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MAIO 2014 Especial 1

NESTA EDIÇÃO:

X LOBISOMEM  entrevista - o criador do game


especial maldições da lua cheia

índice Capa

r Daniel Vardi) ( arte-final e co Luciano Oliveira

. .....................Pág ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...... Fim Da Noitedr...e...Winck e Ronílson Caetano Leal -

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Roteiro: Alexan ano Leal te: Ronílson Caet Argumento e Ar

g. 13 .........................Pá ... ... ... ... ... ... ... ... ... 1) (Arco Sang CaninAn do Amaral dré Martuscelli : te ar e iro te Ro ..............Pág. 36 ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ........................ blo Ramos Enjaulado ... ador - Arte: Nesta Am ão Jo Conto de g. 41 .........................Pá ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ral ...... Lobo AncestEd gar Franco de te ar e o 2 xt Te ...............Pág. 4 ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... púlveda ......checo - Arte: Luciano Oliveira O Mal de Se dos Santos Pa ge or Ge Conto de ág. 52 .............................P ... ... ... ... a) st vi re nt Hotline Miami (e - Fotos: Divulgação e Winck Texto: Alexandr

.........Pág. ................................. ... ... ... ... ... ... ... ... ... Licantropia o Oliveira cian Roteiro e arte: Lu

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Pág. 70

............................

Mim ............ o Pulsa em La Um Estranhcio uro Winck : Jung - Arte . 72 Poema de Már .....................Pág ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... elhos ......... Arte: Ronílson Caetano Leal Olhos Vermvo B. Rossato sta Gu Conto de ág. 78 ...............................P ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...... Híbrido .........La...ur o Winck de te ar e o 90 nt Co somem).....Pág. bi Lo x bo ia D do oninho A Cobrançade(TRu bens Jr. Roteiro e arte

Pin Ups

Pág. 03 Pág. 35 Pág. 40

. Amaral ................ é Martuscelli do dr An s: en m so bi .... ................ . Toninho e lo ................................ .... .... .... ra ei iv Ol son RED WOLF: Jack ...... ua33.com)........... (www.caixadag ito Br a ci ár M : LOBISOMEM ..................... Amaral ................ do li el sc tu ar M é LOBISLADY: Andr ..... ................................ y.............................. nr He s rlo Ca : LOBISOMEM

Pág. 59 Pág. 98

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OS FAT OS DA LENDA

A

lenda do lobisomem, nas suas variadas formas, é uma das mais antigas da humanidade, com origem na Grécia Antiga. O nome licantropo vem do rei mítico Licaão (ou Lycaon) da Arcádia. Segundo As Metamorfoses, de Ovídio, esse rei teria servido a carne de um bebê humano a Zeus, que o puniu transformando-o num lobo. Mas a lenda do lobisomem como a conhecemos hoje tem suas origens na Europa do Século XVI. Um homem é mordido por um lobo em noite de lua cheia. Desde então, sempre que a Lua entra nesse estágio, ele passa a se transformar numa criatura com traços mistos de humano e lobo. Se esse monstro morder outra pessoa, passará a maldição adiante. Somente uma bala ou outro objeto de prata consegue matar o lobisomem. No Brasil, o do pelos colonises. Principalnordestino, a lenda prias versões. Numa das. O sétimo filho mesma família será se transformar ao versão em que o lohomem que nasmeninas.

mito chegou trazizadores portuguemente no sertão ganhou suas pródas mais conhecihomem de uma amaldiçoado a crescer. Há outra bisomem é o filho ce depois de sete

Para a ciência, existe a Licantropia Clínica. É uma síndrome psiquiátrica rara em que a vítima tem a ilusão de que já se transformou ou está no processo de se transformar num animal - não necessariamente um lobo . O paciente chega a imitar comportamento bestial, rosnando, rastejando, etc. Você não precisa acreditar em lobisomens para apreciar estas histórias. Pode ver “Fim da Noite” como uma lírica homenagem a um dos maiores poetas do Rock. Apreciar a sabedoria e arte do “Lobo Ancestral” de Edgar Franco ou a nova saga “Sang Canin”, de André Martuscelli do Amaral.. Talvez a lenda simplesmente represente o lado animal, nossos instintos primordiais, os melhores e os piores. Ou, como dizia Thomas Hobbes, “o homem é o lobo do próprio homem”. Alexandre Winck - Editor do Absurdo submissions@contosdoabsurdo.com.br

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FIM D A NOITE Argumento e desenhos: Ronilson caetano Leal Roteiro: Alexandre Winck

Bom, me mostrem o caminho pro próximo bar de uísque.

Ah, não me perguntem por quê!

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Não sei quem é você forasteiro,mas caso não saiba, não gostamos de gringos por aqui.

Monta na cobra!

Durango Kid só existe no gibi!

Preciso beber um uísque. Perdemos nossa boa e velha mãe.

As pessoas são estranhas, quando você é um estranho.

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Escute um conselho. Sua vida corre perigo aqui.

Precisando desesperadamente da mão de um

estranho... em uma terra desesperada...

Vamo embora!

AAAAAA

Eu não sou besta pra tirar onda de herói..

É o fim, belo amigo.

AAGHH

!!!

Nunca mais olharei em seus olhos.

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Perdido numa selvageria Romana de dor... ... e todas as crianças estão loucas.

Devia ter ficado na sua! Viajantes na tempestade.

HĂĄ um assassino na estrada.

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De tudo que está em pé, o fim.

De todos nossos planos elaborados, o fim.

Esse é um recado dos coiotes pra você e pra todos que pisarem em nosso território. Quando você é um estranho. Chega. hoje é noite de lua cheia. Vamos para o rancho. Celebrar nosso mestre Queremos o mundo e o queremos agora!!

Ah, a lua do Alabama...

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O dia destr贸i a noite, a noite divide o dia.

Tentei fugir, tentei me esconder.

O tempo de hesitar acabou!

Romper para o outro lado!

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Acender meu fogo! Tentar incendiar a noite! T達o ilimitado e livre!

Que barulho foi esse?

Como um c達o sem osso...

GGRRRRRRNNNN...

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Perdido numa selvageria Romana de dor...

Sem segurança ou surpresa.

Sem segurança ou surpresa.

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O fim. Dedicado a James “Jim” Douglas Morrison (1943-1971)


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FIM DO ARCO UM


omem

Lobis

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ENJAULADO Conto de João Carlos Amador - Ilustrações: Nestablo Ramos

V

ocê é novinho, chegou aqui há pouco tempo. E aposto como está se perguntando o que aconteceu ontem à noite. Por que todo mundo ficou em silêncio. Por que as tevês não foram ligadas e os agentes da carceragem não jogaram cartas, nem ficaram vendo revista de mulher pelada. E que gritos foram aqueles, horas a fio sem parar? Por que ninguém fez nada? Eu vou te contar. Senta aí. Tudo começou com a história de um sujeito chamado Camilo. Não sei o sobrenome dele. Morava no interior com a esposa e dois filhos pequenos. Dizem que era funcionário público. Um cara totalmente normal, nunca tinha passado pela polícia. Até que um dia a família dele sumiu. E nem o próprio Camilo sabia o que havia acontecido. A polícia começou a investigar. Achou sangue na casa, mas nada de corpos. E nada do Camilo se lembrar o que havia acontecido na noite anterior. Sem sinais de arrombamento, nem algum suspeito na vizi-

A conclusão a que a polícia chegou foi que Camilo surtou e matou a família. Chegaram a desconnhança.

fiar que a mulher dele tivesse um caso com um cara do trabalho e aquele foi o motivo de tudo acontecer. Nada foi provado, mas as evidências já eram suficientes pra incriminar o Camilo. Tudo foi muito rápido. O cara foi preso e veio direto pra cá. Ele falava pouco e ficou vários dias sem interagir com os outros presos. Ele ficou em uma cela com mais nove detentos. Um belo dia, Camilo pediu pra ficar sozinho, que não era seguro ter tanta gente por perto. O carcereiro riu dele. Teve um dos presos que não gostou e deu um soco na cara do Camilo. O sujeito nem reagiu. Só ficou no canto, com a mão no rosto. Eu era um dos homens naquela cela e presenciei tudo. 36


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Mas fui transferido pra uma ala melhor por questão de antiguidade. Eu já tinha 10 anos aqui e a direção do presídio decidiu me dar um pouco mais de conforto. Foi o que salvou minha vida, sabe? E olha só a coincidência. O fato aconteceu na noite da final do campeonato. Lembra? Quando o Corinthians foi campeão? Todo mundo estava vendo. Uma barulheira danada nas ruas. Os fogos não paravam. Aqui no presídio também, foi uma festa. Por isso, só foram descobrir na manhã seguinte. Disseram que o sangue escorria e chegava na ala sete. O chão ficou todo vermelho. Os carcereiros entraram na cela e viram pedaços de corpos dilacerados. Braços, pernas, dedos... não dava pra saber de quem era o que. E ali, no canto, encolhido, estava o Camilo. Nu, empapado de sangue da cabeça aos pés. Ninguém sabe exatamente o que houve depois disso. Disseram que a direção do presídio ouviu os conselhos de alguém da Igreja. Realmente, todo mundo viu um padre andando por aqui. O fato é que o Camilo foi transferido de cela e passou a viver com mais oito presos. Mas agora havia uma diferença. Toda noite de lua cheia, ele é levado pra solitária.

“Foi o que aconteceu ontem. Os gritos, os uivos, o som de garras arranhando o aço da cela. Assustador, né?”.

Aposto como você está se perguntando por que alguém simplesmente não mata o Camilo e acaba logo com esse tormento. Seria bem mais simples, acontece toda hora por aqui. Mas dizem que a maldição passa pra quem fizer isso. Pode ser só uma lenda, mas quem vai arriscar? Talvez seja melhor mesmo os uivos no presídio uma vez por mês. Passa rápido. É só uma noite.

“Você vai se acostumar.”

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omem

Lobis

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Conto de George dos Santos Pacheco Ilustrações: Luciano Oliveira

O MAL DE SEPÚLVEDA

A

s coisas não iam nada bem em Abaruna, uma pequena cidade encravada na serra fluminense. Um lugar

aprazível, de clima ameno, com rios e cachoeiras onde muitos mergulhavam a fim de restabelecer suas forças. Com essas qualidades, havia ganhado o apelido de “Pedaço do Céu”, exibido no pórtico da cidade. Sua economia girava em torno da criação de bois. Porém, os mais pobres criavam cabras. Sepúlveda era um deles. Havia se mudado para lá há um ano com sua esposa, buscando uma vida melhor. Levantava todos os dias às cinco da manhã. Ordenhava algumas cabras, depois soltava todo o rebanho para pastar, recolhendo-o à tardinha. Com o leite, sua dedicada esposa fabricava queijos que eram vendidos na cidade. À noite costumava ir à venda tomar uma pinga e jogar sinuca, enquanto Margarete ficava em casa rezando. O assunto da vez era o aparecimento de uma onça na região. Dezenas de animais 42


estavam aparecendo mortos nos sítios, com os corpos dilacerados. Não sobrava quase nada... – Bota mais uma, Chico! – disse ele, segurando o taco em uma das mãos. – Então compadre, devemos formar um grupo para caçar essa onça. – disse Sebastião, dando uma golada na cachaça, deixando escorrer pelo canto da boca, que ele eventualmente limpava com a manga da camisa. – De acordo, compadre! – disse o Dr. Nunes, o único fazendeiro presente. Falava como se também fosse integrar o grupo. Não iria. Com certeza seria um empregado seu... – Devemos ter cuidado, senhores... Afinal, ninguém viu ainda a tal onça... – disse Zaqueu, que era filho de Sebastião. – Não entendo o porquê des-

- Isso que o compadre Moura viu realmente não era uma onça. Era um lobisomem disse Dr. Nunes. sa sua insegurança... O compadre Moura viu a onça devorando uma de suas cabras, não foi, Moura? – disse o pai de Zaqueu. – Na verdade... não tenho certeza se era uma onça... – disse Moura, abaixando a cabeça. – Apesar da lua cheia, o bicho estava longe e eu não pude ver mais que seus olhos vermelhos. Mas era grande, do tamanho de uma onça ou maior. – Você disse lua cheia? – perguntou Dr. Nunes. – Sim, doutor... – respondeu Moura. – Temo estarmos lidando com uma criatura do mal... – disse ele limpando o suor da testa. – Isso que o compadre Moura viu real-

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mente não era uma onça. Era

ele, levantando-se. Cuspia ao

um lobisomem...

falar e seu rosto havia corado.

– Mas não é possível! Nunca ti-

– Acalme-se, homem... – disse

vemos isso por aqui... – recla-

Chico.

mou Sepúlveda.

– Façamos o seguinte: Iremos

– Também nunca tivemos on-

todos para casa hoje e pensa-

ças... – disse Zaqueu, um pouco

remos no assunto. Amanhã nos

desconfiado.

reuniremos mais uma vez e de-

– Isso não existe, gente! Vocês

cidiremos o que fazer... – disse

estão malucos? – disse Chico, o

Dr. Nunes, com uma autoridade

dono da venda.

que nenhum outro tinha.

– Se não fizermos nada, um dia

Os homens saíram um a um da

pode ser um de nós que ama-

venda, calados e preocupados.

nhecerá morto pela criatura,

Suas casas ficavam a léguas

seja ela onça ou lobisomem...

dali e a noite ia alta. Por mais

– disse Dr. Nunes, seriamente.

que não acreditassem na histó-

Era o único que parecia acre-

ria, os sons dos animais notur-

ditar plenamente na existência

nos e o vento que sibilava nas

das tais criaturas.

árvores assustavam. Mas eles

– Para mim, chega! Vocês estão

fingiam não se abater...

todos bêbados, a começar pelo

– Então, pai... Acredita no dou-

doutorzinho! – disse Sepúlveda,

tor? – perguntou Zaqueu en-

ao sair do bar, cambaleante.

quanto caminhavam pela es-

– Me respeite, Sepúlveda! Volte

trada empoeirada.

aqui, seu borra-botas! – disse

– Olha, filho, seu avô contava


essas histórias desde que eu era moleque. Mas eu só vou acreditar no dia em que eu vir um... – disse ele, pegando uma pequena trilha que dava em sua casa. Caminharam em silêncio até que ouviram um animal rosnando, que parecia enorme. Pararam de caminhar, mas continuavam a ouvir o rosnado. Ambos sentiram um arrepio percorrer a espinha. A morte parecia iminente. Ousaram dar mais passos, mas a criatura rosnava mais. Não tiveram

Caminharam em silêncio até que ouviram um animal rosnando, que parecia enorme.

coragem de olhar para trás. Decidiram

correr.

As

passadas do bicho batiam pesadas ao chão,

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após eles, e, subitamente, o mais velho foi alcançado. A criatura de quase dois metros, pelos marrons e olhos

vermelhos,

que estava ofegante e babando, deu-lhe um violento

correndo e chorando.

golpe, derrubando-o ao chão.

Sepúlveda cambaleava a cami-

Sebastião lançou um olhar su-

nho de casa, com a roupa suja e

plicante para o filho, que não

rasgada, provavelmente devido

pôde fazer nada.

a um tombo. Não temia nada.

O lobisomem lançou-se sobre

Não era bravura, apenas o efei-

ele, que gritava desesperada-

to da bebida. Alguns ficam co-

mente. A criatura mordeu-o di-

rajosos com poucos goles.

retamente no pescoço. Seu san-

Abriu sua porta, que rangia

gue quente jorrava e a criatura

sombriamente, quebrando o si-

parecia se divertir com seu cor-

lêncio que insistia em perma-

po, arrancando-lhe pedaços de

necer ali. Descalçou-se e entrou

carne, uivando e rugindo.

lentamente, temendo acordar a mulher, que estava no quarti-

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– O Senhor é meu pastor, nada

nho. Uma semana por mês ela

me faltará... – recitava o rapaz,

dormia separada do marido.


- Você não me abra as portas nem as janelas dessa casa por nada esta noite! - disse Sepúlveda. Coisas de mulher… