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UNIVERSIDADE DA REGIÃO DE JOINVILLE – UNIVILLE PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO – PRPPG MESTRADO EM PATRIMÔNIO CULTURAL E SOCIEDADE – MPCS

NÓS SOMOS HÚNGAROS! O REAVIVAMENTO DAS TRADIÇÕES HÚNGARAS EM JARAGUÁ DO SUL – SC

SIDNEI MARCELO LOPES

JOINVILLE, SC 2011


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SIDNEI MARCELO LOPES

NÓS SOMOS HÚNGAROS! O REAVIVAMENTO DAS TRADIÇÕES HÚNGARAS EM JARAGUÁ DO SUL – SC

Dissertação de mestrado apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Patrimônio Cultural e Sociedade, na Universidade da Região de Joinville - UNIVILLE. Orientadora: Professora Dra. Sandra Paschoal Leite de Camargo Guedes. Coorientador: Professor Dr. Euler Renato Westphal

JOINVILLE, SC 2011


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À minha esposa Andréia e aos meus filhos Ivan

e

Eduarda,

meus

amores,

meus

alicerces, meus cúmplices em todos os momentos da elaboração desta dissertação. A vocês dedico tudo o que aprendi.


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Agradecimentos

Muitos são os momentos para agradecer e não podemos deixar passar as oportunidades para dizer muito obrigado! Agradeço a Deus pelo dom da vida. A vida como ela é, com alegrias, com tristezas, com sucessos, com dificuldades, passagens que nos ensinam e nos fazem crescer a cada dia. À minha família pelo amor, pelo carinho, pela paciência. Sem vocês esse caminho seria bem mais complicado; À minha orientadora, Professora Doutora Sandra Paschoal Leite de Camargo Guedes, pela incansável dedicação, pelo olhar atento e criterioso, pela sensibilidade, pelos questionamentos, pela amizade, pelo incentivo e confiança; Ao meu coorientador, Professor Doutor Euler Renato Westphal, pelas sugestões, pelo compartilhar do conhecimento, pelo encaminhamento na construção desse trabalho; Aos membros da Banca Examinadora, Professor Doutor João Klug e Professora Doutora Taiza Mara Rauen Moraes, por terem aceitado avaliar esta dissertação e pelas contribuições para o aperfeiçoamento da mesma; Aos colegas da Fundação Cultural de Jaraguá do Sul pelos debates, pelas ideias e pelo auxílio na busca e localização das fontes; Aos professores e funcionários do Curso de Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade da UNIVILLE; Aos descendentes de húngaros que compartilharam suas memórias; Aos amigos, pelo incentivo na busca de novos conhecimentos; A todos que contribuíram no processo de construção desta pesquisa minha imensa gratidão e meu carinho sincero.


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Resumo

Esta dissertação tem como objetivo discutir o processo de reavivamento da cultura húngara em Jaraguá do Sul-SC, implantado pelo poder público municipal e incorporado pelos descendentes dos imigrantes oriundos da província de VeszprémHungria. O termo “reavivamento” foi escolhido para explicar o processo de construção e reconstrução de práticas culturais húngaras, ocorrido em Jaraguá do Sul a partir do ano de 1995. A pesquisa transita no campo histórico, político e social e apresenta o processo de imigração e adaptação dos antepassados do grupo estudado, primeiramente na Europa e mais tarde no Brasil, juntamente com as transformações culturais e identitárias pertinentes. As discussões são sustentadas por Eric Hobsbawn, Nestor Garcia Canclini, Norbert Elias, Maurice Halbwachs, Stuart Hall, Martin Dreher, Giralda Seyferth, Lájos Boglár, Fernando Magalhães, entre outros. O foco de análise são as lembranças, os documentos, registros que relacionam passado e presente e, assim, por meio da reconstituição de memórias, foi analisado o contexto em que ocorreu esse processo de reavivamento, discutindo a participação do poder público e o envolvimento de pessoas e entidades do Brasil e da Hungria na seleção dos elementos que passaram a fazer parte das manifestações culturais dos descendentes de húngaros em Jaraguá do Sul. Esse processo, que acompanhou as políticas públicas de revalorização do patrimônio cultural dos imigrantes europeus pelo governo do Estado de Santa Catarina, incorporou na comunidade húngara de Jaraguá do Sul novas tradições, hábitos e práticas culturais, transformando a visão que a comunidade tinha sobre suas origens, sua identidade, seu patrimônio cultural, ou seja, efetuou-se aqui uma "invenção das tradições". Palavras-chave: húngaros; tradições; Jaraguá do Sul.


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Abstract

This dissertation aims to discuss the reliving process of the Hungarian culture in Jaraguá do Sul – SC, developed by the municipal public government and incorporated by the immigrants‟ descendants that came from Veszprém-Hungria province. The word reliving was chosen to explain the process of building and rebuilding of the Hungarian cultural practice that has happened in Jaraguá do Sul since 1995. The research shows the ancestors of the studied group‟s immigrations and adaptation in Europe first and later in Brazil in Historical, Political and Social aspects, with the cultural and identity changes. The discussions are based upon the writings of Eric Hobsbawn, Nestor Garcia Canclini, Norbert Elias, Maurice Halbwachs, Stuart Hall, Martin Dreher, Giralda Seyferth, Lájos Boglár, Fernando Magalhães, among others. The analysis focus are the memories, documents, and writings that relate the past and the present time, and this way, through these memories reconstitution the context that happened this reliving process was analyzed and discussed the municipal public government participation and the people and organization from Brazil and Hungary involvement in the selection of the elements that started to constitute the Hungarian descendants cultural manifestations in Jaraguá do Sul. This process that accompanied the public power politics the revalorization of the European immigrants‟ patrimony by Santa Catarina State government incorporate in Jaraguá do Sul in Hungarian community tradition, habits, cultural way of life, changing the vision that the community itself had about its origins, identity, cultural patrimony in other words happened here a “tradition invention”. Keywords: hungarian, traditions, Jaraguá do Sul.


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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO.......................................................................................................... 09 1 OS SUÁBIOS DA HUNGRIA................................................................................. 18 1.1 A colonização de Jaraguá do Sul........................................................................ 18 1.2 A trajetória dos Suábios em terras européias...................................................... 21 1.3 Nasce o Império Austro-Húngaro........................................................................ 28 2 A IMIGRAÇÃO DOS HÚNGAROS PARA O BRASIL........................................... 38 2.1 Destino Brasil...................................................................................................... 38 2.2 A viagem e os primeiros dias em terras brasileiras............................................. 46 2.3 A adaptação ao ambiente e ao novo lar Jaraguá................................................ 54 3 SUÁBIOS OU HÚNGAROS?................................................................................. 73 3.1 Processos de hibridização no Brasil.................................................................... 73 3.2 A “Veszprém” de Santa Catarina......................................................................... 78 3.3 Religiosidade e costumes de casamentos.......................................................... 81 3.4 Cotidiano............................................................................................................. 92 3.5 Um idioma híbrido............................................................................................. 106 3.6 O jubileu de ouro da imigração húngara........................................................... 109 3.7 Tempos de Guerra............................................................................................. 112 3.8 Uma cortina cultural........................................................................................... 119 4 O PROCESSO DE REAVIVAMENTO DA CULTURA HÚNGARA EM JARAGUÁ DO SUL A PARTIR DE 1995................................................................................... 128 4.1 Um movimento pela tradição............................................................................. 137 4.2 A Hungria e os magyares na construção da invenção das tradições................ 158 4.3 A Festa do Strudel na rota húngara................................................................... 170 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................. 179 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................... 187


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INTRODUÇÃO

Jaraguá do Sul é um município situado no Vale do Itapocu, nordeste do Estado de Santa Catarina, distante 180 km da capital Florianópolis e próximo ao litoral e de importantes cidades do Estado, como Joinville e Blumenau. De acordo com Stulzer (1973), o nome Jaraguá foi atribuído pelos indígenas, primeiramente, ao atual Morro da Boa Vista, por elevar-se sobre o vale, como senhor ou dono do mesmo. “Iara+guá” tem o significado de senhor, dominador ou dono do vale. Parte das terras do atual município pertencia ao dote da Princesa Isabel e foi demarcada em 1876 por Emílio Carlos Jourdan, a quem também coube a primeira iniciativa de colonização. As outras partes pertenciam à Princesa Dona Francisca e ao Estado de Santa Catarina. De 1890 em diante teve início o povoamento mais efetivo das terras à margem direita do rio Jaraguá, às cabeceiras dos rios Garibaldi, Jaraguazinho, Cerro e o da Luz. Estas terras foram ocupadas por imigrantes húngaros, italianos e alemães, trazidos por uma agência de colonização que tinha sede em Blumenau. Os colonizadores alemães ocuparam principalmente os vales dos rios Cerro e da Luz. Os colonizadores italianos se estabeleceram na Barra do Rio do Cerro e, posteriormente, em Nereu Ramos e Santa Luzia. E, de acordo com Jagnow (1991, p. 3), um grupo de imigrantes húngaros “se estabeleceu às margens do Rio Garibaldi e Jaraguazinho, descendo o Rio Jaraguá até a localidade de Jaraguá 84”. Ao término desse período de colonização, estima-se que cerca de sessenta por cento dos colonizadores eram de origem alemã, aproximadamente trinta por cento de origem italiana e o restante era composto por húngaros, poloneses, lusobrasileiros e escravos libertos. Os colonizadores deixaram suas marcas. Dentre estas, podemos citar o idioma, a arquitetura, a culinária, as danças, as tradições, enfim, toda a gama cultural que se reflete até os dias atuais na população jaraguaense. Desde os primórdios da colonização até a década de 1960, a base econômica do município foi a agricultura. Porém, já na década de 1920 iniciou-se a fase industrial que, a partir dos anos noventa, recebeu grande incremento na modernização, na expansão do parque industrial e na utilização de tecnologia, o que torna Jaraguá do Sul conhecida pelas suas indústrias e seus produtos em todo o


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Brasil, Europa, Ásia e América do Norte. Este apelo industrial que a cidade possui atrai trabalhadores de diversas regiões do país, os quais perpetuam o processo de fusão e de hibridismo cultural existente na cidade. Nos últimos anos, tornou-se comum, no cotidiano de Jaraguá do Sul, ouvir expressões e referências como: Húngaros de Jaraguá, a única Colônia Húngara do Estado de Santa Catarina, Rota turística da Imigração Húngara, Festa Catarinense do Strudel, Grupo de Danças Húngaras e a igreja de Santo Estevão, construída por húngaros. Como política pública de cultura, esses termos são utilizados como "marcas" ou "produtos" que agregam valores para o turismo cultural na região. Para os descendentes dos imigrantes húngaros é uma forma de identificação como grupo étnico, dando ênfase a sua tradição na culinária, arquitetura, religiosidade, danças, músicas e indumentária. Ao se observar a utilização desses termos na comunidade jaraguaense, principalmente o que a diferencia como a “única Colônia Húngara no Estado de Santa Catarina”, cria-se o interesse em relação à possibilidade de desenvolver um estudo sobre a história dos imigrantes húngaros em Jaraguá do Sul. Inicialmente, a ideia era refletir e compreender acerca da relação desses imigrantes com suas memórias, seus costumes, sua identidade étnica, seu patrimônio cultural. Um dos fatores que influenciaram a escolha do grupo pesquisado foi a carência constatada de registros bibliográficos e estudos científicos referentes a esta comunidade, situação diferente do que se observa em relação aos colonizadores alemães e italianos da região dos quais as pesquisas já estão bem mais avançadas. Outro aspecto foi o fato dos imigrantes húngaros “serem os únicos que vieram para a região diretamente da Europa, organizados em grupos”

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(JAGNOW, 1991, p.3).

Os demais grupos étnicos que colonizaram Jaraguá do Sul, principalmente alemães e italianos, eram membros da segunda ou terceira geração dos imigrantes que se estabeleceram nas colônias vizinhas, hoje pertencentes aos municípios de Joinville, Blumenau, Luiz Alves, Rio dos Cedros, entre outros. A história dos húngaros em Jaraguá do Sul teve início na última década do século XIX, quando emigraram aproximadamente 800 pessoas da província de Vészprém, Hungria, para o Brasil e se estabeleceram em Jaraguá do Sul, então 1

Considera a região geográfica pertencente ao município de Jaraguá do Sul, não inserido o grupo de 111 imigrantes alemães conduzidos pelo Pastor Wilhelm G. Lange, que se estabeleceu na região em 1886, formando a comunidade de Brüderthal. Esta localidade pertence hoje ao município de Guaramirim. (LANGE, 2003).


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Primeiro Distrito de Joinville, Estado de Santa Catarina. Cabe ressaltar que muitas aldeias da região de Veszprém eram habitadas por suábios2, cujos ancestrais foram instalados naquela localidade há aproximadamente 150 anos antes da emigração para o Brasil. Nesses 150 anos, costumes húngaros e alemães se entrelaçaram, a exemplo o idioma: falavam entre eles o dialeto schwäbisch3 e conheciam o idioma húngaro para relacionar-se fora do grupo. Desse modo, pode-se arriscar afirmar que na época da imigração para as terras brasileiras, sua cultura era suábio-húngara. Para sustentar as discussões referentes aos encontros de culturas diferentes, assimilação de novos costumes, troca de hábitos e experiências culturais, adaptação às condições físicas e sociais causadas pelos deslocamentos, nos apoiamos em Nestor Garcia Canclini (2008) e Peter Burke (2003), que caracterizam esses processos de entrelaçamentos como “hibridismo cultural”. No que diz respeito aos encontros, contatos, estigmatizações e conflitos sociais de grupos humanos causados pelas mobilidades migratórias, tomamos por base os estudos Os estabelecidos e os outsiders (2000), de Norbert Elias e John Scotson, onde os autores, em pesquisa desenvolvida em uma pequena comunidade industrial da Inglaterra, mostram a clara divisão entre um grupo de residentes estabelecidos e as povoações formadas em época posterior, cujos moradores eram tratados pelo grupo dos estabelecidos como outsiders, ou seja, estranhos. Essas relações são percebidas ao longo desta dissertação, quando os suábios são instalados na Hungria no século XVIII e também no momento em que os imigrantes húngaros chegam nas terras de Jaraguá no final do século XIX. Nesses períodos, estes eram vistos pelos já estabelecidos como os “outsiders”, os forasteiros, os outros, “os de fora”. Passado um século da imigração húngara para a região, a partir do ano de 1995, pela iniciativa da Fundação Cultural de Jaraguá do Sul, iniciou-se um processo de política cultural para o reavivamento da cultura húngara local, envolvendo as famílias dos descendentes de imigrantes húngaros da cidade, membros da Casa Húngara de São Paulo e funcionários da administração pública 2

Suábios (Schwaben) era a denominação de todos os alemães e seus descendentes que no século XVIII colonizaram o médio Danúbio. 3 Schwäbisch é um dialeto alemânico falado em Württenberg, no Estado de Baade, sul da Alemanha, incluindo parte da Suíça. Esta região fazia parte da antiga Suábia.


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municipal. Esta iniciativa desencadeou um novo momento para esse grupo, despertando-lhe o interesse em aprender sobre a história e a cultura da Hungria, além de implantar-se uma série de ações envolvendo a comunidade dos descendentes de húngaros em Jaraguá do Sul. Destaca-se a criação de um grupo de danças folclóricas e a Associação de Cultura Húngara no Município. O trabalho realizado por este pesquisador na Fundação Cultural de Jaraguá do Sul, desde 1997, propiciou o envolvimento com as ações voltadas ao Patrimônio Cultural da cidade, sendo que uma das atividades efetivadas estava diretamente ligada às associações que representam as etnias colonizadoras do município, objetivando a continuidade e fortalecimento das mesmas. Mesmo acompanhando a trajetória do Grupo de Danças Húngaras e da Associação da Cultura Húngara de Jaraguá do Sul em muitas atividades culturais, foi apenas no ano de 2001 que passamos a ter um contato mais direto com a comunidade húngara da cidade, ao ser nomeado Presidente da Fundação Cultural de Jaraguá do Sul. Naquela época, estabelecemos contatos mais próximos com o presidente da Associação Húngara de Jaraguá do Sul, o Sr. Hilário Scheuer, bem como com o Professor Doutor Luís Boglár que, com Katalin Öry Kovács, sua orientanda de doutorado em antropologia da Universidade de Szeged na Hungria, estavam na cidade desenvolvendo pesquisa sobre a imigração húngara na região. Na ocasião, apresentaram as metas da Associação para os próximos anos e, entre elas, estava prevista uma viagem à Hungria, com intuito de se estabelecer um intercâmbio cultural com aquele país. Desse modo, foi natural nosso envolvimento com a estruturação do projeto para angariar recursos para a viagem e, ao mesmo tempo, assessorar a antropóloga Katalin Öry Kovács em seus estudos, na coleta de materiais, documentos, acompanhando e auxiliando com a língua portuguesa nas entrevistas realizadas com as famílias dos imigrantes. No ano de 2002, a oportunidade de viajar para a Hungria concretizou-se, juntamente com uma delegação de 22 pessoas, composta pelo Grupo de Danças Dunántúl, membros da Associação Húngara e representantes da Fundação Cultural de Jaraguá do Sul. Sob coordenação do Dr. Luiz Boglár, recebemos aulas in loco acerca da cultura e a história daquele país. O grupo Dunántúl apresentou suas danças, vivenciando, em contrapartida, as tradições e costumes húngaros. Foram estabelecidas parcerias com prefeituras e entidades na Hungria. Visitamos a região


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de Veszprém, local de onde partiram os imigrantes que vieram para Jaraguá do Sul. Naquela localidade, alguns integrantes do grupo jaraguaense conseguiram dialogar com senhoras de uma pequena aldeia de Veszprém em schwäbisch, dialeto trazido para Jaraguá do Sul pelos imigrantes. Em 2003, prestamos auxílio a outra pesquisadora húngara, Petra Paulics, em sua pesquisa sobre os costumes dos descendentes de húngaros na região, e nos anos seguintes o envolvimento com as atividades da Associação Húngara continuou. Na Fundação Cultural, trabalhamos com o propósito de criação da Casa da Cultura Húngara, inaugurada em 2004, na comunidade de Santo Estevão. Em 2007, retornamos à Hungria, novamente acompanhado pelo grupo de danças Dunántúl, para participar do Encontro Mundial dos Húngaros. Em 2008, 2009 e 2010 também aconteceu, de forma efetiva, a participação junto à Comissão Organizadora da 1ª, 2ª e 3ª Festa Catarinense do Strudel, e, atualmente, o envolvimento em reuniões e eventos realizados pela Associação Húngara ainda ocorre. Este envolvimento com a cultura húngara e o desejo de ampliar as discussões sobre estes aspectos do Patrimônio Cultural de Jaraguá do Sul foram fatores que contribuíram de forma decisiva para a escolha desse tema de pesquisa no momento de ingresso no Programa de Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade da UNIVILLE, já que uma das linhas de pesquisa do curso é voltada ao Patrimônio e Memória Social. Sendo assim, integrou-se o tema desta dissertação aos assuntos abordados no curso, principalmente patrimônio cultural, memória, identidade e cultura. Hoje, os descendentes de húngaros buscam, à sua maneira, preservar as tradições, sejam aquelas repassadas por seus antepassados ou as incorporadas em seu cotidiano. Com a implantação de novos símbolos, os descendentes de húngaros absorveram o que lhes foi repassado, buscando elementos que os diferenciasse dos demais grupos étnicos da região e, de forma bastante interessante, comportando-se como se tivessem descoberto a sua origem húngara a partir do início desse “reavivamento cultural”. Esse movimento para a revitalização da cultura húngara em Jaraguá do Sul mudou a maneira que o grupo tratava os costumes que diziam respeito ao seu país de origem. Partindo dessa premissa, essa pesquisa discute os motivos que


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despertaram os descendentes húngaros para este reavivamento, termo escolhido para explicar esse processo de revitalização que, de certa forma, é uma reconstrução de práticas culturais, um retorno às “origens”, as raízes da cultura húngara,

estabelecendo

uma

conexão

com

o

passado.

O

processo

de

“reavivamento” é a revalorização, a ressurgência, a ressignificação das tradições, dos rituais, da linguagem, dos símbolos, da identidade, da cultura do país de seus antepassados. O uso da palavra reavivamento, empregada no título desta dissertação, justifica-se por entendermos que, nas ações desenvolvidas durante esse processo a partir de 1995, as práticas culturais já existentes no passado passaram a ter uma nova roupagem, foram revaloradas. Para ilustrar este fato, citamos, como exemplo, o Strudel, um prato que era difundido na cozinha dos imigrantes e com o movimento, ganhou uma nova simbologia, passando a deter o status de patrimônio cultural, a ponto de ter-se organizado em torno dele a Festa do Strudel, que é uma modernização das primeiras festas comunitárias, conhecidas como Kyritag. Ainda, pode-se justificar sua utilização, levando-se em conta o movimento cultural ocorrido com a comunidade húngara de Jaraguá do Sul no início da década de 1940, liderado por Ferenc Fischer4, quando esses estabeleceram contato com autoridades húngaras, buscando uma “hungarização” para os imigrantes e seus descendentes. Esses movimentos de reavivamento serão retomados de forma mais detalhada nos capítulos III e IV dessa dissertação. No caso das novas manifestações culturais incorporadas na comunidade a partir de 1995, como a criação de um grupo de danças folclóricas, as aulas de história e cultura da Hungria, a utilização dos símbolos nacionais húngaros, entre outros, também poderiam ser classificadas como um “avivamento” ou, de acordo com Hobsbawm (1997), seriam “tradições inventadas”. Para a compreensão desse processo, utiliza-se, dentre outros, o livro A Invenção das Tradições, de Eric Hobsbawm, que faz uma análise sobre as mudanças que ocorrem nas tradições através dos tempos. Nesta obra, o autor diz que “muitas vezes tradições que parecem ou são consideradas antigas são inventadas” (1997, p 72). 4

Imigrante Húngaro. Chegou a Jaraguá do Sul em 1892. De 1934 até 1942 foi designado representante do Consulado da Hungria na comunidade húngara.


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A “tradição inventada” de Hobsbawm será utilizada neste estudo por representar um conjunto de elementos culturais incorporados no cotidiano dos descendentes de húngaros de Jaraguá do Sul, trazendo transformações nos costumes e práticas culturais desse grupo étnico. Outros questionamentos instigaram a realização desta pesquisa: com qual herança cultural vieram os húngaros para o Brasil? O que motivou a identificação com os alemães estabelecidos na região na época em que imigraram? Por que, passados mais de 100 anos de imigração, decidiram-se a buscar as raízes de seus antepassados, valorizando símbolos e tradições húngaras? Estaria este grupo reinventando sua cultura ou apenas acompanhando uma política pública de turismo cultural? Esta pesquisa, de caráter qualitativo, foi baseada em revisão bibliográfica e pesquisa documental em jornais, revistas e outros periódicos que se encontram no Arquivo Histórico Municipal de Jaraguá do Sul, Joinville, Blumenau e Florianópolis, acervo das Associações Húngaras de Jaraguá do Sul e de São Paulo, Museu Histórico de Jaraguá do Sul “Emílio da Silva”, arquivos familiares das pessoas entrevistadas e Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro. A fim de melhor conhecer e entender os significados das tradições e os fatos que marcaram a história da comunidade húngara em Jaraguá do Sul, foi indispensável a produção de fontes, por meio de depoimentos coletados em entrevistas. Utilizando a metodologia da história oral, estabeleceu-se o grupo a ser entrevistado

com aproximadamente

quinze

pessoas,

assim caracterizados:

descendentes de húngaros com mais de 70 anos, para os quais a “memória étnica” está mais fortemente presente; membros da comunidade húngara envolvidos no processo de reavivamento da cultura a partir de 1995; instrutores com ascendência húngara, residentes em São Paulo, encarregados de implantar as tradições húngaras em Jaraguá do Sul; húngaros que vivenciaram e realizaram pesquisas sobre as práticas culturais dessa comunidade e, por fim, autoridades municipais que participaram do processo. As entrevistas serviram para interagir com as experiências dos entrevistados e focalizar as informações que interessam à pesquisa. Neste momento, a leitura de Bosi (1994) se fez importante, uma vez que a autora discute a recriação do passado através de entrevistas com pessoas, testemunhas vivas da história. Para Bosi (1994,


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p 19), “a memória é um cabedal infinito do qual só registramos um fragmento. Frequentemente, as mais vivas recordações afloram depois da entrevista [...]”. Os depoimentos foram obtidos por meio de entrevistas semi-estruturadas, testemunhos ou depoimentos (registrados por um gravador sonoro), realizados nas residências ou em outro local pré-determinado, por meio de contato prévio com os sujeitos da pesquisa. Os procedimentos adotados para o desenvolvimento desta coleta foram realizados de acordo com as orientações técnicas do Laboratório de História Oral da UNIVILLE e seguindo as normas do Comitê de Ética da mesma Universidade. Os depoimentos coletados nas entrevistas foram transcritos e autorizados pelos depoentes e permanecerão no Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul para utilização de outros pesquisadores. Após a defesa desta dissertação, os entrevistados receberão um retorno sobre a forma como seus depoimentos foram utilizados. A dissertação está dividida em quatro capítulos, sendo que o primeiro está centrado nas questões históricas da trajetória dos suábios em terras europeias, além de apresentar alguns fatos que influenciaram na constituição da identidade cultural deste povo. Os processos e conceitos de hibridização e identidade são discutidos nessa etapa, pois auxiliam na compreensão dos conteúdos trabalhados ao longo da pesquisa. Para tanto, foram utilizados como referência Canclini (2008), Magalhães (2005) e Hall (2000). Ainda no primeiro capítulo, apresenta-se um panorama sobre as emigrações que aconteceram no final do século XIX da Europa para a América e, mais especificamente, para o sul do Brasil. Para embasar essas análises, busca-se auxílio em Klein (1999), que se utiliza dos termos "repulsão e atração" quando trata sobre emigração/imigração. As obras de Willems (1980), Dreher (1984) Seyferth (1994), Decol (2000) e Guedes (2005) também foram fontes para análise e reflexão acerca dos acontecimentos econômicos, sociais e demográficos que favoreceram a repulsão de milhões de europeus de seus países de origem, bem como, as políticas de imigração do governo brasileiro, entre outros motivos, que serviram de atração para estes imigrantes. O segundo capítulo foca especificamente a imigração dos húngaros para Jaraguá do Sul, baseando-se na lista de passageiros e diários de bordo dos navios que transportavam estes imigrantes do Porto de Brehmen, na Alemanha, até o Porto do Rio de Janeiro, por meio de documentos encontrados no Arquivo Nacional do Rio


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de Janeiro. É possível confrontar através de fontes escritas o que os descendentes conheciam somente através de suas memórias, estabelecendo um diálogo entre a memória oral e a escrita a respeito dos acontecimentos que marcaram a viagem desses imigrantes. Nesta etapa é apresentada a adaptação desses imigrantes na localidade, a maneira como se estabeleceram, como construíram suas primeiras moradias, como conseguiram seu alimento, limparam seus terrenos, prepararam sua lavoura, se relacionaram com outros grupos que já estavam na região e como manifestaram sua fé religiosa e seus costumes culturais. Para tanto, são tomadas como principais referências Silva (1976), Bosi (1994), Boglár (2000), Paulics (2004) e Majcher et al. (2008). O patrimônio material e imaterial da comunidade húngara de Jaraguá do Sul é discutido no terceiro capítulo, que recebeu o título: “Suábios ou Húngaros?”. Nele se apresenta a continuidade do processo de hibridização dos descendentes de húngaros de Jaraguá do Sul, suas tradições, religiosidade, gastronomia, costumes, as lembranças dos períodos de guerra e pós-guerra, bem como os signos que representam este grupo. Nesse momento, os depoimentos dos entrevistados e os documentos que tratam do assunto serviram de alicerce para a compreensão do mosaico histórico da primeira metade do século XX. O quarto capítulo, "Nós somos Húngaros", apresenta e discute os motivos que desencadearam o processo de reavivamento da cultura húngara em Jaraguá do Sul, a partir de 1995, e o envolvimento de pessoas e entidades do Brasil e da Hungria neste processo. A partir de Hobsbawm (1997) e Flores (1997), aprofunda-se a discussão a respeito da invenção das tradições, da revalorização da cultura do imigrante em Santa Catarina, do alargamento dos conceitos sobre o patrimônio cultural, das iniciativas governamentais para fomentar o turismo cultural na região, das festas “tradicionais” que surgiram neste período, das mudanças incorporadas nas manifestações culturais dos descendentes de húngaros e a forma como estes absorveram estas novas práticas.


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1 – OS SUÁBIOS DA HUNGRIA. 1.1 – A colonização de Jaraguá do Sul.

A colonização do município de Jaraguá do Sul, a partir de 1876, aconteceu em três regiões distintas: Colônia Jaraguá, Domínio Dona Francisca e Terras do Estado de Santa Catarina. As terras da Colônia Jaraguá eram parte das antigas terras dotais da Princesa Isabel entre os rios Jaraguá e Itapocu; os colonizadores dessa região tinham procedência das localidades de Luiz Alves, Joinville, Blumenau e adjacências, e eram em sua maioria descendentes de alemães e italianos. A Colônia Dona Francisca ocupava principalmente as terras à margem esquerda do Rio Itapocu e pertencia a Companhia Colonizadora Hamburguesa. Os colonizadores dessa região vinham principalmente de Joinville. As terras pertencentes ao Estado de Santa Catarina eram localizadas à margem direita do Rio Jaraguá e foram vendidas pelo departamento de Terras e Colonização, sediado em Blumenau, em 1890. Foi nessa área que os imigrantes húngaros se estabeleceram a partir de 1891 (SILVA, 1976). Destas terras fazem parte hoje a região do Garibaldi, Alto Garibaldi, Jaraguazinho, Santa Cruz, Cacilda, Santo Estevão e Jaraguá 84. A figura 1 apresenta o mapa do município e suas respectivas divisões na época da colonização, e mostra também a localização de Jaraguá do Sul, o caminho percorrido pelos imigrantes húngaros no Estado de Santa Catarina e a trajetória destes nas terras de Jaraguá, com seus núcleos de colonização.


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Figura 1 – Mapa da colonização do município de Jaraguá do Sul.

Fonte: Geoprocessamento da PMJS – Desenho Geomir M. Pereira


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Schmöckel (1987), com base nas anotações de Ferenc Fischer, publicou no jornal O Correio do Povo de Jaraguá do Sul que, de 1891 a 1896, chegaram 706 húngaros na região, além de 734 descendentes de alemães e 116 descendentes de italianos. Conforme estes dados, a maioria dos vizinhos dos húngaros eram os alemães. Boglár (2000) percebeu, quando de sua visita à região em 1940, a hibridização que já ocorria entre os grupos: Da casa de um agricultor, já de longe nos acenaram e ao chegarmos nos cumprimentaram: “Desejamos um bom dia” com sotaque tipicamente transdanubiano. Realço isso porque, no ambiente alemão de Santa Catarina, a língua dos nossos bravos húngaros de Veszprém se germanizou. (BOGLÁR, 2000, p.166)

Nesta citação, o autor faz referência ao sotaque transdanubiano, referindo-se a região de Veszprém, situada no vale do Rio Danúbio, e ao mesmo tempo destaca que a língua se germanizou no ambiente alemão catarinense. Öry Kovács (2006, p.8) também afirmou que “um dos pontos que aproximou os imigrantes vindos da Hungria à colônia alemã radicada na localidade foi o idioma”. Conforme Paulics (2004, p.5), esta aproximação foi possível porque os que chegaram à região de Jaraguá do Sul vinham de Veszprém, Ajkarendek, Devecser, Ganna, Magyarpolany, Pápá, Tósok, Totvazsony, “localidades habitadas por suábios que falavam alemão.” Nota-se que, apesar dos suábios terem imigrado para aquela região da Hungria há aproximadamente cento e cinquenta anos, e que só então vieram para o Brasil, Boglár, Öry Kovács, húngaros da região de Budapeste e Paulics, húngara da região de Ajka-Veszprém, ainda os distinguiam do restante do povo magyar 5. Mas, afinal, quem eram os imigrantes que chegaram a Jaraguá do Sul a partir de 1891?

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Em português “húngaro”, termo utilizado para sua cultura, seu idioma e outras características.


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1.2 A trajetória dos suábios em terras europeias.

A Europa, do século XVII até meados do século XX, teve sua história marcada por guerras, invasões, redefinições constantes de fronteiras, ascensão e queda de grandes impérios, países que surgiram e desapareceram do mapa político geográfico, além dos grupos étnicos que se viam obrigados a deslocar-se de acordo com os interesses dos governantes ou pelas necessidades impostas pelo meio em que se encontravam inseridos. A trajetória dos suábios que passaram a habitar a Hungria está associada a este contexto histórico, convergindo principalmente com a história dos territórios que fazem parte do sudeste europeu. De acordo com Stein (2011), o termo “suábio” se refere a um grupo étnico germânico que habitava a Suábia, um ducado medieval no sudoeste da atual Alemanha, hoje estado alemão de Baden-Württemberg, partes da Bavária Ocidental (Rio Iller) e norte da Suíça. A motivação da migração germânica para as terras húngaras está diretamente ligada às disputas de territórios que envolviam os grandes impérios da época. Por sua situação geográfica, rodeada pelas montanhas dos Cárpatos, a Hungria era a zona fronteiriça e o último baluarte da civilização e cristianismo ocidental: ao sul se encontrava o Império Bizantino, representante do cristianismo oriental, tomado mais tarde pelo Império Turco-Otomano; a oeste estavam os tártaros e a Rússia. Portanto, sempre foi alvo de invasões e muitas guerras. Do século XI ao XV, várias dinastias dominantes na Europa lutaram para obter a Coroa Húngara, porém, é na primeira metade do século XVI que estas guerras constantes passaram a fazer parte da história dos ancestrais dos imigrantes que chegaram em Jaraguá do Sul. Nesta disputa estava o Império Turco-Otomano que durante os séculos XV e XVI tornou-se um forte estado, englobando parte do Oriente Médio, do norte da África e do Leste Europeu, cujas hostes alcançaram a Hungria. De acordo com Piller (2004), no ano de 1526 houve um grande combate conhecido como Batalha de Mohács, em que as tropas húngaras foram aniquiladas pelo exército turco-otomano, em superioridade esmagadora e muito bem preparado. Esta batalha resultou no término da independência do Reino da Hungria. O jovem rei Lajos II morreu em combate, fato que levou a disputa da coroa húngara por dois


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pretendentes, János Zápolya e Frederico Habsburg. Em 1541, aproveitando-se da fragilidade húngara, os turcos ocuparam o castelo de Buda, sede dos reis húngaros. A partir da perda de Buda, capital do país, a Hungria foi dividida em três partes: o Principado da Transilvânia, governado por líderes húngaros; a Hungria Monárquica que eram as regiões ocidentais e norte, governada pela dinastia dos Habsburg6; o território central e as regiões orientais, que ficaram sob domínio turco. Os soberanos das áreas divididas empenhavam-se em ampliar seus respectivos territórios e isto gerou uma série de batalhas e invasões, fazendo com que grande parte da população fugisse do território ocupado, principalmente pelos turcos. Estas guerras causaram enormes perdas no plano cultural, econômico e em vidas humanas. Nos primeiros 500 anos de sua história, a Hungria foi um dos países mais estáveis da Europa, apesar das invasões dos mongóis e da luta contra os otomanos. Quando da morte do Rei Mátyás, em 1490, a população da Hungria era de quatro milhões de habitantes, o mesmo número de habitantes da Inglaterra na época. A virada do destino viria com os 150 anos de ocupação da Hungria pelos turcos otomanos. (PILLER, 2004, p.8)

Piller (2004) destaca, ainda que as guerras com os turcos continuaram ao longo dos séculos XVI e XVII, mas que os outros países da Europa não se sentiam ameaçados pelo perigo de uma invasão turca, não se preocupando muito com o que estava acontecendo na Hungria. Até que em 1686, o Papa Inocêncio XI (1683-1699) reconheceu o perigo de uma invasão muçulmana na Europa cristã, pois a Hungria era considerada uma “porta de entrada” do ocidente para o oriente e vice-versa, sendo este o motivo de seu território ser constantemente envolvido em batalhas e disputas. O Papa, exercendo pressão diplomática e financeira sobre várias nações, promoveu uma cooperação entre as potências européias para a expulsão dos turcos da Hungria. Um grande exército internacional cristão, dos principados do sul da Alemanha, tropas da Polônia, além de contingentes húngaros e croatas, chefiados por Eugênio de Savoya, derrotaram os exércitos invasores do Império Turco-

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A Dinastia dos Habsburg tem origem no século XII e o nome deriva de Habichtsburg, um castelo perto de Windisch, na Suíça. Com a política de casamentos de descendentes da família com descendentes de Reis católicos, os Habsburg ampliaram sua influência e territórios na Europa. Assumiram a coroa da Hungria e da Boêmia a partir de 1526.


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Otomano, conseguindo libertar Buda em uma batalha que aconteceu próximo à Viena, em setembro de 1683. A partir desta batalha até 1699, a dinastia dos Habsburg obteve muitas vitórias sobre os Otomanos, que perderam passo a passo os territórios ocupados até que foram expulsos da região que dominavam há mais de 150 anos, restabelecendo a unidade da Hungria. Foi então assinado o Tratado de Karlowitz, entre o Império Otomano, a Áustria, a Polônia, a Rússia e Veneza, colocando sob autoridade dos Habsburg a Hungria e a Transilvânia. “A Hungria livra-se de uma ocupação, mas cai em outra: a dos Habsburg, que, tendo libertado o país, o considerou uma província conquistada para si mesmos.” (PILLER, 2004, p.11) Conforme Elfes (1971), as guerras turcas devastaram e despovoaram províncias inteiras do antigo Império Austro-Húngaro. Após expulsar finalmente os turcos da área do Danúbio central, o imperador Leopoldo da Áustria (1658-1705) convidou seus súditos dos “Erbland”, do sul e sudeste da Alemanha, para novamente colonizar as áreas despovoadas. Inicia-se assim a história dos “suábios do Danúbio”. Essa designação começou a ser usada como denominação coletiva para os grupos populacionais de etnia alemã do antigo Império Austro-Húngaro, já então dividido em várias nações. “Esses grupos provinham originalmente de diferentes províncias do Reino Alemão e não apenas da Suábia. Como, porém, todos embarcassem Danúbio abaixo na cidade suábia de Ulm, eram designados coletivamente por suábios.” (ELFES, 1971, p.15) Embora viessem de diversas regiões da Alemanha, os moradores nativos os chamavam de suábios (Schwaben) e o nome passou a ser usado em referência a todos os alemães que se instalaram no vale do Danúbio, em terras húngaras. Stein (2011) apresenta outros exemplos a respeito do termo suábio, sendo que variava dependendo da região em que estavam instalados. Como é o caso das denominações “suábios do Sudeste” (Südostschwaben), “suábios do Leste” (Schwaben im Osten) ou “suábios do Banat” (Banater Schwaben). Segundo o autor, em 1922 foi cunhada por Robert Sieger a denominação Donauschwaben (Suábios do Danúbio), que “no amplo significado da palavra, são os habitantes das regiões de colonização alemã ao longo do médio Danúbio.” (STEIN, 2011, p 49) Schmidt (2003) apresenta a trajetória dos suábios na povoação das terras da coroa dos Habsburg na Hungria e sua contribuição para o desenvolvimento da


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região, após a expulsão dos Turco-otomanos. Para o historiador, o desgoverno turco tinha transformado o campo em um deserto vasto, habitado principalmente por pastores nômades que viviam em abrigos na planície. Também não havia estradas ou pontes permanentes. Após o tratado de paz definitivo, assinado entre os austríacos e os otomanos em 1722, tornou-se evidente que o território precisaria ser habitado por leais súditos da coroa dos Habsburg. Para tanto, foi promulgado um "edital de colonização e desenvolvimento” das regiões despovoadas da Hungria, que foi enviado aos católicos do sudoeste alemão. Este documento, e também a atuação dos aliciadores, induziam os colonos a se estabelecerem em terras da coroa dos Habsburg na Hungria, com promessas de liberdade pessoal, concessões de terras, materiais de construção, isenções fiscais, entre outros. Não se tem conhecimento se todas estas promessas foram cumpridas na época da migração, já que relatos posteriores trazem uma realidade diferente. Schmidt (2003, p.9) destaca que: Esta oferta respeitada pela casa de Habsburg caiu em ouvidos receptivos em uma área onde as invasões francesas e quebras de safra recente causaram muito sofrimento. Milhares puxaram estacas e dirigiram-se para pontos de embarque ao longo do Danúbio, como Ulm, Donauworth e Regensburg, onde embarcaram em barcaças especialmente construídas para flutuar à sua terra prometida ao longo do Danúbio Médio, com uma parada necessária em Viena, a ser atribuído às suas zonas de assentamento e de receber os seus documentos de viagem e concessão de terras. A viagem demorou cerca de duas semanas. Uma vez que a força motriz das barcas foi a corrente do rio e ela correu apenas em uma direção - não havia mais volta!

O historiador relata que a monarquia dos Habsburg da Áustria, que governava a Hungria, com a política de fortalecer a terra contra a invasão, seduziu muitos alemães para emigrarem para as terras da Hungria e outras regiões mais ao sul. Esta colonização veio a ser conhecida como "Der Grosse Schwabenzug" a “Grande Marcha Suábia” para o Oriente. De acordo com Schmidt (2003), no período de 1683 e 1790, foram fundadas cerca de 800 aldeias na Hungria por colonos alemães que, na maioria, eram camponeses que cultivavam a terra dos senhores feudais. Os arredores de Veszprém foram as principais áreas de assentamento dos suábios, de onde, no final século XIX, saíram várias levas de imigrantes cujo destino era Jaraguá do Sul, no Brasil. Paulics ressalta que:


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Os suábios foram instalados pela Imperatriz Maria Teresa nos anos de 1740. A imperatriz deslocou populações (sempre os mais pobres) para repovoar áreas cujos habitantes foram massacrados pelos turcos. Parte do território era propriedade da família Eszterhazi (Pápá e arredores), outras das famílias Tihanyi e Zirci. (PAULICS, 2004, p.39)

Para Piller (2004), a Imperatriz Maria Tereza (1740-1780) é uma das personalidades mais destacadas entre os soberanos Habsburg. Antes de morrer, seu pai, o imperador Carlos III, não tendo filho homem, decreta sua filha herdeira do trono. Algumas províncias do Império não acatam o decreto e Maria Tereza vê seu trono ameaçado. Quebrando uma longa tradição de desconfiança dos seus antecessores em relação aos húngaros, a imperatriz pede auxílio a esses, que a ajudam a salvar o trono dos Habsburg e a posição da Áustria na Europa. Durante seu reinado de 40 anos, Maria Tereza implementa muitas leis modernas, melhora a situação dos servos, faz crescer o sistema educacional e permite o ensino em língua húngara nas escolas primárias, porém, nas aldeias de Veszprém o Schwäbisch continuou sendo o dialeto predominante. O processo de migração dos suábios para a Hungria ocasionou uma série de dificuldades aos envolvidos, como trabalho árduo, doenças, mortes. […] os alemães sempre receberam as piores terras, muitas vezes áreas pantanosas endêmica para malária. Mais da metade dos colonos morreram desta doença. Na Alemanha, a Hungria tornou-se conhecida como o cemitério dos alemães. Mas os sobreviventes construíram diques ao longo dos rios para impedi-los de transbordar, os pântanos foram drenados, introduziram o arado de aço no solo virgem da Hungria, plantando pomares, vinhas e amoreiras. Juntamente com as aldeias, estradas e pontes são construídas para dar vazão à indústria da seda, usaram o restante dos banhados para o cultivo do cânhamo para fazer cordas e linho. Eles também introduziram a rotação de culturas, pecuária e criação de animais. (SCHMIDT, 2003, p.11)

Passadas as dificuldades iniciais, começaram a colher os frutos de seu trabalho, cultivavam beterraba, trigo, milho e alfafa. Criavam equinos, bovinos, suínos, frangos e gansos. Suas hortas e pomares produziam legumes e frutas, como pêssegos, damascos, melões e tomates. As uvas que colhiam serviam para alimentação e produção de vinho, porém, tudo que produziam era dividido com os donos das terras. (SCHMIDT, 2003) Os suábios, na Hungria, viviam numa condição de servidão. Eram


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despossuídos de terras, uma vez que desde que foram lá instalados, trabalhavam sob o sistema de propriedade feudal, sistema este que se caracterizava nas relações servo-contratuais, nas quais os camponeses cuidavam dos feudos e em troca recebiam uma gleba de terra para morar. Daí o termo “servos da gleba”. A servidão da gleba era um estado intermediário entre a escravidão e a liberdade sob restrições, pois a terra que trabalhavam não era propriedade sua, mas de um nobre. Apesar de o feudalismo estar bastante enfraquecido em parte da Europa Ocidental no século XV, o sistema perdurou ainda por muito tempo na Europa Oriental e especialmente na Hungria, o feudalismo persistiu até 1848, quando a Revolução e a guerra civil aboliram a servidão. Nas aldeias, as escolas foram construídas nas proximidades das igrejas, onde estava centrada grande parte dos eventos sociais. Batismos e casamentos eram momentos festivos para a família e vizinhos, sendo que nestas ocasiões homens e mulheres usavam seus melhores trajes, com destaque para os lenços amarrados nas cabeças, xales e aventais femininos. (KOPP, 2007) A religiosidade de certa forma influenciou diretamente nas manifestações culturais dos suábios na Hungria. A religião católica, trazida do sudoeste alemão, tornou-se ponto de referência a este grupo e também foi um fator de aproximação com os húngaros que tinham a mesma religião; suábios e húngaros veneravam os mesmos santos e comemoravam as mesmas datas, com os mesmos ritos. No que diz respeito à culinária, segundo Elfes (1971), essa foi adaptada à região a qual estavam inseridos. Aqui, cabe salientar que os hábitos culturais dependem do ambiente e vão formando opções diferentes de região para região, os hábitos estão ligados ao ambiente físico, passando a influenciar no ambiente cultural. Assim, costumes trazidos pelos suábios misturaram-se com os costumes húngaros, os quais se modificaram e adaptaram-se ao seu novo modo de vida e consequentemente à sua cultura. Para Biesanz (1972, p. 46), O habitat não é senão uma das forças que ajudam a modular uma cultura [...], seu impacto é maior em alguns aspectos que em outros. [...] O habitat exerce, então uma limitação seletiva sobre o comportamento. [...] a cultura serve para adaptar o homem ao seu ambiente físico, a sua natureza biológica, e à sua vida em grupo.

As mudanças de padrões sociais ocorreram com este grupo na Hungria,


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iniciando assim uma troca de hábitos, costumes e valores reciprocamente. Os imigrantes suábios, em contato com o modo de vida encontrado na região, tiveram que adaptar seus costumes às condições que o meio físico e social ofereciam, dando início a um processo de entrelaçamento e/ou fusão cultural, passando a compartilhar experiências, atitudes, hábitos, histórias, entre outros. Os estudos que procuraram compreender esses entrelaçamentos entre culturas atravessam décadas. Um dos termos utilizados por pesquisadores para explicar o encontro de duas culturas é o de aculturação. Willems (1980, p.21) restringe o conceito de aculturação como “as mudanças nas configurações culturais de dois ou mais grupos que estabeleceram contatos diretos e contínuos.” Recorrendo à origem do conceito “aculturação”, vimos em Cuche (1999, p.115) que: Em 1936, o Conselho de Pesquisas em Ciências Sociais nos Estados Unidos criou um comitê responsável por organizar pesquisas sobre os fatos de aculturação. O comitê organizou o Memorando para o estudo da Aculturação e tratou o fenômeno como: [...] o conjunto de fenômenos que resultam de um contato continuo e direto entre grupos de indivíduos de culturas diferentes e que provocam mudanças nos modelos (patterns) culturais iniciais de um ou dos dois grupos.

Esses

conceitos

mostram

a

aculturação

como

um

movimento

de

aproximação, de mudança cultural. O processo de constituição de uma “cultura imigrante” pressupõe contatos com a sociedade receptora e contatos entre os próprios imigrantes, de origens sócio-culturais diferentes. A modificação da cultura inicial se efetua por “seleção” de elementos culturais emprestados e esta seleção se faz por si mesma segundo a “tendência” profunda da cultura que recebe. […] A aculturação não provoca necessariamente o desaparecimento da cultura que recebe, nem a modificação de sua lógica interna (CUCHE, 1999, p. 118).

Burke (2003) relata que o termo aculturação, bem como as expressões troca cultural, transculturação, assimilação, sincretismo, entre outras, foram utilizados pelos antropólogos norte-americanos até os anos de 1960, no sentido de que a cultura dominada adota características ou converte-se na cultura dominante. As afirmações de Burke e os conceitos de aculturação nos levam a acreditar que o termo não consegue abranger todo o contexto existente quando duas ou mais culturas se entrecruzam. Nesse encontro de elementos culturais diferentes, há uma


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espécie de fecundação entre as culturas, e esse processo não pode ser percebido como uma simples conversão de uma cultura para outra, uma vez que as culturas envolvidas são doadoras e também receptoras de elementos culturais. Canclini (2008) e Burke (2003) referem-se a este encontro de culturas como “hibridismo cultural”, e apresentam este termo como um processo que ocorre quando uma ou mais culturas assimilam elementos uma das outras, agregando novas práticas, sendo o resultado de encontros múltiplos e não de um único encontro. Burke lembra que “a conversão também é uma forma de hibridismo” (2003, p.37). Segundo Burke (2003), os contatos e encontros culturais atingem todos os povos e o fazem de modo constante e sucessivo, sendo todas as formas culturais mais ou menos híbridas. Para o autor, o hibridismo tem sido acolhido como um conceito capaz de promover a diversidade e a inclusão, e que exemplos desse podem ser encontrados em toda a parte, na arquitetura, na música, na religião, na culinária, nas línguas, nas festividades, etc., porém, paga-se um preço pela hibridação, que é a perda das tradições regionais e locais. Para Coelho (1997, p. 124), Uma consequência da hibridização é a desterritorialização, fenômeno pelo qual modos culturais desvinculam-se de seus espaços e tempos originais e são transplantados para outros espaços e tempos nos quais mantêm aproximadamente os mesmos traços iniciais.

No caso dos suábios, ao se deslocarem para terras húngaras, mesmo que a princípio estivessem isolados em suas aldeias, não ficaram imunes a este processo de hibridização cultural, que se apresentou de várias formas no cotidiano desse grupo.

1.3 Nasce o Império Austro-Húngaro.

As grandes migrações de alemães para as terras húngaras no Vale do Danúbio terminaram no período das guerras napoleônicas (1799-1815). Esses deslocamentos favoreceram as intenções dos Habsburg quanto à povoação daquele território e até a germanização do mesmo, pois nas aldeias, os suábios mantinham certa unidade cultural e linguística. Conforme Elfes (1971, p.16), “No final do século


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XVIII, calculava-se que os alemães na Hungria somassem 400.000 almas. Esse número significativo foi fundamental para introduzir-se a língua alemã como oficial e comercial no Império Húngaro.” Canclini (2008, p.38) afirma que “[…] os exílios e as migrações, são condições propícias para as misturas e a fecundação entre culturas”, porém, por viverem em aldeias isoladas, o hibridismo cultural entre magyares e suábios demorou certo tempo para acontecer. Inicialmente os camponeses alemães na velha Hungria formavam grupos étnicos fechados, administrativa e culturalmente autônomos, e possuindo sistema escolar próprio. No decorrer do tempo, porém, formaram comunidades aldeãs mistas com elementos locais magyares de acordo com grupos étnicos vizinhos. Houve contatos mais íntimos, cooperação e matrimônios mistos, bem como intercâmbio cultural. (ELFES, 1971, p. 18)

Nesse sentido, a cultura suábia continuou sendo representativa no grupo estabelecido em terras húngaras, e os efeitos provocados pelo entrelaçamento com a cultura magyar foram pequenos e aconteceram de forma lenta e gradativa. Como a época em que viviam, porém, era de disputas principalmente por territórios, a nobreza húngara e também os Habsburg vêem neste grupo uma forma de demonstração de poder, e os suábios são envolvidos neste embate. Segundo Schmidt (2003), como forma de enfraquecer os Habsburg e buscar maior independência frente ao domínio austríaco, a nobreza húngara decide neutralizar a influência germânica em seu território. Segundo Piller (2004), todos os Habsburg sempre tiveram a ambição de "germanizar" os húngaros, e essas aspirações provocavam reações opostas nos magyares. Escritores e poetas se empenharam na promoção e no cultivo da língua e da literatura húngaras para despertar a consciência da identidade dos magyares, e esses assumiram um papel importante no desencadear das ideias reformistas. O movimento dos magyares, de uma forma cada vez mais decidida, exigia que os interesses nacionais, como a independência e a autonomia da Hungria, fossem legitimadas dentro do Império Austríaco, e que o idioma magyar fosse declarado língua oficial do país. Hobsbawm (1990) classifica a história dos movimentos nacionais em três fases, e a que acontecia na Hungria enquadra-se nessa divisão. Fase A, que se


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desenvolveu na Europa no século XIX, como puramente cultural, literária e folclórica; fase B, política e a fase C, da sustentação de massa. O autor utiliza o termo nacionalismo como fundamental para o sustento da unidade política e nacional, citando o princípio de dualidade: o “alto” que são o governo e os ativistas dos movimentos nacionalistas, e o “baixo”, as pessoas comuns, que são envolvidas nos movimentos. Segundo Hobsbawm, (1990 p.19) “O nacionalismo vem antes das nações” Neste processo, percebe-se que a tensão era evidente: os húngaros viam os suábios como os representantes dos Habsburg e, portanto, opressores, invasores, que deveriam ser “hungarizados”. Devido às pressões por parte dos magyares, o Império aprova, no ano de 1844, a “Lei de idiomas”, e o húngaro é declarado língua oficial do governo, da educação e da religião em todo reino da Hungria. Este foi o início do programa de hungarização, que era dirigido principalmente contra os povos de língua alemã em território húngaro. “De qualquer modo, não são os problemas de comunicação, ou mesmo de cultura, que estão no coração do nacionalismo da língua, mas sim os de poder, status, política e ideologia.” (HOBSBAWM, 1990, p.134) Como essa disputa de status e poder se estendia para outras classes e não só na dominante, poderíamos classificar o grupo de suábios como “outsiders”, indignos de confiança por parte dos húngaros, “os estabelecidos”, conforme Elias e Scotson (2000) propõem. Os sociólogos afirmam que nas relações estabelecidosoutsiders, os grupos tendem a elevar a sua estima e seus conceitos de valores com tendência a diminuir e estigmatizar os outros grupos, porém, lembram que o equilíbrio de poder desses grupos é mutável. “Os grupos humanos vivem na maioria das vezes com medo uns dos outros, […] Nessa situação, a promoção da autoestima coletiva fortalece a integração de um grupo, melhorando suas chances de sobrevivência. (ELIAS e SCOTSON, 2000, p.210) Neste universo estavam os suábios da região de Veszprém, passando por um processo que, mais tarde, os descendentes daqueles que emigraram para o Brasil, enfrentariam novamente. Novas gerações foram chegando e com estas, se intensificava o hibridismo da cultura magyar com a germânica. Seus filhos nasciam em terras húngaras, seus mortos estavam sendo enterrados naquele território. Para Paulics (2004), as


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condições de vida destes camponeses faziam aparentar que viviam na idade média, porém, buscavam consolo na religião, o que os confortava frente sua realidade. As revoluções das outras nações da Europa, como também dos húngaros, criaram uma filosofia nova no continente, assim a ideia de um soberano absoluto não era mais aceita. Francisco José, denominado pela história húngara "o sábio da nação", reconhecendo o enfraquecimento da Monarquia, consegue com uma política habilidosa e com a ajuda de sua esposa, a imperatriz Elisabeth (Sissi), um “Acordo Conciliatório”, no ano de 1867. Assim, o Imperador da Áustria e sua esposa são coroados em Budapeste como rei e rainha da Hungria. Nasce dessa forma a Monarquia Austro-Húngara. De acordo com Hobsbawm (1990, p.128), a crescente significação da “questão nacional” na segunda metade do século XIX não é medida simplesmente por sua intensificação no império multinacional austro-húngaro, pois esta “havia se tornado uma questão importante da política interna de quase todos os Estados europeus.” (1990, p. 128) Piller (2004) lembra que o Império Austro-Húngaro se transformou em um Estado Federativo, com duas capitais de igual valor, Budapeste e Viena. Nas duas capitais, os parlamentos húngaro e austríaco reuniam-se, periodicamente alternando as capitais. O Monarca ratificava as leis promulgadas em Viena como Imperador e em Budapeste como Rei. A pessoa do Rei e três ministros, os de relações exteriores, finanças e exército eram comuns, isto é, austro-húngaros. Todavia, os "elementos comuns" estavam nas mãos dos austríacos, o que desagradava aos húngaros e aos demais povos e regiões que constituíam o império: tchecos, eslovacos, poloneses, rutênios, ucranianos, romenos, sérvios, croatas, eslovenos e italianos. Após a criação do Império Austro-Húngaro, a Hungria concentrou esforços na sua política de magyarização com as minorias, incluindo os suábios, que era o grupo étnico mais representativo. Estes foram induzidos por meio político e econômico a adotar a língua e a cultura húngara. E novamente, o isolamento das aldeias habitadas por suábios fez com que o programa de magyarização os afetasse menos. O estilo de vida agrário das aldeias permaneceu relativamente estável. Geralmente, as transformações culturais não são atos voluntários de um grupo étnico, mas a preservação da cultura sim. Muitos grupos étnicos lutam para


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preservar sua identidade cultural (vontade interna), ao mesmo tempo em que assimilam a cultura do meio no qual estão inseridos, motivados por uma força externa que supera a vontade interna do grupo. […] Quando se define uma identidade mediante um processo de abstração de traços (língua, tradições, condutas estereotipadas), frequentemente se tende a desvincular essas práticas da história de misturas em que se formaram. Como conseqüência, é absolutizado um modo de entender a identidade e são rejeitadas maneiras heterodoxas de falar a língua, fazer música ou interpretar as tradições. Acaba-se, em suma, obturando a possibilidade de modificar a cultura. (CANCLINI, 2008, p. 23)

Com base em Canclini (2008) e Burke (2003), outros caminhos viabilizaram a construção de olhares sobre os processos de fusões, misturas, mudanças, apropriações de hábitos culturais, ou seja, “processos sócio-culturais, nos quais estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas” (2008, p.19). Ainda, para Canclini, uma teoria crítica da hibridização precisa não apenas descrever as novas mesclas formadas, mas entender o processo de hibridismo, identificando o que não quer e o que não pode ser hibridizado. Os imigrantes suábios na Hungria sofreram esse processo de hibridação, na medida em que já possuíam uma cultura na Alemanha e, ao migrarem para a Hungria, depararam-se com outras culturas, onde aconteceram entrecruzamentos, que denotam uma tendência crescente de “hibridização” neste jogo de desconstrução/reconstrução de processos culturais aos quais os migrantes foram submetidos. Peter Burke (2003, p.31) afirma que “Devemos ver as formas híbridas como o resultado de encontros múltiplos e não como o resultado de um único encontro, quer encontros sucessivos adicionem novos elementos à mistura, quer reforcem os antigos elementos. Quando se refere a elementos que se misturam e fazem parte de um processo sócio-cultural, vêm à lembrança todos os signos envolvidos, os fatores étnicos, os encontros das tradições, a adaptação necessária ao meio, tudo isto em uma constante mutação ao longo do tempo, e Canclini afirma que “[...] cabe esclarecer que culturas chamadas discretas foram resultado de hibridações, razão pela qual não podem ser consideradas fontes puras” (2008, p.19). O que se pretende com as afirmações de Canclini e Burke é reforçar que os


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suábios tinham suas manifestações culturais e que levaram estas tradições com eles para a região que migraram. E nesta região, neste caso as margens do Vale do Rio Danúbio na Hungria, ocorreram novas interferências e intervenções, o que causou mudanças em seu modo de vida. Os resultados destes processos de hibridação cultural refletiram-se nos costumes familiares, na culinária, e também no idioma falado pelos suábios na Hungria. Em se tratando de cultura, o idioma exerce um papel fundamental. Heródoto sustentava que os gregos formavam um povo, apesar de sua fragmentação geográfica e política, porque tinham uma descendência comum, uma língua comum, deuses e lugares sagrados comuns, costumes e festas de sacrifício e hábitos e modos de vida comuns. (HOBSBAWM, 1990, p.75)

No caso dos suábios que viviam em território magyar, o idioma era tratado até como questão de poder pelos que dominavam os impérios na época. Estas disputas pelo domínio territorial e econômico entre os governantes húngaros e austríacos contribuíram para que a língua desses suábios na Hungria também recebesse influências deste jogo de poder e o dialeto schwäbisch passou a ser incorporado por muitos termos do idioma magyar. Mesmo mantendo o dialeto schwäbisch em suas aldeias, os suábios precisavam relacionar-se com os de fora, por questões de negócios, educação, religião. Portanto, precisavam compreender e falar o idioma húngaro. Para Jagnow (1991, p.3): O quanto se pode apurar, falavam, entre eles, o dialeto suábio. Que era sua língua materna (Muttersprache), mas também passaram a conhecer e falar o húngaro, utilizando-o nos seus relacionamentos fora do círculo familiar e aldeia (Umgangsprache) na Hungria.

Talvez, essa resistência por parte dos suábios em utilizar o idioma húngaro, esteja ligado à dificuldade de compreensão do mesmo. Conforme Ronái (1958), a língua magyar é bem diferente do germânico e das línguas latinas, é um idioma estranho e isolado de quase todos os outros falados na Europa, pois não pertence à família das línguas “indoeuropeias”, mas dos idiomas “finougrios”. Na época do Império Austro-Húngaro, o idioma magyar se tornou para os húngaros uma espécie de tesouro, até porque aqueles que o falavam eram minoria e tinham uma sensação de solidão, cercados por eslavos, alemães, turcos entre outros, e ao falarem seu


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idioma estavam defendendo sua hungaridade, uma espécie de culto à cultura magyar. Magyar az, akinek nyelve és esze magyarul forog. Becsületesen nem lehet más vizsgát találni arra, hogy kit tartsunk igazán magyarnak. Nem könnyű vizsga ez. Sokkal nehezebb annál, ami elé a fajta testi jegyeinek kutatói állítják az 7 embert. Itt a lelket kell kitenni. (ILLYÉS, 1939, p.48)

Pomogáts (2006) lembra que os húngaros criaram sua própria cultura nacional através da mistura de duas grandes culturas. Do leste adquiriram suas tradições originais, a melodia de suas músicas e sua arte decorativa, elementos herdados da cultura ancestral da região das estepes da Eurásia. Do ocidente assimilaram a espiritualidade e os valores da civilização cristã, até como consequência do compromisso cristão e da visão política de seus primeiros reis, que aceitaram e abraçaram a cultura ocidental. A herança cultural trazida do leste somente se conservou nas raízes mais profundas da cultura, principalmente no idioma húngaro, onde não só o seu vocabulário e sua gramática o une à cultura dos povos orientais, mas também seu caráter poético, capaz de criar mitos. (POMOGÁTS, 2006, p. 3)

Desde o início da emigração suábia, em meados do século XVII até a segunda metade do século XIX, houve uma hibridação dos suábios com os húngaros

remanescentes

na

região.

Os

suábios

passaram

por

muitas

transformações e adaptações em sua cultura, em seu modo de vida e na maneira de relacionar-se. Suas manifestações culturais tinham uma mistura de germânico e magyar, sua culinária também era resultado desse hibridismo, e seus idiomas se fundiram, formando um dialeto específico. As culturas germânica e a húngara entraram em contato e ambas se modificaram, ganhando novos significados. Como a cultura está sempre em constante mudança, percebida mais claramente quando se trata da cultura dos imigrantes, modificações causadas pelo meio, pelos grupos que se relacionam, ou ainda por pressões e conveniências internas do próprio grupo, não é possível preservar uma cultura intacta e inalterada, até porque ela não é um conjunto atemporal, imutável. Ela provoca ações e reações entre os grupos em uma organização social que não cessa de evoluir e de 7

Húngaro é a língua e a razão para quem é húngaro. Honestamente não pode encontrar teste diferente, que nos torne verdadeiramente um húngaro. Aprender não é uma tarefa simples, é difícil, mas ao falar húngaro, chego à alma da nação. (Tradução livre Cristiane Kitzberger)


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transformar-se. Nestas transformações, o idioma se apresenta como expoente de um grupo étnico, pois serve de esteio e de elemento de relação entre os indivíduos. A língua é a forma de expressar sua maneira de ser e de ver o mundo ao seu redor. Bakhtin (1992, p. 279) afirma que: “Todas as esferas da atividade humana, por mais variadas que sejam, estão sempre relacionadas com a utilização da língua.” Considerando isto, vemos que na segunda metade do século XIX o idioma húngaro passou a ser empregado com mais frequência entre os suábios. Aldeias húngaras e suábias se integraram e os casamentos inter-étnicos passaram a ser frequentes. Assim, conseguiram viver ou sobreviver a este processo de transformações que foram submetidos, enquanto seus governantes lutavam para conquistar terras e status. Conforme Paulics (2004, p.16), “aos poucos, deixaram de se sentir só alemães, também se sentiam húngaros”. Na realidade, as condições sociais pouco mudaram, continuaram como servos, sujeitos aos senhores das terras. Poucos tiveram oportunidade de ter seu próprio pedaço de chão, por isso, tanto fazia estar na Alemanha, Áustria ou Hungria. Sobre este desapego com a pátria, Renaux (1997, p. 318-319) relata que: Nas camadas mais modestas, existia uma Heimatlosigkeit (ausência de sentimento de pátria) estrutural, vivenciada como não propriedade do solo ([Grund] – Bezitslosigkeit), o que tornava alguém sem terra o mesmo que alguém sem pátria, com a consequente condição de desgarramento. Emigrar surgia como a única alternativa para um dia realizar o sonho de ser proprietário de um pedaço de chão.

Mesmo com o término do feudalismo, a dura e árdua vida do “servo da gleba”, que servia de sustento aos nobres e ao clero, continuava a vigorar nas aldeias de Veszprém e região. Por isso, precisavam buscar soluções para livrar-se dessas condições exploratórias das quais se sujeitavam esses camponeses, e a emigração era uma das mais viáveis. Ao tratar da imigração alemã para o Brasil, Dreher (1984) descreve que a libertação dos agricultores germânicos foi de importância decisiva no processo de imigração, pois os maiores beneficiados com a eliminação dos servos da gleba foram os latifundiários. Os agricultores encontravam-se em extremas dificuldades e tiveram que vender suas terras aos seus antigos senhores. Na Hungria, a situação não era muito diferente, como se percebe no relato da imigrante Izabel Leithold:


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Os latifundiários da Hungria não favoreciam os camponeses, estes não podiam ter vacas leiteiras, nunca mais de três suínos, para consumo próprio na engorda, com ração apanhada na propriedade de seus senhores. Para nos aquecer no inverno só podíamos juntar os gravetos das propriedades, ainda assim escondidos dos guardas que revistavam nossos pertences e retiravam a lenha mais grossa que recolhíamos. Éramos muito pobres na Hungria, por esses motivos fugimos dessa vida. (BERTI, 2005, p.25)

A emigração era a busca de terra e liberdade. Herman Blumenau, um dos maiores colonizadores da América do Sul, divulgou relatórios em que propunha às pessoas que quisessem emigrar a liberdade com relação à servidão feudal europeia, quanto à fé religiosa e quanto à opção política. Esses imigrantes vinham com a mentalidade de que aqui ninguém trabalharia para os outros, para os grandes proprietários das terras. (Renaux, 1997) De acordo com a bibliografia consultada em Schimdt (2003), Paulics (2004) e Öry Kovács (2006 e 2010), a condição de “servidão” que ainda estavam submetidos, as dificuldades sócio-econômicas e o sonho de poder plantar em sua própria terra, motivaram os húngaros a emigrar para a América na última década do século XIX. A figura 2 mostra o caminho percorrido pelos suábios através do Rio Danúbio, no século XVIII. Em destaque, a região da antiga Suábia e o Porto de Ulm onde embarcavam com destino à Hungria no século XVIII. Também destacado as localidades da

Província de

Veszprém onde se instalaram e

de onde,

posteriormente, seus descendentes emigraram para o Brasil, entre os anos de 1891 e 1896.


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Figura 2 - A trajet贸ria dos imigrantes em terras Europeias


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IMIGRAÇÃO DOS HÚNGAROS PARA O BRASIL

2.1 Destino Brasil

Um lugar para plantar e para colher foi apenas mais um dos muitos motivos dos movimentos migratórios na Europa entre os anos de 1821-1924, período em que o continente europeu passava por grandes mudanças em sua organização política, social e econômica. Conforme Seyferth (1994) estima-se que chegaram 57 milhões de europeus nas Américas neste período. A migração geralmente ocorre por uma força maior: problemas de natureza econômica, étnica ou religiosa, já que a maioria das pessoas não deseja migrar. Deixar o seu lugar não é uma tarefa fácil e por maior que sejam as dificuldades encontradas, para emigrarem as pessoas precisam ter certo alento ou esperança de melhoria de vida quando escolhem o local para qual migrarão. Klein (1999, p.13) caracteriza esses movimentos migratórios como "fatores de atração e de expulsão." No caso da grande emigração europeia do século XIX, parte da população foi repelida pelas transformações sócio-econômicas e demográficas que estavam ocorrendo em alguns países da Europa e atraída pela necessidade de mão de obra e povoamento na América. Klein reforça que é o equilíbrio entre os “fatores de expulsão e os de atração” que torna possível o fenômeno migratório. O fator econômico de expulsão, segundo Klein (1999), gira em torno de três problemáticas: o acesso a terra e, por isso, ao alimento, a variação da produtividade da terra e, por fim, o número de membros da família que devem ser mantidos. A combinação desses três eventos impulsionou as migrações da Europa para a América entre os séculos XIX e XX. O crescimento populacional do continente europeu forçou uma redistribuição da população através de movimentos migratórios internos. Para Paulics (2004), a febre migratória começou no oeste europeu, quando a Inglaterra e a Irlanda conheceram o maior período de fome de sua história (praga da batata, entre 1840 e 1860). O impulso migratório atingiu também a Alemanha e a Escandinávia (Suécia e Noruega) por volta de 1870, atingindo seu pico nas últimas décadas do século XIX,


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quando toda a Europa foi varrida pela grande onda emigratória. A explosão demográfica, as transformações econômicas, as mudanças na distribuição da posse da terra, as novas relações de trabalho e, ainda, a modernização da agricultura foram alguns dos fatores limitantes para a permanência de muitos europeus em seus locais de origem. Klein (1999, p. 15) ressalta que: [...] o aumento da pressão sobre as terras veio agravar ainda mais o quadro já marcado pelas transformações econômicas mais amplas. À medida que a própria Europa não conseguia absorver estes novos contingentes em suas fronteiras internas, seja em novas áreas agrícolas, seja no meio urbano, a emigração transformava-se em alternativa para escapar das crescentes limitações do mercado de trabalho europeu.

Com grande parte da Europa abatida pela crise econômica e outros problemas, é deflagrada então em diferentes países campanhas de emigração, pois, de certa forma, queriam se livrar dos pobres e desempregados. Além de formar um novo mercado consumidor, a emigração também resolvia o problema da mão-de-obra ociosa na Europa, sobretudo no campo. Portanto, através da emigração, os governos dos países europeus resolviam esses graves problemas sociais que os afligia, além de possibilitar que o próprio mercado europeu se fortalecesse ao aumentar o consumo dos produtos industrializados. O continente americano foi o grande receptor deste fluxo populacional na medida em que o trabalho escravo diminuía e possibilitava à Europa “exportar” trabalhadores para as Américas. Embora a emigração europeia às Américas não estivesse condicionada à extinção do trabalho escravo, esta extinção favorecia a emigração. Na Europa, a escassez de terras elevava seus preços e o excesso de mão de obra, além de desempregar muita gente, desvalorizava os serviços, o que influenciava o fator de repulsão da população. Enquanto que, na América, a necessidade de mão de obra e a grande oferta de terras tornavam-se fatores atrativos. Os interesses brasileiros coadunavam com a realidade da Europa. A "era das revoluções" estava apresentando seus resultados em toda a Europa: países arruinados, grande número de pessoas desempregadas e beirando a miséria. Faltava tudo: comida, vestimenta, moradia, emprego. O caos estava instalado! A saída era a emigração. (GUEDES, 2005, p.13 e 14)


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O Brasil tinha como uma das principais razões para a imigração a ocupação de seu território interiorano, consolidando sobre esses o seu direito de posse (uti posedetis), além da substituição da mão de obra escrava. No início do século XIX, a população brasileira ainda vivia quase unicamente no litoral, sendo que o restante de seu território estava quase que completamente desabitado. Este deserto humano expunha o seu território à mercê da ocupação por parte de outros países. Para o governo brasileiro, a imigração parecia a salvação: resolveria o problema da mão de obra na lavoura, promoveria o "embranquecimento" e também poderia, se bem planejada, propiciar a ocupação das grandes áreas despovoadas, principalmente no sul do país, onde as lutas de fronteiras com os países vizinhos já se mostravam preocupantes. (GUEDES, 2005, p.14)

A primeira iniciativa de atrair imigrantes ocorreu logo após a família real portuguesa ter se estabelecido no Brasil. Foi em 1818, a mando de D. João VI, quando imigrantes suíços foram estabelecidos em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Em 1820, uma nova leva de imigrantes, desta vez alemães, ali foram estabelecidos. Em 1824 chegaram os primeiros imigrantes alemães ao Rio Grande do Sul e em 1829 chegou a primeira leva a Santa Catarina, sendo estabelecida na Colônia São Pedro de Alcântara. Nas regiões mais ao norte de Santa Catarina, as primeiras colônias de imigrantes foram Blumenau (1850) e Joinville (1851). Primeiramente, foram os alemães e depois, italianos, poloneses, entre outros. Embora parte do fluxo migratório tenha ocorrido de forma espontânea, a maioria dos imigrantes veio em função dos subsídios oferecidos. No sul do Brasil, esses imigrantes dirigiam-se para as colônias de pequenos agricultores, com mão de obra familiar e produção diversificada. Esse modelo de imigração, ou seja, o destinado à colonização por intermédio de pequenas propriedades agrícolas foi implantado com sucesso na Província de Santa Catarina, dando origem a diversas cidades e modificando totalmente o quadro populacional do Império. (GUEDES, 2005, p.14)

Os imigrantes húngaros que vieram para Jaraguá do Sul estavam inseridos neste contexto. A exemplo da Europa Central, no Centro-Leste Europeu se inicia a emigração por motivos econômicos e sociais, nascendo sob a forma de movimentos induzidos pela demanda de trabalho, a princípio nas terras europeias e


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posteriormente, em caráter mais definitivo, para as Américas do Norte e do Sul. Neste período, o excedente populacional rural e a crescente pobreza urbana forçaram grande número de pessoas a emigrar definitivamente para o Novo Mundo. Na última década do século XIX, mais precisamente em 1890, iniciou-se a imigração dos húngaros do distrito de Veszprém para o sul do Brasil. A maior parte desembarcou em Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, e alguns em Pelotas, no mesmo estado. Os primeiros povoados significativos foram formados em Santo Antônio da Patrulha (com 250 famílias), em Cantagalo e nos arredores de Jaraguá do Sul. Este último povoado está situado no estado de Santa Catarina, principal centro de colonização alemã. (BOGLÁR, 2000 p.33)

De acordo com Decol (2000), embora tenha apresentado volumes significativos no fim do século XIX e início do XX, a imigração proveniente do Centro-Leste Europeu para o Brasil permanece em grande medida desconhecida. Um exemplo é a imigração húngara, cuja história ainda não alcança o grau de maturidade de grupos mais estudados, como alemães e italianos, apesar da existência de comunidades no Brasil. Tomada como um todo, entretanto, a imigração da Europa do Centro-Leste foi, certamente, um componente importante da imigração para o Brasil. Decol (2000) relata que a emigração do leste europeu para a América Latina começa a ganhar impulso e proporções de massa a partir das últimas décadas do século XIX, impulsionada pelo desenvolvimento da navegação a vapor, o que torna a travessia do Atlântico uma aventura menos arriscada. Nesta etapa, o Brasil foi um destino importante destes fluxos, o que chegou a ser conhecido no leste europeu como período da “febre brasileira”, devido à intensidade das levas de emigrantes com direção ao Brasil. Em geral, era uma migração camponesa, familiar, de mais pobres e cuja motivação básica era a busca de melhores condições de vida, ter um pedaço de terra para cultivar do outro lado do Atlântico ou juntar dinheiro e voltar para a Europa. Os imigrantes tinham o desejo de possuir sua própria terra, defendendo a ideia de que o cultivo do chão era fonte de toda a riqueza. Além da situação econômica, outra causa pode ser considerada para a emigração: o momento político da Europa do Centro-Leste no período áureo da imigração,

quando

a

região

era

dominada

pelos

três

grandes

impérios

expansionistas da época: Rússia, Alemanha e Áustria. Quanto aos húngaros, sua história emigratória relaciona-se bastante ao seu


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passado de invasões, primeiro pelos turcos, depois pelos otomanos, no início do século XVI. Nesse tempo, a Hungria se divide em três partes, só conseguindo certa unificação com a formação do Império Austro-Húngaro e voltando a aparecer no mapa político europeu apenas após o fim da Primeira Guerra Mundial. Na Hungria, o fator econômico foi, segundo Öry Kovács (2006, p.3), decisivo para a saída dos imigrantes. [...] Geralmente os imigrantes têm dois motivos para deixar a pátria: ou econômico, ou político, ou ambos. [...] Os que emigraram da província Húngara de Veszprém tiveram motivos econômicos, devido à forte crise econômica que assolava a Europa no final do século [...].

A crise econômica, a falta de terras para plantar e colher, as frequentes mudanças de fronteiras e de territórios, contribuíram para que, voluntária ou involuntariamente, milhares de húngaros emigrassem para o exterior. Além disso, a ruptura da organização feudal na segunda metade do século XIX também foi influência para a saída da Hungria. O campesinato era formado de servos dos senhores das terras ou servos de tarefa. Paulics (2004, p.32), nesse sentido, enfatiza que: Esse campesinato perdeu as oportunidades de trabalho, as terras nas quais trabalhavam não eram suas e ficaram sem nenhuma forma de sobrevivência. Da revolução húngara de 1848/49 em diante os proprietários rurais se organizaram em cooperativas. De um lado as grandes propriedades associadas, de outro os sem terra e os pequenos proprietários (minifundiários), artesões e pequenos comerciantes. A crescente natalidade dos camponeses aumentava ainda mais o número dos sem terra. No fim do século XIX, um quarto da população húngara era de proletários despossuídos.

Uma grande parte dos camponeses eram diaristas e, assim, sua própria existência passou a ser incerta, pois não tinham onde conseguir trabalho e consequentemente alimentar sua prole. Outra parte da população rural era de pequenos proprietários, cujas terras mal lhes garantiam a sobrevivência e, mesmo para isso, era exigido muito esforço. Era de costume dividirem as poucas terras que possuíam para os filhos. Este hábito fracionava cada vez mais as propriedades, tornando-se impossível extrair qualquer sustento dela e com número de filhos aumentando, até devido à baixa na taxa de mortalidade, aumentava o número de despossuídos que assumia a condição de serviçal nas grandes propriedades.


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Conforme Dreher (1984), o hábito de dividir as terras contribuía com o empobrecimento das populações rurais, pois a terra já tinha sido dividida tantas vezes que, mesmo uma boa colheita, não podia mais sustentar a todas as pessoas da propriedade. Quando as terras eram fracionadas por ocasião da partilha, o filho mais velho herdava, segundo a lei de herança, a propriedade paterna. Os demais irmãos, de famílias geralmente numerosas, tornavam-se dependentes do irmão herdeiro. Os que não queriam se submeter não tinham alternativa a não ser a emigração. ((DREHER, 1984, p.34)

Segundo Paulics (2004) e Öry Kovács (2006), este costume da partilha de terras era muito comum nas aldeias habitadas por suábios na Hungria. Muitos camponeses atuavam de acordo com a extensão de terra que podiam cultivar com a sua família e assim sustentar-se, porém a modernização da agricultura e o crescente aumento populacional fizeram cair a oferta de trabalho. Estes fatores, somados a outros, levaram muitos despossuídos à migração interna, em marcha para as cidades, enquanto que outra massa escolhia a saída pelo mar, principalmente para a América do Norte. “Famílias inteiras, aldeias, a caminho, se aventurando, para um futuro incerto em lugares absolutamente desconhecidos e inimagináveis. Acredita-se que foi nos finais de 1880 que a Hungria teve seu maior número de retirantes.” 8 (Öry Kovács, 2006, p.10) Havendo escassez de trabalho, a miséria aumentava para estes, contribuindo no aumento de um problema social pelo qual o governo deveria responder. Daí os próprios governos incentivaram a emigração. Além das iniciativas públicas para a emigração, tanto no Brasil como na Europa, o grande impulso foi dado pelas companhias particulares de navegação e sociedades de imigração e colonização, que se caracterizavam agora por tornar as terras devolutas em mercadoria, o que se tornou um grande negócio com envolvimento de bancos, de empresas de transportes e de negociantes de terra. De acordo com Barbosa (2002), as companhias de navegações transatlânticas, ligadas a estas sociedades de imigração, eram responsáveis pelo transporte, pela compra de terras e pela organização das colônias em Santa Catarina.

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Os autores pesquisados não mencionam estatisticamente o número de pessoas que deixaram a Hungria na época, tratam esta como grande massa, muitos, etc.


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Em Santa Catarina, as iniciativas privadas foram responsáveis pelas principais colônias como a de Blumenau e a de Joinville. A primeira foi fundada por Hermann Blumenau em 1848 e contou com o apoio de organizações alemãs, tornando-se oficial a pedido de seu fundador. A segunda foi fruto da Sociedade Colonizadora de Hamburgo, que encaminhou para Joinville e arredores, entre 1850 e 1888, 17.408 colonos. Representou a mais importante iniciativa privada em Santa Catarina quanto aos aspectos econômico e político. (BARBOSA, 2002, p.57)

A pesquisadora húngara Petra Paulics (2004), que realizou estudos sobre o grupo de imigrantes húngaros em Jaraguá do Sul, traçou o que ela chama de um quadrilátero com as regiões de Pápá, Herend, Veszprém e Zirc para estudar a emigração e, de acordo com a pesquisadora, todos os povoados foram atingidos pela debandada para o Brasil no final do século XIX. Paulics, baseada em uma lista de imigrantes publicada no livro de Emílio da Silva (1976), tentou levantar dados na Hungria que ligassem os nomes da lista aos locais de origem. Em jornais da época – 1889/1890 – Gépcsarnok “Mercado de Máquinas”; Devecservideki Gazdckörn Ertesitö - “noticiário comercial da região de Devecser”; Somlyovideki Hirlop - “jornal da região de Somlyo”, encontrou notificações da saída de um grande grupo, porém sem nomes. Em um número de 1936 do jornal Somlovodeki Hirlep, “jornal da região de Somlyo”, certo Francisco Fischer, assentado no Jaraguá, mineiro da região de Ajka, procurava contato com familiares. Em Ajka, pesquisando entre os arquivos do Museu da Mina, Paulics encontrou nos livros-caixa, vários nomes “Fischer”, sobrenome presente na lista. A pesquisadora cita que no livro “Varós a Torne partján”, do historiador Giay Frigyes, consta o seguinte: Como nas grandes propriedades de Ajka e Bode, a escassez de trabalho era absoluta, iniciou-se na virada do século a emigração de pessoas das duas aldeias. Bernat Tolnoi, médico da região, anotou que mais cedo para a América do Sul, e depois de 1900, para o Canadá, saíam os imigrantes. (PAULICS, 2004)

Paulics (2004) também relata que uma edição do Veszpréni Hirlop, “Jornal de Vezsprém”, de 1896, noticiava problemas sociais e documentais com os preparativos de saída para o Brasil de pessoas da região de Pápá. Dois outros jornais, Pápai Lajok, “Folha de Pápa”, e Pápai kòzlöny, “Jornal de Pápa”, em dois números seguidos, enumerou nomes e locais de origem dos retirantes. A pesquisadora também realizou entrevistas nas aldeias suábias da região de Vezsprém, citando


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que os entrevistados não faziam referências aos retirantes para o Brasil, mas ao mesmo tempo, lembravam-se dos retirantes para os Estados Unidos, havendo registro da maioria dos seus nomes. Paulics conclui: “Infelizmente, hoje há poucos sinais ou lembranças concretas nos locais de origem. Nesses mais de 100 anos de emigração para o Brasil, muitos vestígios se dissolveram ou se diluíram na emigração para a América do Norte.” (2004, p.12) Como se percebe nas anotações de Paulics, na Hungria não ficaram muitos registros da imigração para o Brasil, mas constata-se que a região do Vale do Danúbio foi afetada pela onda de emigração. Os camponeses, que já estavam fragilizados devido às dificuldades apresentadas anteriormente, passaram a receber influência dos agentes de imigração que trabalhavam praticamente como aliciadores e, para persuadi-los, utilizavam argumentos nem sempre verdadeiros. A propaganda da imigração era feita por agentes das companhias de navegação. [...] Os agentes lançaram-se sobre muitas regiões húngaras e convenceram populações de aldeias inteiras a deixarem sua pátria. A propaganda prometia aos Húngaros que na América do Sul, cada família receberia gratuitamente um lote de terra de 120 acres, além de equipamentos, provisões, vacas leiteiras, galinhas e, quem sabe, as parteiras...! (BOGLÁR, 2000, p. 87)

Estas promessas e outras mais contrastavam com a legislação brasileira, já que a Lei de Terras de 1850 estabelecia a venda e não mais a doação de terras devolutas. Apesar de tantos fatores os expulsarem de seu lugar de origem, muitos camponeses relutavam em deixar suas localidades. As informações eram desencontradas, cruzar o Atlântico era algo inimaginável para muitos daqueles que, no máximo, haviam se deslocado até o centro de seu vilarejo. As dúvidas eram muitas. Baseavam-se em cartas ou comentários daqueles que já haviam emigrado principalmente para a América do Norte. É nesse momento que a figura do agenciador se destacava, até desafiando os fragilizados camponeses, “Sair para o grande mundo é para os valentes... Vocês acham que vai entrar frango assado em suas tendas?” (PAULICS, 2004, p.6) De acordo com Öry Kovács (2010), as informações desencontradas e o desconhecimento a respeito das novas terras que ocupariam faziam com que, no


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meio desses, surgissem comentários fantasiosos sobre a América: os rios brasileiros são cheios de ametistas e topázios e tem suas águas doces como o leite, a terra que está a sua espera é doce, fértil e encantada, as matas estão cheias de frangos e as carnes dão na cerca. “Tinham, pois, a impressão de haverem partido para a terra prometida.” (DREHER, 1984, p. 36) Talvez essas fantasias que mexiam com a imaginação dos futuros imigrantes tinham um cunho de verdade, só que os aliciadores omitiram a parte que, para se atingir todos estes sonhos, seria necessário muito trabalho. Nesse sentido, Paulics enfatiza: Mas lá, onde se produz aipim e aprende assar broa de milho e pão em forno de barro, lá onde se mitigou a fome, lá onde as florestas são sempre verdes, porque não há inverno, lá se acabaram os sonhos, porque quem derruba florestas, corta madeira, capina, prepara forragem desde a madrugada, não tem tempo para sonhar. (PAULICS, 2004, p.8)

A fuga de uma realidade adversa, a esperança de uma vida melhor, a falta de perspectiva para o futuro, alimentavam o desejo de emigração, contribuindo para que muitos húngaros tomassem a decisão de dar novos rumos às suas vidas, saindo da Hungria com destino ao Brasil.

2.2- A Viagem e os primeiros dias em terras brasileiras

[…] “pessoas deslocadas”, privadas de um lugar apropriado no espaço social e de lugar marcado nas classificações sociais. Como Sócrates o imigrante é átopos, sem lugar, deslocado [...] Nem cidadão nem estrangeiro, nem totalmente do lado do Mesmo, nem totalmente do lado do Outro, o “imigrante” situa-se nesse lugar “bastardo” de que Platão também fala a fronteira entre o ser e o não-ser social. (BOURDIEU, 1998, p. 11)

Nesta citação, Pierre Bourdieu aborda a questão da falta de identificação com o novo local escolhido pelo imigrante, fazendo sentir-se um intruso e deslocado. Este imigrante arrancou suas raízes de um determinado espaço geográfico e ambiente para transplantar-se para outro, na maioria dos casos, totalmente diferente ou oposto ao habitat (topo) de origem. Migrar é um ato traumático que sempre gera consequências e sequelas.


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Em toda a história da humanidade os processos migratórios são marcados por fugas, separações, perdas, lutas, medos, esperanças e sonhos. Sonhos que, no caso do Brasil, atraiu um grande contingente de imigrantes em busca de melhores condições de vida para si e sua família. Boglár (2000, p.33) relata que: Nas décadas de 1880 e 1890, especialmente nos anos 90, chegaram as primeiras levas significativas de imigrantes húngaros ao Brasil. Naquela época, o governo brasileiro facilitava a imigração a fim de aumentar mais rapidamente a escassa população do país.

Ainda de acordo com Boglár, na última década do século XIX, mais precisamente em 1890, iniciou-se a imigração dos húngaros do distrito de Veszprém para o sul do Brasil, destacando que a preferência dos imigrantes pelos portos do sul se deu devido aos acordos do governo com as companhias de colonização e, também, ao fato de que os europeus procuravam os estados sulinos por terem um clima mais ameno do que o litoral tropical do norte. Uma parte dos húngaros desembarcou no Estado do Rio Grande do Sul, nas cidades de Porto Alegre e Pelotas, porém, os primeiros povoados significativos foram formados em Santo Antônio da Patrulha (com 250 famílias) e em Cantagalo. O autor destaca que se instalou em “Jaraguá do Sul, um povoado muito significativo, este, situado no estado de Santa Catarina, principal centro de colonização alemã […] onde se radicaram 200 famílias do distrito de Veszprém e 30 famílias de Székeshehérvár.” (BOGLÁR, 2000, p.34) Para Vero (2003, p.42), Na imigração, o grupo passa por grandes mudanças em seu mundo externo. Atravessam a linha do Equador, deixando para trás o clima tropical. Pouco ou nada conheciam do idioma. De sua gente, pouco ou nunca tinham ouvido falar. Como fantasias imaginam macacos pulando de galho em galho nas árvores das cidades. É preciso reconhecer que coragem ou mesmo temeridade não lhes faltaram.

A história da emigração da província de Vészprém, Hungria, para Jaraguá do Sul, no final do século XIX, é marcada por muitos fatos: a trajetória dos seus ancestrais em terras europeias e os acontecimentos que motivaram sua partida para um novo mundo; a conquista da América; o encontrar de um ambiente desconhecido e totalmente diferente daquele que imaginaram ou lhes informaram; a adaptação ao clima, à alimentação; o trabalho árduo para construir sua moradia e preparar o solo


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para plantar e colher; todas e cada uma foram verdadeiras epopeias. Silva (1976) relata a viagem da família Sthal, de Veszprém, Hungria, para Jaraguá do Sul, em 1891. Partiram de trem, cruzando a Áustria, atravessaram a Alemanha, chegando finalmente ao porto [Bremen], onde embarcaram. Tomaram lugar no navio “Hannover”, dia 20 de maio, e depois iniciaram a viagem com as preocupações de um futuro incerto. Enfim no Brasil, Ilha das Cobras. Depois novamente por via marítima a Itajaí, finalmente pelo Rio Itajaí, desembarcando em Blumenau. Pararam para descanso no Barracão de Imigrantes. (SILVA, 1976, p.155)

Eugênio Schmöckel, em artigo intitulado “A presença Húngara em Jaraguá”, publicado no jornal O Correio do Povo (25/07/1987 a 22/08/1987), baseando-se nas anotações de Ferenc Fischer, narra a trajetória de mais um grupo: Os imigrantes húngaros partiram em meados de novembro de 1891 de Veszprém (Hungria) para Viena (Áustria) por via férrea, lá permanecendo 3 dias. A seguir, também por via férrea, continuaram a viagem até o porto alemão de Brehmen, onde ficaram hospedados num hotel por 15 dias. Embarcaram aos começos de dezembro de 1891, em Brehmen, no navio de passageiros Brehmen-Leipzig, com destino ao Brasil, via Lisboa (Portugal). As festividades natalinas foram festejadas a bordo, em alto mar. A tarde foram baldeados para o vapor brasileiro Desterro, ficando no Estreito por alguns dias. De lá foram transportados por um navio cargueiro da firma Hoepcke, até Itajaí, com nova baldeação para o vaporzinho Progresso, com destino a Blumenau, ficando hospedados no Hotel Holetz.

Em pesquisa realizada no Arquivo Nacional encontramos registros da chegada no Rio de Janeiro do Vapor Hannover, em 21 de junho de 1891, e do Vapor Leipzig, em 11 de janeiro de 1892. Na listagem constavam nomes de determinadas famílias que integram a relação de imigrantes húngaros apresentada por Silva (1976). Levando em consideração o tempo de viagem e a data da chegada no Porto do Rio de Janeiro, deduz-se que as narrativas de Silva a respeito da família Sthal e as anotações de Ferenc Fischer dizem respeito às viagens dos dois vapores citados. No Arquivo Nacional encontram-se registros de outros vapores que trouxeram imigrantes para o Brasil, com famílias que se dirigiram para a região de Jaraguá do Sul: Strassburg 07/06/1891, Leipzig 10/10/1891, Gera 17/10/1891, München 24/11/1891, Weser 24/01/1892, Ohio 08/02/1892, Baltimore 26/02/1892, Berlin 14/03/1892, Graf Bismark 05/04/1892 e 14/07/1892, Hsomprinz Fr. Wilhelm


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08/05/1892, Weser 26/06/1892, Koln 25/07/1892. Nas listas destes navios e em diários de bordo feitos pelos capitães, constam a nacionalidade desses imigrantes, sua maioria registrada como húngaros e alguns como austríacos, além dos nomes, idade, religião e profissão, sendo que grande parte se declarava agricultor. Chama a atenção o número de passageiros que vinham nesses vapores, como exemplo, no vapor Strassburg (1891) vieram 1127 passageiros na terceira classe, desses 1114 por conta de contrato. Em Bremen, além dos húngaros, embarcavam nos vapores russos, alemães e poloneses. Na escala em Lisboa, o rol de imigrantes era completado com portugueses. As listas também trazem informações de nascimentos e mortes durante a viagem e as reclamações dos passageiros. Destaca-se que todos os diários citam que alguns imigrantes seguiram viagem com destino ao Rio da Prata (Uruguai e Argentina), confirmando as anotações de Silva (1976) sobre húngaros que foram para a Argentina. Essas informações tornam-se importantes para compreender melhor esta história e a confirmação de alguns fatos, já que tanto Silva quanto Schmöckel fazem seus relatos com base em depoimentos de imigrantes, sem ter acesso a essas listas. Boglár (2000) relata sobre um manual escrito por János Szajkó, um húngaro que conhecia bem a realidade brasileira da época: Antes de iniciar a viagem tens que renunciar às exigências culturais, adaptar-se às condições da natureza e preparar-te, pois tuas ilusões sobre a bela natureza serão trocadas pela dura realidade; a força e o amor devotado à natureza serão necessários para vencer os muitos obstáculos. (p. 231)

Realmente era preciso, além do amor à natureza, muita determinação, pois, de acordo com as informações, pode-se imaginar o quão estafante foi a viagem desses imigrantes, desde sua saída de Veszprém até a chegada a Santa Catarina. Segundo os cálculos são mais de sessenta dias viajando de carroça, trem, navio (na época para cruzar o Atlântico os vapores levavam em média 30 dias). Nesse trajeto, além do desgaste físico, tinham desgaste emocional, decorrente do abandono da terra natal e apreensões a respeito do que encontrariam pela frente. Talvez neste momento lembrassem parte do hino húngaro que diz: “este povo já pagou pelo passado e pelo futuro” e se, para alguns a fé estava abalada quanto à possibilidade de futuro, para outros a esperança era renovada com a chegada nas novas terras.


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[…] é compreensível que os imigrantes húngaros ficassem decepcionados no início... Quando chegavam em uma carroça puxada por mulas através da estrada lamacenta, sentiam um aperto no coração. Os alojamentos de massa, com a sua rusticidade interiorana, o mau aspecto e, especialmente a heterogeneidade da futura vizinhança, além das condições rudimentares de vida, decepcionavam os magyares, cuja primeira indagação angustiada era: “Esse é aquele Brasil que o agente havia descrito na Hungria?” (BOGLÁR, 2000, p.48)

Silva (1976), Schmöckel (1987) e Majcher et al. (2008) descrevem como foi o processo de instalação dos imigrantes nas terras de Jaraguá. As informações dos autores levam a crer que os grupos de húngaros que chegavam à Santa Catarina para instalar-se em Jaraguá do Sul naquela época recebiam praticamente o mesmo tratamento e percorriam o mesmo trajeto. De Blumenau, os imigrantes seguiram em carroções nos quais iam as mulheres, as crianças, os idosos e as bagagens, com parada nas localidades de Pomeranos, que pertencia ao município de Blumenau, para um breve descanso, e em Rio Ada, no município de Rio dos Cedros, sendo ambas, na época, pequenas povoações habitadas predominantemente por italianos, poloneses e alemães no caminho entre Blumenau e Jaraguá, onde descansavam e realizavam um breve contato com os já residentes. Dali em diante era impossível seguir de carroça, pois era necessário penetrar na mata virgem, abrindo picadas no Alto Garibaldi. A pé, iniciaram a subida íngreme da Serra do Garibaldi [...]. De 6 km era percurso da subida: andando, escorregando, engatinhando. Crianças pequenas eram levadas no colo das mulheres, os maiores levavam objetos mais leves. Os jovens e os homens, os mais pesados. Era necessário conduzir todos com segurança. O guia foi Luiz Piazera. (MAJCHER et al., 2008,p.62)

Silva (1976, p.119) ressalta que se a subida foi penosa, “difícil e trabalhosa também foi a descida, pois passavam por penedos e grotas profundas, cobertas de mata escura e tenebrosa”. De acordo com Majcher et al. (2008), as pessoas escorregavam com facilidade em raízes, ou tropeçavam nelas. Precisavam ficar atentos aos formigueiros, cipós com espinhos, cobras, e os até então desconhecidos borrachudos (mosquitos), tão comuns na região. A passagem por esta serra ficou marcada na memória coletiva do grupo, pois até os dias atuais seus descendentes destacam mais este fato do que a própria viagem de navio cruzando o Atlântico. Aqui recorremos novamente ao manual de János Szajko, para tentar


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dimensionar os sacrifícios a que estiveram expostos aqueles imigrantes, que escolheram a mata virgem para construírem seus lares: Com um facão terá que fazer uma picada, o suor escorrer-te-á sobre a face neste ambiente de ar úmido, abafado, tua garganta começará a ressecar-se. […] os cipós são densos espinhos e esgarçam tuas vestes, orelhas e pele, milhares de mosquitos te atacam. Tentas desvencilhar-te deles freneticamente nesta vegetação que surge por todos os lados, como se fosse uma maldição do inferno verde. Ora um formigueiro que cai sobre o teu pescoço, ou então minúsculas abelhas vêm em tua direção devido ao odor de teu suor. Teu olhar perdido não encontra esperança. (BOGLÁR, 2000, p.232)

Passada a Serra do Garibaldi, que divide o Vale do Itajaí do Vale do Itapocu, chegavam até as cabeceiras do Rio Jaraguá, região conhecida como Alto Garibaldi, onde foram instalados. Junto à fralda da Serra, um novo e último barracão, constituído de ripas rachadas nas quatro paredes, a cobertura consistia de palha de mato, trançada com sarrafos da mesma espécie, ali foram alojadas quarenta famílias. […] No vale do Rio Jaraguazinho e pelo picadão do Garibaldi estavam as terras demarcadas aos recém-vindos “hungareses”. (SILVA, 1976, p.155)

Conforme Boglár (1997), o assentamento dos imigrantes húngaros nas terras da colônia Jaraguá significava a formação de novas colônias. Para Renaux (1997, p. 322), esta era uma característica dos grupos que chegavam da Europa: “estabeleciam-se em vales, nas margens dos rios, formando uma comunidade isolada que se organizava de modo a garantir sua sobrevivência material e cultural.” Apresentando as formas de colonização, pode-se tomar como referência Majcher et al. (2008) e Stulzer (1973), que escrevem detalhadamente sobre o assunto. A Agência de Terras ficava em Blumenau e o chefe do departamento de Imigração era o engenheiro Hercílio Pedro da Luz. A Agência de Terras começava a distribuição por Garibaldi, loteadas a partir de Rio dos Cedros, no Alto da Serra do Jaraguá, nas nascentes do Rio Jaraguá, sendo que a numeração dos lotes ia crescendo à medida que descia o rio. Nos dias de hoje os números destes lotes dão nomes a bairros da cidade, a exemplo de Jaraguá 84 e Jaraguá 99. Seyferth (1994, p.2) destaca que: Há um perfil comum a quase todas as colônias: os imigrantes foram assentados em áreas de floresta, a demarcação de lotes


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acompanhando os vales dos rios. Em todas elas houve a formação de sociedades camponesas com a economia baseada na pequena propriedade familiar policultora.

As terras eram compradas do governo e o departamento de colonização conduzia os imigrantes aos lotes onde se instalariam: “Luiz Piazera, no mês de junho de 1891, acomodou cerca de quarenta famílias no último barracão de imigrantes, […] (SILVA, 1976, p.157). Este registro marca o início da colonização húngara na localidade. Para Stulzer (1973, p.189), “O Alto Jaraguá e Garibaldi foram inteiramente colonizados por húngaros.” A região era acentuadamente montanhosa, intercalando montes e vales. Estrada não havia e a distância de outros focos de colonização dificultava a comunicação, o que favoreceu o isolamento geográfico dos húngaros. Após toda a saga da viagem e a instalação em um barracão comum, acontece um problema inesperado, uma grande tempestade atinge aquele grupo: Os homens haviam descido até a Barra do Rio Garibaldi à procura dos lotes demarcados aos recém vindos hungareses. A forte tormenta e ventania derrubaram a cobertura do rancho, que mantinha o grupo de quarenta famílias, era o abrigo para todos. Tudo ficou encharcado. A cobertura teve que ser refeita. O mato estava todo molhado; também as folhas que seriam utilizadas para nova cobertura. Assim passaram-se alguns dias. Podemos imaginar o que todo aquele pessoal passou, com tudo molhado dentro do barracão, o chão, utensílios, os parcos alimentos, as roupas... Mais o frio do inverno. (MAJCHER et al., 2008, p.76)

Passadas algumas semanas e as dificuldades iniciais, cada família adquiriu seu lote e começou a se dirigir às suas terras, a fim de construir seu próprio rancho e dele fazer sua moradia. Os lotes eram “uma colônia de terra”, o equivalente a vinte e cinco hectares de terra (250.000 m²). Para saldar a dívida de seus lotes, havia um prazo de cinco anos, sem juros. Grande parte dessa dívida com o governo foi paga com mão de obra. Em determinados dias da semana, os homens trabalhavam na abertura de caminhos, construção de estradas, pontilhões e pontes, utilizando-se de ferramentas rústicas como machados, enxadões e picaretas. (SILVA, 1976) Novos grupos de imigrantes húngaros foram chegando à localidade. Silva (1976), com base em depoimento de Michael Peng, nascido em 24 de outubro de 1885, na região de Pápá – Hungria, tendo sete anos quando emigrou para o Brasil, juntamente com seus pais Lorenz Peng e Maria Peng, destaca a chegada de mais


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uma leva: Em fevereiro de 1892, a família Peng pisava em solo brasileiro, e era acomodada no prédio, destinado aos imigrantes, sediado em Blumenau […] do Reino da Hungria – Império da Áustria, onde tomaram o navio no dia de Natal de 1891. Depois do Rio de Janeiro, onde conhecemos a Ilha das Cobras para um repouso de quarentena, dali um pequeno descanso no Porto do Itajaí, chegando, finalmente à curiosa cidade de Blumenau. (SILVA, 1976, p.158)

As anotações de Silva são confirmadas com os documentos encontrados no Arquivo Nacional, onde consta a chegada do Vapor Weser, procedente de Bremen, no dia 24 de janeiro de 1892. Em suas listas de passageiros, os nomes: Lorenz Peng (pai), Marie Peng (mãe), Michael Peng, Martin Peng (gertoben9), Elizabeth Peng. Ficam aqui destacadas as datas repassadas por Michael Peng à Silva: embarque, 25 de dezembro de 1891. Se forem considerados os trinta dias para cruzar o Atlântico, coincide com a data da chegada do vapor ao Rio de Janeiro. Quanto ao dito “em fevereiro de 1892 pisava o solo brasileiro”, pode-se considerar sua chegada em terras catarinenses. Segue o relato de Michael Peng: Éramos 30 famílias de diversos países europeus, que aguardavam seu próximo transporte em carroças para Pomeranos, lá aquelas famílias vindas da Hungria, que se destinavam à Garibaldi, descansavam até que os homens fizessem seus abrigos, nas terras já demarcadas na planície do Rio Jaraguazinho e suas adjacências. A partir daquela data os imigrantes vindos da Hungria ocuparam, até o ano de 1896, a região compreendida de Santo Estevão a Jaraguá 84 (SILVA, 1976, p.158)

Para Majcher et al. (2008), o processo de colonização foi “lento e penoso”, e tinha continuidade a partir de novas levas de imigrantes que iam chegando e se estabelecendo na região. Embora de forma muito rudimentar, a comunidade húngara ia se organizando. A vida inóspita no meio da mata, o trabalho árduo e o ambiente estrangeiro, foram algumas das mudanças radicais que passaram esses imigrantes e, talvez, fossem os principais obstáculos encontrados nas novas terras. Se olhassem para o passado, porém, lembrariam da exploração a que eram submetidos na pátria antiga, trabalhando em terras que não eram suas. No Brasil, se tornaram proprietários de

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Faleceu em viagem.


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terras que, considerando as proporções dos lotes, de acordo com Öry Kovács (2006, p.14), “se estivessem na Hungria, seriam considerados grandes latifundiários.” O fato de estarem trabalhando em sua própria terra não tornava mais amena sua labuta diária, mas os encorajavam a preparar o solo, jogar as sementes e esperar boas colheitas.

2.3- A adaptação ao ambiente e ao novo lar Jaraguá.

Um ambiente de florestas abundantes, árvores frondosas, rios caudalosos e um imenso silêncio de mata virgem, quebrado apenas pelos ruídos da fauna nativa. Este foi o cenário encontrado pelos imigrantes húngaros nas terras de Jaraguá. E o que na Europa era propagado como o paraíso, transformara-se em um grande desafio sob quase todos os aspectos que se possa analisar, causando aos recémchegados, um grande impacto psicológico, de forma parecida com o que ocorreu com outros imigrantes: “À nostalgia somava-se a decepção. O paraíso estava muito longe da colônia...” (GUEDES, 2005, p.25). Talvez, ao planejarem sua viagem na longínqua Hungria, já imaginassem que enfrentariam muitos percalços, mas a realidade se apresentaria bem mais difícil que o mais pessimista planejamento. De acordo com Willens (1980, p.79), “os imigrantes não tinham alternativa a não ser vencer a agressividade do meio ambiente” e, para isso, a coragem, a fé religiosa, o otimismo e a determinação foram fundamentais na sua adaptação em terras brasileiras. Os primeiros tempos para os imigrantes em Jaraguá do Sul foram de extrema dificuldade, pois sabiam pouco sobre o Brasil e as condições eram adversas. A começar pelo clima: na Hungria, os invernos são rigorosos e os verões mais curtos e amenos, contrastando com o Brasil, onde os invernos não são tão intensos, porém, os verões são de calor sufocante e úmido. Aqui, também se depararam com o desconhecido mosquito, que os perseguiam noite e dia, e com as doenças tropicais, o que contribuía ainda mais para seu desgaste físico e psicológico. A descrição que Ternes (1986, p. 137) fez sobre a vizinha cidade Joinville enquadra-se perfeitamente na realidade encontrada em Jaraguá do Sul: Erupções de pele, varíola, disenteria, febre, enfim um quadro


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de doenças que os abalou e que se misturou a uma paisagem insólita, de tocos de árvores abatidas há poucas semanas, caminhos encharcados, pequenas plantações de milho e de batatas. Nada do que havia sido planejado na Europa acontecia na nova colônia.

Os imigrantes tiveram de mudar algumas atitudes, adquirir novos hábitos e adaptar os elementos culturais trazidos de seu país de origem. Novas circunstâncias de vida surgiram, precisaram aprender com os caboclos10 brasileiros a se embrenhar na mata virgem para abrir caminhos, tirar a madeira para levantar sua moradia, limpar os terrenos e começar a plantar milho e feijão para sua alimentação, atendendo assim, conforme Elias e Scotson (2000), as necessidades mais elementares para sua sobrevivência. Segundo Guedes (2005, p.26), O desbravamento das matas, necessário para superar os obstáculos naturais para a construção da cidade, levou os imigrantes a enfrentarem uma série de ferimentos e mordidas de cobras, muitas vezes fatais. Aventurar-se na mata era risco certo, porém inevitável.

O trabalho de desbravamento das matas geralmente era feito pelos homens e em grupos. As mulheres e crianças ficavam no barracão. Após aberta as clareiras no terreno, construíam o rancho. O Sr. Afonso Steillein narra as memórias de seu avô quanto à forma de construção desses abrigos: Eles levantavam quatro esteios com troncos mais fortes, e lá trançavam varas de capoeira, que encontravam no mato, depois amarravam com cipó e enchiam com barro dos dois lados fechando as frestas. Isso a gente vê nas casas no sertão do Nordeste hoje. Assim eles faziam sua primeira moradia, era um abrigo, com área para cozinhar com o fogo feito no chão, não tinha assoalho, era tudo chão batido, e em volta só mato. Ele contava que só depois de limpar a área se buscava a família que estava alojada no barracão. (STEILLEIN, 2009)

De acordo com Boglár (2000), as casas eram ranchos de pau-a-pique, especialmente as dos colonos recém chegados. A casa era geralmente feita pelo próprio agricultor. Às vezes trabalhavam em mutirão. Nas janelas não havia vidro, só uma tábua de madeira. Para o piso da casa, na maior parte das vezes, faziam tal como na Hungria, socavam lama no chão e esfregavam-na. Todo o material desta 10

O termo caboclo aqui utilizado não se aplica apenas aos mestiços de branco com índio, mas à denominação, comum na região, dada a todos os que habitavam ou passavam pela localidade e não eram descendentes dos imigrantes europeus recém-chegados.


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construção vinha da mata, não se usava prego. As camas eram feitas por eles próprios, usando palhas de milho, assim como os bancos e mesas. O fogão a lenha exalava muita fumaça que invadia toda casa. Era desagradável, mas auxiliava a espantar os mosquitos. Estas casas eram insalubres, pois praticamente não recebiam luz solar. Os bichos entravam facilmente pelas frestas das portas, janelas e pelo teto, alcançando as camas e a comida. “Uma casa destas é especialmente insalubre para as crianças, que mal encontram local limpo em volta da casa; seu corpo é picado pelos bichos, que colocam seus ovos nas feridas e torturam as crianças mal nutridas” (BOGLÁR, 2000, p.129) Os imigrantes tinham certo planejamento e seguiam os conselhos dos caboclos que habitavam as redondezas e daqueles que passavam pelo lugar, bem como, dos agricultores vizinhos de outras etnias que estavam a mais tempo na localidade. Seu trabalho começava a dar resultados, o que projetava um futuro mais tranquilo. Ainda assim, surgiam inseguranças, pois passavam por muitas privações, doenças e, mesmo com toda a sua confiança, o medo estava sempre os rondando e, de acordo com Guedes (2005, p.28), “entre todos, com certeza o medo da morte sempre foi o maior e mais constante.” E nas condições extremas que estavam inseridos, sem remédios e tratamento médico, qualquer pequeno ferimento poderia ser fatal e precisaram aprender a lidar também com estas situações e curar suas doenças à maneira local, com chás e compressas de ervas. A adaptação às terras jaraguaenses dos que vieram da Hungria assemelha-se com a dos primeiros imigrantes europeus, principalmente os alemães, que chegaram ao sul do Brasil. Por esse motivo, valemo-nos da fala de Dreher (1984, p.39): No novo ambiente brasileiro, os imigrantes alemães estavam desde o início em situação de marginalidade. As povoações teutas surgiram geralmente em regiões pouco povoadas e, por esse motivo, o contato com a população já estabelecida era o mínimo. Elementos da cultura brasileira só eram adotados quando se via neles alguma vantagem.

Mas a natureza não era só adversidade, ela também conspirava a favor dos imigrantes e trazia-lhes agradáveis descobertas, tais como, segundo Majcher et al. (2008), frutos, mel, peixes e caças, que provinham das matas e rios. Com os caçadores que passavam pela região, aprenderam a extrair e a comer o palmito, colher o mel selvagem, fazer armadilhas para o tatu e outros animais que serviam de


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complemento na sua alimentação. Silva (1976) descreve que desconheciam o peixe “cascudo”, que nos rios era abundante e que, com os pescadores, aprenderam a arte de pescá-lo e prepará-lo. Desta fase de adaptação, mencionaremos um fato que hoje os descendentes desses imigrantes lembram com muito bom humor: abateram uma vez uma ave de porte maior. Parecia um Jacuaçu, que abundava ali. Não era: fora um virtuoso urubu de cabeça vermelha...” (SILVA, 1976, p.125). Assim, entre erros e acertos, se utilizando das experiências positivas e negativas, os imigrantes húngaros iam se adaptando ao seu novo lar e adquirindo novos conhecimentos. Boglár relata que “até chegar a primeira colheita, o húngaro aprendeu a se habituar ao ambiente e a conhecer melhor o verdadeiro Brasil, que depois disso não lhe parecia tão hostil assim.” (2000, p. 127). Percebemos que as colocações de Boglár, escritas em forma de diário na década de 1940, muitas vezes apresentam certo patriotismo húngaro, afinal, era a visão de um Cônsul da Hungria, uma autoridade visitando as colônias povoadas por seus conterrâneos, expressando sua opinião através daquilo que presenciava ou do que lhe contavam os descendentes dos primeiros imigrantes. Muitas de suas afirmações revelam saudosismo, amor a sua pátria e o desejo que estes não perdessem os laços com a terra de origem. Na Europa, a principal cultura dos camponeses húngaros que emigraram para o Brasil era o trigo, mas cultivavam também a batata, beterraba e outros tubérculos para sua alimentação. Aqui no Brasil, introduziram em seu cotidiano alimentos herdados da cultura indígena, pois segundo Silva (1976, p.125), “passaram a cultivar o aipim, a batata doce, o cará, o taiá, o mangarito e o inhame. As mudas vinham dos lavradores de Rio Ada e o cardápio melhorava”. Ao mencionar o aipim, é conveniente tecer alguns comentários sobre sua importância na adaptação desses imigrantes, já que hoje, na região onde esses se instalaram, é um dos principais produtos agrícolas e, nos últimos anos, a Festa do Aipim consta no calendário de eventos do município, realizada na comunidade de Jaraguazinho, um dos núcleos da colonização. Talvez até se pudesse colocar o aipim como um símbolo dessa adaptação, já que este substituiu a batata em sua alimentação e dele aprenderam a fazer pão, broas e outros produtos. Neste ponto torna-se importante inserir o comentário do Sr. Affonso Steillein (2009), neto de imigrantes: “na Hungria, meus avós ouviram que aqui no Brasil se come raiz de árvore. Então, como lá não tinha


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mais o que comer se juntou em turmas e embarcaram pra virem ao Brasil e comer aquela raiz de árvore, que é o nosso aipim.” Assim como o aipim, outros alimentos foram inseridos na culinária dos imigrantes, como o arroz e o feijão. Outros, porém, foram adaptados conforme os conhecimentos trazidos da Europa. Conforme Vogt (2000), o abandono das indumentárias das regiões de origem, o uso da farinha de milho, do arroz, do feijão preto, da mandioca, o hábito de se locomover a cavalo, são alguns dos elementos que sinalizam que os colonos tiveram que forjar para si novas regras de vida e de conduta. “O homem depende naturalmente do ambiente em que vive. Ele é conservador, e somente poderá alcançar o progresso de sua sociedade pela empiria e pelo caminho da transformação gradual.” (BOGLÁR, 2000, p.72). Para Boglár, o agricultor húngaro aprendeu a tirar vantagem das situações adversas, esforçou-se em conhecer os hábitos locais, a natureza, o clima, a maneira de plantar e de organizar a produção, adquiriu alguns animais e suficiente colheita. A indumentária, um dos itens básicos na subsistência, também se transformou. No Brasil, o agricultor húngaro não se vestia como em terras europeias. O trabalho desgastante e a falta de recursos o obrigava a trajar calças e camisas remendadas e andar descalço. O inverno mais ameno contribuía com essa mudança nas vestimentas, bem como as dificuldades para comprar tecidos e calçados devido ao isolamento e escassez de dinheiro. Aliás, dinheiro não tinham também na Europa. Podemos deduzir que o colono que desbravou as terras do interior, se alimenta mal, mora em condições miseráveis, e veste-se, na maioria das vezes, como um mendigo. Talvez nos primeiros anos este tenha sido o destino de todos os agricultores magiares do Brasil. (BOGLÁR, 2000, p.130)

Essa luta do imigrante para se estabelecer em terras brasileiras também marcou as gerações futuras. Em entrevista, a Sra. Olga Piazera Majcher, neta de um dos líderes da imigração húngara em Jaraguá do Sul, o Sr. Georg Wolf, faz uma reflexão sobre as adversidades enfrentadas por esses imigrantes, tanto na Hungria, quanto no Brasil: “Pelo que meu avô contava, na Hungria tinham uma vida tão cheia de privações e sacrifícios, eram verdadeiros escravos do modo de vida que enfrentavam pela sobrevivência.” (MAJCHER, 2010) De acordo com Olga Majcher, aqui no Brasil os sacrifícios e as privações também existiam, mas o fato de estarem trabalhando naquilo que lhes pertencia


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fazia com que não medissem esforços, pois finalmente a terra era deles. Ela lembra que quando seus avós e os demais imigrantes vieram para cá, viviam outra realidade na Europa. Não tinham propriedades, trabalhavam muito para seus senhores nas plantações, e recebiam quase nada na colheita: “Então de repente, eles vislumbraram uma vida diferente pelo fato de ter um pedaço de chão, e tudo isso talvez os animasse e eles souberam administrar muito bem essa situação.” (MAJCHER, 2010) Aos poucos, iam conseguindo alcançar seus intentos. Os colonos húngaros passaram por tempos difíceis e essa luta criou sentimentos de solidariedade, fortalecendo a comunidade, pois naquele habitat estranho, mais do que nunca precisavam um dos outros. Paulics (2004, p.31) destaca que “a união das famílias, contribuiu para que os imigrantes húngaros vencessem a floresta primitiva e hostil.” Para Majcher (2008) as relações familiares eram determinantes para a sobrevivência do grupo, pois estavam isolados. Para construção de suas casas e ranchos e para o plantio das lavouras, colocavam em prática o sistema de mutirão, onde o grupo se reunia para realizar tarefas, uns nos terrenos dos outros. Após o período de instalação dos imigrantes, alguns elementos destacam-se no que diz respeito a sua cultura étnica, pode-se citar as formas construtivas (arquitetura), como a disposição da casa, o paiol, o estábulo e a divisão interna da residência. As tradições, neste caso, danças, música, culinária, relembrada em ocasiões especiais e outros elementos, são hábitos e costumes que marcam a cultura do imigrante ou sua etnicidade. Contudo, ressalta Seyferth (1994, p.6), “O elemento mais concreto da etnicidade é o sentido de comunidade baseado na história comum da colonização da qual o pioneirismo dos primeiros colonos emerge como símbolo étnico cultural comum”. Majcher et al. (2008) relata que a colônia húngara, em grande parte, dedicouse à agricultura familiar. As famílias viviam exclusivamente de sua produção de alimentos. Os recursos materiais, a terra, os animais, mudas e sementes eram trabalhados e zelados sabiamente. Eles precisavam no mínimo ter uma vaca para conseguir o leite e seus derivados e uma parelha de cavalos para puxar a carroça e o arado. Dependiam única e exclusivamente de seu trabalho braçal e os recursos humanos eram formados pelo pai, pela mãe e pela prole: “os imigrantes tinham muitos filhos, e na nova terra nasceriam mais crianças, assim era comum haverem


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nove ou dez crianças por família” (PAULICS, 2004, p.31). Naquela época a mortalidade infantil era grande, mas mesmo assim as famílias ficavam numerosas, e, conforme constatamos em nossas entrevistas com netos de imigrantes húngaros, em sua maioria o número de irmãos passava de dez, chegando até a dezesseis em alguns casos. Esses filhos eram indispensáveis para auxiliar na labuta diária, começavam desde cedo com tarefas mais leves e à medida que iam crescendo, aumentavam-se suas atribuições. “Estas crianças imigrantes cresceram nas circunstâncias mais adversas. Mal tinham força para tanto, e já estavam trabalhando com a enxada junto com seus pais.” (BOGLÁR, 2000, p.133) O trabalho braçal foi uma constante na vida desses imigrantes. Para eles era o único meio de alcançar seus objetivos: “para esses camponeses apenas o trabalho justificava a existência, húngaros e alemães, em comum, faziam comparações entre o brasileiro 'preguiçoso' com o europeu 'trabalhador'” (PAULICS, 2004, p.32). Ao citar esta comparação, Paulics, que é húngara, não deixa de confirmar algo que era constante na época, em que os descendentes de europeus consideravam-se mais trabalhadores e capacitados que o brasileiro, uma forma de preconceito que se refletiu até nas questões de casamentos inter-étnicos, as quais serão discutidas posteriormente. O trabalho exigia grande parte do tempo dos colonos, que ainda não tinham uma organização social capaz de suprir suas necessidades de lazer e entretenimento, o que fazia falta na vida dos imigrantes. Depois do duro trabalho cotidiano, não podiam descansar à maneira acostumada do país de origem. Nas manhãs de domingo não ouviam o toque dos sinos que os chamavam à igreja, à tardinha não podiam passear pelos trigais, à noite não se encontravam com os amigos. Os filhos se criavam sem companheiros, sem instrução. (WILLEMS, 1980, p.234)

Vencidas as necessidades básicas, a primeira preocupação dos imigrantes era com sua espiritualidade. Como destacado anteriormente, a religiosidade era uma característica marcante desses colonizadores. A palavra religião, no latim, deriva do termo re-ligare, religar, unir, portanto, ao citarmos os termos religião ou religiosidade, aqui inserida no contexto dos imigrantes, além da sua fé cristã, também estaremos nos referindo à sua vida comunitária e ao intenso cultivo das tradições, das festas e


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das manifestações culturais com cunho religioso. A solidariedade, o respeito e a ajuda mútua, conceitos básicos do cristianismo, eram vivenciados no dia a dia, e contribuíam para o bom andamento da comunidade. A religiosidade contribuiu com a definição e fortalecimento da identidade étnica do grupo. No núcleo de colonização húngara, os católicos eram a grande maioria. Os primeiros cultos e celebrações eram realizados nos barracões dos imigrantes e, nesse período, os colonizadores começaram a se preocupar com outras demandas comunitárias, como a construção das primeiras capelas, a administração de cemitérios e com a escolarização dos filhos. Stulzer (1973) e Schmitt (2006) afirmam que desde 1892 os padres franciscanos, vindos de Rodeio e Blumenau, prestaram serviços religiosos aos hungareses habitantes do Vale do Garibaldi. Trechos do diário do Frei Lucínio Korte, publicados em Stulzer (1973), trazem relatos de suas primeiras viagens à região de Garibaldi, no Jaraguá. A primeira que se tem registro é no dia 18 de julho de 1892: Celebrei cedo e rumei ao Rio Garibaldi, após passagem por Rio Ada onde benzi uma capela, me preveni de matula e saí com dois italianos, através do Rio Giuseppina, pela Alta Serra do Garibaldi, 5 a 6 horas para vencê-la. Rio Garibaldi, (atual comunidade São Pedro) um vale amplo e vasto com 66 colônias, habitado por hungareses. O lote n° 9 é terreno da igreja. No fim começa o Rio Jaraguá com 168 colônias, largo e plano vale pelo qual cavalgamos até o número 35, onde se abria o caminho. Os hungareses se alegraram muito por verem um padre, pela primeira vez em seu meio. Nossa ceia miserável, horrível fumaceira e nenhuma porta. (STULZER, 1973, p.194)

Destaca-se a última frase na citação, onde Frei Lucínio tece comentários sobre a ceia e as estalagens na qual foi abrigado. O Frei, ao escrever seu diário, retratou o que era uma constante na vida dos imigrantes: ceias miseráveis e instalações precárias, e aquilo foi oferecido ao franciscano, ou seja, sabia-se que era o melhor que podiam lhe proporcionar. De acordo com Silva (1976), ao raiar do ano de 1892, quando os imigrantes ainda lutavam para a abertura de clareiras e as primeiras plantações, o pioneiro Baltazar Sthal, com a ajuda do filho Martin Sthal, conseguiram instalar choupana e estábulos para o futuro rebanho, e neste local foi improvisado uma capela “a guisa


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de recinto de oração, e ali foi celebrada a primeira missa, com todos os colonos participando do glorioso evento, distante do país de origem, a Hungria” (SILVA, 1976, p.109). Para Schmitt, Frei Lucínio, ao relatar alguns dados estatísticos das primeiras capelas, entre os anos de 1875 e 1895, faz menção à capela com nome de Garibaldi. “É possível que esta, ao encabeçar a lista das capelas, seja a primeira de toda Jaraguá do Sul, construída entre os anos de 1892 a 1895.” (SCHIMITT, 2006, p.99). Um ano após sua primeira visita à região, no dia 16 de janeiro de 1893, Frei Lucínio afirma que celebrou uma missa em que realizou comunhões e casamentos; A casa miserável, rancho de palmito, passei a milho verde. No dia 17 de janeiro no lote n° 66 em Garibaldi na casa de Georg Wolf, atendi 70 confissões e três casamentos. A santa missa foi celebrada na venda, onde após a celebração, em uma reunião, foram apresentadas propostas a respeito de uma capela. Não houve bom entendimento, acabando em pequena discórdia. Esta reunião certamente era para tratar da construção da capela na região do Jaraguazinho. (STULZER, 1973, p.194)

Alguns meses depois, Frei Lucínio, em uma viagem de Garibaldi à Joinville, relata que no dia 04 de maio de 1893 celebra missa no Wolf (atual Santo Estevão), benzendo no dia seguinte o cemitério no Jaraguá n° 19 (Santa Cruz no Jaraguazinho). Sobre a primeira capela de Santo Estevão, o Frei traz a seguinte informação: no dia 2 de maio de 1894 viajou em direção a Jaraguá, enfrentando muita chuva e um caminho indescritível a cavalo, “a noite cheguei no Wolf, todo molhado, dormi na nova e bonitinha escola (capela), quinta feira (03 de maio) foi benzida, pouca gente devido ao mau tempo” (STULZER, 1973, p.193). Portanto, a primeira capela/escola de Santo Estevão foi inaugurada e benzida pelo Frei Lucínio Korte, construída em madeira, em frente ao cemitério onde hoje funciona o posto de saúde. Essa comunidade húngara tem por padroeiro Santo Estevão, o rei da Hungria. Segundo Pomogátz (2006), Santo Estevão - Szent István (997-1038) foi o primeiro rei cristão da Hungria e o construtor da nação húngara. Derrotou chefes tribais, implementou leis, construiu igrejas, conventos e escolas, difundindo a religião e a cultura cristãs. O Rei Estevão foi canonizado por ter sido o catequista do Reino da Hungria e a posteridade o denominará como o Fundador do Estado Húngaro.


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A tradição oral diz que a imagem do padroeiro veio da Hungria, encomendada por Georg Wolf, em 1896. Majcher et al. (2008, p.236) apresenta documento que descreve: “Joseph Wollf foi à Hungria especialmente para trazer a estátua de Santo Estevão, em 1896”. Destacamos também que, juntamente com as capelas, surgiam os cemitérios, entre os quais, de acordo com Majcher et al. (2008), apresenta-se a história do cemitério de Santa Cruz, que está relacionada com a história de Maria Wolf Gascho, nascida na Hungria. Esta, com um ano de idade, ficou muito doente e seu pai, Georg Wolf, sem esperança na sobrevivência da filha, não havendo cemitério, providenciou um, mais tarde benzido por Frei Lucínio. A pequena Maria não morreu, teve muitos filhos e ajudou no nascimento de muitas crianças, pois era parteira na comunidade e viveu até os 81 anos. Tivemos a oportunidade de entrevistar uma de suas filhas, a Sra. Elizabeth Gascho Weiller (2010), a qual relatou suas lembranças: A minha mãe veio bem pequeninha, mamava no peito, e no navio arrebentou o seio da mãe da minha mãe e não tinha nada para ela comer. Quando chegaram, ela tinha um ano e pouco e pesava 2,5 kg. Era bem fraquinha, bem mal para morrer, um homem disse, já nos primeiros dias, em arrumar um lugarzinho, porque eles entraram na mata virgem porque não tinha nada e ele disse para limpar e arrumar um cantinho porque se a criancinha morresse, para ter um lugar para enterrar. Mas como tinha muita caça, “macuco, inhambu, bandos no mato” e aí com tanta sopa e coisas, ela criou-se e ficou forte. Aquele homem que falou isso “vamos arrumar logo um lugarzinho”, ele foi o primeiro a ser enterrado ali.

Emílio da Silva (1976) menciona que a primeira sepultura do referido cemitério foi de Daniel Horongozo, nascido na Hungria, no dia 6 de fevereiro de 1844, vindo a falecer em Jaraguá do Sul em 09 de outubro de 1899. “Considerandose um dia de velório como já era de praxe, esse sepultamento realizou-se em 10 de outubro de 1899, apesar dos ingentes sacrifícios no féretro, em virtude de fortes enchentes” (SILVA, 1976, p.119) Petry (1982, p.66) ressalta que: “Carentes de qualquer convívio social, a primeira década da vida colonial resumia-se a palestras e visitas entre vizinhos. As raras ocasiões que os colonos possuíam para um encontro, aconteciam nos cultos religiosos.” Neste sentido, a entrevistada Sra Olga Majcher (2010) diz que, apesar das distâncias que moravam uns dos outros e dos difíceis acessos, eles souberam cuidar do convívio comunitário. Ela cita que a religiosidade foi muito cultivada por


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eles, suas primeiras preocupações eram a escola e um lugar para fazer as orações. Então, quando chegava o domingo, era sagrado, levantavam cedo, realizavam seus afazeres e iam fazer oração, e era a oportunidade de se verem, antes de começar a cerimônia religiosa, pois ficavam no pátio, conversavam. “Eles precisavam desse convívio, desse contato, porque durante a semana eles ficavam isolados, hoje não fazemos idéia, nós temos a televisão, temos telefone, temos internet, mas naquele tempo não tinham nada disso, não tinham como comunicar-se.” (MAJCHER, 2010) Como relatado anteriormente, a construção de uma capela era planejada para que a mesma pudesse ser utilizada como escola para educarem seus filhos. A educação era um valor cultural desses imigrantes, mas a religiosidade contribuiu para que os pais levassem seus filhos à escola, pois a igreja incentivava esta prática, e na visão dos colonizadores, mais que um dever cívico era um dever religioso ter seus filhos estudando. De acordo com Majcher et al. (2008), no início do século XX as aulas eram ministradas em alemão, o que colaborou para distanciar o idioma húngaro do cotidiano da comunidade. O uso do alemão, nas escolas e na igreja, e do dialeto Schwäbisch no âmbito familiar, era um dos referenciais daquele grupo étnico. Para Poutignat (1998, p.189), o termo grupo étnico designa: Uma população que se perpetua biologicamente de modo amplo, compartilha valores culturais fundamentais realizados em patente unidade nas formas culturais, constitui um campo de comunicação e de interação e possui um grupo de membros que se identifica e é identificado por outros como se constituísse uma categoria diferençável de outras categorias do mesmo tipo.

No que diz respeito à identificação do grupo enquanto à etnicidade, Giralda Seyferth (1981, p.140) afirma: “à língua alemã é atribuída à condição de principal elemento de identificação dos membros do grupo étnico. A escola, o lar, e também a igreja, são as instituições encarregadas de preservá-la.” Para Seyferth, a escola foi uma instituição importante para a manutenção da identidade étnica e essa instituição, juntamente com a igreja, além de serem pontos de formação e congregação, também serviram como uma espécie de perpetuadora da etnicidade nas comunidades. Todo o processo histórico, social, e cultural que o grupo passa através de sua trajetória contribui para a construção e reconstrução de sua identidade cultural e


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suas memórias. É possível compreender, com base em Magalhães (2005, p.29), que: A identidade é, antes de mais nada, uma construção cultural, um processo, não existe fora, nem sem os sujeitos que a reclamam perante situações de adversidade ou de alteridade. Assim, não se pode falar numa identidade pessoal ou cultural, mas em várias identidades, em que as sociedades actuais reconhecem as múltiplas identidades fragmentadas e mutáveis dentro de si mesma.

Desde os primórdios, o homem se questiona a respeito de sua essência. Perguntas como “quem sou”, “de onde venho”, “para onde vou”, fazem parte do imaginário do ser humano desde que este se entende como um ser racional. Mas é na contemporaneidade que os estudos sobre as identidades receberam um grande destaque. Estes tentam explicar o mundo fragmentado em que estamos inseridos. O ser humano busca sempre algo que o identifique enquanto pessoa e também enquanto grupo. Stuart Hall destaca que: As identidades são construídas por meio da diferença e não fora dela. Isso implica o reconhecimento radicalmente perturbador de que é apenas por meio da relação com o Outro, da relação com aquilo que não é, com precisamente aquilo que falta, com aquilo que tem sido chamado de seu interior constitutivo, que o significado “positivo” de qualquer termo – e assim sua “identidade” – pode ser construído (2000, p.110)

Pode-se até dizer que a identidade é um processo de exclusão. Ao mesmo tempo em que congrega, exclui, principalmente quando se refere à identidade étnica, para qual a afirmação de identidade tem a ver com as fronteiras, com o idioma, com a religião, com as características físicas, entre outras peculiaridades que unem e ao mesmo tempo dividem os povos. O problema é saber como e por que os indivíduos percebem uns aos outros como pertencentes a um mesmo grupo e se incluem mutuamente dentro das fronteiras grupais que estabelecem ao dizer “nós”, enquanto, ao mesmo tempo, excluem outros seres humanos a quem percebem como pertencentes a outro grupo e a quem se referem coletivamente como “eles” (ELIAS e SCOTSON, 2000, p.38)

Assim como outros grupos de imigrantes, os colonos húngaros não esperaram iniciativas governamentais para implantar suas escolas e, além das capelas-escolas instaladas em Jaraguazinho e Santo Estevão, criaram a Sociedade Cathólica no Jaraguá I:


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Embora instalados primitivamente, não deixaram de se organizar melhor, atacando o problema que julgavam prioritário: uma escola para as crianças e uma capela para os fiéis. Assim, entre os anos 1898/99 surgiu a Sociedade Escolar Catholica no Jaraguá I (n° 84), que deu início aos trabalhos imediatamente; contudo, os muitos obstáculos a transpor e os contratempos de toda a série, foi concluída em fins de 1900, as aulas iniciaram em janeiro de 1901. (O CORREIO DE POVO, 14/01/1987, p.4)

Como não havia professores disponíveis, os próprios colonos organizavam as comunidades escolares e se encarregaram de contratar e pagar os salários dos mestres. Na maioria das vezes, o professor era alguém da própria comunidade, com um pouco mais de instrução e liderança. Isso o tornava uma pessoa muito respeitada e valorizada. Mesmo assim, ele tinha que manter a sua roça, para ajudar no sustento da família. Para os alunos, frequentar as aulas também exigia algum sacrifício. Muitos precisavam caminhar horas, por longos quilômetros, até chegar na escola. De acordo com Schmitt (2006), é provável que existisse uma capela no povoado da localidade de Jaraguá 84, chamada de Santíssima Trindade, antes de 1895, pois ela figura no livro das Crônicas do Convento de Rodeio, na estatística de 1875 a 1895. Segundo Emílio da Silva (1976), a primeira missa no pequeno povoado da Santíssima Trindade foi debaixo de uma frondosa figueira, à margem do picadão, no lote do imigrante Stephan Trum, em Jaraguá 84. Assim, estava formada a tríade tão importante para a comunidade de imigrantes: “capela, escola e cemitério”. (PFIFER, 2010) A religiosidade contribuiu para a conservação de alguns hábitos culturais desses imigrantes, pois representou, até certo ponto, um incentivo e uma oportunidade para os contatos sociais. Quando se reuniam para rezar, aproveitavam e conversavam sobre os problemas, trocando informações. A religião também era motivo para suas festas, pois, para organizá-las, trabalhavam em sistema de mutirão e isto reforçava sua vida de comunidade, reforçava o grupo. “Eu penso que a religiosidade, que era uma coisa sagrada para eles, servia para reunir a família, então, além das missas vinham as reuniões, que traziam a culinária, aquela sopa de galinha com a páprika, aquilo era tradição.” (MAJCHER, 2010) Ao mencionar vida em comunidade, trazemos para a discussão a importância desta no grupo estudado, pois as experiências compartilhadas contribuíram na


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construção de sua identidade, os indivíduos socializavam suas vivências, ajudavamse mutuamente, dividiam suas conquistas e suas dificuldades, tinham o espírito de comunidade. Para ressaltar a importância que a comunidade assume nesses momentos, vale citar que, no ano de 2006, a UNESCO realizou, na cidade de Tóquio, reunião de especialistas para discutir o envolvimento da comunidade na salvaguarda do patrimônio cultural imaterial. Neste evento, concluíram definindo “Comunidades” como: Redes de pessoas cujo senso de identidade ou conexão emerge de uma relação histórica compartilhada que está enraizada na prática, transmissão ou envolvimento com os 11 seus patrimônios culturais imateriais.

Conforme Bauman (2003, p. 17), “A pequena comunidade é um arranjo do berço ao túmulo”. Para o autor, a palavra comunidade sugere uma coisa boa, um lugar cálido, confortável e aconchegante, “o que quer que comunidade signifique é bom ter uma comunidade, estar numa comunidade.” (BAUMAN, 2003, p.7) Os colonos húngaros precisavam deste alento, até para a conservação de sua saúde mental, para superar os obstáculos do seu cotidiano; estavam longe de sua pátria, de amigos e familiares que lá ficaram. Eles precisavam conviver socialmente e partilhar experiências, confiar uns nos outros, expor e debater suas ideias, buscar segurança e ter o espírito comunitário. Como afirmava Marx (1987, p. 54-55), “A verdadeira riqueza espiritual do indivíduo depende da riqueza de suas relações sociais. [...] Os indivíduos fazem-se

uns aos outros,

tanto

física como

espiritualmente, mas não fazem a si mesmos”. Os imigrantes húngaros souberam aproveitar-se destes quesitos e desde a Europa tinham a sua comunidade, lá chamada de “aldeia”, que, além de ser um agrupamento humano distinto de outros, fisicamente visível, onde começava e onde terminava, atendia às necessidades das pessoas que faziam parte dela. Pelo que se vê sobre a trajetória desse grupo até aqui, percebe-se que se não fossem os laços estabelecidos entre eles, o entendimento compartilhado por seus membros, dificilmente venceriam as adversidades às quais foram submetidos.

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Disponível em: http://www.accu.or.jp/ich/en/pdf/c2006Expert_Recommendation.pdf Acesso em 10/04/2011.


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Há um preço a pagar pelo privilégio de 'viver em comunidade' – e ele é pequeno e até invisível só enquanto a comunidade for um sonho. O preço é pago em forma de liberdade, também chamada autonomia, direito à auto-afirmação e à identidade. [...] Não ter comunidade significa não ter proteção. (BAUMAN, 2003, p.10)

Elias e Scotson (2000) lembram a importância do carisma grupal, onde todos os que estão inseridos participam desse carisma, mas pagam um preço, que é a sujeição aos padrões. Para os sociólogos, o sentimento de status e de inclusão de cada um está ligado à vida e às tradições comunitárias. Assim, cada indivíduo, com seus conhecimentos, foram importantes para a sobrevivência do grupo. Um sabia trabalhar com madeira, outro com animais, uma era a parteira, outra a massagista, um entendia um pouco de português, outro era um bom negociante, e assim foram fortalecendo aquela que até os dias de hoje é conhecida como a comunidade húngara de Jaraguá do Sul. O dialeto schwäbisch contribuiu muito para a adaptação dos húngaros na região, já que o alemão era considerado como uma espécie de língua extra-oficial, devido ao grande número de colonizadores germânicos na localidade, e com o schwäbisch conseguiam comunicar-se com a vizinhança, fazer seus negócios, entender-se com as autoridades e com os padres da época. Tem-se aqui, portanto, um processo inverso do que havia acontecido na Hungria; agora a língua magyar passou a ter menos utilidade que o dialeto alemão nos contatos externos. A língua portuguesa, até o momento da imigração, era totalmente desconhecida, sendo incorporada aos poucos em seu cotidiano, através dos lusobrasileiros que passavam por suas terras, com algumas autoridades e com os vizinhos não germânicos, em especial com os italianos que, por terem um idioma de origem latina, assimilavam o português com mais facilidade. Em entrevista, o Sr. Fernando Springman (2010) diz que sua família, ao chegar ao Brasil, era bilíngüe, falavam o húngaro e o schwäbisch, e que seu pai emigrou da Hungria com dezoito anos, acompanhado de sua avó. Na Hungria, o pai tinha aula em alemão e que em sua casa utilizavam somente este idioma. Ele relata que muitos dos que vieram da Hungria confundiam o idioma húngaro com o dialeto schwäbisch. A esse respeito, torna-se necessário esclarecer que entre os entrevistados, foi o único que fez referência sobre a origem suábia de seus antepassados. Este nos diz que sua avó lhe contava histórias sobre a viagem feita


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por seus familiares através do Rio Danúbio, da Suábia até a Hungria. E que os costumes de sua avó estavam mais ligados à tradição germânica do que à húngara. “Apesar

de

saber

falar,

eu

nunca

escutei

minha

avó

falar

húngaro”.

(SPRIENGMANN, 2010) Na comunidade húngara de Jaraguá do Sul, o idioma magyar ficou restrito às canções folclóricas, em algumas conversas informais entre os mais velhos e aos livros que trouxeram em suas bagagens, principalmente a bíblia. No documentário Em busca do riacho escondido, o Sr. Adolfo Stengel diz que: A minha Bisavó tinha uma bíblia húngara. E nela nós, mamãe e papai, não podíamos ler. Papai era alemão. Após o almoço a minha mãe e a minha Bisavó lavavam a louça e limpavam a cozinha depois a minha bisavó se recolhia em seu quarto e lia esta bíblia todos os dias de um a dois capítulos. A bíblia era escrita em húngaro e ela a lia em húngaro, e a noite após o jantar ela começava contar o que estava escrito. (in BOGLÁR, 2003)

No início do século XX, os colonos húngaros, já um pouco mais estruturados, seguiam seus planejamentos e progrediam com seu trabalho. Os ranchos de pau-apique foram substituídos pelas casas de alvenaria. Os agricultores abandonaram o uso exclusivo da enxada e passaram a usar o arado e a grade em suas plantações, bem maiores e sofisticadas. Plantavam arroz, batata, milho e aipim. Surgiram os primeiros rebanhos bovinos. Criavam galinhas, porcos e marrecos. Uma das dificuldades da época era conseguir o fubá de milho e a farinha de mandioca, que aqui no Brasil, no início da colonização substituiu o trigo na preparação de pães, broas e outros pratos. Por não terem um moinho, as mulheres da comunidade iam a pé buscar o fubá e a farinha no povoado de Rio Ada, no município de Rio dos Cedros, tendo que cruzar a serra de 6 km que dividia as duas comunidades. Essa caminhada consumia de dez a doze horas. No romper do dia partiam e no lusco-fusco da tarde, as crianças ansiosamente à espera, descobriam a chegada de suas mães e irmãs. Corriam ao seu encontro. Alegria e alvoroços. Teriam novamente o apreciado e quase único “K´kus-térz” (mingau de fubá), temperado com sal, que aos mais velhos lembrava o centeio que haviam comido nas regiões magiares. (SILVA, 1976, p.124)

A localidade de Rio Ada, nos primeiros anos, por ser mais próxima e ter uma estrutura um pouco mais avançada, foi para a comunidade húngara de Jaraguá uma


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espécie de porto seguro, pois desde o dia em que chegaram à região tiveram, neste lugar, um alento e mantinham estreitos laços com os descendentes de italianos que residiam naquela localidade. Além do fubá, em Rio Ada se abasteciam de açúcar, sal, querosene, óleo e outros mantimentos. Silva (1976) discorre a respeito dos costumes alimentares dos húngaros no início da colonização, baseado no depoimento de Wendelin Schmidt, que narra a maneira com que as mulheres hungaresas procediam no preparo das “viandas”‟, ou seja, o pão. Tomavam a farinha de fubá de milho, faziam a massa, fermentavam com batatinha ralada, temperada com banha, açúcar e sal, “colocavam a massa envolta em folha de caeté, deitavam-na no chão do terreiro, onde era coberto com braseiro para o cozimento e assim tinham a broa, isto é, o pão de cada dia.” (SILVA, 1976, p.125) Conforme Majcher et al. (2008), Georg Wolf Sênior, foi um dos primeiros comerciantes entre os húngaros na região do Garibaldi. Ele trouxe a primeira novilha para começar o rebanho bovino e teve a iniciativa de represar parte do Rio Jaraguazinho para instalar uma serraria e um moinho, passando a fornecer farinha de fubá grosso para os italianos e fina para a sopa e broa consumida pelos alemães e húngaros. A Figura 3 mostra a serraria de Georg Wolf, com as toras derrubadas na mata e puxadas por parelhas de bois. Em frente à construção estão alguns trabalhadores e os familiares de Georg Wolf Júnior (de paletó com a mão sobre o cavalo).


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Figura 3 – Serraria de Georg Wolf em 1915. Fonte: Acervo de Wilma W. Kitzberger

Porém não havia dinheiro circulando entre eles, então praticavam a troca de favores e mercadorias. Exerciam o chamado “escambo”, um costume comum no Brasil daquela época, onde trocavam produtos entre si. Também pagavam serviços como a moagem do milho com ovos de galinha e de pata. Quando abatiam um animal, dividiam a carne entre a vizinhança, que lhes retribuía o favor fazendo o mesmo quando abatesse alguma criação. Como não havia geladeiras, precisavam buscar alternativas para conservarem os alimentos, das quais, a principal era o costume de armazenar a carne frita em pedaços, mergulhados na banha dentro de grandes latas, entretanto, a carne também era defumada ou faziam com elas linguiças e morcilhas (morcelas). Com relação ao lazer, no início do século XX temos a fundação da primeira sociedade recreativa cultural na localidade. Não deixaram faltar o direito ao lazer e assim fundaram uma sociedade recreativa que denominaram de “OestereichUngarischer Verein” (Sociedade Austro-Húngara), no começo de 1900, que tinha por finalidade estreitar a amizade, objetivando mais união entre seus integrantes, com diversas e variadas promoções, não faltando os jogos de baralho, as danças folclóricas e outras manifestações artísticas. (JORNAL O CORREIO DE POVO, 14/01/1997)


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A Sociedade Austro-Húngara era um dos principais locais de encontro da comunidade húngara de Jaraguá do Sul e estava sediada no salão e Casa Comercial de Ferenc Fischer. Também é a primeira sociedade recreativa cultural que se tem registro em Jaraguá do Sul. Funcionou normalmente até 1914 quando, devido à 1ª Guerra Mundial, foi fechada por ordem do governo estadual. A música também estava presente na vida social dos imigrantes que colonizaram a região do Garibaldi em Jaraguá do Sul. Na Europa, durante os frios meses de inverno, as famílias recolhidas em suas casas tinham por costume organizar saraus domésticos. Este costume foi trazido para o Brasil e cultivado pelos descendentes de húngaros. Com o passar dos anos, nas primeiras décadas do século XX, era comum a família reunida, nos finais de tarde, depois dos afazeres diários, cantarem as canções trazidas da terra natal. Cabe destacar que este costume também era praticado por imigrantes de outras etnias na região, como vimos em Renaux (1995, p.122), ao falar sobre os teuto-brasileiros: [...] é, para nós, motivo de satisfação quando à noite nos reunimos para ouvir nossos lindos cantos folclóricos. Eles nos fazem lembrar nossa juventude, nosso lar paterno e nossa terra. Quem, após um longo dia de labuta, à noite chega em casa fatigado e, ainda assim, por meio do canto, procura um lenitivo para as suas forças, ambiciona ideais e acha a si mesmo.

Também era comum uma pessoa, mesmo sem formação musical, saber tocar instrumentos musicais, com destaque para o bandoneon e o violino. Tais conhecimentos eram transmitidos de pais para filhos e, durante as festividades, não faltavam tocadores e cantadores para comandar a alegria. Nos primeiros tempos viviam em condições precárias, mas logo começaram a organizar o futuro, primeiro construíram uma capela e logo depois, uma escola, e não se esqueceram do passa-tempo, nos salões onde bailavam os jovens e os homens jogavam boliche ou cartas, enquanto isso, as mulheres trabalham na cozinha. (BOGLÁR, 2000, p.72)

Na adaptação dos imigrantes húngaros em terras brasileiras, percebe-se que muitos fatores contribuíram para a formação da cultura deste grupo, e alguns tiveram destaque, além da religiosidade: o idioma, a alimentação, o trabalho e o lazer; e foram características marcantes dessa comunidade na época da colonização.


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3 SUÁBIOS OU HÚNGAROS?

3.1 Processos de hibridização no Brasil

Os grupos que passam por grandes imigrações precisam adequar hábitos culturais de acordo com o ambiente no qual se instalam e, conforme Canclini (2008), essa adaptação acontece o tempo todo em todas as sociedades. Assim aconteceu com os suábios no Vale do Danúbio, em terras húngaras, onde a cultura suábia do sudoeste alemão fundiu-se com a magyar e mais tarde com os que vieram da Hungria para o Brasil, onde a cultura híbrida trazida da Europa entra em contato com os teuto-brasileiros, ítalo-brasileiros, luso-brasileiros e outros grupos étnicos que habitavam a região. Esses processos de adaptação, assimilação, empréstimo, interpretação, resistência, ou rejeição de componentes de um sistema identitário por outro são fatores que influenciaram e continuam influenciando o processo de “hibridismo cultural”, dos imigrantes que vieram da Hungria para Jaraguá do Sul. Conforme Teixeira Coelho (1997, p. 35), a hibridização “refere-se ao modo pelo qual modos culturais ou partes desses modos se separam de seus contextos de origem e se recombinam com outros modos ou partes de modos de outra origem, configurando, no processo, novas práticas.” Teixeira Coelho, com base nos conceitos de Canclini, afirma que a hibridização não é mero fenômeno de superfície que consiste na “mesclagem”, por mútua exposição, de modos culturais distintos ou antagônicos, mas produz-se, de fato, graças à mediação de elementos híbridos que, por “transdução”, constituem os novos sentidos num processo dinâmico, continuado e prolongado entre duas culturas diferentes que levam a transformações em qualquer delas ou em ambas. (COELHO, 1997). Canclini (2008) propõe pensar a partir de novas análises para o entrelaçamento de distintas culturas e são alvo de sua atenção as lógicas das culturas populares, a recepção e o consumo de bens simbólicos e a hibridação cultural gerados pela “heterogeneidade multitemporal” ou ciclos de hibridismo. Canclini justifica chamar essa situação intercultural de hibridação “porque abrange diversas mesclas interculturais – não apenas raciais, às quais costuma limitar-se o termo „mestiçagem‟ - e porque permite incluir as formas modernas de hibridação” (2008, p. 19).


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Burke (2003) afirma que é cada vez mais difícil manter a insularização das culturas, pois as tradições culturais estão sempre em contato e ao nos defrontarmos com o que possivelmente diz respeito a duas tendências culturais distintas, não devemos tentar entendê-las de forma separada, já que “não existe uma fronteira cultural nítida ou firme entre grupos, e sim, pelo contrário, um continuum cultural”. Quando os imigrantes húngaros chegaram à região de Jaraguá, embora existissem grupos de outras etnias europeias já assentados e passando por um processo de adaptação na localidade, era um grupo diferente dos que ali estavam, eram os recém-chegados, “os de fora”, mas nessa situação, alguns quesitos diferenciavam-se dos outsiders da pesquisa de Elias e Scotson: os estabelecidos da região de Jaraguá, alemães e italianos, estavam há pouco tempo na localidade, eram trabalhadores rurais e tinham ascendência europeia, assim como os húngaros que estavam chegando e que, apesar de serem desconhecidos dos já assentados, não o eram entre si, tinham certa coesão, conseguindo assim cerrar fileiras e firmarse enquanto grupo. Essas semelhanças contribuíram para uma boa convivência com os já assentados. Paulics (2004, p.40) afirma que os imigrantes se definiam húngaros e faziam questão de demonstrar isso. “Mas, estes imigrantes, apesar de se declararam húngaros aqui no Brasil, na Europa não eram tratados como tal.” A Sra. Bárbara Simon (2010), que nasceu na cidade de Miskolc, norte da Hungria, em 1916, enfrentou as consequências das duas grandes guerras mundiais na Europa. Com o intuito de fugir da opressão comunista na Hungria, emigrou com seu marido e seus três filhos para o Brasil em 1950, vindo se instalar em Anápolis, no Estado de São Paulo. Depois de ter contato com os descendentes de húngaros em Jaraguá do Sul, em entrevista, afirmou: “Os de Jaraguá não são húngaros, são suábios”. A afirmação de Simon reflete a distinção existente entre os húngaros e os grupos germânicos que se instalaram na Hungria. A Sra.. Bárbara nos relata que na Hungria suábio era um nome pejorativo, assim como o cigano. Segundo ela, durante as guerras, os comandantes húngaros colocavam os soldados suábios e ciganos na linha de frente e os mandavam para os lugares mais remotos e perigosos. A entrevistada nos relata que:


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Mesmo que os suábios estivessem radicados na Hungria há muitas gerações, na Europa se considerava muito o passado, a ascendência étnica e eles não eram aceitos como húngaros, pois vieram a mando dos Austríacos, que sempre dominaram a Hungria. Mas, em minha opinião, os suábios merecem ser chamados de húngaros, eles fizeram um grande favor para a Hungria, principalmente na agricultura, a história deles é muito complicada, muito dura. (SIMON, 2010)

As afirmações anteriores de Paulics, Öry Kovács e da Sra. Bárbara Simon demonstram que os magyares tinham certa resistência para com os suábios, uma forma de “preconceito social”, como classifica Elias e Scotson (2000). Aliás, não só na Hungria, mas também em outras regiões do Vale do Danúbio, onde os suábios se fixaram, eram estigmatizados como um grupo de status inferior e de menor valor, entre outros estereótipos. Elias ressalta que as estigmatizações e exclusões dos grupos podem variar de modo e grau e também podem ser recíprocas entre os grupos. Tradicionalmente o conceito de "preconceito” é usado como símbolo unificador para o desprezo de grupos em palavras e atos. Mas a natureza do preconceito, o motivo pelo qual um grupo estabelecido encara um grupo outsider como estando em uma posição mais baixa e tendo menos valor, permanece normalmente sem esclarecimento. (ELIAS e SCOTSON, 2000, p.210-211)

Esta estigmatização social para com os suábios também é resquício de conflitos étnicos que se intensificaram com o término da Primeira Guerra Mundial, após a emigração para o Brasil. De acordo com Stein (2011), não se tratavam apenas de lutas de eslavos e húngaros nacionalistas contra populações de origem alemã, mas de confrontos que envolviam croatas, eslovenos e sérvios. “É neste contexto que se verifica a intensificação das lealdades nacionais, de organização e fortalecimento de grupos étnicos.” (STEIN, 2011, p.47) Conforme Hall (2004), a nação não é apenas uma entidade política, mas também produz sentidos em um sistema de “representação cultural.” Não se pode afirmar que os imigrantes tinham este sentimento de nação com relação ao Império Austro-Húngaro ou mesmo com a Hungria, mas ressalta-se que este grupo foi o único que veio diretamente da Europa e se instalou em Jaraguá do Sul, vindos praticamente de uma única região, em levas de quarenta a oitenta pessoas, em um curto espaço de tempo, entre os anos de 1891 a 1896. Isto reforçou sua representação cultural, sua memória coletiva, sua consciência étnica e o


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pertencimento a uma comunidade. Seguindo o pensamento de Hall (2004), salienta-se que as culturas nacionais ou mesmo regionais produzem sentidos com os quais as pessoas podem se identificar e assim construir suas identidades. A respeito desta identificação, faz-se necessário ressaltar que a Hungria não era um país independente na época em que imigraram para o Brasil, mas esse grupo e seus ancestrais já estavam em terras húngaras há aproximadamente cento e cinquenta anos, tinham um vínculo com a Alemanha em razão de seus antepassados e de seus traços culturais, mas era em território húngaro que tinham nascido e estavam vivendo, portanto, mesmo que os magyares os considerassem suábios, aquele grupo que emigrou para o Brasil era de húngaros. “Eles sentiam-se húngaros, quando se referiam à sua antiga Pátria era sobre a Hungria que falavam.” (MAJCHER, 2010) Pode-se até afirmar que assim como a Áustria e a Hungria formavam um Império, governado de forma dualista, estes imigrantes também tinham um sentido de pertencimento dúbio, e se utilizaram deste durante sua adaptação no Brasil, pois o grupo que se denominava húngaro começou a perceber que muitos de seus costumes eram parecidos com os de seus vizinhos alemães, principalmente o idioma. Esta identificação com os teuto-brasileiros na região não contribuiu apenas para a sua adaptação, mas, também, para que traços adquiridos da cultura magyar não tivessem aqui a mesma importância que tinham na Hungria. Conforme Öry Kovács (2006, p.11) Viviam uma identidade dupla – na pátria antiga se consideravam ao mesmo tempo alemães e húngaros. Aqui no Brasil ser alemão entre os colonizadores significava respeito, reconhecimento, pois a tradicional definição de colonizador se referia aos imigrantes alemães.

No que diz respeito a sentimentos pátrios, Seyferth (1981, p.98) afirma: “se a cultura e o sentimento nacional pertencem à pátria de origem, o trabalho e a lealdade política pertencem ao Brasil, que ofereceu aos imigrantes alemães uma nova Heimat”. O conceito de nacionalidade, pertencimento étnico e pátria dependem da visão de mundo que determinado grupo de indivíduos tem. A pesquisadora Giralda Seyferth, se utiliza dos termos germânicos “Heimat” e “Volkstum” e por extensão


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“Deutschtum”, termos que se traduzem para o português como nacionalidade e pátria. Contudo, conforme Jagnow (2010), a conceituação é diversa. Isto porque os termos germânicos e portugueses estão assentados em princípios diversos, em alemão assenta-se em base genealógica, enquanto que em português, em base geográfica. O termo “Volkstum” alicerça-se no princípio jurídico “jus sanguinis”, o direito pelo sangue. Por esse princípio, o pertencimento a um grupo étnico, a uma nacionalidade, a um povo, se dá pela ascendência sanguínea. Também engloba sua cultura, a língua, os costumes, sua maneira de ser e agir. Por isso entre os alemães – e outros povos germânicos e europeus – mesmo fora do espaço geográfico denominado Alemanha, dizem-se alemães. Para eles o “Deutschtum” existe em qualquer parte do mundo, não havendo necessidade do indivíduo ter nascido no espaço geográfico denominado Alemanha. O termo “Heimat” deriva de “Heim”, que pode ser traduzido como lar. É o lugar onde alguém vive. Também nesta conceituação está presente o princípio do “jus sanguinis”, é o lugar onde determinado grupo étnico vive. “Heimat” pode ser traduzido como pátria, despojado da conotação político-territorial que o termo possui na língua portuguesa. Nacionalidade e pátria são termos que remetem a um grupo de indivíduos a um lugar onde esses vivem regidos pelo “jus soli” (direito pelo lugar onde se nasceu). Ou seja, alguém é brasileiro, alemão ou italiano não pela ascendência sanguínea, por ter nascido no Brasil, na Alemanha ou Itália. Para Jagnow (2010), nacionalidade e pátria se limitam a um espaço geográfico delimitado politicamente. Enquanto que “Heimat”, “Volkstum” e também “Deutschtum”, baseados no “jus saguinis”, extrapolam fronteiras geográficas e políticas. Na cultura brasileira, o pertencimento étnico, a nacionalidade e a pátria se confundem com o estado político e naturalidade, conforme o princípio “jus soli”. Podemos utilizar as afirmações de Seyferth e Jagnow para discutir a maneira de identificação utilizada pelos imigrantes húngaros e seus descendentes que, pela ascendência sanguínea, eram alemães, pois os suábios pertenciam à nação germânica. Por naturalidade, os que imigraram eram húngaros e seus filhos, brasileiros. Para o grupo estudado, prevaleceu o “jus soli”, pois como se observou nas


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discussões anteriores, eles se declaravam e queriam ser identificados como húngaros e nos registros de seus passaportes, em sua maioria, a nacionalidade era declarada como húngara. Diferente de outros grupos de origem suábia que se instalaram ao longo do Vale do Danúbio e que, após a Segunda Guerra, emigraram para o Brasil e também para outros países e continuaram utilizando o termo suábio como adjetivo de identificação, exemplo dos Donauschwaben - Suábios do Danúbio, e dos Banater Schwaben - Suábios do Banat (Stein (2011), os descendentes de Suábios que emigraram da Hungria para Jaraguá do Sul não fizeram uso desse termo, sendo até desconhecido pela maioria sua origem sanguínea ou o princípio jurídico “jus sanguinis”. Portanto, ao longo da pesquisa, reportou-se ao grupo como imigrantes húngaros e seus descendentes. Os hábitos culturais são marcados pelas relações sociais e estão em constante mudança. Esses formam um conjunto de códigos e informações que são compartilhados entre os indivíduos dentro do grupo social, passando de geração para geração, perdendo e ganhando novos significados mediante influências internas e externas, pois “cultura não é uma questão de ontologia, de ser, mas de se tornar” (HALL, 2003, p. 43). Esse dinâmico processo cultural foi vivenciado pelos imigrantes húngaros e seus descendentes em Jaraguá do Sul, e a herança que ficou desse conjunto de códigos, símbolos e signos constituem sua identidade cultural, sua memória e seu patrimônio cultural.

3.2 A “Veszprém” de Santa Catarina

A “Veszprém de Santa Catarina”, foi assim que o Cônsul Húngaro Lajos Boglár se referiu à Cidade de Jaraguá do Sul por ocasião de sua visita em 1940 à localidade. Haviam passados quase cinquenta anos da imigração dos húngaros e a visita de uma autoridade da Hungria movimentava aquela comunidade. O cônsul narra suas impressões sobre o que vê e o que escuta ao ser cumprimentado pelos colonos: “Vejam só! Ainda se lembram dos antigos húngaros?” (BOGLÁR, 2000, p. 166). De acordo com Boglár, alguns com lágrimas nos olhos, contam-lhe lembranças da antiga pátria e confessam com orgulho sua ascendência húngara, não só por ocasião da visita, mas também perante os vizinhos e autoridades.


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A nova geração é, por nascimento, brasileira. Mas, à parte as fórmulas jurídicas, vivem neles o amor e o respeito pela pátria de seus pais. E podemos estar certos de que os novos rebentos dos magiares que vieram para o Brasil, como cidadãos brasileiros, engrandecerão o nome húngaro, e seus corações participarão tanto das alegrias como das tristezas da pátria de origem, juntamente com seus irmãos que habitam as margens do Rio Danúbio. (BOGLÁR, 2000, p.64)

Na fala do Cônsul Boglár é nítida a preocupação das autoridades húngaras pela manutenção da identidade magyar nos descendentes dos imigrantes que estavam no Brasil, sua visita a Jaraguá do Sul era uma prova disso. O Cônsul Boglár, até pela função que desempenhava, tinha interesse que estes imigrantes não esquecessem seu país de origem, a Hungria, e transmitisse a seus descendentes o amor e o respeito pela antiga pátria. As visitas de um representante consular em 1940 e depois em 1941 nos leva a questionar sobre as pretensões do consulado húngaro para com os colonos da região, já que até aquele momento eles não haviam recebido nenhuma forma de apoio das autoridades daquele país. A época da visita também é emblemática, já que neste período eclodia na Europa a Segunda Grande Guerra Mundial, e tanto o Brasil quanto a Hungria viviam um período de incertezas. Talvez esta ausência de contatos oficiais de autoridades húngaras com os imigrantes em Jaraguá do Sul se justifique pelo contexto histórico da Hungria, do final do século XIX até o início da década de 1930, pois, conforme já mencionado anteriormente, na época da imigração (1891 a 1895), a Hungria fazia parte do Império Austro-Húngaro, com os Habsburg no comando das principais decisões. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), este Império luta ao lado do Império Alemão e Turco-Otomano, formando as Potências Centrais contra a Tríplice Entente, Império Britânico e Russo, França e Estados Unidos. A derrota das Potências Centrais mudou o mapa geopolítico da Europa, desintegrando o Império AustroHúngaro. Em 04 de junho de 1920 foi assinado o Tratado de Trianon12. De acordo com Piller (2004), com a derrota na Primeira Guerra a Hungria perde dois terços de seu território, que dão lugar a novos países: a Tchecoslováquia, instalada ao norte, a

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Tratado assinado em 04 de junho de 1920 no Palácio de Trianon em Versalhes que regulava a situação do novo Estado Húngaro em substituição ao Reino da Hungria do então antigo Império Austro-Húngaro, após a Primeira Guerra Mundial.


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Iugoslávia ao sul e a Romênia, antiga Transilvânia, historicamente húngara. “O Tratado de Trianon desmembrou um país de mais de 1000 anos. Por conta dele, o povo húngaro, que nunca havia saído de sua terra ancestral, passou a ser tcheco, romeno ou iugoslavo da noite para o dia.” (PILLER,2004, p.6) Entre 1921 e 1931, a Hungria passou por uma grande crise pois, junto com seu território, perdeu a maior parte de suas reservas minerais, florestas, áreas cultiváveis e milhões de habitantes. Muitos húngaros, nesta época, emigraram para os Estados Unidos e América do Sul, daí as origens da comunidade húngara em São Paulo. O Cônsul Boglár veio para o Brasil em 1928 e ficou a frente do Consulado Real da Hungria em São Paulo até 1942, suas visitas à região de Jaraguá do Sul faziam parte de roteiros desenvolvidos pelo consulado para verificar a situação dos húngaros instalados em terras brasileiras. Podemos também relacionar estas visitas aos movimentos de fortalecimento das identidades nacionais, da insatisfação dos húngaros que, na sua visão, foram injustiçados pelo Tratado de Trianon, ou ao nacionalismo, que florescia em países da Europa Central e que contribuiu com a eclosão da Segunda Guerra Mundial. As primeiras décadas do século XX foram marcadas por muito trabalho por parte dos imigrantes húngaros e seus descendentes em suas propriedades, porém foi neste período que alguns signos realçaram a identidade desse grupo. “Os imigrantes estavam no Brasil colonizando, plantando e colhendo, educando seus filhos e ensinando-os a amar a nova pátria. Pacífica e ordenadamente, eles formavam o que na Europa teria sido chamado de aldeias.” (MAJCHER et al., 2008, p.141). Os outsiders de outrora passavam a ser os estabelecidos. O sentimento comum de “fazer parte”, de responsabilidade e dedicação à comunidade natal criava sólido vínculo entre as pessoas que ali haviam crescido e, provavelmente, prosperado juntas [...] partilhavam de um intenso sentimento de identidade grupal. Identificavam-se objetivamente como “famílias antigas” e subjetivamente como “nós”. (ELIAS e SCOTSON, 2000, p.103)

Foi, talvez, esses sentimentos, a delimitação geográfica, as semelhanças nos costumes e as características daqueles que habitavam aquela localidade que levou o Cônsul Boglár a chamar a região de “A Veszprém de Santa Catarina”.


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3.3 – Religiosidade e costumes de casamento “Szentistván (Santo Estevão) e Szentkereszte (Santa Cruz). Os dois nomes húngaros testemunham a religiosidade dos bons homens de Veszprém” (BOGLÁR, 2000, p.196). Para Boglár, o fato do padroeiro da comunidade ser Santo Estevão, o “Fundador do Estado Húngaro”, era uma demonstração não só da religiosidade dos imigrantes, mas também de nacionalismo húngaro, pois os “bons homens de Veszprém” haviam lembrado o herói maior da nação. A capela escola de Santa Cruz (Szentkereszte), localizada no Jaraguazinho, citada por Boglár, foi construída em 1910 e durante muitas décadas foi o centro cultural e religioso dos húngaros daquela localidade. Um novo prédio para a capela foi necessário “para substituir a antiga, de madeira, que era muito pequena, e a nova, bem maior, poderia comportar os fiéis que vinham para as celebrações” (SCHMITT, 2006, p.106). Este espaço, durante a semana, servia de escola para as crianças terem suas aulas e, aos finais de semana, ali era rezado o culto dominical, com missas esporádicas, conforme disponibilidade dos padres da paróquia. Na figura 4 é possível ver os estudantes e demais membros da comunidade posando para uma foto em 1937.

Figura 4 – Capela Escola Comunidade de Santa Cruz (Dec. 1930) Fonte: Acervo Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul


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Destaca-se ainda, na figura 4, a placa com a inscrição em alemão, “Die Gemeinde Heilig Kreuz” – A Comunidade Santa Cruz e o símbolo do integralismo escrito do lado esquerdo da fotografia, o que indica a possível presença de integralistas entre os fotografados, já que em Jaraguá do Sul esse movimento teve muitos seguidores, o que levou a cidade a ser considerada, na época, uma das mais integralistas do país. A edificação desta capela existe até hoje, porém, foi transformada em residência e apresenta sua arquitetura totalmente modificada. “A construção da terceira e atual capela de Santa Cruz foi iniciada em 1951 e inaugurada com benção solene, pelo pároco padre Alberto Jakobs, no dia 04 de maio de 1952” (SCHMITT, 2006, p.106). Esta igreja está representada na figura 5.

Figura 5 – Igreja de Santa Cruz Inaugurada em 1952 (2008) Fonte: Acervo Fundação Cultural de Jaraguá do Sul – Divisão de Patrimônio

De acordo com Schmitt (2006), em 1915 foi realizada uma missão popular na localidade de Santo Estevão, onde foram atendidas 584 confissões, 1839 comunhões e 61 primeiras comunhões. As primeiras capelas já não atendiam às


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demandas da comunidade que estava crescendo e, no ano de 1922, construíram a Igreja de Santo Estevão, (Figura 6) “de tijolo em tijolo os húngaros a edificaram e denominaram-na com nome do Santo Rei” (BOGLÁR, 2000, p.167). Esta igreja, a mais antiga de Jaraguá do Sul, nos dias de hoje é reconhecida como patrimônio histórico edificado da cidade e é um dos símbolos da colonização húngara, sendo palco de muitas atividades religiosas e culturais. Sua construção tem influência da arquitetura neogótica, trazida pelos imigrantes europeus, caracterizada pelas abóbadas do altar e nave, pela fachada principal e pelos arcos ogivais das janelas que simbolizam as mãos juntas, elevadas em oração ou ainda indicando o céu. Schmitt destaca que o forro da igreja foi feito com a técnica de estuque, que são madeiras trançadas, amarradas com cipó, nas quais é jogado barro por cima e por baixo. Sobre o seu altar está a estátua de Santo Estevão, vestindo um manto com as cores da Hungria (verde, vermelho e branco), “os membros dessa comunidade atestam que a imagem do padroeiro veio da Hungria, encomendada por Georg Wolf” (SCHMITT, 2006, p.102).

Figura 6 – Igreja de Santo Estevão (2010) Fonte: Acervo Fundação Cultural de Jaraguá do Sul – Divisão de Patrimônio.


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Por ocasião do restauro da Igreja de Santo Estevão, no ano de 1998, foram encontrados em uma de suas colunas de sustentação documentos escritos em latim com os seguintes dizeres: “Ao Deus ótimo e máximo, em honra de Santo Estevão, glorioso rei dos Húngaros” (MAJCHER et al., 2008, p.137), e nestes documentos também constam a data da colocação da pedra fundamental, 22 de setembro de 1922, e uma lista com aproximadamente setenta nomes de imigrantes húngaros e seus descendentes, denominados “fundadores da nova igreja”. A antiga capela da Santíssima Trindade no Jaraguá 84, que ficava localizada no início da “Tifa dos Húngaros” 13, também não comportava mais seus fiéis. As mesmas missões populares que atenderam à comunidade de Santo Estevão, em 1915, foram realizadas na Santíssima Trindade, quando se registraram 229 confissões, 835 comunhões e 23 primeiras comunhões e, a exemplo da co-irmã Santo Estevão, os membros daquela comunidade demoliram a capela original, ficando o terreno para o cemitério. A pedra fundamental da nova capela foi lançada no dia 30 de maio de 1926 e a mesma foi inaugurada em 08 de julho de 1928. Esta igreja é a segunda mais antiga do município de Jaraguá do Sul e, a exemplo da capela de Santo Estevão, também possui influência da arquitetura neogótica. Sua ata de inauguração traz o nome de aproximadamente cinquenta pessoas, entre imigrantes húngaros e descendentes, que colaboraram na sua construção. No ano de 2008, a igreja da Santíssima Trindade, apresentada na Figura 7, foi restaurada, após uma longa discussão com parte da comunidade que queria sua demolição para construir uma maior no mesmo terreno. Por decisão da maioria, a igreja continua de pé, como mais um marco da colonização húngara em Jaraguá do Sul.

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A palavra “Tifa” vem da palavra alemã tiefe que significa fundos, dava-se este nome aos vales dos afluentes do rio principal.


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Figura 7 - Igreja Santíssima Trindade Jaraguá do Sul (2011) Fonte: Acervo do autor

Completando o rol das igrejas católicas construídas na região de colonização húngara, temos a comunidade São Pedro (Alto Garibaldi), localidade onde foi instalado o barracão dos imigrantes e onde foram realizadas as primeiras manifestações religiosas daquela comunidade em Jaraguá do Sul. Ali também foi erguida uma capela, que foi substituída mais tarde por uma maior, provavelmente entre os anos de 1940 e 1943, e a partir de 1957 começou a ser construída a atual capela de São Pedro, “pelo lado de fora da antiga, para que os fiéis pudessem freqüentá-la até o término da nova” (SCHMITT, 2006). As quatro comunidades católicas aqui citadas caracterizam o patrimônio e o legado cultural do catolicismo europeu na região de Garibaldi e as edificações são testemunhos materiais da fé dos húngaros que colonizaram aquela localidade. Cabe ressaltar que na região também foram formadas comunidades luteranas, conforme relatório do Pastor Albert Schneider, e no dia 24 de novembro de 1902 foi fundada a Comunidade Martim Lutero, em Jaraguá Alto-Garibaldi, pelo Pastor Ferdinand


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Schlünzen. Segundo o relatório, na década de 1920, a comunidade contava com cinquenta e seis famílias. Em 1926 foi inaugurado um templo que, além de espaço de oração e pregação, servia também de escola (KLUG e ULRICH, 2008). Estas comunidades luteranas, que inicialmente surgiram para atender aos teuto-brasileiros, também eram frequentadas por descendentes de húngaros. A participação dos imigrantes húngaros e descendentes em meio ao movimento do luteranismo deve-se em parte à ampliação das redes de relações interpessoais e familiares, realizadas nos contatos que mantinham em ambientes de sociabilidade, como salões de bailes, soirées, festas escolares de caráter folclórico e outras. É o processo de hibridismo cultural influenciando também os costumes religiosos. Segundo a Sra.. Olga Majcher (2010), nas primeiras décadas da colônia era marcante, ao se encontrarem, a saudação cristã Gelobet sei Jesus Christus! (Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo!), para a qual o outro respondia In die Ewichkeit, Amém! (Para toda a eternidade, amém!), ou ainda a expressão Gott sei Dank! (graças a deus), em vários momentos do dia. Na época da construção da Igreja de Santo Estevão, surgiu a coletivização da festa dedicada ao Santo Padroeiro, realizada no pátio da igreja, em barracas improvisadas. Anterior a década de 1920 estas festas religiosas eram realizadas na casa dos moradores, geralmente após a missa. A ideia de reunir os fiéis para uma ação coletiva ganhou força e adesão. As primeiras festas começaram a reunir as famílias para missa, almoço festivo e gastronômico, strudel, churrasco e aves assadas (galinha caipira, pato, marreco) em forno a lenha. No transcorrer da tarde, ainda era organizado café colonial, com pães e cuca de queijinho e farofa. Porém, a atrativa do evento social e religioso sempre era a iguaria do strudel. (PFIFER, 2010)

O mote principal da festa era a organização da missa tradicional e matinal, realizada por um pároco da Igreja Matriz de Jaraguá do Sul. Cabia ao padre organizar a liturgia, com destaque ao padroeiro da respectiva capela. Após a missa, se iniciavam os festejos propriamente, regados pelas especialidades da cozinha suábio-húngara, preparados no forno à lenha, com destaque para os assados tradicionais e o Strudel. O hibridismo aparecia na culinária quando também serviam o aipim, cozido no fogão à lenha, o qual era cortado em pequenos pedaços e misturado ao bacon.


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A festa passou a ser realizada anualmente para confraternização dos cristãos e homenagear os padroeiros, ficando conhecida como Kirytag e foi durante muitos anos um motivo para reunir amigos, familiares e conhecidos para praticarem juntos sua fé religiosa, dançarem e ouvirem músicas típicas, além de degustarem os pratos tradicionais. No transcorrer da tarde, era organizado um café colonial, com pães empastados (Kochkäse, lingüiça, blut wurst) e, para completar a mesa, formas de cucas de queijinho e farofa. Segundo Schmitt (2006), após o almoço, no café da tarde do “Kirytag, era servido Wiener Kipfel (doce feito de massa de pão com açúcar e canela), krapfen (doce conhecido como calça virada) e Polster Zipfel (uma espécie de pastel, que pode ser doce ou salgado) e o Strudel”. [O Kiritag] é muito semelhante ao Kerbfest, uma manifestação religiosa ligada à Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e realizada pelos migrantes teuto-brasileiros do Estado do Rio Grande do Sul e no meio Oeste Catarinense. Kerb quer dizer em alemão “cestos”, e ao conceito pode agregar-se a palavra confraternização. Essa última palavra nos remete ao conceito e a finalidade das festas do Kiritag em meio à comunidade húngara de Jaraguá do Sul, que ganharam importância no decorrer dos anos 20, para confraternizar os membros do associativismo religioso. (PFIFER, 2010)

A figura 8 mostra a comunidade reunida para uma festa do Kirytag na década de 1930. Ao fundo vê-se a igreja de Santo Estevão, a fumaça ao lado mostra a elaboração dos alimentos e, à direita, casa em estilo enxaimel, na época pertencente à Carlos Hruschka. As carroças estacionadas evidenciam o principal meio de transportes da época.


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Figura 8 – Festa do Kirytag, na Comunidade de Santo Estevão (década 1930) Fonte: Acervo Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul.

Outra atividade religiosa muito festejada entre os imigrantes húngaros eram os casamentos. Os costumes de casamento dos imigrantes e seus descendentes nas primeiras décadas do Século XX também têm suas características peculiares não só nos festejos, mas na escolha dos parceiros. De acordo com Paulics (2004), no início, devido ao isolamento geográfico e ao fato de ser um grupo fechado, os casamentos eram endogâmicos, e isto nota-se pelos registros de casamento e pelas entrevistas com descendentes, “Húngaro só casava com húngaro. Contam os antigos que era mal visto um rapaz húngaro se interessar por moça alemã, polonesa ou italiana. Das moças, nem se fala...” (PAULICS, 2004, p.17). Numa comunidade étnica, alguns laços são priorizados e, principalmente na primeira metade do século XX, não só na comunidade húngara, mas outros grupos europeus, como os alemães, poloneses, italianos, consideravam importante casarem com pessoas da mesma origem, ou seja: alemão com alemão, italiano com italiano, polonês com polonês. Nos centros maiores os casamentos até aconteciam de forma


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mais isogâmica, principalmente quanto aos lugares de origem. Mas, no caso dos húngaros de Jaraguá do Sul, a endogamia do lugar de origem (a vila) era também endogamia étnica, de nacionalidade, mantendo um vínculo entre si, “[...] podemos considerá-los como uma tribo, tal grupo de pessoas, que ocupam tal território em comum, falando o mesmo idioma e exibindo os mesmos sinais culturais. A tribo nunca é exogâmica, sempre tende à endogamia”. (PAULICS, 2004, p.19) Paulics (2004) destaca que nas aldeias suábias de Veszprém no Século XIX era costume esse tipo de endogamia. Em Jaraguá do Sul, esses casamentos endôgamicos acabavam contribuindo com os sentimentos de comunidade e família, pois os filhos após casarem procuravam morar o mais próximo possível de seus pais, o matrimônio servia para unir dois ramos não parentes ou reforçar os vínculos dos aparentados, podemos dizer que o isolamento geográfico contribuía com essa prática. Reforçada até como um meio de manter suas propriedades, já que, casando entre si, não tinham a necessidade de dividi-las. Conforme relata a autora, uma das justificativas que contribuiu para que casassem com os da mesma nacionalidade foi a crença de que as mulheres brasileiras eram de “evitar o trabalho e esse estereótipo era suficiente para deter qualquer tentativa de um casamento interétnico.” (PAULICS, 2004) Este pensamento, de certo modo ofensivo e preconceituoso, perdurou na comunidade nas três primeiras décadas do século XX. Para Seyferth (1999), isto é um tipo de elaboração simbólica relacionada à história da colonização que existe em quase todos os outros grupos, mesmo em contextos urbanos. Renaux (1997) lembra que, devido ao fato das mulheres europeias participarem ativamente das tarefas ao lado do marido, estes estabeleciam um contraste entre a dona de casa brasileira e a europeia, gerando o preconceito de que a “mulher brasileira é má dona de casa”. Segundo Vero (2003), não se trata de preconceito propriamente dito, mas de expediente psicológico usado, como sobrevivência, negação do estrangeiro (no caso os brasileiros), uma espécie de defesa. “O diferente é tão ameaçador que a única forma de sobrevivência psíquica encontrada pelo grupo é o espelhamento na semelhança e o expurgo da diferença, criando uma espécie de círculo protetor à sua volta.” (VERO, 2003, p.143) Com o passar das décadas, já não era tão significativo na comunidade o casamento fechado, passando a acontecer casamentos de descendentes de


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húngaros com teuto-brasileiros. E, nos dias de hoje, os descendentes aceitam as mudanças, tendo ciência que o mundo mudou e as comunidades se abriram, enquanto os mais velhos ainda recebem com desaprovação o não cumprimento dos velhos costumes e tradições. Segundo Pfiffer (2010), no início da década de 1920 ocorreu um pequeno movimento migratório dos húngaros no Vale do Itapocu, quando algumas famílias partiram em direção às colônias de Hansa (Corupá/SC) e Schröderstrasse (Schroeder/SC). Esse movimento permitiu que o grupo que partiu pudesse constituir novas famílias em seu novo habitat. Em Hansa e Schröderstrasse, os descendentes de húngaros, no primeiro momento constituíram matrimônio preferencialmente com as famílias de origem germânica (alemã e pomerana) ligadas à Igreja Católica. As famílias alemãs de Hansa vieram diretamente da Alemanha, desembarcando no Porto de São Francisco do Sul, em 1897. Já os alemães de Schröderstrasse, se constituíam de colonizadores deslocados do Domínio de Dona Francisca, atual município de Joinville e da Colônia das Itoupavas Rega e Central, atual Município de Blumenau. Portanto, esse foi o primeiro movimento de êxodo dos imigrantes húngaros e seus descendentes, no próprio Vale do Rio Itapocu, o que permitiu a miscigenação desse grupo étnico com outros grupos e o início e desenvolvimento de novas colônias. Fazendo referência às tradições, nas festas de casamento os húngaros podiam apresentar parte de sua herança cultural e geralmente eram as maiores festas e permanecem guardadas nas lembranças de muitos descendentes. A Sra.. Olga Majcher (2010) lembra que o casamento envolvia toda a comunidade e os convites eram feitos por cavaleiros, sempre em duplas. Os cavalos traziam sinetas amarradas ao pescoço e eram ornamentados por fitas verdes, vermelhas e brancas “hoje me dou conta que eram as cores da Hungria” -, em suas mãos traziam uma bebida colorida, cuja garrafa também era enfeitada com fitas nas mesmas cores. Já de longe se ouviam os gritos e estes passavam pelas casas ou até mesmo na roça, onde muitos estavam trabalhando, “o convite era sacramentado com um gole da bebida oferecido ao convidado homem, seria uma ofensa se não aceitasse” 14

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.

Costume semelhante é realizado pelos descendentes de Pomeranos no Estado do Espírito Santo. Ver BAHIA, (2000).


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(MAJCHER, 2010) Sobre este assunto, Boglár (1998, p.12) relata: “Nos casamentos, que são sempre muito alegres, um costume que podemos reconhecer como húngaro é o da garrafa enfeitada com fitas coloridas, que passa de mão em mão, estimulando a animação reinante.” De acordo com Majcher et al. (2008), as festas de casamento geralmente aconteciam na casa da noiva e os preparativos começavam semanas antes, onde cada família reservava ovos, manteiga, galinhas, marrecos, patos e encaminhavam tudo para a casa da noiva, a título de colaboração. Os homens preparavam o Ingwerbier, uma espécie de cerveja de gengibre, produzida de modo artesanal. Posteriormente, já no decorrer dos anos 30, havia cervejas de fabricação industrial que abasteciam estas festas. Em entrevista, a Sra.. Olga Majcher (2010) relata que, para o casamento que acontecia no sábado, a matança dos galináceos, porcos ou boi, dependendo da condição financeira da família, era realizada na sexta-feira, pois não possuíam geladeiras para acondicionar as carnes e, também por este motivo, os casamentos geralmente aconteciam de maio a setembro, quando estava mais frio. As doceiras da comunidade preparavam o Strudell, o Kipfel (massa recheada com canela) e as Streussel Kuchen (cuca de farofa). O que eu achava impressionante neles era o mutirão, eles usavam muito para a colheita, para a construção de casas, para fazer festas, então, nem se fala. Lembro bem dos casamentos, as testemunhas pegavam a carroça e iam às casas, recolher o que as pessoas guardavam para levar ao local da festa. Na sexta-feira todos vinham ajudar, impressionante, traziam mantimentos nas carroças, em bacias, em cochos de madeiras que depois usavam para temperar carnes. Cada um levava o que tinha: toalhas, louças, talheres. Eles trabalhavam muito em mutirão, a festa era feita com a participação da comunidade, eles se ajudavam demais. (MAJCHER, 2010)

É a ideia de comunidade enquanto “coisa boa”, discutida por Bauman (2003), o agrupamento distinto, auto-suficiente e aconchegante, o senso de pertencimento a um determinado grupo social, sem ser individualista. A cerimônia acontecia no centro de Jaraguá do Sul, os noivos precisavam se deslocar de carroças e, no início da década de 1940, de ônibus. As missas geralmente aconteciam de manhã, era comum na época acontecerem casamentos


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com mais de um casal. O Sr. Afonso Steillein (2009) nos relata seu casamento “Nós casamos, sábado de manhã, na matriz. E naquele tempo se casava e fazia tudo num dia só, mas a minha festa começou sábado de manhã e foi até domingo de noite.” O Sr. Afonso conta que saiu de Garibaldi às 5h da manhã, foi de ônibus, juntamente com a noiva e todos os parentes, ao chegarem ao centro da cidade foram direto para a igreja, onde o padre já os esperava para a cerimônia. Em seguida se dirigiam até o fotógrafo para a foto oficial. Ele menciona o costume das garrafas coloridas que se repetia na festa a exemplo do que ocorria quando os convites eram feitos, “cada testemunha pegava uma garrafa de licor e amarravam com fita para oferecer um gole para os convidados quando voltávamos para a casa.” (STEILLEIN, 2009) Um longo ritual se seguia nos festejos, entre brincadeiras, danças, refeições, ornamentação das casas. A música, que era realizada por seus vizinhos e conhecidos, geralmente por um bandoneon, um violino e um tambor, onde todos dançavam e se confraternizavam, assim estava formada mais uma família. E de acordo com o relato de Olga Majcher (2010), “não havia lua-de-mel, os noivos, na segunda-feira iam para a roça, iam trabalhar normalmente, acho que eles nem conheciam a expressão „lua-de-mel‟, não tinham colher-de-chá.” Além dos casamentos e do Kirytag, já mencionado, outras comemorações ligadas à religiosidade tinham destaque especial na comunidade, como a primeira comunhão, a páscoa e o natal, e estas festividades despertam lembranças nos descendentes, principalmente no que se refere às tradições culinárias. 3.4 O Cotidiano

[…] já está na mesa o almoço da quermesse, a sopa de carne húngara, seguida de frango com páprika, vindo o repolho recheado e depois os famosos rétes (pastel de massa sovada recheado). Esses maus hábitos, da boa comida, trouxeram para o Brasil. De vez em quando ficamos admirados, não sabendo onde a boa camponesa húngara consegue obter os ingredientes para fazer uma comida tão típica, igual a da Hungria. (BOGLÁR, 2000, 157)

A citação de Boglár diz respeito a uma visita do Cônsul na década de 1940, em Szentisvánkirárlyfalva (Aldeia de Santo Estevão), localizada na região da Serra


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da Cantareira em São Paulo, porém, cabe utilizá-la para discutir a culinária húngara da região de Jaraguá do Sul. Nas memórias dos entrevistados, destacam-se a sopa de carne de galinha e bovina com macarrão caseiro e páprika, o marreco e as carnes com diferentes molhos de páprika. O rétes, citado por Boglár, é na língua húngara o Strudel, um dos símbolos da culinária húngara de Jaraguá do Sul. Aliás, na culinária da comunidade húngara jaraguaense, muitas receitas que vieram da Europa com os imigrantes foram adaptadas de acordo com os ingredientes que dispunham. Assim, a sopa de batata, que era usada em diversos pratos na Hungria, virou sopa de aipim, os recheios dos Strudel passaram a ser banana, repolho, palmito. Paulics (2004) menciona que quando o assunto são os costumes alimentares, os descendentes de húngaros de Jaraguá do Sul preparam pratos de modo semelhante aos que até hoje são feitos nas aldeias suábias de Bakony. Citando, como exemplo, Krautzwekkel (quadradinhos com repolho); Kippel (um tipo de croissant em forma de coração, cor canela); Kaltschen (uma rosa de massa fermentada, recheada); Strudel (massa folhada com recheios variados); kropfl (sonhos). Assam pão em casa, que é servido com lingüiça, queijinho, torresmo, banha, queijo de porco (geléia suína). De acordo com Elizabeth Weiller, era comum nas refeições comerem repolho recheado e, próximo ao natal, matar um porco para fazer linguiça, chouriço e queijo de porco. O abate do suíno seguia um ritual na elaboração e produção: confecção de linguiças, morcilhas (morcelas), torresmo, Speck (toucinho, bacon), schmalz (banha). As carnes são salgadas e depois defumadas, “guardávamos no teto e comíamos no desjejum” (WEILLER, 2010). Em uma de suas visitas às comunidades húngaras, o Cônsul Boglár descreve o afeto com que é recebido na casa de uma camponesa, lhe oferecendo o que de melhor tem em sua cozinha, “rapidamente ela preparou uma mesa, com pão recheado e um pão inteiro do tipo Bácska, do tamanho de uma roda de carroça! 'Sirvam-se e comam com saúde'. Ofereceu a senhora com um orgulho que transparece felicidade,” (BOGLÁR, 2000, p.159) O Cônsul descreve que, ao despedir-se, a senhora pede mais um momento e o leva para a cozinha onde está o fogão a lenha, onde aponta para cima pedindo para dar uma olhada:


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O que viram meus olhos, o teto com respiradouro estava lotado de toucinhos defumados, costeletas, carnes, presuntos e outros derivados suínos pendurados. A dona da casa pediume que não a interpretasse mal sua demonstração de felicidade, porque é assim mesmo na casa de um agricultor na aldeia do Rei Santo Estevão. (BOGLÁR, 2000, p.159)

Através dessas informações percebemos que a qualidade de vida dos agricultores melhorou com relação a sua vida na Hungria e também às primeiras décadas após a imigração, principalmente no que diz respeito à alimentação. Estes valorizavam suas conquistas, agradecendo a Deus os alimentos que recebiam, fruto de seu esforço. Apesar do trabalho árduo, pois os produtos que consumiam provinham quase exclusivamente da lavoura e da pecuária, seu progresso era perceptível e, aos filhos que iam chegando, eram lembrados da situação de subsistência que seus antepassados viviam na Europa e as dificuldades dos primeiros anos desses em Jaraguá do Sul. “O agricultor húngaro planta verduras e legumes, como na sua aldeia de origem, e nas suas casas podemos comer a mesma boa sopa de carne ou o assado como nos bons almoços de domingo na Hungria” (BOGLÁR, 2000, p.126). A sopa de carne com páprika, conhecida como Goulash, é um prato que tem algumas variações em seu preparo, mas podemos citá-lo como um prato tipicamente magyar. Historicamente o goulash, em húngaro gulyás, que significa comida de vaqueiro, era preparado pelos pastores magyares com carne de vaca cozida, cebolas, batata, banha de porco e páprika, o condimento símbolo da Hungria. A sopa de galinha com macarrão caseiro e páprika, servida geralmente como entrada nos almoços de domingo ou em ocasiões especiais, é outro prato que foi difundido pelos imigrantes húngaros na região, sobretudo por causa da páprika. De acordo com Majcher et al. (2008, p.323) “Uma típica refeição húngara tem três momentos: uma sopa de entrada, o prato principal e a sobremesa.” O Sr. Afonso Steillein lembra que sua mãe usava muita páprika, principalmente nas sopas, carnes de panela, nas saladas e nas conservas de pepino. Ela plantava no nosso quintal e, após colher secava ao sol ou no forno e moía, com uma garrafa, ia para a mesa em uma tigelinha e cada um colocava o quanto queria nas sopas ou nos outros pratos. “Nós chamávamos de 'póprikó' e isso era tão forte que se comesse pura era como se tivesse fogo na boca, os alemães e


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os italianos não comiam”. (STEILLEIN, 2009) Da culinária húngara presente na região de Jaraguá do Sul, difundida através das festas, e que hoje é um dos mais significativos símbolos de seu patrimônio cultural, é o Strudel. Principalmente o Strudel de ricota, que teve sua receita transmitida através das gerações. “A minha mãe fazia Strudel, ela era a cozinheira, fazia o de queijinho, de legumes, de amendoim. O Strudel? O Strudel era a base das festas de igreja, dos casamentos, isso era coisa especial para convidados” (STEILLEIN, 2009). Um dos motivos do Strudel ser preparado apenas em ocasiões especiais eram as dificuldades para se conseguir a farinha de trigo, ingrediente básico para a massa. A respeito das ocasiões que o Strudel era preparado, a Sra. Olga Majcher sintetiza da seguinte maneira: Não era todo dia em que tinha strudel. Eu nunca esqueço, quando nasceu minha filha, recebi um recado da minha tia: “venha até Garibaldi que a Omama vai estar te esperando”. A Omama queria conhecer a minha filhinha e naquele tempo era difícil, não tinha condução, mas nós conseguimos ir à Garibaldi, quando chegamos a minha tia disse: „hoje nós vamos fazer um strudel’ com todo entusiasmo, então o strudel era o prato principal para uma data especial, para um dia especial, para uma hora especial. (MAJCHER, 2010)

Strudel é uma palavra da língua alemã. Strudel, primeiramente, designa um redemoinho de água que se forma nos poços dos rios, no término das corredeiras. O Strudel, bolo de massa folheada e recheada, recebeu este nome pela sua semelhança, depois de enrolada, com os redemoinhos dos rios, e é conhecido em toda a Europa Central. Mas não se sabe, ao certo, de que região é originário, nem em que época surgiu. A Sra. Elizabeth Weiller (2010) relata que “A massa é feita de farinha de trigo, depois de descansar, é esticada manualmente até formar uma folha bem fina, estendida sobre um pano. Depois se espalha o recheio sobre a mesma.” Este recheio, dependendo a região, pode ser de frutas, legumes, nozes ou ricota. Daí encontrarmos Apfelstrudel (Strudel de maçã), Kirschenstrudel (Strudel de cereja) nas regiões do sul do Brasil colonizadas por alemães, e na região de Jaraguá do Sul, o Käsestrudel (Strudel de ricota ou queijinho fresco), o Strudel de banana, repolho, amendoim, palmito e outros.


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Depois de colocado o recheio, a massa é fechada, levantando-se as pontas do pano, formando assim dois canudos que, por sua vez, são enrolados de forma circular em uma forma e assado. A Figura 9 mostra algumas descendentes de húngaros preparando o Strudel para a Festa da Comunidade de Santo Estevão. Nota-se a quantidade de mulheres envolvidas na atividade, a massa aberta sobre a mesa e os diversos ingredientes cobertos com toalhas xadrez nas prateleiras e mesas ao redor das “confeiteiras”

Figura 9 - Mulheres descendentes de húngaros preparando o Strudel (1993) Fonte: Acervo Associação Húngara de Jaraguá do Sul

O Strudel era servido nos almoços, onde era apreciado com o marreco, churrasco, aipim e também nos cafés, acompanhando outros doces de sua culinária. Conforme o pesquisador Egon Jagnow, o strudel de ricota foi trazido para a região pelos imigrantes húngaros que se estabeleceram nas localidades de Garibaldi, Jaraguazinho, Ribeirão Rodrigues, Jaraguá Alto (Santo Estevão), até a localidade de Jaraguá 84. Até hoje, seus descendentes são hábeis confeiteiros do mesmo, mas o Strudel se difundiu entre todos os moradores da região. O Strudel de ricota, hoje, é um prato típico e exclusivo de Jaraguá do Sul, um prato vindo no final do Século XIX, com


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os imigrantes húngaros, para uma das duas únicas colônias húngaras estabelecidas no Brasil, naquele século. (JAGNOW, 1991)

Segundo a Sra. Bárbara Foggert (2010), o Strudel de Ricota, que veio para a região com os imigrantes húngaros, é resultado das necessidades que este grupo tinha quanto à alimentação, dizendo que a ricota é um subproduto do leite, ou seja, o leite que sobrava das propriedades era utilizado para rechear o Strudel, pois na casa dos senhores o Strudel era recheado com maçãs, nozes, e outros produtos mais nobres. Neste caso podemos fazer uma analogia com outros pratos da culinária dos imigrantes que surgiram da necessidade e tornaram-se comida típica, como o germânico eisbein, que é o joelho do porco cozido ou assado, a polenta dos italianos, a Czarnina dos poloneses, que é sangue de aves cozido com beterraba e batatas, entre outros. Ao longo das entrevistas realizadas com os descendentes de húngaros, percebeu-se que quando o assunto é gastronomia, todos têm uma boa lembrança. Cabe ressaltar que os pratos citados eram servidos em ocasiões especiais, geralmente aos domingos, quando recebiam visitas ou em eventos comemorativos. Suas refeições do dia a dia eram à base de pão de milho ou de aipim, arroz, feijão, batata doce e aipim cozido, verduras e frutas da época, principalmente a banana, ou seja, alimentos bem brasileiros. Destacamos aqui a fala do Sr. Afonso Steillein (2009): Éramos uma família grande, geralmente passávamos a pão com banha. Às vezes a mãe nos dava um ovo. Mas, o principal era o aipim e o arroz socado no pilão. Só comíamos bem aos domingos, quando a mãe fazia uma sopa, matava um frango, preparava tudo, ia ao culto, depois voltava e acabava de fazer o almoço. Como era gostoso!

Apesar de alguns itens se diferenciarem na comida suábio-húngara e teutobrasileira, com destaque para a páprika, percebe-se semelhanças na culinária das duas etnias, como os já citados marreco assado, o Strudel, os derivados suínos, as cucas de farofa, entre outros. Para Ademir Pfifer (2010) “na gastronomia, os húngaros, revelaram parte de sua identidade germânica, a qual estava fortemente ligada aos costumes alemães da velha Europa.” Outro elemento que se deve citar a respeito dos costumes é a arquitetura. Após as primeiras moradias de pau a pique, com a melhora da condição social das


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famílias, os imigrantes e seus descendentes passaram a construir suas casas e a técnica utilizada era a enxaimel (fachwerk), muito empregada aqui no Brasil pelos imigrantes alemães. Não se pode precisar se este foi outro componente que emigrou com os colonizadores do Sudoeste da Alemanha à Hungria e, posteriormente, os imigrantes húngaros trouxeram para Jaraguá do Sul, ou se as casas em enxaimel, construídas na primeira metade do século na região de Garibaldi, tiveram influência dos vizinhos teuto-brasileiros. O cotidiano da comunidade dessa época era marcado pelo trabalho na roça, o trato com os animais e manutenção das casas, trabalho atribuído exclusivamente às mulheres. De acordo com a Sra. Elizabeth Weiller (2010), as mulheres, além de acompanhar aos maridos nas lavouras, precisavam manter a casa em ordem, lavar, costurar e zelar pelas roupas da família, preparar as diversas refeições para a prole, juntar lenha para o fogão e forno de barro. Era uma jornada tripla, inclusive nos finais de semana, com exceção do horário da missa. A Sra. Olga Majcher retrata alguns costumes e lembranças desta época. Dos utensílios domésticos, ela se recorda das louças esmaltadas e panelas de ferro, das manteigueiras feitas com bambu, das grandes leiteiras, dos armários de madeira com telas em suas aberturas. Lembro dos talheres, que precisavam ser areados com cinza escaldada, da saboneteira e bacias no canto da cozinha para higiene pessoal, das cobertas das cama, feitas com pena de ganso e de marreco. As lamparinas à querosene que, além de iluminar, serviam para espantar os borrachudos com sua luminosidade. (MAJCHER, 2010)

Suas compras eram realizadas no Geschäft (venda, negócio), que era um armazém de secos e molhados, onde era vendido ou trocado de tudo um pouco, o suficiente para as necessidades básicas. Geralmente era o ponto de encontro da comunidade, principalmente nos sábados à tarde, onde vendiam seus produtos e compravam sal, tecidos e querosene. Lá também funcionava o serviço postal, as cartas vinham em nome do comerciante que as distribuía. No Geschäft os colonos também iam saber as notícias, pois não tinham rádio, e ali era um ponto de informações. “Meu avô estabeleceu comércio, tinha que trazer as mercadorias de Blumenau com cargueiro, como também para lá transportá-las, principalmente ovos, que eram envoltos em palhas de milho e acondicionados em balaios no lombo das


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mulas.” (MAJCHER, 2010) A Figura 10 mostra o Comércio de Georg Wolf na década de 1930. Esta casa, construída na técnica enxaimel, estava localizada em Santo Estevão. Além do comércio de “secos e molhados”, este espaço era utilizado como salão de bailes, dormitório para os viajantes, sala de aula e reuniões com a comunidade (MAJCHER et al. 2008). Provavelmente, quando a foto da figura 10 foi tirada, estava acontecendo alguma festa no local, considerando-se a quantidade de pessoas no terraço.

Figura 10 – Casa de Comércio de Georg Wolf (Déc. 1930) Fonte: Acervo Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

Segundo Öry Kovács (2010), nas décadas de 1930 e 1940, os imigrantes e seus descendentes construíram casas comunitárias, organizaram a venda de seus produtos no mercado começaram a transformar matéria-prima nas serrarias e olarias da região. A estrutura da família também mudou, cresceu o número de casamentos, com as pessoas casando mais cedo. O número de filhos aumentava devido a melhora das condições de vida, a necessidade para trabalho ou ainda a não utilização de métodos anticoncepcionais, provavelmente pela forte influência da


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igreja católica junto ao grupo. A parteira da comunidade era a Sra. Maria Wolf Gascho, conhecida como “Frau Gascho” ou “Tante Mary”, mãe da Sra. Elizabeth Gascho Weiller (2010) que conta. Minha mãe era uma parteira muito procurada. Vinham às vezes homens com cavalos prontos para ela montar e iam longe, nos interiores. Ela ajudou muita criança a nascer, e se ela via que não dava, ela já procurava ajuda, ela que tinha anotado na caderneta dia e hora de todos os partos que fizera.

Nesse período, não havia farmácia e muito menos um médico, os mais antigos contam que utilizavam remédios naturais e de serviços de massagistas, quando o caso era fratura ou luxação de algum membro. “Eu mesmo, quando quebrei o braço em dois lugares, quem concertou foi meu avô (Georg Wolf Filho), sem remédios, ele ajeitou os ossos, enfaixou o braço, com tabuinhas finas e tiras de lençóis amarrados ao pescoço.” (MAJCHER, 2010) O Sr. Afonso Steillein (2010) também comentou aspectos do tratamento à saúde: Dentista não existia, então quando tinham dor de dente, ia lá ao ferreiro e arrancava fora, sem anestesia sem nada. Um dia meu pai me chamou, ele tinha um dente que doía, - Vamos lá perto da roda de água. Deu-me uma torquês e me mandou arrancar, não só o que doía, mas todos os outros também, pra ele poder botar dentadura, a água era para jogar nele se ele desmaiasse. Eu firmava a torquês e puxava, cada dente que eu arrancava dele, ganhava um pescoção.

Conforme Majcher et al. (2008), tinham conhecimentos elementares para cuidar da saúde dos animais, sabiam quando um bezerro ia nascer ou como proceder quando algum animal ficava doente. Referente às indumentárias, as mulheres eram fiéis aos costumes trazidos da Europa. Paulics (2004) relata que as senhoras idosas mostravam lenços e aventais, dizendo que seus antepassados tinham trazido da Hungria. Falavam que as mulheres sempre usavam lenços na cabeça, branco ou preto, amarrado à frente ou atrás. Não saíam de casa sem ele. Uma de suas entrevistadas contou que: sua avó sempre usava roupa escura, mas quando saía de casa tirava o avental e punha o lenço à cabeça. O lenço era parte do vestuário. As mulheres tinham pelo menos dois lenços: um de uso diário, de amarrar atrás e outro de festa. Outra característica da


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indumentária feminina era a saia de quatro camadas, que era usada pelas mulheres húngaras de Jaraguá do Sul e pelas camponesas suábias na Hungria (PAULICS, 2004). A figura 11 mostra um grupo de imigrantes húngaros e seus descendentes, provavelmente após a missa, considerando-se que as mulheres apresentavam-se segurando pequenos livros nas mãos que devem ser bíblias.

Figura 11 – Indumentária em dia de missa em Santa Cruz (Déc. De 1930) Fonte: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

Quanto aos homens, suas vestimentas assemelhavam-se com as dos agricultores alemães, italianos e outros. Para o trabalho na lavoura se utilizavam de roupas mais simples e geralmente trabalhavam descalços. Já, para irem à igreja e a outros eventos sociais, trajavam calças, camisas e paletós e calçavam botas e /ou sapatos e costumeiramente usavam chapéus, detalhes que podem ser vistos em parte na figura 11. O que diferenciava os descendentes de húngaros era os seus longos e bem cuidados bigodes. Com referência às lembranças materiais trazidas da Hungria, pouco restou no


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âmbito familiar: algumas ferramentas, livros, imagens do Imperador Francisco José, poucos documentos com datas, locais e identificação de seu proprietário e fotografias. A figura 12 mostra uma fotografia da família de Johan Woisch e Teresia Pangratz tirada na aldeia de Zirc e outra, conseguida por Petra Paulics durante suas pesquisas em Jaraguá do Sul, tirada em Devécser, região de Veszprém. “Parecem ter sido feitas às vésperas da viagem, os trajes visíveis nas fotos retratam os costumes das aldeias suábias de Bakany, onde as mulheres mais idosas até hoje usam tais vestimentas.” (PAULICS 2004, p.12)

Figura 12 – Fotos de Famílias nas aldeias de Zirc e Devécser (final do séc. XIX) Fonte: Wilma Weiler Kitzberger e Petra Paulics

Olga Majcher (2010) conta que gostavam muito de ler os livros trazidos da Europa e ouvir, aos domingos, pequenos discos de músicas húngaras: “Ômama (avó) pegava com cuidado sua caixinha de música trazida da Hungria e colocava um disquinho com muito carinho para nós escutarmos, foi assim que conheci as csárdás.”


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Eram chamadas de Csárdás, vendas do interior, que serviam de estalagens, uma espécie de taverna, onde se tocavam músicas com violinos ciganos. “Toda Csárdá tinha um cigano tocando violino e outro dançando e sapateando, aí começaram a chamar as músicas de Csárdás, as danças de Csárdás, e virou dança folclórica.” (FOGGERT, 2010) O entretenimento dos colonos, na primeira metade do século XX, baseava-se em caçadas e pescarias ou ainda nos encontros festivos realizados “na casa de Georg Wolf, onde os moradores compareciam em traje completo, ao mais refinado estilo de vestir da terra que haviam deixado na Europa.” (SCHMÖECKEL, 1987) Segundo Majcher et al.(2008), além das festas religiosas e os almoços festivos em família, tinham os bailes, que eram realizados no amplo salão da casa de comércio de Georg Wolf Júnior e, a 500 metros do salão, ficava o stand de tiro ao alvo, onde “o atirador que conseguia fazer o maior número de pontos, durante o baile à noite era aclamado o Rei do Tiro, para o período de um ano. Assim, era dada continuidade à tradição trazida da Europa” (MAJCHER, 2008, p.207). Essas considerações de Majcher reforçam a existência de laços culturais entre húngaros e teuto-brasileiros, já que, na região, a tradição das Schützenverein (Sociedades de Atiradores) e Festas de Rei do Tiro são atribuídas à colonização alemã. Ainda tinham as reuniões sociais e festivas na Sociedade Austro-Húngara, “Naquele tempo organizavam seus encontros na sala da casa do comerciante Ferenc Fischer, aonde não faltava o baralho, a dança folclórica e outras manifestações artísticas.” (BOGLÁR, 1998, p. 6) Ferenc Fischer era uma espécie de líder comunitário entre os húngaros de Jaraguá do Sul. Nascido em Veszprém, na Hungria, chegou à cidade com quatorze anos e, por sua atuação na comunidade, em 1934, “Foi credenciado pelo Consulado da Hungria, sediado em São Paulo, para tratar dos interesses de seus compatriotas até 1942, mantendo contato com o Ministério do Exterior daquele País.” (SILVA, 1976, p.150) Segundo Öry Kovács (2006, p.12), Fischer era “um corifeu para os húngaros de Jaraguá”. Ele exerceu atividades de cronista, delegado, advogado da comunidade, representante da diplomacia, realizava marcação de terrenos e medição de fronteiras.


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Ferenc Fischer era o intermediário entre a comunidade húngara de Jaraguá e muitas organizações na Hungria. Na primeira metade dos anos 1930, os húngaros trocavam correspondência regularmente com o Departamento Americano da Aliança Nacional Húngara e, na segunda metade com a União Mundial dos Húngaros. (ÖRY KOVÁCS, 2006, p.6)

Nesse período, Fischer, representava os interesses dos imigrantes e seus descendentes, trocava correspondências com autoridades húngaras e recebia regularmente livros e jornais daquele país. As ideias de Ferenc Fischer coadunavam com os interesses do consulado no que diz respeito à manutenção das tradições húngaras na comunidade. “Temos que ler livros húngaros para manter a nossa cultura e para assegurar, nos húngaros do exterior a continuidade e o respeito pelo passado magyar, assim como o interesse pelo futuro do nosso povo.” (BOGLÁR, 2000, p.99) No final da década de 1930 e começo da década de 1940, segundo Pomogáts (2006), a economia húngara passava por dificuldades, o sistema político recém implantado não trazia nenhum tipo de modernização social, pelo contrário: mantinha os privilégios das classes dominantes tradicionais. A classe dirigente política e o povo húngaro não aceitavam as injustiças do pacto de paz do Tratado de Trianon e reagiam contra a política de repressão de que foram vítimas três milhões de húngaros, mas os governantes do país não se preocupavam com a necessária modernização da sociedade e sim, com uma revisão territorial das perdas com o Tratado. Fischer foi o responsável pela recepção das visitas oficiais do cônsul Lajos Boglár em 1940 e 1941, quando este veio a Jaraguá do Sul acompanhado do embaixador Miklós Horthy Jr. Sobre este assunto, a Sra. Yara Fischer Springmann (2010), neta de Ferenc Fischer, relata: O meu avô falava, lia e escrevia em húngaro com rendimento, quando veio o cônsul Boglár, foi ele quem o recepcionou. Ele mantinha correspondência com a Hungria, era uma espécie de cônsul na região e chegou a ser convidado oficialmente para ir à Hungria, infelizmente não pode ir. O meu avô tinha o espírito húngaro, tanto que os nomes de seus filhos eram Arpát, Béla, Geza, nome de líderes e reis húngaros.

Fischer, em suas cartas, comunicava ao mundo exterior que os húngaros de Jaraguá do Sul tinham traços da cultura húngara e era perceptível sua preocupação


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com a opinião dos húngaros da Hungria. Em uma de suas cartas, encaminhadas à Hungria, Ferenc Fischer escreve: “A maior parte dos húngaros é católica, infelizmente a língua húngara está morrendo e há só poucos velhos que a falam. Mas os costumes nacionais ainda estão vivos. [...] Se festeja a páscoa de maneira húngara, e também se festeja a quermesse como na Hungria” (in ÖRY KOVACS, 2010). Katalin Öry Kovács traduziu parte das correspondências encaminhadas e recebidas por Fischer, que ocorria em duas línguas: “as cartas partiam do Brasil em alemão e voltavam em húngaro da Hungria. É paradoxo e ambivalente que Fischer, que falava bem o húngaro, ainda assim escreveu suas cartas em alemão.” (ÖRY KOVÁCS, 2010, p.32) Öry Kovács (2010) menciona que, geralmente, nas cartas enviadas por Fischer aparecia o problema de não falarem a língua húngara, mostrado como algo negativo, causando-lhe remorso de consciência, e nas cartas de resposta recebia o consolo das autoridades húngaras de que este era um fato de pouca importância. Destacamos algumas frases das cartas escrita pelo Barão Perényi Zsigmond para Ferenc Fischer: “Embora sua língua materna não seja a húngara, devem manter o apego à pátria antiga e [...] o sentimento húngaro.” (PERÉNYI, 04 de setembro de 1936) “Esta pátria abraçava e abraça com amor os seus cidadãos de todas as línguas” (PERÉNYI, 18 de outubro de 1937) “Por favor, tenha a coragem para escrever em alemão a nós que nos interessamos pela sorte de todos os ex-cidadãos da Hungria que, talvez na língua não, mas no coração se sentem húngaros.” (PERÉNYI, 07 de abril 1936) De acordo com Öry Kovács (2010), nas expressões das correspondências oficiais entre Jaraguá do Sul e a Hungria, se podem observar uma permanente ideologia declaradamente húngara, baseada em valores nacionais e cristãos. O tratamento

era

quase

exclusivamente

“Prezados compatriotas!”. As cartas

reverenciavam Santo Estevão e seus ideais e as despedidas continham adjetivos como: “patriótico”, “com estima patriótica” “lembranças patrióticas, “com amor patriótico” e, por ventura “com amor húngaro”. Ferenc Fischer, por ser representante oficial do consulado húngaro em Jaraguá do Sul, tinha por objetivo difundir os interesses da Hungria para com os imigrantes e seus descendentes. São de Fischer os poucos registros existentes


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sobre a comunidade nas décadas de 1930 e 1940. Apoiado pelas autoridades húngaras, Fischer, a seu modo, tentava conservar as tradições magyares em Jaraguá do Sul, tarefa difícil por vários aspectos, se destacando o passado suábio desses imigrantes e o presente vivido em terras brasileiras, pois a prioridade dos colonos era o trabalho.

3.5 Um idioma híbrido

Percebe-se que neste período o idioma alemão era muito difundido na comunidade. As expressões utilizadas para nomear certos costumes eram germânicas. Como relatam os entrevistados, nas escolas as aulas eram em alemão, nas igrejas os cultos eram realizados no idioma germânico e quando aconteciam missas eram partes em latim, partes em alemão. As preocupações que Fischer manifestava às autoridades húngaras com referencia à língua eram constatadas no dia a dia da comunidade, que vivia um período de transição no que diz respeito ao idioma, pois dos mais velhos, que tinham emigrado da Hungria, muitos já não estavam entre eles, e entre os mais novos o idioma húngaro não estava incorporado em seu cotidiano. “Tenho que mencionar que estes anciãos já são considerados como a segunda geração, pois os pais, imigrantes há cinqüenta anos reuniram-se a seus ancestrais! Estes bravos homens, alguns dos quais não falam uma palavra húngara sequer” (BOGLÁR, 2000, p.168) Já se discutiu nesse estudo sobre alguns dos motivos que levaram ao desaparecimento da língua húngara em Jaraguá do Sul, porém, pelo fato do Schwäbisch diferir do idioma alemão falado pela vizinhança teuto-brasileira, os descendentes dos imigrantes, acreditavam estar falando húngaro Nós falávamos nossa própria língua, o meu pai falava o Schwäbisch, um tipo húngaro, então quando nos encontrávamos com os rapazes aos domingos à tarde, escutávamos o dialeto deles, que era mais próximo do alemão, e nós não compreendíamos porque era diferente daquilo que nós falávamos em casa, só com tempo começamos a compreender. Eu ainda sei muitas coisas do dialeto que aprendi com meu pai, e é bem diferente do alemão falado aqui na região. (STEILEIN, 2009)


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A afirmação do Sr. Afonso Steilein, sobre o Schwäbisch ser um dialeto húngaro, é reforçada pelos discursos da maioria dos descendentes de húngaros da região. Sobre este assunto, Paulics (2004, p.14) relata que no decorrer de suas entrevistas “os mais velhos afirmavam que falavam húngaro, mas falavam Schwäbisch.” Paulics diz que, só depois de muito tempo de conversa com os descendentes de húngaros em Jaraguá do Sul, surgia uma ou outra palavra do idioma húngaro. “Esse engano provavelmente aconteceu pela influência do idioma alemão em Santa Catarina, onde os imigrantes foram perdendo as palavras húngaras e cada vez mais 'germanizando' o idioma.” (PAULICS, 2004, p.18) Paulics realizou suas entrevistas, em 2002, com membros da terceira geração de imigrantes e estes tiveram pouco contato com o idioma húngaro, talvez até tenham escutado seus avós falando o idioma magyar, mas não o assimilaram e passaram a confundir húngaro com schwäbisch. O Cônsul Boglár, quando visitou Jaraguá do Sul em 1940 e 1941, ainda falou em húngaro com os habitantes da comunidade, porém mencionou que eram mais as mulheres e as mais idosas que falavam a língua magyar, já que os homens trabalhavam fora e consequentemente tinham necessidade de se comunicar com outras pessoas. Por ocasião da recepção na grande sala, fomos cumprimentados por uma senhora de setenta e cinco anos, cujo falar húngaro era tão puro, que até na Hungria seria de admirar-se. A velha tia Burge trouxe, entre suas lembranças da pátria distante, uma linda canção antiga que hoje, já em Zala, seria peça de museu. (BOGLÁR, 2000, p.168)

Aqui existe um contraponto, se as avós conheciam o idioma húngaro porque não o repassaram a seus descendentes? Sabe-se que na época, as mulheres (mães e avós) tinham grande responsabilidade na educação dos filhos, segundo a Sra. Olga: “Elas tinham mais tempo e sensibilidade, colocavam as crianças no colo, cantavam, conversavam um pouquinho, as crianças tinham mais contato com as mulheres do que com os homens” (MAJCHER, 2010). Isto permite deduzir que talvez nem todos os que vieram da Hungria para Jaraguá do Sul tinham o domínio do idioma húngaro, e aqueles que o conheciam não o repassaram adiante por inúmeros fatores, um deles a “Campanha de Nacionalização” deflagrada em todo o Brasil no final da década de 1930.


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Quanto a conhecer o idioma magyar, uma das exceções era Ferenc Fischer. Sua neta, a Sra. Yara Fischer Springmann, em entrevista, diz que seu avô era um homem culto, veio da Hungria falando húngaro e alemão, o português ele aprendeu aqui, já seu pai (Francisco Fischer) não aprendeu a falar húngaro, só o alemão, e ela não aprendeu o idioma magyar por considerá-lo muito complicado e também por desinteresse. Eu lembro que o opapa (avô) queria ensinar o Húngaro pra nós, e a gente apanhava quase todo dia por isso, mas não, ninguém aprendeu nada. Tínhamos que ir a casa dele, mas o magyar era muito difícil, imagina uma criança pequena aprender uma língua arrevesada daquela, eu não tinha interesse nenhum. Corria dele, enganava, trepava nos pés de ingá entre outras coisas e a aula de Húngaro ficava pra trás (FISCHER SPRINGMANN, 2010).

Até 1940 os descendentes de húngaros usavam pouco a língua portuguesa, o idioma oficial do Brasil, pois a grande maioria desconhecia completamente o português, que é o caso do Sr. Afonso Steilein (2009): “Quando comecei a ir à aula, eu passei um ano e meio só aprendendo em alemão, e bem depois é que começou o brasileiro.” A língua falada na região não era propriamente o alemão gramatical (Hochdeutsch), pois os dialetos dos teuto-brasileiros na região, que eram o Pomerano, o da Baixa Saxônia e o da Baviera, mesclaram-se com o Schwäbisch e o português. Neste sentido, Dreher (1984, p.62) afirma: Eles não fizeram progressos no aprendizado da língua do país, perderam, contudo, paulatinamente, o conhecimento do alto alemão, passando, na segunda geração, a falar tão somente o baixo alemão, linguagem dialetal.

Conforme o historiador Egon Jagnow15, quando da adaptação de um idioma a uma nova região geográfica, há necessidade de neologismos: há animais, plantas e outras coisas que não existiam no local de origem deste idioma. Quando há uma língua em uso na região, ocorre a adaptação destas palavras. Foi o que ocorreu com a língua portuguesa, que assimilou e adaptou inúmeras palavras da língua indígena. O mesmo ocorreu com a língua que os imigrantes trouxeram. Por exemplo: os imigrantes não conheciam mosquitos; aqui se depararam com eles. Para designá-lo, 15

Palestra Rotas de Imigração Alemã, Húngara e Italiana realizada na ACIJS – Associação Comercial e Industrial de Jaraguá do Sul em 23/07/2010.


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tomaram a palavra em português e a germanizaram: mosquito se tornou Mosquiten. Este é um processo que inicia tão logo o imigrante chega ao novo espaço geográfico. Segundo Jagnow, num segundo momento inicia-se um novo processo de transformação da língua do imigrante. É quando, aos poucos, as gerações que o sucedem no novo ambiente começam a esquecer palavras da língua de origem. Em seu lugar, importam palavras da língua local, adaptando-as ao seu idioma. Um exemplo: “Das kind hat geschorat” (A criança chorou). Neste caso a pessoa perdeu a palavra de sua língua que designa chorar, mas guardou a desinência verbal resultando geschorat. Com o dialeto schwäbisch, dos imigrantes húngaros, ocorreu ambas as situações, na Hungria e no Brasil, fazendo surgir expressões híbridas, o que deu origem a um linguajar típico desta comunidade. Este dialeto, assim como os de outros grupos de imigrantes, não possui forma escrita e, com o passar dos anos, esses dialetos, que são marcas de identificação dos grupos étnicos, tendem a desaparecer.

3.6 O jubileu de ouro da imigração húngara em Jaraguá do Sul.

Os autores e pesquisadores de nacionalidade húngara, o cônsul Lajos Boglár, seu filho Luiz Boglár Jr., Kátalyn Öry Kovács e Petra Paulics retrataram em seus estudos e observações alguns aspectos relativos às décadas de 1920, 1930 e início da de 1940: os imigrantes que eram considerados húngaros no Brasil eram considerados alemães na Hungria. As autoridades húngaras tinham interesse pela comunidade húngara de Jaraguá do Sul. Os que vieram da Hungria confessavam orgulhosamente sua ascendência húngara perante as autoridades brasileiras e a vizinhança. Para finalizar as considerações sobre este período, busca-se um evento ocorrido em 1941, em comemoração aos cinquenta anos da imigração húngara em Jaraguá do Sul, quando estiveram presentes o embaixador Miklós Horthy Jr. e o cônsul Lajos Boglár. Conforme carta escrita em alemão por Ferenc Fischer, com


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data de 28 de outubro de 1940, endereçada ao Barão Zsigmond Perényi em Budapeste, estavam sendo preparados os eventos para a comemoração do cinquentenário da comunidade húngara em Jaraguá do Sul, que aconteceria no próximo ano (1941) e que o Cônsul Boglár foi convidado para os festejos. “Por ocasião do jubileu, pretendemos que a nossa Colônia, denominada como AustroHúngara, seja reconhecida como uma Colônia Húngara. [...] É uma alegria partilhar essas informações com Vossa Senhoria, espero que apesar da Guerra elas cheguem.” (FISCHER, 28 de outubro de 1940) As intenções e a atuação de Fischer frente à comunidade e o consulado são representadas nesta carta. Ferenc Fischer era influente e um importante aliado das autoridades húngaras e, quando este diz que a Colônia quer ser reconhecida como húngara, demonstra um sentimento que talvez não fosse a vontade de todos os descendentes de húngaros de Jaraguá do Sul, mas sim, dos húngaros da Hungria, já que nesta época o país precisava se firmar enquanto nação, pois há pouco tempo tinha se livrado do domínio dos Habsburg e estavam entrando na Segunda Guerra aliados à Alemanha. Também se percebe que, neste período, por parte de Ferenc Fischer, existe uma vontade de afirmar ou relembrar suas origens húngaras. Este momento não deixa de ser um “avivamento” da cultura magyar. Os contatos com a Hungria e as impressões de Fischer de que os húngaros de Jaraguá do Sul estavam cada vez mais se “germanizando”, não cultivando o idioma e as tradições magyares, influenciaram a realização de algumas ações para que aquela comunidade fosse reconhecida como uma “Colônia Húngara”, como se quisesse “apagar” ou “libertarse” do adjetivo austro ou austríaco, assim como fez a Hungria quando terminou o Império Austro-Húngaro. Nota-se também que nesta época, não fazem referência ao passado suábio de seus antecedentes. Fischer, exercendo sua função diplomática, foi um dos responsáveis pela organização dos festejos do jubileu da imigração. O principal evento aconteceu em Santo Estevão. Segundo Boglár (2000), mais de mil pessoas se reuniram em frente uma ampla edificação com jeito de casa húngara, os velhos imigrantes reuniram-se com seus filhos germanizados e netos brasileiros. Após as saudações festivas, o embaixador discursou ao grupo: “sejam orgulhosos de sua ascendência húngara; e vocês jovens, lembrem-se com orgulho da linda pátria de seus pais, a Hungria”


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(BOGLÁR, 2000, p. 196). Na sequência de seu discurso o embaixador pediu para os descendentes de húngaros serem cidadãos exemplares, bons trabalhadores, e respeitadores das leis desta terra hospitaleira que é o Brasil, trazendo glória para o nome magyar e conservando com amor o que é húngaro. Boglár (2000) destaca que as palavras do embaixador reavivaram, entre centenas de húngaros de Veszprém e milhares de seus descendentes, o amor pela pátria mãe. Dentro do salão, os jovens estavam ansiosos para a comitiva sair e darem início à dança, “O velho tio Steindl constatou com desprezo, - mas que gente é essa! Onde está o tempo quando aqui só se dançava o Csárdás?” (BOGLÁR, 2000, p.197) O comentário feito pelo Sr. Steindl, citado pelo Cônsul Boglár, apresenta o conflito cultural vivido pelos imigrantes, de um lado o passado saudosista das Csárdás, enaltecido pelo representante do governo húngaro, que não sabemos ao certo se chegou realmente a ser dançada naquele salão; do outro, o presente, representado pelos jovens alheios aos discursos proferidos no evento. O Sr. Steindl, assim como outros membros da comunidade húngara de Jaraguá do Sul, se reportavam a uma Hungria que não existia mais, uma Hungria romântica, mítica, idealizada, sendo ainda mais influenciados pelos discursos nacionalistas dos representantes do governo daquele país. Os fatos relativos à Hungria, bem como qual o interesse real das autoridades daquele país sobre a comunidade de Garibaldi, não eram de conhecimento do agricultor. Para os húngaros de Jaraguá do Sul, o ser húngaro ou austro-húngaro, as visitas das autoridades, os discursos nacionalistas, talvez fossem vistos somente como motivo de festa, pois no dia seguinte fazia pouca diferença, já que a lavoura os esperava, a fim de conseguirem o sustento de sua família. Não se encontram registros de quaisquer benefícios sociais, de saúde, educação, entre outros, que as visitas consulares pudessem ter para a comunidade húngara de Jaraguá do Sul. Também não podemos afirmar que essas visitas e os discursos estivessem relacionados com o período de instabilidade vivido na Europa, que resultaria na Segunda Guerra Mundial. Talvez a presença das autoridades húngaras tivesse apenas caráter diplomático, festivo, de assistência e incentivo moral aos imigrantes e seus descendentes, mas são assuntos que não devemos deixar de relacionar acerca dos motivos que trouxeram estas autoridades a Jaraguá


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do Sul em uma época tão significativa na história mundial. Após cinquenta anos da chegada dos primeiros imigrantes húngaros em Jaraguá do Sul, um ciclo ia se encerrando, grande parte da primeira geração já não estava entre eles. Aos poucos as histórias da Hungria, da viagem de navio e os resquícios do idioma magyar iam se apagando, e se a terra de seus antepassados ainda estava em suas lembranças, seus descendentes não conheciam mais a realidade da Hungria. Nestas cinco décadas no Brasil, os imigrantes húngaros e seus descendentes tiveram, em seu cotidiano, experiências culturais de cunho germânico, magyar e brasileiro, o que contribuiu para a formação das novas identidades deste grupo. Com o início da Segunda Grande Guerra Mundial, um novo ciclo se abre e novas experiências e transformações continuarão acontecendo.

3.7 Tempos de Guerra

No final da década de 1930 e início da década de 1940, os imigrantes europeus de Jaraguá do Sul e região foram as personagens centrais da campanha de Nacionalização promovida pelo Governo Brasileiro. Por ocasião da 2ª Guerra Mundial, o Presidente Getúlio Vargas, embora no início tomasse uma posição de neutralidade no conflito, foi levado a posicionar-se contra os países do Eixo e a favor dos Aliados, tanto pela opinião pública nacional quanto pelos interesses do imperialismo norte-americano. “A declaração de guerra do Brasil à Alemanha e Itália fez explodir um surto nacionalista que coincidiu com um maior rigor na repressão ao 'eixismo'”. (SGANZERLA, 2001, p.142) Sendo assim, o governo adotou uma política de repressão às manifestações dos alemães e seus aliados no país e, consequentemente, os descendentes de europeus passaram a ser vistos como inimigos da Pátria. Mesmo com a Hungria fazendo parte do Eixo, em Jaraguá do Sul não existia distinção entre descendentes de húngaros e de alemães, pois para os “funcionários do governo” incumbidos de “policiar” a colônia, eram todos considerados alemães, até por que tinham praticamente os mesmos costumes, falavam a mesma língua e ambos os grupos


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sofreram as mesmas repressões. “A concepção predominante era a de se forjar uma identidade nacional única para o país, excluindo as diferenças e pluralidades étnicoculturais de nossa formação histórica.” (BITENCOURT, 2006, p 131) Para Dreher (2004), o forte impacto dos esforços de Getúlio Vargas e de seus seguidores, que buscavam a formação de um Estado nacional, primaram por negar o direito do "outro" à sua língua, seus costumes, sua identidade. O autor afirma que: Combatidas foram, especialmente de 1930 a 1945, [...] as tentativas daqueles grupos que buscavam exercitar conscientemente sua cidadania, sem, no entanto desistirem do legado cultural dos antepassados, designado de "germanidade", "italianidade", "polonidade", etc (DREHER, 2004, p.1)

Se no Brasil os descendentes de húngaros sentiam os resquícios da Guerra, na Hungria, sua população vivia diretamente suas consequências. Segundo Piller (2004), em 1941 os húngaros são pressionados pelo “Eixo” (Alemanha, Itália e Japão) a entrarem na Guerra, com a promessa de recuperarem os territórios perdidos, o que faz a Hungria declarar guerra à Rússia. “Assim, novamente nosso país se aliou com os vencidos. Além de centenas de milhares de vítimas da guerra, sobre a consciência nacional pesa também o extermínio de milhares de judeus e ciganos húngaros em campos de concentração” (PILLER, 2004, p.12). Neste período, no sul do Brasil, muito se falou sobre o “perigo alemão”, a infiltração de germânicos nazistas nas colônias para desestabilizar o País. Em virtude de sua concepção de nacionalismo e da sua identificação étnica com o povo alemão, os teuto-brasileiros foram vistos, tanto pela imprensa, como pela população lusobrasileira local, como “estrangeira”, e nos períodos de crise, chamados pejorativamente de “alemães”. Mas nenhum teutobrasileiro, conforme foi visto através das colocações da imprensa se considera estrangeiro. (SEYFERTH, 1981, p.105)

O termo pejorativo “alemão”, citado por Seyferth, foi utilizado em Jaraguá do Sul também para os descendentes de húngaros. Em entrevista, o Sr. Fernando Springmann diz que era chamado de “alemão batata” e “quinta coluna”, e que algumas pessoas foram agredidas na rua, “a gente tinha que se defender como podia, teve casa de alemães que foram destruídas, foi uma época muito feia e triste”. (SPRINGMANN, 2010) Um dos primeiros atos para atingir a pretendida nacionalização foi o


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fechamento das escolas alemãs. Isso repercutiu nas escolas da colônia húngara de Jaraguá do Sul, onde as aulas eram ministradas no idioma alemão: “[...] a Escola Alemã passou a ser vista pelos brasileiros como mais uma manifestação do perigo alemão, fato que gerou muitos conflitos, refletidos principalmente na imprensa teutobrasileira. (SEYFERTH, 1981 p. 134) Cabe salientar que, na tentativa de evitar o fechamento, trocavam-se os nomes das escolas. Um exemplo na cidade é o da Deutsche Schule (Escola Alemã) que mudou para Escola Particular Princesa Isabel. Mesmo assim, o fechamento da escola se deu em 04 de abril de 1939 mediante despacho exarado na Inspetoria Geral de Nacionalização do Ensino. (D‟AQUINO, 1942, p.165 e 167) As notícias e os motivos do fechamento da principal escola alemã de Jaraguá do Sul chegavam até a comunidade húngara e preocupava os agricultores, pois não demoraria muito para que as ações da campanha de nacionalização atingissem também suas escolas, onde o professor contratado pela comunidade só ensinava no idioma alemão e as crianças vinham para a escola sem saber o português. Segundo Klug e Ulrich (2008, p. 98 e 99), a localidade de Garibaldi contava com duas escolas, sendo uma Católica e outra Luterana, e devido as restrições da Segunda Guerra, a escola comunitária luterana foi fechada. “Alguns alunos desta escola se integraram à escola da Igreja Católica e outros se deslocaram para outras localidades. Com isso, acabou sendo fechada definitivamente a escola.” No entender de Klug e Ulrich (2008, p.18), “Igreja e escola formaram um binômio inseparável,

evidenciando

em grande

medida,

um 'comensalismo

institucional', visto que aquilo que afetava uma, repercutia diretamente na outra.” Os responsáveis pela Nacionalização perceberam a unidade e a importância dessas instituições para os descendentes dos imigrantes e as elegeram como principais alvos para a repressão, pois, assim, estariam atingindo as principais bases da comunidade. A proibição da língua foi particularmente significativa na zona rural, onde “a maioria da população sequer conhecia o português. Os colonos preferiam deixar sua mercadoria se perder a vir à cidade e enfrentar a situação criada pela proibição do idioma alemão.” (SEYFERTH, 1981, p.198) Sobre este assunto, ressaltamos o testemunho do Sr. Fernando Springmann (2010): “Eu aprendi a falar português com 10 anos, meus professores eram


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alemães, nossos vizinhos todos falavam alemão, a minha mãe morreu sem saber falar português. Então, em casa, só se falava alemão, na escola, só alemão e na igreja só alemão.” Assim, por falarem apenas o dialeto Schwäbisch, muitas senhoras evitavam sair de casa, para evitar as represálias. Nas memórias dos descendentes de húngaros, as histórias de perseguições, abusos das autoridades, prisões, se assemelham com os descendentes de italianos e alemães na região. A Sra. Yara Fischer Springmann (2010), afirma que, em suas lembranças, estão as pessoas que rondavam sua casa para espionar e escutar qual língua sua família estava conversando. Ela relata que moravam na beira do rio, e que sua família não podia falar o alemão e nem ouvir rádio e que às 22 horas tinham que apagar todas as luzes, “o meu pai ouvia o rádio à noite e nós crianças ficávamos de vigia, atrás de casa, na beira do rio porque a qualquer momento subiria uma canoa com a polícia pra meter o ouvido nas frestas.” Esta insegurança acompanhou muitas

famílias de descendentes de

imigrantes, pois desconheciam o porquê da repressão, as causas da guerra, e os objetivos da nacionalização. Também desconheciam o que era proibido, quem escreveu estas leis, o que podiam e não podiam fazer. Alguns membros da própria comunidade se aproveitavam da situação e amedrontavam estes agricultores, gerando desconfiança entre a vizinhança. Isso é que foi doído pra minha mãe. Ela não sabia uma palavra em „brasileiro‟. E veio essa época, só pode falar „brasileiro‟. Nós tínhamos vizinho espião que sabia falar brasileiro e ficou aliado do Getúlio Vargas, ele ficava escutando nas casas para entregar quem falava alemão. Meu pai sabia falar brasileiro, mas não estava em casa. Ele mandava castigar, fazia tomar óleo diesel, fizeram a gente sofrer muito. (STEILEIN, 2009)

Para Seyferth (1981), as opiniões acerca da nacionalização em Santa Catarina estavam calcadas em muitos preconceitos, o que contribuía para os excessos das “autoridades”. As Sociedades de Caça e Tiro do município também foram atingidas pela campanha de nacionalização e necessitaram mudar de nomes e costumes. As armas dos atiradores foram apreendidas e recolhidas no quartel-general da 5ª Região Militar de Curitiba. Os descendentes de húngaros, que tinham como entretenimento a prática do tiro, as entregaram também. “É certo que, conforme a adaptação linguística, é necessária também a cultural, especialmente durante a


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segunda guerra. Assim, era evidente que se acabaram as organizações húngaras, fecharam as escolas e outras instituições.” (BOGLÁR, 1998, p.12) Outro símbolo dos imigrantes húngaros atacado pela repressão foram os cemitérios, de acordo com Paulics (2004, p.12). “Nas lápides dos cemitérios, que estão sepultados os antigos, onde estava escrito em alemão In Ungarn (nascido na Hungria), a naturalidade foi alterada para brasileira, pintada sobre a original, pelos zeladores dos cemitérios, durante a 2ª Guerra Mundial.” Sobre a proibição dos cemitérios, Klug e Ulrich (2008, p.111) lembra que “entre os anos de 1938 e 1945 foram fechadas as portas dos cemitérios de muitas comunidades. Somente eram permitidos sepultamentos em cemitérios públicos.” Estas histórias, ocultas durante muito tempo na região, ainda emocionam as pessoas que as vivenciaram. Um fato interessante é que a cidade de Jaraguá do Sul foi, proporcionalmente à população de então, o município catarinense que forneceu maior contingente de jovens reservistas para integrarem a Força Expedicionária Brasileira, entre estes, descendentes de imigrantes húngaros, alemães e italianos que, enquanto lutavam pelo Brasil na Itália, tinham seus familiares considerados inimigos em seu próprio país. Segundo Elga Seidel (1998), Quando a Segunda Guerra estourou, nós, descendentes de europeus passamos muitas dificuldades aqui no Brasil. A guerra não destruiu apenas palácios, castelos e rodovias, a guerra destruiu muito mais do que isso, foi muita tristeza, muita desconfiança, foi muito difícil. Mas, eu sempre me considerei uma brasileira.

O contexto da Segunda Guerra Mundial mudou o comportamento e a vida social e cultural de todos os descendentes de europeus que tinham origem étnica no território dos países do Eixo (Itália, Alemanha e Áustria). Para as autoridades da era Vargas, a população com origem nesses países era suspeita. Em virtude desse clima tenso e vigilância exacerbada pelo aparelho de estado repressor, muitas famílias buscaram refúgio e outros caminhos para sobreviver às adversidades de ordem ideológica, pois a campanha de nacionalização deixou sequelas na região, gerando insegurança. O período repressivo deixou muitas histórias, mas em Jaraguá do Sul têm algumas que fazem parte da memória coletiva e hoje são contadas com humor pelos


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descendentes. São comuns as diferentes versões para o mesmo fato, como se tivessem vivido aquele momento, como a história do delegado que mandou prender um papagaio porque este falava alemão. Ou a história do danke schön, o muito obrigado em alemão; três dos entrevistados repetiram este fato em locais diferentes e como se este fosse realmente o acontecido: em um bar, o cidadão pediu uma cerveja, e ao pagar, o balconista perguntou se queria mais alguma coisa, no qual ele responde – Não, danke schön! Em alemão, a expressão “danke” soa como “tanque”. Como tinha um inspetor espião no bar que deu voz de prisão ao cidadão por ter agradecido em alemão, esse respondeu – “Eu não falei alemão, disse que estava com o tanque cheio, que quer dizer satisfeito”. (MAJCHER, 2010) O Sr. Afonso Steillein (2009) conta a história como se o tanque cheio fosse a caixa de água, que a vizinha, ao agradecer um pedaço de bolo, agradeceu em alemão e recebeu voz de prisão e, ao olhar para cima, viu o reservatório de água transbordando e apontou “tanque cheio, está abastecida”. A Sra. Yara Fischer Springmann (2010) diz que seu pai presenciou a cena, dando inclusive o nome do bar. Conforme Halbwachs (1990) salienta, na memória coletiva os fatos são contados como se estivessem sido vividos por seus narradores. Na perspectiva de Halbwachs, todas as lembranças são constituídas no interior de um grupo, as memórias são construções dos grupos, o autor traz para a discussão a necessidade do outro na construção das memórias. Segundo o sociólogo francês, embora sejam os sujeitos que lembram, são os grupos sociais que determinam o que é “memorável” e as formas pelas quais os acontecimentos serão lembrados, “[...] não é possível reter uma massa de lembranças em todas as suas sutilezas e nos mais precisos detalhes, a não ser com a condição de colocar em ação todos os recursos da memória coletiva” (HALBWACHS, 1990, p.187). Para Bosi (1994, p.67), Quando um grupo trabalha intensamente em conjunto há uma tendência de criar esquemas coerentes de narração e de interpretação dos fatos, verdadeiros “universos de discurso”, “universos de significado”, que dão ao material de base uma forma histórica própria, uma versão consagrada dos acontecimentos. O ponto de vista do grupo constrói e procura fixar a sua imagem para a história.

A segunda grande guerra interrompeu, principalmente depois do ano de 1942, com a entrada do Brasil na Guerra, o contato diplomático entre a Hungria e o Brasil.


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Para Boglár (2000), a Segunda Guerra Mundial contribuiu para que os húngaros do Brasil ficassem isolados do mundo exterior, pois a guerra cessou as possibilidades de comunicação por correspondência. O Sr. Fernando Springmann (2010) afirmou que o que contribuiu também para esse isolamento foi a instalação da “cortina de ferro”, dificultando e muitas vezes impedindo qualquer tipo de contato com os países do leste europeu. Portanto, além das consequências da “nacionalização” que os descendentes de húngaros enfrentavam aqui no Brasil, na Hungria, as consequências da Guerra também dificultaram os contatos com o exterior. Segundo Piller (2004), em 1943 o exército húngaro enviado para a Rússia foi aniquilado. A Hungria procura sair da guerra, mas suas tentativas fracassam. No dia 19 de março de 1944 as tropas alemãs ocupam a Hungria, formando um governo de direita, aliado a Hitler. As tropas húngaras e alemãs continuam a defender o fronte leste. Centenas de milhares de famílias húngaras conseguem fugir para o oeste, mas logo a Hungria se transforma em palco de guerra e, após meses de cerco, a capital Budapeste é invadida pelos russos. Com a rendição da Alemanha e o fim da 2ª Guerra Mundial, no dia 8 de maio de 1945 a Hungria é ocupada pelo exército da União Soviética. Acompanhando o exército soviético, líderes comunistas húngaros, treinados em Moscou, chegam à Hungria e, com o apoio das forças de ocupação, assumem gradualmente o poder. Fecha-se a "cortina de ferro" (vasfüggöny) e o país afunda no terror. Matias Rákosi, líder comunista, anuncia a ditadura do proletariado. As igrejas e seus seguidores são perseguidos. Propriedades particulares são gradativamente confiscadas pelo Estado. Camponeses são forçados a entrar em cooperativas. As prisões ficam lotadas. Torturas e execuções de parentes passam a fazer parte do cotidiano das pessoas. (PILLER, 2004, p.25)

A Hungria passa a ser comandada pelo regime comunista da União Soviética. O fechamento da "cortina de ferro" em 1949 dá início a um período de cinco décadas de repressão. De acordo com Boglár (1998, p.27) “A Hungria que recém tinha se livrado do domínio dos Habsburg, passa a ser dominada por outro império, o Russo, bem mais totalitário”. Para Martins (2004), a cortina de ferro traça a fronteira material e imaterial da divisão do mundo em dois blocos. A Europa, que renascia mediante os processos de


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consolidação da paz e da recuperação econômica e se reerguendo após a devastação da guerra, na lógica da neutralização de riscos e ameaças, atua em duas linhas de ação política. Uma a de compensar a ameaça de expansão do regime comunista vinda do leste. “Essa linha de ruptura, simbolizada pelo discurso de Winston Churchill sobre a cortina de ferro, se esgueira entre as políticas da guerra fria e inventa o conceito de „Europa Ocidental‟” (MARTINS, 2004, p.1). A outra, a de criar instrumentos políticos de preservação do espaço europeu ocidental do risco de um terceiro conflito mundial ou evitar a expansão do regime soviético. Para o autor, a combinação de ambas as linhas criou as condições para o desenvolvimento econômico e para o crescimento dos membros das Comunidades européias ocidentais. Como a Hungria estava no bloco oriental, sob a batuta do comunismo, também ficou isolada política, econômica e culturalmente do mundo ocidental e, consequentemente, do Brasil. O pós-guerra, além do rompimento dos contatos com a Hungria e as lembranças desagradáveis da “nacionalização”, deixou outros resquícios nessa comunidade, entre eles a desconfiança com relação ao futuro, pois não faziam questão de enaltecer suas origens, falar de seu passado, fato este que se refletiu nas décadas seguintes.

