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Pieter van Oudheusden | Stefanie De Graef

APRENDIZ DA IMPERFEIÇÃO — Pieter van Oudheusden & Stefanie De Graef — tradução Cristiano Zwiesele do Amaral

A P R E N DI Z DA I M P E R F E IÇ ÃO

Aprendiz da imperfeição é um livro cativante para leitores de todas as idades. Maravilhosamente ilustrado, convida o leitor a refletir sobre o sentido da existência, dos laços afetivos e o anseio pela obra de arte insuperável.

ISBN 978-85-64974-63-0

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APRENDIZ DA IMPERFEIÇÃO © da edição brasileira Editora Pulo do Gato, 2015 © do texto Pieter van Oudheusden © das ilustrações Stefanie De Graef © da edição original Uitgeverij De Eenhoorn, Vlasstraat 17, B-8710 Wielsbeke (Belgium), 2013 Publicado originalmente na Bélgica, com o título Scherven van de hemel Coordenação Pulo do Gato Márcia Leite e Leonardo Chianca Direção editorial Márcia Leite Edição e diagramação Pulo do Gato Revisão Claudia Maietta e Carla Mello Moreira Tradução Cristiano Zwiesele do Amaral Impressão Arvato A edição deste livro respeitou o novo Ortográfico da Língua Portuguesa. Acordo Ortográ

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Oudheusden, Pieter van Aprendiz da imperfeição / Pieter van Oudheusden & Stefanie De Graef (ilustrações); tradução de Cristiano Zwiesele do Amaral. – São Paulo: Editora Pulo do Gato, 2015. 32p. Título original: Scherven van de hemel ISBN: 978-85-64974-63-0 1. Literatura infantojuvenil I. Graef, Stefanie De. II. Título. 13-12102 CDD-028.5 Índices para catálogo sistemático: 1. Literatura infantil 028.5 2. Literatura infantojuvenil 028.5

1a edição · outubro · 2015 Todos os direitos desta edição reservados à Editora Pulo do Gato.

Fundo de Literatura Flamenga PDF para análise do professor - proibida reprodução. apoio:

Rua General Jardim, 482, conj. 22 • CEP 01223-010 • São Paulo, SP, Brasil Tel.: [55 11] 3214 0228 • www.editorapulodogato.com.br


A P R E N DI Z DA I M P E R F E IÇÃO — Pieter van Oudheusden & Stefanie De Graef — tradução Cristiano Zwiesele do Amaral

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Tudo ao seu redor era branco, até mesmo as pegadas que ele deixava para trás. Cada vez mais longe de casa, cada vez mais perto do seu objetivo. Era ali. Seu coração batia mais forte no peito que sua mão à porta. Assim que ouviu passos, ajoelhou-se no chão. A porta se abriu. E o que viu foram dois pés de pele curtida calçados por sandálias gastas. “Quem é você?”, perguntou uma voz. “E o que veio fazer aqui?” “Eu não sou ninguém”, o menino respondeu. “Mas vim de muito longe para ser seu aprendiz.” “Eu não aceito aprendizes”, disse o ancião, fechando a porta. E ali estava ele, novamente sozinho em meio à neve que caía. No dia seguinte, bateu outra vez à porta. No terceiro, o ancião não a abriu mais. Mas o menino podia ouvi-lo arrastando os pés, tossindo e resmungando. E assim foi, entra semana, sai semana, até que chegou a época do degelo. E o menino se sentou diante da porta do ancião.

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Numa certa noite, a porta se abriu. “Assim eu não consigo trabalhar com tranquilidade”, disse o pintor. “Entre para se aquecer. Mas já vou avisando: não posso ser seu mestre porque não tenho nada a lhe ensinar.” O ancião deu ao menino uma tigela de arroz com um pedaço de peixe. “Como você se chama?”, perguntou. O menino deu de ombros: “Enquanto eu continuar na ignorância, não sou ninguém”. “Pois vou chamá-lo de aprendiz”, declarou. O menino sorriu. “E como devo chamá-lo, mestre?” “Pode me chamar de Velho Trapalhão. É como sempre me re refiro ro a mim mesmo.”

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Uma nova vida teve então início para o jovem aprendiz. Suas tarefas começavam assim que ele se levantava: varrer o chão, cozinhar o arroz, pescar alguns peixes no riacho atrás da casa. Também tinha de lixar as telas. E, quando acabava, o mestre o fazia recomeçar. “Preciso que você deixe a madeira tão lisa quanto a pele de uma donzela.” O aprendiz não sabia como era a pele de uma donzela, por isso alisava a madeira o quanto podia.

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Todos os dias o aprendiz perguntava quando as aulas começariam, ao que o pintor respondia: “Amanhã”. Com o passar do tempo, o aprendiz acabou por não perguntar mais nada. Faziam longos passeios. O pintor não dizia nada e muitas vezes ficava imóvel, em silêncio. O aprendiz parava a seu lado e olhava a paisagem, até conseguir perceber o que o pintor contemplava: uma ondulação na superfície da água, a última folha num galho. Certo dia, o pintor pediu que o aprendiz se ausentasse por uma semana. “Mas para onde eu vou?”, perguntou o jovem. “Isso não é problema meu”, respondeu o pintor. Quando o aprendiz voltou, encontrou o pintor exausto diante da pintura em que estivera trabalhando durante aqueles dias. Uma camada fina na de ouro recobria toda a tela, como um delicado véu. Não se via um traço ou pincelada sequer. Era perfeito. — 10 — PDF para análise do professor - proibida reprodução.


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A pintura atraiu visitantes de todo o país. Um deles era um rico comerciante. Atraído pelo ouro, foi se aproximando mais e mais da obra, até que passou a enxergar apenas o ouro. “Maravilhoso, mestre”, exclamou. “Este é o ouro que eu tenho guardado em meus depósitos. Acumulei muita riqueza com trabalho duro. Esta pintura representa a minha prosperidade e o meu sucesso.” O pintor tossiu para limpar a garganta. O comerciante recuou alguns passos. “Quero comprá-la, mestre”, disse o homem. “É só me dizer o preço. Sou rico.” “Tenho de pensar a respeito”, respondeu o pintor.

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Depois do comerciante, quem apareceu foi a jovem esposa de um nobre. Aproximou-se da pintura, hesitante. A superfície dourada refletia seu rosto e o tornava mais bonito do que já era na realidade. “Nesta pintura minha beleza ficará cará conservada para todo o sempre”, declarou a mulher. “Mesmo quando as rugas chegarem com a velhice.” O pintor esperou pacientemente até que ela se afastasse da pintura. “Eu quero comprá-la, mestre”, ela anunciou. “O meu marido é rico e nunca me nega um desejo.” “Tenho de pensar a respeito”, disse o pintor.

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O próximo visitante foi o sumo sacerdote de um imenso templo. Manteve uma distância respeitosa da pintura. “O senhor conseguiu capturar o inatingível: a eternidade, enquanto nossas vidas passam num suspiro.” O pintor tomou um gole de chá. “Quero comprá-la do senhor, mestre. Meu templo tem muitas posses.” “Tenho de pensar a respeito”, disse o pintor.

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A existência de uma pintura perfeita chegou também aos ouvidos do imperador, que se dirigiu à casa do pintor. “A minha casa é pequena demais para tanta majestade”, desculpou-se o pintor, com reverência. “Ninguém pode me negar o acesso”, disse o imperador. Aproximou-se da pintura e se deixou envolver pelo brilho dourado. “Você retratou o poder celestial do imperador, refulgente como sol que nunca se põe.” “Não posso contradizer Sua Majestade”, declarou o pintor. O imperador concordou. “Diga-me o seu preço. Não há ninguém mais rico que eu.” “Vou pensar a respeito.” “Ninguém recusa um pedido meu.” O pintor ficou cou em silêncio e o imperador se retirou.

