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J. S i d l o w B axter

examinai as escrituras G ênesis

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Josué


examinai as escrituras


examinai as escrituras J. S i d l o w B a x t e r Tradução de Neyd Siqueira


® J. Sidlow Baxter Título do original: Explore the Book 1? edição: 1992 Reimpressão: 1997 Direitos reservados por

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Printed in Brazil / Impresso no Brasil

Revisões • L ucy Y amakami

e

Valéria F ontana

Coordenação de produção • ROBINSON MALKOMES


CONTEÚDO

D E D IC A T Ó R IA ..................................................................................

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PREFÁCIO DO A U T O R ....................................................................

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PREFÁCIO À EDIÇÃO EM P O R T U G U Ê S ...................................

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INTRODUÇÃO

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PRELIMINARES

O LIVRO DE GÊNESIS Lições 1, 2, 3 e 4 O LIVRO DE ÊXODO Lições 5, 6, 7 e 8

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71

O LIVRO DE L E V ÍT IC O ......................................................................109 Lições 9,10, 11 e 12 O LIVRO DE NÚMEROS Lições 13,14, 15 e 16

...................................................................153

O LIVRO DE DEUTERONÔM IO Lições 17, 18 e 19

....................................................207

O LIVRO DE J O S U É ........................................................................... 235 Lições 20, 21, 22 e 23


DEDICATÓRIA

Estes estudos são dedicados com profunda gratidão e estima a meu caro, santo e agora idoso amigo, JAMES ARTHU R YOXALL, de Ashton-under-Lyne e Stalybridge; meu “pai” espiritual e talentoso mestre nas coisas preciosas de Cristo; inspirador de muitos anseios celestiais dentro em mim, o primeiro a plantar em meu jovem coração o interesse pelo estudo bíblico, que sempre foi, a meu ver, o cavalheiro cristão ideal, o mais excelente dos pregadores e, acima de tudo, um amigo bondoso e experiente, refletindo continuamente o amor de Jesus Cristo que a todos santifica.


PREFACIO

QUASE todas as seções compreendidas neste curso bíblico foram aprensentadas em minhas palestras bíblicas das noites de terça-feira na Capela Charlotte de Edimburgo, justificando assim sua forma em tom de conversa, em certas partes. Não são ensaios escritos, mas foram palestras preparadas para serem proferidas em público, e julguei mais acertado deixá-las em seu molde original, acreditando que há certas vantagens práticas nisso. Peço que sejam tolerantes neste aspecto, especialmente se os olhos exigentes de algum conhecedor ou diletante literário passarem por sobre as mesmas em sua forma impressa agora estabelecida. Além do mais, em vista de estes estudos terem sido preparados sem intenção de serem publicados mais tarde, tomei em várias partes a liberdade permitida a um pregador, mas não a um escritor, apropriando-me dos escritos de outros. Só espero que m inha adm iração não me tenha levado a aproxim ar-m e demais da am eaçadora fronteira do plágio. Se isso aconteceu, sinto-me aliviado com a certeza de que só pode ter sido em relação a autores que não estão mais conosco. Minha gratidão jamais será excessiva para com o caro John Kitto, de tempos idos (e, para muitos, obsoleto), John U rquhart, A.T. Pierson, Sir R obert Anderson, G. Campbell Morgan e outros da mesma tradição evangélica. Todos eles foram mestres em seus dias e a seu próprio modo. A todos eles, e a essa incomparável obra composta, o Pulpit Commentary, (Comentário de Púlpito) reconheço minha dívida permanente e presto minha homenagem. Entretanto, no todo, este curso bíblico é basicamente resultado de meu estudo pessoal, e aceito de bom grado a responsabilidade pelo mesmo, crendo que dá verdadeira honra à Bíblia como a Palavra de Deus inspirada, em cada uma de suas seções. Que Deus possa empregá-lo graciosamente em um ministério útil para muitos que vivem e trabalham na seara de seu amado Filho, nosso Senhor e Salvador. J. S. B.

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PREFÁCIO À EDIÇÃO EM PORTUGUÊS

A obra aqui intitulada EXAMINAI AS ESCRITURAS é a primeira parte de uma coleção de seis volumes (dos quais já foram publicados os volumes 5 e 6, relativos ao Novo Testamento). Esta coleção surgiu em decorrência do desejo do Pastor J. Sidlow Baxter de oferecer, com lições atraentes e práticas, um conhecimento bíblico básico aos membros da Capela Charlotte, em Edimburgo, na Escócia. O autor teve a feliz idéia de preparar seus estudos de um modo completo para os membros daquela igreja, começando com Gênesis e terminando em Apocalipse, sem escrever apenas mais um comentário. O autor lança um alicerce agradável e seguro para aquele que deseja apresentar-se como obreiro (ou membro da igreja) “que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2 Tm 2.15). Neste volume, o Pastor Baxter discorre sobre temas palpitantes contidos no Pentateuco e em Josué. Ele apresenta uma abordagem bastante prática, com várias aplicações espirituais dos eventos, lugares e pessoas que compõem a história narrada por estes livros. Destaque deve ser dado ao estudo dos tipos e antítipos que se encontra praticamente em todas as lições deste volume. Em textos sempre práticos e bastante assimiláveis, Baxter oferece incontáveis informações muito iluminadoras àqueles que têm somente idéias acerca do Pentateuco e de Josué. Temos convicção de que a popularidade gozada por esta obra em inglês será a mesma que se verificará na sua edição em português. Dentro de pouco tempo, Edições Vida Nova estará colocando à disposição do público leitor os outros volumes desta série, que se relacionam com o Antigo Testamento. Os Editores

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INTRODUÇÃO

HOMEM ALGUM completa sua educação se não conhece a Bíblia. Não há ministro cristão realmente qualificado para o ministério da igreja cristã que não tenha feito um estudo em profundidade das Escrituras. O obreiro cristão não pode ser realmente eficaz sem um conhecimento anterior da Bíblia. Crente algum pode ter uma vida realmente cristã sem uma compreensão adequada desse livro santo.

Nosso propósito Nosso objetivo neste estudo bíblico é fornecer um alicerce nas Escrituras. Sejamos sinceros e claros desde o início. Se realmente quisermos conhecer melhor a Palavra de Deus, este curso irá ajudar-nos. Nosso empenho foi manter o mesmo padrão de eficácia nele todo. Queremos enfatizar, porém, que não basta ler os estudos que se seguem em lugar da Bíblia, pois isso iria invalidar todo o propósito que temos em vista. O que desejamos é que a própria Bíblia seja lida, parte por parte, cada uma delas várias vezes, e o presente plano de estudos utilizado em conjunto. Mesmo que as próximas lições sejam lidas com todo cuidado, se isso for feito sem o estudo paralelo da Bíblia, o verdadeiro fascínio do estudo bíblico ficará perdido. Nossa esperança é de que alguns que não tenham ainda estudado a Bíblia inteira se decidam a dedicar determinadas horas de seu tempo disponível a cada semana para começar no livro de Gênesis e examinar gradualmente toda a Bíblia, livro por livro, conforme a orientação deste curso de estudo bíblico, utilizando a ajuda fornecida aqui em cada estágio. Muitos cristãos de hoje tendem a ler a Bíblia somente para tomar conhecimento de alguns bons pontos ou sugestões para apresentá-los em reuniões ou preparar sermões, ou ainda para a prática da vida cristã. Isso é errado e resulta em fragmentação. Esse método produz superficialidade tanto mental como espiritual. A Palavra de Deus jamais teve como propósito essas consultas apressadas. Precisamos estudar e conhecer essa palavra como um todo, pois estudo e conhecimento aprofundam , 9


EXAMINAI AS ESCRITURAS

e n riq u e c e m e a p e rfe iç o a m todo o n o s s o m in is té rio p ú b lic o , fundamentando nossa experiência cristã no seu todo. Além disso, gostaria de lembrar os companheiros de pregação que os sermões mais excelentes geralmente surgem quando estudamos a Palavra de Deus em busca de sua verdade vital e não pela necessidade de encontrarmos um sermão. Este curso de estudo bíblico não tem como finalidade apresentar sugestões para discursos e serm ões — em bora seja provável que repetidamente isso venha a acontecer, se estudado em conjunto com a Bíblia. Seu propósito é fornecer uma base prática para o conhecimento bíblico como um todo. E bom lembrar que os sermões ou livros que mais nos afetam no momento em que os lemos ou ouvimos em geral nos deixam pouco de valor permanente, enquanto, por outro lado, os que mais nos ensinam talvez não nos estimulem de imediato. À parte de qualquer interesse superficial do momento, tal como preparar mensagens ou buscar orientação em alguma crise, devemos nos determinar a obter uma boa compreensão do livro de Deus; pois conhecê-lo bem dá uma qualidade ao nosso serviço cristão que nenhuma outra coisa pode dar, e isso nos será proveitoso por toda a vida. Todo ministro e obreiro cristão deve ser um especialista na Bíblia.

Nosso método Devemos introduzir aqui algumas palavras sobre o nosso método. A Bíblia é um livro sem fim, e são tantos os meios de estudá-la que, ao iniciar este curso, lembramo-nos do marinheiro que, quando lhe perguntaram para onde ia, respondeu: “Senhor, estou limitado ao oceano!” O esplêndido conteúdo da Bíblia está diante de nós como um imenso oceano, mas não queremos navegar sem direção, pois então não iremos a parte alguma! Precisamos do mapa e da bússola de um método definido, a fim de podermos navegar por esses gloriosos mares sem desvios inúteis para a direita ou para a esquerda. M uito depende de nosso m étodo de estudo. Segundo a nossa preferência, podemos estudar os livros da Bíblia de modo espiritual, histórico, tipológico, tópico, profético, dispensacional, analítico, biográfico, crítico, devocional ou outros. O método que adotamos na 10


INTRODUÇÃO

presente série é aquele que chamaremos de interpretativo. Então, vamos e stu d a r de m an eira in te rp re ta tiv a os livros da Bíblia; ou seja, procuraremos captar o pensamento predominante, o significado e a mensagem de destaque em cada livro, vendo-o a seguir em relação aos outros livros da Escritura. A importância deste tipo de estudo se m anifestará imediatamente, pois, a não ser que compreendamos a relevância do que está escrito, perderemos de vista o objetivo principal. Além disso, este estudo progressivo, interpretativo das Escrituras, é, na verdade, uma base necessária e preliminar para todos os outros tipos de análise que mencionamos. Seguindo este método e com vistas a determinar a mensagem essencial de cada livro, ao examinarmos cada um deles, iremos estabelecer a sua ESTRUTURA por meio de uma análise, seus principais movimentos na forma de uma SINOPSE e seus aspectos especiais através da SUGESTÃO para novos estudos. Vamos permitir que cada livro nos conte o seu segredo e abra para nós o seu coração. Vamos resolutamente guardar-nos de forçar qualquer esboço artificial nos livros bíblicos. Sacrificar a exatidão para obter uma aliteração elegante é uma impertinência quando se trata de escritos divinamente inspirados. Existem professores bíblicos que se distinguem pelas suas “estruturas” engenhosas. Mas uma análise errônea, mesmo que habilmente traçada, obscurece a mensagem verdadeira e vital de um livro. Ao prosseguirmos com nossos estudos, descobriremos quantas vezes um livro ou passagem se ilumina com nova força ou beleza quando submetido a uma análise bem feita. A princípio, pode parecer estranho que tenhamos dado um tratamento mais completo e analisado mais detalhadamente alguns livros do que outros. Gostaríamos de salientar, portanto, que esta variação se conforma ao nosso propósito. A importância relativa das coisas não deve ser medida simplesmente pelo número de páginas que ocupam. Da mesma forma que o pequeno diamante vale mais que uma grande placa de vidro e o evento memorável de um determinado dia pode superar os feitos rotineiros de décadas, assim também nas Escrituras, embora cada coisa tenha seu devido lugar, existem algumas que se destacam, como Saul entre os filhos de Israel, com a cabeça e os ombros acima dos demais. Cada parte tem sua importância, mas algumas excedem. Nosso objetivo, portanto, é tratar de cada livro ou parte, de modo a expor seu significado especial e contribuir assim para uma compreensão ll


EXAMINAI AS ESCRITURAS

mais prática da mensagem bíblica em seu todo. Por esta razão, demos um tratam ento mais completo aos cinco livros de Moisés, que são a base de todos os outros. Também por isso nos demoramos mais num livro como Levítico, cujas palavras, símbolos, tipos e idéias se entrelaçam com tudo o que segue, até o final de Apocalipse, enquanto damos um tratam ento comparativamente breve a 1 e 2 Crônicas, cujo conteúdo, por ser histórico, exige agrupamento em lugar de exposição minuciosa. Nosso propósito não é o de um comentário, em que livros, capítulos, parágrafos e versículos são sucessivamente explicados. Não vamos nos esquecer em tempo algum de que procuramos os significados principais e especiais, com vistas a obter o escopo amplo e a mensagem abrangente do todo.

Nossa abordagem Uma abordagem correta da Bíblia é da maior importância. Existe hoje uma tendência à popularização da Bíblia, considerando-a simples literatura. D epois de um estudo cuidadoso, acreditam os que esse movimento é mais prejudicial do que benéfico. Em meio à esplêndida diversidade das Escrituras existe uma unidade ainda mais maravilhosa. Os seus 66 livros não são apenas uma coleção de escritos; eles constituem um único livro — um só no progresso da revelação que apresentam coletivamente, um só na harmonia da estrutura por eles constituída em conjunto, um só na unidade espiritual da mensagem que declaram como um grupo. A Bíblia como um todo afirma ser a Palavra de Deus e sua reivindicação é confirmada tanto pela natureza de seu conteúdo como pela história de sua influência. Se este livro é, então, a Palavra de DEUS, ele não pode ser lido como simples literatura! De modo algum, pois isso forçaria a mente a uma atitude artificial, evasiva ou desonesta que se mostraria prejudicial. Nos estudos que aqui começamos, abordamos a Bíblia como sendo a Palavra de Deus em sua totalidade. Portanto, ao estudá-la, estaremos buscando aprender, iluminados pelo Espírito Santo, a mente, a verdade e a vontade de Deus. Em nosso estudo da Bíblia, devemos guardar-nos sempre do perigo de envolver-nos de tal forma na fascinação do assunto que percamos de vista o objeto do mesmo. Como já foi dito, querem os nos apossar dos 12


INTRODUÇÃO

significados importantes e amplos contidos no velho Livro; mas a não ser que os significados nos dominem, teremos falhado no objetivo principal. O próprio Senhor Jesus nos ensinou que ELE é o tema central de toda a Escritura; e queremos então enxergar além da palavra escrita, vendo Aquele que é a Palavra viva. Nosso propósito é contemplá-lo de modo a, cada vez mais, amá-lo e confiar nEle. O Dr. Jowett conta a história de um turista que viajava por uma das regiões mais belas da Escócia, mas tão absorvido pelo guia turístico que não conseguiu perceber as belezas que o rodeavam. É possível estudar a Bíblia dessa maneira. Nosso grande objetivo é conhecer o Deus verdadeiro, tornar-nos mais parecidos com Cristo e deixar-nos possuir mais amplamente pelo Espírito Santo. O verdadeiro estudo bíblico irá atingir essa finalidade, pois as páginas inspiradas das Sagradas Escrituras vibram, estremecem e brilham com a presença de Deus! Acheguemo-nos, pois, reverentemente às Escrituras, compreendendo que foram inspiradas pelo Espírito Santo e que Ele, “o Espírito de sabe­ doria e de revelação” no pleno conhecimento de Deus (Ef 1.17), deve ser o nosso Professor. Que a nossa oração seja: “Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei” (SI 119.18). E que o motivo predominante de todo o nosso estudo da Palavra de Deus seja, nas palavras de Colossenses 1.10: “A fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra, e crescendo no pleno conhecimento de Deus”.

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PRELIMINARES

A Bíblia como um todo A FIM DE examinar este magnífico Livro dos livros até o ponto em que os limites auto-impostos de nosso esquema de estudo nos permitem, abrimos agora a Bíblia, tendo bem definidos em nossa mente o sistema e o motivo acima expostos. Antes de efetivamente começarmos com Gênesis, porém, ser-nos-á útil fazer um estudo preliminar da Bíblia como um todo. Nossa Bíblia consiste de 66 partes. Estas são divididas em duas coleções principais distintas, as escrituras da Velha Aliança e as da Nova Aliança ou, como geralmente as chamamos, o Antigo e o Novo Testamentos. Cada um desses Testamentos, porém, um consistindo de 39 livros, o outro de 27, foi organizado em uma ordem de grupos claramente homogêneos. Neste sentido, uma cuidadosa investigação revela a presença de um propósito maravilhoso que se desenvolve através do todo.

O ANTIGO TESTAMENTO Os Primeiros Dezessete Examinemos primeiro o Antigo Testamento. Comecemos em Gênesis, Ê xodo, L ev ítico , N úm eros e D e u te ro n ô m io . E le s c o n stitu e m e v id e n te m e n te um a u n id a d e de cinco p a rte s que os d e sta c a imediatamente como um grupo separado. Todos saíram de uma só pena, a de Moisés. Todos são históricos. Sempre foram conhecidos como os cinco livros de Moisés ou o Pentateuco. Note, então, o seu número e seu caráter. Quanto ao número, são cinco. Quanto ao caráter, são históricos. A seguir vêm Josué, Juízes, Rute, 1 Samuel, 2 Samuel, 1 Reis, 2 Reis, 1 Crônicas, 2 Crônicas, Esdras, Neemias, Ester. Paramos instintivamente em Ester, sem continuar até o livro de Jó, por sabermos que vamos encontrar nele outro tipo de literatura. Os livros que vão de Josué a Ester são os doze que compõem o segundo grande grupo do Antigo Testamento. 15


EXAMINAI AS ESCRITURAS

Note o número e o caráter novamente. Quanto ao número, são doze. Quanto ao caráter, são também históricos. A primeira parte do nosso Antigo Testamento consiste de dezessete livros históricos, subdivididos naturalmente em cinco e doze. Existe uma nova subdivisão nos doze; os primeiros nove (Josué a 2 Crônicas) são registros da ocupação de Canaã por Israel, enquanto os últimos três (Esdras, Neemias, Ester) referem-se ao período depois da expulsão da terra e à repatriação do “remanescente”. Os dezessete livros históricos são assim subdivididos em cinco (pré-Canaã), nove (em Canaã) e três (pós-exílicos).

Os Cinco Centrais A seguir encontramos Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cantares de Salomão. Não é preciso que nos digam que façamos outra pausa no final de Cantares de Salomão, pois a ele se segue imediatamente o livro do profeta Isaías, que obviamente introduz outro conjunto de escritos bem diverso, ou seja, o dos profetas. Não há dúvida — Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cantares de Salomão devem ficar reunidos e formam o terceiro grupo distinto do Antigo Testam ento. Os dezessete livros precedentes, como notamos, são históricos, mas estes cinco mencionados agora não são históricos, mas pessoais e empíricos. Os dezessete livros históricos acima são nacionais, mas não estes cinco, que são pessoais e tratam em especial dos problemas do coração humano individual. Além disso, os dezessete precedentes foram escritos em prosa, enquanto os cinco não são prosa, mas poesia. Anote então o seu número e a sua natureza. Quanto ao número, são cinco. Quanto à natureza, dizem respeito à experiência.

Os Últimos Dezessete Chegamos finalmente a outro grupo de dezessete. Trata-se desta vez dos livros proféticos: Isaías, Jeremias, Lamentações, Ezequiel, Daniel, Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias. E evidente que, como os dezessete 16


PRELIMINARES

livros históricos, estes também devem ficar juntos. Da mesma forma como os livros históricos se subdividem em cinco (Moisés) e doze (Josué a Ester), assim acontece com os dezessete livros proféticos. Os primeiros cinco são ju sta m e n te cham ados de “P rofetas Maiores”, e n q u a n to os doze remanescentes, que sempre foram classificados em conjunto como um só livro no cânon judaico do Antigo Testam ento (veja At 7.42), são conhecidos como “Profetas Menores". Um momento de reflexão mostrará que esta distinção não é artificial. Em Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel encontramos os aspectos éticos básicos da profecia do Antigo Testamento e o esquema abrangente da previsão messiânica. O Messias que está para vir é considerado em Isaías tanto o Salvador sofredor como o Soberano vitorioso que reina no império mundial. Em Jeremias, onde lemos sobre a condenação de Israel por parte de Jeová, Ele é o “Renovo” de Davi e o Restaurador final do povo co n d e n ad o e disp erso . Em E zequiel, olhando além dos juízos intermediários, nós o vemos como Pastor e Rei perfeito, em cujo reinado glorioso o templo ideal do futuro é edificado. Em Daniel, que nos oferece a seqüência mais específica das épocas e eventos em sua ordem sucessiva, vemos o Messias “cortado”, sem trono ou reino, todavia levantando-se no final como Imperador universal sobre as ruínas do sistema mundial pagão destruído. Os doze profetas “menores”, embora ampliem vários aspectos, não determinam a forma principal da profecia messiânica; eles se amoldam à estrutura geral já apresentada a nós em Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel. Não devemos também pensar que a elegia poética, “Lamentações”, é simplesmente um acréscimo a Jeremias. Ela não apenas tem os sinais de independência e separação, como também um significado posicionai que é preciso notar, pois constitui o ponto central dos profetas “maiores”; isto é, divide Isaías e Jeremias de um lado, deixando Ezequiel e Daniel do outro. Ele faz uma interseção entre os dois maiores profetas pré-exílicos e os dois maiores pós-exílicos. O livro está realmente no lugar adequado, pois, além de dividir posicionalmente, ele divide historicamente', celebra aquele evento destacado e tragicamente significativo que separa os profetas pré e pós-exílicos, a saber, a destruição de Jerusalém , a interrupção da dinastia davídica e a dispersão do povo da aliança pelo mundo. Ainda hoje, após 2.500 anos, eles não conseguiram voltar a se 17


EXAMINAI AS ESCRITURAS

reunir, embora tenham sido providencialmente preservados como um povo distinto. Além disso, assim como doze dos dezessete livros históricos se subdividem ainda em nove e três, sendo os primeiros nove pré-exílicos e os três restantes (Esdras, Neemias e Ester) pós-exílicos, assim também ocorre com os doze profetas “menores”, i. e., os nove primeiros são todos pré-exílicos, enquanto os três restantes (Ageu, Zacarias e Malaquias) são pós-exílicos; e esses dois últimos trios, os três livros históricos e proféticos finais, possuem correspondência recíproca. Assim sendo, os trinta e nove livros de nosso Antigo Testamento organizam -se neste agrupam ento ordenado de dezessete volumes históricos, cinco experienciais e dezessete proféticos, sendo ambos os grupos de dezessete subdivididos em cinco, nove e três, e os cinco livros que tratam do coração humano individual colocados exatamente entre os dois de dezessete, bem no centro do Antigo Testamento. Isto foi acidental ou deliberado? Pense bem: mais de trinta escritores contribuíram para o Antigo Testamento, num intervalo de mais de mil e duzentos anos, escrevendo em diferentes lugares a diferentes pessoas com diferentes propósitos, sem sequer imaginar que seus escritos, além de serem preservados através das gerações, poderiam ser finalm ente com pilados nessa pluralidade sistem ática da unidade que agora encontramos no Antigo Testamento. Ao refletirmos sobre isso, não nos podem certamente chamar de imaginosos quando pensamos que, por trás dos escritores humanos, deve ter havido um desígnio divino controlador. O NOVO TESTAMENTO Os Evangelhos eAtos Observamos agora o Novo Testam ento e encontramos nele igual ordem, com um desígnio também evidente. A princípio temos Mateus, Marcos, Lucas, João e Atos. Estes são os únicos livros históricos do Novo Testamento, sendo a base de tudo o que se segue, mantendo-se, portanto, agrupados. Quanto ao número são cinco. Quanto ao caráter, são históricos.

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PRELIMINARES

Epístolas à Igreja Cristã A seguir vem um grupo que p e rten ce claram ente a um todo complementar. É o grupo de epístolas dirigidas às igrejas cristãs: Romanos, 1 Coríntios, 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 e 2 Tessalonicenses. Note o seu número e caráter. O número delas é nove. Quanto ao caráter, são doutrinárias.

Epístolas Pastorais Temos depois quatro epístolas, formando outro pequeno grupo, a saber, 1 Timóteo, 2 Timóteo, Tito e Filemon. Estas quatro não foram escritas às igrejas cristãs, sendo pastorais e pessoais.

Epístolas aos Cristãos Hebreus Temos afinal outro grupo de nove, isto é, Hebreus, Tiago, 1 Pedro, 2 Pedro, 1, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse (na verdade, uma epístola do próprio Senhor: veja o prim eiro versículo). Estas nove não foram endereçadas às igrejas cristãs como as outras nove; também não contêm nada sobre a igreja mística. A primeira delas (Hebreus) é evidentemente dirigida à nação hebraica como tal. Tiago, do mesmo modo, é dirigida “às doze tribos que se encontram na Dispersão”. Pedro escreve para os “forasteiros da Dispersão” (ou seja, os judeus da Dispersão). Não há necessidade de entrar em detalhes para mostrar que essas nove epístolas, de Hebreus a Apocalipse, são distintamente hebraicas em seu ponto de vista e ambiente, sendo chamadas com exatidão de “Epístolas aos Cristãos H ebreus”.

Um Arco Esplêndido O nosso Novo Testamento consiste, então, de cinco livros históricos, formando um alicerce sólido de cinco camadas de fatos básicos sob os nossos pés. Elevando-se de cada lado, como duas colunas belamente trabalhadas, encontramos as nove Epístolas às Igrejas Cristãs e as nove 19


EXAMINAI AS ESCRITURAS

Epístolas aos Cristãos Hebreus. Essas duas magníficas colunas estão ligadas em arco pelas quatro Epístolas Pastorais, form ando uma esplêndida arcada de verdade para a Igreja de Cristo e o Reino de Deus, alcançando seu vértice máximo naquela síntese transcendente da verdade cristã: “Evidentemente, grande é o mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne, foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória” (1 Tm 3.16). O Novo Testam ento, pela sua estrutura literária, é realm ente uma lindíssima arcada que leva à verdade salvadora e à bênção eterna. Os paralelos comparativos e contrastantes entre os dois grupos de nove epístolas são um estudo isolado. Ambos os grupos começam com um grande tratado doutrinário, Romanos e Hebreus respectivamente. Ambos os g ru p o s te rm in a m com um a re v e la ç ã o e sc a to ló g ic a , 1 e 2 Tessalonicenses num caso e o livro de Apocalipse no outro. Romanos, no início do primeiro grupo, mostra-nos que a salvação em Cristo é o único caminho. Hebreus, no começo do segundo grupo, salienta que a salvação por meio de Cristo é o melhor caminho. Em Tessalonicenses, no final do primeiro grupo, vemos a segunda vinda de Cristo em relação especial com a Igreja. No livro de Apocalipse, no fim do segundo grupo, observamos a volta de Cristo especialmente em relação a Israel e às nações. E assim por diante, pois podemos desenvolver bem mais este assunto. A presença de um plano e desígnio não pertence apenas à Bíblia neste sentido geral; ela se manifesta em todos os diferentes grupos de livros considerados separadamente. Quanto mais nos demoramos nos detalhes, tanto mais interessante se torna esse aspecto, até que toda possibilidade de se tratar de simples coincidência é eliminada pelo surpreendente volume de confirmação de que, de fato, esta é a Palavra do Deus vivo.

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PRELIMINARES

NOVO TESTAMENTO 9 Epístolas à Igreja Cristã

EXPERIÊNCIA: DOUTRINA 4 9 Pastorais Epístolas e aos Cristãos Pessoais Hebreus

HISTÓRIA DO NOVO TESTAMENTO 5 _______ Bases Históricas___________ Mateus ] Marcos | Lucas | João | Atos

ANTIGO TESTAMENTO HISTÓRIA (17) Lei Registros PósBásica Pré-exílio exílio 5 9 3 MOISÉS ANAIS DE CANAÃ

EXPERIÊNCIA PROFECIA (17) Vida Profecia Profetas PósInterior Básica Pré-exílio exílio 5 5 9 3 CORAÇÃO MAIORES E DOZE MENORES

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O LIVRO DE GÊNESIS (1)

Lição Ns 1


NOTA: Para este primeiro estudo leia o Livro de Gênesis inteiro, uma ou duas vezes.

A AUTORIA DO PENTATEUCO Iremos considerar repetidamente nestes estudos, com rapidez mas com cuidado, a questão da autoria relativa às diferentes partes das Escrituras. Na prolongada batalha entre o “modernismo” teológico e o tradicionalismo evangélico, a maior (e a primeira) das controvérsias sobre a autoria bíblica estava ligada à do Pentateuco. Ela é mosaica ou um mosaico? Tentar aqui uma revisão extensiva foge de nosso objetivo. Isso talvez seja, todavia, também desnecessário, pois foi alcançado historicamente um ponto de onde a controvérsia pode ser vista num perfil abrangente e os resultados decididos com segurança. Acreditamos ser justo afirmar que os principais argumentos em favor da autoria mosaica permanecem firmes; os que defendem a idéia de vários autores ou a de autoria posterior já foram praticamente refutados. Isto fica perfeitamente nítido na seguinte citação de Sir Charles Marston: “É bem possível que partes de alguns livros do Antigo Testamento tenham sido extraídas de documentos anteriores. Mas supor que seria possível encontrar um método já pronto para isolá-los, o qual, todavia, mostrar-se-ia completamente inútil para nossa literatura contem porânea, impôs um considerável constrangimento à credulidade de qualquer um. Isso fez surgir indagações sobre como e quando os livros originais do Antigo Testamento foram escritos; e, acima de tudo, levantou questões sobre os recursos literários possuídos pelos israelitas a partir da época de Moisés. Os métodos críticos satisfizeram essas perguntas, presumindo que os hebreus fossem praticamente iletrados. A suposição foi posta por terra. Com base na evidência arqueológica, pode ser deduzido... que os israelitas, depois de Moisés, tinham pelo menos três escritas alfabéticas. A primeira, conhecida como hebraico sinaítico; a segunda, como hebraico fenício e, por último, após o cativeiro na Babilônia, a que é conhecida como hebraico assírio. Esses fatos modificam inteiramente todo o problema literário. A transmissão oral se torna inadmissível. E a teoria da instituição e adoção do ritual mosaico muitos séculos após a época de Moisés torna-se grotesca e absurda, de acordo com o que sabemos agora sobre esse período. “Assim sendo, J., E. e P., os supostos autores do Pentateuco, estão se tornando simples escritores fantasmas e invenções da mente. Eles fizeram com que o estudo do Antigo Testamento perdesse sua atração, gastaram nosso tempo e deturparam e confundiram nossos conceitos sobre a evidência externa. Supunha-se que possuíssem algum tipo de direito prescrito e autoridade superior ao texto sagrado. Com os esclarecimentos que a ciência está fornecendo, essas sombras que obscureceram nossos dias de estudo e devoção se afastam silenciosamente.”


O LIVRO DE GÊNESIS (1)

A BÍBLIA, na força de sua revelação, leva nossos pensamentos de volta no tempo até as eras patriarcal, primitiva e até mesmo pré-adâmica da terra; no entanto, a Bíblia propriamente dita não começou a ser escrita antes dos dias de Moisés. Como revelação histórica, seu início coincide com o terceiro capítulo de Êxodo, que registra a comunicação de Deus por meio da sarça ardente em Horebe e sincroniza com os oitenta anos de Moisés. Tudo o que precede este capítulo já havia passado quando a Bíblia começou a ser escrita; e tudo o que se acha registrado nos capítulos anteriores tem como propósito levar-nos até o grande novo movimento na história humana e o desenrolar magnificente da revelação divina que se inicia aqui.

Gênesis e a Bíblia inteira A Bíblia não foi a primeira revelação de Deus. As suas próprias páginas deixam transparecer claram ente que o prim eiro casal humano, os antediluvianos e os patriarcas pós-diluvianos receberam revelações divinas; não é também improvável que elas tenham sido, até certo ponto, colocadas em forma escrita. Temos em Gênesis uma sinopse de toda a revelação anterior, suficiente para constituir uma introdução básica às comunicações posteriores feitas por Deus na Bíblia. Além de ser introdutório, o livro de Gênesis é explicativo. Os outros registros bíblicos estão ligados inseparavelmente a este, uma vez que ele contém a origem e explicação inicial de tudo o que se segue. Os temas principais das Escrituras podem ser comparados a grandes rios, sempre se aprofundando e ampliando, à medida que correm, e podemos dizer sinceramente que todos esses rios nascem na linha divisória de Gênesis, ou, para usar uma figura igualmente apropriada, assim como o tronco maciço e os ramos frondosos do carvalho nascem do seu fruto, o mesmo acontece, por implicação e antecipação, com toda a Escritura que se acha em Gênesis. Temos aqui em forma de germe tudo o que se desenvolve mais tarde. Foi dito com razão que “as raízes de toda a revelação 25


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subseqüente acham -se aprofundadas em Gênesis, e quem quiser com preender verdadeiram ente essa revelação deve com eçar desse ponto”.

Gênesis e o Pentateuco A Bíblia se abre com o Pentateuco ou os cinco livros de Moisés. O nome “Pentateuco” (em grego — pente, cinco; e teuchos, livro) foi tirado da Septuaginta (tradução do Antigo Testamento para o grego, dita como tendo sido feita por setenta judeus alexandrinos, por volta do século III a.C., recebendo o nome de Septuaginta por causa do term o latino septuaginta, que significa setenta). Há, porém, uma boa razão para crer que antes de a Septuaginta ter sido feita, os escritos de Moisés foram reconhecidos como sendo em número de cinco. Os judeus os chamavam de “a Lei” ou “os cinco quintos da Lei” ou simplesmente “os cinco”. É provável que, na forma original, o todo fosse um só, dividido em cinco seções, cada uma tendo como título a primeira palavra ou palavras. Existe uma perfeição espiritual no Pentateuco. Suas cinco partes não só nos dão uma história seqüencial, abrangendo os primeiros 2.500 anos da crônica humana, mas constituem uma unidade espiritual progressiva, estabelecendo, em seus aspectos principais, o que foi descrito como “a ordem da experiência do povo de Deus em todas as épocas”. Observamos em Gênesis a ruína através do pecado do homem. Em Êxodo temos a redenção mediante o sangue do Cordeiro e o Espírito de poder. Em Levítico temos comunhão baseada na expiação. Em Números encontramos orientação durante a peregrinação, por parte da vontade dominante de Deus. Em Deuteronômio aprendemos a respeito da dupla verdade da instrução renovada e completada, e o povo errante levado ao seu destino predeterminado. Não é isto realmente “a ordem da experiência do povo de Deus em todas as épocas”? Todavia, estes cinco primeiros livros nos dão, além disso, uma revelação in discutivelm ente progressiva, em cinco estágios, re fe re n te ao relacionamento de Deus com o Seu povo. Vemos em Gênesis a soberania de Deus na criação e na eleição (na escolha de Abraão, Isaque, Jacó e seus descendentes e na promessa solene de lhes entregar a terra de Canaã como herança predestinada). Em Êxodo vemos o poder remidor de Deus ao libertar Israel do Egito, “com mão poderosa e com braço estendido”. 26


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O livro de Levítico mostra-nos a santidade de Deus em sua insistência na separação e santificação do povo remido. Números destaca a “bondade e severidade” de Deus — severidade para com a geração incrédula que deixou o Egito, mas não pôde entrar na herança prometida, e bondade p a ra com os filhos desses israelitas, sustentando, pro teg en d o e preservando, até que Canaã fosse ocupada. Deuteronômio revela a fidelidade de Deus — fiel ao Seu propósito, Sua promessa, Seu povo, e em levar os remidos até a terra que lhes prometera. Assim sendo: O LADO HUMANO Gênesis. Êxodo. Levítico. Números. Deuteronômio.

Ruína — através do pecado do homem. Redenção — pelo “sangue” e “poder”. Comunhão — com base na expiação. Orientação — direção pela vontade de Deus. Destino — mediante a fidelidade de Deus. O LADO DIVINO

Gênesis. Êxodo. Levítico. Números. Deuteronômio.

Soberania divina — na criação e eleição. Poder divino — na redenção e emancipação. Santidade divina — na separação e santificação. Bondade e severidade divinas — julgando, cuidando. Fidelidade divina — na disciplina e no destino.

Vemos assim que essas cinco partes do Pentateuco estão repletas de propósito e progresso. Elas são uma miniatura da Bíblia.

Gênesis e Apocalipse É importante reconhecer a relação entre Gênesis e o último livro da Bíblia. Existe uma correspondência entre eles, que sugere ser ao mesmo tempo uma prova e um produto do fato de que a Bíblia é uma revelação completada. Não é possível entender adequadamente um sem o outro; quando reunidos, porém, eles se completam. Não é possível retroceder além de um deles, nem avançar para além do outro. Não há também 27


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necessidade disso em qualquer caso. Em termos gerais e linguagem majestosa, Gênesis responde à pergunta: “Como tudo começou?” Em termos gerais e linguagem majestosa, Apocalipse responde à pergunta: “Como tudo term inará?” Tudo o que fica entre eles é o desenrolar dos acontecimentos de um até o outro. Note as semelhanças entre Gênesis e Apocalipse. Temos em ambos um novo começo e uma nova ordem. Observamos em ambos a árvore da vida, o rio, a noiva, a caminhada de Deus com o homem; em ambos os paraísos vemos os mesmos ideais nos campos moral e espiritual. Deus jamais abandonou o ideal do Éden para o homem; embora no final o jardim tenha dado lugar à cidade, o ideal de santidade do Éden finalmente triunfa. M arque os contrastes entre um livro e outro. Em Gênesis vemos o primeiro paraíso fechado (3.23); em Apocalipse vemos o novo paraíso aberto (21.25). Em Gênesis o pecado humano resulta em expulsão (3.24); em Apocalipse a graça divina produz reintegração (21.24). Em Gênesis lemos sobre a “maldição” imposta (3.17); em Apocalipse ela é removida (22.3). Em Gênesis, o acesso à árvore da vida é vetado em Adão (3.24); em Apocalipse vemos o acesso à árvore da vida recuperado, em Cristo (22.14). Em Gênesis vemos o começo do sofrimento e da morte (3.16-19); em Apocalipse lemos que “a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor” (21.4). Em Gênesis nos é mostrado um jardim em que entrou a corrupção (3.6-7); em Apocalipse nos é mostrada uma cidade, sobre a qual é escrito: “Nela nunca jamais penetrará coisa alguma contaminada” (21.27). O homem perde o domínio em Genêsis, por causa da queda do prim eiro homem, A dão (3.19); vemos esse domínio restaurado em Apocalipse, sob o reino do Novo Homem, Cristo (22.5). Em Gênesis vemos triunfar a maldade da serpente (3.13); em Apocalipse contemplamos o triunfo final do Cordeiro (20.10; 22.3). A caminhada de Deus com o homem é interrompida em Gênesis (3.8-10); em Apocalipse Deus volta a andar com ele, e uma grande voz proclama dos céus: “Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles...” (21.3). Veja como um livro se completa no outro. O jardim, em Gênesis, dá lugar à cidade, em Apocalipse; e o homem que estava sozinho se transforma numa raça. Vemos em Gênesis o pecado humano em seu começo; no livro de Apocalipse observamos seu desenvolvimento pleno e final, na Meretriz, no Falso Profeta, na Besta e no Dragão. Em Gênesis vemos o pecado provocando a morte física na terra. Em Apocalipse vemos 28


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o pecado nas trevas terríveis da “segunda morte”, no além. Lemos em Gênesis sobre a sentença pronunciada contra Satanás; no Apocalipse a sentença é executada. A primeira promessa de um Salvador e da salvação futura é dada em Gênesis; em Apocalipse vemos essa promessa em seu cumprimento final e glorioso. Gênesis provoca expectativa; Apocalipse produz a realização. Gênesis é a pedra fundamental da Bíblia; Apocalipse é a sua cimalha. A ESTRUTURA D E GÊNESIS Como já dissemos, tudo o que se passa antes do terceiro capítulo de Êxodo já havia acontecido quando a Bíblia começou a ser escrita. Vamos fazer então uma pausa nesse terceiro capítulo de Êxodo e observar o que se acha registrado em Gênesis, a fim de colocar em perspectiva os pontos principais. Não é difícil perceber que em Gênesis encontramos duas importantes divisões. Todos os estudiosos da Bíblia concordam em que o chamado e a resposta de Abrão constituem um desvio na narrativa e marcam as duas partes principais do livro — a primeira cobrindo os capítulos um a onze e a segunda, os capítulos doze a cinqüenta. Desse modo, vemos como cada parte é organizada conforme um plano significativo em quatro partes. Na primeira parte temos quatro eventos em destaque — a Criação, a Queda, o Dilúvio e a crise de Babel. Na segunda, temos quatro pessoas em destaque — Abraão, Isaque, Jacó e José. Todo o conteúdo de Gênesis foi organizado ao redor, em relação a esses quatro eventos centrais de um lado e às quatro pessoas centrais do outro. Ao observar os eventos e personagens básicos de Gênesis assim ressaltados, percebemos também rapidamente a idéia unificadora que se estende através do registro, e isto nos fornece o significado principal do livro como um todo. Pelo fato de ter sido colocado logo no início dos 66 livros, Gênesis nos faz dobrar os joelhos em obediência reverente diante de Deus, por exibir perante os nossos olhos, e trovejar em nossos ouvidos, aquela verdade que deve ser aprendida antes de todas as outras em nosso trato com Deus, em nossa interpretação da história e em nosso estudo da revelação divina, a saber — A SOBERANIA DIVINA. Ao fazer um retrospecto dos quatro grandes eventos da parte um e dos quatro grande personagens da parte dois, concluímos que eles constituem uma demonstração impressionante da soberania divina. No primeiro dos quatro eventos, temos a soberania divina na criação física. No segundo, ela 29


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se manifesta na tabulação humana. No terceiro, o ponto é a retribuição histórica. No quarto, a soberania divina se evidencia na distribuição racial. Nestes quatro acontecimentos importantes, contemplamos o domínio do Criador em Sua prioridade eterna, Sua autoridade moral, Sua severidade judicial e Sua supremacia governamental. Ao voltarmos para a segunda parte de Gênesis, surge a soberania de Deus na regeneração. O processo de regeneração esboçado aqui contrasta por completo com o de degeneração na primeira parte do livro. Desde Adão até Abraão vemos o curso da degeneração: primeiro, no indivíduo — Adão; a seguir, na família — Caim e seus descendentes; depois, nas nações — a civilização antediluviana; e então, persistindo através da raça, como tal, em Babel. Acontece a essa altura um novo desvio. Vemos o processo de regeneração operando: primeiro, no indivíduo — Abraão, Isaque, Jacó; a seguir, na família — os filhos de Jacó; depois, na nação — Israel; tudo com vistas à regeneração final da raça. Em Abraão, Isaque e Jacó vemos a soberania divina na eleição. Abraão, apesar de ser o filho mais moço, é escolhido em lugar de seus dois irmãos mais velhos. Isaque é escolhido em lugar de Ismael, o filho mais velho de Abraão. Jacó, embora tivesse nascido depois de Esaú, é preferido a seu irmão. Através de tudo isso, percebemos o princípio da eleição divina. Deus escolhe a quem quer, em sua graça soberana. Mais tarde, na belíssima biografia de José, apreciamos a soberania de Deus na direção — no controle dominante e infalível de todos os acontecimentos até o fim predeterminado, por mais contrários que parecessem. No caso de Abraão vemos esta eleição soberana expressa mediante um chamado sobrenatural, pois fica claro que Deus interviera diretamente (veja Gn 12.1-3). No que se refere a Isaque, nós a vemos expressa por um nascimento sobrenatural. Abraão dissera: “Oxalá viva Ismael diante de ti” (17.18). Mas, não! Quando Abraão já tem cem anos e Sara noventa, Isaque, o filho do milagre, lhes é concedido. Na história de Jacó, a eleição se evidencia no cuidado sobrenatural. Deus o salva primeiro da faca de Esaú; depois o encontra em Betei; faz com que prospere, apesar da astúcia de Labão; salva-o da ira vingadora do irmão que vai ao seu encontro com um grupo de 400 homens; e assim por diante, até quando Jacó, agonizante, abençoa os jovens Manassés e Efraim, dizendo: “o Anjo que me tem livrado de todo mal, abençoe estes 30


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rapazes” (Gn 48.16). Em José, por último, vemos a soberania divina na orientação, manifesta no controle sobrenatural, fazendo com que todos os acontecimentos contribuam para o fim predestinado. Assim, nestes quatro homens observamos então um desenvolvimento em quatro planos — (1) cham ado sobrenatural, (2) nascim ento sobrenatural, (3) cuidado sobrenatural, (4) controle sobrenatural. N este prim eiro livro da E scritura descobrim os, então, que, ao co n cen trar-n o s nos eventos e personagens básicos, passam os a compreender a relevância do tema como um todo e podemos organizar os fatos como segue.

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A SOBERANIA DIVINA NA CRIAÇÃO, HISTÓRIA E REDENÇÃO I. HISTÓRIA PRIMITIVA (1-111 Q uatro Eventos de Destaque A CRIAÇÃO — A soberania divina na criação física. A prioridade eterna de Deus. A QUEDA — A soberania divina na tribulação humana. A autoridade moral de Deus. O DILÚVIO — A soberania divina na retribuição histórica. A severidade judicial de Deus. A CRISE D E BABEL — A soberania divina na distribuição racial. A supremacia governamental de Deus. II. HISTÓRIA PATRIARCAL (12-50) Q uatro Pessoas de Destaque ABRAÃO — Soberania divina na eleição. Chamado sobrenatural. ISAOUE — Soberania divina na eleição. Nascimento sobrenatural. JACÓ — Soberania divina na eleição. Cuidado sobrenatural. JOSÉ — Soberania divina na direção. Controle sobrenatural.

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NOTA: Para este segundo estudo leia de novo com cuidado (tomando nota dos pontos importantes) Gênesis, capítulos 1 a 11. Em antecipação aos nossos comentários sobre a extensão geográfica do Dilúvio, queremos dar um conselho. Ao estudarmos a Bíblia, devemos sempre lembrar que estamos usando uma tradução em vez do original. A compreensão correta da palavra usada no original pode afetar de maneira significativa nossa interpretação em muitos casos. Isto não deve desanimar os que não conhecem hebraico nem grego, pois em nossos dias os recursos à nossa disposição são muitos. Um deles é, sem dúvida, a Exhaustive Concordance de Strong, que, mediante um sistema de fácil referência, fornece não só todas as ocorrências do termo em inglês, mas também a palavra hebraica ou grega assim traduzida e a pronúncia em inglês, assim como qualquer outra palavra inglesa que traduz o vocábulo hebraico ou grego na Bíblia — isso sem mencionar outros excelentes aspectos. Trata-se de um instrumento inestimável para o estudioso da Bíblia. O seu valor nunca poderá ser subestimado. O conhecimento e uso das palavras empregadas no original são esclarecedores e fascinantes. J. S. B.


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EM NOSSO PRIMEIRO estudo, vimos que a idéia predominante no Livro de Gênesis é a soberania de Deus. Notamos também que o livro se divide em duas partes principais. Na primeira (1-11), temos quatro eventos em destaque — a Criação, a Queda, o Dilúvio e a dispersão de Babel. Na segunda (12-50), destacam-se quatro pessoas — Abraão, Isaque, Jacó e José. Vamos agora recapitular brevemente os quatro super-eventos da primeira parte.

A criação Em primeiro lugar faremos uma revisão dos capítulos 1 e 2, que tratam daquele transcendente acontecimento inicial, a Criação. No primeiro versículo do livro lemos: “No princípio criou Deus os céus e a terra”. Isto não é teoria humana, mas um “testemunho” divino. Lemos no Salmo 93.5: “Fidelíssim os são os teus testem unhos...” A palavra de D eus dá testemunho de verdades superiores à inteligência humana comum, que estão além do alcance da investigação humana. Gênesis 1.1 é o primeiro desses “testemunhos”. Existe uma diferença radical entre uma teoria e um “testemunho” ou “depoimento”. A teoria trata da interpretação dos fatos, enquanto o testemunho trata dos fatos em si. É essencial compreender que este versículo de abertura da Bíblia não é simplesmente o primeiro postulado de uma filosofia humana, mas o primeiro testemunho de uma revelação divina. E a primeira grande verdade que Deus quer tornar conhecida ao homem; e este não a poderia conhecer se não fosse pelo testemunho divino. Nós a aceitamos como tal, acreditando com o salmista que “o testemunho do Senhor é fiel, e dá sabedoria aos símplices” (SI 19.7). Este depoimento inicial de nosso fiel Criador permanece sublime em sua simplicidade. Não há definição de Deus, nenhuma descrição da criação e nenhuma declaração de data. Positivo e completo em si mesmo, ele deixa, entretanto, espaço para todo o desenrolar subseqüente das Escrituras e todas as descobertas da ciência. Ele é axiomático. Da mesma forma que a geometria é construída sobre certas verdades axiomáticas, o 35


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axioma fundamental da Bíblia é estabelecido em sua primeira sentença. A moda, hoje, é professar descrença em milagres. Se aceitarmos a primeira sentença da Escritura, não haverá dificuldade para aceitar todos os milagres que se seguem; pois os menores estão incluídos no maior. Note também que este primeiro pronunciamento básico da Bíblia nega todas as principais filosofias falsas propostas pelo homem. “No princípio... Deus” — nega o ateísmo com sua doutrina da não-existência de Deus. “No princípio... Deus” — nega o politeísmo com sua doutrina de muitos deuses. “No princípio criou Deus” — nega o fatalismo com sua doutrina do acaso. “No princípio criou Deus” — nega a evolução com sua doutrina de transformação infinita. “... criou Deus os céus e a terra” — nega o panteísmo que identifica Deus com o universo. “... criou Deus os céus e a terra” — nega o materialismo que proclama a eternidade da matéria. Assim sendo, este primeiro “testemunho” do Senhor não é só uma declaração da verdade divina, mas também o repúdio ao erro humano. Mas, o que dizer do versículo 2: “A terra, porém, era sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo”? Isto descreve a primeira condição da terra depois da sua criação? E os seis “dias” que se seguem neste primeiro capítulo? Eles descrevem o processo da criação original? E necessário pensar e falar com muito cuidado aqui, pois os mal-entendidos são muitos neste aspecto. Se a Bíblia é a palavra inspirada de Deus, nada pode ser mais importante do que compreender corretamente os seus ensinos quanto à origem das coisas. Todavia, o fato é que nenhum capítulo da Bíblia foi tão mal compreendido e mal interpretado quanto esses dois primeiros de Gênesis. E certo afirmar que nestes dois capítulos temos um registro da “criação” (pois eles contêm a criação original do universo no capítulo 1.1 e a subseqüente criação da ordem animal presente no versículo 21, assim como a criação do homem no versículo 27); a declaração necessita, entretanto, de restrição e explicação. Deve ser feita uma diferença (a Bíblia com certeza a faz) entre a criação 36


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original da terra e sua reconstrução subseqüente, com o objetivo de torná-la habitável para o homem. Não é demais enfatizar que os seis “dias” neste primeiro capítulo de Gênesis não descrevem a criação original da terra. Os que defendem ou afirmam isto são obrigados a tratar os seis “dias” como vastos períodos de tempo, a fim de enquadrar Gênesis com o que a ciência moderna nos ensinou sobre a enorme antigüidade da terra. Todavia, eles falham assim em conciliar Gênesis e a geologia e, pior ainda, envolvem as Escrituras em contradições insolúveis. Esse segundo versículo, que diz: “a terra era sem forma e vazia”, não descreve a primeira condição da terra após sua criação, como muitos pensam. Ele alude a um cataclisma que devastou mais tarde a terra. Os versículo 1 e 2 não têm uma ligação lógica. Existe uma lacuna entre ambos, cuja duração não sabemos. O versículo 2 deveria sem dúvida ser: “E a terra tomou-se (não apenas “era”) sem forma e vazia...” O mesmo termo hebraico usado aqui é interpretado desse modo em 2.7: “O homem passou a ser alma vivente” (sem mencionar outros exemplos, em alguns dos quais a interpretação é “veio a ser”). A geologia moderna fornece dados provando a antigüidade de nosso globo. Gênesis não entra em conflito com a geologia nesse terreno. Entre os dois primeiros versículos de Gênesis há amplo espaço para todas as eras geológicas. Ninguém pode afirmar qual o lapso de eras que existe entre eles. O primeiro versículo de Gênesis declara, então, simplesmente o fato da criação original, e o deixa ali, no passado sem data. O versículo 2, a seguir, trata de um caos que veio mais tarde à terra. Então, os seis “dias” subseqüentes descrevem a nova formação da terra com a finalidade de tomá-la habitável para o homem. Não sabemos com certeza o que ocasionou o cataclisma que tornou a terra “sem forma e vazia”. A Escritura parece fornecer algumas indicações veladas de que isso estava associado a uma rebelião pré-adâmica e ao juízo de Lúcifer e outros seres angelicais associados (veja Is 14.9-17; Jr 4.23-27; Ez 28.12-18, onde a linguagem transcende qualquer limite simplesmente local ou temporal).

1. Nota dos editores: Uma vez que se trata de uma opinião particular de Baxter, recomendamos aos leitores interessados em outras opiniões que consultem obras como a de D. Kidner, Gênesis, Introdução e Comentário (Edições Vida Nova e Editora Mundo Cristão, 1979).

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Nãò faz parte de nosso plano entrar nesse assunto aqui. O que desejamos enfatizar de novo é que esses seis “dias” do primeiro capítulo de Gênesis não descrevem a criação original. Em ponto algum da Bíblia é dito que se trata de um registro da criação original. Durante os quatro primeiros dias não é documentado qualquer ato criador. Só quando chegamos aos animais e ao homem é usada a palavra hebraica equivalente a “criar” (w. 21, 27). Em síntese, esses seis dias relatam um novo começo; mas não são o primeiro começo. Uma vez claramente apreciado este aspecto, o suposto conflito entre Gênesis e a geologia desaparece. Nossos comentários finais sobre esses seis “dias” devem ser no sentido de apontar o processo, o progresso e o propósito deles. Desde o início, a terra estava envolvida pelo “Espírito de Deus” (1.2); e em cada estágio da reconstrução lemos que “disse Deus”. Temos assim a vontade de Deus, expressa pela palavra de Deus e executada pelo Espírito de Deus. Este é o processo exposto aqui e ele se manifesta num progresso em seis partes ordenadas, culminando no homem. Vemos no homem a coroação do propósito total.

O Homem, a Coroa No capítulo 2, são descritas a criação e a primeira condição de Adão. São quatro movimentos — produção, provisão, prova e progressão. O ato de produção é narrado no versículo 7. O homem é formado do “pó da terra”, sendo porém soprado nele o “fôlego de vida”. Veja sua insignificância e superioridade! — sua condição terrena e celestial! A seguir, nos versículos 8-14, vemos a provisão divina para o homem. Tratava-se de provisão perfeita e profusa. A seguir, em 15-17, vemos o homem sendo colocado à prova. A liberdade do homem ficaria condicionada à lealdade. Entre as muitas provisões existia uma única proibição. Esta constituía o ponto de prova. Note, por último, a progressão segundo demonstrada nos versículos 18-25.0 movimento é gradual, mas avança sempre. Isto é visto na relação entre o homem e os animais; no dom potencial da fala; e, especialmente, na provisão de Eva para satisfazer a necessidade mais profunda de Adão e na perfeita felicidade daquele primeiro casamento no Éden. Existe, pois, produção à semelhança de Deus; provisão para o corpo, prova para a mente e progressão até o ponto de satisfazer o coração. Nesses quatro movimentos vemos o HOMEM, o SERVO, o REI, o MARIDO. 38


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A queda Fica perfeitamente claro para qualquer um que o pecado, com todos seus conseqüentes sofrimentos, existe no mundo inteiro. Como ele entrou? A explicação bíblica é dada em Gênesis 3. Não é nosso propósito defender essa explanação contra as opiniões humanas contrárias. Nós a apresentamos de maneira expositiva e não controversa. Aceitamos a explicação das Escrituras, e três coisas fazem parte do relato: (1) a tentação, (2) a aceitação e (3) os resultados. Quanto à tentação (w. 1-6), notamos primeiro que ela foi permitida. Não é fácil ver como poderia ter sido de outro modo na educação de um ser provido de razão e de vontade própria como o homem. A tragédia real está em ter havido um tentador. O fato de o ser humano estar sendo simplesmente provado, conforme lemos no capítulo 2.17, tornou-O sujeito à tentação. Mas, lembre-se, o tentador podia somente tentar, não era necessário haver pecado. E não havia razão para ceder. Notamos também que a tentação foi dirigida a Eva isoladamente. Este é o método comum de Satanás. Ela foi igualmente ligada à beleza: seu verdadeiro caráter estava oculto. Houve da mesma forma um aumento gradual na força da tentação. A princípio, a palavra de Deus é apenas posta em dúvida (v. 1). A seguir é diretamente contestada (v. 4). Depois, como a pessoa tentada continua tolamente a dar ouvidos, o próprio motivo em que se baseia a palavra de Deus é pervertido (v. 5). Quanto à aceitação (v. 6), vemos que Satanás primeiro cativou o ouvido, depois os olhos, a seguir o desejo interior e finalmente a vontade. Eva deu ouvidos ao tentador, permitindo depois que seus olhos contemplassem o objeto da tentação. Seu desejo então superou a vontade. Compare o versículo 6 com 1 João 2.16. “Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer” — a concupiscência da carne. “Agradável aos olhos” — a concupiscência dos olhos. “E árvore desejável para dar entendimento” — a soberba da vida. A primeira tentação no Éden, assim como milhares de tentações que levaram homens e mulheres a pecar desde então, são fundamentalmente idênticas. O principal objetivo do tentador é sempre separar cada vez mais a vontade do homem da de Deus. É importante ver que Deus havia facilitado ao máximo resistir a essa tentação. Adão e Eva haviam sido avisados do ato que Satanás queria que cometessem. Veja os 39


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textos de 2.17 e 3.3. A ordem não podia ser mais explícita. O aviso foi enfático. Não havia dificuldade em obedecer, pois Deus os cercara de inúmeras satisfações e lhes dera o lugar mais elevado na criação. Por último, vale a pena comparar o registro de Gênesis sobre a aceitação com 1 Timóteo 2.14. Eva foi “enganada”, mas não Adão. A escolha dele foi deliberada, ao que parece, ao ficar ao lado de Eva na sua queda. Quando aos resultados (w. 7-24), note os seguintes pontos. Satanás dissera que os olhos deles se abririam e que conheceriam o bem e o mal (v. 5). O cumprimento foi um tanto quanto sarcástico. Os olhos deles foram “abertos”! — e eles “conheceram ”! — mas que descoberta e que conhecimento! — “Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus...” A inocência desapareceu. Esse foi o primeiro resultado. Percebemos agora o surgimento da vergonha — “coseram folhas de figueira, e fizeram cintas para si”. Devemos agradecer a Deus o sentimento de vergonha que colocou na natureza humana! Ele salvou a humanidade de muitos males. Sentimento de vergonha — este foi o segundo resultado. Veja porém que houve evidentemente uma mudança no corpo humano. Em Rom anos 8.3 lem os que C risto veio “em semelhança de carne pecaminosa”. Isso não pode significar que a natureza humana do Senhor tivesse sido de qualquer forma contagiada pelo pecado. Como tinha então semelhança de carne pecaminosa? A resposta está em que, embora nosso Senhor fosse absolutamente irrepreensível, Ele não tinha em seu corpo a glória primitiva, a glória original do homem no Éden antes da queda. A conclusão é que antes da queda havia uma glória radiante ao redor dos corpos de Adão e Eva, que era em si mesma uma cobertura resplendente. É-nos dito que a própria pele do rosto de Moisés brilhava, depois de seus quarenta dias de comunhão com Deus no Sinai. Como deve ter sido então a radiante beleza daquele casal no esplendoroso Éden, enquanto ainda não tinham pecado? Banhados na luz gloriosa de sua pura comunhão com Deus, seus corpos devem ter brilhado inteiram ente. Mas, logo após a queda, essa glória desapareceu, e “perceberam que estavam nus”. Este foi o terceiro resultado. Isso não foi tudo, porém. Houve uma mudança trágica interior. Veio repentinamente à tona uma estranha guerra onde antes só havia amor, alegria e paz. Veio o terror de uma faculdade recém-desperta — a da consciência. Assim, com o primeiro pecado surgiu o primeiro medo: Adão 40


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e a mulher fugiram de Deus e tentaram ocultar-se dEle! Este foi o quarto resultado — e note que não parece ter havido qualquer contrição humilde, mesmo quando o pecado foi exposto diante de Deus. Um afastamento espiritual se produzira entre o homem e Deus. O reino da morte espiritual fora estabelecido. Além de tudo, o homem acaba sendo expulso do jardim onde se encontra a árvore da vida; a terra é amaldiçoada; a serpente é maldiçoada; o homem recebe domínio sobre a mulher; e Deus providencia vestimentas para Adão e Eva. Todavia, em meio ao julgamento, Deus se lembra da misericórdia, e a primeira grande promessa sobre a vinda de um Salvador é dada no versículo 15. A melodia inteira será desenvolvida no correr do tempo e conforme a revelação da Escritura se desenrola; mas aqui em Gênesis 3.15 as primeiras notas se fazem ouvir, na promessa de que o “descendente” da mulher feriria a cabeça da serpente.

O dilúvio Se há um período da história sobre o qual gostaríamos de mais informações é o período antediluviano, entre a queda e o dilúvio. A narrativa de Gênesis mostra-se muito reticente, por uma razão muito simples. Mil e seiscentos anos1 são concentrados em duas páginas, de modo que não podemos ignorar a ligação significativa entre a queda e o dilúvio, quer vejamos ou não qualquer outro elemento. O escritor inspirado omite tudo que não é vital ao seu propósito. A narrativa bíblica jamais se preocupa com o simples lapso de tempo, e sim com a importância moral do eventos. Entre a queda e o dilúvio, o desenvolvimento dos fatos é quase dramático. Vamos observá-los com cuidado. No capítulo 3 vemos a queda. No capítulo 4, temos Caim e sua linhagem — “os filhos dos homens”. No capítulo 5 aprendemos sobre Sete e sua linhagem — “os filhos de Deus”. No capítulo 6 as duas linhas se cruzam, com resultados morais trágicos. No capítulo 7 o juízo é executado — o dilúvio. Esta 1. Nota dos editores: Uma vez que se trata de uma opinião particular de Baxter, recomendamos aos leitores interessados em outras opiniões que consultem obras como a de D. Kidner, Gênesis, Introdução e Comentário (Edições Vida Nova e Editora Mundo Cristão, 1979).

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seqüência dramática, uma vez observada, não pode mais ser esquecida. A separação entre as duas linhagens era vital; sua mistura, fatídica. A condição moral resultante foi espantosa; a corrupção, extrema. Tornou-se inevitável a intervenção divina, assim como o castigo. O dilúvio foi enviado como um ato de juízo e também como uma medida de salvação moral. Esta é a primeira grande lição bíblica de que são indispensáveis a separação e a intransigência. A insistência divina em todo o tempo é para que a descendência espiritual “saia e se separe”. Alguns afirmaram que os “filhos de Deus” mencionados no capítulo 7 são anjos decaídos, isto é, anjos “que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio”, referidos em Judas 6. O falecido Dr. E. W. Bullinger, exegeta capaz, mas frequentem ente fantasioso e falho, defende esta idéia. Um pouco de reflexão mostrará como ela é absurda. Os anjos são seres espirituais, assexuados, e, portanto, incapazes de experiências sensuais ou processos sexuais; também não podem reproduzir-se. A sugestão de esses anjos perversos de alguma forma terem tomado a forma humana e se tornado capazes de uma atividade sexual não passa de um disparate, como qualquer um pode verificar. A idéia é inconcebível tanto no terreno psicológico como no fisiológico. Todos sabemos como é peculiarmente delicada, sensível e intrincada a inter-reação que existe entre o corpo humano e a mente ou a alma humana. Isto se deve ao fato de a alma e o corpo terem nascido juntos e estarem misteriosamente unidos em uma personalidade humana. É assim que as sensações do corpo se tornam experiências da mente. Se os anjos simplesmente tomassem corpos e habitassem neles, isso não os capacitaria de modo algum a experimentar as sensações desses corpos, pois os anjos e os corpos não estariam unidos em uma personalidade, como no caso da mente e corpo humanos. Na verdade, os corpos não poderiam ser de carne e osso, pois, não habitando neles o espírito humano, o corpo humano de carne e osso morre. Quando o Senhor Jesus veio a este mundo para tornar-se nosso Salvador, Ele não tomou para si apenas um corpo humano e habitou nele. Tal coisa não o tornaria humano, não seria uma encarnação real. O Filho de Deus não tomou somente um corpo humano, Ele tomou para si a nossa natureza humana; e para isto teve de nascer. Se esses “filhos de Deus” em Gênesis eram anjos decaídos, a única maneira de se tornarem humanos e se casarem e terem filhos (6.1, 4) seria 42


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submetendo-se a um nascimento humano real — isto é, sendo encarnados e nascidos de mães humanas, mas sem pais humanos! Pensar que isto aconteceu é absurdo. Bullinger afirma que “filhos de Deus” é uma descrição aplicada apenas às criações diretas de Deus — isto é, os anjos, o primeiro homem, Adão (Lc 3.38) e aqueles na presente dispensação que constituem uma “nova criação” em Cristo (2 Co 5.17; Rm 8.14 etc.); mas ele certamente se esquece de versículos como Isaías 43.6 e 45.11, onde a expressão “meus filhos” é equivalente a “filhos de Deus”. Ignoremos completamente, então, a estranha idéia de que esses “filhos de Deus” em Gênesis eram os anjos decaídos, que “não guardaram o seu estado original” a fim de coabitar com as mulheres da terra. Além das objeções que já levantamos, a impressão que a Escritura nos transmite é de que a queda desses anjos — como a de Satanás — ocorreu muito antes de o homem ser criado na terra. O dilúvio nos dias de Noé foi universal? Quanto ao fato do dilúvio, o testemunho da tradição universal e da arqueologia do século XX tiraram qualquer dúvida a esse respeito; mas, repetimos, o dilúvio foi universal? Discutir adequadamente esta questão exigiria um espaço que iria exceder em muito os limites de nosso presente objetivo. Existem, porém, dois ou três fatos basicam ente im portantes que não podem deixar de ser mencionados. Primeiro, entendamos claramente que não é fundamental para a inspiração das Escrituras afirmar que o dilúvio de Noé foi universal. A expressão “a terra”, que aparece tantas vezes no registro bíblico, não nos obriga a isso, pois o termo hebraico (eretz), traduzido como “terra”, freqüentemente indica apenas um país ou localidade. Por exemplo, no chamado divino a Abraão, “sai da tua terra”, a palavra é eretz, e em muitos outros pontos eretz corresponde a “região”. Do mesmo modo, o termo hebraico (har) traduzido como “m onte” (7.20) tem várias conotações. Pode significar pouco mais que outeiros ou planaltos, ou ainda montanhas propriamente ditas. E a palavra repetidamente empregada no título “Monte Sião”. Não se exige de modo algum que pensemos em Nóe e a arca elevados acima dos Alpes e das montanhas do Himalaia, onde, por seu próprio peso, as águas se tornariam parte da neve e gelo eternos, lugar em que, de fato, a arca ficaria enterrada sob milhares de metros de gelo, e onde, mesmo que tal sepultamento na neve fosse de alguma forma superado, a vida na arca teria sido impossível se não houvesse algum 43


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sistema milagroso de “aquecimento central”! Existe um uso legítimo e idiomático da hipérbole na língua hebraica do Antigo Testamento, assim como acontece hoje. Quando o espectador de um jogo de críquete nos conta que a bola foi lançada a “quilômetros de distância”, compreendemos imediatamente o que ele quer dizer. Do mesmo modo, quando Moisés fala de “cidades grandes e amuralhadas até aos céus” (Dt 9.1), reconhecemos uma hipérbole legítima; e, assim também, quando ele fala que as águas do dilúvio cobriram todos os montes que “havia debaixo do céu” (Gn 7.19), percebemos o mesmo uso hiperbólico de Deuteronômio 2.25, onde essa mesma expressão, “debaixo de todo o céu”, ocorre numa conotação evidentemente limitada. A profundidade das águas é de fato dada em Gênesis 7.20, e os hiperbolismos devem ser sempre lidos de acordo com as declarações e números literais. (Veja nossa nota referente à Exhaustive Concordance de Strong, que precede este estudo.) Muito mais poderia ser dito, mas mencionamos o suficiente para mostrar que a inspiração da Escritura não depende de provarmos que o dilúvio foi universal. Outro ponto a ser acrescentado é que o dilúvio de Noé não deve ser confundido com o dilúvio pré-histórico de que falam os geólogos.1 Por toda a terra, existem marcas de um enorme dilúvio; mas elas não poderiam ter sido deixadas por uma inundação tão curta como a dos dias de Noé, mesmo que tivesse sido universal. O dilúvio de que a geologia dá testemunho é o de Gênesis 1.2, ao qual 2 Pedro 3.5 também se refere. Notamos, finalmente, que após a destruição de toda a raça adâmica, restou um homem que, com sua família, “achou graça diante de Deus”. “Noé era homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos; Noé andava com Deus.” Este homem e sua família foram poupados: e ele era o homem vital, notemos isso. Ele era o décimo homem na linhagem messiânica, a partir de Adão, da qual viria o Salvador na “plenitude do tem po”. Satanás pode fazer o que seja pior, o homem pode afundar ao máximo e o juízo pode ser executado até o extremo, mas o propósito final do Senhor jamais deixará de ser alcançado. Ele segue adiante e triunfará 1. Nota dos editores: Uma vez que se trata de uma opinião particular de Baxter, recomendamos aos leitores interessados em outras opiniões que consultem obras como a de D. Kidner, Gênesis, Introdução e Comentário (Edições Vida Nova e Editora Mundo Cristão, 1979).

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um dia em “novos céus e nova terra”, onde haverá justiça e glória incomparáveis.

A dispersão em Babel Não devemos pensar na era pré-diluviana como sendo de dureza primitiva. Tudo indica tratar-se da civilização mais notável que nossa raça jamais conheceu. A longevidade humana nessa época, a uniformidade da linguagem, a proximidade da revelação divina e a maior liberdade de comunicação entre Deus e os homens — pense no que isso deve ter significado. Vemos claros indícios das artes e engenhos desse período em Gênesis 4.20-24. Mas essa primeira civilização, com seu acúmulo de conhecimento e experiência, seus tesouros de arte e literatura, sua agricultura e habilidades, desapareceu completamente, e a raça adâmica tem um novo começo em Noé e seus três filhos com suas famílias. Restrições marcantes são agora impostas. A vida humana é bastante encurtada. O período de cada geração é bem menor. O solo exige mais trabalho e produz menos retorno; a “carne” é, portanto, incluída na dieta humana. Uma barreira de “medo” em relação ao homem tem de ser também imposta aos animais. A pena de morte é estabelecida para quem m atar um semelhante (cuja “violência” se tornara comum nos dias antediluvianos: 6.11,13). Em meio a tantas limitações, a fidelidade de Deus se destaca no sinal do arco-íris. A promessa divina era necessária. Ela assegurou ao homem uma esperança para o futuro. Havia ainda uma outra limitação a ser imposta, a saber, a confusão de línguas (11.1-9). O fato essencial a ser compreendido é que a pluralização da linguagem hum ana foi uma medida restritiva culminante, sendo precipitada por um acordo humano no sentido de estabelecer um grande centro racial, com uma elevada torre astral. Não devemos atribuir a esses construtores da antigüidade a estupidez de imaginar que pudessem edificar uma torre que chegasse aos céus. O texto, na verdade, não se refere à altura da torre, mas diz, “e seu topo com os céus”, ou seja, com um planisfério astronômico, figuras do zodíaco e desenhos das constelações — como encontramos nos templos antigos de Esneh e Denderah no Egito. Talvez devêssemos dar a confirmação do falecido Tenente-General Chesney. Depois de descrever outras descobertas entre as ruínas da 45


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Babilônia, ele declara: “Cerca de cinco milhas a sudoeste de Hillah, a mais notável de todas as ruínas, a Birs Nimroud dos árabes, levanta-se a uma altura de 46 metros acima da planície sobre uma base quadrada de 121 metros de lado. Ela foi construída de tijolos secos no forno, em sete estágios, a fim de corresponder aos planetas a que foram dedicados: a inferior preta, a cor de Saturno; a seguinte laranja, para Júpiter; a terceira vermelha, para Marte; e assim por diante. Esses estágios eram encimados por um a elevada torre, no cume da qual, segundo nos foi dito, encontravam-se os signos do zodíaco e outras figuras astronômicas; tendo portanto (como deveria ter sido traduzido) uma representação dos céus, em lugar de um ‘topo que chegue até aos céus’ ”. Não podemos afirmar que esses sejam os remanescentes da torre original, mas sem dúvida ilustram sua natureza e dimensões. A crise de Babel provavelmente ocorreu cerca de trezentos anos após o dilúvio. Em 10.25 ficamos sabendo que nos dias de Pelegue “se repartiu a terra” (como aconteceu na confusão de línguas; 11.9). Pelegue morreu 340 anos depois do dilúvio, como pode ser facilmente calculado em 11.10-19. A torre de Babel tinha como finalidade conservar e transmitir as tradições antediluvianas. Seu erro estava no fato de os construtores desafiarem o mandamento divino de se dispersarem e encherem a terra. “Tornemos célebre o nosso nome”, exclamaram os construtores, “para que não sejamos espalhados por toda a terra!” O Dr. Alfred Edersheim comenta: “Tais palavras compartilham do espírito da ‘Babilônia’ em todas as eras. Seu significado é certamente ‘vamos rebelar-nos!’ — pois não só o desígnio divino de povoar a terra seria assim frustrado, mas um império mundial desse tipo iria constituir um desafio a Deus e ao seu reino, desde que o seu motivo era orgulho e ambição”. Não podemos deter-nos aqui para discutir a grandeza de Babel, a capital do reino de Ninrode; mas, a partir deste ponto, Babel, ou Babilônia, torna-se a cidade-símbolo do “mundo perverso atual”, energizado, como o é, pelo arqui-rebelde Satanás. A completa destruição da Babilônia histórica, que ocorreu devidamente em cumprimento a profecias como a de Isaías 13.19-22, é uma das maravilhas da profecia bíblica. Mas a Babilônia continua vivendo em forma de “mistério”, como lemos no livro de Apocalipse; e a destruição da Babilônia histórica tipifica a futura ruína da Babilônia “misteriosa” e do presente sistema mundial.

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NOTA: Ocorre-nos mencionar que os interessados num estudo mais detalhado desses “filhos de Deus”, em Gênesis 6, encontrarão um tratam ento mais minucioso do assunto no último capítulo do livro do autor, Studies in Problem Texts (“Estudos em Textos Problemáticos”).

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Lição NQ3


NOTA: Para este estudo leia novamente Gênesis 6-9 e 37-50. “Para que uma coisa possa ser considerada o tipo de outra, é necessária mais do que simples semelhança. A primeira não deve apenas parecer-se com a segunda, mas deve ter sido destinada a isso. É preciso que tenha sido destinada a isso desde a sua instituição original, como um preparativo para a segunda. Tipo e antítipo devem ter sido pré-ordenados, e isso como partes constituintes do mesmo esquema geral da divina providência. Este desígnio prévio e esta ligação pré-ordenada (juntamente, é claro, com a semelhança) constituem a relação do tipo com o antítipo.” BISPO MARSH, Lectures


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O ENSINO DOS TIPOS EM GÊNESIS

(a) O Antigo Testamento — tipos em geral As Escrituras do Antigo Testam ento contêm, de fato, inúmeros significados tipológicos latentes. Exemplos de seu conteúdo tipológico são repetidamente citados no Novo Testamento; eis alguns deles:

Pessoas

“Adão... era a figura (typos = tipo) daquele que havia de vir” — Rm 5.14 (BLH).

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“M elquisedeque... feito semelhante (aphomoiaõ = à semelhança de) ao Filho de Deus” — Hb 7.3.

Objetos

Eventos

“E a pedra (da qual os israelitas beberam: veja Êxodo 17) era Cristo” — 1 Co 10.4.

“Noé... salvo através da água, a qual, figurando (antitypos “O primeiro otabernáculo... é uma parábola (parabolz = = antitipo) batismo, agora também vos salva” (1 Pe figura ou comparação)” — Hb 9.8-9. 3.21). “Abraão... figuradamente (parabote = símile) o (Isaque) recobrou (dentre os mortos)” — Hb 11.19.

Mas além desses e outros exemplos similares, em que pessoas, objetos e eventos específicos são tidos como tipos ou figuras, existem passagens no Novo Testamento que confirmam claramente a presença geral de tipos e símbolos no Antigo Testamento. Note as seguintes: “Ora, estas cousas (veja o contexto) se tornaram exemplos para nós (lit.: — tipos para nós)” — 1 Co 10.6.

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“Estas cousas lhes sobrevieram como exemplos (typoi = tipos)” — 1 Co

10. 11. “a lei tem sombra (contorno escuro ou silhueta) dos bens vindouros” — Hb 10.1. Existem outros capítulos, passagens e versículos no Novo Testamento que, embora não confirmem propriamente o fato da tipologia do Antigo Testamento, indiscutivelmente a sugerem. Pensamos, por exemplo, no grande discurso do Senhor sobre o maná, em João 6; a comparação por contraste feita por Paulo sobre os dois ministérios — o da “letra” contra o do “Espírito”, em 2 Coríntios 3-4; o argumento baseado em Ismael e Isaque, em Gálatas 4; as passagens sobre Melquisedeque e Arão na Epístola aos Hebreus; as palavras do Senhor sobre a serpente abrasadora; sua referência aos três dias de Jonas dentro do grande peixe; e as várias referências do Novo Testamento sobre Cristo como Páscoa, Primícias, Trono de Misericórdia (propiciatório) e Cordeiro. Quem pode ler tantas passagens como essas, sem ver nelas a implicação da tipologia do Antigo Testamento? De fato, mesmo à parte destas provas indiscutíveis do Novo Testamento para crermos na tipologia do Antigo, os dados circunstanciais em alguns casos são tão claros que não poderíamos deixar de perceber a presença de significados tip o ló g ico s, um a vez que as se m e lh an ç a s são excessivam ente nítidas e num erosas p ara considerá-las sim ples coincidências. Por exemplo, em lugar algum é dito que José é um tipo de Cristo; todavia, quem pode ler esse belíssimo registro do Antigo Testamento, à luz da história do Novo, sem reconhecer em José — amado, humilhado, exaltado (para não mencionar a variedade de outros detalhes positivos) — um dos tipos mais destacados e completos de Cristo nas Escrituras? Entretanto, apesar desses dados circunstanciais, é prudente esclarecer aqui que a única autoridade todo-suficiente para a tipologia do Antigo Testam ento é a clara garantia encontrada no Novo Testam ento — garantia que, conforme demonstramos, destaca-se perfeitamente em suas páginas. Afirmamos que os escritores do Novo Testamento, como os do Antigo, foram homens inspirados pelo Espírito de Deus; e por isso sua palavra tem uma autoridade singular para nós. 52


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O Valor da Tipologia A presença deste conteúdo tipológico latente contribui para que as Escrituras do Antigo Testamento se revistam de nova e maravilhosa riqueza de significado; é lamentável, portanto, que o estudo dos tipos tenha caído em considerável desfavor em alguns setores, em vista de as interpretações alegóricas e místicas terem sido levadas a extremos insensatos sem qualquer base neotestamentária. Quando estudada com bom senso e de acordo com o ensino do Novo Testamento, a tipologia do Antigo é um tesouro precioso para quem estuda a Bíblia, não devendo ser de forma alguma negligenciada. Além disso, a tipologia do Antigo Testamento fornece uma grande prova de sua inspiração divina. Se este significado tipológico é de fato inerente, ele indiscutivelmente atesta uma sabedoria e presciência sobre-humanas! — pois os tipos do Antigo Testamento não só evidenciam a habilidade suprema do Autor Divino como são uma forma de profecia, prefigurando pessoas e coisas que ainda estavam por vir e revelando que Deus previu todos os eventos futuros. De fato, trata-se do mais belo exemplo de profecia, pois dá colorido, plenitude e vida à apresentação da verdade, de um modo que não poderia acontecer na predição direta, não figurada.

Princípios de Interpretação Duas precauções devem sempre estar em nossa mente na interpretação e aplicação dos tipos. Primeira: nenhuma doutrina ou teoria deve ser construída sobre um tipo ou tipos, independentemente de ensino direto em qualquer outro ponto das Escrituras. Os tipos têm como alvo ampliar e dar vida à doutrina, mas não originá-la. Eles são esclarecedores, mas não fundamentais. O seu propósito é ilustrar e não formular. Isto se evidencia na própria natureza do caso, pois, como são tipos, não se tratam então de originais, mas de representações de outras coisas; e a não ser que as realidades que tipificam tenham existido, os tipos em si não poderiam existir. Assim sendo, os tipos são dependentes e não devem ser usados independentemente para autenticar a doutrina. Há algum tempo atrás um pregador defendeu uma teoria complexa de que, na segunda vinda de Cristo, os santos deveriam passar por céus 53


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sucessivos, a fim de submeter-se a um processo de purificação, antes de se apresentarem diante do trono de Deus. Toda a teoria dele se baseava numa passagem de significado um tanto duvidoso em Levítico. Esse tipo de atitude é inconveniente e deve ser evitado. Segunda: o paralelismo entre o tipo e o antítipo não deve ser levado a extremos. Os tipos, ao que parece, não devem ser réplicas exatas daquilo que simbolizam, mas devem enriquecer e iluminar nossa compreensão dos aspectos mais essenciais no antítipo. Quando a interpretação dos tipos chega a entrar em minúcias insignificantes, ela degenera em alegorização fantasiosa, apresentando muitos perigos.

Definição e Classificação Um tipo pode ser uma pessoa, objeto, evento, ato ou instituição adaptada divinamente para representar alguma realidade espiritual ou prefigurar uma pessoa ou verdade a ser revelada mais tarde. Em outras palavras, Deus agradou-se em investir certas pessoas, objetos, eventos, atos e instituições com um significado simbólico, a fim de que, além de uma associação real com sua própria época, eles tivessem um significado projetando-se para o futuro. (A palavra “instituições” nas definições acima abrange todas as regras, ritos, cerimônias, organizações, cargos, épocas, lugares, instrumentos, implementos, estruturas, utensílios, vestes, formas, cores e números que possam receber um valor tipológico.) Vemos então que os tipos se dividem em quatro classes: pessoas, objetos, eventos e instituições. Pode ser útil acrescentar aqui que nenhuma pessoa, objeto, evento ou instituição do Antigo Testamento deve ser dogmaticamente confirmado como tipo sem uma garantia clara do Novo Testamento. Os tipos não legitimados dessa forma possuem simplesmente a autoridade da analogia e correspondência.

(b) Tipos em Gênesis Os comentários precedentes sobre tipologia em geral do Antigo Testamento foram feitos por duas razões — (1) enquanto estamos ainda nos primeiros estágios deste curso bíblico, é bom que tenhamos uma idéia definida sobre a presença e o propósito dos tipos; e (2) o livro de Gênesis, 54


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que estamos estudando agora, é singularmente rico em tipos. Estamos dando a seguir uma lista dos tipos mais proeminentes encontrados em Gênesis e veremos que este primeiro livro da Bíblia é especialmente marcado pela predominância de tipos pessoais. Pessoas Adão — tipo de Cristo. Eva — tipo da Igreja. Caim e Abel — carnal versus espiritual. Enoque — a futura trasladação. Sobreviventes do dilúvio — a Igreja. Ló — tipo do crente mundano. Melquisedeque — tipo de Cristo. Hagar e Sara — lei versus graça. Ismael e Isaque — carne versus espírito. Abraão — o Pai (22 e 24). Isaque — Cristo (22 e 24 etc.). O servo — o Espírito (24). Rebeca — a Igreja (24). José — tipo de Cristo. Asenate — tipo da Igreja.

Objetos, Eventos etc. O sol — tipo de Cristo. A lua — tipo da Igreja. As estrelas — tipo dos santos. Os seis dias — regeneração. O sábado — descanso espiritual. As vestimentas (3.21) — justiça imputada. O cordeiro de Abel — tipo do Calvário. O dilúvio — tipo do Juízo. O dilúvio — regeneração (1 Pe 3.21). A arca — tipo de Cristo. O corvo — a velha natureza. 55


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A pomba — a nova natureza. A destruição de Sodoma — Juízo final. O carneiro (22) — Cristo, nosso Substituto. Egito — tipo do “mundo”. Todos esses são mananciais profundos de verdade, a qual, quando trazida à superfície, é tanto clara e vívida quanto profunda e oculta. Recomendamos uma consideração cuidadosa deles. Enquanto isso, vamos examinar apenas dois deles rapidamente, como exemplos.

MODELOS DE TIPOS EM GÊNESIS

I. Os sobreviventes do dilúvio — um tipo da igreja Noé e os que foram salvos com ele na arca são tipos extraordinários dos cristãos e da Igreja como um todo, de sete maneiras notáveis (veja Gn 6-9).

1. Escolhidos Fizeram parte de uma aliança (6.18). Esta aliança, em que foram escolhidos para serem salvos, foi feita 120 anos antes do dilúvio, segundo indicações contidas em 6.3 e 6.8. Do mesmo modo, os cristãos são um povo escolhido. “Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação” (2Ts 2.13). “Em Cristo... nos escolheu antes da fundação do mundo” (Ef 1.4).2

2. Chamados A entrada na arca foi uma resposta ao chamado divino. “Disse o Senhor a Noé: Entra na arca, tu e toda a tua casa” (Gn 7.1). Assim também, o verdadeiro povo de Cristo, além de ter sido escolhido eternam ente nEle, entra em união vital com Cristo mediante um chamado divino. Lemos então em Romanos 8.30: “E aos que predestinou (Deus), a esses também chamou”. E em 1 Coríntios 1.9 lemos: “Fiel é Deus, pelo 56


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qual fostes chamados à comunhão de seu Filho...”.

3. Crentes Noé construiu a arca e entrou nela com sua família, porque cria em Deus (7.4 e 7.7). Veja também Hebreus 11.7: “Pela fé Noé... aparelhou uma arca”. Assim, o povo de Cristo é constituído exclusivamente de crentes. Veja Hebreus 10.39: “... somos, entretanto, da fé, para a conservação da alma” (e muitas outras passagens). Note: a fé que Noé possuía o tornou obediente (Gn 6.22; 7.5). É isso que acontece com o cristão (1 Pe 1.22; Rm 16.26 etc.). Essa fé também lhe imputou justiça (Hb 11.7 e Gn 7.1). O mesmo se dá com a fé do cristão (Rm 5.1; 10.4).

4. Separados A arca que efetuou a salvação também envolveu separação. Noé já estava separado de sua geração perversa, no espírito e estilo de vida. Sua entrada na arca foi o apogeu visível daquela geração. Os cristãos são igualmente um povo separado. “Eles não são do mundo” (Jo 17.16); “povo de propriedade exclusiva de Deus” (1 Pe 2.9); e, dessa maneira, somos exortados a tornar a nossa separação prática e evidente: “... retirai-vos do meio deles, separai-vos, diz o Senhor” (2 Co 6.17).

5. Selados Além de nos ser dito que eles “entraram ” na arca, ficamos também sabendo que “o Senhor fechou a porta após ele” (Gn 7.16). Os ocupantes da arca foram então selados inviolavelmente pelo próprio Deus para o dia da salvação após o dilúvio. Os cristãos são selados do mesmo modo. “Tendo nele (o evangelho) também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa” (Ef 1.13). “... no qual fostes selados para o dia da redenção” (Ef 4.30). “Mas aquele que nos confirma convosco em Cristo, e nos ungiu, é Deus, que também nos selou e nos deu o penhor do Espírito em nossos corações” (2 Co 1.21,

22) . 57


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6. Levantados Quanto mais crescia o dilúvio, tanto mais a arca se erguia sobre as águas. Enquanto o mundo pecador se achava sob o dilúvio de juízo e morte, os que se encontravam na arca eram levantados acima dele e estavam a salvo (Gn 7.17-19)! Em um figura notável, a arca significou então vida a partir da morte. Isto tem o seu equivalente na experiência do cristão. “(A arca)... figurando o batismo, agora também vos salva...por meio da ressurreição de Jesus Cristo” (1 Pe 3.21). “... ressuscitados juntamente com Cristo” (Cl 3.1).

7. Recompensados Eles não só sobreviveram ao dilúvio, mas também se tornaram donos de um novo mundo (Gn 8.15-19). O mesmo acontecerá aos remidos em Cristo. “Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça” (2 Pe 3.13). Veja também Apocalipse 21.1-4. Note os fatos importantes sobre a ocupação do novo mundo por Noé: (1) comunhão fragrante (8.2); (2) a “maldição” cessou (8.21); (3) uma aliança perpétua (9.12 etc.). O mesmo ocorrerá nos “novos céus e nova terra” que os cristãos aguardam (Ap 7.15-17; 22.3-5 com 4.3).

II. José — um tipo de Cristo Jamais foi escrita uma história tão intrigante quanto a de José. O que a torna ainda mais maravilhosa é o fato de ser verdadeira. A sugestão de que se tratava de uma fantasia mitológica pós-mosaica foi agora atirada ao depósito de teorias m odernistas desacreditadas, pelas pás dos arqueólogos. A história é verídica, e ninguém pode lê-la seriamente sem exclamar: “A verdade é mais estranha que a ficção!” Afirma-se com razão que, embora não se encontre nenhuma nota específica de que José era um tipo de Cristo, “as analogias são numerosas demais para serem puro acaso”. A vida de José desenrola-se em três períodos. Nós o vemos primeiro como o filho amado, preferido pelo pai; a seguir, como o servo sofredor, 58


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rejeitado pelos irmãos; e, finalmente, como o salvador exaltado, superior a todos em esplendor principesco e autoridade administrativa. Assim, de maneira tripla, José se torna o mais completo tipo de Cristo em toda a Bíblia.

1. O Filho Am ado 1.1. Preeminente no amor do pai. Veja 37.3. “Ora Israel amava mais a José que a todos seus filhos”. Cristo também é o Filho amado em quem o Pai divino se compraz de maneira especial. Veja Mt 3.17; Cl 1.13. 1.2. Preeminente em honra filial. Veja 37.3. A túnica de distinção e herança era a confirmação exterior da consideração do pai. Veja Jo 5.37 (que provavelmente se refere à voz e à pomba no batismo); Jo 5.36; 3.35. 1.3. Preeminente nos propósitos divinos. Isto fica claro nos sonhos proféticos de José, como o próprio Jacó percebeu (37.5-11). É assim com Cristo, também. NEle, Deus “fez o universo” (Hb 1.2). Também Ef 1.9-10. 1.4. Preeminente como mensageiro do pai. Veja 37.13-14. “Enviar-te-ei a eles...” Cristo é também o Mensageiro preeminente do Pai. Veja Is 42.1; Lc 4.18 (“enviou-me”); Hb 1.1-2.2

2. O Servo Rejeitado 2.1. Odiado. José foi odiado pelos seus irmãos. Isto também se aplica a Cristo. Quase as mesmas palavras foram empregadas com relação a ambos. Compare 37.4 com Jo 15.24; 37.8 com Lc 19.14; 37.18 com Mt 26.3, 4; 37.19, 20 com Mt 21.38; 37.11 com Mt 27.18. 2.2. Vendido. José foi vendido pelos seus irmãos por vinte peças de prata (37.27, 28) aos gentios. Cristo foi vendido por trinta peças de prata (Mt 27.9) e entregue aos gentios. José foi despido de sua “túnica” (veja Mt 27.28). 2.3. Sofrimento. Como José deve ter sofrido! Compare 37.23, 24 com 42.21. Veja José no mercado de escravos, a seguir sob tentação (39.7-12), em novas adversidades (39.20). Tudo isto tem o seu equivalente no gracioso antítipo. 2.4. Morto (empropósito e figura). Cerca de vinte anos se passaram entre a venda de José e o reencontro. Ele foi considerado morto (27.31-34; 42.13, 59


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38; 44.20). Cristo também sofreu verdadeiramente a morte por nossa causa.

3. O Salvador Exaltado 3.1. Exaltado como sabedoria epoder de Deus para a salvação. Veja 41.38, 39, e o novo nome de José (41.45). Torna-se o maior fornecedor de alimentos do mundo (41.57). Administrador de negócios (41.40 com 47.14-26). Cristo, igualmente (1 Co 1.24; At 5.31; Jo 6.51; 5.22). 3.2. Exaltado à destra do trono. Veja 41.39-44. Cristo é igualmente exaltado à direita da Majestade nas alturas (Ef 1.20, 21; Hb 1.3). Uma esposa gentia é dada a José (41.45). Também a noiva de Cristo, a igreja, durante esta era (Rm 11.25; Ef 3.6). 3. Exaltado entre seus irmãos. Veja 42.6; 43.26. Revela-se aos irmãos arrependidos depois de eles compreenderem seu pecado (45). Torna-se um socorro especial de Israel (47.11, 12). Consuma o maravilhoso plano divino (45.5-9). Torna-se (virtualmente) ressuscitado (45.28). Tudo isto tem seu paralelo no Antítipo (Ap 1.7; Jr 23.5-6; Ef 1.9-10; Ap 1.18). 4. Exaltado em preeminência perpétua. Veja 49.26. Ele foi “separado dos irmãos” no caráter, como mostram os registros. A Escritura não faz qualquer acusação contra José, embora Gênesis dê mais espaço a ele do que a qualquer outro. Sua exaltação foi tanto uma justificação como uma recompensa. Isso se dá também com Cristo. “A si mesmo se humilhou... Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira etc." (Fp 2.5-11).

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O LIVRO DE GÊNESIS (4)

Lição NQ4


NOTA: Para este quarto estudo em Gênesis releia do capítulo 12 ao 50. Faça anotações sobre quaisquer detalhes interessantes ou idéias especiais com relação aos quatro personagens principais: Abraão, Isaque, Jacó e José. “O método científico pode ser aplicado às Escrituras. Em primeiro lugar, procuramos os fatos e verdades dispersos, e depois os reunimos e ordenamos. Os elementos semelhantes são colocados juntos sob uma designação comum, processo este baseado em identidades de natureza e forma, atributos e características, estrutura e relações, com o propósito de descobrir qual a lei geral que abrange tudo e fornece uma ampla base para inferência e dedução. Este método, conhecido como sistema de filosofia indutiva de Bacon, que revolucionou o estudo científico, é o verdadeiro princípio da pesquisa bíblica.” Arthur T. Pierson, D. D.


O LIVRO DE GÊNESIS (4)

CHEGAMOS AQUI ao nosso quarto e último estudo no Livro de Gênesis. A inda não dem os consideração especial aos quatro personagens principais — Abraão, Isaque, Jacó e José, ao redor dos quais gira toda a narrativa na segunda parte do livro (12-50). Neste estudo, no entanto, eles são analisados, embora como parte de um tema mais abrangente. Damos aqui um exemplo final do ensino da tipologia em Gênesis e a seguir fazemos sugestões sobre a continuação do estudo do livro.

OS SETE GIGANTES D E GÊNESIS As principais personalidades apresentadas sucessivamente no Livro de Gênesis têm um significado tipológico. Isto transparece perfeitamente nas referências do Novo Testamento, por exemplo quando Paulo fala de Ismael e Isaque como representantes das duas alianças (G1 4.22-27), ilustrando ao mesmo tempo as duas naturezas — aquela “segundo a carne” e aquela “segundo o Espírito” (G1 4.29). O rei e sacerdote Melquisedeque é outro exemplo (Hb 7); e o primeiro homem, Adão, é declarado como alguém que “prefigurava (tipificava) aquele que havia de vir” (Rm 5.14). Ao observarmos então as principais imagens em Gênesis, concluímos que algumas não são apenas tipos de pessoas (como, por exemplo, Isaque e José são tipos de Cristo), mas quando vistas coletivamente simbolizam estágios progressivos da experiência espiritual. É desnecessário dizer que o primeiro homem, Adão, além de ser um tipo de Cristo (em seus relacionamentos), é (em sua condição decaída) um tipo do homem natural ou da natureza humana não regenerada. O Novo Testamento se refere a ele repetidamente dessa forma (Rm 6.6; Ef 4.22; Cl 3.9). Um dos propósitos principais de Gênesis parece ser o de mostrar-nos tudo o que procede do primeiro Adão — tudo o que pode vir dele, tanto bem como mal, seja pela natureza ou pela influência da graça divina. Isto corresponde à obra do Espírito de Deus em nossos corações. O Espírito Santo mostra-nos primeiro o que somos em Adão — o que somos em nós mesmos, por natureza, com vistas a criar um sentimento de 63


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necessidade, para que da mesma forma como o filho pródigo “caiu em si” e aproximou-se então do pai, nós também possamos conhecer a nós mesmos e buscar a Deus. Em Gênesis, portanto, vemos primeiramente o que existe em Adão e aquilo que natural e normalmente procede dele. Se quisermos tomar conhecimento da tremenda capacidade para o mal que reside na natureza humana adâmica, basta pesquisar a linhagem de Caim em seus registros de cultura ímpia, materialismo, vaidade, violência e rebelião contra Deus. Se nosso desejo for saber o que o mesmo material humano pode gerar sob o poder renovador e transformador da graça divina, devemos analisar a linhagem dos homens de fé. E ncontram os em G ênesis sete hom ens que se destacam com proeminência indiscutível: Abel, Enoque, Noé, Abraão, Isaque, Jacó e José. A importância dos sete é indicada pelo fato de o escritor da epístola aos Hebreus, sob a orientação inspirada do Espírito, escolhê-los entre todos os demais para a inclusão naquela lista clássica dos heróis do Antigo Testamento, em Hebreus 11. Notemos as características marcantes desses homens.

Abel Qual o traço característico de Abel? Seu nome, sua ocupação, seu sacrifício e os comentários ponderados do Novo Testamento sobre ele o distinguem como um homem de inclinação espiritual. Caim, o materialista, foi o primogênito. Abel, o espiritual, veio depois. A ordem é sempre assim: “Mas não é o primeiro o espiritual, e, sim, o natural; depois o espiritual” (1 Co 15.46). O nome “Caim” significa posse e aponta, como faz a sua própria vida, para as esperanças firmadas nas coisas deste mundo. O nome “Abel” tem o sentido de exalação (ou vapor), indicando a ascensão para regiões mais elevadas. Caim era “lavrador” — com interesses e bens terrenos. Abel foi “pastor de ovelhas” — o peregrino que habitava em tendas, desejando algo que ficava mais à frente. Caim “retirou-se da presença do Senhor” e edificou “cidades”, ocupando-se com instrumentos “de bronze e de ferro”. Abel procurou coisas superiores (Hb 11.16), buscando descanso em Deus, sofrendo e m orrendo na esperança de uma “ressurreição melhor”. Caim, ignorando o pecado e a queda, se limita a uma religião de autocultura, 64


O LIVRO DE GÊNESIS (4)

oferecendo o fruto do que está sob maldição. Abel, cuja aspiração é espiritual, oferece um sacrifício que é tanto uma confissão de pecado como expressão de um desejo forte de comunhão com Deus apoiado no alicerce do perdão, através do sacrifício e da fé. Abel é o homem de inclinação espiritual.

Enoque A seguir vem Enoque. Qual a característica especial dele? Enoque é im ortalizado como o homem que “andou com D eus”. Mas qual o significado profundo de seu andar com Deus, no que se refere ao próprio indivíduo? Por que Enoque andou com Deus? Não havia coação a esse respeito. Não havia necessidade de ele andar com Deus, quer desejasse isso ou não. A verdade é que por trás do andar estava a vontade. Havia uma fusão entre a vontade de Deus e a de Enoque. Foi isto que tornou o andar possível. “Andarão dois juntos, se não houver entre eles acordo?” (Am 3.3) Enoque deixou de lado toda discussão com a vontade de Deus e deu preferência a esta em lugar da sua. Mas, se por trás do andar estava a vontade, por trás da vontade atuava aquela estranha e vital capacidade da natureza humana chamada escolha. Embora seja certo que Deus e Enoque andavam juntos em belíssima comunhão, a verdade básica não é que Deus andava com Enoque, e sim (como de fato lemos em Gênesis) que “Enoque andou com Deus”. Não foi Deus que seguiu pelo caminho de Enoque, mas o contrário. Subjacente a este andar com Deus estava a escolha plena e final por parte de Enoque em aceitar a vontade e o caminho de Deus. Seu nome significa dedicado. Enoque é o homem que escolhe o caminho de D eus— o homem da escolha espiritual.

Noé Tratemos agora de Noé. Como personagem tipológico entre os sete homens notáveis de Gênesis, é indiscutível o significado especial de Noé. Aprendemos no Novo Testamento que a experiência de salvação de Noé “através da á g u a ” é um a antecipação tipológica da regeneração, simbolizada pelo batismo cristão (1 Pe 3.21). 65


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Acerca de Noé, como também de Enoque, está escrito que ele “andou com Deus”; mas a ênfase no tipo avança mais um estágio no caso de Noé, de modo que, em conseqüência da escolha espiritual indicada nas palavras “Noé andou com D eus”, vemos a renovação espiritual, ilustrada na passagem de Noé pelas águas do dilúvio. Em primeiro lugar, no capítulo 6, vemos Noé, o homem da escolha espiritual, ainda na terra do velho mundo. A seguir, no capítulo 7, nós o vemos separado do mundo antigo, na arca (Cristo), e pela água (regeneração). Nos capítulos 8 e 9, então, observamos a sua entrada numa nova vida, num novo mundo — que fala da novidade de vida pela regeneração. Em Nóe, temos assim tipicamente a renovação espiritual. Abraão, Isaque, Jacó e José Chegamos agora aos patriarcas pós-diluvianos e, para economizar espaço, os agrupamos, apesar de termos muito a dizer sobre eles separadamente. Seguindo a tipologia da regeneração em Noé, esses quatro personagens evidenciam, de modo especial, as qualidades e características da vida regenerada. Eles nos mostram as formas de vida após a regeneração. Em ABRAÃO vemos a vida de fé. Ele se destaca como o exemplar supremo da vida de fé. É o homem fiel que avança, confiante na orientação divina, crendo nas promessas divinas, recebendo as confirmações divinas, herdando a bênção divina, submetendo-se a grandes provações e, apesar de falhas ocasionais, sendo “justificado” pela fé e chamado “amigo de Deus”. Em ISAQUE vemos a vida de filiação. O registro de Gênesis enfatiza com clareza a filiação singular de Isaque. Ele é o filho da promessa especial, do nascimento especial, de valor especial, o filho único de sua mãe e o único herdeiro de seu pai, o filho festejado ao desmamar, através de quem as promessas serão cumpridas e para quem uma esposa especial deve ser escolhida. Em Isaque, então, habitando na terra da herança, aguardando junto aos poços de água, com muito regozijo e poucos conflitos, vemos os privilégios e alegrias típicas da filiação. JACÓ nos apresenta a vida de serviço. Jacó é aquela vida que (como no seu nascimento) “segura com a mão”. Jacó é o obreiro completo, sempre com as mãos ocupadas. O seu serviço é incansável. Comete erros de 66


O LIVRO DE GÊNESIS (4)

método e atuação, todavia há bênção, pois no coração a motivação é boa. O obreiro ocupado gostaria mesmo de realizar os propósitos divinos mais depressa, até que Deus toca a coxa do servo e o ensina a ser também um príncipe na oração. Jacó, porém, é espiritual em seu íntimo, como mostram todas as suas palavras. Esaú vende o seu direito de primogenitura por comida. Jacó dispensa a comida pelo direito de primogenitura, a fim de obter de algum modo a herança. Jacó oferece então um exemplo de atividade zelosa, trabalho, serviço. Em JOSÉ finalmente é estabelecido o tipo mais excelente e superior da vida regenerada. Os esboços biográficos na Bíblia são sempre imparciais e fiéis aos fatos; embora mais espaço seja dedicado a José do que a qualquer outro assunto em Gênesis, não se encontra, em todo o registro, qualquer palavra de censura divina a José. Vemos nele a vida de sofrimento e glória. Fé, filiação e serviço são aqui combinados em algo mais profundo e grandioso, resultando em domínio completo sobre o mundo e a carne. O Egito (tipo do mundo e da vida controlada pelos sentidos), que fora uma armadilha para Abraão e Isaque, é completamente dominado. Esta é a “comunhão de seus sofrimentos (de Cristo) e o poder da sua ressurreição”. Este é o caráter do indivíduo regenerado que se torna “perfeito através dos sofrimentos”. Eis aqui o sofrer e reinar com Cristo, e ser “glorificado como Ele”! Portanto, as características especiais manifestadas pelos sete homens notáveis de Gênesis são estas: Abel — inclinação espiritual Enoque — escolha espiritual Noé — renovação espiritual Abraão — vida de fé Isaque — vida de filiação Jacó — vida de serviço José — vida de sofrimento e glória Não é claro e belo o ensino tipológico aqui? Note a ordem progressiva. Primeiro vem a inclinação espiritual, a seguir a escolha espiritual, depois a renovação espiritual. Depois disso observamos a vida sob um novo princípio — o da fé. A fé traz o sentido de filiação, do qual procede o serviço. Finalmente, encontramos as profundezas maiores e níveis mais altos de comunhão com a vida de Deus, em sofrimento e glória. Esta é, 67


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obviamente, a ordem verdadeira e não deve ser alterada. O ensino sobre tipos aqui é verdadeiramente fascinante. Se estudamos esses sete personagens sob esta luz, eles se tornam ricos em sugestões que enchem nossas mentes com as grandes verdades que simbolizam. Esta é a excelência da tipologia. Verdades de que só teríamos um conhecimento muito limitado se nos fossem comunicadas mediante linguagem didática simples, mas que passam a ter vida e a crescer diante de nós quando as vemos no cenário pitoresco e vivo da tipologia e simbolismo. Por exemplo, se apenas nos dissessem que é preciso haver inclinação, escolha e renovação espirituais, seguidos de fé, filiação, serviço, sofrimento e glória, como seria restrito o nosso conceito dessas coisas! Mas quando as vemos ilustradas e exemplificadas nos atributos vivos e fascinantes desses sete homens, nossa compreensão das verdades assim caracterizadas aumenta consideravelmente. É óbvio que é preciso entender que nossa análise desses sete homens é tipológica e não biográfica. Apesar de Noé simbolizar aqui, de maneira singular, a renovação espiritual, isto não significa que Abel e Enoque, que viveram antes dele, não fossem homens espiritualmente renovados! Como Abraão ilustra aqui, de maneira singular, a vida de fé, isto não implica que os três antes dele e os três posteriores a ele não fossem homens de fé! Todos eles eram homens espiritualmente renovados, homens de fé. Cada um dos sete, considerado individualmente, mostra sua experiência de toda a verdade em sete aspectos, estabelecida pelos sete coletivamente. Todavia, cada um dos sete é marcado por uma característica destacada, que o reveste com um significado tipológico especial e lhe dá um tipo completo composto pela combinação dos sete. Por último, oremos para que possamos ser homens e mulheres de in clin ação , esco lh a e ren o v a ç ã o e sp iritu a is, a n d a n d o p e la fé, compreendendo nossa filiação celestial, servindo o Senhor com um sentido de devoção filial, conhecendo “a comunhão do seu sofrimento”, e nos rejubilando sempre na perspectiva da glória futura! SUGESTÕES FINAIS O Livro de Gênesis também deve ser estudado biograficamente. Ele é rico em personagens humanos. Estude, por exemplo, os sete gigantes mencionados, notando o aspecto dominante ou o momento decisivo na história de cada um — Abel, o adorador; Enoque, o que andou; Noé, o 68


O LIVRO DE GÊNESIS (4)

obreiro; Abraão, o peregrino; Isaque, o vigia; Jacó, o lutador; José, aquele que aguardou. Que grande estudo nos proporcionam Esaú, Ló e Caim! — ilustrando, respectivamente, “a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (1 Jo 2.16). Vale a pena, ainda, examinar Ninrode, Sara, Labão e Judá, entre outros. Deve-se dar atenção especial à parte espiritual em Gênesis. Nenhum livro do Antigo Testamento contém maiores valores espirituais. Trata-se de um estudo compensador que pode valer nossa vida inteira! Seus ensinos espirituais enquadram -se em duas categorias — (1) verdades que esclarecem a mente; (2) lições que orientam a vida. Quanto à primeira, podemos mencionar a presença e os propósitos graciosos de Deus na história humana, a presença e os propósitos malignos do diabo em pessoa, a origem e progresso do pecado na raça humana; a depravação da natureza humana decaída; a previsão e provisão divinas; o ministério dos anjos; a soberania e condescendência divinas. Estas são apenas algumas das inúmeras e extraordinárias verdades. Quanto às lições que existem em grande variedade — para citar somente um dentre os diversos exemplos positivos — quantas lições espirituais elucidativas encontramos nos registros relativos ao surgimento e progresso da fé na alma de Abraão! Veja, por exemplo, os primeiros registros referentes a ele — capítulo 12.4 a 13.4: (1) a resposta da fé (12.4-9); o recuo na fé (12.10-20); a volta à fé (13.1-4). As lições associadas a estas primeiras experiências do crente peregrino são indescritivelmente importantes. Gênesis também deve ser estudado profeticamente. Toda revelação e história subseqüente são, na verdade, o desenrolar das profecias presentes neste primeiro livro da Escritura. Nele se encontram grandes profecias relativas a Cristo (3.14,15), à Terra (3.17, 18; 8.21, 22), à raça (9.25-27), a Israel (13.14-17; 22.15-18), a outras nações e tribos (17.19, 20; 25.23; 43.17-20; 49.1-28). Se considerarm os os m uitos e m aravilhosos cumprimentos, essas profecias constituem evidência irrespondível da origem sobrenatural das Escrituras. Gênesis deve ser estudado segundo as dispensações. Em seus tratos com a humanidade, Deus se propôs a empregar diferentes métodos adequados a épocas diversas. Esses períodos são convenientemente chamados “dispensações”. Uma dispensação foi definida como “período de tempo durante o qual o homem é testado com respeito à obediência a alguma revelação específica da vontade de Deus”. Sete delas são salientadas nas 69


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Escrituras, e quatro se acham em Gênesis. Elas foram perfeitamente expressas como: (1) o período da inocência, em que Deus experimentou o homem; (2) o da consciência, em que Deus suportou o homem; (3) o do governo humano, em que Deus reprimiu o homem; (4) o da promessa, em que Deus agiu a favor do homem. Existem outras maneiras de estudar Gênesis, tais como geográfica, crítica e textual; mas as citadas acima nos suprem com sugestões suficientes para ocupar-nos proveitosamente por muito tempo. FAÇA UM A PAUSA AQUI! E TESTE O SEU APROVEITAM ENTO 1. Quais os principais grupos de livros no Antigo Testamento? (Dê o número e a natureza de cada um.) 2. Quais os principais grupos de livros no Novo Testamento? (Dê o número e a natureza de cada um.) 3. Quais as verdades progressivas que se estendem através do Pentateuco? 4. Quais as semelhanças e contrastes entre Gênesis e Apocalipse? 5. Qual a estrutura de Gênesis e como ela sugere a lição principal do livro? 6. Qual a nossa autoridade para confirmar a presença de tipos no Antigo Testamento? O que é um tipo? Defina e classifique. 7. Quais as bases para se dizer que os seis dias de Gênesis descrevem a reconstrução da terra e não a sua criação original? 8. Quais os principais resultados da queda? 9. Os “filhos de Deus” em Gênesis 6 eram anjos decaídos? Caso negativo, dê a razão. 10. Quais as sugestões que existem no sentido de o dilúvio de Noé não ter sido universal? 11. Qual a provável data da crise de Babel? Quais seus principais significados? 12. Quem foram os sete notáveis “homens de fé” em Gênesis? O que que eles tipificam progressivamente?

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O LIVRO DE ÊXODO (1)

Lição N2 5


NOTA: Leia para este estudo o livro de Êxodo inteiro, uma ou duas vezes, e depois os dezoito primeiros capítulos.

O LIVRO DE ÊXODO O PODER, SANTIDADE E SABEDORIA DIVINOS

I. O ÊXODO (1-18) PLANEJADO — 1-4 OBSTRUÍDO — 5-11 EFETUADO — 12-18 II. A LEI (19-24) “MANDAMENTOS” (Moral) “JUÍZOS” (Social) “ORDENANÇAS” (Religiosa) III. O TABERNÁCULO (25-40) PROJETADO — 25-31 ADIADO — 32-34 COMPLETADO — 35-40


O LIVRO DE ÊXODO (1)

VAMOS ESTUDAR agora o segundo livro da Bíblia, Êxodo. Temos boa razão para iniciar esse estudo com entusiasmo, pois nunca houve um registro mais supreendente ou vital. Aqui vemos a saída de Israel do Egito — de repente, todo um povo livra-se para sempre das cadeias da servidão prolongada por gerações, e parte para um novo país e uma nova vida comunitária. Aqui vemos a entrega da lei e o pronunciamento da aliança mosaica. Aqui aprendemos sobre a edificação da maravilhosa estrutura simbólica do tabernáculo. Aqui Moisés cresce diante de nós e parte para a sua gigantesca tarefa. Aqui aprendemos a respeito da transição dos israelitas, passando de simples tribos irmãs para uma só nação, divinamente adotada, constituída e condicionada como tal no Sinai. Existe, em toda a história, um espetáculo mais esplêndido do que o êxodo? — uma revelação de Deus mais augusta e solene do que a do Sinai? — uma obra arquitetônica mais significativa do que o tabernáculo israelita? — uma figura humana mais majestosa que Moisés? — uma época nacional mais influente do que a fundação da teocracia de Israel? Tudo isso é encontrado neste segundo livro da Escritura. Trata-se da fons et origo — a própria fonte e origem da vida, lei e religião organizada da nação de Israel. O título “Êxodo”, que significa “saída”, comunica corretamente o tema principal do livro; mas dois outros assuntos acham-se associados com o êxodo, resultando diretam ente dele e complementado-o: a lei e o tabernáculo. Assim, o livro divide-se naturalmente em:

1. O ÊXODO — 1-18 2. A LEI — 19-24 3. O TABERNÁCULO — 25-40 Cada uma das três divisões principais do livro se subdividem em três partes secundárias (veja o diagrama na página anterior).

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Poder, Santidade e Sabedoria Divinos Este plano tríplice sugere imediatamente a importância fundamental do livro. Observe, em primeiro lugar, o ensino acerca de DEUS. No êxodo (1-18), vemos o poder de Deus. Na lei (19-24), vemos asantidade de Deus. No tabernáculo (25-40), vemos a sabedoria de Deus. Já aprendemos que a mensagem suprema de Gênesis é a soberania divina. E muito adequado que, agora, então, o Livro de Êxodo nos apresente o poder, santidade e sabedoria divinos em grande destaque!

Vida, Lei eA m or Note também o que é ensinado aqui sobre ISRAEL. No êxodo, Israel é introduzido em uma nova condição — a liberdade. Na lei, Israel é levado a uma nova constituição — a teocracia. No tabernáculo, Israel adota um novo conceito — de adoração e de Deus. Mediante o êxodo eles são impelidos a uma nova liberdade. Pela lei são submetidos a um novo governo. A través do tabernáculo são introduzidos em um a nova comunhão. Essas coisas falam ao povo de Deus, em todos os tempos, dos princípios básicos subjacentes aos tratos divinos conosco. Aqui, no êxodo, na lei e no tabernáculo, encontramos redenção, reconstrução, reconciliação. Aqui estão vida, lei e amor. O êxodo leva a uma vida nova e mais plena. O Sinai condiciona a nova vida à única lei perfeita. O tabernáculo leva ao amor sublime, a base de ambas as vidas.

Liberdade, Responsabilidade, Privilégio O problema fundamental de que as várias filosofias de vida procuram tratar é o da liberdade, responsabilidade e privilégio humanos. Liberdade sem lei é abuso. Responsabilidade sem liberdade é escravidão. Liberdade e responsabilidade juntas, sem privilégio — sem recompensas e castigos — perdem sua motivação e seu sentido. No êxodo, na lei e no tabernáculo, vemos essas três coisas — no êxodo, liberdade; na lei, responsabilidade-, no T abernáculo, privilégio. Assim sendo, nessas três partes deste livro—histórica, legislativa e 74


O LIVRO DE ÊXODO (1)

eclesiástica — encontramos um ensino magnífico. Examinemos agora a primeira parte. Ela começa assim:

I. O ÊX O D O (1-18) PLANEJADO — ATRAVÉS DE MOISÉS (1-4) A necessidade (a) Expansão de Israel no Egito (1.1-12) (b) Opressão de Israel pelos egípcios (1.13-22) A preparação (a) Moisés no Egito (2.1-15) (b) Moisés em Midiã (2.16-25) A aplicação (a) A nova mensagem de Deus (3.1-4.17) (b) A nova missão de Moisés (4.18-31) OBSTRUÍDO — PELO FARAÓ (5-11) Os oito pedidos 5.1-3; 7.10; 7.15-18; 8.1-4; 8.20-23; 9.1-4; 9.13-19; 10.1-6. As oito recusas 5.2; 7.13; 7.22-23; 8.15,19; 8.32; 9.7,12; 9.34-35; 10. 11, 20, 27. Os dez castigos 7.20; 8.6; 8.16; 8.24; 9.3; 9.10; 9.22; 10.12; 10.21; 11.5. EFETUA DO — POR DEUS (12-18) De Gósen para o Mar Vermelho — (a) A Páscoa e os memoriais (12.1-13.16) (b) A Saída de Israel (13.17-22) Através do Mar Vermelho — (a) Perseguição de Israel pelos egípcios (14.1-12) (b) Israel é salvo: os perseguidores morrem (14.13-31) Do Mar Vermelho ao Sinai — (a) Um mês: até o deserto (15.1-16.1) (b) Duas semanas: até o Sinai (16.1-18.27)

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Nesses três movimentos, são respectivamente enfatizados os três grandes atores neste drama da história antiga — ISRAEL, EGITO E DEUS. O ÊXODO E ISRAEL Pense no que o êxodo significou para Israel. São quatro significados básicos. Primeiro, marcou o início de uma nova VIDA. Lemos em 12.2: “Este mês (Nisã) vos será o principal dos meses: será o primeiro mês do ano”. Abril se torna janeiro. A nova vida é marcada pelo começo de um novo calendário. Eles darão início a uma nova contagem, a partir deste evento que marca seu nascimento como nação. Segundo, o êxodo significou o começo de uma nova LIBERDADE. Quando o grande exército saiu do Egito, Moisés dirigiu-se a eles com estas palavras: “Lembrai-vos deste mesmo dia, em que saístes do Egito, da casa da servidão; pois com mão forte o Senhor vos tirou de lá” (13.3). Esse term o sombrio, “servidão”, ficaria ligado ao Egito para sempre na memória de Israel. O Egito representava distintamente “a casa da servidão”. Mas no êxodo, Israel partiu para a liberdade. Terceiro, o êxodo significou o início de uma nova COMUNHÃO. Isto foi simbolizado na “festa” instituída para a Páscoa. “Este dia vos será por memorial, e o celebrareis como solenidade ao Senhor: nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo” (12.14). No Antigo Testamento a festa é sempre símbolo da comunhão (veja 24.2). Quarto, o êxodo marcou o início de uma nova SEGURANÇA. Quando Deus anunciou o seu propósito de pôr em prática o êxodo, Ele Se dirigiu ao povo através de Moisés, dizendo: “Tomar-vos-ei por meu povo, e serei vosso Deus; e sabereis que eu sou o Senhor vosso Deus, que vos tiro de debaixo das cargas do Egito. Evos levarei à terra, acerca da qual jurei dar a Abraão, a Isaque e a Jacó; e vo-la darei como possessão: Eu sou o Senhor” (6.7, 8). Tudo isto tem a sua analogia no evangelho de Cristo. Lucas nos diz que Moisés e Elias, ao aparecerem com Cristo no Monte da Transfiguração, “falavam da sua partida (literalmente, ‘seu êxodo’), que ele estava para cumprir em Jerusalém” (Lc 9.31). Cristo é o líder de um êxodo muito maior do que aquele dirigido por Moisés. O êxodo de Moisés é de fato um tipo daquele realizado por Cristo a nosso favor, como vemos em 1 Coríntios 5.7-8: “Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado”. Assim como o êxodo de Moisés significava uma nova vida, uma nova liberdade e 76


O LIVRO DE ÊXODO (1)

comunhão, e uma nova segurança para Israel, o evangelho de Cristo representa tudo isto para o cristão. O ÊXODO E O EGITO Pense no significado do êxodo em relação ao Egito. Ele simbolizou especialmente três coisas. Antes de mais nada, foi a primeira grande demonstração da falsidade da idolatria. A medida que o tempo passava, a grande e primeira auto-revelação de Deus e de Sua verdade aos primeiros pais da raça, era cada vez mais obscurecida ou desfigurada pela mente e vontade corruptas do homem decaído. Sistemas de idolatria foram estabelecidos (Js 24.2, 14, 15), e o homem criou toda espécie de deuses para si. Na época do êxodo, o Egito talvez fosse o maior reino da terra. Seus deuses eram, portanto, considerados poderosos. Quando Deus chamasse o povo de Israel para sua nova vida e sua missão nacional de restaurar o conhecimento do Deus verdadeiro e único, Ele iria, ao mesmo tempo, expor a falsidade de todas as divindades inventadas pelo homem. Por isso, diz: “... executarei juízo sobre todos os deuses do Egito: Eu sou o Senhor” (12.12; veja também Nm 33.4). Esta destruição dos deuses egípcios não só fez com que até os magos do Egito confessassem: “Isto é o dedo de Deus” (/. e.,do Deus verdadeiro; 8.19), mas, por ser tão evidente, tornou-se também uma lição para todos os povos da época (15.14-15; 18.11; e veja Js 9.9). Ela impressionou também a mente dos israelitas, e nós os ouvimos cantar do outro lado do Mar Vermelho: “Ó Senhor, quem é como tu entre os deuses?” (15.11). Segunda, a derrota do Egito demonstra a inutilidade, o pecado e a loucura de tentar resistir ao Senhor Deus de Israel, o único Deus verdadeiro. No início da disputa, Faraó perguntou com desprezo: “Quem é o Senhor para que lhe ouça eu a voz?” (5.2). A intenção do êxodo era responder a essa pergunta de maneira a tornar-se uma lição para todos os homens de todos os tempos. De fato, Deus anunciou a Faraó, através de Moisés: “... mas deveras para isso te hei mantido, a fim de mostrar-te o meu poder, e para que seja o meu nome anunciado em toda a terra” (9.16). Terceira, deve ser lembrado que todas as principais características do êxodo possuem uma importância tipológica e que, de acordo com isto, o Egito, o cenário do êxodo, é um tipo do “mundo”, no sentido de corrupção moral. O Egito é um tipo do mundo (1) em sua riqueza material e poder (Hb 11.26); (2) em sua sabedoria carnal e falsa religião (Ex 8.7 etc.; 1 Rs 77


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4.30); (3) em seu príncipe despótico, Faraó, que é um tipo de Satanás; (4) em sua organização sob os princípios de força, exaltação humana, ambição e prazer; (5) em sua perseguição ao povo de Deus (Dt 4.20); (6) em sua destruição pelo juízo divino (12.29; 15.4-7). Nas pragas, na morte dos primogênitos e no afogamento do exército egípcio, vemos a tribulação final, o juízo e a destruição do sistema mundial em que vivemos. O ÊXODO E DEUS O êxodo foi uma expressão suprema do poder divino. Daí o seu forte impacto sobre a mente dos hebreus. Para Israel, o êxodo tornou-se, para sempre, o padrão de medida do poder de Deus na salvação de Seu povo. O evento é mencionado repetidamente no Antigo Testamento. Miquéias 7.15 é um exemplo: “Eu lhe mostrarei maravilhas, como nos dias da tua saída da terra do Egito”. Note a palavra “como”, indicando o padrão de medida. Não é surpreendente que o Êxodo se tenha tornado o padrão de medida do Antigo Testamento se considerarmos a complexidade dessa maravilha. Ele foi (1) uma maravilha de juízo — nas pragas milagrosas, na morte dos primogênitos e na derrota do exército egípcio no mar; (2) uma maravilha de graça — ao serem poupadas as casas que receberam a marca de sangue e na libertação dos israelitas; (3) uma maravilha de poder — na abertura de um caminho através do M ar Vermelho; (4) uma maravilha de orientação — nas colunas de nuvem e fogo; (5) uma maravilha de provisão — no suprimento milagroso de água e alimento; (6) uma maravilha de fidelidade — no cumprimento divino da aliança abrâmica e da nova aliança com a nação no Sinai; (7) uma maravilha de condescendência — como visto no tabernáculo, mediante o qual o Deus infinito e santo passou a habitar, de maneira especial, entre o Seu povo remido. É interessante notar, no estudo comparativo das Escrituras, a mudança deste padrão para uma nova unidade de medida no Novo Testamento. Ali, o padrão de medida do poder de Deus para livrar o seu povo encontra-se em Efésios 1.18-21: "... para saberdes... qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder; o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado, e potestade, e 78


O LIVRO DE ÊXODO (1)

poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir não só no presente século, mas também no vindouro”. A unidade de medida do Antigo Testamento é superada desse modo pela manifestação maior do poder divino através de Cristo. Ao comparar o novo padrão com o do Antigo Testamento, porém, é instrutivo observar que o modelo neotestam entário repete as sete características milagrosas enfatizadas no êxodo. Da mesma forma que este, ele é (1) uma maravilha de juízo — no tratamento judicial que Deus confere ao pecado humano, no Calvário, e na destruição de Satanás, com os “principados e potestades” do mal; (2) uma maravilha de graça — ao poupar de juízo e castigo o crente selado com o sangue, com base na identificação com a cruz; (3) uma maravilha de poder — ao ressuscitar Cristo dos mortos e na sua exaltação como Príncipe e Salvador, acima de todos os poderes do céu, da terra e do inferno; (4) uma maravilha de orientação — no envio e ministério do Espírito Santo como a nova coluna de nuvem e fogo; (5) uma maravilha de provisão — na bênção do crente com “toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo” e na satisfação de todas as necessidades “segundo a riqueza de Deus, em glória, por C risto Jesus”; (6) um a m aravilha de fidelidade — no desenvolvimento da aliança abrâmica, mediante Cristo, em quem todas as famílias da terra são abençoadas; no cumprimento da aliança mosaica, que o desobediente Israel não honrara; e na revelação da nova aliança, no sangue de Cristo; (7) uma maravilha de condescendência — na habitação do Espírito Santo no coração do crente, transformando a personalidade humana em “templo do Deus vivo”. O ÊXODO E O EVANGELHO Por último — como já foi notado — o êxodo sob Moisés é um tipo ilustrativo daquele êxodo maior em Cristo: tem a função de lembrar-nos isto; é útil, po rtan to , gravar na m ente os pontos sem elhantes e contrastantes.

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Principais Semelhanças 1. O êxodo trouxe um a em ancipação m ajestosa para Israel. O evangelho traz libertação da culpa, do castigo e da servidão do pecado. 2. O êxodo foi centrado na Páscoa e no cordeiro sacrificado. O evangelho é centrado na grande páscoa do Calvário e “no Cordeiro morto desde a fundação do mundo”. 3. O êxodo foi, desde então, comemorado na festa da Páscoa. Assim sendo, “Cristo, nosso C ordeiro pascal, foi imolado. Por isso celebremos a festa” (1 Co 5.7, 8).

Principais Contrastes 1. Nos meios. O sangue protetor, no êxodo, era o de um simples animal. No evangelho, ele é “o sangue precioso de Cristo”. No primeiro caso, muitos cordeiros são sacrificados; no segundo, Um só por todos. 2. Na extensão. O êxodo foi nacional e portanto limitado. O evangelho é universal, sua expressão característica é “quem quer que”. 3. Nos efeitos. O primeiro significava libertação das algemas físicas; o segundo, da servidão espiritual. Uma liberdade era temporal, a outra, eterna. A primeira abria caminho para uma Canaã terrena, a outra, para uma celestial.

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O LIVRO DE ÊXODO (2)

Lição NQ6


NOTA: Para este estudo leia três vezes os capítulos 19 a 24.

II. A LEI (19-24) “MANDAMENTOS” (regendo a vida moral — 19-20) Os termos da aliança sinaítica são apresentados (19.3-6) Os termos da aliança sinaítica são aceitos (19.7-8) As duas partes da aliança se encontram — (1) Israel (19.9-17) As duas partes da aliança se encontram — (2) Deus (19-18-25) Os dez mandamentos — base espiritual da aliança (20.1-17) O altar terreno — símbolo externo da aliança (20.18-26) “JUÍZOS” (regendo a vida social — 21-23) Com Com Com Com Com Com

relação relação relação relação relação relação

aos senhores e servos (21.1-2) aos danos físicos (21.12-36) aos direitos de propriedade (22.1-15) a várias práticas perversas (22.16-23.9) aos sábados e festas nacionais(23.10-19) aos assuntos nacionais (23.20-33)

“ORDENANÇAS” (regendo a vida religiosa — 24) NOTA: As “ordenanças” (contidas nas instruções sobre o tabernáculo) começam na verdade no próximo capítulo (25). Nós as incluímos aqui para destacar a natureza tríplice da lei, e por serem também parcela das comunicações divinas a Moisés durante os quarenta dias no monte, mencionados no final da presente seção (24.12-18).


O LIVRO DE ÊXODO (2)

A LEI (19-24) A SEGUNDA das três partes principais de Êxodo começa no capítulo 19 e vai até o final do capítulo 24. Ela trata da entrega da lei e da proclamação da aliança mosaica. A lei se apresenta em três partes — “mandamentos”, “juízos” e “ordenanças”. (Veja p. 84.) Devemos ter em mente certas considerações importantes se quisermos compreender corretamente o motivo de a lei ter sido dada, marcando assim o novo relacionamento entre Deus e Israel de que falamos na aliança mosaica.

A INTRODUÇÃO DA LEI A aliança mosaica, em termos estritos, não foi um novo pacto, mas uma extensão da aliança abrâmica. O tema da aliança é introduzido a Israel no Sinai da seguinte forma: “Tendes visto o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre asas de águias, e vos cheguei a mim. Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz, e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos: porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa” (Ex 19.4-6). Qual o significado de “minha aliança” aqui? A referência é feita sem qualquer explicação, como se tratasse de algo já conhecido de Israel. Só podemos ficar sabendo se retrocedermos a ocorrências anteriores dessa palavra “aliança”. Nós a encontramos duas vezes antes disso em Êxodo. Em primeiro lugar, no capítulo 2.24, lemos: “Ouvindo Deus o seu gemido, lembrou-se da sua aliança com Abraão, com Isaque e com Jacó”. A seguir, em 6.4, 5, lemos: “Também estabeleci a minha aliança com eles (Abraão, Isaque e Jacó), para dar-lhes a terra de Canaã... Ainda ouvi o gemido dos filhos de Israel, aos quais os egípcios escravizam, e me lembrei da minha aliança”. Em ambas as referências, “lem brar” se reporta à aliança 83


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abrâmica e especialmente, portanto, a Gênesis 15 e 17, em cujos capítulos temos o selo (15.17, 18) e o sinal (17.10) da aliança com Abraão. Entre Gênesis 17 e Êxodo 2.24 não há qualquer ménção de outra aliança divina. Fica então perfeitam ente claro que, ao dizer a Israel no Sinai: “... guardardes a minha aliança”, Deus se refere à aliança abrâmica. Geralmente, a entrega da lei no Sinai e a formação da aliança mosaica são mal entendidas porque não se capta corretamente a sua relação com a aliança abrâmica. É necessário conhecer dois fatores básicos a respeito da aliança abrâmica — (1) a base da aceitação de Abraão foi a sua fé (Gn 15.6) e (2) a parte de Abraão na aliança consistia simplesmente na persistência sincera na fé e na retidão: “... anda na minha presença, e sê perfeito. Farei uma aliança entre mim e ti” (Gn 17.1-2). Quando a obediência à aliança foi ordenada novamente no Sinai, a entrega da lei não tinha a finalidade de trocar a aliança abrâmica, baseada na fé, por outra, baseada em obras. Por conhecer o coração do homem decaído, Deus não impôs, naquela ocasião, a guarda da lei moral como uma nova base de aceitação. Absolutamente não. Junto com os mandamentos, na elaboração da aliança abrâmica no Sinai, encontrava-se a provisão das “ordenanças” que apontavam para a expiação de Cristo e mostravam a base real da aceitação mediante a fé. Canaã seria possuída e a nação ainda seria abençoada, no fundamento da promessa e da fé. A razão pela qual a aliança mosaica acabou por colocar Israel sob a “maldição da lei”, em vez de um bênção mais completa, encontra-se na reação negativa do povo a ela. Como a narrativa aparentemente indica e a história subseqüente de Israel confirma, o povo hebreu, desde o princípio, parece ter mudado a ênfase: da base na fé para a da aceitação baseada em obras, de modo que para sempre, depois disso, nas palavras de Paulo, eles “procuraram estabelecer a sua própria justiça” (Rm 10.3). Veja a autoconfiança em sua resposta no Sinai: “Tudo o que o Senhor falou, faremos” (Ex 19.8); “tudo o que falou o Senhor, faremos, e obedeceremos” (Ex 24.7). Com certeza, esta declaração autoconfiante contém grande dose de arrogância. Em soberana sabedoria e conhecendo o final desde o princípio, Deus tolerantemente recebeu o povo na situação em que estava, deu-lhe a lei e prometeu bênçãos abundantes caso obedecesse: mas em vista da atitude errada de Israel no Sinai e depois dele, podemos ver como a sua experiência sob a aliança mosaica se transformou na mais triste tragédia de toda a história do povo hebreu. 84


O LIVRO DE ÊXODO (2)

A RAZÃO DA LEI Se a lei não tinha o propósito de substituir a base de fé da aliança abrâmica, por que foi então dada? As razões disso são três: 1. Proporcionar um padrão de justiça. Embora contatos orais periódicos fossem suficientes nos tratos divinos com Abraão e os primeiros pais da raça judia, agora que o povo se constituíra em nação e teocracia, to rn a ra-se necessário fo rn ecer um p ad rão m oral escrito e permanente, expressando o modelo divino de caráter e conduta (Dt 4.8; SI 19.7-9; 119.142). 2. Expor e identificar o pecado. Da mesma forma como os objetos sólidos ficam escuros quando colocados sobre um fundo claro, o pecado — apesar de não ser reconhecido como tal na escuridão rela tiv a da co n sciência p e rv e rtid a do hom em d ecaíd o — imediatamente se destaca quando examinado à luz da lei. Paulo diz então: “Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa” (ou se tornasse evidente; Rm 5.20); “pela lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rm 3.20); “mas eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei” (Rm 7.7); “foi adicionada (a Lei) por causa das transgressões” — i. e., para que o pecado pudesse ser exposto como uma ofensa contra Deus (G1 3.19). 3. Revelar a santidade divina. Era absolutamente indispensável que os privilégios singulares conferidos à nação eleita, para o cumprimento de sua sublime vocação, fossem preservados por um reconhecimento reverente da santidade inviolável de Deus, a fim de que o privilégio não levasse à arrogância. É significativo que a revelação bíblica, considerada como um todo, apresente no início o poder de Deus (visto especialmente na criação, no dilúvio, na dispersão em Babel, na destruição de Sodoma, no êxodo); depois, a santidade de Deus (destacada especialm ente na lei mosaica e nos tratos divinos posteriores com Israel); e finalmente o amor de Deus (em especial no evangelho de Cristo); sugerindo imediatamente a verdade de que a revelação do amor de Deus deve ser salvaguardada pelo devido reconhecimento de seu imenso poder e santidade. Embora a palavra característica equivalente a Deus, nos lábios de Jesus, seja “Pai”, lembremo-nos de que não foi senão quando Cristo veio, como a suprema revelação de Deus, que a idéia da paternidade divina ganhou 85


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relevância. Não é seguro, para o homem, conhecer a verdade acerca da paternidade de Deus sem uma revelação anterior do poder e santidade divinos. Uma das falhas de certas teologias modernas é a separação mental entre o amor de Deus e seu poder e santidade. O símbolo da santidade é o fogo. Assim sendo, a lei é dada em meio ao fogo no Sinai (19.18; 24.17) e com as mais severas restrições (19.10-13, 21-25). Israel sempre compreendeu que a lei emanava de um Deus de imensa santidade (Dt 28.58; 33.2; SI 68.17; Hb 12.18 e 29). Por ser uma expressão da santidade divina, a lei dada através de Moisés é inacessível. N os “ m a n d a m e n to s ” — em e s p e c ia l q u a n d o i n te r p r e ta d o s espiritualmente, como Cristo os interpretou (Mt 5.21-28) — vemos a santidade de Deus em toda a sua grandiosidade. Nos “juízos”, com sua intolerância aos erros e transigências, vemos a santidade de Deus em sua temível severidade. Nas “ordenanças”, com suas inúmeras prescrições sobre a adoração de Israel, vemos a santidade de Deus em sua completa inviolabilidade. O Deus do Sinai é um Deus santo; e verdadeiramente, em sua santidade, nosso Deus é “fogo consumidor”! A LEI E A ALIANÇA ABRÂMICA Outra pergunta surge agora, a saber: Qual é então, na verdade, o elo entre a lei de Moisés e a aliança através de Abraão? 1. A lei foi adicionada à aliança abrâmica. “Foi adicionada por causa (ou seja, para destacar) das transgressões, até que viesse o descendente a quem se fez a promessa” (G13.19). Isto, em si, mostra que a lei não tinha o propósito de abolir a característica de fé contida na aliança abrâmica. Ela veio no sentido de inserir, não de cancelar. Sua finalidade era enfatizar um acréscimo, não uma subtração. 2. A lei não anula a aliança abrâmica. “Uma aliança já anteriormente confirmada por Deus, a lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, não a pode ab-rogar, de forma que venha a desfazer a promessa. Porque, se a herança provém de lei, já não decorre de p ro m e ssa; m as foi p e la p ro m e ssa que D eus a co n c ed e u gratuitamente a Abraão” (G1 3.17,18). 3. A lei, da maneira errada como foi aceita por Israel, proferiu sua sentença de morte sobre a culpa e infligiu assim uma maldição que bloqueou as bênçãos da aliança abrâmica: mas em Cristo a maldição 86


O LIVRO DE ÊXODO (2)

foi removida, para que a bênção abrâmica pudesse ser passada para a fé. “Cristo nos resgatou da maldição da lei... para que a bênção de A braão chegasse aos gentios, em Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos pela fé o Espírito prometido” (G1 3.13,14). A LEI E A HISTÓRIA DE ISRAEL Israel, como nação, transgrediu a lei e a aliança mosaica (veja 1 Rs 19.10; 2 Rs 17.15; 18.12; SI 78.37; Jr 11.10; 31.32; Ez 16.59; Os 8.1; Hb 8.9 etc.). O que q u e re m o s re a lm e n te d izer com isso? Q u erem o s dizer, simplesmente, que os indivíduos que compunham a nação falharam em corresponder às exigências dos dez mandamentos e que foi esta a única razão para o cativeiro e o exílio? Não, pois vimos que ao dar os dez “mandamentos”, Deus deu também as “ordenanças”, que apontavam para Cristo e mostravam a verdadeira base da aceitação, mediante a expiação vicária e pela fé. Com preender a maneira como a palavra “lei” é usada no Antigo Testamento é de importância vital. Em primeiro lugar, ela é usada apenas uma ou duas vezes a fim de designar os dez “mandamentos” (Ex 24.12). Em segundo lugar, é empregada com relação aos “juízos” e “ordenanças” individuais (“Esta é a lei do holocausto” etc.; Lv 6.9,14,25; 24.22etc.). Em terceiro lugar, é usada em geral para indicar toda a economia mosaica, abrangendo os “mandamentos”, “juízos” e “ordenanças” também. Seu uso am plo é ap resen tad o com absoluta clareza em passagens como Deuteronôm io 4.8, 44, 45; Josué 8.34; 1 Reis 2.3; Daniel 9.11-13; Malaquias 4.4. Quando se afirma que Israel transgrediu a lei e violou assim a aliança, isto não significa simplesmente que indivíduos israelitas, poucos ou muitos, transgrediram os dez “mandamentos”, mas que a nação como um todo infringiu as principais obrigações da aliança contidas nos “juízos” e “ordenanças”. Os seguintes exemplos são notáveis: 1. Israel deveria guardar um ano sabático a cada sete anos e o jubileu sabático a cada cinqüenta anos, quando todos os escravos deveriam ser libertados e todas as dívidas canceladas. Veja em Levítico 25 detalhes interessantes e bênçãos prometidas. Os sábados eram “sinais” da aliança entre Deus e Israel (Ex 31.13). Neles, a terra deveria descansar, em reconhecimento grato de pertencer a Deus e 87


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de sua bondade; e grandes bênçãos seriam recebidas através da obediência. Todavia, Israel desobedeceu desde o princípio. Onde existe na Escritura qualquer registro de Israel ter guardado esses sábados? (Veja Jr 34.8-22.) Os 70 anos de desolação sobrevieram como um longo sábado de juízo em vista da infidelidade de Israel neste ponto (veja a ligação notável entre Jr 25.2 e 2 Cr 36.21, lendo depois Lv 26.32-35 como uma explicação). 2. Isra e l não d ev eria fazer q u a lq u e r aliança com as nações circundantes, mantendo-se completamente separada — e isso por razões positivas. (Veja Ex 23.24-33; 34.12-17; Dt 7.1-6 etc.). No entanto, desde o início vemos Israel falhando nesse ponto (veja Js 9.14-16; Jz 2.2; 3.5, 6; e muitas referências semelhantes). 3. Israel deveria rejeitar a idolatria e o uso de imagens religiosas (Ex 20.2-5; Dt 4.12-20; 17.2-7). Mas desde os primeiros dias deixou de obedecer (veja Jz 2.11-23; Jr 2.28; 11.10; e o terrível registro em 2 Rs 17.17-23). Outros casos do desvio terrível de Israel podem ser vistos, por exemplo, na negligência da observância da páscoa (2 Cr 30.5), do sábado semanal (Ez 20.13) e do dízimo (Ml 3.8). Foi dessa forma que Israel, como nação, infringiu a lei, violou a aliança e desonrou o chamado de Deus. A LEI E O EVANGELHO Para finalizar, um breve resumo da lei em relação ao evangelho de Cristo. A lei é cancelada em Cristo de três maneiras. 1. A execução dos “mandamentos” como condição de justificação pessoal é abolida de forma enfática e conclusiva; pois “o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4). Em bora os dez mandamentos, menos o quarto, estejam incluídos na ética do Novo Testamento, são integrados como princípios independentes e não como parte do sistema mosaico. Sua observância não é obrigatória para a salvação, mas o resultado espontâneo da salvação. 2. A execução das “ordenanças”da lei, como meio de alguém ser aceito por Deus, está agora superada, uma vez que as ordenanças religiosas da dispensação mosaica não passavam de tipos e sombras dos quais Cristo é o cumprimento e substância (Cl 2.17; Hb 9.22-10.18). 88


O LIVRO DE ÊXODO (2)

3. A lei, como dispensação, ou método de trato divino, foi agora cancelada, pois o evangelho introduz uma nova dispensação para os judeus e gentios igualmente. A velha dispensação era a da “letra” — um mandamento exterior. A nova dispensação é a do “Espírito” — um poder interior (veja 2 Co 3.4). A primeira não passava de um código objetivo. A segunda, uma mudança subjetiva. Aquela, a condenação pela ética. Esta, um a dinâm ica transform adora. “Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne, isso fez Deus enviando seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado; e, com efeito, condendou Deus, na carne, o pecado. A fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8.3, 4).

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O LIVRO DE ÊXODO (3)

Lição Ne 7


NOTA: Para esta sétima lição, leia novamente os capítulos 25 a 34; e continue a reler várias vezes, a fim de comparar os detalhes dados na lição com as referências das Escrituras.

MEDIDAS DO TABERNÁCULO 50

10

20

SANTO DOS SANTOS SANTO LUGAR 10

í

100

1

ÁTRIO EXTERNO

NOTA: Os números mostrados neste diagrama simples são medidas em côvados. Na estrutura original, o átrio externo era maior em proporção ao mostrado aqui, e o “Santo Lugar”, bem mais comprido.


O LIVRO DE ÊXODO (3)

O tabernáculo (25-40) A TERCEIRA das três partes principais de Êxodo abrange os capítulos 25 a 40, onde termina o livro. Ela aborda a construção e os utensílios do tabernáculo. Primeiro, o seu modelo é dado a Moisés durante seus quarenta dias no monte (25-31). A seguir, no episódio do bezerro de ouro, vemos a execução do plano suspensa temporariamente devido à queda de Israel na idolatria (32-34), e nesse meio tempo é provido um substituto temporário para o tabernáculo numa tenda armada “longe do arraial” (33.7). O tabernáculo é finalmente completado e erguido (exatamente um ano depois do êxodo — 40.2), e a glória da presença divina desce sobre ele (35-40). Então, os capítulos dividem-se naturalmente em três grupos (para uma análise mais completa, veja o final da lição):

O TABERNÁCULO PLANEJADO (25-31) O TABERNÁCULO ADIADO (32-34) O TABERNÁCULO COMPLETADO (35-40) As Escrituras dedicam mais espaço à descrição do tabernáculo e seus acessórios do que a qualquer outro objeto. Seus detalhes são descritos com notável particularidade, e não menos do que sete vezes encontramos na Bíblia referência à advertência solene a Moisés para que fizesse tudo segundo o “modelo” que lhe fora mostrado “no m onte” (Ex 25.9,40; 26.30; 27.8; Nm 8.4; At 7.44; Hb 8.5). Não deve haver um significado especial por trás disso? Sim, deve, e existe. O tabernáculo não foi planejado para impressionar como uma simples obra arquitetônica. Ele foi projetado para ser um a expressão simbólica e tipológica da maravilhosa verdade espiritual, e nisto está a sua relevância. Tentar fazer um esclarecimento completo sobre o tabernáculo, com seus inúmeros significados simbólicos e tipológicos, está fora de cogitação em nosso estudo. Isso exigiria um livro inteiro, e tantos volumes já foram escritos sobre o tabernáculo que o desenvolvimento do assunto aqui é desnecessário. Nosso propósito é tratar resumidamente do tópico, porém 93


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ajudando o leitor a obter uma idéia precisa de seus tesouros latentes. Quais são, pois, os aspectos principais do tabernáculo? São quatro: A estrutura; Os utensílios; O sacerdócio; As ofertas. O último dos quatro, porém, — o sistema de ofertas — é um tópico exclusivo, recebendo tratam ento especial no livro de Levítico, que consideraremos mais tarde. Observemos brevemente aqui, portanto, os outros três — a estrutura, os utensílios, o sacerdócio. A ESTRUTURA A estrutura, de modo geral, era composta de três partes — o átrio externo, o Santo Lugar, o Santo dos Santos. Havia uma entrada única para o átrio externo e uma entrada para o Santo Lugar. A entrada para o Santo dos Santos era chamada de “véu” (26.31).

O átrio externo O átrio externo era um cercado grande, oblongo e retangular, com os dois lados mais compridos voltados para o norte e o sul, e os mais curtos para o leste e oeste. Os dois lados mais longos tinham 100 côvados cada e os d o is m e n o re s 50 c ô v a d o s c a d a . C om o c a d a c ô v a d o tem aproximadamente 45cm, o átrio externo media portanto cerca de 45 x 22m. Sua construção era muito simples do ponto de vista arquitetônico. Os quatro lados eram feitos com “colunas” construídas com espaços iguais umas das outras, fechadas por cortinas— vinte “colunas” em cada um dos lados maiores e dez nos menores, perfazendo sessenta colunas ao todo, erguidas em intervalos de 5 côvados, tendo cada coluna 5 côvados, ou uma altura de 2,3m. Na parte de cima, as colunas tinham capitéis de prata, e também eram de prata os ganchos e trilhos conectados aos pilares das cortinas. As bases das colunas eram de bronze, sendo usadas amarras e pinos para dar firmeza à estrutura. As cortinas que cercavam o átrio eram feitas de “linho fino”. O perímetro do átrio externo tinha 300 côvados 94


O LIVRO DE ÊXODO (3)

(100+100+50+50=300) ou cerca de 137m.

O santuário O santuário ou lugar de habitação de Deus, consistindo do Santo Lugar e do Santo dos Santos, era como o átrio externo: retangular e oblongo, tendo 30 côvados de comprimento por 10 de largura. Como acontecia com o átrio externo, os dois lados, no sentido longitudinal, olhavam para o norte e o sul, enquanto as duas extremidades, ou lados menores, ficavam a leste e oeste. Um véu dividia o tabernáculo em duas partes, o Santo Lugar, com 20 côvados de comprimento, ou dois terços do comprimento total, e o Santo dos Santos, que ocupava os 10 côvados restantes. Ambas as partes tinham 10 côvados de largura. Ao contrário do átrio externo, as paredes do tabernáculo eram completamente de madeira — e não apenas de colunas separadas umas das outras — sendo as colunas ligadas por pinos ou hastes que passavam pelos anéis fixados nelas com este propósito. Q uatro cortinas grandes e belas cobriam toda a parte superior da estrutura, fechando-a e tornando-a assim uma “habitação”. Para maiores informações, o interessado deve consultar um dicionário bíblico comum. Para nosso propósito, o diagrama simples da página 92 é suficiente. Além disso, é quase desnecessário dizer que existe uma importância simbólica e tipológica considerável nos materiais e partes da estrutura do tabernáculo, que não podemos examinar aqui. Para uma interpretação de tudo isto, aconselhamos que se procurem os bons livros sobre o assunto, que podem ser obtidos em qualquer livraria evangélica. Devemos contentar-nos aqui em falar sobre apenas uma parte da estrutura do tabernáculo, e mesmo assim muito superficialmente, embora ela seja talvez a mais interessante de todas — o Santo dos Santos. (Veja o diagrama mencionado acima.)

O Santo dos Santos O Santo dos Santos possui três coisas muitíssimo interessantes que nos impressionam imediatamente. Em primeiro lugar, notam os as suas dimensões. Ele m edia 10 x 10 x 10 côvados, ou seja, sua largura, 95


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comprimento e altura mediam exatamente 10 côvados, sendo portanto iguais. O Santo dos Santos era então um cubo. Mais tarde, quando o tabernáculo deu lugar ao magnífico templo construído por Salomão, o Santo dos Santos passou a ter 20 côvados de comprimento, mas a largura e a altura foram igualmente dobradas (1 Rs 6.20), e ele media então 20 x 20 x 20 côvados. Se examinarmos os dois últimos capítulos da Bíblia, descobriremos que a cidade celestial é descrita como sendo também um quadrado: “A cidade é quadrangular, de comprimento e largura iguais” (Ap 21.16). Qual o simbolismo deste uso do cubo? O Dr. A. T. Pierson nos conta que entre os hebreus o cubo era o antigo símbolo da perfeição, em vista de sua absoluta simetria. Cada lado de um cubo é um quadrado perfeito, e cada um dos seis lados é idêntico aos demais. De qualquer lado que examinemos o cubo ele tem a mesma aparência — a mesma altura, largura e comprimento. Temos assim um símbolo de perfeição. O Santo dos Santos deve ser um cubo, expressando imediatamente, e antes de tudo mais, a infinita perfeição do Deus de Israel. A cidade celestial deve ser representada por um cubo, indicando a perfeição gloriosa daquela cidade do porvir, “da qual Deus é o arquiteto e edificador”. Não será este significado do cubo que Paulo tem em mente quando fala sobre a “largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” do “amor de Cristo que excede todo entendimento”? (Ef 3.18, 19). Ó, o prodígio desse perfeito amor! e, ainda mais, de uma experiência sincera dele! Em segundo lugar, note o propósito servido pelo Santo dos Santos. Ele deveria ser a habitação de Deus entre o seu povo. Compreendemos a maravilha e o significado disto? O tabernáculo no deserto foi a primeira habitação de Deus na terra. Ele havia andado com Adão e Eva no Éden, falara aos patriarcas, visitara Abraão de forma visível, mas não fizera para Si um lugar de habitação na terra. Agora, porém, Ele desce para habitar com seu povo remido; e a partir de então tem a sua casa na terra. Depois do tabernáculo, veio o templo. Depois do templo, veio o Filho do seio do Pai: “... o Verbo se fez carne, e habitou entre nós” (Jo 1.14). A seguir, depois da encarnação, veio a igreja — casa espiritual, “santuário... edificados para habitação de Deus no Espírito” (Ef 2.21, 22). Este é o tabernáculo presente de Deus, ou sua habitação na terra, e permanecerá até a sua consumação, como está escrito: “Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles... e Deus mesmo estará com eles” (Ap 21.3). %


O LIVRO DE ÊXODO (3)

Em terceiro lugar, observe a santidade especial do Santo dos Santos. Quando o povo de Israel levava suas ofertas ao tabernáculo, recebia permissão para entrar no átrio externo, mas não no Santo Lugar, onde só podiam ministrar os sacerdotes; e até estes eram proibidos de entrar no Santo dos Santos. Só o sumo sacerdote tinha permissão de adentrar este santuário interior e, mesmo ele, somente em ocasiões especiais, depois dos devidos preparativos. Isso também ocorreu com o templo, quando este tomou mais tarde o lugar do tabernáculo. O lugar em que Deus habita é indescritivelmente sagrado — uma lição que o povo de Deus deveria aprender muito bem e para sempre. Não pode haver adoração aceitável ou verdadeira comunhão sem o reconhecimento reverente da santidade daquilo que é divino. Duas palavras gregas vieram a ser usadas para indicar o templo, uma delas indicando toda a área dos edifícios do templo, e a outra apenas aplicada ao santuário em si, o Santo dos Santos. Um fato solene e impressionante é que toda vez que o Novo Testamento emprega a expressão “templo de Deus”, referindo-se aos cristãos, seja coletiva ou individualmente, o termo grego usado é aquele que indica o próprio Santo dos Santos. Como é sagrado o privilégio e a responsabilidade de pertencer a Cristo e de ser por Ele habitado! Da mesma forma como o antigo tabernáculo era uma estrutura tríplice, assim também nós, por nossa própria constituição como seres humanos. O corpo corresponde ao “átrio externo”. O “Santo Lugar” é a alma. O espírito corresponde ao “Santo dos Santos; e aqui, no mais íntimo de nosso ser, é que Deus fez Sua morada, transformando-nos em Seus templos vivos. Houve certa vez um velho escultor que tinha entre suas muitas obras o modelo de uma bela catedral. Todavia, embora fosse singularmente bem acabada, um modelo exato, ninguém ft admirava enquanto jazia ali, coberta pelo pó dos anos. Certo dia então, o velho zelador colocou dentro dela uma lâmpada e seu reflexo brilhou através dos lindíssimos vitrais, dando nova beleza ao conjunto; e todos que se aproximavam não deixavam de admirá-la. Toda a transformação deveu-se ao reflexo da nova luz em seu interior. O mesmo pode acontecer com os templos consagrados de nossa personalidade humana!

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III. O TABERNÁCULO (25-40) PLANEJADO (25-31) Arca — mesa — candelabro (25) Cortinas — tábuas — véus (26) Altar do holocausto — cortinas — azeite (27) Vestes sacerdotais e consagração (28-29) Altar do incenso — bacia — óleo da unção (30) Artífices — o sinal do sábado (31) ADIADO (32-34) Queda de Israel na idolatria (32.1-14) Juízo disciplinar (32.15-29) Intercessão de Moisés (32.30-35) Israel censurado e provado (33.1-11) Moisés encorajado (33.12-23) Mais 40 dias no monte (34) COMPLETADO (35-40) Os materiais ofertados (35) A estrutura e as cortinas (36) Os utensílios do tabernáculo (37 e 38) As vestes dos sacerdotes (39.1-31) A obra terminada: o tabernáculo levantado (39.32-40.33) O tabernáculo fica cheio da presença de Deus (40.38-8)

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O LIVRO DE ÊXODO (4)

Lição N2 8


NOTA: Para este oitavo estudo leia novamente os capítulos 25 a 31, e 35 a 40, verificando as referências, conforme mencionadas em nossos comentários, de modo a fixá-las melhor na mente.

DIAGRAMA DO TABERNÁCULO E SUA MOBÍLIA

---------- o ALTAR DE BRONZE

i-------- i


LIVRO DE ÊXODO (4)

OS UTENSÍLIOS DO TABERNÁCULO O ESTUDO dos utensílios do tabernáculo é realmente fascinante. Eles consistiam de sete artigos cuidadosamente descritos, cuja natureza praticamente não nos permite duvidar de seu significado simbólico e tipológico, enquanto o seu número — como acontece em muitas outras ocorrências do número sete — transmite a idéia de perfeição. Vamos entrar, através da imaginação, no recinto sagrado através da “porta” do átrio externo e reverentemente atravessar o tabernáculo, fazendo uma pausa diante de cada um desses sete objetos e notando a ordem em que ocorrem. Uma verificação do diagrama na página anterior facilitará o entendimento. Em primeiro lugar, ao passar pela “porta” que dá acesso ao átrio externo maior, chegamos ao altar do holocausto (27.1-8; 38.1-7), cujo propósito é ensinar-nos, logo no limiar, que o único meio de o homem pecador aproximar-se do seu Deus santo é mediante o sacrifício expiatório — sacrifício este que é ao mesmo tempo uma confissão do pecado do homem e uma justificação diante de Deus. Depois do altar do holocausto chegamos à bacia de bronze (30.17-21; 38.8), contendo a água sagrada para a purificação dos que ministravam no santuário; isto nos fala da necessidade de renovação espiritual (mãos e pés deviam ser lavados antes de qualquer ato de ministração, simbolizando a conduta e o andar em santidade). A seguir, chegamos à “porta” do santuário propriam ente dito e, atravessando-a, encontramo-nos no “Santo Lugar”. Aqui, à direita (lado norte), vemos a mesa dos pães da proposição (25.23-30; 37.10-16), com suas ofertas (alimento) e libações (bebida), representando o sustento para a vida espiritual. À esquerda (lado sul), vemos o candelabro de sete braços (25.31-40; 37.17-24), representando a iluminação espiritual. À nossa frente então, exatamente antes do “véu” do “Santo dos Santos”, acha-se o altar de incenso coberto de ouro, simbolizando, com seu perfume, as súplicas aceitáveis (30.1-10; 37.25-28).

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Em último lugar, passando através do “véu” para dentro do “Santo dos Santos”, vemos aquela caixa sagrada revestida de ouro, a arca, indicando a relação de aliança entre Deus e seu povo; e, acima dela, na tampa, o propiciatório, com os dois querubins, um de cada lado, de faces voltadas um para o outro e cobrindo com as asas estendidas o propiciatório e o fogo que queimava sobre ele — o propiciatório aspergido com sangue, iluminado pela presença de Deus (shekinah), que falava de intercessão, diante do próprio Senhor, e da vida que Ele concedia. Veja, então, o notável progresso e a perfeição do ensino simbólico nesta série de sete objetos em sucessão — expiação, regeneração, sustento espiritual, iluminação, súplica, acesso total e reconciliação mediante uma relação de aliança, assim como identificação com a vida de Deus, manifestada e simbolicamente concedida na chama shekinah. Como um esclarecimento adicional, juntamente com os significados típicos desses sete objetos, podemos estabelecer o seguinte esboço: Utensílios

Significado Simbólico

(1) Altar dos Holocaustos (2) Bacia de Bronze (3) Mesa dos Pães da Proposição (4) Candelabro

Expiação mediante sacrifí­ cio. Renovação espiritual.

(5) Altar do Incenso

Súplica aceitável.

(6) A Arca

Acesso mediante relação de aliança. A presença e vida de Deus.

(7) O Propiciatório e a Presença de Deus

Sustento espiritual. Iluminação espiritual.

Significado Tipológico A expiação de Cristo. R egeneração e renovação pelo Espírito Santo. Cristo — o Pão da Vida, o Espírito Santo — a água da vida. C risto — a L uz do m undo e especialmente do Seu povo. Oração em nome de Jesus (veja Jo 14.13 com Ap 5.8). Cristo como base da aliança de nosso acesso a Deus. Cristo como o “Propiciatório” (Rm 3.25), e o Espírito Santo (Shekinah) como a vida que emana de Deus.

(Shekinah)

Um paralelo interessantíssimo foi traçado entre a ordem da mobília do tabernáculo e a ordem do evangelho segundo João. E como se João estivesse nos guiando exatamente na mesma ordem encontrada no tabernáculo, até as grandes realidades espirituais que os sete utensílios do tabernáculo representavam. Ele começa nos levando até o altar de bronze dos holocaustos, pois duas vezes no capítulo 1 nos diz: “Eis o Cordeiro de 102


O LIVRO DE ÊXODO (4)

Deus, que tira o pecado do mundo”. Depois, no capítulo 3, nos leva até a bacia, dizendo: “Quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus” (Jo 3.5). Depois disso, nos capítulos 4 a 6, ele vai conosco à mesa dos pães da proposição ou presença, com sua comida e bebida — lembrando o discurso do Senhor para a mulher com respeito à “água da vida”, que mata completamente a sede quando bebida, e o grande discurso sobre o “pão da vida”, que dá a vida eterna. Nos capítulos 8 e 9 vamos com ele até o candelabro de ouro. Ouvimos Cristo dizer duas vezes: “Eu sou a luz do mundo”; “quem me segue não andará nas trevas, pelo contrário terá a luz da vida”; e o cego de nascença volta a ver pela mão daquele que traz a luz. Nos capítulos 14 a 16 aprendemos as novas lições maravilhosas sobre orar em nome de Jesus e nos descobrimos junto ao altar do incenso, oferecendo orações que se tornam aromas agradáveis, ao falar daquele Nome que, acima de todos os outros, é apreciado pelo coração de Deus. Na belíssima oração do Senhor Jesus, registrada no capítulo 17, atravessamos o véu para entrar no Santo dos Santos e vislumbramos o sacerdote intercedendo por nós na presença de Deus. Não vemos Cristo ali apenas como nosso Sumo Sacerdote, mas também como a arca e o propiciatório — a base da aliança para nosso acesso e aceitação em um novo relacionamento, pois, no capítulo 20, aquele que foi ressuscitado diz: “Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus” (20.17). Finalmente, a realidade que corresponde ao significado simbólico da presença é revelada: "... soprou sobre eles, e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo”. A própria vida de Deus é concedida pelo Espírito Santo ao crente comprado pelo sangue (veja Jo 20.22). Quão esplendorosa é esta correspondência de ordem entre o antigo tabernáculo no deserto e o novo tabernáculo, testemunho de João, escrito a tinta! Devemos considerar isso acidente ou propósito divino? Ainda mais maravilhoso é aquele divino Salvador em quem temos estas sete provisões, desde o altar da expiação até a presença (Shekinah) pentecostal! O SACERDÓCIO D evem os agora nos re fe rir ao sacerdócio, cujas provisões e regulamentos são um assunto de grande interesse. Como só podemos tratar muito resumidamente deste tema, antes de seguir de Êxodo para Levítico, é preciso què nos limitemos a uma parte dele, considerando-a 103


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representativa do todo. Vamos estudar as vestes do sumo sacerdote. Elas são cuidadosamente descritas no capítulo 28. Vemos nesse capítulo que as vestes deveriam ser “para glória e ornamento” (v. 2). Vestido com esses adornos de ouro, estofo azul, púrpura, carmesim, linho fino e pedras preciosas, o sumo sacerdote de Israel devia de fato parecer glorioso e belo; mas quem descreverá a glória e beleza do Amado do céu enquanto Ele nos representa lá em cima? Os artigos prescritos para serem usados pelo sumo sacerdote eram em número de sete (veja os w . 4, 36, 42), a saber, um peitoral, uma estola, uma sobrepeliz, uma túnica bordada e calções de linho, enquanto para a cabeça havia a mitra e a coroa sagrada (w. 4, 36, 42, 29.6). Os calções eram feitos de linho. A túnica — ao contrário da peça com esse nome que o Ocidente conhece — era uma vestimenta comprida de linho, usada junto ao corpo. A sobrepeliz era uma peça sem costura colocada sobre a túnica, feita de linho azul e tendo em toda a volta campainhas de ouro e romãs de estofo azul, púrpura e carmesim. Um cinto muito bem trabalhado a apertava na linha da cintura. A estola era uma peça curta que ia dos ombros até a cintura ou talvez um pouco abaixo. O peitoral tinha a forma de bolsa, sendo feito de linho e usado na frente da estola. A mitra era um turbante de linho branco, e a coroa sagrada, uma lâmina de ouro posta à frente da mitra, onde se achavam gravadas as palavras “Santidade ao Senhor”. Essas vestimentas eram colocadas praticamente na ordem inversa em que foram especificadas — primeiro os calções, depois a túnica; sobre eles, a sobrepeliz; em cima desta a estola, em seguida o peitoral e finalmente a mitra, que levava a coroa sagrada. De modo geral, as peças de baixo, ou seja, os calções e a túnica, eram as roupas comuns do sumo sacerdote, distinguindo-se das demais, que eram para glória e ornamento. Três dessas últimas recebem destaque especial, e fica evidente que se destinam a representar grandes verdades para nós: a estola, o peitoral e a coroa sagrada.

A estola Como já mencionado, a estola (28.5-14) era uma peça curta que ia dos ombros até a cintura ou talvez pouco abaixo dela. Consistia de duas partes, 104


O LIVRO DE ÊXODO (4)

frente e costas, unidas nos ombros por duas ombreiras (v. 7). Era feita de linho fino bordado de ouro, azul, púrpura e carmesim. Um cinto artisticamente trabalhado usando as mesmas cores da estola a prendia ao corpo (v. 8). De acordo com os significados tipológicos presentes em todo lugar nesta parte da Escritura, o ouro, o azul, a púrpura, o carmesim e o linho fino indicam, respectivamente, a divindade, santidade, realeza, sacrifício e perfeita justiça do Senhor; todavia o mais significativo de tudo é o que ficamos sabendo sobre as duas ombreiras (w . 9-12). Duas pedras de ônix eram colocadas nessas om breiras, levando gravados os nomes das doze tribos de Israel — seis nomes em cada pedra. A razão disto é dada no versículo 12: “E porás as duas pedras nas ombreiras da estola sacerdotal, por pedras de memória aos fdhos de Israel: e Arão levará os seus nomes sobre ambos os seus ombros, para memória diante do Senhor”. Os nomes de Israel ficaram assim gravados em pedras preciosas, fixadas em engastes de ouro e colocadas no ombro do sumo sacerdote, como memorial diante do Senhor.

O peitoral O peitoral (28.15-29) era uma peça de linho fipamente tecido com cerca de 43 cm. de comprimento por 21,5 cm. de largura, dobrada de modo a formar uma bolsa quadrada de 21,5 x 21,5 cm. Exibia as mesmas cores da estola e deve ter sido belíssimo, pois ostentava doze pedras preciosas, com quatro ordens de três pedras cada — cada uma levando o nome de uma tribo de Israel e as doze com engastes de ouro puro. O peitoral era mantido na posição por duas correntes de ouro trançadas, que o prendiam nas ombreiras da estola (w. 22-25), e por uma fita azul (nas duas extremidades inferiores), que o ligava à estola. A razão de tudo isto é dada no versículo 29: “Assim Arão levará os nomes dos filhos de Israel no peitoral do juízo sobre o seu coração, quando entrar no santuário, para memória diante do Senhor continuamente”. 105


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O nome do povo de Deus é novamente escrito em pedras preciosas engastadas em ouro, como um memorial diante dele, mas desta vez elas ficam sobre o coração do sumo sacerdote.

A coroa sagrada Era uma lâmina de ouro puro presa na frente da mitra e levando a inscrição: “Santidade ao Senhor” (w. 36-37). O sentido é explicado no versículo 38: “E estará sobre a testa de Arão, para que Arão leve a iniqüidade concernente às cousas santas, que os filhos de Israel consagrarem em todas as ofertas de suas cousas santas; sempre estará sobre a testa de Arão, para que eles sejam aceitos perante o Senhor”. O ponto neste versículo é que, apesar das purificações cerimoniais associadas com a adoração de Israel, tanto as ofertas como os ofertantes eram realmente impuros perante os olhos santos de Deus; no entanto, no sumo sacerdote, que reunia em sua pessoa todo o povo, por assim dizer, e ao mesmo tempo anunciava o sacrifício de expiação que cobria a todos — nele, com suas vestes de “glória e adorno” (simbolizando o mérito e expiação gloriosos de Cristo), a impureza do povo transformava-se em “santidade ao Senhor” e os israelitas eram assim “aceitos diante do Senhor”.

O ensino glorioso dos tipos Qual o significado de tudo isto para nós? Por que esses detalhes tão minuciosos sobre a estola, o peitoral e a coroa sagrada? É pelo fato de todos conterem ensinos gloriosos sobre tipos. Estas são coisas terrenas com significados celestiais; objetos materiais estabelecendo grandes realidades espirituais. O sumo sacerdote, Arão, é um tipo do Senhor Jesus como nosso Sumo Sacerdote. Em primeiro lugar, na estola, o sumo sacerdote leva sobre os ombros as doze tribos de Israel, coletivamente. A seguir, no peitoral, ele 106


O LIVRO DE ÊXODO (4)

as leva individualmente sobre o coração. Ao carregá-las assim perante Deus, ele suporta toda a sua imperfeição e as cobre inteiramente com a sua própria “beleza e adorno”, de modo que Deus vê “Santidade ao Senhor” brilhando na testa do sumo sacerdote, e o povo é aceito nele. Veja o versículo 38: sempre estará sobre a testa de ARÃO, para que ELES sejam aceitos”. Nesses três versículos-chave (12, 29, 38) é mencionado três vezes que o sumo sacerdote levará o povo e seus interesses— sobre o seu ombro, sobre o seu coração e sobre a sua testa-, e cada vez eles são representados como jóias preciosas e ouro puro! Vemos em tudo isto uma descrição de Cristo e Seu povo. Em primeiro lugar, somos levados sobre os Seus grandes ombros. O ombro é o lugar de sustentação do poder. Vemos então aqui o poder todo-suficiente de nosso grandioso Salvador para nos sustentar e a todos os nossos problemas, tanto na presença de Deus como através de todas as experiências pelas quais temos de passar. A seguir, somos levados em Seu coração. O coração é o lugar do amor. Da mesma forma que as tribos de Israel tinham seus nomes gravados naquelas pedras preciosas, cada cristão comprado pelo sangue permanece para sempre em Seu coração, no amor e na mente cheia de ternura de Cristo, enquanto Ele se põe diante de Deus a nosso favor. Além disso, assim como aquelas jóias brilhavam no peito de Arão, o povo de Cristo brilha também em seu peito como pedras preciosas na presença de Deus. Quando nosso Senhor nos representa lá no alto, a “Santidade ao Senhor” brilha em sua testa. A testa caracteriza o que há de mais nobre e distinto no homem. A santidade deve ser inscrita nela, a fim de ser vista antes de tudo, no momento em que o sumo sacerdote entra na Presença santa. Essa é a primeira coisa que Deus contempla em nosso glorioso Sumo Sacerdote no santuário celestial. Ele a leva em SUA testa para que NÓS possamos ser aceitos! Assim com Arão deveria usar sempre a “coroa sagrada” (veja o v.38), Cristo também a leva por nós, a fim de que nEle nos tornemos s e m p r e a c e i t o s ! T udo isto é ensinado com o doutrina no Novo T estam en to — especialmente em Efésios e Hebreus. Somos “aceitos no A m ado” que nos conduz em Seu coração diante de Deus. Somos escolhidos “nEle”a fim de sermos “santos e irrepreensíveis”, pois Ele é a nossa santidade. Ficamos conhecendo o “poder divino para aqueles que crêem” — e este poder é 107


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visto em Cristo, que leva Seu povo em seu poderoso ombro, “acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir” (Ef 1.21)! Louvemos a Deus, para sempre, por um Salvador como este! Somos obrigados a fazer aqui uma interrupção e deixar que o leitor tenha o prazer de investigar todos os outros belíssimos ensinos tipológicos incorporados ao sacerdócio arônico. VOCÊ SABE A RESPOSTA? 1. Quais os três assuntos principais do Livro de Êxodo e os três atributos de Deus expressos por eles? 2. Qual é a estrutura geral do livro? Quais as três partes da lei e os três aspectos da vida de que tratam? 3. A saída de Israel do Egito significou quatro coisas; quais foram elas? 4. Mencione os principais pontos de comparação e contraste entre o êxodo e o evangelho. 5. Por que a lei foi dada a Israel? Ela pretendia ser uma nova aliança, abolindo a abrâmica? 6. Qual a relação entre a chamada aliança mosaica e a abrâmica? 7. Cite as três partes do tabernáculo e suas dimensões. 8. Quais os utensílios do tabernáculo e seu significado tipológico? 9. Qual o possível significado simbólico latente nas dimensões do Santo dos Santos? 10. Quais eram os ornamentos do sumo sacerdote e o que eles nos ensinam quanto aos tipos?

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O LIVRO DE LEVÍTICO (1)

Lição NQ9


NOTA: Para este estudo leia uma vez os sete primeiros capítulos de Levítico e os capítulo 18 a 20. “Benjamin Franklin disse certa vez que o homem deve ser de sete instrumentos e dominar um deles. Um homem realmente culto é descrito como alguém que sabe alguma coisa sobre tudo e tudo sobre alguma coisa. No que se refere ao obreiro cristão, e acima de tudo ao ministro cristão, ele deve ser especializado na Bíblia. Outros conhecimentos podem ser interessantes, úteis, importantes; mas dominar o conhecimento bíblico é


O LIVRO DE LEVITICO (1)

ao lhe perguntarem se já lera a Bíblia inteira de uma só vez, respondeu: “Eu nunca a li de uma vez, embora tenha lido grande parte dela consecutivamente. Três vezes comecei a lê-la inteira, mas parei sempre no livro de Levítico. Gostei de Gênesis e Êxodo, mas Levítico pareceu-me tão insípido que desanimei e deixei a leitura”. O que essa pessoa mereceria — simpatia ou censura? Falar de Levítico como “leitura insípida” é perder totalmente o sentido do livro. Como poderíamos esperar que um livro como Levítico, que se ocupa inteiramente com regras, possa fornecer uma leitura emocionante? Obviamente, ele não se destina apenas a ser lido, mas a ser estudado. Pouco do seu tesouro pode ser obtido mediante uma simples leitura; uma concentração razoável, porém, o transforma num dos trechos mais interessantes das Escrituras. certa senh o r a,

Limpando o terreno Vamos desde o início esclarecer certos mal-entendidos desanimadores sobre o livro. Ao que parece, existem quatro. Primeiro, os que acham impossível dominar todo o ritual e simbolismo em Levítico a fim de tirar quaisquer vantagens espirituais. Segundo, os que supõem que, em vista de os preceitos levíticos terem cessado com a dispensação mosaica, eles não podem m anter qualquer relação proveitosa com os dias atuais. Terceiro, os que admitem ter problemas, uma vez que certos mandamentos levíticos, em sua severidade ou aparente trivialidade, parecem diferir do restante de seu conhecimento de Deus. Quarto, os que também ficam desanimados porque não parece haver um perfil claro da linha de pensamento neste terceiro livro das Escrituras, como encontrado em Gênesis e Êxodo. Qualquer estudo bem feito de Levítico irá dispersar rapidamente essas idéias negativas. Como veremos, ele está simplesmente repleto de valores espirituais, possuindo uma força viva para nossos dias; sua revelação do caráter divino é única e ele se consolida de acordo com um plano definido. Sua autoria mosaica e inspiração divina são confirmadas pelo Senhor Jesus. É mencionado mais de 40 vezes no Novo Testamento. Tudo que o 111


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segue nas E scritu ras é afetad o por ele. Assim sendo, um bom conhecimento dele contribui muito para a compreensão da mensagem da Bíblia como um todo. Tudo depende de uma abordagem correta do livro. Em função disso, precisamos ver o seu propósito principal, seu valor permanente, seu ponto de vista peculiar e sua estrutura.

O propósito principal Levítico foi escrito para mostrar a Israel como viver em santidade e comunhão com Deus e preparar assim a nação para a tarefa sublime de levar a redenção de Deus a todas as nações. Acima de tudo, Israel deve aprender então a respeito da santidade de Deus, que Levítico revela de três modos: (1) no sistema sacrificial, que insistia no sentido de que “sem derramamento de sangue não há remissão”, inculcando assim, mesmo na consciência mais fechada, a seriedade do pecado; (2) nos preceitos da lei, que insistiam no padrão divinamente revelado para o caráter e a conduta; (3) nos castigos atribuídos às transgressões da lei, que proclamavam severamente a inflexibilidade da santidade divina. Nesta revelação do Deus Santo de Israel, acha-se envolvida a insistência imperiosa na separação da nação israelita dos outros povos. As leis de Levítico têm com objetivo assegurar esta separação e preparar o povo para o cum prim ento de sua vocação superior. Pode ser tam bém acrescentado que Levítico tinha o propósito de preparar Israel para o Cristo que viria, despertando um sentimento de necessidade e ao mesmo tem po apontando, através do ritual do tabernáculo, para a oferta expiatória do Calvário.

O valor permanente Em primeiro lugar, Levítico é uma revelação do caráter divino para nós hoje, da mesma forma como foi para o Israel de outrora. Deus não mudou. Em segundo lugar, trata-se de uma exposição simbólica dos princípios básicos que sublinham todos os tratos entre Deus e os homens, tão verdadeiros agora como antigamente. Embora o sacerdócio e os sacrifícios 112


O LIVRO DE LEVÍTICO (1)

levíticos tenham deixado de existir, as realidades espirituais que eles descrevem simbolicamente permanecem para sempre. Hoje em dia, mesmo entre os cristãos professos, é comum menosprezar a idéia de expiação mediante o sacrifício propiciatório; mas Levítico permanece opondo-se a isso, endossado pelo testemunho claro do próprio Senhor e dos escritores inspirados do Novo Testamento. Em terceiro lugar, Levítico fornece um conjunto de leis civis para a teocracia. Embora alguns dos detalhes nele contidos sejam hoje inúteis, os seus princípios deveriam guiar a legislação moderna. A religião e o estado, o capital e o trabalho, a posse de terras e os direitos de propriedade, o casamento e o divórcio — todos esses e outros assuntos hoje importantes são tratados em Levítico. Foi dito com razão que “todas as questões sobre as quais a legislação de Levítico lança um raio de luz deveriam ser estudadas e aplicadas pelos legisladores modernos”. Em quarto lugar, Levítico é um tesouro de ensinamentos simbólicos e tipológicos. As maiores verdades espirituais encontram-se nele em símbolos bem vivos. Os grandes fatos da nova aliança são ali ilustrados por meio de tipos relevantes na antiga aliança. Ele é, dessa forma, um supremo desvendar antecipado de Cristo. Trata-se de um “tesouro de ilustrações divinamente escolhidas sobre o caminho da salvação do pecador mediante a obra sacerdotal do Filho de Deus, e a sua posição e dignidade presentes e futuras como um homem remido”. Além do mais, parte da linguagem figurada de Levítico traz importantes profecias de coisas que se acham no futuro mesmo para nós. O Dr. S. H. Kellogg diz: “Não devemos imaginar que, em vista de muitos de seus tipos terem sido cumpridos há muito tempo, todos tenham sido portanto cumpridos. Segundo alusões do Novo Testam ento, inúm eros tipos aguardam seu cum prim ento num dia brilhante que está para vir. Por exemplo: algumas das festas do Senhor, tais como a Páscoa e Pentecoste foram cumpridas. Mas o que dizer do dia da expiação pelos pecados do povo de Israel? Vimos que o dia da expiação foi cumprido quando nosso grande Sumo Sacerdote entrou no céu; mas, de acordo com o tipo apresentado em Levítico, ele deveria sair novamente para abençoar o povo: isso foi cumprido? Ele já proclamou absolvição do pecado para o Israel culpado? E a Festa das Trombetas e a da reunião em plena ceifa? E os anos sabáticos e o tipo mais perfeito de todos, o ano do jubileu? A história nada registra que possa ser considerado cumprimento de qualquer desses fatos. Levítico nos ordena então que olhemos para 113


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diante, para um futuro que ainda está por chegar, quando a grande redenção será finalmente cumprida e as palavras ‘Santidade ao Senhor’ serão escritas até nas ‘campainhas dos cavalos’, como afirma Zacarias (14.20)”. Vemos assim um pouco do valor permanente de Levítico!

O ponto de vista A maneira mais simples de compreender a mensagem de Levítico talvez seja a apreciação do seu ponto de vista. Este é indicado nas primeiras palavras do primeiro capítulo: “Chamou o Senhor a Moisés e, da tenda da congregação, lhe disse”. Antes disso, um Deus longínquo falava do “monte que ardia em fogo”; mas agora — como vemos no final de Êxodo — o tabernáculo foi edificado “segundo o modelo mostrado no m onte” (Ex 26.30), e um Deus que habita com Seu povo, em comunhão com Ele, fala “da tenda”. O povo não é portanto tratado como sendo constituído de pecadores distanciados de Deus, como os das outras nações, mas como já tendo sido introduzido num novo relacionamento, o da comunhão, com base numa aliança selada com sangue. D e acordo com isto, os sacrifícios de Levítico não pretendem estabelecer um meio pelo qual o povo possa se tomar remido (pois sua redenção já foi operada mediante o cordeiro pascal do êxodo e deverá ser agora celebrada para sempre na festa da Páscoa). De modo algum. Os sacrifícios levíticos são prescritos de forma a estabelecer como o novo relacionamento pode ser mantido. Em sua interpretação tipológica, os sacrifícios levíticos são um desenrolar esplêndido do sacrifício de Cristo em sua múltipla eficácia para aqueles que já entraram no novo relacionamento de justificação pela fé. Este é o ponto em que Levítico começa. Ele segue então Gênesis e Êxodo em uma seqüência óbvia. Vemos em Gênesis a cura de Deus para a ruína do homem — o Descendente da mulher. Em Êxodo, vemos a resposta de Deus ao clamor do homem — o sangue do Cordeiro. Em Levítico, observamos a provisão divina para a necessidade humana — um sacerdote, um sacrifício e um altar. (É disto que Levítico obtém seu nome. Os sacerdotes de Israel eram os levitas, e a palavra “Levítico” vem do grego leuitikos, significando “aquilo que pertence aos levitas”.) Com toda 114


O LIVRO DE LEVÍTICO (1)

razão Levítico mantém um lugar central entre os cinco livros de Moisés. Com sua doutrina de mediação através do sacerdote, absolvição mediante um sacrifício e reconciliação no altar, ele é o próprio coração do Pentateuco — e do evangelho. Segundo observa C. I. Scofield, “Levítico está relacionado a Êxodo da mesma forma que as epístolas aos evangelhos.” Nos evangelhos somos libertados pelo sangue do Cordeiro. Nas epístolas somos habitados pelo Espírito de Deus. Nos evangelhos, Deus nos fala de fora. Nas epístolas, Deus nos fala de dentro. Nos evangelhos temos a base da comunhão com Deus — redenção. Nas epístolas temos o andar em comunhão com Deus — santificação. Tanto em Levítico como nas epístolas, observamos os múltiplos aspectos da obra de expiação, no que diz respeito aos que já foram remidos. Este é portanto o ponto de vista de Levítico e ele se torna de especial relevância para aqueles que encontraram redenção em Cristo Jesus. Como alguém já disse, esses sacrifícios levíticos talvez sejam “a mais completa descrição” da obra expiatória do Salvador que já nos foi dada. Ao examinar os sacrifícios levíticos, obtemos uma visão mais ampliada e uma idéia melhor do que aconteceu no Calvário. As diferentes facetas do diamante incomparável giram sucessivamente diante de nós, a fim de podermos vê-las bem. O inigualável milagre da graça é visto em sua complexidade e suficiência máximas. A ESTRUTURA O que dizer agora sobre a estrutura de Levítico? Em nosso exame de Gênesis e Êxodo vimos que apreciar sua estrutura é ser guiado com segurança até sua mensagem central e valor permanente. O mesmo acontece com Levítico — a não ser que estejamos extraordinariamente enganados. A r a z ã o da fra s e q u a lific a tiv a , “ a n ão s e r que e s te ja m o s extraordinariamente enganados”, é que as análises de Levítico feitas por conhecidos professores da Bíblia variam consideravelmente. Um nos diz que o livro tem nove divisões, outro declara que são sete, outro seis, outro cinco, outro duas (as duas partes sendo os capítulos 1 a 10 e 11 a 26). Quando os doutores discordam, o que pode fazer o homem comum? Em primeiro lugar, devemos ficar muito firmes em nossa decisão de não permitir que obrigatoriamente qualquer dos livros da Escritura se divida, 115


EXAMINAI AS ESCRITURAS

pois isto seria forçar uma análise artificial — um procedimento cômodo adotado com freqüência por supostos professores bíblicos que têm facilidade em dividir os temas, usando títulos dispostos em aliteração. Devemos examinar cada livro cuidadosamente, como se encontra diante de nós. Tentaremos tratar Levítico deste modo.

As duas partes principais O que encontram os? Exatam ente isto: quaisquer que sejam as subdivisões que possam ou não existir, o livro está com certeza dividido em duas partes principais indicadas de maneira indiscutível. A primeira abrange os capítulos 1 a 17 e a segunda, os capítulos 18 a 26.0 que separa tão claramente o livro desse jeito? Descobrimos que os primeiros 17 capítulos tratam de regulamentos não-morais, enquanto nos 10 restantes encontramos regulamentos relativos à moral. A primeira parte está ligada à adoração, a segunda, à prática. Na primeira parte tudo se relaciona com o tabernáculo. Na segunda, tudo pertence ao caráter e ao comportamento. A parte um mostra o caminho para Deus — pelo sacrifício. A parte dois mostra o andar com Deus — pela santificação. A primeira parte trata da corrupção cerimonial e física. A segunda parte trata da corrupção moral e espiritual. Na primeira parte é fornecida a purificação. Na segunda parte deve ser infligido o castigo. A primeira parte tem a ver com a obtenção da pureza do povo. A segunda está ligada à vida pura do povo.

A mensagem central Antes de começarmos a perguntar se existem subdivisões em Levítico, esta divisão simples do livro em duas partes principais sugere a idéia essencial aqui. Quando consideramos o ponto de vista de Levítico, vimos que Deus agora fala “da tenda”, tendo descido para habitar em comunhão com seu povo remido, e dirige-Se ao povo como tendo sido levado a uma nova relação de comunhão com base na aliança selada pelo sangue. Esta idéia de um novo relacionamento de comunhão é a chave de Levítico. Nas duas partes principais do livro vemos em primeiro lugar (1-17) a base da com unhão no sacrifício propiciatório; depois, a seguir (18-27), as 116


O LIVRO DE LEVÍTICO (1)

obrigações de comunhão na santificação prática. Em outras palavras, a parte um nos mostra afundamento da comunhão dirigida a Deus, e a parte dois nos mostra a condição de comunhão dirigida ao homem. Assim, Levítico trata de comunhão. É a ilustração suprema do Antigo Testamento quanto a essa grande verdade do Novo Testamento expressa em 1 João 1.7: “Se,porém, andarmos na luz, como eleestána luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado”. A primeira parte de Levítico diz: “O sangue nos purifica”. A segunda afirma: “Sim, o sangue nos purifica, mas precisamos andar na luz”. A mensagem do livro inteiro é: através dessas duas coisas — purificação e andar na luz — temos comunhão uns com os outros, e nossa comunhão é verdadeiramente “com o Pai”. Portanto, gravemos isto em nossa mente: nessas duas divisões mais amplas, Levítico é 1. A BASE DA COMUNHÃO — SACRIFÍCIO (1-17) 2. O ANDAR EM COMUNHÃO — SEPARAÇÃO (18-27) Nosso próximo passo é examinar essas duas partes, e encontramos aqui um traçado ordenado, belo e claro. Veja a primeira parte (1-17). Os sete prim eiros capítulos ocupam-se exclusivamente das ofertas a serem apresentadas. Os três capítulos seguintes tratam dos sacerdotes que deveriam apresentar essas ofertas. Os outros seis capítulos são sobre a p u rific a ç ão física e cerim onial do povo, ta n to individual com o nacionalmente, enquanto o capítulo final nesta parte enfatiza o lugar em que as ofertas devem ser colocadas, a saber, o altar que ficava dentro do tabernáculo. Temos assim ofertas, sacerdócio, povo, altar. Ao verificar a segunda parte (18-27), percebemos o mesmo tipo de progressão ordenada. Nos capítulo 18 a 20 temos regulamentos para o povo. Nos capítulos 21 e 22 as ordens referem-se aos sacerdotes. Nos capítulos 23 e 24 encontramos regulamentos para as festas, com uma palavra de estreita ligação no 24 sobre a luz e os pães da proposição no santuário. (As festas eram um memorial periódico de Israel diante de Deus: a luz e os pães eram um memorial perpétuo.) Finalmente, nos capítulos 25 a 27, vemos regulamentos relativos à ocupação de Canaã por Israel. Esta é a ordem na parte dois: povo, sacerdotes, festas, Canaã. Damos a seguir uma análise geral:

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O LIVRO DE LEVÍTICO COMUNHÃO MEDIANTE SANTIFICAÇÃO I. A BASE DA COMUNHÃO — SACRIFÍCIO (1-18) AS OFERTAS (ABSOLVIÇÃO) - 1-7 O SACERDÓCIO (MEDIAÇÃO) - 8-10 O POVO (PURIFICAÇÃO) - 11-16 O ALTAR (RECONCILIAÇÃO) - 17

II. O ANDAR EM COMUNHÃO — SEPARAÇÃO (18-27) REGULAMENTOS PARA O POVO - 18-20 REGULAMENTOS PARA OS SACERDOTES - 21, 22 REGULAMENTOS PARA AS FESTAS ETC. - 23, 24 REGULAMENTOS PARA CANAÃ - 25-27

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O LIVRO DE LEVÍTICO (2)

Lição V 10


NOTA: Leia para este estudo os capĂ­tulos 1 a 7 (marcando as diferentes ofertas), depois leia os capĂ­tulos 8 a 17.


O LIVRO DE LEVITICO (2)

PARTE I (1-17)

(1) As ofertas (1-7) OS SETE primeiros capítulos de Levítico se ocupam das ofertas. Um estudo detalhado dessas ofertas descobre nelas uma fascinação irresistível. Aqui, podemos falar sobre elas somente de forma coletiva; mesmo assim, isto será suficiente para demonstrar sua riqueza de significado espiritual. Esta parte se divide assim:

Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo

1 — As Ofertas 2 — As Ofertas 3 — As Ofertas 4 — As Ofertas 5 — As Ofertas

Queimadas de Manjares Pacíficas pelo Pecado pelas Trangressões

O restante da seção é ocupado pelas “leis” que condicionam essas ofertas (veja 6.8 a 7.38). Havia, portanto, cinco tipos de ofertas prescritas, e a primeira coisa que chama nossa atenção é que elas são divididas em grupos de três e duas. As três primeiras são ofertas de “aroma agradável” (1.9, 13, 17; 2.2, 9; 3.5, 16). As duas restantes são ofertas sem aroma agradável. As três primeiras são voluntárias; as outras duas, compulsórias. As três primeiras contêm o primeiro pronunciamento do Senhor, que abre o livro de Levítico (1.2). As outras duas são introduzidas pelo segundo pronunciamento, que começa em 4.2. Esta divisão deve ficar gravada em nossa mente, conforme mostrará a próxima página.

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EXAMINAI AS ESCRITURAS

} }

Oferta Queimada Oferta de Manjares Oferta Pacífica

Aroma Agradável Voluntária

Oferta pelo Pecado Oferta pelas Trans­ gressões

Oferta sem Aroma Agradável Obrigatória

Essas ofertas estão repletas de significados espirituais, mas seu valor máximo se encontra em seu desvendar tipológico do supremo sacrifício no Calvário. As ofertas de aroma agradável tipificam Cristo em Sua perfeição meritória. As ofertas sem aroma agradável tipificam Cristo suportando sobre Si o demérito do pecador. As de aroma agradável falam do significado que a oferta de Cristo tem para Deus, enquanto as sem aroma agradável expressam o que a oferta de Cristo significa para nós — em relação a elas encontramos aqui as nove ocorrências das palavras “será perdoado” (4.20, 26, 31, 35; 5.10,13, 16,18; 6.7). Note os aspectos distintos dessas ofertas. A oferta queimada tipifica Cristo “oferecendo-se a Deus sem mácula”. Ela prefigura Cristo na cruz, não só suportando o pecado como também executando a vontade de Deus. E-nos mostrada a perfeição da oferta que Cristo faz de Si mesmo, como Deus a vê. A oferta de manjares manifesta tipicamente a perfeita natureza humana de Cristo. A ênfase aqui está na vida ofertada. Ela estabelece a perfeição de caráter que deu à oferta seu valor indescritível. A oferta pacífica fala da comunhão restaurada, resultante da perfeita satisfação apresentada em Cristo. A ira de Deus é aplacada. O homem é reconciliado. Existe paz. Quanto às ofertas sem aroma agradável, a oferta pelo pecado tipifica Cristo como o portador do pecado — “feito pecado por nós” (2 Co 5.21), enquanto a oferta pela trangressão fala dos pecados (plural) e tipifica Cristo como agente da expiação, fazendo restituição devido à ofensa causada pelos nossos delitos. Observe agora a ordem dessas ofertas. Em nosso estudo do tabernáculo vimos que a mobília dele é dada na ordem inversa da abordagem humana. Deus começa com a arca no Santo dos Santos, movendo-se de Si mesmo em direção ao homem. A mesma ordem é seguida nessas ofertas levíticas. 122


O LIVRO DE LEVÍTICO (2)

Deus inicia com a oferta queimada e term ina com a oferta pelas transgressões. Ele acaba onde começamos. Se tomarmos essas ofertas na ordem inversa, portanto, elas correspondem exatamente à ordem de nossa compreensão espiritual de Cristo. Quando nos aproximamos pela primeira vez da cruz, como pecadores despertados e que crêem, vemos imediatamente (em resposta à nossa prim eira necessidade) o seu perdão de nossas muitas transgressões. Contudo, mal começamos a nos alegrar pelo perdão dos nossos pecados e percebemos que existe outra necessidade mais profunda, a saber, o pecado em nossa natureza. Esta é satisfeita por uma percepção maior do significado da cruz. Cristo não “apenas morreu pelos nossos pecados”; Ele suportou o nosso pecado, como tipificado na oferta pelo pecado. Quando compreendemos que tanto os pecados como o pecado foram tratados na cruz é que passamos a ter uma paz maravilhosa com Deus, como estabelecido na oferta pacífica. A seguir, encontramos descanso e alegria, assim como plena aceitação em Deus na perfeição gloriosa de Cristo segundo tipificado na oferta de manjares. Enquanto isso, entramos cada vez mais em comunhão com Deus mediante a plenitude dessa oferta perfeita apresentada a Deus por nós, que é exposta na oferta queimada. Não existe um esplêndido plano divino nisso tudo?

(2) Os sacerdotes (8-10) A parte sobre os sacerdotes é de insuperável interesse. O ponto alto dela é que, para que a comunhão entre os remidos e seu Deus santo seja mantida, não deve haver apenas um sacrifício (como nos capítulos 1-7), mas também um sacerdote (como nos capítulos 8-10). Além da absolvição da culpa é preciso haver mediação. Graças a Deus, o Senhor Jesus é tanto sacrifício quanto sacerdote para Seu povo de fé, de modo que temos acesso a Deus por “um novo e vivo caminho” (Hb 10.20) — um caminho “novo” porque é o caminho da cruz, que fala do sacrifício final pelo pecado; e um caminho “vivo” por ser o caminho da ressurreição, que fala do sacerdote eterno nas alturas. Os três capítulos desta parte são os seguintes:

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Capítulo 8: CONSAGRAÇÃO — separação dos sacerdotes para Deus; Capítulo 9: MINISTRAÇÃO — os sacerdotes começam a servir; Capítulo 10: TRANSGRESSÃO — Nadabe e Abiú oferecem “fogo estranho”. Veja este belíssimo capítulo 8 em que temos a consagração dos sacerdotes. Existe outro capítulo mais rico em significados tipológicos e sugestões espirituais? Consagração representa separação. Os sacerdotes são agora separados para Deus e consagrados por Ele nesta cerimônia de consagração. Na prim eira p a rte do capítulo, tem os a ordem da consagração (w. 1-13). A seguir temos a base da consagração — o sangue (w . 14-36). Observe a ordem da consagração: O SUMO SACERDOTE Lavado — v. 6 Vestido — w . 7, 8 Coroado — v. 9 Consagrado — v. 12

OS OUTROS SACERDOTES Lavados — v. 6 Vestidos — v. 13 Consagrados — v. 30 Responsabilizados — v. 35

A importância tipológica em tudo isto é bela e clara demais para exigir comentários. Observe agora a base da consagração (w. 14-30) — sacrifício. Uma oferta pelo pecado, uma oferta queimada e um “carneiro da consagração” devem ser oferecidos. Arão e seus filhos devem colocar as mãos sobre a cabeça do sacrifício, identificando-se assim com ele; a seguir, o sangue do sacrifício será espargido sobre eles, fazendo com que se identifique com eles. Assim, m ediante um a dupla identificação, os sacerdotes se associavam ao sacrifício expiatório e, com base nisso, eram aceitos e consagrados. A ponta da orelha direita, o polegar da mão direita e o polegar do pé direito devem ser selados com sangue (w . 23, 24). “Uma orelha selada com sangue era necessária para ouvir as comunicações divinas; uma mão selada com sangue era exigida para executar os serviços do santuário; e um pé selado com sangue era necessário para andar pelos pátios da casa do Senhor.” O próprio altar precisava ser aspergido (w. 15,19, 24). O sangue é o grande fundamento de tudo. Deve ser notada a diferença entre a unção de Arão e a de seus filhos. 124


O LIVRO DE LEVÍTICO (2)

Arão é ungido antes de o sacrifício ser imolado (v. 12). Os filhos são ungidos depois da morte, juntamente com a aspersão de sangue sobre eles (v. 30). Obedecendo à sua exatidão característica, a Escritura faz esta distinção por um bom motivo. No ensino dos tipos deste capítulo, Arão, o sumo sacerdote, prefigura o Senhor Jesus, enquanto seus filhos representam , por antecipação, os crentes-sacerdotes da presente dispensação. O Senhor Jesus, que não tinha pecado em Si, não precisava da aspersão de sangue antes de receber a unção do Espírito Santo; e no fato de Arão ser ungido sozinho, antes do derramamento de sangue, vemos um exemplo discriminatório do tipo do Filho de Deus encarnado, que permaneceu absolutamente sozinho até que Se deu no Calvário. Sem o derramamento de sangue, Arão e seus filhos não podiam juntar-se na unção. Mas, depois dele, Moisés unge “Arão... bem como... os filhos de A rão” (v. 30). Uma vez derramado o sangue, Arão e seus filhos — tipificando Cristo e Sua casa sacerdotal — se unem no ministério sacerdotal único; e, assim unidos, todos ficam diante de Deus em virtude do mesmo sacrifício. Existe agora uma identificação mais plena. Nas palavras de Hebreus 2.11, “tanto o que santifica, como os que são santificados, todos vêm de um só”. Só podemos acrescentar uma palavra sobre os capítulos 9 e 10. No capítulo 9, vemos o primeiro ministério efetivo do sacerdócio; isto é feito de modo a tornar-se, desde então, um tipo do verdadeiro ministério sacerdotal. Depois de oferecer sacrifício pelo povo, Arão entra no Santo Lugar como representante do povo e depois volta com a mão de bênção levantada como transmissor da bênção divina ao povo (v. 23). Todo o ministério foi “como o Senhor ordenara” (v. 10). Portanto, ele foi aceito pelo Senhor, sendo essa aprovação confirmada pelo aparecimento da glória divina (w . 23, 24): “Então entraram Moisés e Arão na tenda da congregação; e, saindo, abençoaram o povo; e a glória do Senhor apareceu a todo o povo. E eis que saindo fogo de diante do Senhor, consumiu o holocausto e a gordura sobre O altar; O QUE VENDO O POVO, JUBILARAM E PROSTRARAM-SE SOBRE OS SEUS ROSTOS”.

Este cenário glorioso no final do capítulo 9, infelizmente, muda depressa. No capítulo 10, o mesmo fogo que consumiu a oferta queimada 125


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sobre o altar agora salta adiante e devora dois sacerdotes! Nadabe e Abiú oferecem “fogo estranho” diante do Senhor, “o que lhes não ordenara”. Este é o pecado da presunção, ao qual se segue súbito e terrível juízo. Em contraste com o capítulo 9, com sua aprovação e confirmação do sacerdócio, vemos agora presunção e rejeiçãol A oferta do “fogo estranho” feita por Nadabe e Abiú era “adoração da vontade”, “da carne”. Não se baseava na vontade revelada de Deus. Tratava-se de uma intrusão vã, uma violação do privilégio sacerdotal, sendo absolutamente repudiada. Os sacerdotes de Israel devem aprender imediatamente e para sempre a andar segundo a regra inflexível de obediência completa à vontade e palavra de Deus. Há muitos Nadabes e Abiús hoje. A presunção deles quase sempre fica longo tempo sem castigo — pois a presente dispensação é da graça', mas o capítulo 10 de Levítico é uma advertência solene de que, embora o juízo tarde, ele certamente virá no final. De Deus não se zomba!

(3) O povo (11-16) Os capítulos 11 a 16 dizem-nos que o povo de Deus deve ser um povo limpo, interna e externamente. Deve haver limpeza física e também deve haver limpeza cerimonial de tudo que possa contaminá-lo moral e espiritualmente aos olhos de Deus. Deve ser higiênico e sacrificialmente purificado. O propósito do ensino nesta seção é “fazer diferença entre o imundo e o limpo” (11.47) e separar “os filhos de Israel das suas impurezas” (15.31). Veja também 16.30: “... naquele dia se fará expiação por vós, para purificar-vos; e sereis purificados de todos os vossos pecados perante o Senhor”. Nesta seção temos o “imperativo categórico” da pureza. Os assuntos tratados são: consumo de carne (11), parto (12), lepra, vestes e casas (13, 14), higiene sexual (15) e purificação nacional pelo sacrifício expiatório (16). Podemos classificar o conteúdo desses capítulos de maneira mais fácil de lembrar, dizendo que esta seção insiste em: alimentos limpos corpos limpos roupas limpas 126

11

— 12-13.46 — 13.47-59


O LIVRO DE LEVÍTICO (2)

casas limpas contatos limpos nação limpa

— 14.33-57 — 15 — 16

Não podem os com entar aqui o conteúdo desses capítulos. Eles constituem um estudo separado, devendo ser lidos cuidadosamente com a ajuda de um bom comentário. O capítulo 16, o grande capítulo sobre o Dia da Expiação anual, será considerado mais tarde.

(4) O altar (17) A primeira das duas partes principais de Levítico termina com esta breve seção sobre o altar (17). Nenhum leitor atento pode deixar de impressionar-se com a solene linguagem enfática deste capítulo 17, relativo ao lugar do sacrifício. Cinco vezes o lugar divinamente ordenado é estabelecido com severa clareza. “Qualquer homem da casa de Israel que imolar boi, ou cordeiro, ou cabra, no arraial ou fora dele, e os não trouxer à PORTA D A TENDA da c o n g re g a ç ã o , com o o f e r ta ao S e n h o r d ia n te do SEU TABERNÁCULO, a tal homem será imputada a culpa do sangue: derramou sangue; pelo que esse homem será eliminado do seu povo; para que os filhos de Israel, trazendo os seus sacrifícios, que imolam em campo aberto, os apresentem ao Senhor, à p o r t a DA t e n d a da congregação, ao sacerdote, e os ofereçam por sacrifícios pacíficos ao Senhor. O sacerdote espargirá o sangue sobre o altar do Senhor, à PORTA DA TENDA da congregação, e queimará a gordura de aroma agradável ao Senhor. Nunca mais oferecerão os seus sacrifícios aos demônios, com os quais eles se prostituem; isso lhes será por estatuto perpétuo nas suas gerações. Dize-lhes, pois: Qualquer homem da casa de Israel, ou dos estrangeiros que peregrinam entre vós, que oferecer holocausto ou sacrifício, e não o trouxer à PORTA DA t e n d a da congregação, para oferecê-lo ao Senhor, esse homem será eliminado do seu povo” (17.3-9).

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O significado disto para nós é claro. Há um lugar, e somente um, onde Deus, em graça soberana, decidiu encontrar-se com os pecadores arrependidos, a cruz — da qual o altar à porta da tenda da congregação era um tipo. Nenhum outro sacrifício! Nenhum outro sacerdote! Nenhum outro altar! “Porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos”. (At 4.12). “Ali e só ali” — se pudermos emprestar as palavras de outrem — “o direito de Deus sobre a vida foi devidamente reconhecido. Rejeitar este ponto de encontro é tra z e r juízo sobre si m esm o — é p iso tear as justas reivindicações de Deus e arrogar o direito à vida que todos perderam ”. De pleno acordo com esta ênfase sobre o lugar específico do sacrifício, os versículos restantes do capítulo 17 explicam a santidade do sangue e o significado dos sacrifícios de sangue. No versículo 11 lemos: “Porque a vida da carne está no sangue. Eu vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas; porquanto é o sangue que fará expiação em virtude da vida”. É bom notar, porém, que nem mesmo o sangue possui valor expiatório, a não ser sobre o altar. Deus diz: “Eu vo-lo tenho dado (o sangue) sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas”. É preciso que seja sangue, e deve ser sobre o único altar. A nota de Scofield sobre este versículo diz: “O significado de todo sacrifício é explicado aqui. Cada oferta era uma execução da sentença da lei sobre um substituto do ofensor, e cada oferta apontava para a morte substitutiva de Cristo que por si só vindicou a justiça de Deus ao passar sobre os pecados dos que ofereceram os sacrifícios típicos” (Rm 3.24,25). De novo: “O valor da ‘vida’ é a medida do valor do ‘sangue’. Isto dá ao sangue de Cristo o seu valor inconcebível. Quando ele foi derramado, o Deus-homem sem pecado deu a sua vida.” O sangue derramado é a base de tudo. E mediante o sangue derramado do Cordeiro no Calvário — nada mais, nada menos, nenhuma outra coisa — que temos a nossa reconciliação e salvação. Assim, na primeira metade de Levítico temos — (1) as ofertas, (2) os sacerdotes, (3) o povo e (4) o altar. G uardem os bem em nosso coração as grandes verdades desses capítulos!

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O LIVRO DE LEVÍTICO (3)

Lição Ns 11


N O T A : Para e ste estu d o leia cu id ad osam en te os capítulos 18 a 24.

O PONTO CENTRAL DE LEVÍTICO (PARTE II: 18-27) “Aqui (nas palavras ‘Eu sou o Senhor vosso Deus’) temos o fundamento de toda a superestrutura de conduta moral apresentada nesses capítulos. A atuação de Israel deveria condizer com o fato de o Senhor ser o seu Deus. Eles deveriam comportar-se de modo digno de uma posição tão elevada e santa. Deus tinha a prerrogativa de estabelecer o caráter especial e a linha de comportamento, a fim de que se tornassem um povo com quem Ele se agradasse de associar o Seu nome. No momento em que Ele entrava em relação com um povo, a ética deste deveria assumir um caráter e tom dignos dEle. Este é o verdadeiro princípio de santidade para o povo de Deus em todas as eras. Ele deve ser caracterizado pela revelação que Deus fez de Si mesmo. Sua conduta deve basear-se no que Ele é, não no que eles mesmos são. Todo o livro de Levítico converge para estas palavras: ‘Santos sereis, porque eu, O SENHOR VOSSO DEUS, sou santo’ (19.2).” C. H. MACKINTOSH


O LIVRO DE LEVITICO (3)

PARTE II (18-27) A SEGUNDA PARTE de Levítico, como já notamos, refere-se ao andar do povo de Deus — sua moral e sua conduta. A simples santificação posicionai (como na parte um) não basta; é preciso haver santificação prática (o propósito na parte dois). Os novos capítulos começam com esta séria responsabilidade:

“Disse mais o Senhor a Moisés: Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Eu sou o Senhor vosso Deus. Não fareis segundo as obras da terra do Egito, em que habitastes, nem fareis segundo as obras da terra de Canaã, para a qual eu vos levo, nem andareis nos seus estatutos. Fareis segundo os meus juízos, e os meus estatutos guardareis, para andardes neles: Eu sou o Senhor vosso Deus. Portanto os meus estatutos e os meus juízos guardareis; cumprindo os quais, o homem viverá por eles: Eu sou o Senhor” (18.1-5). As p a la v r a s “ E U S O U O S E N H O R V O S S O D E U S ” expressam imediatamente e para sempre a razão básica da insistência de Deus na santidade de Seu povo. Ele deve ser santo por causa daquilo que Ele mesmo é. Essas palavras ocorrem quase cinqüenta vezes nesses últimos capítulos de Levítico, como a nota dominante numa partitura musical — “EU SOU O SENHOR”.

As quatro seções nesta segunda parte de Levítico são as seguintes:

(1) O povo (18-20) Esta seção cobre os capítulos 18-20 e consiste de regulamentos morais para o povo todo. Esses três capítulos, marcados por uma introdução formal (18.1-5) e um fecho formal (20.22-26), são claramente uma seção distinta. Em primeiro lugar, no capítulo 18, temos proibições sexuais', a 131


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seguir, no capítulo 19, advertências gerais; e finalmente, no capítulo 20, sanções penais contra os ofensores. As proibições no capítulo 18 não são dadas como um código sexual completo, mas dirigidas contra as violações mais grosseiras da castidade, que prevaleciam ofensivamente entre as nações idólatras ao redor de Israel — que na verdade sempre prevaleceram e continuam prevalecendo entre os adeptos da idolatria e do paganismo. As razões da proibição de casamento entre parentes próximos são válidas tanto hoje quanto naquele tempo. Em contraste com a permissividade de nossos dias, as proibições deste capítulo 18 mostram o modo como Deus valoriza a pureza nos relacionamentos sexuais. Nada é mais vital para qualquer povo do que a proteção adequada dos relacionamentos conjugais e familiares. Já foi muito bem dito que, na atualidade, quando as leis relativas ao casamento e divórcio são decididas pelo “voto da maioria”, sem se considerar a lei de Deus, existe uma grande necessidade de os cristãos defenderem a santidade do matrimônio e das relações familiares! As longas listas de preceitos morais e sanções penais nos capítulos 19 e 20 também não devem ser consideradas completas, pois cobrem apenas os pontos que afetam diretamente o bem-estar de Israel. Não podemos examiná-las aqui. Elas devem ser lidas cuidadosamente ao lado de um bom comentário. A retidão é exigida em todos os relacionamentos da vida. A desobediência deve ser castigada com firmeza e severidade. Não deve ser permitida nenhuma piedade sentimentalista em relação ao malfeitor, pois isso prejudica a proteção moral da comunidade inteira. Esta é também uma lição que muitos que se apiedam dos criminosos em nossos dias fariam bem em aprender.

(2) Os sacerdotes (21-22) Os capítulos 21 e 22 referem-se especialmente aos sacerdotes. Se o povo como um todo devia ser santificado ao Senhor, quanto mais os sacerdotes! Da mesma forma como o tabernáculo era uma estrutura dividida em três seções — átrio externo, Santo Lugar e Santo dos Santos, assim também a nação fora disposta em três partes que correspondiam a estas — a congregação, o sacerdócio e o sumo sacerdote. A medida que as três partes do tabernáculo se tornavam cada vez mais santas sucessivamente, o 132


O LIVRO DE LEVÍTICO (3)

mesmo deveria acontecer com a nação — a santificação de Israel alcançaria sua expressão culminante no sumo sacerdote, que usava então a coroa de ouro gravada com as palavras “Santidade ao Senhor”. Os mais altos privilégios estavam ligados ao sacerdócio. O Senhor escolhera uma tribo e dessa tribo uma certa família; dessa família, um certo homem; a este e a sua casa Ele conferira os privilégios exclusivos de se aproximarem dEle como Seus intermediários indicados e ungidos por Ele mesmo. Os sacerdotes deveriam, portanto, se caracterizar pela mais absoluta santidade; e é para asseguar isto que esses novos regulamentos são transmitidos aqui. A seção divide-se em três partes: primeira, práticas proibidas (21.1-15), relativas aos relacionamentos sociais dos sacerdotes; segunda, pessoas proibidas (21.16-22.16), referentes às coisas que desqualificavam a pessoa para servir ou comer das coisas no tabernáculo; terceira, sacrifícios proibidos (22.17-33), referentes aos animais imperfeitos que não deviam ser oferecidos no altar do Senhor. Em outras palavras, esses capítulos nos dizem o que o sacerdote não deve fazer, não deve ser, não deve oferecer. O sacerdote do Senhor, acima de todos os homens, deve ser separado de tudo que contamina, para que o santuário de Deus não seja profanado. (A palavra “profanar” ocorre nesses dois capítulos nada menos que doze vezes!) Esta seção de Levítico fala poderosamente ao povo do Senhor hoje. Como é grande a necessidade da verdadeira santificação entre nós, que fom os con stitu íd o s um sacerdócio esp iritu al em C risto! Com o necessitamos entender claramente a diferença — ilustrada nesta seção — entre nossa posição e nosso estado como sacerdotes do Senhor! Todos os filhos de Arão, jovens ou velhos, defeituosos ou perfeitos, eram sacerdotes do Senhor, em virtude do nascimento e relação de sangue com Arão, e nada podia quebrar essa relação: todavia, aqueles entre eles que tivessem defeito físico estavam proibidos de oficiar no altar ou de entrar além do véu do santuário (21.21-23); e os que estivessem de alguma forma contaminados não tinham sequer permissão de comer da porção dos sacerdotes (22.6,7). Mesmo assim, todo verdadeiro crente é um sacerdote por meio da união viva com o Senhor Jesus, e nada pode quebrar essa união quando ela realmente existe. Mas nem todos os cristãos gozam da mesma intimidade de comunhão ou exercem o mesmo ministério dentro do véu! União é uma coisa, comunhão é outra. Vida é uma coisa, ministério 133


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é outra. Posição é uma coisa, estado é outra. Relacionamento é uma coisa, servir dentro do véu é outra. Quantas deformidades e contaminações barram muitos de nós desse caminhar e ministério elevados que poderiam ser nossos! sim, que poderiam ser nossos. Embora não exista registro de qualquer provisão para corrigir milagrosamente as deformidades físicas que possam ter incapacitado alguns dos filhos de Arão, mesmo assim as deformidades e contaminações espirituais que desqualificam muitos de nós para um ministério sacerdotal que glorifique a Deus, fazendo a ligação entre o santuário celestial e nossos semelhantes, podem desaparecer completamente mediante o sangue do Cordeiro e o fogo purificador do Espírito Santo.

(3) As festas (23) Cada nova seção de Levítico parece disputar com a precedente na questão de interesse. Esta lista das “festas” religiosas anuais de Israel m erece m aior atenção do que podem os dar nesta curta sinopse. Infelizmente, para a maioria dos leitores a palavra “festa” induz ao erro, como usada aqui, porque o termo “festa” é usado para traduzir duas palavras hebraicas de sentidos diferentes: chag (plural chaggim), em hebraico, foi corretam ente traduzida por “festa”; e m o ’ed (plural m o ’adim), em hebraico, significa simplesmente um período ou época determinada. Para orientação dos leitores podemos dizer que em cada caso onde ocorre a forma singular “festa”, neste capítulo 23 de Levítico, a palavra hebraica é chag; e em cada caso onde a forma plural ocorre, o termo hebraico é m o ’adim (plural de m o ’ed). A questão agora é esta: neste capítulo 23 temos uma lista de m o ’adim (épocas determinadas ou observâncias anuais); mas nem todos esses m o ’adim, ou observâncias anuais determinadas, eram chaggim (“festas” verdadeiras). Na realidade, apenas três m o ’adim (observâncias anuais) eram chaggim (“festas”), como veremos. Sendo essas três “festas” (chaggim) observâncias anuais fixas como as outras, elas foram incluídas aqui na lista mais completa das épocas anuais estabelecidas (m o ’adim). O que tem os então neste capítulo 23 é um a lista de “épocas determinadas” que Deus estabeleceu para Israel observar; teria sido 134


O LIVRO DE LEVÍTICO (3)

melhor se a Versão Revista e Atualizada de Almeida as tivesse chamado por esse nome em lugar da palavra “festa”, já que as três que ião realmente festas estão incluídas aqui entre as “épocas determinadas” ou m o ’adim. O que eram, portanto, essas “épocas estabelecidas” anuais? Havia cinco delas: 1. A Páscoa (w. 5-14) 2. O Pentecoste (w. 15-22) 3. O Toque das Trombetas (w. 23-25) 4. O Dia da Expiação (w. 26-32) 5. A Festa dos Tabernáculos (w. 33-44) De todas elas, apenas três eram realmente “festas”: (1) a Festa da Páscoa — chamada de Festa dos Pães Asmos, em Êxodo 23.15; 34.18 e outros lugares; (2) a Festa do Pentecoste— chamada de Festa das Semanas e Festa das Primícias, em Êxodo 34.22 e outros trechos; (3) a Festa dos Tabernáculos — chamada de Festa da Sega, em Êxodo 23.16 e outros lugares. O caráter especial dessas três é visto no fato de que duas vezes em Êxodo, e novam ente em Deuteronôm io, elas são agrupadas e enfaticamente ordenadas como as três grandes “festas” anuais da nação de Israel, viz.— “Três vezes no ano me celebrareis festa: Guardarás a festa dos pães asmos: sete dias comerás pães asmos, como te ordenei, ao tempo apontado no mês de abibe, porque nele saíste do Egito; ninguém apareça de mãos vazias perante mim. Guardarás a festa da sega dos primeiros frutos do teu trabalho, que houveres semeado no campo, e a festa da colheita, à saída do ano, quando recolheres do campo o fruto do teu trabalho” (Ex 23.14-16). “Três vezes no ano todo varão entre ti aparecerá perante o Senhor teu Deus, no lugar que escolher, na festa dos pães asmos, e na festa das semanas, e na festa dos tabernáculos; porém não aparecerá de mãos vazias perante o Senhor” (Dt 16.16). Todas essas cinco m o’adim, ou épocas determinadas, porém, têm isto em comum: são ocasiões de sábados especiais ou descanso. Todas elas eram tempos de convocação santa ou reuniões do povo para adoração e alegres ações de graças. 135


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A Bíblia “Scofield” estabelece a existência de sete em lugar de cinco “épocas determ inadas” neste capítulo 23 de Levítico. Isto é feito dividindo-se a Páscoa em três festas separadas e chamando-as: (1) Páscoa; (2) Pães Asmos; e (3) Primícias. Essa divisão, porém, não é justificada pelo texto neste ponto, não sendo apoiada por qualquer outra passagem da Bíblia. Veja os versículos 5 e 6 e verifique como a Páscoa e os dias dos Pães Asmos são evidentemente uma única e a mesma observância — como em todas as outras Escrituras em que são mencionadas. Também não há indicação de que os versículos 9 a 14 prescrevam outra festa separada. O que temos nesses versículos é simplesmente uma provisão suplementar relativa às futuras observâncias da Páscoa, depois de Israel ter entrado em Canaã (v. 10). O fato de a apresentação das primícias da colheita da cevada estar incluída na observância da Páscoa, ou dos Pães Asmos, fica claro pelo versículo 12, onde aprendemos que o molho seria apresentado “no dia imediato ao sábado” — ou seja, o sábado durante a Festa dos Pães Asmos. Além disso, fazer desta nova provisão uma festa separada e chamá-la de Festa das Primícias é confundi-la com a verdadeira Festa das Primícias (Pentecoste), mencionada logo a seguir (w . 15-22). Outros tentam mostrar que existem sete “épocas determinadas” neste capítulo 23, dividindo a Páscoa em duas festas e depois acrescentando, às seis obtidas, o sábado semanal mencionado no versículo 3. Mas o sábado semanal é citado aqui não para ser incluído nessas “épocas determinadas” anuais, mas para separá-lo delas. Se houvesse qualquer dúvida possível sobre isso, os versículos 37 e 38 iriam certamente fazê-la desaparecer, uma vez que lemos: “São estas (cinco) as festas do Senhor... além dos sábados do Senhor”. Mais ainda, o sábado era uma observância semanal, enquanto todas as “épocas determinadas” eram anuais. Na verdade, os que se esforçam para tornar as “épocas determinadas” de Levítico 23 um número sete simbólico falham em seu propósito! pois, como verem os, existem na verdade duas outras grandes “épocas determinadas” nacionais ordenadas a Israel, além das de Levítico 23. Elas são encontradas no capítulo 25: o sábado do sétimo ano (ou ano sabático) e o ano do jubileu (que deveria marcar um período de 49 anos). Assim sendo, havia sete grandes e periódicas observâncias nacionais obrigatórias para Israel:

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O LIVRO DE LEVÍTICO (3)

1. A 2. A 3. O 4. O 5. A 6. O 7. O

Festa da Páscoa Festa do Pentecoste Toque das Trombetas Dia da Expiação Festa dos Tabernáculos Ano Sabático Ano do Jubileu

Vemos também que, com o sábado especial do sétimo mês (O Toque das Trombetas), o sistema sabático de Israel consistia de um ciclo repetido de sétimo dia, sétimo mês, sétimo ano e sete vezes sete anos. Os sábados especiais ou períodos de descanso de Israel estavam ligados às cinco “épocas fixas”. Desse modo, incluindo o sábado semanal, parece ter havido dez sábados, como segue: 1. O sábado semanal 2. O primeiro dia dos Pães Asmos 3. O sétimo dia dos Pães Asmos 4. A Festa do Pentecoste 5. O primeiro dia do sétimo mês (Trombetas) 6. O Dia da Expiação (décimo dia do sétimo mês) 7. O primeiro dia da Festa dos Tabernáculos 8. O oitavo dia da Festa dos Tabernáculos 9. O Ano Sabático (25.4) 10. O Ano do Jubileu (25.10,11) Além desses, o prim eiro dia de cada mês, em bora não fosse verdadeiramente um sábado, era assinalado pelo toque de trombetas e ofertas especiais. Esses primeiros dias eram chamados de “princípios dos meses” (Nm 10.10; 28.11, 28). Tinham também o nome de “luas novas”, porque o calendário mensal hebraico era lunar e, portanto, o primeiro dia do mês sempre coincidia com a “lua nova” (veja 2 Cr 2.4; Is 66.23, etc.). Embora o mês judaico fosse lunar, parece igualmente certo que o ano judaico era solar, caso contrário, os diferentes meses iriam ocorrer em é p o c a s v a ria d a s com o p a s s a r dos an o s — o p rim e iro m ês (correspondendo mais ou menos ao nosso mês de abril) seria algumas vezes na primavera e outras no inverno, ao passo que sabemos que os meses eram fixos de acordo com as estações. Assim sendo, o sétimo mês, por exemplo, sempre correspondia à época da colheita. A diferença entre 137


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o ano lunar de 354 dias (29V4x 12) e o ano solar de 36514 dias era provavelmente anulada a cada dois ou três anos por um mês intercalado. O propósito de todas essas “estações fixas” e observâncias mensais era reconhecer que toda colheita e demais bênçãos vinham de Deus; que cada novo ano e cada novo mês deveriam ser dedicados a Deus; que a terra pertencia a Deus e só era ocupada por causa da sua bondade; para ser um memorial de Israel diante de Deus e uma lembrança constante a Israel de sua relação especial de aliança com o Senhor seu Deus. Não há dúvida também de que promoviam o sentido de unidade nacional. Em seus significados simbólicos e tipológicos essas datas abrangem toda a área das verdades redentoras e grande parte das dispensacionais. A idéia unificadora transmitida através delas é o reconhecimento do Senhor como Fonte e Sustento da vida do Seu povo. Elas são chamadas de “festas do Senhor"-, mas infelizmente nos dias do Novo Testamento haviam se deteriorado em “festas dos judeus" (Jo 5.1; 6.4). Observou-se com acerto que “as instituições divinas são rapidamente desfiguradas nas mãos do homem”. Todavia, o interesse especial dessas “estações fixas” para nós é muito deslocado o fato de estabelecerem tipologicamente grandes verdades do Novo Testamento. Vamos examiná-las com brevidade neste capítulo 23 de Levítico.

A Festa da Páscoa (leia os versículos 5-14) Esta celebração, que começava ao cair da noite no décimo quarto dia do primeiro mês, comemorava a libertação de Israel do Egito. Ela vem em primeiro lugar porque fala daquilo que tem precedência na redenção — o Cordeiro morto e a apropriação do sangue derramado como proteção no julgamento. O cordeiro da Páscoa deveria ser morto e comido na noite do décimo quarto dia. A morte fala de salvação; os festejos, de comunhão. Então, a partir do décimo quinto dia, seguiam-se os sete dias de pães asmos. O fermento é o símbolo da corrupção moral, do pecado. O fato de Israel abster-se dele por sete dias (número simbólico significando perfeição) tinha o sentido de ensinar que os remidos devem separar-se do mal e ser um povo santo. Paulo aplica o significado tipológico disto em 1 Coríntios 5.7, 8. 138


O

TABERNÁCULO

-Acampamento

Coberturas Santo dos Santos

Arca Propiciatório Portão

Querubim

Átrio

Glória Shekinah

Altar de bronze

Altar do incenso

Pia e pedestal

Mesa dos pães da proposição

Cortinas

Candelabro


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O primeiro e o último desses sete dias deviam ser sábados em que não se fazia qualquer “trabalho servil” e uma “oferta queimada” deveria ser oferecida diariam ente ao Senhor. Veja a figura aqui — o homem “descansou de suas obras” (Hb 4.10) e descansa na sua aceitação por parte de Deus mediante o aroma que sobe da oferta queimada. Por último, “no dia imediato ao sábado” (v. 12), eles deviam levar “um molho das primícias” da colheita para apresentação ao Senhor. Parece haver um significado tríplice neste ponto. A própria nação de Israel era uma espécie de primícia, ou “primogênito”, para o Senhor em seu plano redentor para as nações. Os cristãos são também vistos “como que primícias” (Tg 1.18). Mas a referência é principalmente ao Senhor Jesus, que ressuscitou dentre os mortos no primeiro dia da semana (“no dia imediato ao sábado”). “Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem” (1 Co 15.20).

A Festa do Pentecoste (leia os versículos 15-22) Esta observância fora fixada para “o dia imediato ao sétimo sábado”, a partir do dia da oferta movida. Ela se realizava, portanto, apenas “cinqüenta dias” mais tarde (v. 16); daí o nome “Pentecoste” nos dias do Novo Testamento (depentekoste, feminino depentekostos, o ordinal grego equivalente a qüinquagésimo). O molho de cevada da Páscoa marcava o começo da c o lh e ita de cereais. Os p ã es movidos do Pentecoste representavam sua conclusão. O molho movido era o cereal obtido diretamente da colheita de Deus. Os pães movidos do Pentecoste eram o cereal pronto para alimento do homem. Esta observância fala tipologicamente daquele grande Pentecoste do Novo Testamento que ocorreu exatamente cinqüenta dias depois da ressurreição do Senhor, a saber, a vinda do Espírito Santo sobre os remidos em Cristo (At 2). Ele é “o tipo do povo de Deus reunido pelo Espírito Santo e apresentado diante dEle em ligação com toda a preciosidade de Cristo”. Note a singular prescrição para que os dois pães movidos sejam “cozidos com fermento” (v. 17). Isto está de acordo com o propósito do tipo aqui; pois, mesmo nos pães espirituais movidos do Novo Testamento, naquele povo comprado com sangue e consagrado a Deus, em Cristo, e fundido em união espiritual pelo Espírito Santo, o fermento do pecado ainda 140


O LIVRO DE LEVÍTICO (3)

subsiste. E consolador ver, portanto, que com os dois pães movidos deviam ser ofertadas uma oferta pelo pecado e ofertas pacíficas, assim como as ofertas de aroma agradável, indicando que, apesar da presença do mal na natureza, há aceitação e comunhão mediante o sacrifício de Cristo divinamente provido.

O Toque das Trom betas vinha em primeiro lugar nesse trio de observâncias anuais que caíam no sétimo mês. Duas coisas devem ser notadas. Primeira, elas ficavam próximas umas das outras. Segunda, elas estavam bastante separadas das duas primeiras festas do ano. Entre a festa do Pentecoste e a do Toque das Trombetas, no primeiro dia do sétimo mês, havia um lapso de três meses e meio. O futuro mostrará como este agrupamento dos tipos com a separação no meio está repleto de profecia, pois essas observâncias do sétimo mês antecipam a época em que Israel será novamente reunido no final da era presente. O sétimo mês era, principalmente, uma época sabática do ano de Israel. O Toque das Trombetas no primeiro dia representava o chamado do Senhor para que Israel se reunisse em preparação para os dois grandes eventos que se seguiam neste sétimo mês: o Dia da Expiação anual (no décimo dia), a cerimônia mais solene do ano, quando o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos para fazer expiação por todo o povo (w. 26-32); e, depois disso, a Festa dos Tabernáculos, a conclusão da colheita, e a última convocação religiosa do ano (w. 33-44). Como vimos, a descrição completa do Dia da Expiação é dada no capítulo 16. Não precisamos voltar a ela, a não ser para notar que o sumo sacerdote, depois de entrar no Santo dos Santos para aspergir o sangue sobre e diante do propiciatório, deveria voltar até o povo, usando suas vestes esplêndidas. Esta última parte do tipo ainda não foi cumprida. O Senhor Jesus, o verdadeiro Sumo Sacerdote de Israel, entrou no santuário celestial, com o sangue do sacrifício perfeito, mas deve voltar ainda para o seu povo (Hb 9.24-28). Nessa ocasião haverá também um Israel arrependido, sendo significativo que neste capítulo 23 de Levítico a ênfase é colocada exatamente sobre isso. Três vezes é dito ao povo de Israel que 141


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nesse dia devem “afligir” suas almas (w. 27,29, 32). Em correspondência a este Dia da Expiação, no final do verão e estação da colheita, virá um dia em que a Israel terrena dirá: “A colheita já passou, o verão terminou e nós não fomos salvos”. A seguir, eles olharão com fé contrita para Aquele a quem traspassaram e serão salvos. Será nesse momento que acontecerá o cumprimento do tipo da Festa dos Tabernáculos (mais estritamente, a festa das “tendas”, do plural succoth, em hebraico), e a glória da reunião final de Israel. Esta Festa dos Tabernáculos durava mais do que qualquer outra das m o ’adim, ou “estações fixas” do calendário de Israel, e os versículos que a descrevem mostram que era a época do ano caracterizada por suprema alegria festiva. Ela se reportava ao êxodo de Israel do Egito. “Sete dias habitareis em tendas de ramos; todos os naturais em Israel habitarão em tendas; para que saibam as vossas gerações que eu fiz habitar os filhos de Israel em tendas, quando os tirei da terra do Egito: Eu sou o Senhor vosso Deus” (w . 42, 43). E interessante notar que a primeira parada dos israelitas ao sairem do Egito foi Sucote (Ex 12.37; 13.20), cujo nome, como indicado acima, é o plural hebraico equivalente a “tendas”. Mas, em seu significado tipológico, a Festa dos Tabernáculos também aponta para nós o futuro, aquele sétimo milênio da história que virá, quando “todos os que restarem de todas as nações que vieram contra Jerusalém, subirão de ano em ano para adorar o Rei, o Senhor dos Exércitos, e para celebrar a festa dos tabernáculos... Naquele dia será gravado nas campainhas dos cavalos: SANTO AO SENHOR” (Zc 14.16, 20a).

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Lição N6 12


N O T A : Para e ste estu d o leia L evítico 25 a 27.

“Um dos aspectos mais característicos e proeminentes da Bíblia, considerada como um todo, que a percorre desde o início até o fim e que a distingue imediatamente de todos os outros livros, é que ela subordina tudo à idéia de DEUS. Não é sem razão que a Bíblia é chamada de Livro de Deus. Isso aconteceria, de modo muito compreensível, mesmo se fosse inteiramente falsa ou se não existisse absolutamente um Deus. Desde a primeira sentença até a última, Ele é o seu grande tema, o Alfa e o Ômega.” HENRY ROGERS


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PARTE II — C O N C L U S Ã O

(4) A terra (25-27) A SEÇÃO FINAL de Levítico consiste dos capítulos 25 a 27 e trata especialmente da ocupação de Canaã por Israel. Em Êxodo e Levítico encontramos várias vezes palavras tais como “quando entrares na terra...”, o que é natural, uma vez que a totalidade da Lei dada através de Moisés antecipava a chegada de Israel em Canaã e seu estabelecimento ali. Estes três últimos capítulos de Levítico, porém, tratam quase exclusivamente da terra e das condições de sua ocupação por Israel. Encontramos nada menos que trinta referências à “terra” nesses capítulos. O capítulo 25 determina a observação dos dois sábados periódicos “de descanso solene para a terra”, a saber, o sétimo ano (vv. 1-7) e o quinquagésimo (w. 8-55). Estes sábados seriam como um reconhecimento da propriedade da terra por parte de Deus e da permanência de Israel com base na fidelidade à aliança (v. 23). Essa foi uma medida que favoreceu a terra, como a ciência agrícola reconheceria mais tarde. Foi uma oportunidade graciosamente providenciada para o descanso alegre do povo — pois, embora em sentido estrito fossem períodos de descanso “para a terra”, todavia, como um subproduto previsto, o povo gozaria do repouso ocasionado. Assim, esses sábados da terra serviriam também para pôr termo à cobiça. A cada sete anos, o judeu deveria suspender seus esforços de lucro. Ele deveria até mesmo desistir de seu direito à produção espontânea dos seus campos, de modo que todos igualmente — ricos e pobres, gado e animais domésticos — fossem sustentados por ela (w. 5, 6). No caso do jubileu, que se seguia ao sétimo ano de repouso, esta restrição abrangia dois anos completos. Se combinarmos isto com o regulamento severo de que não se podia cobrar juros sobre dinheiro ou mercadorias emprestadas a outro judeu (w. 35-38) e com a outra regra de que no jubileu todos deviam ser libertados, vemos ainda mais claramente esta repressão da cobiça. Além do mais, esses descansos sabáticos tinham 145


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o propósito de fazer aumentar a fé que o povo tinha em Deus e cultivar um sentido de dependência confiante nEle (w. 20-22). É possível, no entanto, que o principal objetivo dos regulamentos neste capítulo 25 fosse o de assegurar ao máximo “a distribuição eqüitativa de riqueza, evitando acúmulos excessivos de terra ou capital nas mãos de poucos enquanto a massa ficava na pobreza”. Não podemos examinar aqui esses interessantes regulamentos em detalhe, mas aconselhamos que sejam lidos com cuidado, tendo-se em mente as considerações acima. A chave para o sétimo ano sabático é a palavra “descanso” (v. 4). Deveria ser um descanso de três maneiras — (1) para a terra, (2) do trabalho braçal, (3) da dívida (ver Dt 15.1-11). O ponto principal do ano do jubileu é a palavra “liberdade” (v. 10). Ele proporcionava liberdade — (1) ao escravo, (2) à propriedade, (3) ao solo em si (veja abaixo). Como acontecia com as cinco “estações fixas” no capítulo 23, existe aqui também um conteúdo tipológico. Tanto o ano sabático como o ano do jubileu deveriam começar no Dia da Expiação (v. 9), no qual, como vimos, Israel deveria manifestar arrependimento especial pelo pecado da nação. Esses anos sabáticos começavam no momento em que o sumo sacerdote aparecia diante do povo depois de ter feito expiação pela nação no Santo dos Santos. Os dois anos citados apontam para o futuro, para a redenção e consumação finais que ainda estão por vir. O “sábado de descanso” do sétimo ano, depois de seis anos de trabalho, fala daquele grande sétimo período de mil anos que ainda virá, introduzido pelo segundo advento de Cristo. Depois de seis mil anos a partir de Adão, que estão chegando agora ao fim, a terra irá descansar então sob o reinado benigno do verdadeiro Rei de Israel.1 O jubileu, que deveria ser o ano depois do sétimo ano sabático, caindo portanto sempre no oitavo ano do calendário sabático, fala daquela gloriosa condição que sucede o reinado milenar de Cristo. O que é o nosso domingo — o primeiro dia da nova semana, que vem a seguir e faz d esap arecer o sábado do sétim o dia da antiga sem ana e antiga

1. Se o leitor desejar conhecer outras linhas de pensamento, sugerimos obras como

Opções Contemporâneas na Escatologia, de M. Erickson, e Escatologia do Novo Testamen­ to, de Russell Shedd (ambos da Vida Nova, publicados em 1982 e 1983, respectivamente).

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dispensação, o dia da ressurreição, do derramar do Espírito, de uma nova ordem de coisas, até mesmo de uma nova criação em Cristo Jesus. Assim, o jubileu aguarda o novo céu e a nova terra que virão (Ap 21-22), quando, depois do sétimo grande dia de mil anos da história, durante o qual todo governo e autoridade serão colocados sob os pés de Cristo, e até a morte, o último inimigo, terá sido removida, a voz de Deus vai se fazer ouvir, dizendo: “Eis que faço novas todas as coisas!” Notamos que o ponto alto do jubileu é a palavra “liberdade”. Como ela é em ocionante e profética! Da mesma forma como o escravo era alforriado no jubileu e devolvido à herança que perdera, assim será na consum ação futura do jubileu. Conhecerem os então o significado profético da palavra do Senhor: “Os mansos herdarão a te rra ”. Conheceremos o significado de 1 Pedro 1.4, 5 e Apocalipse 21.2-4. A herança da terra que foi perdida por causa do pecado, esse glorioso jubileu irá trazê-la de volta para nós. A Nova Jerusalém descerá dos céus, e os remidos e glorificados tomarão posse da herança comprada. Em Gênesis 3.17-19 somos informados da maldição que recaiu sobre a terra por causa do pecado do homem. É notável que durante o ano sabático e o ano de jubileu esta m aldição devesse ser suspensa temporariamente, pelo menos em grande parte (Lv 25.20-22). Isto é verdadeira libertação! Para o escravo, para a herança, para a própria terra. “... a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a Uberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.21). O ano sabático e o ano do jubileu deveriam ser introduzidos pelo toque da trombeta. Como desejamos que chegue a hora de soar a trombeta de Deus e o sábado de descanso e do jubileu do universo sejam iniciados!

A s Alternativas da Aliança (capítulo 26) Só podemos dizer alguma coisa sobre o capítulo 26, embora seja um dos mais solenes e importantes da Bíblia. Ele coloca diante de Israel as condições categóricas da posse e prosperidade, as alternativas inexoráveis que dependiam de sua obediência ou desobediência. Quantas bênçãos são prometidas aos obedientes! Quantas advertências pronunciadas para evitar a desobediência! Verdadeiramente, quanto mais alto o privilégio, tanto mais profunda a responsabilidade! As advertências na segunda parte do capítulo são um resum o 147


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surpreendente da história posterior de Israel, alcançando até o tempo futuro. “Isto é tão estritam ente verdadeiro que podemos descrever corretamente a história dessa nação, desde os dias de Moisés até hoje, como uma simples tradução deste capítulo, substituindo a linguagem da predição pela da história.” “Esses fatos dão a este capítulo uma natureza apologética de importância primordial. Pois temos evidência da previsão e, portanto, da inspiração sobrenatural do Espírito Santo de Deus na profecia aqui registrada. Os fatos não podem ser explicados de maneira adequada: não se pode supor que tenha sido um palpite feliz nem uma coincidência acidental.” Deve ser notado que o castigo final é a expulsão da terra e dispersão entre as nações. Depois de recaírem os outros juízos, este último ocorreu de modo patente, e a terra em si ficou abandonada e vazia durante gerações, como havia sido predito. Todavia, junto com esta advertência se achava a promessa divina garantindo a preservação e restauração de Israel, sendo esta preservação um dos milagres da história que ainda não perdeu seu brilho. O professor Christlieb diz: “Apontamos para o povo de Israel como um milagre histórico permanente. A existência contínua desta nação até o dia presente, a preservação de suas peculiaridades nacionais através de milhares de anos, apesar de toda dispersão e opressão, permanece um fenômeno tão único que, sem o preparo providencial e especial de Deus e Sua constante interferência e proteção, seria impossível para nós explicá-lo. Pois onde existe outro povo sobre o qual tais juízos tenham recaído e que não terminasse em destruição?” Além do mais, estamos vendo em nossos dias as primeiras fases da restauração de Israel sendo levadas a efeito. A própria terrra está também sendo transformada em preparação à volta do povo; e parece estar chegando rapidamente a hora em que estas palavras serão cumpridas: “E sobre a casa de Davi, e sobre os habitantes de Jerusalém, derramarei o espírito de graça e de súplicas; olharão para mim, a quem traspassaram: pranteá-lo-ão como quem pranteia por unigénito, e chorarão por ele, como se chora amargamente pelo primogênito... Naquele dia haverá uma fonte aberta para a casa de Davi e para os habitantes de Jerusalém, para remover o pecado e a impureza” (Zc 12.10-13.1). “Naquele dia o Senhor tornará a estender a mão para resgatar o restante do seu povo, que for deixado, da Assíria, do Egito, de Patros, da Etiópia, de Elão, de Sinear, de Hamate e das terras do mar. Levantará um estandarte para as nações, 148


O LIVRO DE LEVÍTICO (4)

ajuntará os desterrados de Israel, e os dispersos de Judá recolherá desde os quatro confins da terra” (Is 11.11-12). O capítulo 27 trata das consagrações voluntárias e dízimos na terra. Essa é uma conclusão singular em Levítico, já que, depois de todos os capítulos referentes a regulamentos obrigatórios, o último capítulo se dedica a expressões não-obrigatórias de consideração e amor a Deus. Esses três capítulos nessa seção final de Levítico despertam muito interesse, mas não podemos demorar-nos neles. Estamos porém confiantes de termos dito o suficiente sobre essas oito seções de Levítico para indicar como este terceiro livro das Escrituras está repleto de atrativos e instruções. Uma palavra de precaução é necessária com respeito ao termo “expiação”, segundo utilizado pela ARA em Levítico. No uso teológico geralmente aceito hoje, “expiação” indica distintamente o sacrifício redentor de Cristo; mas aqui em Levítico a palavra é usada para traduzir uma palavra hebraica que significa simplesmente cobrir. As ofertas levíticas certam ente não faziam expiação pelo pecado no sentido teologicamente aceito da palavra. Elas apenas cobriam, ou afastavam da visão judicial, os pecados dos crentes do Antigo Testamento, mediante a clemência de Deus, até que a verdadeira expiação se efetuasse no Calvário, o que os sacrifícios levíticos previam e prefiguravam (veja Rm 3.25). A figura central em Levítico é o Sumo Sacerdote. O capítulo central é o 16 — o Dia da Expiação anual. O tema central é a comunhão mediante a santificação. A lição central é: “Santos sereis, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo” (19.2). (A palavra hebraica traduzida por “santo” ocorre mais de 80 vezes em Levítico). Essas coisas merecem sem dúvida um estudo espeical. Podemos estabelecer agora uma análise mais ampla de Levítico, a fim de observar de relance a beleza e ordem de sua estrutura (veja página seguinte):

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EXAMINAI AS ESCRITURAS

O LIVRO DE LEVÍTICO COM UNHÃO M EDIANTE SANTIFICAÇÃO 1. A BASE DA COMUNHÃO — SACRIFÍCIO (1-17) AS OFERTAS (ABSOLVIÇÃO) - 1-7

Ofertas de aroma suave — 1-3 Ofertas sem aroma agradável — 4-6.7 As leis das ofertas — 6.8-7.38. O SACERDÓCIO (MEDIAÇÃO) - 8-10

Consagração — 8 Ministração — 9 Provocação — 10 O POVO (PURIFICAÇÃO) - 11-16

Alimentos puros ■ — 11 Maneiras puras — 12-15 Nação pura — 16 O ALTAR (RECONCILIAÇÃO)- 17

O lugar é mostrado — w. 1-9 O uso do sangue — w. 10-11 Outros usos proibidos — w.12-16 2. O ANDAR EM COMUNHÃO — SEPARAÇÃO (18-27) REGULAMENTOS REFERENTES AO POVO - 18-20

Proibições sexuais — 18 Advertências gerais — 19 Sanções penais — 20 REGULAMENTOS REFERENTES AOS SACERDOTES - 21-22

Práticas proibidas — 21-1-15 Pessoas proibidas — 21.16-22.16 Ofertas proibidas — 22.17-33 REGULAMENTOS REFERENTES ÀS FESTAS

etc. -2 3 -2 4

Estações anuais fixas — 23 O óleo e os pães da proposição — 24.1-9 O castigo da blasfêmia — 24.10-23 REGULAMENTOS REFERENTES A CANAÃ - 25-27

Ano sabático e do jubileu — 25 Alternativas da aliança — 26 Consagrações e dízimos — 27 150


O LIVRO DE LEVÍTICO (4)

PERGUNTAS SOBRE LEVÍTICO 1. Quais as três maneiras em que Levítico expressa a santidade de Deus? 2. Qual o ponto de vista do livro? 3. Quais as duas partes principais de Levítico e como elas se distinguem uma da outra? 4. Quais são as oito subdivisões? 5. Qual a mensagem central de Levítico? 6. Você pode citar e agrupar as cinco ofertas dos sete primeiros capítulos? 7. Você pode explicar por que Arão foi ungido antes de seus filhos, e depois junto com eles? 8. Você é capaz de classificar os ensinos relativos à pureza, nos capítulos 11a 16? 9. Por que um só altar? Por que a santidade do sangue? 10. Qual a razão básica de Deus insistir na santidade do Seu povo? 11. Quais eram as sete grandes observâncias nacionais e quais os significados de seus tipos? 12. Qual o castigo final proposto e qual a promessa final feita na grande advertência de Deus a Israel?

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O LIVRO DE NÚMEROS (1)

Lição N2 13


NOTA: Para este estudo leia o Livro de Números inteiro, a fim de obter um quadro geral de sua história.

O LIVRO DE NUMEROS A B O N D A D E E SEVERIDADE D E D E U S A ANTIGA GERAÇÃO (Do Sinai até Cades)

ERA DE TRANSIÇÃO (No deserto)

1-14

15-20

A jornada (10-14)

21-36 As novas jornadas (21-25)

O censo (1-4) As instruções (5-9)

A NOVA GERAÇÃO (De Cades até Moabe)

A PEREGRINA­ ÇÃO

O novo censo (26-27) As novas instruções (28-36)


O LIVRO DE NUMEROS (I)

QUEM DENTRE os leitores bíblicos não se sentiu cativado pelo encanto deste quarto escrito da pena de Moisés? Embora se trate de um registro trágico em muitos aspectos, ele fala com um apelo imortal aos peregrinos de Deus em todas as eras e regiões. De onde foi tirado o seu nome? Num estudo anterior referimo-nos à Septuaginta — uma tradução das Escrituras do Antigo Testamento para o grego, feita por setenta judeus alexandrinos no século III a.C. Foram esses tradutores da Septuaginta que deram, pela primeira vez, nomes aos livros do Antigo Testamento, como eles aparecem agora em nossas versões. Assim sendo, apesar de o nome hebraico para este quarto escrito de Moisés ser Be-midbar, que significa “no deserto” (das palavras do primeiro versículo do primeiro capítulo), o nome grego que os tradutores da S eptuaginta lhe deram foi Arithmoi (origem do nosso term o “aritmética”), que em latim se torna Numeri e em português Números — tendo esse nome porque nele os filhos de Israel são recenseados duas vezes, uma no início do livro e outra no fim. Os nomes hebraico e grego em conjunto sugerem certamente a essência da obra — “no deserto” e “números” ou “numeração”.

Sua natureza Números retoma a narrativa onde Êxodo terminou. O último capítulo de Êxodo (40.17) nos conta que: “No primeiro mês do segundo ano, no primeiro dia do mês, se levantou o tabernáculo”. Números 1.1 diz: “No segundo ano após a saída dos filhos de Israel do Egito, no primeiro dia do segundo mês, falou o Senhor a Moisés, no deserto de Sinai, na tenda da congregação...” Existe então um intervalo de apenas um mês entre a edificação do tabernáculo, no final de Êxodo, e a ordem para recensear o povo, no início de Números — com as instruções de Levítico entre ambos. O livro de Números não pretende evidentemente conter uma narrativa completa ou estritamente contínua. Pouco nos é dito, por exemplo, sobre os 38 anos da chamada “peregrinação”, enquanto outros acontecimentos 155


EXAMINAI AS ESCRITURAS

que, comparativamente, devem ter ocupado um espaço de tempo muito menor são cuidadosamente descritos. De acordo com a consistente prática das Escrituras, Números não dá ênfase à simples extensão de tempo, mas à importância dos eventos. Ele cobre o período da história de Israel desde o segundo mês do segundo ano depois de Êxodo (1.1) até o décimo mês do quadragésimo ano (veja Dt 1.3). É bem possível que algumas partes de Números se sobreponham a Deuteronômio (32.39-42), de modo que podemos falar dele como o livro dos quarenta anos. O registro prende a nossa atenção ao máximo. Em primeiro lugar é feito o recenseamento, com o objetivo principal de determinar a força militar de Israel. A seguir, o acampamento é estrategicamente dividido para facilitar uma mobilidade organizada — um empreendimento tão vital quanto complexo, envolvendo uma multidão de mais de dois milhões de pessoas! Os serviços dos levitas ligados ao tabernáculo são determinados. Todos os preparativos são feitos para que se possa avançar até a fronteira de Canaã. A marcha inicia-se em estágios divinamente estabelecidos. O próprio Senhor guia a enorme multidão, mediante uma coluna de nuvem e fogo. A distância é percorrida. Eles chegam a Cades. Canaã está à vista! Acontece então o problema. Israel deixa de crer e se rebela. O juízo cai sobre eles. Os 40 anos de peregrinação começam; e os milhares que partiram do Egito, com um brilho de esperança nos olhos, morrem aos poucos, deixando uma trilha patética de corpos debaixo da terra dura do deserto. Deus finalmente se aproxima da nova geração reunida em Cades. É decidido o novo censo. A marcha recomeça, para a planície de Moabe, nas proximidades de Canaã. Os preparativos finais iniciam-se para que Israel finalmente possa subir e possuir a terra.

Sua importância Há alguma necessidade de insistir na importância de tudo isto? O livro de Números é repetidamente mencionado no Novo Testamento. De fato, o Espírito Santo chamou atenção especial para ele na clássica declaração relativa à história dos primórdios de Israel, em 1 Coríntios 10.1-12, que pedimos seja lida por inteiro:

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O LIVRO DE NÚMEROS (1)

“Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos sob a nuvem, e todos passaram pelo mar, tendo sido todos batizados, assim na nuvem, como no mar, com respeito a Moisés. Todos eles comeram de um só manjar espiritual, e beberam da mesma fonte espiritual; porque bebiam de uma pedra espiritual que os seguia. E a pedra era Cristo. Entretanto, Deus não se agradou da maioria deles, razão por que ficaram prostrados no deserto. “Ora, estas cousas se tornaram exemplos para nós, a fim de que não cobicemos as cousas más, como eles cobiçaram. Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles; porquanto está escrito: O povo assentou-se para comer e beber, e levantou-se para divertir-se. E não pratiquemos imoralidade, como alguns deles o fizeram, e caíram num só dia vinte e três mil. Não ponhamos o Senhor à prova, como alguns deles já fizeram, e pereceram pelas mordeduras das serpentes. Nem murmureis como alguns deles murmuraram, e foram destruídos pelo exterminador. “Estas cousas lhes sobrevieram como exemplos, e foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado. Aquele, pois, que pensa estar em pé, veja que não caia” (veja também Rm 15.4; Hb 3.7-4.6). Note as palavras: “Estas cousas lhes sobrevieram como exemplos”. Como indicamos num estudo anterior, o termo grego aqui traduzido como “exemplos” é tupoi, ou seja, “tipos”. Os fatos registrados em Números são imortalizados por terem sido divinamente colocados em forma de tipos para nosso aprendizado. De fato, julgamos que não seja exagero dizer, como A. C. Gaebelein, que o fracasso de Israel em entrar em Canaã, por causa de sua infidelidade, pode perfeitamente prefigurar, como por certo ilustra, o fracasso da igreja organizada de hoje em possuir as coisas celestiais em Cristo. É a presença desses significados tipológicos e lições representativas que confere ao livro os seus ricos valores espirituais para nossos dias. Aquele que conhece bem o livro de Números terá sido bem advertido para a sua viagem de peregrino à Canaã celestial e escapará de muitas contrariedades. Todos os que pregam a Palavra devem familiari­ zar-se com este livro, pois ele fornece muitas ilustrações da verdade do evangelho. Exemplifica também de modo notável que as maiores ilustra­ ções da doutrina do Novo Testamento são encontradas na história do Antigo Testamento. 157


EXAMINAI AS ESCRITURAS

Sua estrutura A estrutura de Números é única, e uma vez observada será difícil esquecê-la. Precisamos lembrar que Números é um livro de movimentos, ao contrário do Livro de Levítico, no qual ficamos estacionários geograficamente. São esses movimentos que marcam as principais divisões do livro. O mais vital, porém, é a compreensão de que em Números tratamos com duas gerações diferentes de pessoas — primeira, a que saiu do Egito mas pereceu no deserto; e segunda, a nova geração que cresceu no deserto e depois entrou em Canaã. Isto dá de imediato uma idéia do livro. No primeiro grupo de capítulos (1-14), tratamos com a antiga geração. No último grupo (21-36), lidamos com a nova geração. Entre os dois grupos e indiscutivelmente destacando-os, temos o deserto, a peregrinação (15-20) — o período de transição em que a velha geração morreu e a nova cresceu. Este tríplice agrupamento em Números é tão claro que nenhum leitor cuidadoso pode deixar de observá-lo. A pergunta que pode ocorrer ao estudante é esta: Como sabemos que o capítulo 20 marca o final da peregrinação e o início do trato com a nova geração? A resposta para isto é conclusiva. Esse vigésimo capítulo registra a morte de Arão. Em que ponto do tempo Arão morreu? Lemos em 33.38: “Então Arão, o sacerdote, subiu ao monte Hor, segundo o mandado do Senhor; e morreu ali no quinto mês do ano quadragésimo da saída dos filhos de Israel da terra do Egito, no primeiro dia do mês”. Se a morte de Arão foi no ano quadragésimo depois do êxodo, então tal fato ocorreu trinta e oito anos após a crise de Cades-Barnéia no capítulo 14, que marcou o início da peregrinação no deserto e teve lugar no segundo ano depois do êxodo. (Isto fica claro em Números 10.11, onde lemos que os filhos de Israel iniciaram a breve caminhada do Sinai até Cades no segundo mês do segundo ano após o êxodo; e é-nos dito em Deuteronômio 1.2: “Jornada de onze dias há desde Horebe pelo caminho da montanha de Seir, até Cades-Barnéia”. Desse modo, mesmo fazendo uma concessão generosa para as diferentes paradas e incidentes no caminho, podemos afirmar com segurança que Cades-Barnéia foi alcançada por volta do final do segundo ano.) Desse modo, a morte de Arão marcou o intervalo de 40 anos do êxodo e 38 anos a partir do início da peregrinação. Sabemos igualmente que 38 anos completaram a peregrinação, pois Moisés declara isso em 158


O LIVRO DE NÚMEROS (1)

Deuteronômio 2.14: “O tempo que caminhamos desde Cades-Barnéia até passarmos o ribeiro de Zerede (veja Nm 21.12, depois da morte de Arão) foram trinta e oito anos”. Portanto, a morte de Arão deve ter marcado o fim da peregrinação, significando que o capítulo 20 de Números indica o trato com a segunda geração. A morte de Arão, podemos acrescentar, é a determinação de tempo mais importante em todo o livro de Números. Depois de estabelecido este ponto, os aspectos estruturais de Números se destacam claramente. Temos: 1. A antiga geração (1-14) 2. A era da transição (15-20) 3. A nova geração (21-36) Vemos também que o livro de Números se divide em três movimentos, a saber: 1. Do Sinai a Cades-Barnéia (1-14) 2. A peregrinação no deserto (15-20) 3. De Cades à planície de Moabe (21-36) Na primeira dessas divisões, no que diz respeito à antiga geração, ocorreu o primeiro censo', a seguir, o avanço em direção a Canaã ou progresso; e então, a crise de Cades. Nos capítulos finais, com referência à nova geração, encontramos em primeiro lugar a nova crise de Cades e depois o novo progresso de Cades, à planície de Moabe; em seguida, a nova numeração ou censo. Podemos dizer que em Números temos: Duas gerações (1-14 e 21-36) Dois censos (1-4 e 26-27) Duas jornadas (10-14 e 21-27) Duas instruções (5-9 e 28-36)

A mensagem central Depois de estas coisas terem sido destacadas, a mensagem central do livro é imediatamente sugerida. Esta pode ser expressa nas palavras contidas em Romanos 11.22, no Novo Testamento: “CONSIDERAI, POIS, A BONDADE E A SEVERIDADE DE DEUS.”

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EXAMINAI AS ESCRITURAS

Vemos em Números a severidade de Deus para com a antiga geração, que caiu no deserto e jamais entrou em Canaã. Observamos também a bondade de Deus para com a nova geração, que foi protegida, preservada e sustentada até que se desse a posse de Canaã. No primeiro caso vemos a terrível inflexibilidade da justiça divina. No segundo, a infalível fidelidade de Deus à Sua promessa, Seu propósito, Seu povo. Ao lado dessa mensagem central do livro encontramos mais duas lições — duas advertências para nós, que podem ser também expressas em palavras extraídas do Novo Testamento. A primeira é uma advertência contra a presunção. Voltando à passagem em Coríntios que acabamos de citar por inteiro (1 Co 10.1-12), concluímos que este aviso contra a presunção é a lição que o próprio Paulo extrai do livro de Números. Depois de nos dizer que “estas cousas lhes sobrevieram como exemplos” para nós, ele declara: “Aquele, pois, que pensa estar em pé, veja que não caia”. O segundo aviso é contra a incredulidade. Em Hebreus 3.19 lemos: “Vemos, pois, que não puderam entrar (em Canaã) por causa da incredulidade”. A seguir foi acrescentado: “Temamos, portanto, que, sendo-nos deixada a promessa de entrar no descanso de Deus, suceda parecer que algum de vós tenha falhado”. Outra vez: “Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade” (3.12). O Novo Testamento interpreta então o livro de Números para nós. Este quarto escrito de Moisés diz: 1. “Considerai, pois, a bondade e a severidade de Deus”. 2. “Aquele, pois, que pensa estar em pé, veja que não caia...” 3. “Tende cuidado... jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de — incredulidade”. Talvez ajude a memória se colocarmos nossas descobertas numa análise simples. (Veja a análise no início deste estudo: página 154.)

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O LIVRO DE NÚMEROS (2)

Lição NQ14


NOTA: Para este estudo leia de novo cuidadosamente os capítulos 1 a 14. DISTRIBUIÇÃO DO ARRAIAL DE ISRAEL Norte

Naftali

Aser

Benjamim

■ ■ ■ ■ ■ ;

Meraritas

Efraim

Issacar

5

Gersonitas

TABERNÁCULO

Moisés Arão i Sacerdotes S ■

Judá

Coatitas ■ Manassés

M 11_

Gade

Rúben

111111J

Zebulom

Simeão

É bom ter em mente que aqui, nesta estrutura quadrangular do arraial de Israel, cerca de dois milhões de pessoas foram mobilizadas e que o quadrilátero tinha mais ou menos 20km2! Deve ser notado também que existem agora doze tribos além da tribo de Levi, que antes era contada como uma das doze, mas depois foi reconhecida como uma tribo separada, a serviço do tabernáculo (Nm 1.49, 50; 3.12, 13). Restam ainda doze sem a tribo de Levi, porque as duas grandes famílias que surgiram dos dois filhos de José, Efraim e Manassés, são agora e daqui em diante contadas como duas tribos separadas, em lugar da tribo única de José.


O LIVRO DE NUMEROS (2)

PARTE I A VELHA GERAÇÃO (1-14) {D o Sinai a C ades ) COMO VIMOS, Números se divide em três partes principais. A primeira consiste dos capítulos 1-14 e se refere à velha geração que veio do Egito mas morreu durante a “peregrinação”. Esta parte inicial se subdivide agora em três subseções — o censo (1-4), as instruções (5-10.10) e a jornada (10.2-14).

O censo (1-4) Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo

1 — Censo dos homens adultos 2 — Distribuição das tribos 3 — Censo dos homens levitas 4 — Distribuição dos deveres dos levitas

No capítulo 1, vemos em primeiro lugar a ordem dada a Moisés: “Levantai o censo de toda a congregação dos filhos de Israel, segundo as suas famílias, segundo a casa de seus pais, contando todos os homens, nominalmente, cabeça por cabeça. Da idade de vinte anos para cima, todos os capazes de sair à guerra em Israel” (1.2,3). Tais palavras deixam claro que o principal propósito deste censo era militar. Ele nos dá o número de homens capacitados para a guerra da nação recém-formada. Os números são de grande interesse: Rúben 46.500 Manassés 32.200 Simeão 59.300 Benjamin 35.400 Gade 46.650 Dã 62.700 Judá 74.600 Aser 41.500 Issacar 54.400 Naftali 53.400 Zebulom 57.400 Efraim 40.500 TOTAL 603.550 163


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Foi com base neste censo dos homens adultos que se calculou a soma da nação inteira como estando entre dois e três milhões. Não podemos entrar aqui nos cálculos envolvidos para chegar a este total, nem podemos discutir (o que parece ser um problema para alguns) o crescimento de Israel de “setenta pessoas” (Gn 46.27) até uma nação de mais de dois milhões durante a permanência no Egito. A discussão desse assunto pode ser encontrada em bons comentários bíblicos. Os filhos adultos de Israel foram contados no censo “segundo as suas famílias, segundo a casa de seus pais” (1.2), e deviam evidentemente “declarar a descendência deles” (1.18). Só os verdadeiros israelitas tinham permissão de lutar por Israel. Ninguém do populacho que saiu do Egito com Israel podia fazê-lo. Que lição para nós hoje, quando todo tipo de pessoa tem o direito de servir na igreja organizada, sem a descendência espiritual do novo nascimento divinamente exigida! A primeira pergunta com respeito ao serviço cristão deveria ser sempre a da descendência espiritual. Quantos obreiros da igreja atual estão longe de poder afirmar: “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16)! A seguir, no capítulo 2, temos a distribuição das tribos e a mobilização do arraial. Cada uma das doze tribos deveria colocar o seu estandarte, sendo distribuídas em quatro grupos de três — um grupo ao norte, outro ao sul, outro a leste e outro ainda a oeste do tabernáculo. Depois disso, no capítulo 3, temos o censo da tribo de Levi, que fora isenta do censo geral pelo fato de Deus tê-la escolhido para o serviço especial do tabernáculo (1.49,50). Este censo levita, ao contrário do outro, deveria incluir todos os levitas do sexo masculino da idade de um mês para cima (3.15). Juntamente com isto vem a explicação de que daí por diante Deus iria considerar todos os levitas como de sua exclusiva propriedade, em lugar do primogênito de todas as outras tribos (3.12,13). Os levitas compunham-se de três famílias — gersonitas, coatitas e meraritas; e eles ficavam a oeste, sul e norte, respectivamente. Quanto ao lado do oriente, onde ficava a entrada, o versículo 38 diz: “Os que se acam parão diante do tabernáculo, ao oriente, diante da tenda da congregação... serão Moisés e Arão, com seus filhos, tendo a seu cargo os ritos do santuário, para cumprirem seus deveres prescritos... o estranho que se aproximar m orrerá”. Segue um quadro com informações sobre o censo dos levitas, sua localização e serviço: 164


O LIVRO DE NÚMEROS (2)

Família

Número

Localização

Serviço

Gersonitas

7.500

oeste do tabernáculo

cobertas externas

Coatitas

8.600

sul do tabernáculo

equipamento interno

Meraritas

6.200

norte do tabernáculo

componentes estruturais

O número total de homens levitas apresenta uma dificuldade. Os valores acima (de 3.22,28,34) somam 22.300; mas o versículo 39 dá 22.000. Parece realmente que 22.000 é o total correto, pois o versículo 43 diz que o número de primogênitos em todas as tribos era de 22.273, e o versículo 46 declara que isto incluía 273 a mais do que os levitas do sexo masculino. Finalmente, no capítulo 4 temos um censo dos levitas do sexo masculino de 30 a 50 anos; pois só eles podiam ser nomeados para os serviços do tabernáculo. O total é 8.580. Marque muito bem a diferença entre o ministério dos levitas e o dos sacerdotes. Os sacerdotes ocupavam-se dos ministérios cerimonial, sacrificial e espiritual do tabernáculo. Os levitas ocupavam-se da parte material do tabernáculo propriamente dito — levantamento, transporte, preservação e outros serviços necessários à sua manutenção, tais como conduzir os bois, cuidar dos animais para o sacrifício e preparar o incenso. As doze tribos, como já notado, estavam acampadas em grupos de três, ficando um grupo em cada lado do tabernáculo. Nesses quatro grupos, as tribos principais (e provavelmente centrais) eram Judá, Efraim, Rúben e Dã. Alguns expositores judeus afirmam que o emblema no estandarte de Judá era um leão, no de Efraim um boi, no de Rúben um homem e no de Dã uma águia. Se essas realmente eram as suas insígnias, temos nelas a origem provável das formas atribuídas aos quatro seres viventes na visão de Ezequiel. E de fato possível que esses emblemas tribais tenham sido extraídos das formas simbólicas dos querubins do tabernáculo. Os críticos racionalistas encontraram muita coisa passível de zombaria no relato bíblico desse enorme arraial. A principal objeção deles é que um número assim grande de pessoas jamais teria subsistido por muito tempo com a escassa produção da península do Sinai. Mas recentes pesquisas mostram que as regiões atravessadas por Israel eram muito mais 165


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produtivas naquela época do que agora. Além do mais, a Escritura não diz que o povo viveu apenas dos produtos naturais. Eles foram sustentados por um suprimento sobre natural! Os silogismos do racionalismo entram sempre em colapso, porque Deus é deixado fora das premissas! Estes quatro primeiros capítulos são ricos em lições espirituais. Vemos neles o soldado, o sacerdote, o levita — guerreiro, adorador, obreiro; guerra, comunhão, serviço. Tanto a guerra como o trabalho devem centralizar-se na comunhão com Deus — no tabernáculo, no centro do arraial. Vejamos o primeiro termo — guerra. Os homens adultos de Israel deveriam, antes de tudo, declarar a sua descendência (“segundo as suas famílias”), depois se agrupar junto aos seus estandartes tribais (“segundo as insígnias”) e finalmente unir-se em conquista comum (“e assim marcharam”).

As instruções (5.1-10.10) Os quatro primeiros capítulos nos deram a formação externa do arraial. Os cinco seguintes tratam da sua condição interna. A chave está em 5.3: “... para que o (seu arraial) não contaminem no meio do qual eu habito”. Este é o princípio fundamental da disciplina: estando o próprio Santo no arraial, este deve ser santo. Tal princípio aplica-se à igreja hoje. O capítulo 5 ordena que os leprosos sejam lançados fora do arraial; que o ganho desonesto seja confessado e restituído; que a suspeita de imoralidade seja testada diante de Deus. É preciso haver pureza, honestidade e verdade. O capítulo 6 contém os regulamentos sobre o voto de nazireado. Entre os “muitos milhares de Israel” sem dúvida haveria muitas almas piedosas sentindo a necessidade de uma orientação positiva sobre as expressões especiais de devoção a Deus e não só das regras negativas do capítulo 5. Votos de abstinência são coisa comum em todas as religiões. E certo que freqüentemente eles se misturam a muito de superstição, obstinação e orgulho. Todavia, em geral surgem de impulsos nobres. Este voto do nazireado hebraico não pertencia às exigências obrigatórias da lei; nas medidas com relação a ele, existe o reconhecimento implícito da atuação livre do Espírito divino nos indivíduos. Assim sendo, embora o capítulo 5 se refira à separação da contaminação em geral, o capítulo 6 está ligado à 166


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separação individual para Deus. O capítulo 7 registra a oferta voluntária dos príncipes. Como esses líderes realmente representavam o povo como um todo, o que temos aqui é o reconhecimento nacional dos direitos do santuário. Três coisas chamam nossa atenção a esse respeito: (1) a espontaneidade das ofertas — elas não eram exigidas; (2) a uniformidade dos dons — cada príncipe levava uma oferta igual à dos outros; (3) a particularidade do registro — cada dom é registrado separadamente, embora todos sejam iguais. Pois o nosso Deus, que é imensamente rico, nada necessitando que possa ser oferecido pelo homem, não considera apenas o valor monetário do total, mas reconhece cada oferta pelo que ela exprime do amor do ofertante em relação a Ele. Pode-se perguntar: “Porque esta oferta era levada pelos príncipes?” As seguintes palavras do Professor W. Binnie esclarecerão este ponto: “O tabernáculo do Senhor foi construído, guarnecido, ungido e (mais excelente que tudo) ocupado pelo Rei, cuja habitação era o seu propósito. A construção e os objetos dessa tenda real foram efetuados pelas ofertas voluntárias de um povo bem intencionado. O tabernáculo e seus pertences foram completados segundo o modelo mostrado a Moisés no monte. Não falta nenhuma parte essencial. Mas existe ainda espaço para algumas ofertas suplementares. Vejamos dois exemplos: (1) quando o tabernáculo foi dedicado pela primeira vez, havia sem dúvida uma colher dourada para uso de Arão ao queimar incenso no altar de ouro. Uma só colher desse tipo era o estritamente necessário. Mas ocasionalmente poderia surgir mais de um pedido para queimar incenso na mesma hora. Assim sendo, não seria apropriado que no palácio do Rei algum adorador tivesse de esperar até que a colher dourada estivesse à disposição. Esta é, então, a origem da oferta das doze colheres de ouro pelos príncipes. (2) Os levitas foram nomeados para carregar o tabernáculo e seus pertences. Eles podem fazê-lo, mas não sem dificuldade, especialmente durante a jornada no deserto, onde deve ser principalmente uma tenda em movimento. Portanto, um presente de carroças e carros puxados por bois seria bem recebido. Este capítulo ensina sem dúvida uma lição muito necessária às igrejas de hoje. Suas listas de membros incluem homens de posses, todavia seu santuário apresenta um aspecto de extrema penúria e seus cultos são pobres. Isto não deveria ocorrer”. O capítulo 8 descreve a consagração dos levitas. Em primeiro lugar, 167


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porém, a seguinte instrução é dada a Arão: “Quando colocares as lâmpadas, seja de tal maneira que venham as sete a alumiar defronte do candelabro”. A seguir, como explicação, é acrescentado: “O candelabro era feito de ouro batido desde o seu pedestal até às suas flores; segundo o modelo que o Senhor mostrara a Moisés, assim ele fez o candelabro” (8.1-4). A. C. Gaebelein diz: “O candelabro é o tipo de Cristo no santuário. As sete lâmpadas deveriam iluminar o candelabro de ouro batido, de modo que o ouro e o belo trabalho de artífice pudessem ser vistos. O óleo nas sete lâm padas representa o Espírito Santo. E spiritualm ente consagrado, temos aqui o Espírito de Deus derramando luz sobre Cristo. Ele é dado para isto, para glorificar a Cristo”. Assim como era no antigo tabernáculo de Israel, e como é agora no santuário celestial, assim também nas assembléias do povo de Deus na terra, Ele quer que a perfeição gloriosa de Cristo seja manifestada diante de Seu povo. Depois disto, neste mesmo capítulo 8, vemos a consagração dos levitas. Note as lições principais, (i) Antes de servir, eles deviam ser purificados (v. 7); nós também, (ii) Sua purificação era dupla, parte operada sobre eles e parte operada por eles (v. 7); do mesmo modo, na nossa purificação existe o lado divino e o lado humano, (iii) A purificação operada neles era a aspersão da “água da purificação” (lit. “água do pecado” — i. e., para remover o pecado); nós precisamos igualmente dessa purificação que só o sangue de Cristo e a renovação pelo Espírito Santo nos podem dar. (iv) A purificação feita por eles era assim: “... sobre todo o seu corpo farão passar a navalha, lavarão as suas vestes” (v.7); do mesmo modo, de nossa parte deve haver uma separação de todos aqueles hábitos e impurezas da vida comum que se apegam a nós tão íntima e facilmente como se fossem nossas roupas e que parecem pertencer-nos tanto quanto nossos próprios cabelos. Especialmente em nosso serviço cristão é necessário que seja decretada a morte ao que é apenas natural e “da carne”, fazendo com que a palavra de Deus seja levada no coração e na consciência. Já foi dito com muito discernimento que “jamais houve erro mais fatal do que tentar colocar a natureza a serviço de Deus”. É preciso haver “água” — limpeza diária de nosso comportamento no ensino da palavra; é preciso haver a “navalha” — auto-exame diário e afastamento completo de tudo que tem origem “na carne”, (v) A aceitação dos levitas tinha como base a oferta pelo pecado e a oferta queimada (w . 8, 12); assim também, a nossa aceitação por parte de Deus se faz unicamente mediante o auto-sacrifício 168


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expiatório de Cristo, (vi) Os levitas devem ser apresentados diante do Senhor e dados inteiramente a Ele (w . 13-16); nós igualmente temos de apresentar nossos “corpos por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12.1). O capítulo 9 mostra-nos primeiramente a observância da Páscoa e depois nos fala sobre a coluna de nuvem (durante o dia) e fogo (à noite) que pairava sobre o tabernáculo quando o povo devia parar e que se movia quando ele devia continuar a jornada. A festa da Páscoa representa comunhão. A coluna de nuvem e fogo fala de orientação. Assim sendo, depois da mobilização do povo para a guerra (1, 2), da designação dos levitas para o serviço (3,4) e das instruções dadas com respeito à santidade no arraial (5-8), temos a lição final e mais importante sobre a comunhão e orientação (9-10.10). Em Números 9, de maneira especial, a Páscoa da peregrinação do povo é tanto retrospectiva como futura. Tratava-se do memorial de um livramento no passado, assim como da promessa de uma herança futura. Do mesmo modo, o peregrino cristão de hoje tem na mesa do Senhor tanto um memorial como uma promessa. Ela retrocede a uma redenção cumprida e aponta para o futuro, para uma gloriosa consumação. Olha para trás, no sentido de que através dela “anunciamos a morte do Senhor”, e para diante, “até que ele venha”(1 Co 11.26). “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor” (1 Co 13.13). Na mesa do Senhora fé retrocede até a cruz, sendo fortalecida', a esperança olha para a frente, para a vinda, sendo iluminada', o amor olha para o alto, para o trono, e aumenta. Note que Deus fez provisão para que todo o seu povo participasse da festa da Páscoa. No arraial “houve alguns que se acharam imundos por terem tocado o cadáver de um homem, de maneira que não puderam celebrar a páscoa naquele dia” (v. 6). Estes perguntaram o que deveriam fazer. A ordem do Senhor foi que deviam celebrar a Páscoa um mês mais tarde (w . 7-12). Esta provisão abrangia também os que “se achassem em jornada” (viajando). Deus não queria que ninguém ficasse excluído desta “festa” da redenção; não desejava igualmente que ninguém dentre Seu povo comprado com sangue em Cristo ficasse fora desta comunhão com Ele, alicerçada na redenção e através do “espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8.15). Leia de novo agora os versículos 16 a 18, sobre a coluna de nuvem e fogo que cobria o tabernáculo. 169


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Esta era uma orientação divina, direta, contínua, indiscutível, infalível. Os “muitos milhares” de Israel foram poupados da confusão de serem deixados com seus próprios recursos, a fim de buscarem sozinhos um caminho duvidoso que poderia levá-los ao desastre. Não lhes cabia fazer quaisquer planos. Não iriam conhecer o caminho com um dia de antecedência sequer. Ao acamparem, não poderiam dizer por quanto tempo ficariam. Quando marchavam, não sabiam quão prolongada seria a sua viagem. Tudo o que era exigido deles era a observação da coluna que os guiava. Dependiam por completo dessa orientação e, ao segui-la, estavam plenamente seguros. “Deus faria menos que isso para o Seu povo que vive na era presente?” poder-se-ia perguntar. Absolutamente não. “Todo cristão sabe que está sob Seu cuidado e direção. Se Ele guiou Israel, quanto mais irá guiar-nos a nós que, pela graça, somos membros do Seu corpo, um só espírito com o Senhor! Quantas vezes frustramos as manifestações de Seu poder e Seu amor ao escolhermos nossos próprios caminhos! Devemos segui-lO. Não se trata de agir seguindo à risca certas regras e regulamentos, mas de seguir um Cristo vivo.” Ele diz: “... sob as minhas vistas, te darei conselho” (SI 32.8). Nossos olhos devem estar sem pre postos nos dEle. Os que verdadeiramente O seguem terão orientação contínua e progressiva. O lema de nossa vida inteira deve ser: “A vontade de Deus, nada mais, nada menos, nada além, sempre, em toda parte e a todo custo”. A obra do Senhor para nós é perfeita. Devemos confiar nela. A palavra do Senhor para nós é perfeita; devemos viver por ela. A vontade do Senhor para nós é perfeita; devemos andar nela. Finalmente, em 10.1-10, é ordenado a Moisés: “Faze duas trombetas de prata: de obra batida as farás; servir-te-ão p ara convocardes a congregação, e para a partida dos arraiais” (10.2). Essas trombetas, como a coluna de nuvem e fogo, tinham o propósito de guiar. A coluna guiava os olhos; as trombetas, os ouvidos. Quatro usos são determinados para essas trombetas de prata. Elas deveriam ser primeiramente um chamado para a reunião do povo (v. 3); segundo, um sinal para a partida (w. 5, 6); terceiro, um clarim em tempos de guerra (v. 9); quarto, um memorial diante de Deus (w. 9,10). Os sacerdotes é que deveriam tocar a trombeta, pois a trombeta de prata era a “trombeta de Deus”. Todas essas coisas podem ser associadas a nós. A trombeta assinala uma nova reunião? Essa trombeta ainda está para soar, para reagrupar o povo 170


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disperso de Israel! (Veja Is 27.13 e Zc 9.14.) Além disso, quando o Senhor Jesus voltar para buscar os Seus, Ele “o Senhor mesmo... ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus” — a fim de reunir os remidos (1 Ts 4.16). “A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transform ados” (1 Co 15.52). A trombeta fala de guerra e conquistai Veja Joel 2.1: “Tocai a trombeta em Sião, e dai voz de rebate no meu santo monte; perturbem-se todos os moradores da terra, porque o dia do SENHOR vem”. Leia Apocalipse 8 e 9 e veja os anjos com suas trombetas fazendo soar a vitória de Cristo no Armagedom. Ó, quanto esperamos pela trombeta que proclamará a Sua volta!

A jornada (10.11-14.45) Nos dez primeiros capítulos de Números, vimos então o arraial de Israel no Sinai, mostrando todos os preparativos e provisões para o avanço, conquista e posse. Grave bem a idéia desse arraial. Lá está aquela multidão poderosa, as doze tribos colocadas numa formação quadrada “ao redor da tenda da congregação”, os grupos de levitas acampados em volta do pátio externo do tabernáculo, com Moisés, Arão e os sacerdotes no lado leste, guardando a entrada do recinto sagrado. Ali, bem no centro, gerando unidade, poder e glória ao arraial, acha-se o santuário, falando de Deus como o centro de Seu povo escolhido, do mesmo modo que Cristo é agora o centro, a vida e a glória de Sua igreja. Tudo está preparado para o avanço; e “no ano segundo, no segundo mês, aos vinte do mês”, a nuvem se ergueu do tabernáculo (10.11). As trombetas de prata soaram e todo o acampamento se pôs em movimento. Em primeiro lugar marcham as tribos de Judá, Issacar e Zebulom; seguidas por dois grupos de levitas — os gersonitas, com as coberturas e as cortinas do tabernáculo, e os meraritas, com as tábuas de ouro, os acessórios de prata e outras partes da estrutura do tabernáculo. (A fim de ajudá-los a transportar essas coisas, os gersonitas e meraritas usariam os carros e juntas de bois recebidos de presente dos príncipes — veja o capítulo 7.) Depois vinham as tribos de Rúben, Simeão e Gade; seguidos dos coatitas, levando a arca, o altar de ouro, o candelabro de ouro e outros objetos preciosos do interior do tabernáculo. Efraim, Manassés e Benjamim eram os próximos; e os últimos eram Dã, Aser e Naftali 171


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(10.14-27). A história contém muitos episódios esplêndidos; mas será que houve algum outro que obscurecesse a maravilha deste vasto transplante nacional, esta movimentação ordeira de uma multidão de cerca de dois a três milhões de pessoas, com todos os seus filhos, tendas, animais e equipamentos pessoais? — e a arca de Deus os guiando? Podemos compreender a sinceridade da oração de Moisés por essa multidão, nas palavras registradas no final do capítulo 10: “Partindo a arca, Moisés dizia: Levanta-te, Senhor, e dissipados sejam os teus inimigos, e fujam diante de ti os que te odeiam. E, quando pousava, dizia: Volta, ó Senhor, para os milhares de milhares de Israel”. Os capítulos 10 a 14 (a jornada do Sinai a Cades) constituem uma leitura triste. Veja 10.29-32. Como é estranho ouvir Moisés dizendo a Hobabe, seu parente midianita: “Ora não nos deixes, porque tu sabes que devemos acampar-nos no deserto; e nos servirás de guia”. Como vem depressa a tentação de afastar os olhos da coluna de nuvem e fogo que serve de guia! Assim é a fraqueza do coração humano. Declaramos nossa confiança em Deus, mas olhamos para o homem. Achamos mais fácil crer num simples mortal a quem podemos ver, do que no Senhor Todo-poderoso a quem não podemos ver. Veja 11.1-3.0 povo começou a queixar-se depois de apenas três dias de viagem. A arca encontrou para eles um lugar de descanso. O seu conforto foi providenciado. Canaã está logo à frente. Levam em sua companhia o penhor da vitória. Deveriam estar cantando hinos de júbilo; todavia murmuram. O fogo do juízo está prestes a consumi-los, mas a oração de Moisés misericordiosamente os poupa. O lugar foi então chamado Taberá, que significa incêndio. A murmuração nunca facilita as coisas, mas somente acrescenta problemas. Os que se queixam sem motivo logo passam a ter uma causa para a sua reclamação. M urmurar contra as provisões de Deus leva gradualmente à franca rebelião e ao fracasso penoso, como vemos nesses capítulos. Devemos evitar isso. Em 11.4-35, o “populacho” lembra com saudades as iguarias do Egito. O resto do povo se une a ela: “Quem nos dará carne a comer?” O fogo em Taberá não os disciplinou! Depois de terem reclamado da maneira como Deus os guiou, queixam-se agora da comida que Ele lhes deu. Todavia, este pão milagroso do céu (um tipo belíssimo de Cristo), chamado “pão dos anjos” no Salmo 78.25, era o alimento perfeito para a sua jornada a Canaã (que deveria ser breve). O próprio Moisés começa a desanimar (w. 172


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10-15): “Eu sozinho não posso levar a todo este povo”. Setenta anciãos são escolhidos para dividir as obrigações com ele. O Espírito de Deus desce sobre esses homens e eles profetizam, provavelmente exortando o povo a ter fé e a obedecer. Note que a profecia, que é um dom do Espírito, tem um papel especial em épocas de apostasia e fracasso. A carne tão desejada é provida milagrosamente na forma de codornízes. Todavia, no momento em que o povo começa a devorar gulosamente a carne, o juízo vem na forma de uma praga que os dizima. Foram julgados por terem c o m id o a v id a m e n te p a ra s a tis fa z e r su a c o b iç a c a rn a l, sem arrependimento e sem reconhecer o Doador. O lugar da praga recebeu o nome de Quibrote-Taavá, que significa “sepulturas da concupiscência”. Veja o capítulo 12. As queixas alcançam nesse ponto os principais líderes de Israel. O irmão e a irmã de Moisés discutem o seu direito de liderança. Arão já era sumo sacerdote. Miriã era a profetisa de Israel. O orgulho invejoso deseja agora uma posição ainda mais alta. A menção da mulher gentia de Moisés não passou de simples pretexto. Observe a grandeza de Moisés. Não houve auto-vindicação e nem sequer um traço de ressentimento (veja o versículo 13). Sua mansidão o engrandece. Sua humildade é sua majestade. Deus o justifica (w. 4-10): “... como, pois, não temestes falar contra o meu servo, contra Moisés?” O juízo recai sobre os desobedientes. Miriã, a instigadora, fica leprosa. Note que é um pecado grave falar contra um verdadeiro servo de Deus. A segurança real do crente está em permitir que Deus o justifique. Deus guarda o homem a quem chama para servi-lO. Observe o espírito perdoador de Moisés. Ele ora por Miriã, e ela é curada. Isto nos leva aos capítulos 13 e 14, à crise de Cades. Os capítulos precedentes nos prepararam para ver como o erro fatídico aconteceu. O povo vinha desobedecendo gradualmente. “Quantas vezes consideramos as queixas um pecado trivial”, diz um expositor, “e só quando tentamos refreá-las é que percebemos como nos dominaram e como estão prontas para surgir a qualquer hora do dia, à menor provocação. O tempo está ruim, o chá tem açúcar demais, o bife está frio, as batatas não foram bem cozidas, a empregada não chega na hora ou é descuidada, a encomenda que esperamos não chegou, e ficamos aborrecidos e reclamamos. Foi uma queixa íntima que levou Eva a desobedecer. Verifique o curso de Israel em Números, do descontentamento à cobiça, desprezando o Senhor, falando contra Seus servos, provocando, tentando, duvidando de Deus, 173


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criando rebelião, presunção e desânimo, lutando e falando contra Deus, até que finalmente chegam as grosseiras prostituição e idolatria. Cuidado! Evitar este mal é um passo na direção da perfeição. Veja Filipenses 2.14”. Os detalhes do erro de Israel em Cades são bem conhecidos. Os doze espias examinam a terra durante quarenta dias. Em seu relatório todos concordam que Canaã é de fato uma terra excelente (13.27). Mas dez deles trazem a triste informação de que a sua conquista é impossível. Os outros dois, Calebe e Josué, fazem calar o povo, declarando: “Eia! subamos, e possuamos a terra”; “o Senhor é conosco; não os temais”. Os dez colocaram uma barreira entre eles e Deus. Os dois colocaram Deus entre eles e a barreira. Os dez viram com os olhos da carne. Os dois viram com os olhos da fé. Sabemos o resultado. Israel não quis crer, depois rebelou-se, até pedindo que Calebe e Josué fossem apedrejados (14.10) e sugerindo que outro chefe fosse nomeado para levá-los devolta ao Egito (14.4)! A penosa ironia é que Israel estava a um passo do prêmio. A nação desobedeceu. O juízo caiu sobre ela. Moisés intercede pelo povo de maneira tocante (14.11-20); mas o julgamento da peregrinação de quarenta anos é imposto (14.29, 30). Que tragédia — toda uma geração deve fenecer no deserto e andar a esmo por quarenta anos sem chegar a lugar algum! Embora a incredulidade humana não possa certamente frustrar os propósitos de Deus, ela pode atrasar o seu cumprimento. Mas a lição mais enfática aqui é certamente esta: a incredulidade derrota o incrédulol

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Lição Ns 15


N O T A : Para e ste estu d o releia um a ou duas v e z e s os cap ítu los 15 a 20.

Dez homens que não viram a Deus Viram cidades inexpugnáveis; Dois homens, “olhando” para Deus, Viram o fim dessas cidades se aproximando. Dez homens que não viram a Deus Viram gigantes assustadores e enormes; Dois homens, “olhando” para Deus, Viram gigantes pequenos como gafanhotos. Dez homens que não viram a Deus, Anunciaram: “É certo que não venceremos”; Dois homens, “olhando” para Deus, Gritaram, “Subamos! Com Deus prevaleceremos”. Dez homens que não viram a Deus Fizeram desanimar seus semelhantes; Dois homens viram a Deus em toda parte; Você é um dos dois — ou dos dez?

“Um só ousado impulso para a frente e seus pés pousariam sobre sua herança. Mas, como quase sempre acontece, a coragem se foi no momento decisivo, e a covardia, disfarçada em prudência, pediu ‘mais informações’, e esta é a marca característica dos hesitantes.” ALEXANDER M a c LAREN


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PARTE II A PEREGRINAÇÃO NO DESERTO (15-20) CHEGAMOS AGORA à parte central de Números — os capítulos 15 a 20, que abrangem os 38 anos da chamada peregrinação. Este período de espera marca a transição da velha geração para a nova. Ele se inicia imediatamente após a crise de Cades e termina no ano da morte de Arão (20), como já mostrado. Tanto no início como no fim de Números, vemos Israel cuidadosamente organizado para a conquista e posse imediatas. Mas este período de 38 anos de atraso desnecessário e trágico intervém e faz com que Números se torne um livro de progresso adiado. Dessa forma, ele nos fala hoje com relação ao progresso adiado na igreja cristã como um todo e na vida de cada cristão em particular. Foram necessárias apenas quarenta horas para tirar Israel do Egito; mas só depois de quarenta anos é que o Egito foi removido de Israel! Num período de dois anos o povo de Israel se encontrava em Cades-Barnéia, a porta de Canaã. Trinta e oito anos mais tarde, ali se achava novamente, no mesmo lugar. Por quê? Bem, havia aquele populacho de pseudo-israelitas que recebeu permissão para viajar com a congregação, mas que na verdade não era fiel nem ao povo nem aos seus planos. Esse populacho cobiçava e levava os demais a cobiçarem a fartura e iguarias baratas do Egito, os peixes, pepinos, melões, alhos e cebolas. Dentro de pouco tempo, além do “populacho”, surgiram também motivos mistos! Que maldição é esse populacho nas igrejas de hoje — e como prevalecem, em conseqüência, os motivos mistos! — e como ficam evidentes o atraso e o desvio do progresso real! Jamais devemos nos admirar da insistência de Deus na separação. Ela é básica para o progresso e eficiência espirituais. A seguinte citação é absolutamente legítima. “Em nossas igrejas existem milhares de casos de crescimento retardado. Para muitos, como aconteceu com Israel, a demora é uma conseqüência direta da desobediência. Eles ouviram o chamado de Deus, experimentaram a libertação divina,

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passaram da morte para a vida e iniciaram bem a nova existência. Como novos cristãos, estavam cheios de zelo e amor: eles exclamavam confiantes: ‘Faremos tudo quanto o Senhor ordenar’. Pareciam prontos para entrar na posse de seus bens e, espiritualmente, em todas as experiências benditas que D eus p rep a ra para os que O seguem inteiramente. Um dia, porém, foi feito um chamado para que entrassem definitivamente na terra, para que se entregassem definitivamente nas mãos de Deus em uma vida mais profunda e rica, como jamais haviam conhecido antes. Eles viram a terra, confessaram que era boa; mas notaram os gigantes e as cidades protegidas; viram a perseguição, as zombarias, o isolamento, o difícil seiviço a que teriam de se submeter em vista de sua plena consagração. Exclamaram: ‘Não podemos enfrentá-los; não vamos entrar’; o seu progresso foi imediatamente retardado, sua religião perdeu o vigor e o poder. Se algum de vocês passar por esta experiência, lembre-se de que a cura para ela é a volta a Cades. Volte ao ponto onde desobedeceu a Deus; confesse o seu pecado; retome a vida de obediência; e a velha alegria, poder e progresso serão novamente seus. E os que não im pediram os propósitos de Deus m ediante perversa obstinação, estejam atentos aos pecados iniciais que terminam nessa catástrofe, os pecados que se encontram na base de todo desvio — a insatisfação e o descontentamento. Israel nem sequer imaginava o perigo de ceder à insatisfação pela primeira vez! É provável que nenhum israelita tivesse idéia do abismo de pecado a que essas primeiras murmurações os levariam.” Esta lição solene da peregrinação deve ser observada por todo leitor do Livro de Números. Vamos reexaminar agora brevemente, mas com atenção, os capítulos que tratam do assunto. A chamada peregrinação deve ser em primeiro lugar distinguida das jornadas que a precederam e das que se seguiram a ela. No motim de Cades houve um colapso da organização. O povo deixou de ser peregrino e tornou-se nômade. E necessário compreendermos bem o verdadeiro significado da peregrinação. Muitos leitores da Bíblia parecem pensar que durante esses anos todo o arraial de Israel moveu-se de um lugar para outro, dirigido pela coluna de nuvem e fogo, e os levitas montavam e desmontavam o tabernáculo em cada lugar. Todavia, não há registro de movimentos desse tipo durante tal período. Parece mais provável que o tabernáculo tenha permanecido em Cades e grupos errantes tenham se 178


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dispersado pelas regiões circunvizinhas, reconhecendo Cades como um centro e voltando a reunir-se ali perto do final da longa espera. Abordaremos este assunto outra vez no capítulo 20. O primeiro nome de Cades era En-Mispate (Gn 14.7). Seu nome posterior, Cades, sinônimo de “santuário”, pode ter sido dado devido à prolongada permanência do tabernáculo nesse lugar. Israel esteve no deserto durante todo esse tempo. A própria Cades ficava no deserto ou campo aberto, no deserto de Pará (13.26) ou entre este e o deserto de Zim (20.1; 27.14; 33.36). Além disso, é bom esclarecer o termo peregrinação. Em 14.33, quando Deus impõe o castigo da peregrinação, o termo hebraico traduzido como “irão peregrinar” tem o sentido literal de “irão apascentar”: “Vossos filhos serão pastores neste deserto (ou campo aberto) quarenta anos”. Junto com o castigo existe uma segurança implícita de que o Senhor irá pastoreá-los e suprir suas necessidades. Vemos aqui tanto bondade quanto severidade!

Uma Interrupção Histórica Esses 38 anos simplesmente marcam um tempo em que não se fez história. O povo escolhido praticamente desaparece de vista. Durante esses anos, a verdadeira história de Israel manteve-se realmente em suspenso; pois essa é a história de uma teocracia, sendo, portanto, no sentido mais elevado, a história dos tratos de Deus com Seu povo, enquanto Ele os guia para o cumprimento de Seus grandes propósitos. Os 38 anos são uma interrupção dos objetivos e representam assim um intervalo na história. A geração que excomungou a si própria em Cades não teve mais herança em Israel. Suas vidas foram poupadas a princípio, mas seu próprio desejo de morrer no deserto foi satisfeito (14.2, 28). Agora, era preciso que morressem e que uma nova geração os substituísse, antes que a história da teocracia pudesse ser retomada. A interrupção em Cades e os 38 anos de adiamento podem muito bem representar para nós a interrupção ainda mais grave no Calvário e o atual longo período de espera na história de Israel, durante o qual Deus está chamando para Si um povo espiritual em Cristo, sem discriminação de nacionalidade (veja Rm 9-11 e E f 2-3). O bservem os os seguintes fatos sobre a cham ada peregrinação. 179


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Primeiro, Deus não abandonou totalmente o povo rebelde, mas continuou a Se comunicar com eles mediante Moisés (15.1, 17, 35 etc.); Ele deu também o maná e supriu água, assim como roupas e calçados (Dt 8.2-6; 29.5, 6). Segundo, o rito da circuncisão foi suspenso (Js 5.4-8). Parece também que a Páscoa não foi celebrada durante todo esse período. Talvez possamos entender isso. A geração rebelde sabia que não teria permissão para entrar em Canaã, sendo portanto improvável que desejasse celebrar a lembrança dessa libertação improdutiva (e agora tão amarga para eles). De fato, parece provável que durante esses anos o sistema sacrificial como um todo tenha sido em grande parte abandonado. Terceiro, aprendemos em Ezequiel 20.10-26 e Amós 5.25, 26 que a lei foi gravemente desobedecida naqueles dias, os sábados foram profanados, as práticas idólatras persistiram e o povo chegou até a oferecer seus primogênitos a Moloque, “fazendo-os passar pelo fogo”! Quarto, nas palavras de um erudito do Antigo Testamento: “Não temos autoridade para supor que a multidão tenha se mantido unida durante aqueles anos de peregrinação, os quais não tinham objetivo algum, mas eram apenas perda de tempo, e nenhum fim senão a morte. A suposição é de que eles se dispersaram em todas as direções no deserto (que em si não era muito extenso), conforme as conveniências do momento. As doenças e a morte, assim como todos os outros incidentes, sobrevieram com plena força, tornando impossível a marcha simultânea e ordenada de dois milhões de pessoas. Não há dúvida de que a sede do exército e da nação, Moisés e Arão, assim como os levitas em geral, permaneceram com a arca e formaram o centro visível e representativo da vida e adoração do povo”. Examinando agora os capítulos em pauta (15-20), vamos ressaltar rapidamente os pontos principais. O capítulo 15 começa assim: “Disse o Senhor... Quando entrardes na terra...” Não sabemos se essas palavras foram proferidas pouco antes ou muito depois da revolta de Cades, mas é surpreendente que as primeiras palavras de Deus registradas após Israel afastar-se da terra sejam uma referência à sua entrada final nela. A demora do homem não significa a derrota de Deus. A fidelidade divina é maior que a falha humana. O versículo 17 introduz outro pronunciamento dé'Deus, relativo aos sacrifícios pelos pecados por ignorância e ao castigo pelos pecados de 180


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atrevimento. Desde que a lei de Israel é dada por Deus e não por uma simples autoridade humana, a desobediência deliberada é injúria ao próprio Senhor, merecendo o castigo mais severo (w . 30, 31). Os versículos 32-36 dão um exemplo desse atrevimento e seu castigo — o homem “apanhando lenha no dia de sábado”. O que parece ser algo trivial à primeira vista constituía na realidade um desprezo voluntário pelo Senhor Deus. O capítulo termina com o “cordão azul” que os israelitas deveriam usar. Eles deviam fazer franjas (ou possivelmente o significado seja borlas, como na versão de Almeida Revista e Atualizada) nos cantos (lit. asas) de suas roupas e prendê-las com um cordão azul. Deus determinou então um símbolo de distinção quando muitas outras distinções haviam sido suspensas. O azul é a cor celestial. Servia para lembrá-los de seu chamado tam bém celestial e fazer com que se recordassem “de todos os mandamentos do Senhor” e os cumprissem (v. 39). Serviria igualmente para lembrá-los de sua separação para Deus — “santos sereis a vossos Deus” (v. 40). Deveria ficar nas bordas das roupas, para que o sinal permanecesse com eles em toda parte e em todo tempo, de modo que, ao olharem para si mesmos e em direção à terra, seus pensamentos pudessem ser dirigidos para o céu. Esse cordão azul — esta marca distinta do Espírito de Deus — deveria estar em todo cristão em nossos dias.

A “Rebelião de Coré” (Judas 11) Os capítulos 16 a 18 formam um todo. No 16 lemos sobre a “rebelião de C oré”, que na verdade representou um ataque contra o sacerdócio arônico. Mais de quinze mil morrem no castigo de terremoto, fogo e praga. A seguir, no capítulo 17, vemos a vara de Arão florescer e a nova confirmação divina do sacerdócio arônico. Depois disso, no capítulo 18, temos a reafirmação divina do sacerdócio arônico, feita ao próprio Arão. E ncontram os assim nesses três capítulos a defesa, testem unho e confirmação do sacerdócio arônico. Note no capítulo 16 que o rebelde Coré era filho de Coate. Os coatitas tinham os serviços mais seletos entre os levitas. Eles carregavam as coisas mais sagradas do tabernáculo. A apostasia muitas vezes surge dentre os próprios líderes da religião. Os seus incensários foram guardados como uma advertência (v. 38). 181


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Note, no capítulo 17, que a vara de Arão, ao dar flores e frutos, é um belíssimo tipo milagroso da ressurreição de Cristo. Os fundadores das religiões não-cristãs eram varas mortas, assim como os sistemas por elas originados. Cristo é a vara que floresceu e frutificou na vida e glória da ressurreição; Sua ressurreição é o testemunho divino de que Ele é o único e verdadeiro Salvador-Sacerdote dos homens.

A Novilha Vermelha (19) A ordenança da novilha vermelha, no capítulo 19, provavelmente seguiu-se como resultado da revolta de Coré. Além da morte natural, o povo também fora dizimado aos milhares pela praga. Havia necessidade de meios de purificação para aqueles que haviam se contaminado pelo contato com os cadáveres. As cinzas da novilha vermelha foram usadas com este propósito, como foi descrito, e talvez como m edida de emergência, pois nenhuma ordenança desse tipo é prescrita em Levítico. Hebreus 9.13,14 sugere que temos aqui um tipo da morte salvadora do Senhor por nós. A novilha vermelha deveria ser sem defeito, como era o caráter de Cristo. Ela não deveria ter levado jugo ainda (o jugo era colocado no animal a fim de dominar sua natureza selvagem e obrigá-lo à submissão), assim como o Senhor também não tinha necessidade de qualquer jugo, pois veio cumprir a vontade do Pai. A novilha devia ser vermelha — e desde que este é o único lugar onde a cor de um animal a ser sacrificado é estipulada, seria uma referência especial à obediência do Senhor até a morte na cruz? A novilha devia ser imolada fora do arraial, como aconteceu com o Senhor (Hb 13.12). O sangue devia ser espargido sete vezes na direção do santuário, representando expiação perfeita; e as cinzas da novilha, com a água purificadora, deviam ser espargidas sobre as pessoas contaminadas, a fim de purificá-las. Ao contrário das outras ofertas, esta jamais deveria ser repetida. Em outros casos, quando alguém pecava, era necessário novamente derramar sangue; mas aqui, a virtude do que já fora oferecido e aceito permanecia. Da mesma forma, o sacrifício de Cristo proveu a purificação completa e contínua de toda contaminação em nossos corações enquanto passamos por “este mundo perverso” que, num sentido espiritual, está marcado pela morte em toda parte. Veja 1 João 1.7. 182


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O Fim da “Peregrinação” (20) Estamos agora no capítulo 20, cujo final coincide com o término da peregrinação. O primeiro versículo deste vigésimo capítulo contém inform ações especiais acerca da p e reg rin ação , sendo essencial compreendê-lo bem. Em lugar de prolongar esta lição com os argumentos minuciosos envolvidos na questão, tratamos dele em nosso adendo aos estudos deste Livro de Números (no fim da próxima lição), onde pode ser examinado posteriormente. E n tre m e n te s, n este capítulo, encontram os significativam ente agrupados a morte de Miriã, o pecado de Moisés e a morte de Arão. Devido à falha de Moisés em Meribá, ele foi impedido de conduzir a nação até Canaã (v. 12); todavia, embora tocante, até mesmo isto nos ensina, tipologicamente, que a lei representada por Moisés jam ais poderá introduzir-nos naquele descanso tipificado por Canaã. O relato da morte de Arão emociona; e, como já assinalamos, este evento marca (mediante comparação com 33.38) o fim da peregrinação. Assim sendo, Arão, que era representante do sacerdócio, não podia levar Israel ao descanso prometido; nem Miriã, que representava os profetas; nem Moisés, representante da lei. Isto ficou reservado para Josué, que de maneira singular foi um tipo de nosso Salvador e Comandante celestial, o Senhor Jesus Cristo. O incidente da rocha em Meribá está repleto de lições sobre tipos. Foi dito a Moisés que simplesmente falasse à rocha; mas ele impacientemente bateu-lhe duas vezes com a vara. A rocha (Cristo: 1 Co 10.4) só precisa ser ferida uma única vez e não mais que isso. Pelo fato de se bater nela novamente, ficaria tipologicamente implícito que o sacrifício único era inadequado, contradizendo assim a finalidade e eficácia permanentes do Calvário. Todavia, apesar do ato de Moisés, a água jorrou da rocha. Em comparação, a despeito das interpretações erradas e do comportamento negativo dos homens em relação à cruz, a “água viva” continua correndo “mais abundantemente” da fenda da Rocha Eterna, a fim de abençoar as almas de dezenas de milhares em cada geração.

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Lição NQ16


N O T A : R e le ia para e ste estu d o os cap ítu los 21 a 36.

“Um cientista cínico da antigüidade zombou da Bíblia como sendo uma ‘coleção de fantasias rudes da Síria’, como ‘a velha garrafa desgastada do judaísmo em que o vinho novo e generoso da ciência está sendo colocado’. O sábio cético está morto, mas a Bíblia ainda vive, pois ela é o livro dos livros. Os velhos vinhos da ciência azedam em suas adegas e as novas vindimas os substituem. Mas a Bíblia não mostra sinais de senilidade. Sua juventude é eterna. Quando nossos cientistas e suas teorias estiverem esquecidos, a Bíblia continuará sendo o que tem sido para a humanidade durante dois mil anos, o livro único e universal da sabedoria, da verdade, da sublimidade e do consolo.” JAMES DOUGLAS


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PARTE III A NOVA GERAÇÃO (21-36) {De Cades às Planícies de Moabe) A TRISTE espera terminou. Uma nova manhã se levanta. A antiga geração já não existe. Uma nova geração surgiu. Arão se foi, e Eleazar é nomeado sumo sacerdote. Moisés deverá partir em breve, e Josué irá substituí-lo como líder. Chegou a hora de uma nova partida. Israel deve seguir para as planícies de Moabe e preparar-se novamente para entrar na terra prometida. Nesta divisão final de Números temos:

A nova jornada (21-25) O novo censo (26, 27) As novas instruções (28-36)

A nova jornada (21-25) A viagem para as planícies de Moabe levaria de quatro a cinco meses. Concluímos isto pelo fato de o povo ter deixado o Monte H or um mês depois da morte de Arão (20.29), ocorrida no quinto mês do quadragésimo ano (33.38); e por ter sido no undécimo mês desse mesmo ano, ao chegarem às planícies de M oabe, que Moisés começou sua grande incum b ência com Isra e l, cujos d e ta lh es constituem o livro de Deuteronômio (Dt 1.3, 5). A viagem prolongou-se muito porque o povo de Edom não permitiu que Israel cortasse caminho pelo seu território (20.14-22; 21.4). As principais paradas e incidentes são dados no capítulo 21, que se inicia com dois fatos importantes. Primeiro, a nova resposta do Senhor a Israel: “Ouviu, pois, o Senhor a voz de Israel, e lhe entregou os cananeus” (v. 3). Durante a peregrinação, enquanto Israel estava desviado da vontade de Deus, não houve uma resposta desse tipo. Veja Deuteronômio 1.44. 187


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Referindo-se ao início da peregrinação, Moisés diz: “Os amorreus, que habitavam naquela região montanhosa, vos saíram ao encontro; e vos perseguiram como fazem as abelhas, e vos derrotaram desde Seir até Hormá. Tornaste-vos, pois, e chorastes perante o Senhor,porém o Senhor não vos ouviu, não inclinou seus ouvidos a vós outros”. Agora, porém, ao retom ar a verdadeira história de Israel, os privilégios da aliança tornam-se de novo atuantes. Israel clama e o Senhor ouve. Anote a grande lição aqui. Quando aba ndonamos a vontade de Deus para nós, o poder real da oração fica suspenso; mas se continuarmos em sintonia com essa vontade, nada pode prevalecer contra nós. Fora da vontade divina somos cegos peregrinos. D entro dela somos peregrinos militantes com um claro objetivo. Segundo, eis a nova vitória de Israel. “O Senhor... lhe entregou os cananeus. Os israelitas os destruíram totalmente a eles e a suas cidades; e aquele lugar se chamou Hormá” (v. 3). Hormá foi o lugar da derrota humilhante no início da peregrinação (veja 14.45). Agora, no seu final, quando Israel volta à luz do propósito e favor divinos, há vitória no mesmo ponto em que antes houvera amarga derrota. A verdade é que, quando voltamos as costas à Canaã para a qual Deus quer guiar-nos, não conseguimos enfrentar nossos inimigos espirituais! Manter-se na vontade de Deus é o segredo do progresso triunfante. A seguir, nos versículos 4-9, temos o episódio ligado à serpente de bronze. Vamos nos referir ao tipo ensinado aqui posteriormente. O que desejamos notar agora é o desânimo de Israel (veja o v. 4). O povo fora impedido de atravessar a terra de Edom e teve de rodeá-la. Isto não só prolongou a viagem, como também fez com que os israelitas se sentissem injuriados e a marcha parecesse ainda mais comprida. Israel cai no velho pecado da murmuração (v. 5) e sofre novamente (v. 6). E isto logo após sua recente vitória! Devemos ficar vigilantes nos períodos de vitória, para não sofrermos reações depressivas. Note também que a serpente de bronze, embora semelhante na aparência às que haviam infestado e destruído o arraial, serviu tanto para lembrar o povo de seu erro como para prover cura. Assim também no Calvário vemos, como em nenhum outro lugar, a profundidade de nosso pecado e simultaneamente a salvação contra ele. Passamos a seguir, através de vários estágios, para o poço do cântico (w. 16-18): “... este é o poço, do qual disse o Senhor a Moisés: Ajunta o povo e lhe darei água. Então cantou Israel este cântico: 188


O LIVRO DE NÚMEROS (4)

‘Brota, ó poço! Entoai-lhe cânticos! Poço, que os príncipes cavaram, que os nobres do povo abriram, com o cetro, com os seus bordões. ’ ” Demos graças a Deus pelo cântico! O que os suspiros e lamentos não puderam fazer, no versículo 5, o canto consegue, no 17. Até parecia que Israel se esquecera de como cantar. Não existe registro de qualquer canto entre este poço do cântico e aquele que Israel cantara junto ao Mar Vermelho. Por que Israel cantou neste poço? Será que finalmente haviam descoberto que a água da Rocha ferida os seguira em todas as suas jornadas e que, mesmo em meio ao mais árido deserto, tudo o que precisavam fazer era cantar um hino de fé e cavar através da crosta dura para encontrar a fonte, no momento exato de sua necessidade? Teriam aprendido agora que, além de ser desnecessário/enVa Rocha mais de uma vez, era também desnecessário providenciar outra rocha para cada nova necessidade? Não sabemos. Contudo, será que nós já aprendemos não só a finalidade do sacrifício único no Calvário, mas também a continuidade de suprimento dessa Rocha ferida uma única vez (“e a pedra era Cristo” — 1 Co 10.4)? Estamos nós vivendo mediante o fluxo contínuo dessa “água viva”, o Espírito Santo? Descobrimos nós que logo abaixo da superfície dura dos trechos mais estéreis da vida encontra-se a corrente cristalina da Rocha que nos segue, pronta para jorrar ao ouvir a voz de oração e o cântico de fé? Estamos nos beneficiando com a alegria dos poços da salvação? Tais cantos e fontes transformam o mais monótono dos desertos! No restante deste capítulo tudo é vitória. Se Israel tivesse cantado o hino de fé em Cades, 38 anos antes, em lugar de dar vazão aos seus sentimentos de incredulidade, que conquistas poderiam ter ocorrido em lugar da peregrinação! Agora, nos capítulos 22 a 24, um dos personagens mais estranhos da Bíblia aparece em cena — Balaão. Quanto aos problemas e aspectos específicos relativos a ele, veja nosso adendo no final deste estudo. Na verdade, esses três capítulos não fazem parte da narrativa, como se conclui pelo fato de o capítulo 21 ligar-se diretamente ao 25. O ponto alto a notar aqui é que mesmo os estratagemas mais astuciosos do maligno contra Israel são superados agora que a nação marcha mais uma vez segundo a 189


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vontade do Senhor. Balaão, que tenta amaldiçoar, é obrigado a abençoar. Lamentavelmente, porém, o próprio povo se desvia e comete o erro am aldiçoado. O capítulo 25 — um capítulo terrível — começa: “Habitando Israel em Sitim, começou o povo a prostituir-se com as filhas dos moabitas. Estas convidaram o povo aos sacrifícios dos seus deuses; e o povo comeu, inclinou-se aos deuses delas. Juntando-se Israel a Baal-Peor, a ira do Senhor se acendeu contra Israel”. Em 31.16 ficamos sabendo que, embora Balaão não tivesse podido amaldiçoar os filhos de Israel, ele evidentemente tinha aconselhado as mulheres de Moabe e Midiã a assediá-los. Os filhos de Israel caíram facilmente na armadilha preparada por elas. O restante deste capítulo é uma leitura triste. Vinte e quatro mil morrem da praga que os acometeu como castigo. Quanta tragédia depois do recente registro de vitórias! Como foi trágica essa idolatria e obscenidade por parte de um povo abençoado com ensinos tão sublimes e com tão elevada vocação! Esses capítulos de Números nos ensinam que certamente não basta termos uma lei ou ideal exterior, por mais puro e elevado que possa ser. O que precisam os é de uma transformação interior para esmagar a perversidade inata de nossa natureza decaída!

O novo censo (26,27) Os capítulos 26 e 27 apresentam-nos o novo recenseamento militar de Israel e certos assuntos ligados a isto. É interessante observar os números lado a lado com os da contagem anterior (veja página seguinte). O novo censo foi, evidentemente, feito em grupos de cem, como o anterior. O pequeno decréscimo no novo total e os estranhos aumentos e diminuições em algumas tribos sugerem imediatamente a autenticidade desses números. Um registro artificial teria evitado variações assim difíceis. O novo total harmoniza-se pateticamente com toda a história de Números. No início dos 40 anos, a soma é de aproximadamente 600.000; e de novo, no final dos 40 anos, ela chega a 600.000. Eles não progridem d u ra n te to d o o p e río d o . O p ro g resso é re ta rd a d o a té m esm o numericamente. A estranha queda em algumas tribos pode ser justificada pelas pragas que recaíram como castigo. Entendemos que Simeão figurou 190


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com destaque no pecado e praga de Baal-Peor (veja 25.14). O princípio para a divisão da terra é dado nos versículos 53-56; o novo total dos levitas, nos versículos 57-62. Tribo Rúben Simeão Gade Judá Issacar Zebulom Efraira Manassés Benjamim Dã Aser Naftali

Censo Antigo 46.500 59.300 45.650 74.600 54.400 57.400 40.500 32.200 35.400 62.700 41.500 53.400 603.550

Novo Censo

Decréscimo

43.730 22.200 40.500 76.500 64.300 60.500 32.500 52.700 45.600 64.400 53.400 45.400 601.730

6% 63% 11%

Acréscimo

2,5% 18,0% 5,5% 20% 63,0% 29,0% 2,5% 28,0% 15%

A súplica das filhas de Zelofeade para que sua herança de família seja respeitada (27.1-11) está ligada a este novo recenseamento. O trecho é claro e não exige comentários. Depois desse novo censo, Moisés é avisado de sua morte iminente (w. 12-14). A maneira como ele recebe a notícia é tocante: “O Senhor, autor e conservador de toda vida, ponha um homem sobre esta congregação, que saia adiante deles, e que entre adiante deles, e que os faça sair, e que os faça entrar; para que a congregação do Senhor não seja como ovelhas que não têm pastor” (w. 16-17). Não existe aqui nenhum egoísmo. O povo e a causa do Senhor ocupam completamente o seu coração. Se o bem-estar deles for assegurado, ele ficará satisfeito. Que um espírito desse tipo habite em nossos corações! Depois da oração de Moisés, ele é instruído publicamente a nomear Josué como o novo líder, e o relato dessa nomeação encerra o capítulo (w. 18-23). Vemos então aqui a recém-contada força militar de Israel em sua mudança para o comando de Josué e na subida para possuir a terra.

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e lhe impôs (Moisés) as mãos, e lhe deu (a Josué) as suas ordens, como o Senhor falara” (v. 23).

As novas instruções (28-36) Não precisamos nos deter muito nesta seção final de Números. Os capítulos 28 e 29 estão ligados um ao outro. Eles tratam das ofertas ao Senhor, especificando seus elementos e rotina, ampliando desse modo as ordens já dadas em Levítico 23. Em primeiro lugar estão as ofertas diárias (28.3-8), depois as ofertas do sábado (w . 9, 10), a seguir as ofertas dos p rin c íp io s dos m eses (vv. 11-15) e p o r últim o as o fe rta s que acompanhavam as “festas” do Senhor (28.16-29.40). Quanto aos aspectos tipológicos dessas ofertas e festas faça uma recapitulação de nosso estudo em Levítico. É preciso apenas notar que a oferta especial para o sábado foi ordenada aqui pela primeira vez, assim como a do novo mês ou lua nova. A oferta diária, prescrita em Êxodo 29.38-42, a qual presumimos ter continuado ininterruptamente desde então, é especificada aqui outra vez, por ser a base de todo o sistema sacrificial. Qualquer outra coisa seria oferecida como um acréscimo a ela e não em seu lugar. Todas as ofertas fazem menção tipológica de Cristo, sendo portanto significativo que Deus fale delas aqui como “do meu manjar” (28.2). Em Cristo, Deus encontrou Seu deleite. O coração de Deus Se alimenta nEle, por assim dizer, e fica perfeitamente satisfeito. O capítulo 30 refere-se aos votos — de homens (w . 1, 2), de mulheres solteiras (w. 3-5), de mulheres noivas (w. 6-8), de viúvas (v. 9), de esposas (w . 10-15). Quanto ao reconhecimento divino do valor dos votos, veja nossa nota sobre o capítulo 6. O propósito das novas instruções aqui é proteger os votos, para que não fossem considerados levianamente — sendo prometidos ou quebrados com facilidade. Eles devem ser feitos apenas a Deus (w. 2, 3). Não devem ser quebrados (w . 2, 9,15). No caso de moças solteiras, devem ser controlados pelos pais (w . 3-5). No caso das noivas, é preciso cuidado para não fazer votos precipitados. No caso da mulher casada, é necessário que o marido concorde. Podemos aprender muito de tudo isso. Existe lugar para uma aliança especial com Deus, seja ela de autonegação, períodos de oração, dádivas 192


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em dinheiro, jejum ou outras coisas; e isso talvez venha a prover uma forma abençoada de expressar o amor intenso do coração para com Deus; devemos, porém, sempre manter tais votos ou alianças como o mais sagrado e inviolável dos contratos. Além disso, o voto do israelita da antigüidade não seria uma sugestão para nós, que fomos remidos por um preço mais alto, de que, com toda sinceridade, dediquemos nosso próprio “eu” por toda a vida, colocando-o à disposição da vontade e serviço de nosso adorável Redentor?

O Castigo Contra Midiã (31) O capítulo 31 contém a ordem para a guerra contra Midiã. A mente se revolta diante do relato. A dificuldade moral envolvida no ataque de Israel contra os cananeus, aprovado por Deus, aparece aqui em sua forma mais grave. O que dizer a respeito? Entendemos que a chave está na palavra “vinga”. A ordem de Deus é: “Vinga os filhos de Israel dos midianitas” (v. 2). Moisés transmite a ordem desta forma: “Vinga o Senhor de Midiã”. Assim, se estivermos lidando com um a linguagem sincera, esta guerra contra M idiã foi certam ente autorizada por Deus e cumpriu um propósito divino. Este fato em si não envolve nem desculpa o comportamento associado à sua execução, mas oferece a base para uma consideração autêntica. A guerra contra Midiã não foi apenas uma vingança humana: foi uma retribuição divina. Ela tinha a finalidade de “vingar os filhos de Israel”, porque os midianitas haviam injuriado Israel de forma deliberada, astuciosa e grave, sem provocação. Ela tinha o propósito de “vingar o Senhor”, porque, ao induzir Israel a cometer idolatria licenciosa, eles haviam deliberadamente (aconselhados por Balaão) atacado o Deus santo de Israel. Deixemos então bem claro que Midiã mereceu o castigo que lhe foi aplicado. Quanto ao fato de Deus ter ordenado a Israel que destruísse os midianitas, isto se harmoniza com a ordem divina de destruir as nações cananéias em geral (Ex 23.24; Dt 7.1-6etc.). Existem algumas pessoas cujas simpatias sentimentais se inclinam de tal maneira para os cananeus corrompidos, que acham praticamente impossível crer que Deus pudesse dar tal ordem ou autorizar essa guerra. Com base nisto eles rejeitam a inspiração do registro. Mas quando lemos sobre as terríveis infâmias cometidas pelos cananeus, em passagens como Levítico 18 (notando 193


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especialmente os versículos 24, 27, 30), somos levados a perguntar (caso sejamos realmente honestos): como um Governador justo entre as nações poderia fazer outra coisa — seja em justiça para esse povo corrupto ou em consideração para os que foram corrompidos pela sua influência — a não ser exterminá-los de um ou outro modo? Quanto ao método pelo qual Sua vontade deve ser cumprida, Deus tem o direito soberano de decidir; Ele realiza a cirurgia inadiável numa nação viva chamada à santidade para a execução do propósito divino tanto em Sua necessária severidade como em Sua beneficência, a fim de que toda a raça possa aprender e ficar atenta. Se Deus, porém, tivesse decidido em lugar disso usar a peste, um abalo sísmico, ou um surto de fome, os que professam achar inconcebível a ordem de Deus para Israel não fariam qualquer acusação de injustiça. Todavia, mediante esses agentes mudos, as lições que o Senhor desejava ensinar jam ais poderiam ter sido aprendidas; e o sofrimento físico infligido seria muito maior. Enfrentemos este fato de modo claro e sincero. Se cremos numa Providência soberana, devemos crer tam bém que de um modo ou de outro Deus toma providências para que a grande perversidade em uma nação receba um grande castigo. E Ele tem o direito absoluto de decidir qual o meio a ser usado para este fim. Quanto à vingança de Midiã, o que parece mais brutal, ou seja, a matança das mulheres e crianças do sexo masculino (v. 17), tem bastante razão de ser, quando consideramos o acontecimento à luz de tudo que aprendemos. Os homens de Israel haviam poupado as mulheres e crianças de Midiã e os levaram cativos. A ira de Moisés, juntamente com palavras como as de Deuteronômio 7.2, indica que eles deixaram de obedecer plenamente nesse sentido. Além do mais, o contexto sugere que o motivo pode ter sido tanto sexual como benevolente. Foram justamente aquelas mulheres que antes haviam seduzido os homens de Israel, acarretando a morte de 24 mil pessoas (25.9). O que fazer agora com elas? Parece medonho matar uma mulher. No entanto, havia razão para tem er mais as mulheres do que os homens de Midiã, pois elas teriam espalhado o contágio físico e moral através do acampamento. Para fazer justiça aos homens e mais ainda por causa das mulheres casadas e solteiras dentre os israelitas, era inconcebível deixar livre aquele grupo de estranhas m ulheres. Isto im pressiona ainda mais quando consideram os sua im oralidade generalizada e as doenças venéreas que certam ente 194


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predominavam entre elas. Encontramos um ligeiro reconhecimento disto na discriminação feita por Moisés no versículo 17 (e mesmo depois disto, restaram 32 mil mulheres mais jovens e puras! — veja o v. 35). Parece também terrível a idéia de m atar uma criança. Todavia, permitir que toda uma geração de midianitas crescesse sob os telhados de Israel, por assim dizer, teria sido insensato, representando um convite certo para o desastre da nação. Deveriam esses cativos ser então enviados de volta às suas aldeias devastadas para perecer de fome e doenças? Houve uma percepção compassiva na intolerância aparentem ente cruel de Moisés, embora ele não parecesse ter buscado orientação divina especial para a ordem específica do versículo 17. Moisés compreendeu o que muitos de seus severos críticos hoje em dia não permitem na Bíblia, mas aceitam fora dela — o fato de um mal grave geralmente exigir uma atitude drástica. Quando a misericórdia envolve transigência, ela representa falsa bondade para com o malfeitor e crueldade para com o indivíduo prejudicado. Para fazer justiça aos homens de Israel, é bom acrescentar que em todo o relato não encontramos qualquer traço de selvageria, tortura ou violência contra as mulheres — atos que faziam parte dos hábitos de guerra comuns naquela época. Três coisas notáveis destacam-se neste ataque contra M idiã— primeira, a facilidade da vitória; segunda, a quantidade dos despojos (w . 25-47); terceira, nenhuma vida perdeu-se dentre os israelitas (v. 49). Como teria sido rápida a ação contra as nações de Canaã e como poderia ter sido diferente a história posterior da raça humana! Bastava que Israel tivesse permanecido fiel à lei da aliança.

Os Capítulos Finais (32-36) No capítulo 32 temos, da parte de Rúben, Gade e Manassés, o pedido de autorização para se estabelecerem no território recentem ente capturado a leste do Jordão. A base do apelo era a evidente conveniência da região para o seu “gado em muitíssima quantidade” (v. 1). O pedido deles parecia razoável, embora não deixasse de ser uma transigência. O lugar de Israel era dentro de Canaã e não do lado de fora. Ao escolherem pelo que viam (“e viram”, v. 1), como fizera Ló muito antes (Gn 13.10,11), em lugar de fazê-lo pela fé e segundo a vontade de Deus, e por se contentarem com sua porção fora do lugar da bênção prometida (embora 195


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bem próximo a ela), eles se tornam tipos dos cham ados cristãos “mundanos” de hoje. Vemos o resultado de sua escolha em 1 Crônicas 5.18-26 e 2 Reis 15.29. Eles rapidamente aceitaram os deuses dos povos vizinhos e foram os primeiros a serem capturados. A condição dos seus descendentes por ocasião da primeira vinda de Cristo é encontrada em Marcos 5.1-17. No capítulo 33 encontramos o resumo das jornadas de Israel, saindo do Egito em direção ao Jordão, sobre o qual não necessitamos nos demorar. Também não precisamos nos deter no capítulo 24, exceto para ressaltar que as fronteiras da terra aqui descritas marcam uma área bem menor a ser ocupada do que a prometida a Abraão (Gn 15.18). A este fato nos reportaremos mais tarde. A herança total estende-se no sentido oriental até o Eufrates. As cidades de refúgio, no capítulo 35, devem ser estudadas: seu número (w . 6-8), seu propósito (w. 9-12), sua distribuição (w. 13, 14), seus regulamentos (w . 15-34) e suas lições tipológicas (juntamente com outras passagens relativas a elas). O capítulo final trata adequadam ente da garantia da herança na terra, podendo muito bem falar-nos da segurança eterna da herança do crente em Cristo. Termina assim este maravilhoso quarto livro do Pentateuco. Ele é um verdadeiro convite para que o estudemos mais e em maior profundidade!

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ADENDO AO LIVRO DE NÚM EROS

Balaão, o profeta mercenário (22-25) Os capítulos 22 a 25 estão associados. Balaão, estranho feiticeiro-profeta, move-se aqui diante de nós. Esta seção de Números é completa em si mesma. Ela corre em paralelo à narrativa de Israel, em vez de lhe dar continuidade — como pode ser observado facilmente pelo fato de 25.1 continuar o relato a partir do ponto em que o último versículo do capítulo 21 o deixou. Esta seção é também notavelmente diversa do restante de Números em sua forma literária. Ela se apresenta como uma peça teatral, em que os personagens e acontecimentos mais interessantes são tratados com muita arte. Três problemas surgem na pessoa deste profeta híbrido— seu conhecimento do Deus verdadeiro, seu caráter enigmático, seu estranho dom profético. Como justificar seu conhecimento do Deus verdadeiro? Acreditamos que ele seja uma das muitas evidências de uma revelação de Deus original e pura que se tornou pervertida e obscurecida com o passar do tempo, quando a raça humana se dispersou pela terra. Números 22.5 conta que Balaão era de Petor, e Deuteronômio 23.4 diz que Petor ficava na Mesopotâmia. O próprio Balaão diz ter vindo “de Arã... dos montes do Oriente”(Nm 23.7). Balaão, portanto, nasceu no próprio berço da raça. Desse modo, a explicação natural e adequada de seu conhecimento do Deus verdadeiro é que, naquela época, tal conhecimento continuava existindo na região. A seguinte citação de um estudioso do Antigo Testamento confirma isto: “Todo vislumbre que nos é concedido dos descendentes de Naor em seu lar na Mesopotâmia confirma a crença de que eles concordavam substancialmente com a família escolhida no que se refere ao sentimento e linguagem religiosos. Betuel e Labão cultuavam o mesmo Deus e o chamavam pelo mesmo nome que Isaque e Jacó (Gn 24.50; 31.49). Não há dúvida de que práticas idólatras prevaleciam em suas casas (Gn 31.19; 35.2; Js 24.2), mas isso, embora perigoso, não exterminou a verdadeira fé entre eles, assim como vemos a existência de semelhante adoração entre os cristãos. Por certo haviam passado séculos desde os dias de Labão; e podemos perfeitamente concluir que, durante esses séculos, o povo comum havia adotado as práticas idólatras de seus pais, até apagarem inteiramente a adoração do Deus verdadeiro e único. Mas o passar do tempo e a mudança na crença popular não fizeram grande diferença para os ensinamentos secretos e mais elevados de países como a Mesopotâmia daquela época, intensamente conservadora tanto em relação ao bem como ao 197


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mal. Homens como Balaão, que provavelmente tinham um direito hereditário à sua posição de vidente, permaneceram puramente monoteístas em sua crença e, em seu coração, invocavam apenas o Deus de toda a terra, o Deus de Abraão e de Naor, de Melquisedeque e de Jó, de Labão e de Jacó. Se soubéssemos o suficiente sobre a história religiosa dessa terra, é possível que tivéssemos condições de apontar uma lista razoavelmente completa de homens com grandes talentos (em muitos casos divinamente), servos e adoradores do Deus verdadeiro, até chegar aos magos que saudaram em primeiro lugar o aparecimento da brilhante Estrela da Manhã.” O que dizer porém do caráter de Balaão? Ele é um paradoxo vivo — um profeta verdadeiro e falso ao mesmo tempo. E verdadeiro por conhecer o Deus verdadeiro, ter nEle uma fé real, tratar realmente com Ele e dEle receber comunicações reais, transmitindo Suas mensagens igualmente verdadeiras. Todavia, é um falso profeta por recorrer também a artes mágicas, sendo chamado de adivinho (Js 13.22), e corromper seu estranho dom profético em troca de proventos materiais. Como explicar essa mistura de contradições tão profana? O escritor citado acima diz: “Esta é inegavelmente uma das ocasiões (talvez raras) em que a inteligência mais treinada e educada dos dias atuais tem uma clara vantagem sobre a fé mais simples e a piedade mais intensa dos primeiros séculos. O conflito, ou antes a transigência de Balaão entre a religião verdadeira e o embuste supersticioso, entre uma real inspiração divina e a prática de feitiçarias pagãs, entre a devoção a Deus e a devoção ao dinheiro, era um enigma ininteligível para os homens da antigüidade. Para os que compreenderam o caráter de um Luís XI, de um Lutero, de um Oliver Cromwell, ou avaliaram a mescla de altos e baixos nos movimentos religiosos da história moderna, a surpresa não está na existência de alguém assim, mas na forma como tal indivíduo pôde ter sido descrito com tanta simplicidade e habilidade ao mesmo tempo”. Balaão é na verdade um estudo, traçado por mão inspirada, de um “caráter estranho mas naturalmente híbrido, cujos aspectos mais amplos estão sendo constantemente reproduzidos”. E as profecias de Balaão? Acreditam os que, em bora os demais pronunciamentos e feitos de Balaão estivessem longe de ser inspirados, suas profecias sobre Israel foram divinamente inspiradas. Lemos em 23.5: “Então o Senhor pôs a palavra na boca de Balaão, e disse: Torna para Balaque, e falarás assim”. De novo, em 23.16 lemos: “Encontrando-se o Senhor com Balaão, pôs-lhe na boca a palavra, e disse: Torna para Balaque, e assim falarás”. Em 24.2 lemos ainda: “...veio sobre ele o Espírito de Deus”. Se tomarmos essas palavras segundo seu claro significado, não ficaremos em dúvida. Como podia, porém, o Espírito Santo descer sobre um homem de mente dividida como Balaão? Esse é um problema que muitos enfrentam. Todavia, uma vez admitido o fato da inspiração, a dificuldade com Balaão não seria mais aparente que real? O Espírito do Senhor, a quem Balaão está invocando 198


O LIVRO DE NÚMEROS (4)

ambiguamente, desce sobre ele, não por se tratar de um canal digno, mas apesar das fraquezas dele, destruindo seu pensamento secreto de amaldiçoar Israel e superando com soberania os estratagemas da hipocrisia; de modo que aquele que em seu coração desejava amaldiçoar Israel com fins mercenários, é transformado em porta-voz de bênçãos prodigiosas. O próprio Balaão parece ter sido finalmente levado a perceber a futilidade de qualquer esforço para frustrar a vontade de Deus, pois em 24.1 lemos: “Vendo Balaão que bem parecia aos olhos do Senhor que abençoasse Israel, não foi esta vez como antes ao encontro de agouros, mas voltou o rosto para o deserto”. Quanto às profecias em si, sua linguagem é sublime e seu conteúdo, profundo. Veja 24.5-9 e 17-19. As seguintes mensagens também são memoráveis — 23.10, 19,21, 23. Passar a uma interpretação das profecias de Balaão neste ponto seria “lançar-se às profundezas”, o que fica além de nosso propósito presente. Entretanto, devemos observar as três referências a Balaão no Novo Testamento. Em 2 Pedro 2.15 lemos sobre o “caminho de Balaão”. Em Judas 11 encontramos o “erro de Balaão”. Em Apocalipse 2.14 é mencionada a “doutrina de Balaão”. O caminho de Balaão é a aplicação de um dom espiritual com fins lucrativos. O erro de Balaão é a idéia secreta de que a vontade de Deus pode ser evitada sob a capa de um respeito exterior por Sua palavra. A doutrina de Balaão é o conselho de arruinar com sedução um povo que não podia ser amaldiçoado com autorização (veja Nm 31.16).

A serpente de bronze — um tipo (21.4-9) Os três tipos principais no Livro de Números são: a rocha ferida (20. 7-11), a serpente de bronze (21.4-9) e as cidades de refúgio (35). Estes estão ligados no Novo Testamento a 1 Coríntios 10.4, João 3.14, Hebreus 6.18. São tipos esplêndidos. Como exemplo, vamos tratar aqui das principais analogias sugeridas pela serpente de bronze. Note, na narrativa, pecado (v. 5), sofrimento (v. 6), súplica (v. 7), salvação (w. 8, 9). Esta ordem é sempre aplicável à experiência. Note ainda que a murmuração era dupla — sobre o caminho e sobre o maná. Sua direção era igualmente dupla — “contra Deus e contra Moisés”. Seu castigo foi duplo — sofrimento e morte. A súplica era dupla — “havemos pecado” (confissão) e “ora ao Senhor” (petição). A salvação era dupla — na serpente e através de um olhar. Os homens se queixam hoje do mesmo modo contra o caminho de Deus e contra o Pão vivo que Ele proveu em Cristo. Em vista de os homens não terem comunhão com Deus atualmente, eles ficam contra Moisés, seu semelhante. Hoje, o pecado enche o mundo de sofrimento e dor, e hoje igualmente a salvação se acha em Cristo pelo olhar de fé. Agora note também — a salvação através da serpente de bronze estava fora do 199


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tabernáculo, em separado de todas as ordenanças, sacrifícios e ministrações sacerdotais. Hoje também a salvação não se faz por meio de sacerdotes, confessionários, comunhões ou quaisquer cerimônias religiosas. Não foi o sacerdote Arão que teve de levantar a serpente de bronze, mas o leigo Moisés. O Senhor Jesus, segundo a lei judaica, era leigo, pois não pertencia nem à família de Arão nem à tribo de Levi. Ele pregou no pátio do templo, mas jamais ministrou no altar de bronze. Os apóstolos também eram leigos. O Senhor Jesus e Seus apóstolos jamais indicaram o templo, os sacrifícios ou as ordenanças como meios para sua salvação, mas o Calvário. Mas o tabernáculo, as ordenanças e o sacerdócio não tinham origem e autoridade divinas? Sim, tinham, mas não possuíam o poder para tratar de homens e mulheres mordidos por serpentes. Muitos dos sacerdotes e levitas estavam também sendo mordidos e morrendo, assim como outras pessoas. O ponto chave é que o tabernáculo era o meio de acesso indicado para os que já se achavam em relação de aliança com Deus e tinham sido curados do veneno da serpente. Os “meios de graça” hoje são para aqueles que foram curados, salvos e preparados para a comunhão, através de Cristo, o Salvador. Os pecadores têm de achegar-se ao Calvário antes de se tornarem verdadeiros adoradores no santuário. Note os principais aspectos tipológicos na serpente de bronze. 1. SUA INDICAÇÃO

Jaj (ò) (c) (d) (e)

Era prescrita por Deus. A cruz de Cristo é também o meio de salvação divinamente indicado. Era uma denúncia. O bronze era um tipo do juízo; a serpente, do pecado. Juntos eles mostram o juízo sobre o pecado. Era o único remédio divinamente receitado. O Cristo da cruz é também o único caminho (At 4.12). Era resistente. Era feita de bronze. Só foi destruída muito mais tarde, por ser usada supersticiosamente. Era conspícua. Foi colocada no alto, no centro do arraial. Cristo também é levantado assim.

2, SUA SUFICIÊNCIA

(a) (b) (c) (d)

Era eficaz toda vez que alguém era mordido. Do mesmo modo, existe provisão na cruz de Cristo para todo tipo de pecado. Era eficaz por mais grave que fosse a condição do indivíduo. A cruz salva assim o pior dos pecadores. Era eficaz por mais que a pessoa fosse mordida. Na cruz também não há limites. Era eficaz sem levar em conta a condição da pessoa mordida — jovem, velho, sacerdote, escravo. Assim é a cruz para todos. 200


O LIVRO DE NÚMEROS (4)

(e)

Era infalível. Não há insinuação de qualquer caso em que tenha falhado. A cruz também nunca falha.

3. SUA APROPRIAÇÃO

(õ) (b) (c)

(d) (e)

Era muito fácil. A vida voltava com apenas um olhar. Hoje, também, a salvação vem pelo olhar de fé. Pode ter parecido improvável. Qual a ligação entre ela e o ferimento? Os homens também falam isso da cruz. Deveria servir de lição. Eles deviam olhar para a serpente, justamente aquilo que causava sofrimento. A cruz acusa assim o pecado, mesmo enquanto salva. Era individual. Cada um devia olhar por si mesmo. A cruz também deve ser apropriada individualmente. Trazia cura instantânea. Nenhuma sugestão de uma cura gradual ou demorada. O mesmo acontece com a cruz. Ela proporciona perdão e justificação imediatos.

Números 20,1 e a peregrinação A idéia comum sobre a chamada peregrinação de Israel no deserto, depois do colapso em Cades, é de que todo o arraial, o tabernáculo e o povo saíram numa procissão fútil de um lugar para outro naquela aridez, andando e parando, sem fazer qualquer progresso em direção a Canaã. A finalidade de nosso adendo é mostrar como essa idéia está errada. Não houve duas chegadas a Cades-Barnéia — uma no início dos 38 anos de peregrinação e outra no final. Houve apenas uma chegada. O tabernáculo e tudo que estava associado a ele permaneceu em Cades-Barnéia durante os 38 anos, enquanto o povo se espalhava em grupos errantes pastoreando pelos campos. O primeiro versículo do capítulo 20 tem especial importância em sua ligação com a peregrinação. É necessária a maior atenção, porque a maioria dos leitores da Bíblia o interpreta erradamente. “Chegando os filhos de Israel, toda a congregação, ao deserto de Zim, no mêsprimeiro, o povoficou em Cades. Ali morreu Miriã, e ali foi sepultada.” Essas palavras parecem ensinar uma segunda chegada a Cades, perto do final da peregrinação. Com base nisto, presume-se geralmente que houve duas chegadas a Cades — a primeira no capítulo 13, quando houve o colapso, e a segunda aqui, em 20.1 — com os 38 anos de peregrinação entre ambas. Rejeitamos essa suposição por ce rtas razões básicas. Primeira, no resumo dos movimentos de Israel dado em Números 33, só é registrada uma chegada a Cades, sem qualquer sugestão de um intervalo de 38 anos seguido de outra chegada a Cades antes de seguirem para o Monte Hor, onde Arão morreu. Absolutamente 201


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não. Fica implícito que eles permaneceram todo tempo nas vizinhanças de Cades (veja 33.36-38). Do mesmo modo, na recapitulação das jornadas em Deuteronômio 1 e 2, só há uma chegada (veja 1.19, 46; 2.14). Se houvesse uma segunda chegada, ela deveria ter sido anotada entre o último versículo de Deuteronômio 1 e o primeiro versículo do capítulo 2, pois fica bem claro que o rodear da montanha de Seir (Edom), no primeiro versículo do segundo capítulo, corresponde ao rodear de Edom em Números 20.14 e 21.4, no final dos 38 anos. Fica também evidente pelo versículo 7 que o primeiro versículo de Deuteronômio 2 refere-se ao fim dos 38 anos. Se houve então uma segunda chegada a Cades, ela deveria aparecer entre o último versículo do capítulo 1 e o primeiro versículo do capítulo 2. Não há, porém, qualquer insinuação nesse sentido. Portanto, não se trata de simples “argumento do silêncio” dizer que, se houvesse uma segunda chegada assim importante a Cades, marcando a morte de Miriã e Arão, encerrando a peregrinação, ela sem dúvida teria sido mencionada em ambos os resumos! Segundo, este primeiro versículo de Números 20 diz que Israel chegou a Cades “no mês primeiro”. Mas que primeiro mês era esse? Os que sustentam tratar-se de uma nova e segunda chegada a Cades só podem associar este mês ao fim do capítulo onde ficamos sabendo da morte de Arão. Eles dizem que o primeiro mês no versículo 1 deve ser o primeiro mês do ano em que Arão morreu. Todavia, parece certamente estranho que este “primeiro mês” fosse mencionado sem qualquer ligação para explicá-lo, exceto a que vem mais tarde — tanto mais porque, embora a morte de Arão seja descrita neste capítulo, não somos informados em que ano ou mês ele morreu, não até que se chege a 33.38! Esta referência ao fato de Israel ter chegado a Cades no primeiro mês sugere que o escritor quer associá-la a uma marcação de tempo feita pouco antes. Esta intenção real do autor fica clara pela tradução feita do hebraico pelo Bispo Ellicott: “Agora que os filhos de Israel haviam chegado... no primeiro mês”. As palavras “haviam chegado” esclarecem que o escritor está ligando esta chegada a Cades com o que foi registrado em 13 e 14, quando ocorreu a sedição. Entre a sedição em Cades e o capítulo 20, ele nos contou certos acontecimentos que se seguiram à revolta, e agora ele quer retornar ao ponto anterior antes de falar sobre o novo avanço de Israel em direção à planície de Moabe. Este é um procedimento adotado não só nas Escrituras como em todas as obras históricas. Este primeiro versículo do capítulo 20, portanto, fica claro agora. Os filhos de Israel haviam chegado a Cades (como nos capítulos 13 e 14) no primeiro mês do terceiro ano após o êxodo. Sabemos disto porque em 10.11 nos é dito que eles deixaram o Sinai no segundo mês do segundo ano, havendo, portanto, onze meses entre sua saída do Sinai e sua chegada a Cades. Haveria, então, probabilidade de a viagem do Sinai a Cades levar onze meses? Sim. Deuteronômio 1.2 diz: “Jornada de onze dias há desde Horebe pelo caminho da montanha de Seir, até 202


O LIVRO DE NÚMEROS (4)

Cades-Barnéia”. Fazendo concessão às dificuldades da viagem resultantes da quantidade de pessoas, com todo o seu equipamento, do necessário vagar e das paradas em virtude dos bebês e crianças menores, do gado e dos pertences, além dos intervalos para descanso normalmente exigidos, e dos incidentes que atrasaram a jornada, tais como a lepra de Miriã e sua exclusão do arraial, quando a viagem foi suspensa por sete dias — incluindo todas essas coisas, dizemos ser razoável supor que a jornada levasse cerca de onze meses. O fato de ter havido uma única chegada a Cades é bem apoiado, também, por considerações incidentais. Nosso versículo diz que o povo "ficou” em Cades, sugerindo uma longa permanência ali. A mesma coisa é sugerida em Deuteronômio 1.46. Já mostramos que entre este último versículo de Deuteronômio 1 e o primeiro do capítulo 2 não existe qualquer sugestão de uma segunda chegada a Cades. Queremos ressaltar agora o que o último versículo do capítulo 1realmente diz: “Assim permanecestes muitos dias em Cades”. Esses dois versículos indicam que, chegando a Cades e arredores, os israelitas permaneceram ali. Se dissermos que nosso versículo (20.1) indica uma segunda chegada a Cades, no final dos 38 anos, o que pensar sobre a idade de Miriã? O versículo diz: "... o povo ficou em Cades. Ali morreu Miriã, e ali foi sepultada”. Miriã tinha provavelmente 15 anos mais que Moisés (como se pode concluir em Ex 2.4), o que significa que ela tinha cerca de 135 anos, caso estivesse viva, no final da peregrinação — uma idade bem mais avançada do que aquela que foi permitido a Moisés e Arão alcançarem. Todavia, nosso versículo não sugere que ela tivesse tanta idade, embora pudéssemos esperar tal menção se morresse assim idosa no final da peregrinação. Se, por outro lado, aceitarmos o versículo ligado à chegada única de Israel a Cades, no capítulo 13, e compreendermos que o povo permaneceu desde então nos arredores desse lugar, tendo a morte de Miriã ocorrido em alguma época durante esse período, então esta informação de sua morte em 20.1 se torna imediatamente normal. Como nos capítulos 15-19, o escritor está apenas selecionando coisas particularmente notáveis que ocorreram durante os 38 anos, sem preocupar-se com sua cronologia exata. Outro argumento a favor do que foi dito acima é a fragilidade das objeções feitas. Afirma-se que, se Números 20.1 está ligado ao capítulo 13, mostrando apenas uma chegada a Cades, então as 21 paradas contidas em 33.16-36 devem ter ocorrido na pequena viagem de Sinai a Cades, enquanto Deuteronômio 1.2 diz que não passava de um jornada de onze dias. Em associação a isto, é também objetado que uma viagem de onze dias não exigiria de Israel onze meses. Tais objeções ajudam na verdade a confirmar nossa teoria. A distância seria entre 240 e 320 quilômetros. Divida isto por 21, e o que poderia ser mais natural do que as paradas de Israel serem feitas a intervalos de 11 a 16 quilômetros, como indica a divisão? Quanto à jornada ter levado onze meses, já ressaltamos a necessária 203


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lentidão de tamanha quantidade de pessoas. Quando acrescentamos ainda o tempo necessário para fazer cumprir a lei e que o povo se movia ou parava simplesmente orientado pela coluna, sem haver a mínima sugestão de que a velocidade era de alguma forma considerada importante, vemos imediatamente que os onze meses são um período de tempo bastante provável para tal jornada. É também salientado que a ordem de Deus em 14.25 foi esta: “... mudai amanhã de rumo e caminhai para o deserto pelo caminho do Mar Vermelho”. Isto não expressa, porém, a idéia de deixar os arredores de Cades, mas simplesmente o afastamento do ponto perigoso onde os inimigos se achavam emboscados. Leia o versículo inteiro: “Ora os amalequitas e os cananeus habitam (lit., estão habitando, L e., estão emboscados) no vale; mudai amanhã de rumo (dali) e caminhai para o deserto (próximo a Cades) pelo caminho do Mar Vermelho”. Nada mais precisa ser dito sobre este assunto. Estamos confiantes de que novas pesquisas feitas por qualquer estudante interessado irão confirmar que houve apenas uma chegada a Cades e que este capítulo 20 está ligado a ela. Este capítulo, portanto, é da máxima importância. Ele não só reúne a morte de Miriã, o pecado de Moisés e a morte de Arão; seu primeiro versículo leva-nos de volta ao início da peregrinação, enquanto o último marca o seu fim. D O ZE PERGUNTAS SOBRE NÚMEROS 1. Em que data e lugar começa o livro de Números? 2. Onde está a sua importância para nós? Responda fazendo referência ao Novo Testamento. 3. Quais os aspectos estruturais do livro de Números? 4. Qual o período de tempo mais importante marcado em Números e por quê? 5. Como são subdivididas as partes 1 e 3 do livro? 6. Por que todos os levitas do sexo masculino eram dedicados ao Senhor, em lugar de apenas os primogênitos? 7. Quais eram as três famílias de levitas e quais os seus respectivos deveres no tabernáculo? 8. Faça um diagrama da distribuição do arraial. 9. Onde lemos a respeito das trombetas de prata e qual o uso dado a elas? 10. Quais os principais acontecimentos registrados durante os anos de peregrinação?

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O LIVRO DE NÚMEROS (4)

11. Onde lemos sobre a serpente de bronze, e de que forma ela era um tipo? 12. Onde lemos sobre Balaão, e como você explicaria seu conhecimento do Deus verdadeiro?

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O LIVRO DE DEUTERONÔMIO (D


NOTA: Para este primeiro estudo em Deuteronômio, leia os onze primeiros capítulos duas vezes. “A literatura humana exige um dicionário e muitas vezes uma biblioteca de referência para que se descubra seu significado. A Palavra de Deus é, na maior parte das vezes, o seu próprio dicionário e biblioteca de referência. Em seus limites pode ser encontrada a definição direta ou indireta de seus termos. Assim, o estudioso atento independe quase completamente de ajuda externa, e até mesmo os pobres e mais simples conseguem compreender sua mensagem, que fica desse modo ao alcance de todos.” A. T. PIERSON, D.D.


O LIVRO DE DEUTERONÔMIO (1)

APÓS o impiedoso teste a que foi submetido o Pentateuco por parte da crítica bíblica nos últimos anos, resta pouca dúvida, ou talvez nenhuma, de que os cinco primeiros livros de nossa Bíblia — basicamente como os temos hoje — tenham saído da pena de Moisés. Fica igualmente claro que estes escritos de Moisés enquadram-se nas cinco divisões naturais indicadas em nossa Bíblia sob os títulos de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Cada uma das cinco é completa em si mesma de maneira bastante real. Cada uma tem seu próprio assunto, ênfase e mensagem. Todavia, as cinco concordam evidentemente entre si e juntas constituem uma das grandes divisões das Escrituras. De fato, como já indicamos antes, as mensagens predominantes desses cinco livros de Moisés, quando conjugadas, fazem do Pentateuco uma espécie de Bíblia em miniatura. No livro de Gênesis temos a ruína mediante o pecado do homem; em Êxodo, a redenção pelo “sangue” e pelo “poder”; em Levítico, comunhão com base na expiação; em Números, orientação pela vontade de Deus que serve de guia; em Deuteronômio, destino mediante a fidelidade de Deus. Esses cinco livros também nos fornecem uma revelação progressiva de Deus. Observamos em Gênesis a soberania divina na criação e eleição; em Êxodo, o poder divino na redenção e emancipação; em Levítico, a santidade divina na insistência na separação e santificação; em Números, a “bondade e severidade” divinas no julgamento das antigas gerações e na preservação das novas; em D e u te ro n ô m io , a fidelidade d iv in a na d is c ip lin a e d e s tin o . Compreendemos, portanto, que Deuteronômio, o último dos cinco livros, o qual vamos considerar agora, não é apenas o derradeiro na ordem, mas a conclusão natural e belíssima do Pentateuco. O nome hebraico deste quinto livro de Moisés era Haddeb-harim, ou seja, “as palavras” — sendo o seu título extraído do primeiro versículo dele: “São estas as palavras que Moisés falou a todo o Israel, dalém do Jordão, no deserto...” Este nome marca suficientemente o seu caráter, diferenciando-o dos livros mais definidamente históricos e legislativos que o precederam. A história e legislação dos primeiros livros são recapituladas

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EXAMINAI AS ESCRITURAS

em Deuteronômio, mas só como base para as palavras de advertência agora registradas. No sentido mais verdadeiro, profundo e completo, Deuteronômio é um livro de palavras; pois jamais palavras tão sábias ou significativas foram pronunciadas. Nosso título, “Deuteronômio”, é oriundo do grego deuteros (segundo) e nomos (lei) — nome dado pelos tradutores da Septuaginta ao verterem o Antigo Testamento para o grego, no terceiro século a. C. Encontramos em Deuteronômio uma segunda apresentação da lei ou, antes, uma segunda exposição à nova geração de Israel, os que haviam crescido no deserto e precisavam de uma repetição e explicação da lei antes de entrarem em Canaã. Deuteronômio não dá uma nova lei, mas explica aquela que já foi dada.

Um livro de transição Deuteronômio é um livro de transição. Ele evidencia isso de quatro maneiras. Primeira, marca a transição para uma nova geração-, pois, com exceção de Calebe e Josué, e do próprio Moisés, a velha geração que viera do Egito e fora recenseada no Sinai desaparecera, e uma nova geração tomara o seu lugar. Segunda, marca a transição para uma nova possessão. A peregrinação no deserto seria substituída pela ocupação nacional de Canaã. Terceira, marca a transição para uma nova experiência, uma nova vida — casas em vez de tendas, habitação permanente em lugar de peregrinação, e leite mel, trigo e vinho de C anaã substituindo a alimentação do deserto. Quarta, marca a transição para uma nova revelação de Deus — a revelação do Seu amor. De Gênesis a Números o amor de Deus jamais é mencionado; mas aqui, em Deuteronômio, lemos as belíssimas palavras: “Porquanto amou teus pais, e escolheu a sua descendência depois deles” (4.37); “não vos teve o Senhor afeição (amor), nem vos escolheu, porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos, mas porque o Senhor vos amava” (7.7, 8); “tão-somente o Senhor se afeiçoou a teus pais para os amar” (10.15); “porém o Senhor teu Deus... antes trocou em bênção a maldição; porque o Senhor teu Deus te amava” (23.5). Ao falar da natureza transitória de Deuteronômio, é interessante mencionar que assim como o Antigo Testamento começa com cinco livros 210


O LIVRO DE DEUTERONÔMIO (1)

históricos — Gênesis a Deuteronômio — o mesmo acontece com o Novo Testamento — Mateus até Atos. Existe um surpreendente paralelo entre Atos dos Apóstolos, o quinto livro do Novo Testamento, e Deuteronômio, o quinto livro do Antigo. Atos, à semelhança de Deuteronômio, marca uma grande transição, a da mensagem distinta dos “evangelhos” para a das epístolas. Assim como Deuteronômio, marca a mudança para uma nova geração em Cristo. Também assinala a mudança para uma nova possessão — a Canaã espiritual com “todas as bênçãos celestiais em C risto”. Como D euteronôm io, m arca a transição para um a nova experiência — um novo nascimento, uma nova vida, uma nova dinâmica no Espírito Santo. Marca, outrossim, a transição para uma nova revelação de Deus — a revelação dada nas epístolas da igreja sobre “a dispensação do mistério, desde os séculos oculto em Deus”, a saber, a igreja; para que agora “pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida” (Ef 3.10). O que também surpreende é o fato de que tanto Deuteronômio, o quinto livro de um grupo, como Atos, o quinto livro do outro grupo, são obras em que Deus dá uma segunda oportunidade a Seu povo. O que é Deuteronômio? É deuteros nomos, a segunda entrega da lei. Antes de a nova geração ser colocada sob a responsabilidade de Josué, obedecendo às ordens de Deus, Moisés repete a lei para eles. O que é o livro de Atos? E o segundo oferecimento do reino dos céus aos judeus, primeiro na capital, para os judeus que se encontravam na pátria; depois por todo o im pério, para os judeus da dispersão. Falarem os mais sobre isto posteriormente, embora seja bom já ter essa idéia em mente.

Sua estrutura A estrutura de Deuteronômio é simples, clara e impressionante. Os onze prim eiros capítulos são todos /-eírmpectivos. Os restantes são prospectivos. Em vista da transição que enfrenta, o povo deve olhar para trás e depois para a frente, refletindo sobre tudo, como se à vista de Deus. Eles devem lembrar, refletir e decidir. Assim, na primeira parte (1-11), que olha para trás, temos retrospecção e reflexão; na segunda parte (12-34), temos previsão e admoestação. Como é natural, na parte retrospectiva do livro (1-11), encontramos referências passageiras ao futuro, e na parte prospectiva (12-34) existem 211


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referências ao passado; mas não é necessária uma leitura muito cuidadosa para verificar que em ambas as partes essas referências são apenas incidentais em relação ao curso principal do discurso do legislador. Podemos agora estabelecer um esboço geral de Deuteronômio, como segue:

O LIVRO DE DEUTERONÔMIO A FIDELIDADE DIVINA I. OLHANDO PARA TRÁS (1-11) RECAPITULAÇÃO DO CAMINHO DESDE O SINAI (1-3) RECAPITULAÇÃO DA LEI DO SINAI (4-11) II. OLHANDO PARA A FRENTE (12-34) REGRAS E ADVERTÊNCIAS FINAIS A ISRAEL, antes da entrada na herança terrena (12-30) PALAVRAS E ATOS FINAIS DE MOISÉS, antes de entrar na herança celestial (31-34)

A mensagem central A mensagem central de Deuteronômio, como já mencionamos, é a fidelidade divina. Em ambas as partes do livro isto é destacado — nos tratos graciosos, sábios e justos de Deus com a nação no passado e em Suas promessas renovadas à nação com respeito ao futuro. Apesar das terríveis perversidades de Israel no passado, o Senhor sempre foi e sempre será fiel às Suas promessas, Seus propósitos e Seu povo. Esta é a mensagem central de Deuteronômio; e como ela traz consolo em dias como os de hoje, quando as coisas parecem às vezes fugir completamente ao nosso controle! Não podemos ler Deuteronômio sem pensar nas palavras de Paulo em 1 Coríntios 1.8,9: “...o qual também vos confirmará até ao fim, para serdes irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados à comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor”.

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O LIVRO D E DEUTERONÔMIO (1)

OS PONTOS BÁSICOS D E DEUTERONÔM IO Em vista de Deuteronômio ser composto praticamente de um discurso, não há razão para estudá-lo capítulo por capítulo, mesmo da maneira breve como fizemos em Êxodo, Levítico e Números. Nem é necessário para o nosso presente propósito, pois, como já afirmamos no início, nosso interesse especial neste estudo se concentra em procurar compreender os esboços mais amplos e os principais significados das coisas. Poderemos entender melhor o livro de Deuteronôm io selecionando e notando claramente os vários pronunciamentos básicos nele contidos, sobre os quais são edificados todos os outros ensinamentos.

(1) O fato básico O fato básico por trás de tudo (juntam ente com o qual está o mandamento básico da lei) é aquele declarado em 6.4, 5: “O U V E, ISRAEL, O SENHOR NOSSO DEUS É O ÚNICO SENHOR. AMARÁS, POIS, O SENHOR TEU DEUS DE TODO O TEU CORAÇÁO, DE TODA A TUA ALMA, E DE TODA A TUA FORÇA.”

O próprio Senhor Jesus nos disse que este é o pronunciamento fundamental e o “primeiro mandamento” da lei (Mc 12.29, 30). É bom ser exato quanto às palavras desta declaração essencial, já que os unitaristas se apropriaram dela como seu principal argumento contra a doutrina ortodoxa de que Deus é trino. “O ra”, dizem eles, “nada podia ser mais claro: Deus é uma unidade e não uma pluralidade; Ele é um e não três; pois Deuteronômio 6.4 diz: ‘Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor’”. Todavia, um exame mais detalhado deste versículo mostra que, em vez de apoiá-los, ele na verdade refuta seu argumento. O original hebraico aqui é justam ente uma declaração solene de que o Senhor é uma pluralidade numa unidade. A palavra traduzida como “nosso Deus” é elohenu, palavra composta pelo plural elohim (deuses) seguido pelo sufixo possessivo da primeira pessoa do plural, tornando-o elohenu, isto é, “nossos deuses”. Então, isto é o que afirma o grande pronunciamento a 213


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Israel: “Ouve, Israel, Jeová nossos Deuses, Jeová é um”. A fim de esclarecer ainda melhor o assunto, o termo hebraico traduzido por “único” (echad), interpretado com exatidão, expressa “um” no sentido coletivo. Isto é, ele não representa uma unidade absoluta, mas composta, como a indicada na expressão “um cacho de uvas”. O termo hebraico equivalente a “um” no sentido de unidade absoluta é yacheed', e esta palavra jamais é usada para expressar a unidade da Divindade. Não haverá também um significado no fato de o nome do Senhor ocorrer somente essas três vezes nesta declaração solene e básica de Deuteronômio 6.4, 5? A frase transmite com clareza a idéia de que Deus é uma pluralidade na unidade e possivelmente sugere a trindade divina no emprego triplo do nome do Senhor. Este foi o fato básico da revelação divina a Israel, devendo ser o primeiro artigo da religião israelita. Este é também o fato básico sobre o qual o cristianismo foi edificado, assim como a singularidade e a natureza trina de Deus. O Deus de Israel é o nosso Deus; não há outro. O Messias de Israel é o nosso Salvador; não há outro. O cristianismo é monoteísta e cristocêntrico. Temos então aqui uma afirmação não tanto da unicidade como da unidade e singularidade do Senhor, o Deus de Israel, o único Deus verdadeiro. Esta afirmação da unidade de Deus é igualmente oposta ao unitarismo, politeísmo e panteísmo. O Deus de Israel, o Deus único e verdadeiro, é um só, indivisível e transcendente, o Único absoluto e infinito, de quem tudo depende, a quem todos devem finalmente obedecer, o único e verdadeiro objeto de adoração da criatura. A devoção e o amor indivisos de Israel são, portanto, devidos ao Senhor; assim sendo, o acompanhamento natural da afirmação básica é o “primeiro e grande mandamento”: “Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de toda a tua força”. Ó se Israel tivesse obedecido! — a sua paz teria sido então como um rio, e a sua prosperidade como as montanhas imutáveis. Que nós, o povo de Deus por meio de uma aliança superior à de Abraão, possamos amar verdadeiramente a esse Deus glorioso e gracioso de todo o nosso coração, mente, alma e força!

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O LIVRO DE DEUTERONÔMIO ( 2)

Lição NQ18


NOTA: Leia os capítulos 12 a 34 de Deuteronômio para este estudo. e dali nos tirou, para nos levar, e nos dar a terra que sob juramento prometeu a nossos pais” (Dt 6.23).


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(2) A verdade básica A verdade básica estabelecida em Deuteronômio é aquela expressa em 6.23: “E DALI NOS TIROU, PARA NOS LEVAR, E NOS DAR A TERRA Q U E SOB JURAMENTO PROMETEU A NOSSOS PAIS.”

Esta é uma afirmação tríplice da verdade. Em primeiro lugar, trata-se de um fato — “dali nos tirou”. Em segundo lugar, há o propósito por trás do fato — “para nos levar”. Em terceiro, temos a razão por trás do fato e do propósito — “prometeu a nossos pais”. Quanto ao fato — “dali nos tirou” — vemos nele o poder de Deus; pois os tirou com “mão poderosa”. No que se refere ao propósito — “para nos levar” — vemos a graça de Deus; pois era para levá-los a uma terra “que mana leite e mel”. Com referência à razão — “prometeu a nossos pais” — vislumbramos a fidelidade de Deus: Ele foi fiel à Sua aliança. Esta afirmação tríplice é básica e resumida. Temos a história inteira numa só sentença. Que riqueza de significado essas palavras tinham para Israel! “Dali nos tirou”. Não mais se ouviria o estalo do chicote do guarda de escravos! Não mais a ameaça cruel do impiedoso capataz! Nem a poeira que cega e o calor doentio dos fornos das olarias trabalhando a todo vapor! Nunca mais arrastar-se de joelhos a fim de recolher a palha para a cota de tijolos exigida pelo monstro real! Nunca mais a servidão rigorosa, o tacão de aço, a escravidão amarga, a tirania e a vergonha do Egito! Tudo isto acabou! Israel fora “tirado”, “nem uma cabeça de gado ficou”! As palavras assumem um significado ainda maior quando aplicadas aos cristãos. De que Egito Deus nos livrou em Cristo! Ele nos tirou da condenação do pecado. “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). Ele nos livrou da servidão do pecado; pois “a lei do Espírito da vida em Cristo Jesus te livrou da lei do pecado e da m orte” (Rm 8.2). O que mais diremos? Ele nos salvou das acusações de nossas consciências despertadas, do afastamento de Deus no coração, 217


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da escuridão e morte espirituais, do medo paralisante do futuro. Em suma, Deus nos concedeu, em Cristo, uma plena salvação do pecado. Ele “dali nos tirou”. Mas Ele “dali nos tirou,para nos levar”. Além de um Egito deixado para trás, existe uma Canaã adiante, com suas vides e figueiras, suas uvas e romãs, suas colinas e ribeiros, suas oliveiras e cedros, seu leite, mel, milho e vinho — uma Canaã fértil, fragrante, produtiva, banhada de sol! Será que podemos pensar na Canaã terrena sem nos lem brar da Canaã espiritual, que é nossa em Cristo? Nos ensinam entos de tipos das Escrituras, Canaã não simboliza apenas o céu (como em muitos de nossos hinos), mas também uma experiência de santidade e plenitude espiritual acessível aos cristãos aqui e agora, nesta vida presente. Pensamos em passagens e promessas tais como 1 Tessalonicenses 5.23; Gálatas 2.20; Efésios 1.4; 3.19; 4.23; 5.18; João 4.18; Colossenses 1.9-11 e várias outras expressões semelhantes e gloriosas do ideal do Novo Testamento para a vida cristã. A tragédia está em que a maioria do Israel espiritual do Senhor vive muito abaixo de seus direitos de redenção e privilégios revelados. Não nos apropriam os de nossas posses. Vivemos no d eserto quando poderíamos estar gozando a Canaã de “toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo” (Ef 1.3). “... prometeu a nossos pais” — este é o ponto-chave da questão. Deus jamais deixa de cumprir Sua palavra. Apesar das revoltas no deserto e da crise em Cades, Ele continua fiel à Sua aliança graciosa — “... se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo” (2 Tm 2.13). Colhamos o mel desta flor ao passarmos por ela. A Canaã a que Deus nos chama seria aquela, aparentem ente impossível, estabelecida em 1 Tessalonicenses 5.23: “O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo, sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”? Santificação com pleta — parece demais “subir e possuir a terra” imediatamente? Leia então o versículo seguinte: “Fiel é o que vos chama, o qual também o fará”! Aquilo que não conseguimos por esforço próprio podemos obter em Cristo.

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(3) A exigência básica A exigência básica feita por Deus a Israel, em Deuteronômio, é a encontrada em 10.12,13: “AGORA, POIS, Ó ISRAEL, QUE É QUE O SENHOR REQUER DE TI? NÃO É Q U E TEMAS O SENHOR TEU DEUS, ANDES EM TODOS OS SEUS CAMINHOS, E O AMES, E SIRVAS AO SENHOR TEU DEUS DE TODO O TEU CORAÇÃO E DE TODA A TUA ALMA, PARA GUARDARDES OS MANDAMENTOS DO SENHOR, E OS SEUS ESTATUTOS, QUE HOJE TE ORDENO, PARA O TEU BEM?”

“Agora, Israel...” Essa palavra “agora” enfoca verdadeiramente a importância de Deuteronômio. Este é distintivamente o livro do “agora”. O povo havia recapitulado a fidelidade de Deus em Seus maravilhosos tratos com Israel desde a época em que Ele entrara em aliança com Abraão. Todos tiveram oportunidade de observar como Ele protegera Israel durante o anunciado cativeiro no Egito, como Ele os tirara dali com “grandes sinais e prodígios”, como os constituíra em nação eleita no Sinai, os guardara e guiara até as fronteiras de Canaã, tolerara suas muitas murmurações e sua rebelião em Cades. Deus os havia protegido, provido e preservado durante os 38 anos de espera, levando-os de novo, finalmente, às portas da herança prom etida— eles relembraram tudo isso, e a g o r a ... o que fazer? O que é exigido deles ao entrarem agora na Canaã prometida? Apenas isto: "... que temas o Senhor teu Deus, andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas ao Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma”. Este é o requisito básico, a obrigação que abrange todas as demais — obediência, obediência com amor, fluindo da gratidão consciente pela aliança e comunhão com este Deus glorioso e fiel. “A obediência é a nota principal de quase todos os capítulos.” Esta é a lição destacada no livro; e um exame cuidadoso mostra que a obediência exigida baseia-se em três motivos. O Senhor deve ser obedecido por causa (1) do que Ele fez por eles; (2) do que Ele é em Si mesmo; (3) da perfeição da Sua lei (4.7,8etc.). Dizemos que este é o requisito básico encontrado aqui; e será que se exige menos de nós hoje? Absolutamente não. Em vista de nossos privilégios superiores em Cristo, os quais o Israel terreno jamais conheceu, 219


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tem os obrigação ainda maior de obedecer, no espírito de am or e reverência santa. Ouça o que o próprio Senhor diz: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama... Se alguém me ama, guardará a minha palavra” (Jo 14.21-23). Que nosso deleite supremo seja ouvir suas ordens e obedecer a elas!

(4) A promessa básica É im portante com preender que Israel entrou em Canaã sob as condições estabelecidas na aliança do Sinai. Seus preceitos, termos e questões são repetidos à nova geração de Israel neste livro de Deuteronômio. Os privilégios e responsabilidades correspondentes da aliança do Sinai eram tais que as sanções mais solenes foram atreladas a ela, e os castigos mais duros foram prescritos para o caso de Israel violá-la por desobediência. Já examinam os esses castigos expostos como advertência a Israel, em Levítico 26, no final da primeira declaração da lei da aliança à antiga geração no Sinai. Vemos agora esses castigos apresentados novamente a Israel, em Deuteronômio 28, no final da segunda declaração da aliança à nova geração, em Moabe. O castigo extremo prenunciado tanto em Levítico 26 como em Deuteronômio 28 é a dispersão de Israel e a desolação de Canaã (veja Lv 26.32, 33; Dt 28.63-68). Sabemos que Israel infelizmente desobedeceu à aliança, que os castigos prenunciados foram cumpridos, que tanto a dispersão do povo como a desolação da terra se seguiram. Tudo isto foi previsto na aliança do Sinai. O que devemos compreender aqui, porém, é que a aliança do Sinai não foi a última palavra entre Deus e Israel; ela não representa o fim dos tratos de Deus dentro da aliança com o Seu povo escolhido. Existe uma outra relação de aliança que fica fora e vai além da aliança do Sinai, uma aliança que não termina: a aliança abrâmica. Nada pode destruir esta aliança entre Deus e Israel, que não foi selada com sangue, mas confirmada com um juram ento divino. Não, nem mesmo a infidelidade de Israel pode anulá-la! Trata-se de uma aliança incondicional e permanente feita com Abraão e seus descendentes. Israel não chegou ainda a possuir Canaã sob a aliança abrâmica incondicional. Como dissemos, a nação entrou em Canaã sob os termos 220


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da aliança do Sinai e sabemos os resultados. Israel jamais possuiu toda a terra dada a Abraão (veja Gn 15.18), mas apenas a parte designada em relação à aliança mosaica (veja Nm 34.1-12). O que desejamos salientar aqui, porém, é que a aliança abrâmica fica detrás, perm anece fora e vai além da aliança do Sinai ou mosaica. Esta é a razão pela qual, apesar das falhas de Israel, a relação de aliança de Deus com Israel continua. E altamente significativo que em cada caso onde o castigo extremo para a violação da aliança do Sinai é mencionado, a saber, a dispersão de Israel e a desolação de Canaã, há uma referência imediata à aliança abrâmica, mostrando que, mesmo após a aliança do Sinai ter-se esgotado com seu último castigo sendo infligido a Israel, Deus pode (e irá) continuar abençoando a nação com base na aliança abrâmica anterior e superior. Veja Levítico 26.33, 42: “Espalhar-vos-ei por entre as nações, e desembainharei a espada atrás de vós; a vossa terra será assolada, e as vossas cidades serão desertas... então me lembrarei... DA MINHA ALIANÇA COM ABRAÃO, e da terra me lembrarei”. Leia Deuteronômio 4.27-31: “O Senhor vos espalhará entre os povos, e restareis poucos em número entre as gentes, aonde o Senhor vos conduzirá... Quando estiveres em angústia, e todas estas cousas te sobrevierem nos últimos dias, e te voltares para o Senhor teu Deus, e lhe atenderes a voz, então o Senhor teu Deus não te desamparará, porquanto é Deus misericordioso, nem te destruirá, nem se esquecerá DA ALIANÇA QUE JUROU A TEUS PAIS". Quando chegamos ao final da reiteração da aliança do Sinai em Deuteronômio, estas são as últimas palavras (30.20): "... para que habites na terra QUE O SENHOR, SOB JURAMENTO, PROMETEU DAR A TEUS PAIS, ABRAÃO, ISAQUE E JACÓ". Nada pode anular a aliança abrâmica, pois o próprio Senhor aceita a responsabilidade de tudo. Ele se encarrega da parte do povo na aliança e também da Sua, pois lemos em Deuteronômio 30.6, em relação à reunião 221


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futura de Israel: “O Senhor teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao Senhor teu Deus de todo o coração e de toda a tua alma, para que vivas”. Deus mesmo fará para eles e neles, pelo Seu Espírito, aquilo que lamentavelmente falharam em fazer sob a aliança sinaítica! E com base nesta aliança abrâmica que Jeremias levanta os olhos para a época gloriosa da regeneração de Israel e canta: “Eis aí vêm dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; porquanto eles anularam a minha aliança, não obstante eu os haver desposado, diz o Senhor. Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor. Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor, porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o Senhor. Pois, perdoarei as suas iniqüidades, e dos seus pecados jamais me lembrarei” (Jr 31.31-34). Com base na aliança abrâmica, repetimos, é que tais perspectivas são mantidas. E é com relação a esta promessa abrâmica básica que temos a principal demonstração da fidelidade divina para com Israel.

A chamada aliança palestina Dissemos que Israel entrou em Canaã sob as condições da aliança do Sinai. Enquanto estamos falando nisto, talvez devamos mencionar que certos expositores bíblicos afirmam que em Deuteronômio 29 e 30 é estabelecida outra aliança, em acréscimo à do Sinai, e que foi sob esta aliança que Israel entrou em Canaã. A Bíblia de Scofield ensina isto e chama a suposta aliança extra de aliança palestina. O aluno deve examinar a nota de Scofield relativa ao capítulo 30. Em nossa opinião, ver nesses capítulos uma aliança nova e diferente é ver o que não se encontra neles. Por que alguém deveria pensar que existe aqui outra aliança, diversa daquela do Sinai? 222


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O argumento parece ser que o teor do capítulo 29 indica isto. O capítulo começa assim: “São estas as palavras da aliança que o Senhor ordenou a Moisés fizesse com os filhos de Israel na terra de Moabe, além da aliança que fizera com ele em Horebe” (i. e., Sinai). A seguir, novamente no versículo 12: “para que entres na aliança do Senhor teu Deus, e no seu juram ento que hoje o Senhor teu Deus fa z contigo”. Veja também os versículos 9 e 14. As objeções a isto nos parecem conclusivas. Quando a aliança foi feita no Sinai, os sacrifícios da aliança foram oferecidos, e o povo foi aspergido com o sangue para ratificação dela; mas aqui, em Deuteronômio 29 e 30, nenhum sacrifício ou aspersão marca o novo contrato como uma aliança separada. (Se for dito que há menção de um altar em 27.5 etc., então uma simples leitura do contexto irá mostrar que este altar estava ligado às “palavras todas desta lei” na aliança sinaítica. E se for argumentado que em 29.1 Deus ordenou a Moisés que “fizesse” a aliança, o termo hebraico é lichroth, significando literalmente “cortar”, aludindo ao corte ou divisão dos sacrifícios da aliança, então o único elo possível é com o altar em 27.5 etc., o qual, como já mostramos, tem a ver com a aliança do Sinai.) O que revela melhor a artificialidade da descoberta de uma aliança distinta em Deuteronômio 29 e 30, porém, é que mesmo aqueles que afirmam encontrá-la não descobrem nada nela senão o que já se acha incluído na aliança sinaítica. Scofield diz em sua nota: “A aliança palestina tem sete partes”, citando-as a seguir. Mas quando as examinamos, vemos que elas são exatamente iguais às contidas na aliança do Sinai, em passagens como Levítico 26! Quanto ao teor do capítulo 29, que fala do contrato feito aqui como se fosse uma aliança além da aliança que fizera com ele em Horebe, e fala ao povo para que entres na aliança com Deus, a resposta simples é que Deus está agora renovando a aliança do Sinai com a nova geração de Israel, composta por aqueles que ainda não haviam nascido ou eram menores de dezoito anos por ocasião do Êxodo. A velha geração perecera no deserto, por causa de seus próprios pecados; todavia, a aliança com a nação continua firme; e a nova geração, tendo ouvido a recapitulação da aliança do Sinai, através dos capítulos de Deuteronômio, deve agora “entrar” nela. Neste sentido também (e apenas neste sentido), o novo contrato era algo “além da aliança que fizera (Deus) com ele (o povo de Israel) em H orebe”. Tratava-se de uma nova aliança somente no sentido de agora 223


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estar sendo feita com a nova geração. Além disso, a aliança de D eus com a nação é rep etid am en te mencionada nos capítulos de Deuteronômio, tanto antes como depois dos capítulos 29 e 30, referindo-se sempre à aliança sinaítica. Por que procurar então uma aliança diferente inserida aqui, nos capítulos 29 e 30, se ela não é mencionada sequer uma vez em outro ponto, seja em Deuteronômio ou no restante das Escrituras? Foi sob a aliança do Sinai que Israel entrou em Canaã. Conhecemos muito bem a trágica história que se seguiu. Todavia, por trás e além da aliança sinaítica se acha a aliança com Israel por meio de Abraão, a qual deverá ainda produzir fruto na gloriosa consumação para o povo de Deus, há tanto tempo disperso. Já vemos na terra os sinais de que esta consumação está próxima. Depois de um intervalo de mais de dois mil anos, Israel tornou-se novamente um estado independente. Não há rei, e Israel não será um reino até que Cristo volte. Israel reconquistou, porém, a sua independência como estado, e isto, junto com outros acontecimentos contemporâneos, é, sem dúvida, um sinal significativo.

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O LIVRO DE DEUTERONÔMIO (3)


NOTA: Para este estudo final em Deuteronômio leia o capítulo 12 e depois do 27 ao fim.

“Todas as nossas esperanças para a eternidade, o próprio fundamento de nossa fé, nossos consolos mais próximos e caros nos serão tirados, se uma linha sequer desse Livro Sagrado for declarada inverídica ou indigna de confiança.” (Extraído do protesto conjunto dos Arcebispos e Bispos da Igreja da Inglaterra feito ao Bispo Colenso, em 1863.)


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(5) As diferenças básicas TEMOS estado considerando

as verdades e os fatos básicos pronunciados pelos lábios de Moisés neste venerável Livro de Deuteronômio. Faremos bem em meditar cuidadosamente a respeito deles e fixar em nossa mente essas informações. Como teria sido bom se o povo de Israel tivesse meditado dia e noite sobre os solenes e graciosos conselhos deste livro! Como seria bom se jamais tivessem dado as costas a essas palavras sábias e profundas; pois então a sua paz seria como um rio, e a sua prosperidade, tão constante como as cadeias de montanhas. Como já vimos, esses últimos conselhos de Moisés continuam sendo uma mensagem viva para nós hoje. Temos de tratar com o mesmo Deus. Foi Ele que nos tirou da escravidão a Satanás, para introduzir-nos na maravilhosa herança em Cristo. Ele não nos pede menos hoje do que pediu a Israel pelos lábios de Moisés neste Livro de Deuteronômio, ou seja, que o amemos de todo o nosso coração e alma, e andemos “em todos os Seus caminhos”. Deus nos conceda ouvidos e corações receptivos! Mas agora, ainda com o Livro de Deuteronômio à nossa frente, devemos notar certas diferenças básicas por ele enfatizadas, entre a antiga e a nova dispensação, entre o Antigo e o Novo Testamento.

Lugar versus Pessoa Uma das grandes diferenças entre o Antigo Testamento e o Novo é que no primeiro a ênfase está sobre um lugar, enquanto, no segundo, toda ela se encontra sobre uma pessoa. Na antiga dispensação havia um lugar especial de sacrifício, de adoração, de presença divina. Lemos por exemplo em Deuteronômio 12.10-14: “Mas passareis o Jordão, e habitareis na terra que vos fará herdar o Senhor vosso Deus... Então haverá um lugar que escolherá o Senhor vosso Deus, para ali fazer habitar o seu nome; a esse lugar fareis 227


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chegar tudo o que vos ordeno: os vossos holocaustos, e os vossos sacrifícios, e os vossos dízimos, e a oferta das vossas mãos, e toda escolha dos vossos votos, feitos ao Senhor, e vos alegrareis perante o Senhor vosso Deus, vós, vossos filhos, vossas filhas, os vossos servos, as vossas servas, e o levita que mora dentro das vossas cidades, e que não tem porção nem herança convosco. Guarda-te, que não ofereças os teus holocaustos em todo lugar que vires; mas no lugar que o Senhor escolher num a das tuas tribos, ali oferecerás os teus holocaustos, e ali farás tudo o que te ordeno.” Esta ênfase num lugar foi o centro da vida religiosa da nação de Israel; ela promoveu o sentido de unidade nacional; era adequada à natureza da antiga dispensação e sem dúvida gravou-se profundamente na consciência do povo. Para o hebreu da antigüidade, ficar perto de Jerusalém e do templo veio a significar proximidade da presença especial de Deus. Os gentios, que viviam nas terras além, eram os “de longe”. Este é o pensamento por trás de versículos como Isaías 49.1, 57.19, Atos 2.39 e Efésios 2.17. No Novo Testamento, esta localização da presença divina e da adoração é substituída com delicadeza, mas de modo completo. A ênfase é transferida de um lugar para uma pessoa. Não se trata mais de um templo material e de uma localidade, mas de uma presença espiritual com o atributo da universalidade. Esta mudança de ênfase pode ser vista na conversa do Senhor com a samaritana junto ao poço de Sicar. A mulher Lhe disse: “Nossos pais adoravam neste monte; vós, entretanto, dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar”. O Senhor respondeu: “Mulher, podes crer-me, que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai... Mas vem a hora, e já chegou, quando os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade”. A mulher disse por sua vez: “Eu sei que há de vir o Messias, chamado Cristo; quando ele vier nos anunciará todas as cousas”. A própria mulher mudou então do lugar para a pessoa, e suas palavras evocaram a resposta inspiradora: “EU O SOU, eu que falo contigo”. Não se trata mais de Deus num templo apenas, mas na pessoa do Senhor Jesus Cristo. (Jo 4.20-26.) A mesma mudança, de lugar para pessoa, é vista em Atos 8, no relato 228


O LIVRO DE DEUTERONÔMIO (3)

sobre o eunuco etíope. O homem estivera no lugar certo — “Jerusalém”. Ele fora com o propósito certo — “adorar”. Estava lendo o livro certo — “a Escritura” (w . 27 e 32). Mas estava “voltando” insatisfeito. Ele precisava de uma nova ênfase — na pessoa. Deus enviou Filipe justamente com esse propósito. “Então Filipe explicou; e, começando por esta passagem da Escritura, anunciou-lhe a Jesus”. O etíope aprendeu o segredo da salvação e do contentamento naquele dia, e “foi seguindo o seu caminho; cheio de júbilo”. O último pronunciamento do Senhor antes de sua ascensão é uma renovada ênfase final nesta mudança de lugar para pessoa: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20). Aqui, a ênfase sobre a pessoa é a mais forte possível. Duas palavras são usadas em grego, uma delas enfatizando o “eu” e a outra o “estou”. O que expressam em conjunto? É o Deus-Hom em falando. “E U ESTOU” convosco. Veja aqui a Sua onipresença divina: Ele está conosco sempre e em toda parte. Veja aqui a Sua onipotência divina: “Toda autoridade, no céu e na terra”. Veja aqui a Sua onisciência divina— abrangendo o começo e o fim, falando da “consumação do século”. E Ele que está conosco todos os dias. Que Salvador! Que presença gloriosa! O Cristo onipresente está com cada um dos que foram comprados com o Seu sangue. Ele Se alegra em estar com o mais pobre e humilde de nós; e Ele jamais nos deixará ou abandonará, pois ficará conosco “até o fim”. Verifique a ordem surpreendente das palavras. De um modo literal, seria “EU convosco ESTOU” . O “convosco” está intercalado entre o “ E U ” e o “ESTOU”. N osso Senhor Jesus não está apenas “conosco”, Ele está também à nossa volta, a fim de proteger, preservar, prover, com Sua presença poderosa, terna e pessoal! Como estamos seguros em Seu bendito cuidado!

(6) As escolhas básicas Em nosso estudo de Levítico, vimos que a primeira entrega da lei terminou com uma solene advertência sobre os castigos que se seguiriam caso Israel fosse infiel à aliança (veja Lv 26). O mesmo tipo de final marca a segunda entrega da lei em Deuteronômio. Se recapitularmos nosso esboço de Deuteronômio, iremos lembrar que a segunda das duas partes 229


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principais (12-34) igualmente divide-se em duas outras partes. Do capítulo 12 ao 30 temos a repetição principal da lei, enquanto nos capítulos restantes (31-34), encontramos, num sentido mais pessoal, as últimas palavras e atos de Moisés, antes de ele desaparecer desta terra. Esta segunda entrega da lei, que vai do capítulo 12 ao 30, termina nos capítulos 27 a 30 com advertências repetidas e muitos solenes sobre as alternativas que se oferecem à nação. Esta é chamada para fazer escolhas básicas. O capítulo 27, o primeiro dos quatro, deve ser especialmente notado aqui, porque expõe de maneira surpreendente o verdadeiro (e trágico) ministério da lei. Era uma ministração de condenação e morte (2 Co 3.7, 9). A lei, embora santa em si, só pode ministrar maldição sobre os filhos decaídos de Adão, quando colocada sobre eles, devido à natureza perversa deles. Veja como isto é mostrado em Deuteronômio 27. Depois de sua longa e comovente repetição da lei e da aliança, Moisés diz a Israel que, quando eles cruzassem o Jordão e entrassem em Canaã, deveriam erigir “pedras grandes” inscritas com as palavras da lei (w . 2, 3, 8). Essas pedras deveriam ser levantadas no monte Ebal (v. 4). A seguir, Israel deveria pronunciar (como já ordenado em 11.29) a bênção e a maldição da lei. Com este propósito, seis das tribos seriam colocadas no m onte Gerizim e seis no m onte Ebal. As seis do m onte Gerizim pronunciariam as bênçãos da lei, e as seis no monte Ebal, as maldições. Duas coisas imediatamente se destacam aqui. Primeira, as pedras gravadas com as palavras da lei não deveriam ser erguidas no monte Gerizim. Por quê? Um monte que proclama a lei não pode ser fonte de bênção; pois a lei é uma ética sem dinâmica, um preceito sem poder, uma regra externa sem renovação interna; e ela só pode então pronunciar maldição sobre os filhos de Adão, que são pecadores por natureza. Segunda, embora bênçãos devessem ser proferidas do monte Gerizim, onde estão elas? O capítulo não registra qualquer proclamação nesse sentido. Doze vezes a maldição é solenemente pronunciada do monte Ebal (w . 15-26); todavia, nem sequer uma palavra de bênção saiu de Gerizim. Isto ensina de novo, surpreendentemente, a incapacidade de um sistema legal conferir bênçãos a pessoas como nós! Paulo diz muito bem: “Todos quantos, pois, são das obras da lei, estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as cousas escritas no livro da lei, para praticá-las” (G13.10). Existe, porém, um aspecto misericordioso atenuante neste capítulo 27 230


O LIVRO DE DEUTERONÔMIO (3)

de Deuteronômio. Olhe de novo para o monte Ebal. Não só podemos observar grandes pedras em memória da lei levantadas sobre ele, como há igualmente um altar. Veja os versículos 5-7: “Ali edificarás um altar ao Senhor teu Deus, altar de pedras, sobre as quais não m anejarás instrumento de ferro. De pedras toscas edificarás o altar do Senhor teu Deus; e sobre ele lhe oferecerás holocaustos. Também sacrificarás ofertas pacíficas; ali comerás, e te alegrarás perante o Senhor teu Deus”. Não pode haver júbilo na maldição da lei; mas podemos perfeitam ente alegrar-nos junto ao altar que nos livra da maldição! Esse altar fala do Calvário. “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar” (G1 3.13). Da mesma forma como a Lei dava testem unho do pecado, os sacrifícios sobre o altar do m onte Ebal testemunhavam a graça — a provisão de misericórdia para cobrir a culpa, que estava contida na aliança. Sem esta provisão de graça, a posição de Israel sob a lei teria sido ridícula. Quando, mais tarde, a nação desonrou a aliança, ela não só desobedeceu ao que estava escrito nas colunas memoriais de Ebal, mas também ignorou o altar do Senhor e fez ofertas a deuses estranhos. Além disso, eles se aproximaram do altar do Senhor de maneira quase sempre insincera ou ignorante, como o próprio Senhor testemunha contra Israel através de seus profetas. Esse altar, no entanto, falava com eloqüência consoladora acerca da graça que cobre as falhas humanas; bastava apenas que a fé e a sinceridade estivessem presentes. As ofertas pacíficas e as ofertas queimadas falam de paz ou reconciliação com Deus, através de Cristo, e do perfeito deleite de Deus no sacrifício de Seu Filho, por meio de quem nos tornamos plenamente aceitáveis a Ele. Podemos muito bem “alegrar-nos perante o Senhor nosso Deus” nesse altar! A antiga dispensação profere uma maldição, todavia aponta para a nova dispensação em Cristo, que ministra bênção. Sob a antiga — maldição. Sob a nova — bênção. Graças a Deus, a antiga deu lugar à nova!

Moisés Não devemos deixar este último livro do Pentateuco sem observar com firmeza e admiração a figura de Moisés. Nesses capítulos finais de Deuteronômio, seu nobre caráter se expressa com a riqueza e plenitude de uma maturidade alcançada após suportar pesados encargos, enfrentar 231


EXAMINAI AS ESCRITURAS

experiências árduas, aceitar a disciplina das grandes responsabilidades e a desilusão ligada ao crescente conhecimento do coração humano; e, mais que tudo, uma maturidade alcançada pela compreensão cada vez maior da profunda majestade e paciência de Deus. Existe maturidade, ternura, m ansidão e sagacidade santa nos pronunciam entos de Moisés em Deuteronômio, que fazem deste livro — para citar G. H. C. Macgregor — “o mais interessante e comovente do Pentateuco, em muitos aspectos”. Uma citação anônima extraída de um artigo de Joseph W. Kemp diz o seguinte: “Moisés não aparece mais refinado, nobre e prático em qualquer outro ponto do que em D euteronôm io. Em sua história pessoal, destacam-se, com uma sólida grandeza, uma sinceridade tranqüila, uma persuasão afetuosa, uma fidelidade inflexível com respeito à verdade, uma singularidade de propósito e um desinteresse altruísta que exigem a atenção mais reverente, evidenciam a mais intensa simpatia e concordam plenam ente com a declaração de inspiração divina: ‘Nunca mais se levantou em Israel profeta algum como Moisés, com quem o Senhor houvesse tratado face a face’ ” (Dt 34.10). Poucos podem igualar-se a Moisés em um estudo de personalidade. Ele é uma das maiores figuras da Bíblia e de toda a história. Sua vida se enquadra em três períodos claramente indicados de 40 anos cada. Durante o primeiro período, ele é príncipe no Egito; durante o segundo, pastor em Midiã; durante o último, líder de Israel. Os pontos que marcam esses três grupos de 40 anos são Êxodo 2.11 com Atos 7.23; Êxodo 7.7 com Atos 7.29, 30; e Deuteronômio 31.2. Moisés é um tipo notável de Cristo, e os pontos de comparação devem ser traçados. O que queremos salientar aqui, porém, é que, à parte da qu estão do tipo, o estudo da biografia de M oisés é a ltam en te compensador. Em Deuteronômio vemos a figura completar-se; e aqui, nesses quatro últimos capítulos de Deuteronômio, temos as palavras e atos finais deste grande homem, assim como a entrega de sua vida no monte Nebo. Os quatro capítulos se dividem assim: 31. A transferência da responsabilidade de Moisés a Josué e os levitas; 32. O cântico de Moisés sobre Deus e Israel; 33. A bênção de Moisés sobre as tribos; 34. A morte de Moisés no M onte Nebo. 232


O LIVRO DE DEUTERONÔMIO (3)

Devemos deixar Moisés agora neste ponto, e não podemos fazê-lo com um tributo mais digno do que o do Dr. John Kitto: “Quando nossa mente tenta fixar-se em um dos pontos proeminentes do caráter de Moisés evidenciado pela sua carreira, nos sentimos inesperadamente frustrados. Todos os grandes personagens das histórias sagrada e profana possuíam alguma virtude ou qualidade proeminente, que se destacava em relação a seus outros méritos. Pensamos na fé possuída por Abraão, nos escrúpulos de José, no arrependimento de Davi, na generosidade de Jônatas, no zelo de Elias — mas qual a qualidade que pode ser considerada predominante em Moisés? Não conseguimos encontrar. A mente fica perplexa na tentativa de fixar-se em alguma delas. Não é firmeza, perseverança, altruísm o, patriotism o, confiança em Deus, mansidão, hum ildade, autonegação. Nenhum a dessas qualidades pode ser cham ada uma característica distinta de Moisés. Não é qualquer delas, são todas. Suas virtudes, suas graças, todas se igualavam; e a belíssima e harmoniosa operação e desenvolvimento de todas elas é que constituíam seu caráter nobre e quase perfeito. Esta é a grandiosidade de Moisés — esta é a glória do seu caráter. Trata-se de um tipo de caráter raro em qualquer homem — e em nenhum outro ser humano conhecido na história ele foi tão completamente manifestado. Quando refletimos no fato de que Moisés possuía todo o conhecimento de sua época e que não se interessava por qualquer dos talentos que constituíam a grandeza humana, damos mais mérito à sua humildade do que à sua glória. Acima de tudo, veneramos aquela sabedoria divina que fez surgir um homem tão extraordinário, justamente no momento em que o mundo teve necessidade dele.” Moisés tinha 120 anos quando m orreu (34.7). Ele foi o único homem a quem Deus sepultou. Ele colocou o corpo de Seu servo “num vale, na terra de M oabe”, mas “ninguém sabe, até hoje, o lugar da sua sepultura” (34.6). Entretanto, o corpo não ficou ali muito tempo, pois, apesar de uma disputa com o diabo (Jd 9), ele foi ressuscitado e glorificado, tendo aparecido nele no monte da transfiguração (Lc 9.30, 31).

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EXAMINAI AS ESCRITURAS

VOCÊ CONSEGUE RESPONDER? 1. Como Deuteronômio recebeu este nome? 2. De que forma Deuteronômio marca uma transição? 3. Que livro do Novo Testamento se compara a Deuteronôm io e como? 4. Dê um esboço geral de Deuteronômio. 5. Quais são o fato e a ordem básica neste livro? 6. Qual é a exigência básica feita a Israel neste livro? 7. Uma vez que Israel desobedeceu à aliança do Sinai, em que base Deus continua Sua relação especial com Israel? 8. Mencione duas diferenças básicas entre a antiga dispensação e a nova. 9. Quais as quatro coisas finais sobre Moisés que aprendemos nos quatro últimos capítulos de Deuteronômio? 10. Você sabe dizer quais os três versículos em Deuteronômio que o Senhor citou ao ser tentado por Satanás?

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O LIVRO DE JOSUÉ (1)

Lição Ns 20


NOTA: Para este primeiro estudo no livro de Josué, leia o livro inteiro. “Aquele que começou a ler as Escrituras jamais consegue deixá-las. O livro o prende como um imã prende a agulha, ou uma flor a abelha. Se quiser pensamentos grandiosos, leia a Bíblia. Se quiser algo simples, leia a Bíblia. Se quiser a verdade mais profunda e sublime que já existiu, leia a Bíblia. O livro nos fala em nossa língua-pátria. Por que devo perguntar a outrem o que meu Pai diz?... Para muitos a Bíblia é um livro monótono, tão árido quanto um testamento já velho. Mas quando você ouve seu nome lido num testamento, começa a dar-lhe atenção. E se houver algo para você no testamento do Senhor Jesus? Quando encontrei meu nome nele, meu coração dançou de alegria. Foi nestas linhas: ‘Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigénito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna’... Receba já a sua herança!” C. H. SPURGEON


O LIVRO DE JOSUE (1)

num a

CARTA

para uma certa Srta. Chalmers, o escocês Robbie Burns

escreveu: “Lancei-me com unhas e dentes à Bíblia, e já li os cinco livros de Moisés e a metade de Josué. Esta é realmente uma obra gloriosa. Mandei chamar meu encadernador hoje e lhe encomendei uma Bíblia, com o melhor papel e impressão que pudesse obter, e encadernada com toda a elegância de sua arte. ” Em nosso estudo presente nós também já acabamos os livros de Moisés, e eles nos deram uma boa razão para continuarmos com o entusiasmo de Burns ao entrar no livro de Josué. Josué é um complemento dos cinco livros de Moisés e uma introdução ao novo grupo histórico de doze (Josué a Ester). Os cinco livros de Moisés levaram Israel até Canaã, e Josué os completa fazendo Israel entrar em Canaã. Os doze livros seguintes abrangem a história de Israel em Canaã, e Josué serve de introdução ao descrever o assentamento dos israelitas em Canaã. Ele é, portanto, o livro de ligação entre os dois grupos históricos do Antigo Testamento. Josué cobre um período de cerca de vinte e cinco anos, descrevendo uma das conquistas mais memoráveis da história. “A ocupação desta pequena faixa de território pouco maior que o País de Gales, embora não levasse a novos resultados no sentido da conquista, moldou em grande parte a história moral e religiosa do mundo.”

A autoria Ao que parece, o livro de Josué tem esse nome por ser ele a figura central, sem implicar necessariamente que o próprio Josué tenha sido o seu autor. A tradição judaica lhe atribui realmente a autoria e, apesar das sagazes teorias de alguns eruditos recentes, não existe uma razão sólida para rejeitar a idéia. Existem, no entanto, evidências de outras mãos além das de Josué, na obra que chegou até nós. Elas talvez sejam apenas de 237


EXAMINAI AS ESCRITURAS

natureza interpolar; mas é provável que, embora Josué tenha fornecido ele mesmo os materiais, estes tenham sido organizados e completados por algum escriba um pouco mais tarde. Também é possível que Josué tenha contribuído com a essência do trabalho, enquanto alguns anciãos o completaram. O ponto realmente importante a ser mantido é que o editor-autor foi um contemporâneo, ou praticamente contemporâneo, tendo conhecimento de primeira mão ou documentos autênticos, de modo que a obra é na verdade um produto do período que registra. Os argumentos confusos da alta crítica que atribuem o livro a algum autor fictício no reinado de Manassés, por exemplo, foram tão eficazmente demolidos pelos estudiosos ortodoxos que não há necessidade de sobrecarregar nossas mentes com isso.

A estrutura Josué é um livro de movimentação impressionante, de guerra, conquista e dominação. Vemos Israel subindo, vencendo e se fixando. O relato é distribuído em três fases, a saber: 1. A ENTRADA NA TERRA (1-5) 2. O DOMÍNIO D A TERRA (6-12) 3. A OCUPAÇÃO D A TERRA (13-24)

O pensamento principal Entrada, domínio, ocupação! — se forem esses os três movimentos registrados em Josué, então não pode haver dúvida quanto ao seu pensamento ou mensagem principal. Trata-se claramente da vitória da fé. O Livro de Josué contrasta nitidamente neste ponto com o de Números, onde vemos o fracasso da incredulidade — fracasso em entrar (14.2-4), fracasso em vencer (14.44, 45), fracasso em ocupar (14.28-34). Numa interpretação espiritual, os feitos de Israel sob a liderança de Josué proclamam a grande verdade do Novo Testamento: “... esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé” (1 Jo 5.4). Cada uma das vitórias no programa de conquista foi determinada de modo a demonstrar que elas tinham sua origem na fé em Deus e não procediam do homem. A destruição de 238


O LIVRO DE JOSUÉ (1)

gigantes e grandes cidades era um obstáculo para a incredulidade vacilante, mas aos olhos da fé era um fato realizado.

Os significados tipológicos Nos cinco livros de Moisés já tivemos oportunidade de verificar a presença de tipos no Antigo Testamento — pessoas, eventos e objetos tipológicos, tais como José, o êxodo e o tabernáculo. No caso de Josué, porém, a história inteira representa um grande tipo. Trata-se de uma figura do Antigo Testamento sobre uma grande realidade espiritual revelada no Novo Testamento, como veremos em breve. Qual é então o principal significado tipológico de Josué? A resposta a essa pergunta depende da resposta sobre o que Canaã tipifica. Em alguns de nossos hinos, o rio Jordão é considerado símbolo da morte, e a terra de Canaã, do céu. Mas esta é uma interpretação errada desses tipos. Se o Jordão é a morte e Canaã, o céu, segue-se então que toda a vida cristã, até a hora da morte, corresponde ao deserto em que os hebreus peregrinaram — um quadro bem pouco invejável — e poderíamos sentir uma certa simpatia pela idéia de que uma conversão no leito de morte é preferível, a fim de diminuir ao máximo o andar errante no deserto! Além disso, Canaã não pode ser realmente um tipo do céu por outras duas ou três razões. Canaã foi conquistada através de conflito. Houve poucas lutas durante os anos da peregrinação, mas no momento da entrada em Canaã, Israel precisou puxar a espada. Os inimigos tinham de ser destruídos. Israel não podia fugir da luta. Como Canaã pode tipificar então o descanso tranqüilo da herança final no céu? Israel também podia ser expulso de Canaã por inimigos poderosos, o que finalmente aconteceu, como sabemos. Como isto pode ser um tipo do céu de felicidade ininterrupta prometido aos justificados em Cristo? A fim de resolver de uma vez a questão, somos expressamente ensinados, em Hebreus 3 e 4, acerca do sentido tipológico verdadeiro de Canaã. Esses dois capítulos devem ser lidos cuidadosamente e eles irão fixar perm anentemente este tipo de Canaã em nosso consciente. Eles tornam claro que Canaã representa a posição e possessão atual do crente em Cristo. Foi designada para prefigurar a guarda espiritual do sábado de descanso em que podemos entrar aqui e agora. Alguns versículos de um 239


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desses capítulos de Hebreus serão suficientes para certificar isto: “Ora, se Josué lhes houvesse dado descanso, (Deus) não falaria posteriormente a respeito de outro dia (de descanso). Portanto, resta um repouso para o povo de Deus. Porque aquele que entrou no descanso de Deus, também ele mesmo descansou de suas obras, como Deus das suas. Esforcemo-nos, pois, por entrar naquele descanso” (Hb 4.8-11). O mesmo capítulo nos diz que “nós, porém, que cremos, entramos no descanso” (v. 3). O significado de Canaã como um tipo é portanto fixado tanto pelas circunstâncias como pela explicação do Novo Testamento. O Jordão não tipifica a morte do corpo e a partida para o além, mas aquela união mais profunda de nossos corações com Cristo na Sua morte, onde somos completamente separados para Ele e introduzidos “na plenitude da bênção do evangelho de Cristo”. Essa frase do Novo Testamento, “a plenitude da bênção de Cristo”, resume mais perfeitamente do que qualquer outra o significado tipológico de Canaã. Ela é o “descanso” do crente, como diz o escritor da Epístola aos Hebreus; mas esse descanso faz parte da plenitude. Canaã é aquela “largura, comprimento, altura e profundidade” da vida espiritual em que realmente “possuímos nossos bens” em Cristo. A tragédia é que a maioria dos cristãos vive muito abaixo dos seus privilégios e direitos de redenção em Cristo. A vida cristã não tem como propósito representar um deserto, da mesma forma como uma festa de casamento não é hora para usar pano de saco e cinzas. Deus abriu para nós em Cristo uma experiência de santificação comparável a uma Canaã fértil, fragrante, produtiva, banhada de sol— uma “terra de trigo e cevada, de vides”, uma terra “que mana leite e mel”.

Canaã na experiência do cristão Nas palavras de C. H. Spurgeon: “Existe um ponto da graça que fica tão acima do cristão comum como este se encontra acima do m undo”. Ao falar dos que vivem esta vida superior, ele continua: “Seu lugar é com a águia em seu ninho no alto penhasco. São cristãos jubilosos, homens santos e dedicados, servindo o Mestre por todo o mundo, vencedores onde quer que se encontrem, através daquele que os amou”. A experiência aqui referida foi chamada por vários nomes — “perfeição cristã”, “inteira santificação”, “vida superior”, “descanso da fé”, “vida mais abundante”, 240


O LIVRO DE JOSUÉ (1)

“perfeito amor”; mas todos estes são apenas nomes diversos para os diferentes aspectos de uma só realidade espiritual. Tanto a Escritura como a experiência de muitos cristãos parecem confirmar que há uma obra da graça divina no crente, completamente distinta daquela que designamos normalmente como conversão, e quase sempre, embora não necessariamente, subseqüente a ela, na qual a alma atravessa uma experiência de santidade e comunhão íntima com Deus que ainda não havia conhecido apenas pelo fato de ter sido convertida. “Porque a lei do Espírito da vida em Jesus Cristo” a torna gloriosamente livre da “lei do pecado e da m orte” (Rm 8.2). Há uma completa renovação no próprio “espírito do entendimento” (Ef 4.23). Efetua-se tal fusão da vida e vontade do crente com a vida e vontade de Cristo que, em lugar de mostrar-se egocêntrico, o crente se torna cristocêntrico. A consciência de si mesmo é sublimada na percepção de Cristo, de modo que sua experiência passa a ser esta: “... logo já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (G1 2.20); e “para mim o viver é Cristo” (Fp 1.21). A personalidade do indivíduo é monopolizada e inundada pelo Espírito Santo (Ef 5.18). O perfeito amor enche o coração e lança fora o medo (1 Jo 4.18). A alma se acha na terra de Beulá (Is 62.4, versão da Imprensa Bíblica Brasileira). “Porque eis que passou o inverno, cessou a chuva e se foi; aparecem as flores na terra, chegou o tempo de cantarem as aves” (Ct 2.11,12). Surge um “andar na luz” e uma “comunhão” límpida com o céu, enquanto “o sangue de Jesus, seu filho, nos purifica de todo pecado” (1 Jo 1.7); e o cristão vê agora a sua experiência nos seguintes termos: “Nunca mais te servirá o sol para luz do dia, nem com o seu resplendor a lua te alumiará; mas o Senhor será a tua luz perpétua, e o teu Deus a tua glória. Nunca mais se porá o teu sol, nem a tua lua minguará; porque o Senhor será a tua luz perpétua, e os dias do teu luto findarão” (Is 60.19, 20).

Características de Canaã Esta é, então, a experiência que Canaã e o livro de Josué indicam de modo tipológico. Torna-se assim da maior importância analisar o que nos é dito sobre Canaã, e verificamos três coisas que se destacam como características. Primeira, Canaã era o DESCANSO prometido a Israel. O perambular 241


EXAMINAI AS ESCRITURAS

seria substituído pela moradia fixa. Em lugar do deserto inóspito, haveria um lar em que poderiam sentar-se, “cada um debaixo da sua videira, e debaixo da sua figueira” (1 Rs 4.25). As mãos cansadas e os pés feridos encontrariam um contraste refrescante nas colheitas fartas das planícies e vales férteis de Canaã. O descanso prometido fora cuidadosamente preparado para a sua chegada. Não precisariam sequer construir cidades e casas para viverem, pois iriam possuir “grandes e boas cidades, que tu não edificaste; e casas cheias de tudo o que é bom, casas que não encheste; e poços abertos, que não abriste; vinhais e olivais, que não plantaste” (Dt 6.10,11); “deitar-vos-eis, e não haverá quem vos espante” (Lv 26.6). Segunda, Canaã era um lugar de FARTURA. Uma terra que “mana leite e mel”, “uma terra boa e ampla” (Ex 3.8), uma “terra de grão e de vinho” beijada pelo orvalho dos céus (Dt 33.28), terra de oliveiras e vinhas, pinheiros e cedros, de ricos frutos e colheitas onde um povo obediente “se fartaria”, onde “a debulha se estenderá até à vindima, e a vindima até à sementeira” (Lv 26.5); um lugar sobre o qual Deus dissera: “Porque a terra que passais a possuir não é como a terra do Egito, donde saístes, em que semeáveis a vossa semente, e com o pé a regáveis como a uma horta; mas a terra que passais a possuir é terra de montes e vales: da chuva dos céus beberá as águas; terra de que cuida o Senhor vosso Deus: os olhos do Senhor vosso Deus estão sobre ela continuamente, desde o princípio até ao fim do ano” (Dt 11.10-12). Canaã era realmente uma terra de fartura! Terceira, Canaã era o lugar do TRIUNFO. Havia inimigos em Canaã? Certamente, mas já estavam derrotados antes de Israel desferir o primeiro golpe, pois Deus havia dito que lançaria “fora muitas nações de diante de ti, os heteus, e os girgaseus, e os amorreus, e os cananeus, e os ferezeus, e os heveus, e os jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderosas do que tu” (Dt 7.1). Israel deveria se lembrar do que o Senhor fizera “ao Faraó e a todo Egito” e não temer. Cinco deles perseguiriam cem inimigos e nenhum deles poderia enfrentá-los. Deus não estava chamando Israel simplesmente para lutar, mas sim para uma vitória certa. Canaã seria com certeza um lugar de triunfo, caso os israelitas fossem fiéis. O Espírito de Deus está nos ilustrando em tudo isto aquela vida nos “lugares celestiais” (Ef 1.3) que é nosso privilégio presente em Cristo; nossa concepção da verdade do Novo Testamento é assim avivada pelo tipo do Antigo Testamento. Descanso, fartura, triunfo! — esta a nossa rica herança em Cristo. Ela 242


O LIVRO DE JOSUÉ (1)

pode ser também nossa na experiência real. A santidade não é obtida mediante esforço próprio, mas ela pode ser alcançada em Cristo. A consagração e a apropriação são as dobradiças que sustentam a porta de Canaã. Se realmente nos entregarm os e firmarmos nossos pés nas promessas, a terra de delícias será nossa. Deus não falhará. Vamos subir e possuí-la! “Fiel é o que vos chama, o qual também o fará” (1 Ts 5.24).

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O LIVRO DE JOSUÉ (2)

Lição Na 21


NOTA: Para este segundo estudo no livro de Josué, leia o livro inteiro novamente, verificando o que dissemos sobre suas três divisões principais e suas três características mais importantes.


O LIVRO DE JOSUE (2)

JOSUÉ E EFÉSIOS EM NOSSO estudo do Pentateuco, já notamos a correspondência entre Deuteronômio e Atos dos Apóstolos, assim como a ligação entre Levítico e Hebreus. Existe igualmente um paralelo notável entre o Livro de Josué e a Epístola aos Efésios. Esta última é definitivamente a epístola das “regiões celestiais em Cristo” (1.3). O livro de Josué, como indicamos, tipifica aquela vida cristã mais plena em que realmente nos apropriamos de nossas possessões em Cristo, entramos no descanso do coração e experimentamos uma plenitude de “alegria e paz em nossa fé”. Essa frase de Efésios, “regiões celestiais”, ou, mais literalmente, “os céus”, indica a esfera desta vida superior e mais plena. Ela expressa uma comunhão de vida, mente e vontade com o Cristo ressurreto, uma união com Ele em natureza, relacionamentos e propósitos, assim como na morte para o pecado, para a carne e para o mundo, uma união com Ele em serviço, sofrimento e desejo, em Sua ressurreição e ascensão, elevando o crente a um nível onde existe plenitude de luz, amor, poder e compreensão espiritual desconhecidos para outros. Esta é a vida num plano superior, o verdadeiro lugar da vida presente do cristão em Cristo. Raras vezes a pessoa entra nela imediatamente após a conversão. Infelizmente, parece que muitos crentes jamais o farão! Todavia, esta é realmente uma provisão de Deus; é a nossa herança em Cristo Jesus, e os recém-convertidos devem ser ensinados a desejá-la o mais breve possível. No livro de Josué, vemos Israel entrando e possuindo a herança terrena concedida mediante Abraão. Em Efésios, vemos a igreja entrando e possuindo a herança celestial concedida em Cristo. A correspondência, no entanto, não é apenas geral. Existe um paralelo em cinco partes, marcado pelas cinco ocorrências da expressão “lugares (ou regiões) celestiais”, em Efésios, a saber: Efésios 1.3; 1.20; 2.6; 3.10; 6.12. Trace então brevemente o paralelo entre a terra de Canaã em Josué e os “lugares celestiais” em Efésios. 1. Ambos eram a herança predestinada de um povo escolhido. Muito 247


EXAMINAI AS ESCRITURAS

tempo antes, 500 anos antes de Josué fazer o povo atravessar o Jordão, Deus dissera a Abraão: “Ergue os olhos e olha desde onde estás para o norte, para o sul, para o oriente e para o ocidente; porque toda essa terra que vês, eu ta darei, a ti e à tua descendência, para sempre” (Gn 13.14, 15). Depois de finalmente ter tirado Israel do Egito, Ele disse: “Quando o Senhor te houver introduzido na terra... a qual jurou a teus pais te dar” (Ex 13.5). Do mesmo modo, examinando a primeira ocorrência da frase “lugares celestiais” em Efésios, descobrimos que nela se encontra a herança predestinada da igreja, em Cristo. “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu nele antes dafundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele" (Ef 1.3, 4). Tendo em vista esses dois versículos de Efésios, notemos o paralelo contrastante. Israel foi abençoado com todas as bênçãos materiais nos lugares terrenos em Abraão. A igreja é abençoada “com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo". Note igualmente que, para gozar desta plenitude de bênçãos materiais, Israel deve estar na terra. Do mesmo modo, para tirar proveito da plenitude das bênçãos espirituais em Cristo, nós devemos estar nas “regiões celestiais”. A razão de não as termos é que não nos achamos no lugar em que Deus as concede. 2. Ambos começaram com um líder designado por Deus. No caso de Israel, tudo foi colocado nas mãos de Josué. Ele recebeu esta ordem: “... tu farás a este povo herdar a terra que, sob juramento, prometi dar a seus pais” (Js 1.6) e “tu os farás herdá-la” (Dt 31.7). Josué era, portanto, o administrador nomeado para a colônia israelita em Canaã, e ficamos sabendo que, no final dos sete anos de guerra, “tomou Josué toda esta terra... e a deu em herança aos filhos de Israel, conforme as suas divisões, e tribos” (Js 11.23). "... para saberdes... qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder; o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e fazendo-o sentar à sua direita nos LUGARES CELESTIAIS... e, PARA SER O CABEÇA SOBRE TODAS AS COUSAS, O deuÀ IGREJA” (Ef 1.18-22). 248


O LIVRO DE JOSUÉ (2)

Como administrador e representante do seu povo, Josué demonstra ser um belíssimo tipo de Cristo. O Salvador ressurreto é quem divide a herança e a distribui ao Seu povo enquanto este se firma nas promessas, mediante a fé. 3. Ambos eram dons da graça a serem recebidos pela fé. Canaã foi dada a Israel em Abraão e não em Moisés, o legislador. Israel jamais teria recebido Canaã através da lei. Moisés não teve sequer o privilégio de introduzir o povo na terra. A lei também jamais poderá levar-nos ao descanso prometido por Deus, para que nossas almas repousem em Cristo. Moisés deveria morrer, portanto, e Josué ocupar seu posto, franqueando a herança. As primeiras palavras do livro de Josué se harmonizam perfeitam ente com isto: “Sucedeu depois da morte de Moisés, servo do Senhor, que este falou a Josué, filho de Num, servidor de Moisés, dizendo: Moisés, meu servo é morto; dispõe-te AGORA, passa este Jordão, tu e todo este povo, à terra que eu dou aos filhos de Israel” ( 1. 1, 2).

O mesmo acontece com a Canaã espiritual que é nossa em Cristo, como mostra a terceira ocorrência da expressão “lugares celestiais”, em Efésios. "... e estando nós mortos em nossos delitos, (Deus) nos deu vida juntamente com Cristo, — pela GRAÇA sois salvos; e juntamente com ele nos ressucitou e nos fez assentamos LUGARES CELESTIAIS em Cristo Jesus; para mostrar nos séculos vindouros a suprema riqueza da sua GRAÇA, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. Porque pela GRAÇA sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2.5-8). F. B. Meyer explica muito bem: “A lei de Deus jamais poderá levar a alma do homem à terra da promessa. Não porque seja imperfeita, mas sim por causa da fraqueza e pecado humanos. A presença desta lei maligna em nossos m em bros to rn a impossível a obediência à lei divina, enchendo-nos de decepção e inquietude, esforço incessante e fracasso perpétuo. Devemos portanto deixar para trás a lei, como norma de vida, naquele vale solitário de Bete-Peor, a fim de que o Josué divino possa levar-nos à terra prometida. Não iremos entrar nessa terra de bênçãos por meio de votos, resoluções, alianças de consagração assinadas com sangue novo extraído das veias; nem mediante ritos externos ou abstinência 249


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ascética de coisas boas e saudáveis; também não adiantam dias de jejum e noites de oração; nem sequer a obediência à voz da consciência ou uma percepção interior, embora seja da máxima importância dar atenção a isso. Nada disso nos fará entrar na terra de bem-aventurança. Todas essas coisas se tornam formas de legalismo quando praticadas com o propósito de obter o completo descanso e a vitória da experiência cristã. Muitas delas são sem dúvida valiosas, quando o rio for atravessado e entrarmos na terra; mas não irão por si mesmas abrir as suas portas ou afastar o rio que a guarda.” Absolutamente não. Nas palavras de Efésios 2.8, é preciso que seja pela “graça, mediante a fé”. O dia de descanso na antiga aliança era o sétimo. Na nova aliança é o primeiro. Sob a antiga aliança tínhamos de trabalhar seis dias até o descanso. Sob a nova, devemos trabalhar a partir dele — a partir de um descanso perpétuo já alcançado em Cristo. 4.Am bos são cenários de uma revelação divina surpreendente. O fato de Israel entrar e possuir Canaã tinha o intuito de ser uma revelação do Deus verdadeiro para as nações da época: “Para que todos os povos da terra conheçam que a mão do Senhor é forte: a fim de que temais ao Senhor vosso Deus todos os dias” (Js 4.24). “E todos os povos da terra verão que és chamado pelo nome do Senhor, e terão medo de ti” (Dt 28.10). A reunião futura de Israel em Canaã irá consumar essa revelação. Veja Isaías 11.11, 12; Jeremias 23.5-8 e outras passagens dos profetas do Antigo Testamento. No mesmo plano, encontramos a quarta referência em Efésios aos “lugares celestiais”, nos contando que a igreja é uma belíssima revelação de Deus aos poderes do reino dos espíritos. Paulo continua, dizendo no capítulo 3: “A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo, e manifestar qual seja a dispensação do mistério, desde os séculos oculto em Deus, que criou todas as cousas, para que, PELA IGREJA, A MULTIFORME SABEDORIA DE DEUS SE TORNE CONHECIDA AGORA DOS PRINCIPADOS E POTESTADES NOS LUGARES CELESTIAIS” (Ef 3.8-10).

A revelação máxima da sabedoria e poder divinos através de Israel em Canaã, como já dissemos, será feita na restauração ainda por vir. Assim 250


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também a manifestação suprema da sabedoria e propósito divinos através da igreja, aos poderes espirituais nos “lugares celestiais”, será efetuada na segunda vinda de Cristo, quando a igreja completa será manifestada com Cristo em Sua glória. 5. Ambos são descritos como cenário de conflito. Na Canaã terrena havia os gigantes filhos de Anaque e cidades “muradas até os céus”. Os heteus, girgaseus, amorreus, cananeus, ferezeus, heveus e jebuseus protegiam a terra com fortalezas e carros de ferro — sete nações “maiores e mais poderosas” do que Israel. Eram nações extremamente perversas que tinham de ser conquistadas e destruídas. Israel deveria brandir então a espada contra elas, embora já soubesse qual seria o resultado, pois Deus estava com Seu povo. Se os israelitas permanecessem fiéis a Ele, ninguém poderia vencê-los. O conflito era inevitável, mas a derrota, impossível, já que havia uma aliança invencível. O m esm o acontece com a nossa C anaã espiritual nos “lugares celestiais”. Voltamos a Efésios e encontramos estas palavras na última ocorrência da frase “nos lugares celestiais”: "... a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e, sim, contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, NAS REGIÕES CELESTES” (Ef 6.12). Graças a Deus! Da mesma forma como nenhum poder seria capaz de resistir a Josué e Israel, assim também não há força espiritual que possa resistir ao poder de Cristo, pois Ele derrotou Satanás e está agora “acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio” (Ef 1.21). NEle a vitória é nossa. Nossa vida espiritual pode tornar-se nEle uma batalha espiritual vitoriosa que será eficaz para derrubar as fortalezas de Satanás, destruir as idéias opostas a Deus e libertar as forças regeneradoras entre os homens. Quando permanecemos verdadeiramente nEle e reinando “em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo” (Rm 5.17) nos “lugares celestiais”, todos os inimigos estão debaixo de nossos pés, e entramos no significado dessa expressão do Salmo 2: “Ri-se aquele que habita nos céus” (v. 4). Estes são portanto os cinco pontos do paralelo entre a herança terrena concedida por meio de Josué e a herança espiritual concedida aos crentes 251


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em Cristo. Talvez uma recapitulação ajude a gravá-los na memória. 1. Ambos eram a herança predestinada de um povo escolhido. 2. Ambos começaram com um líder designado por Deus. 3. Ambos eram dons da graça a serem recebidos pela fé. 4. Ambos são cenários de uma revelação divina surpreendente. 5. Ambos são descritos como cenário de conflito. Esta com paração entre Canaã, no livro de Josué, e os “lugares celestiais”, em Efésios, é tão instrutiva quanto espantosa e merece uma consideração maior do que a que podemos dar-lhe aqui. Deus nos conceda m orar na boa terra e nos apropriarmos de nossas possessões, para alegria de nossos corações e para a glória do Senhor!

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Lição N2 22


NOTA: Para este terceiro estudo do livro de JosuĂŠ releia os doze primeiros capĂ­tulos.


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AS PARTES VAMOS AGORA examinar brevemente as três partes principais do livro. Iremos tirar muito proveito mesmo de seus aspectos gerais. Vemos primeiramente Israel entrando (1-5), depois vencendo (6-12) e finalmente ocupando (13-14).

PARTE I A ENTRADA NA TERRA (1-5) Os cinco capítulos da parte um têm uma seqüência ordenada, como segue: Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo

1 — A transferência da responsabilidade a Josué 2 — A espionagem em Jerico 3 — A travessia do Jordão 4 — A edificação de memoriais 5 — A ocupação de Gilgal

Se tivermos em mente que o principal conceito em Josué é a vitória da fé, iremos perceber rapidamente como esses capítulos são eloqüentes.

Capítulo 1 —A transferência da responsabilidade a Josué A ênfase deste capítulo está no fato de Josué ter assumido a liderança com ordens do próprio Deus. Ela se baseava na palavra de Deus (veja o v. 9). A subida a Canaã também se apoiava numa autorização divina perfeitamente definida (w. 2-5). Este é sempre o começo das coisas no que se refere à fé — Deus falou. A verdadeira fé está, portanto, bem afastada da simples crendice. Ela se recusa a agir com base pa mera razão humana: mas, uma vez certa de que Deus falou, nada mais pede, pois não pode haver autoridade mais alta que esta, nem razão superior para 255


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obedecer. Aqui, no capítulo 1, vemos então a garantia da fé, a saber, a palavra de Deus. A fé verdadeira sempre atua sob o princípio contido em Hebreus 13.5,6 — “ e l e tem dito... Assim, afirmemos (nós)”. Capítulo 2 —A espionagem em Jericó Tendo recebido tal segurança divina de invencibilidade (como em 1.5, 6), Josué poderia ter facilmente achado desnecessário usar de precaução ou recorrer à estratégia militar. Mas este segundo capítulo nos mostra que a reação da fé verdadeira é o oposto de tal despreocupação. Josué enviou dois espias a Jericó; e havia boas razões para isso, como veremos mais tarde, pois Jericó era uma das principais cidades. A fé verdadeira não despreza o uso de meios. Existe uma grande diferença entre crer e supor. Fazer das promessas de Deus uma desculpa para não tomar as precauções necessárias é tentar a Deus, como o próprio Senhor Jesus nos ensinou. Quando o enganador insistiu com o Mestre que se atirasse da torre do tem plo, porque Deus prom etera proteção sobrenatural, o Senhor respondeu: “Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus” (Mt 4.7). Neste segundo capítulo de Josué temos a prudência da fé.

Capítulo 3 — A travessia do Jordão A travessia deste “Jordão” foi uma grande crise de fé. O mesmo tipo de crise sobreviera à geração anterior, cerca de 40 anos antes e sob circunstâncias um tanto diferentes. Os israelitas falharam em sua reação a ela. O mesmo deveria repetir-se na nova geração. Ser “tirado” do Egito era uma coisa, mas “atravessar o Jordão” era algo muito diverso, comprometedor. Não havia possibilidade de recuo, eles teriam que lutar contra os poderes de C anaã em suas fortalezas a p a re n te m e n te inexpugnáveis, com seus carros de ferro e seus grandes exércitos entre os quais lutavam os famosos gigantes. Agir desse modo era aceitar um curso de ação condenado por dez dentre os doze espias que haviam descrito a terra 40 anos antes! Aos olhos humanos seria arriscar tudo na batalha, sem poder recuar, correndo o risco de perder tudo. A mesma crise chega para todos os remidos, de uma ou outra maneira — essa intensa crise da alma em que somos obrigados a fazer a escolha 256


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suprema: entregar-nos inteiramente à vontade de Deus, para que Ele seja daí por diante o prim eiro em nossa vida, ou seguir pelo caminho aparentem ente mais fácil, continuar na vida cristã, mas com reservas em nosso amor para com Deus. Aceitar Cristo como Salvador da culpa de nosso pecado significa uma coisa, mas torná-lo Senhor absoluto de nossa vontade e nossa vida é outra bem diferente. Uma coisa é sermos tirados do Egito de nossa existência não-regenerada e nos juntarmos ao Israel remido, mas sepultar todos os alvos e desejos pessoais nas águas velozes e transbordantes do Jordão, passando para aquela vida superior em que não são tolerados outros desejos ou propósitos além daqueles de nosso bendito Senhor, representa algo bem diferente. Uma coisa foi Abrão deixar a cidade de Ur dos caldeus e seguir, pela fé, a orientação de Deus. Outra coisa — muito maior, mais custosa e sublime para ele — foi subir o Monte Moriá e levantar a faca para matar seu precioso Isaque. Todavia, a crise tinha de acontecer. Não havia outro meio de determ inar definitivamente se Deus iria ser supremo na vida e no amor da alma. Não houve mais necessidade de provas depois disso, e Deus disse: “Jurei, por mim mesmo, diz o Senhor, porquanto fizeste isso, e não me negaste o teu único filho, que deveras te abençoarei e certamente multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus e como a areia na praia do m ar” (Gn 22.16,17). O Moriá de Abraão e o Jordão de Israel são a mesma crise sob títulos diferentes. Existe um Isaque a ser sacrificado, um Jordão a ser cruzado, na história de toda alma remida. Abraão entregou o seu Isaque. Israel cruzou o Jordão. O que dizer de você e de mim? Esta é a grande prova da fé, e é justamente isso que encontramos neste terceiro capítulo de Josué — a crise da fé.

Capítulo 4 — A edificação de memoriais Uma fé que em tudo obedece a Deus deixa muitos e belos exemplos de Ebenézer em seu rastro. As pedras memoriais do Jordão eram um testemunho da fé quanto ao poder e fidelidade de Deus. Havia dois montes ou pilhas de pedras — um na margem ocidental do rio, em Gilgal (v. 3), e outro no próprio rio (v. 9), consistindo cada um de doze grandes pedras representando as doze tribos de Israel. O monte do lado do rio onde ficava Canaã testemunhava a fidelidade de Deus ao fazer Israel entrar finalmente na terra prometida a seus pais. O que ficava no rio dava 257


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testemunho do poder de Deus ao reter a corrente caudalosa e abrir caminho através de seu leito para a grande multidão. Neste quarto capítulo, temos portanto o testemunho da fé. Esses dois montes de pedras memoriais são simbólicos. Eles dão um testemunho do fato de Deus ter feito Seu povo atravessar o rio e entrar no lugar de bênção. A palavra “atravessar” compreende tanto a idéia de “entrar” como “sair”. E preciso haver uma entrada e uma saída para se obter o sentido de “atravessar”. Os dois montes memoriais neste capítulo 4 de Josué dão testemunho tanto da entrada como da saída do Jordão. Israel entrou verdadeiramente no leito do rio. De outra forma, como explicar aquele m onte de grandes pedras subm ersas no meio da correnteza? Israel saiu realmente do lado de Canaã; daí o monumento em Gilgal. Este é um testemunho simbólico de uma grande verdade: jamais a alma entra naquele outro Jordão — a morte e o sepultamento do “eu” — para encontrá-lo deserto. Tão certo como há uma “entrada" há uma “saída”. Deus leva a alma santificada diretam ente para o lugar de ressurreição nas “regiões celestiais” em Cristo.

Capítulo 5 — A ocupação de Gilgal Vemos aqui o selo e a purificação da fé. Por mais estranho que pareça, a primeira experiência na terra de bênçãos é de sofrimento, embora isto logo passe. Mesmo antes de o povo da aliança desembainhar a espada contra o inimigo, Deus investe de faca contra Israel. Eles haviam cruzado finalmente a linha divisória e estavam nesse momento entrando de um novo modo nos propósitos de Deus. Assim sendo, o que foi negligenciado durante os 40 anos de peregrinação torna-se agora imperativo. A circuncisão é renovada, como selo da aliança entre Deus e Israel. Os filhos de Israel deveriam levar em seus próprios corpos esta marca de sua separação. Além do mais, embora muito do significado simbólico e tipológico das coisas na economia israelita deva ter passado despercebido aos próprios judeus, não lhes foi deixada qualquer dúvida quanto ao sentido moral e espiritual da circuncisão. O próprio Moisés exortou-os: “Circuncidai, pois, o vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” (Dt 10.16). “O Senhor teu Deus circuncidará o teu coração... para amares ao Senhor teu Deus” (Dt 30.6). Passagens como Colossenses 2.11-13 tornam muito clara a interpretação do Novo T estam ento. É esse 258


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“despojamento” da “carne”, esse corte afiado dos desejos naturais, que acompanha a purificação divina da alma. O Jordão deve realmente ser seguido por Gilgal. Nem mesmo o Jordão em si basta. Os israelitas devem carregar a marca perm anente de sua separação mais completa em Gilgal. O mesmo se dá conosco: essa crise da morte e sepultamento do “eu”, da qual o Jordão é um tipo, deve ser perpetuada pela negação contínua da “carne” de que fala a circuncisão. Isto pode trazer uma certa angústia inicial, mas ela logo passa, porque a obra mais profunda de Deus em nós, quando saímos da crise de sepultamento no Jordão, atinge a própria base do pecado inato. Assim, o desejo do coração é renovado de tal maneira que a primeira dor do “morrer diariamente” para a “carne” desaparece logo no encanto da nova comunhão com Deus que está apoiada na “santificação de toda a pessoa” nascida da ressurreição para uma nova vida. Depois da circuncisão de Israel em Gilgal temos a Festa da Páscoa, expressando esta nova comunhão com Deus no lugar de bênção (v. 10). Em seguida vemos a mudança da alimentação de Israel, do maná para os produtos da terra de Canaã (v. 12). Tanto o maná do deserto como os cereais de Canaã tipificam Cristo. Cristo será, porém, um ou outro para nós, conforme o lugar onde nos acharmos espiritualmente. Ele só poderá ser o rico produto de Canaã para nós quando tivermos cruzado o Jordão e chegarmos ao lugar de completa separação para Ele. Nos cinco primeiros capítulos temos então: 1. A transferência da responsabilidade a Josué 2. A espionagem em Jerico 3. A travessia do Jordão 4. A edificação de memoriais 5. A ocupação de Gilgal

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— a garantia da fé — a prudência da fé — a crise da fé — o testemunho da fé — a marca da fé


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PARTE II A CONQUISTA DA TERRA (6-12) Neste segundo grupo de capítulos, vemos a luta e a vitória da fé. Israel está agora no lugar de bênção e parte para “conquistar e vencer” na força do Capitão invisível. Lições espirituais importantísssimas são descritas aqui. Capítulo 6 — A queda de Jericó Capítulo 7 — O pecado de Acã Capítulo 8 — O saque de Ai Capítulo 9 — A astúcia de Gibeom Capítulos 10-12 — A expulsão de todos os inimigos Capítulo 6 —A queda de Jericó E ste capítulo notável apresenta de m aneira im pressionante os princípios em que a fé opera, luta, aguarda e vence. O primeiro passo da fé é verificar qual a vontade e a palavra de Deus. O segundo é obedecer a essa vontade e palavra irrestritamente. O passo final é aceitar essa palavra e considerar o alvo como já tendo sido alcançado, dando antecipadamente glória a Deus — como os israelitas que deram seu poderoso grito de vitória antes de os muros de Jericó caírem efetivamente. Os princípios de ação da fé contrariam, portanto, os da razão natural. Notamos quatro coisas sobre o procedimento da fé na conquista de Jericó: (1) a aparente insensatez do comportamento, (2) sua sabedoria interior, (3) o significado mais profundo dessa atitude, (4) o triunfo total da ação. Quanto à aparente insensatez do comportamento deles, nada poderia parecer mais inútil aos olhos naturais do que as voltas incessantes em torno dos muros da cidade, acompanhadas do tocar das trombetas. Com relação à sabedoria interior, nada poderia ser realmente mais sábio do que agir exatamente de acordo com a orientação de Deus, por mais estranha que esta fosse. No que se refere ao significado mais profundo, nada poderia ser mais sugestivo do que o fato de vermos Deus e o homem em cooperação para destruir uma fortaleza de Satanás. Quanto ao absoluto triunfo do ato, nada poderia ser mais patente, pois de um só golpe a cidade caiu, sem que nenhum israelita morresse. Este é de fato um 260


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triunfo, sendo esta a ênfase do capítulo seis — o triunfo da fé.

Capítulo 7 — 0 pecado deAcã Infelizmente houve um rápido lapso que, embora tivesse sido logo corrigido, implicou em perda. Não que a fé tivesse diminuído, mas uma transigência secreta incapacitou Israel temporariamente. Os homens de Israel viram as costas ao inimigo e trinta e seis deles caem. Nos sete anos de guerra, esta foi a única perda. O motivo da derrota é cuidadosamente exposto, a fim de que a lição possa ser aprendida com clareza. O fio da comunhão entre Deus e Israel fora cortado, “pois tomaram das coisas condenadas”, e a corrente de poder deixou então de fluir. A primeira tendência de Israel foi culpar Deus, em vez de olhar para dentro. Mas logo o erro subiu à tona; foi feita a confissão e executada a sentença. Os despojos roubados por Acã tinham pouco valor material, mas o significado espiritual de sua atitude era profundo. T ratava-se de um grave co m prom etim ento com coisas proibidas. O Senhor deve te r Se entristecido ao fazer com que Israel perdesse a batalha de Ai; todavia, era preciso que o povo aprendesse através do sofrimento que, tanto por sua própria causa como por causa do nome santo do Senhor, o pecado devia ser julgado e abolido. Qualquer derrota que venhamos a enfrentar na terra de bênçãos é devida inteiramente a alguma falha em nós mesmos. Não é necessário que isso aconteça, e nosso grande Capitão sofre mais do que nós mesmos nesses casos. Devemos aprender a lição deste capítulo sete — a aceitação do pecado, ou o flerte com ele, corta o fio vital da comunhão e incapacita a fé.

Capítulo 8 — O saque de A i Vemos neste capítulo a fé restaurada, partindo em triunfo renovado. O pecado confessado, julgado e abandonado restaura o elo da comunhão, e o poder divino começa a fluir de novo. O Capitão invisível do exército do Senhor diz agora a Josué: “Não temas, não te atemorizes; toma contigo toda a gente de guerra, e dispõe-te, sobe a Ai; olha que te entreguei nas tuas mãos o rei de Ai, e o seu povo, e a sua cidade, e a sua terra” (8.1). O restante do capítulo fala por si mesmo. Trata-se de uma lição que ilustra 261


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a fé restaurada depois de uma auto-análise.

Capítulo 9 — A aliança com Gibeom Vemos aqui a astúcia de Satanás. Os gibeonitas, compreendendo que não podiam enfrentar um poder como o dos israelitas, recorreram a um embuste. Um grupo deles, vestido com roupas velhas como as de viajantes cansados vindos de uma terra distante, chegou ao arraial de Israel, dizendo: “Teus servos vieram duma terra mui distante, por causa do nome do Senhor teu Deus; porquanto ouvimos a sua fama, e tudo quanto fez no Egito... fazei, pois, agora aliança conosco” (9.9, 11). Tão bom era o disfarce, tão razoável a história, tão respeitosa a referência ao Senhor, tão penosa a situação deles, que Israel transbordou de com paixão. Acreditando não serem eles cananeus que estavam sob maldição, com quem não podiam fazer alianças, os israelitas fizeram um pacto com Gibeom. Três dias mais tarde foi descoberto o engano. Note: o ponto mais importante deste incidente é que os israelitas “não pediram conselho ao Senhor” (v. 14). Não precisamos apenas do poder do Espírito contra os gigantes, mas também da sabedoria do Espírito contra as serpentes! E mais fácil golpear Satanás como um filho de Anaque em sua armadura de guerra do que como um gibeonita disfarçado em trajes de mendigo, despertando piedade. Os estratagemas sutis de Satanás são mais perigosos do que seus ataques declarados. Ele representa um perigo maior como “anjo de luz” do que como “leão que ruge”. A aliança com aqueles cananeus encerrava ameaças imprevisíveis. Ela prejudicou a fé dos israelitas. O fato não aconteceu por ter havido uma diminuição da fé na ocasião, mas esta havia ficado desprotegida. No capítulo 9, a fé é ameaçada por falharem em entregar tudo a Deus.

Capítulos 10-12 —A expulsão de todos os inimigos A estratégia militar de Josué torna-se clara aqui. Ao atacar primeiro Jerico e Ai, ele abrira uma brecha no centro de Canaã. Agora, no capítulo 10, ele se dirige para o sul e depois, no capítulo 11, vai para o norte. Temos assim a batalha central (6-9), a batalha ao sul (10) e a batalha ao norte (11); e o capítulo 12 completa o registro, dando um resumo de todos os reis e 262


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principais cidades que caíram diante da espada de Israel. As disputas entre as tribos de Canaã foram postas de lado na presença do inimigo comum a todos — Israel. Os que antes haviam sido inimigos mortais aliavam-se agora rapidamente contra o invasor que lhes inspirava medo. Alianças militares foram feitas às pressas, formando-se uma resistência conjunta. Mas tudo isso de nada adiantou. As coalizões mais terríveis não podiam ser comparadas com aquele poder sobrenatural que operava através de Israel. T odos caíram , um após outro — cidades, reis, gigantes, confederações, até que pudesse ser escrito: “Assim tomou Josué toda esta terra segundo tudo o que o Senhor tinha dito a Moisés; e Josué a deu em herança aos filhos de Israel, conforme as suas divisões, e tribos” (11.23). Agrupamos os capítulos 10-12 porque, embora a queda de Jerico e Ai e a aliança com Gibeom sejam descritas em maiores detalhes, as batalhas nesses outros três capítulos são mais resumidas. E o que elas nos mostram num sentido espiritual? A fé vitoriosa. Inimigos são derrotados. Israel é o vencedor. Canaã é conquistada. E “esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé” (1 Jo 5.4).

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Lição NL>23


NOTA: Para este estudo leia novamente do capítulo 13 ao 24.

O LIVRO DE JOSUÉ A VITÓRIA D A FÉ I. A ENTRADA NA TERRA (1-5) 1. A TRANSFERÊNCIA DA RESPONSABILIDADE A JOSUÉ 2. A ESPIONAGEM EM JERICÓ 3. A TRAVESSIA DO JORDÃO 4. A EDIFICAÇÃO DE MEMORIAIS 5. A OCUPAÇÃO DE GILGAL

— a garantia da fé — — — —

a prudência da fé a crise da fé o testemunho da fé a marca da fé

— — — — —

a fé triunfante a fé incapacitada a fé restaurada a fé ameaçada a fé vitoriosa

— — — — —

a fé a fé a fé a fé a fé

II. A CONQUISTA DA TERRA (6-12) 6. A QUEDA DE JERICÓ 7. O PECADO DE ACÃ 8. O SAQUE DE AI 9. A ASTÚCIA DE GIBEOM 10-12. A EXPULSÃO DE TODOS OS INIMIGOS

III. A OCUPAÇÃO DA TERRA (13-24) 13-19. A DIVISÃO DE CANAÃ 20. AS CIDADES DE REFÚGIO 21. A PORÇÃO DOS LEVITAS 22. O ALTAR DO TESTEMUNHO 23-24. A DESPEDIDA DE JOSUÉ

recompensada protegida preservada unificadora contínua


O LIVRO DE JOSUE (4)

PARTE III A OCUPAÇÃO D A TERRA (13-24) e s t e GRUPO final de capítulos é fértil em temas interessantes, mas para o leitor ocasional a colheita é apenas escassa. Por lidar principalmente com nomes, lugares e limites, é necessário estudá-lo com um mapa na mão. Um estudo geográfico detalhado está além do objetivo desta lição, mas há dois ou três fatores de orientação que devemos notar cuidadosamente. Primeiro: não é preciso muita imaginação para ver que a divisão da terra entre as nove tribos e meia e os levitas não foi tarefa fácil, mas sim um trabalho complexo que exigiu orientação cuidadosa e tempo considerável. Segundo: eles dividiram a terra “lançando as sortes perante o Senhor” (18.6) — um meio positivo por causa de sua imparcialidade, enquanto deixava ao mesmo tempo que o soberano Senhor colocasse as tribos nas regiões mais adequadas a elas. A mesma combinação de imparcialidade e soberania é vista na concessão dos dons espirituais pelo Espírito Santo na igreja de Cristo.

“Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor ê o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos. A manifestação do Espírito é concedida a cada um, visando a um fim proveitoso. Porque a um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria; e a outro, segundo o mesmo Espírito, a palavra do conhecimento; a outro, no mesmo Espírito, fé; e a outro, no mesmo Espírito, dons de curar; a outro, operações de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a um variedade de línguas; e a outro, capacidade para interpretá-las. Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas cousas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente” (1 Co 12.4-11).

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Terceiro: devemos assinalar bem o princípio que regeu a ocupação da terra por Israel, porque o mesmo princípio opera quando nos apropriamos da herança em Cristo. Ele é percebido quando juntamos dois versículos aparentem ente contraditórios. Lemos em 11.23: “Assim tomou Josué toda esta terra segundo tudo o que o Senhor tinha dito a Moisés”. Todavia, em 13.1 Deus diz: “... ainda muitíssima terra ficou para se possuir”. Essas duas declarações não são realmente contraditórias, mas complementares. São dois aspectos de uma única situação, e ambos correspondem à verdade. Por um lado, “toda a terra” fora realmente tomada; por outro, “muitíssima terra” restava ainda para ser tomada. O golpe decisivo fora desferido. As cidades principais tinham sido saqueadas. Todas as alianças inimigas acabaram esmagadas. Quaisquer opositores que tivessem restado podiam ser perfeitam ente destruídos pelas tribos de Israel individualmente. Faltava agora que eles confirmassem aquela vitória inicial até o último detalhe. O mesmo acontece conosco. O golpe decisivo sobre o pecado, Satanás e os poderes das trevas já foi desferido pelo nosso Senhor celestial. Assim sendo, toda a herança das “bênçãos celestiais em Cristo” é nossa. Devemos agora, porém, cumprir essa vitória até o último detalhe, impregnando-a com todos os nossos pensam entos e nossa vida. É necessário que avancemos no poder desta vitória decisiva especialmente no terreno da oração. Os poderes das trevas jamais poderão recuperar-se do golpe mortal infligido a eles no Calvário. Apesar das oportunidades cada vez maiores de se reagruparem com força suficiente para manter uma guerra contra o Israel espiritual de Deus, por causa da apostasia da igreja organizada, eles ainda tremem diante do cristão que avança no poder da cruz. “Toda a terra” foi realmente tomada, todavia resta “muitíssima terra” para ser possuída. Já foi convenientemente observado que existe uma diferença entre a “herança” e a “posse”. A “herança” é toda a terra dada por Deus, enquanto a “posse” é apenas aquela parte apropriada pela fé. O ideal seria que a posse abrangesse a herança inteira. Nossa herança em Cristo é aquilo que Ele representa em potencial para nós. Nossa posse em Cristo é aquilo que Ele é para nós na realidade, segundo a medida de nossa apropriação pela fé. E xam inem os agora rap id a m e n te os capítulos desta seção. A passagem-chave está em 21.43-45. 268


O LIVRO DE JOSUÉ (4)

“Desta maneira deu o Senhor a Israel toda a terra que jurara dar a seus pais; e a possuíram e habitaram nela O Senhor lhes deu repouso em redor, segundo tudo quanto jurara a seus pais; nenhum de todos os seus inimigos resistiu diante deles: a todos eles o Senhor lhes entregou nas mãos. “Nenhuma promessa falhou de todas as boas palavras que o Senhor falara à casa de Israel: tudo se cumpriu.” Note as três coisas que Deus deu a Israel: "... deu o Senhor a Israel toda a TERRA “O Senhor lhes deu REPOUSO em redor”; “a todos eles (seus INIMIGOS) o Senhor lhes entregou nas mãos”. “Tudo se cumpriu” — a fidelidade do Senhor foi assim amplamente manifestada. Israel estava recebendo finalmente a herança prometida, o repouso prometido, a vitória prometida. Os capítulos nesta seção final de Josué dividem-se como segue: Capítulos 13-19 — A divisão de Canaã Capítulo 20 — As cidades de refúgio Capítulo 21 — A porção dos levitas Capítulo 22 — O altar do testemunho Capítulos 23-24 — A despedida de Josué

Capítulos 13-19 — A divisão de Canaã Temos nesses capítulos a distribuição da terra entre as tribos. Em primeiro lugar, no capítulo 13, é homologado o estabelecimento de Rúben, Gade e meia tribo de Manassés em Gileade. No capítulo 14, o já idoso e leal Calebe é colocado em Hebrom. Nos capítulos 15 a 17, vemos as áreas entregues a Judá, Efraim e à meia tribo restante de Manassés. Finalmente, nos capítulos 18 e 19, o tabernáculo é levantado em Silo, e as últim as sete tribos recebem suas terras. De acordo com nossa interpretação espiritual do livro, vemos nesses capítulos a apropriação da fé. 269


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Capítulo 20 —A s cidades de refúgio Temos aqui as seis cidades de refúgio — Quedes, Siquém e Hebrom, a oeste do Jordão; e Bezer, Ramote e Golã, a leste. Elas estavam entre as quarenta e oito cidades dadas aos levitas (Nm 35.6, 7). Seu propósito é claram ente explicado em Núm eros 35 e neste presente capítulo. Tratava-se de uma provisão misericordiosa, a fim de proteger os que haviam cometido certos erros sem querer ou por engano. Muitos homens fiéis e sinceros teriam perecido se não fossem os chifres dos altares nessas cidades de refúgio. Aprendemos assim que Deus reconhece a diferença entre pecados e erros. Os homens mais santos são falíveis e podem cometer erros; mas erros não são pecados e não nos desclassificam para a vida de fé nem nos privam de nossa herança em Cristo. A menininha que, carinhosa mas desastrosamente, colocou os sapatos da mãe no forno, a fim de aquecê-los numa noite fria, cometeu um erro, mas não um pecado! O indivíduo pode ter um coração perfeito sem ter um cérebro perfeito. A santificação pode coabitar com uma memória deficiente. Apressemo-nos em detectar tais distinções e compatibilidades. Mesmo enquanto estamos “na terra” podemos fazer muitas coisas erradas sem perceber nosso engano. A lei de Deus, em sua justiça estrita, pode apenas nos considerar culpados. Todavia, há provisão para isto no sangue de Cristo. Erros, negligências, “pecados por ignorância” e prejuízos não intencionais são cobertos pela expiação. O próprio Cristo é nossa cidade de refúgio; apegando-nos a Ele ficamos protegidos e cobertos, podendo manter a vida de fé em nossa Canaã espiritual. Veja nisto a proteção da fé.

Capítulo 21 — A porção dos levitas Esta é a porção dos levitas na terra: quarenta e oito boas cidades com seus subúrbios. Esta distribuição dos levitas entre as tribos tem um significado óbvio. “Eles se espalharam por toda a terra com a influência santificadora de Silo. Que auréola de interesse sagrado deve ter envolvido o homem que tinha o privilégio de entrar no tabernáculo de Deus e queimar incenso na hora solene da oração! Multipliquemos isto por mil e consideremos que efeito amplo e saudável deve ter-se produzido em todo 270


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o país, especialmente quando Levi cumpria os elevados encargos deste chamado superior. Além disso, o ensino da lei era uma prerrogativa especial dos levitas, que parecem ter viajado pelos distritos que lhes tinham sido atribuídos. Eles ensinaram a Jacó os juízos de Deus e a Israel a Sua Lei, assim como colocaram incenso e ofertas queimadas sobre o altar. Levaram o povo a diferenciar entre o que era puro e impuro, e serviam de juízes nas discussões. Agiram como mensageiros do Senhor dos Exércitos” (veja Dt 33.10). A distribuição dos levitas foi a provisão de Deus para a conservação da fé na terra de Israel. Eles haviam entrado pela fé. Venceram pela fé. Essa fé deveria ser agora mantida no lugar de bênção mediante o ensino da palavra de Deus. A manutenção da fé condicionava a manutenção da bênção. O alimento para a fé é a palavra de Deus. E sempre assim.

Capítulo 22 — 0 altar do testemunho Urn altar de divisão em Israel! O livro da aliança não declarara enfaticamente que só deveria haver um altar nacional de sacrifício diante do tabernáculo — em Silo? O que dizer então deste “altar grande” construído por Rúben, Gade e a meia tribo de Manassés junto ao Jordão? E de admirar que as outras tribos, chocadas e irritadas, se reunissem contra eles? Contudo, os construtores do altar explicam essa aparente ofensa, apresentando um fato novo: este não seria um altar de sacrifício, mas de testemunho — um testemunho da união das duas tribos e meia a leste do Jordão com o restante de Israel. Há muitas pessoas que, à semelhança dessas duas tribos e meia, querem sentir-se seguras de que têm comunhão com o Deus de Israel, mas se contentam em viver fora da terra! Não há dúvida de que o motivo da edificação do altar Ede (Almeida Revista e Corrigida) era bom; mas não seria desnecessário se fosse obedecida a ordem do Senhor para que todos os homens de Israel se apresentassem diante dEle três vezes ao ano em Silo? Não era também uma espécie de vaidade? Nenhum modelo para a forma do altar fora dado por Deus, nem instruções para a sua construção. Além disso, ao que parece, o conselho do Senhor nem sequer passara pela idéia deles! 271


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É digna de nota esta lição relativa à unidade da fé. Se a tribo de Rúben, Gade e a meia tribo de Manassés tivessem se estabelecido no ocidente do Jordão com as outras tribos, no lugar de bênção prom etido, um monumento artificial de sua união com Israel não teria sido necessário. A verdadeira unidade não é exterior, mas interior. Ela não é obtida, nem sequer preservada, por memoriais externos, consistindo porém de uma unidade da ex periência in te rio r e e sp iritu al. E n tre as diversas denominações na igreja organizada de hoje, existe uma tendência de tentar impor uma união externa mediante a formulação de um credo comum e a inclusão de todas as correntes em algum corpo visível único de tamanho e prestígio social respeitáveis. Isto é construir um altar Ede moderno. E confundir unidade com mera uniformidade. A única unidade verdadeira é a de uma vida comum interior, uma experiência espiritual comum e uma lealdade comum de coração. Os que vivem “na terra”, no gozo dessa Canaã espiritual que está em Cristo, estão conscientes de sua unidade espiritual com todos os eleitos de Deus em Cristo, quaisquer que sejam as diferenças denominacionais externas que possam existir entre eles. Acerca desta verdadeira unidade, o Dr. F. B. Meyer diz, numa excelente passagem: “Vindos de todos os pontos da terra, ardendo com a mesma esperança, suplicando no mesmo lugar de reunião, confiando no mesmo sangue, a atração comum estabelece uma unidade orgânica como a de uma árvore, cuja multiplicidade de partes depende de uma só fonte vital; ou como a de um corpo, cuja variedade de membros está sujeita à alma que o faz viver. Quanto mais próximos estamos de Cristo, tanto mais claramente vemos nossa unidade com todos os que pertencem a Ele. Aprendemos a pensar menos nos pontos de divergência e mais nos de acordo. Descobrimos que as qualidades peculiares a cada crente, que o capacitam a realizar seu trabalho específico, não afetam aquela parte mais profunda do ser que, em todos os santos, entram em contato direto com o Salvador vivo. Da mesma forma como as ovelhas esparsas pastam enquanto convergem para um ponto comum no alto do morro e há um só rebanho, existe também um só Pastor. A visão suprema da Bíblia, concedida aos santos mais eminentes, é que, embora a nova Jerusalém inclua os nomes das tribos de Israel e dos apóstolos do Cordeiro, seja guarnecida de jóias de diferentes colorações, 272


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e tenha portas voltadas para todas as direções, ela é mesmo assim uma só, ‘a Noiva, a esposa do Cordeiro’. Por que então o mundo, e algumas vezes a igreja, supõe que a oração do Senhor não foi cumprida e que a unidade não se fez ainda? A unidade já se fez, mas apenas aqueles que possuem discernimento espiritual podem perceber a sua simetria.” Não podemos criar a unidade espiritual. A unidade dos santificados em Cristo é uma realidade espiritual operada pelo próprio Espírito. O segredo da unidade cristã está em ficarmos a oeste do Jordão — passando pelo sepultamento batismal da corrente do Jordão e entrando na experiência da plenitude do Espírito. Tendo de volta aquela experiênica de plenitude espiritual de Canaã que veio no Pentecoste, a consciência transbordante da unidade espiritual dos que pertencem a Cristo irá derrubar todas as barreiras artificiais. A verdadeira unidade de Israel encontra-se numa vida e experiência comum com relação a Deus, a qual se m anifestou intensamente naquele altar de sacrifício em Silo. Da mesma forma, a verdadeira unidade dos cristãos encontra-se hoje na sua experiência comum de vida em Cristo (e só é alcançada de acordo com ela), descobrindo seu centro vital na cruz e na pessoa do Redentor. Que este capítulo 22 de Josué nos transmita então a sua mensagem de verdadeira unidade de fé.

Capítulos 23-24 — A despedida de Josué Lemos finalmente os últimos conselhos do agora idoso Josué. Não devemos demorar-nos nesta cena tocante. As palavras do líder fiel revelam o interesse de seu coração pela nação privilegiada. Israel já vinha gozando há alguns anos o repouso e a fartura de Canaã. O que dizer do futuro? Tudo dependia de Israel continuar ou não fiel à aliança. As palavras de Josué não escondem sua preocupação. Sete vezes ele se refere às nações idólatras que ainda estavam em Canaã. Ele sabia que estas seriam uma armadilha para Israel e prescreveu então três cuidados. Primeiro, deviam esforçar-se para não se apartar da palavra de Deus — de “tudo quanto está escrito” (23.6). Segundo, era preciso haver uma separação contínua das nações de Canaã (23.7). E deveria haver um grande apego ao Senhor, com amor real e fervoroso (23.8-11). 273


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Este é o teor desses últimos capítulos e são estas as três condições indispensáveis (aplicáveis tanto hoje quanto nos dias de Josué) para a continuação da experiência da “plenitude da bênção”. E preciso (1) viver em função da palavra de Deus; (2) separar-se continuamente de todos os erros conhecidos; (3) apegar-se a Deus com todo o amor de nosso coração. Nas palavras de 1 João 5.3, “os seus mandamentos não são penosos”, e os que os cumprem encontram realmente uma Canaã de bênçãos espirituais, de paz e alegria no Espírito Santo, de comunhão e tesouro celestiais, que este mundo jamais pode dar ou tirar. Nesses dois últimos capítulos, a ênfase é então colocada sobre a necessidade e a maneira de perseverar. Assim sendo, temos na terceira parte de Josué: 13-19. A divisão de Canaã 20. As cidades de refúgio 21. A porção dos levitas 22. O altar do testemunho 23-24. A despedida de Josué

—a —a —a —a —a

fé recompensada fé protegida fé preservada fé unificadora fé contínua

Pode ser útil agora ver o livro inteiro analisado, com referência específica à sua mensagem espiritual que traçamos através dos capítulos (veja início desta lição). DESCUBRA OS PONTOS FRACOS! 1. Quais as principais divisões de Josué? 2. Qual o pensamento principal do livro? 3. Canaã é um tipo do céu? Caso negativo, por que não? 4. Como Josué e Efésios se correspondem? 5 .0 capítulo 1 pode ser resumido com estas palavras: “A transferência da responsabilidade a Josué”. E os demais capítulos? 6. O que a travessia do Jordão simboliza? 7. Onde foi levantado o primeiro arraial de Israel em Canaã? 8. Qual foi a astúcia dos gibeonitas e onde ela é mencionada? 9. Quantas cidades os levitas receberam e quantas eram cidades de refúgio? 10. O que era o altar Ede e onde é mencionado? 274


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11. Quais as três ênfases na exortação de despedida de Josué? 12. No capítulo 1 temos a garantia da fé. Quais as características da fé sugeridas pelos outros capítulos?

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examinai as escrituras Através de um estudo sistemático e progressivo, o Dr. Baxter “examina” a Palavra de Deus numa série de lições básicas e amplamente interpretativas, abrangendo desde o livro de Gênesis até Josué. Este livro não é um comentário versículo por versículo, nem é também uma série de análises e esboços. Antes, é um completo panoram a dos eventos, lugares e pessoas que compõem a história narrada no Pentateuco e em Josué. Pastores, seminaristas, professores e estudantes da Bíblia em geral irão encontrar aqui uma riqueza de material para mensagens, lições e estudos particulares. Ninguém poderá terminar esta série de lições e continuar a mesma pessoa. Todo estudante receberá um benefício vitalício e será infinitam ente abençoado com estes estudos práticos e envolventes.

J. Sidlow Baxter é um australiano de Sydney, tendo crescido na Inglaterra. Ele não é som ente um pregador de habilidade e sp an to sa ; antes de tudo, é um professor de capacidade c o m p ro v a d a p o r m ilh are s de p esso as que já tiv e ra m a oportunidade de ouvi-lo. Recebeu o grau de Doutor em Teologia pelo Seminário Batista Central, em Toronto, no Canadá.

Examinai as escrituras genesis a josué (j sidlow baxter)  
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