3.8 - Uma Cortina Cultural

No período do pós-guerra, algumas tradições da comunidade húngara de Jaraguá do Sul passaram por adaptações e mudanças. A religião continuou sendo o ponto de apoio e seus costumes culturais ficavam cada vez mais próximos dos teuto-brasileiros, que também sofreram modificações nesse período. O idioma português era assimilado na comunidade aos poucos. Ao contrário das décadas anteriores, onde predominava o alemão, a língua portuguesa passou a ser a oficial para os negócios, educação, religião, no trato com as autoridades, o que levava as novas gerações a aprender o português, para poder se relacionar socialmente. Em Garibaldi, o Schwäbisch, que tinha sido tão útil na chegada dos


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imigrantes, estava perdendo importância na vida social da comunidade e o idioma húngaro, que somente alguns mais antigos tinham domínio, era esquecido de vez. “Nesta época não existia nenhuma tradição húngara perceptível, não existia os símbolos, os objetos, os bens culturais. As décadas de 1950 a 1980 trazem o esquecimento de ser húngaro e a perda total da língua.” (ÖRY KOVÁCS, 2006, p.8) Diante disso, é interessante destacar a seguinte reflexão de Ademir Pfiffer (2010) a respeito dos imigrantes e seus descendentes no pós-guerra: As pessoas preferiram nesse período esquecer o passado, apagar o passado, e isto era justamente não demonstrar para os outros o seu modo de falar. Houve uma época que os descendentes de imigrantes, a partir dos anos 60, 70 e 80, tinham vergonha de falar a língua que aprenderam em casa, e essa língua materna era o Schwäbish, era o alemão, o pomerano, e isso era com todos os grupos étnicos.

Conforme Dreher (1984), as experiências da Segunda Guerra continuaram a ter consequências na época do pós-guerra, os descendentes de imigrantes europeus sentiam-se como cidadãos de segunda ou terceira categoria, mesmo depois de haver sido suspensa a proibição do uso do idioma alemão em 1946. Além desse sentimento de inferioridade apontado por Dreher, a desconfiança e o medo continuaram na comunidade, temiam a volta dos agentes opressores, futuras represálias, a perda de suas terras. Ademir Pfiffer (2010) relata que nos anos posteriores à Guerra, por conta de incertezas diversas e perseguições, e por pensarem que ao mudarem estariam se distanciando de futuras campanhas ideológicas, como no caso do “Nacionalismo”, algumas famílias húngaras migraram da região de Garibaldi para o município de Matelândia, no oeste do Estado do Paraná, para instalar uma colônia de agricultores, visando dedicar-se às culturas de café, soja e trigo. Jaraguá do Sul, a partir da década de 1950, passava pela transição de uma sociedade rural para uma sociedade industrial. As empresas começavam a se desenvolver na cidade quando foi solucionada a falta de energia elétrica. No início da década de 1960, o número de indústrias cresceu e se diversificou. Com este processo, que acontecia praticamente em todo o Brasil, muitos descendentes de húngaros deixaram suas terras e a agricultura para migrarem para o centro urbano da cidade, onde iam trabalhar nas indústrias têxteis, metal-mecânica e alimentícias que estavam sendo abertas ou ainda como pedreiros, carpinteiros e comerciantes.


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Algumas famílias migraram para cidades vizinhas, como Corupá, Schroeder e Guaramirim. Outras partiram para centros urbanos maiores, como Joinville, Porto Alegre e Curitiba. Seria possível caracterizar estes processos migratórios que ocorreram com parte dos descendentes de húngaros de Jaraguá do Sul como uma espécie de “pequena diáspora”, pois não se trata de um volume de pessoas muito expressivo. Conforme Hall (2003), o termo diáspora pode ser utilizado para deslocamentos que assumem a forma de migração ou a busca por outros territórios por iniciativa própria e por razões geralmente econômica, caso das famílias húngaras nas décadas que sucederam a Segunda Guerra. O termo diáspora tem origem nas palavras gregas “dia” que significa por meio de, através de, e “speiró” que é dispersão, disseminar ou dispersar. A expressão diáspora teve, como categoria social, diferentes significados e conotações ao longo dos tempos. Já foi definida como o deslocamento, forçado ou incentivado, de massas populacionais de uma zona de origem para variadas outras áreas de acolhimento. O termo foi potencializado com a globalização e, num conceito mais recente, diáspora assume um significado menos negativo, expressando a mudança para outros locais de certas comunidades, cidades ou países, por razões diversas, mantendo seus laços culturais e afetivos entre si e sua comunidade de origem (CASHMORE, 2000). Segundo Fernandes (2010), há entre os estudos diaspóricos e de migração, proximidades que, não raras vezes, levam a uma ampliação do conceito de diáspora, na medida em que este é empregado na caracterização de determinados fenômenos migratórios. A diáspora como a migração implicam uma interconexão entre dois ou mais grupos. Estabelece-se tanto em um processo como no outro uma relação entre o estrangeiro e a comunidade que o hospeda. [...] A diáspora e a migração são um processo de ação (semear, espalhar) e também de reação do sujeito na tentativa de se afirmar e se adaptar ao novo lócus cultural. (FERNANDES, 2010, p.5)

De acordo com Hall, em uma diáspora, as identidades culturais se tornam múltiplas, sendo que, ao mesmo tempo em que há uma força que impele o sujeito a não esquecer suas raízes, ele está imerso em um contexto que proporciona outras práticas culturais. “A falta de oportunidades […], podem forçar as pessoas a migrar, o


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que causa o espalhamento, a dispersão.” (HALL, 2003, p 28). Esta reflexão sobre diáspora teve lugar para tratar do início do espalhamento na comunidade húngara de Jaraguá do Sul, mesmo que aqueles que saíram não representassem uma grande massa em direção a um mesmo lugar, mostra que aquela colônia fechada das primeiras décadas do século XX estava se transformando, se adaptando ao mundo novo, buscando alternativas em terras diferentes. Os que ficaram em Garibaldi continuaram com seu trabalho na agricultura e, com mais recursos tecnológicos, aumentavam sua produção, dando preferência ao cultivo de banana e aipim. A pecuária também foi intensificada a partir da década de 1950 e o leite produzido em suas propriedades abastecia as indústrias de laticínios da região. Os contatos com outros grupos étnicos se intensificaram, não estavam mais tão isolados. A abertura de estradas, veículos de transportes mais modernos, novos meios de comunicação, na época o rádio era o mais difundido, e a chegada da luz elétrica facilitavam esses contatos. Os casamentos interétnicos eram cada vez mais frequentes, a comunidade recebia novos moradores e as transformações que ocorriam em outras partes do país e do mundo chegavam com mais rapidez até a localidade do Garibaldi. Esse conjunto de condições contribuiu com a miscigenação dos húngaros. Sobre esse assunto, a respeito dos teuto-brasileiros, busca-se Dreher: O correr dos anos fez com que as experiências fossem esquecidas. As animosidades espaireceram, a mobilidade da sociedade, o surgimento de um moderno complexo de meios de comunicação, além de outros fatores, levaram a que, sempre mais, os descendentes dos imigrantes vindos ao Brasil […], se sentissem parte integrante do povo brasileiro. Para que isso fosse alcançado, fora necessário um longo e, por vezes doloroso processo. (DREHER, 1984, p.52)

No que diz respeito ao lazer e práticas culturais, os descendentes de húngaros se aproximaram ainda mais dos teuto-brasileiros, chegando ao ponto de quase não haver diferença nas manifestações culturais dos dois grupos étnicos. Eu lembro que íamos para o Garibaldi e as festas eram tudo igual, não tinha diferença, era tudo festa de igreja. A música era as bandinhas formadas pelos agricultores lá do Garibaldi mesmo que tocavam, e era mais música alemã, mas também quantos anos já estavam aqui? De húngaros eles já não tinham


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mais muita coisa. (FISCHER SPRINGMANN, 2010)

O costume das Festas de Rei do Tiro foi retomado e no ano de 1957 foi fundada a Sociedade Atiradores "Independência", do Jaraguazinho, sendo grande parte de seus sócios fundadores descendentes de húngaros. De acordo com Kita (2000), a construção do salão de baile foi em mutirão, com doação de material e mão de obra pelos sócios. As Festas de Rei sempre foram concorridas na comunidade, iniciava pela manhã com “a marcha acompanhada de banda, que era recebida na casa do Rei, faziam um lanche e à tarde retornavam à sede onde, após as competições de tiro para escolherem o novo Rei, havia o baile.” (KITA, 2000, p.146) Para Öry Kovács (2010), o que contribuiu para os húngaros e seus descendentes darem preferência às formas de entretenimento teuto-brasileiras, foi que estes tinham uma oferta maior de oportunidades para passar o tempo livre. A autora também faz referência em relação à base econômica mais forte dos alemães, dizendo que muitos descendentes húngaros se empregavam em empresas cujo proprietário era teuto-brasileiro, o que acabava influenciando os costumes culturais desse grupo. A respeito das citações de Öry Kovács, deve-se enfatizar que ela, enquanto pesquisadora húngara buscava elementos que justificassem a perda dos costumes magyares na comunidade húngara de Jaraguá do Sul. Pelo que se demonstrou até este momento, é sabido que outros fatores influenciaram as mudanças culturais do grupo e que esta aproximação com os alemães foi um processo natural, assim como foi com os italianos e outros grupos étnicos da região, pois faziam negócios, partilhavam as mesmas escolas e igrejas, fundavam Sociedades de Tiro em conjunto, trabalhavam em empresas de descendentes de alemães e vice-versa. Por tudo isso, é possível afirmar que nesta época todos esses grupos viviam como brasileiros. Em termos de entretenimento, neste período o futebol foi muito difundido entre a comunidade húngara de Jaraguá do Sul. O futebol, um esporte muito praticado no Brasil e na Europa, ganhava força na região através das rádios que transmitiam jogos de clubes brasileiros e também das seleções em época de copa. Os campos geralmente estavam situados perto dos salões ou das igrejas. Nos finais de semana, reuniam-se os “atletas” e a comunidade comparecia para assistir aos


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jogos, que geralmente eram disputados contra equipes das localidades vizinhas. Neste período era comum, no interior do município, o centro da vila possuir uma igreja, um açougue, um armazém, um bar e um campo de futebol. De acordo com Pfiffer (2010), na região de Garibaldi, núcleo da colonização húngara em Jaraguá do Sul, foram fundados vários Clubes de Futebol Amador, com destaque para o Garibaldi Futebol Clube, criado em 1955 na Estrada Garibaldi, o Botafogo Futebol Clube, da Barra do Rio Cerro, fundando em 1952, e o time de futebol do Ouro Verde, em 1960. Nas décadas de 1950 a 1980, as manifestações culturais, as formas de entretenimento

e

de

trabalho

dos

descendentes

de

húngaros

mudaram,

acompanhando o desenvolvimento da cidade. Para Boglár (1998) e Öry Kovács (2010), nesta época os costumes magyares foram esquecidos e a cultura teutobrasileira se sobrepôs à húngara, porém, não é isso que observa na coluna Jaraguá do Sul – Veszprém, de Eugênio Schmöeckel, no Jornal “O Correio do Povo”, a respeito da comunidade húngara no final da década de 1980. É uma comunidade pacata e ordeira. Alguns ainda estão na lavoura, outros estabeleceram serrarias e marcenarias. Outros deram saltos maiores, estabelecidos com florescentes indústrias, Hoje as coisas se modificaram muito, contudo nas festas que se realizam nas várias comunidades, predomina o espírito húngaro ou hungarês, como gostam alguns de reconhecer as pessoas da terra magyar. A alimentação é farta, o Strudel de requeijão, de repolho e de amendoim é uma das especialidades da região, assim como o marreco. Nos casamentos, que são sempre muito alegres, a garrafa enfeitada com fitas coloridas passa de mão em mão, estimulando a animação reinante. (JORNAL O CORREIO DE POVO, 1987, p.12)

O país de origem de seus antepassados, a Hungria, vivia um momento importante de sua história, pois acabara de sair de trás da “cortina de ferro.” Em 1989, com o fracasso econômico socialista e a insatisfação dos países chamados "satélites" (Tchecoslováquia, Hungria e Polônia), são organizados levantes contra o regime comunista e a ocupação da Europa Oriental. Com a queda do Muro de Berlin, a Hungria abre suas fronteiras, por onde milhares de alemães orientais passam para a Alemanha Ocidental via Áustria. A Hungria altera seu nome para República Húngara e coloca novamente em sua bandeira o brasão húngaro. Em 1990 são realizadas eleições livres. (PILLER, 2004) Os descendentes de húngaros em Jaraguá do Sul, assim como outros grupos


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étnicos de várias partes do mundo, são constantemente afetados e influenciados pelas misturas entre os povos, por novos encontros, contatos e interações culturais, bem como pelas mudanças sociais e ambientais, um contínuo processo de formação cultural e identitária. Podemos dizer que, com o desenvolvimento da comunicação e dos transportes, as fronteiras se aproximaram, facilitando essas misturas culturais. De acordo com Vero (2003, p 58), com o advento da globalização, no final do século XX, “foi surgindo a necessidade de se criar identidades cambiantes, capazes de rapidamente adaptar-se às necessidades veiculadas pela mídia impressa e eletrônica.” Vero (2003) chama essas mudanças de “variantes identitárias”. Neste sentido, Rolnik (1989, p.20) relata que assim “nascem grandes levas de identidades que são rapidamente adotadas para, em seguida, serem descartadas para que outras possam ser adotadas. Cria-se um comportamento identitário consumista, uma verdadeira onda toxicômana de identidades.” A globalização pluralizou os contatos entre os diversos povos e o maior acesso aos bens materiais e culturais influenciando o comportamento consumista de identidades, de culturas, de tradições, transformando quase tudo em recursos. A globalização da economia vem acompanhada da globalização da cultura, ambas são influenciadas pelas imposições do mercado, criando uma cultura de massa. “Alguns até defendem que a cultura se transformou na própria lógica do capitalismo contemporâneo.” (YUDICE, 2004, p.35) Segundo Canclini (1996), o ato de consumir não se resume à aquisição de produtos. O autor demonstra que esse ato envolve processos socioculturais mais amplos, em que se dá sentido e ordem à vida social e, principalmente, onde se constroem as identidades neste mundo pós-moderno. Contudo, nesse processo, Hall (2003, p.43) afirma que: Obviamente a cultura se origina em algum lugar, mas não é mais tão simples identificá-lo, as culturas normalmente se recusam a ficar encurraladas dentro das fronteiras nacionais. Nesse sentido, se torna fundamental elucidar, não o que as tradições fazem conosco, mas sim o que fazemos delas.

A padronização das identidades é estimulada pela globalização, independente da geografia, da nacionalidade, do credo e da cultura. O mundo global, capitalista, influenciado pela grande mídia, facilita a transferência de ideias, valores, tradições


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de uma nação para outros lugares, independente de fronteiras e territórios, proporcionando processos de hibridização e encontros culturais cada vez mais intensos. Segundo Hall (1996, p 46), “o sujeito do iluminismo visto como uma identidade fixa e estável foi descentrado, resultando nas identidades abertas, contraditórias, inacabadas, fragmentadas, do sujeito pós-moderno”. Mesmo com todo o hibridismo cultural e as identidades bricoladas, o sujeito quer buscar suas raízes, o que apresenta certa “ambiguidade”, pois ao mesmo tempo em que as identidades são abertas, cambiantes, flexíveis, os indivíduos e os grupos querem buscar suas bases identitárias, através do nome, da nacionalidade, da pertinência religiosa ou étnica. Para Magalhães (2005, p.31): O que se verifica é um renascer das identidades nacionais, mas, sobretudo das locais, regionais, comunitárias e mesmo pessoais, pois são perante o contato decorrente desta transnacionalização de pessoas, capitais, ideias e bens que as comunidades locais tomam consciência de si enquanto grupo partilhando de valores comuns. É na alteridade que se constrói a diferença.

O tema identidade traz reflexões a respeito dos processos que as pessoas elaboram para buscar significados sobre si, para situar-se como pertencentes a um determinado grupo social. Apesar da globalização, do sincretismo, da miscigenação, as pessoas querem saber de onde vieram, buscam algo que as aproximem, querem estar junto de seus iguais. Judite Vero (2003, p.57) afirma que: Parece que o homem está em busca perene de algo que possa identificá-lo concreta e inequivocamente. Ou, dito de outra maneira, algo com o que ele possa se identificar. Como se para ser ou existir, precisasse de uma confirmação exterior, ou ainda precisasse para se saber existente, identificar-se com algo que já existe na natureza.

A autora, ao escrever sobre os processos identitários dos imigrantes húngaros em São Paulo, afirma que, mesmo inconscientemente, os húngaros vivenciaram multiplicidades em suas identidades quando operaram mudanças nos seus projetos de vida. “Neste século [XX] presenciamos um tipo de „escalada identificatória‟ que provocou uma espécie de corrida em direção a símbolos de identificação.” (Vero, 2003, p. 57) Com base nas ideias anteriores, pode-se dizer que identidade não é algo fixo,


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mas uma estrutura aberta, algo em transformação. A identidade, portanto não está fechada em si mesma. Em Jaraguá do Sul, os descendentes de húngaros estavam prestes a passar por este processo de busca das suas identidades, de suas origens, algo inerente no ser humano, pois este precisa identificar-se com algo, mesmo que seja uma identidade criada, artificial, inventada por políticas públicas de cultura, tema que discutiremos no capítulo a seguir.


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4 O PROCESSO DE REAVIVAMENTO DA CULTURA HÚNGARA EM JARAGUÁ DO SUL A PARTIR DE 1995 “Olha só, quem diria os „pé rachado‟ de Garibaldi dançando na Hungria”. Essa frase foi dita por Sérgio Fuzzi, dançarino do Grupo de Danças Húngaras Dunántúl, de Jaraguá do Sul, no ano de 2002, em uma apresentação do grupo no pátio do Castelo de Buda, conforme visto na figura 13, às margens do Danúbio, na cidade de Budapeste. Estas palavras, que na hora provocaram risos daqueles que a escutaram, servem como ponto de partida para este capítulo.

Figura 13 - Grupo Dunántúl dançando em Budapeste, Castelo de Buda 2002. Fonte: Acervo do autor.

“Pé rachado”, expressão popular, muitas vezes utilizada de forma pejorativa, sinônimo de pessoa rude, com pouco estudo, que vive afastada dos grandes centros urbanos. “Pé rachado”, que remete ao colono, devido ao costume de andar descalço enquanto realiza suas tarefas na lavoura e que, por isso, tem seus pés ressecados pela terra, provocando fissuras em seus calcanhares. No caso específico do autor da frase, Fuzzi é filho de agricultores da região


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de Garibaldi, também tem os “pés rachados”. A frase é dita com simplicidade, por alguém que estava vivendo uma experiência única ao estar em um castelo com mais de oitocentos anos de história, reconhecido pela UNESCO como patrimônio cultural da humanidade, apresentando-se com seu grupo de dança popular. A apresentação de um grupo de danças folclóricas húngaras de Jaraguá do Sul na Hungria é consequência da política cultural promovida pelo município para os descendentes de húngaros, movimento que teve seu início em 1995 e prossegue até os dias atuais. A viagem à Hungria, com membros da quarta e quinta geração dos imigrantes, aproximadamente um século após a chegada dos primeiros húngaros em Jaraguá do Sul, bem como todas as ações que aconteceram com esta comunidade desde aquele ano, não faziam parte de um planejamento estratégico, mas foram atuações que se incorporaram ao longo desses dezesseis anos e fazem parte de um conjunto que será discutido neste capítulo. Nos últimos anos, o conceito de "patrimônio cultural" adquiriu um peso significativo no mundo ocidental, pois a cultura se tornou um indicador e diferenciador das identidades e os patrimônios de uma sociedade começaram a ser discutidos com mais ênfase. Com isso, entidades governamentais e não governamentais começaram a se interessar pelo assunto, políticas públicas foram implantadas, congressos internacionais foram realizados para promover um amplo debate, resultando em cartas patrimoniais e documentos em prol do patrimônio cultural, que passou a ter legislação própria e aos poucos foi agregando outros termos, como material e imaterial. A partir do momento que se ampliou essas discussões, os aspectos intangíveis ganharam destaque e junto com “pedra e cal”, também fazem parte do patrimônio das comunidades. A culinária, a religiosidade, o idioma, os hábitos culturais dos descendentes dos imigrantes húngaros são exemplos da parte imaterial do patrimônio cultural. Com a visão e os conceitos alargados e os critérios de reconhecimento revistos, o patrimônio cultural assumiu um lugar de referência e sua preservação passou a ser sinônimo de manutenção e conservação da memória coletiva e das identidades das populações. Na nova Constituição Federal Brasileira de 1988, no Art. 216 lê-se: “constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à


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ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, [...]”. Este artigo da Constituição agrega os termos materialidade, que são a parte mais notória do patrimônio cultural, e imaterialidade, regulamentando a existência do patrimônio intangível, que são as formas de expressão, os modos de criar, fazer e viver. “Seria, fazendo uma analogia com o fenômeno humano, o material é o equivalente ao corpo, enquanto que a dimensão imaterial do patrimônio seria a alma de uma comunidade.” (TELLES, 2007) Para Reisewitz (2004, p 99): Com a Constituição Federal de 1988, o conceito de patrimônio cultural sofreu sua mais significativa ampliação no que diz respeito à materialidade ou imaterialidade dos bem culturais tutelados, indo de encontro à própria concepção atual que se tem de cultura.

Assim,

são

incorporados

ao

patrimônio

cultural

aspectos

ligados

tradicionalmente aos ritos, ao artesanato popular; aos modos de criar, fazer e viver; aos hábitos e a toda forma de saberes e fazeres, transmitidos culturalmente no âmbito das comunidades. Ou seja, “[...] atividades possuidoras de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira compõem o patrimônio imaterial.” (CUNHA, 2004, p 119). O patrimônio imaterial sofre permanente mutação, já que o ambiente onde estão inseridos esses bens emite e recebe estímulos de toda ordem. Segundo Meneses16, o patrimônio cultural material tem suporte no imaterial. Só se tem acesso ao intangível pelo tangível. O autor cita que o saber fazer é um saber corpóreo, a ação do corpo, matéria, “memória hábito”, que age e se expressa com as mãos. A imaterialidade, portanto, só pode ser caracterizada pela materialidade, “[...] não aparecem mais como duas áreas separadas, mas como um conjunto único e coerente de manifestações múltiplas, complexas e profundamente interdependentes dos inúmeros componentes da cultura de um grupo social.” (LÉVI-STRAUSS, 2001, p 24) É importante ressaltar a edição do Decreto nº 3.551 de 04 de agosto de 2000, o único instrumento legal desse âmbito, que no seu Art. 1º diz: “Fica instituído o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial, que constituem o patrimônio 16

Palestra “O campo do patrimônio cultural: uma revisão de premissas”, realizada no Campus da UNIVILLE no dia 26 de março de 2010.


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cultural brasileiro”. As

cartas

patrimoniais,

os

debates

promovidos

pelas

organizações

internacionais e as leis de proteção ao patrimônio cultural, contribuíram para a reformulação e ampliação do seu conceito. Estes buscaram contemplar todos os atores sociais e todos os campos nos quais se expressa à atividade humana, valorizando as línguas, os instrumentos de comunicação, as relações sociais, os ritos, as cerimônias, os comportamentos coletivos, os sistemas de valores e crenças que passaram a ser vistos como referências culturais dos grupos humanos, signos que definem as culturas e que necessitavam de salvaguarda. De um discurso que primava apenas pela preservação dos grandes monumentos do passado, se avançou para um conceito que apresenta um conjunto de bens culturais, referente às identidades coletivas. Os bens que compreendem o patrimônio cultural são considerados manifestações ou testemunho significativo da cultura humana (ZANIRATTO, 2006). Com os debates e ações em prol do patrimônio cultural fazendo parte das pautas e programas de entidades governamentais no Brasil e no exterior, até para atender às leis que regem este tema, a sociedade brasileira passou a estar mais envolvida, acompanhando e participando dos assuntos pertinentes ao patrimônio material e imaterial das comunidades. A partir da década de 1980, entidades públicas e privadas de muitos estados brasileiros, incluindo Santa Catarina, passaram a desenvolver políticas para incentivar a manutenção dos saberes, das práticas, das representações, das tradições, enfim, a parte intangível do patrimônio. “Os movimentos de preservação do patrimônio cultural e de outras memórias específicas já contam com força política e tem conhecimento público. O antiquariato, a moda retrô, os revivals mergulham na sociedade de consumo.” (MENESES, 1992, p 9) Para Canclini (2001, p. 65), as políticas culturais são: Um conjunto de intervenções realizadas pelo Estado, instituições civis e grupos comunitários organizados a fim de orientar o desenvolvimento simbólico, satisfazer as necessidades culturais da população e obter consenso para um tipo de ordem ou de transformação social.

Os responsáveis pela implantação das políticas culturais, desenvolvidas com os descendentes de húngaros em Jaraguá do Sul, influenciados pelas diretrizes das


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discussões que valorizavam o patrimônio cultural, acompanharam este processo que acontecia em todo o Brasil. No caso específico de Santa Catarina, essa valorização dos bens culturais teve como mote as tradições dos imigrantes europeus que colonizaram este Estado a partir da segunda metade do século XIX. Essas políticas começaram a ser perceptíveis com a implantação da Oktoberfest na cidade de Blumenau, inspirada na festa homônima alemã, que teve origem em 1810, em Munique. A versão blumenauense teve sua primeira edição no ano de 1984, após a cidade ter sofrido uma grande enchente, e hoje é considerada a maior festa alemã das Américas. As tradições germânicas são o foco principal da festa, tendo o chope, a gastronomia, a música e os desfiles folclóricos como seus principais atrativos. A repercussão da Oktoberfest de Blumenau em outras partes do país atraiu um número significativo de turistas, com isto outras cidades do Estado despertaram para a oportunidade de transformar as tradições de seus imigrantes em produto cultural, passando a vasculhar as tradições de seus colonizadores para encontrar um título que representasse a festa de seu município. Santa Catarina entrara na época do turismo cultural, “a indústria que não polui”, como dito por governantes e agências de turismo. Flores (1997, p.15) nomina estas manifestações de indústria da tradição, pois, “são orientados por costumes tradicionais, muitos dos quais esquecidos e abandonados há longo tempo” Neste sentido, Moletta (1998, p. 9-10) afirma que: Turismo cultural é o acesso a esse patrimônio cultural, ou seja, à história, à cultura e ao modo de viver de uma comunidade. Sendo assim, o turismo cultural não busca somente lazer, repouso e boa vida. Caracteriza-se, também, pela motivação do turista em conhecer regiões onde o seu alicerce está baseado na história de um determinado povo, nas suas tradições e nas suas manifestações culturais, históricas e religiosas.

Assim, nasceram outras festas de cunho tradicional em outras cidades catarinenses, fazendo referência aos costumes germânicos e aos de outras etnias européias que migraram para Santa Catarina, como italianos, açorianos, poloneses e outros. O Estado de Santa Catarina, num empenho para implantar o Turismo Quatro Estações, é pontilhado de festas que se utilizam dos costumes locais, uma espécie de reciclagem, ou


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melhor, dizendo, uma espécie de bricolagem, para mercantilizá-los na forma de espetáculos ou produtos de consumo. (FLORES, 1997, p.15)

Para Flores, na Oktoberfest e em outras festas do Estado de Santa Catarina, o ícone “estrangeiro” é (re-)ambientado, (re-)territorializado, em seu próprio terreno, o que dá ao “artificial”, a legitimidade de “real”. O passado, a história, a cultura, são “resgatados” e celebrados em “cópia absoluta”, postos em movimento pela avenida e na pista do desfile, junto aos seus figurantes, vivos e em “formato real”. A autora destaca que “As festas municipais de outubro, são, portanto, criações que recriam, restauram, juntam outras criações culturais.” (FLORES, 1997, p.50) Este ícone estrangeiro, baseado no patrimônio cultural dos descendentes de imigrantes europeus, é utilizado por gestores de entidades públicas e privadas no Estado, como uma forte ferramenta de marketing para a indústria do turismo, se tornando uma alternativa econômica em uma época de recessão no Brasil, para vender o “produto” Santa Catarina como a Europa Brasileira, se mercadorizando culturalmente como atrativo turístico. “A montagem destas festas foi realizada com as modernas tecnologias do lazer, num trabalho de 'bricolage', criando algo novo a partir de elementos pré-existentes.” (FLORES, 1997, p. 14). Por esse motivo, não podemos pensar essas festas “típicas”

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como uma

prática cultural autêntica, pois essas são adaptadas. Para Flores (1997), a criação dessas festas em Santa Catarina é fruto de um trabalho de enquadramento de elementos novos e velhos que compõem um cenário, para que as festas sejam apresentadas e vivenciadas como uma tradição. Com a criação das festas “típicas” em Santa Catarina, outros elementos que dizem respeito à história dos imigrantes passaram a ser revalorizados. Tratando-se disso, são o caso das danças folclóricas, com o aparecimento de vários grupos, as músicas, através das bandinhas e corais, os trajes típicos das regiões de onde emigraram os colonizadores, a gastronomia, a arquitetura, a língua e outros elementos que ajudam a “vender” este produto, que é o patrimônio cultural destas localidades. Segundo Adams (2002), este patrimônio se enriquece continuamente com novos tesouros, que estão sempre sendo valorizados e explorados, onde a 17

Para justificar o termo “típico” citado nesta etapa, tomamos por referência Ilanil Coelho (2010) que o utiliza, levando em conta não apenas as definições vocabulares que o explicam como algo característico ou simbolicamente distintivo, mas também como um trabalho de criação cultural envolto por polissemias e por disputas do presente em torno dos elementos que o qualificam como tal.


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indústria patrimonial é enxertada de novas práticas na hipótese de desenvolver o turismo. A indústria do patrimônio representa hoje, de forma direta ou indireta, uma parte crescente do orçamento e da renda das nações. Para muitos estados, regiões, municípios, ela significa a sobrevivência e o futuro econômico. E é exatamente por isso que a valorização do patrimônio histórico representa um empreendimento considerável. (ADAMS, 2002, p. 225-226)

Exemplos como este acontecem praticamente em todas as Festas “Típicas”. A tradição tornou-se um grande filão na indústria do turismo. Sendo um produto, ela precisa ser construída em grande escala para atender à demanda. Isso faz com que o produto final chegue até o consumidor de forma “genérica”. São as Bandinhas, os Grupos Folclóricos, as decorações dos espaços reproduzindo tradições que há muito tempo se perderam na Europa ou nunca existiram. A fixação dos imigrantes europeus em minifúndios agrícolas foi responsável pelo surgimento de algumas das principais cidades de Santa Catarina. Estes municípios guardam até hoje, na sua paisagem e nos seus hábitos, as marcas da presença desses imigrantes, nas danças, na produção familiar, na culinária, expressões vivas que, juntamente com a arquitetura e as paisagens rurais, formam o patrimônio do imigrante. “Igrejas, clubes, escolas e pequenas indústrias artesanais fazem parte do conjunto edificado pelos imigrantes de diversas colônias, animado pelas tradições que se mantém vivas em toda a região” (IPHAN, 2008). Porém, precisamos ressaltar que este modo de vida enaltecido pelo IPHAN está se transformando nas pequenas propriedades rurais de Santa Catarina. O sistema de agricultura familiar, que durante mais de um século garantiu certa estabilidade financeira para os imigrantes e seus descendentes, perdeu espaço, os preços de seus produtos não conseguem competir frente às empresas do agronegócio, obrigando os filhos desses agricultores a buscarem alternativas, a grande maioria tornando-se trabalhadores assalariados. A cidade de Jaraguá do Sul vive essa realidade e, a exemplo das cidades vizinhas, acompanhou a política de turismo cultural promovida pelo Governo do Estado de Santa Catarina. Por iniciativa da administração municipal, também buscou elementos no passado de seus colonizadores para criar sua festa “típica”. Como a etnia teuto-brasileira era a predominante no município, encontrou na tradição das


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Festas de Rei das Sociedades de Atiradores do Vale do Itapocu o elemento cultural para servir de base à sua festa “tradicional”. Assim, em outubro de 1989, acontecia em Jaraguá do Sul a primeira edição da Schützenfest (Festa dos Atiradores). Com o objetivo de congregar todas as Festas de Rei das sociedades da região do Vale do Itapocu, a festa nasceu como um tributo à cultura germânica das “Schützenverein” (Sociedade de Atiradores). A Schützenfest, a exemplo da Oktoberfest de Blumenau, também buscou inspiração em uma festa com o mesmo nome na cidade alemã de Hannover, e adaptou algumas tradições até então desconhecidas das tradicionais Festas de Rei que aconteciam nas sociedades da região. De acordo com os organizadores da primeira festa, “era preciso estudar e conhecer as Sociedades de Atiradores, os detalhes das Festas de Rei, as modalidades de tiro praticadas, a gastronomia, a música, o ritual de sangria do primeiro barril de chope, a escolha das rainhas, desfiles, decoração.” (KITA, 2000, p.191) Este estudo dos rituais, dos símbolos e dos costumes da Schützenfest alemã, feito pela organização da festa de Jaraguá do Sul, bem como a volta ao passado realizada pelos criadores das festas de outubro, remete a Hobsbawm, quando este discute

a

invenção

das

tradições

como

um processo

e

em diferentes

temporalidades, buscando a “formalização e ritualização, caracterizado por referir-se ao passado, mesmo que apenas pela imposição da repetição” (1997, p.12) O surgimento da Schützenfest em Jaraguá do Sul atendia à etnia alemã da cidade, que logo passou a ter seus grupos de danças folclóricas, corais e um Centro de Cultura Alemã, instalado em uma casa enxaimel similar à dos primeiros moradores da cidade. Nela, os teuto-brasileiros passam a se reunir para estudar a língua e cultura da terra de seus ancestrais e ter aulas de canto folclórico. No ano de 1991, com apoio da administração pública, os descendentes de italianos realizaram a 1ª Festa Italiana da cidade, com ênfase na gastronomia, música e costumes dos imigrantes italianos da região. No mesmo ano, fundam o Círculo Italiano de Jaraguá do Sul, que possibilita a realização de intercâmbios culturais, aulas de italiano e de músicas folclóricas, por meio de seu coral, além de jantares mensais preparados pelas “nonas”, sócias da entidade. Neste ponto, percebe-se certa segregação étnica, ou seja, o que antes estava misturado, hibridizado, começou a ser separado através de associações, festas,


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músicas, gastronomia. Como exemplo, pode-se citar a tradição das Festas de Rei do Tiro, que há muito tempo era praticada pelos descendentes de húngaros e também por outros grupos, de tal forma que esses congregavam com os descendentes de alemães seus costumes. De repente, surge o poder público e cria uma festa para celebrar as tradições do tiro e credita esta à etnia germânica, relegando os membros descendentes de outras etnias, que também eram partícipes daquelas tradições, como meros visitantes, expectadores, “turistas” em uma festa de tradição que já estava incorporada em seu cotidiano. São deste período também os primeiros movimentos de preservação do patrimônio cultural da cidade, com implantação de museu e arquivo histórico e do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Arquitetônico, Artístico e Natural – COMPHAAN. Estas ações contribuíram para despertar na sociedade um novo olhar sobre a preservação da memória do município. A criação desses espaços não foi algo exclusivo de Jaraguá do Sul, pois outras cidades brasileiras passavam pelo mesmo processo, movidas por eventos em prol do patrimônio e turismo cultural. “Os intelectuais passaram a se preocupar com um tema que antes era marginal nas Ciências Humanas: os chamados 'lugares da memória', na feliz expressão de Pierre Nora.” (ABREU & CHAGAS, 2003, p. 13) Estas e outras ações realizadas nas cidades de Santa Catarina nas últimas décadas do século XX trouxeram novas perspectivas sócio-econômicas para as cidades do Estado, citando exemplo de Pomerode, cidade vizinha a Jaraguá do Sul, que, aproveitando o legado dos colonizadores alemães, tem hoje no turismo cultural uma fonte de renda para sua população. As cidades dos vales do Itajaí e Itapocu, com sua arquitetura neo-enxaimel, passaram a constituir um pólo turístico do Estado, não só no mês de outubro, tempo das festas, como também pelo revestimento dos novos significados físicos, topográficos, simbólicos e culturais, válidos para o ano todo, na perspectiva do tempo do lazer, da indústria do entretenimento de massa, própria da sociedade contemporânea. (FLORES, 1997, p.15)

Esta política de turismo cultural permanece ativa em Santa Catarina, com projetos do governo federal, estadual e municipal voltados para as identidades, refazendo os caminhos trilhados pelos imigrantes para estabelecer novos roteiros turísticos e para trazer mais visitantes para o Estado. Nesta direção, o IPHAN em


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parceria com o Governo Estadual e Prefeituras Municipais está implantando em Santa Catarina os “Roteiros Nacionais de Imigração” com intenção de proteger e valorizar o patrimônio cultural do imigrante, nas mais variadas formas de expressão, como na culinária, na música, nos dialetos, na arquitetura, nas festividades. “São lugares especiais, que guardam vivamente a memória do imigrante, sua origem, seus costumes e sua capacidade de adaptação em terras estranhas. Essa adequação ao novo acabou gerando soluções originais, híbridas, tipicamente brasileiras.” (IPHAN, 2008) Segundo Flores (1997, p.20) este processo é o da simplificação das culturas tradicionais, pois, “diferente do viajante, o turista necessita de algo mais simples, pois, como estão em busca do lazer e entretenimento, não querem pensar, o que implica na redução da cultura aos traços específicos de cada comunidade.” Neste sentido, Thompson (1992, p. 20) afirma: "este é o ameno turismo contemporâneo que excursiona pelo passado como se fosse mais um país estrangeiro para onde se evadir." Em função destas manifestações culturais no estado de Santa Catarina, o pertencer a um grupo étnico, que em um passado recente causava constrangimento, hoje é motivo de orgulho por parte dos descendentes desses imigrantes. A expressão “pé-rachado” utilizada no início, não traz constrangimentos a estes agricultores, que tem atualmente suas casas, sua culinária, seu dialeto, fazendo parte de pesquisas e projetos em prol da manutenção do patrimônio cultural do Estado de Santa Catarina.

4.1 Um movimento pela tradição.

Nós somos húngaros! Essa comida, essa igreja, essas danças são húngaras! Essas são expressões utilizadas na cidade de Jaraguá do Sul, motivadas por um processo que chamamos de “reavivamento” da cultura húngara e teve seu início no ano de 1995, com iniciativa da Fundação Cultural, envolvendo as famílias de descendentes dos imigrantes, membros da Casa Húngara de São Paulo e funcionários da administração pública municipal. Segundo Balduino Raulino (2008), presidente da Fundação Cultural de


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Jaraguá do Sul no período de 1985 a 1996, foi da administração municipal a iniciativa de começar este processo, pois tinham a preocupação com a preservação do patrimônio histórico e com o resgate da cultura das diversas etnias colonizadoras do município. A afirmação do presidente da Fundação Cultural vem ao encontro dos acontecimentos narrados anteriormente em que, não só a cidade de Jaraguá do Sul, mas o Estado de Santa Catarina estavam implantando políticas de revalorização do patrimônio dos imigrantes, visando atender ao turismo cultural e oferecer uma nova identidade a estas cidades. Neste sentido, acaba acontecendo “juntamente com o impacto do „global‟, um novo interesse pelo local”. (HALL, 2004, p.77) De acordo com Raulino, foi feito um levantamento do patrimônio e intensivos esforços para a criação das associações étnicas alemã, italiana, polonesa e a húngara. “Aos húngaros dedicamos uma atenção especial, pois desconheciam os aspectos culturais daquele país, danças, músicas, indumentárias, culinária, língua, costumes e outras coisas.” (RAULINO, 2008) Uma nova identidade foi sendo criada para aquelas pessoas: Os envolvidos no movimento sabiam que seus ancestrais vieram da Hungria, mas desconheciam sua história, sua cultura, sua geografia. Encontramos uma pessoa idosa que perguntou, onde fica aquele país que fica entre a Áustria e a Hungria que moram os suábios, tivemos que mostrar no mapa sua localização. (BOGLÁR, 1998, p.7)

Para Raulino, a ideia de começar um trabalho nesse sentido aconteceu durante a realização da Schützenfest de 1994, quando ele, o Sr. Alfredo Guenther, vice-prefeito na época, e o Sr. Ademar Henn (descendentes de húngaros), discutiam o trabalho feito pela Secretaria de Cultura junto às etnias de Jaraguá do Sul, com italianos, alemães e poloneses, e foi quando os dois questionaram: Mas onde ficam os húngaros nesta história? Isto era uma coisa que estava adormecida, não tínhamos muito conhecimento dessa parte da história de Jaraguá, então eu disse: - é questão da gente pensar. - E naquela noite começamos o desafio. No outro dia entramos em contato com um amigo que trabalhava na Secretaria de Cultura de São Paulo e perguntei para ele: quem é da Associação Húngara em São Paulo? Ele me passou o telefone, entramos em contato com a Associação Húngara de lá, que nos indicaram a família Piller, e todos queriam saber o que realmente havia em Jaraguá do Sul com esses descendentes húngaros, e a partir daí o engajamento do grupo todo foi acontecendo, as pessoas foram se envolvendo. (RAULINO, 2008)


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Inventava-se uma “nova tradição” para Jaraguá do Sul. Diferentemente do que aconteceu na região de Jaraguá, a maioria dos húngaros de São Paulo emigrou para o Brasil após a Segunda Guerra Mundial. Vero (2003, p.37) afirma que: “Diante do medo de encarar um pós-guerra tardio e a instalação do poder russo que pudesse representar mais opressão, eles decidem pelo 'neodescobrimento' das Américas.” Grande parte destes imigrantes moravam em regiões urbanas na Hungria, suas atividades profissionais eram nas áreas de engenharia, medicina, direito, educação, entre outros. Em São Paulo, um grande centro urbano, puderam continuar atuando em suas áreas, falando o idioma húngaro e praticando algumas manifestações culturais magyares como faziam na Hungria. Um dos principais fatores em que divergem os costumes dos húngaros que vieram para Jaraguá do Sul com os de São Paulo, além da origem suábia, é a origem rural que esses tinham na Hungria, as quais deram continuidade em Jaraguá do Sul. Já os de São Paulo tinham uma origem urbana na Hungria e continuaram com esse modo de vida no Brasil. Em São Paulo, tinham uma Associação Húngara estruturada, com grupos de pesquisa sobre a cultura magyar, três grupos de danças folclóricas, grupos de escotismo e em seus encontros só se comunicavam na língua húngara. Para a Sra. Eva Piller (in BOGLÁR, 2003) da Associação Húngara de São Paulo, quando o Prefeito e o Secretário de Cultura de Jaraguá do Sul começaram a trabalhar com estes grupos étnicos, iniciaram apoiando os alemães e os italianos. “Quando os nossos bons descendentes souberam disso, diziam: por que só os alemães? Eles eram suábios de Vezsprém, mas se consideravam húngaros, com grande orgulho pediam que os ouvissem também.” Na fala da Sra. Eva Piller se confirma a diferenciação com que os húngaros se referiam aos suábios que moravam na Hungria, “eram suábios de Veszprém” não húngaros, “mas se consideravam húngaros”. Esta frase também mostra os primeiros passos da política de reavivamento da cultura húngara em Jaraguá do Sul. As entidades jaraguaenses envolvidas no processo não tinham conhecimento dessas origens suábias e buscaram a Associação Húngara de São Paulo para trabalhar a cultura magyar com descendentes de imigrantes húngaros em Jaraguá do Sul. Essa não era a visão dos imigrantes húngaros de São Paulo, que os consideravam suábios, pois estes, ao saberem a região da Hungria a qual partiram os imigrantes


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para Jaraguá do Sul, buscaram conhecer a origem étnica desse grupo, algo não realizado pelas autoridades jaraguaenses que encabeçaram o processo. Sendo assim, coube aos membros da Associação Húngara de São Paulo, decidir quais tradições húngaras trariam para Jaraguá do Sul. Não havendo critérios préestabelecidos, houve um mecanismo de escolha com elementos culturais que eram de conhecimento do grupo de São Paulo, em consenso com os gestores culturais de Jaraguá do Sul, sendo realizado uma espécie de processo seletivo de tradições para serem repassadas para os descendentes de húngaros da cidade. Com os grupos étnicos alemães e italianos sendo organizados e influenciados por uma política governamental, os húngaros sentiram-se motivados em ter a sua representação. Disso discorre Boglár (1998, p.8): “No início do movimento dos húngaros em Jaraguá disseram: os alemães e italianos tem suas festas dançantes, e nós não temos tradições? O 'nós' indica o início da procura de uma identidade étnica.” Boglár utiliza o termo “nós” para indicar a procura de uma identidade para aquele grupo, a identidade contemporânea, uma identidade criada, bricolada, hibridizada. “A imagem do „nós‟ e o ideal do „nós‟ de uma pessoa fazem parte da sua auto-imagem e seu ideal do eu.” (ELIAS e SCOTSON, 2000, p 42) Para Magalhães (2005), a globalização conduz as comunidades locais a reinventar, ou mesmo inventar a sua identidade, alegando sentimentos de pertença comuns. “A identidade constrói-se com a alteridade. Desta forma adquirimos consciência grupal, quando conhecemos e reconhecemos outros indivíduos ou outros grupos diferentes” (MAGALHÃES, 2005, p 29). Segundo o autor, neste sentido os sujeitos são livres para escolher o que querem “ser” e com quem querem se identificar. As notícias que chegaram à colônia húngara de São Paulo despertaram o interesse daquela comunidade sobre o assunto, pois até receberem o telefonema do Presidente da Fundação Cultural de Jaraguá do Sul, desconheciam a história dos imigrantes húngaros de Santa Catarina. Quando chegaram as primeiras notícias sobre húngaros em Jaraguá nos entreolhamos perguntando: que diabos é isso? Então peguei o diário do cônsul Lajos Boglár, pois me lembrava que ele escrevia sobre Jaraguá, e ao folhear o volumoso livro, em uma das páginas, consta a chegada de famílias húngaras, principalmente da comarca de Vezsprém e da região de Aika, esse foi o primeiro ponto de partida para nós. (TÓTH, 1995, p.14)


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Após os primeiros contatos, começaram os planejamentos e as ações. Em São Paulo, buscavam subsídios históricos e traçavam estratégias sobre o que trabalhariam em Jaraguá do Sul. E na região de Garibaldi, a administração municipal, através da Fundação Cultural, realizava reuniões nas escolas e igrejas da comunidade para apresentar os objetivos e convidar os descendentes para uma reunião com os húngaros de São Paulo. Sobre este primeiro encontro, Gedeon Piller, filho de imigrantes húngaros, membro da Casa Húngara de São Paulo, coreógrafo e diretor do Grupo de Danças Húngaras Pántlika relata: “Fui chamado pelo Secretário de Cultura na época para fazer uma palestra em Jaraguá, na localidade de Garibaldi, para umas 350 pessoas, onde mostrei alguns trechos de danças e costumes húngaros.” (PILLER, 2008) Podemos dizer que esta iniciativa desencadeou um novo momento naquele grupo, despertando o interesse em aprender mais sobre a história e cultura da Hungria. Gedeon Piller, ao conhecer a realidade dos descendentes de húngaros de Jaraguá do Sul, repassou suas impressões à Fundação Cultural e aos húngaros de São Paulo. Deste modo a Associação Húngara de São Paulo e também a Fundação Cultural de Jaraguá do Sul tinham mais claro as diretrizes que tomariam a respeito do trabalho. Durante um encontro pessoal verificou-se que os descendentes húngaros de Jaraguá gostariam de conhecer e aprender as danças folclóricas, a música popular, os costumes populares, conhecer os pratos tipicamente húngaros, tudo que caracterizava o país de seus antepassados. (TÓTH, 1995, p.17)

Estes foram os primeiros passos no processo de reavivamento da cultura húngara em Jaraguá do Sul, sobre isto, considera-se interessante fazer algumas considerações, pois, de acordo com Balduino Raulino (2008) a cultura húngara estava adormecida e foi feito um resgate das tradições. Öry Kovács (2006) chama o movimento ocorrido de processo de revival de uma identidade húngara, termo que também é utilizado por Boglár (1997. p.9) “os hungareses de Jaraguá estavam à procura de uma identidade étnica, a fim de saber alguma coisa da pátria antiga, começaram a 'reavivar' a herança húngara.” O termo reavivamento, que indica trazer de novo à memória, tornar com maior intensidade, fazer-se sentir, readquirir forças, manifestar-se de novo; ressurgência


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de um movimento, um costume, um estilo, um estado de espírito do passado. Ao referir-se à reinvenção, construção e reconstrução de identidades e tradições dentro de um grupo, é preciso levar em consideração a maneira como este processo acontece. Como visto, a memória é ponto importante para a guarda e transmissão de costumes e tradições de um grupo. De acordo com Bosi “a memória da pessoa é amarrada à memória do grupo, e esta última à esfera da tradição, que é a memória coletiva de cada sociedade.” (1994, p.5) Ao fazer referência às tradições, será levado em conta aquelas transmitidas de geração a geração e também aquelas que foram deixadas para trás, ou que nunca existiram, aquelas que foram inventadas, readaptadas, resgatadas, ou seja, a tradição como um processo em constante movimento, revestida de novos elementos, transformadas pelo tempo e pelo estilo de vida de comunidade. O termo tradição é oriundo do latim traditione, de traditere, tra+dicere – e significa transmitir de um para outro, fazer de novo o que já foi feito antes, transmitir falando. Desse modo, tradição é a transmissão cultural entre as gerações, assim sendo salienta-se: “a tradição é usualmente entendida como transmissão de conteúdos culturais de uma geração para outra do mesmo grupo de população” (Ortiz, 1994, p.67). No entendimento de Prandi (1984, p.68), a tradição “implica em todo caso um variante: a passagem de um conjunto de dados culturais (em sentido antropológico) de um antecedente a um consequente que podem configurar-se como famílias, grupos, gerações, classes ou sociedades”. Neste sentido, pode-se dizer que a tradição é transmissão de saberes e costumes e a possibilidade de inserção do passado no presente. De acordo com Paul THOMPSON (1993, p.9), A transmissão cultural entre gerações é tão antiga quanto a humanidade. Em contraste com as pretensões da cultura de representar a tradição através dos séculos, está a brevidade da vida humana. Daí a ocorrência universal da transmissão da cultura entre gerações. O papel da família na transmissão cultural entre gerações é também antigo. Inclui não somente a transmissão da memória familiar, mas também da linguagem (a “língua-mãe”), da religião, da moradia, do nome, do território, dos valores e aspirações sociais, visões de mundo, habilidades domésticas.

Os descendentes de húngaros de Jaraguá do Sul tinham suas tradições na


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religiosidade, na culinária, no dialeto, na produção familiar, enfim, elementos transmitidos no âmbito familiar de uma geração a outra. Mas ao questionarem “e nós não temos tradições?”, estavam influenciados pelo trabalho realizado no município com outras etnias, e não a tradição transmitida na família ou na comunidade, de geração a geração. Os costumes e símbolos que pretendiam se apropriar naquele momento não fazia parte de seu cotidiano, e foram selecionados práticas e objetos que pudessem representar esta tradição, o que seria uma busca da tradição, a invenção de algo que não fazia parte daquele grupo, mas sim de seu país de origem, a Hungria. “Estes objetos selecionados serviram para uns grupos reivindicarem identidades particulares perante os outros” (MAGALHÃES, 2005, p.35) De acordo com Hobsbawm (1997), a tradição não se refere a conjuntos consolidados de crenças, normas, valores, referências, definidas na sua origem passada, mas, ela está sujeita permanentemente à dinâmica social. A tradição não é algo estanque e imutável. O processo de reavivamento da cultura húngara em Jaraguá do Sul veio de fora, por via administrativa, Fundação Cultural e Casa Húngara de São Paulo. Estas entidades estudaram e planejaram as ações que iriam ser postas em prática no grupo, portanto, é possível utilizar os conceitos de Hobsbawm sobre “invenção de tradições” para embasar teoricamente o conjunto de elementos culturais que foram desenvolvidos e que influenciaram na construção do processo sócio-cultural da comunidade húngara de Jaraguá do Sul. Por “tradição inventada” entende-se um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade com um passado histórico apropriado. (HOBSBAWM, 1997, p.9)

A participação de húngaros de São Paulo e da administração municipal criando novas tradições para os descendentes de húngaros de Jaraguá do Sul, apresentando danças, filmes, símbolos, materiais históricos sobre a Hungria e as transformações sociais e culturais ocorridas nessa comunidade encaminham aos ciclos de hibridismo, a heterogenização da cultura, “a cultura não pura” discutida por Canclini (2008). Nesses ciclos, o autor propõe reflexões em torno do eixo


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tradição/modernidade/pós-modernidade e, segundo ele, as hibridações levam a concluir que hoje todas as culturas são de fronteira, migram do campo para a cidade e vice-versa; “os filmes, os vídeos e canções que narram acontecimentos de um povo são intercambiados com outros. Assim, as culturas perdem a relação exclusiva com seu território, mas ganham em comunicação e conhecimento.” (CANCLINI, 2008, p.348) Magalhães (2005, p.31) também reforça este pensamento ao afirmar que: A identidade local é sempre construída e reconstruída, e, por isso é necessário referir que os objetos patrimonializados não contam verdades absolutas, verdade acerca de identidades cristalizadas no espaço e no tempo; eles são sim, apropriados e (re) apropriados pelos sujeitos para projetarem a identidade destes. Por isso o patrimônio manifesta verdades identitárias simbólicas, momentâneas e espacialmente localizadas.

A senhora Bárbara Foggert, nascida na Hungria e que emigrou para São Paulo em 1950, com conhecimento sobre a comunidade húngara de Jaraguá do Sul, em entrevista, diz o seguinte: “Em Jaraguá do Sul houve uma 're-hungarização', termo que estou inventando. Hoje existe um interesse maior de reviver as origens, não existe mais uma cortina de ferro para dividir os povos, o mundo virou uma aldeia global.” Para a Sra. Bárbara, nos dias atuais, não é vergonha falar que se é descendente de húngaros, de judeus, de pobres, mas antigamente era. No seu entendimento, os húngaros de Jaraguá do Sul são diferentes dos de São Paulo, pois lá eles vivenciaram mais os costumes húngaros e “em Jaraguá eles modificaram esses costumes, adotaram os da região, se misturaram com alemães, por muito tempo se afastaram dos húngaros. Por causa disso, eles ficaram um pouco alemães, um pouco húngaros, um pouco austríacos e brasileiros.” (FOGGERT, 2010) A fala da Sra. Bárbara Foggert reflete ainda nos dias de hoje os resquícios de um passado comunista, tanto no Brasil como na Europa, pois estes imigrantes que vieram para São Paulo no pós-guerra foram perseguidos, tiveram seus bens confiscados, saíram escondidos das autoridades, literalmente fugidos de seu país. No livro Alma Estrangeira, Vero (2003) traz depoimentos desses imigrantes que, assim como a família da Sra. Bárbara Foggert, enfrentaram uma verdadeira odisseia, passando por muitos perigos para cruzar a fronteira da Hungria comunista. Segundo a autora, no Brasil, os húngaros se agruparam com seus conterrâneos, de vivências similares. “O relacionamento social jamais ocorreu na companhia de


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'estrangeiros'. Nem imigrantes de outras nacionalidades, nem de brasileiros natos.” (VERO, 2003, p.20) Foram essas pessoas da primeira geração de imigrantes em São Paulo que estiveram à frente do processo de reavivamento da cultura húngara em Jaraguá do Sul. Talvez o termo “re-hungarização” utilizado pela Sra. Bárbara estivesse sendo vivido também pelos imigrantes húngaros de São Paulo, pois esses, assim como os de Jaraguá do Sul, enfrentaram o isolamento da Cortina de Ferro, bem como a queda do comunismo na Hungria. Para os dois grupos era uma experiência nova, pois com a abertura das fronteiras, poderiam expressar, mesmo que ainda marcados pelo preconceito, suas origens sem medo das represálias. Sendo assim, o lado “bucólico” da comunidade húngara de Jaraguá do Sul encontrou-se com o lado “urbano” do grupo de imigrantes húngaros de São Paulo, para ambos reviverem suas tradições. É possível dizer que isto foi interessante para os dois grupos. O passado recente de medo, perseguições, preconceitos e guerras enfrentadas pela população da Hungria não era motivo de orgulho para os imigrantes húngaros e seus descendentes no Brasil. A Hungria não era um estado político independente, uma vez que estava sempre sob domínio de algum império. A cultura no país foi constantemente influenciada e, por muitas vezes, imposta. No que diz respeito à invenção das tradições, vale-se do seguinte exemplo: O País de Gales […] não era um Estado Político, e por falta desse Estado, o povo foi levado a concentrar uma quantidade descomunal de suas energias em assuntos culturais, na recuperação do passado e, onde o passado deixava a desejar, na invenção das tradições. O velho estilo de vida entrou em decadência e desapareceu, o passado era frequentemente esfarrapado e maltrapilho, sendo necessária uma boa dose de invenção para remendá-lo. (HOBSBAWM, 1997, p.108)

No País de Gales, assim como outros países europeus, o reviver do passado através de costumes culturais e das tradições foi uma prática comum ao longo dos tempos. Hobsbawm (1997) lembra que não existe lugar nem tempo investigado pelos historiadores onde não tenha ocorrido a invenção das tradições, enxertos em práticas antigas, novos símbolos e linguagens implantadas, costumes reinventados. O autor apresenta várias circunstâncias e organizações onde ocorreram essas práticas, entre elas a igreja católica que mudou antigos rituais para acompanhar os novos desafios políticos e ideológicos.


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Segundo

Hobsbawm,

uma

diferença entre costume

e

tradição,

exemplificando que: costume é o que fazem os juízes e tradição (no caso a inventada) é a peruca, a toga, e outros acessórios utilizados na ação do magistrado. “A decadência do 'costume' inevitavelmente modifica a 'tradição' a qual ele geralmente está associado.” (Hobsbawm 1997, p.10) O autor chama a atenção, ainda, para o objetivo e as características das tradições, inclusive das inventadas, que é a invariabilidade; já o costume não pode se dar ao luxo de ser invariável, porque a vida não é assim nem mesmo nas sociedades tradicionais. Burke (2003) considera que as tradições estão sendo sempre construídas e reconstruídas, independente de que os sujeitos envolvidos se dêem conta disso ou não. Para Flores (1997), falar de preservação de bens culturais pressupõe um desejo de continuidade, precisamente, “da alimentação da identidade cultural.” No entanto, segundo a autora, as identidades são politicamente atribuídas e politicamente mantidas, são transitórias e se transformam socialmente; “A identidade pode ser esquecida, abandonada, perdida ou inventada, construída. Sendo assim, o processo de criação de identidade é um processo de criação de imagem, dentro dos propósitos que se abrem em sua própria contemporaneidade.” (FLORES, 1997, p.78) Pode-se compreender, com base em Magalhães (2005, p.30) que: O que se verifica é um renascer das identidades [...], pois são perante o contacto decorrente dessa transnacionalização de pessoas, capitais, idéias e bens que as comunidades locais tomam consciência de si enquanto grupo partilhando de valores comuns.

No sentido apresentado por Magalhães, a transnacionalização é uma transferência de ideias e valores de um lugar geográfico para outro, criando novos elementos que são incorporados, adaptados, ou modificados. É o caso da cultura húngara de São Paulo trabalhada em Jaraguá do Sul. Contudo, ressalta Canclini (2008, p.23): Em um mundo tão fluidamente interconectado, as sedimentações identitárias organizadas em conjuntos históricos mais ou menos estáveis (etnias, nações, classes) se reestruturam em meio a um conjunto interétnicos, transclassistas e transnacionais. As diversas formas em que os membros de cada grupo se apropriam dos repertórios heterogêneos de bens e mensagens disponíveis nos circuitos transnacionais geram novos modos de segmentação: dentro de


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uma sociedade nacional.

Conforme Boglár (2008), os húngaros de Jaraguá do Sul viviam um momento frágil da criação da tradição e utilizou o termo “escoamento” de cima para baixo da cultura, em que a cultura popular é mudada para uma cultura de elite e a cultura nacional é regredida à popular e, em Jaraguá do Sul, elementos e costumes culturais do passado estavam sendo procurados, renovados e coletivizados. Nesse momento retomam-se as justificativas utilizadas no início do movimento, quando se utilizava a expressão “resgate da cultura húngara”. As discussões de Canclini (2008) sobre os processos relativos ao hibridismo cultural são complementadas por FLORES (1997, p.13), quando esta afirma: Resgatar a cultura é objetivo difícil de alcançar. Como recuperar algo que não é estático, que não tem contornos definidos, muito menos definitivos, que não é jamais pronto e acabado? A cultura, sem uma essência apriorística, é um processo dinâmico e incessante, de construção e reconstrução, de invenção e reinvenção.

Flores faz uso do termo “restauração”, por entender ser mais apropriado que “resgate” cultural, e por considerar que lida com a dimensão do tempo, construído e visto nesta organização temporal atual. Os processos de recriação das tradições, que ocorreram em Santa Catarina, tiveram a interferência direta dos poderes públicos, por meio de aportes financeiros e diretrizes, para justificar a implantação das políticas com motivos turístico-culturais. Nesse sentido, ressalta-se que: Estes investimentos na invenção da tradição por parte do governo e de grupos econômicos e intelectuais, fundamentados nos elos com a história e a geografia, devem, no entanto, suscitar interpretações. O discurso afirma que a preservação do patrimônio contribui para a formulação ou para o reforço de uma identidade cultural, ou para a preservação da memória histórica. (FLORES, 1997, p.77)

No movimento exercido na comunidade húngara de Jaraguá do Sul, o governo municipal gerenciou este processo, acompanhando uma política pública de turismo cultural do Estado, buscaram símbolos que representassem o país de origem daquela comunidade e as raízes de um passado histórico. Apresentaram mudanças e transformações e acabaram influenciando nas manifestações culturais


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daquele grupo, ou seja, uma “invenção de tradições”. O Termo “tradição inventada” é utilizado num sentido amplo, mas nunca indefinido. Inclui tanto as tradições realmente inventadas, construídas e formalmente institucionalizadas, quanto as que surgiram de maneira mais difícil de localizar num período limitado e determinado de tempo. (HOBSBAWM, 1997, p.9).

Hobsbawm (1997) destaca que a invenção das tradições, quando realizadas de forma oficial, também podendo ser chamadas de “políticas” surgidas através de movimentos políticos e sociais organizados, e as de forma não oficial, denominadas “sociais”, geradas por grupos sociais sem organização formal. Neste sentido, o processo de reavivamento da cultura húngara em Jaraguá do Sul, enquadra-se como de caráter oficial, “político”. No conjunto de ações desenvolvidas neste processo, o primeiro passo foi a formação de um grupo de danças folclóricas húngaras e para tanto, crianças e adolescentes das escolas da comunidade foram convidadas para participar do grupo. Sobre isso, Cristhiane Kitzberger, relata em entrevista que soube do movimento na Escola Municipal de Santo Estevão, onde estudava e depois, na igreja, quando as informações foram repassadas para toda a família através de representantes da Fundação Cultural, que faziam uma explanação e entregavam uma ficha de identificação para ser preenchida. A primeira reunião foi no Salão da Igreja da Santíssima Trindade com o pessoal de São Paulo e da prefeitura. Veio muita gente da Santíssima Trindade, do Santo Estevão e da Santa Cruz. Vimos um vídeo de danças, falaram que aqui existia uma colônia húngara, e queriam formar um grupo de danças. Quando nós íamos aos bailes e nas festas de igreja no Garibaldi, só tocavam e dançavam música alemã, pois a tradição alemã era muito presente, então nós descobrimos que éramos descendentes de húngaros, e não sabíamos como eram as danças húngaras, mas quando vi o vídeo com as danças fiquei admirada, aquilo me despertou, eu me identifiquei muito com o que foi apresentado. (KITZBERGER, 2010)

Kitzberger utiliza dois termos em sua fala, relativos à sua descendência húngara: desconhecimento e descoberta. Talvez este desconhecimento possa ser atribuído à idade, doze anos, na época que foi formado o grupo, ou à falta de interesse sobre os assuntos que diziam respeito a seus ancestrais. Mas, isto também demonstra que em seu meio não era muito comum discutir questões


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referentes à Hungria, a terra de origem de seus bisavós. Boglár (1998) e Öry Kovács (2006) também fazem uso da frase “descobriram que eram húngaros” como se antes do processo de reavivamento não soubessem disso. Reitera-se aqui a intenção desses pesquisadores em aproximar os descendentes de húngaros de Jaraguá do Sul com a Hungria. A fala da entrevistada confirma que o interesse dos descendentes relativos aos costumes e a tradição húngara na cidade só foi despertado por meio do processo de reavivamento, já que naquela comunidade, membros da quarta, quinta e sexta geração já eram mais do que brasileiros, ou seja, esses costumes e tradições já não eram relevantes no contexto social desse grupo. Sobre isso, infere-se o pensamento de Hobsbawm (1997, p. 20): Mesmo as tradições inventadas dos séculos XIX e XX ocupavam ou ocupam um espaço muito menor nas vidas particulares da maioria das pessoas e nas vidas autônomas de pequenos grupos subculturais do que as velhas tradições ocupam na vida das sociedades agrárias.

Após as primeiras reuniões, foram marcados os ensaios. De acordo com Gedeon Piller (2008), se apresentaram no primeiro encontro aproximadamente oitenta crianças e adolescentes, que foram divididos de acordo com a idade para facilitar o trabalho. O critério para a seleção era o interesse, não precisavam ser descendentes de húngaros ou conhecer técnicas de dança. Os ensaios seriam realizados aos sábados. “Tínhamos que dar uma identidade ao grupo. Como as pessoas de Jaraguá do Sul vieram da região de Dunántúl (transdanúbio), então logo colocamos o nome do grupo de Dunántúl.” (PILLER, 2008) Quando Gedeon Piller se refere “a dar uma identidade”, mais que um nome, ele estava contribuindo na construção da identidade do grupo de dança, e o que os húngaros de São Paulo apresentassem como tradição húngara, seria seguida em Jaraguá do Sul. Faz-se necessário recordar que os membros da Associação Húngara de São Paulo tinham conhecimento das origens étnicas dos imigrantes jaraguaenses, e se basearam nas práticas culturais praticadas na região de Veszprém. Conforme Boglár (1998), os dirigentes municipais e a Casa Húngara de São Paulo fizeram um cronograma de ensaios, com Gedeon Piller Jr. e mais alguns dançarinos do grupo “Pántlika” vindo toda semana para Jaraguá, para ensinar as danças. “Esta missão cultural exigiu bastante sacrifício: Jaraguá fica a 660 km de


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São Paulo e devido à má conservação das estradas, a viagem é lenta e os professores de dança ficavam mais de 10 horas no caminho.” (BOGLÁR, 1998, p.11) Lorant Andras, Miklos Tirczka e Pedro Marques da Silva, filhos de imigrantes Húngaros de São Paulo e dançarinos do Grupo Pántlika, em entrevista, relataram como foi esta experiência. As primeiras informações que tiveram sobre a Colônia Húngara de Jaraguá do Sul foram por meio do Gedeon e da Sra Eva Piller, “olha, tem um pessoal de Santa Catarina que tem interesse em aprender a cultura húngara”. Silva (2010) lembra da explanação da Sra. Eva Piller para seu grupo, falando que tinha ficado muito impressionada e surpresa em ver as coisas “- Eles têm uma igreja de Santo Estevão e o santo tem as cores da Hungria”. Vamos ensinar dança húngara para um povo lá no Sul. Para nós foi uma honra chamarem a gente de São Paulo para vir aqui ensinar. Eles deram todo apoio, queriam mesmo dançar e cultivar toda essa cultura, foi um trabalho recompensador. Fiquei impressionado, com tanta gente querendo aprender. Foi muito bom ensinar dança húngara para um povo que começou a resgatar de novo essa cultura. Eu também fiquei bastante impressionado com a igreja, com os arredores, parecia um vilarejo húngaro. (TIRCZKA, 2010)

Eles contam que os casais, acompanhados de Gedeon Piller, pegavam o ônibus no terminal Tietê em São Paulo e viajavam à noite. No sábado, ensaiavam o dia todo e depois voltavam para São Paulo. O grupo todo intercalava e trocavam as impressões do que viam em Jaraguá, foi assim durante quase dois anos. A Fundação Cultural assumia os custos da viagem e hospedagem, bem como disponibilizava o transporte para os dançarinos na comunidade. No histórico do Grupo de Danças Folclóricas Húngaras Dunántúl consta que foi fundado em março de 1995, na localidade da capela S.S. Trindade, situada no bairro Jaraguá 84, na cidade de Jaraguá do Sul, sendo ele o único grupo a representar as tradições húngaras em todo o Estado de Santa Catarina. Do nome Dunántúl, originou-se a primeira dança que integra o seu repertório. O grupo de danças repercutiu positivamente na comunidade e então os responsáveis pelo movimento partiram para a próxima etapa, que seria a culinária. “Depois de ter implantado a dança folclórica, os húngaros iriam conseguir resgatar a cozinha húngara também”. (RAULINO, 2008)


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Tem um ditado alemão, comum na região: du bist was du isst18. Para Boglár (1998), ao aprenderem receitas da gastronomia húngara, não estavam trabalhando apenas a função nutritiva e o sabor daqueles pratos, mas sim a função simbólica, pois naquele momento de aprendizagem emergiam alguns símbolos da Hungria. “La nourriture ne doit pas seulement être bonne à manger, elle doit être bonne à penser” 19

.(LÉVI STRAUS, in BOGLÁR, 1998) Para trabalharem as receitas da cozinha húngara, foi realizado um workshop

em Jaraguá do Sul. O curso promovido pela Fundação Cultural foi direcionado para as mulheres, em sua maioria netas e bisnetas dos imigrantes húngaros. Conforme Alcioní Canuto (2010), funcionária da Fundação Cultural de Jaraguá do Sul, vieram cinco senhoras cozinheiras húngaras de São Paulo. As mulheres da comunidade húngara de Jaraguá do Sul foram reunidas durante quatro dias no Parque de Eventos da cidade. As despesas eram pagas pela Fundação Cultural. Estas ensinaram as receitas e as técnicas para fazer o Goulash e o Strudel Húngaro, acrescentando ao Strudel de ricota produzido pelas mulheres húngaras de Jaraguá do Sul novos ingredientes, como ameixas e uvas passas, modificando a “tradição”. Segundo Canuto (2010), falavam da páprika, trocavam informações, ensinavam e ao mesmo tempo aprendiam. Foi muito interessante quando foram ensinar a técnica para abrir a massa sem arrebentar, as mulheres de São Paulo utilizavam o rolo de macarrão, e quando as daqui foram abrir a massa com as mãos, esticando com os dedos, como tinham aprendido com suas mães e avós, as senhoras de São Paulo ficaram admiradas, pois há muito tempo não faziam daquela maneira. Quer dizer, o gesto, a técnica de fazer, já tinha sido repassado de geração para geração, e aquela experiência foi um comungar de saber. Tradições se revelando na técnica de abrir o Strudel.

Sobre estes ensinamentos, afirma-se que a receita do Goulasch, repassada pelas cozinheiras de São Paulo, foi seguida à risca pelas jaraguaenses, e até os dias de hoje fazem o prato tal qual foi lhes ensinado. Mas, a respeito da receita do Strudel e da técnica para abrir a massa, prevaleceu o saber que adquiriram de suas mães e avós, uma tradição pertencente àquele grupo, não aceitando os novos acessórios e linguagens. Hobsbawm (1997, p.17) ressalta que: “A força e a 18 19

Você é o que você come. A comida não pode ser apenas boa para comer, ela deve ser boa para pensar.


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adaptabilidade das tradições genuínas não deve ser confundida com a 'invenção das tradições'. Não é necessário recuperar nem inventar tradições quando os velhos usos ainda se conservam.” Dessa maneira, o processo de reavivamento atendia duas formas de expressão das tradições: a dança e a gastronomia. A Sra. Eva Piller, que participou diretamente do processo relata que, na visão dos jaraguaenses, e aí incluindo a administração municipal, imaginavam que com a dança folclórica e com a culinária, poderiam expressar e manifestar as peculiaridades de sua cultura étnica, pois provavelmente eles viam como aconteciam as festas folclóricas dos alemães, dos poloneses e dos italianos. “Quando ligaram para São Paulo, perguntando quem é que pode ensinar folclore húngaro, talvez pensassem: vamos fazer nós também e ver o resultado.” (apud BOGLÁR, 2003) Nesta fala, Eva Piller expressa a informalidade do início deste processo e a incerteza no que resultaria aquele trabalho. A comunidade húngara de São Paulo tinha afinidade com estas atividades, como tinha também o conhecimento da língua magyar, o que os descendentes de húngaros de Jaraguá do Sul não possuíam. Conforme Boglár (1998), os descendentes de húngaros de Jaraguá do Sul afirmavam que falavam o húngaro, porém era no dialeto Schwäbish que os mais velhos se comunicavam. “Nós falamos com várias pessoas, que não sabiam nada de húngaro. Alguns lembravam alguns números e outros, metade de um praguejar.” (BOGLÁR, 1998, p.33) Lizi Tirczka, que é membro da Casa Húngara de São Paulo, faz uma análise sobre o que foi realizado em Jaraguá do Sul. De acordo com ela, para reviver as tradições magyares naquele grupo de origem suábia, que vivia no Brasil há quase cem anos, e que tiveram apenas relações indiretas, através de seus antepassados que vieram da Hungria com a cultura húngara, foi necessário encontrar algo que não exigisse o conhecimento da língua. A dança, a música e a comida são exemplos. “As crianças aprendem canções húngaras mesmo sem falar a língua. Os suábios que emigraram para Jaraguá eram originalmente camponeses e na vida dessa gente, a comida tinha uma importância especial.” (apud BOGLÁR, 2003) A partir do exposto pode-se dizer que nas primeiras etapas do processo houve uma espécie de descarte sobre o que seria trabalhado em termos de manifestações culturais com o grupo de descendentes de húngaros em Jaraguá do


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Sul. Ao optarem pela dança e a culinária, estavam deixando de lado outros signos que englobam um grupo étnico, como o idioma, a arquitetura, a religiosidade, os saberes, entre outros. Neste sentido, Thompson (1992, p. 50) afirma: "o processo de descarte, que constitui a contrapartida da seleção, continua pelo tempo afora. [...] Porém, o descarte inicial é, de longe, o mais drástico e violento.” Este descarte se torna ainda mais violento, quando as práticas selecionadas a fim de salvaguardar as tradições são realizadas por agentes sem conhecimento das experiências que resultaram na formação de um determinado bem cultural. O elemento de invenção é particularmente nítido neste caso, já que a história que se tornou parte do cabedal de conhecimento ou ideologia da nação, Estado ou movimento não corresponde ao que foi realmente conservado na memória popular, mas àquilo que foi selecionado, escrito, popularizado e institucionalizado por quem estava encarregado de fazê-lo. (HOBSBAWM, 1997, p.21)

Neste ponto vale reforçar que essas tradições "selecionadas" em um processo de invenção das tradições, são mantidas e transmitidas de geração para geração e estão sendo incorporadas ao patrimônio cultural das comunidades. Com o grupo de danças formado e a gastronomia retrabalhada, era preciso organizar um evento para apresentar para comunidade o que tinham aprendido, e no dia 27 de julho de 1995 organizaram a “1ª Noite Húngara de Jaraguá do Sul”, ocasião para a qual convidaram também os dirigentes da colônia de São Paulo. Claudia Erching Kitzberger (2008), dançarina do grupo, comenta que “neste dia foi a primeira apresentação oficial do grupo e estávamos estreando os trajes confeccionados pela Fundação Cultural, com orientação dos bailarinos do Pantliká” Sobre os trajes e a primeira festa Húngara, Canuto (2010) relata: Depois de toda uma pesquisa sobre indumentária realizada pelo Pantliká, a equipe da Fundação de Jaraguá do Sul, foi comprar os tecidos, buscar as costureiras, fazer os primeiros trajes. No primeiro evento oficial se mostrou a dança, a música, a comida, assim o processo foi tomando forma, a partir dali seus eventos possuíam atrativos que se referiam à Hungria.

No cardápio, os pratos principais eram o Goulasch e o Strudel. O salão foi decorado com a bandeira e o brasão da Hungria. De acordo com Boglár (1998), os balões e a toalhas são tricolores (verde, vermelho e branco), a música húngara gravada, os dançarinos com trajes típicos, o conjunto de pratos húngaros rege um


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sistema de símbolos para representar os valores daquela cultura. “Os mesmos que elogiam o país querem fixar seus signos de identificação, seus rituais que os diferenciem.” (CANCLINI, 2008, p.325) Hobsbawm (1997, p.99) chama este sistema de “heráldica da cultura, que é a necessidade de símbolos para sustentar uma cultura, emblemas que dão brilho à vida, esses tais emblemas surgem com mais freqüência com os que vivem longe da sua pátria, emblemas da nacionalidade”. Para o autor, uma constituição cultural e simbólica abarca o que se denomina esquema classificatório, suposições sobre a natureza das coisas, visões de mundo, sistemas éticos, grupos sociais, ideologias, rituais, modos de agir, regras de etiqueta entre outros. “Os elementos contidos numa constituição simbólico-cultural não são uma mera reunião de itens e coisas, mas organizam-se seguindo um padrão que afirma a relação entre os elementos e determina o seu valor.” (HOBSBAWM, 1997, p.182) Em entrevista, o ex-presidente da Fundação Cultural, Balduino Raulino (2008), diz que em uma reunião após a realização daquele evento e com o trabalho já estruturado, motivados pelo que viam, começou a aparecer gente dizendo: Eu também sou descendente de húngaros. Eram os Gascho, os Guenther, os Horongozo, Finta e não sei quem, então eu disse: _ vai faltar alemão em Jaraguá; olharam-me sério, porque da maneira que está acontecendo, agora todo mundo quer ser húngaro.

Esta fala de Raulino é emblemática, pois apresenta uma realidade daquela comunidade jaraguaense que tinha conhecimento da história dos antepassados imigrantes da Hungria, mas até então estava misturada aos teuto-brasileiros, participantes e atuantes das manifestações culturais daquele grupo. Quando influenciados pelo incentivo do município em formalizar as práticas culturais dos húngaros, mais descendentes quiseram também ser partícipes daquele projeto, tentando recuperar a história e as tradições do passado.

E a partir daquele

momento, um novo sistema de símbolos passou a ter importância em suas expressões culturais. Em 1996 sob orientação da Fundação Cultural, foi criada a Associação da Cultura Húngara de Jaraguá do Sul, tendo como objetivos "preservar as tradições, costumes, usos e festas dos antepassados, através de encontros culturais e festividades" (MAJCHER et al., 2008, p.271).


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Na primeira ata de reunião da Associação Húngara de Jaraguá do Sul, consta a assinatura de 85 pessoas, lá foi eleita a primeira diretoria, tendo como presidente Hilário Scheuer. Consta também que após o termo de posse, fez uso da palavra a Sra. Eva Piller, da Associação Húngara de São Paulo, destacando a importância dessa Associação por ser a única de Santa Catarina que trata dos costumes húngaros. O vice-prefeito da época, Sr. Alfredo Günter, em seu pronunciamento, expôs sua alegria em ver formada a associação, por ele ser um descendente de húngaros. O então Secretário de Cultura Balduino Raulino falou sobre a grande importância dessa Associação para Jaraguá, pois a etnia húngara integrava a história jaraguaense. E Scheuer, o presidente eleito, disse que iria trabalhar para que a associação cumprisse seu papel de acordo com o estatuto. (MAJCHER et al., 2008, p.272) Nota-se que as partes que se pronunciaram estavam representando as entidades envolvidas no processo, expressando sua satisfação ao ver mais uma etapa concretizada e suas pretensões quanto ao futuro desse movimento. A criação da Associação era um importante elo com a comunidade, pois a administração municipal, mentora da invenção das tradições, ganhara mais uma entidade formal para dar continuidade ao processo de reavivamento, que apresentava uma transformação no contexto cultural daquele grupo. Sobre este assunto, Hobsbawm (1997, p.271) afirma: Grupos sociais, ambiente e contextos sociais inteiramente novos, ou velhos, mas incrivelmente transformados, exigiam novos instrumentos que assegurassem ou expressassem identidade e coesão social, e que estruturassem relações sociais.

No ano de 1996, no dia 20 de agosto, dia de Santo Estevão, o Grupo de Danças Dunántúl, se apresentou no 6º Festival Latino Americano de Danças Folclóricas Húngaras, na cidade de São Paulo. O Dr. Lazslo Tóth, da comunidade húngara de São Paulo, relatou suas experiências no documentário Aflora a Corrente Escondida, dirigido por Lajos Boglár (2003), que conhecia a história daquele grupo, mas que estava tendo um primeiro contato com os mesmos: Chegou de Jaraguá do Sul um grande grupo de jovens e, quando estes dançavam, demonstravam extremo orgulho. Sua atitude nos mostra que, de um momento ao outro, esses jovens do interior perceberam que quando se declaram húngaros


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sentem um aumento considerável do próprio valor. (apud BOGLÁR, 2003)

Este orgulho que Tóth se refere pode estar agregado a outros sentimentos e não somente ao de pertença a uma determinada etnia, como exemplo o fato de estarem representando sua comunidade do interior de Jaraguá do Sul, em uma das principais cidades do Brasil, entre outros fatores que somados podem ser creditados ao orgulho que aqueles jovens sentiam. No entanto Elias e SCOTSON (2000, p.209) destaca que: “Hoje em dia se faz uso do conceito de 'valor' como se um indivíduo encontrasse seus valores flutuando livremente pelo ar.” O autor afirma que na história da humanidade, o orgulho, a auto-estima, o aumento de valor atribuído a si mesmo enquanto membro de um grupo é um elemento fundamental da existência humana, uma necessidade de se destacar entre os outros homens. A autovalorização do ser humano está tão difundida e enraizada que não se encontra praticamente nenhuma sociedade que não tenha encontrado um meio tradicional de usar outra como uma “sociedade outsider”, através da elevação dos valores de seu próprio grupo e diminuição do outro, por meio de palavras e atos. “Talvez possamos falar da necessidade humana, nunca serenada, de elevar a auto-estima, de melhorar o valor da própria pessoa ou do próprio grupo. (ELIAS e SCOTSON, 2000, p. 209) Sobre o movimento realizado na comunidade húngara, Durval Vasel, prefeito de Jaraguá do Sul na época, diz: Nós, através da Secretaria de Cultura, incentivamos muito, para resgatar esses costumes da imigração. Não só a húngara, mas também a polaca, a alemã e a italiana. No nosso segundo Governo, nós demos muita força para que evidentemente aparecessem pessoas de origem, criando associações. A dos húngaros, principalmente, da descendência húngara foi a que mais prosperou, E no último dia do nosso governo, dia 31 de dezembro de 1996, nós ganhamos aquele monumento dos húngaros que está fixado na Praça, no Centro de Turismo. Está 20 lá, então, contribuição da Hungria mesmo esse monumento . (VASEL, 2008)

Esta frase dita pelo ex-prefeito jaraguaense, bem como os discursos proferidos por ocasião da criação da Associação Húngara de Jaraguá do Sul, 20

Trata-se de uma lança Kobjafa símbolo dos antigos guerreiros magyares, que a utilizavam para marcar o túmulo dos que morriam em combate. A lança foi uma doação da família Isztzan Zolcsak da comunidade húngara de São Paulo, por ocasião do centenário da imigração húngara na região, em sua lápide está escrito “Dedicada aos laboriosos de descendência húngara em Jaraguá do Sul”.


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mostram a apropriação política da cultura, onde a preocupação maior dos governantes são os resultados momentâneos e os créditos políticos que tal ação proporcionará o que leva muitas vezes ao fracasso destas. Para Yúdice (2004), na política, a cultura é conveniente até se atingir um fim, muitas vezes os agentes distorcem a verdade e alteram fatos para seus próprios interesses. Segundo o autor, politicamente a cultura é invocada para determinar o valor de uma ação, nesse caso um ato discursivo, o testimônio. Yúdice, (2004, p.43) afirma ainda que: “[...] a cultura não tem um „em si‟, ela é um recurso para a política.” Podemos utilizar como exemplo o trato destinado ao Patrimônio Cultural, onde os agentes políticos, por desconhecimento ou por falta de vontade, não levam em consideração assuntos importantes que dizem respeito a determinado bem, entre eles o seu passado histórico, mesmo em se tratando de invenção de tradições. De acordo com Hobsbawm (1997), o estudo das tradições inventadas não pode ser separado do contexto da história da sociedade, pois esclarece as relações humanas com o passado. Para o autor, a tradição inventada utiliza a história como legitimadora das ações e como cimento da coesão grupal. No período do intercâmbio e dos ensaios com os húngaros de São Paulo, os coreógrafos do Grupo Pantliká, ensinaram diversas coreografias folclóricas húngaras para o grupo de Jaraguá, em sua maioria da região da Transdanúbia, região mais ao norte da Hungria, próxima a fronteira com a Áustria, por essa proximidade, algumas danças e canções até se assemelham se utilizando de alguns passos de valsa e polka. As danças folclóricas aprendidas pelo “Dunántúl” representam atividades agrícolas, agropecuárias, celebrações, recrutamento e exibições de habilidades de rapazes principalmente com cajados e das moças exemplo das danças com garrafas na cabeça. Após não termos mais os preciosos ensaios com o grupo de São Paulo, tivemos que caminhar sozinhos, tínhamos uma noção dos passos e das coreografias, que eles nos passaram, também tínhamos informações referente à cultura, à culinária, à história do país, às danças, aos trajes, através de um material que eles nos cederam; trabalhamos em cima disso. (ERCHING KITZBERGER, 2008)

Neste período, continuavam recebendo informações e materiais didáticos sobre a história e a cultura da Hungria da Casa Húngara de São Paulo. A Associação Húngara de Jaraguá, em parceria com a Fundação Cultural, organizava


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festas e encontros utilizando-se dos símbolos da cultura daquele país. Membros da Associação e do grupo de danças participaram de congressos e simpósios sobre a cultura húngara realizados em São Paulo, em Buenos Aires na Argentina e em Montevidéu no Uruguai, realizando assim, intercâmbios com descendentes de imigrantes húngaros na América do Sul. Neste processo de reavivamento da cultura húngara, houve a participação da Fundação Cultural de Jaraguá do Sul e da Associação Húngara de São Paulo, através de agentes que o idealizaram, programaram e encaminharam todas as ações que o envolveram. Barth (1993, p.353) afirma que “tradições são articuladas por pessoas com algum grau de conhecimento especial e posições distintivas nas organizações sociais relevantes”. As próximas etapas do processo de reavivamento continuarão

com a

participação dessas entidades,

mas receberão novos

componentes, vindos diretamente da Hungria.

4.2 – A Hungria e os magyares na construção da invenção das tradições

Em maio de 1997, chega em Jaraguá do Sul o Dr. Luiz Boglár Jr., filho do Cônsul Lajos Boglár que esteve em Jaraguá do Sul em 1940 e 1941, antropólogo e professor em Universidades nas cidades de Budapeste, Miskolc e Szeged, na Hungria. Boglár começa a desenvolver pesquisas referentes aos imigrantes húngaros de Jaraguá do Sul e sob o patrocínio da Fundação Cinematográfica Húngara produz um documentário para ser exibido na TV húngara Duna e passa a ser uma ponte entre a comunidade húngara de Jaraguá do Sul e entidades na Hungria. Durante a produção do documentário, o Dr. Boglár, que falava fluentemente o português, entrevistou famílias descendentes dos imigrantes e questionou membros da Associação Húngara e do Grupo de Danças Dunántúl, sobre os motivos que os levaram a participar dessas atividades culturais e, dentre as respostas, apareceu o desejo do grupo de conhecer a Hungria. Em seu retorno à Hungria, Luiz Boglár Jr. apresenta o material produzido no Brasil e estabelece contatos com entidades húngaras, levando a seu conhecimento a história dos imigrantes húngaros de Jaraguá do Sul e seus descendentes. Em


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1998, Boglár traz para Jaraguá do Sul sua orientanda do Curso de Doutorado em Antropologia da Universidade de Szeged, Katalin Öry Kovács, para desenvolver sua pesquisa sobre a imigração húngara na região. “A Katalin participava de nossos ensaios, frequentava nossas casas, ia para igreja com a gente e registrava tudo em fotos e vídeos, ela demonstrava muito interesse pelo grupo.” (ERCHING KITZBERGER, 2008) Os contatos de Boglár na Hungria resultaram em um ofício da Magyarok Világszövetsége, (Federação Mundial dos Húngaros), instalada na cidade de Budapeste, encaminhado ao Presidente da Associação Húngara de Jaraguá do Sul. Era a primeira correspondência oficial recebida pelos descendentes de húngaros de seu País de origem desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Assinada por seu presidente Sándor Csoóri, o ofício relata que estão acompanhando o movimento da Associação Húngara de Jaraguá do Sul, se colocam à disposição para contribuir com livros e materiais didáticos sobre a Hungria e faz um convite à Associação: Em nome da União Mundial dos Húngaros, queremos convidálos para participar de encontros de danças folclóricas organizados na Hungria. […] Assistimos com alegria o vídeo passado na TV Duna sobre o grupo Dunántúl e a Festa Húngara de Jaraguá. Sabemos que histórica e fisicamente longe da Pátria dos antepassados não é fácil recuperar a identidade étnica, pois os jovens vivem num ambiente brasileiro-alemão. [...] Queremos ajudar na realização do sonho dos jovens de Jaraguá. (CSOÓRI, Sándor, Magyarok Világszövetség, Budapest, 30 de setembro de 1998)

A correspondência apresenta o interesse e a visão dos húngaros para com a comunidade húngara de Jaraguá do Sul, destacando-se na correspondência o termo “recuperar a identidade étnica”, ou seja, a húngara. Nesta época, a Hungria se preparava para entrar na União Européia e, apesar do atraso econômico dos países do leste europeu, não havia mais aquela pressão política e ideológica pesando sobre estes.

De acordo com Martins (2004), o

processo de construção da União Europeia foi o primeiro a buscar a integração efetiva, situando cada indivíduo, cada comunidade e cada estado em um novo quadro de referências culturais e políticas. “É certo que o processo político trilhou, sobretudo e mais longamente, caminhos econômicos e comerciais, tendo suas dimensões culturais, sociais e políticas [...] evoluído mais lentamente.” (MARTINS, 2004)


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Com o convite da Federação Mundial dos Húngaros, um novo objetivo foi traçado pela Associação da Cultura Húngara e a Fundação Cultural de Jaraguá do Sul. Elaboraram um projeto intitulado “Intercâmbio Cultural Brasil - Hungria/Jaraguá do Sul - Veszprém”, com o objetivo de angariar recursos para a viagem, organizando promoções e contatos com empresas da cidade. Neste projeto constava a permanência de Katalin Öry Kovács em Jaraguá do Sul, para realizar sua pesquisa e que esta, em contrapartida, daria aulas de dança, já que a mesma tinha formação técnica na área. Na Hungria, Luiz Boglár Jr realizava contatos com entidades de lá com o mesmo objetivo. (MAJCHER et al., 2008) O processo de reavivamento repercutiu positivamente com as autoridades húngaras aqui no Brasil e, em agosto de 1999, a cidade de Jaraguá do Sul recebe o Embaixador da Hungria no Brasil, Sr. Gabor Toth, e o Cônsul Geral da Hungria no Brasil, Sr. José Sabó Filho. “Essas autoridades refizeram o caminho do Cônsul Boglár na década de 1940, e enchem de orgulho e de alegria a comunidade dos húngaros que, desde aquela época, não recebia tão ilustres personalidades húngaras.” (MAJCHER et al., 2008, p.255) Katalin Öry Kovács trabalhou com o Grupo de Danças “Dunántúl” diferentes coreografias, implantando alguns símbolos magyares de forma mais intensa, pois nas danças que esta ensinava estavam presentes canções húngaras que falavam de revoluções e lutas pela liberdade da Hungria, o amor à Pátria, o sofrimento do povo em épocas de guerras, revoluções e dominações. Por ocasião de uma apresentação do grupo na Casa Húngara de São Paulo, os mesmos puderam apresentar seu novo repertório aos seus primeiros professores. Segundo o periódico Brazíliai Magyar Ségélyegylet, o Dunántúl apresentou uma coreografia altamente profissional, que encantou e emocionou os presentes. Foram trechos da ópera Rock “Estevão o Rei” e da “Canção Nacional” (de Sándor Petöfi). Um público de aproximadamente duzentas pessoas ouvia a Canção Nacional pela primeira vez em português, declamada em forma de jogral pelo Dunántúl. A coreógrafa húngara Katalin Öry Kovács alimentou-os com o fogo sagrado da arte e da nacionalidade. (Brazíliai Magyar Segélyegylet, julho de 2002)

Como parte do projeto de intercâmbio, aconteceu dia 17 de março de 2001 um evento intitulado “Festa Húngara”, realizado no Centro Cultural de Jaraguá do Sul. A data foi escolhida para comemorar o aniversário da eclosão da Revolução


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Húngara de 18 de março de 1848 e no texto de abertura, lido por Luiz Boglár Jr., consta: Ainda hoje na Hungria, chamamos os “jovens de março” àqueles que, seguindo o caminho do progresso, não esquecem as tradições, assim procurando sua identidade numa expressão individual e coletiva. No Brasil, nós também temos os nossos “jovens de março” - o grupo Dunántúl. (BOGLÁR, 2003)

A Revolução Húngara de qual Boglár fazia referência teve seu ápice no dia 15 de março 1848, data lembrada anualmente com feriado nacional naquele país. Foi quando a juventude de Budapeste, liderada por poetas, escritores e artistas, triunfam atrav��s de uma revolução pacífica contra o domínio dos Habsburg, fazendo com que o Parlamento fosse convocado e elaborasse novas leis, que são aceitas e assinadas pelo Rei (PILLER, 2004). As apresentações de danças foram divididas em duas partes: a primeira parte do programa baseou-se no repertório de danças ensinado por Gedeon Piller, do Grupo Pantliká, e a segunda teve a direção e coreografia de Katalin Öry Kovács. “O espetáculo Szív Tiszta (Coração Puro) simboliza tudo o que uma revolução pode significar: sonhos, tragédias, pessimismo e otimismo – emoções e sentimentos expressos pela música e pela dança.” (MAJCHER et al., 2008, p. 285) Neste dia, também foi lançado em Jaraguá do Sul o livro Mundo Húngaro no Brasil, de autoria do Cônsul Lajos Boglár. Pelos dados apresentados, percebe-se claramente a implantação dos símbolos nacionais da Hungria nos trabalhos desenvolvidos com os jovens do grupo Dunántúl, desde aprenderam a cantar o Hino da Hungria, em suas apresentações a Bandeira, o Brasão e as cores da Hungria, que sempre estavam presentes; representavam, através de suas danças e canções, fatos de revoluções e batalhas que até então nem ouviram falar. Esses símbolos podem ser vistos na figura 14, quando os membros da Associação Húngara desfilam trajados com as cores da Hungria e carregam sua bandeira. Em uma estrofe da Canção da Nação (de Sándor Petöfi), declamada em forma de jogral pelos dançarinos, com a mão direita no peito, diziam: “O nome dos húngaros será de novo belo, digno da sua fama. Lavemos a desonra secular acumulada sobre nós! Pelo Deus dos Húngaros juremos, juremos que escravos nunca mais seremos” (MAJCHER et al., 2008, p.286).


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Figura 14 - Desfile da Associação Húngara em Jaraguá do Sul (2008) Fonte: Acervo do autor

As apresentações teatrais e de danças, os desfiles, os símbolos e histórias da Hungria contagiavam os envolvidos no processo e isto refletia em seu cotidiano. Exemplo desse movimento foi em uma partida amistosa de futsal em Jaraguá do Sul, envolvendo a Seleção Brasileira e a Seleção da Hungria, sendo que os descendentes de húngaros da cidade estavam nas arquibancadas com Bandeira e camisa da Hungria, torcendo em prol daquela seleção. Estes exemplos coadunam com o pensamento de Hall, quando este afirma que: “as identidades nacionais não são coisas com as quais nós nascemos, mas são formadas, transformadas no interior da representação” (HALL, 2004, p. 48). Na continuidade das ações do projeto para a viagem, Majcher et al. (2008), relata que no mês de abril de 2001, o Dr. Luiz Boglár encaminha correspondência à Fundação Cultural de Jaraguá do Sul, confirmando a viagem à Hungria para o mês de agosto e que, através de parcerias com entidades húngaras, as despesas do grupo como alimentação, transporte e hospedagem seriam custeadas por eles e que ao grupo de Jaraguá do Sul caberia as despesas de passagens. Mesmo assim, o custo seria alto para as passagens dos dançarinos que, em sua maioria, eram filhos


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de agricultores e não dispunham dos valores, resultando que muitos se apresentavam incrédulos com a viagem. “Até chegar o momento de fazer os passaportes e as malas, ninguém acreditava que a viagem à Hungria seria possível” (ERCHING KITZBERGER, 2008) Em um trabalho conjunto da Fundação Cultural, Associação Húngara de Jaraguá do Sul e o apoio de empresas locais, foi possível levantar os valores e no dia 18 de agosto de 2001, uma comitiva formada por 14 dançarinos do Grupo Dunántúl, quatro membros da Associação Húngara e dois funcionários da Fundação Cultural de Jaraguá do Sul partiram com destino à Hungria. “A terra húngara, tão falada, cantada e sonhada, estava ali, aos pés e olhos de todos e o Rogério Finta cumpre sua promessa e beija o chão”. (MAJCHER et al., 2008, p. 321) Como pude ter a oportunidade de estar com este grupo durante a viagem, podemos apresentar alguns pontos dessa “aventura” com base nos depoimentos dos componentes e em Majcher et al. (2008). A primeira dificuldade dos integrantes do grupo foi com o idioma, pois não conseguiam entender nada da língua húngara, para tudo era necessário intérprete. Jornalistas húngaros acompanharam toda a programação, o que permitiu o entendimento de que aquela história de “retorno às origens” despertava o interesse daquela comunidade. O Dr. Boglár e Katalin Öry Kovács haviam preparado um programa histórico e cultural para o grupo, contendo apresentações de danças em praças e teatros de Budapeste, inclusive no Castelo de Buda, visitas a edificações e cidades históricas da Hungria, aulas de danças, intercâmbio com grupos folclóricos húngaros e contatos com representantes de entidades culturais húngaras. Da programação realizada durante a estadia na Hungria, destacamos a viagem à região de Veszprém, localidade de onde partiram os imigrantes entre os anos de 1891 e 1896. Ao visitar o museu da cidade, conheceram como viviam seus antepassados, apontando para a fotografia de uma igreja faziam referência à Igreja de Santo Estevão no Garibaldi, ao verem os trajes das mulheres comentavam que era como suas avós usavam. As ferramentas, os utensílios domésticos, a religiosidade, as toalhas bordadas, enfim, vários símbolos lhes traziam lembranças da região colonizada pelos húngaros em Jaraguá do Sul. Na visita à prefeitura de Veszprém, o prefeito da cidade diz que a presença do


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grupo de “húngaros brasileiros” é extraordinária e importante para as cidades de Jaraguá do Sul e de Veszprém, pois estão revendo suas histórias como algo que está presente para todos vivenciarem, descendentes de húngaros da cidade de Veszprém retornando às suas origens. Segundo o prefeito, a Hungria se preparava para entrar na União Europeia e tinham receio que a cultura húngara se enfraquecesse com a globalização. Nesta afirmação, o prefeito retrata a realidade da Hungria no momento, o país estava se estabilizando na política, na economia e também na cultura. Aquela Hungria do final do Século XIX, época da imigração, e aquela dos tempos da “Cortina de Ferro”, não existia mais. Os descendentes de húngaros que vivem no ocidente podiam manter livremente relações com a pátria natal de seus antepassados e suas instituições, que tinham interesse no que estava acontecendo com estes fora de suas fronteiras. Após séculos de dominação, os húngaros estavam reconstruindo social e culturalmente sua nação e procurando modificar sua imagem perante o mundo. Os conceitos de nação e cultura nos dizem respeito de maneira dialética na Hungria: de um lado, se encontra a luta histórica de uma comunidade humana por sua sobrevivência, e por outro, a continuidade histórica e um sistema de valores artísticos e literários; e o que é visto por um lado como pensamento, forma poética e argumento épico, por outro é a luta incansável para que uma comunidade humana encontre seu lugar em sua terra natal, para que desfrute da possibilidade de conservar e apresentar ao mundo inteiro seus próprios valores intelectuais e morais. (POMOGÁTS, 2006, p.9)

Conforme Piller (2004), os húngaros finalmente poderiam se expressar como húngaros e isto permitiria um intercâmbio muito mais intenso entre os membros da comunidade húngara no Brasil com a antiga terra de origem. Este pensamento, o Prefeito de Veszprém expressa ao encerrar sua fala, destacando a importância de manter laços entre as duas cidades, declarando Jaraguá do Sul cidade co-irmã de Veszprém e chamando os descendentes de “filhos pródigos” que retornam a sua casa. A visita à prefeitura foi finalizada com o convite para ser assinado o “livro de ouro” da cidade, no qual o Prefeito destacou como momento histórico por serem os primeiros brasileiros a assiná-lo. Hilário Scheuer, presidente da Associação Húngara de Jaraguá do Sul, escreve a seguinte mensagem: “Este momento é muito importante para nós, descendentes de húngaros, pois estamos fazendo o retorno da viagem feita por nossos antepassados, e reconhecidos publicamente como cidadãos


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de Veszprém.” (MAJCHER et al., 2008, p.358) Na praça central da cidade, em um palco montado ao lado do Museu de Veszprém, o “Dunántúl” se apresenta. Na plateia, estavam convidados com os mesmos sobrenomes dos imigrantes húngaros de Jaraguá do Sul. Após a apresentação do documentário produzido por Luiz Boglár Jr., a comitiva foi convidada para uma visita ao Palácio do Governo do Condado de Veszprém, recepcionados pelo Governador que, em seu pronunciamento, parabeniza o grupo pela preocupação dos descendentes em manter as tradições húngaras no Brasil. De acordo com ele, o povo húngaro, apesar de estar espalhado pelo mundo e pelas fronteiras que os dividem, é um povo unido, talvez até pela necessidade de manter seu território. Na sequência de sua fala, diz que assistiu à apresentação do grupo e que os genes funcionam através das gerações, porque a maneira de ser, os costumes, se parecem muito com os húngaros e disse estar admirado de como a tradição foi preservada após mais de cem anos de emigração, agradecendo, por fim, o carinho que este grupo demonstrava com a Província de Veszprém. Em seu discurso, quando o governador se refere à preservação da tradição húngara em Jaraguá do Sul, percebe-se que o mesmo desconhece que a tradição que estava sendo apresentada foi trabalhada e inventada por meio de um processo de reconstrução, muito bem assimilado pelos jovens de descendência húngara, tanto que, em sua fala, o Governador da Província de Veszprém manifestou: “Sua maneira de ser e seus costumes são de húngaros, parece que escuto o coração de cada um através da música.” (MAJCHER, 2008, p.360) Ao visitar a aldeia de Magyarpolány, na cidade de Ajka, Província de Veszprém, em uma igreja histórica do lugarejo, o grupo ouvia a apresentação do padre a respeito daquele patrimônio, quando naquele espaço, alguns símbolos da localidade começaram a ser decodificados e comparados com o passado da comunidade húngara em Jaraguá do Sul. Naquela igreja, podíamos observar que os fiéis depositavam almofadas bordadas, bíblias e cantos marcando seu lugar. Aos poucos começaram a chegar senhoras idosas trajando saias, avental, lenços na cabeça e tamanco, e parecia que eu estava abrindo um álbum de família lá do Garibaldi, os personagens do nosso museu em Jaraguá. [...] O Hilário Scheuer, ao tentar se comunicar com elas, usou uma expressão no dialeto schwäbisch e todos ficamos espantados quando a conversa começou a fluir naquele dialeto. (CANUTO,2010)


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A Figura 15 mostra o encontro dos brasileiros com a comunidade húngara de Magyarpolány. Destaca-se a vestimenta das senhoras que ainda usam os lenços na cabeça, semelhantes às descendentes de húngaros de Jaraguá do Sul.

Figura 15 – Sr. Hilário Scheuer com as senhoras de Magyarpolány. (2002) Fonte: Acervo do autor.

Podemos afirmar que os descendentes de húngaros que vivenciaram aquele momento perceberam o laço que os unia àquela pequena comunidade do Distrito de Veszprém. Estavam nas terras de onde seus antepassados haviam emigrado há mais de um século, conversavam com pessoas de sobrenomes idênticos aos seus, percebiam diferenças e semelhanças dos costumes daquela comunidade com os de Jaraguá do Sul e os habitantes de Magyarpolány, assim como eles eram descendentes de suábios. Em entrevista, Mário Wasch, que também conversou com as senhoras, narra o seguinte: Quando desci do ônibus, vi um casal no portão e fui logo falando o dialeto daqui, e eles ouviram e disseram: nossa, vocês falam a nossa língua. Eles faziam muitas perguntas, tinham muitas curiosidades sobre o Brasil, se surpreenderam ao saber que no Brasil tem imigrantes húngaros. [...] O dialeto que eu falei com elas foi o mesmo que aprendi com os meus pais, com os meus avós, que a maioria dos descendentes de húngaros falam lá no Garibaldi. Eu estava na Hungria, não


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sabia falar o idioma oficial da Hungria, por isso fiquei muito emocionado em conversar com elas. (WASCH, 2008)

Ao relatar essas experiências do grupo de Jaraguá do Sul em terras húngaras, são evidenciados alguns fatores já discutidos nesse trabalho, a começar pelo idioma. Aquelas senhoras que falaram em schwäbisch mantinham, talvez até por seu distanciamento dos centros urbanos, a forma de vestir, a religiosidade e o dialeto, assim como as senhoras do Garibaldi. Na Hungria, como em Jaraguá do Sul, ou em qualquer outra parte do mundo, a globalização acaba interferindo nas tradições. Os participantes dessa viagem que vivenciaram a cultura e as tradições de um país que até aquele momento só conheciam pelo que contavam seus avós ou tinham vistos através de livros e vídeos, viram que a Hungria e que a região de Veszprém das lembranças de seus antepassados, não existia mais, haviam mudado, assim como o Brasil e a cidade de Jaraguá do Sul, aquelas localidades que viviam essencialmente da cultura agrícola, tinham se transformado em parques industriais e tecnológicos, transformando também os costumes de seus habitantes Nos depoimentos dos integrantes da viagem, as narrativas das experiências que, segundo eles foram inesquecíveis, viveu-se o sonho realizado, acontecimentos que marcaram suas vidas. Eu acompanhei desde o início esse sonho, só tenho que agradecer aqueles que mantiveram acesa essa chama. Muitas vezes lá na Hungria me emocionei, lembrando de todas as histórias que escutava na infância. Agradeço a Deus por ter vivenciado essa experiência maravilhosa (SCHEUER, 2008).

Em 2003 e 2004, Petra Paulics, também orientanda do Dr. Luiz Boglár, nascida e residente na cidade de Ajka, condado de Veszprém, esteve em Jaraguá do Sul para desenvolver sua pesquisa. Petra recebeu o suporte da Fundação Cultural de Jaraguá do Sul e, em contrapartida, ensinava o idioma húngaro para os membros da comunidade. Com relação ao idioma, Petra Paulics relata suas impressões: O húngaro não é falado por ninguém daquela comunidade. O “schwäbisch” é falado pelos mais idosos e os de meia idade. Mas assimilaram fácil a língua húngara, quando me encontravam, era saudada em húngaro. Ao final do 5º mês, os frequentadores das aulas não eram fluentes, é claro, porém não passariam fome e nem se perderiam, caso fossem à Hungria. Ficavam muito felizes em falar o idioma dos seus


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antepassados. (PAULICS, 2004)

Para Paulics (2004), o domínio do idioma é um elo com o país de origem. Em Jaraguá do Sul, as condições locais reforçam esse conceito, pois os alemães e italianos conseguiram manter mais traços de sua terra de origem por falarem o idioma frequentemente, por isso podem demonstrar suas diferenças étnicas. “Uma das razões dos húngaros de Jaraguá do Sul não afirmarem sua identidade húngara na região é o desconhecimento do idioma” (PAULICS, 2004, p.16) Concorda-se com esta afirmação de Paulics, pois o idioma é importante na manutenção da etnicidade, mas, no caso dos húngaros de Jaraguá do Sul, além do idioma, outros fatores influenciavam nesta “não afirmação da identidade húngara”, como sua origem suábia, a culinária, os costumes teuto-brasileiros, o viver no Brasil há mais de cem anos, entre outros já discutidos. Neste processo realizado em Jaraguá do Sul, as expressões culturais foram trazidas para o meio social da comunidade em diferentes linguagens, onde cada indivíduo assimila estas informações e as repassa adiante a seu modo, de diferentes formas. Isso se percebe nas respostas dadas pelos descendentes de húngaros a respeito do idioma que, apesar de não fazer parte do cotidiano daquele grupo, consideravam importante aprendê-lo, pois estavam tendo acesso a mais um símbolo ligado a seus antepassados e sua cultura. Conforme Biesanz (1972, p. 37), “a linguagem serve para uma sociedade como meio de armazenar, acumular, e transmitir cultura e para um indivíduo, como meio de aprender, comunicar-se lembrar, pensar, imaginar e prever.” Outro fato de destaque na sequência do processo de reavivamento foi a inauguração da Casa da Cultura Húngara de Jaraguá do Sul, no ano de 2004, localizada na Estrada Garibaldi. A casa é utilizada para os ensaios do Grupo Dunántúl e para guardarem os trajes de danças. Dispõe de um pequeno acervo de memória com objetos e documentos da colônia. Realizam, também ali, as reuniões e os encontros festivos da Associação. “Para a Associação Húngara, é motivo de grande orgulho ter, após nove anos de existência, sua sede própria, graças ao empenho de seus associados, ao apoio mais uma vez da Fundação Cultural e também a ideia de Luiz Boglár Jr” (MAJCHER, 2008, p 284). No ano de 2005, o Grupo de Danças Folclóricas Húngaras Dunántúl foi campeão na modalidade de danças populares avançado, no Festival de Dança de


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Joinville, com a coreografia Vonat (O Trem), dirigida por Katalin Öry Kovács. Esta dança reflete parte da história da Hungria que está ligada à ferrovia, no transporte de sua produção agrícola e de pessoas, inclusive os imigrantes que vieram para Jaraguá do Sul, no final do século XIX. Segundo Claudia Erching Kitzberger, depois da viagem para a Hungria, este foi um dos principais momentos do grupo, pois, por não serem profissionais da dança, todos têm outras profissões, suas famílias, seus compromissos, e ensaiam somente aos sábados. Pela história do “Dunántúl” até aquele momento, pelas dificuldades em se manter unidos, por aqueles que tiveram que desistir, foi uma boa recompensa. “Foi muito suado, por isso a emoção de receber um prêmio no maior Festival de Danças do Mundo, um avaliador escreveu que conseguimos transmitir sentimentos e histórias através de nossa dança, e é isso que nós queríamos.” (ERCHING KITZBERGER, 2008) O título no Festival foi comemorado na comunidade húngara de Jaraguá do Sul, pois servia de incentivo para os bailarinos que, com o passar do tempo, devido a outros compromissos, tinham dificuldades em conciliar os ensaios e as atividades dentro da Associação Húngara. De acordo com Kitzberger (2010), “seria bom, se todos

que

trabalham

voluntariamente

em

prol

de

uma

cultura

fossem

recompensados, assim como nós fomos.” No ano de 2007, através da Dra. Katalin Öry Kovács, que manteve o contato cultural entre Jaraguá do Sul e a Hungria, à convite da Associação da Cultura Folclórica Húngara Karácsony János, da cidade de Budapeste, o Grupo “Dunántúl” é convidado para retornar a Hungria e participar do evento “Encontro de todos os húngaros”, na cidade de Százhalombatta, entre os dias 10 e 25 de agosto daquele ano. Estamos muito contentes pelo Grupo Folclórico Dunántúl tão longe da Hungria esteja cuidando do folclore húngaro. Gostaríamos de apresentar o Grupo para o público húngaro. A visita do grupo tem o apoio da Embaixada do Brasil em Budapeste, no âmbito de fortalecer o contato cultural entre o Brasil e a Hungria. A nossa associação se compromete a pagar todos os custos do Grupo Dunántúl, na Hungria, tais como: transporte, moradia e alimentação. Ainda transfere 6 mil dólares americanos para pagar uma parte da passagem aérea do referido grupo. Ficaríamos muito felizes se aceitassem o nosso convite. (Karácsony János Honismereti Egyesület, maio 2007)

Dessa forma, uma comitiva de 22 pessoas viajou de Jaraguá do Sul para a


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Hungria, para se encontrar com descendentes de húngaros espalhados pelo mundo todo, onde fazem troca de experiências, aprendem novas técnicas de dança, assistem e apresentam danças folclóricas húngaras. O processo de reavivamento da cultura húngara e a participação e o interesse de entidades e pessoas da Hungria no mesmo continuaram. Essas ações contribuíram para motivar a comunidade húngara de Jaraguá do Sul na manutenção deste processo que, mesmo sem um plano definido, estava apresentando resultados quanto ao conhecimento das tradições húngaras.

4.3 - A Festa do Strudel na Rota Húngara

O jornal A Notícia do dia 06 de julho de 2008 publicou a reportagem “Strudel com sabor brasileiro”, escrita por Sônia Pillon, com a seguinte informação: Preparem o paladar, porque tem muita comida típica húngara para degustar neste domingo. Os visitantes são aguardados na comunidade Santo Estevão, no bairro Garibaldi, distante 18 quilômetros do Centro de Jaraguá do Sul, para a primeira Festa Catarinense do Strudel, organizada pelos descendentes de húngaros na cidade. Um grupo de 30 mulheres se dedicou à produção de duas mil e quinhentas unidades de strudel durante 15 dias. A festa marca a arrancada para a comemoração dos 132 anos de fundação de Jaraguá do Sul, no dia 25 de julho. (PILLON, A NOTÍCIA, 06 de julho de 2008)

Outros jornais que circulam na região de Jaraguá do Sul traziam como destaque a “1ª Festa Catarinense do Strudel” na comunidade de Santo Estevão em Jaraguá do Sul, que acontecera no dia 06 de julho de 2008, realizada pela Associação Húngara de Jaraguá do Sul e Fundação Cultural e com o apoio do Governo do Estado de Santa Catarina. No projeto elaborado pelos organizadores da Festa do Strudel, o evento tinha como objetivos: difundir a iguaria do Strudel, este prato trazido para a região pelos imigrantes húngaros; manter e enriquecer a cultura húngara no município; levar ao conhecimento da comunidade as tradições húngaras; repassar os costumes às gerações futuras; e divulgar a cidade como a “Capital Catarinense do Strudel”. O Projeto de Lei que reconhece Jaraguá do Sul como a “Capital Catarinense


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do Strudel”, foi aprovado pela Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina em Sessão Extraordinária e publicado no Diário Oficial do Estado através da Lei nº 13.933 de 12 de janeiro de 2007. A cidade, que é conhecida também como capital da malha, dos motores elétricos e da Schützenfest, agregava assim mais uma marca. “Dessa forma, a identidade da cidade teria sido criada como processo de fixação de uma „marca‟ que lhe imprimiu e lhe imprime simbolicamente um diferencial para o consumo de suas mercadorias e serviços.” (COELHO, 2010, p. 51) Com a Festa do Strudel, mais uma atividade começava a ser desenvolvida dentro do contexto da invenção das tradições. Como vimos anteriormente, as Festas que surgiram no Estado de Santa Catarina tinham como foco a imigração europeia, possuíam uma política de turismo cultural as orientando, e a Festa do Strudel seguia os mesmos moldes, com a participação efetiva de entidades governamentais (Município e Estado) fomentando os descendentes para organizar a festa. Para trabalhar na organização da festa é constituída uma Comissão Organizadora, formada por membros da administração pública e Associação Húngara. Esta comissão, através de reuniões, elabora um cronograma de trabalho dividindo funções e estabelecendo o formato do evento. Uma das primeiras decisões foi a respeito do local onde este aconteceria, a comunidade de Santo Estevão. No cenário da Festa Catarinense do Strudel encontramos um dos mais belos Patrimônios Histórico do Município de Jaraguá do Sul. O entorno da Igreja de Santo Estevão, que proporciona uma rica paisagem com indicadores e atrativos, como de plantações, mata verde, arte cemiterial, construções entre outros. Este cenário nos remete à memória da imigração e colonização há 117 anos, quando o povo húngaro por aqui apareceu, mudando a paisagem natural. (PFIFFER, 2008)

A fala de Pfiffer traz um ar nostálgico para enaltecer e dar autenticidade ao local onde o evento aconteceria. É um convite informando o turista que ao participar da Festa, estaria fazendo uma incursão pelo passado, mesmo que este fosse um passado adaptado, com práticas rituais e linguagens adaptadas. Hobsbawm (1997, p.13) lembra que: “A inovação não se torna menos nova por ser capaz de revestir-se facilmente de um caráter de antiguidade.” Nesse sentido podemos nos apoiar nas considerações de Coelho (2010), quando trata da organização da segunda Festa das Tradições na cidade de Joinville. A autora relata que, no slogan e em toda a programação oferecida, percebeu que


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havia a intenção de apresentar a festa como uma vitrine, uma espécie de museu festivo, que tinha o intuito de expor uma coleção cultural compilada num espaço definido, buscando sob a aura do passado a legitimidade para a celebração e a espetacularização de diferentes tradições e etnias. A isso poderia corresponder a crescente visibilidade de novos “„passados presentes” impelidos por aquilo que o crítico literário Andreas Huyssen denomina de “sedução pela memória”, ou seja, a progressiva preocupação contemporânea com a preservação, a recuperação e mesmo a recolocação de passados no presente, acompanhadas por uma diversificação dos usos e sentidos da história. (COELHO, 2010, p.40)

Tomando-se como base as atas de reuniões da Associação Húngara para discutir os preparativos e a realização da Festa do Strudel, pode-se mostrar que este evento reúne, então, tradições que existiam há mais tempo na comunidade, mescladas com as novas tradições: as tradições inventadas. Na divisão das funções, a Fundação Cultural de Jaraguá do Sul ficou responsabilizada pela divulgação da festa, a organização das atividades culturais e infra-estrutura do local. Para a Associação Húngara coube a tarefa de preparar os Strudel e outros pratos que seriam servidos na festa, a decoração, apresentação de danças húngaras, preparação da missa e venda de produtos artesanais feitos na comunidade. Foram preparados cerca de dois mil Strudel pelas mulheres da comunidade, que se reuniam na sede da Associação Húngara, onde preparavam em forma de mutirão uma média de duzentos Strudel por dia, que eram estocados em refrigeradores na comunidade. Os recheios eram variados, sendo feito em número maior o mais tradicional, que é o de “queijinho” (ricota), mas havia strudel de frango, palmito, repolho, amendoim, maçã, coco, banana e abóbora. Aqui se percebe a adaptação de novos recheios na receita do prato, com destaque para as frutas tropicais coco e banana. A festa começa às 9 horas, com missa na Igreja de Santo Estevão, celebrada pelo Padre Lucas Schwartz, descendente de húngaros nascido naquela comunidade. A abertura oficial acontece às 10h30min com o corte do primeiro Strudel, discurso de autoridades e apresentação do Grupo Folclórico Dunántúl. O almoço, a partir das 11h30min, com o strudel e o goulasch como prato principal. As 14h, concurso do melhor Strudel, para eleger a rainha da Festa... Demonstração de


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como se prepara o Strudel, além de apresentações culturais. A partir das 15h café e apresentação do Trio Edelweiss de São Bento do Sul. No local, exposição histórica, venda de artesanato, bocha e outras atrações. (BRUGNAGO, JORNAL DO VALE DO ITAPOCU, 03 de julho de 2008)

Pela programação apresentada no Jornal, percebe-se que os organizadores prepararam as atrações buscando elementos tradicionais para a festa. Foi a articulação e o planejamento das ações antes da invenção e reelaboração das tradições. A religiosidade foi representada, com a missa realizada na Igreja de Santo Estevão, por um padre de origem húngara. Na culinária, além do Strudel trazido pelos imigrantes e repassado através das gerações, tinha o Goulasch aprendido através do processo de reavivamento, e um concurso para eleger o Strudel mais “autentico” e saboroso, onde participaram mulheres descendentes de húngaros concorrendo ao título de “Rainha do Strudel”, para o qual foi eleita a Sra. Anna Maas, que aparece na figura 16 servindo o Strudel.

Figura 16 – Rainha do Strudel, Sra. Ana Maas (2008) Fonte: Associação Húngara de Jaraguá do Sul


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Nas músicas e nas danças, tinham o Grupo de Danças Dunántúl apresentando seu repertório de danças húngaras e o grupo de música germânica Trio Edelweiss, para embalar os dançarinos, que, naquela região são apreciadores do som da “bandinha alemã”. Foi um encontro de signos culturais germânicos, húngaros e brasileiros em uma festa brasileira caracterizada como húngara, ou seja uma festa híbrida. As “tradições inventadas” de Hobsbawm (1997) estavam presentes na Festa do Strudel, pois o evento vinha carregado de adaptações, de criações de elementos culturais do passado e do presente que passavam a ser legitimados e a ter cunho tradicional. No evento, elementos culturais dos descendentes de húngaros estavam sendo revalorizados e expostos em forma de mercadoria, como discutido por Yudice (2004). Nessa vitrine, o público tinha a oportunidade de ler, decodificar, interpretar e comprar os símbolos da identidade cultural daquele grupo. Os objetos de sua história, os costumes e o entretenimento de outrora, estavam à venda em forma de atrativo turístico. Em Huyssen (2000), vê-se que a ideia de atração turística é associada ao uso mercadológico das tradições. Quando se pensa em memória hoje, automaticamente liga-se esta à comercialização e a espetacularização, principalmente em eventos de cunho turístico. Para o autor, nem sempre o uso mercadológico significa a banalização do evento tradicional, porém, deve-se levar em consideração a seguinte afirmação: “Não há nenhum espaço puro fora da cultura da mercadoria, por mais que possam desejar tal espaço. Depende muito, portanto, das estratégias específicas de representação e de mercadorização e do contexto no qual elas são representadas” (HUYSSEM, 2000, p.21). De acordo com a organização, a “1ª Festa Catarinense do Strudel” reuniu aproximadamente cinco mil pessoas ao longo do dia, ocasionando filas para adquirir o strudel. A presidente da Associação Húngara em 2008, Claudia Erching Kitzberger, diz que: A festa superou todas as expectativas, foi o primeiro evento do gênero, não havia como prever a vinda de tantas pessoas. A grande afluência do público quebrou toda e qualquer previsão. Todos os Strudel foram vendidos, não conseguimos atender a todos da forma que queríamos.

A fala da Presidente da Associação mostra que, em termos comerciais, a festa


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foi um sucesso. Para Flores (1997), a metodologia das festas tradicionais tornou-se um modelo de economia turística, pois estas se utilizam de diferentes artifícios para a atração dos turistas, sendo assim, aumenta-se os atrativos, aumenta-se o público e consequentemente aumenta-se os lucros dos promotores. Yudice (2004, p.32) lembra que “[...] „a cultura pela cultura‟, seja lá o que isso represente, nunca receberá fomentos a não ser que possa oferecer uma forma indireta de retorno”. As entidades envolvidas na realização da Festa do Strudel tiveram esse retorno, em forma de ganhos financeiros e políticos, prestígio social, marketing turístico, entre outros. A Presidente também citou o grande fluxo de pessoas e que, com este movimento, se tornou difícil atender bem a todos. Talvez o público que foi à festa influenciado pelos discursos e propaganda dos organizadores não encontrou a autenticidade e a tradição, propalada como proposta da Festa. Pode-se utilizar como exemplo o Strudel comercializado no evento. Conforme a Sra. Olga Majcher (2010), “o Strudel não é um prato fácil de fazer, ele demanda tempo e habilidade.” Por isso, ao produzir a iguaria em grande escala, mesmo utilizando o processo de mutirão das festas comunitárias, dificilmente as mulheres da comunidade húngara conseguiram colocar em prática o “tradicional” modo de fazer, com todos os passos para sua preparação, aprendido com suas mães e avós. Esse modo de fazer foi substituído por uma produção quase industrial de duzentos Strudel por dia. Sendo assim, o visitante da festa comprou um produto “típico” que não seguiu os passos da “tradição” na sua confecção. É o “Strudel típico genérico” produzido em grande escala, congelado e assado em formas descartáveis. Seguindo o pensamento de Coelho (2010), é o “típico sendo digerido como fast-food”. De acordo com Pfiffer (2008), há muito tempo cogitava-se uma festa que trouxesse, na sua concepção, os indicadores da cultura húngara. A Festa do Strudel reviveu a tradição do kyritag, uma festa regada pela culinária húngara, que no passado era realizada na região do Garibaldi, em Jaraguá do Sul, para celebrar as raízes culturais e a unidade do povo húngaro. A Festa do Strudel aconteceu com o mesmo espírito festivo de antigamente. Para o historiador, “o evento reuniu a população remanescente deste grupo étnico e os simpatizantes, para fortalecer a fé, difundir a culinária do Strudel, congratular as famílias e estimular as artes folclóricas.” (PFIFFER, 2010)


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Para a Sra. Olga Majcher (2010) “a festa do Strudel é um Kirytag contemporâneo”, pois apresenta elementos das antigas festas na comunidade, como o trabalho voluntário, o mutirão, o Strudel assado em forno de lenha, conseguindo trazer à tona dois símbolos da cultura húngara na região, que é a culinária e a religiosidade. Nas citações de Pfiffer e da Majcher, a primeira edição da Festa do Strudel buscou combinar as tradições antigas com as novas. Os rituais e os signos apresentados no evento remetiam o público ao passado, a festa valorizava as tradições, tinha uma identidade húngara. Ambos compararam a Festa com as tradições do Kirytag realizado pelos antepassados do grupo naquela comunidade. Aqui cabe a seguinte afirmação: “A tradição representa uma espécie de segurança, um ponto de referência, talvez um refúgio, algo visível e tangível que parece estável, que não mudou. [...] um elemento profundamente estabilizador e unificador.” (HEWISON apud URRY, 1996, p.150). Flores (1997, p. 50), ao analisar as festas tradicionais de Santa Catarina, afirma: “Estas festas são criações que recriam, restauram, juntam outras criações culturais”. Contudo, a autora lembra que estas festas não têm os mesmos significados de outrora, porque se compõem de outros materiais, de outros fatos, de outros personagens, exercendo outras funções e remetendo a outros significados. Em 2009, a Festa muda de local, vindo a acontecer na comunidade Santíssima Trindade, mantendo praticamente a programação da primeira, porém ampliando a estrutura e a quantidade de Strudel para cinco mil peças. No ano de 2010, a Festa é realizada no centro da cidade, no Parque Municipal de Eventos, com a programação sendo dividida em dois dias e com a participação do Grupo de Danças Húngaras Pantliká, da cidade de São Paulo, que não se apresentava em Jaraguá do Sul desde 1996. De acordo com Brugnago (18 de julho 2010), “O evento entra no calendário oficial da cidade e ratifica a condição de Capital Catarinense do Strudel”. “Assim, a cidade de Jaraguá do Sul, também conhecida como “Capital da Malha”, “Capital dos Motores Elétricos”, “Terra da Schützenfest”, recebe mais um título para agregar a estes e poder se utilizar enquanto produto de identificação, de marketing cultural e turístico. Nestas três edições da Festa do Strudel, a comunidade húngara de Jaraguá


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do Sul recebeu visitantes de outras cidades de Santa Catarina e dos estados vizinhos, Paraná e Rio Grande do Sul, e, dentre estes, pessoas nascidas na Hungria e que migraram após a Segunda Guerra. Uma dessas visitantes é a húngara Bárbara Foggert (2010), que relata suas impressões sobre a festa. A comida é uma comida húngara, aquilo que eu comi lá é húngaro, agora eu não posso afirmar que a festa seja típica húngara, até porque as nossas referências são de uma Hungria entre guerras e em seguida um regime fechado que foi o comunismo durante 50 anos. Mas vi muitas semelhanças nas construções, nos santos, nas pessoas, na decoração com as bandeiras e brasões.

A fala da Sra. Bárbara Foggert converge com as discussões realizadas neste capítulo, as tradições mudam, os países mudam, as pessoas mudam. Por mais que se procure realizar eventos e atividades com cunho tradicional, não será como aqueles realizados outrora, a autenticidade idealizada é impossível de se alcançar. Conforme Flores (1997), tudo é linguagem e signo, não há mais distinção entre realidade e artifício, com personagens e cenários imaginados, que se confundem, com o mundo da produção. O alvo hoje, não é a questão do autêntico, do genuíno, mas a performatividade. A produção de imagens identificadoras. O capitalismo globalizante trouxe em sua esteira, a busca, o 'resgate' do mito da identidade regional, ou local, como forma de fugir das grandes homogeneidades e manter o caráter de singularidade no grande mercado mundial. (FLORES, 1997, p. 75)

A Festa do Strudel, assim como outras do gênero, não deixa de ter este caráter performático, onde os envolvidos precisam buscar elementos que atendam às aspirações do público, quando estes tentam buscar o equilíbrio entre tradição de tempos passados e as novas incorporadas recentemente. Neste sentido, pode-se buscar embasamento no pensamento de Richter (2003, p. 25): Justamente, porque o ser humano é capaz de múltiplas competências culturais, a troca cultural, assim como a troca de códigos, não requer o abandono das identificações primeiras do grupo cultural ao qual pertence, como é preocupação de algumas minorias, nem levará inevitavelmente à ruptura da pessoa com seus sistemas de valores.

Nos últimos anos, outras ações foram realizadas e que podem se considerar como parte deste processo de reavivamento, tendo como destaque a criação de um


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projeto turístico “Rota da Colonização Húngara”, realizada na região de Garibaldi, explorando principalmente o patrimônio edificado dos descendentes de húngaros, (Igrejas, cemitérios e casas) e a culinária (Strudel, Goulasch). Conforme material de divulgação com o nome Caminhos de Jaraguá do Sul, “Passear por esta rota, é um mergulho no passado da única comunidade húngara do sul do Brasil” (VALE DOS ENCANTOS, 2010). Ressalta-se também o recebimento de uma bolsa de estudos de um ano (2010), através do Instituto Balassi, por uma descendente de húngaros, dançarina do Dunántúl, para estudar o idioma húngaro em Budapeste. O movimento de reavivamento da cultura vem se estendendo na comunidade húngara de Jaraguá do Sul desde 1995, elegendo nas histórias, lembranças e costumes culturais do passado e do presente, alicerces para dar sustentação à “invenção das tradições”. Com a criação de festas, rotas turísticas étnicas, espaços de memórias, grupos folclóricos de canto e dança, a cidade de Jaraguá do Sul, vive um processo contínuo de “invenção das tradições” construindo e reelaborando a ideia desses brasileiros que afirmam: “Nós somos húngaros!”


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5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A intenção desta pesquisa foi discutir o processo de reavivamento da cultura húngara, que ocorreu a partir de 1995, com os descendentes de húngaros em Jaraguá do Sul. Esse processo incorporou novas tradições, hábitos e práticas culturais, transformou a visão que aquelas pessoas tinham sobre suas origens, sua identidade, seu patrimônio cultural. Para melhor compreender como se deu esse processo foi necessário não só entender a trajetória dos imigrantes da Hungria para Jaraguá do Sul, bem como quem eram aqueles que para cá imigraram. No final do século XVII, após 150 anos de ocupação pelo Império TurcoOtomano, os territórios húngaros são gradativamente reconquistados por uma aliança de exércitos ocidentais e a Hungria fica sob autoridade dos Habsburg. A partir de 1722, com o objetivo de repovoar os territórios devastados pelas guerras, os Habsburg “incentivaram a emigrar” milhares de seus súditos do sul e sudeste da Alemanha para as terras ao longo do Vale do Rio Danúbio, prometendo-lhes liberdade, concessões de terras, entre outros. A situação sócio-econômica desses camponeses pouco mudou, pois nas terras germânicas eram servos, o que continuaram a ser na Hungria. Este grupo foi denominado coletivamente como suábios. Os suábios se comunicavam no dialeto indo-germânico Schwäbisch, que na Hungria continuou a ser utilizado nas relações familiares e nos contatos internos da aldeia incluindo, em muitos casos, a igreja e a escola. Porém, para os contatos externos, por necessidade e até por imposições, tiveram que aprender o idioma húngaro, que é do ramo linguistíco ural-altaico, completamente diferente do alemânico Schwäbisch. Os húngaros, que ao longo de sua história viram seu território ser constantemente invadido, alterando suas fronteiras, dominado por grandes impérios e ocupado por estrangeiros, fazendo com que perdessem sua autonomia, tinham e têm no idioma magyar um dos principais símbolos de sua nação, pois nele está representada a verdadeira essência de ser húngaro. Quando da formação do Império Austro-Húngaro em 1867, os descendentes dos imigrantes suábios já estavam adaptados às novas terras, e assim como o


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Império que se fundia, os costumes húngaros e alemães se entrelaçavam, a cultura daquele grupo se mesclava, se hibridizava, se transformava em suábio-húngara. É desta época, segunda metade do século XIX, que as grandes emigrações da Europa para as Américas se intensificaram. Repelidos pelo excesso de população, ausência de terras para plantar, problemas sociais, políticos e religiosos e atraídos por promessas de liberdade política, religiosa, aquisição de terras férteis e incentivos dos governos, bem como a atuação das companhias de navegação e das empresas colonizadoras, milhões de europeus embarcaram em vapores para cruzar o Atlântico, em busca do sonho do novo mundo. A crise econômica, a falta de terras e as frequentes mudanças de fronteiras e de territórios, contribuíram para que, voluntária ou involuntariamente, milhares de húngaros emigrassem para o exterior. A ruptura da organização feudal, que teve reflexos mais intensos na região na segunda metade do século XIX, fazendo com que as grandes propriedades se organizassem em cooperativas, deixando os pequenos proprietários e os sem-terra com poucas ou quase nenhuma opção de produção e sustento, também teve influência para a saída de grandes fluxos de camponeses da Hungria. Sendo assim, essa população de despossuídos, sem trabalho e com pouca comida na época representava um quarto da população húngara, o que ocasionou, a partir dos anos de 1880, a emigração de um grande fluxo de retirantes do território húngaro para América do Norte e um fluxo menor para a América do Sul. Nesse fluxo, estavam os imigrantes húngaros que chegaram à Jaraguá do Sul entre os anos de 1891 e 1896, estes vieram das aldeias da região de Veszprém que eram habitadas em sua maioria por suábios, cujos ancestrais foram, naquela localidade, instalados há aproximadamente 150 anos antes da emigração para o Brasil. Na época da imigração, a Hungria pertencia ao “Império Austro-Húngaro”, os que vieram para Jaraguá não eram considerados húngaros pelos magyares, eles ainda mantinham costumes e tradições germânicas, mas ao pisarem no Brasil, este passado suábio quis ser “esquecido” e esses imigrantes se declaravam “húngaros.” Em terras brasileiras, em contato com outros grupos étnicos que também colonizavam a região, aos poucos suas “tradições” húngaras foram sendo relegadas a um segundo plano. O maior grupo étnico da região era formado por alemães, e por


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esse motivo, a herança que trouxeram de seus antepassados suábios passou a ter mais importância aqui em Jaraguá do Sul, principalmente no dialeto “Schwäbisch”, com o qual podiam realizar contatos com autoridades civis e religiosas, fazerem negócios e comunicar-se com a vizinhança. À medida que fixavam suas raízes no Brasil e formavam suas famílias, também consolidavam sua comunidade. Relacionavam-se socialmente com outros grupos étnicos que passavam pelo mesmo processo de adaptação. Não tinham o domínio da língua portuguesa. Seu entretenimento era baseado nos costumes europeus, e sua fé religiosa lhes serviu como ponto de equilíbrio emocional. Sua culinária era adaptada com ingredientes brasileiros e através de suas experiências no novo ambiente, iam nascendo novos costumes e práticas culturais. As estratégias de adaptação e o encontro de diferentes símbolos e signos criaram identidades e colaboram para a recriação de outras, que brotam do hibridismo. Se, ao partirem da Europa, sua cultura era suábia e húngara, no Brasil outros signos foram incorporados, hibridizados com elementos suábios, húngaros e também brasileiros. O propósito inicial desta pesquisa era analisar o movimento de reavivamento da cultura Húngara a partir de 1995, mas, no desenrolar da mesma, percebeu-se que existiu um movimento de “hungarização” já na década de 1940, envolvendo autoridades húngaras e alguns membros da comunidade de Jaraguá do Sul, quando estes mantinham contatos com entidades da Hungria e de São Paulo. As autoridades húngaras faziam questão que os imigrantes e seus descendentes mantivessem o vínculo com o país de origem, estas intenções aparecem nas correspondências encaminhadas por Ferenc Fischer à Hungria, quando este diz “pretendemos que a nossa Colônia, denominada como Austro-Húngara, seja reconhecida como uma Colônia Húngara.” As respostas vindas da Hungria eram recíprocas e enalteciam o nacionalismo húngaro. Pode-se afirmar que este movimento teve seu ápice nas comemorações dos cinquenta anos da imigração húngara em Jaraguá do Sul, com a visita do Cônsul Húngaro Lajos Boglár e do embaixador da Hungria, Miklós Horthy Jr., quando reuniram praticamente toda a comunidade para ouvir os discursos dos visitantes ilustres. Este momento encerrava um ciclo da comunidade húngara de Jaraguá do Sul, pois os primeiros imigrantes já tinham falecido, os que vieram da Hungria ainda crianças assumiam os papéis de


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líderes da comunidade, novas gerações estavam nascendo e com elas as transformações culturais se aceleravam. Com o advento da Segunda Grande Guerra Mundial e a Campanha de Nacionalização, abruptamente acabaram suas associações e romperam-se os contatos com a Hungria. O Brasil entrou em guerra ao lado dos aliados e a Hungria indiretamente fazia parte do eixo encabeçado pela Alemanha. A Segunda Guerra foi um divisor de águas não só para os húngaros, mas também para outros grupos de descendentes de europeus no Brasil. A campanha de nacionalização mudou o modo que estes se relacionavam na comunidade, tornaramse mais introspectivos, refletindo o medo de represálias. Eram brasileiros, mas não eram tratados como tal pelas autoridades devido a sua ascendência étnica. Por esse e por outros motivos, aos poucos deixam de lado alguns costumes e incorporam outras práticas em seu cotidiano. Muitos agricultores destruíram documentos, fotos e lembranças. Foram obrigados a falar o português, os que não tinham conhecimento da língua restringiam-se a ficar calados. Pode-se dizer que a Segunda Guerra e suas consequências, como a cortina de ferro e a guerra fria, contribuíram para que estes deixassem em segundo plano ou mesmo esquecessem alguns de seus costumes trazidos da Europa. Conhecendo esse contexto histórico dos descendentes de húngaros de Jaraguá do Sul, também se pode compreender a construção dos processos identitários do grupo, como sendo fruto das transformações sociais e culturais ocorridas ao longo dos tempos. Nas reflexões de Hall (2004), Magalhães (2005) e outros autores, as identidades não se apresentam como algo finito de estrutura rígida, fechada, elas não são uniformes, são sim cada vez mais fragmentadas, abertas, em constante transformação. Assim como a cultura, as identidades também são híbridas. Nas últimas décadas do século XX, em um primeiro momento acompanhando um movimento mundial e nacional de revalorização do patrimônio cultural, a administração municipal de Jaraguá do Sul iniciou um processo de reavivamento da cultura húngara com os descendentes de húngaros da cidade. E, num segundo momento, baseado em uma política cultural e turística do Governo do Estado de Santa Catarina, que tinha como mote o modo de vida dos descendentes de imigrantes europeus, proporcionando com isso uma estratégia de Marketing turístico


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para vender a imagem da Europa Brasileira. Em plena época de recessão econômica, os governantes deslumbraram um filão na indústria do turismo. Este movimento, que foi assimilado e incorporado pela comunidade húngara de Jaraguá do Sul, os remete a afirmar-se e/ou reafirmar-se etnicamente, intitulando-se e reivindicando: “Nós somos Húngaros”. Desde o começo, de 1995 até os dias atuais, este processo esteve em constante movimento, sendo modificados, adaptados e agregados costumes e tradições, ou seja, uma “invenção de tradições” (Hobsbawm, 1997). A respeito desse processo de reavivamento e seus desdobramentos, concluiu-se que movimentos desta natureza realizados com diferentes grupos étnicos são válidos, desde que tenham conhecimento e respeitem o processo histórico, social e cultural do grupo envolvido. O realizado com os descendentes de húngaros em Jaraguá do Sul, num primeiro momento, não levou em consideração as origens étnicas germânicas daquele grupo, até por “desconhecimento”. Por este motivo, alguns valores não eram compreendidos naquela comunidade, como o desconhecimento do idioma húngaro, o Strudel como seu principal prato, também sendo difundido pelos teuto-brasileiros da região, e a afinidade dos húngaros e dos alemães desde os primórdios da colonização de Jaraguá do Sul. Pode-se, ainda, ressaltar que as atuais gerações continuam “desconhecendo” as origens Suábias de seus antepassados, mas reafirma-se que este passado influenciou nos costumes culturais do grupo de forma muito efetiva. Embora se concordando com o primeiro parágrafo do Art. 216 da Constituição Federal Brasileira, que afirma: “O Poder Público, com colaboração da comunidade promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento”, percebe-se a necessidade de ponderar sobre a participação e a influência dos governos federais, estaduais e municipais e mesmo das organizações não governamentais na proteção dos mesmos, pois, com o alargamento dos conceitos que definem os patrimônios culturais das comunidades, é preciso que os gestores culturais estejam qualificados para que então possam reconhecer, valorizar e preservar tais patrimônios, através de instrumentos e políticas públicas que propiciem a sua defesa, pois geralmente são estes que atestam e fazem as escolhas do que será ou não preservado. É o caso do processo de reavivamento da cultura húngara em Jaraguá do


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Sul, que teve contornos oficiais, e mesmo não apresentando um planejamento estratégico surtiu muitas mudanças nas práticas culturais dos envolvidos. Como vimos é de responsabilidade do poder público e das entidades culturais fomentar a cultura, porém, a maioria de seus agentes está preocupada com o retorno financeiro e político que estas ações possam lhe trazer enquanto produto, por esse motivo algumas iniciativas dessa natureza fracassam, pois são forçadas e não encontram eco na base. Se as entidades envolvidas neste processo buscavam um retorno, pode-se afirmar que a comunidade dos húngaros de Jaraguá do Sul também teve o seu ganho com o reavivamento de suas tradições. Nas entrevistas realizadas, os envolvidos expressavam sua satisfação, sentindo-se importantes por fazerem parte de um contexto, de um grupo, de uma história. À medida que iam se aprofundando a respeito dos costumes do país de seus antepassados, mesmo que não fizessem parte do seu cotidiano ou mesmo que nunca fossem praticados no passado dos mesmos, aprenderam a gostar das tradições e de sua história, conforme a conheciam. Podemos afirmar que o processo de reavivamento da cultura húngara em Jaraguá do Sul é uma “tradição inventada” que está dando certo. Os elementos culturais selecionados pelos organizadores do processo foram assimilados no grupo, as mulheres que preparavam o Strudel aprenderam que o que elas faziam não era apenas uma comida, mas sim um patrimônio, um bem cultural. Suas tradições, mesmo que inventadas, estavam expressas nas músicas, nas danças, nas festas, e milhares de pessoas contemplaram essas manifestações. Neste processo de reavivamento, os envolvidos sentem a dificuldade de implantarem o idioma húngaro na comunidade que, além de dificultar os contatos desses com a Hungria, acarreta em uma grande lacuna no que diz respeito à “hungarização”. Para os magyares, o idioma é o principal símbolo de um verdadeiro húngaro, e além da língua húngara, que desapareceu da comunidade na década de 1940, o dialeto “schwäbisch”, que veio com os imigrantes, também está desaparecendo. Para Flores (1997, p. 66) “A cultura, por si só, não é jamais pronta e acabada. A cada geração, é apropriada diferentemente, e modificada.” O processo de reavivamento da cultura húngara, que iniciou em 1995, foi se transformando ao longo dos anos, pois ele começou de fora para dentro, com o poder público


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municipal idealizando e coordenando as ações, o que na opinião dos entrevistados foi de grande importância. Na continuidade, teve a participação da Associação Húngara de São Paulo e de entidades da Hungria, mas, ele ganha corpo e se consolida de dentro para fora com o envolvimento dos descendentes de húngaros, quando estes se mobilizam para criarem sua Associação, manterem seu grupo de danças e para realizar seus eventos. Nas entrevistas e nas atividades desenvolvidas pelos húngaros de Jaraguá do Sul, as quais tivemos a oportunidade de acompanhar, percebemos a satisfação desses ao lembrarem suas origens, seu passado. Presenciamos crianças e jovens orgulhosos ao usarem trajes típicos e notar senhoras sorridentes frente ao calor dos fornos assando Strudel também foi significativo. A comunidade trabalhando em prol das tradições, das “antigas” e das “novas”, algo que envolve o sentimento e não pode ser quantificado. Estes sentimentos remetem à Hobsbawm (1997) quando se refere ao espírito do lugar, das paisagens e dos mitos. Segundo o autor, da invenção das tradições fazem parte o convencimento para tratar com carinho sua paisagem, tratar com interesse humano e histórico cada pau e pedra, através de poemas, contos, cantos e fábulas, adaptando isto em seu dia a dia. O processo de reavivamento da cultura húngara continua. Em 2011, a comunidade húngara comemora cento e vinte anos de imigração em Jaraguá do Sul, novas

atividades

serão

desenvolvidas pelo

poder

público

e

pelos seus

descendentes. As novas gerações darão continuidade a este processo, que não parou desde que os antepassados desse grupo saíram da Suábia, no século XVIII. Hibridismo, memória, tradição, cultura, patrimônio, termos utilizados nesta pesquisa para narrar a trajetória dos antepassados dos húngaros de Jaraguá, ao longo de aproximadamente três séculos. De origem étnica, são Suábios que emigraram para a Hungria e mais tarde para o Brasil, onde se estabeleceram, se adaptaram, formaram suas famílias e puderam, frente às circunstâncias, praticar suas tradições, sua religiosidade, seus costumes. Sua identidade? Continua em formação, pois quando estes começaram a buscá-la, ao dizerem “nós somos húngaros”, conheceram parte de sua história e se descobriram mais brasileiros. Juntamente com índios, habitantes do lugar, os primeiros europeus que aqui se estabeleceram, os negros e outros grupos europeus que vieram mais tarde, os húngaros de Jaraguá do Sul fazem parte da formação da


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identidade brasileira, a diferença está na história que é contada de cada um. Neste sentido, Hobsbawm (1997) afirma que as expressões, as práticas culturais, as repetições tentam fixar certos rituais, valendo-se das tradições, inventadas ou não e dos discursos que privilegiam o passado e a memória. Através dessas práticas, os húngaros de Jaraguá do Sul estão procurando fixar sua imagem, encontrar suas identidades, entender sua cultura híbrida, que há muito tempo já é brasileira. Baseando-se nas lembranças de um passado distante de uma Europa que não existe mais e nas ações articuladas por governos, entidades e indivíduos continuam inventando, reinventando e reinterpretando suas tradições. Outro aspecto a ser pensado a partir do que aponta o presente estudo diz respeito a determinada questão: quem são os húngaros de Jaraguá? São brasileiros e pode-se afirmar que suas origens suábias não tiram a sua hungaridade, assim como as suas origens húngaras não tiram sua brasilidade. E assim como outros brasileiros de etnia alemã, húngara, italiana, portuguesa, japonesa, africana, indígena, enfim, espalhados por todos os estados, frutos de hibridizações, que ao buscarem e reconhecerem fragmentos de suas origens, de seu passado, de suas tradições, estão colaborando com a construção das identidades e dos patrimônios culturais desse país – o Brasil.


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