas pessoais encontrem sintonias com os conteúdos e formas da participação, daí uma especial atenção às linguagens juvenis e suas manifestações culturais na atualidade. Em outro âmbito, também interessa fortalecer a compreensão que possuem da participação social, à medida que elaboram conceitos, idéias, juízos e teorias sobre as experiências vividas, ou seja, que constroem saber. Os três âmbitos de atuação - socialização, subjetividade, saber estão intimamente ligados e presentes nas diferentes estratégias elaboradas, já que a noção de sujeito não se sustenta sem a de cidadão, e destes com a reflexão e a produção de saberes a partir das experiências vividas. Em síntese, os jovens apresentam potencial de transformação a partir do que vivenciam e aprendem, assumem condições de participação na vida social, dirigem o olhar sobre si mesmos, seu lugar no mundo e sua relação crítica a respeito de seu fazer, fortalecendo projetos de futuro que poderão assegurar um mundo melhor para todos, o que dá sentido a uma proposta com a intenção do Guia de ações. O Guia também oferece oportunidades de acesso a um conjunto de conhecimentos socialmente elaborados, reconhecidos como necessários ao exercício da cidadania. Por esse motivo, está desenvolvido em torno dos seguintes temas, identificados como mobilizadores da participação juvenil na pesquisa anteriormente referida, a saber: meio-ambiente e sustentabilidade: a questão ecológica motiva a formação de grupos e incrementa a participação, tendo se tornado um tema muito freqüente nos diferentes espaços de organização juvenil; arte, cultura e esportes na construção do espaço público: os movimentos juvenis contemporâneos abrem espaço para a Jovens e participação social. Guia de ações

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valorização das diferentes manifestações culturais, o que dá legitimidade à diversidade das produções culturais juvenis, como o hip hop, o grafite, os fanzines, as expressões musicais e outras formas de cultura emergentes que se propõem a redefinir sentidos e significados do espaço público; luta pelos Direitos Humanos: âmbito que mobiliza os jovens a combaterem os preconceitos, discriminações decorrentes de diferenças e desigualdades sociais, geracionais, culturais, propondo uma “cultura de Paz” que se oponha à violência e assegure os direitos básicos a todos os seres humanos; movimentos pela inclusão: fundados na percepção das desatenções sociais, estendidas a diversos grupos da sociedade, como crianças, portadores de necessidades especiais, idosos, doentes, asilados, a inclusão é vista como pré-condição para a possibilidade de projetar um futuro para todos; formas de comunicação em rede, especialmente a virtual: relacionadas à inclusão digital, valorizada pelos jovens como exercício das sociabilidades juvenis e organização em redes. As propostas de atividades aqui presentes não se prestam a uma reprodução incondicional nos encontros com jovens. Supõem reflexão, planejamento e crítica do educador ou professor que coordenará o trabalho. Sugerem, portanto, uma participação autoral daquele que aqui se inspirará. Exigem, de outra parte, conhecimento da realidade dos jovens do grupo com o qual interagem, conscientizando-se dos limites e necessidades do contexto de atuação. O conhecimento da realidade aproximará o que é proposto nas estratégias com as particularidades do grupo de jovens, suas potencialidades, aprendizagens anteriores e as necessárias, motivações, expectativas de engajamento, além de indicar a conveniência ou não dos diferentes momentos sugeridos para os encontros. Em alguns casos, as estratégias demandarão do educador, ainda, estudos prévios, pesquisas e coleta de materiais diversos, como os referidos em vários momentos, antes da implementação das sugestões e dinâmicas propostas. É por isso que o Guia propõe um “jeito de pensar e de fazer” educação de jovens para a participação social, a partir da explicitação dos conceitos orientadores juventudes e participação social solidária, da formulação de uma proposta educativa e da proposição de estratégias que, não são rígidas, tampouco um modelo a ser reproduzido. Convida a apropriações e adaptações diversas, seja quanto à duração, os textos de referência, as ações concretas a implementar, os diferentes desafios aos jovens e, em suma, sua própria seqüência, uma vez que a sucessão das estratégias atende tão somente a uma disposição temática e não a uma lista de etapas a serem cumpridas. Cada educador escolherá, dentre as alternativas, aquelas que julgar mais motivadoras dos jovens com os quais interage e as ordenará conforme seu planejamento mais amplo, podendo até mesmo relacionar estratégias com temas afins, produzindo sínteses particulares a partir das atividades propostas. Todas elas, fundamentalmente, almejam que seja garantida a palavra, a escuta, a autonomia, a experimentação, as formas de expressão dos jovens, em suas individualidades e conjunto. Por fim, é preciso registrar que a pesquisa e a proposta educativa para a participação social solidária e voluntária de jovens conduziram a uma aposta incondicional na importância destes e de suas práticas sociais no

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presente, uma vez que eles contribuem efetivamente para a produção da sociedade que queremos. Por esse motivo, o Guia de Ações também quer oportunizar o reconhecimento, por parte de educadores, professores e instituições, da legitimidade das culturas juvenis e dos jovens como interlocutores dotados de capacidade de ação e autonomia (logo, de atuação positiva na sociedade), condições imprescindíveis à educação e à construção de novas bases para o relacionamento social, fundadas na solidariedade, nos valores da paz e do diálogo. As organizadoras

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Parte I Fundamentos


Juventudes: uma palavra, muitos sentidos A juventude é histórica, ou seja, nem sempre apareceu como etapa singular demarcada. A juventude nasce na sociedade moderna ocidental como tempo de preparação para a vida, para a complexidade das tarefas de produção da sociedade industrial. Essa preparação era feita em instituições especializadas (escola) implicando a suspensão do mundo produtivo. Estudar e não trabalhar eram elementos da condição juvenil.

O que é a minha vontade?

As sociedades, em diferentes tempos, formularam idéias e critérios para definir o que concebiam como juventude: fase da vida, época de transição, desenvolvimento biológico, estado de espírito, fim da infância. Os sentidos nem sempre foram os mesmos e mudanças importantes aconteceram nos modos como a cultura ocidental percebeu, pensou e representou a juventude ao longo da História. Houve tempos em que não havia uma distinção em faixas de idades; em outros momentos, as definições do ser jovem se basearam apenas nas mudanças biológicas e psicológicas, especialmente as demarcações corporais; em outros, ainda, os ritos de passagens marcavam a experiência da juventude. Os estudos mais recentes buscam passar da idade como categoria estatística, e da idéia de juventude vinculada apenas às mudanças físicas e psicológicas para um momento da vida, processado pela história e pela cultura. Em outras palavras, é preciso considerar as circunstâncias culturais e os códigos de socialização de cada época para entender como a sociedade define o que é a condição juvenil de seu tempo.

Estima-se que, entre 1995 e 2000, a população mundial de jovens cresceu em média 0,7% ao ano: de 1.025 bilhões para 1.061 bilhões (representando 518 milhões de jovens mulheres e 543 milhões de jovens homens). Atualmente os jovens representam 18% da população mundial. Geograficamente, a juventude mundial vive, aproximadamente: - 60% : em países em desenvolvimento da Ásia - 15%: na África - 10%: na América Latina e Caribe - 15%: em países desenvolvidos Fonte: Divisão das Nações Unidas para a População, 2004

Bebendo cerveja, serei aceito Fumando cigarro, sou mais eu Vestindo jeans, sou descolado Com o carro do ano, sou desejado Plantam idéias na minha cabeça Tudo feito para me enganar A pasta de dentes traz mulheres O refrigerante faz com que eu me enturme O desodorante mostra minha virilidade O perfume me faz ser elegante Quem eu sou? O que quero? Meus desejos são verdadeiros?

No Brasil, considerando o Censo de 2000, os jovens são 34,1 milhões entre 15 e 24 anos (oscilam entre 19% e 21% da população total); 80% vivem em áreas urbanas; 40% vivem em famílias em situação de pobreza extrema (famílias sem rendimentos ou com até ½ salário mínimo per capita). De acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, os jovens representam 62,2% no montante global dos que perderam emprego assalariado. 20,4% do total de jovens com idade entre 15 e 24 anos, no conjunto das nove regiões metropolitanas do Brasil, não estudam e não trabalham. Isto totaliza mais de 11 milhões de jovens. É uma parcela a quem teria sido negada a própria identidade juvenil. Fonte: PNAD, 2002

Banda No Violence Jovens e participação social. Guia de ações

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O significado de ser jovem é dado pelo modo como a juventude é representada, ou seja, pelo modo como se fala dela, pelas imagens produzidas em torno dela, e pelos valores a ela atribuídos. Deste modo, “ser jovem”, decorre de construções culturais, não sendo o seu significado o mesmo nas diferentes épocas e até mesmo para diferentes grupos culturais em uma mesma sociedade.

Por que falar em juventudes? Juventudes no plural demonstra um cuidado com as generalizações que simplificam e homogeneizam os jovens, ignorando a diversidade das experiências juvenis. Ser jovem depende da idade, da geração, do grupo social, do gênero, da etnia, do local de moradia, dos cotidianos e possibilidades de projetos de futuro. Ou seja, é uma identidade que se articula com outras e se constitui por meio de disputas por imposição de significados. Ser jovem de uma grande cidade é diferente de ser jovem do meio rural, assim como ser jovem negro da periferia de uma cidade é diferente de ser jovem mulher negra nesta mesma periferia.

Melucci (1992) propõe pensar a adolescência/juventude como um período que não termina, para passar definitivamente à idade madura sem problemas e sem crises, mas que mantém, ao contrário, abertos para o resto da vida, os aprendizados da própria crise. Vamos acumulando e não evoluindo para estágios mais complexos, perdendo as percepções mais primitivas. Sob esse ponto de vista, o crescimento aparece como mudança contínua, mas também como permanência. Em outras palavras, tudo passa, tudo fica.

“Compreender a etapa da juventude em sua complexidade implica em reconhecer que aquilo que denominamos juventude adquiriu sentidos diferentes ao longo da história. A juventude encerra uma enorme diversidade de variáveis biológicas, psicológicas, sociais, culturais, políticas e ideológicas. Isso significa dizer que não existe “a juventude”, mas juventudes que expressam situações plurais, diversas e também desiguais na vivência da condição juvenil. No entanto, a simples utilização dessa expressão no plural não garante, por si só, o reconhecimento das realidades vividas pelos jovens, por parte de quem a anuncia”. (GIL, 2003)

Juventude é apenas uma idade? Vivemos um tempo de complexidades em que convivem diferentes significados e representações de juventude. O mercado parece ter captado que a juventude é mais do que uma fase, é um estado ancorado no presente. Emerge, então, como um tempo de ousadias, vigor, liberdade e riscos, apresentando-se mais como uma estética de vida do que como uma idade. De outro lado, a juventude é associada a uma retórica do medo, da violência, dos jovens como problema social. É preciso distinguir a fase da vida e os sujeitos, ou seja, não se pode misturar juventude e jovens. A idade, como critério para agrupar as pessoas, traz implícito o caráter da transitoriedade. Neste caso, a juventude representaria uma transição, e ser jovem seria estar numa condição provisória, de vir a ser. Um tempo de não viver, de passagem/corredor e preparação para o futuro. Mas os jovens, mergulhados num tempo de incertezas, se fixam no presente, pois é difícil fazer projetos a longo prazo num tempo acelerado Jovens e participação social. Guia de ações

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e de muitas mudanças. O fundamental não é a construção de metas para um futuro incerto, mas experimentar o sentido do presente. Os atributos tradicionais da juventude parecem ter se deslocado para além dos limites biológicos, tornando difícil responder questões relacionadas à identidade, pois os momentos de trânsito, os ritos de passagem não se configuram mais como possibilidade para qualquer definição de juventude. Num contexto cultural, marcado por diferentes pertencimentos, interações planetárias, explosão de oportunidades para a experiência individual, as fronteiras entre juventude e maturidade evaporaram-se. Uma idade não elimina a outra, mas a contém.

Todos os jovens vivem igualmente o tempo de juventude? Viver a juventude num mesmo tempo pode levar jovens de diferentes contextos sociais e culturais a partilharem linguagens, estéticas, sentimentos, valores e idéias. Contudo, o modo como experimentam o que os identifica como jovens é vivido de forma diversa. Índios Quem me dera, ao menos uma vez, Acreditar por um instante em tudo que existe E acreditar que o mundo é perfeito E que todas as pessoas são felizes. Legião Urbana

1 Minuto para o Fim do Mundo Me sinto só, Mas quem é que nunca se sentiu assim Procurando um caminho pra seguir, Uma direção respostas... CPM 22

Para compreender essa idéia é importante considerar: a condição juvenil, ou os significados atribuídos à juventude, isto é, como cada sociedade representa seus jovens em um determinado tempo. Por exemplo, nos anos 50, havia a juventude transviada; nos anos 60, os rebeldes; nos anos 70, a juventude paz e amor; nos anos 80, os alienados e, nos anos 90, as gangues. Essas representações homogeneizam e escondem a diversidade, pois nem todos os jovens estavam presentes nestes movimentos ou ausentes de outros. a situação juvenil, ou os diferentes percursos dos jovens a partir de diferentes recortes de gênero, etnia, sexo, territorialidade, grupo social, religião etc, bem como os diferentes modos de experimentar o ser jovem. Para compreender a diversidade da situação juvenil na atualidade, é preciso analisar as mudanças em curso: Descronologização: o ingresso na vida adulta não obedece mais a uma sincronia, ou aos rituais tradicionais. Por exemplo, é possível ser pai ou mãe sem sair da casa dos pais, sem constituir uma nova família ou concluir a escolaridade; Desinstitucionalização: transformação do lugar de importância de instituições socializadoras tradicionais (escola, família e trabalho) na vida dos jovens. O processo de desinstitucionalização envolve ainda a influência dos meios de comunicação, conformando uma cultura juvenil, quase universal, em substituição à transmissão cultural das instituições como família e a escola. Moratória social: o prolongamento do tempo de juventude, como um tempo livre, de suspensão. Para alguns jovens, é tempo de estudo, de cursos, de formação e, para outros, é um tempo de espera, de vazio, em virtude da falta de estudo, de trabalho e de lazer. É um tempo de “marcar bobeira na esquina”. Na vivência prolongada da juventude, o mundo cultural ocupa uma centralidade. Os espaços da cultura e do lazer podem se constituir em possibilidades de experimentação das múltiplas identidades, relações Jovens e participação social. Guia de ações

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Criticar os outros é fácil, mas hoje quero escrever, quero pintar, quero compor músicas, fazer filmes, escrever textos de política, fazer tiras humorísticas, mas tudo tem que ter material e espaço. Posso ter tempo, mas não tenho dinheiro para comprar as tintas e pintar um quadro. Mas, se tem espaço em um jornal, tenho que escrever o que eles querem, ou seja, na “linha editorial” do jornal. Procuro emprego, mas não consigo. Escrevo poesias, mas não servem para nada. Meu pai escrevia desde pequeno, e, aqui em casa, discutimos muito isso. Ele é médico, e o tempo que tem é completamente sufocado pelo trabalho, não tendo espaço para realizar seus sonhos. Nas férias, começou a montar os livros que havia escrito há mais de 40 anos. Tenho um filho, e tenho que trabalhar. Aí me dizem que eu vou ter dinheiro para comprar a filmadora para fazer meus filmes, as tintas para fazer meus quadros. Bem, aí eu penso... mas se eu estiver trabalhando, quando vou fazer tudo isso? Entrou no trabalho, o sonho acabou. Dizem que sou daqueles jovens que não vai virar adulto nunca. Jovem de 23 anos.

com o espaço público, expressão de idéias, ampliação das redes de amigos e construção de sentidos para a vida, ampliando as perspectivas de formulação de projetos de futuro.

Referências CORTI, Ana Paula; SOUZA, Raquel. Juventude, trabalho e cultura. In: . Diálogos com o mundo juvenil: subsídios para educadores. São Paulo: Ação Educativa, 2004. GIL, Carmem Zeli Vargas. No tecer da juventude, a vida; no tecer da vida, a juventude: práticas educativas de jovens de Santo Antônio da Patrulha, em grupos de música e religião. Porto Alegre: PPGEdu/UFRGS, 2003. (Dissertação de Mestrado) LEVI, Giovanni; SCHMITT, Jean-Claude. História dos Jovens: da Antigüidade à era moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.V. 1. MARGULIS, Mario. La juventud es más que una palabra. Buenos Aires: Biblos, 2000. MELUCCI, Alberto. A invenção do presente: movimentos sociais nas sociedades complexas. Rio de Janeiro: Vozes. 2001. .O jogo do eu: a mudança de si em uma sociedade global. São Leopoldo: Editora UNISINOS, 2004. ; FABBRINI, Anna. L'età dell'oro: adolescenti tra sogno ed esperienza. Milano: Feltrinelli. 1992.

Jovens e participação social. Guia de ações

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Participação social A participação social é condição da existência do ser humano, que constitui sua identidade na convivência, pois a existência do outro possibilita a consciência do eu. Acontece de inúmeras formas, em diferentes âmbitos, circunstâncias, contextos, por meio de conflitos ou interações construtivas e através de variadas mediações (instituições, movimentos, redes), não podendo ser concebida apenas como participação política ou em organizações formais. Por meio da participação social, os indivíduos: desenvolvem linguagens e códigos comuns; experimentam trocas de informações; ampliam referências e possibilidades de dar sentido às formas de agir; elaboram e confrontam valores; reconhecem-se como parte de um todo complexo de relações sociais.

Como se desenvolve a participação social? A participação social se desenvolve em sintonia com a vontade individual e se consolida na interação. Do reconhecimento da identidade, há um movimento em direção ao outro. A ação social vê o indivíduo como motor e impulsionador de mudanças. Através dela, são construídos valores e atitudes, fundados, sobretudo, em vínculos sócioafetivos, que constituem as primeiras formas de socialização, e cria-se um “nós” que dá consistência e estimula à continuidade da ação. “A participação está muito ligada à questão da pessoa, do ser humano que tem também o princípio de querer participar de grupos, de se reunir. E o jovem por isso, começa a participar cada vez mais.” Jovem de 15 anos

A participação social aparece em relatos de jovens que atribuem a consolidação de sua prática ao “fazer desde a infância”, por influência de familiares ou por identificação com pessoas amigas ou experiências iniciadas em movimentos dos quais participa desde criança (ligados ao escotismo, à religião, por exemplo). Também merecem destaque os movimentos sociais baseados em redes de solidariedade, com fortes conotações culturais.

O que constitui a solidariedade? A solidariedade propõe a atuação em regime de cooperação mútua e está associada ao conceito de democracia, como forma coletiva de viabilização da liberdade individual. É conceito base para propor e explicar uma ordem social, um tipo especial de relacionamento apoiado em relações de reciprocidade. A ação solidária ocorre mediante condições: não indiferença social: o outro jamais é anulado ou considerado inferior; respeito à autonomia e à identidade dos envolvidos; reconhecimento das diferenças: a alteridade também é momento de aprendizado de si; disponibilidade para aprender com o outro, concretizando interação, que deriva em benefícios indiretos, tais como o desenvolvimento de habilidades e competências e gratificações psicológicas e sociais. Jovens e participação social. Guia de ações

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O que é participação social solidária? A solidariedade, derivada do compromisso com a sociedade, ocorre à medida que o indivíduo se reconhece como parte em um todo complexo de relações sociais. Sem que se anulem os aspectos da subjetividade, manifesta-se predominantemente pela vontade para agir e pela compreensão a respeito da urgência de agir, fundadas na sociabilidade coletiva, na cooperação mútua. A ação social solidária supõe a construção de competências que favoreçam a união e a respeitabilidade recíprocas entre diferentes, com vistas a atingir formas de bem estar. O motor da solidariedade é o comprometimento com a vida em uma comunidade mais ampla, exercida graças ao empenho de cada indivíduo pelo bem comum. A participação social solidária é uma forma de pertencimento a uma rede de relações por escolha, sem a pretensão de nenhum benefício material ou econômico, mas apenas por interesse de se envolver em práticas de sociabilidade afirmativas no contexto social.

“A motivação para a participação não deve ser concebida como uma variável exclusivamente individual. Mesmo colocando-se em nível das subjetividades, a participação consolida-se na interação. Hoje, o agir coletivo apresenta-se como uma escolha, não necessariamente vinculada a forças naturais ou leis históricas.” (MELUCCI, 2001)

Como se desenvolve a participação social solidária?

“O que te faz participar? Eu acho que é uma questão de realização pessoal. O mundo tem muita coisa pra ser feita e, se eu não fizer, alguém vai fazer. Por que eu deixaria para outro fazer o que eu quero?” Jovem de 20 anos

A participação social solidária implica em construção de uma cultura que só se concretiza através da reflexão a respeito da prática. Mais do que apoiada na subjetividade ou no exercício da socialização, a participação social solidária funda-se no saber, ou seja, na reflexão que seu praticante executa a respeito de seu papel na sociedade.

Quando se pode dizer que a participação social é solidária e voluntária? Quando é motivada por valores da participação e da solidariedade, e, por livre adesão, demanda tempo, trabalho e competências em benefício do bem comum; Quando compreende que assegurar direitos e qualidade de vida não é apenas responsabilidade do Estado, mas compromisso de toda a sociedade; Quando desvincula o atendimento das necessidades humanas de procedimentos meramente formais e prioriza a ação consciente em prol da qualidade da vida coletiva. Jovens e participação social. Guia de ações

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A participação social solidária e voluntária inova e se constitui em laboratório para novos modelos culturais, organizativos e relacionais.

O voluntariado é um fenômeno que contempla realidades heterogêneas. Convém estar atento para: Assegurar respeito à diferença e autonomia dos envolvidos, repelindo qualquer forma de paternalismo, populismo ou assistencialismo; Alargar canais de participação, aumentando a visibilidade dos processos de decisão.

“A ação voluntária, por sua própria presença, revela e anuncia: revela a existência escondida de grandes dilemas que atravessam as sociedades complexas e anuncia que 'algo novo' é possível.” (MELUCCI, 2001)

Por que é importante envolver jovens em ações sociais solidárias e voluntárias?

“Eu sempre me interessei muito pela ecologia, participação. Eu estava, naquela época, já pensando em estudar ciências sociais, aquela coisa de querer mudar o mundo e ser participativa e ativa na sociedade, realmente fazer coisas. Pra mim o chamamento da ONG pareceu realmente uma oportunidade de agir de alguma forma. Não só por causa da ecologia, mas por causa da participação. Então comecei a participar de reuniões, ser monitora da minha turma e fazer essa intermediação, trazendo informações da minha escola para a ONG e da ONG pra escola.” Jovem de 19 anos

Ao exercer a participação social solidária, os jovens são motivados a conhecer seu entorno, a aprender a agir em prol da sua transformação, a saber conviver com as diferenças e a ter uma visão mais abrangente das formas de ser, expressando e partilhando idéias, talentos, experiências. A participação estimula o saber social, entendido como conjunto de conhecimentos, práticas, procedimentos, valores e sentidos julgados válidos em uma sociedade. A partir dela, os jovens desenvolvem competências para conviver e projetar um futuro.

“Os jovens podem, portanto, tornarem-se atores de conflitos porque falam a língua do possível; fundam-se na incompletude que lhes define para chamar a atenção da sociedade inteira para produzir sua própria existência ao invés de submetê-la; fazem a exigência de decidir por eles próprios, mas com isto mesmo reivindicam para todos este direito.” (MELUCCI, 2001)

Mais do que satisfação pessoal ou motivação por um fazer movido pela urgência ou pela oportunidade, a ação social solidária e voluntária é compromisso e exercício, pois é também forma de se perceber melhor e de se posicionar de modo afirmativo na sociedade.

Jovens e participação social. Guia de ações

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O que é preciso perceber nas formas atuais de participação juvenil para não reforçar estereótipos de que os jovens são alienados e individualistas? A partir de estudos sobre as formas de participação dos jovens na atualidade, Leslie Serna, pesquisadora mexicana sobre juventude, observa:

“Então, se eu quero mudar o meu bairro, eu mudo a minha casa primeiro; se eu quero mudar a minha cidade, eu mudo o meu bairro e assim vai... Eu mudo a minha cidade, eu mudo o meu Estado, o meu Brasil, o mundo todo. Mas não vou querer mudar o Brasil todo, se eu não consigo mudar dentro da minha casa...” Jovem de 16 anos

a novidade das causas: mais do que nas formas tradicionais da política, hoje os jovens se agregam em grupos, redes e coletivos que atuam em torno da defesa e proteção do meio ambiente, dos direitos sexuais e reprodutivos, da promoção e defesa dos direitos humanos, do apoio à causa indígena, por exemplo. a priorização da ação imediata: os jovens pensam no planeta, na sociedade global, na utopia, mas atuam no espaço imediato e frente a interlocutores próximos, fortalecendo a organização com os ganhos instantâneos. Os jovens buscam a efetividade imediata de sua ação. a importância do indivíduo na organização do movimento: a participação juvenil se expressa em pequenos coletivos e grupos e em ações diversas, nas quais o engajamento é individual. Os jovens estabelecem mecanismos de participação pouco ou nada institucionalizados, atuam com grande flexibilidade em campanhas específicas, em redes de informação e em ações concretas. a ênfase na horizontalidade dos processos de coordenação: as redes que os jovens criam atuam como facilitadoras e não como centralizadoras. Os jovens buscam a rotatividade das funções no grupo de modo que todos possam experienciar diferentes posições. Além disso, é preciso considerar a emergência de diversas formas de expressividade cultural juvenil que supõe práticas de aprendizagem e canais de sociabilidade dos conhecimentos, tais como fanzines, cartas, jornais, músicas, páginas da Internet, grafites, etc.

“No lugar de enxergar as práticas culturais juvenis, principalmente aquelas provenientes dos jovens das periferias de nossas cidades, apenas pela ótica negativa que só vê mau gosto, violência e dominação da indústria cultural, poderíamos tentar perceber a beleza e a força cultural de movimentos que buscam construir territórios próprios e autônomos nas ruínas dos espaços das cidades que sobraram à juventude empobrecida.” (CARRANO, 2003)

O que mobiliza jovens para a participação social? Alguns elementos se constituem como mobilizadores do engajamento de jovens em ações sociais. Tais elementos não caracterizam todas as práticas de ação social representadas por jovens engajados em diferentes experiências, pois dependem de aspectos relacionados à maior ou menor Jovens e participação social. Guia de ações

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institucionalização da ação, à maior ou menor intervenção de adultos, à maior ou menor coincidência entre os problemas da identidade individual, próprios da situação juvenil, e às especificidades da participação, à duração das ações, dentre outros.

Para o sociólogo italiano Alberto Melucci (2001), a agregação dos jovens em ações de participação social “não é possível se não existir uma certa coincidência entre objetivos coletivos e necessidades afetivas, comunicativas e de solidariedade dos seus membros”.

Por isso, são mobilizadores para a participação social juvenil: a vinculação a espaços que possibilitem a construção de identidades afirmativas; as perspectivas de construção de projetos de vida e mudança pessoal e coletiva; a possibilidade de fazer diferença, reconhecendo-se, por exemplo, como jovens conscientes, que se afastam dos padrões instituídos pela mídia; o reconhecimento pela ação desenvolvida, com repercussões no âmbito psicológico (ampliação da auto-estima), social (protagonismo) e emocional (ampliação da rede de amizades); a concretude do agir (ações com resultados concretos, imediatos, visíveis e avaliáveis); a experimentação possível de diferentes formas de sociabilidade juvenil; a possibilidade de se reportarem a um adulto de referência, a relatos de outras práticas de sucesso, especialmente de outros jovens; a metodologia e os chamamentos de alguns movimentos ou instituições que agregam jovens; a crença de que é possível mudar, abrindo perspectivas diferentes no âmbito pessoal e coletivo.

Como potencializar a participação social dos jovens? Reconhecendo a importância das culturas juvenis; Questionando a perspectiva dos movimentos sociais tradicionais; Rompendo estereótipos e respeitando as iniciativas de participação dos jovens; Atentando à cooperação sociocultural e à formação de redes; Percebendo a urgência do presente e a concretude do agir.

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Referências CARRANO, Paulo. Enfrentando padrões: Identidades culturais juvenis no Brasil. Disponível no site www.multirio.rj.gov.br/seculo21/ texto_link.asp?cod_link=1085&cod_chave=1242&letra=h MELUCCI, Alberto. A invenção do presente: movimentos sociais nas sociedades complexas. Rio de Janeiro: Vozes, 2001. SERNA, Leslie. Globalización y participacion juvenil. Revista Jovenes, México, n. 5, jul. - dic. 1998. SIGNATES, Luiz. Periódico Virtual Aurora. Http://www.alternex.com.br/ ~solidario.html

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Parte II Proposta Educativa


JOVENS E PARTICIPAÇÃO SOCIAL SOLIDÁRIA

Proposta Educativa Esta Proposta Educativa objetiva fundamentar ações de formação de jovens na perspectiva da participação social solidária e voluntária, dimensão central de uma cidadania plena e ativa. Seu princípio maior é mobilizar e incentivar jovens, reconhecidos em suas culturas e potencialidades, à atuação na vida pública. A proposta apresenta elementos constitutivos de uma metodologia de mobilização social de jovens com a intenção de orientar diversas ações educativas que visem consolidar uma cultura de participação, tanto a partir da escola, como espaço privilegiado para o encontro com os jovens, como em outros espaços de convivência social em que os jovens se fazem presentes. Concebe que a juventude é, por excelência, momento de fazer escolhas, por isso aposta na dimensão afirmativa da participação social, fundamental para oportunizar experiências que desenvolvam a autonomia, a responsabilidade e o comprometimento com o entorno, de modo a possibilitar o delineamento de projetos de futuro que se caracterizem pela construção de modos de viver mais solidários. Falar de participação juvenil é também falar de culturas juvenis, o que leva a reconhecer as múltiplas vivências e identidades que os jovens experimentam em nossos dias. Ao se relacionarem de muitas formas e se vincularem, a um só tempo, a diferentes grupos de pertencimento, constituem redes sociais nas quais se reconhecem em sua individualidade, seja por aproximação, seja por diferenciação. Nesses grupos de pertencimento, desenvolvem formas de ser e de sentir-se com e entre os outros. É intenção dessa proposta educativa ampliar os motivos que unem os jovens em diferentes redes de solidariedade, incentivando-os a vivenciarem ações solidárias e voluntárias através de iniciativas formais ou informais. Assim, importa educar para a convivência afetiva, mas também interessa estreitar vínculos sociais, de cultura e de pertencimento a um espaço público que favoreça o reconhecimento do próximo e de si mesmo.

As dimensões da educação para a participação Uma proposta educativa que tenha por objetivo desenvolver uma cultura do voluntariado jovem precisa considerar, com igual importância, as dimensões de socialização, subjetividade e saber presentes nas vivências de participação social e, na atualidade, impossíveis de serem dissociadas.

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Da mesma forma, um processo de engajamento e crescente afirmação da participação social solidária exige que haja espaços/momentos privilegiados para que os jovens possam estudar, refletir e avaliar constantemente suas práticas, o que possibilita a produção de saberes capazes de colaborar para constituir tal cultura, tornando-a parte da direção de vida. Considerando que os jovens se constituem como sujeitos na convivência social a partir das relações que experimentam, seja no âmbito da família, da escola, da comunidade, dos movimentos juvenis ou em contextos mais amplos, é importante que sejam examinadas as redes de interação vividas pelos jovens. Tais relações constituem o mundo em que se reconhecem, os relacionamentos que travam, as referências nas quais se pautam e as motivações às quais recorrem para se definirem em relação aos outros. Em suas experiências de socialização, os jovens descobrem e expresssam suas preferências por alguns espaços para viabilizarem ou legitimarem sua participação. Estabelecem vínculos e formas de relacionamentos particulares, enfrentam dificuldades e limites para a ação e adotam atitudes para vivenciarem o espaço público de modo a explicitarem a imagem que têm da sociedade em geral e de alguns espaços em particular, como a escola. A subjetividade privilegia a percepção que os jovens têm de si no contexto da experiência de participação. Por meio dela, se reconhecem como sujeitos que se definem em sua singularidade e nas relações com o mundo, que se apropriam culturalmente da realidade, constroem identidades/pertencimentos. A dimensão subjetiva também se refere aos exercícios de si, ou seja, às atenções que dedicam a si mesmos para produzir uma estética, uma atitude, uma identificação singular e coletiva, a partir dos grupos de pertencimento e das diferentes relações que experimentam na vida coletiva. A dimensão do saber diz respeito às aprendizagens em que os jovens tomam consciência da sua condição à medida que se apropriam do mundo e pensam suas relações com o entorno, autorizando-se a se manifestarem como sujeitos que aprendem com as experiências vividas. Ao expressarem opiniões e saberes, indicam o lugar que estes ocupam em seus projetos e o que pensam sobre os saberes que a sociedade considera importantes. Assim, eles apresentam potencial de transformação a partir do que sentem, fazem, aprendem e elaboram criticamente, assumindo condições de participação autônoma na vida social. As três dimensões constituem diferentes possibilidades de interação dos jovens com o mundo e abrem perspectiva para a compreensão do significado social da participação, onde se situa o reconhecimento individual, o comprometimento com a vida em sociedade e onde anunciam projetos de futuro. Na intersecção das dimensões da socialização, da subjetividade e do saber, a participação social solidária e voluntária se apresenta como um componente de cidadania ativa, favorecendo a vivência de diferentes formas de participação. O desenvolvimento de saberes e competências para a ação social decorre de sentir-se tocado pelo que acontece no seu entorno, e se solidifica

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quando o jovem experimenta o agir e reflete sobre a participação. Isso significa que subjetividade, socialização e saber estão intimamente imbricados. Em vista disso, um projeto educativo que se disponha a mobilizar jovens para a participação social precisa, portanto, contemplar essas dimensões, como mostra, didaticamente, a ilustração abaixo:

SUBJETIVIDADE

SOCIALIZAÇÃO Participação Social Solidária e Voluntária

SABER

Princípios A partir dos objetivos e dimensões desenvolvidos anteriormente, a proposta educativa que aqui se explicita pode ser expressa através de cinco princípios orientadores de uma prática de formação social de jovens, a saber: Educar para a participação social como exercício de cidadania supõe a criação de situações de aprendizagem em que os jovens aprendam a participar vivenciando experiências efetivas de atuação solidária. Trata-se de valorizar o presente e a concretude do agir. A consolidação de uma cultura de participação social solidária voluntária juvenil exige o fortalecimento da autonomia responsabilidade dos jovens, assegurando-lhes autoria visibilidade no processo de proposição, gestão, execução avaliação de ações sociais.

e e e e

A valorização das diferentes linguagens, culturas, expressões e competências juvenis contribui para o engajamento e a produção de novas formas de participação social. As experiências de participação social solidária e voluntária dos jovens podem viabilizar a construção de espaços de aprendizagens sociais, de intergeracionalidade e cooperação sociocultural, elementos imprescindíveis para a formulação de direções de vida e expectativas de futuro. A mobilização e a permanência de jovens em ações de participação social solidária e voluntária implica em buscar aproximações entre os objetivos da ação coletiva e as necessidades afetivas, comunicativas e de solidariedade de cada um na vida cotidiana. Trata-se, assim, de valorizar as expectativas pessoais dos jovens tanto quanto os propósitos sociais das ações. Jovens e participação social. Guia de ações

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Processo educativo, educador e práticas Os jovens aprendem a participar socialmente em espaços que ultrapassam os limites da educação formal. Muitos deles iniciam essa aprendizagem junto a suas famílias e comunidades, outros são incentivados por amigos, por exemplos de pessoas ou por instituições. Outros, ainda, atendem a chamamentos de bandeiras sociais diversas, por vezes através da escola. Face à intenção de fomentar ações educativas de mobilização de jovens, é preciso refletir a propósito de práticas a serem implementadas de modo a potencializar as oportunidades de todos aprenderem. Nesse contexto, importa sinalizar algumas competências do educador, tanto no âmbito do conhecimento necessário à atuação em prol da cidadania plena e ativa, quanto na formulação de ações que favoreçam as aprendizagens sociais, afetivas e cognitivas e nas formas de gestão da prática educativa, constituindo equipes, coletivos de trabalho ou redes de cooperação identificadas com projetos e valores comuns. Ao educador compete a coordenação e o planejamento das ações educativas concretizadas em ações sociais que, por sua vez, possam ter a gestão compartilhada com os jovens. Um educador para a participação social compreende os jovens como sujeitos da sua história e da cultura, que sabem e produzem conhecimentos de ordem variada a respeito de si e dos outros. Com base em conhecimentos, habilidades e capacidades, planeja e estrutura ações de modo que os jovens possam participar ativamente. Compete a ele criar um meio rico, aberto a toda classe de estímulos, sem preconceitos, de modo a que todos sejam incentivados a cooperar, expressando suas próprias linguagens, estéticas, modos de fazer. Sendo assim, o ponto de partida para o desenvolvimento de um processo educativo que favoreça a participação social é o conhecimento dos jovens com quem se vai interagir, o que inclui suas trajetórias pessoais, experiências de participação já vivenciadas e suas expectativas. Além disso, o estabelecimento de vínculos de amizade e de diálogo intergeracional, bem como a escolha adequada de estratégias educativas para a mobilização e engajamento crescente dos jovens, são desafios que se impõem ao educador. Na dimensão do saber, compete-lhe reconhecer os saberes juvenis e dar prioridade aos que possam ser construídos através da reflexão a respeito do fazer. Tal reflexão oportuniza a efetiva autoria dos jovens nas ações, bem como um posicionamento crítico sobre a sociedade. Para a construção de novas aprendizagens, é importante que o educador esteja atento à pluralidade de situações e informações a serem oferecidas para reflexão, de modo a apresentar diferentes pontos de vista, contextualizar e problematizar situações da vida cotidiana, investir na superação do senso comum, ampliando assim o horizonte e o repertório de experiências juvenis e as formas de intervenção e participação social. Convém, ainda, incentivar o grupo a avançar em relação aos objetivos estabelecidos, favorecer a interação entre seus membros, oportunizar reflexão a respeito do processo vivido por todos, construir participativamente e apoiar ações emancipatórias surgidas no curso da ação, avaliando-as sempre para não perder de vista os objetivos Jovens e participação social. Guia de ações

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traçados. Como articulador de um trabalho coletivo, é tarefa do educador incentivar os jovens a assumirem papéis diferentes, fortalecendo uma relação coletiva de troca e respeito às diferenças, multiplicando qualidades e diluindo dificuldades. Também é importante acolher e possibilitar espaços de manifestação das buscas pessoais e das necessidades afetivas dos jovens, uma vez que, na atualidade, a participação em ações sociais depende, cada vez mais, de alguma coincidência entre as expectativas e necessidades de ordem individual e os objetivos coletivos da ação. Por fim, o educador também deve ser capaz de refletir sistematicamente sobre si mesmo, sua ação educativa, suas interações com os jovens, a fim de poder se constituir como adulto de referência, aberto a aprender continuamente nas relações intergeracionais, sendo respeitado pelo modo como conduz a construção do conhecimento e por sua atuação na vida social e profissional.

A cooperação como necessidade A aprendizagem cooperativa é aquela que pode favorecer a consideração das diferentes juventudes, potencializando habilidades psicossociais e de interação. A ajuda mútua, a colaboração e a solidariedade são valores fundamentais e se concretizam na relação com os outros, na aceitação de pontos de vista diversos, na negociação, na comunicação e na auto-estima. É importante que as situações de participação social ampliem oportunidades de interação, favorecendo ações de ajuda mútua e apoio entre jovens e adultos, de modo a superar a clássica divisão de tarefas dos grupos de trabalho tradicionais, que tornam as responsabilidades difusas ou centralizadas.

Elaboração de projetos Ensinar e aprender através de projetos implica em agir coletivamente, por meio do conhecimento da realidade e da pesquisa como forma de valorizar a participação. Numa ação coletiva, todos formam uma comunidade de sentido em torno do planejamento, execução e avaliação de ações para a transformação da realidade, o que supõe escolhas voltadas para o futuro. Por esse motivo, projetos são estimuladores da cidadania ativa dos jovens e propõem a vivência ampla de situações-problema, reflexão e tomada de atitudes diante dos fatos. Os jovens que atuam por meio deles lidam com ambigüidades, soluções provisórias, necessidades que surgem durante o processo, por isso é preciso atenção aos objetivos inicialmente postos. A escolha dos temas e dos conteúdos específicos da participação social é de responsabilidade de todos e convém que possam contemplar Jovens e participação social. Guia de ações

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demandas locais que remetam a uma reflexão sobre a cidadania, com o potencial de gerar ações de intervenção social. Também a escolha do tema poderá valorizar o contexto sociocultural e partir de temas vivos, buscando articular as diferentes atividades a serem implementadas, traçar um plano de trabalho com ações, responsabilidades, períodos e prazos definidos. Os projetos também possibilitam o compartilhamento da produção coletiva, momento de avaliar, adquirir novos conhecimentos, reforçar valores, rever atitudes, valorizar práticas desenvolvidas, expressar dificuldades e aprendizagens a serem alcançadas no futuro.

Espaço aberto para a cultura juvenil Os jovens se articulam em torno de identidades transitórias, plurais, auto-reflexivas, continuamente reconstruídas de modo relacional e interativo e que emergem em espaços da sociedade transformados em territórios próprios dos diferentes grupos culturais juvenis. As identidades coletivas são mostradas publicamente através de roupas, tatuagens, inscrições corporais, criam estéticas que lhes são próprias, assim como a adoção de alternativas para as práticas de aprendizagem e canais de socialização de seus conhecimentos, como a música, os fanzines, o grafite, os blogs, rádios comunitárias, etc. Diferentes grupos podem ser reconhecidos por suas marcas identitárias, através das quais se diferenciam de outros jovens e também dos adultos. Estudos recentes têm mostrado que, na atualidade, os jovens estão mais envolvidos com atividades ligadas ao lazer e a cultura, o que pode apontar para um alargamento dos interesses e práticas coletivas de participação. Nesse sentido, é legítimo apostar que a arte e a cultura contribuem para o engajamento e a produção de novas formas de participação social dos jovens. Destacam-se, então, experiências de cooperação sociocultural empreendidas pelos movimentos juvenis. As manifestações culturais, mesmo aquelas episódicas e pontuais, são fortes catalizadoras das atenções e interesses dos jovens. Eles referem que, através das produções culturais, conseguem expressar seus sentimentos, idéias, visões de mundo e propostas de vida. São, por isso, fundamentais as diferentes maneiras que os educadores podem criar para valorizar as vozes jovens, dar significado a elas na mobilização e engajamento em ações solidárias, a partir das suas capacidades de produção cultural. As manifestações culturais juvenis podem ser, então, a forma, mas também o conteúdo da ação solidária. Ensinar e aprender a partir de uma abertura às manifestações dos jovens pressupõe a compreensão dos movimentos juvenis como produtores de cultura, além de serem expressão dos valores presentes em uma sociedade. Assim, é importante que um projeto educativo dê visibilidade à cultura juvenil, ampliando os espaços de expressão da criatividade e de desenvolvimento da criticidade em relação a essa produção.

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Aprendizados de uma escuta: o que dizem jovens sobre participação social Os jovens que participaram da pesquisa Jovens e Participação Social Solidária, referida na Apresentação, refletiram sobre seus itinerários de vida e vivências de participação em conversações com outros jovens e com os pesquisadores. Indicaram elementos valiosos àqueles que se propõem a compreender suas motivações e mobilizá-los à participação. Tais reflexões são retomadas a seguir, para que educadores e professores possam, igualmente, partilhar os sentidos e implicações educativas que suas falas sugerem. A propósito da participação social, indicaram que é preciso considerar duas experiências distintas: aquelas que dizem respeito a uma primeira participação, e que muitas vezes pode se tratar apenas de um evento ou movimento pontual, sendo portanto, experiências episódicas; e aquelas que se caracterizam pelo constante engajamento dos jovens em ações sociais que possuem freqüência e continuidade como experiência pessoal, o que leva a uma espécie de “cultura de participação” na sua trajetória de vida. A participação constante, contudo, não significa a permanência prolongada em uma mesma instituição, movimento ou atividade. O traço marcante é a presença da participação como prática de vida. Muitas vezes, envolvem-se, simultaneamente, em diferentes ações solidárias e mostram-se reflexivos quanto ao fato de estarem sempre engajados em alguma ação como parte do seu cotidiano e de suas escolhas. Os jovens referiram que participam de eventos ou campanhas que convidam a uma ação solidária, além de movimentos ou instituições. O traço distintivo não é o fato de serem várias ações, algumas episódicas, mas o modo como se inserem nessas ações, a autonomia que têm para fazer escolhas e empreender atividades, a oportunidade de sentirem-se parte de um grupo que incorpora no seu cotidiano a participação social. Não entendem a participação solidária apenas como um “trabalho” solidário, mas também, como prática que se constitui em forma de produção cultural juvenil cooperativa e que propõe outros projetos de sociedade e de mundo. As ações de cooperação sociocultural, por exemplo, envolvem tanto as redes de sociabilidade dos jovens entre si, quanto dos jovens em relação a seu local de habitação, à cidade, ou ainda às causas mais globais de atuação. Outro aspecto significativo aos educadores é que os jovens com trajetórias de engajamento social revelaram possuir liderança nas suas práticas como decorrência da autonomia que possuem para a ação e do papel autoral que desempenham em relação ao fazer. Desse modo, a pesquisa parece subsidiar a inferência de que, ao dar visibilidade às ações de participação social juvenil, supera-se uma perspectiva dos movimentos sociais tradicionais, de caráter classista ou político, que levaria a afirmar que os jovens não têm participação social Jovens e participação social. Guia de ações

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expressiva em relação aos jovens de outros tempos. Trata-se, assim, de privilegiar, na contemporaneidade, a existência de outros movimentos, destacadamente a cooperação sociocultural, o que leva a reconhecer muitas e diversificadas iniciativas de participação juvenil. Por isso é importante que, antes de agir, o educador ou professor realize uma espécie de mapeamento acerca de quem são, onde estão e o que fazem os jovens com os quais interagirá. Notadamente os jovens que se mantêm engajados em ações sociais demonstram a importância da dimensão do saber, uma vez que verbalizam diferentes aspectos relacionados a uma reflexão consciente de suas práticas, seus limites, o valor do planejamento, a necessidade do trabalho coletivo, enfim, a busca por estudo e informação como possibilidade de aprimoramento pessoal e das ações. A partir de diferentes experiências de participação social solidária e voluntária, indicam diferentes elementos que se constituíram como mobilizadores de seu engajamento em ações sociais. Tais elementos não caracterizam todas as práticas representadas pelos jovens, pois elas dependem de aspectos relacionados à maior ou menor institucionalização da ação, à maior ou menor intervenção de adultos, à maior ou menor coincidência entre os problemas da identidade individual, próprios da condição juvenil, e as especificidades da participação; à duração das ações, dentre outros. No entanto, foram mencionados como mobilizadores de experiências pessoais de participação os seguintes elementos: A possibilidade de experimentar diferentes formas de sociabilidade juvenil, de pertencer a um grupo e a uma rede; A função expressiva pessoal, manifesta na gratificação psicológica (auto-estima) e social (reconhecimento), bem como na intensidade emocional (amizade) que experimentam nos grupos de atuação solidária; Os espaços dessas ações que possibilitam a construção de identidades afirmativas; As perspectivas de construção de um projeto de vida e de mudança pessoal e coletiva; A possibilidade de fazer a diferença, reconhecendo-se, por exemplo, como jovens que se afastam dos estereótipos de alienados, consumistas, individualistas; A concretude do agir altruístico: o desejo efetivado de ajudar o outro com ações e resultados concretos; Os convites e chamamentos, os exemplos positivos, os adultos de referência (família, escola e instituição), outros jovens, as experiências anteriores e as oportunidades de participar; Os próprios movimentos/instituições, suas metodologias e bandeiras, muitas delas que valorizam as culturas juvenis, suas linguagens e modos de fazer; A crença de que é possível mudar, apoiada na perspectiva de um futuro (e um presente) diferente no âmbito pessoal e coletivo.

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Por fim, e como incentivo aos educadores e professores, cativados pela leitura destas idéias e proposições, uma atenção especial ainda se faz necessária. No âmbito da pesquisa, os jovens manifestaram que, primeiramente, têm o que dizer e desejam manifestar seus pensamentos e opiniões; segundo, não têm oportunidades, nem encontram espaços em que possam expressar esses pensamentos, idéias, opiniões sobre suas experiências, os saberes que produzem a partir delas, os projetos de vida e sociedade que formulam; e, finalmente, que desejam interagir com outros jovens, que estão envolvidos em distintas práticas sociais, para troca de experiências e aprimoramento de suas práticas.

Retomar para sublinhar Retomando o que foi explicitado até aqui, uma proposta educativa para a mobilização e engajamento de jovens em ações de participação social poderá encontrar sintonias e aproximações com outros jovens, na medida em que oportunizar situações efetivas, concretas, de atuação solidária; assegurar autonomia, autoria, atribuição de responsabilidades, possibilitando-lhes participar da proposição, gestão, execução e avaliação de ações sociais; valorizar as diferentes linguagens, culturas, expressões e competências juvenis; proporcionar espaços de convivência intergeracional, trocas de saberes e cooperação sociocultural; facultar, no âmbito da experiência, que os jovens vislumbrem e formulem direções de vida e expectativas de futuro; e, finalmente, contemplar as expectativas e necessidades próprias da situação juvenil, abrindo espaço para práticas de sociabilidade, discussão de problemas, relações de amizade e sentimento de pertencimento. O convite a uma prática educativa fundada nestes princípios, idéias e proposições está feito!

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Atitude: discutir valores “Há quem fale em "poder jovem"... Se ele existe, que me provem, pois se resolvo querer o que os pais não estão a fim, dizem que eu não tenho idade, nem sequer maturidade pra saber o que é bom pra mim. Como eu prefiro as verdades, mesmo que sejam ruins, concluo olhando os meus brins que poder jovem é escolher a marca da calça jeans...” Leila Micollis

Temáticas a serem exploradas Juventudes, participação social, ética, educação para valores.

Objetivos Proporcionar reflexão a respeito do envolvimento dos jovens com questões que lhes dizem respeito. Relacionar as atitudes do dia-a-dia com os valores que influenciam as decisões e as escolhas juvenis. Identificar práticas que, na atualidade, colaboram para a participação social.

sociedade de forma solidária, vivenciem situações em que sejam capazes de identificar os valores de certas ações ou os valores que não foram considerados na tomada de decisão, já que toda a ação está impregnada de valores. Quem educa para a participação social precisa conhecer os aspectos que contam para os jovens na hora de agirem, de modo a tornar possível o questionamento dos valores presentes em cada ação e auxiliálos a refletir sobre eles. Ao relacionar suas atitudes com o que elas significam socialmente, os jovens podem se reconhecer como atores sociais e, a partir daí, perceber e explicitar socialmente novas demandas e formas de participação historicamente inéditas, através das quais sejam mobilizados a agir.

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Atitude: discutir valores

Apresentação do tema O desenvolvimento pessoal se efetiva através da conquista da autonomia que, por sua vez, é parte de um processo que tem a ver com a história de vida. Uma pessoa autônoma é capaz de projetar o seu futuro e realizar ações que o viabilizem. As oportunidades que acontecem ao longo da vida influenciam nas escolhas e na forma como cada um se comporta na família, na escola e nas relações sociais mais amplas. Cada atitude traz consigo uma ética que a precede. A reflexão ética ajuda a questionar as escolhas e a analisar as atitudes, pois a ética de uma ação depende dos valores de quem a pratica. Que valores as juventudes consideram importantes e que estão presentes nas suas escolhas do dia-a-dia? O protagonismo juvenil é um instrumento de educação para a cidadania. Possibilita que os jovens aprendam a viver em

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“As formas de participação social tendem à indução da ação isolada dos indivíduos ou grupos como única possibilidade de intervenção pública: sondagens, pesquisas de opinião, participação censitária; no lugar de formas decisórias concretas e dialógicas.” Paulo César Carrano

O incentivo ao protagonismo juvenil abre espaço para o enfrentamento de problemas e questões relacionadas com o coletivo, visto que extrapolam os interesses individuais e se situam no âmbito das transformações sociais desejadas pelos jovens. Ao identificar situações a serem alteradas, pensar formas de enfrentamento, realizar ações planejadas e avaliar resultados, os jovens adquirem a capacidade de interferir em decisões que dizem respeito ao bem estar coletivo de forma consciente e responsável, situação bem mais complexa do que escolher a marca da calça jeans.

Proposição 1° Momento Introduza o assunto entre os jovens, propondo que falem a respeito do que entendem por valores. Anote no quadro palavras-chave que encaminhem a conceituação do termo, ou algumas práticas ilustrativas, a partir das falas dos jovens. Entregue uma folha com uma tabela de cinco colunas, relativas à família, escola, vizinhos, grupos sociais, amigos e com dez a doze linhas (para que escrevam os valores). Solicite que elaborem uma lista de valores que influenciam suas ações na família, na escola, na vizinhança, nos grupos dos quais fazem parte, incluindo os amigos mais próximos. Distribua para cada jovem três pequenas tarjetas de papel de cores diferentes. Sugira que analisem a tabela, selecionem os três valores mais importantes, hierarquizando-os e escrevendo-os cada um numa tarjeta (convencione com eles a cor que corresponderá à hierarquia).

Proponha que dois jovens coordenem a composição do painel, sugerindo que cada um indique as colunas em que deverá ser colocado o valor número 1 e assim sucessivamente. Ex: Valor nº 1 na coluna família, valor nº 2 na coluna amigos, valor nº 3 na coluna escola. Identifique, em grande grupo, os valores que se repetiram em todas as colunas e os três valores mais citados. Abra o debate sobre a motivação do grupo para priorizar tais valores e reflita em conjunto a forma como eles se traduzem em atitudes no cotidiano das relações juvenis. Jovens e participação social. Guia de ações

Atitude: discutir valores

Elabore com o grupo um grande painel com as mesmas colunas da tabela individual e afixe-o na parede, para receber as tarjetas selecionadas pelos jovens.

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2° Momento Para dar continuidade ao debate e à reflexão sobre valores individuais e coletivos, influência dos valores nas atitudes, práticas que comprometem relações democráticas e solidárias e a importância da reflexão sobre as ações, é importante que os jovens registrem sua síntese. Para isso, ofereça a cada um uma ficha onde escreverão valores pessoais e valores do grupo identificados no debate, atitudes que cada um gostaria de mudar e as ações que gostariam de realizar. É provável que, no decorrer dessa atividade, aconteçam algumas mudanças no registro inicial, pois a reflexão e debate coletivos interferem na análise individual e produzem novas sínteses.

Valores pessoais

Valores do grupo

Atitudes que gostaria de mudar

Ações que gostaria de realizar

3° Momento Após o registro das sínteses pessoais, proponha que os jovens confeccionem um novo painel para registrar os valores individuais e coletivos identificados no segundo momento, coletados a partir das fichas individuais. O novo painel terá três colunas: valores individuais, valores coletivos e ações de transformação/preservação do que funciona bem. Indique que a coluna da direita (ações de transformação/ preservação), nesta etapa, ficará em branco.

4° Momento Distribuia a letra da música “Até quando”, de Gabriel O Pensador (anexo 1) e, depois de escutá-la e cantá-la mais de uma vez, proponha que os jovens relacionem a sua disposição de mudar atitudes com as mudanças do mundo. Questione a motivação juvenil para construir um futuro que tenha lugar para a participação social, cidadania para todos, respeito aos direitos humanos, acesso à arte e à cultura, sustentabilidade ambiental.

Problematize as atitudes e os valores que o grupo listou e sugira que identifiquem as atitudes que facilitam e as que dificultam a participação dos jovens, indicando possíveis ações de transformação. Oriente, após a reflexão coletiva, uma releitura do mural, completandoo com as ações de transformação indicadas como prioritárias a serem realizadas com autonomia pelos jovens.

Jovens e participação social. Guia de ações

Atitude: discutir valores

Contextualize o ambiente de convivência dos jovens e desafie o grupo a identificar práticas individuais e coletivas que valorizam a participação dos jovens em decisões que lhes interessam.

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Desafie os jovens a buscar melhor compreensão do contexto (refira bibliografia, sites na Internet, sugira conversas com pessoasfonte) e a debaterem entre si, no intervalo entre um encontro e outro, a seguinte questão: Como você imagina que seja o dia-a-dia de jovens que vivem no campo; na periferia das grandes cidades, nas favelas; em aldeias indígenas, em acampamentos sem-terra; privados de liberdade; no nordeste, no centro-oeste, no litoral; daqueles que não estão na escola, que vivem em situação de rua, que trabalham para complementar a renda familiar desde a infância? Que valores estarão envolvidos nas prioridades que eles estabelecem? Discuta com o grupo as diferentes condições de vida dos jovens e relacione-as com valores importantes para cada grupo social (aspectos relacionados à condição e à situação juvenil, tratados na primeira parte do Guia). Isso auxiliará a relativizar e a conviver com a pluralidade de escolhas. Permitirá, ainda, perceber também que as oportunidades influenciam escolhas e projetos de futuro. Contraponha o poema de Leila Micollis ao texto da música de Gabriel O Pensador e problematize os valores expressos numa e noutra situação. A contrastação possibilita compreender que os excertos se reportam a diferentes juventudes: uma que reduz seu âmbito de participação à esfera pessoal e outra que pega em suas mãos as rédeas do futuro e é estimulada a participar.

Planejando o encontro Você vai precisar: Folhas com as tabelas impressas (registro dos valores); Tarjetas coloridas (três para cada jovem); Dois painéis de papel pardo; Ficha para registro dos valores, atitudes e ações. Você tem que providenciar: Aparelho de som; Sala onde os painéis possam ser afixados nas paredes (se não for possível manter o segundo painel exposto na sala, sugere-se que ele fique no corredor da instituição, pois é importante que seja alimentado ao final da atividade e possa ser observado por outros jovens). Não esqueça: De providenciar cópias impressas da letra da música.

Tempo sugerido 2 encontros de 4 horas

Referências D' AMBROSIO, Ubiratan; INOUE, Ana Amélia; MIGLIORI, Regina F. Temas transversais e educação para valores. São Paulo: Peirópolis, 1999. FRAGA, Paulo; IULIANELLI, Jorge (orgs.). Jovens em tempo real. Rio de Janeiro: DPFA, 2003. PAULA, Juarez de. Democracia e desenvolvimento. Brasília: AED, 2001. ROMANS, Mercê; PETRUS, Antoni; TRILLA, Jaume. Profissão: educador social. Porto Alegre: Artmed, 2003. SEM, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Cia das Letras, 2000.

Anexos 1. Música Até quando? 2. Excertos protagonismo juvenil

Jovens e participação social. Guia de ações

Atitude: discutir valores

Que tal?

A partir da comparação entre o primeiro e o segundo painel, estabeleça relações entre o exercício de identificação das diferenças encontradas e a análise das principais mudanças, destacando o quanto os jovens aprendem na interação com o outro e como o trabalho cooperativo amplia a reflexão e aponta questões que não se apresentam espontaneamente. Recomenda-se que o segundo painel fique exposto, para que os jovens incluam ou excluam valores e ações de transformação, por sua decisão. Observe o movimento do grupo, demonstre interesse pelos novos registros e retome o debate sempre que alguma questão necessitar de esclarecimento, valorização ou estímulo.

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Não adianta olhar pro chão, virar a cara pra não ver. Se liga aí que te botaram numa cruz e só porque Jesus sofreu num quer dizer que você tenha que sofrer. Até quando você vai ficar usando rédea, rindo da própria tragédia? Até quando você vai ficar usando rédea, pobre, rico ou classe média? Até quando você vai levar cascudo mudo? Muda, muda essa postura Até quando você vai ficando mudo? Muda que o medo é um modo de fazer censura. Até quando você vai levando porrada, porrada? Até quando vai ficar sem fazer nada? Até quando você vai levando porrada, porrada? Até quando vai ser saco de pancada? (bis)

Até quando vai ser saco de pancada? (bis) A polícia matou o estudante, falou que era bandido, chamou de traficante. A justiça prendeu o pé-rapado, soltou o deputado e absolveu os PM's de Vigário.

Letra de música

Não adianta olhar pro céu com muita fé e pouca luta. Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer e muita greve Você pode e você deve, pode crer.

Até quando você vai levando porrada, porrada? Até quando vai ficar sem fazer nada? Até quando você vai levando porrada, porrada? Até quando vai ser saco de pancada? (bis) A polícia só existe pra manter você na lei. Lei do silêncio, lei do mais fraco: ou aceita ser um saco de pancada ou vai pro saco... A programação existe pra manter você na frente na frente da TV, que é pra te entreter, que é pra você não ver que programado é você. Acordo num tenho trabalho, procuro trabalho, quero trabalhar. O cara me pede diploma, num

Você tenta ser feliz, não vê que é deprimente, seu filho sem escola, seu velho tá sem dente. Você tenta ser contente, não vê que é revoltante, você tá sem emprego e sua filha tá gestante. Você se faz de surdo, não vê que é absurdo, você que é inocente foi preso em flagrante. É tudo flagrante, É tudo flagrante... Até quando você vai levando porrada, porrada? Até quando vai ficar sem fazer nada? Até quando você vai levando porrada, porrada?

Jovens e participação social. Guia de ações

Atitude: discutir valores

ANEXO 1

ATÉ QUANDO? Gabriel O Pensador / Tiago Mocotó / Itaal Shur

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Consigo emprego, começo o emprego, me mato de tanto ralar... Acordo bem cedo, não tenho sossego nem tempo pra raciocinar. Não peço arrego, mas na hora que chego, só fico no mesmo lugar. Brinquedo que o filho me pede, num tenho dinheiro pra dar. Escola, esmola Favela, cadeia Sem terra, enterra Sem renda, se renda. Não, não

Na mudança de atitude, não há mal que não se mude nem doença sem cura Na mudança de postura a gente fica mais seguro Na mudança do presente a gente molda o futuro Até quando você vai levando porrada? Até quando vai ficar sem fazer nada? Até quando você vai ficar de saco de pancada? Até quando você vai levando?

Atitude: discutir valores

Até quando você vai levando porrada, porrada? Até quando vai ficar sem fazer nada? Até quando você vai levando porrada, porrada? Até quando vai ser saco de pancada? (bis)

Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente A gente muda o mundo na mudança da mente e quando a mente muda, a gente anda pra frente, e quando a gente manda ninguém manda na gente.

Letra de música

tenho diploma, num pude estudar. E querem q'eu seja educado, q'eu ande arrumado q'eu saiba falar Aquilo que o mundo me pede, não é o que o mundo me dá.

Jovens e participação social. Guia de ações

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“Ação cultural é uma perspectiva de ação políticopedagógica que brota das estruturas da cultura local. (...). Trata-se de uma intervenção social a partir do modo de ser dos grupos e comunidades. É um processo de criação do cotidiano com uma perspectiva. Essa perspectiva é a construção de maior participação e cooperação social em vista da superação das desigualdades socioeconômicas. Por conseguinte, é na construção e transformação de mentalidades que se dá a ação cultural.” (p.71-2)

Excertos protagonismo juvenil

“[Nas ações juvenis coletivas e participantes] se constroem a autonomia dos participantes e o envolvimento da coletividade com a ação. Esse modelo de ação, por conseguinte, não supõe um mecanismo de geração de lideranças individuais, indivíduos líderes (elites), mas a geração de participação e cooperação social. Propriamente, o protagonismo é um modelo pedagógico político de ação. É uma ação educativa que relaciona jovens e educadores ou somente jovens na construção de um processo de intervenção sociocultural.” (p. 71)

“O protagonismo juvenil é uma espécie de ação cultural. Uma intervenção social da juventude, a partir dos interesses dos próprios jovens. (...) Os jovens são co-responsáveis pelo destino deles e da sociedade. Os educadores têm um papel que é significativo nesse processo. Esse papel é o de acionar com os jovens mecanismos que facilitem a participação e deliberação juvenil durante toda a construção das ações. Os jovens planejam, executam e avaliam os processos dos quais participam. Os educadores não trazem um pacote de sugestões para que os jovens decidam. Os educadores buscam, com os jovens, as orientações para a ação.” (p. 73).

Atitude: discutir valores

ANEXO 2

Sobre protagonismo juvenil

Jovens e participação social. Guia de ações

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Narrando experiências de participação social juvenil Pode crer, eu tô no clima. Eu tô no clima, segue a rima. A revolução na sua mente. Você pode, você faz. Charlie Brown Jr. “Não é sério”.

Temáticas a serem exploradas Juventudes, solidariedade, diversidade da participação social juvenil.

Objetivos

A importância dessas relações está em que ampliam a rede de contatos calorosos e mais estreitos, próprios dos intercâmbios afetivos, ajudando na constituição de um tecido social mais integrador, com interdependências mais estreitas. (Gimeno Sacristán, 2002)

Apresentação do tema Como seres humanos somos dependentes uns dos outros. Nos constituímos nas relações que vivenciamos, nos afetos que recebemos, nas experiências cotidianas de nossas vidas, no enfrentamento dos desafios, na reflexão acerca do mundo e de nós mesmos. Não somos nada fora das relações e, portanto, se a sociabilidade é inevitável, quanto mais aberta, autônoma e participativa forem as relações, mais humanos e solidários seremos. As aprendizagens para a vida social constituem um processo inacabado que nos reserva uma existência em permanente construção. Um dos elementos fundamentais da sociedade contemporânea é a presença atuante dos jovens na vida pública. Para isso, os desafios são imensos, as estratégias são diversas e os atores são múltiplos, assim como são diferentes as posições que os sujeitos sociais assumem. Nesse contexto, o contato entre jovens com diferentes experiências de participação ajuda a construir a

idéia de que, como parte de redes sociais, somos responsáveis pela construção coletiva da vida presente e futura. E se nossa vida social com os outros se desenvolve em diferentes âmbitos (família, grupos, escolas, igrejas, mundo do trabalho, associações voluntárias, movimentos sociais etc.) cabe fortalecer esses vínculos, aproximando os jovens entre si, potencializando o que os une e diminuindo o que os distancia. As partilhas realizadas nas experiências de participação são possibilidades para tais construções. Existe um processo de organização juvenil que vem sendo gestado a partir de diferentes práticas que expressam mudança das formas mais tradicionais de participação. Corti e Souza (2004) apontam que, ao final da década de 90, houve crescimento de novas formas de participação e mobilização juvenil. Novaes e Vital (2005) chamam a atenção para os novos lugares, objetivos e formas de participação cidadão dos jovens, a saber: grupos e redes de jovens dos

Jovens e participação social. Guia de ações

Narrando experiências de participação social juvenil

As relações de solidariedade constituem uma forma de relação social que podemos situar entre as afetivas e as de cooperação. Partem do reconhecimento de que certas necessidades, qualidades ou condições do outro podem ser satisfeitas ou melhoradas com as contribuições de quem se solidariza. A solidariedade origina-se porque consideramos aquele que ajudamos semelhante a nós (com as mesmas necessidades e os mesmos direitos). Nós o fazemos para iguala-lo um pouco mais conosco. Exercemos a fraternidade com os demais. (...)

Promover diálogo entre diferentes experiências de participação de jovens. Refletir sobre formas de participação dos jovens na comunidade.

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O gesto solidário é sobretudo um ato de autonomia, que se faz responsável pelo outro, que escolhe o respeito pela diferença que o torna outro e se interessa pela interação. O sujeito solidário jamais vê a diferença como condição de inferioridade no outro (...) Uma postura solidária vê na alteridade o momento do aprendizado de si mesma. (Luiz Signates)

projetos sociais (instituições governamentais e não-governamentais, serviços comunitários, trabalho voluntário, concursos, etc.); grupos de jovens que atuam para transformar o espaço local, nos bairros, favelas e periferias; grupos e redes que agregam jovens em torno de identidades específicas (indígenas, afro descendentes, ambientalistas, jovens com deficiências, etc.); grupos que atuam nos espaços de cultura e lazer ; grupos que se reúnem em torno de uma causa ou campanha (ações contra a violência e pela paz, campanha contra a fome, etc.); grupos de jovens religiosamente motivados. Podemos, assim, estar diante de um grande movimento associativo juvenil, embora nem sempre visível, mais autônomo e espontâneo, muitas vezes não-institucionalizado, que vem ganhando força como símbolo de um outro tempo social. Como se vê, não só o consu-

mismo tem marcado as experiências dos jovens. Não podemos simplesmente compará-los aos jovens de outros tempos, pois também não podemos afirmar que todos os jovens dos anos 60 ou 70, por exemplo, eram atuantes. É inegável, entretanto, que existem elementos que nas relações sociais da atualidade desfavorecem e impõem limites à participação dos jovens, assim como há fatores que a impulsionam, desde a menor institucionalização até o maior espaço para o âmbito da produção cultural. De qualquer forma, o agravamento das condições de vida da maioria dos jovens, aos quais não são assegurados os direitos básicos, ou a extensão do tempo de moratória social para os jovens em melhores condições, vem gerando problemas sociais diversos e constituindo uma realidade que cria novos desafios para os processos de mobilização e participação social juvenil.

“Se as gerações jovens estão dispostas a criar caminhos para reinventar suas vidas políticas e nosso futuro coletivo, as gerações adultas precisam comprometer-se em assegurar-lhes o direito ao exercício da liberdade de fazer escolhas permitindo que decidam livremente, por exemplo, as formas de agrupar-se e cultivar interesses comuns; dando-lhes, durante suas vidas escolares, a chance de participar ativamente da criação de normas de convívio, dos rumos do seu processo educativo. Mais importante, ainda, (...) é estimulá-la a assumir, cada vez mais, sua parcela de poder e responsabilidade na construção do bem-comum. Essa co-responsabilidade sobre o coletivo só se concretiza efetivamente se além do desejo de solidarizar-se já presente no universo juvenil somar-se o compromisso das gerações adultas de dar-lhes a chance de conhecer, refletir e agir como protagonistas sobre as circunstâncias em que vivem: a família, a escola em que estudam, a comunidade em que moram, a cidade, o estado, o país e também o planeta onde as distâncias se encurtam a cada inovação tecnológica.” (Simone André, Onda Jovem, jul. 2006)

Jovens e participação social. Guia de ações

Narrando experiências de participação social juvenil

As sociedades precisam contar com as juventudes, com a sua capacidade de aprender a aprender e reciclar com flexibilidade as suas competências e atitudes, com o seu prazer criador e com sua energia vital. Com eles, em um novo pacto de coresponsabilidade e colaboração, as novas estratégias do desenvolvimento e da orientação existencial podem ser construídas. (Dina Krauskopf, 2005)

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Proposição 1° Momento - Participação social: o que os jovens têm a dizer? Inicie o encontro com as cadeiras em formato de círculo. Coloque no centro do círculo tiras de papel, umas com os dizeres Participação Social, e outras com a palavra Juventudes. Os escritos podem ser feitos com tinta spray, como se fossem grafites de jovens. Convide os jovens a conversarem sobre suas opiniões sobre as relações entre as palavras lançadas. Como se posicionam? O que constatam em suas realidades? Este momento poderá ser enriquecido, se houver disposição e interesse do grupo, com a leitura dos depoimentos de alguns jovens acerca de suas experiências de participação (Anexo 2).

2° Momento - Quem são, onde estão e o que fazem os jovens? Proponha que o grupo realize uma pesquisa sobre as práticas culturais e sociais dos jovens de sua escola, com o intuito de dar visibilidade às culturas juvenis e às práticas solidárias em suas diferentes expressões, de modo a que possam ser conhecidas pelos adultos ou professores com quem interagem. Para isso, como primeira etapa da pesquisa, oriente a elaboração de um questionário geral. O questionário poderá ser distribuído a todos os jovens do Ensino Médio da escola, ou ainda para uma amostra significativa de jovens, a partir dos quais se possa mapear: Quem são, onde estão, o que fazem os jovens para além do espaço escolar? No questionário geral, as perguntas procurarão identificar o que os jovens fazem quando não estão na escola, no tempo livre, tais como atividades de lazer, finais de semana, o que mais gostam de fazer, a que grupos pertencem ou que lugares freqüentam, quais as expressões culturais e esportivas que preferem, etc.

3° Momento - Escutando e aprendendo com narrativas de participação Na segunda etapa da pesquisa, uma vez tabuladas as respostas do questionário geral e discutidos os resultados, os jovens poderão realizar um aprofundamento do tema jovens e participação social. Para isso, selecionarão jovens que tenham respondido que estão engajados em ações solidárias e voluntárias para um entrevista, como a sugerida no Anexo 1. As entrevistas poderão ser realizadas em duplas.

“È preciso não esquecer que é do entrevistado o lugar central do encontro (...) Há um mundo a descobrir, cheio de riquezas desconhecidas”. (Esta deve ser a postura do entrevistador). “Manter uma escuta atenta e refletir durante a fala do outro. A entrevista não se processa numa ordem linear. [É preciso] ter um guia e não um questionário”. ZAGO, Nadir. A entrevista e seu processo de construção: reflexões com base na experiência prática de pesquisa. ZAGO, Nadir; CARVALHO, Marília Pinto de; VILELA, Rita Amélia T. (orgs.). Itinerários de pesquisa: perspectivas qualitativas em sociologia da Educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. Jovens e participação social. Guia de ações

Narrando experiências de participação social juvenil

Converse com os jovens sobre a postura de escuta e aprendizado a ser assumida por cada um e a forma da entrevista, de modo que ela possa ser respeitosa, compreensiva, interessada.

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Para aprofundamento do tema, proponha uma pesquisa nos sites do Instituto Cidadania, IBASE e Ação Educativa, onde é possível conhecer os resultados de pesquisas realizadas com jovens de todo o Brasil sobre participação: www.ibase.br (pesquisa Juventude Brasileira e Democracia: participação, esferas e políticas públicas) www.acaoeducativa.org (pesquisa Juventude, Escolarização e Poder Local) www.institutocidadania .org (pesquisa Perfil da Juventude Brasileira) Sugira que organizem um mural em local público (banco, escola, espaços culturais da cidade ou do bairro) relacionando os resultados das pesquisas e as conclusões das entrevistas. Desafie os jovens a elaborarem títulos sugestivos (por exemplo: “Apontamentos sobre a participação juvenil” ou “Os jovens entram em cena”, etc.).

Como terceira etapa da pesquisa, proponha a elaboração de conclusões, momento em que será importante destacar: as diferentes expressões culturais juvenis; os grupos de pertencimento; as ações de cooperação sociocultural que os jovens realizam; as formas de participação solidária e voluntária as aprendizagens e dificuldades das experiências. Será fundamental que os jovens do grupo participem ativamente de todo o planejamento da pesquisa: definam os sujeitos a quem distribuir os questionários, identifiquem as etapas do levantamento, conheçam os instrumentos de coleta e registro, organizem a tabulação dos resultados, realizem as entrevistas, inventem as formas de socialização dos achados. Sugere-se que, para dar visibilidade dos achados aos pais e professores da escola, os jovens criem estratégias de disseminação do que descobrirem, elaborando painéis, cartazes, pôsteres, etc, a serem afixados em locais de circulação, ou ainda que passem nas diferentes turmas de jovens ou nas reuniões de professores para relatar o que constataram sobre as inserções dos alunos, o que isso aponta, etc.

4° Momento - Refletindo e assumindo um engajamento Reflita com o grupo: o que podemos aprender com as diferentes experiências? já vivenciamos situações semelhantes? o que aproxima e o que distancia as diferentes experiências? elas são divulgadas pela imprensa? Por quê? e nós, estamos engajados? queremos e podemos nos engajar? que ações mais nos tocaram e despertaram nosso desejo de participar? Se houver tempo, motivação e disponibilidade do grupo, individualmente, cada jovem poderá elaborar uma produção textual sobre participação social juvenil, expressando o que aprendeu e como se vê diante dos relatos de outros jovens. Pode-se sugerir que as produções sejam socializadas em um varal na sala de reuniões do grupo ou que venham a compor um memorial do grupo, intercalando fragmentos das entrevistas e depoimentos dos jovens entrevistadores.

Planejando o encontro Você vai precisar: Uma cópia, por dupla, de fichas com falas de jovens Você tem que providenciar: Papel pardo Pincel Não esqueça: Providenciar cópias do modelo de entrevista anexo Combinar com o grupo as entrevistas

Jovens e participação social. Guia de ações

Narrando experiências de participação social juvenil

Que tal?

Auxilie as duplas a prepararem a apresentação de suas entrevistas e reflexões e, ao final, registre com todo o grupo as aprendizagens da experiência de colher narrativas de participação social de jovens.

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Tempo sugerido 2 a 3 encontros de 3 horas, além da realização das entrevistas

Referências ANDRÉ, Simone. Participação no século 21: há novas formas de fazer política. In: Onda Jovem. São Paulo, v.2, n.5, jul. out. 2006. CORTI, Ana Paula; SOUZA, Raquel. Diálogos com o mundo juvenil: subsídios para educadores. São Paulo: Ação Educativa, 2004. INSTITUTO BRASILEIRO DE ANÁLISES SOCIAIS E ECONÔMICAS; INSTITUTO PÓLIS. Juventude Brasileira e Democracia: participação, esferas e políticas públicas. Rio de Janeiro: Ibase, 2005. 103p. (Relatório de Pesquisa). Projeto Juventude. Documento de conclusão.Disponível no site. www.projetojuventude.org.br/html/cadastro.html KRAUSKOPF, Dina. Juventudes na América Latina e no Caribe: dimensões sociais, subjetividades e estratégias de vida. In: THOMPSON, Andrés A. (org.). Associando-se à juventude para construir o futuro. São Paulo: Petrópolis; W. K. Kellogg Foundation, 2005, p.149-196. ZAGO, Nadir. A entrevista e seu processo de construção: reflexões com base na experiência prática de pesquisa. In: ZAGO, Nadir; CARVALHO, Marília Pinto de; VILELA, Rita Amélia T. orgs. Itinerários de pesquisa: perspectivas qualitativas em sociologia da Educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

Anexos

Narrando experiências de participação social juvenil

1. Sugestão de roteiro para entrevista 2. Excertos de falas de jovens

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Que experiências de participação você viven

Sugestão de roteiro para entrevista

ANEXO 1

Uma entrevista é um gênero oral que pressupõe interação entre pessoas, cada uma colocada em um papel específico. Ambas, no entanto, estão ligadas pelo objeto de investigação da entrevista, ou seja, pelo motivo que a propiciou. Ao se realizar, uma entrevista geralmente se faz no suporte oral e é impregnada de diferentes marcas da oralidade. Quando transcrita para o suporte escrito, quase sempre são realizadas modificações nas falas originais, com vistas a atenuar estas marcas. Quem controla a interação entre os participantes é o entrevistador, por isso a entrevista deve ser bem preparada, incluindo a necessidade de algum conhecimento prévio de características gerais do entrevistado e da relevância que sua contribuição tem sobre o assunto que se está investigando. Um roteiro prévio de perguntas precisa refletir isso, indicando através de perguntas claras e objetivas - que rumo se espera que a conversa tome. Às vezes, também é conveniente prever possíveis respostas e preparar antes perguntas para essas possíveis respostas. Ao entrevistar, prefira gravar as respostas. Esteja muito atento a cada resposta dada, pois o comentário que o entrevistado faz a alguma questão poderá indicar algumas perguntas improvisadas muito úteis ao resultado final da entrevista. Se não for possível gravar, anote com atenção e submeta a transcrição à leitura prévia do informante, antes de divulgá-la. Uma forma de avaliar a qualidade das informações obtidas através de uma entrevista é lê-la após a transcrição, observando se há encadeamento entre perguntas e respostas, clareza de identificação do entrevistador e do entrevistado e se a linguagem registrada está atenuada das marcas de oralidade. Alguns núcleos de perguntas relativas à participação social podem ser:

c

Que Jovens e participação social. Guia de ações

Narrando experiências de participação social juvenil

u? io

es realiza? Desde quando? õ ç a

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?

que apreci a

riência de participação que vivenciou/vivencia? expe a n

Sugestão de roteiro para entrevista

Como tudo começ ou

O que critica na experiência de participação que vivenci ou

os Quais têm sido Jovens e participação social. Guia de ações

Narrando experiências de participação social juvenil

cia? iven /v ntos fortes e as fragilidades das ações desenvolvidas? po

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Depoimento 2: A minha mãe resolveu me inscrever numa fundação chamada Fundação da Prefeitura de Salvador, que funciona até hoje, com cursos profissionalizantes. Então eu disse para ela me colocar num curso de informática, porque informática era o boom da época. E eu fui para lá com aquela idéia de informática, (...) Só que acabei conquistando a oportunidade de desenvolver uma outra competência que eu não sabia que eu tinha, que era me expressar e assumir compromisso. Eu não sabia que eu tinha isso... Então, a partir daí, tive a oportunidade de participar de um movimento (...) Comecei a desenvolver habilidades de participação, de trabalhar em grupo... Pensam que é fácil trabalhar em grupo, mas não é, é muito difícil: são pessoas diferentes, diferentes no mesmo grupo... Eu tive que aprender a lidar com isso e, a partir daquela oportunidade, (...) comecei a me engajar em ONGs de Salvador. Depois me engajei num projeto de Cidadania e Políticas Públicas. E descobri um mundo que eu não conhecia: que eu poderia participar de Conselho, que eu poderia desenvolver trabalhos na minha própria comunidade, nas comunidades de outras pessoas... Então, comecei a me envolver com outros grupos de jovens, de comunidades periféricas de Salvador e isso iniciou um trabalho social que nem passava pela minha cabeça e que eu não aprendi em casa. Meus pais, aliás, minha família toda é reacionária. Eu acho que eu sou um dos poucos que não concorda em votar em ACM, que não concorda com clientelismo, assistencialismo, já fui até tachado de ovelha negra por isso. Então, que fiz? Fui para o Sertão, porque passei no Vestibular e lá conheci o trabalho do MOC, que venho até hoje fazendo. Assumi o compromisso de utilizar o que eu tô aprendendo... E coloquei isso na minha cabeça: “tudo que eu aprender, tudo o que eu participar, eu não vou utilizar só para mim, mas quero ajudar outras pessoas. Não é só para melhorar a minha vida, mas para que outras pessoas possam ter outras oportunidades. (Jovem de 22 anos)

Jovens e participação social. Guia de ações

Excertos de falas de jovens Narrando experiências de participação social juvenil

ANEXO 2

problema Depoimento 1: o a minha parte. O faç eu : sim as z di Todo mundo diz que a minha rte de alguém? Quem é: Quem limita a pa até onde vai a sua cada um perguntar a e “fiz a parte vai até ali? Se faço a minha oficin lá, u vo Eu : sim as é ui, sai de parte... Não rte não vai só até aq pa ha in m a s Ma ”. minha parte continua... dentro dessa sala e rante duas to social, não é só du Se eu faço um proje tua parte em fez tu s por dia. Se ra ho 24 o faç eu s, ? Ninguém vai horinha vai seguir a tua parte e qu é em qu s, ra duas ho utra dificuldade é o, entendeu? (...)O ad jog a fic o tã en .. seguir. ciais para ganharem itam os projetos so ve ro ap e qu s oa ss as pe .) Como é que as catrua, entendeu? (.. fal ta ui m Há o. eir dinh oas passaram er isso? E estas pess faz m ue eg ns co s oa pess ncer na vida e nós, conseguiram ve m ne e qu s de da ul dific saíram pra ganhar da situação de onde o nd ita ve ro ap o tã es de 19 anos) dinheiro.... (Jovem

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Depoimento 4: Eu acho que o nosso grande problema é não escutar os outros para saber o que os outros pensam sobre participar das lutas e se eles têm interesse de participar. Na realidade, eu li aquele estudo de Helena Abramo e ela fala sobre os punks e os darks de São Paulo, que é muito interessante, porque ela mostra as formas de resistência, de participação e de construção de identidades a partir de questões como o rock, formas de vestir... Isso também é participação, isso também está ligado a movimento de contra-hegemonia. A gente fica esperando que o outro tenha só uma forma de participação,mais política, de ocupar os espaços. Mas há outras. Eu acho a dos punks uma via interessante que a gente tem que se apropriar, até porque a gente foi sempre preterido disso.(...) “Ah... os jovens da década de 60, 70 foram revolucionários, mas, na realidade, não tinham uma visão de juventude. (...) Se você for pensar o que essa galera jovem estudantil construiu, tá muito mais ligado a questões ideológicas, partidárias e políticas, macro-políticas, muito mais uma relação entre capital-trabalho, socialismo, capitalismo... Se você for pegar o que eles construíram naquela época e o que resulta daquilo hoje, em termos de inclusão social de jovens, não tem nada. Esses movimentos não ultrapassaram os muros das universidades e das escolas. Você pergunta: o que tem de política pública que pode ser aproveitado e que foi construído naquela época? Nada. E de inclusão? Não tem. Agora mesmo foi criado um Conselho Nacional da Juventude. Eu tenho uma visão muito crítica em relação a isso. Eu acho legais os conselhos, mas o Conselho da Juventude não deveria ser criado dessa forma. Eu acho que deveria ter havido ações públicas e conversas com a galera para saber o que eles querem. Porque, por mais que o cara não tenha aprendizado, ele sabe o que quer para a comunidade dele. (...) Quando ele disser o que quer na comunidade dele: que não tem uma praça, que não tem um espaço de lazer, não tem um espaço de recreação, quadra (...) Então, eu acho que a gente tem que fazer esse movimento um pouco inverso: de saber o que a comunidade responde a isso e depois estabelecer pressupostos. (Jovem de 22 anos) Jovens e participação social. Guia de ações

Excertos de falas de jovens Narrando experiências de participação social juvenil

Depoimento 3: Até os 20 anos eu era um jove como tem bast m de uma com ante por aí. D unidade, aí para frente formação na Ca , comecei a fa sa Familiar, qu zer e dura três an anos, teve vári os. Nestes três as mudanças na minha vida fazer parte do : eu comecei Conselho de Sa a úde do Munic a situação do ípio, para disc município; fa utir ço parte da direto de Trabalhador ria do Sindica es Rurais; do to Co uma cooperat nselho Admin iva de crédito istrativo, que de é agricultura; da Casa Famil sou da direto iar. Hoje eu so ri u a presidente da Guaraciaba e, Casa Familiar no mês passad de o, fui convida ARCAFAR Sul. do a participar Na verdade, h da á cinco anos es Casa Familiar. tou ligado a u Antes eu era ma apenas aquele interior e, hoj jovem lá naqu e, eu tô viajan ele do bastante, te Brasil inteiro, ndo amigos n como nesse E o ncontro. E ac temos que bu h o scar, nós tem que nós joven os que ter vez. s anos) (Jovem de 22

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Protagonismo juvenil e participação social: que ideia e´ essa? ´

“Os jovens que se engajam na concepção de um mundo melhor a ser construído por eles o pensam em geral em termos de sustentabilidade ambiental e justiça social.” Paul Singer “Os jovens são co-responsáveis pelo destino deles e da sociedade.” Jorge Iulianelli “Na última década, os jovens diversificaram suas formas, espaços e alvos de atuação, assim como se tornou mais diversa a face social dos que se mobilizam e constituem ações coletivas. Além dos estudantes, jovens trabalhadores, jovens do campo, jovens mulheres e, dos mais variados setores urbanos, os jovens se agrupam, constroem identidades coletivas e formas de atuação de distintas modalidades.” Projeto Juventude

Temáticas a serem exploradas Desenvolvimento pessoal e social, participação social e sociabilidade, redes e parcerias, mobilização juvenil e ação solidária.

Objetivos Promover situações que privilegiem as atitudes investigativa, problematizadora, reflexiva, pró-ativa e avaliativa dos jovens.

Jovens e participação social. Guia de ações

que ideia e´ essa? ´

e necessidades de afirmação pessoal. Mas, igualmente, o poder convocatório dos próprios jovens entre si, constituindo grupos, movimentos e engajamentos diversos, vem crescendo e, entre os jovens brasileiros, segundo pesquisas da última década, constata-se uma “grande abertura aos valores da solidariedade social e responsabilidade ambiental, confirmando-se a capacidade transformadora já revelada para atuação em movimentos exigindo mudanças éticas, sociais e políticas” (Projeto Juventude, 2004). Se a juventude é a fase da vida marcada centralmente por processos de definição e de inserção social, a participação social juvenil pode ser vista como alternativa de educação para a coresponsabilidade, pois colabora para que os jovens tenham uma inserção mais efetiva e consciente na vida da comunidade à medida que seu envolvimento com causas coletivas é estimulado.

Protagonismo juvenil e participação social:

Apresentação do tema Ser jovem não é apenas um destino, mas também uma escolha. Os jovens demonstram, em seu cotidiano, disposições importantes para a vida social: desejo de pertencer a um grupo e ser aceito, atitudes abertas a criar e inovar, sentido de crítica que leva a contestar valores e práticas instituídas, energias pulsantes que não podem ser contidas em rotinas e normas rígidas fixadas pela tradição. Os jovens anseiam por espaços de liberdade, visibilidade, afirmação e autoria, contestação e ação concreta no tempo presente. Entretanto, os jovens nem sempre percebem as possibilidades que podem se apresentar em suas vidas. Sentem-se desnorteados quando lhes faltam referências, exemplos, chamamentos. Findam por agregar-se ao mais próximo, mais familiar, e acabam perdendo oportunidades novas e desestabilizadoras. Por isso, modos de ser jovem difundidos pela mídia são incorporados por muitos jovens, como se respondessem a angústias

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A idéia de que os jovens se mobilizem e assumam um papel central nas experiências em que participam considera-os atores principais de ações que dão concretude ao exercício da cidadania, à convivência em um grupo, abrindo mão das vontades individuais em benefício da coletividade e refletindo sobre a realidade antes da tomada de decisão, entre outras atitudes e competências imprescindíveis à intervenção no contexto social. O incentivo e a realização de atividades protagonizadas pelos próprios jovens, oportunizando experimentações intensas de autoria e compromisso social, devem levar em conta que os jovens precisam: compreender o terreno de sua atuação: para isso, é necessário que se apropriem de informações e que interpretem dados, identifiquem problemas e questões que comprometem o bem estar de uma coletividade e se posicionem

criticamente; aderir a uma causa e engajar-se em grupos: para isso, é fundamental que os jovens se responsabilizem socialmente e queiram participar da busca de soluções; operar na realidade para transformá-la: para isso, é preciso que tenham iniciativa, que planejem, que executem as ações planejadas e que avaliem os resultados alcançados. Jovens e educadores envolvidos em ações sociais coletivas possuem desafios em comum, relacionados à capacidade de refletir sobre as próprias ações, analisar o contexto social de atuação, as necessidades de autoestima e autoconfiança, as exigências da convivência solidária, entre outros. Assegurar o aprendizado da autonomia, condição imprescindível do protagonismo, implica que jovens e educadores levem em conta o que ambos podem aprender, como sujeitos sociais, com as experiências de participação solidária:

Participar de

Desenvolve

Discussões

Potencial criativo

Decisões Pesquisas

Potencial associativo

Planejamentos Execuções Avaliações

Capacidade de sonhar coletivamente

Conexões com o meio

potenciais para a ação social solidária. Dentre todos, a escola é a que tem maior chance de realizar ações planejadas e continuadas, em virtude de ser um lugar de encontro diário.

O protagonismo juvenil pode ser entendido como “ações juvenis coletivas e participantes. Nelas se constroem a autonomia e o envolvimento da coletividade com a ação. Esse modelo de ação [supõe] a geração da participação e cooperação social. É uma ação educativa que relaciona jovens e educadores ou somente jovens na construção de um processo de intervenção sociocultural.” (Iulianelli, 2004)

Jovens e participação social. Guia de ações

que ideia e´ essa? ´

Desse modo, todos os lugares em que já exista algum tipo de organização social que reúna jovens, a exemplo da escola, clubes, associações, igreja, ou movimentos culturais, são espaços

Protagonismo juvenil e participação social:

Capacidade de realizar ações planejadas Co-responsabilidade e a capacidade de perceber resultados

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“O papel do educador é resgatar as experiências de vida (...) e contribuir na reflexão crítica e compreensão metodológica, (...) não pelo discurso das palavras, mas pela intervenção no curso dos acontecimentos. É passar a mensagem da cidadania criando acontecimentos novos, sendo um provocador e incentivador das ações juvenis.” Rodrigo Amaral, jovem integrante da Rede Jovem do Nordeste. “O jovem participa quando ele se identifica. Eu , como formador de atitude, trabalho porque me identifico com a proposta desse trabalho. Os formadores têm como princípio que todos os jovens podem participar, que não precisa de adultos monitorando. Algumas pessoas definem, outras pessoas garantem o trabalho, mas todos participam, todos têm protagonismo, ou seja, todos têm o mesmo valor, a mesma importância.” Educador

Proposição

Sarafina (1992, direção de Darrell James Roodt) Em pleno apartheid, numa escola de Soweto, uma professora ensina história de uma forma não convencional. Sarafina é uma aluna negra que, assim como outros adolescentes, se sente revoltada com as injustiças sociais. O filme levanta questões como “O que se passa nas escolas?”, “Podem as escolas ficar indiferentes ao contexto social que as rodeia?”, “Pode-se ensinar os alunos e esperar que estes fiquem indiferentes?”.

Na seqüência, solicite que cada grupo registre as informações mais relevantes e depois as apresente e justifique a escolha ao grande grupo. Após, encaminhe o grupo para a elaboração de um texto coletivo sobre as informações trazidas por todos os grupos, contendo os seguintes aspectos: a) situações relatadas nas notícias; b) posicionamento do grupo frente às notícias; c) ações para o enfrentamento da situação.

2° Momento Para ampliar o debate e trazer novos focos de reflexão, sugere-se assistir ao documentário Ventre Livre, de Ana Luiza Azevedo. Debata sobre o entendimento do documentário e proponha o

3° Momento Para sensibilizar os jovens a se envolverem com questões de interesse coletivo, proponha a confecção criativa de cartazes. De sua parte, acrescente algumas frases como as que estão sugeridas no anexo 2, que possam servir de apoio à etapa de problematização. Problematize os cartazes através da discussão sobre a necessidade de todos se co-responsabilizarem pelo bem estar social. Propicie que assistam e comentem o filme Sarafina, de D.J. Roodt, um interessante ponto de referência para que os jovens reflitam sobre sua função social e se aventurem a tratar de questões que fazem parte do contexto social. Proponha também a realização de uma pesquisa e estudo sobre saúde a partir do seguinte roteiro: pesquisar dados e obter informações sobre o assunto destacado no Jovens e participação social. Guia de ações

que ideia e´ essa? ´

Ventre Livre (1994, direção de Ana Luiza Azevedo) Documentário produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre, 48'. Conta um pouco da história de Vera, Ivonete, Maria do Carmo e Marlove, pessoas que nasceram no país com a mais desigual distribuição de renda do planeta.

Proponha uma reflexão em pequenos grupos sobre aspecto da realidade que afete as condições de vida da população brasileira, tais como saúde, educação, segurança, acesso ao trabalho etc, a partir da análise de manchetes e notícias previamente selecionadas em jornais e revistas.

Protagonismo juvenil e participação social:

FILMES

1° Momento

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primeiro momento, levando em consideração a comunidade em que vivem os jovens, para conhecerem a realidade que pretendem transformar; relacionar e comparar os dados pesquisados com as informações, para compreenderem a situação; posicionar-se criticamente diante das condições de saúde e formas de acesso, para darem significado à realidade; refletir sobre o depoimento da jovem que participa da ONG Cala-Boca já Morreu, que está no anexo 3, para considerarem outro ponto de vista; definir um projeto de futuro em relação ao problema estudado, para projetarem uma nova realidade; identificar a distância entre as necessidades das pessoas em relação ao que foi conhecido e a realidade vivida, para problematizarem; elaborar um plano de ação, para atuarem sobre a realidade.

4° Momento Proponha a realização de um levantamento de todas as instituições que tratam de questões relacionadas ao problema estudado (por exemplo, se o foco for a saúde da população no bairro ou cidade, sugira que identifiquem hospitais, postos de saúde, clínicas, ongs, localizem os agentes de saúde e façam contato com eles). Forme grupos de quatro jovens para que elaborem questões para a pesquisa, pois os jovens precisam ser incentivados a serem os autores das perguntas e que as organizem de modo a facilitar a sistematização dos dados. Sugira que as pesquisas investiguem: nome, endereço e telefone da instituição; profissional responsável; âmbitos de atuação e serviços disponíveis para jovens; forma de acesso; atividades educativas para jovens; materiais informativos. Organize os grupos e oriente a distribuição das instituições a serem visitadas. Dê sugestões a respeito do registro das respostas e planeje com os jovens como acontecerá a apresentação dos dados colhidos por todos os grupos.

Proponha aos jovens a elaboração de um documento justificado, a partir da lista, a ser encaminhado às instituições e órgãos competentes. Solicitar que os jovens descrevam e justifiquem suas decisões durante o planejamento e realização das atividades é tarefa importante do educador, que tem a função de problematizar e conduzir os jovens na direção do mais complexo durante o desenvolvimento do processo, antes que finalizem o trabalho. Após a apresentação dos trabalhos, estimule-os a organizar a devolução contextualizada dos conceitos, valores e atitudes que fizeram parte das ações executadas, de modo que possam aparecer, além das idéias principais e dos consensos, os aspectos não aprofundados, a correção de eventuais equívocos teóricos e a ampliação das relações estabelecidas, agregando mais valor ao estudo e à execução das propostas. A disponibilidade e o interesse do educador para colaborar na síntese e na compreensão do processo vivido poderão fazer com que os jovens se aventurem a prosseguir suas buscas e a perceber que são capazes de intervir no meio em que vivem. Jovens e participação social. Guia de ações

que ideia e´ essa? ´

Sugira que elaborem uma lista de sugestões com o que gostariam que a cidade oferecesse em relação ao serviço investigado aos jovens e à população em geral.

Protagonismo juvenil e participação social:

Diante dos dados obtidos pelo conjunto dos jovens, problematize com eles se os serviços são adequados e se atendem às necessidades dos jovens.

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Você tem que providenciar: Lista das instituições que prestam o serviço destacado para o grupo na localidade em que atua. Sala com equipamentos para exibição de filme. Cópias do anexo 3 . Não esqueça: De reproduzir a ficha de estudo do filme, constante no anexo 2; De estudar o quadro sobre as etapas da ação protagônica, a partir do anexo 4. De construir com os jovens as questões da entrevista.

Tempo sugerido 4 encontros de 4 horas

Referências ABRAMO, Helena; SPOSITO, Marília P.; FREITAS, Maria Virgínia (orgs.). Juventude em debate. São Paulo: Cortez Editora, 2000. COSTA, Antonio Carlos Gomes da. Organizando o protagonismo juvenil. Belo Horizonte: Modus Faciendi, s.d. DELORS, Jacques (org.). Educação: um tesouro a descobrir. Relatório para a UNESCO. São Paulo: Editora Cortez, 2001. FILIPOUSKI, Ana Mariza e NUNES, Denise. Protagonismo Juvenil e educação para a cidadania. Brasília: SEBRAE, 2004. IULIANELLI, Jorge A.S. Juventude: construindo processos : o protagonismo juvenil. In: FRAGA, Cesar P.; IULIANELLI, Jorge A.S. (orgs.). Jovens em tempo real. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. p. 54-75. PROJETO JUVENTUDE. Documento de Conclusão. Brasília: Instituto Cidadania, 2004 NOVAES, Regina e VANNUCHI, Paulo. Juventude e sociedade: trabalho, educação, cultura e participação. São Paulo: Fundação Perseu Abramo/ Instituto Cidadania, 2004.

Glossário Protagonismo - A palavra protagonismo deriva da união de duas palavras gregas: protos (principal) e agonistes (lutador).Fig. Pessoa que desempenha ou ocupa o primeiro lugar num acontecimento. (Dicionário Aurélio)

Anexos 1. Cartazes sobre protagonismo juvenil 2. Ficha de estudo dos filmes 3. Depoimento de uma jovem 4. Etapas da ação protagônica Jovens e participação social. Guia de ações

que ideia e´ essa? ´

O grupo poderá sistematizar seus resultados através de um relatório ou apresentá-los em um seminário, ou mesmo em um blog ou jornal virtual, a partir de escolha e organização pelos próprios jovens.

Você vai precisar: Jornais e revistas com matérias e reportagens sobre um aspecto relativo à população brasileira (o assunto precisa contemplar interesses dos jovens); Cartazes sobre protagonismo juvenil, conforme sugestões do anexo 1; Folhas para registrar as entrevistas.

Protagonismo juvenil e participação social:

Que tal?

Planejando o encontro

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Cartazes

ANEXO 1

O protagonismo juvenil é uma forma de atuação social que estimula os jovens a se envolverem com a sua formação, a tomarem para si a tarefa de se qualificarem para fazerem boas escolhas.

A iniciativa para intervir em problemas ou questões que digam respeito ao coletivo e o compromisso com a transformação indicam o exercício da cidadania e a opção pelo bem comum.

Jovens e participação social. Guia de ações

que ideia e´ essa? ´

O protagonismo empodera o jovem para modificar acontecimentos sociais, processos de vida e até mesmo o futuro da natureza de forma consciente.

Protagonismo juvenil e participação social:

é possível tratar, Através do protagonismo, as individuais e ao mesmo tempo, de caus pativos se sociais, pois jovens partici ogo com a engajam na busca do diál se transformam sociedade e o governo e de ações de em parceiros na execução interesse coletivo.

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que ideia e´ essa? ´

Protagonismo juvenil e participação social:

Ficha de estudo dos filmes

ANEXO 2

eensão speito da compr re a s rio tá en m 1. Síntese e co s: ens com os fato ag da narrativa. on rs pe s da lação tos da 2. Análise da re e comportamen s de itu at as is - Qua ante do fato y? ens frente a personagem x di outras personag s da s õe aç re - Quais as s com a tais atitudes? ser estabelecida m de po es çõ la - Que re tal a? realidade próxim riam possíveis em se ão aç re de as - Que alternativ narrativa? situação? imaginar para a e -s de po al tados fin - Que outro e valores desper s to en am ns pe 3. Sentimentos, pela história: incipal; - personagem pr ens marcantes. mo - outros personag ximam o contexto do filme co ro ap 4. Diálogos que nsão do contexto local. ram na compree lia xi au e qu s en 5. Imag rrada e nt co exto. tre a realidade na en as id eb rc pe 6. Diferenças na. jovens. filme trouxe à to o a realidade dos e qu vo no go al 7. Descoberta de melhantes acontecem na sua se s õe 8. Que situaç enciar a comunidade? oas podem influ 9. Como as pess situações? tais zar transformação de ns podem sensibilizar e mobili 10. Como os jove mudar suas atitudes frente às e para ? uma comunidad qualidade de vida a em et om pr m situações que co

Jovens e participação social. Guia de ações

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Depoimento

ANEXO 3

“A gente só diz saúde para desejar que uma pessoa não fique doente, mas saúde é muito mais do que o antônimo de doença. Quando estamos bem com nós mesmos, dando e recebendo carinho, nos sentindo respeitadas; quando nos envolvemos com o bem estar coletivo; quando fazemos coisas simples, mas prazerosas, estamos promovendo a nossa saúde mental, corporal e espiritual. Ser saudável não se resume a praticar esportes e a comer bem. Cuidar de si extrapola o corpo. Acho que levo uma vida saudável: faço coisas que gosto, sorrio, converso, fico bem comigo mesma. E você?”

que ideia e´ essa? ´

Protagonismo juvenil e participação social:

Mariana Manfredi ganhou o concurso Protagonismo Juvenil, promovido pela CAPRICHO. Ela faz parte da ONG Cala-Boca já Morreu. (CAPRICHO, nov.2003)

Jovens e participação social. Guia de ações

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DEPENDÊNCIA

COLABORAÇÃO

AUTONOMIA

Os educadores decidem quais iniciativas devem ser tomadas.

Educadores e jovens debatem e decidem em conjunto assumir ou não uma iniciativa.

A iniciativa da ação parte da decisão dos próprios jovens.

Os educadores planejam as ações sem a participação dos jovens.

Iniciativa

Planejamento

Os educadores Executam - os jovens recebem a ação.

Os educadores avaliam os jovens.

Execução

Avaliação

Os resultados da ação são inteiramente apropriados pelos educadores, que os devolvem aos jovens Apropriação na forma de elogios dos resultados ou queixas.

Os educadores e os jovens planejam juntos a ação.

Os jovens planejam suas ações.

Os educadores e os jovens executam juntos a ação planejada.

Os jovens executam o que foi planejado.

Os educadores e os jovens discutem o quê e como avaliar a ação realizada.

Os próprios jovens avaliam a ação realizada.

Os educadores e os jovens compartilham os resultados da ação desenvolvida.

Os jovens se apropriam dos resultados compreendem o processo que originou o resultado.

Etapas da ação protagônica e relação entre educadores e jovens

ANEXO 4

ETAPAS

que ideia e´ essa? ´

Protagonismo juvenil e participação social:

* Adaptado de: COSTA, A.C.G. Organizando o protagonismo juvenil. Belo Horizonte: Modus Faciendi, s.d.

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Parte III EstratĂŠgias Educativas


Juventudes: iguais e diferentes “...ao privilegiar o foco de nossa atenção sobre os jovens como emblemas dos problemas sociais, muitas vezes não conseguimos enxergá-los e entendê-los propriamente e, como conseqüência, nos livrar de uma postura de desqualificação da sua atuação como sujeitos.” Helena Abramo

Temáticas a serem exploradas Juventudes: pluralidade e singularidade; condição e situação juvenil.

Objetivos Discutir a respeito das definições de juventude recorrentes na sociedade. Refletir sobre a condição juvenil contemporânea. Respeitar e valorizar a diversidade dos jovens e das suas formas de participação

sobre o que seria o jovem ideal e também em estereótipos sobre a juventude, como etapa de transição da infância à idade adulta que tende a afastar-se dos valores e da moral dominantes, ou ainda, que se caracteriza pela alienação e o individualismo. Desse modo, se considerarmos que a juventude é uma condição social e, ao mesmo tempo, um tipo de representação, é preciso também reconhecer que, quase sempre, os modelos positivos se espelham em jovens que não são das classes populares, modelos especialmente difundidos pelos produtos da televisão, o que leva ao reforço de estereótipos. Assim como a televisão, outras mídias e a produção cinematográfica estão entre os canais importantes de significação da condição juvenil. Em vista disso, o diálogo com o cinema e a imprensa escrita, sobre a temática da juventude, se coloca como possibilidade para uma reflexão das representações construídas sobre os jovens ao longo da história e no momento presente.

Jovens e participação social. Guia de ações

Juventudes: iguais e diferentes

Apresentação do tema Compreender o momento da vida que consideramos juventude, em sua complexidade, implica reconhecer que aquilo que denominamos juventude adquiriu sentidos diferentes ao longo da história e, em geral, é uma atribuição de significados que parte do olhar dos adultos. A juventude encerra uma enorme diversidade de variáveis biológicas, psicológicas, sociais, culturais, políticas e ideológicas. Isso significa dizer que não existe “a juventude”, mas muitas juventudes, que expressam situações plurais, diversas e também desiguais na vivência da condição juvenil em uma mesma época. Nas sociedades industriais da atualidade, a juventude é uma palavra que supõe mais do que idade, biologia, cultura, psicologia ou classe social. A pluralidade de circunstâncias de vida dos jovens, entretanto, nem sempre encontra correspondência nas representações que as sociedades elaboram sobre a juventude. É comum que essas estejam ancoradas em idéias

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A imagem que temos das pessoas influencia as relações que construímos com elas. É possível construir uma relação positiva “olhando” o outro através de rótulos? Como é possível a convivência solidária se o outro é percebido negativamente ou em condição de inferioridade? Como as gerações adultas se relacionam com os jovens de hoje, se a juventude aparece tantas vezes como etapa associada à imaturidade, irresponsabilidade e a problemas sociais, como a violência, a drogadição, a sexualidade desregrada?

Proposição 1° Momento Espera-se que a reflexão proposta no segundo momento evidencie que pertencer a um grupo de idade não significa ter que se adequar a um conjunto de coisas que podemos ou não fazer. Às vezes a vida passa a ser graduada somente a partir da idade: idade escolar, idade do trabalho, idade militar, idade da rebeldia. Porém, é importante não pensar na juventude como um momento de preparação para algo que está por vir, alimentando preconceitos e hierarquizações.

Solicite que os jovens escrevam individualmente, em cartões coloridos, uma lista de palavras referentes ao termo “juventude”, uma segunda lista de atributos para a palavra “adulto”, e uma terceira relacionada à “criança”. Exponha, em três painéis, as palavras listadas pelos jovens. Em grande grupo, proponha uma reflexão coletiva, identificando as semelhanças e diferenças nas características listadas para cada momento da vida.

2° Momento Para ampliar a reflexão sobre a rígida divisão em faixas etárias, solicite que os jovens escolham, entre todos os atributos, aqueles que cada um poderia referir a si mesmo no momento atual. Na seqüência, proponha uma reflexão: os atributos escolhidos estão situados em apenas um momento da vida? É aquele de que faço parte? Os adjetivos listados no painel juventude coincidem com as escolhas dos jovens, quando a referência é a experiência viva de cada um? Que atributos são mais próximos do que poderíamos chamar de preconceitos/estereótipos recorrentes quando falamos de jovens?

Itens para reflexão a partir dos dados das entrevistas: 1. As entrevistas revelam saudosismo e glorificam o tempo em que foram jovens? 2. Quais os processos de socialização que revelam? 3. Que aproximações podemos fazer com os jovens que somos hoje? 4. Quais os distanciamentos com os jovens que somos hoje?

Convém, ainda, que os dados colhidos a partir das entrevistas sejam problematizados com os jovens, conforme sugestões ao lado. Outra possibilidade é explorar filmes que retratem diferentes situações de juventude. A produção cinematográfica possui obras memoráveis com conteúdos que contribuem para o entendimento das representações construídas sobre juventudes. O educador proporá aos jovens que assistam um ou dois dos filmes listados adiante, discutindo no grupo as juventudes que são representadas pelo cinema. O anexo 2 sugere um roteiro de registro da análise dos filmes. Em grande grupo, procure comparar os resultados das entrevistas com Jovens e participação social. Guia de ações

Juventudes: iguais e diferentes

3° Momento Sugere-se ampliar as reflexões a partir da realização de entrevistas com pessoas na faixa etária dos 30, 40 e 50 anos, buscando interrogá-las sobre seus tempos de juventude, a fim de identificar as representações de juventude construídas em outros tempos. As perguntas a serem dirigidas aos entrevistados serão elaboradas com a participação ativa dos jovens, abrindo espaço para suas curiosidades e indagações.

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Juventude transviada. (Direção de Nicholas Ray). EUA, Drama, legendado, 110'. Traz a vida de um jovem que busca se colocar numa turma envolvendo-se em muitas brigas. Anos rebeldes. (1992, direção de Denis Carvalho). Minissérie produzida pela Rede Globo de Televisão, escrita por Gilberto Braga, 680'. A trama se desenrola entre 1964 e 1980. É dividida em três períodos, trazendo os tempos das vivências juvenis em grupos, as prisões e torturas e os anos de chumbo, quando o país vive o AI5. O Rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas. (2000, direção de Paulo Caldas; Marcelo Luna). Brasil, documentário, 75'. A história está centrada na vida de dois jovens: Garnizé, músico que, através da cultura, tenta enfrentar a difícil sobrevivência na periferia; Helinho, justiceiro conhecido na comunidade como O Pequeno Príncipe.

Entre outros sites, os jovens poderão visitar a página de um coletivo juvenil que pesquisa a cidadania juvenil, como o Tribujovem www.tribujovem.org.br ou, ainda, a iniciativa Tribos nas trilhas da cidadania, experiência de voluntariado juvenil que se realiza no Rio Grande do Sul.

Solicite aos jovens que anotem as conclusões num quadro comparativo que poderá ser feito em papel pardo.

4° Momento Disponibilize reportagens de jornais e revistas sobre jovens/para jovens, solicitando que, em pequenos grupos, recortem ou anotem palavras que são recorrentes nos textos para caracterizar os jovens (reportagens, propagandas, entrevistas, etc.). Discuta coletivamente. Quais as palavras mais recorrentes? Que aproximações podem ser feitas com a primeira listagem feita no primeiro encontro? Essas palavras reforçam que representações sobre jovens? O que as reportagens permitem dizer sobre a tematização da juventude pela mídia? Se o educador tiver tempo, ou se houver motivação para continuar tratando do assunto, poderá propor a leitura das falas dos jovens, que aparecem no anexo 3 e trazem um pouco da situação juvenil, apontando para a urgência de viver o presente diante de um futuro incerto. Nesse caso, em pequenos grupos, os jovens poderão analisar as semelhanças e diferenças entre as falas e as reportagens.

5° Momento Proponha aos jovens do grupo que, deslocando o ângulo do olhar e da reflexão, busquem identificar ações afirmativas dos jovens na sociedade, nos diferentes âmbitos da vida. Insista para que procurem a presença positiva de jovens, mesmo em espaços onde parecem invisíveis, ou onde aparecem geralmente associados a problemas. Procure destacar valores, práticas, ações em que as redes, solidariedades, envolvimento com o outro e com a sociedade sejam protagonizadas por jovens de diferentes contextos e em diferentes situações. Organize com os jovens um jornal mural de ações afirmativas juvenis, em que estes não apareçam como problema, mas como autores de ações que superam dificuldades de comunidades, inovam, criam novas alternativas de trabalho, cultura, lazer, convivência. Insista para que localizem uma diversidade de jovens que têm atuação em projetos sociais no campo e nas cidades, de diferentes etnias, regiões, religiões, escolaridades, gênero e idades. Sugira que criem o título do mural e chamamentos a outros jovens, com vistas a divulgar seus achados. O jornal mural poderá constituir-se como uma espécie de Mapa de Cidadania Juvenil. Provoque a elaboração de slogans, como por exemplo: Somos e queremos! Podemos reinventar o mundo! Nossas idéias e energias criam alternativas para todos! Uma possibilidade é que, através da comunicação virtual com coletivos juvenis que realizam ações solidárias ou jovens inseridos em projetos sociais, o grupo possa colher depoimentos de jovens engajados e comprometidos com seu entorno. O jornal mural poderia ser transformado em jornal virtual.

6° Momento Proponha um balanço dos encontros, indicando claramente aos jovens a pergunta: o que poderíamos realizar juntos para dar continuidade ao nosso grupo? Para isso, lance, em cartaz ou filipetas, a seguinte afirmação para discussão coletiva:

Jovens e participação social. Guia de ações

Juventudes: iguais e diferentes

Sugestão de filmes

as reflexões feitas a partir dos filmes. Que aproximações e distanciamentos existem entre as representações de juventudes anunciadas pelos entrevistados e apresentadas pelos filmes?

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Há uma diversidade de vivências e formas de participação juvenis, o que torna necessário falar de diferentes juventudes engajadas. Ou seja, é preciso tornar visíveis as diferentes formas e espaços de participação dos jovens. Estão em ongs, associações comunitárias, grupos de arte e cultura, movimentos ambientalistas, grupos de religião, experiências de voluntariado, entre outros. Assim, proponha que os jovens façam um levantamento na escola ou comunidade acerca das diferentes formas de participação juvenil de seu entorno. Poder-se-á, ainda, fundamentar este levantamento com a leitura e discussão do Anexo 4. Incentive o grupo a elaborar um material reunindo os resultados da pesquisa e das reflexões feitas, a ser apresentado a outros coletivos juvenis em escolas, bairro, associações, etc, dispondo-se a realizar reuniões, encontros, confraternizações de integração de jovens, ajudando, com isso, a construir uma definição social do que é “viver a juventude” numa perspectiva afirmativa, de engajamento em ações solidárias e voluntárias. “Os adolescentes e jovens têm fundamentalmente um sentido de vida positivo. A fase juvenil é o momento da capacidade e da oportunidade, um momento fundamental para redirecionar situações de vida que não se podiam modificar no contexto da dependência infantil, um terreno fértil para alcançar o enriquecimento do desenvolvimento.” (Krauskopf, 2005)

Planejando o encontro Você vai precisar: Reportagens de revistas e jornais comentando a situação juvenil Cartões de três cores Papel pardo Você tem que providenciar: TV, vídeo e sala adequada para exibição do filme Não esqueça: Providencie xerox das fichas para estudo dos filmes Combine com o grupo as entrevistas

Tempo sugerido 3 encontros de 4 horas

Referências ABRAMO, Helena Wendel. Considerações sobre a tematização social da juventude. In: Juventude e Contemporaneidade. Revista Brasileira de Educação. São Paulo: Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação, n° 5 especial, maio/jun./jul./ago. 1997 e nº 6, set./out./nov./dez. 1997. CARRANO, Paulo Cesar Rodrigues. Os jovens e a cidade: identidades e práticas culturais em Angra de tantos reis e rainhas. Rio de Janeiro: Relume Dumará/FAPERJ, 2002. IBASE/PÓLIS, Relatório final. Juventude Brasileira e Democracia: participação, esferas e políticas públicas, 2005. PAIS, José Machado. Ganchos, tachos e biscates: Jovens, trabalho e futuro. Porto: Ambar, 2001.

Glossário Condição juvenil: diz respeito à forma como a sociedade representa a juventude. Relaciona-se, principalmente, com os movimentos que tiveram visibilidade nas diferentes épocas. Assim, em 1950 tínhamos a juventude transviada; em 1960, a juventude rebelde; em 1970, a juventude paz e amor e assim por diante. Situação juvenil: são os diferentes percursos dos jovens, os diversos modos como os jovens experimentam a condição juvenil de seu tempo, a partir de variados recortes de gênero, etnia, territorialidade, idade, religião, escolaridade, entre outros.

Anexos

1. Proposta de entrevista 2. Ficha de estudo dos filmes 3. Fragmentos de falas dos jovens 4. Pesquisa Juventude Brasileira e Democracia

Jovens e participação social. Guia de ações

Juventudes: iguais e diferentes

Que tal?

“Mais do que nunca se vislumbra a necessidade de elaborar políticas destinadas ao público juvenil e desenvolver projetos inovadores e ousados que articulem ações de educação, cidadania, cultura e comunicação, que estimulem a formação de lideranças jovens e as comprometam com mudanças de valores e atitudes. Qual a nossa A-T-I-T-U-D-E a partir de agora?” (Tribujovem, Florianópolis, 2005)

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azia no tempo livre? ocê f v e

O que lembra da e

Proposta de entrevista

Oq u

? ude nt sc

a? ol

am os projetos para o trabalho? er

Qua is

ANEXO 1

O que você lembra do seu tempo de juv e

r er? az

Qual a

or dificuldade vivida na sua juventude? mai

Jovens e participação social. Guia de ações

Juventudes: iguais e diferentes

O que você fazia com mais p

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Ficha de estudo dos filmes Juventudes: iguais e diferentes

ANEXO 2

1. Nome do filme: 2. Diretor: to: 3. Ano de lançamen me? 4. Qual o tema do fil ores do filme 5. O que os realizad contam? na do filme e 6. Selecione uma ce a. relacione com o tem cor no filme. 7. Descreva o uso da uiu criar um clima 8. A música conseg para a história? agem você mais se 9. Com qual person identificou? Por quê? s do filme 10. O que os cenário revelam? representado no 11. Como o jovem é filme?

Jovens e participação social. Guia de ações

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que tem de 18 a por todos os jovens, ad us ito mu se fra a Um eu nunca vou ter experiência, se a 25 anos é: “Como eu ano de um m de s geralmente pe trabalhei?” Os anúncio se eu nunca , mo Co ia… de experiênc ses me s sei ia, nc riê pe ex E, por não ter de procurar emprego sei can já Eu i? lhe ba tra os os outros não consigo. Tenho tod experiência em carteira, experiência”, ho aquele “um ano de requisitos, mas não ten do de mais e a gente está precisan entendeu? Eu acho qu az de fazer, o ar o que a gente é cap oportunidade pra mostr tem render. E a gente não que a gente tem para ap só os de 12 a e qu er diz er qu a. Então oportunidade nenhum a 25 não podem ortunidade? Os de 18 16 anos podem ter op andonado. Jovem sentindo um pouco ab mais? A gente está se de 19 anos.

Fragmentos de falas dos jovens

ANEXO 3

Fragmentos de falas de jovens da Região Metropolitana de Porto Alegre

Em Sapucaia, se tu diz assim: eu vou ao teatro. Teatro? Aonde tu vai ao teatro? Não tem. Se tu vem pra Porto Alegre, a sessão é às oito, dez da noite. Como é que tu vai embora? Pra ter essa cultura de teatro, cinema, tu tem que te deslocar de noite, ou de tarde, sozinha. Aí tu não vai, até por uma questão de segurança. O teatro tem que ser levado pra dentro das escolas, das empresas, nas cidades menores. Eu me preocupo muito com a minha cidade. Jovem de 21 anos.

No trabalho tem que diminuir a exigência de experiência, aumentar o número de vagas para os jovens e valorizar a classe operária. (...) eu acho que falta oportunid ade de cursos pros jovens. O governo não dá, e os jovens preci sam de cursos profissionalizantes pra eles já começarem traba lhando. Eles saem do colégio e às vezes não têm um curso, não têm profissão nenhuma e fica difícil conseguir um trabalho. Jovem de 18 anos.

É importante aumentar a segurança, a infra-estrutura dos meios de cultura e lazer, permitindo o acesso de todas as classes sociais. É aquele negócio: a gente acha que não é porque é pobre que tem que vir só aqui na Redenção, ou ir lá no Lami. Eu acho que, pobre ou rico, tu tem que considerar todos os tipos de lugares como lugares de lazer: tu merece um lugar não porque tu é rico, mas porque todos têm a mesma oportunidade de lazer. Acho que existe uma igualdade nos direitos de lazer pra todas as pessoas. Jovem de 20 anos. Jovens e participação social. Guia de ações

Juventudes: iguais e diferentes

quê? Ou vou Ah, o que eu vou fazer na escola? Estudar o acho que tinha ficar em casa, jogado no sofá olhando tevê? Eu porque depois que ter apoio, mais atividades para os jovens, vai influenciar vai influenciar quando eles estiverem maiores, ões, criarem pra eles terem uma faculdade, tomarem decis 17 anos. coisas, conseguirem um trabalho... Jovem de

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“Alguns jovens percebem que é pelo voluntariado que eles podem agir. Especialmente em situações nas quais sentem que fazem algo como resposta objetiva para os outros, como, por exemplo, matar a fome de alguém, mas, em princípio, o fazem pela sua própria consciência, por um sentido de justiça, de fazer bem ao próximo. É como se os jovens se sentissem mais aptos ou com mais condições de atuar nesse campo, está dentro das suas possibilidades reais de participação, reunindo as condições ou os requisitos que eles reconhecem ter”.

Pesquisa Juventude Brasileira e Democracia

“Se, por um lado, o voluntariado representa, na concepção de alguns jovens, um risco de isentar o poder público de suas obrigações, (...) por outro, representa a possibilidade de fazer algo de forma independente do governo: não basta cobrar, é preciso fazer.”

re crítico de alguns jovens sob “Tornou-se evidente o olhar el pap o ta isen não rnativa que o voluntariado como uma alte s o das soluções dos problema açã aliz ion rac do Estado na ope sua a r fize um a cad ressão “se que o jovem enfrenta. A exp e , mas indica também que est nte lme cia par parte” é aceita em jov do a xim pró is ma ilidade caminho pode ser uma possib nte ssa ere int to é mui participar. O voluntariado direto pra fazer o que vai ado ari unt vol porque o ele esquece de cobrar o tem que ser feito, só que )”. que fazer (Porto Alegre que as autoridades têm

“A alternativa da participação em açõe s de voluntariado foi, neste sentido, aquela que pareceu permitir maior capacidade de ação e autonomia para os jovens. Ela seria também uma forma de “não ficar de braços cruzados” e criar constrangimentos para governos a fim de que também tomassem parte na solução dos prob lemas em conjunto com os jovens voluntários. Os jovens dem onstraram perceber que esta alternativa de participação por si só não é capaz de resolver problemas, principalmente os de natureza estrutural, caso não haja envolvimen to governamental”.

Jovens e participação social. Guia de ações

Juventudes: iguais e diferentes

ANEXO 4

Excertos do Relatório da Pesquisa Juventude Brasileira e Democracia: Participação, Esferas e Políticas Públicas

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“O voluntariado estaria ao alcance “real” das possibilidades juvenis de ação; teria a dimensão solidária que se cumpre quando se faz um bem ao próximo e, além de tudo, reforçaria o sentimento de que se está alterando a realidade com as próprias mãos”.

“O trabalho voluntário se apresentou como forma de ação que se projeta nos contextos vividos pelos próprios jovens. Assim, o trabalho solidário e o trabalho comunitário podem ser ditos como os outros nomes do trabalho voluntário; o território da comunidade como palco de engajamentos, solidariedade e possibilidade de reinvenção da política em seu sentido originário de envolvimento ativo com a cidade”.

Pesquisa Juventude Brasileira e Democracia

“É importante ressaltar, que para muitos jovens o voluntariado aparece como possibilidade real de participação “algo que está a meu alcance fazer”; é desejo e também possibilidade concreta de participação, forma de fazer para quem precisa e ao mesmo tempo chamar a atenção do governo; espaço de ação onde “através das pequenas coisas se atinge as grandes coisas”. Em Porto Alegre, por exemplo, a escola foi apontada como porta principal de entrada tanto para o voluntariado quanto para as atividades culturais”.

Fonte: INSTITUTO BRASILEIRO DE ANÁLISES SOCIAIS E ECONÔMICAS; INSTITUTO PÓLIS. Juventude Brasileira e Democracia: participação, esferas e políticas públicas. Rio de Janeiro: Ibase, 2005. 103p. (Relatório de Pesquisa)

¹IBASE - Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas /Rio de Janeiro,RJ; PÓLIS Instituto de Estudos, Formação e Assessoria em Políticas Sociais/São Paulo,SP; ISER Assessoria/ Rio de Janeiro,RJ; Observatório Jovem do Rio de Janeiro/Universidade Federal Fluminense,RJ; Observatório da Juventude da Universidade Federal de Minas Gerais/Belo Horizonte,MG; AÇÃO EDUCATIVA Assessoria, Pesquisa e Informação / São Paulo,SP; UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul/Porto Alegre,RS; INESC Instituto de Estudos Socioeconômicos/ Brasília,DF; CRIA Centro de Referência Integral de Adolescentes/ Salvador,BA; UNIPOP Instituto Universidade Popular/ Belém,PA; EQUIP Escola de Formação Quilombo dos Palmares/Recife,PE; IDRC - International Development Research Centre/Canadá; e CPRN - Canadian Policy Research Networks/Canadá. Jovens e participação social. Guia de ações

Juventudes: iguais e diferentes

Obs.: A pesquisa foi realizada nas cidades de Belém, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Distrito Federal, entre setembro de 2004 e junho de 2005, a partir de uma rede de instituições parceiras¹.

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Juventudes e cidadania na cidade “As cidades se apresentam como territórios privilegiados de ação social da juventude. Os jovens fazem a cada dia uma nova cidade que, em grande medida, é terra estrangeira para aqueles que não compartilham dos mesmos referenciais de identidade e se tornam impotentes para reconhecer a multiplicidade de sinais que emanam de suas múltiplas práticas.” Paulo César Carrano

Temáticas a serem exploradas Cidadania, participação social, protagonismo juvenil, políticas públicas, cooperação social.

Objetivos

DE NTIDA A DE IDE

As cidades são espaços culturais onde circulam diferentes sujeitos sociais, que a transformam em território de pertencimento, disputas, solidariedades, ou mesmo de indiferença. São, também, lugar para o exercício da cidadania e da democracia, quando os sujeitos se envolvem com questões coletivas voltadas para o bem comum, a solidariedade, a cooperação, a convivência com a pluralidade, o respeito às diferenças e a ajuda mútua. Para interferir no futuro de uma cidade, é fundamental que os jovens se percebam parte dela, que se comprometam com o seu desenvolvimento e não fiquem indiferentes aos acontecimentos que envolvem a maioria dos cidadãos. Uma cidade é um espaço social que congrega diferentes segmentos da população. As juventudes que habitam as cidades são educadas pelos espaços públicos, pelas edificações, pelos rituais e práticas

cotidianas, pelas instituições e mensagens que circulam, seja em relação ao consumo, aos modos de ser e agir, aos lugares a serem freqüentados, aos valores, às relações de sociabilidade. Mesmo considerando a diversidade entre os jovens, em razão das diferentes condições e situações que experimentam, a cidade é um espaço de muitas interações, com potencial para reunir diferentes jovens, mesmo os aparentemente mais distantes, em torno de causas que despertem o seu interesse e que estejam relacionadas com as preocupações do presente. Os trajetos de vida dos jovens na cidade são marcados por múltiplas práticas que ressignificam determinados lugares. Ocupando praças, ruas, escolas, postos de gasolina, prédios abandonados, corredores de bares, os shoppings, a céu aberto, os jovens ampliam as redes de trocas e criam uma sociabilidade pública . Reconhecer as cidades como territórios de múltiplas práticas sociais é compreender as relações

Jovens e participação social. Guia de ações

Juventudes e cidadania na cidade

Apresentação do tema

CARTEIR

ASSINATU

da Silva Jorge RA R DO TITULA

AND RIO GR

L E DO SU

AD E DA CID ABALHO , DO TR IFICAÇÃO JUSTIÇA NT ARIA DA TITUTO DE IDE SECRET INS

ANIA

Incentivar ações de protagonismo juvenil e participação solidária. Formar grupos multiplicadores de ações que envolvam outros jovens para uma atuação na cidade. Refletir sobre a relação dos jovens com a cidade.

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pode ser usufruído de diferentes formas, por diferentes grupos, em diferentes momentos de um dia ou uma semana. Isto evidencia que a transformação da realidade passa pela cidadania ativa dos habitantes das cidades. O espaço não é um dado natural, mas uma relação social e cultural.

Viver a cidadania no lugar onde se mora é sinal de liberdade para expressar idéias, participar de decisões, influenciar nas políticas públicas, comprometer-se em agir responsavelmente para construir o presente e o futuro. Como os jovens têm participado das questões ligadas ao meio ambiente, segurança, saúde, trânsito, lazer, direitos humanos, qualidade de vida, educação, valores? A cidade se oferece como contexto aberto a múltiplas possibilidades: não é apenas perigosa ou insegura, mas é também lugar de oportunidades de convívio e diversão, ponto de encontro e espaço de realizações pessoais e coletivas. Na condição de jovens, como podemos contribuir para que a cidade seja um lugar de formas de sociabilidade cooperativas e solidárias?

Proposição SECRETARIA DA JUSTIÇA, DO TRABALHO E DA CIDADANIA INSTITUTO DE IDENTIFICAÇÃO

1° Momento

ASSINATURA DO TITULAR

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Jorge da Silva

RIO GRANDE DO SUL

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Após sensibilizar o grupo para o olhar que produz saberes, proponha aos jovens a confecção de painéis ou clips no power point com as fotos ou imagens que escolheram para representar a cidade. Sugira que criem legendas para as fotos ou imagens, expressando o significado que querem transmitir sobre o que oferecem ao olhar. ASSINATURA DO TITULAR

CARTEIRA DE IDENTIDADE

Jorge da Silva

RIO GRANDE DO SUL

SECRETARIA DA JUSTIÇA, DO TRABALHO E DA CIDADANIA INSTITUTO DE IDENTIFICAÇÃO

Jorge da Silva

Subsidie o grupo com materiais sobre a cidade (mapa da cidade, população, atividades econômicas, IDH, renda per capita, meio ambiente, educação, saúde, transporte, segurança, espaços públicos de cultura e lazer, movimentos populares etc.), de modo que as informações auxiliem a análise das observações e a elaboração das legendas/textos que desejam compartilhar. ASSINATURA DO TITULAR

CARTEIRA DE IDENTIDADE

Sugira recursos virtuais para coletar dados sobre a cidade e comparar o resultado das pesquisas com as informações disponíveis em endereços eletrônicos oficiais.

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Juventudes e cidadania na cidade

ASSINATURA DO TITULAR

CARTEIRA DE IDENTIDADE

Jorge da Silva

RIO GRANDE DO SUL

Sensibilize os jovens para que: a) manifestem como vêem a cidade em que vivem: aspectos positivos, problemas, o que fazem na cidade, medos, desejos; b) observem o cotidiano da cidade, fotografando ou recortando imagens de revistas ou jornais locais sobre as coisas que estão bem e o que precisa melhorar.

RIO GRANDE DO SUL

A ação nasce no momento em que as pessoas estão convivendo. Aqui podemos distinguir entre fazer e agir. Fazse uma cadeira, uma receita de bolo, um texto, enquanto o agir está relacionado com a coletividade humana. Esta distinção entre fazer e agir talvez nos permita concluir que em nossa sociedade aprendemos a fazer muitas coisas, mas a agir pouco. (...) Aqui entra a importância de descobrir vários canais de participação na sociedade, de interagir com os diversos movimentos sociais que compõem a mesma sociedade e de aprender a trabalhar em rede e parceria com os diversos segmentos e grupos que fazem parte da comunidade. Tratase de uma experiência cidadã fundamental: a descoberta de como se estrutura o espaço público, seus mecanismos, seus ritmos e instrumentos. (...) O cidadão é reconhecido como tal no momento em que interage com e nos diversos espaços da sociedade. Porque a sociedade não é espontaneísta, ela passa pela organização.” (Marcelo Rezende Guimarães, 2004)

humanas que nelas permeiam como um processo educativo, entendendo que seus espaços reais não são apenas resultantes de decisões políticas ou técnicas, mas dos diferentes modos como são apropriados ou utilizados por seus habitantes. Um mesmo lugar, como uma praça por exemplo,

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“Cidadania ativa significa participação responsável, para além de toda omissão e indiferença (...)

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2° Momento ASSINATURA DO TITULAR

Jorge da Silva

RIO GRANDE DO SUL

CARTEIRA DE IDENTIDADE CARTEIRA DE IDENTIDADE

Jorge da Silva

RIO GRANDE DO SUL

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ASSINATURA DO TITULAR ASSINATURA DO TITULAR

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Jorge da Silva

RIO GRANDE DO SUL

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Se possível, apresente um vídeo ou documentário sobre a cidade, ou ainda, se houver condições, os jovens poderão filmar ou fotografar uma tarde na cidade. O objetivo é chamar a atenção para o cotidiano na cidade, observar o movimento das pessoas, dos automóveis, dos transportes coletivos. Perceber quem são as pessoas que moram na cidade, como ocupam os espaços públicos, que facilidades ou dificuldades enfrentam, como são depositados ou coletados os resíduos, quais os lugares de encontro, etc.

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A cada etapa do trabalho, proponha a realização de síntese e sistematização dos resultados, de modo que o momento seguinte seja realizado como continuidade e dê subsídios para a ampliação de conhecimentos que auxiliarão as reflexões do grupo.

Também se pode propor aos jovens que: realizem entrevistas com diferentes moradores da cidade, de diferentes idades e inserções profissionais, seguindo o roteiro sugerido no Anexo 2; observem Os jovens e a cidade: quem são os jovens, onde estão, o que fazem ou que usos fazem da cidade, como circulam pela cidade, que dificuldades enfrentam, como participam na vida da cidade. Promova a leitura do texto do Anexo 1 e o debate sugerido ao final.

ASSINATURA DO TITULAR

CARTEIRA DE IDENTIDADE

Jorge da Silva

RIO GRANDE DO SUL

SECRETARIA DA JUSTIÇA, DO TRABALHO E DA CIDADANIA INSTITUTO DE IDENTIFICAÇÃO

Na seqüência, solicite que os jovens relacionem as observações ou entrevistas feitas sobre a cidade e a leitura do texto, dando ênfase às formas de organização e participação.

3° Momento ASSINATURA DO TITULAR

CARTEIRA DE IDENTIDADE

Jorge da Silva

RIO GRANDE DO SUL

SECRETARIA DA JUSTIÇA, DO TRABALHO E DA CIDADANIA INSTITUTO DE IDENTIFICAÇÃO

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Divida os jovens em dois grupos. Distribua para uns o poema “Tecendo a manhã”, de João Cabral de Melo Neto, e para outros a letra da música “Tás a ver?”, de Gabriel, O Pensador. ASSINATURA DO TITULAR

CARTEIRA DE IDENTIDADE

Jorge da Silva

RIO GRANDE DO SUL

Motive para a discussão do conteúdo dos dois textos e a elaboração de uma rede de palavras (retiradas do poema e da música) relacionadas à participação. ASSINATURA DO TITULAR

CARTEIRA DE IDENTIDADE

Jorge da Silva Jorge da Silva

RIO GRANDE DO SUL

SECRETARIA DA JUSTIÇA, DO TRABALHO E DA CIDADANIA INSTITUTO DE IDENTIFICAÇÃO SECRETARIA DA JUSTIÇA, DO TRABALHO E DA CIDADANIA INSTITUTO DE IDENTIFICAÇÃO

Após a discussão, proponha uma reflexão sobre os temas tratados pelos autores e o que foi observado no cotidiano da cidade. ASSINATURA DO TITULAR

CARTEIRA DE IDENTIDADE

RIO GRANDE DO SUL

Solicite que cinco jovens façam a síntese dos temas discutidos e dos conceitos tratados no encontro, expondo-as ao grande grupo.

4° Momento ASSINATURA DO TITULAR

CARTEIRA DE IDENTIDADE

O dossiê poderá ficar em um lugar escolhido pelo grupo (na escola poderão escolher a biblioteca ou mural externo, nas instituições poderá ser a recepção, ou ainda em espaço visível da comunidade, etc). O importante é que fique em lugar de fácil acesso dos jovens. O dossiê poderá conter: textos, desenhos, registro dos debates e resultados das pesquisas; fotografias, músicas, impressões de filmes e vídeos assistidos; reportagens, índices e notícias sobre o cotidiano da cidade e dos jovens; depoimentos, relatórios, resultado de mutirões, campanhas; emoções, conflitos, contratos de convivência; conquistas efetuadas pelo grupo, parcerias, sugestões, posicionamentos. É também importante que contenha o planejamento e a avaliação das ações implementadas pelos jovens após a atividade.

Jovens e participação social. Guia de ações

Juventudes e cidadania na cidade

Elabore, a partir das reflexões construídas, um conjunto de demandas por temas (saúde, trabalho, educação, lazer...) e encaminhe às Secretarias Municipais e aos Conselhos da cidade. Liste com os jovens ações de participação solidária e voluntária que podem empreender diante da cidade e do compromisso de cidadãos.

Jorge da Silva

RIO GRANDE DO SUL

Que tal?

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Indique aos jovens a construção de um dossiê da memória do trabalho que sirva de referência a outros jovens em outros momentos.

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Planejando o encontro Você vai precisar: Revistas e jornais locais, tesoura, cola, cartolina, cordão, papel sulfite, papel pardo; Vídeo e televisão. Você tem que providenciar: Folhas com as entrevistas; Vídeo sobre a cidade; Cópias do poema, letra da música e texto. Não esqueça: De combinar com o grupo as entrevistas.

Tempo sugerido 3 encontros de 4 horas

Referências ABRAMO, Helena; BRANCO, Pedro Paulo (orgs.). Retratos da juventude brasileira: análises de uma pesquisa nacional. São Paulo: Fundação Perseu Abramo/ Instituto de Cidadania, 2005. CHARLOT, Bernard (org.). Os jovens e o saber: perspectivas mundiais. Porto Alegre: Artmed, 2001. CARRANO, Paulo César. Juventudes e cidades educadoras. São Paulo: Vozes, 2003. GUIMARÃES, Marcelo Rezende; PINHEIRO, Leandro. Tribos nas trilhas da cidadania: histórias e guias para o voluntariado juvenil. Porto Alegre: ONG Parceiros Voluntários, 2004. MARTINHO, Cássio. Redes e desenvolvimento local. Brasília: AED, 2001.

Glossário

Responsabilidade social: significa tomar para si o compromisso ético de construção e manutenção de uma sociedade que respeite os direitos de cidadania. Responsabilizar-se socialmente significa trocar a indiferença pelo estranhamento de fatos e situações que comprometem a qualidade de vida e colaboram para a exclusão social.

Anexos 1. Texto complementar para leitura dos jovens 2. Proposta de entrevista 3. Letra de música e poema

Jovens e participação social. Guia de ações

Juventudes e cidadania na cidade

Mutirão: é um auxílio gratuito que prestam uns aos outros os membros de uma determinada comunidade, reunindo-se todos em proveito de um de seus membros ou em benefício de todos, como no caso de pavimentação de ruas, limpeza de rios, colheita, etc.

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Jovens e participação social. Guia de ações

mais do lugar onde vive, que reflita sobre suas atitudes no dia-adia e que se comprometa a cooperar com ações voltadas para o bem comum. Ao conhecer melhor sua cidade, você terá a oportunidade de identificar com quais questões você quer se envolver e propor mudanças, assim como as formas de participação já existentes. Debata com seus colegas sobre as organizações juvenis que existem na cidade e de que forma elas poderiam ser aproveitadas para ampliar o espaço de participação dos jovens da sua turma, escola, bairro, etc.

Texto complementar

Se há uma coisa que não combina com jovens protagonistas é a postura de espectador. E nem poderia! A curiosidade e o desejo de interferir em tudo são práticas da juventude. A cidade é espaço privilegiado para exercício dessas práticas, e oferece oportunidades de parceira em ações que colaborem com a preservação e a transformação social. Mas não é só isso. Para transformar uma cidade, é preciso que cada um de nós também se transforme. O que significa transformar-se? Não é tão complicado como parece, apesar de, às vezes, ser difícil a gente aceitar que precisa mudar a forma de ver, sentir, fazer e se relacionar com as pessoas que estão perto de nós e com os demais cidadãos que moram na nossa cidade. De qualquer forma, para pensar sobre as mudanças que você deseja e descobrir outras que são necessárias, é fundamental que você conheça um pouco

Juventudes e cidadania na cidade

ANEXO 1

Conhecendo a cidade

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Proposta de entrevista

o?

Quais são os pr in

C om

ANEXO 2

Você tem exercitado sua cidadania?

ais problemas enfrentados pelos cidadãos da sua cidade? p i c

Que ações podem colaborar para o aumento da participaçã od

Como a juve Com a ampntud l

Jovens e participação social. Guia de ações

Juventudes e cidadania na cidade

jovens? os e se mobilizar para transformar a sua cidade e colaborar d o e p ção dos direitos de cidadania para todas as pessoas? ia

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Jovens e participação social. Guia de ações

Letra de música e poema Juventudes e cidadania na cidade

ANEXO 3

Tás a ver?

Estás a ver o que eu estou a ver? / Gabriel o Pensador Estás a ver? estás a perceber? / Berna Ceppas estás a ouvir o que eu estou a dizer? / Estás a ouvir? Estás a perceber? / Participação especial: Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho nessa nossa trilha, Adriana Calcanhoto que eu não ando sozinho tenho visto tanta coisa, tanta cena… / mais impactante do que qualquer filme de cinema / e se milhares de filmes não traduzem, nem reproduzem / a amplitude do que eu tenho visto / não vou mentir pra mim mesmo, acreditando / que uma música é capaz de expressar tudo isso / não vou mentir pra mim mesmo, acreditando / mas eu preciso acreditar na comunicação / mas eu preciso acreditar / não há melhor antídoto pra solidão / e é por isso que eu não fico satisfeito / em sentir o que eu sinto, se o que eu sinto fica só no meu peito / por mais que eu seja egoísta / aprendi a dividir as emoções, e os seus efeitos / sei que o mundo é um novelo, uma só corrente / posso vê-lo por seus belos elos transparentes / mudam cores e valores, mas tá tudo junto / por mais que eu saiba, eu ainda pergunto: Tás a ver? A vida como ela é Tás a ver? A vida como tem que ser Tás a ver? A vida como a gente quer Tás a ver? A vida pra gente viver “…Já que a vida é feita de pequenos nadas…” Tás a ver? a linha do horizonte / a levitar, a evitar que o céu se desmonte? / foi seguindo essa linha que notei / que o mar na verdade é uma ponte / atravessei-a e fui a outros litorais / e no começo eu reparei nas diferenças / mas com o tempo eu percebi, e cada vez percebo mais / como as vidas são iguais, muito mais do que se pensa / mudam as caras / mas todas podem ter as mesmas expressões / mudam as línguas, mas todas têm / suas palavras carinhosas e os seus calões / as orações e os deuses também variam / mas o alívio que eles trazem vem do mesmo lugar / mudam os olhos e tudo o que eles olham / mas quando molham, todos olham com o mesmo olhar / seja onde for, uma lágrima de dor / tem apenas um sabor e uma única aparência / a palavra saudade só existe em português / mas nunca faltam nomes se o assunto é ausência / solidão apavora, mas a nova amizade encoraja / e é por isso que a gente viaja / procurando um reencontro, uma descoberta / que compense a nossa mais recente despedida / nosso peito muitas vezes aperta, nossa rota é incerta / mas o que não é incerto na vida? Refrão A vida é feita de pequenos nadas / que a gente saboreia mas não dá valor / um pensamento, uma palavra, uma risada / uma noite enluarada ou um sol a se pôr / um bom dia, um boa tarde, um por favor simpatia é quase amor uma luz acendendo, uma barriga crescendo / uma criança nascendo, obrigado, Senhor / seja lá quem for o Senhor / seja lá quem for a Senhora / a quem quiser me ouvir, e a mim mesmo / preciso dizer tudo o que eu estou dizendo agora / preciso acreditar na comunicação / não há melhor antídoto pra solidão / e é por isso que eu não fico satisfeito / em sentir o que eu sinto, se o que eu sinto fica só no meu peito / por mais que eu seja egoísta / aprendi a dividir minhas derrotas, e minhas conquistas / nada disso me pertence / é tudo temporário no tapete voador do calendário / há que termos forças, pra somar e dividir / enquanto estivermos aqui / se me ouvires cantando, canta comigo / se me vires chorando, sorri.

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Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito que um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos.

Letra de música e poema

Tecendo a manhã João Cabral de Melo Neto

E se encorpando em tela, entre todos, Se erguendo tenda, onde entrem todos, Se entretecendo para todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação. A manhã, toldo de um tecido tão aéreo Que, tecido, se eleva por si: luz balão.

Juventudes e cidadania na cidade

MELO NETO, João Cabral. A educação pela pedra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996, p.35.

Jovens e participação social. Guia de ações

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Humanidade e natureza: compromisso presente e futuro

“- Por favor, o senhor poderia me dizer qual é o caminho para sair daqui? - perguntou Alice. - Isso depende muito do lugar para onde você quer ir. - disse o Gato. - Não me importa muito onde... - disse Alice. - Neste caso, pouco importa o caminho que você tomar - declarou o Gato.” Lewis Carroll .

“Nossa integração plena, que só pode acontecer a partir da real consciência do que somos, é o passo necessário para uma vivência com postura de ética integral. Enquanto tivermos, como seres humanos, a prepotência de nos imaginarmos e nos posicionarmos como superiores a tudo, e entre nós nos avaliarmos e respeitarmos pelas posses e dotes, não será possível obtermos cidadania nem mesmo no restrito espaço próprio que ocupamos;menos ainda na Terra, como planeta, ou no mundo como dimensão relativa. A cidadania requer respeito entre os homens e paz.” Miguel Milano (Diretor da Fundação O Boticário)

Temáticas a serem exploradas Meio ambiente e desenvolvimento sustentável; usos, costumes e padrão de consumo; qualidade de vida; juventudes e participação social.

Objetivos Proporcionar o desenvolvimento da capacidade de perceber problemas. Analisar situações ocorridas no cotidiano. Identificar práticas ambientais sustentáveis a fim de mobilizar jovens à participação.

precedentes na história da humanidade, com a falta de estabilidade das instituições e de credibilidade dos valores éticos transmitidos do passado, os jovens estarão sendo confrontados com um futuro imprevisível, em que as chances de desenvolvimento dependerão, em grande parte, da maior ou menor capacidade que desenvolvam para conviver e protagonizar situações de mudança, seja quanto às relações dos homens entre si, seja quanto às relações da humanidade com o planeta. Este é o grande desafio, no início do século XXI, e terá de ser enfrentado ao mesmo tempo em que os jovens vivenciam os processos psicossociais e culturais próprios dessa fase da vida em busca da autonomia. Para tal, é preciso perceber que

Jovens e participação social. Guia de ações

compromisso presente e futuro

O tema do meio ambiente e da preservação do planeta não se restringe mais aos governantes e movimentos ecologistas. Ele se dissemina como pauta prioritária em diversos âmbitos da sociedade e nos diferentes movimentos sociais. É imperioso que a juventude, de sua parte, participe ativamente em todos os níveis pertinentes dos processos de tomada de decisões, pois as decisões presentes afetam não apenas a vida atual, mas principalmente têm repercussões em seu futuro. Além de sua contribuição intelectual e capacidade de mobilizar apoio e criar alternativas aos modos de vida atuais, os jovens são portadores de energias que devem ser levadas em consideração. Vivendo em condições de insegurança sem

Humanidade e natureza:

Apresentação do tema

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o Universo é algo que os humanos compartilham com outros seres vivos e que a sobrevivência imediata não deve ser sua única preocupação. Mas impõe-se a preocupação sobre a sobrevivência do gênero humano enquanto espécie em relação com as outras formas de vida, compreendendo a necessidade de que as propostas de desenvolvimento econômico e social assumam bases ecológicas - o denominado "desenvolvimento sustentável". Assim, educar para uma gestão ambiental sustentável exige que as aprendizagens resultem na formação de competências para identificar práticas insustentáveis e empreender formas de intervenção para preservar ou difundir práticas que favoreçam a sustentabilidade.

Além do conhecimento, a mudança de atitude, através do cultivo de uma consciência ambiental, têm levado muitos jovens a engajaremse em ações que buscam sensibilizar outros jovens para a “causa” do meio ambiente, que se manifesta através de ações de fiscalização, preservação, conservação e melhoria do entorno social, como mostra o anexo 1. Favorecer a apropriação de uma situação concreta através de estudo e tentativa de resolução de situações-problema, mesmo que hipoteticamente, é um importante meio de realizar a educação ambiental, pois tal atitude proporciona reflexão sobre todas as etapas do problema e indica formas de intervenção na gestão ambiental pessoal e local.

“Quando eu vejo um problema, não quero acreditar que não é possível mudar, por pior que pareça a situação. Eu me sinto muito pequena quando acho que não dá para melhorar alguma coisa, por isso é que a participação, às vezes, é uma coisa micro, pequenininha, mas já é uma semente e, a partir disso, tu consegues construir alguma coisa.” Jovem de 17 anos “A participação está muito ligada à questão da pessoa, do ser humano, que tem o princípio de querer participar de grupos, de se reunir. E o jovem, por isso, começa a participar cada vez mais.” Jovem de 15 anos “A gente corre muito, faz muitas coisas, mas o que mais dá vontade de continuar é saber que, se eu não continuo participando, quem é que vai fazer por mim? Ninguém vai fazer por mim... Então, eu acho que, se ninguém fizer, ninguém vai abrir os olhos. Aos poucos, estou começando a abrir os olhos para cada tipo de pessoa, para novas idéias, novos pensamentos.Começo a ver as coisas totalmente diferentes, por muitos caminhos. (...) Isso eu encontro na participação.” Jovem, 17 anos.

Proposição

Jovens e participação social. Guia de ações

compromisso presente e futuro

Faça um levantamento com os jovens sobre o que já sabem ou ouviram falar a respeito da situação, como obtiveram as informações, se concordam ou não com o que ouviram ou leram, se as informações obtidas

Humanidade e natureza:

1° Momento - Identificação do fato Apresente uma situação-problema que faça parte do contexto dos jovens envolvidos ou que afete a vida das pessoas em razão de sua abrangência ou interesse da coletividade. A apresentação pode ser feita através de fotografias sobre a situação, excertos de depoimentos, ou mesmo de uma descrição breve registrada em papel pardo e disposta no centro de um círculo de conversa com os jovens, de modo a suscitar suas falas.

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são confiáveis ou meramente opinativas e se são suficientes para compreender o problema. Colha sugestões sobre formas de o grupo reunir mais dados a respeito do que foi apresentado e discuta alternativas de organização para uma pesquisa (ver o 3° momento). Disponibilize material informativo - jornais, revistas, internet - que aborde os fatos envolvidos na situação-problema, com vistas a favorecer a contextualização, ou seja, ampliando os conhecimentos prévios que os jovens socializaram. Explore as imagens que acompanham as reportagens, possibilitando que os jovens questionem a compreensão inicial que tinham do problema. Identifique, com o grupo, informes que apresentem diferentes pontos de vista sobre o fato. Discuta esses diferentes pontos de vista com os jovens, propondo novas indagações para o maior detalhamento possível (ver anexo 2).

2° Momento - Princípio educativo da análise do problema Assim como no primeiro momento, conduza as ações a partir de diálogo com os jovens. Sempre que for necessário, subdivida-os em pequenos grupos para que todos possam participar ativamente e construam um repertório a respeito das questões em discussão. Delimite problemas que o fato traz à tona. Analise coletivamente a situação: Quais são os problemas que causaram o fato? Qual a relevância do assunto para a população de outros lugares? A sociedade brasileira deve posicionar-se a respeito do problema, mesmo que ele não atinja a todos com a mesma intensidade? Que espaços podem ser utilizados para debater a respeito do assunto? Problemas semelhantes já ocorreram ou estão ocorrendo no meio onde você vive?

4° Momento - Princípio educativo da definição de procedimentos Inicie este momento oferecendo espaço para que os jovens socializem a coleta de informações que realizaram. Auxilie-os a socializarem com clareza, elaborando registros compreensíveis aos demais jovens Jovens e participação social. Guia de ações

compromisso presente e futuro

Disponibilize material variado, indique sites de pesquisa, sugira entrevista com pessoas-fonte e possibilite diálogo entre os jovens a respeito do assunto investigado.

Humanidade e natureza:

3° Momento - Princípio educativo da busca de informações Para organizar a busca de informações, proponha que os jovens, em grupos, investiguem em três focos: relativo ao fato: Por que começou? Que atores sociais formam envolvidos? Que fato irreversível já causou? Que ações foram tomadas para impedir a continuidade do problema? Que danos ou riscos pode causar ao meio físico-natural e à qualidade de vida dos grupos sociais envolvidos? relativo ao modo de vida das pessoas afetadas: Como vivem? Do que vivem? De que modo os problemas comprometem sua qualidade de vida nos aspectos econômicos, de saúde, de lazer, de renda etc? Qual é o seu envolvimento com a defesa do meio ambiente? Como se organizam para enfrentar as ameaças à sustentabilidade? relativo à gestão do uso dos recursos ambientais: Que decisões podem afetar os meios físico-natural e social e por quem devem ser tomadas? A quem os prejuízos afetam diretamente?

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(cartazes, resumos, colagens, etc.). Organize a seqüência das apresentações de modo que todos os subgrupos sejam igualmente contemplados em tempo e atenção. Sugira uma avaliação oral coletiva do que consideram positivo na experiência de pesquisa e o que acharam das apresentações (clareza, qualidade das intervenções, materiais utilizados, informações obtidas). Como síntese das apresentações, proponha a discussão das seguintes questões: Que procedimentos a população pode exigir do poder público e dos responsáveis diretos pela ocorrência de impactos ambientais? Como os jovens podem participar para prevenir problemas ambientais? Que atividades podem ser executadas para manter toda a população alerta quanto às práticas que comprometem a sustentabilidade? Que outros atores sociais devem ser envolvidos para ampliar e manter a discussão e a fiscalização de propostas e ações que causam destruição ambiental? Que instituições podem ser acionadas para identificar e monitorar usos e costumes que degradam o meio ambiente? De que modo a juventude pode apoiar leis, regulamentos e políticas favoráveis ao meio ambiente? Sugira a elaboração de um painel ou documento-síntese das idéias e a indicação de procedimentos adequados e possíveis de serem realizados pelos atores envolvidos.

5° Momento - Ação dos jovens pela sustentabilidade

Planejando o encontro Você vai precisar: Jornais e revistas que tratem de impactos ambientais ou sociais; pequenos textos (entrevistas, artigos, opiniões, relatórios, músicas, poemas) sobre desenvolvimento sustentável, consumo responsável, meio ambiente, biodiversidade, agroecologia, segurança alimentar. Você tem que providenciar: Material que contextualize o local onde ocorreu o fato (vídeo, Jovens e participação social. Guia de ações

compromisso presente e futuro

Desafie os jovens a organizarem formas de participação em sua comunidade que tenham como objetivo incrementar a participação juvenil em torno de problemas relacionados à sustentabilidade ambiental ou social de forma mais duradoura. Nesse caso, busque instituições que já atuam dessa forma, ou motive-os a elaborar um plano para ação em longo prazo.

Humanidade e natureza:

QUE TAL?

Com o intuito de exercitar um procedimento de contextualização e problematização para a tomada de decisões a respeito da sustentabilidade, proponha um novo exercício de aplicação do que aprenderam. Solicite que, em seu espaço próximo, identifiquem uma situação-problema, analisando-a, buscando informações sobre ela e definindo procedimentos em que eles sejam protagonistas (ver anexo 3). Insista que, para isso, cada jovem poderá convidar outros colegas ou amigos, de modo a constituir mais alguns grupos a serem coordenados pelos próprios jovens. Conforme os temas escolhidos, os jovens poderão executar ações em diferentes âmbitos da sustentabilidade ambiental ou social. Será interessante prever uma espécie de encontro de todos os jovens envolvidos para troca de experiências a respeito das novas pesquisas realizadas e integração entre todos. Sugira que organizem o encontro planejando necessidades, preparando o espaço a ser usado e dinâmicas de integração, escolhendo músicas, providenciando um lanche coletivo. Lembre-os de se organizarem para o registro do encontro (texto escrito, fotos, filmagem, etc.).

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mapas, fotografias, reportagens, índices, etc.), modo de vida, manifestações culturais, atividades econômicas, etc. Não esqueça: De selecionar situação-problema atual que se relacione com o contexto em que vivem os jovens.

Tempo sugerido 3 encontros de 4 horas, além do tempo para as pesquisas

Referências CARROLL, Lewis. Alice no país das maravilhas. São Paulo: Ática, 2006. LEITE, Ana Lúcia; MININNI-MEDINA, Nana. Educação ambiental: curso básico a distância. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, 2000. v.1. NUNES, Denise. Temas transversais : educação ambiental. Florianópolis: SENAI Diário Catarinense. 2000. v.6 OLIVEIRA, Elísio Márcio. Educação para um futuro sustentável: uma visão transdisciplinar para ações compartilhadas. Brasília: UNESCO/IBAMA, 1999. MENDONÇA, Viviane Caixeta e outros. Professor, você é vizinho de um parque nacional: semeando ações em educação ambiental. Divino de São Lourenço: Semente Editorial, 2005.

1- Texto complementar 2- Orientações adicionais 3- Estudo de situação-problema - modelo exemplificativo 4- Texto complementar Jovens e participação social. Guia de ações

compromisso presente e futuro

Anexos

Humanidade e natureza:

Glossário Desenvolvimento sustentável: é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de gerações futuras atenderem suas próprias necessidades. Contém dois conceitos-chave: o conceito de “necessidades” e a noção das “limitações” que o estágio da tecnologia e da organização social impõe ao meio ambiente, impedindo-o de contemplar as necessidades presentes e futuras. O desenvolvimento sustentável visa a promover a harmonia entre os seres humanos e entre a humanidade e a natureza. Tal conceito não diz respeito apenas ao impacto da atividade econômica sobre o meio ambiente. Desenvolvimento sustentável se refere principalmente às conseqüências dessa relação na qualidade de vida e no bem-estar da sociedade, tanto presente quanto futura. Atividade econômica, meio ambiente e bem-estar da sociedade formam o tripé básico no qual se apóia a idéia de desenvolvimento sustentável. É preciso frisar a imprescindível participação de movimentos sociais na busca por melhores condições de vida associadas à preservação do meio ambiente e a uma condução da economia adequada a tais exigências. Racionalidade ambiental: é o efeito de diversos interesses e práticas sociais que articulam ordens de natureza diversa, dão sentido e organizam processos sociais por intermédio de regras, meios e fins socialmente construídos. A nova racionalidade ambiental introduz aspectos relacionados à ecologia e questiona os custos sócioambientais derivados de uma racionalidade exclusivamente produtiva.

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4

Adaptado de: NUNES, Denise e FILIPOUSKI, Ana Mariza. Protagonismo juvenil e educação para a cidadania. Brasília: SEBRAE, 2004.

4

Jovens e participação social. Guia de ações

Texto complementar

modificação de padrões de consumo, reflexão sobre usos e costumes entre os jovens, é bom lembrar que “um consumo sustentável não significa necessariamente consumir menos. Significa modificar as modalidades de consumo insustentável, permitindo aos consumidores um alto nível qualitativo de vida, mediante um consumo diferente.” Paralelamente a isso, é preciso considerar que a educação ambiental é o fator que poderá questionar as escolhas pessoais e, ao mesmo tempo, buscar superar práticas sociais que comprometem a sustentabilidade, por meio da ação coletiva e organizada.

compromisso presente e futuro

perceber o entorno como resultado dessa produção e adotar atitudes preventivas, de modo que as práticas de hoje não inviabilizem o futuro. Usos e costumes podem ser alterados mas, para que isso aconteça, é importante um processo educativo que respeite algumas etapas, como: - sensibilização para a percepção do espaço local; - construção de conhecimentos sobre o meio ambiente; - ação problematizadora do entorno ambiental; - compreensão dos valores que regem a prática ambiental local; -delimitação dos fatores que interferem nos costumes relativos ao consumo; - proposição de mudança coletiva de hábitos. Ao se tratar de educação ambiental,

Humanidade e natureza:

ANEXO 1

A eficácia da educação para o desenvolvimento sustentável deve ser medida pelo grau de modificação das atitudes e do comportamento das pessoas, tanto no que se refere ao seu papel individual, como produtores e consumidores, quanto no que diz respeito ao cumprimento de suas obrigações e deveres coletivos, na qualidade de cidadãos. A determinação de mudar o estilo de vida ou a modalidade de consumo próprio é essencial, porém não é suficiente para provocar mudança da sociedade. Os atos individuais de cada cidadão, por mais responsável e prospectivo que ele seja, são inadequados se o comportamento e o estilo de vida pessoal supõem desperdício ou são destrutivos. O estilo de vida e o tipo de consumo são aprendidos em diferentes espaços de convivência (família, escola, sociedade) e estão relacionados com o modelo de desenvolvimento. Para modificá-los é necessário

Padrões de consumo : usos e costumes

Relatório da UNESCO, 1999.

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Para tanto, oriente-os para o desenvolvimento das diferentes etapas de um projeto, investindo em aprendizagens que cumpram diferentes etapas e mobilizem para a ação, de modo a tornarem-se competentes para: 1- Escolher um fato atual para desenvolver o estudo da situaçãoproblema. 2- Analisar se a abrangência e a urgência social do fato justificam o estudo. 3- Contextualizar o lugar onde ocorreu o fato. 4- Pesquisar fatos semelhantes já ocorridos no local e a forma como os problemas causados foram resolvidos. 5- Apontar os atores envolvidos na identificação, estudo do problema, aprovação ou veto e analisar seus posicionamentos. 6- Problematizar a participação da juventude em causas que comprometem a sustentabilidade e promover reflexão sobre a preocupação, envolvimento e estratégias utilizadas para reconhecer, manifestar-se e planejar reação frente a práticas e decisões governamentais que desconsideram a vontade da população. 7- Investigar que atores sociais

Orientações para o educador

8- Questionar se os jovens conhecem impactos ambientais ocorridos na sua região e se sabem a razão, se existem unidades de conservação ou áreas de preservação ambiental e quais são os órgãos responsáveis por sua gestão. Averiguar se têm notícias de conflitos locais ligados à forma de ocupação do espaço urbano, instalação de indústrias, localização de postos de gasolina, restaurantes que depositam resíduos no rio, coleta de lixo hospitalar e da reação da população. 9- Subsidiar a atividade com notícias sobre conflitos em que a consciência do dano ou risco ambiental fez com que atores sociais agissem em conjunto para interromper ou eliminar práticas e decisões que eram ameaças à qualidade de vida e à sustentabilidade. 10- Relacionar a gestão ambiental com o padrão de consumo estimulado pelo modelo econômico globalizado e as escolhas da juventude, segmento de mercado assediado através da mídia, por se envolver prioritariamente com a plenitude do presente. 11- Incentivar os jovens a ocupar os espaços de participação já existentes na escola, nas comunidades, em movimentos socioculturais da cidade e a criar novos espaços, adequados à implementação de seus projetos de futuro ou à vivência de ações comprometidas com uma causa, de modo que percebam a importância de suas decisões para o exercício da cidadania. 12- Considerar que a participação autônoma resulta da superação de outras etapas da escala participativa e habilita os jovens para decidirem onde e de que forma querem intervir para modificar uma realidade.

Jovens e participação social. Guia de ações

compromisso presente e futuro

É dos educadores a responsabilidade de alertar os jovens quanto às condições que deverão estar presentes nas ações planejadas para que elas causem algum impacto, fato que não ocorre através de campanhas ou ações pontuais, por serem passageiras.

envolvidos com questões ambientais são conhecidos pelos jovens e sugerir outros, das esferas estatal e não estatal, que atuam nos municípios, estados e em nível nacional.

Humanidade e natureza:

ANEXO 2

Ao final de um projeto, é importante que os jovens tenham construído competências para serem atores da mudança social. Por isso, importa que sejam capazes de se responsabilizar, como cidadãos, pelo destino do meio ambiente, do qual fazem parte todas as pessoas e do qual depende o futuro da humanidade.

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Pesquisa Agropecuária (Embrapa) afirmaram em documento que "os riscos de explosão, contaminação com substâncias químicas, conforto térmico e sonoro ocorrerão em área residencial pertencente à área de influência direta [da usina]". Quanto a outro empreendimento, o do pólo gás-químico, Sônia Hess, pósdoutora em química e pesquisadora da UFMS, aponta que haverá riscos de vazamentos de insumos para os rios e poluição atmosférica. Outra obra prioritária para o governador é o pólo minero-siderúrgico, que tem a participação do grupo Rio Tinto, que extrai minério de ferro em Corumbá. Em setembro, o governador cobrou e obteve do grupo o compromisso com a instalação do pólo. Nesse empreendimento, a pesquisadora Hess disse que, além da poluição atmosférica, outro impacto seria um possível aumento de desmatamento, caso seja usado carvão vegetal no processo de purificação do minério de ferro. Na opinião de Mônica Harris, da ONG Conservação Internacional, as atuais áreas de reflorestamento não conseguiriam atender à demanda de madeira para ser transformada em carvão. O escoamento da produção nos pólos (gás-químico e minero-siderúrgico) seria feito pela hidrovia Paraguai-Paraná, o quarto empreendimento no Pantanal apoiado pelo governo. O secretário-executivo da coalizão de ONGs Rios Vivos, Alcides Faria, explicou que essas obras (retirada de rochas, de curvas e o aprofundamento de trechos do leito do rio Paraguai) vão acelerar a vazão do rio. Para o ambientalista, isso pode alterar os ciclos de cheia e de seca na planície alagável. "O Pantanal, com as características atuais, poderá desaparecer", disse.

OUTRO LADO “Não quero ser troglodita", diz governador “Claro que eu não quero causar prejuízo ao Pantanal. Sou pantaneiro. Agora, eu não quero ser retrógrado. Não quero ser homem da pedra. Não quero ser troglodita", disse o governador Zeca do PT sobre as críticas de ambientalistas à industrialização em Corumbá (MS). "Acho que isso é importante para o crescimento, geração de emprego e Jovens e participação social. Guia de ações

Estudo de situação-problema - modelo exemplificativo

Há uma semana, o ambientalista Francisco Anselmo Gomes de Barros, 65, o Franselmo, morreu após atear fogo ao próprio corpo, durante protesto em Campo Grande contra a instalação de usinas de álcool no entorno do Pantanal. Quatro projetos industriais dentro da planície do Pantanal, em Mato Grosso do Sul, degradarão o ambiente se forem implantados, afirmam ambientalistas e pesquisadores. O governador José Orcírio dos Santos, o Zeca do PT, é o principal articulador dos empreendimentos, mas nega os danos. Ele afirmou que essas usinas ficarão fora do Pantanal. As quatro propostas que atingem a planície são para instalação de um pólo para processar minério de ferro, um pólo para retirar fertilizantes e gás de cozinha do gás natural boliviano, uma usina termelétrica e uma hidrovia. Em relatório concluído em agosto passado, o Ministério Público Federal apontou problemas no EIA (Estudo de Impacto Ambiental) da usina termelétrica. Uma das conclusões do relatório diz que houve "prevalência dos aspectos econômicos sobre os ambientais n a a n á l i s e d a s a l t e r n a t iva s d e localização". Outra crítica está no fato de o EIA não identificar os impactos do lançamento na atmosfera de substâncias tóxicas. Apesar do relatório desfavorável, em setembro o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) deu licença prévia para a instalação da usina. Um mês depois, em outubro, foram concedidos incentivos fiscais ao grupo escolhido para construir a termelétrica. Além do parecer contrário do Ministério Público, integrantes da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e da Empresa Brasileira de

compromisso presente e futuro

Quatro projetos ameaçam planície do Pantanal

Humanidade e natureza:

ANEXO 3

1. O fato - Ativista ateou fogo ao corpo em protesto contra outra proposta do governo do MS, de ter usinas de álcool

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FOLHA DE S.PAULO, 20/11/2005

PANTANAL Para ministra, acaba polêmica sobre usinas A ministra Marina Silva (Meio Ambiente) disse ontem, em Foz do Iguaçu (PR), considerar "praticamente resolvida" a polêmica em torno da instalação de usinas para processar cana-de-açúcar nas imediações do Pantanal sul-mato-grossense. Anteontem, o projeto do governador Zeca do PT (MS) que abriria espaço às usinas foi considerado inconstitucional pela Comissão de Justiça da Assembléia do Estado. Ela disse que "já esperava" esse parecer. Em protesto contra o projeto, o ambientalista Francisco Gomes de Barros se matou ao atear fogo no corpo. FOLHA DE S.PAULO, 24/11/2005

Contextualização Contextualizar tem a finalidade de favorecer o processo de conhecimento da realidade e situar os jovens quanto à localização, características do meio físico-natural e construído, valores, regras, costumes, relações de poder, capital social, atividades econômicas, manejo ambiental, movimentos sociais. Esse conhecimento auxilia na análise dos fatos e permite identificar melhor os problemas, pois dá aos jovens condição de visualizarem concretamente os resultados da ação humana no meio ambiente e, ao mesmo tempo, perceberem que somente através de outras ações humanas será possível alterar a forma como a sociedade se relaciona e usufrui dos recursos ambientais.

Estudo de situação-problema - modelo exemplificativo

“Claro que eu não quero causar prejuízo ao Pantanal. Sou pantaneiro. Agora, eu não quero ser retrógrado. Não quero ser homem da pedra. Não quero ser troglodita", disse o governador Zeca do PT sobre as críticas de ambientalistas à industrialização em Corumbá (MS). "Acho que isso é importante para o crescimento, geração de emprego e modernização do meu Estado”. O governador declarou que atualmente há mecanismos para "coibir, evitar e diminuir" impactos ambientais. E que

3. Princípio educativo da busca de informações O conhecimento prévio a respeito dos problemas a serem enfrentados auxilia as pessoas a ficarem em estado de alerta quanto às ocorrências relativas ao ambiente onde vivem. As ações preventivas implementadas por uma comunidade mobilizada podem evitar situações irreversíveis, pois Jovens e participação social. Guia de ações

compromisso presente e futuro

A decisão de modificar atitudes, após perceber os problemas, analisar situações ambientais, políticas ou sociais e posicionar-se frente às situações não é suficiente para que as mudanças ocorram. Quais são os problemas que causaram o fato? Por que envolveram tantas instituições (órgãos governamentais, universidades, ONGs), mídia, ambientalistas e autoridades? Qual a relevância do assunto para a população de outros lugares? A sociedade brasileira deve posicionar-se a respeito dos quatro projetos, mesmo que não se refiram ao seu estado? Que espaços podem ser utilizados para debater a respeito do assunto? Problemas semelhantes já ocorreram ou estão ocorrendo no meio onde você vive?

Humanidade e natureza:

2. O problema - Princípio educativo da análise do problema

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4. Princípio educativo da definição de procedimentos

compromisso presente e futuro

Humanidade e natureza:

A organização social e o planejamento para o enfrentamento de situações-problema que exigem posicionamento imediato e integrado com outras instituições, evita a concretização de projetos que comprometem a sustentabilidade e o futuro da humanidade. Que procedimentos a população poderia exigir do poder público e dos responsáveis diretos pela ocorrência de impactos ambientais? Como a juventude pode participar para impedir problemas ambientais preventivamente? Que atividades podem ser executadas para manter toda a população alerta quanto à realização de projetos que comprometem a sustentabilidade? Que outros atores sociais devem ser envolvidos para ampliar e manter a discussão e a fiscalização de propostas e ações que causam destruição ambiental? Que instituições podem ser acionadas para identificar e monitorar usos e costumes que degradam o meio ambiente? De que modo a juventude pode apoiar leis, regulamentos e políticas favoráveis ao meio ambiente?

Estudo de situação-problema - modelo exemplificativo

a organização empodera as pessoas e subsidia suas tentativas de solução. Relativo ao fato: Por que começou? Que atores formam envolvidos? Que fato irreversível já causou? Que ações foram tomadas para impedir a continuidade do problema? Que danos ou riscos os projetos propostos poderiam causar ao meio físico-natural e à qualidade de vida dos grupos sociais envolvidos? Relativo ao modo de vida das pessoas que poderiam ter sido afetadas: Como vivem? Do que vivem? De que modo os problemas comprometeriam sua qualidade de vida nos aspectos econômicos, de saúde, de lazer, de renda etc? Qual é o seu envolvimento com a defesa do meio ambiente? Como se organizam para enfrentar as ameaças à sustentabilidade? Relativo à gestão do uso dos recursos ambientais: Que decisões afetariam os meios físico-natural e social e por quem foram tomadas? Quem seria beneficiado com os quatro projetos? A quem os prejuízos que poderiam ser causados pela aprovação dos projetos afetariam diretamente?

Jovens e participação social. Guia de ações

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Jovens e participação social. Guia de ações

Texto complementar compromisso presente e futuro

A educação não-formal é, em geral, aquele processo que se destina à comunidade como um todo. Contemplando desde aquela parte da população cuja faixa etária obrigaria estar no processo formal de educação, até a outra parte que não está envolvida. Em geral, são atividades educacionais que estão voltadas mais para tecnologias, como por exemplo: a digitação eletrônica, pintura em cerâmica, aula de violão, hortas em pequenos espaços, entre outros. É evidente, que há também espaço para atividades que envolvam capacidades de reflexão, de elevação espiritual etc. O formato de cursos é o preferencial e são desenvolvidos por instituições como associações de bairros, comerciais, industriais, ONGs e até por instituições públicas de ensino, como os cursos de extensão universitária. A educação ambiental foi logo sendo apropriada por esses grupos. Primeiro, porque a idéia de envolvimento com a natureza, apresenta um lado místico muito popular; segundo, porque muitas das atividades poderiam ser desenvolvidas pela comunidade, o que resultaria numa melhor qualidade de vida para o grupo envolvido. Desta forma, estão as propostas de coleta seletiva de lixo e as propostas de compostagem com os restos da elaboração de alimentos. O espaço ocupado pela educação não-formal, com suas características próprias, é um excelente ambiente para o desenvolvimento da racionalidade ambiental. Muitas empresas, logo perceberam este viés e procuraram orientar uma ordenação de pensamento, que viria a facilitar a venda de sua imagem, mesmo quando as empresas não estivessem relacionadas diretamente com o meio ambiente. Assim, principalmente a partir dos anos 90, surge o conceito de redução de custos empresariais pela diminuição do gasto dos recursos naturais, pela aplicação do slogan “5 menos que são 5 mais”, onde são propostas cinco atitudes: - economia de energia; - combate ao desperdício de matérias-primas; - economia de água; - redução da poluição do ar (de partículas ou de som); - coleta seletiva e reciclagem de lixo. É importante lembrar, que estas propostas de atitudes valem tanto para o uso doméstico, do lar, quanto para o uso industrial, pois um dos segredos do sucesso deste “slogan” é que para cada uma das atitudes, há a necessidade de desenvolver ações simples, que com o passar do tempo, isolada ou conjuntamente, devem se transformar em hábitos. A educação ambiental não-formal apresenta diversas modalidades, como, por exemplo, a Educação para a Gestão Ambiental dos Recursos, que tem desempenhado um papel importante na sensibilização de parte da sociedade brasileira e gerando o seu envolvimento com as questões ambientais. É postulada como um dos âmbitos específicos de ação da EA, desde os primeiros documentos nacionais e internacionais, nos quais sempre destaca-se a importância da participação da

Humanidade e natureza:

ANEXO 4

A educação ambiental não-formal

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Jovens e participação social. Guia de ações

Texto complementar compromisso presente e futuro

MACHADO DA ROSA, Antônio Carlos. As grandes linhas e orientações metodológicas da educação ambiental. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, 2000. P. 17-32.

Humanidade e natureza:

comunidade na tomada de decisões políticas ou econômicas que mexem com sua vida. Na Agenda 21, coloca-se de forma explícita a importância da EA comunitária. A educação informal é aquela que é transmitida por veículos de comunicação e que, embora sejam coletivos, agem em cada um dos indivíduos de uma forma muito particular. É um processo que não está em formato de curso, mas pode, dentro de um conjunto de apresentações distintas (tipo propaganda de detergente de louça na TV ou rádio) induzir à assimilação de comportamentos ou atitudes. As formas de transmissão usuais podem ser: o rádio, a televisão, o jornal, os cartazes, os out-doors, portas de automóveis, laterais de ônibus etc. A educação ambiental tem como se utilizar deste processo, obviamente desenvolvendo um senso crítico sobre as matérias veiculadas pela mídia em geral. É, acima de tudo, uma forma que valoriza as falas e, às vezes, inclusive de faixas etárias restritas como a linguagem entre os jovens. É uma forma que valoriza o saber popular, o que, de certa maneira, vem a facilitar a construção de um saber ambiental. O conjunto desses formatos educacionais tem em comum o fato que a aprendizagem de qualquer conceito ou informação, dar-se-á quando forem atingidos os três domínios básicos, ou esferas do processo educacional: cognitivo, afetivo e técnico. Assim, satisfeitos estes domínios, há a possibilidade da construção de uma educação dirigida para a solução de problemas concretos locais, regionais, estaduais, nacionais e globais. E, logicamente, se esse conjunto de informações visa a construção de uma nova racionalidade ambiental e de um saber ambiental integrado, será dado um grande passo para a construção da cidadania.

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Políticas Públicas de Juventude: projetos de diálogo “Éramos inocentes, acreditávamos em quase tudo que nos diziam. Foi se tornando cada vez mais impossível e desnecessário aceitar os valores que nos impõem. Esse tempo passou: as coisas mudaram, novas percepções se tornaram consciência. Hoje enfrentamos o conservador, vivemos e criamos o novo. Sonhamos com liberdade, vivemos intensamente a juventude!” Fanzine da ONG Atitude, 2005

Temáticas a serem exploradas Políticas públicas de juventude, situação juvenil contemporânea, poder local, concepções de juventude.

Objetivos Fortalecer e legitimar os jovens como atores sociais. Tornar públicas suas demandas, ocupando lugar de sujeito no espaço social.

“A questão dos jovens e da necessidade de implementar políticas sociais específicas dirigidas ao setor foi ganhando terreno na consideração pública nos últimos 15 anos. A maior presença da questão juvenil na agenda pública está relacionada, em primeiro lugar, com a visibilidade que os jovens ganharam nos processos de democratização ocorridos na América Latina no final da década de 1980. (...)pode-se adicionar a designação do ano de 1985, por parte das Nações Unidas, como o Ano Internacional da Juventude, fazendo com que o tema aumentasse de importância para os organismos internacionais e os Estados nacionais.” (Julio Bango, 2003)

taxas de desocupação são encontradas no segmento juvenil. Representam 62,2% no montante global dos que perderam emprego assalariado. 20,4% do total de jovens com idade entre 15 e 24 anos, no conjunto das nove regiões metropolitanas do Brasil, não estudam e não trabalham. Isto totaliza mais de 11 milhões de jovens; é uma parcela a quem teria sido negada a própria identidade juvenil. Diante desse contexto, é imprescindível a construção de políticas com a juventude que ampliem as possibilidades de construir projetos de vida. Castro e Abramovay (2002) identificam que a preocupação do Estado com a elaboração de políticas públicas para os jovens não é recente. Porém, até os anos 80, elas buscavam adequar o comportamento dos jovens a um estado de normalidade, ou seja, estavam preocupadas com o “saneamento social” dos indesejáveis. A criação do Serviço de Atendimento ao Menor (SAM), em

Jovens e participação social. Guia de ações

Políticas Públicas de Juventude: projetos de diálogo

Apresentação do tema Considerando dados do IBGE, Censo Demográfico de 2000, Censo Escolar e UNESCO, é possível dizer que hoje, no Brasil, os jovens são 34,1 milhões entre 15 e 24 anos ( entre 19% e 21% da população total); 80% vivem em áreas urbanas; 40% vivem em famílias em situação de pobreza extrema (famílias sem rendimentos ou com até ½ salário mínimo per capita). Segundo o mesmo Censo, a taxa de escolarização de jovens de 15 a 17 anos passou de 55,3% para 78,8%, o que significa que os jovens têm mais acesso à escola e nela permanecem por mais tempo. Por outro lado, o mesmo Censo revelou que, entre 15 e 17 anos, mais da metade dos jovens que estudam (52,6%) estão matriculados no Ensino Fundamental, destinado a crianças de 7 a 14 anos. A cada 100 alunos que ingressam na escola, apenas 40 conseguem diploma do Ensino Médio. Quanto ao desemprego, as estatísticas mostram que as piores

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1941, é ilustrativa da atuação do Estado brasileiro com a idéia de tutela. No governo Fernando Henrique Cardoso, saúde, segurança pública, trabalho e emprego dão materialidade imediata para a formulação de políticas de juventude. Isso se expressa, por exemplo, na criação de programas esportivos, culturais e de trabalho orientados para o controle social do tempo livre dos jovens, destinados especialmente aos moradores dos bairros periféricos das grandes cidades brasileiras. Os períodos do governo FHC trazem diferentes programas sociais destinados aos mais jovens (no primeiro mandato -1995/1998 foram criados seis programas e, entre 1999 e 2002, 18 programas). Entretanto, para os maiores de 18 anos, que não mais estão sob a proteção do Estatuto da Criança e do Adolescente, inexistem ações. Os programas apresentaram ações pontuais, fragmentadas sem uma concepção clara de juventude nem unidade mínima

que apontasse caminhos para a construção de uma política pública de juventude no Brasil. Em fevereiro de 2005, o presidente Lula assinou atos que instituíram o Conselho Nacional da Juventude, a Secretaria Nacional da Juventude e o Programa Nacional da Juventude (ProJovem). Desde então tem funcionado o Conselho que tem como finalidade formular e propor diretrizes de ação governamental voltadas à promoção de políticas públicas para a juventude e fomentar estudos e pesquisas sobre a realidade socioeconômica juvenil. No bojo das ações sob a sua responsabilidade, já foram produzidas importantes pesquisas, tal como o Perfil da Juventude Brasileira (www.presidencia.gov.br /SecGeral/juventude/juventude.pp s). Enquanto não há disseminação de ações mais efetivas, é competência dos educadores preparar jovens para tornarem-se autores de suas próprias demandas, assumindo-se como sujeitos sociais.

Discuta com os jovens os resultados do mapeamento. Para este momento, sugere-se a leitura dos textos do anexo 3 e uma consulta ao site da ONG Ação Educativa, que traz notícias e projetos sobre Políticas Públicas de Juventude.

Políticas Públicas de Juventude: projetos de diálogo

Se as políticas públicas são formuladas respondendo a demandas, é interessante perguntar: quem formula essas demandas? Quem se mobiliza para a realização dessas políticas? Que setores da sociedade podem se mobilizar a favor da juventude?

Jovens e participação social. Guia de ações

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Proposição 1° Momento - Investigando Proponha aos jovens que realizem um levantamento dos programas públicos direcionados à juventude nas secretarias municipais (ver anexo 1). Solicite que os jovens comparem os programas com o quadro síntese de políticas de integração e políticas de autovalorização (anexo 2), refletindo sobre as concepções das políticas locais de juventude.


2° Momento - Refletindo “Considerando o excelente posicionamento dos municípios em termos de escala em que trabalham e sua proximidade para com os jovens, tanto territorial como cotidiana, os organismos municipais ou locais de juventude podem contribuir de forma inestimável na implantação de políticas juvenis participativas, já que o âmbito do local é ainda um âmbito também inestimável para pôr em jogo as energias e os conhecimentos existentes na comunidade.” (Julio Bango, 2003)

Oriente os jovens para que, em grupos, escolham um dos programas mapeados e elaborem argumentos a favor e/ou contra o programa. A seguir, solicite que os grupos apresentem os argumentos oralmente, sintetizando-os em papel pardo. Ao final das apresentações, sistematize as reflexões sobre os programas de juventude do município. Nesse momento, é importante, retomar as idéias dos textos lidos: Qual a concepção de juventude do programa? Considera aspectos da cultura juvenil? É de fácil acesso aos jovens? Atende a que tipo de demandas: trabalho? educação? cultura? outro?

3° Momento - Dando o recado Retome junto aos jovens as principais idéias da síntese elaborada sobre os programas. Em grupos, sugira que elaborem proposições em relação aos programas analisados, na forma de um documento a ser divulgado em que fique evidente a posição autoral dos jovens que desejam se ver representados através das políticas públicas dirigidas a eles. Promova a socialização e a problematização de todas as idéias importantes presentes no documento, com vistas a aprofundá-lo e, posteriormente, encaminhá-lo ao poder público. Combine com os jovens uma forma de encaminharem ao poder público o documento produzido, e auxilie-os a encontrarem alternativas de divulgação de suas demandas ou sugestões na imprensa local.

Os jovens poderão apresentar os resultados do trabalho em programas na rádio local, na tribuna livre na Câmara de Vereadores, participar de reuniões com lideranças jovens, encaminhar os resultados ao Conselho Municipal de Juventude, caso exista na cidade, ou ainda propor e participar da instalação do Conselho. Essas alternativas dão concretude à valorização dos jovens como sujeitos sociais, autores de suas demandas e responsáveis diretos pelas iniciativas que têm repercussão sobre os projetos de futuro para a juventude.

Planejando o encontro Você vai precisar: Preparar comentários para apresentação do tema aos jovens. Ouvir o que sabem sobre políticas públicas de juventude. Recorrer a registros de diferentes grupos de jovens existentes na Internet. Papel pardo. Pincéis conforme o número de grupos. Você tem que providenciar: Cópias das fichas e textos dos anexos. Não esqueça: Combine com os jovens e com as pessoas-fonte dia e horário das pesquisas na prefeitura/secretarias. Marque um horário nas secretarias para atendimento aos jovens. Registre as sínteses dos trabalhos.

Tempo sugerido 3 encontros de 4 horas

Jovens e participação social. Guia de ações

Políticas Públicas de Juventude: projetos de diálogo

Que tal?

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Referências BANGO, Julio. Políticas de juventude na América Latina: identificação de desafios. In: FREITAS, Maria Virgínia de; PAPA, Fernanda de Carvalho (org.). Políticas públicas: juventude em pauta. São Paulo: Cortez : Ação Educativa Assessoria, Pesquisa e Informação : Fundação Friedrich Ebert, 2003. CASTRO, Mary Garcia; ABRAMOVAY, Miriam. Por um novo paradigma do fazer política. Brasília: Unesco, 2003. FREITAS, Maria Virgínia de; PAPA, Fernanda de Carvalho (org.). Políticas públicas: juventude em pauta. São Paulo: Cortez: Ação Educativa Assessoria, Pesquisa e Informação: Fundação Friedrich Ebert, 2003. RUA, Maria das Graças. As políticas públicas e a juventude dos anos 90. In: Jovens acontecendo na trilha das políticas públicas - 2 v. Brasília: CNPD, 1998. SPOSITO, Marília P.; CARRANO, Paulo Cesar Rodrigues. Os jovens na relação sociedade-estado: entre "problemas sociais" e concepções ampliadas de direitos. In: LEÓN, Oscar Dávila (org.). Políticas públicas de juventud en America Latina. Viña del Mar, Chile: Ediciones CIDPA, 2003.

Glossário Políticas públicas: segundo o autor Miguel Abad (2003), a política pública representa aquilo que o governo opta por fazer ou não, frente a uma situação. É, portanto, forma de concretizar a ação do Estado.

Anexos

Políticas Públicas de Juventude: projetos de diálogo

1. Ficha para o mapeamento 2. Quadro comparativo das políticas públicas de juventude 3. Textos complementares 4. Ficha de avaliação da ação

Jovens e participação social. Guia de ações

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1. Nome do programa: ............................................................ Ano de criação: ................ 2. Secretaria (as) responsável (is) pelo programa............................................................................................................................. 3. Faixa etária dos beneficiados: ( ) 7 a 13 ( ) 14 a 17 ( ) 18 a 24 ( ) 25 a 29 4. Objetivos do programa: ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. 5. Participação dos jovens a. ( ) sugerem atividades b. ( ) participam de reuniões com a equipe de organização c. ( ) representação individual de jovens destinatários d. ( ) representação dos coletivos juvenis e. ( ) Não houve participação dos jovens

Ficha para o mapeamento

ANEXO 1

Ficha para o mapeamento

6. Número de jovens atendidos pelo programa: .................................................................

Número de programas por secretaria. Qual secretaria predomina? Isto diz alguma coisa sobre o projeto? (refletir sobre a concepção de juventude) Contextualizar: o que ocorria de significativo no município ou país no ano de predominância dos projetos? Há relação possível entre os fatos da época e a ação? Qual? Relacionar os objetivos dos programas, a faixa etária dos destinatários e a concepção de juventude que permeia as ações. Comparar o programa com a tabela do anexo 2. (O programa se aproxima de qual política?)

Jovens e participação social. Guia de ações

Políticas Públicas de Juventude: projetos de diálogo

Sugestão de itens para análise dos resultados do mapeamento:

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Políticas de integração

Políticas de autovalorização

Os jovens

As relações entre as gerações

Problema político

Exclusão dos jovens do mundo adulto

A desigualdade nas relações sociais adulto-jovem

Meta

Integração dos jovens na sociedade

Autonomia e autodeterminação dos jovens

Reprodução da sociedade

Mudança social e política

Ator estratégico do desenvolvimento

Sujeito de direitos

Ênfase prioritária

Competitividade/modernização

Auto-estima/ capacitação

Concepção de desenvolvimento Principais beneficiários

Produção de capital humano e capital social

Geração de capacidade humana

Jovens pobres, mas integrados

Jovens com dificuldade de integração

Coletiva - institucional

Individual-social

No futuro: a transição

No presente: a atuação

A experiência (como acumulação) do adulto

A experiência (como vivência) da cidadania

Enfoque

Orientação política Concepção de juventude

Estratégia de intervenção

Horizonte da ação Valor ético

Quadro comparativo

ANEXO 2

Quadro síntese das políticas de juventude

Políticas Públicas de Juventude: projetos de diálogo

ABAD, Miguel. Crítica política das políticas de juventude. In: FREITAS, M.V.;PAPA, Fernanda de Carvalho (orgs.). Políticas públicas: juventude em pauta. São Paulo: Cortez/Ação Educativa/Fundação Friedrich Ebert Stiftung, 2003.

Jovens e participação social. Guia de ações

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Texto 2 da participação juvenil A nova cara

ista espaços na u q n co e d tu n e v Ju s políticas pública

Em março de 2004, jovens das microrregiões sisal e vale do Jacuípe da Bahia deram os primeiros passos para construir uma experiência inovadora de participação social nas políticas públicas. Diante de uma realidade regional marcada pela inexistência de experiências de organização e auto-representação com identidade política de juventude, jovens se mobilizaram para criar os Coletivos Municipais de Jovens, inicialmente contaram com a parceria do MOC, de Pólos Sindicais, STR's e da Unicef. Neste processo de formação dos coletivos, os/as jovens escolheram entre si quatro coordenadores/as municipais para participar de oficinas regionais temáticas. A partir daí, 75 jovens tiveram oportunidade de construir conhecimento crítico a respeito de: °Possibilidades e desafios da realidade semi-árida; °uma visão estratégica acerca de experiências geradoras de trabalho e renda; °os instrumentos de intervenção nos espaços políticos de definição das políticas públicas. (Revista Juventude Sisaleira)

Jovens e participação social. Guia de ações

s

Textos complementares

E ai galera, vocês sabem como a juventude do semi-árido baiano está se organizando? O que são os Coletivos de Jovens? Que tipo de articulação política e intercâmbios são feitos? Qual o retrato da realidade regional dessa juventude? De que modo a juventude está se mobilizando para participar das políticas públicas? Quais são os espaços políticos institucionais priorizados pela juventude na região? Qual a importância de comemorar a semana social da juventude? Quais são as experiências juvenis geradoras de trabalho e renda? Como os grupos fazem o resgate e valorização da cultura local? Quais são as principais demandas sociais, desafios e perspectivas vivenciadas pela juventude rurais nessa caminhada de mais ou menos dois anos de trabalho? Que parcerias e apoios vêm recebendo? Numa palavra, queremos mostrar o que vem sendo feito pelos jovens rurais de 22 municípios de duas microrregiões da Bahia. (Revista Juventude Sisaleira)

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ANEXO 3

Texto 1

90


Como funcionam coletivos

de jovens?

Na experiência dos jovens das microrregiões sisal e vale do Jacuípe da Bahia, surgem como instrumentos de organização e intervenção política da juventude na realidade local, em 22 municípios. Através dos Coletivos Municipais, jovens rurais se reúnem mensalmente para discutir a situação juvenil no entorno social, planejar e avaliar ações juvenis de participação política, geração de trabalho e renda, lazer, esporte e cultura local. O Coletivo Regional Juventude e Participação Social se reúne mensalmente para planejar e acompanhar ações regionais e trocar experiências acerca das intervenções locais. É constituído por um/a representante da coordenação de cada Coletivo Municipal de Jovens. Em média, existem 25 jovens participando diretamente dos Coletivos de Jovens, por município. No conjunto, mais de 800 jovens estão envolvidos/as nas diversas experiências implementadas em prol da criação e ampliação de oportunidades para os jovens rurais nas regiões sisal e vale do Jacuípe. (Revista Juventude Sisaleira.)

Textos complementares

Texto 3

Texto 4

Uma carta aberta contendo as diretrizes gerais para a construção de uma política pública nacional para a juventude foi o principal resultado do “Diálogo Nacional das Organizações Juvenis”, encontro organizado pela União Nacional dos Estudantes (UNE), nos dias 3 e 4 de junho de 2004, na Câmara dos Deputados, em Brasília. Juventudes organizadas ligadas ao terceiro setor, partidos políticos, associações

desportivas, entidades estudantis, movimentos sociais e associações religiosas divulgaram o documento após uma intensa jornada de painéis e debates que incluíram representantes do poder público e até participantes internacionais. A carta contextualiza a discussão sobre juventude e apresenta um

Jovens e participação social. Guia de ações

em dados estatísticos. Entre as diretrizes sugeridas, estão uma política de juventude de Estado, a abordagem do jovem como sujeito de direitos, a importância da participação e da garantia de canais e espaços institucionais que a viabilizem, a elaboração de um plano nacional e a sugestão de um desenho institucional que inclui um órgão ligado ao poder executivo, uma conferência e um conselho de juventude. Eis a íntegra do documento:

Políticas Públicas de Juventude: projetos de diálogo

os Organizações juvenis apontam caminh diagnóstico baseado para as políticas de juventude

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Jovens e participação social. Guia de ações

Textos complementares

Vivemos um novo momento em nosso país. Momento caracterizado pela grande esperança que o povo brasileiro deposita nas mudanças necessárias para a superação das injustiças sociais e a conquista da liberdade, e de maior participação e diálogo. A juventude brasileira sempre teve uma presença destacada nos grandes momentos de mudanças, e ao longo da história, tem tido uma participação expressiva nas principais lutas sociais do Brasil. Acreditamos que é necessário construir um novo projeto para o Brasil, centrado no desenvolvimento humano, na distribuição de renda e no crescimento econômico, com a participação efetiva da juventude. Mesmo sendo vítima do constante ataque do neoliberalismo, é crescente a vontade da juventude brasileira de contribuir com medidas que amenizem as injustiças sociais. Muitas vezes, essa vontade não encontra canais diretos de participação, ou então, encontram campanhas muito específicas e reduzidas a aspectos menores. A juventude é uma parcela considerável da população brasileira. Se considerarmos a faixa etária entre 15 a 24 anos, são 34 milhões. Se considerarmos a parcela de 15 a 29 anos, são 48 milhões. Essa população possui características peculiares nesta etapa da vida e que precisa de respostas do poder público. Deste total 80% vive na área urbana e 20% no campo. Destes, 3,7 milhões estão sem emprego, representando 47% do total de desempregados do país. Metade dos jovens não estudam. Dos que estudam, apenas 13% chegam ao ensino universitário (INEP-MEC). Grande parte desta juventude encontra-se em situação de grande vulnerabilidade social. Uma das parcelas mais afetadas pela ausência de uma política pública de inclusão social são as mulheres e os negros. Uma verdadeira política pública de juventude tem que ser elaborada, implementada e fiscalizada com a participação do seu principal interessado, o próprio jovem. Os movimentos juvenis, nos últimos anos, tem sido os principais impulsionadores de lutas por direitos e garantias para a juventude e para o conjunto da sociedade - a luta pela redução das tarifas de transportes públicos; a campanha do "Petróleo é nosso"; a luta contra a ditadura militar; pelas diretas já; garantia da meia-entrada em eventos culturais, impeachment do Collor; luta pelo crédito rural aos pequenos produtores; reforma agrária; participação nos Fóruns Sociais Mundiais e a luta contra a guerra no Iraque. Os jovens nunca se furtaram em ir às ruas reivindicar os seus direitos, existindo também uma grande variedade de organizações juvenis, que atuam no espaço local visando a transformação da sociedade. Neste novo cenário político, importantes iniciativas da sociedade civil, do poder executivo e do legislativo , se configuram como espaços privilegiados, e que podem proporcionar espaços de construção e de iniciativas do Estado brasileiro Entretanto, mesmo considerando a importância de uma maior participação juvenil nestes espaços, como forma de contribuir na elaboração da política nacional de juventude, é necessário a constituição de espaços institucionais nas três esferas em que os jovens possam tratar do assunto de maneira autônoma e a partir dos seus próprios interesses, sem qualquer tipo de controle governamental ou organismos internacionais. Considerando a tradição de participação da juventude brasileira, a articulação e a interlocução entre os movimentos juvenis constituirá um indispensável instrumento de pressão social na definição e implementação das políticas públicas de juventude. A juventude nunca deixará de sonhar com um novo Brasil e um novo mundo, mas que centrada na realidade, tornará o novo possível. A rebeldia deve continuar sendo a sua marca, e que essa

Políticas Públicas de Juventude: projetos de diálogo

Carta aberta do diálogo nacional das Organizações Juvenis

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Brasília, 04 de junho de 2004. Diálogo Nacional das Organizações Juvenis Assinam esta Carta:

UNE - União Nacional dos Estudantes/ UBES - União Brasileira de Estudantes Secundaristas/ PJB - Pastoral da Juventude do Brasil/ PET - Programa de Educação Tutorial/ CONAM/ Nação Hip Hop/ UEB - União dos Escoteiros do Brasil/ UJS - União da Juventude Socialista/ FENEAD/ Comissão de Jovens da CONTAG/ Redes e Juventudes Juventude/ PSDB/ ANPG Associação Nacional dos Pós Graduandos/ JR8/ MNMMR Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua/ CBDE Confederação Brasileira de Desporto Educacional/ Juventude PT/ MST Movimento dos Sem Terra Juventude/ PMDB/ Coletivo Nacional de Juventude da CUT/ UBM - União Brasileira de Mulheres/ Organização Social e Ambiental de Flora e Fauna do Brasil/ CEMJ Centro de Estudos e Memória da Juventude/ Ação Educativa

Jovens e participação social. Guia de ações

Textos complementares Políticas Públicas de Juventude: projetos de diálogo

geração encontrando o seu consciente, será fundamental para a transformação de nosso país. As organizações reunidas no Diálogo Nacional nos dias 03 e 04 de junho de 2004 em Brasília, no plenário 06 da Câmara dos Deputados, considera que para o justo desenvolvimento econômico e social do nosso país, os jovens representa um categoria social estratégico não só pelo que representa para o futuro, mas pela grande contribuição no presente. Neste sentido a construção de uma Política Nacional de Juventude deve levar em conta as seguintes diretrizes gerais: - A política de juventude deve ser uma política de Estado, e não de governo, na perspectiva de assegurar a implementação e a continuidade em todos os níveis institucionais Municipal, Estadual e Federal. Além disso, deverá estar associada a um projeto geral de país; - A garantia de direitos da juventude, considerando gênero, raça e etnia nas mais diversas áreas: educação, ciência e tecnologia, cultura, esporte, lazer, participação política, trabalho, saúde, meio ambiente, terra, agricultura familiar, geração de emprego e renda, entre outras, levando-se em conta a transversalidade destas políticas de maneira articulada; - Visando assegurar uma maior identidade da juventude com as políticas a serem implementadas, a participação é peça-chave desde a elaboração, articulação e implementação, garantido o permanente diálogo e negociação, mas assegurando a autonomia das organizações através de espaços democráticos e transparentes. - Constituição de espaços de articulação das organizações e movimentos juvenis (Fórum, Movimentos, Espaços de Diálogo, Rodas de Diálogo, etc), como forma de valorizar, estimular, e assegurar uma maior participação dos diversos segmentos juvenis; - Articulação do projeto de políticas públicas de juventude com a preocupação de estimular o debate em torno de um novo projeto de país no qual a juventude cumpre um papel estratégico; - Elaboração de um Plano Nacional de Juventude que defina objetivos e metas a serem alcançados pelo Estado, considerando a juventude brasileira do campo e da cidade; - Constituição de um espaço ligado ao Poder Executivo (Presidência ), como forma de coordenar e articular junto aos demais República da órgãos governamentais competentes, nos diferentes níveis de governo, as políticas de juventude a serem implementadas em âmbito nacional; - Institucionalizar canais de participação que garantam a participação ampla e plural das juventudes na discussão e definição das políticas públicas, como as Conferências; - Criação do Conselho Nacional de Juventude como forma de estabelecer uma relação democrática entre a sociedade civil e o governo, além de formular, propor e fiscalizar as políticas públicas de juventude.

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1. O que você descobriu e aprendeu durante a realização deste trabalho sobre políticas públicas? (Eleja até quatro alternativas)

Individual Grupo Passei a conhecer mais e melhor os programas destinados a jovens no município.

Ficha de avaliação

ANEXO 4

Pauta de reflexão

Foi possível compreender a relação entre o poder municipal e os jovens. Compreendi um pouco mais sobre a relação entre jovens e adultos. Descobri competências pessoais que até então não havia experimentado. Pude me relacionar melhor com diferentes jovens. Tornei-me menos preconceituoso, revendo posições e opiniões sobre as juventudes. Experimentei momentos de surpresa e alegria pela experiência. Experimentei muitos momentos de angústia, preocupação, desassossego frente aos desafios dos jovens na relação com o poder público.

Estou mais aberto à participação na minha comunidade. Percebi a importância do jovem buscar espaço junto ao poder público. Enfrentei muitas resistências e obstáculos no grupo de trabalho, o que provocou muitos momentos de desânimo. Gostaria de ter mais colaboradores para o desafio.

2. Eleja a alternativa que melhor descreva seu estado de ânimo durante esta experiência de trabalho.

Individual Grupo Geralmente me sentia motivado.

Geralmente estava indiferente, pois a experiência aconteceu em meio a muitas outras tarefas. Geralmente não me agradava interagir com o poder público. Geralmente me sentia preocupado e envolvido com as questões do município em relação aos jovens.

Jovens e participação social. Guia de ações

Políticas Públicas de Juventude: projetos de diálogo

Geralmente me sentia desapontado.

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Arte e cultura:

a trama das identidades juvenis

“A cultura abre os horizontes das pessoas, faz com que elas conheçam outros mundos, aprendam a se expressar e a reivindicar seus direitos.” Jovem de 19 anos (Projeto Cria de Salvador) “ A peça clássica 'Opus 26', de Max Bruch, é pura adrenalina, igual a de pichar em cima do viaduto ou no alto do prédio.” Jovem de 17 anos (ex-pichador, toca violino no projeto Guri de São Paulo)

Temáticas a serem exploradas Cultura juvenil, arte, educação e inclusão.

Objetivos Refletir sobre o acesso dos jovens às diferentes manifestações artísticas contemporâneas. Analisar a produção cultural juvenil como forma de participação social.

de tudo pelo consumismo e pelo modismo. Esta visão estereotipada ignora que as vivências ligadas à arte e cultura são momentos educativos para os jovens, na medida em que possibilitam ampliar as relações com o mundo, reforçando as amizades, os posicionamentos políticos, as leituras e o desenvolvimento da criatividade presente na elaboração de fanzines, textos, letras de músicas, grafite, teatro, dança. São atividades que demarcam claramente um pertencimento que faz diferença na constituição das identidades juvenis. Em vista disso, uma ação educativa que pressuponha valorizar a condição juvenil e multiplicar oportunidades de participação social precisa fomentar a utilização de espaços de arte e cultura, potencializar as expressões da cultura juvenil e ampliar o acesso dos jovens às diferentes alternativas de cultura e lazer.

Jovens e participação social. Guia de ações

Arte e cultura:

Em 2001, cerca de 21% dos municípios brasileiros não tinham uma biblioteca pública, 92% não tinham cinema e 24% não contavam com ginásios poliesportivos. Pesquisa da Unesco, realizada em 1998, revela que seriam escassas as oportunidades dos jovens mais pobres usufruírem equipamentos culturais, mesmo onde eles existem, dada sua desigual distribuição dentro das cidades. Apenas 16% dos domicílios brasileiros com jovens na faixa etária de 15 a 24 anos têm computador.

A cultura e o lazer têm grande importância na vida dos jovens. Pesquisas sobre juventude e cultura do Instituto Cidadania e IBASE atestam que se divertir, curtir a vida, viver a sociabilidade com os amigos são elementos que mais fortemente definem a condição juvenil contemporânea. Nos espaços de lazer, os jovens podem experimentar práticas educativas autônomas em relação ao mundo adulto, vivenciando múltiplas identidades que os fazem pensar sobre as diferentes dimensões da vida em sociedade. Negociam, testam limites, administram conflitos, trocam idéias, colocam-se no espaço público e repensam a realidade social em condições de ludicidade. Entretanto, a observação superficial do modo como os jovens usam o tempo livre tende a reforçar idéias correntes sobre a “miséria cultural” da juventude, que até já foi nomeada de “geração shopping center”, como se fosse guiada antes

a trama das identidades juvenis

Apresentação do tema

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A arte produzida nas ruas/periferia vem ocupando espaço importante entre as manifestações culturais contemporâneas. O grafite deixa de ser confundido com pichação para ganhar o status de arte. Leilões de telas pintadas por grafiteiros, em 2005, atestam isso. Grupos de street dance se apresentam em teatros que costumam privilegiar a arte erudita e a cultura hip hop não cabe mais só nas ruas e na periferia das grandes cidades, mas é estudada nas universidades de todo país.

Proposição 1° Momento - Refletindo sobre a produção de cultura Prepare uma sala com imagens de grafites, vídeoclips, músicas, latas de tinta usadas nos grafites, gravuras de jovens fazendo teatro, dança, instrumentos musicais e outros materiais que o educador julgar necessário para criar um ambiente que expresse aspectos da cultura juvenil. Convide os jovens a observarem os materiais e comentarem o que lhes chama a atenção. Coloque uma música e solicite que expressem dançando, cantando ou falando os sentimentos que estes objetos e imagens provocam.

Estabeleça critérios que possibilitem reconhecer que arte é expressão de cultura, que ela produz sentidos ao observador e ao produtor, que ela fala de um contexto compartilhado e por isso provoca emoção, reflexão. A partir daí situe a arte no mundo contemporâneo e retome a pergunta, particularizando-a: Para que serve a arte contemporânea? Para que serve o hip hop? Para que serve a música jovem? Utilize, para a pormenorização, o contexto que os jovens estabeleceram para discutir as questões anteriores e provoque-os a estabelecerem relações entre arte e fruição e também entre arte e ideologia, isto é, a perceberem que, ao fazer arte, o artista busca conviver e construir/ partilhar valores.

2° Momento - Refletindo a respeito do movimento hip hop/ grafite: Ponto de partida: o que os jovens já sabem. Em grande grupo retome a discussão a respeito da arte, particularizando na reflexão sobre o grafite. O que pensam sobre os grafites? Vêem diferenças entre os estilos de desenhos e letras que aparecem nos muros? Lembram de algum que tenha chamado mais sua atenção? Conhecem algum grafiteiro? O que querem dizer os grafites expostos em alguns espaços da cidade? Esperase que os jovens sejam capazes de fazer algumas inferências com base na discussão realizada no primeiro momento e, a partir daí, todos possam apurar o olhar para a apreciação do grafite como expressão juvenil contemporânea sobre o mundo. Sugere-se que a reflexão sobre os textos seja feita em pequenos grupos com um jovem mediador da discussão e outro que sistematize as conclusões do grupo. Após, exponha as anotações dos grupos e estimule Jovens e participação social. Guia de ações

a trama das identidades juvenis

Proponha aos jovens a leitura dos textos dos anexos 1, 2 e 3. A partir da leitura do anexo 1 estimule a compreensão a respeito do jovem como produtor de cultura. Com o anexo 2, reflita sobre pichações e grafites que aparecem nos espaços públicos da cidade. A partir do anexo 3, problematize a pergunta-chave: Para que serve a arte?

Arte e cultura:

“A expressão artística não pode ser estudada apenas como um tema que diz respeito a um grupo pequeno de pessoas: os artistas. A arte está relacionada à história da humanidade e suas conquistas, à natureza humana e seu simbolismo, à herança cultural dos grupos e ao desenvolvimento individual das pessoas. Despertar a intuição artística, desenvolver as suas formas de expressão e ampliar nossa capacidade de absorvê-la está relacionado intimamente com o despertar de nossa humanidade. (...) A arte está ligada à nossa maneira de ver o mundo, vivê-lo e compartilhálo.”(COSTA, 2004, p.11)

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discussão no grande grupo. Sugira que retornem aos pequenos grupos e disponibilize revistas, reportagens de jornais, fôlderes ou catálogos de exposições, onde possam ser pesquisadas atividades de jovens produtores de cultura. Oriente para que escolham imagens que representem as diferentes manifestações de arte e cultura produzidas atualmente por jovens. Solicite que organizem uma rede de palavras, a serem registradas em papel pardo a partir das imagens selecionadas, capazes de sintetizar a idéia do jovem como produtor de cultura. Promova uma nova imersão nas considerações dos grupos a respeito do grafite como manifestação artística juvenil que intervém no espaço público.

3° Momento - Investigando a produção de cultura Organize com os jovens um mapeamento das atividades promovidas por jovens realizadas no espaço urbano. Proponha que identifiquem: que atividades são realizadas pelos jovens? como os eventos são divulgados? Quem mais realiza eventos destinados aos jovens? Tais eventos estão centralizados ou descentralizados geograficamente? Que relação têm as atividades culturais com as características histórico-culturais da cidade? Que condições precisam ser cumpridas para que um grupo de jovens possa apresentar sua banda, sua performance, seus poemas etc? Isso é fácil ou difícil de realizar? O que se pode inferir a respeito da produção juvenil de cultura? Que legitimidade é atribuída a ela? Por quem? Com que fim?

4° Momento - Dando o recado Sugira que os jovens pesquisem sobre os grafites indicados ao Prêmio Hutuz de 2005, encontrados no site www.hutuz.com.br. Que sentidos, as frases, letras e cores propõem? São sinais de exclusão, silenciamento ou arte de rua?

Convide dois jovens a fazerem o registro da discussão usando a arte. Disponibilize tintas, pincéis e uma grande folha de papel pardo que tenha escrito apenas uma frase: “Decifra-me ou te devorarei”. Peça que os jovens acrescentem frases e desenhos que expressem sua compreensão a respeito do grafite como manifestação cultural juvenil.

Jovens e participação social. Guia de ações

Arte e cultura:

Após a pesquisa, converse com os jovens sobre a relação entre o que foi observado a respeito dos grafites e os videoclips apresentados no site. Que representações de mundo aparecem nas letras e nas imagens? Elas confirmam ou se distanciam das idéias discutidas anteriormente? São questões que afetam à juventude em geral ou apenas a juventude da periferia? O que a forma de participar/denunciar desses jovens revela a respeito deles e da sociedade em geral? Eles ocupam todos os espaços de comunicação existentes ou estão restritos a espaços alternativos, conquistados?

a trama das identidades juvenis

Para ampliar o âmbito de observação, estimule a pesquisa em videoclips encontrados no mesmo site.

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Caso haja espaço público disponível próximo do lugar onde os jovens s encontram, proponha que se organizem para registrar em um muro ou parede a ação final da estratégia. Nesse caso, oriente a respeito das iniciativas que devem ser tomadas, sugira que busquem apoio para obtenção de tintas, indique a importância de planejamento prévio do produto final (feito em tamanho menor, em papel), mas estimule os jovens a se organizarem com independência e autonomia.

Você tem que providenciar: Computadores conectados à internet Revistas, reportagens de jornais, folders ou catálogos de exposições Tesoura, papel pardo e pincéis Materiais de divulgação dos eventos da cidade Não esqueça: Visite o site www.hutuz.com.br e observe os grafites e videoclips Copie os videclips em CD Prepare a sala com materiais que caracterizem as expressões artísticas juvenis

Tempo sugerido 4 encontros de 3 horas

Referências CARRANO, Paulo César Rodrigues. Juventudes e cidades educadoras. Rio de Janeiro: Vozes, 2003. SACRISTÃN, Gimeno J. Educar e conviver na cultura global: as exigências da cidadania. Porto Alegre: Artmed, 2002. COSTA, Cristina. Questões de arte. São Paulo: Moderna, 2004.

Glossário Cultura: criação de significados sobre o que vemos, fazemos e desejamos. Para Sacristán, a cultura é a base de um vínculo social que aproxima pessoas que compartilham representações do mundo, traços culturais em geral e modos de comunicação. A cultura aproxima e diferencia, podendo ser usada para aglutinar e para dividir. Lazer e tempo livre: para Carrano (2003), todas as atividades de lazer são atividades de tempo livre, mas nem todas as de tempo livre podem ser consideradas de lazer. O lazer se desenvolve num amplo espectro de tempo livre e se caracteriza pela supressão das rotinas da vida cotidiana. O lazer evidencia a capacidade de fazer escolhas, fundamental à existência humana. É, portanto, um espaço de autonomia e construção da responsabilidade cidadã. O potencial de liberdade dos tempos e espaços de lazer faz com que as gerações adultas cultivem certa desconfiança do caráter educativo do lazer.

Anexos 1. Texto 1 2. Texto 2 3. Texto 3 Jovens e participação social. Guia de ações

a trama das identidades juvenis

Pense, discuta, pesquise, observe: Você e seu grupo também são mobilizados por alguma questão que imponha a necessidade de manifestação? Qual o recurso que encontram para se expressarem? Essa manifestaçõe/expressão significa também participação social? Por quê? Acreditam que o que fazem pode ser considerado arte? Por quê? Após essa discussão, sugira que o grupo planeje uma ação criativa em que a valorização das culturas juvenis como forma de participação social, possa ser vivenciada/discutida por outros jovens.

Você vai precisar: Cópias dos textos anexos Folhas de ofício para anotações Gravuras sobre expressões culturais juvenis, latas de tintas spray e objetos que caracterizem a arte juvenil

Arte e cultura:

Que tal?

Planejando o encontro

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Jovens e participação social. Guia de ações

(www.facom.ufba.br/etnomidia/ movimen.html)

Textos 1 a trama das identidades juvenis

figura do MC (microphone control ou “mestre de cerimônias” como é conhecido aqui no Brasil). O MC tem a função agregadora, ou seja, ele é o interlocutor do movimento hiphop com o público. Por fim, nos muros desses bairros periféricos de Nova York, começou a aparecer a manifestação visual dessas populações excluídas o grafite, com características políticas e culturais.Temos assim os quatro elementos da cultura hip-hop: o DJ (elemento sonoro); o MC (microphone control , ou mestre de cerimônias); o break (intervenção corporal / dança); e o grafite (elemento visual/arte visual). A aliança entre o DJ (responsável pela produção das músicas e pelas intervenções sonoras como o scratch som do “arranhado” no disco de vinil) e o MC (responsável pela mensagem), produz a música RAP sigla para Rhytm and Poetry ou Ritmo e Poesia, em português.

Arte e cultura:

ANEXO 1

O grafite se insere no movimento hip-hop, originado na Jamaica por volta dos anos 60. A partir da ação sonora das Sound Syste”, que eram equipes de som que faziam bailes e que foram desenvolvendo um tipo de música de raiz africana, apareceu a figura do DJ (disc jockey ou “o animador da festa”). Essa iniciativa jamaicana, através da imigração, entrou nos Estados Unidos e tornou-se parte de um movimento social da juventude pobre e excluída nos guetos de Nova York (jovens negros e hispânicos). Nesta época, formaram-se as equipes de bailes norte-americanas, com o objetivo de apaziguar as brigas e contrariedades freqüentemente manifestas pelos jovens agrupados em gangues. A mais famosa organização foi a Zulu Nation, que chegou a reunir 10.000 membros em todo o mundo. Essa “nação” tinha como líder Afrika Bambaataa, reconhecido como fundador oficial do hip-hop. A mescla do som vindo da Jamaica com os elementos da música negra americana fez surgir um novo tipo de dança entre esses jovens o break, e também a

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Arte ou vandalismo?

Textos 2

ANEXO 2

Urbanismo

Entrevista: Alan Chaves Lemos, estudante flagrado escrevendo sem autorização no Muro da Mauá

ZeroHora-Nãooincomodapichar semautorização? AlanChaves Lemos - Nãoépichação, é grafite. ZH -Mas você nãotinhaautorização paradesenharnoMurodaMauá. Alan- O muroestácheiodedesenhos. Na parte que desenhei, nãotinhanada. Nãodá para generalizar pichadores e grafiteiros. ZH -Qualé amensagemquevocêquer passar? Alan- De protesto. Nãovêquetátudo errado? Nãoadiantafalar, tutambém pertence aosistema. ZH -Por que vocêsesentediminuído? Alan- Porque éassim. Olhasóa injustiça:euestavagrafitandoejáme tacharam de pichador. ZH -Qualé adiferença, então, nesse caso? Alan- O grafiteirofazum trabalhomais elaborado,mais demorado. Pichaçãoéo mesmoquepegar um papel eriscar. ZH -O que vocêescrevia? Alan- "Nama". Seria"Manda".Tipo... o sistema manda, eagenteobedece. ZH -Seus amigos compreendemoque você escreve? Alan- Sim,eles sabem, eles conversam comigo.Soucontraapichação. É feio.

Nodiaem quefui detido, picharammeu prédioeoprédiodolado. ZH - Eoquevocêachou dapichaçãona suacasa? Alan - Achei engraçado, irônico. Não possoficar braboporquetambém faço um bagulhoautorizadoounão. Depois, semprevouatéacasadapessoa, digoque fizotrabalhonaparedeeperguntose querem queeupinte.Vários medizem queestálegal. ZH -A prisãonãopodeprejudicar seu futuro? Alan - Paramim, ofuturoémuito incerto. Poderiater feitoografite direitinho, sem ser preso. Nãosei oque vai acontecer. ZH -Vocêvai continuar? Alan - Estousem meumaterial porque elefoi apreendido.Tenhodever oque vai acontecer comigo. ZH - O quevocêquerfazerquandose formar? Alan - Querodar aulas. Ensinar aos outros ocerto, enãooerrado. ZH - Eoqueéo certo? Alan - (Longapausa)Agoratume pegou,cara.O certo...ocertoénãojogar papel nochãonarua. ZH - Ou nãoriscaraparedesem autorização? Alan - É...

Arte e cultura:

(Jornal Zero Hora, 18 de abril de 2006)

a trama das identidades juvenis

Morador do Moinhos deVento e estudante com matrícula trancada na História da PUCRS, Alan Chaves Lemos, 25 anos, foi detido pela Guarda Municipal na madrugada do dia 9, com dois amigos, e apontado como suposto autor da pichação no Gasômetro, que ele nega. Escrevia, sem autorização, a palavra "Nama" no MurodaMauá. Naúltimaquinta-feira, eleconcedeuestaentrevista:

Jovens e participação social. Guia de ações

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Ferreira Gullar

A reflexão do artista sobre a serventia da arte descreve com aparente simplicidade o encantamento da mais enigmática produção humana e seu efeito sobre o mundo

Textos 3

ANEXO 3

A beleza do humano, nada mais

Confesso que, espontaneamente, nunca me coloquei esta questão: para que serve a arte? Desde menino, quando vi as primeiras estampas coloridas no colégio (que estavam muito longe de serem obras de arte) deixei-me encantar por elas a ponto de querer copiá-las ou fazer alguma coisa parecida. Não foi diferente minha reação quando li o primeiro conto, o primeiro poema e vi a primeira peça teatral. Não se tratava de nenhum Shakespeare, de nenhum Sófocles, mas fiquei encantado com aquilo. Posso deduzir daí que a arte me pareceu tacitamente necessária. Por que iria eu indagar para que serviria ela, se desde o primeiro momento me tocou, me deu prazer? Mas se, pelo contrário, ao ver um quadro ou ao ler um poema, eles me deixassem indiferente, seria natural que perguntasse para que serviam, por que razão os haviam feito. Então, se o que estou dizendo tem lógica, devo admitir que quem faz esse tipo de pergunta o faz por não ser tocado pela obra de arte. E, se é este o caso, cabe perguntar se a razão dessa incomunicabilidade se deve à pessoa ou à obra. Por exemplo, se você entra numa sala de exposições e o que vê são alguns fragmentos de carvão colocados no chão formando círculos ou um pedaço de papelão de dois metros de altura amarrotado tendo ao lado uma garrafa vazia, pode você manter-se indiferente àquilo e se perguntar o que levou alguém a fazê-lo. E talvez conclua que aquilo não é arte ou, se é arte, não tem razão de ser, ao menos para você. Na verdade, a arte em si não serve para nada. Claro, a arte dos vitrais servia para acentuar atmosfera mística das igrejas e os afrescos as decoravam como também aos palácios. Mas não residia nesta função a razão fundamental dessas obras e, sim, na sua capacidade de deslumbrar e comover as pessoas Portanto, se me perguntam para que serve a arte, respondo: para tornar o mundo mais belo, mais comovente e mais humano. Ferreira Gullar, um dos maiores poetas brasileiros, nascido no Maranhão (1930), é também cronista, ensaísta, teatrólogo e crítico de arte

Arte e cultura:

a trama das identidades juvenis

(http://ondajovem.terra.com.br)

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Expressões musicais e identidades juvenis “Nos últimos anos, de forma cada vez mais intensa, jovens lançam mão da dimensão simbólica como a principal e mais visível forma de comunicação, expressa nos comportamentos e atitudes pelos quais se posicionam diante de si mesmos e da sociedade. A música, a dança, o corpo e seu visual, têm sido os mediadores que articulam grupos que se agregam para produzir um som, dançar, trocar idéias, postar-se diante do mundo, alguns deles como espaço privilegiado.” Juarez Dayrell, 2005

Temáticas a serem exploradas Juventude, narrativas de si, identidades musicais e papéis sociais.

Objetivos Discutir a respeito do que é ser jovem em diferentes espaços e contextos Conhecer e socializar as músicas e sonoridades que formam as escolhas musicais de jovens, através das narrativas individuais de experiências com músicas Valorizar as vivências musicais como constituintes para os diversos papéis que os jovens desempenham na sociedade e como produções positivas dos jovens

As trajetórias de diferentes jovens, em diferentes momentos, grupos sociais e culturais, estão entrelaçadas com sonoridades, gestos, melodias e ritmos que embalam e acompanham os momentos e cenas do cotidiano juvenil. Isso possibilita uma escuta polifônica e atravessada por lembranças de momentos vividos, constituindo o arcabouço de uma sociologia da Juventude (Dayrell, 2005). Ao trazerem as narrativas de si, através das lembranças musicais, os jovens delineiam espaços de atuação social. Por outro lado, os estilos musicais, difundidos massivamente pelos meios de comunicação, influenciam a constituição das identidades musicais juvenis, ignorando/pasteurizando a diversidade e gosto juvenil. Em vista disso, interessa conhecer e registrar as músicas que constituem o universo de escolhas dos jovens, bem como articulá-las com a constituição das

identidades juvenis. A partir desta diversidade, cabe ressaltar o papel da música não apenas como atividade de lazer/prazer, mas também como fator educativo e de socialização, assumindo uma função mobilizadora de participação social. Estes aspectos mostram que os jovens escutam e consomem músicas de múltiplas maneiras, em diferentes tempos e espaços: elas sonorizam as atividades de estudo, trabalho, festas, namoros e relacionamentos, momentos de tristeza, mobilizações, conquistas e muito mais. Ora é um rap, ora um rock, um funk, um samba, um pagode, uma sertaneja ou outro ritmo, demonstrando a presença constante da música na vida dos jovens. Face à diversidade juvenil e tendo em vista a variedade de situações em que recorrem à música como forma de expressão e participação, é possível supor que, pela constituição do repertório mu-

Jovens e participação social. Guia de ações

Expressões musicais e identidades juvenis

Apresentação do tema

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“O paradoxo da questão é que qualquer idéia aparece sempre encapsulada num nome e, aqui, o mesmo nome juventude encapsula idéias diferentes.” José Machado Pais “Podemos até conhecer o jovem como um rapper ou um funkeiro, mas sabemos muito pouco a respeito do significado dessa identidade no conjunto que, efetivamente, faz com que ele seja o que é naquele momento.” Juarez Dayrell “Juventude é não apenas um conjunto social cujo principal atributo é o de ser constituído por indivíduos pertencentes a uma dada fase de vida, mas também conjunto social com atributos sociais que diferenciam os jovens.” José Machado Pais

Proposição 1° Momento Peça que cada participante escreva, em uma tira de papel colorido, três palavras ou frases que caracterizem “ O que é ser jovem?” Monte um grande painel com as palavras/frases dos jovens, possibilitando a aproximação de aspectos comuns, a identificação dos contrastes e outros aspectos que problematizem a questão da multiplicidade juvenil. Nesse momento, o papel do mediador é fundamental para favorecer aproximações, contrastações ou referendos necessários para inferir a respeito do objetivo do painel. Mantenha o painel em lugar visível na sala e recorra a ele sempre que for possível nos momentos seguintes.

2° Momento Inicie a conversa sobre gostos musicais lançando a pergunta: “Se cada um tivesse que escolher três estilos musicais, em ordem de preferência, quais estilos mencionaria?” Peça que escrevam em cartões ou faça o registro das incidências em painel de cartolina ou papel pardo. Proponha e discuta aspectos da diversidade musical dos jovens, destacando a multiplicidade de gosto musical entre eles. Pergunte: Quais as funções da música na vida de cada um? Quais são as músicas para embalar o sono e os sonhos, para chorar, para comemorar as conquistas, para dançar, para acompanhar, para trabalhar, estudar, amar, recomeçar? Destaque também as funções da música como marca identitária de pertencimento aos grupos (repertórios, roupas, cabelos, marcas nos corpos, locais de lazer, posicionamento social, linguagem, aspectos Jovens e participação social. Guia de ações

Expressões musicais e identidades juvenis

”Grande parte da sociologia da juventude tem passado pela sociologia do lazer. Pode-se mesmo dizer que quem não quiser falar de lazer deve calar-se sobre juventude. Por que este insistente e tradicional interesse da sociologia da juventude pelos lazeres juvenis? Provavelmente, e é uma hipótese a confirmar, porque é no domínio do lazer que as culturas juvenis adquirem uma maior visibilidade e expressão. Como quer que seja, este insistente e tradicional interesse da sociologia da juventude pelo lazer tem originado tendências teóricas e controversas: [...] O método mais apropriado para contrariar esta tendência é o de tentar desmantelar o mito da “juventude homogênea” no terreno onde ele se encontra enraizado, o do lazer” (Pais, 1993, p.132).

sical, aparece a diversidade juvenil. comum de que todos os jovens de É o que possibilita o questio- uma mesma época escutam e namento da afirmativa de senso gostam das mesmas músicas.

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religiosos, etc.). Estimule-os a prosseguirem as reflexões acerca das concepções de juventude implícitas nas escolhas musicais e proponha articulações entre os termos jovens e músicas, através da pergunta: Quais os papéis ou funções da música na vida dos diferentes jovens? Realize um exercício de escuta e análise musical, uma Salada Musical (pois deve ter músicas de diferentes estilos, instrumental, vocal, todos misturados). Selecione seis músicas de sua preferência, de diferentes estilos e compositores, com temas que possam interessar aos jovens e leve para o grupo ouvir, cantar e comentar sobre cada uma delas, referindo seus dados de identificação (autores, arranjadores, executores). Depois de ouvirem e cantarem, solicite que cada um marque em uma folha se conhecia ou não as músicas e se gostou ou não delas. Ao final, peça que destaquem a música preferida e a de que menos gostaram. Comente sobre gosto e diversidade, estabelecendo relação com as referências próprias dos grupos sociais e culturais. Proponha que os próprios jovens se encarreguem de tabular os dados, hierarquizando preferências a partir da organização de suas escutas e critérios adotados para a escolha. Quantos conheciam todas as seis músicas? Quantas músicas eram desconhecidas do grande grupo? Todos gostaram mais ou gostaram menos da mesma música? Peça que infiram possíveis justificativas para as respostas. O resultado esperado dessa discussão é que os jovens indiquem músicas cujos ritmos e/ou letras os representem, ou seja, que se sintam identificados com as músicas, seja pelo que elas dizem, seja pelo ritmo que elas possuem.

3° Momento Dando continuidade à questão de gosto musical, propicie a reflexão a respeito de “Músicas que sonorizam nossas vidas” (trilhas sonoras).

Proponha uma conversa em grande grupo a respeito do exercício de memória musical, onde os jovens possam socializar suas escolhas pessoais e, a partir delas, se reconhecerem como parte da sociedade. Relacione as questões identitárias juvenis com as escolhas musicais, listando as temáticas que estão nas letras e as características dos grupos, bandas e cantores mais lembrados (faixa etária, estilos musicais, vestimentas e outras marcas de identificação dos jovens com estes artistas). Organize um portfólio com as narrativas de todo grupo, possibilitando o estabelecimento de um patamar para a compreensão das influências do grupo, dos gostos pessoais, das contribuições sociais e das influências dos meios de comunicação de massa, entre outras questões.

4° Momento Comece o encontro distribuindo a letra da música “Caçador de mim” (Fernando Brant/Magrão) com algumas lacunas. Solicite que leiam a letra e a completem antes de ouvir a música. Peça que falem as palavras que usaram para completar as frases e problematize as escolhas, levando em conta a coesão e a coerência dos significados e a marcação rítmica proposta. Coloque então a música para ouvirem e cantarem. Pergunte se já conheciam e o que entendem por “caçador de mim”, relacionando o título Jovens e participação social. Guia de ações

Expressões musicais e identidades juvenis

“A identidade musical vai se constituindo por muitas escutas e influências, muda, deixa alguns sons pelo caminho e seleciona outros, escolhe o que gosta e o que não gosta de ouvir e cantar. É uma identidade musical lembrada e narrada, entremeada com memórias, fatos, locais, pessoas e sentimentos [...] Há mescla das identidades musicais juvenis com os programas e videoclipes na TV, os shows de rock e seus ídolos, tribos ou grupos com hábitos e atitudes comuns.” (Torres, 2003, p.1112)

Distribua folhas e peça que escrevam sobre suas memórias musicais, a partir das perguntas: Onde, quando, como e por que você ouve músicas nos diversos momentos da vida? Quais são as relações entre as lembranças musicais e os fatos vividos, de ordem pessoal ou coletiva e, desta maneira, as influências dos meios de comunicação de massa (rádio, TV e jornal) na definição de algumas preferências musicais?

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da música com aspectos de ser jovem. “A paródia é a recriação de um texto, geralmente célebre, conhecido, uma reescritura de caráter contestador, irônico, zombeteiro, crítico, satírico, humorístico, jocoso. A paródia constrói, assim, um percurso de desvio em relação ao texto parodiado, numa espécie de insubordinação crítica, cômica” (SCARTON, Gilberto.http://www.puc rs.br/gpt/parodia.php).

Organize grupos de quatro ou cinco jovens. Solicite que escolham uma música que todos saibam cantar e, a partir dela, componham uma nova letra, que trate de temática que interesse aos jovens. Este é um exercício de paródia. No final, o grupo dará um título para sua composição e a apresentará para os colegas. Cada grupo organizará a sua performance de apresentação, explorando livremente acompanhamentos rítmicos e corporais, assim como o uso de instrumentos de percussão ou outros. Se possível, grave a apresentação em fita ou em vídeo, para registro da criação e para poder levar para outros espaços, dentro e fora da escola. A paródia musical é a recriação de uma letra de música, já existente, geralmente conhecida do grupo, com o objetivo de criticar, contestar ou de trazer uma outra mensagem ou discurso sobre um determinado tema. Neste exercício de paródia musical, parte-se de uma música conhecida de todo o grupo e elabora-se uma outra letra, mantendo-se a melodia original.

Analise com os jovens as letras das paródias e faça uma reflexão sobre aspectos relacionados à condição juvenil: quais as temáticas que emergiram nas letras? As temáticas tratam de questões que interessam aos jovens? Que relação pode ser estabelecida entre elas e as frases sobre juventude que escreveram em tiras de papel, no início da estratégia? Existem semelhanças entre as temáticas das letras das músicas e as narrativas escritas pelos jovens?

Que tal? Se houver motivação dos jovens, proponha a organização de uma agenda de participação social através da música, isto é, a exploração da possibilidade de, por meio da música,os jovens proporem sessões de escuta coletiva e debate de diferentes estilos musicais, apresentações de grupos e bandas, organização de saraus, oficinas de hip hop, entrevistas e cursos com Djs, construção de instrumentos musicais a partir de objetos do cotidiano. É interessante tomar a música como condição para a participação social dos jovens, indicando e partilhando com eles as formas de organização necessárias para concretizar esses objetivos.

Ações possíveis: mapear quais são os cantores, compositores e grupos/bandas da comunidade onde vivem; entrevistar estes grupos, cantores e compositores, partindo de questões como: a- Quais os estilos musicais que cantam e tocam? b- Quais os locais de atuação e apresentação dos entrevistados? c- Como foi a aprendizagem musical dos mesmos? d- Como é escolhido o repertório? e- São também compositores? O que pretendem comunicar através do que cantam ou tocam? conforme a quantidade de grupos identificados, dentro e fora da escola, propor que planejem uma apresentação na escola, no centro comunitário ou em local sugerido pelo próprio grupo; estimule a prática de encontros com objetivo musical, em que alguns dos integrantes do grupo, músicos ou compositores, possam oferecer oficinas de criação para os jovens do próprio grupo ou outros jovens interessados; focalize propostas com o objetivo de preservar os papéis e espaços sociais dos jovens: opções de lazer e trabalho, de melhora da autoestima, de efeito multiplicador para outros grupos de jovens, de cooperação sociocultural e de inclusão social.

Planejando o encontro

Expressões musicais e identidades juvenis

Liste, junto com o grupo, os temas contemplados nas letras das paródias e proponha o encaminhamento das mesmas para propostas de projetos com música, valorizando a comunidade em que vivem.

Você vai precisar: Letra da música Caçador de mim Jovens e participação social. Guia de ações

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Tiras e folhas de papel de várias cores CDs com as músicas para a Salada musical Papel pardo e/ou cartões de papel para os painéis Você tem que providenciar: Aparelho de som com CD Disponibilidade de diferentes espaços para os ensaios dos grupos Não esqueça: Organizar e socializar o portfólio (uma espécie de relatório que contenha as letras das paródias, as reflexões do grupo, as propostas de projetos organizados, as frases sobre juventude e as narrativas acerca das memórias musicais do grupo).

Tempo sugerido 3 a 4 encontros de 4 horas

Referências BRYAN, Guilherme. Quem tem um sonho não dança - cultura jovem brasileira nos anos 80. Rio de Janeiro: Record, 2004. DAYRELL, Juarez. A música entra em cena - o rap e o funk na socialização da juventude. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2005. FRITH, Simon. Music and Identity. In: HALL, Stuart; GAY, Paul du (org.) Questions of Cultural Identity. London: Sage, 1997. p.109-124. MOTA, Graça. Pesquisa e formação em educação musical. Revista da ABEM, Porto Alegre, v.8, mar. 2003, p.11-16. PAIS, José Machado. Culturas juvenis. Portugal: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1993. SCARTON, Gilberto. http://www.pucrs.br/gpt/parodia.php. SOUZA, Jusamara; FIALHO, Vânia; ARALDI, Juciane. Hip hop: da rua para a escola. Porto Alegre: Sulina, 2005. TORRES, Maria Cecilia A. R. Identidades musicais e narrativas de si: um estudo com alunas da Pedagogia. Em Pauta - Revista do programa de Pós-Graduação em Música da UFRGS, Porto Alegre, v.14, n.23, Dez. 2003.

Identidades musicais: práticas e escolhas musicais que cada um realiza ao longo da vida, nas diferentes fases. Por meio das identidades musicais os sujeitos idealizam a si mesmos e ao mundo social onde habitam, embora façam escolhas reais. Por isso, “fazer música e ouvir música são, por assim dizer, assuntos do corpo, envolvem o que poderíamos chamar de movimentos corporais. Assim sendo, o prazer musical não deriva da fantasia não é mediado por sonhos mas é diretamente vivenciado: a música nos dá uma experiência real do que o ideal poderia ser” (Frith, 1996, p.123). Narrativas musicais juvenis: são os escritos das memórias (ou trajetórias) musicais da adolescência, onde estão entrelaçadas as lembranças de melodias, letras de músicas, shows de bandas e seus ídolos, rituais religiosos, grupos de amigos, familiares, programas de TV, rádio , marcando momentos e fatos. Para trabalhar com as narrativas de um grupo de jovens, é preciso considerar que o escrever sobre a vida vem com muitos rótulos: retratos, memórias, histórias de vida, estudos de casos, biografias, jornais, diários, cada um com perspectivas e diferenças a serem consideradas.

Anexos Jovens e participação social. Guia de ações

1. Música 2. Roteiro para a Salada Musical

Expressões musicais e identidades juvenis

Glossário

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Música

Por tanto amor, por tanta emoção A vida me fez assim Doce ou atroz, manso ou feroz Eu, caçador de mim. Preso a canções, entregue a paixões Que nunca tiveram fim Vou me encontrar longe do meu lugar Eu, caçador de mim Nada a temer se não o correr da luta Nada a fazer se não esquecer o medo Abrir o peito à força numa procura Fugir às armadilhas da mata escura Longe se vai sonhando demais Mas onde se chega assim Vou descobrir o que me faz sentir Eu, caçador de mim Nada a temer se não o correr da luta Nada a fazer se não esquecer o medo Abrir o peito à força numa procura Fugir às armadilhas da mata escura Longe se vai sonhando demais Mas onde se chega assim Vou descobrir o que me faz sentir Eu, caçador de mim.

Expressões musicais e identidades juvenis

ANEXO 1

Caçador de mim Sérgio Magrão e Luiz Carlos Sá

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Música

Proposta de atividade com a música Caçador de mim (Sérgio Magrão e Luiz Carlos Sá)

Por tanto amor, por tanta __________ A vida me fez assim Doce ou ________, manso ou feroz Eu, caçador de mim. Preso a canções, entregue a __________ Que nunca tiveram fim Vou me encontrar longe do meu lugar Eu, caçador de mim Nada a __________ se não o correr da luta Nada a fazer se não esquecer o _________ Abrir o peito à força numa procura Fugir às armadilhas da mata escura Longe se vai __________ demais Mas onde se chega assim Vou descobrir o que me faz sentir Eu, caçador de mim Nada a temer se não o correr da luta Nada a fazer se não esquecer o medo Abrir o peito à __________ numa _________ Fugir às ___________ da mata escura Longe se vai sonhando demais Mas onde se chega assim Vou descobrir o que me faz sentir Eu, caçador de mim.

4- Proponha que dêem uma resposta pessoal: O que você entende por “caçador de mim”? Que relações são possíveis estabelecer entre “ser caçador de mim” e questões que interessam,

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Expressões musicais e identidades juvenis

1- Peça que cada jovem complete a letra da música com as palavras que escolherem. 2- Comente sobre as palavras que cada um usou para completar as frases e a questão da diversidade. 3- Coloque o CD para tocar com a letra original para que ouçam. Repita e peça que acompanhem cantando.

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Conheço/Não Conheço - Gosto/Não Gosto Comentários

1ª Música:_____________________________________________ Título: 2ª Música:_____________________________________________ Título: 3ª Música:_____________________________________________ Título: 4ª Música:_____________________________________________ Título: 5ª Música:_____________________________________________ Título:

Roteiro para a Salada Musical

ANEXO 2

Salada Musical (atividade de escuta musical: diversidade e gosto)

6ª Música:_____________________________________________ Título:

Expressões musicais e identidades juvenis

A música escolhida em 1º Lugar é ______________________________________________________

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A cultura do hip hop “Transformar a falta de uma perspectiva existencial na saudável e transformadora consciência da cidadania. Talvez seja isso que se possa chamar “ideologia do hip hop.” Oswaldo Faustino (jornalista de O Estado de São Paulo) “A cultura abre os horizontes das pessoas, faz com que elas conheçam outros mundos, aprendam a se expressar e a reivindicar seus direitos.” Jovem de 19 anos

Temáticas a serem exploradas Participação, democracia, cidadania, exclusão social, discriminação e preconceito, movimentos culturais juvenis, pluralidade cultural, arte e cultura.

Objetivos Valorizar diferentes manifestações artísticas e culturais juvenis. Compreender o hip hop como expressão de cultura popular, criado para manifestar a inconformidade dos jovens da periferia com o mundo em que vivem, numa perspectiva afirmativa. Reconhecer o hip hop como fenômeno sociocultural que produz, através da arte, novas formas de comportamento e participação social dos jovens.

Antes de tratar do hip hop como movimento cultural que reflete o que pensa e sente uma parte significativa da juventude brasileira, de considerá-lo como canal de expressão das juventudes excluídas das periferias ou como manifestação que engloba música, dança, artes plásticas e declamação de mensagens de teor político, é importante conhecer um pouco das origens e influências que deram ao hip hop a condição de representar a resistência à opressão e à marginalidade e ser visto como resposta política e cultural da juventude excluída, conforme a jornalista Bia Abramo (2001). As primeiras danças de rua surgiram nos Estados Unidos, quando músicos e dançarinos que se apresentavam em casas noturnas, tiveram que ir para as ruas fazer seus shows, em virtude

da crise de 1929. O rap nasceu de uma adaptação do canto falado da África ocidental à música feita pelos jamaicanos na década de 50, na qual o “discurso” é acompanhado por bases instrumentais. A adaptação foi inspirada nos griots - sacerdotes religiosos africanos, contadores de histórias, que narravam os feitos heróicos dos negros através do canto falado. "O hip hop cumpre, entre nós, a função que, em outro momento, cumpriram os contadores de histórias na África ou na Ásia", escreveu o rapper Ferréz em recente livro publicado. Apesar da inspiração nas culturas africanas e da existência dos sound systems jamaicanos espécie de trio elétrico, onde os toaster (MC' s de hoje) declamavam e falavam frases sobre a desigualdade social, a discri minação, a violência nas favelas, pobreza e falta de oportunidades

Jovens e participação social. Guia de ações

A cultura do hip hop

Apresentação do tema

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nos guetos para a população que, sem dinheiro, ia para as ruas escutar música -, foi a mudança de muitos jamaicanos para os Estados Unidos, na década de 1970, por razões políticas e econômicas, que divulgou o novo estilo de música e fez surgir grupos de rap nos guetos de Nova Iorque. Registros apontam o bairro do Bronx, como o nascedouro do rap. O grafite é uma forma de expressão, e a arte rupestre pode ser considerada como a sua préhistória. Os egípcios, mesopotâmios e gregos usavam as paredes das casas, templos e prédios públicos para retratar o cotidiano; os romanos tinham o costume de escrever manifestações de protestos com carvão nas paredes das construções, e alguns desses grafites ainda podem ser vistos nas catacumbas de Roma e em outros sítios arqueológicos espalhados pela Itália, como é o caso de Pompéia. O hip hop firmou-se no Brasil e no mundo como um discurso político a favor dos excluídos, principalmente dos negros. Transformou-se num movimento sociocultural de reivindicação juvenil que, através da expressão artística, realiza estudos e eventos, produz arte, interfere na linguagem e na metodologia educacional, reivin-

dica políticas públicas e propõe resistência, independência, autenticidade e atitude. O hip hop é composto por quatro elementos: um estilo musical, o rap; uma maneira de apresentar a música em bailes e shows, que envolve um DJ e um MC; uma dança, o break; e uma forma de expressão plástica, o grafite. Os elementos provêm de influências musicais, culturais, sociais, religiosas, econômicas etc. e é deles que nasce a cultura hip hop, embora, ao longo do tempo, a filosofia, a poesia e a moda tenham sido acrescentadas como formas de expressão. Além disso, em razão do crescimento da indústria do rap e de sua exposição na mídia desde a década de 1980, hip hop e rap vem sendo tratados como sinônimos, o que desconsidera os outros três elementos e descaracteriza a cultura. Para resguardar a identidade do movimento, apareceu o quinto elemento do hip hop - o conhecimento. A influência cultural brasileira no movimento hip hop deu ao rap brasileiro um pouco de samba, ao break um pouco de capoeira e aos grafites o uso de cores mais vivas, o que confere à cultura uma identidade nacional.

Ana Lúcia Silva Souza (Palestra: Práticas de leitura e questões étnico-raciais no movimento hip hop, 15º Congresso de Leitura do Brasil - Cole)

Jovens e participação social. Guia de ações

A cultura do hip hop

“Sem dúvida, se o movimento hip hop é tido Como uma expressão da periferia, uma expressão dos excluídos, necessariamente essa é uma história que precisa ser recontada. Então, ir atrás dessa história, necessariamente, leva esses jovens ao encontro da história dos heróis, das histórias da sua mãe, do seu pai, da história do seu bairro.”

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“A participação no hip hop mudou bastante coisa. Quando eu comecei a fazer um rap, eu era bem revoltado. Depois eu descobri que eu tinha esse dom de fazer o rap. As letras que eu escrevo é o que eu vivo, o que eu vejo, o que eu ouço e o que eu sinto. Colocam para fora o que eu sinto e ouvir aquilo que fiz é gratificante. Saber que tu estás atingindo alguém com a tua música, estás levando uma mensagem, te faz sentir útil, é bem gratificante.” Jovem de 20 anos

FILME

8 Miles - Rua das ilusões (2002, direção de Curtis Hanson) Drama, 111’. O filme conta a história de um jovem americano que vive uma crise de identidade e está a procura de um sentido para sua vida. Busca extravasar sua angústia através da música e se envolve no mundo do hip hop. É a estréia do rapper Eminem no cinema.

Proposição 1° Momento Inicie com os jovens uma roda de conversa sobre o que sabem do movimento hip hop. O que é, se conhecem jovens do movimento, como esses jovens se expressam, o que apreciam no hip hop, o que não compreendem, o que mais chama atenção. Se têm amigos ou se freqüentam espaços do hip hop, peça que relatem suas experiências, ou cenas marcantes. Sugere-se trazer ao encontro imagens/gravuras, retiradas de revistas ou da internet, com diferentes cenas do hip hop, em suas diferentes manifestações, dispondo-as no meio da roda (pode ser no chão ou sobre uma mesa). Pode-se propor que cada jovem escolha uma das imagens dispostas na roda para expressar seu pensamento ou sua experiência pessoal sobre o hip hop. O educador deverá anotar: o que sabem, pensam, gostam, divergem; com que se identificam ou não; a que juventude atribuem a cultura do hip hop, etc. Poderá, ainda, explorar falas de jovens integrantes do movimento sobre os significados de expressão pessoal que o hip hop possibilita, tal como a

2° Momento Proponha a leitura (e se for o caso, acompanhe escutando e cantando) coletiva da música Paz, de Gabriel o Pensador (anexo 1). Dê espaço para que os jovens comentem a música (impressões, sentimentos). Sugira que os jovens debatam entre si a primeira estrofe e listem as mudanças e atitudes que poderão fazer nascer “a flor da paz”. A seguir, solicite que analisem o significado da guerra a que o autor se refere no refrão e compare com a participação ativa dos cidadãos para combater a exclusão social, considerando as últimas duas linhas da segunda estrofe.

3° Momento Sugira a leitura individual do texto do anexo 2 e da apresentação do tema. Organize uma plenária e problematize as intervenções dos jovens a partir das seguintes questões: 1) É possível tratar do hip hop sem pensá-lo na perspectiva do coletivo? 2) Que história está por trás da cultura do hip hop e por que é considerado um canal de expressão das juventudes excluídas? 3) Qual elemento da cultura expressa o ponto de vista político do movimento? Fazer referência à leitura e debater o segundo momento da atividade. 4) A maioria dos jovens que curtem rap tem clareza das origens do movimento e compreendem o significado do quinto elemento? 5) Que aspectos da vida das comunidades dos jovens do grupo poderiam ser contadas através do hip hop? Quais são seus anseios?

4° Momento Para ampliar o conhecimento: selecione alguns grupos integrantes do movimento hip hop, entrevistas de rappers e grafiteiros, notícias de jornal, imagens de grafites, depoimentos de jovens das periferias, letras de rap etc. Assista ao filme 8 Miles - Rua das ilusões.

A cultura do hip hop

A cultura do hip hop é uma importante ferramenta de arte, educação e inclusão dos jovens, especialmente por sua capacidade de sensibilizar, gerar identificação e a descoberta de novos valores especialmente o respeito, a cooperação, a cidadania - pelos próprios jovens.

Divida a turma em grupos e proponha que analisem o material a partir Jovens e participação social. Guia de ações

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do filme assistido e das informações extraídas das leituras, posicionamentos do grupo, preconceito e discriminação com a cultura hip hop, papel das mulheres no movimento como b.girls ou MC, mudanças que o movimento propõe, formas de organização, etc. Esta ação poderá servir de inspiração para o momento seguinte.

5° Momento Desafie os jovens a comunicarem seus anseios e projetos de futuro para as comunidades onde vivem, utilizando os cinco elementos do hip hop: Pesquisar em livros, na Internet, entrevistar pessoas - fonte para ter subsídios e fundamentar seus projetos; Compor um rap; Planejar uma forma de apresentá-lo, sem esquecer o papel do DJ e do MC; Preparar uma dança inspirada no break; Fazer uma oficina de grafite e selecionar aqueles que melhor traduzirem as idéias do grupo.

Os grafites traduzem uma variedade de manifestações, de sentimentos e emoções que se inscrevem em algum lugar. Têm a intenção de registrar uma visão de mundo, de ser testemunho e memória, de ser arte. Partindo deste pressuposto, sugerese a leitura da reportagem sobre o projeto com grafiteiros em Salvador (anexo 4) e a proposição de uma reflexão coletiva a respeito da ideologia do movimento e do aproveitamento da arte dos grafiteiros para embelezar a cidade. Pode-se propor, ainda, que os jovens identifiquem ações solidárias e voluntárias no movimento hip hop e que discutam a cooperação sociocultural como uma forma de solidariedade, especialmente entre os jovens.

Proponha uma forma de registro que permita multiplicar a vivência dos cinco elementos.

Planejando o encontro Você vai precisar: CDs de rap Gravuras e reportagens sobre grafites e entrevistas com grafiteiros Depoimentos de rappers Letra da música Paz Você tem que providenciar: Cópia dos textos Filme 8 Miles - Rua das ilusões Não esqueça: De providenciar um aparelho de CD Das imagens do movimento hip hop e de grafites, em especial (recortes de revistas, jornais, impressões da Internet, etc.)

Tempo sugerido 3 encontros de 4 horas

Referências ARCE, José Manuel Valenzuela. Vida de barro duro: cultura popular juvenil e grafite. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ. 1997. ANDRADE, Elaine Nunes, (org.). Rap é educação: São Paulo: Summus. 1999. CASCANO, Patrícia; Domenich, Mirela; ROCHA, Janaina. Hip Hop: a periferia grita. São Paulo: Editora Perseu Abramo, 2001. HERSCHMANN, Michael. O funk e o hip hop invadem a cena. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ. 2000. WEISS, Zezé (coord). Vozes Jovens. Brasília: Banco Mundial, 2004. Jovens e participação social. Guia de ações

A cultura do hip hop

QUE TAL?

6° Momento Incentive os jovens a encontrarem alternativas de apresentação de sua experiência acerca do hip hop. Pode ser na escola, no local onde se realiza o projeto, em eventos culturais da cidade, em espaços onde os jovens se reúnem, etc.

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Sites para consulta www.projetojuventude.org.br/html/cadastro.html www.acaoeducativa.org.br www.realhiphop.com.br www.adversus.com.br

Glossário B Boy: dançarino, expressão abreviada de breaker boys. DJ (disc-jóquei/ discotecário, pessoa que traz a música para dançar): representa a alma, essência e raiz; Grafiteiro: expressa a ideologia por meio das artes plásticas. Hip hop: termo criado por volta de 1968 por Afrika Banbaataa, inspirado na forma como se transmitia a cultura dos guetos norteamericanos e no modo de dançar mais popular da época, ou seja, saltar (hop) movimentando os quadris (hip). MC (Mestre de Cerimônia, a voz que conversa com os que dançam): representa a consciência e o cérebro; Posse: São grupos de encontro que congregam rappers, grafiteiros e breakers de uma mesma região. Eles trabalham juntos em atividades artísticas, de ação comunitária, de formação política. Colaboram uns com os outros para aperfeiçoar a atuação dos grupos e sensibilizar outros jovens para se engajarem no movimento. Rap: expressão musical-verbal da cultura que significa a abreviatura de rhythm and poetry (ritmo e poesia); Break dance: é o corpo através da dança, apresentada por dançarinos que se exibem no intervalo instrumental da música;

Anexos

A cultura do hip hop

1. Letra do rap Paz 2. Texto para leitura dos jovens 3. Leitura complementar para educadores 4. Notícia de projeto com grafiteiros 5. Trecho de reportagem

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Letra de música

Aqui se planta, aqui se colhe, mas para a flor nascer é preciso que se molhe, é preciso que se regue pra nascer a flor da paz, é preciso que se entregue com amor e muito mais. É preciso muita coisa e que muita coisa mude, muita força de vontade e atitude, pra poder colher a paz, tem que correr atrás e tem que ser ligeiro! Pra poder colher a fruta é preciso ir à luta, e tem que ser guerreiro! Pela paz a gente canta, a gente berra, Pela paz eu faço mais, eu faço guerra! Eu vou à luta, eu vou armado de coragem e consciência, amor, esperança. A injustiça é a pior das violências, eu quero paz, eu quero mudança. É, dignidade pra todo o cidadão, mais respeito, menos discriminação, desigualdade, não, impunidade, não, não me acostumo com essa acomodação. Eu me incomodo e não consigo ser assim, porque eu preciso da paz, mas a paz também precisa de mim, A paz precisa de nós...

A cultura do hip hop

ANEXO 1

Paz Gabriel o Pensador

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manifestação, por isso diferencia-se do norteamericano. "O brasileiro é muito melhor do que o americano, que foi banalizado. Muitos representantes do hip hop lá fora se venderam para o sistema. (...) No Brasil, o hip hop é mais consciente, quer ver o povo melhorar, prega a informação", afirma Cibele Cristiane Rodrigues, militante do movimento. Não é à toa que o hip hop tem ganhado cada vez mais militantes e mais espaço no Brasil. Segundo Viviane Melo de Mendonça Magro, psicóloga que estuda o movimento no Brasil, sua popularidade se deve ao fato de ser um movimento enraizado nas experiências de jovens e pessoas que vivem na periferia, além de ser muito organizado. "As histórias do rap são histórias fictícias ou reais de pessoas que vivem na periferia, baseadas na vivência na periferia. Para elas, o hip hop é uma forma de

Texto complementar

hober

A cultura do hip hop

ANEXO 2

Muitas das manifestações culturais brasileiras estão identificadas com a população negra. O samba, caboclinho, maracatu, movimento Mangue Beat, capoeira e muitas outras são lembradas como parte da grande contribuição dos negros para a cultura nacional. Dentro dessa diversidade, o movimento hip hop vem ganhando cada vez mais destaque no Brasil e atraindo muitos jovens, especialmente aqueles que moram nas periferias. Não é nada fácil entender o Hip Hop, que veio da periferia nova iorquina para o Brasil no final da década de 1980, via indústria fonográfica. É um movimento com várias tendências internas, que se pauta pela denúncia da exclusão social e pela discussão de questões relativas à história e à identidade dos negros. (...) Ao chegar no Brasil, ele foi influenciado pela cultura local e adquiriu novos traços e novas formas de

Hip hop fala contra o e a desigualdade so racismo cial Juliana Sc

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www.comciencia.br/reportagens/negros/09.shtml

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Texto complementar

das várias formas de expressão, evidenciar o histórico dos negros no Brasil. "É importante que todos entendam que os negros são excluídos porque foram escravizados". Hip hop brasileiro é diferente do norteamericano, apesar de existir uma tendência de apropriação de alguns símbolos da cultura negra internacionalizada como as roupas dando a impressão de um movimento globalmente uniforme, as muitas diferenças que separam brasileiros e norteamericanos ajudam a determinar, no Brasil, um hip hop diferenciado. Os próprios militantes brasileiros consideram o hip hop nacional como um movimento muito mais crítico e politizado que o norte-americano. (...) Movimentos como o hip hop mostram que as formas de expressão cultural no Brasil podem ser usadas na luta contra a

discriminação racial e desigualdade social. Por isso, o hip hop tem dado muita ênfase para as ações práticas e os militantes têm se organizado nas periferias promovendo oficinas, informando as pessoas e incentivando a luta. Na opinião da rapper Verônica, do grupo Cabelo Duro, apesar da opinião contrária "e preconceituosa" de sua família sobre o hip hop, valeu a pena se integrar ao movimento. “Por ter entrado no movimento, eu comecei a ter acesso a muitas informações, que pessoas que eu conheço e que não são do movimento nunca tiveram. Eu não me vejo melhor do que minhas amigas que seguiram uma vida mais tradicional, mas eu me vejo com mais oportunidades porque tenho mais informação" . Já dizia Chico Science, também influenciado pelo hip hop pernambucano: "me organizando, eu posso desorganizar".

A cultura do hip hop

resistência e mudança da realidade", conta Viviane Magro. No hip hop brasileiro, exclusão social e preconceito racial são evidenciados. (...) Além de buscar a construção de uma identidade negra, que se posiciona fortemente contra o preconceito de cor, é dada também ênfase ao marginalizado que vive na periferia. "Para o hip hop, marginalizado é quem vive na periferia. O que une é a desigualdade social, e a maioria é negra" explica Magro. "Tanto os brancos quanto os negros têm sua autoestima melhorada dentro do movimento e se identificam através da exclusão social", complementa. A militante Rodriguez reforça a idéia de busca por igualdade. "Tentamos nem tocar nesse negócio de negritude, branquitude, essa fita toda, porque o hip hop quer atingir uma classe social, é para os desfavorecidos". Entretanto, Cibele salienta que o movimento busca, através

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visa formar cidadãos críticos, cientes dos seus direitos e deveres e altamente participativos na construção política do seu país (...). Cidadãos que se preocupem uns com os outros, que sejam solidários. (...) Quando se diz que o Movimento hip hop contribui com o processo de cidadania dos jovens, não necessariamente tem-se em mente o abrangente conceito de cidadania acima descrito. (...) A cidadania no hip hop, hoje, quer dizer aumento da auto-estima dos jovens das camadas populares, envolvimento com a produção de cultura, internalização de uma identidade coletiva como a que o hip hop proporciona e, conseqüentemente , o combate à ociosidade e a efetivação da inclusão social. É evidente que, para o Movimento hip hop contribuir na construção da cidadania plena da juventude pobre como um todo, primeiramente ele

Texto complementar

nia Pedro Henrique, Associ Metropolitana de Hip H ação op, PE.

A cultura do hip hop

ANEXO 3

A discussão aprofundada deste tema é de fundamental importância para o Movimento Cultural Político e Social hip hop e seus novos rumos no futuro próximo. Acreditamos que a utilização dos elementos artísticos do Hip Hop (...), como veículo aglutinador da juventude, para a construção de um verdadeiro processo de cidadania dos jovens de periferia, deva ser encarado como o maior desafio da história do movimento. É importante destacar como o Movimento hip hop poderá desenvolver o processo de uma cidadania plena da juventude pobre e como deve ser a relação dele com outros movimentos populares, que também estão trabalhando para construir a cidadania nas suas áreas específicas de atuação. Mas antes de tudo... O que é cidadania? O que se entende por cidadania? Entende-se ad cid ania como processo que

Movimento Cultural hip hop: Arte e Cidad a

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www.protagonismojuvenil.org.br/portal/Noticias

Jovens e participação social. Guia de ações

Texto complementar

elementos, acompanhados da formação política, podem vir a se traduzir na ascensão de sujeitos ativos, capazes de lutar por um outro mundo (...), que consigam colocar em prática o que tanto se fala nas letras de rap: a construção de uma sociedade justa, solidária, onde todos os cidadãos vivam com dignidade. (...) É preciso amadurecer a unidade política do hip hop com os outros movimentos populares, cada um construindo sua história em sua área específica de atuação. A área do Movimento hip hop são as periferias e favelas. Desta maneira, o hip hop estará, através da arte, fortalecendo a cidadania plena dentro do movimento e fora dele e, conseqüentemente , participando da construção de um novo mundo, baseado na liberdade, igualdade e justiça.

A cultura do hip hop

deve construí-la internamente, isto é, dentro do movimento, com seus próprios militantes. Para isso, o primeiro passo consiste no hip hop despertar para a definitiva consolidação do quinto elemento que, na prática, se constitui na busca do conhecimento, responsabilidade social e participação política na sociedade. Este novo elemento vem sendo cada vez mais discutido dentro do movimento, principalmente em estados como Pernambuco, Maranhão, Ceará, Rio de Janeiro, Rio Grande Sul, São Paulo, entre outros, e pode ser traduzido pela organização e formação de entidades locais a exemplo da Associação Metroplitna de hip hop, que realiza trabalhos sociais com os quatro elementos artísticos do hip hop nas periferias. O rap, a dança de rua, o grafite e o Dj representam o lado lúdicoartistico e cultural do Movimento hip hop e funcionam como mobilizadores da juventude pobre, que facilmente se identifica. Estes

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Projeto em Salvador transforma antigos pichadores em artistas plásticos que estão mudando a paisagem da cidade

Notícia

ANEXO 4

Grafiteiros do bem qualidadedecomunicar por seus riscos rápidos etãourgentes comooritmode umacidadecosmopolita. JoãoHenrique entendeque, comoarteelaborada, o grafitismoexpressaem seus traçose desenhos mais requintados todauma culturaderua,ligadoamovimentos comoohiphop, ricos em conteúdosque falam docotidianodaprópriacidade. O projetovalorizaaartedografite, (...)Um dos principais objetivos com quetem amesmaorigem dapichação, mas objetivodiferente, disseoprefeito. olançamentodoprojetoGrafita Salvador,é estimular jovens grafiteiros “Seografiteembeleza, apichaçãopolui. Seografiteapresentasuacontestação e pichadores a sedesenvolverem em formadearte, apichaçãoexpõesua artisticamente, aprimorandosuas formas de expressão, além decontribuir fragilidadenainexpressividadede seus traços”. Paraoprefeito, oseumaior para oembelezamentodacidade. desejoéqueos grafiteiros possam se ”Vamos valorizar aarteeos artistas de manifestar com liberdadeequeos rua,oferecendo, especialmenteaos jovens,uma oportunidadedeapresentar pichadores continuem evoluindopara o grafite. (...) seutrabalhosem causar danos ao As mensagens deixadas pelos patrimôniopúblicoeprivado”, disseo grafiteiros dependem dolocal de prefeitoda capital, JoãoHenrique trabalho. “Ondehááreas verdes ouo Carneiro. Nos muros daCompanhiadas Docas mar, por exemplo, os trabalhos são ambientalistas. Ondeháterreiros de da Bahia (Codeba), oprograma realizadoem parceriaentreaSecretaria candombléouquadras, trabalhamos com orixás ecom oesporte”, disse Municipalde DesenvolvimentoSocial JosenildoSilvaMendes, 26. (Sedes),através daCoordenadoriade O coordenador doprojetoGrafita Juventude (Codju) eaLimpurb Salvador, EdvandoLuizCarlos Pinto, (Empresa de LimpezaUrbanade dissequepelomenos mais 40 Salvador),vai fazer intervenções que profissionais serãocontratados atéo vãoalém da artedografite.A idéiada final doverão. ”Estamos muito prefeitura,(...) épromover, através das satisfeitos com oresultadodoprojeto. diversas manifestações das artes Além docoloridoqueacidadeestá plásticas,a humanizaçãodacidade. ganhandocom esses painéis,houve uma (...)Seja peloseucaráter de sensível reduçãonaincidênciade contestaçãoou por seuimpulso pichaçãonacidade.” (...) transformador, ografitepossui a

A cultura do hip hop

Http://cidadesdobrasil.com.br/cgi-cn/news

Jovens e participação social. Guia de ações

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“Os movimentos juvenis dos anos 80, 90 marcam umadiferençabastantegrandedoque agentechamavademovimentos juvenis atéo final da década de 70. Em primeiro lugar, pela origem social dos jovens os anteriores eram principalmenteestudantes declassemédia, enquantoque, apartir dofinal de70, os protagonistas sãojovens dos setores populares quenãosedefinem pelacondição estudantil. Outracoisanovaéqueos movimentos passam aser mais ligados ao lazer, cultura, comportamento, atitude como eles mesmos dizem. (...) Comoarticular um projetodefuturo paraos jovens em sociedades que, aomesmo tempoqueampliam suas promessas, criam também aexclusão?E comoconstruir uma identidadepróprianessatendênciade massificação? (...) Hátambém diferenças importantes nocasodohiphop.A primeira, mais óbvia, éa condiçãodejovens negros quetêm comoum deseus problemas centrais aquestãoda violênciapolicial, aindamais agravadapara eles, alvos preferenciais dessaviolência cotidiana. Outraparticularidadeéqueos hip hoppers têm umalocalizaçãoterritorial mais forte, aárea, eissotrazum laçomaior com a comunidade, éaculturaderuanobairro, oque encerraum grandepoder detransformação paraaprópriacomunidade".

Trecho de reportagem

ANEXO 5

Mais de 50.000 manos

A cultura do hip hop

Helena Abramo (Socióloga, participa da ONG Ação Educativa). www.facom.ufba.br/etnomidia/movjuv.html

Jovens e participação social. Guia de ações

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Arte: múltiplos olhares e fruições

Temáticas a serem exploradas Participação, democracia, cidadania, inclusão, multiculturalidade

Objetivos

Apresentação do tema A cultura pode ser caminho para abertura de horizontes, para reconhecimento de si e do outro, para a convivência social. A arte se desenvolve em diferentes suportes, e a cultura se vale de variadas manifestações. Além de estimular aspectos da subjetividade de cada um, ela também desafia suas competências de convivência social e chama a atenção para os bens culturais tradicionais, freqüentemente disponibilizados à população por iniciativas públicas, mas nem sempre usufruídos pelos jovens. Em vista disso, interessa incentivar a ação social da juventude através de seus próprios interesses ligados à produção de cultura, tornando os jovens agentes de transformação e conscientização dos valores de suas comunidades, referências positivas para os de-

mais jovens e, por isso, propositores de projetos de futuro pessoal mais comprometidos com seu contexto próximo. Os movimentos populares culturais são importantes formas de definir a identidade de seus participantes e o seu lugar no mundo. Por meio do exercício cultural em espaços democráticos, os jovens podem se afirmar como consumidores, como criadores ou como preservadores de cultura, possibilitando o autoconhecimento e a valorização pessoal. Por esse motivo, a escola, importante espaço de convivência social na vida de jovens, precisa ampliar essas oportunidades, seja através do estímulo a formas alternativas de fazer e consumir arte na cidade, como os fanzines, o grafite, etc., quanto através da legitimação de

Jovens e participação social. Guia de ações

Arte: múltiplos olhares e fruições

A pesquisa Perfil da Juventude Brasileira, realizada no fim de 2003 pelo Projeto Juventude, com 3.500 entrevistados em 198 municípios, detecta que a cultura e o lazer são os assuntos que mais interessam aos jovens depois da educação e do emprego, respondendo por 27% das indicações. Nesse universo, 34% gostam de discutir arte. O levantamento mostra, ainda, que 15% participam de grupos de jovens e que as atividades musicais estão entre as mais importantes desenvolvidas por eles.

Valorizar diferentes manifestações artísticas e culturais juvenis. Oferecer oportunidades para os jovens usufruir em bens culturais disponíveis. Motivar para a participação em eventos, manifestações, repertórios e acervos que possam favorecer a construção de novos conhecimentos sobre si e os outros, com vistas à apropriação de bens socioculturais disponíveis no contexto urbano. Reconhecer a arte como fenômeno sociocultural capaz de produzir diferentes formas de comportamento e participação social.

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formas mais consolidadas, como os e identidades da humanidade estão movimentos tradicionalistas, ou preservados. ainda a arte clássica, onde valores

“Uma dimensão inovadora constatada em várias pesquisas sobre as práticas juvenis no Brasil e em outros países se refere à importância da esfera cultural e do lazer como espaço produtor de sociabilidade. Nos espaços de lazer, os jovens podem encontrar possibilidades de experimentação de sua individualidade e das múltiplas identidades necessárias ao convívio cidadão nas suas várias esferas de inserção social. As diferentes práticas de experiência coletiva em espaços sociais públicos de cultura e lazer podem ser consideradas como verdadeiros laboratórios onde se processam experiências e se produzem subjetividades. “ BRENNER, Dayrell e CARRANO, 2005

Proposição 1° Momento - Significado da arte Disponibilize materiais diversos para o manuseio dos jovens (imagens de arte, objetos, livros, revistas, fotografias, obras de referência, etc.) e proponha que discutam e procurem responder: “Qual o significado da arte?” Caso eles não se organizem espontaneamente, sugira que se reúnam em pequenos grupos e que formulem respostas possíveis que possam ser ilustradas através dos materiais disponibilizados na sala. Para valorizar a discussão, selecione imagens e obras de arte entendida num conceito amplo, isto é, com objetos da arte do cotidiano, artesanato, além da arte tradicional. Promova a apresentação dos grupos e possibilite que anotem em um quadro a ser mantido no espaço de trabalho com todas as perguntas que restarem com respostas provisórias durante as apresentações e todas as observações que forem consenso entre os grupos. Exponha este material em local bem visível na sala, e esteja sempre atento a ele nos próximos encontros, propiciando que os jovens ampliem as problematizações a respeito da arte, formulem conceitos e também que ampliem seu âmbito de observação. Talvez seja interessante atribuir a tarefa a alguns jovens, solicitando que, ao final de cada encontro, verbalizem as possíveis alterações ao painel e registrem o que aprenderam. Oriente-os então para acessar o site do Itaucultural (www.itaucultural.org.br/index.cfm?cd_pagina=20020) e realizar o curso virtual Isto é arte?, aí apresentado.

2° Momento - Arte, cultura e identidade Retome o quadro de questões produzido no encontro anterior, respondendo-as ou ampliando-as a partir do que os jovens viram no curso virtual. Focalize os aspectos que relacionam a arte com as questões da identidade (o corpo, o afeto, a memória), como tema privilegiado da arte contemporânea. Problematize também os espaços onde a arte é mostrada, indicando que eles variam conforme o suporte utilizado e também o público a quem se destina. Inicie uma conversa coletiva livre em que os jovens estabeleçam relação entre arte e cultura. Jovens e participação social. Guia de ações

Arte: múltiplos olhares e fruições

“A ligação com a cultura me transformou em uma pessoa melhor, mais aberta aos problemas do mundo” (depoimento de jovem de 15 anos, do movimento hip hop)

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Durante a realização dessa estratégia, proporcione que os jovens visitem os diferentes equipamentos culturais disponíveis na cidade. Crie um cartaz na sala onde possam dar “dicas” de saraus, shows, exposições, lançamento de livros, e outras formas de cultura que aconteçam na cidade. Estimule que, em grupos, pleiteiem descontos nas atividades pagas e freqüentem os espaços gratuitos, relatando brevemente o que viram aos colegas, no início de cada encontro. Enfim, não poupe oportunidades de inseri-los num movimento de valorização da cultura, reconhecendo-se como produtores e espectadores de arte.

Sugira que os jovens se dividam em pequenos grupos e proponha que discutam e escrevam uma definição de cultura. .

Possibilite a socialização do que escreveram. Esteja atento/a e problematize tudo que possa parecer afirmação de senso comum ou pouco refletida. Não esqueça de se reportar ao quadro com questões e consensos e atualizá-lo com a colaboração dos jovens. .

Para encerrar o encontro, entregue uma cópia do texto “As tramas da identidade”, de Tião Rocha (anexo 1). Leia os primeiros parágrafos em conjunto, compare-os com as definições dos jovens, provoque a complementação do que está sendo discutido através da referência a diferentes conceitos que circularam durante as discussões e recomende leitura dos parágrafos finais, indicando que o encontro seguinte será desenvolvido a partir de questões apresentadas por ele.

3° Momento - o Sistema de comunicação da arte Divida os jovens em 7 pequenos grupos, distribuindo entre eles uma parte diferente do texto cuja leitura já deve ter sido feita integralmente. Grupo 1: as formas organizativas Grupo 2: as formas do fazer Grupo 3: os sistemas de decisão Grupo 4: as relações de produção Grupo 5: o meio ambiente Grupo 6: a memória Grupo 7: a visão de mundo .

Disponibilize material para a elaboração de um trabalho em colagem ou a construção com sucata, baseado no texto, de modo a representar questões tratadas no tema sob responsabilidade de cada grupo. .

Planeje com os jovens a apresentação do trabalho feito pelos pequenos grupos. Após cada apresentação, promova um breve debate em que seja discutido o recurso escolhido pelo grupo para atribuir sentido ao tema sob a sua responsabilidade. .

Proponha que os jovens repensem a respeito dos conceitos de cultura que circularam durante as atividades. Saliente a participação de todos no processo de construção do conhecimento, indicando que, dessa forma, um coletivo cria cultura. .

4° Momento - Arte para quê? Apresente aos jovens o texto de Ferreira Gullar “A beleza do humano, nada mais” (anexo 2). .

Proponha que leiam em voz alta e problematize a pergunta que ele se propõe a responder - Para que serve a arte? à luz das discussões dos encontros anteriores. .

Anote a síntese de todas as respostas formuladas no quadro e, sempre que for necessário, faça perguntas complementares, de modo a assinalar que a discussão a respeito da arte mobiliza o conhecimento de diversos temas transversais. .

Planeje um passeio pela cidade ou pelo bairro. Dê preferência a locais históricos, onde os jovens possam observar monumentos e encontrar pessoas.

Arte: múltiplos olhares e fruições

Uma vivência artística pode comover ou mobilizar os jovens. Através da arte, por meio de uma ação prazerosa, resgatase identidade e memória, valorizase o papel individual num contexto colaborativo e estimula-se a criatividade e a imaginação.

Reveja e finalize as anotações do quadro de questões que começou a ser elaborado no primeiro encontro.

.

Jovens e participação social. Guia de ações

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Divida-os em quatro grupos e recomende que busquem olhar o espaço visitado com um olhar de descoberta, flagrando relações humanas, usos e costumes, relações do local com a finalidade para o qual foi concebido, nomes das ruas e características que possuem. Sugira que anotem e pesquisem quem foram as pessoas/os fatos históricos que nomeiam as ruas. Indique que conversem com usuários desses espaços e colham suas opiniões sobre o lugar. Se algum deles conhecer alguma história relativa ao espaço visitado, estimule-o a relatá-la para o coletivo. Se for possível, convide alguém que conheça bem o local a ser visitado para atuar como guia, contando histórias sobre a origem dos nomes de ruas, praças e monumentos, lendas do bairro, histórias de moradores, tratando enfim de bem contextualizar a experiência do passeio. Proponha que façam perguntas aos passantes, aos comerciantes, aos moradores e que anotem o mais possível. Caso não encontre pessoas que possam atuar como guias, o educador também poderá solicitar que alguns jovens, antecipadamente, se preparem para guiar o grupo, pesquisando e estudando informações sobre o local que será visitado. .

Alterne sua atenção entre os grupos e procure estimulá-los a observar aspectos diferentes do mesmo espaço, com vistas a ampliar o conhecimento do contexto. .

Após a visita, dê um tempo para os jovens organizarem suas anotações e indicarem um relator para socializar o que destacaram. Em seguida, converse sobre o passeio, peça que os relatores dos grupos leiam o que foi anotado. Depois, em grande grupo, proponha que escolham as histórias que mais chamaram a atenção e que, em grupos maiores, resultantes da fusão de subgrupos por afinidade de assuntos, criem uma cena improvisada, ou um esquete sobre as histórias recolhidas. Indique que utilizem de forma criativa os recursos disponíveis no espaço em que estão para a montagem e que o enfoque principal deverá estar centrado na unidade do texto a ser composto. .

Proporcione oportunidades de ensaio e agende a apresentação dos esquetes.

5° Momento - Realidade ou ficção? O olhar sensível da arte Avalie a atividade anterior, pedindo para cada grupo comentar a cena dos demais. Indique a importância desse olhar crítico como forma de assegurar que o esquete comunica o que pretendia. Observe que sejam objetivos em seus comentários. Retome as idéias presentes no texto de Ferreira Gullar: "ser tocado pela obra de arte", "capacidade da arte de deslumbrar e comover as pessoas", "a arte em si não serve para nada", "a arte serve para tornar o mundo mais belo, mais comovente e mais humano" e estimule-os a pensarem sobre o texto à luz da experiência vivida. .

A partir das conclusões conduzidas pelo grupo, ressalte o quanto é possível aprender com uma experiência prática e como a arte dialoga com a vida. Reforce também o conceito de memória, indique que esta é também uma função da arte e que tudo tem uma história. .

Proponha então uma volta ao texto anteriormente apresentado e uma retomada dos esquetes, tratando agora de fundi-los ou anexar aspectos que os tornem mais expressivos (o grupo decidirá a respeito da conveniência da fusão de subgrupos em função do que julgam interessante compor. Observe que o desafio, nesse momento, é agregar diferentes pontos de vista, o que poderá determinar a fusão de alguns esquetes, o acréscimo ou a modificação de algumas partes, a fim de resultar uma unidade mais completa e complexa.

Arte: múltiplos olhares e fruições

.

.

Jovens e participação social. Guia de ações

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Esta atividade pode vir a ser o embrião de um grupo de teatro de jovens. Caso haja interesse e condições, proponha a volta aos locais visitados para fazer registros em foto ou em vídeo, fortalecer vínculos com moradores e/ou pessoas da comunidade que foram informantes valiosos de aspectos representados nas dramatizações. Se for possível, motive os jovens a programarem um passeio em algum espaço cultural que disponha de material complementar à peça, tal como museu da cidade, ou a realizar entrevistas que possam contribuir com os aspectos mostrados na criação teatral, indicando a relação próxima entre a produção cultural e a participação social na vida da comunidade.

.

Proponha uma oportunidade de apresentação pública. Desafie-os a encontrar um espaço de apresentação na escola, na instituição em que atuam, em evento do bairro, para outras escolas, outras comunidades ou outros jovens amigos, conhecidos. Caso sejam necessários recursos de que a escola não disponha, estimule-os a voltar às casas de comércio que identificaram na visita e apresentar seu projeto, de modo a fundamentar o pedido de auxílio, indicando como a empresa será beneficiada. (Nesse caso, realize uma oficina que ensine a organizar um projeto, presente neste guia)

Planejando o encontro Não esqueça de providenciar: Jornal, papéis, cola, fita crepe, barbante, tinta guache, caneta hidrográfica, sucatas variadas. Peça a colaboração dos jovens!

Tempo sugerido 10 encontros ou mais, dependendo do interesse dos jovens e do comprometimento com ensaios

Referências BRENNER, A. K.; CARRANO, P.; DAYRELL, J. Culturas do lazer e do tempo livre dos jovens brasileiros. In: ABRAMO, H.W.; BRANCO, P.P.M. (orgs.) Retratos da juventude brasileira: análises de uma pesquisa nacional. São Paulo: Fundação Perseu Abramo; Instituto Cidadania, 2005. p.175-214. COSTA, Cristina. Questões de arte: o belo, a percepção estética e o fazer artístico. São Paulo: Moderna, 2004. MARTINS, Miriam Celeste; PICOSQUE, Gisa; GUERRA, Terezinha. A língua do mundo: poetizar, fruir e conhecer a arte. São Paulo: FTD, 1998. ONDA Jovem. São Paulo, Ano I, n.3, nov.2005/fev.2006.

Não perca a oportunidade de fazer uma espécie de balanço da experiência com os próprios jovens: o que aprenderam? O que mais apreciaram? O que podem melhorar? Como podem multiplicar solidariamente as vivências e saberes que experimentaram? E, como podem envolver/mobilizar outros jovens? Este momento de avaliação consolida o compromisso com a ação social e mobiliza para outras iniciativas.

Anexos 1. Texto 1 2. Texto 2

Jovens e participação social. Guia de ações

Arte: múltiplos olhares e fruições

Que tal?

Sugira que registrem um roteiro, que improvisem figurino e trilha sonora. Estipule tempo para ensaios, disponibilize recursos para cenário, alerte-os para questões técnicas. Trate de problematizar a experiência artística como resultado de trabalho em prol de um objetivo comum.

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Todos têm cultura e trata-se de um bem universal porque é a rede de relações que define o desenho de uma comunidade. Todo e qualquer ser humano tem cultura. Esta é uma das poucas “verdades” da Antropologia. Apesar disso, muita gente ainda pensa que alguns seres humanos não têm cultura. Uma minoria crê, firmemente, que sua cultura é superior à dos outros. Outros, por se julgarem superiores, resolveram eliminar e subjugar os diferentes, tratando-os como inferiores. E uma grande maioria acostumou-se a pensar que não tem cultura alguma, ficando à mercê das elites ditas “cultas”. Outro equívoco que rodeia a cultura é quanto ao uso que se faz do conceito. As definições variam do extremamente amplo (“cultura é tudo aquilo que o homem acrescenta à natureza” ou “cultura é toda maneira de pensar, agir e sentir dos homens”) ao extremamente específico (“cultura é erudição”). Com o uso indiscriminado ou interesseiro, a palavra cultura tornou-se expressão esvaziada. Foi o que nos levou a construir um novo conceito, que fosse ao mesmo tempo operacional, palpável, mensurável, observável, ético e correto. Para isso, buscamos outra contribuição da Antropologia: em toda e qualquer comunidade humana existem e interagem diversos componentes substantivos (que nós denominamos “indicadores sociais”) que podem ser identificados, medidos e observados e que, quando interagem entre si, constroem desenhos, padrões, símbolos e valores do grupo humano que aí vive e que podemos conceituar de Cultura. Encontramos os indicadores sociais em qualquer comunidade rica ou pobre, urbana ou rural. No entanto, eles só se tornam um indicador cultural quando, em contato com outros indicadores, produzem um novo desenho, uma teia de relações dinâmicas, novas tramas e padrões de convivência, gerando novos valores ou sendo influenciados pelos valores universais presentes na comunidade A cultura, este desenho, trama ou padrão dinâmico e interrelacional, é algo humano e social, público e visível, mas às vezes microscópico. Podemos, dentro de uma macrotrama, perceber microdesenhos simbólicos e repletos de significantes, como nas festas populares e de rua ou nos “rituais da ordem” que simbolizam e mantêm o sistema político. E é nesse mar de tramas, micro e macroscópicas, que navegamos durante nossa vida. A seguir, comentamos esses indicadores. As formas organizativas - Incluem a família, a vizinhança, os amigos, o grupo de oração, os companheiros de futebol, o pessoal do pagode, as comadres da esquina, os meninos da pelada, a galera do funk etc. Esse indicador é fundamental para o moderno conceito de “capital social”. Estudos demonstram que quanto mais espaços ou oportunidades de convivência social forem oferecidos aos habitantes de uma comunidade, mais formas e possibilidades de participação estarão sendo geradas, ampliando os espaços e os momentos de protagonismo social e o acúmulo de capital social. Nossa experiência nos autoriza afirmar que, onde não há oferta de formas organizativas em quantidade (e por isso há poucas oportunidades de participação e de protagonismo), o tempo de resposta aos problemas é muito lento. O tempo de rotinas aumenta e o tempo de desejos e desafios decresce. A lentidão é observada na falta de vontade e ambição das pessoas, principalmente dos

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Textos 1

Tião Rocha

Arte: múltiplos olhares e fruições

ANEXO 1

As tramas da identidade

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Esse processo de acumulações sucessivas, sistemáticas e sempre atualizadas (porque contemporâneas), constitui a base da produção do conhecimento, seja de cunho científico (porque usa métodos para a compreensão de variados objetos), seja de caráter tecnológico (porque produz materiais, soluções e técnicas facilitadoras), seja de essência artística (porque atende a valores estéticos, sentimentais e não-tangíveis da humanidade, por meio de música, teatro, poesia, pintura, etc.). Os sistemas de decisão - Referem-se ao político, à autoridade, à liderança, aos poderes de decisão macro e microinstitucionais e não institucionalizados. Aparecem ostensiva (como nos caso das lideranças políticas, jurídicas, militares etc.) ou subliminarmente, como no ambiente familiar, em que pai e mãe têm poderes de decisão. As relações de produção - Trata-se do econômico, do mundo do trabalho, das forças produtivas quem produz o que e para quem de um grupo social. É observável nas formas convencionais de relações de produção e de trabalho, assalariadas ou formais, e em todas as esferas da rede produtiva e reprodutiva de bens e serviços, remunerados ou não. O meio ambiente - Ou o contexto, o entorno, o ecológico. O homem é produtor e produto, processo e resultado do meio onde vive, parte integrante do ecossistema. Considerar o meio ambiente como um indicador social é compreendê-lo além de sua face meramente física e natural, como um elemento substantivo na constituição das expressões simbólicas, relações e processos humanos que serão o pano de fundo sobre o qual se construirá o desenho cultural de uma comunidade. A memória - Refere-se ao passado, à origem. Todos nós recebemos, desde o nascimento, uma carga de informações sobre o nosso passado recente ou remoto, guardado pela história ou pelo inconsciente coletivo ou pela tradição familiar. A memória de um grupo social se expressa em seus rituais sacros e profanos, repletos de elementos simbólicos perpetuadores dos vínculos e das matrizes geradoras desta comunidade. Jovens e participação social. Guia de ações

Textos 1 Arte: múltiplos olhares e fruições

jovens, na baixa estima social da coletividade, no comodismo e atraso em relação a outras comunidades. Isso explica por que as jovens do “sertão das gerais”, aos 17 ou 18 anos, começam a ficar “desesperadas” porque ainda não se casaram, “porque já passaram da época”. É que, na percepção delas, o tempo de juventude e de sonho já se realizou. Elas vivem em cidades que não têm cinema, grupo de teatro, biblioteca, festas populares, locadora de vídeos, grupos de jovens, coral ou banca de jornais. Não acontece nada nos fins de semana e muito menos no meio da semana. O mundo externo entra filtrado pela tela da TV ou pelas ondas do rádio. Por isso a maioria tem na própria TV (ou rádio) o seu instrumento de formação de “capital social”, ou seja, há um crescente processo de terceirização do desejo e alienação da vontade, gerando a não-participação e o não-protagonismo. As formas do fazer - São as respostas produzidas pelos homens às múltiplas necessidades humanas. Uma resposta bem-sucedida significa incorporação de um resultado. Assim surge o “uso” que, de caráter pessoal, passa a ser um “hábito” ao tornar-se de domínio de um grupo maior. A prática de um hábito cria o “costume”, uma das marcas de uma coletividade. A permanência do costume no tempo cria a “tradição”, marca registrada do fazer e do saber fazer de uma comunidade ou de um povo.

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Textos 1

A visão de mundo - É o religioso, o filosófico, o depois, o futuro, o sonho. É movido pela idéia do porvir que o homem investe seu tempo e energia para aprender, dominar, transformar e se apropriar do mundo à sua volta. Existe uma ligação entre a memória e a visão de mundo: quanto mais pudermos voltar no passado e na memória, mais longe poderemos chegar em direção ao futuro, ao estabelecermos links e passagens de força, equilíbrio e coerência entre o ontem e o amanhã. Mas é preciso cuidado para não se ficar preso ao passado. Quem não consegue ligá-lo de forma coerente ao seu presente, não consegue construir uma perspectiva de futuro de seu próprio mundo. Com esses indicadores construímos o “nosso” modelo de Cultura: esta rede e trama de relações que forma um padrão ou um desenho definidor da identidade da comunidade ou grupo social. E podemos pensar em processo cultural como a interação e as dinâmicas que afetam o padrão ou desenho. Assim, entendemos que um “projeto de desenvolvimento” (de qualquer natureza) é uma ação-intervenção planejada no desenho cultural (e suas relações) de uma comunidade. O planejamento de um desenho cultural brasileiro seja local, regional ou nacional , que constitui o cerne das propostas e políticas de desenvolvimento, deveria ter então como premissa e ênfase a heterogeneidade e a diversidade culturais, que de fato constituem a marca de nossa nacionalidade, o caráter de nosso país e sua verdade histórica. Percebê-las em seus microcosmos escola, família e comunidade torna-se uma das tarefas dos educadores. Canalizá-las para construções pedagógicas que favoreçam novos processos de apropriação de conhecimentos, geradores de “oportunidades-e-deopções”, pode ser o principal trabalho da escola. Esta é, cremos nós, a finalidade da cultura: ser instrumento eficaz do conhecimento, possibilitando leituras mais densas, mais ricas, mais sábias, mais abrangentes e mais humanas da nossa “travessia”, nessa busca permanente em nossa vocação natural para ser feliz.

ONDA Jovem. São Paulo, ano I, nº 3, nov. 2005/fev. 2006.

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Arte: múltiplos olhares e fruições

Tião Rocha é antropólogo, educador e folclorista. Foi professor da PUC-MG, da Universidade Federal de Ouro Preto e membro do Conselho Universitário da Universidade Federal de Minas Gerais. É presidente do CPCD Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, que fundou em 1984, em Minas Gerais.

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Ferreira Gullar

Textos 2

ANEXO 2

A beleza do humano, nada mais

Confesso que, espontaneamente, nunca me coloquei esta questão: para que serve a arte? Desde menino, quando vi as primeiras estampas coloridas no colégio (que estavam muito longe de serem obras de arte) deixei-me encantar por elas a ponto de querer copiá-las ou fazer alguma coisa parecida. Não foi diferente minha reação quando li o primeiro conto, o primeiro poema e vi a primeira peça teatral. Não se tratava de nenhum Shakespeare, de nenhum Sófocles, mas fiquei encantado com aquilo. Posso deduzir daí que a arte me pareceu tacitamente necessária. Por que iria eu indagar para que serviria ela, se desde o primeiro momento me tocou, me deu prazer? Mas se, pelo contrário, ao ver um quadro ou ao ler um poema, eles me deixassem indiferente, seria natural que perguntasse para que serviam, por que razão os haviam feito. Então, se o que estou dizendo tem lógica, devo admitir que quem faz esse tipo de pergunta o faz por não ser tocado pela obra de arte. E, se é este o caso, cabe perguntar se a razão dessa incomunicabilidade se deve à pessoa ou à obra. Por exemplo, se você entra numa sala de exposições e o que vê são alguns fragmentos de carvão colocados no chão formando círculos ou um pedaço de papelão de dois metros de altura amarrotado tendo ao lado uma garrafa vazia, pode você manter-se indiferente àquilo e se perguntar o que levou alguém a fazê-lo. E talvez conclua que aquilo não é arte ou, se é arte, não tem razão de ser, ao menos para você. Na verdade, a arte em si não serve para nada. Claro, a arte dos vitrais servia para acentuar atmosfera mística das igrejas e os afrescos as decoravam como também aos palácios. Mas não residia nesta função a razão fundamental dessas obras e, sim, na sua capacidade de deslumbrar e comover as pessoas. Portanto, se me perguntam para que serve a arte, respondo: para tornar o mundo mais belo, mais comovente e mais humano.

Arte: múltiplos olhares e fruições

ONDA Jovem. São Paulo, ano I, nº 3, nov. 2005/fev. 2006.

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Patrimônio Cultural: Uma releitura da cidade educadora “... a tarefa principal a ser contemplada em uma política de preservação e produção do patrimônio coletivo repousa no reconhecimento do direito ao passado enquanto dimensão básica da cidadania.” Maria Célia Paoli “... a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras.” Ítalo Calvino

Temáticas a serem exploradas

O filme Narradores de Javé (100’, direção de Eliane Caffé) e o curta metragem Dona Cristina perdeu a memória (13’, direção de Ana Luiza Azevedo), ambos produções brasileiras, são sugestões para refletir junto aos jovens sobre patrimônio histórico e cultural, memórias, identidades e sua preservação, sensibilizando para um olhar de afeto para as coisas e as memórias do lugar.

Memória e identidade, patrimônio histórico e cultural, inclusão cultural, cidadania cultural.

Objetivos Implementar atividades de resgate e identificação dos espaços de cultura e convivência usufruídos afetivamente pelos habitantes de uma comunidade ou cidade, fortalecendo vínculos culturais e de identidade. Contribuir para a melhoria da convivência social e atuação cultural dos jovens no seu entorno.

Apresentação do tema Um dos desafios que vem motivando a sociedade brasileira hoje é a constituição de um sistema cultural democrático, descentralizado e acessível que fomente, difunda e preserve a produção cultural, respeitando e valorizando a diversidade de manifestações e promovendo o protagonismo cultural dos mais diferentes setores da população brasileira. O acesso à cultura é um direito que precisa ser exercido. A produção de cultura é capaz de, a um só tempo, preservar o patrimônio simbólico, criar novos espaços de fruição e ampliar a formação do público, oportunizando o conhecimento e a incorporação dos valores tradicionais pelas novas gerações. Conhecer a tradição é ponto de partida para a reinterpretação da memória, o que torna possível ações de transformação. A arte e a cultura são importantes ingredientes de aproximação dos cidadãos aos espaços de convivência social. Através delas, é possível investir na am-

pliação das experiências de valorização e fruição da cultura, diminuir a distância entre as diversas manifestações culturais e legitimar as diferentes formas de produzir cultura. Para isso, é necessário que se criem oportunidades para analisar e usufruir aspectos ligados ao patrimônio cultural. Além disso, a cultura é instrumento de inclusão social e pode colaborar para que as pessoas se reconheçam como parte de um lugar e se responsabilizem socialmente pela preservação das manifestações artístico-culturais, engajando-se em ações que ampliem o acesso aos diferentes bens culturais, às informações, aos meios de difusão da cultura. O resgate e registro do conjunto de saberes, crenças, afetividades, valores, modos de ser e de fazer que compõem a identidade de um lugar, bem como o patrimônio natural e material (prédios, monumentos, objetos, etc), confirmam que a memória e a cultura são duas coisas indissociáveis.

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Patrimônio Cultural: Uma releitura da cidade educadora

“A cidadania cultural define a cultura como direito do cidadão e determina esse direito sob três aspectos: como direito de acesso à informação e fruição da criação cultural; como direito de produção de obras culturais; e como direito de participação nas decisões de política cultural” (Marilena Chauí).

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A forma como se reza, come, veste, dorme, mora, brinca, trabalha, estuda, educa, festeja, guerreia, sofre, cura, ama, casa, beija, dança, joga, ri, chora, governa, participa, planta, ajuda, relaciona, julga no sentido antropológico, representa a cultura de um povo. Os valores, as leis, as crenças, os comportamentos e as instituições são diferentes de um lugar para outro. Por isso, devemos falar em culturas. Ou multiplicidade cultural. Ou ainda em pluralidade cultural.

A existência de espaços de cultura e lazer pode ser entendida como qualidade de vida para todas as pessoas. Para os jovens, pode ser vista também como lugar de sociabilidade, ampliação dos saberes, participação e vivência da solidariedade e do diálogo intercultural e intergeracional. Em virtude disso, é importante ampliar os espaços públicos de cultura e lazer de modo que possam ser usufruídos por todas as pessoas, principalmente pelos jovens, para quem o presente interfere nas escolhas e abre perspectiva de projetos de futuro. Para tanto, é preciso oferecer oportunidades para que se transformem em agentes de cultura, iniciativas que possibilitem a educação do olhar para a realidade, a escuta sensível das expressões e memórias do outro, bem como a apreensão da produção cultural como manifestação da vida em

sociedade, de forma crítica. A participação juvenil vinculada à cultura e à convivência tem potencial para valorizar e resgatar a cultura local, assim como para ampliar a compreensão do seu valor, favorecendo a preservação do patrimônio cultural e o exercício da cidadania. Em razão disso, propõe-se uma ação educativa e pedagógica em sentido amplo, onde os jovens sejam atores do processo de descoberta das manifestações culturais locais, da valorização do patrimônio histórico e do planejamento de ações que resgatem as memórias e as identidades do lugar onde vivem, seja através da construção de conhecimento ou revitalização de espaços e de práticas culturais, seja através da proposição de espaços de convivência dos diferentes modos de expressão dos cidadãos.

“ Nos espaços da cidade, práticas culturais de seus moradores são identificáveis e se tornam concretas nos espaços fervilhantes das ruas, dos itinerários, dos lugares de encontro. [...] Os ruídos, os cheiros, os gestos, as vozes dos seus usuários, os comportamentos que se estabelecem marcam sua existência e lhes dão um caráter único.” Maria Beatriz P. Machado, educadora patrimonial.

“Os edifícios são a expressão mais clara de um povo em determinado momento histórico e são exemplos da sua forma de viver, da técnica disponível e de manifestação artística. Por constituírem criações mais duráveis do que as outras manifestações culturais, muitas vezes abrigando ou incorporando outras artes como a escultura, a pintura, o mobiliário e manifestações de caráter popular, as edificações constituem a grande maioria dos bens tombados, mesmo aqueles que o são apenas pelo seu significado histórico.” José Carlos Ribeiro de Almeida “Existe uma relação dialética entre nossas lembranças e nossa identidade. Construímos nossa identidade em relação a histórias de outras pessoas a nosso respeito e nossas próprias histórias a nosso respeito, histórias a respeito do nosso passado e nosso presnete e acerca daquilo que queremos nos tornar. Assim, nossa identidade é nossa percepção de quem somos agora, quem fomos e quem queremos nos tornar. A memória é uma parte crucial disso, pois uma parte muito importante é, “de onde vim”, “como me tornei quem sou agora”. Então, as maneiras pelas quais contamos nossas histórias do passado são uma das formas pelas quais construímos nossa percepção de quem somos agora.” Alistair Thomson

Jovens e participação social. Guia de ações

Patrimônio Cultural: Uma releitura da cidade educadora

“ A cultura, enfim, proporciona-nos um sentido do “nós” como membros de um grupo social que tem uma trajetória histórica; ela nos dá consciência de sermos continuadores de “outros”, porém semelhantes a nós”. Gimeno Sacristán

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Proposição 1° Momento - As marcas da nossa história Prepare uma sala ambiente com objetos representativos de uma época - fotografias antigas, peças de vestuário e ornamentos, louças, gravuras, pinturas, esculturas, peças de cerâmica, rendas, cestaria, tapeçaria, entalhes, xilogravuras, máscaras etc. Inicie o trabalho solicitando que os jovens circulem pela sala, observem os objetos e escolham um objeto. No grande grupo, cada jovem falará sobre as memórias ou pensamentos que tal objeto evocou. Após os depoimentos, explore os objetos, assumindo uma atitude interrogativa diante deles: em que situações eram utilizados? Como foram feitos? (técnica artesal ou fabril). Por quem eram utilizados? (levantar hipóteses). Possui elementos decorativos? Para que serviam? Solicite que os jovens pesquisem junto à família, vizinhança, na escola, se existem peças semelhantes. Em caso afirmativo, sugira que tragam o que for possível, para ampliar a exposição. Oriente para que investiguem a história dos objetos que encontrarem, situando-os no tempo e no espaço. Sugira que o grupo confeccione pequenas etiquetas de papel colorido e registre as informações mais relevantes sobre cada peça (data, autor, proprietário, local de origem, uso, explicações de um eventual narrador entrevistado, etc.).

2° Momento - O que é cultura? Divida os jovens em dois grupos e proponha a leitura do texto do Anexo 1. A seguir, proponha o debate em grande grupo sobre o conteúdo da leitura, mediados pelas seguintes questões: o que é cultura? Quem a produz? De que forma a arte expressa a cultura de um grupo social? Por que algumas pessoas falam em cultura e outras em folclore? Por que alguns trabalhos são considerados arte e outros artesanato? Elabore sínteses coletivas após o debate e registre-as em painel de papel pardo para ser afixado na parede, próximo ao lugar onde estão expostos os objetos.

Proponha a realização de uma pesquisa nos bairros, comunidades, entorno da escola; com familiares, pessoas mais antigas do lugar, artistas etc. O anexo 3 traz uma sugestão para o roteiro da pesquisa e pode ser transformado em entrevista. Os jovens poderão propor diferentes formas de divulgação dos resultados da pesquisa. Dentre eles, poderão organizar passeios orientados para reconhecimento e valorização do patrimônio de suas cidades, convidando outros jovens a participarem do passeio, ou estudantes do ensino fundamental, de modo a sensibilizarem outros jovens para a importância do patrimônio, como está sugerido ao final desta estratégia. Jovens e participação social. Guia de ações

Patrimônio Cultural: Uma releitura da cidade educadora

3° Momento - Quem somos nós? Desafie os jovens a identificarem o patrimônio cultural do lugar onde vivem a partir das seguintes questões: Você já parou para olhar a arte e a cultura local? Quais as manifestações artísticas e culturais mais típicas do seu lugar? Quem são, o que fazem, o que valorizam, como se relacionam as pessoas do seu lugar?

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Que tal? Caso disponha de tempo e recursos, proponha, ainda, que os jovens fotografem em colorido o patrimônio arquitetônico que está sendo preservado na comunidade/cidade e em preto e branco o que não está sendo cuidado para organização de uma exposição em um local público (banco, estabelecimentos comerciais, museus...), com o título: Patrimônio arquitetônico: anúncio e denúncia. Também pode-se sugerir a organização de uma Feira Cultural na

4° Momento - Um outro olhar Mapeie, junto com os jovens, os pontos mais tradicionais da cidade, antigos trajetos, casas antigas, monumentos, igrejas, biblioteca pública, museus, centros culturais, local de feiras e exposições, praças, entre outros, e trace um roteiro que retome os passados ainda presentes nas marcas da cidade ou da comunidade, a fim de que planejem uma saída de campo do grupo. A saída realizará um circuito de reconhecimento do patrimônio histórico local, de modo que os jovens sejam sensibilizados a dar maior atenção à memória e à identidade do lugar onde vivem. Durante o trajeto, sugira que os jovens relatem informações prévias que possuem sobre cada local, partilhando-as no grupo.

Possível continuidade Caso disponha de tempo e haja interesse dos jovens, distribua-os em dois grupos. O primeiro grupo organizará uma investigação na cidade, para descobrir antigos e atuais movimentos culturais e artistas locais (pintores[as], escultores[as], escritores[as], ceramistas, artesãos, poetas, compositores[as], cantores[as], atores e atrizes, cordelistas, trovadores, cartunistas etc.). O segundo grupo resgatará as diferentes manifestações de cultura popular de que as pessoas do lugar têm memória (brincadeiras infantis, cantigas, dança, teatro, música, culinária, entre outros), que poderão ser revividos e reatualizados. Sugira, ainda, que os jovens aprimorem o circuito percorrido, organizando uma espécie de “tour de sensibilização para a importância do patrimônio cultural”, de modo que possam guiar outras turmas da escola ou grupos de crianças e jovens da cidade, que freqüentam escolas de periferia ou instituições, como atividade cultural alternativa a ser oferecida gratuita e voluntariamente aos mesmos. Os jovens propositores poderão elaborar guias educativos impressos, mini-mapas e outros materiais, a serem criados pelo grupo, e que serão distribuídos aos participantes do tour. O oferecimento do tour poderá ser periódico e divulgado em diferentes espaços.

Planejando o encontro Você vai precisar: Papel pardo. Cartões coloridos. Espaço para montar a exposição. Você tem que providenciar: Cópias dos textos para leitura dos jovens. Objetos antigos variados. Não esqueça: De providenciar algumas peças para iniciar a exposição. De orientar a utilização do roteiro da pesquisa. De consultar sites relacionados ao assunto: www.iphan.gov.br, www.cultura.gov.br, www.unesco.org.br, www.scp.rs.gov.br/atlas/atlas.asp?menu=459#.

Tempo sugerido 4 encontros

Jovens e participação social. Guia de ações

Patrimônio Cultural: Uma releitura da cidade educadora

A cidade é lugar de uma multiplicidade de tempos que convivem, como se fossem camadas, nas paredes, nas ruas, nas praças, nas igrejas… É uma espécie de caixa de memórias, repleta de evocadores: Sua materialidade (arquitetura, traçados,…) Suas cenas, paisagens Suas cores e texturas Seus odores e sabores Seus sons, ruídos, melodias, silêncios Seus hábitos, costumes, modos de fazer Suas produções artísticas Enfim, suas visibilidades e invisibilidades

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Referências ALMEIDA, José Carlos. Disponível em: www.mre.gov.br/cdbrasil/itamaraty/web/port/artecult/patrim/apresent/ CHAUÍ, Marilena. Conformismo e resistência: aspectos da cultura popular no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1994. COELHO,J. T. Dicionário Crítico de Política Cultural. São Paulo: Iluminuras, 1999. FORQUIN, J. C. Escola e Cultura: as bases epistemológicas do conhecimento escolar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993. MACHADO, M. Beatriz P. Educação patrimonial: orientação para professores do Ensino Fundamental e Médio. Caxias do Sul: Maneco, 2004. MEC. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos de ensino. Apresentação dos temas transversais. SEF. Brasília, 1998. SACRISTAÁN, Gimeno. Educar e conviver na cultura global: as exigências da cidadania. Porto Alegre: Artmed, 2002 THOMSON, Alistair. Recompondo a memória: questões sobre a relação entre a história oral e as memórias. Ética e história oral. São Paulo. N. 15. Abr. 97. p.51-84.

Glossário Cidadania cultural: é o direito à liberdade de criação cultural sem negar o valor da tradição, à participação nas decisões culturais, à expressão da diversidade. A inclusão cultural é decisiva para os processos de transformação social e melhoria da qualidade de vida.

Anexos 1. Texto para leitura dos jovens 2. Roteiro para pesquisa

Patrimônio Cultural: Uma releitura da cidade educadora

escola, aberta a toda comunidade, que contemple a socialização das descobertas e fotografias referidas acima, a experimentação e vivência de antigas tradições, através do convite à apresentação de artistas populares da cidade, assim como possibilite a reflexão sobre a importância do fortalecimento de vínculos culturais para a projeção de um futuro sustentável, proposto pelos jovens.

Jovens e participação social. Guia de ações

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Gilberto Gil - Ministro da Cultura, fragmento do discurso de posse, 2003.

Jovens e participação social. Guia de ações

Texto complementar

existe “folclo re existe é cultu ”, o que ra como tudo a . Cultura quilo que, no uso de q ua coisa, se ma lquer nifesta para além d o mero valor de uso .C como aquilo ultura que, em cada objeto que produzimos, transcende o meramente técnico. Cultura, com o símbolos de usina de um povo. Cultura, com o de signos de conjunto cada comunidade e de toda a Nação. Cu ltu o sentido de ra, como nossos atos, a som a de nossos gestos, o se nso de nossos jeito s. (...) O acess o à cultura é um direito básico de cidadania, a ss o direito à e im como ducação, à saúde, à vid a num meio ambie nte saudável. P orque, ao investir nas co de criação e ndições pro estaremos to dução, mando uma iniciativ ad conseqüênci e as imprevisíveis , mas, certamente, brilhantes e profundas já que a criatividade popular brasileira, d os primeiros te mpos coloniais ao sd hoje, foi sem ias de pre muito além do que p as condiçõe ermitiam s educacionais , econômicas sociais e de nossa existência.

Patrimônio Cultural: Uma releitura da cidade educadora

ANEXO 1

(...) Cultura, como é alguém já disse, não cie pé es apenas “uma de ignorância que distingue os estudiosos”. Nem somente o que se s produz no âmbito da as ad niz no formas ca pelos códigos ocidentais, com as suas hierarquias o suspeitas. Do mesm ui aq ém gu modo, nin ciar vai me ouvir pronun Os . a palavra “folclore” o vínculos entre conceito erudito de “folclore” e a l discriminação cultura são mais do que . estreitos. São íntimos o uil aq o tud é “Folclore” se o que, nã a enquadrando, por su antiguidade, no panorama da cultura ido de massa, é produz r po a, ult inc nte por ge os itiv rim “p contemporâneos”, como uma espécie de enclave simbólico, historicamente atrasado, no mundo tos atual. Os ensinamen me i rd Ba de Lina Bo preveniram a definitivamente contr o Nã essa armadilha.

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a cultural auxilia io n ô im tr a p o r Conhece o: que está próxim o ra a p r a lh o o educar gar (quem é a - a história do lu onde provêm); população e de tivas tividades produ a e s re ze fa a s -o m as pessoas); ta n e st su se e (como vivem e rais (atividades - os hábitos cultu cal); lo ssam a cultura re xp e e u q s e d atitu expressão e - as formas de oa rais (forma com ltu cu s e çõ a st manife reconhecida); comunidade é ento com a - o comprometim cultura e o preservação da a social to da convivênci n e m a o iç e rf e p a zar e das para valori (práticas realiza rar os ra local e melho ltu cu a r a rv se pre ração); níveis de coope ações jovens (manifest s o d o sã u cl in s -a ximam os joven ro p a e u q is n culturais juve e tradições). de suas raízes

Roteiro para pesquisa

para pesquisa

Patrimônio Cultural: Uma releitura da cidade educadora

ANEXO 2

Quem somos nós - roteiro

Jovens e participação social. Guia de ações

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Empreendedorismo cultural:

ENTRE

construindo espaços de encontro juvenil

“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas dunas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, (...) que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, (...) pediu ao pai: - Me ajuda a olhar!” Eduardo Galeano “Teus atos te inventam, nossos atos reinventam o mundo.” (V Fórum de Protagonismo Juvenil do DF)

Temáticas a serem exploradas Manifestações culturais juvenis, direitos culturais, participação, protagonismo juvenil, empreendedorismo cultural.

Objetivos Valorizar as demandas juvenis por atividades culturais através do incentivo a ações de empreendedorismo cultural. Criar oportunidades de expressão das manifestações culturais juvenis. Estimular a convivência solidária por meio do planejamento de eventos culturais públicos, idealizados e executados pelos jovens. Programar fóruns de comunicação entre as juventudes.

Jovens e participação social. Guia de ações

Empreendedorismo cultural:

ENTRE

relações sócio-culturais, que implicam em cooperação, diálogo, participação democrática, sensibilização, negociação etc. Outra particularidade deste tipo de empreendedorismo é o estímulo à participação e à expressão de idéias e valores, assim como o incentivo à criação de condições para que as pessoas construam coletivamente uma visão de futuro e se responsabilizem por ela. O empreendedorismo cultural está ligado à cidadania cultural e, através de ações dessa natureza, é possível valorizar manifestações culturais, potencializar soluções para que os diferentes grupos sociais tenham acesso às iniciativas disponíveis à fruição e se reconheçam como produtores de cultura. É importante registrar que o empreendedor cultural não é apenas

construindo espaços de encontro juvenil

Apresentação do tema O termo empreendedorismo já é bastante conhecido e, não raro, é relacionado com algum negócio de sucesso. Entretanto, nos últimos anos, outras concepções de empreendedorismo têm sido elaboradas, a exemplo do empreendedorismo cívico, do social, do cultural, entre outros. A capacidade de projetar ações e objetivos para o futuro e criar meios de realizar esses projetos é a principal característica empreendedora, embora sua prática dependa também das experiências de vida e oportunidades, dos valores e das escolhas pessoais e grupais. É uma capacidade individual, mas também coletiva. Empreendedores sociais e culturais se aproximam à medida que seus projetos de futuro incluem a promoção de “mudanças” nas

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um agente, mas alguém que questiona padrões, que vê nas diferentes expressões culturais a marca da história, das identidades, dos valores. O empreendedorismo cultural se expressa na iniciativa para promover situações que façam valer os direitos de produção cultural, compreendida, de acordo com Carrano (2005), como acesso a produtos, informações, meios de produção, difusão e valorização da memória cultural coletiva. A formação empreendedores culturais constitui uma iniciativa de mobilização de jovens, uma vez que estimula a participação, pois identifica potencialidades e problemas a serem enfrentados coletivamente, planeja os meios para superá-los, executa ações planejadas, desenvolve a capacidade de agir solidariamente em grupos, avalia os efeitos das experiências e busca compreendê-los numa perspectiva crítica. Participação solidária e empreendedorismo cultural podem ser aproximados como forma de exercício da cidadania cultural. Neste caso, ao visarem a realização de eventos que contemplem preferências juvenis de diversão e de produção cultural, se constituem em

ponto de encontro para troca de experiências, dos jovens entre si e dos jovens com suas comunidades, valendo como oportunidades de vivência de valores. Muitas vezes, a experiência coletiva de organizar e realizar eventos poderá levar os jovens a formularem causas de mobilização, como, por exemplo, festivais de música pela paz, mostra de grafites pela valorização da vida, dia de conscientização pela defesa do meio ambiente, etc. O empreendedorismo cultural é uma experiência importantíssima para os jovens que, nos nossos dias, produzem seus estilos e direções de vida a partir da produção cultural, através das quais experimentam novos modelos sociais, compartilham projetos pessoais e do grupo, desenvolvem vínculos de solidariedade e responsabilidade. Se a matéria-prima do empreendedorismo cultural de jovens é a abertura de espaços para suas manifestações culturais, nas suas diferentes linguagens, as repercussões dessas experiências representam um ganho social para todos pois, na produção cultural, os jovens ampliam seus horizontes e participam da reinvenção do mundo.

“O planejamento de um desenho cultural brasileiro deveria ter como premissa a heterogeneidade e a diversidade culturais, que constituem a marca de nossa nacionalidade”. Tião Rocha, antropólogo e fundador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, MG. Jovens e participação social. Guia de ações

Empreendedorismo cultural:

Aprender a respeitar as diferentes manifestações culturais de jovens educa, também, para o respeito às diferentes manifestações culturais, da tradição ou da inovação, presentes na história, nas sociedades, nas culturas, nos diferentes lugares. O respeito à diversidade cultural é uma das formas da ação solidária.

ENTRE

“A realização de eventos culturais públicos, tais como bailes, shows, concertos, recitais etc. é uma maneira de estimular a convivência coletiva de múltiplos grupos juvenis e a intergeracionalidade.” Brenner, Carrano e Dayrell (2005).

construindo espaços de encontro juvenil

As inúmeras manifestações culturais juvenis apontam para a importância de se reconhecer e valorizar os jovens como criadores de cultura, numa perspectiva afirmativa, o que impede de rotulá-los como ociosos, alienados.

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Proposição 1° Momento Proponha aos jovens que cantem juntos a música de Gilberto Gil Eleve-se alto ao céu (anexo 1). Todos podem estar de pé, formando um círculo na sala, com a letra impressa em mãos. Convide-os a cantar e dançar juntos. Escute mais de uma vez. Vale deter-se em conversar sobre as diferentes expressões a partir da canção: a música propriamente dita (estilo musical, melodias, associações com outras músicas, etc), a dança (ritmos, estilos), os desenhos e ilustrações produzidas pelo grupo (as imagens expressas em sua diversidade), a letra (metáforas, rimas, expressões criadoras, etc), a relação da melodia com a letra ... O próprio exemplo desta vivência mostra a multiplicidade das linguagens possíveis na produção cultural. .

Indague, após as execuções da música (manifestações espontâneas): .

Se o grupo manifestar interesse e empolgação com a música, pode-se propor também: se vocês tivessem que desenhar algo que vêm à mente quando escutam essa música, o que seria? .

Pode-se oferecer uma folha branca para cada um e pedir que desenhem o que vem à mente enquanto escutam a música pela terceira vez. .

Feitas as ilustrações, sugira que mostrem e socializem, explicando o que desejaram expressar.

2° Momento Faça a leitura coletiva da notícia do anexo 2. .

Investigue se os jovens conhecem iniciativas semelhantes nos lugares onde vivem. .

Acesse o site www.interagir.org.br para pesquisar o histórico da organização, a estrutura do evento, objetivos, programação e outras notícias. .

Problematize a motivação dos jovens para a organização de um Fórum de Protagonismo e a importância de espaços de comunicação juvenil. .

Solicite que, em grupos, registrem, em papel pardo, o resultado da consulta ao site e apresentem ao grande grupo suas observações. .

.

Registre os temas e expressões culturais em cartões coloridos, cuidando para que apareça apenas uma palavra em cada cartão. Solicite que, dois a dois, os jovens afixem os cartões com fita adesiva em um painel de papel pardo organizado em duas colunas (temas e expressões culturais) e que procurem, a cada vez, aproximar de outros cartões afixados pela coincidência da palavra ou da idéia. .

Empreendedorismo cultural:

3° Momento Desafie os jovens a partir da seguinte questão: Se o seu grupo resolver organizar um evento para reunir jovens, que temas você gostaria que fossem debatidos? Ou ainda, que expressões culturais você gostaria que fossem apresentadas? Por quê?

construindo espaços de encontro juvenil

Pode-se, ainda, propor que realizem um levantamento: Há eventos, em sua cidade ou escola, organizados pelos próprios jovens? Quais? Que expressões culturais são valorizadas?

ENTRE

Alguém gostaria de dizer algo sobre esta música? O que sentiram ou pensaram sobre a música? Ela diz algo para os jovens? E os ritmos? São familiares ou estranhos?

Sugere-se que o educador esteja atento às temáticas que representam Jovens e participação social. Guia de ações

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urgência social e que faça a mediação, trazendo para debate questões que fazem parte do universo juvenil (anexo 3). .

ENTRE

Após, solicite que, espontaneamente, comentem o que aparece no painel, discutindo os temas e as expressões culturais mais indicadas e as menos indicadas. Após as discussões, elaborade uma lista de temas que representam os interesses dos jovens, definidos de comum acordo.

4° Momento Caso os jovens manifestem o desejo de organizar um evento (encontro, fórum, festival, seminário, jornada, congresso, etc.), é importante que conheçam diferentes atividades, que podem ser organizadas em torno de um tema geral, definido de comum acordo. .

Antes de planejar a estrutura do evento que desejam realizar, é aconselhável que exercitem a simulação de modelos apresentados pelo educador (anexo 4).

5° Momento Apresente em forma de cartaz a estrutura dos eventos simulados. .

Debata a viabilidade de realização de um encontro ou fórum, considerando a disposição dos jovens para se responsabilizarem pela decisão, planejamento, execução e avaliação dos resultados alcançados na perspectiva do protagonismo juvenil.

Você vai precisar: Papel pardo para a elaboração dos cartazes Cartaz com os temas do anexo 2

Você tem que providenciar: Sala de informática com acesso à Internet Matriz e esquema do anexo 3

Não esqueça: De providenciar cópias da letra da música (anexo 1) e do texto (anexo 2).

Tempo sugerido Referências

Uma alternativa, ainda, pode ser a retomada da música ao final do encontro, propondo, como síntese, a elaboração de uma paródia cuja letra aborde o que foi refletido e discutido no encontro.

BRENNER, A.K.; CARRANO, P; DAYRELL, J. Culturas do lazer e do tempo livre dos jovens brasileiros. In: ABRAMO, Helena e BRANCO, Pedro P. M. (orgs). Retratos da Juventude Brasileira: análise de uma pesquisa nacional. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo Instituto Cidadania, 2005. ABRAMO, Helena; SPOSITO, Marilia; FREITAS, Maria Virgínia (orgs). Juventude em debate. São Paulo: Cortez, 2000. CARRANO, Paulo César R. Juventudes e cidades educadoras. Rio de Janeiro: Vozes, 2003. DOLABELA, Fernando. Empreendedorismo, uma forma de ser: saiba o que são empreendedores individuais e empreendedores coletivos. Brasília: AED, 2003. Jovens e participação social. Guia de ações

construindo espaços de encontro juvenil

3 encontros de 4 horas

Empreendedorismo cultural:

Se estiver acontecendo algum evento no município, o educador poderá formar um grupo para participar e observar a forma como se organiza, se inclui interesses do jovem e se atende às demandas de participação que os jovens têm.

Planejando o encontro

ENTRE

Que tal?

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______. Empreendedorismo: a reinvenção através do sonho. Brasília: SEBRAE, s.d. NOVAES, Regina; VANNUCHI, Paulo (orgs). Juventude e sociedade: trabalho, educação, cultura e participação. São Paulo: Fundação Perseu Abramo Instituto Cidadania, 2004. WEISS, Zezé (coord). Vozes jovens. Brasília: Banco Mundial, 2004.

Glossário Cidadania: em breves palavras, significa o direito a ter direitos e, em geral, é associada a direitos políticos. Ampliar o sentido da cidadania e incorporar a reflexão sobre a cidadania cultural, implica em reconhecer as diferentes tradições e manifestações culturais presentes numa determinada sociedade, ser capaz de valorizá-las e fazer com que estas diferentes tradições e manifestações tenham espaços na sociedade como um todo. Nesse sentido, é fundamental para uma democracia plena o reconhecimento da cidadania cultural, e a educação tem uma especial contribuição nesta perspectiva. .

A produção cultural dos movimentos: não se restringe à música e expressa a compreensão que os jovens têm da sua realidade, o que comunicam por meio de representações teatrais, dança, ilustrações e grafites, fanzines, poesias, blogs, etc. .

Painel: reunião em que uma mesa, constituída por palestrantes e pessoas envolvidas em determinado assunto, apresentam pontos de vista a respeito de um tema ou relatam experiências, a fim de serem debatidos pela plenária. .

Oficina: a oficina é uma atividade de vivência que pressupõe participação ativa para a elaboração de conceitos e práticas e que exige maior proximidade entre os participantes e quem coordena o trabalho. .

Fórum: reunião, congresso, conferência que envolve debate de um tema e troca de experiências através de diferentes atividades. .

Plenária: local onde se reúnem todos os participantes do evento.

Empreendedorismo cultural:

ENTRE

1.Letra de música. 2.Notícia para leitura dos jovens. 3.Sugestões de temas para serem abordados em encontros de jovens. 4.Matriz e esquema para organização de eventos. 5.Depoimentos de jovens e educadores.

construindo espaços de encontro juvenil

Anexos

Jovens e participação social. Guia de ações

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Você que eleve-se alto ao céu Com seus pés no chão Eleve-se alto ao céu Que o reggae é o dono do salão

Letra de música

ANEXO 1

Eleve-se Alto Ao Céu (Lively Up Yourself) Composição: Gilberto Gil

Você que eleve-se alto ao céu E não diga não Você que eleve-se alto ao céu Em afirmação Que que cê fez então? Cê faz assim, faz assim Como nunca fez em mim Cê que sobe assim, desce assim Dança pra mim Cê vem assim, vai assim, assim Skanka assim, skanka assim Skankaradamente

Empreendedorismo cultural:

ENTRE

Eleve-se alto ao céu Com seus pés no chão Você que eleve-se alto ao céu Que o reggae é o dono do salão

construindo espaços de encontro juvenil

Você que eleve-se alto ao céu Não diga não Você que eleve-se alto ao céu Assim diz o papaizão

Jovens e participação social. Guia de ações

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Mais de 300 jovens são esperados para participarem de momentos de discussão e integração por Bárbara Lins Reunir jovens e buscar idéias para melhorar o país. Esta é a proposta do Fórum de Protagonismo Juvenil do Distrito Federal (FPJ), um ponto de encontro, integrando jovens com diferentes interesses. A quinta edição acontecerá nos dias 27 e 28 de maio na Escola Parque 303/304 de Brasília e tem como tema “Teus atos te inventam, nossos atos reinventam omundo”. O F ó r u m , i n i c i a t iva d a O rg a n i z a ç ã o n ã o Governamental Interagir, acontece anualmente desde 2001. Segundo Juliana Mendes, uma das coordenadoras

Notícia para leitura dos jovens

ANEXO 2

V Fórum de Protagonismo Juvenil do DF acontecerá em maio

do evento, a iniciativa surgiu porque havia muitas pessoas trabalhando na área social e desenvolvendo projetos, mas não se conheciam. Assim, o FPJ existe como um espaço de encontro. Não só de pessoas que já estavam desenvolvendo algum trabalho, mas daquelas que queriam fazer algo, mas não sabiam por onde começar. O Interagir pretende com o Fórum formar uma rede de jovens que possam se perceber como protagonistas na sociedade a partir da troca de contatos e da integração durante o evento, além de fortalecer organizações e projetos de juventude. Em cinco anos de existência mais de mil jovens participaram do evento. As atividades realizadas em cada um dos quatro fóruns sempre buscaram a integração dos participantes para que surgissem novas idéias e iniciativas que mostrassem aos jovens sua responsabilidadediantedarealidade.

Juventude na Política

ENTRE

www.protagonismojuvenil.org.br/forum/noticias.htm

construindo espaços de encontro juvenil

organizações sociais e momentos coletivos em que os jovens refletirão formas de ação sobre três degraus: Interesse, Comunicação e Reinvenção. A expectativa é que 300 jovens do Distrito Federal e de outros Estados participem do encontro. Ao final do fórum Juliana espera que as pessoas se sintam mudadas de alguma forma. “Sabemos que o fórum não será necessariamente um marco na vida de todos e todas. Porém, é um espaço de celebração voltado para o diálogo e a descoberta do outro e de outras possibilidades”, enfatiza.

Empreendedorismo cultural:

Em ano de eleição, o cenário político ganhará destaque na 5ª edição do Fórum. O objetivo é mostrar aos jovens que as questões políticas não estão restritas ao Congresso Nacional e que ele possui um grande poder de participação nos diversos espaços políticos do país. Também é importante para eles perceberem que é possível falar de política de maneiras diferentes das tradicionais. Para os dois dias do evento estão previstas diversas atividades. Entre elas, oficinas, palestras, visitas a estandes de

Jovens e participação social. Guia de ações

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Tema 3- Meio ambiente e desenvolvimento sustentável Muitos grupos de jovens têm se formado em torno da preocupação com o futuro planetário e das próximas gerações, apontando ações concretas nas quais é possível intervir. Tal engajamento pode ser visto como uma nova forma de fazer política.

Tema 4- Cultura e juventude O contato com atividades artístico-culturais emociona e desenvolve a percepção estética. A música,o teatro, a dança, o desenho, a poesia expressam sentimentos, comunicam pensamentos e ampliam a visão de mundo.

Tema 5- Protagonismo juvenil e empreendedorismo cultural Ao olharmos para as diversas juventudes como produtoras de cultura e com potencial para empreenderem culturalmente, percebemos que é preciso valorizá-las como capital humano. Quando nos deparamos com a sua capacidade de organização, de formar redes e de intervir na construção de um futuro com mais solidariedade e eqüidade, compreendemos sua potencialidade como capital social.

Jovens e participação social. Guia de ações

Sugestões de temas para serem abordados em encontros de jovens

A juventude vem assumindo sua condição de sujeito de direitos ao influenciar políticas públicas e mobilizar outros jovens para ampliar os movimentos juvenis na busca da cidadania.

construindo espaços de encontro juvenil

Tema 2 - Políticas públicas de juventude

Empreendedorismo cultural:

A participação social dos jovens é muito importante para que se efetivem as transformações que desejam para si e para o local onde vivem.

ENTRE

ANEXO 3

Tema 1 - Juventude e participação social

145


Principalmente para os jovens, as atividades de lazer se constituem num espaço/ tempo singular para a construção da identidade pessoal e coletiva (Carrano, 2003). Por outro lado, as formas de socialização decorrentes do lazer e da vivência de atividades culturais têm potencial para mobilizar os jovens para a auto-organização e possibilitam a formação de grupos para a participação social.

Tema 7- Os jovens e a cultura da paz A Cultura de Paz é a Paz em ação; é o respeito aos direitos humanos no dia-a-dia; é um poder gerado por um triângulo interativo de paz, desenvolvimento e democracia. Trata-se de tornar diferentes indivíduos capazes de viverem juntos, de criarem um novo sentido de compartilhar, ouvir e zelar uns pelos outros, e de assumir responsabilidade por sua participação numa sociedade democrática.

ENTRE

Empreendedorismo cultural:

construindo espaços de encontro juvenil

Programa Cultura da Paz, 2001-2010, UNESCO.

Sugestões de temas para serem abordados em encontros de jovens

Tema 6 - Arte, cultura e lazer

Jovens e participação social. Guia de ações

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FINALIDADE

Transformar a prática ambiental da juventude local.

OBJETIVO

META

AÇÃO

AVALIAÇÃO

Que a juventude se organize para agir coletivamente em favor da sustentabilidade ambiental. Sensibilizar os jovens para a mudança de hábitos.

- Reduzir em 20% o uso de produtos descartáveis por parte dos jovens.

Produzir e distribuir material informativo Realizar oficina de educação ambiental.

Investigar a mudança de hábitos de consumo da juventude local e o impacto causado nas vendas de descartáveis depois da ação.

b) Organizando um evento Nome do evento

Foco principal

TEMAS

I Fórum Cultural da Juventude Jornada da Juventude Empreendedora Encontro de jovens protagonistas Seminário de participação juvenil

Por uma juventude cidadã Vozes das juventudes Pintando ações na cidade

Matriz e esquema para organização de eventos.

ANEXO 4

a) Exercitando um planejamento

Meio ambiente e desenvolvimento sustentável Arte, Cultura e Lazer Cultura e juventude Políticas públicas de juventude Os jovens e a cultura da paz

Plenárias

- Apresentação das reflexões provocadas pelos painéis - Exposição de experiências que comprovam ou questionem os pontos de vista dos palestrantes - Plenária de encerramento, avaliação

Expressões Culturais

- A ocorrerem nos intervalos entre uma atividade e outra, contemplando diferentes modalidades (teatro, música, poesia, exposições, improvisações, a arte do clown, malabarismo, capoeira, dança etc.)

Jovens e participação social. Guia de ações

- Tendas para a exposição de materiais, artesanato, fotografias, etc. - Barracas de comidas típicas, rodas de conversa, apresentação de filmes. - Estande de livrarias. - Confraternizações coletivas.

Empreendedorismo cultural:

Oficinas

- Organização de esquetes teatrais - Elaboração de projetos - Diagnóstico participativo

Atividades paralelas

ENTRE

Painéis

- A música como manifestação das culturas juvenis - Os jovens e a cidadania cultural - Ações de empreendedorismo cultural: a experiência de projetos de protagonismo

construindo espaços de encontro juvenil

Atividades

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“Os jovens se empenharam na realização do evento. Um acontecimento democrático, onde eles tiveram a oportunidade de pensar desde o planejamento até a avaliação de seus planos. Aconteceram reuniões nas cidades que compõem o Pólo para organizar e dividir tarefas. O evento que eles organizaram foi um borbulhar de cultura popular, jovens e convidados puderam se reconhecer na banda de pífaro, nos repentistas, no artesanato, no mamulengo, no teatro, e perceberam as marcas de um povo batalhador, que reage, não se cala e sabe que não há desenvolvimento sem justiça social.”

Andson Nunes da Silva, educador social, Toritama, PE. Projeto: Juventude protagonista do Pólo de Confecções do agreste pernambucano Jovens e participação social. Guia de ações

construindo espaços de encontro juvenil

Janaina de Melo, 18 anos, jovem de Olho D'Água do Casado, AL. Projeto: Adolescente protagonista do Xingó.

Empreendedorismo cultural:

“No começo, a maioria dos jovens não sabia falar. Depois que as atividades começaram, ficou todo mudo mais solto. Não só no grupo, mas nos fóruns também.”

Depoimentos de jovens e educadores

José Roberto Vasconcelos, 16 anos, jovem de Santa Cruz do Capiberibe, PE. Projeto: Juventude protagonista do Pólo de Confecções do agreste pernambucano.

ENTRE

ANEXO 5

“O protagonismo faz com que os jovens desenvolvam suas habilidades como agentes sociais e culturais. Junta a força e a vontade do jovem de fazer ações produtivas para as coletividades. Faz com que o jovem utilize o seu tempo livre para formar uma sociedade melhor, usando o seu próprio suor.”

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Fabiano Leal, 18 anos, jovem de Lauro Müller, SC. Programa: Empreendedorismo do Jovem Rural.

Jovens e participação social. Guia de ações

Depoimentos de jovens e educadores construindo espaços de encontro juvenil

“(...) Para que isso acontecesse, vários conceitos e valores que em minha mente estavam gravados, tiveram que ser repensados: a importância de respeitar e entender as diferenças entre as pessoas, de que somos parte do meio-ambiente e dele necessitamos para a sobrevivência, sobre a preservação da nossa cultura, sobre a necessidade de diminuir os impactos ambientais. Além do entendimento de que a melhoria da renda da família pode se dar através de ações do empreendedorismo do jovem rural, hoje tenho consciência do efeito de nossas ações para as futuras gerações. Tudo isso, e muitas outras coisas, hoje servem de base para que nós jovens tenhamos iniciativas protagonistas em nossas vidas e na sociedade. Hoje tenho muita consciência do meu papel como ator social e estou atuando de forma que possa passar meus conhecimentos a outros jovens rurais, participando de outros projetos de mudança.”

Empreendedorismo cultural:

Renato José da Mata, educador, Bom Jesus do Itabapoana, RJ. Projeto: Atuação Jovem

ENTRE

“Protagonismo não é deixar o jovem à solta, simplesmente aguardando sua vontade de participar de tarefas que levem às ações. Devemos abrandar o medo de agir, o que pode ser feito através de problematizações bem planejadas. Considero que contextualizar e questionar os jovens sobre a provável eficiência de seus planos é uma forma de organizar a reflexão, como se fosse um alinhavo, e isso é diferente de induzir. Muito diferente.”

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Leitura como experiência social e solidária Temáticas a serem exploradas Participação social, jovens e leitura, literatura

Objetivos Promover ações solidárias que incentivem e estimulem a leitura na escola/comunidade, contribuindo para a democratização de oportunidades de acesso ao material escrito e para a formação de sujeitos leitores, divulgando culturas, linguagens e mídia.

Apresentação do tema minando conhecimento e possibilitando o acesso a essa forma de lazer, instaura o hábito da leitura por prazer e é uma forma de aquisição e difusão da cultura. Logo, o protagonismo dos jovens, em atividade desse porte possibilitará investir no resgate da leitura como fonte de cultura e prazer, além de repercutir positivamente até mesmo na escola, que passará a receber alunos já identificados com competências que ela tem a responsabilidade de desenvolver. Além disso, apostar nos jovens como multiplicadores de leituras, pode levar à constituição de uma rede de sensibilização e mobilização para o livro como fonte de prazer artístico, abrindo perspectiva de que os jovens indiquem e disseminem suas preferências literárias e as atribuições de sentido que fazem à literatura que escolhem ler.

Leitura Literária é uma prática cultural que: compõe a pluralidade de práticas sociais de leitura; preserva a memória social; dá voz e história a quem a exercita; possibilita que o local/ regional/ individual repercuta num espaço global; constitui-se em um direito de cidadania.

Jovens e participação social. Guia de ações

Leitura como experiência social e solidária

Projetos de incentivo à leitura são importantes por estimularem a capacidade imaginativa e de experimentação, propiciada pela literatura. A leitura possibilita desdobramentos que levam à recriação e discussão de acontecimentos, a invenções e ampliações de sentidos, à inquietação pelo lido, percebido e pelo que pode vir a ser. Implica não somente o prazer, mas o direito de escolha, de apreciação e de conversas interiores. O acesso à leitura é um direito do cidadão e precisa ser assegurado. Oficinas de leitura possibilitam troca de experiências entre oficineiros e demais participantes, formam multiplicadores, implementam novas estratégias, inserem novos atores no convívio social. Incentivar os jovens para ações que promovam o desenvolvimento da competência leitora nas pessoas da própria comunidade, disse-

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"O que estimula as crianças a ler e com isso a aprender a ler, não é alguma promessa de satisfação no futuro, ou uma recompensa extrínseca como elogios, boas notas, um tratamento especial ou evitar alguma punição, mas ser capaz de ler..." SMITH, 2002 “Tudo o que eu sei do mundo é pela TV, pelo que leio, pelo que aprendo na escola... Moro numa cidade pequena do interior, e nem a capital do meu estado eu conheço... Meu mundo então, por enquanto, é a vida nesse lugar... É claro que gostaria de viajar e conhecer outros lugares. Quem é que não gostaria? Mas por enquanto, só com os livros.” Jovem de 18 anos “Quem começa a ler e descobre tudo o que a leitura proporciona, com certeza não pára mais. Quem adquire esse hábito encontra com mais facilidade soluções e respostas para suas questões pessoais, desenvolve espírito crítico em relação ao comportamento das pessoas, ao lugar em que vive e aos acontecimentos do mundo...” Jovem de 15 anos

Proposição 1º momento - Instituir um grupo de contadores de história Convide jovens para uma reunião em data e horário que possam se tornar regulares para o funcionamento de um grupo sob a sua orientação. O espaço do primeiro encontro poderá ser a biblioteca da escola. Espalhe cartazes pela escola/pelos centros de convivência do bairro, conte também com o boca-a-boca e a colaboração dos primeiros jovens que se manifestarem interessados. Na reunião, explique o objetivo de um grupo de contação de histórias, convide para participarem e, juntamente com os jovens que estiverem presentes, tomem decisões relativas às formas de mobilização de outros jovens (se for o caso), a periodicidade de encontros e as condições para participar. Proponha que os jovens estabeleçam prioridades e montem uma estratégia de ação: Qual será a ação deflagradora do grupo? Como será preparada? Quem participará? Para quem será apresentada? Que histórias serão contadas? Como? Sugerir a escolha de um nome para o grupo, de modo a constituir uma identidade coletiva.

2º momento - Deliberar a respeito do modo de funcionamento Estabeleça em conjunto com os jovens o tema e o espaço da primeira aparição formal (pode ser na escola, em horários de recreio ou intervalo, em visita às turmas que podem ter interesse pelos textos contados, em reuniões de professores ou de pais, mas também em creches, asilos, hospitais...). Proponha que escolham um texto como deflagrador do grupo de contação de histórias. Traga para a sala sugestões que suponha serem do agrado dos jovens, peça contribuições, sugira a realização de uma pesquisa que possa indicar as preferências temáticas e as práticas de leitura do público para o qual prepararão as contações. Leia textos sobre leitura para eles, apresente reportagens sobre outros contadores de histórias, incentive-os a pesquisarem na Internet.

Leitura como experiência social e solidária

Educador: faça o chamamento, convide alguns jovens com mais ênfase, mas não imponha a definição do processo. Organize-o, oriente-o e espere que o grupo esteja maduro para então registrar sua criação. Incentive que os jovens decidam quem e como convidar, qual a permanência, as tarefas principais e as formas de atuação. Monitore o processo como adulto de referência, mas evite interferir na capacidade criativa, decisória e organizativa dos jovens.

Leve para as reuniões material sugestivo e estimule que os jovens Jovens e participação social. Guia de ações

151


Educador: lembre-se de que a contação sistemática em outros espaços implica em necessidade de autorização prévia dos responsáveis pelos jovens e pelas instituições.

façam o mesmo. Explore diferentes possibilidades de compreensão de cada texto escolhido, de modo a refinar a competência leitora dos contadores além de orientar a expressividade da contação.

3º momento - Preparar a apresentação pública Convide os jovens a estabelecerem as metas de trabalho para a primeira apresentação e a fazerem combinações para o cumprimento das mesmas. Defina textos, organize ensaios e monitore os jovens (individualmente ou em duplas) nas suas necessidades expressivas, com vistas a otimizar a contação. Sugira a eleição de uma equipe coordenadora para a divulgação da ação, elaboração de fôlderes e cartazes, e outras ações relacionadas à leitura.

4º momento - Realizar a apresentação pública

Propor a ampliação da ação nos espaços escolhidos: sugerir troca-troca, outros livros, convidar ouvintes para participar das contações, diversificar as estratégias de contação como, por exemplo, situações em que os personagens “saem da história”, trajados, caracterizados em suas especificidades. Registro da memória do grupo: sugerir divulgação no jornal da escola, do bairro, etc., contatos com autores, elaboração de murais. Ampliar o grupo de contação para outras formas de comunicação por meio da arte, em uma semana da cultura na escola/comunidade, ou promover a realização de outros grupos de lazer através da arte. Levantar interesses dos destinatários preferenciais das contações.

5º momento - Avaliar a apresentação pública Após a apresentação, numa conversa informal, reúna o grupo e questione a atuação dos jovens, cuidando para que todos tenham seu espaço de fala respeitado. É importante que os acertos e os erros sejam lembrados para ações futuras.

6º momento - Ampliar as ações relacionadas à leitura Lance a idéia de diversificar os espaços de apresentação das contações. Provoque o debate a fim de que manifestem suas preferências, justificando a escolha de espaços. Se houver necessidade, peça que os jovens realizem um levantamento das instituições e espaços que poderiam receber os contadores (outras escolas, eventos de empresas, asilos, ou mesmo nas reuniões de pais e professores, etc.). Problematize as preferências dos diferentes públicos e a adequação dos textos aos diferentes públicos.

Planejando o encontro Embora seja conveniente que, após a constituição do grupo, você esteja apenas disponível para as situações em que os jovens necessitarem de apoio, sistematização ou reforço, tenha sempre à mão alguns textos sobre o tema escolhido pelo grupo que possam ser contados e esteja preparado para ouvir e opinar a respeito da proficiência dos jovens na contação. Seja incentivador da proficiência dos jovens. Possibilite a audição de contações que existem gravadas em cd ou estão disponíveis na Internet, a fim de que os jovens possam ampliar suas possibilidades expressivas. Se a escola ou a instituição de vinculação do grupo, ou mesmo seus integrantes dispuserem de gravador, favoreça que gravem sua contação e sejam seus primeiros críticos, escutando-a atentamente. Embora seja interessante que os jovens registrem em um livro de atas cada reunião que tiverem (ele será também organizador da memória do grupo), mantenha ainda um caderno de registro com observações a respeito das tarefas desenvolvidas e das combinações feitas. Será muito mais fácil você avaliar performances e avanços/impasses do grupo se tiver registros. Jovens e participação social. Guia de ações

Leitura como experiência social e solidária

Que tal?

Faça a intermediação para que a apresentação pública dos jovens possa ser realizada em um espaço de bastante visibilidade, de modo que as próximas apresentações venham a ser demandadas. Aproveite as sugestões dos jovens e estimule-os a assegurarem que os espaços sejam agradáveis e informais. Recomende apenas rigor e seriedade a respeito da contação.

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Você vai precisar: Facilitar o acesso a textos adequados aos interesses do grupo. Auxiliar os jovens a fazerem uma leitura crítica dos textos, a fim de subsidiar as escolhas narrativas que fizerem.

Você tem que providenciar: Textos infantis e adultos, poemas, excertos relativos à competência leitora que sejam motivadores dos jovens.

Não esqueça: Esta estratégia é potencialmente deflagradora de um grupo de contação de histórias. Ele será implementado e se multiplicará de acordo com as formas de mobilização, a qualidade e interesse dos textos que você puder apresentar aos alunos, bem como a qualidade de leitura e da renovação de temas propostos. É fundamental que você seja leitor/a, conheça bem a literatura infantojuvenil e tenha repertório atualizado, a fim de se qualificar como interlocutor/a dos jovens a respeito do assunto. Também é imprescindível que haja uma discussão sobre o sentido de partilha, cooperação solidária que a prática de contação oportuniza aos envolvidos, especialmente como ação juvenil num tempo de necessidade de afirmação positiva, visibilidade, sentido de pertencimento. Partilhar com um grupo e contar para uma coletividade é estabelecer relações solidárias. A ação voluntária de contar histórias, mobiliza talentos e performances relacionadas às expressões e linguagens das juventudes, em todas as suas potencialidades.

Tempo sugerido Considerando o processo de deflagração do grupo de contação de histórias, há necessidade de reuniões semanais durante um mês, em média, até o lançamento oficial do grupo. Depois disso, as reuniões continuam semanais, sem prazo de duração, pois o grupo poderá se multiplicar, se diversificar.

ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 1989. AGUIAR, Vera Teixeira de et alii.. Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. 11.ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1993. ______. Que livro indicar? interesses do leitor jovem. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1979. BAMBERGER, Richard. Como incentivar o hábito da leitura. São Paulo: Ática, 1995. BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, 1993. COELHO, Betty. Contar histórias: uma arte sem idade. São Paulo: Ática, 1990. FOUCAMBERT, Jean. A criança, o professor e a leitura. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. Http://docedeletra.com.br/biblio/index.html LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. São Paulo: Ática, 1994. SMITH, Frank. Leitura significativa. Porto Alegre: Artmed, 2002. ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. São Paulo: Global,

Anexos Jovens e participação social. Guia de ações

1. Texto 2. Reportagem 3. Texto

Leitura como experiência social e solidária

Referências

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Texto

Esse tal de contador de histórias Grupo Morandubetá

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TERRÍVEIS! Tem os que exageram e utilizam tantos adereços e "caras e bocas" que a narrativa se perde no meio de apelos redundantes. Também não podemos esquecer dos artistas financeiramente insatisfeitos, que buscam no ato de contar histórias apenas o lucro, não acreditando que seja um trabalho artístico. Agora, existe o artista que é artista por natureza, que de nada precisa a não ser da palavra, do gesto e do olhar do seu ouvinte. O artista é sempre grandioso. Traz na alma a emoção e contagia a todos. E há ainda os que têm o desejo do artista, acreditam no que fazem e o fazem com a alma, porque o corpo emprestam aos personagens das histórias. Investigam, pesquisam, inovam, escrevem, ensinam e aprendem muito, muito mais. Possuem um trabalho artístico e também são formadores de cidadãos mais conscientes, críticos e questionadores. Seus ouvintes não escutam apenas histórias, escutam no fundo de cada palavra a fala de educadores e formadores de leitores. Por que, para esses que chamamos de narradores e pesquisadores da arte de contar histórias, leitura, educação e cidadania andam sempre juntas. Temos certeza que deve haver outras espécies de contadores e aos poucos vamos descobrí-las. Elas estão crescendo e se multiplicando. Infelizmente também estão se vulgarizando e usando o nome do contador em vão, sem perceber ou se importar com o valor da palavra. Contar histórias é revelar segredos, é seduzir o ouvinte

Leitura como experiência social e solidária

ANEXO 1

Por esses dias recebemos um e-mail com uma pergunta de um "navegador": O que é um contador de histórias? Ficamos nos questionando sobre qual resposta daríamos. Qual seria essa definição. A pergunta nos fez refletir sobre o nosso trabalho. Quem somos nós? Como somos vistos aos olhos dos outros? O que é na verdade o nosso fazer? E descobrimos que existem muitas definições para os contadores de histórias. Descobrimos que existem diferentes espécies...Vamos explicar melhor. Existem aqueles que contam histórias que aprenderam. Geralmente são histórias que gostaram e contam pelo prazer de falar e de serem ouvidos. Quase sempre a realização é mais pessoal que material, porém às vezes tentam ganhar algum dinheiro para contar e aceitam qualquer coisa. Com o tempo, o repertório se esgota, fica repetitivo e vai cansando o ouvido dos outros. Há os que resolvem ensinar o que não sabem e vivem dando cursos e escrevendo livros. Mas não dizem as palavras, não contam as histórias, não constroem a narrativa. Apenas ensinam, ensinam, ensinam. O quê? Nem eles mesmos sabem. Um outro tipo é o que pensa que conta, que pensa que ensina, que pensa que escreve e além disso agencia e explora os artistas. Suga a essência vital do contador para ganhar o dinheiro e a fama que jamais teria com o talento que não possui. Aproveita-se da situação, dos conhecimentos (pessoais, políticos, familiares...) e ganha sem fazer esforço, sem "mostrar a cara", sem contar histórias. ESSES SÃO

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Grupo Morandubetá E-mail: morandubeta@uol.com.br Jovens e participação social. Guia de ações

Texto Leitura como experiência social e solidária

e convidá-lo a se apaixonar...pelo livro. .. pela história... pela leitura. E tem gente que ainda duvid a disso. O contador é aquele que diz , por isso precisa saber bem o que irá dizer. Precisa ter dúvidas, certezas, conhecimentos, estud oe talento. Talento de se dução. Se fazer ouvir não é tão fácil assim, ainda mais qu ando atendemos a um públi co sem idade. Contar histórias é um a arte e quem faz arte é art ista, está no sangue, na alma. Quem faz arte não pode temer. Tem encarar. A arte tem um que preço. Tem um valor. Mas infelizmente sabemo s que nem todo mundo tem olhos para admirar a arte, nem tem dinheiro para pagar o preço. E aí se confundem na escolha. E preferem qualquer co isa ao invés do nada. Mas não podemos en trar nesse jogo, nem faz er menor. Este não é um traba lho para multidões, mas para um público que se sente seduzido pela palavra. Nós nã o "exploramos" o corpo , nem vulgarizamos a palav ra, contamos histórias. Se m exageros ou excessos , com simplicidade e sutile za. E nunca estamos sós, pois as histórias nos acompa nham, elas nos fazem preen chidos e nos fazem também so lidários, já que estamos semp re dividindo palavras, ou vindo e contando. Foi essa a resposta que encontramos. Não sa bemos se podemos chamar de resposta. Ela está ch eia de perguntas nas entrelin has. Enfim...o contador de histórias é aquele que cria, é aque que empresta o corpo le , a voz e a alma para dar vida a mais uma nova história. O contador é aquele que preserva a história e não a deixa morrer.

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A leiturae asolidãounemduas gerações Participar de atividades que envolvem a coletividade demanda senso de responsabilidade e compromisso. Mas o aluno só se sente responsável quando tem liberdade para pensar, refletir, encontrar urna maneira de resolver um problema e colocá-la em prática. Por isso, não leva a nada obrigá-lo a participar dos projetos da escola. "O sentido de pertencer a uma causa é que move os adolescentes", afirma Elisabete Domingues Martins, professora de Educação Física da Escola Estadual Hilmar Machado de Oliveira, em Garça, interior de São Paulo. "Sem autonomia os estudantes nãoseidentificam com oprojetoeeleperdeaforça", completa. Bete, como é chamada, sabe bem do que está falando. Há seis anos conduz cinco projetos de voluntariado. Com as turmas de 6" a 8a série seu objetivo é desenvolver o prazer pela leitura, instigar a busca de diferentes tipos de textos e resgatar formas antigas de contar histórias. No ano passado, os adolescentes participaram de algumas oficinas. Nas de Língua Portuguesa desenvolveram o texto; nas de Educação Física, a expressão corporal: e nas de História aprenderam a utilizar a entrevista como fonte histórica. Tudo como forma de se preparar para as visitas semanais aos idosos do Lar dosVelhos Frederico Ozanan. Nos encontros, o grupo de 20 jovens ouvia muito, lia livros, encenava textos curtos e refletia sobre a experiência de vidaproduzindohistórias. Foi nos bate-papos com dona Maria José de Almeida que a aluna Simone dos Santos Stock, 15 anos, descobriu o que mais faz sofrer os velhinhos: a solidão. "Achava que só eu vivia solitária.Abri meus olhos para situações de vida muito mais graves que a minha." A descoberta rendeu um livro escrito nas aulas de Língua Portuguesa e um novo significado à vida de dona Zezinha, como é conhecida a idosa. Mais feliz e se sentindo querida, ela pediu a ajuda da garota para aprender a ler e escrever. "Não quero morrer analfabeta, assinando com o dedão", diz dona Zezinha, ao revelar um de seus maiores desejos. O outro é reencontrar o filho. Experiências enriquecedoras como essa possibilitam o exercício do compromisso, dotrabalhoemgrupoedadefesados direitos humanos. O papel de Bete na realização do projeto merece destaque. "É importante que um professor lidere os projetos da escola. A função dele é envolver outros docentes, planejar, organizar, mobilizar as equipes e definir os conceitos e conteúdos a serem contemplados na ação solidária", diz Rogério Arns Neumann, consultor em trabalhos voluntários.

Reportagem

O impulso para essa nova maneira de estudar partiu da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), em vigor desde 1996. O foco da educação passou a ser o aprendizado e não mais o ensino. Na prática, isso significa que você precisa desenvolver nos estudantes competências que vão além dos conteÚdos escolares, tomando-os aptos a compreender a complexidade do mundo e a atuar nele com ética. "O jovem só percebe a necessidade de participação na sociedade quando é estimulado a encontrar regulamente soluções para questões reais", afirma Neide Cruz, educadora e coordenadora do Instituto Faça Parte, uma organização que promove o voluntariado pelo país. Existem no Brasil mais de 250 mil organizações não governamentais atuando em diversas áreas sociais e pelo menos dez centros de voluntariado. Calcula-se em cerca de 300 mil o nÚmero de brasileiros que se dedicam à causa no território nacional. Toda essa estrutura se torna essencial em um país que se destaca pela desigualdade social. A seguir, você vai conhecer três experiências que promoveram a aprendizagem de valores e conteÚdos curriculares. Dados como o nÚmero de idosos internados em asilos, a carência diária de sangue nos hospitais brasileiros e os problemas causados pelo lixo no ambiente ganharam outro sentido quando foram interpretados e contextualizados, visando a busca de soluções. Outras sugestões de ações de voluntariado e as competências que desenvolvem estão distribuídas em três tabelas nas próximas páginas.

Leitura como experiência social e solidária

ANEXO 2

Prazer em ajudar e chance de aprender

Fonte: Revista Nova Escola, jan-fev de 2004, p.53 Jovens e participação social. Guia de ações

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Texto Leitura como experiência social e solidária

ANEXO 3

A contação de histórias stórias A contação de hi como prática social o oral como retoma a tradiçã de da ni tu or op prática social e Sua de convivência. stra o gosto on m de realização ultos por de crianças e ad ião em as ouvir histórias, oc promovem es or ad nt co os que contador de histórias catalisa zer, instauram momentos de la am rm a atenção dos espectadores fo , ia cultura literár m ve e possibilita ol acesso ao texto nv se de opinião e a. literário, proporcio tic nando té es o percepçã o tribal e çã fruição di estética e reflexão tra a a do an Retom ciedades respeito do que ouvem. so s da a tic lís ritua Tal procedimento líticas de primitivas, as po sde os compreen de de a leitura como il, as leitura no Br o am ar uma rm prática social, uma fo ns tra anos 80, s ia interação ór entre st texto e leitor hi de or contad o tomaram em e que este, o instigado pelo ne râ po em cont que lê, dialoga com o texto, de repertório or ad rm fo o m co compartilha histórias, cultura oral e produzido pela do or ad lg vu opiniões, di personagens, o m também co esso em pr im prazeres, sentimentos, io ár er lit l materia . ís afinidades . Dessa forma, pa no ão aç circul sto à inicia ou fortalece a Incentivo pelo go constituição de sua história tensão, leitura e, por ex ação do rm pessoal fo de leitor, amplia suas la interesse pe s que õe aç tu experiênc si ias de leitura e sua m ta leitor apon contar de visão te de mundo. ar a m ce favore ividade A contação de histórias é histórias como at r um po m formadora co tanto de leitores re de el ív ss po ntador e quanto de contadores, pois, cenário onde co , tendo a m mediante a necessidade de ouvintes interage rte de po su escolher o textos a partir de m co a literatur do de eú nt co critérios de do valor e de o sã is transm idos nt interesse se dos e espectadores, ns ge sa men norar o apelo ig os contadore m s também são se s, lo tip úl m s tempos motivados a ler e a refletir da oralidade no sobre as suas escolhas, atuais. ade tem id an m colocando -se em educativo hu a da To histórias, e r vi ou moviment r o de ação-reflexãopo e ss intere instrumento ação um que é consolidador da é a ur at er lit a experiências. formação de leitores. que potencializa ão, o aç Por meio da cont

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Jovens em rede:

o blog como ferramenta de mobilização “Escrever é fácil. Você começa com uma maiúscula e termina com um ponto final. No meio, coloca idéias.” Pablo Neruda “Usar o computador para conversar é muito legal, a gente pode dizer o que não tem coragem de falar pessoalmente...” Jovem de 16 anos “ A possibilidade de me relacionar com pessoas do mundo todo é fantástica, consigo fazer isto através da internet.” Jovem de 17 anos

Temáticas a serem exploradas Novas tecnologias de informação e comunicação, Blogs & escrita juvenil, educação.

Objetivos Refletir sobre o uso da internet como meio de comunicação virtual que possibilita a interação social entre diversas culturas. Analisar os blogs como experiência que possibilita a discussão das novas formas de linguagens, comunicação, informação e mobilização dos jovens.

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Jovens em rede:

Antes de propor uma ação educativa que envolva a comunicação virtual, é importante perceber para quê os jovens utilizam estes recursos de acesso ao ciberespaço, o que desejam encontrar para si e o que desejam expor para os outros. Quais são seus hábitos em relação ao mundo virtual, como o caracterizam e percebem as relações que nele se estabelecem? O mundo virtual é algo que se encontra em paralelo ao mundo real e presencial ou é apenas mais uma marca da inovação tecnológica? Um novo hábito? O virtual também não é real?

sumem posições políticas e buscam informações em meios alternativos à mídia formal. Os blogs são um exemplo dessa divulgação de informações fora da mídia convencional. São também espaços onde os jovens podem manifestar-se virtualmente, posicionando-se a respeito de assuntos diversos e mobilizando outros jovens para causas locais ou internacionais. A internet tem se constituído, assim, em espaço importante para a organização de ações solidárias. O conhecimento destas novas formas de mobilização e participação dos jovens tem potencial de inserção juvenil na vida ativa e coletiva das comunidades e do planeta, posicionando-os de maneira afirmativa, como atores sociais que têm o que dizer, embora busquem manifestar idéias e planejar ações de formas diversas das tradicionais. As mudanças nas práticas de escrita que as novas formas de

o blog como ferramenta de mobilização

Apresentação do tema A importância de ampliar formas de participação dos jovens de modo afirmativo na vida das comunidades é uma idéia que cada vez mais ganha espaço em ações de governos, ongs e movimentos sociais. Junto a isso, paradoxalmente, há dificuldade em reconhecer as diferentes formas de atuação juvenil. A mobilização e a participação deste segmento populacional ocorrem hoje de diferentes formas e em múltiplos espaços, como nos grupos juvenis, nas pastorais, no teatro, nos partidos, nas manifestações de rua, na internet, entre outras. Há uma diversidade de estratégias utilizadas pelos jovens para participar ativamente na sociedade. Com a utilização de novas tecnologias, jovens se envolvem em mobilizações organizadas em âmbito internacional. Desta forma, alguns grupos juvenis realizam protestos, boicotam produtos, as-

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Como num veloz arquivo eletrônico, o blog permite a abordagem de diversos assuntos, aumentando a interatividade com os visitantes, que passam a constituir uma comunidade. Ampliam-se, assim, as possibilidades de diálogo com outras formas de saber entre as diferentes disciplinas do conhecimento escolar. Os blogs podem ajudar a construir redes sociais e redes de saberes. Na educação, os blogs são uma excelente ferramenta para publicação de idéias. Esses diários eletrônicos são ferramentas diferentes, com potencial para reinventar o trabalho pedagógico. Http://pt.wikipedia.org/wiki/Blogs_educativos#Vantagens_dos_blogs_educativos.

Proposição 1° Momento - Conhecendo e refletindo Prepare uma sala com diferentes tipos de blogs impressos colados nas paredes, em varal ou dispostos de maneira que todos possam visualizar, criando um clima de expectativa e surpresa. Escolha alguns que tratem de temas relacionados a ações solidárias. Entre os impressos, espalhe diversos cartões com a palavra blog escrita com diferentes letras, ou montagens da palavra blog a partir de letras recortadas em revistas. Solicite aos jovens que circulem e observem os blogs, realizando anotações.

Segundo o Censo Escolar de 2005, 76% das escolas públicas brasileiras possuem computadores.

Lance ao grupo a pergunta: O que é um blog? Quem conhece ou já viu ou, ainda, já interagiu em um blog? Sugira que os jovens que possuem um conhecimento prévio expliquem aos demais. Após, proponha a leitura do significado de blog (anexos 1 e 2) e crie um esquema (anexo 3) com a palavra BLOG, escrevendo palavras que sintetizem idéias dos textos. Proponha a socialização dos esquemas e a discussão coletiva do significado das palavras utilizadas. Estimule a compreensão a respeito do jovem como produtor de uma ferramenta de comunicação. Converse sobre o conteúdo e forma dos blogs, destacando aqueles que contêm informações sobre ações sociais e solidárias. Jovens e participação social. Guia de ações

o blog como ferramenta de mobilização

Para conhecer a forma como se organizam alguns espaços que têm a preferência dos jovens, recomenda-se a pesquisa e análise das ferramentas citadas abaixo, lembrando que os critérios de gratuidade, fácil acesso e interface amigável são muito relevantes. a) Redes sociais virtuais: www.orkut.com; http://www.hi5.com/ b) Fotolog: http://fotolog.terra.com.br; http://www.gigafoto.com.br; http://www.fotolog.com/ c) Weblog: http://blogger.globo.com/; http://www.blogger.com/; http://www.blog.uol.com.br

português falado no Brasil, ou seja, guarda traços de idade, origem geográfica, grupo cultural, situação econômica e escolarização, os quais aparecem explicitamente nas conversas em salas de bate-papo, no MSN, nos blogs, no Orkut etc. Quando essas ferramentas e linguagens são empregadas, novas situações de fala são criadas e, por isso, códigos e expressões passam a ser aceitas nesses contextos, como, por exemplo, o uso de bêjo ao invés de beijo, 100pre, kara, daeu, xaudadi, intaum, naum, kuando, beim, flu, neh, vc, tb.

Jovens em rede:

“Ao participar da construção do site Sou de Atitude fui aprendendo a partir das exigências e dos desafios que eram colocados para mim. Não só nas ferramentas técnicas, mas também na minha formação moral, ética e como cidadão.” (José Luis Pimenta, 18 anos, integrante do Projeto Sou de Atitude: comunicação para a educação e mobilização social, da ONG CIPÓ, Salvador)

comunicação têm provocado são também aspectos importantes do avanço tecnológico. A necessidade de escrever rápido vem fazendo com que as palavras apareçam abreviadas e grafadas da maneira como são pronunciadas. Os internautas acabam por criar uma maneira própria de escrever, em geral muito utilizada pelos jovens, seus usuários mais freqüentes, mas também seus criadores. A escrita utilizada para comunicação na internet é informal e possui todas as características da diversidade e variabilidade do

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2° Momento - Blogueando Se for possível a utilização de um ambiente informatizado, oportunize aos jovens a navegação por diferentes blogs. Proponha que os jovens se organizem para construir blogs como um exercício de criação. É importante que criem: um título, um usuário, uma senha, um nome para ser o endereço (URL) do blog. Não esqueça: os jovens precisam ter uma conta de e-mail para criar blogs. Sugira que acessem o site http://blogger.com, que indica passo a passo como criar o blog. Estimule a criatividade dos jovens na escolha do layout do blog. Promova a troca de endereços dos blogs entre os jovens, solicitando que uns acessem os blogs de outros, para que possam realizar postagens a respeito do que produziram.

3° Momento - Juventudes, comunicação e redes solidárias

Apresente o tema Juventudes, comunicação virtual e redes solidárias e divida os jovens em dois grupos. Na seqüência, sugira aos dois grupos que realizem um rastreamento de sites ligados ao tema foco, cada um com uma tarefa específica.

Grupo 1 - Buscar sites produzidos por jovens que reflitam o que o tema sugere. Analisar e traçar um perfil de cada site, considerando as finalidades e conteúdos abordados. Após a análise, elaborar uma 'ficha técnica' e publicar em um blog, preferencialmente aquele em que já se tenha desenvolvido as demais atividades propostas na estratégia. Grupo 2 - Buscar sites produzidos sobre jovens que tratem do tema foco, analisar conteúdos, quem escreve e traçar o perfil de cada site para ser publicado no blog, a exemplo do grupo anterior. O Anexo 4 traz sugestões para elaboração da ficha técnica.

Sugestões de sites para consulta http://www.iidac.org.br http://www.agenciaugauga.org.br http://www.matraca.org.br http://www.soudeatitude.org.br/rede/espaco_rede.htm http://blog.karaloka.net/category/ciencia/meio-ambiente/ http://ctjovem.mct.gov.br/ (coluna à esquerda tem o link “Blog C&T Jovem) http://www.luizhenriquelimameioambiente.globolog.com.br/” http://blog.uol.com.br/stc/passeiovirtual.html

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Jovens em rede:

Após a apresentação dos trabalhos dos grupos, organize uma plenária para a exposição e debate sobre o perfil da comunicação virtual dos jovens e o que se fala sobre ela. O que se diz sobre o jovem e a comunicação virtual é semelhante ao que se constata com a observação dos sites? Como os jovens se percebem nos espaços virtuais? Como são percebidos? O discurso sobre os jovens está de acordo com a prática dos jovens?

o blog como ferramenta de mobilização

O passo seguinte será a organização dos dados colhidos e a preparação de uma apresentação virtual da pesquisa através dos blogs anteriormente referidos. Estimule os jovens a esclarecerem para os usuários da rede: quem são, o que pretendem e como podem receber colaborações para a pesquisa. Poderão, inclusive, contar sobre a atividade que estão realizando, informar objetivos, descrever algumas ações e falar das suas expectativas.

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Fotologs: http://www.fotolog.com/pauliebadu/ http://www.fotolog.com/monoxide/ http://www.fotolog.com/jujubarbi/ http://www.fotolog.com/vidroquebrado http://www.fotolog.com/citron_amarelo Blogs: http://cabeliasbar.blogspot.com/ http://fabiobruggemann.zip.net/ http://mademoisellenuage.blogspot.com/ http://www.fotolog.com/cassijones/

4° Momento - Blogs e ação solidária Convide os jovens a planejarem uma ação solidária, utilizando-se do blog para a organização e a divulgação da ação. Juntamente com eles, defina o tema da ação e comece aprofundando o repertório de informações sobre o assunto, buscando na internet os vários sites e blogs que tratam do conteúdo da ação. Planeje, assim, a mobilização em rede, utilizando o blog como ferramenta para o chamamento de outros jovens. Poste as informações necessárias: data e local da ação, compromissos, argumentos a favor da ação, questão-problema sobre a ação, que deverá ser alvo de debate no blog etc. Motive os jovens a enviarem e-mail convidando outras pessoas a acessarem o blog, conhecendo e participando da ação. A ação partirá do próprio grupo, mas pode-se sugerir temas, como: “nenhuma criança sem certidão de nascimento em nossa comunidade”, ou “a biblioteca e a comunidade: o que eu tenho a ver com isso?”; ou “as águas em nossa comunidade: onde estão, como estão, o que podemos fazer”?; “Quem vive a solidão: jovens em redes de amizade”. Incentive os jovens a postarem informações sobre os momentos da ação e, também, fotos, entrevistas, comentários feitos no dia, etc.

Solicite também que listem palavras formando um glossário com observações feitas nos blogs. Esta atividade poderá ser desenvolvida em um editor de texto word ou outro disponível, onde os jovens possam digitar as palavras e sua tradução e ainda terão o recurso de formatação para criarem o glossário. Jovens e participação social. Guia de ações

Jovens em rede:

Espera-se que as respostas dos jovens permitam-lhes refletir a respeito da linguagem de comunicação de um suporte ágil, com muita familiaridade com a oralidade e também visual como o blog. É interessante ainda problematizar a adequação de linguagem aos diferentes espaços de comunicação, o que legitima escrever em blogs de forma diversa daquela que é utilizada para se candidatar a uma vaga de emprego, por exemplo.

o blog como ferramenta de mobilização

5° Momento - Problematizando Reflita com os jovens sobre a linguagem utilizada na postagem das informações no blog: O que pensam sobre esse tipo de linguagem? Vêem diferença entre os estilos de escrita que aparecem nos blogs? A que elas podem ser atribuídas? O que dizer a respeito delas? Lembram de alguma expressão escrita que mais tenha chamado sua atenção? Utilizam blog pessoal? Todas as informações postadas em blogs merecem credibilidade? Por quê?

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6° Momento - Dando o recado e avaliando

Sugira aos jovens acrescentarem links no blog sobre projetos de ação solidária realizadas por jovens, ampliando as possibilidades de trocas e divulgação das ações realizadas.

Planejando o encontro Você vai precisar: Cópias dos textos dos anexos 1 e 2 Folhas de ofício para anotações dos grupos Diferentes tipos de blogs impressos, colados em folhas coloridas Cópias das fichas do anexo 4 Você tem que providenciar: Computadores conectados à internet Conta de e-mail ativa para os jovens Não esqueça: De visitar os sites: http://blogger.com http://web.viavale.com.br/blog/index.php http://weblogger.terra.com.br/ http://www.theblog.com.br/ http://www.pop.com.br/popblog/

Tempo sugerido 4 a 5 encontros

Referências BENTES, Ivana. O estado Novo da Cultura. Folha de São Paulo, Caderno Mais! 19/09/2004. NERUDA, Pablo. Confesso que vivi: memórias. Rio de Janeiro: DIFEL, 1978. WELLS, Tatiana e ROSAS, Ricardo. O que é mídia tática. Disponível em: http:/prod.midiaindependente.org/pt/blue//2002/11/42506.shtml. Acesso em 25/11/2003.

Glossário

Blog: palavra derivada de weblog, ferramenta que permite o cadastro de qualquer usuário que tenha uma conta de e-mail. Constitui-se num espaço próprio para a escrita, onde são postados notícias, literatura, análises, etc. sobre os mais diversos temas.

Anexos 1. O que é um weblog ou blog? 2. Blogs transformaram a comunicação 3. Sugestão de esquema - BLOG 4. Sugestão de ficha técnica

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o blog como ferramenta de mobilização

Organize com os jovens uma pesquisa em blogs sobre temas sociais relevantes, como trabalho infantil, movimentos de alfabetização popular, mobilizações pela paz, campanhas solidárias, dentre outros. Definido o tema, estimule-os a coletar informações em blogs e, após, verificar como este tema é tratado pela mídia tradicional. Reflita coletivamente, comparando o conteúdo e o enfoque das informações. A partir desta reflexão, solicite que os jovens produzam um artigo sobre o blog como ferramenta de informação para publicação em jornais locais.

Jovens em rede:

Que tal?

Estimule os jovens a fazerem comentários no blog, avaliar a ação e apresentar propostas de encaminhamentos para novas ações, indicando possíveis desdobramentos do trabalho.

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pessoais, exp rimem idéias ou sentimentos d o autor. Outros são resultado da colaboração d eu grupo de pess m oas que se reúnem p atualizar um m ara esmo blog. Alguns b logs são voltados para diversão, outr os para trabalho eh até mesmo os á qu misturam tudo e . Os blogs tam bém são uma exce lente forma de comunicação entre uma família, amigos, grupo de trabalho, ou a té mesmo empre sas. Ele permite q ue grupos se comuniquem de forma mais si mples e organizada do através do e-m que ail ou grupos de discussão, po r exemplo.

Texto o blog como ferramenta de mobilização

O blog é uma página web atualizada freqüentemente, composta por pequenos parágrafos apresentados de forma cronológica. É como uma página de notícias ou um jornal que segue uma linha de tempo, com um fato após o outro. O conteúdo e tema dos blogs abrange uma infinidade de assuntos que vão desde diários, piadas, links, notícias, poesia, idéias, fotografias, enfim, tudo que a imaginação do autor permitir. Usar um blog é como mandar uma mensagem instantânea para toda a web: você escreve sempre que tiver vontade e todos que visitam seu blog têm acesso ao que você escreveu. Vários blogs são

Http://br.buscaeducacao.yahoo.com/mt/archives/2005/07/use_blogs_como.html

Jovens em rede:

ANEXO 1

O QUE É UM WEBLOG OU BLOG?

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Texto

ANEXO 2

BLOGS TRANSFORMARAM A COMUNICAÇÃO Para a pesquisadora brasileira Lucia Leão, da PUC-SP, diários na web não são mais vistos como "mentirinha" e oferecem canal alternativo à grande mídia ERNANE GUIMARÃES NETO defaz-de-conta, defantasia. Hojea gentesaiudessafase. Estamos nafaseem queociberespaçoé apenas um prolongamentodacultura. É lógicoquehálugares em queas pessoas podem usar oalter egoparasesentirà vontade-oquetambém hánomundo real. Nãohánadanociberespaçoquenão correspondaaomundoreal. Quando comecei ainsistir nisso, as pessoasme olhavam comosefosseum extraterrestre. Quandosefazuma transferênciadedinheironasuaconta, aquiloocorredefato. Quandovocê publicaalgumacoisacom seunome, tem queresponder por aquilo. Folha-A culturaeomercadodo Brasil têmcapacidadeparaabsorver mais os blogs, comoocorrenos EUA? Leão- Sim, claro. O queacho interessantesãoos blogs queacabam criandocomunidades. O blogestálá, faz divulgaçãoevocêqueseinteressapor aqueleassuntocomeçaaentrar lápara estar bem-informado.Aindatem pouca gentefazendoisso, em comparaçãocom aEuropa. Eumesmasouprofessorae nãodouconta: às vezes meublogfica sem ser atualizado. Usomuitoparaaula, ponhooqueestá acontecendonaaulanoblog, mas gostaria de ter um blog mais organizado. Acabonãotendotempo.Alguns pesquisadores deforamantêm regularidade. O pesquisador Mark Bernstein, por exemplo, dáaissoonome de"webviva": vocêsabequevai entrarlá esempretem algumacoisanova. Folha- Éoquefazas pessoas optaremporcriarumblog, enãoum site? Leão- Com certeza. É mais prático, tem recursos deenviopor celular. Parafazer sites, háaqueles "templates"[modelos parafacilitar aconstrução], mas isso acabouatendendoaoutrotipode usuário. O usuáriodoblogquer realmenteagilidade, mobilidadepara trocar informações rapidamente. Folha- Isso criaumaformade comunicaçãoespecífica? Leão- Sim.A trocadeatalhos ébem legal. Especialmente na área de software livre: com os links, vocêvai navegando

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Os blogs representam uma alternativa confiável aos meios de comunicaçãodemassa, defendeLucia Leão,professoradecomunicaçãona Pontifícia UniversidadeCatólicadeSão Pauloe artistamultidisciplinar. "É mais fácilficarbem-informadonavegando poresses atalhos doqueesperar anotícia sair.Issoé umagrandetransformação nas formas de comunicação", defendea professora,freqüentadoradeblogs eque os utiliza em saladeaula. Em entrevista àFolha, aorganizadorade "O Chipe oCaleidoscópio-Reflexões sobre as NovasMídias"(ed. Senac) aponta as características específicas que fazem doblogumaformaindependente de comunicaçãoeapresentatendências da comunidadeblogueiranoBrasil. Folha-Os blogs nãosãoapenas umamaniapassageira? LuciaLeão- Não, achoqueestásendoo caminhoque awebachou; éuma evolução,uma transformaçãodaweb. Folha-Eles seconstituemuma formaautônomadecomunicação? Leão- Éissomesmo.Sepegarmos a história dojornal, éinteressante recordar.O jornal também tinhaessa cara.O editor, ochefedojornal, éhojeo editordesses blogs. Os jornais nãoeram tãograndes.Háum poucodessavoltaàs origens,de ouvir avozdoautor, seus valores. Folha-O ambiente"etéreo" da internetnãocomprometea credibilidadedotrabalho? Leão- Não,porqueacredibilidadeestá relacionada com oqueagentechamade reputação,a confiançaquesedáaum blog,e nãoa outros.Tem aver com ética: você confia naquelecara, eseestiver erradoalguém vai falar. O blogtambém tem "erramos". Chamoissode regulaçãoque emerge, pois aprópria webregula.Quandovocêvisitaesses sites,em geral tem indicações. Por exemploositeTurbulence, queexistehá muitotempoe agorafazum blogcom notícias (www.turbulence.org/blog). Você sabe quem sãoaquelas pessoas. Elas existem. Tenhoinsistidonisto: durantemuito tempo,as pessoas achavam queo ciberespaçoé "mentirinha", um mundo

o blog como ferramenta de mobilização

FOLHA São Paulo, domingo, 14 de maio de 2006. Caderno Mais

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Texto

prósperas naelaboraçãodeblogsno Brasil? Leão- As mais antigas sãojustamente as queestãoàmargem das mídias oficiais. Por exemplo, noCanal Contemporâneo (www.canalcontemporaneo.art.br), queéumaespéciedeblogdaarte contemporânea, nãovai estar ali quem estánas grandes exposições. Com softwares livres éamesmacoisa: as pessoas estãoali buscandoum canal parasedesenvolver.Também as questões ecológicas edesolidariedade funcionam muitobem. É sempresobre aquiloqueos meios decomunicaçãode massanãooferecem. Folha- Quepesquisas hásobre blogs noBrasil? Leão- Houveum encontrosobreblogs noanopassado, em SP.A maniadefazer fotos, chamadadeescopofilia, éum fenômenoqueestáocorrendo. Quem viajapublicanofotolog-as pessoas estãovivendomais em razãodetirar fotos doquedeter experiências. Issose tornouum fenômenograndeentreos jovens. Folha- Blogefotologsãocoisas distintas?Têmobjetivos diferentes? Leão- Sim, ofotologtem aidéiade mostrar. É mistodepaixãopelaimagem eexibicionismo. NoBrasil nãose chegouaisso, mas háuns cincoanos, na febredas webcams, as pessoas deixavam acâmeranoquartoon-line 24 horas. Erageneralizado. Folha- Háfidelidadeàs comunidades blogueiras? Leão- Sevocêestáinteressadono assuntoedescobreum blogbom, você voltaaele.

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de um site para outroevendomuita notícia interessante. É mais fácil ficar bem-informadonavegandopor esses atalhos doqueesperandoanotíciasair. Essa é uma grandetransformaçãonas formas de comunicação. Ninguém está muitopreocupadocom aforma, mas sim com a notícia. Folha-NoBrasil, os blogs têmse apoiadomuitonoOrkut? Leão- Bem observado. O Orkut acaba sendouma maneirafácil deatrair pessoas para um site, atémelhor, por exemplo,doqueoGoogle. É umatática de comunicaçãomais pontual.Tiveuma aluna de pós-graduaçãocujotrabalho era sobre designejornalismo. Elafezum bloge ninguémvisitava, elaenviavaemails e ninguém entrava[noblog]. Ela pôs noOrkute num diateve200visitas. Atingiumais pessoas interessadas no tema. Folha-Notícias namídia ajudaramafazercrescero movimentodos blogs? Leão- Achoqueéindependente. Não digoque nãohajaalcance, hágenteque entra num blogporqueviunamídia impressa,mas em geral écoisaqueacaba acontecendonoatodenavegar oupor email. Eas revistas,comoa"NovaE", listam blogseacabamcriandouma"gangue" de blogs.A comunidadetem opoder de divulgarnovos blogs. Folha-Eos jornalistas quesão pagos parafazerblogs?Issovai funcionar noBrasil? Leão- Achoquesim. Hávários blogs muitobons,comoodeHermanoVianna (www.overmundo.com.br). Folha-Quecomunidades estão

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Jovens em rede:

Sugestão de esquema de mapa de idéias

ANEXO 3


municação virtual' Tema: 'Juventude e co tes da juventude Espaço de análise: Si Para cada site

Sugestão de ficha técnica

Grupo 1

Tipo de instrumento: Idade do Usuário: Sexo do usuário: Profissão: Não Sim Usa fotos? outras pessoas amigos l oa ss pe Tipo de foto máquina digital webcam objetos desfocadas Não Sim Usa textos? citações músicas as Tipo de texto poem outros artigos Não Sim ste site? ne rio ntá me co ra pa ço pa es Existe s? Há registro de visitante s? Quem são os visitante rios? Qual o tipo de comentá período de 15 dias)? rios por dia (dentro de um ntá me co de dia mé a Qual al de visitantes? itas? Qual o número tot vis de r do nta co e ist Ex rio posta por dia? ídolos Quantas vezes o usuá drogas a: música tem l ipa nc pri u amigos se al Qu sexo literatura grafite namorados rinhos ad qu em história família outros jovens cia? ên qü fre m arecem co Que outros temas ap o? tip e qu e? De Coloca links em seu sit rfil desses links? pe o iria fin de Como você

Jovens em rede:

Para todos os sites: squisados? Quantos sites foram pe os? Quantos foram relatad m à maioria dos a característica comu um tar tec de l íve ss po É sites relatados? Qual?

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ANEXO 4

Ficha técnica da pesquisa

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Tema: 'Juventude e comunicação virtual ' Espaço de análise: Sites que tratam so bre a juventude e comunicação virtu al Para cada site Tipo de instrumento : Sexo do usuário: Idade do Usuário: Profissão: Usa fotos? Sim Não Tipo de foto pessoal amigos outras pessoas objetos webcam máquina digital desfocadas Usa textos? Sim Não Tipo de texto po emas músicas citações artigos outros Existe espaço para comentário neste sit e? Há registro de visita Sim Não ntes? Quem são os visita ntes? Qual o tipo de com entários? Qual a média de co mentários por dia (de ntro de um período de Existe contador de 15 dias)? visitas? Qual o núm er o total de visitantes Quantas vezes o us ? uário posta por dia? Qual seu principal te ma: música drogas ídolos literatura sexo am igos namorados grafite família história em quadrin hos jovens outros De que maneira ab orda o tema da juven tude e comunicaçã Como é a linguagem o virtual? que utiliza para trata r do tema? Apresenta pesquisas sobre juventude? Há textos acadêmico s? Há links no site? Qu ais? Pode-se definir um perfil destes links? Como você os defin iria?

Jovens em rede:

Para todos os sites: Quantos sites foram pesquisados? Quantos foram rela tados? Observe se a partir das questões acim a é possível elabor um perfil das pessoa ar s que escrevem so bre o assunto. Caso afirmativo, relate as principais caracterís ticas.

Sugestão de ficha técnica

Grupo 2

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Ficha técnica da pesquisa

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e participação social Você conserva aquilo que ama. Você ama aquilo que conhece. Você conhece aquilo que lhe foi ensinado. Baba Dium, filósofo e estadista senegalês Praticar esportes não quer dizer ser o melhor, ficar famoso, virar um ídolo, ganhar milhões...Esporte é uma atividade física que faz bem, independentemente da competitividade ou da ambição.Praticar esportes é sempre bom para o corpo e para a alma. E com espírito esportivo, melhor ainda. Jovem de 18 anos

Temáticas a serem exploradas Participação social, esporte e lazer

Objetivos Sensibilizar os jovens para o esporte como forma de solidariedade Possibilitar a concretização de ações solidárias

Apresentação do tema Nos espaços urbanos, há um aglomerado de construções, as ruas são muito movimentadas e as crianças e jovens têm pouco espaço livre. Em muitas comunidades da periferia urbana, onde ainda há espaço físico disponível, este não é adequado para a prática de esportes. Quando existem quadras, há a ausência de organização, de materiais e equipamentos. Mas recreação e lazer são necessidades de qualquer criança ou jovem, independente da camada social a que pertençam. A prática de alguns esportes coletivos, como o futebol, o voleibol, o basquete, ou handebol, entre outros, além de favorecer a consciência do próprio corpo, seus limites e possibilidades, desenvolve o espírito de solidariedade, de

cooperação mútua e de respeito pelo coletivo. Aprender a convivência com o grupo, as regras necessárias à organização das atividades, a partilha de decisões e emoções, reconhecendo os limites do espaço físico e da convivência social e encontrando soluções em conjunto para os problemas, são essenciais para uma vida em sociedade. Por esse motivo, a prática do esporte pode ser encarada como um exercício de democracia. Nas escolas, pode ser tomada como forma de reverter o quadro de violência e evasão, tornando-a mais atrativa, na medida em que seus espaços passam a ser utilizados também pela população local. Há maior integração entre os jovens e a conservação do espaço comparti-

e participação social

"A juventude tem um potencial muito grande, mas é preciso criar mais oportunidades para que este potencial seja explorado, deixando de ser o "futuro do Brasil" e passando a ser o presente, fazendo parte das mudanças agora". Assim como 32,5% dos jovens ouvidos pelo IBASE, que participam de algum grupo de ação social, Tassara Sarmento encontrou no esporte esse atalho entre presente e futuro. Sua participação no Movimento de Jovens Voluntários do Semiárido Cearense (Mover) a levou ao projeto voleitário, que oferece aulas de vôlei a crianças e adolescentes carentes do bairro Flores, em Iguatu, no interior do Ceará. E ela se encontrou. "Percebi a carência de prática esportiva nas escolas públicas. Por praticar

Educador, o “futebol” foi aqui utilizado apenas com a finalidade de exemplificar a estratégia, que poderá ser desenvolvida a partir de qualquer outra modalidade esportiva de grupo, conforme sugerido no decorrer das atividades. Jovens e participação social. Guia de ações

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PROJETO VOLEITÁRIO, DO MOVER (MOVIMENTO DE JOVENS VOLUNTÁRIOS DO SEMI-ÁRIDO CEARENSE) Região de atuação: Bairro Flores, em Iguatu (CE) Proposta Oferecer aulas práticas de vôlei para crianças e adolescentes carentes, com acompanhamento familiar e reforço escolar. As atividades são desenvolvidas na Escola Juscelino Kubitschek, Ceará, aos domingos, às 17h Número de jovens atendidos: 20 crianças e adolescentes de 9 a 17 anos Apoio: não tem Contato: Rua 21 de Abril, s/n Prado CEP 63500000 Iguatu (CE) Tel. 88/3581-6575

FILMES Isto é Pelé (direção de Eduardo Escorel e Luiz Carlos Barreto, 1974) Documentário,75´. Todos os corações do mundo (direção de Murilo Salles, 1995) Documentário, 106´.

lhado torna-se alvo do interesse dos que dele desfrutam. O futebol, por exemplo, tomado como manifestação cultural, tem dimensões positivas ligadas ao espetáculo, à motivação e à alegria das pessoas. Por outro lado, trazer também a violência, tanto em campo, entre os jogadores, quanto na arquibancada, entre os torcedores. Essa estratégia pretende desenvolver a cultura da paz a partir do esporte. Propõe a utilização de documentos em vídeo e reportagens de jornal ou revistas para contextualizar e problematizar tal relação e, numa segunda etapa, a organização de um torneio de futebol, podendo ser adotada qualquer outra prática de esporte coletivo. Ao compreender a cultura como

a forma de o homem viver em sociedade, incluindo tudo o que ele pensa e faz com seus valores e características próprias, torna-se possível pensar na cultura da paz. Esta é fundada na ética e favorece atitudes críticas, de reconhecimento de limites e potencialidades, possibilitando escolhas e caminhos baseados em ações coletivas e solidárias. Ao planejar atividades esportivas, é importante estar atento para a diversidade de público e evitar atitudes preconceituosas como “dar futebol para os meninos e voleibol para as meninas”. É fundamental integrar todos em atividades compatíveis com sua faixa etária e interesse, promovendo a autoestima, a cooperação mútua e a solidariedade.

Proposição 1° Momento - Aspectos sociais e culturais ligados ao esporte (futebol) Partindo da apresentação de um filme (Isto é Pelé, Todos os corações do mundo) levante questões relativas a: 1. A arte e a cultura do esporte: os gestos técnicos, a habilidade dos craques, a beleza da torcida empolgada. 2. A desmedida do comportamento de grupos: imagens de conflitos entre torcidas, os lances violentos do jogo. Depois de levantar esses dois extremos, organize os jovens em grupos de cinco a sete participantes. Cada grupo receberá uma cartolina e discutirá a respeito do tema. Peça que registrem, com frases ou imagens, na cartolina, aspectos marcantes que viram na fita, tanto positivos quanto negativos. Os grupos farão uma exposição de suas idéias. À medida que se apresentam, escreva no quadro os itens levantados. Como as fitas sugeridas estão centradas no futebol, é importante que percebam a dimensão cultural desse esporte no país, ressaltando sua ligação com a violência relacionada à falta de respeito ao espaço e às idéias dos outros. O fato de as pessoas torcerem por times diferentes não é motivo para que se agridam. O mesmo princípio vale para religiões, partidos políticos, etc. Dê destaque a um aspecto que certamente aparecerá entre as observações feitas: que a não-violência começa justamente quando se compreende e se aceita as diferenças do modo de ser e de pensar de cada um, embora se possa discordar, argumentar a favor de idéias e expor opiniões. Assim, o futebol, como qualquer outro esporte, deve ser pensado como algo a ser aproveitado com prazer e alegria, pelo jogo, pela confraternização.

e participação social

esportes e conhecer bem o vôlei, sabia que poderia contribuir", diz. (Revista Onda Jovem, ano 2, n. 5, julho 2006, p.13)

2° Momento - Torneio de futebol entre os jovens do grupo. A partir do que foi levantado no encontro anterior sobre a arte do futebol, proponha que realizem um torneio de futebol. Para tanto, auxilie-os a Jovens e participação social. Guia de ações

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estabelecer regras para o torneio e algumas normas de comportamento da torcida, evitando que haja violência dentro e fora de campo. Em roda, na quadra ou na praça, retome os conceitos que surgiram no encontro anterior para motivar que os critérios sugeridos sejam bastante abrangentes. Peça que os jovens se organizem aleatoriamente em grupos, deixando que joguem durante alguns minutos. Observe o modelo cultural vigente na relação entre os grupos e problematize qualquer manifestação de violência, individualismo e desrespeito ao outro, pois é importante que percebam que a violência e a falta de respeito atrapalham o desenvolvimento do jogo. Solicite a reorganização dos grupos, no próprio espaço do jogo (quadra ou parque), e distribua as anotações do primeiro encontro (cartolina). No verso, peça que respondam à seguinte questão: "De que forma é possível superar conflitos e realizar um futebol com maior integração e paz?" Procure incentivar os jovens a pensar um caminho para a prática do esporte (futebol) de forma cooperativa e não violenta. Termine socializando os aspectos levantados e rediscutindo propostas de organização do torneio. Incentive-os a buscarem, entre seus conhecidos ou entre eles mesmos, potenciais “treinadores” para as equipes. Se o espaço físico e os equipamentos para a realização do torneio forem apontados como “dificuldade”, as empresas situadas no bairro ou próximas podem ser envolvidas pela ação, fornecendo, desde espaço físico até recursos materiais. Para isso, motive os jovens a tomarem iniciativas, redigindo um pequeno projeto em que conste o objetivo da ação, a justificativa, a metodologia a ser desenvolvida, os resultados esperados e os recursos necessários para a sua realização. Deverão indicar também uma justificativa plausível para o “patrocínio” pretendido, tal como potencial retorno em termos de visibilidade do patrocinador, ou possibilidade de venda de produtos no local durante a realização do torneio.

À medida que as regras são definidas, argumente em favor de um torneio organizado através de rodízio simples, onde todas as equipes jogam entre si. Esse modelo favorece o conhecimento e a interação entre os participantes, democratizando a competição. Ao final, todos devem ter clareza das regras e da constituição das equipes (por sorteio ou definidas por um ranking bem equilibrado).

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3° Momento - Jogando para a paz Dê continuidade à organização do torneio, que poderá ser chamado "Paz em Campo" ou outro nome definido pelo grupo. A idéia é trabalhar com alguns critérios (definidos a partir das propostas dos encontros anteriores), como por exemplo: equipes mistas para maior compreensão da questão de gênero; regras adaptadas (do futebol) favorecendo interações mais produtivas, como faltas violentas e agressivas (chutes, carrinhos, insultos) que podem ser revertidas em pontos para a outra equipe. Com isso, para vencer a partida, é necessário e fundamental respeitar o outro.

Ressalte que todos os "papéis" do torneio deverão estar definidos: técnicos, arbitragem e auxiliares, proporcionando que todos participem. Outro aspecto fundamental é a torcida para o torneio. Como foi visto e discutido na apresentação dos vídeos, é muitas vezes a torcida, ou Jovens e participação social. Guia de ações

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membros dela, que acabam gerando violência nas partidas. O papel da torcida é importante como incentivo às equipes (palavras de apoio e motivação) e, portanto, qualquer comportamento que desvirtue esse objetivo também deverá prever a concessão de um benefício à equipe de direito, como a marcação de pontos ou cobranças de falta.

4° Momento - Praticar esporte Em círculo, retome rapidamente as regras gerais estabelecidas. Lembre-os de que as regras foram estabelecidas coletivamente para proporcionar bem-estar individual e do grupo. Exemplo: Torcida: agressão de qualquer forma (física ou moral) será revertida em faltas ou pontos para a outra equipe (deixe que os jovens decidam). Conceder pontos para as torcidas que incentivarem mais sua equipe. Jogo: organização de equipes mistas (uma vez que se procura valorizar a integração). O ideal é que o número de meninos e de meninas seja o mesmo em cada equipe na quadra. Jogadas violentas: é necessária atenção às jogadas violentas e ao desrespeito com outros jogadores. O infrator precisará desculpar-se com o outro e, conforme a gravidade, será substituído temporariamente para perceber que atitudes violentas acabam sempre por atrapalhar a convivência pacífica e harmoniosa (é importante estar atento para isso, der modo a evitar que a substituição ocorra apenas como punição pela violência, mas, que oportunize reflexão sobre as atitudes em sociedade).

Sou técnico de um time de futebol infantil numa favela perto de minha casa. O pessoal lá está bem organizado. Tem outros voluntários de diferentes atividades que trabalham com as crianças. Quem me deu a dica foi um amigo que dá aulas de capoeira. Jovem de 17 anos

Peça que preparem o início do torneio fazendo o sorteio da seqüência dos jogos que, no primeiro dia, terá um caráter mais experimental, em que novas regras serão testadas. Junto com os jovens (nomeados como “auxiliares de arbitragem”), a cada infração cometida, explique e relembre as regras que foram acordadas. Ao final, em "roda", rediscuta as regras, dificuldades, melhoria do jogo e a importância de buscar a confraternização.

e participação social

Desenvolvimento do torneio: durante muitos anos, um dos mecanismos utilizados foi a lógica do "quem perde sai". Assim, na maioria das vezes, a equipe "mais forte" ficava jogando, enquanto os "outros" revezavam poucos minutos. Esse procedimento valorizava os "mais aptos" em detrimento dos "ruins". Tal fato contribui muito para a exclusão de muitos jovens, seja por timidez, seja por acharem que "não sabem jogar". Isso acaba fazendo com que o lado bom e positivo da prática esportiva seja esquecido. O aspecto primordial no torneio é que todas as equipes joguem praticamente o mesmo número de partidas e com a mesma duração, e que cada jovem tenha o direito de participar em igualdade de tempo com sua equipe e com os colegas, sem a pressão de já ter que sair. Cabe lembrar que o objetivo é melhorar as relações humanas durante a prática do esporte e não necessariamente descobrir grandes talentos esportivos.

Apreendidas as regras do torneio, os jovens poderão dar continuidade a ele, exercitando a cultura da paz. Com o jogo mais elaborado, e com o auxílio de outros educadores, insira aspectos técnicos e táticos do esporte. Implantado e consolidado o espaço para as atividades esportivas, potencialize-o. Proponha o desenvolvimento de outros esportes, como skate, capoeira e ciclismo. Para tanto, peça que os jovens façam um Jovens e participação social. Guia de ações

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É possível desenvolver atividades de recreação e lazer com jogos de mesa ou de pátio, para crianças, como dominó, dama, xadrez, pinguepongue, etc. Tais jogos podem ser monitorados por adultos, criando um saudável diálogo intergeracional, ou por jovens mais experientes. A idéia de ter um clube de lazer ou um grêmio esportivo organizado por jovens, dentro ou fora da escola, é extremamente gratificante. Assim, torneios e festas entre comunidades diversas poderão fazer parte da ação.

Planejando o encontro Você vai precisar: Fitas de vídeo ("Isto é Pelé", ou "Todos os corações do mundo") Reportagens de jornal ou revista e Quadro-negro Papel pardo, canetas Regras do(s) esporte(s)

Você tem que providenciar: Sala com espaço para os encontros TV e vídeo Espaço para a prática do esporte (quadra, campo, praça)

Não esqueça: Possibilite o rearranjo das atividades, caso os jovens assim desejem. Deixe a organização da divulgação sob responsabilidade dos jovens.

Tempo sugerido 4 encontros de aproximadamente 2 horas cada.

Referências A escola de chuteiras. Revista Nova Escola. nº 151, Abril de 2002. Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária. Guia de ações complementares à escola para crianças e adolescentes. São Paulo: CENPEC/UNICEF, 2.ed., 1998. LACOCCA, Liliana e Michele. O livro do adolescente: discutindo idéias e atitudes com o jovem de hoje. São Paulo: Ática, 2003. Revista Onda Jovem, ano 2, n. 5, julho 2006, p.13 WEIL, Pierre. A mudança de sentido e o sentido da mudança. Rio de janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 2001. www.unipaz.org.br www.valoreshumanos.org.br www.cev.org.br www.nossogrupo.com.br/grupo.asp?10660

Anexos 1.Texto 1 2.Texto 2

Jovens e participação social. Guia de ações

e participação social

Que tal?

levantamento das práticas preferidas por eles e pelos demais jovens da comunidade. Sugira que façam contatos e organizem uma pequena apresentação, sensibilizando para a diversificação de atividades esportivas a serem realizadas em espaços de convivência da comunidade.

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O espaço deve ser sempre organizado para proporcionar melhor aprendizagem e relações humanas mais qualitativas. Quadra, sala e pátio podem igualmente ser usados, dependendo dos objetivos propostos. Porém, algumas dicas são pertinentes: seja qual for o espaço, é importante iniciar e encerrar a atividade com a idéia da roda. A roda (círculo, ou assembléia) é efetivamente o momento onde o grupo fica à vontade para expressar suas impressões. Ela pode e deve ocorrer em espaços diferenciados. Os momentos de trabalho coletivo podem ser organizados em pequenos grupos (cinco a sete jovens), que ao longo dos encontros serão reunidos mais de uma vez. A quadra ou o pátio onde a prática do futebol ocorrerá devem ser também entendidos como "sala aberta" e, da mesma forma, organizados pelo educador e pelos jovens. Uma pequena lousa móvel pode ser levada para a quadra ou o pátio. Levar um recurso

didático (nesse caso a lousa) faz da quadra, além do lugar mais apropriado, o local onde o conhecimento pode ser tratado de forma gostosa, sentado no chão, em círculos. Os jovens perceberão que as estratégias de jogo podem ser melhoradas com a utilização do quadro. Nos jogos de futebol, durante o torneio, o local para a torcida e demais integrantes deve ser definido anteriormente para evitar confusões. Leve em conta os espaços disponíveis ao redor; a proximidade com outras salas, principalmente no caso de ser uma escola (para não atrapalhar o trabalho dos professores) e que todos os espaços possíveis próximos ao jogo estejam ocupados de forma homogênea, para gerar um clima apropriado. É importante lembrar que, assim como em todo o processo, os jovens devem participar da definição dos locais. O exercício de respeito ao espaço de cada um e de todos começa por aqui.

Texto

ço

e participação social

ANEXO 1

Organização do espa

http://revistaescola.abril.com.br/planos/educacao_fisica/jogando_para_paz.shtml Jovens e participação social. Guia de ações

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Fotos Edson Ruiz

Texto

ANEXO 2

Acolher e educar são os melhores caminhos para evitar brigas, ameaças e depredações.

Denise Pellegrini Marcos Vita

No dia 1º de abril, Edi Greenfield, diretora da Escola Municipal de Ensino Fundamental Madre Joana Angélica de Jesus, em São Paulo, foi assassinada com dois tiros na cabeça, dentro de seu carro, ao final de um dia de trabalho. Suspeita-se que tenha sido vítima de traficantes inconformados com a batalha Escola Municipal Novo Marotinho, de que ela travava para manter os Salvador: as depredações e ameaças alunos longe das drogas. Dois diminuíram com o envolvimento da comunidade dias depois, um desconhecido disparou seis balas contra a adolescente Fabiana Silva, que faleceu no pátio da Escola Estadual Professor Celestino Bourroul, em Santo André, onde estudava. Até o fechamento desta edição, não se sabia o motivo do crime. Os disparos atraíram a atenção para um tema que, volta e meia, freqüenta as manchetes dos jornais: a violência nas escolas.

É fácil perceber a relação de causa e efeito. Como uma criança reprovada (uma, duas, três vezes…) se comporta em relação aos mestres e ao prédio em que estuda? Ao fracassar, ela não tem reforçada a idéia de que a escola é enfadonha e nada lhe acrescenta? De que maneira ela se sente e age num ambiente deteriorado e inseguro? E a comunidade, como encara uma instituição que não acolhe nem se esforça para educar? "Abriu-se caminho para a violência quando se deixou de ensinar e respeitar quem vem das camadas populares", afirma Eloisa Guimarães, professora do laboratório de Currículo e Ensino da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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As duas tragédias são amostras da brutalidade extrema que está disseminada pela sociedade à qual educadores e estudantes não estão imunes. O que não quer dizer, porém, que todas as escolas tenham se tornado violentas. Na verdade, há várias outras faces do fenômeno, menos dramáticas, mas muito mais presentes no dia-a-dia do professorado. Depredação, ameaça, agressão verbal, briga, confronto entre gangues, uso e tráfico de drogas, preconceito, segregação e discriminação são, certamente, as primeiras que vêm à mente de quem trabalha numa sala de aula. Outro aspecto, tão grave quanto, não causa mortes, ferimentos ou prejuízos materiais. É o fracasso escolar, que deixa marcas profundas em crianças e jovens e, na maioria das vezes, está na origem da violência que assusta dentro e fora do ambiente da escola.

Local de frustração Os tiros que tanto chocaram a opinião pública são conseqüências de uma série de mazelas históricas cujos responsáveis são o governo, o empresariado, a imprensa e também a instituição escolar. A tendência dos educadores sempre foi a de buscar culpados por essa Jovens e participação social. Guia de ações

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Texto

realidade cruel que às vezes invade os nossos colégios. Mas quem se dedica a analisar o fenômeno afirma que ele só entra em um caso: quando as portas estão abertas. E os portões ficam escancarados, quando não se cumpre a missão de educar. Pesquisa realizada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em 14 capitais brasileiras e divulgada em março mostrou que os adolescentes vêem a educação como o caminho para alcançar melhores posições no mercado de trabalho e na sociedade. Apesar disso, constrangidos pela agressividade, tanto de professores quanto de colegas, muitos não acreditam que possam transformar o sonho em realidade. Por isso, cerca de um terço dos jovens disse não ter vontade de freqüentar as aulas. "Em vez de desenvolver a cidadania, o sistema os coloca para fora da pirâmide social", afirma a socióloga Miriam Abramovay, coordenadora do estudo.

A diretora Valda (no centro) recebe pais em turmas de adultos e mantém a sala de informática funcionando fora do horário de aulas: relação de respeito

A frustração confirma o resultado de levantamento realizado em 2001 pelo Sindicato de Especialistas de Educação do Magistério Oficial do Estado de São Paulo (Udemo). Em 87% dos 429 estabelecimentos pesquisados, o desinteresse pela instituição está associado ao fato de ela não demonstrar sua utilidade. Em 64% delas, os estudantes não vêem um futuro promissor e não se sentem ligados ao espaço em que estudam.

Fonte: Nova Escola, Edição Nº 152, Maio 2002.

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e participação social

Esse desinteresse só muda quando mestres e discípulos sentemse parte de um único grupo. "Se a criança se vê acolhida, a maneira de agir muda", analisa Ione Nogueira, coordenadora do curso de Pedagogia da Universidade Paulista, em Bauru. Quem pretende formar cidadãos deve, portanto, promover trocas, e não imposições. "É possível que a depredação seja o meio encontrado para reivindicar um espaço público negado", reflete Ione.

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Escola como espaço de diálogo intergeracional “... o típico da aprendizagem humana não é a assimilação das coisas do mundo, mas a troca intersubjetiva com outras consciências e sensibilidades. É nesse sentido que a escola se afirma como o espaço e tempo dos encontros entre muitos sujeitos culturais que a fazem existir.” Paulo Carrano “A escola é um lugar privilegiado para a construção de saberes, é também importante agente de socialização e formação das individualidades. Mais do que isso, a escola é um dos primeiros espaços de atuação pública dos jovens. Qual seria, então, o papel da escola na construção do espaço público? De que maneira a escola pode contribuir para que os jovens se apropriem de sua condição de cidadãos?” CENPEC, São Paulo

Temáticas a serem exploradas Participação juvenil, relações intergeracionais na escola

Objetivos Refletir sobre as possibilidades de reunir diferentes na escola, por meio do diálogo e da colaboração intergeracional. Fomentar o desenvolvimento de práticas relacionais positivas entre escola e jovens, reconhecendo-os como construtores do processo educativo. Valorizar as experiências de participação social solidária e voluntária dos jovens no âmbito da escola.

“Ao se abrir ou ser aberta por práticas coletivas juvenis que penetram em seus tempos e espaços administrativopedagógicos, em geral fechados e pouco tolerantes ao diverso, a escola pode se perceber desorganizada e despreparada, ou mesmo enxergar a possibilidade de reorganizar seu cotidiano institucional em geral orientado para a uniformização e o anonimato em novo território, no qual as identidades juvenis possam encontrar espaço para o diálogo.” (Peregrino e Carrano, 2003)

de expressão de suas idéias, valores, linguagens. Muitas vezes, queixam-se da forma escolar, das aulas, dos rituais, da burocracia e hierarquia escolar, dos professores. Curiosamente, apesar de tudo, muitos jovens não desistem de imediato e, dia após dia freqüentam os bancos escolares, o que infelizmente não é regra geral. Também na escola, os professores/adultos experimentam sentimentos ambíguos em suas relações com os alunos/jovens: de um lado, a energia e a pulsação juvenil surpreendem, contagiam, inspiram. De outro, a irreverência, a franqueza e a resistência de alguns jovens, os desencantam, assustam, afastam. O diálogo entre professores e alunos, em geral, é

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Escola como espaço de diálogo intergeracional

Apresentação do tema A escola, em nossos dias, é um espaço privilegiado para as experiências da vida que acontecem durante a juventude. Na escola os jovens vivenciam muitas de suas relações de sociabilidade: fazem amigos, pertencem a um grupo, assumem identificações estéticas, criam estilos, desenvolvem idéias, trocam informações, relacionam-se com a diversidade dos modos de ser e viver das diferentes juventudes, seja quanto ao gênero, etnia, faixas de idade, religião, origem étnica e cultural, distinções de renda familiar, diversidade de locais de moradia. No ambiente escolar, aproximam-se ou distanciam-se de interesses e direções de vida, encontram possibilidades ou impossibilidades

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truncado, o que leva a frustrações, tensões, incompreensões, de ambos. À primeira vista, pode-se supor que os ideais, expectativas, vontades, desejos e estilos juvenis não têm lugar na escola. Os jovens recorrentemente indicam que grande parte dos conhecimentos e ações escolares lhes parecem vazios de significados e não correspondem a suas preocupações mais urgentes. Isso porque, em muitos sentidos, o sistema educacional descuidou-se de acompanhar, conhecer e entender o novo sujeito juvenil que é também um aluno. Qual é a aposta? Educadores e jovens podem estabelecer relações dialógicas, de trocas de saberes e experiências, de partilha de sentimentos, esperanças, projetos comuns, podem, enfim, dispor-se a aprender com o diálogo intergeracional. Para Irrazabal e Oyarzún (2003), é possível, na escola, “fazer da cultura juvenil uma concepção que permita ver os jovens com recursos e como um recurso que dê, tanto aos docentes como aos

próprios jovens, um novo sentido às experiências educativas no espaço educacional” (p.27). Mais do que isso: a escola pode representar aos jovens aquela experiência que torna possível refletir sobre os valores da convivência social, criar oportunidades para uma inserção positiva e propositiva dos jovens na vida social, através da criação de oportunidades/espaços de escuta e de engajamento em ações de cooperação sociocultural , assentadas na troca de saberes, no diálogo entre as diferentes gerações envolvidas com participação cidadã socialmente responsável. Para isso, nada melhor que o investimento coletivo da escola na criação de espaços de encontro e reflexão que permitam aos jovens e adultos o estabelecimento de redes de ajuda mútua e de construção de diversos âmbitos que possam acolher as culturas juvenis nos tempos atuais; tudo o que elas, potencialmente, com sua energia vital de reciclagem, podem formular para o desenvolvimento e o futuro do planeta, de forma solidária.

O que poderíamos de fato aprender da vida? Com a transição demográfica que ocorre hoje, principalmente no mundo ocidental, em que o desenvolvimento humano estende cada vez mais a expectativa de vida dos povos, a convivência entre as diversas gerações torna-se igualmente indispensável para a transformação da sociedade. A constituição das populações, expressa nesse novo cenário intergeracional, adverte para a necessidade de compreensão mútua entre cada um dos grupos etários.

Solicite, ainda, que relatem experiências pessoais, ou histórias de vida de outros jovens que conheçam, sobre as relações adultos & jovens,

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Proposição

Jovens e participação social. Guia de ações

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1° Momento Convide os jovens a assistir o filme “Encontrando Forrester”, de Gus Van Sant, apresentando-o brevemente para que os jovens fiquem atentos aos propósitos do trabalho: pensar as relações intergeracionais. Após a exibição do filme, proponha a reflexão coletiva sobre as impressões de cada um acerca das situações vividas pelos personagens: aproximações e estranhamentos com suas experiências de vida, suas relações com diferentes.


Encontrando Forrester (2000, drama, direção de Gus Van Sant, duração: 135min). O filme conta a história de um jovem adolescente, Jamal Wallace (Robert Brown), que ganha uma bolsa de estudos em uma escola de elite de Manhattan, devido ao seu desempenho nos testes de seu antigo colégio no Bronx e também por jogar muito bem basquete. Após uma aposta com seus amigos, ele conhece William Forrester (Sean Connery), um talentoso e recluso escritor com quem desenvolve uma profunda amizade. Percebendo talento para a escrita em Jamal, Forrester procura incentivá-lo para seguir este caminho, e termina recebendo de Jamal algumas lições de vida.

2° Momento Para uma reflexão sobre as relações intergeracionais, sugira a possibilidade de o grupo realizar entrevistas junto a pessoas de diferentes idades, com o intuito de escutá-las sobre o modo como percebiam suas relações com o mundo adulto quando eram jovens, em diferentes décadas. Proponha aos jovens a elaboração de uma listagem de possíveis perguntas aos entrevistados, partindo da própria discussão do filme. Auxilie os grupos a distribuírem tarefas entre si e a organizarem o registro de cada entrevista, a reunião dos resultados e a apresentação das informações recolhidas aos demais. Tabulações das entrevistas poderão ser feitas a partir de painéis ilustrados com imagens expressivas das épocas relatadas pelos entrevistados, das palavras mais significativas e das conclusões do grupo. Convide dois jovens a coordenarem as apresentações dos dados colhidos nas entrevistas. Oriente a elaboração de um registro coletivo sobre as constatações que podem obter a partir de todos os relatos. O registro pode ser feito em papel pardo, na forma de uma linha do tempo, listando as idéias mais expressivas sobre as relações intergeracionais nas décadas representadas pelos entrevistados. Problematize no coletivo: A partir das imagens, palavras, frases e reflexões que surgiram nas entrevistas: quais aspectos sobre as relações entre jovens e adultos permanecem até o presente e quais são distintos? quem tem mais dificuldades/resistências ao diálogo? Jovens ou adultos? quais aprendizados são possíveis nas relações de diálogo entre as diferentes gerações?

3° Momento Proponha a leitura do texto do Anexo 1 e sugira que a reflexão se volte para a instituição escolar. Retome os grupos e distribua a cada um ou a cada dois grupos, as frases abaixo, transcritas em tiras de papel colorido ou montadas com letras grandes recortadas de revistas: 1. Jovens e escola: um caso de amor não correspondido? 2. Jovens e professores: monólogos ou diálogos? 3 . E s c u ta r o s j o v e n s : reconhecimento?

da

indiferença

ao

4. Saberes adultos e saberes jovens na escola: o que pode levar a um ponto de encontro? tudo ou nada? Sugira aos grupos que discutam sobre as frases, registrem as diferentes idéias e se preparem para um debate em grande grupo. Em plenária, organize um debate a partir da frase:

A escola que temos e o mundo juvenil: possibilidades de encontro Jovens e participação social. Guia de ações

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filme

especialmente como acontecem nas escolas ou outros espaços de atuação.

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Ao final do debate, elabore, coletivamente, uma síntese, considerando as seguintes questões: O que precisamos, ainda, pensar? O que precisamos, ainda, observar melhor na escola? O que leva a que ocorram as situações apresentadas? O que seria necessário para superar as impossibilidades? É possível manter a escola como ela se apresenta hoje?

4° Momento Proponha aos jovens a organização de um evento na escola para intercâmbio dos diferentes saberes geracionais, podendo ser uma espécie de Feira de Experiências - As gerações e suas lições de vida, com o objetivo de socializar e integrar para um diálogo intergeracional. As diversas gerações crianças, jovens, adultos, pessoas da terceira idade, poderão ser convidadas a mostrar saberes, produção artísticocultural, artesanal, habilidades culinárias ou competências em geral, na forma de uma tenda, oficinas, álbum, cartazes etc. Desafie os jovens a organizarem a programação da Feira, a escolherem o local, prepararem o ambiente da feira, providenciarem os convites, divulgarem em diversos meios, além de auxiliarem os convidados em suas apresentações (materiais, exposições, local, etc). Os diferentes saberes geracionais também podem ser apresentados em uma Mostra de Experiências de Ações Solidárias realizadas por diferentes gerações da comunidade escolar. Para isso, os jovens precisarão mapear diferentes experiências e gerações da comunidade/cidade no âmbito da solidariedade, a fim de convidá-las à participação na Mostra (associações de bairro, ongs, instituições filantrópicas, clube de mães, campanhas e iniciativas de voluntariado de pais, professores e jovens etc.). Insista na representatividade de jovens nessas ações a serem apresentadas na Mostra. A Mostra poderá ser agendada para o Dia Nacional da Solidariedade (terceiro sábado do mês de maio) ou para o Dia Internacional do Voluntário (05 de dezembro).

Proponha aos jovens a organização de um evento para intercâmbio dos diferentes saberes geracionais, podendo ser uma espécie de Feira de Experiências - As gerações e suas lições de vida - com o objetivo de socializar e integrar para um diálogo intergeracional. As diversas gerações - crianças, jovens, adultos, pessoas da terceira idade, poderão ser convidadas a mostrar saberes, produção artístico-cultural, artesanal, habilidades culinárias ou competências em geral, na forma de exposição, oficinas, álbuns, cartazes etc. Desafie os jovens a organizarem a programação, conseguirem um local, providenciarem os convites, divulgarem em diversos meios, além de auxiliarem os convidados em suas apresentações (materiais, exposições, local, etc). Os diferentes saberes geracionais também podem ser apresentados em uma feira de experiências de ação solidária realizadas por diferentes gerações, intitulada, por exemplo: Quem são, onde estão e o que fazem: a solidariedade tem nome! Os jovens poderão mapear diferentes experiências e gerações da comunidade/cidade no âmbito da solidariedade, a fim de convidá-las à participação na feira (associações de bairro, ongs, instituições filantrópicas, clube de mães, voluntários, campanhas etc.).

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5° Momento

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Planejando o encontro Você vai precisar: Aparas de papel colorido, canetas coloridas e fita crepe. Folhas para rascunho. Papel pardo para cartazes e painéis. Você tem que providenciar: Sala com TV e vídeo para a projeção. Espaço para realização da Feira. Material para reprodução dos questionários. Não esqueça: A organização de ações pelos jovens difere das formas de planejamento dos adultos, daí a importância de garantir espaço de criação e auxiliar os jovens a avaliarem criticamente suas escolhas, ações e resultados.

Tempo sugerido 4 encontros, além do tempo necessário à organização da Feira.

CARRANO, Paulo César Rodrigues. Os jovens e a cidade. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Faperj, 2002. ______. Juventudes: as identidades são múltiplas. Revista Movimento. Faculdade de Educação/UFF. Rio de Janeiro. DP&A 2000. ______. Ensino Médio: entre jovens e estudantes. Programa Salto para o Futuro, TVE. http://www.tvebrasil.com.br/salto/boletins2004/em/meio.htm CENPEC - Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária. Guia de ações complementares à escola para crianças e adolescentes. São Paulo: CENPEC/UNICEF, 2. ed. 1998. DAYRELL, Juarez. Pedagogia da Juventude. Disponível em www.ondajovem.com.br Acesso em 29/05/2006 GUIMARÃES, Marcelo Rezende. Um agosto de muita sorte. Tribos nas trilhas da cidadania: histórias e guias para o voluntariado juvenil; organização de Marcelo Rezende Guimarães; colaboração de Leandro Pinheiro; ilustrações de Cristiano Ribeiro. Porto Alegre: ONG Parceiros Voluntários, 2004. p.16-119. MORAGAS, Ricardo. Relações intergeracionais nas sociedades c o n t e m p o r â n e a s . D i s p o n í v e l e m h t t p : / / w w w. s e s c s p . o r. b r / sesc/Conferencias/subindex.cfm?Referencia=2929&ParamEnd=5 Acesso em 20/05/2005 PEREGRINO, Mônica e CARRANO, Paulo. Jovens e escola: compartilhando territórios e sentidos de presença. In: NASCIMENTO, Iracema. A escola e o mundo juvenil: experiências e reflexões. São Paulo: Ação Educativa, 2003.

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Referências

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Glossário Gerações: são identidades coletivas construídas a partir de experiências comuns, como a vivência dos mesmos acontecimentos, o que origina atitudes, sentimentos e condutas semelhantes. As gerações identificam-se com variáveis sociais e podem ou não coincidir com idades próximas. “A experiência compartilhada na escola, em organizações econômicas ou ideológicas, a profissão, o lazer, a história, as guerras, as revoluções, o estilo de vida, a moda, a música e qualquer denominador da conduta de grupos identificam-se também como geração, sem referência à idade.” (MORAGAS, 2003) Relação intergeracional: é a rede interativa, multidimensional, na qual atores individuais e coletividades de diferentes gerações se influenciam de forma mútua, intercambiam valores, saberes, experiências ou mesmo estabelecem disputas e conflitos.

Anexos

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1. Texto para leitura

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qualidade que possibilitem a cada um experimentar e desenvolver suas potencialidades. Identidade e projeto de vida É nesse processo, permeado de descobertas, emoções, ambivalências e conflitos, que o jovem se defronta com perguntas como: “quem sou eu?”, “para onde vou?”, “qual rumo devo dar à minha vida?”. Questões que remetem à identidade e ao projeto de vida, duas dimensões que aparecem interligadas e são decisivas durante seu amadurecimento. O projeto de vida pode ser entendido como a ação do indivíduo de escolher um dentre os futuros possíveis, capaz de transformar os desejos e as fantasias que lhe dão substância em objetivos passíveis de serem perseguidos, representando, assim, uma orientação, um rumo de vida. Os projetos podem ser individuais ou coletivos; podem ser mais amplos ou restritos, com elaborações a curto ou médio prazo, segundo o campo de possibilidades. Quer dizer, dependem dos contextos socioeconômico e cultural concretos em que cada jovem se encontra inserido, e que circunscrevem suas experiências. O projeto possui uma dinâmica própria, transformando-se na medida do Um projeto de vida se realiza na junção de duas variáveis. A primeira diz respeito à identidade, ou seja, quanto mais o jovem se conhece, experimenta as suas potencialidades individuais, descobre suas amadurecimento dos próprios jovens ou das mudanças no campo de possibilidades. preferências, aquilo que sente prazer em fazer, maior será a sua capacidade de

Texto para leitura

Uma reflexão sobre a questão do projeto de vida no âmbito da juventude e o pap el da escola nesse processo exige que se esclareça, antes de mais nada, o que se compreende a respeito da categoria juventude, quase sempre considerada um dad o da natureza. Acredito que ela deva ser entendida, ao mesmo tempo, como uma condição social e uma representação. De um lado, há um caráter universal dado pelas transformações do indivíduo em determinada faixa etária, na qual completa o seu desenvolvimento físico e enfrenta mudanças psicológicas. Mas a forma como cada sociedade e, no seu interior, cada grupo social vai lidar e representar esse momento é muito variada. Nã o existe uma juventude, mas sim juventudes, no plural, enfatizando, assim, a diversidade de modos de ser jovem na nossa sociedade. Nesse sentido, se queremos compreender esses meninos e meninas com que atuamos, é necessário antes de tudo conhecê-los em sua realidade, descobrindo como eles constroem, cada um à sua maneira, a sua experiência. A vivência da juventude, desde a adolescência, tende a ser caracterizada por experimentações em todas as dimensões da vida subjetiva e social. O jovem torna-se capaz de refletir e de se ver como um indivíduo que participa da sociedade, recebendo e exercendo influências, e é este o momento em que sua inserção social acontece. Período que pode ser crucia l para o seu desenvolvimento pleno como adulto e cidadão, sendo necessários tempos, espaços e relações de

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ANEXO 1

Pedagogia da juventude Juarez Dayrell

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A questão da realidade Outra variável que rfer inte e na elaboração do projeto de vida é o conhecimento da realidade. Quanto mais o jovem conhece a realidade em que se insere, compreende o funcionamento da estrutura social com seus mecanismos de inclusão e exclusão e tem consciência dos limites e das possibilidades abertas pelo sistema na área em que queira atuar, maiores serão as suas possibilidades de elaborar e de implementar o seu projeto. As duas variáveis demandam espaços e tempos de experimentação e uma ação educativa que a possa orientar. A elaboração de um projeto de vida é fruto de um processo de aprendizagem, durante o

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Papel da escola É tarefa do mundo adulto e de suas instituições garantir aos jovens momentos e situações em que se coloquem como interlocutores , promovendo uma relação intergeracional. As pesquisas vêm mostrando, porém, que a instituição escolar, principalmente a escola pública, não vem cumprindo esse papel. A escola pouco conhece o jovem que a freqüenta, a sua visão de mundo, os seus desejos, o que faz fora da escola. Ao mesmo tempo, predomina uma representação negativa e preconceituosa em relação à juventude. O jovem é visto na perspectiva da falta, da incompletude, da desconfiança, o que torna ainda mais difícil para a escola perceber quem ele é de fato. Mas já existem muitas experiências que apontam para uma nova postura da escola na relação com os jovens, com algumas características que devem ser ressaltadas. Um primeiro aspecto é reconhecer e lidar com ele

Texto para leitura

Falar de identidade, não significa trazer à baila um “eu” interior natural, como se uma capa fosse colocada pela sociedade sobre o núcleo interno com o qual nascemos. Ao contrário, trata-se de uma construção que cada um vai fazendo por meio das relações com o mundo e com os outros. A construção da identidade é antes de tudo um processo relacional, ou seja, um indivíduo só toma consciência de si na relação com o outro. É uma interação social, o que aponta para a importância do pertencimento grupal e das suas relações solidárias para o reforço e garantia da identidade individual. Fica evidente o valor do grupo de amigos, das esferas culturais, das atividades de lazer, da escola, entre outros, como espaços que contribuem na construção de identidades positivas.

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elaborar o seu projeto.

qual o maior desafio é aprender a escolher. Na sociedade contemporânea, somos chamados a eleger, a decidir continuamente, fazendo desta ação uma condição para a sobrevivência social. A escolha também é objeto de aprendizagem: aprendemos a praticá-la e a nos responsabilizar pelo que escolhemos. Um e outro se aprendem fazendo, errando. Essas são condições para a formação de sujeitos autônomos. Cabe perguntar: onde nossos jovens estão exercitando isso, aprendendo a escolher? Quais os espaços que vêm estimulando a formação de jovens autônomos?

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Juarez Dayrell é sociólogo, professor da Faculdade de Educação da UFMG e coordenador do Observatório da Juventude da UFMG

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Texto para leitura

Professor e aluno E aqui vale ressaltar a centralidade da relação dos jovens com seus professores. Estes são a expressão de uma geração adulta, portadora de um mundo de valores, regras, projetos e utopias a ser proposto aos alunos. Cabe a eles se colocarem como interlocutores destes, diante de suas crises, dúvidas e perplexidades. Assim, a escola se efetiva como um espaço de diálogo entre os jovens e o mundo adulto, contribuindo na construção de referências positivas. No trabalho com os jovens, a força propulsora tem de ser o desejo. Professores e alunos com vontade de descobrirem novos caminhos, novas relações, novos conhecimentos. O envolvimento dos professores é o primeiro passo para qualquer proposta que pretenda estabelecer um entendimento maior com os alunos, fazendo da escola um espaço onde eles “possam ser mais”, como dizia Paulo Freire. Será reencontrada, assim, a vocação da escola como um espaço de formação humana.

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como sujeito. Implica percebêlo como realmente é, além da sua condição de aluno. É um indivíduo que ama, sofre, se diverte, pensa a respeito das suas experiências, interpreta o mundo, tem desejos e projetos de vida. Torna-se necessário escutá-lo, considerá-lo como interlocutor válido e, na perspectiva do protagonismo juvenil, tomá-lo como parceiro na definição de ações que possam potencializar o que já traz de experiência de vida. Levar em conta o jovem como sujeito é adequar a escola a uma “pedagogia da juventude”, em que se consideram os processos educativos necessários para lidar com um corpo em transformação, com os afetos e sentimentos próprios dessa fase da vida e com as suas demandas de sociabilidade. Implica também adequar o ritmo dos processos educativos, dinamizando-os com metas e produtos que respondam à ansiedade juvenil por resultados imediatos. É fazer da escola um espaço de produção de ações, de saberes e relações. É acreditar na capacidade do jovem, na sua criatividade e apostar no que ele sabe e quer saber. Desse modo, a escola se torna um centro juvenil, um espaço de encontro, de estímulo à sociabilidade, onde os jovens têm a chance de descobrirem-se diferentes dos outros e, principalmente, de aprenderem a respeitar essas diferenças. Um espaço de aprendizagem das regras e vivências coletivas e do exercício da participação. Todos esses são aspectos centrais na construção de identidades positivas e na elaboração de projetos de vida.

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Infância: tema de mobilização Todos iguais, todos iguais, mas uns mais iguais que os outros... Engenheiros do Havaí A gente trabalha para que o jovem tenha a voz e a vez, que nenhuma pessoa esteja com a boca vendada. A gente tenta conscientizar a juventude pra que ela não seja uma marionete. Jovem de 20 anos Quando eu vejo um problema, eu não quero acreditar que não é possível mudar alguma coisa, por pior que pareça a situação. Eu me sinto muito pequena quando acho que não dá pra melhorar alguma coisa. E, nesse sentido, a participação, nesse ambiente que às vezes é micro, é uma coisa pequenininha que tu faz, que tu sabe que é uma semente. A partir disso, tu consegue construir alguma coisa Jovem de 17 anos Tem que se juntar e ajudar, entendeu? A mesma coisa é fazer junto, não querer fazer sozinha, é melhor. Jovem de 18 anos

Temáticas a serem exploradas Participação social, solidariedade.

Objetivos Refletir sobre o espaço da criança na sociedade contemporânea. Sensibilizar os jovens para o cotidiano da criança trabalhadora. Possibilitar a concretização de ações solidárias.

lógico e social. No campo e na cidade, encontramos meninos e meninas trabalhando até 12 horas por dia, ao invés de estarem estudando e brincando, direitos que lhes são garantidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Os motivos que levam esses meninos e meninas a trabalharem muito antes de estarem preparados para isso vão, desde a visão equivocada de que crianças que começam a trabalhar cedo podem ter um futuro melhor, e também a situação de miséria de inúmeras famílias, até a ausência de escolas e de atividades de lazer para todos. Para crescer de forma saudável, a criança tem que estudar, brincar e preparar-se para o mundo do trabalho. Para isso, governos e

Jovens e participação social. Guia de ações

Infância: tema de mobilização

Apresentação do tema Os jovens indicam que têm a vontade de “fazer algo diferente”, mas ressaltam que esse desejo depende, muitas vezes, de uma oportunidade, de um tema, de uma causa, de um chamamento que os mobilize. Assim, a estratégia propõe um debate amplo sobre o trabalho infantil, partindo de uma contextualização mundial, até chegar à comunidade próxima. Através da consciência do seu entorno, pretende-se que os jovens sejam mobilizados para a ação solidária. No Brasil, apesar de proibido por lei, muitas crianças e jovens com menos de 14 anos trabalham. Muitas vezes esse trabalho ocorre em atividades insalubres, que prejudicam a saúde e afetam o desenvolvimento físico, psico-

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sociedade civil devem implementar ações capazes de ajudar a evitar que as crianças comecem a trabalhar precocemente e, naqueles lugares onde já trabalham, possam fazer com que esse trabalho vá diminuindo até acabar. No Brasil, há movimentos e

instituições de combate ao trabalho infantil, mas é preciso intensificar ações e mobilizações, pois todos podem ajudar, começando pela conscientização de que lugar de criança é na escola, junto à família e à comunidade, com espaço para o lazer, para brincar.

Quando eu trabalhava, eu dizia pra mim: “Você tem direitos”. Mas eu não sabia como lutar. Não sabia como conseguir um espaço na sociedade... Não podemos ter vergonha se somos negros ou somos brancos, se somos pobres ou não. Somos importantes para o mundo. Jovem de 14 anos

Bola, pelúcia, merenda, crayon Banho de rio, banho de mar, Pula sela, bombom Tanque de areia, gnomo, sereia, Pirata, baleia, manteiga no pão Giz, merthiolate, band aid, sabão Tênis, cadarço, almofada, colchão Quebra-cabeça, boneca, peteca, Botão. pega-pega, papel papelão Criança não trabalha Criança dá trabalho Criança não trabalha 1, 2 feijão com arroz 3, 4 feijão no prato 5, 6 tudo outra vez

Quando criança, saí de casa e fui morar na rua. Trabalhei em supermercado, carpintaria, oficina mecânica. Eu não quero mudar o futuro. Simplesmente quero participar da mudança. É isto que me faz estar aqui e contar para vocês as injustiças sociais que muitas crianças estão sofrendo. Jovem de 16 anos, Marcha Global Contra o Trabalho Infantil, 1998

Proposição 1° Momento Traga para a sala imagens que podem ser coletadas em revistas, livros e na Internet sobre as crianças que trabalham. Na seqüência, reflita coletivamente com os jovens sobre suas impressões acerca das situações vividas pelas crianças. Pergunte, a partir das imagens, o que sabem, ou já viram ou ouviram falar sobre trabalho infantil. Pode-se propor, diante das imagens, uma discussão, com a questão: “Trabalho infantil: o que eu tenho a ver com isso?”. Divida os jovens em dois grupos: Grupo de Observação e Grupo de Verbalização. Nesse caso, sugira que utilizem uma ficha de registro (anexo 1). Solicite que relatem alguma experiência de vida problematizando o trabalho infantil.

2° Momento Peça que os jovens produzam e registrem, com texto, colagens e desenhos um painel que represente, o seu dia-a-dia: tarefas que realizam em casa, com a família, com os amigos, na escola, as atividades de lazer, os passeios... Dê liberdade para que se organizem, escolhendo fazer um único registro ou registros por grupos. Jovens e participação social. Guia de ações

Infância: tema de mobilização

Criança Não Trabalha Arnaldo Antunes Composição: Arnaldo Antunes / Paulo Tatit Lápis, caderno, chiclete, peão Sol, bicicleta, skate, calção Esconderijo, avião, correria, Tambor, gritaria, jardim, confusão

Eu trabalho desde os 4 anos de idade. Agora eu vou pra escola. Eu acho importante ter vindo, porque eu tenho fé que a criança não pode trabalhar. Quando eu trabalhava, eu passava a ser adulto, agora eu sou criança. Jovem de 12 anos

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Resuma e problematize o dia-a-dia dos jovens, comentando as atividades comuns a todos. Como é a sua rotina? Escola e estudo ou é escola, estudo e trabalho? Horários, obrigações, correria, cansaço... Todo dia é a mesma coisa! Que tédio, hein? Chega o dia de folga e nada mais justo do que curtir o ócio, aquela horinha de espairecer, relaxar, passear, ir ao cinema... Dá pra viver sem lazer?

3° Momento Convide os jovens a pesquisar (na Internet, em jornais e revistas) o trabalho infantil. Proponha que se atenham às regiões brasileiras. Indique o site www.trabalhoinfantil.org.br (anexo 2). Exponha, na sala onde os encontros são realizados, um mapa do Brasil, que pode ser desenhado. Nele, identifique as regiões pesquisadas e o tipo de trabalho realizado pelas crianças (na agricultura, com o sisal, cortando cana, alimentando os fornos de carvão, nos semáforos, no trabalho doméstico, etc.). Reserve um espaço para que cada jovem ou grupo de jovens faça o relato de seus achados. Questione sobre as diferenças existentes entre os pesquisadores e os jovens pesquisados. E as semelhanças? Será que gostam das mesmas coisas? Como deve ser o cotidiano dessas crianças?

4° Momento Como atividade optativa, dentro das possibilidades do grupo, retome as imagens e as informações sobre os pequenos trabalhadores do campo e questione os jovens sobre as crianças que vivem nas grandes cidades. Convide-os a observarem a cidade, as ruas, as sinaleiras, os dias festivos, quando quase todos estão passeando... Proponha que realizem uma pequena excursão pela cidade, ou pelo bairro, e registrem o que encontrarem. Exponha os achados na sala de aula, organizando um grande painel. Localize as diferentes situações de trabalho infantil encontradas, o espaço geográfico da cidade e/ou do bairro e provoque o debate. Reserve um espaço para que os jovens possam trocar informações e construir conhecimento a partir do diálogo.

5° Momento Traga o texto do ECA para a sala de aula. Explique que ele é composto por um conjunto de leis que foram feitas pensando em proteger a criança e o adolescente (Estatuto da Criança e do Adolescente). Lembre que há muita gente que dedica sua vida à luta contra o trabalho infantil! Mostre para os jovens uma relação de sites e proporcione que conheçam a variedade de opções que realizar. Questione: Vocês podem ajudar a combater o trabalho infantil? Como? O que é possível fazer pelas crianças da cidade, do bairro, para que tenham seus direitos respeitados? As sugestões poderão ser as mais variadas, mas lembre-se que o acesso à informação é fundamental! Os jovens poderão reunir dados localizando instituições, ong, escolas abertas, etc., preferentemente próximas do bairro onde residem, ou escolhendo coletivamente um espaço de atuação. Estimule-os a engajarem-se em uma ação com a qual mais se identifiquem e a iniciarem uma ação social voluntária que possa colaborar para o cumprimento do ECA em seu espaço próximo. Os jovens poderão organizar ações, como por exemplo, criar espaços para ouvir demandas das crianças da comunidade; elaborar um jornal ou fanzine “noticiando” as intenções do grupo e convidando outros jovens a se engajarem no projeto; criar espaços de lazer e acolhimento para as crianças trabalhadoras identificadas na comunidade, divulgar os endereços e telefones das organizações governamentais e não-governamentais que atuam nessa área, etc. Jovens e participação social. Guia de ações

Infância: tema de mobilização

Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Este estatuto foi elaborado para registrar normas e comportamentos legais em relação aos direitos das crianças e adolescentes brasileiros. Começou a vigorar em 13 de julho de 1990 e é considerado um dos mais importantes avanços para a cidadania do nosso país. O ECA estabeleceu leis que defendem a criança e o adolescente brasileiro como sujeitos de direitos, seres humanos e como cidadãos. O que todos devem fazer é asegurar que o estatuto seja respeitado e conhecido.

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Planejando o encontro

Você tem que providenciar: Sala com espaço para os encontros Painéis para fixar os cartazes ou fio varal e prendedores Cópia das fichas de observação Não esqueça: Combine com os jovens a saída para realizar a observação. Embora a estratégia esteja traçada, possibilite o rearranjo das atividades caso os jovens assim desejarem ou você considerar necessário. Deixe a organização dos painéis, bem como a sua socialização, sob a responsabilidade dos jovens.

Tempo sugerido 5 encontros de 2 horas.

Referências ANTUNES, Arnaldo. CD Canções curiosas. AZEVEDO, Jô; HUZAK, Iolanda; PORTO, Cristina. Serafina e a criança que trabalha. São Paulo: Ática, 2001. BRASIL. Decreto-lei n. 8.069/13/07/1990. Estatuto da Criança e do Adolescente. ______, Diagnóstico preliminar dos focos do trabalho da criança e do adolescente no Brasil. Brasília: Ministério do Trabalho, 1996. DIMENSTEIN, Gilberto. Aprendiz do futuro: cidadania hoje e amanhã. São Paulo: Ática, 1999. IACOCCA, Liliana e Michele. O livro do adolescente: discutindo idéias e atitudes com o jovem de hoje. São Paulo: Ática, 2003. IBGE divulga os resultados da pesquisa sobre Trabalho Infantil no Brasil, disponível no site Imagens do Trabalho Infantil, disponíveis no site www.trabalhoinfantil. org.br/galeria/default.htm SALGADO, Sebastião. Fotos. Disponíveis no site terra.com.br/ sebastiaosalgado UNICEF. Situação mundial da infância. São Paulo, 1997. Disponível no site unicef.org.br

Glossário Direitos humanos: considerando o direito de igualdade de todos os seres humanos, considerando a necessidade de relações amistosas entre as nações, considerando o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo, em 10 de dezembro de 1948, a Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou os 30 artigos que formam a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Jovens e participação social. Guia de ações

Infância: tema de mobilização

Educador, em anexo (2 e 3) você encontrará dados e depoimentos sobre o trabalho infantil que poderão ser utilizados a fim de aprofundar as reflexões. No anexo 4, você encontrará o endereço de órgãos e instituições com orientação para o caso de denúncia.

Você vai precisar: Papel pardo, canetas coloridas, fita crepe, cola e tesoura Revistas para recorte Imagens com crianças trabalhando Mapa do Brasil, da cidade, do bairro Computadores com acesso à Internet

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Diretos das crianças: com o objetivo de criar melhores condições de vida e proteção para as crianças do mundo, no ano de 1959, a Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou 10 tópicos que constituem os direitos das crianças, cujo o primeiro é: direito à igualdade, sem distinção de raça, religião ou nacionalidade.

Anexos

Infância: tema de mobilização

1. Ficha para registro 2. Opinião e depoimentos 3. Dados 4. Como proceder

Jovens e participação social. Guia de ações

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O que sabemos? (idéias do grupo de verbalização)

Sugestões (surgidas no grupo de verbalização)

Ficha para registro

ANEXO 1

TRABALHO INFANTIL: O QUE EU TENHO A VER COM ISSO?

Observação: o registro na ficha é feito sempre pelos integrantes que estão na posição de observar um grupo de verbalização. Após a primeira rodada de discussão, os grupos podem inverter a posição, de modo que todos tenham oportunidade de registrar e discutir. Nesse caso, a ficha deverá ser duplicada, criando-se um espaço para o registro das falas dos dois grupos.

Jovens e participação social. Guia de ações

Infância: tema de mobilização

Aprendizagens construídas a partir das reflexões dos grupos de verbalização e de observação.

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Quando eu era criança, meu pai dizia para os cinco filhos: "Quem quiser estudar, estuda. Quem não quiser estudar, vai trabalhar." A molecada escolheu estudar. Também podíamos brincar.

Opinião

ANEXO 2

Imagens do trabalho infantil: opinião

No fim do ano, meus pais pediam à filharada para dar uma força na loja de calçados deles, como balconista ou caixa. Eu não via a hora de acabar o expediente para ir jogar bola ou ler Monteiro Lobato. Imagino a tortura que deve ser uma criança não poder brincar nem estudar. Tenho certeza de que só pela sorte de 1 em 1 milhão, uma criança sem direito à sua verdadeira função social no mundo infantil pode chegar à vida adulta sem estar mutilada.

Que esta corrente contra o trabalho infantil seja o marco de uma nova era na história da humanidade. Chega de trabalho infantil! Estudo e brinquedo para as crianças! Mylton Severiano da Silva (Myltainho) Jornalista Os brasileiros com o mínimo de bom senso não podem admitir que nossas crianças continuem sendo exploradas nas carvoarias do Mato Grosso do Sul, na colheita do sisal na Bahia, no corte de cana-de-açúcar em Pernambuco, nas olarias de Campos( RJ) ou nas pedreiras do Ceará e Bahia. São trabalhos pesados, sacrificantes e insalubres. Também debaixo dos nossos olhos, aqui em São Paulo, crianças de 10 e 12 anos ganham de R$ 1 a R$ 3 por dia para catar papelão, trabalhar em casas de família ou vender chicletes nas esquinas. São obrigadas a ajudar no sustento da família e, se não fizerem isso, não têm como sobreviver.

Privar a criança da escola, do seu direito de brincar e de viver a plenitude de sua infância deveria ser considerado um crime. Quem passou por isso sabe o quanto essa vivência lhe fará falta. O trabalho infantil é ilegal. Mas não basta a existência de uma lei, se não forem tomadas medidas profundas que alterem esse quadro. Nas poucas áreas onde o governo federal começou a atacar o trabalho infantil hoje, não existem escolas suficientes para atender as crianças. Precárias salas de aulas funcionam em minúsculos quartos de humildes residências abarrotados de alunos. Nessas regiões, professores recebem por mês muito menos do que o vale-cidadania dado às famílias para que tentem garantir o seu sustento (R$ 25 a $ 150, no máximo). Ainda assim, crianças como Elis Vanelídio dos Santos, da região de Valente, no nordeste da Bahia, nunca desistem do seu sonho. "Eu vou ser um juiz de Direito. Tenho certeza". Filho de um garimpeiro e órfão de mãe, Elis ganha R$ 2,50 para trabalhar ao lado da avó, desde a seis da manhã, quebrando pedras debaixo de um sol de 40 graus. Gilberto Nascimento Jornalista Uma imagem sempre valeu mais que mil palavras. Nenhum texto, por mais preciso que possa ser, pode traduzir o horror que representa o trabalho infantil no mundo. Mas, imagens registradas com sensibilidade sim. A importância da exposição de fotos sobre esse tema, na Internet, está justamente nesse ponto. Que os olhos se encham das imagens dessa realidade que afeta milhões de crianças de famílias de trabalhadores pobres. Que os corações se mobilizem Jovens e participação social. Guia de ações

Infância: tema de mobilização

Pelo menos 4,5 milhões de crianças brasileiras têm hoje o seu futuro comprometido porque são obrigadas a trabalhar. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), l6% das crianças na faixa de 10 a 14 anos trabalham no Brasil. É o mesmo índice de países como a Zâmbia, República Dominicana, Guatemala e Tailândia. Essas crianças deveriam estar na escola. Se preparadas, poderiam, no futuro, mudar a sua própria realidade. Assim, repetem o círculo vicioso da miséria no País.

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Opinião

para rejeitar, definitivamente, essa prática abominável. Que as mentes se movimentem para organizar gestos engajados por práticas mais justas de distribuição de renda, pela garantia de emprego, por escola pública e de boa qualidade para todas as crianças e por condições dignas de vida para todos. Jô Azevedo Jornalista e co-autora de Crianças de Fibra (Paz e Terra) e Serafina e a Criança que Trabalha (Ática) A exploração da mão-de-obra infanto-juvenil é crime de lesa-humanidade. Ao denunciá-lo, a mídia está contribuindo para a substituição da cultura da exploração pela cultura da cidadania. Mais do que isso: as matérias jornalísticas têm servido de base à atuação do Ministério Público no combate a essa prática ainda tão presente no cenário brasileiro. Marcelo Pedroso Goulart Promotor de Justiça da Infância e Juventude; membro do Movimento do Ministério Público Democrático

Infância: tema de mobilização

Fonte: www.trabalhoinfantil.org.br/galeria/default.htm

Jovens e participação social. Guia de ações

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Textos

O artigo 227 da Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente (lei N.º 8069/90) e a Convenção Internacional dos Direitos da Criança, aprovada pela Assembléia Geral da ONU, em 20 de novembro de 1989, foi um passo importante para a transformação desse quadro de desalento do país. Tirar o Estatuto do papel, porém, além de implicar em mudanças no panorama legal dos Estados e Municípios, necessitava, também, um reordenamento institucional dos organismos que atuam na área. Ainda restava muito a se fazer, principalmente no campo das políticas sociais básicas, como saúde, educação e profissionalização. Então, mesmo proibido por lei, aproximadamente 3,5 milhões de crianças, com menos de 14 anos, trabalham no Brasil. A maioria ganha menos de um salário mínimo e quase a metade não recebe remuneração alguma. Muitos são escravos em carvoarias, canaviais e fazendas. Grandes empresas nacionais e multinacionais lucram com a exploração infantil e o trabalho escravo. O número de trabalhadores entre 10 e 17 anos é de 7,5 milhões, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), representando 12% da população economicamente ativa. Desse total, 1,2 milhão trabalham na agricultura. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, existem 200 milhões de crianças trabalhando em todo o mundo.

O gosto amargo da cana-de-açúcar Para cada adulto existe uma criança ou adolescente trabalhando nos canaviais brasileiros. Em São Paulo, são 60 mil crianças. Em Alagoas, 50 mil canavieiros têm entre 6 e 13 anos, e só no município de Campos, no Rio de Janeiro, 4 mil crianças trabalham como bóia-frias do açúcar. Quando a criança pode crescer canavieira, ou seja, quando a foice não escapa e mutila parte do corpo da criança, que também perde o emprego, quase sempre sofre de desnutrição e excesso de cansaço físico. Muitas adquirem hipertrofia cardíaca, artrose e enfisema pulmonar. Após doze anos de profissão, um canavieiro pode ficar inutilizado para o mercado de trabalho. No período de safra, as crianças trabalham no corte, na formação de feixes e no transporte da cana para o engenho ou do bagaço para o terreiro, numa jornada que vai das 5 da manhã às 5 da tarde para ganhar, no máximo, três (3) reais por semana. Outras tarefas exercidas pelas crianças, das 6 da manhã às 11 da noite, em troca de seis (6) reais por semana, são as de tomador, bagaceiro e caldeeiro, dentro das usinas. O trabalho, sob um calor de até 60 graus, provoca rachadura e inchaço nas pernas. Grande parte da produção das usinas no Brasil, nas de cana-deaçúcar (cerca de 70%) vira álcool, com subsídios da Petrobrás, o que faz do governo brasileiro parceiro da escravidão e da exploração da mão-de-obra infantil. Em Campos/RJ, recentemente, doze usinas foram autuadas pela Procuradoria do Trabalho. Todas eram subsidiadas pela Petrobrás.

A escravidão da laranja Até há pouco mais de uma ano, a Cutrale, uma das maiores fabricantes de suco de laranja do país, tinha aproximadamente 2.300 trabalhadores, sendo que 35% eram crianças, uma vez que os pais recebiam um salário, baseado na produção diária. Cada pai de família ganhava em média de 7 a 8 reais, por dia, para a produção de setenta a cem caixas de laranja, e as crianças que ajudavam na colheita não recebiam nada.

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Infância: tema de mobilização

ANEXO 3

Macunaim

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Textos

Carvoaria "Também, que futuro esse país pode esperar de uma crianç a que nem eu? Tenho 15 anos e já estou cansado de trabalhar. Ainda tenho sorte. Sei que por aí estão até matando meninos e meninas. "O Brasil não gosta de mim" (Duarte de Oliveira, carvoaria de Bocaiú va/Minas Gerais) "O carvão entra no pulmão da gente, e aí não tem mais jeito, vamos pro buraco" (Josilaine Gonçalves da Silva - 9 anos - Bocaiú va/Minas Gerais) No Mato Grosso do Sul, nos municípios de Ribas do Rio Pardo , Águas Claras e Três Lagoas, das cerca de 10 mil pessoas que trabalham como escravos, em 600 mil hectares de pinus eucalip to, aproximadamente quatro (4) mil são crianças. Em um mês, 13.300 árvores viram carvão e vão para as siderúrgicas, onde são transformadas nos mais diversos materi ais de consumo de ferro e metais. A maior parte da produção vendid a nos grandes centros - pregos, talheres, panelas e chapas de autom óvel tem origem em trabalho análogo aos de escravos. De 20% a 30%, vêm da exploração do trabalho infantil. Olhos d'água é uma escola rural, no município de Bocaiúva, norte de Minas Gerais. Todos os seus alunos trabalham para ajudar os pais na agricultura. Alguns são pequenos carvoeiros, outros ajudam os pais que são peões, pequenos produtores, bóias-frias. Com um rendim ento escolar, em geral, inferior ao das crianças de outras escolas que não precisam trabalhar, a maioria dos alunos de Olhos d'água sofre de fadiga física, são mal nutridos e sentem muito sono. De cada dez alunos, quinze abandonam a escola, antes de completar o terceiro ano, e 35 repetem de ano. Só dezoito alunos conseguiram chega r à oitava série. "A maior causa da evasão escolar é o trabalho infant il, ligado à baixa renda familiar", alerta a diretora da escola.

acontece o que eu a...,mas na vida não "Eu só sonho coisa bo arlos Adriano, 15 anos, Cortês/PE) o o" (C sonho...só o contrári e, prá mim, esse sonh rtar cana...se pudess co de r ixa de a eri qu "Eu anos, Cortês/PE) já bastava" (Lúcia , 15 eta por todo lugar" ( a...andando de bicicl "Eu queria ter vida bo rtês/PE) Fernando, 12 anos, Co drugada e saio prá trabalhar. Não consigo ma ar" "Acordo às 3 horas da ho coragem de estud ado demais e não ten ns ca o fic o, eit dir ir dorm os, Cortês/PE) cana, prá ( Claudenilson, 13 an ndo água e chupando be be dia o os am ss rar a comida"( "Ás vezes, pa heiro não dá prá comp din o e rqu po e, fom a 10 e 12, ajudam no enganar mais velhos com 07, os , os filh 6 , os an 49 Adalto, s/PE) corte da cana. Palmare IT) divulgou, ional do Trabalho (O ac ern Int co e catorze A Organização de crianças, entre cin es lhõ mi 0 25 e qu te em período recentemen mundo, 1220 milhões o o tod em m lha ba Nacional por Amostra anos, tra ordo com a Pesquisa ac de 47.944 il, as Br No . ral integ país, no ano de 93, 4.5 no m va lha ba tra , D) iam de Domicílios (PNA total, 40% desenvolv catorze anos. Desse crianças, de cinco a trabalho urbano.

Infância: tema de mobilização

O TRABALHO INFANTIL, HOJE

http://macunaim.sites.uol.com.br/otrabalh.htm Jovens e participação social. Guia de ações

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Para saber qual o telefone do Conselho Tutelar mais perto de sua casa ligue para 0800 99 0500. Rio Grande do Sul CONSELHOS TUTELARES DE PORTO ALEGRE Conselho Tutelar Microrregião 1 End.: Praça Navegantes, 41 Porto Alegre-RS Fone: (051) 3343-5470 Conselho Tutelar Microrregião 2 End.: Rua Maria Josefina de Fontoura, 424 Porto Alegre-RS Fone: (051)3340-0977 Conselho Tutelar Microrregião 3 End.: Rua São Felipe, nº 180 Porto Alegre-RS Fone: (051) 338-3995 Conselho Tutelar Microrregião 4 End.: Rua Manoel Vitorino, nº 10 Porto Alegre-RS Fone: (051) 339-3233 Conselho Tutelar Microrregião 5 End.: Travessa Tronco, nº 125 Porto Alegre-RS Fone: (051) 3231-6620

Conselho Tutelar Microrregião 6 End.: Avenida Copacabana, nº 1096 Porto Alegre-RS Fone: (051) 3249-1683 Conselho Tutelar Microrregião 7 End.: Rua Meireles Leite, nº 50 Porto Alegre-RS Fone: (051) 3250-1515 Conselho Tutelar Microrregião 8 End.: Avenida Cel. Vicente, nº 43 Porto Alegre-RS Fone: (051) 3226-5788 CONSELHO ESTADUAL DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE DO RIO GRANDE DO SUL Presidente: Irany Bernardes de Souza Rua Miguel Teixeira, 86 Cidade Baixa 90050-250 - Porto Alegre - RS Tel.: (51) 3288. 6625/6668 Fax: (51) 3288. 6670 e-mail: cedica@stcas.rs.gov.br DELEGACIA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE VÍTIMA ELIETE MATIAS RODRIGUES Delegada da Criança e do Adolescente Vítima Rua Sete de Setembro, 360 - Centro 90010-190 - Porto Alegre - RS Fone: (51) 3212-4645 DEFENSORIA PÚBLICA Dr. CARLOS FREDERICO BARCELLOS GUAZZELLI Defensor Público Geral do Estado Rua 7 de Setembro, nº. 666 / 6º andar - Centro 90010-190 - Porto Alegre - RS Fone: (51) 3224-9244 Fax: (51) 3211-2233 ramal: 2021 e-mail: dpers@pro.via-rs.com.br CENTRO DE APOIO DA INFÂNCIA E JUVENTUDE Rua Andrade Neves 106- 9º andar Porto Alegre - RS Fone: (51) 3322.4666 Fax: (51) 3322.45824 DELEGACIA ESPECIALIZADA DE INVESTIGAÇÃO DE CRIMES CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES (51) 3212.9476 / 3212.4645 PROMOTORIA DA INFÂNCIA E JUVENTUDE Coordenador - Promotor Luciano Dippi Murtt Rua Andrade Neves,09 3 andar 9010-230 - Porto Alegre - RS Fone: (51) 3226.8322 R- 121 VARA DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA Juiz Leoberto Bracher Rua Márcia Luiz Veras Vidos 10 andar sala 61 Fone: (51) 3210.6969 / 3210.6963

Fonte: www.fundabrinq.org.br/portal/alias__Abrinq/lang__pt-BR/tabid__138/default.aspx

Jovens e participação social. Guia de ações

Como proceder

Qualquer tipo de violação de direitos e/ou violência contra criança ou adolescente » procure o Conselho Tutelar de sua cidade (veja mapa abaixo) e/ou a Delegacia Especializada em Crimes contra Crianças e Adolescentes. Criança e/ou adolescente desaparecido » denuncie neste site do Governo Federal Exploração sexual infanto-juvenil » denuncie no site da Secretaria Especial dos Direitos Humanos ou pelo telefone 0800 99 0500 ou pelo email da Superintendência de Policia Federal na Bahia: naopedofiliasrba@dpf.gov.br Trabalho infanto-juvenil » denuncie no Ministério Público do Trabalho por meio do telefone 0800 11 1616 CONSELHOS TUTELARES E DELEGACIAS ESPECIALIZADAS » pesquise, por estado no mapa abaixo, alguns endereços e contatos úteis para denúncias de violação de direitos de crianças e adolescentes

Infância: tema de mobilização

ANEXO 4

Como proceder

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Vivenciando a participação social: uma construção coletiva Por que só as flores daqui falam? perguntou Alice. (...) Na maior parte dos jardins explicou o Lírio os jardineiros afofam demais a terra. Isso faz com que as flores vivam dormindo, e quem dorme não fala. Alice no País do Espelho, Lewis Carrol

Temáticas a serem exploradas Juventudes, participação social, desenvolvimento sustentável.

Objetivos Mobilizar e sensibilizar os jovens para a participação em processos democráticos que digam respeito ao futuro sustentável do lugar onde moram. Incentivar ações coletivas apoiadas no protagonismo juvenil através da vivência das etapas de uma metodologia participativa. Promover a experimentação de práticas que possam ser replicadas pelos próprios jovens, em outros espaços e situações de seu interesse.

Entretanto, isto não é suficiente, visto que as mudanças desejadas dependem da forma como os jovens irão planejar sua intervenção na realidade. Para protagonizarem ações de transformação, é fundamental que eles vivenciem situações em que sua participação desencadeie aprendizagens para o desenvolvimento de algumas competências. Aprender através de experiências, cuja dinâmica de funcionamento potencialize o diálogo entre atores sociais de diferentes grupos, de reflexão sobre a importância da interação e da capacidade de negociar, qualifica a ação protagônica e viabiliza a construção de espaços democráticos. Ao vivenciarem a participação social entre pares, por meio de uma construção coletiva, os jovens têm a oportunidade de experimentar a cooperação, a convivência democrática, as decisões coletivas, a associação, a defesa de uma causa, além de estabelecer parcerias e formar redes de colaboração.

Jovens e participação social. Guia de ações

Vivenciando a participação social: uma construção coletiva

Apresentação do tema Dentre as estratégias que estão sendo utilizadas para inserir os jovens no debate sobre o seu futuro, de modo a se perceberem como atores sociais que podem influenciar ou até mesmo mudar o rumo desses debates, a idéia do protagonismo juvenil é a que tem recebido, por parte dos jovens, maior acolhida e entusiasmo. Tal constatação indica que a melhor forma de incentivar a juventude a se envolver em ações coletivas solidárias, que visem à formação humana e social, para a promoção do desenvolvimento sustentável, é aquela que oportuniza a participação efetiva dos jovens em todas as etapas do processo democrático. Construir essas alternativas significa planejar estratégias e criar espaços que possibilitem educar o olhar para perceber o entorno e a forma como cada um está inserido nele. Entender o contexto no qual se está inserido é o primeiro passo para perceber-se como agente histórico, capaz de protagonizar a construção de um novo projeto de sociedade.

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“Jovem é gente. Gente que pensa. O Brasil tem milhões de jovens. Se conseguirmos mobilizar toda essa gente, acho que o país vai pra frente.” Jovem participante de oficina educativa do Prêmio “O adolescente por uma escola melhor” “Desenvolvimento tem de estar relacionado sobretudo com a melhoria da vida que levamos e das liberdades que desfrutamos.” Amartya Sen

Proposição 1° Momento - Vivência de apresentação Convide os jovens a formarem um círculo. Com uma bola leve na mão, comece a apresentação falando sobre os objetivos e programação da oficina (datas, horários de trabalho, intervalos, etc.). A seguir, jogue a bola para um dos jovens, que deve se apresentar e dizer as expectativas que tem com o trabalho. O mesmo deve ser feito até que todos tenham se apresentado. À medida que cada um se apresenta, entregue pequenos cartões com a cor e o nome de um dos grupos sociais que aparecem no cartaz já afixado na sala, conforme descrição das ações preparatórias no anexo 1. A quantidade de cartões dependerá do número de pessoas que participarão de toda a atividade Distribua os cartões de modo que se formem grupos com número semelhante de componentes.

2° Momento - Simulação da organização de uma sociedade

Prefeitura

Conselhos

Associações

Comerciantes

Igrejas

Moradores

Após a distribuição dos grupos, proponha que reflitam sobre: O que é desenvolvimento? Quem é responsável pela sua promoção? O que cabe a cada setor da sociedade? Sugere-se que o educador estipule 30 minutos para a realização do debate inicial e recomenda-se consulta à dica do anexo 2. Jovens e participação social. Guia de ações

Vivenciando a participação social: uma construção coletiva

Forme os grupos a partir da cor dos cartões distribuídos na apresentação inicial (prefeitura, escolas, comerciantes, associações, igrejas, conselhos, moradores, partidos políticos), para que vivenciem ludicamente o papel, a missão, os interesses e a forma de organização de cada um deles;

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Na continuidade, cada grupo social reúne-se em separado para discutir as seguintes questões, com a mediação do educador presente: Qual o papel do nosso grupo social? Exemplo: O que são organizações não governamentais e quem faz parte delas? O que é um Conselho? Qual a sua importância? Por quem é composto? Como são escolhidos seus membros? Qual a sua função social? Quem somos nós? (Cada grupo social criará sua identidade). Exemplo 1: Associação de quê? Quantos associados? Qual a finalidade da associação? Quais são seus interesses? Qual a função de cada um dos membros? Como participam das decisões de seu interesse? Quais são seus parceiros? Exemplo 2: Que secretarias compõem a Prefeitura? Qual a função de cada um dos membros do grupo na prefeitura? Quais são as principais políticas públicas criadas e desenvolvidas no município X? Como foram construídas? O que é sociedade civil? O que é iniciativa privada? O que é poder público? Quais são os direitos e deveres da sociedade civil? Quem faz parte da sociedade civil? Quais são as responsabilidades da iniciativa privada e que benefícios pode trazer para a cidade? O que é público? Qual é a função do poder público? Como acompanhar o trabalho do poder público? O que é desenvolvimento? O que é desenvolvimento sustentável? Quem é responsável por promovê-lo? Quais são as características de um lugar desenvolvido? O que compromete o desenvolvimento de um lugar? Qual a diferença entre crescimento econômico e desenvolvimento?

3° Momento - Criação de uma cidade fictícia Proponha um exercício de imaginação. Peça que mobilizem a criatividade a fim de se imaginarem como moradores de uma cidade fictícia, para a qual terão que dar um nome e, em plenária, descrever as características criadas para o local. Para facilitar o trabalho, após tomarem as decisões, os jovens preencherão o painel apresentado no anexo 3 (deixá-lo exposto durante o tempo que durar a oficina). Poderão também criar um site na Internet No decorrer das discussões alguns grupos irão perceber que devem se juntar porque seus grupos têm natureza semelhante ou porque todos são moradores de X. Cabe ao educador orientar os jovens na diferenciação da população, usando o critério de moradores organizados (associações, conselhos etc.) e não organizados.

Proposta de articulação entre os setores Para que o desenvolvimento desta etapa respeite o caráter de simulação, o educador que estiver conduzindo a atividade deve caracterizar-se como um “morador” da cidade, comprometido com a promoção da cooperação entre os diversos setores e com o futuro da cidade. a) Para incentivar a participação de todos, assumirá o papel de mobilizador e irá de grupo em grupo para propor a articulação entre

Vivenciando a participação social: uma construção coletiva

Após a escolha do nome e caracterização do local, o educador deve referir-se à cidade sempre pelo nome escolhido e fazer a apresentação dos grupos: “Aprefeitura do município X é formada por estas pessoas”: os jovens que pertencem ao grupo da Prefeitura se apresentam e dizem qual é sua função no grupo (prefeito, secretário do meio ambiente, educação, etc.). Chame cada um dos grupos sociais até que todos se apresentem.

Jovens e participação social. Guia de ações

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O 3º e o 4º momento acontecem simultaneamente, sendo que o 3º é vivenciado pelos grupos e o 4º, pelo educador que conduz o trabalho.

4° Momento - Mobilização


os setores sociais através da formação de um Fórum de Desenvolvimento, que tomará para si a responsabilidade de construir um projeto de desenvolvimento para o município. Argumentará que todos os setores são responsáveis pelo desenvolvimento do seu lugar e que, para isso, é importante a existência de um espaço de diálogo: o Fórum de Desenvolvimento. Convidará a todos para a 1ª Reunião do Fórum e marcará o horário (no máximo 20 minutos após o convite) e o local (uma outra sala que deve ser preparada para receber os jovens). b) Após a saída do mobilizador, os grupos discutirão a proposta da participação conjunta dos três setores e se prepararão para a reunião: irão apresentar o resultado das discussões propostas no 2º momento.

Reunião do Fórum Juvenil de Desenvolvimento - SENSI-BILIZAÇÃO O educador que fez a mobilização dos grupos sociais coordenará a reunião de simulação do fórum. Dá as boas vindas, agradece a presença de todos e fala sobre a importância de toda a sociedade participar das decisões que envolvem o futuro da cidade X. A introdução contempla questões que auxiliem na compreensão dos temas abordados e sirvam para sensibilizar os jovens, seja em relação à participação das pessoas e articulação entre os setores, sobre a forma como a sociedade se organiza para interferir nas questões públicas ou sobre o uso adequado dos recursos naturais. A discussão pode ser estimulada a partir das seguintes questões: Diferença entre crescimento e desenvolvimento; desenvolvimento sustentável; importância da participação dos três setores para que o desenvolvimento da cidade X não seja somente um programa de governo, mas um plano que expresse os interesses e compromissos da sociedade; valorização dos projetos coletivos porque incluem demandas de todos; criação de espaços democráticos que possibilitem à sociedade civil ver contemplado seu projeto de futuro; participação dos jovens na identificação de potencialidades e dificuldades enfrentadas pelas pessoas da cidade.

Depois das apresentações e da problematização das idéias defendidas pelos representantes dos três setores, o educador propõe ao grupo que registre o que entende por desenvolvimento. Para encerrar a primeira reunião do Fórum e preparar os jovens para a próxima etapa, o educador sugere que retornem para a sala de origem e realizem a atividade a seguir.

5° Momento - Visão de futuro Solicite que cada participante faça o seguinte exercício: “Em 10 anos, a sua cidade será um lugar muito desenvolvido e o melhor lugar do mundo para se viver. Descreva como ela será”. Divida os participantes em grupos de 5 ou 6 pessoas e peça que realizem o exercício: “Sua cidade será um lugar muito desenvolvido e o melhor lugar do mundo para se viver daqui a 10 anos. Mas daqui a 5 anos, como ela será?” Organize os grupos para que cada um construa uma cidade que seja a síntese dos sonhos individuais. Para que todos os grupos percebam o Jovens e participação social. Guia de ações

Vivenciando a participação social: uma construção coletiva

Educador, consulte os sites: www.aed.org.br, www.institutopalmas .org.br, www.protagonismoju venil.org.br

Após a explanação do educador, os jovens são convidados a apresentar o resultado das discussões, lembrando que se trata de uma simulação e que todos estão representando seus papéis de associados, conselheiros, moradores da cidade, representantes do poder público, etc.

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resultado e possam visualizar esse futuro, sugere-se que a apresentação seja feita através de cartaz ou de um painel para registrar as apresentações (fotos, desenhos, colagens etc.). Oriente para que, após a apresentação dos grupos, os participantes construam um único painel, retratando a síntese de todos os sonhos. Problematize os sonhos do ponto de vista dos direitos sociais, eqüidade, meio ambiente, consumo, cidadania, trabalho, entre outros. Proponha um debate sobre o resultados alcançados. Algumas perguntas orientadoras podem animar tal debate: por que é importante projetar o futuro? Como incluir todos os sonhos? Por que o sonho de viver bem se confunde muitas vezes com alguns sonhos de consumo? Esse futuro projetado pode ser alcançado? Que atitudes serão necessárias para alcançá-lo? Quem deverá realizá-las? Qual a forma mais adequada para atingir sonhos coletivos? Encaminhe a elaboração de um texto coletivo que descreva o futuro através de uma história cujos personagens são os jovens da cidade X.

6° Momento - Diagnóstico participativo A partir desse momento, avise os jovens que não estarão mais “simulando”, pois é importante que se aventurem a fazer o diagnóstico do lugar onde está sendo realizada a oficina ou de seu entorno. O diagnóstico é um retrato da situação e precisa de alguns cuidados. No caso das potencialidades, é fundamental que os jovens sejam estimulados a planejar a busca das características que poderão viabilizar o futuro que projetaram na atividade anterior. Por isso, quanto mais registros e mais clareza tiver o painel, melhor poderão utilizá-lo para pensar sobre os temas que irão investigar. Quando se trata de levantar problemas, o cuidado deve ser maior ainda, pois é preciso que se certifiquem de seu caráter coletivo. Para orientar a elaboração do diagnóstico, sugere-se os passos a seguir: identificar potencialidades (o que já existe e precisa ser explorado ou desenvolvido); levantar os problemas (entrevistar moradores, buscar dados na prefeitura, falar com comerciantes, diretores de escola, pais, professores e alunos, pesquisar em jornais e revistas); buscar informações sobre os problemas; observar, coletar dados e registrar os resultados; pesquisar sobre a repetição da situação; considerar o número de pessoas do grupo que têm a mesma visão.

Forme grupos temáticos, a partir das preferências e afinidade dos jovens. O educador pode sugerir temas como: meio ambiente, cultura e lazer, saúde, educação, segurança, políticas públicas de juventude, etc. Cada grupo temático deverá reunir-se para discutir as potencialidades e problemas/dificuldades referentes ao seu tema a partir das matrizes abaixo: Potencialidades - possibilidades

Prédio antigo de dois andares que está fechado.

Informações relevantes

Há 15 anos a fábrica faliu e o dono do prédio mora na cidade.

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Formas de dinamização - aproveitamento

Transformar em Centro Cultural.

Vivenciando a participação social: uma construção coletiva

Os jovens escolherão um eixo de pesquisa e farão o diagnóstico centrado em um só ponto.

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Problemas - dificuldades

Informações relevantes

Possíveis causas

Falta de medicação para verminose no posto de saúde.

O número de crianças com verminose aumentou 30% no último ano.

Esgoto a céu aberto. Aumento da população. Chuvas fortes.

Observação: Todos os quadros preenchidos são exemplificativos.

Após o preenchimento das matrizes, os jovens serão estimulados a refletirem sobre as informações de forma contextualizada e a relacionarem as potencialidades com ações de desenvolvimento. As dificuldades serão analisadas a partir de informações relevantes e relacionadas com as possíveis causas, de modo que o problema seja visto inserido num contexto. Este procedimento auxiliará na proposição das ações do Plano. Os diagnósticos (registrados nas matrizes) serão apresentados na 2ª reunião do Fórum de Desenvolvimento, com base no quadro a seguir: Diagnóstico Participativo Potencialidades/ Pontos Positivos

Problemas/ Pontos Negativos

7° Momento - Plano de Desenvolvimento participativo²

Eixo temático

Um dos eixos escolhidos para a ação de desenvolvimento.

Sonho de futuro

Como desejo que seja o futuro do lugar onde vivo?

História

Que elementos da história do lugar indicam que é possível alcançar o sonho desejado?

Diagnóstico

O que já existe e pode vir a ajudar na realização do sonho? Quais são as potencialidades identificadas? Que problemas devem ser superados?

Plano

O que deve ser feito para transformar o local onde vivo num lugar de realização de sonhos e onde muitos jovens queiram estar?

Observação: Neste momento, não se deve detalhar demais as ações, mas construir, de forma coletiva, algumas ações gerais necessárias para a realização do sonho. ²Adaptado de: FRANCO, Augusto de. Além da Renda. A pobreza brasileira como insuficiência de desenvolvimento. Brasília: MILLENNIUM, 2000.

Jovens e participação social. Guia de ações

Vivenciando a participação social: uma construção coletiva

O Plano é o resultado do planejamento participativo, nascido da visão de futuro e da identificação das potencialidades e dificuldades detectadas durante a etapa do diagnóstico. Ao ser feito a partir do diagnóstico, está relacionado com ações que possam desenvolver as potencialidades descobertas e com a intenção de superar dificuldades. Não se pretende que os jovens listem suas reivindicações ou identifiquem aquilo que lhes falta. O Plano é a forma de encontrar alternativas que possibilitem o desenvolvimento de um lugar, aproveitando o potencial que já existe. Consiste na materialização do projeto de futuro, pois diz como e onde a comunidade quer chegar. Em razão disso, o Plano tem que ter um eixo e apontar um caminho. O Plano de Desenvolvimento deve ser elaborado em dois tempos: 1º tempo: Plenária Os jovens são convidados a construir coletivamente o plano de desenvolvimento, a partir dos eixos trabalhados no diagnóstico. Para orientar a construção do plano, sugere-se que o educador apresente as seguintes questões:

202


2º tempo: Grupos temáticos Os jovens, reunidos nos grupos temáticos, são orientados a fazer o detalhamento do Plano de Desenvolvimento que foi elaborado coletivamente na plenária. Para organizar o trabalho de registro, sugere-se o quadro a seguir, que deve ser transcrito para uma folha de papel pardo grande e colocado à vista de todos. Plano de Desenvolvimento Prioridades Saúde

Realizar campanha pública contra a dengue.

Meio Ambiente

Realizar campanha educativa com auxílio das escolas e Secretaria do Meio Ambiente.

Ações/ detalhamento Coletar informações relevantes e formas de evitar a doença e elaborar material de divulgação. Buscar informações na Secretaria da Saúde. Fazer campanha nas rádios. Sugerir que a escola trabalhe com os alunos o assunto. Mobilizar os jovens para que assumam a campanha nas suas comunidades. Sensibilizar os professores para que se envolvam na campanha de limpeza no entorno da escola. Fazer cartazes sobre a situação de degradação do rio que corta a cidade e espalhar na escola. Convocar moradores para um mutirão de limpeza do rio. Fazer parceria com Secretaria do Meio Ambiente para conseguir mudas de plantas nativas e planejar dia de plantação.

O educador acompanhará a elaboração do plano, alertando os jovens para a análise da viabilidade das ações e oportunizando que tenham sucesso na sua implementação.

8° Momento - Agenda de prioridades A Agenda é uma lista de prioridades de curto prazo, retiradas do Plano de Desenvolvimento elaborado em conjunto. É conseqüência de um plano participativo e tem a intenção de transformar as demandas privadas em demandas públicas, ou seja, refere-se aos interesses que são comuns às pessoas de um lugar. A elaboração da Agenda, além de exigir que os jovens estudem e analisem o Plano que fizeram, é um exercício intelectual importante, pois é preciso que percebam qual o caminho mais curto e seguro para atingir os objetivos. Favorece também que os jovens projetem resultados e hierarquizem as diferentes ações, orientando-os a fazerem escolhas adequadas ao contexto, recursos, tempo disponível e voltadas para o bem estar coletivo. Afixe na parede todos os planos elaborados pelos pequenos grupos. Os jovens serão orientados a escrever textos legíveis pelas pessoas da plenária.

Em plenária, os jovens opinarão, selecionarão as ações de maior impacto e definirão as prioridades para cada um dos eixos temáticos. O registro da Agenda de prioridades deve seguir a mesma indicação das outras etapas e também ser afixado ou disponibilizado no site, conforme modelo a seguir.

Vivenciando a participação social: uma construção coletiva

Cada grupo temático apresentará o resultado do detalhamento do Plano de Desenvolvimento, dispondo-se a receber sugestões, críticas e correções a serem validadas por todos.

Jovens e participação social. Guia de ações

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Agenda de prioridades Prioridades

Ações

Realizar campanha educativa nas escolas.

Fazer cartazes sobre a situação de degradação do rio que corta a cidade e espalhar nas escolas. Convocar moradores para um mutirão de limpeza do rio.

9° Momento - Planejando a continuidade Após a conclusão da Agenda e a validação dos jovens, é importante que o educador problematize a implementação das ações, pois é desejável que eles planejem os próximos passos e as ações sejam monitoradas após a oficina. Sugere-se que os jovens se dividam em grupos de trabalho, de acordo com as atividades a serem desenvolvidas, embora outra organização possa ser planejada: Grupo de Mobilização: responsável pela articulação de outros jovens, parceiros, instituições públicas, escolas, conselhos e associações locais; Grupo de Comunicação: responsável por gerar informações e manter a rede viva; Grupo Administrativo: responsável pela organização de reuniões e eventos, pela elaboração, arquivamento e organização de documentos; Grupo de Planejamento e Execução: responsável pelo monitoramento dos resultados, avaliação e replanejamento de ações, datas e prazos. Para favorecer a sustentabilidade das ações planejadas, é importante que os jovens se organizem para trabalhar com autonomia, pois a partir desse momento o educador não estará mais em tempo integral e o que estará em jogo é a participação protagônica.

Sistematizar os materiais produzidos na oficina para que os jovens tenham a produção de todos os grupos e possam apresentá-las na escola, no grêmio estudantil ou em outros grupos dos quais façam parte. O Grupo de Comunicação poderia elaborar um fanzine, que é um material que exige poucos recursos, e o Grupo de Mobilização ficaria responsável pelas parcerias para viabilizar as cópias.

Componentes

Atividades

Prazo

Nome do grupo de trabalho

Nome dos participantes

Ações a serem realizadas

Prazo para a realização

Responsável

Nome do coordenador

Todas as atividades de sensibilização são momentos privilegiados para discutir a visão das pessoas sobre o seu futuro. Ainda está muito arraigada a idéia de que desenvolvimento é sinônimo de crescimento econômico e que as instituições governamentais são as principais responsáveis por garanti-lo, resolvendo todos os problemas sociais. É papel do educador estimular a reflexão do grupo sobre esta concepção de desenvolvimento centrada na economia e discutir uma visão mais ampla, que tem como produto central a organização da sociedade para definir e implementar o seu projeto de futuro.

Planejando o encontro Você vai precisar: Bola, cartões coloridos, flipchart, papel para flipchart, pincéis atômicos de várias cores, revistas e jornais para recorte, cola, tesoura, papel brando, lápis de cera, fita adesiva, folhas de papel pardo. Jovens e participação social. Guia de ações

Vivenciando a participação social: uma construção coletiva

Que tal?

Grupo de Trabalho

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Você tem que providenciar: Cartaz com legenda dos grupos sociais, cartaz com os três setores sociais, painel das características locais. Não esqueça: De providenciar as folhas do diagnóstico, plano, agenda. De combinar com os grupos as entrevistas do diagnóstico.

Tempo sugerido 4 encontros de 2 horas; ou 1 encontro de dia todo e 2 encontros de 4 horas.

Referências ABRAMO, Helena. Jovens e juventude: participação e organizações juvenis. Recife: projeto Redes e Juventudes, 2004. FRANCO, Augusto de. Capital Social. Brasília: Instituto de Política, 2001. ______. Além da Renda. A pobreza brasileira como insuficiência de desenvolvimento. Brasília: MILLENNIUM, 2000. PAULA, Juarez de. Democracia e desenvolvimento. Brasília : AED, 2001. ROMANS, Mercê; PETRUS, Antoni; TRILLA, Jaume. Profissão: Educador Social. Porto Alegre: Artmed Editora, 2003. SEM, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Cia das Letras, 2000.

Glossário

Anexos 1- Ações preparatórias 2- Cartaz explicativo dos setores sociais. 3- Painel características locais. 4- Modelos de planos coletivos construídos em plenária

Jovens e participação social. Guia de ações

Vivenciando a participação social: uma construção coletiva

Desenvolvimento: o desenvolvimento é um fenômeno que articula fatores econômicos e não-econômicos como renda, riqueza, conhecimento e poder. Quando a dinamização da economia acontece desarticulada do processo de distribuição de conhecimento e poder, em geral ocorre a concentração de renda e a exclusão social. Uma visão contemporânea de desenvolvimento sinaliza que, para haver desenvolvimento, é preciso haver qualidade de vida (desenvolvimento humano), que beneficie todas as pessoas (desenvolvimento social) e seja duradouro (desenvolvimento sustentável). A democracia é imprescindível para a distribuição do conhecimento e do poder, fatores indispensáveis ao desenvolvimento. Política pública de juventude: política pública de juventude é um conjunto de intenções do estado para, em parceria com a sociedade civil, estabelecer objetivos, estratégias e metas para coordenar e executar atividades em favor da juventude, articuladas com o processo de desenvolvimento de um lugar.

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O trabalho está apoiado numa metodologia que prevê a vivência das seguintes etapas: Mobilização; Sensibilização; Capacitação de um Fórum Juvenil; Diagnóstico Participativo; Plano de Ação Participativo; Agenda de Prioridades. A partir da vivência destas etapas, os jovens poderão conhecer e refletir sobre os diferentes setores sociais (sociedade civil, poder público e iniciativa privada), assim como sobre as instâncias de participação (fóruns, comissões), organização (associações, cooperativas) e controle social (conselhos) que existem e que podem ser ocupados, de modo a identificarem seus atores e a responsabilidade de cada um deles na promoção do desenvolvimento sustentável, objetivo final da participação social. Para organizar o desenvolvimento da metodologia, recomenda-se que os educadores considerem as seguintes sugestões: - Apresentar a metodologia como uma estratégia para o exercício da participação social que pode ser viabilizada em outros espaços. - Alertar aos jovens que a participação social é mais do que o engajamento em ações que já estão em andamento nas comunidades, bairros ou na cidade. - Relacionar a metodologia com outras ações de protagonismo juvenil e reforçar a idéia de que os jovens têm direito de se qualificarem para tomar iniciativas, planejar, executar ações e avaliar resultados. - Incentivar os jovens a identificarem as potencialidades do lugar onde vivem, para que encontrem alternativas que conduzam à mudança de comportamento das pessoas, para promover o desenvolvimento sustentável. - Envolver outros educadores no desenvolvimento da metodologia. - Afixar na sala o cartaz que apresenta os grupos sociais, conforme modelo a seguir.

Ações preparatórias

ANEXO 1

Ações preparatórias

GRUPOS SOCIAIS Grupo da prefeitura Grupo das associações Grupo dos conselhos e ONGs Grupo dos comerciantes

Grupo de moradores

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Vivenciando a participação social: uma construção coletiva

Grupo das igrejas

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Iniciativa Privada

Esfera da participação democrática

Cartaz explicativo dos setores sociais

Poder Público

Vivenciando a participação social: uma construção coletiva

ANEXO 2

Sociedade Civil

Jovens e participação social. Guia de ações

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Região:

Base da economia: Clima:

Nº habitantes:

Características geográficas: Vegetação:

Relevo:

. . .

Principal recurso hídrico:

.

Manifestações culturais:

.

Painel características locais

ANEXO 3

Nome da cidade:

Condições de vida da população (trabalho, saneamento, tratamento de resíduos, segurança, acesso à cultura, moradia etc.): . Condições ambientais:

.

Condições de acesso à saúde e educação:

.

Qualidade do transporte público:

.

Forma como a população se diverte:

.

Forma como a população participa das decisões públicas:

.

Principais problemas (o que afeta negativamente a vida das pessoas do lugar):

. .

Vivenciando a participação social: uma construção coletiva

Principais potencialidades (o que poderia ser valorizado e explorado para desenvolver o lugar/ melhorar a vida das pessoas): . .

Jovens e participação social. Guia de ações

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História

População saudável, informada e com acesso à saúde preventiva de qualidade e gratuita. 1- Alto índice de dengue no município; 2- Dengue é uma doença facilmente controlada, mas a população precisa de mais informação e fiscalização.

Diagnóstico

1- Muitas pessoas têm dengue na comunidade; 2- Saúde pública com pouca qualidade e deficiência no atendimento; 3-Profissionais da saúde têm acesso a programas de capacitação sistematicamente.

Plano

1- Realizar campanha pública contra a dengue; 2- Mobilizar a população para a participação na campanha; 3-Capacitar os profissionais da saúde no atendimento aos pacientes.

Eixo temático Sonho de futuro

Meio Ambiente Município arborizado, com o rio despoluído e a população atuando como agentes de preservação ambiental.

História

1- O maior patrimônio do município é o seu ambiente natural. 2- No passado, a qualidade de vida das pessoas era maior devido ao ambiente ser mais limpo e menos degradado.

Diagnóstico

1- A população reconhece o valor do ambiente natural para a saúde e a qualidade de vida; 2- O rio está poluído pelo esgoto e pelos resíduos das indústrias; 3- A cidade não tem aterro sanitário e nem tratamento de resíduos, o que afeta a saúde da população.

Plano

1- Realizar campanha educativa com auxílio das escolas e Secretaria do Meio Ambiente; 2- Reivindicar a construção do aterro sanitário e da estação de tratamento do esgoto; 3- Reflorestar as áreas desmatadas com plantas nativas.

³Os planos apresentados foram elaborados por jovens protagonistas da região Nordeste no ano de 2003. Jovens e participação social. Guia de ações

Modelos de planos coletivos construídos em plenária³

Sonho de futuro

Saúde

Vivenciando a participação social: uma construção coletiva

ANEXO 4

Eixo temático

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Como elaborar

projetos de ação

Ser jovem é ter brilho nos olhos e a dança na alma. É viver o presente com intensidade, como se fosse a última vez. É querer sentir-se livre para conquistar novos horizontes. É querer sentir-se gente. É lutar como guerreiro, entregando-se por inteiro. É ultrapassar limites, ir além do que se pode no presente. Jovem participante do Grupo Viver e Ser, BA.

Temáticas a serem exploradas Juventude e participação social, cidadania, solidariedade, redes e parcerias, planejamento e cooperação.

Objetivos Envolver os jovens na identificação de potencialidades, problemas e questões de seu interesse que afetam a vida da comunidade. Planejar o enfrentamento de situações-problema identificadas pelos jovens. Incentivar a pesquisa e a ação coletiva. Construir competências para a elaboração de projetos.

comunidade de sentido em torno das decisões, do planejamento e execução de práticas voltadas para a vivência, o que inclui a reflexão sobre elas e estudo de hipóteses que poderão guiar as atitudes diante dos fatos. Ao educador compete resgatar experiências e conhecimentos prévios dos jovens, de modo a viabilizar a identificação de positividades e problemas, as reflexões sobre eles e a concretização de ações planejadas, tendo a participação ativa dos jovens como meta principal. A escolha dos focos de atenção e de atuação é de responsabilidade de todos, deve contemplar as demandas locais e remeter a uma reflexão sobre a cidadania e a solidariedade. Como diz um jovem atuante numa comunidade, “se eu não fizer o que eu posso para melhorar o mundo, quem vai fazer?” A história de vida dos jovens e das comunidades em que se inserem, sua cultura e seus modos

Jovens e participação social. Guia de ações

Como elaborar

A importância da elaboração de projetos participativos decorre da necessidade de aprender e ensinar a contextualizar e problematizar a realidade, pois a formação integral dos jovens depende da percepção do entorno e da forma como eles se relacionam com os valores e as experiências do lugar onde vivem. Depende também da capacidade de fazer perguntas e posicionar-se diante das respostas encontradas. Através de projetos, incentivase a pesquisa e a ação coletiva, como forma de oportunizar e valorizar a participação social e o trabalho colaborativo. Os projetos poderão conduzir a uma intervenção no entorno, visto que as respostas exigem espaço de concretização, ou seja, pressupõem atitudes que levem em conta o enfrentamento de situaçõesproblema detectadas pelos jovens. É um traço dos jovens almejar a concretude do agir no presente. Desse modo, educadores e educandos, juntos, formam uma

projetos de ação

Apresentação do tema

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de viver são elementos fundamentais a serem considerados pelo educador e pelo grupo. Cada um, em sua diversidade e experiência de vida, construiu competências importantes para decidir, opinar, ter autonomia e reforçar comprometimento social, reconhecendo-se como sujeito que usufrui e produz cultura e conhecimento, como cidadão em pleno exercício de seus direitos. A elaboração e execução de projetos auxiliam na diversificação de propostas e no envolvimento dos jovens, mas o que os sustenta projetos é a intenção de promover a pesquisa, a abertura para o espírito investigativo que desenvolve a capacidade de estranhamento diante da realidade e proporciona o diálogo com a informação. Coordenar um projeto exige tomar decisões para estimular ações que os jovens têm condições de executar com autonomia ou que necessitem de acompanhamento do educador, o que significa que não se deve tutelar as ações nem eximir-se de orientações. Há uma dimensão educativa na experiência de elaboração e execução coletiva de projetos. Ela

ensina a negociar, a abrir mão do individualismo, a compor solidariamente com o outro, a relativizar opiniões, a lidar com frustrações e a confrontar hipóteses, aprendizagens fundamentais à participação solidária e voluntária. É importante ressaltar que a participação dos jovens na definição do foco do projeto é determinante para o seu sucesso pois, ao contemplar temas e questões que dialogam com os interesses e desejos juvenis, abre-se espaço para incluir e tratar, também, de suas expectativas e anseios. O planejamento participativo assegura o envolvimento de todos e a execução do projeto pode acontecer junto com outras atividades. O passo-a-passo que segue pode ser utilizado tanto em situações escolares como em outros contextos. O importante é que seja elaborado pelos jovens e atenda suas expectativas, de modo que os resultados espelhem práticas protagônicas nascidas da sensibilização e mobilização para o envolvimento com ações solidárias refletidas, fundadas na opção consciente e não na determinação alheia.

A metodologia de projetos pode favorecer aprendizagens essenciais como: escolher, planejar, negociar, conviver com a divergência; agir solidariamente; buscar e selecionar informações; registrar, analisar momentos da concretização do projeto e avaliar resultados.

Proposição 1° Momento Explique aos jovens em que consiste a oficina de elaboração de projetos (anexo 1). Jovens e participação social. Guia de ações

Como elaborar

“Projetos que abrem espaços de participação para os jovens são como a brita, o ferro e o cimento que dão estrutura à ponte que liga a juventude à vida adulta.” Jovem participante do Projeto Aliança com o Adolescente, PE.

projetos de ação

Através de projetos, oportuniza-se a participação ativa na realização do planejado, na distribuição de responsabilidades, na atuação colaborativa e na composição com o coletivo em prol dos objetivos definidos pelo grupo.

211


Apresente o passo-a-passo e detalhe cada etapa, alertando para a importância da continuidade e a necessidade da formação de grupos. Sensibilize os jovens para a importância do registro de todas as etapas realizadas. Faça a divisão dos grupos de forma a contemplar a diversidade, para que cada grupo seja formado por jovens com competências distintas. Proponha uma pesquisa na internet sobre iniciativas juvenis a partir de elaboração de projetos. Sugere-se os endereços eletrônicos, entre outros que você poderá identificar: www.protagonismojuvenil.org.br www.brasilcidadao.org.br www.facaparte.org.br

2° Momento Disponibilize aos grupos alguns materiais (textos, fotografias, imagens do cotidiano, músicas que abordem questões sociais como o rap, notícias recentes, etc.) para expandir as reflexões e dar subsídios ao debate proposto em cada etapa da oficina. Faça a leitura individual e coletiva dos textos introdutórios às diferentes etapas da oficina, para orientar o debate inicial e a sua execução. Problematize as questões apresentadas e contextualize o ambiente em que se desenvolve o trabalho. Proponha discussões referentes aos temas em grande grupo, antes de os pequenos grupos se reunirem para a execução das etapas. Desenvolva a primeira parte da oficina em anexo que apresenta três etapas: 1) Projetando o futuro, 2) Elaborando o projeto, 3) Mobilizando as pessoas (anexo 2).

3° Momento Proponha que os grupos apresentem o resultado parcial do trabalho em um painel de papel pardo e defendam suas idéias através de justificativas construídas durante o processo. Analise o resultado da execução da primeira parte da oficina em grande grupo, identificando soluções de intervenção que apontem para a superação das situações-problema.

4° Momento Desenvolva a segunda parte da oficina em anexo - conhecendo a comunidade, que apresenta as seguintes etapas: 1) Elaborando o projeto, 2) Identificando prioridades, 3) Traçando objetivos, 4) Planejando ações, 5) Pensando o cronograma, 6) Definindo responsáveis, 7) Listando recursos, 8) Avaliando o processo, 9) Comunicando resultados (anexo 3).

projetos de ação

Oportunize, após as apresentações e análises, que os grupos reestruturem o trabalho, de modo a corrigir eventuais equívocos durante o processo.

Como elaborar

Durante a execução das etapas, sugere-se que o enfoque principal da mediação do educador seja dirigido à relação entre os diferentes passos e a viabilidade das propostas, de modo que o planejamento seja possível de ser executado pelos próprios jovens. Sugere-se, ainda, que através de problematizações que valorizem os conhecimentos prévios e estejam relacionadas com o contexto em que vivem os jovens, as propostas apresentadas por eles sejam qualificadas em cada etapa da oficina, indicando-lhes que não se trata de uma lista de reivindicações, mas de ações participativas e solidárias.

Jovens e participação social. Guia de ações

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Que tal? Para ampliar o debate e qualificar a mediação educativa, recomendase que os educadores, ao se prepararem para conduzir a oficina, busquem leituras que abordem temas relacionados com os conteúdos da estratégia: juventude, participação voluntária, protagonismo juvenil, cidadania; solidariedade e coletividade, redes e parcerias.

Planejando o encontro Você vai precisar: Jornais e revistas atuais que abordem temáticas de interesse juvenil e da comunidade. Passo-a-passo da oficina. Você tem que providenciar: Computador com acesso à Internet. Gravuras, fotografias e letras de músicas que tratem do cotidiano e de questões sociais atuais. Não esqueça: De providenciar uma boa quantidade de folhas para rascunho. De combinar tarefas entre um encontro e outro, pois elas garantem a mobilização do grupo.

Tempo sugerido 4 encontros de 4 horas

Referências

1. Orientações adicionais para o desenvolvimento da oficina 2. Oficina de elaboração de projetos - passo-a-passo - 1ª parte 3. Oficina de elaboração de projetos - passo-a-passo - 2ª parte

projetos de ação

Anexos

Como elaborar

“Se quero mudar meu bairro, mudo minha casa primeiro; se quero mudar minha cidade, mudo meu bairro e assim vai. Mudo minha cidade, mudo meu Estado, mudo meu Brasil, o mundo todo. Mas não posso querer mudar o Brasil todo se não consigo mudar dentro da minha casa...” Jovem de 22

APAP, Georges et alii. A construção dos saberes e da cidadania. Porto Alegre: Artes Médicas, 2002. FILIPOUSKI, Ana M. e NUNES, Denise. Protagonismo juvenil e educação para a cidadania. Brasília: SEBRAE, 2003. FRAGA, Paulo César; Iulianelli, Jorge Atílio. Jovens em tempo real. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2003. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1997. GOMES DA COSTA, Antonio Carlos. Educação por projetos. Lagoa Santa: Modus Faciendi, 2001. HERNANDEZ, Fernando. Transgressão e mudança na educação: os projetos de trabalho. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. SILVA, Antonio Luiz de Paula. Utilizando o planejamento como ferramenta de aprendizagem. São Paulo: Instituto Fonte. 2000. VOZES JOVENS: um olhar das organizações e movimentos de juventude sobre o Brasil do Século XXI. Brasília: Banco Mundial, 2004.

Jovens e participação social. Guia de ações

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A escolha de um jovem coordenador para organizar a participação dos membros do grupo é indicada; Os jovens podem escolher um redator oficial das idéias do grupo, embora todos devam ser incentivados a registrar as idéias dispostas no debate; Os grupos que tiverem dificuldade para iniciar o trabalho ou organizar as idéias podem ser estimulados a conversar com outros grupos e debater com eles a estratégia utilizada;

É importante que sejam alertados da importância da qualidade dos textos a serem produzidos, pois uma palavra mal colocada pode comprometer a escolha e execução das ações e dificultar a avaliação; O acesso a projetos executados por outros jovens é um importante ponto de apoio, porque permite que analisem outras iniciativas e se inspirem nas idéias de seus pares; Bons projetos são aqueles que estão de acordo com as necessidades de um grupo, instituição, comunidade e que podem ser executados pelas pessoas do grupo nos bairros, comunidades ou escolas. Por isso o projeto precisa levar em conta o contexto local.

Como elaborar

O local da realização da oficina deve ser preparado com materiais que possam ser pesquisados e incluem jornais ou informativos das

comunidades, revistas atuais, resultados de pesquisas, notícias com ações juvenis locais ou não, manchetes sobre situações vividas por jovens, vídeo que aborde questões ambientais, de protagonismo etc. É importante que os educadores selecionem o material, de modo a se certificarem da presença de assuntos que fazem parte das preocupações dos jovens, como é caso do meio ambiente, paz, consumo, acesso à cultura e lazer etc.;

Orientações adicionais

A oficina de elaboração de projetos é uma simulação e o mais importante é a experimentação de todos os passos indicados. Por isso, sugere-se que os jovens trabalhem com focos simples e que estabeleçam poucos objetivos que possam ser realizados. A simplicidade, neste momento, auxiliará a apropriação da estratégia e favorecerá a construção coletiva. Quando há espaço para que os jovens se manifestem e se organizem, o tempo para execução de um trabalho é bem maior do que quando apenas executam ações trazidas de “fora”.

projetos de ação

ANEXO 1

Orientações adicionais para o desenvolvimento da oficina

Jovens e participação social. Guia de ações

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Para que se possa construir um futuro com qualidade de vida para todos, é preciso refletir sobre o que compromete o bem estar das pessoas no presente. Quando se fala em qualidade de vida, se pensa em viver em locais que tenham ar puro, água limpa, cultura, lazer, educação e saúde para todos, segurança, justiça social, direitos humanos. Um local que trate adequadamente seus resíduos, que use de forma responsável a água e o solo. Em resumo, um local que seja social e ambientalmente sustentável. Para haver desenvolvimento humano, é preciso qualidade de vida. Mas é difícil chegar a um consenso sobre qualidade de vida, porque cada pessoa e os grupos sociais têm idéias diferentes sobre aquilo que é mais importante para a sua vida. No entanto, a qualidade de vida de uns não pode inviabilizar a qualidade de vida de outros e nem tornar o ambiente, natural ou construído, insustentável.

Projetando um lugar bom para se viver

Como ele seria?

Oficina de elaboração de projetos - 1ª parte

ANEXO 2

1. Projetando o futuro

O que é preciso preservar?

Jovens e participação social. Guia de ações

Como elaborar

O que é preciso construir?

projetos de ação

O que é preciso transformar?

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Elaborar um projeto significa planejar ações articuladas com objetivos que se deseja alcançar. Todo projeto está ligado a um tipo de pesquisa, seja da realidade ou das mudanças desejadas pelas pessoas. Para que sejam sustentáveis, as mudanças precisam ser duradouras. Para elaborar um bom projeto é preciso conhecer a realidade e valorizar a participação das pessoas. A participação ativa dos jovens na realização de projetos que pretendem promover a melhoria das condições de vida das pessoas de uma comunidade, inclui quatro passos importantes: a) identificação de situações-problema; b) reflexão sobre as situações; c) tomada de atitude diante das situações; d) análise dos resultados. Há inúmeras condições para o trabalho com projetos e algumas estão relacionadas com o comprometimento do grupo e com a cooperação. Os projetos necessitam de muitas pessoas.

Elaborando um projeto de futuro sustentável

O que é um projeto?

Oficina de elaboração de projetos - 1ª parte

2. Elaborando o projeto

Por que elaborar um projeto?

Como elaborar um projeto?

Que características deve ter um projeto sustentável? Jovens e participação social. Guia de ações

Como elaborar

projetos de ação

Por que é importante que os projetos sejam coletivos?

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Ao participar de projetos para influenciar na construção de um futuro melhor para a comunidade, é importante que as pessoas se reconheçam como cidadãs no pleno exercício de seus direitos. Para isso, precisam entender, opinar, planejar, decidir, executar ações e perceber resultados. Mobilizar uma comunidade significa envolvê-la em ações coletivas que respondam aos interesses e demandas das pessoas do lugar. Para que se mobilizem e queiram participar de projetos que visem à transformação social, é preciso conquistar sua confiança. A mobilização é muito mais que promoção de eventos, campanhas ou convocação de pessoas para manifestações. Ela tece uma rede em torno de uma causa. A comunidade mobilizada torna-se parceira quando é sensibilizada para os mesmos objetivos. Não é preciso que estejam todos no mesmo lugar, mas que conheçam os ideais e compartilhem os mesmos sonhos, que estejam dispostos a dedicar tempo e energia em ações que não beneficiem apenas os indivíduos, mas que façam bem ao coletivo. Também é preciso considerar a responsabilidade de cada um com as questões coletivas, estimulando-os a agir em prol de causas públicas e pela realização das pautas de políticas públicas que promovam a qualidade de vida.

Mobilizando a comunidade

Como garantir que o projeto seja coletivo?

Oficina de elaboração de projetos - 1ª parte

3. Mobilizando as pessoas

Como influenciar em políticas públicas que colaborem para a qualidade de vida das pessoas da comunidade?

Jovens e participação social. Guia de ações

Como elaborar

Como mobilizar outras pessoas para serem parceiras do nosso projeto?

projetos de ação

Como manter o grupo mobilizado em todas as etapas do projeto?

217


Para participar ativamente da transformação da sociedade, é importante entender a realidade como resultado da história e da cultura. A realidade é produzida por todos e é possível de ser transformada. O trabalho com projetos é um estágio da construção do conhecimento e algumas etapas podem auxiliar na reflexão sobre a ação. apresenta-se o problema ou questão; investiga-se e debate-se as informações; dialoga-se sobre os diferentes pontos de vista; contextualiza-se o problema e compara-se com outras situações; analisa-se a solução dada ao problema no contexto em que teve lugar; projeta-se a transformação da realidade (planeja-se ações que causem impacto na vida das pessoas envolvidas).

Trabalhando com projetos 1. Identificar problema ou questões. Necessidades da comunidade.

2. Localizar diferentes maneiras de olhar o problema. Qual delas vamos considerar?

Oficina de elaboração de projetos - 2ª parte

ANEXO 3

Conhecendo a comunidade

3. Pesquisar para conhecer características do problema. Levantar dados.

6. Avaliar. Produzir registro. Divulgar resultados. (Reflexão sobre a ação).

Jovens e participação social. Guia de ações

Como elaborar

5. Definir passos para colocar as ações em prática. Executar ação.

projetos de ação

4. Pensar em alternativas de solução. Planejar ações.

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Passo I - Elaborando o projeto Não basta fazer parte de um grupo e colocar o nome no projeto. Chegou a hora de assumir compromissos e cumprir acordos negociados no grupo. A cooperação entre todos é fundamental para que os objetivos sejam alcançados.

Escola - Comunidade: Data: Quem somos? (Nomear os componentes do grupo, forma de contato, escola)

Oficina de elaboração de projetos - 2ª parte

Para que a juventude participe ativamente da construção de seu futuro, precisa conhecer e pensar sobre a realidade para poder transformá-la. A participação social exige que os jovens se envolvam no planejamento de ações que beneficiem a comunidade. O trabalho com projetos precisa de bom planejamento. Para planejar ações que interessem às pessoas do lugar, é preciso refletir sobre o que a juventude local e as outras pessoas da comunidade esperam de nós. Após a reflexão, os passos da oficina auxiliarão na organização das idéias. Para começar, é bom refletir sobre: O que os jovens querem e precisam para fazer de suas comunidades um lugar bom para se viver? Como os jovens podem colaborar para a construção de um futuro sustentável? Que práticas comprometem a qualidade de vida e podem ser transformadas por decisão e iniciativa dos jovens do seu grupo?

Passo II - Identificando prioridades Desde a 1ª parte da oficina de elaboração de projetos, estamos pensando sobre as necessidades da comunidade. Muitos temas surgiram, muitas idéias foram listadas, Muitos sonhos vieram à tona. Agora chegou a hora de escolher o primeiro passo para transformar os sonhos em realidade. Para isso, é preciso escolher, decidir por onde começar. A escolha deve estar ligada à prioridade.

Nossa prioridade é...

Depois de definir a prioridade, é fundamental que o grupo debata e registre o que quer alcançar. Traçar objetivos orienta a ação e permite avaliar os resultados alcançados. Um projeto pode ter vários objetivos, mas é importante que cada um seja bem detalhado, para que fique claro para todos o que significa e que ações poderão viabilizar o seu alcance. “Identificar atitudes da comunidade que interferem na qualidade ambiental” ou “Mobilizar jovens da escola para participarem do grêmio estudantil” são exemplos de objetivos.

Jovens e participação social. Guia de ações

Como elaborar

Passo III - Traçando objetivos

projetos de ação

Escolhemos esta prioridade porque...

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Passo IV - Planejando ações Depois de definir os objetivos, é importante pensar sobre o modo de eles serem alcançados. Para isso, é importante sugerir ações adequadas para a sua obtenção. Vamos agora planejar as ações. Listem todas as idéias e analisem quais delas estão relacionadas com as situações-problema identificadas ou com os sonhos e projetos de futuro do grupo. É importante que elas possam ser executadas pelas pessoas que planejaram! Escolham as ações e coloquem em ordem de importância. Questionem as possibilidades do grupo para realizar o que foi proposto. Façam um pacto de comprometimento, com vistas a executá-las.

Nossos objetivos principais são: 12-

Nossa forma de alcançá-los será através das seguintes ações: 1º 2º 3º 4º 5º 6º

Oficina de elaboração de projetos - 2ª parte

O que queremos alcançar com o projeto?

Passo V - Pensando o cronograma As idéias são muitas e há bastante coisa para fazer. É preciso definir um tempo para sua realização. Quanto mais detalhado o cronograma, mais fácil de acompanhar o desenvolvimento das ações. Os sonhos e idéias saíram da cabeça e foram para o papel. Agora é a hora de saírem do papel e se transformarem em ações concretas. Definam prazos, coloquem as ações em ordem cronológica, de acordo com o que registraram no passo 4.

Ação

Jovens e participação social. Guia de ações

Como elaborar

Passo VI - Definindo responsáveis Indicar quem é responsável por qual ação facilita o seu acompanhamento. Além disso, evita que algumas pessoas fiquem sobrecarregadas ou que sejam cobradas pelas ações que são responsabilidade de outros. É importante que as pessoas se responsabilizem por aquilo que gostam de fazer ou que sabem fazer, o que não significa que cada um só vai fazer o que quer ou gosta. O responsável é uma referência, mas poderá solicitar auxílio sempre que necessitar. O importante é fazer a ação acontecer.

projetos de ação

Data

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Quem?

Data

Passo VII - Listando recursos Muitas vezes, para realizar algumas ações, serão necessários alguns materiais, equipamentos, espaço, transporte ou apoio de outras pessoas. Convém pensar nos recursos durante a elaboração do projeto, pois nem sempre eles estarão disponíveis na hora que forem necessários. Façam uma lista do que será preciso para a realização das ações. Talvez vocês já tenham alguns deles, mas outros terão que ser conseguidos. Para isso, precisarão de tempo e planejamento. É bom definir com antecedência.

Ação

Data

Responsável

Recursos

Oficina de elaboração de projetos - 2ª parte

Ação

Passo VIII - Avaliando o processo

Resultado

Observação

Ex: Realizar reunião para fundação da associação.

Não realizada por falta de quorum.

Mobilizar outros jovens de formas diversas: colocar cartazes no centro comunitário, na igreja e na escola; intensificar o boca-a-boca.

Como elaborar

Ação

projetos de ação

Para avaliar o desempenho do projeto, é importante que o grupo volte aos objetivos e analise os resultados alcançados. É bom lembrar que, embora exista um momento planejado para a avaliação, ela deve estar presente em todas as etapas, de modo que o grupo possa corrigir o que for necessário durante todo o processo. Indicar formas de resolver as dificuldades encontradas é uma boa estratégia de planejamento da avaliação. Outro ponto importante é analisar o desenvolvimento de algumas competências: autonomia do grupo, capacidade de tomar decisões e julgar as próprias ações, de comprometer-se com causas coletivas, de cooperar com o grupo, de perceber as conseqüências das ações junto à comunidade, de estabelecer parcerias, de ampliar o número de pessoas envolvidas no projeto, de promover a participação dos jovens em outros projetos da comunidade.

Jovens e participação social. Guia de ações

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Nossos objetivos

Como elaborar

projetos de ação

Análise dos resultados

Oficina de elaboração de projetos - 2ª parte

Passo IX -Comunicando resultados Durante a execução de um projeto, muitas pessoas se envolvem na realização das ações, mas nem todas participaram da sua elaboração ou de suas etapas. Por isso, é muito importante planejar também uma forma de comunicar o resultado das ações publicamente, o que dá visibilidade aos resultados e também reconhecimento aos que promoveram a modificação do contexto próximo. Reforcem quais eram os objetivos iniciais, pois só assim é possível que as pessoas façam sua própria avaliação, colaborem com outras idéias de continuidade ou sugiram correção de alguma etapa do projeto. Afinal, todos estão aprendendo a participar.

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