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Enquanto o pintor dormia tranquilo, desceu do céu a deusa da Lua. No ateliê do artista, o ouro se iluminou na escuridão, ardendo sem chamas, inclusive após a partida da deusa. Silenciosa como a brisa noturna, penetrou sorrateira no quarto do pintor adormecido. Inclinou-se sobre ele e sussurrou em seu ouvido: “O que vai acontecer de agora em diante? O seu trabalho está feito, mestre. Venha comigo para o céu”. Quando o pintor acordou, sabia o que devia ser feito.

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Horrorizado, o aprendiz viu seu mestre serrar a pintura dourada em pedacinhos. O ancião parava em alguns momentos, para limpar o suor da testa. “A perfeição é insuportável”, disse ao aprendiz. “O que eu pintarei agora?”, perguntou-se, enquanto uma nuvem de serragem e pó de ouro subia do chão. “O que o senhor vai dizer ao imperador e a todos os que queriam comprar a sua obra?”, quis saber o aprendiz. “Darei a cada um deles um fragmento. Um pedacinho do céu.”

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Sai ano, entra ano, o pintor continuou trabalhando, até que seus dedos ficaram caram tão deformados que não conseguia mais segurar os pincéis. Mesmo assim continuou a pintar com um pincel que o aprendiz amarrava em sua na mão. Numa noite, antes de morrer, chamou o aprendiz e disse: “Eu lamento muito não ter podido lhe ensinar nada. Tudo o que sabe, você aprendeu sozinho. Olhe ao seu redor e deixe que sua mão trace o que os olhos veem. Eu lhe sou grato por ter sido meu aprendiz”, sussurrou o homem. Após a morte do mestre, o aprendiz continuou vivendo na mesma casa. Prosseguiu com seu trabalho e se fez chamar de Jovem Trapalhão.

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Muitos anos se passaram. Viveu satisfeito até que suas mãos começaram a tremer ao segurar o pincel. Certo dia ouviu uma batida à porta. Ao abri-la, encontrou um menino inclinado, ajoelhado na neve. “Quem é você?”, perguntou o velho pintor. “E por que está aí, encolhido na neve?” “Eu vim de muito longe para ser seu aprendiz”, disse o menino, pressionando seu rosto contra a neve. “Eu não aceito aprendizes”, disse o pintor. Por detrás da porta fechada, o pintor esperou até ouvir os passos do menino se afastarem. Ele voltaria no dia seguinte, disso o pintor estava certo.

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Pieter van Oudheusden nasceu em 1957, em Puttershoek, pequena vila em uma ilha no sul da Holanda. Após concluir o ensino médio, Pieter ingressou na Escola de Arte em Rotterdam, onde se graduou em Projeto Audiovisual. É autor de vários livros para crianças e jovens, entre os quais alguns premiados e traduzidos para outros idiomas. Todas as atividades profissionais exercidas pelo autor revelam seu fascínio e dedicação pela leitura e pela escrita. Escreve histórias e roteiros de HQ para crianças e adultos, trabalha como editor em uma revista de arte e literatura infantil e como tradutor para diversas editoras, além de ministrar oficinas de escrita. Pieter tem duas filhas, adora chuva no telhado, gaivotas e palavras estrangeiras. Sua cor favorita é a prata.

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Stefanie De Graef nasceu em Ghent, na Bélgica, em 1980. Ela estudou Design Gráfico e Publicidade na Academia Real de Belas-Artes, também em Ghent, e prosseguiu seus estudos na Irlanda. Tem participado de várias exposições dentro e fora de seu país e recebido algumas condecorações. Paralelamente, dedica-se à ilustração de livros para crianças e jovens, atividade na qual se aprimora a cada título que publica. Stefanie gosta de explorar novos materiais e transformá-los em imagens capazes de representar a realidade de inusitadas maneiras, sempre favorecendo a liberdade de interpretação. Para ela, a vida é uma inesgotável fonte de inspiração para seu trabalho e para a compreensão do sentido da vida. Razão, talvez, que justifique a escolha da artista em ilustrar livros sobre diferentes culturas.

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Aprendiz da imperfeição  

Um jovem convive com um grande pintor na condição de aprendiz de sua arte, mas, diante da humildade e generosidade do mestre, acaba por apre...

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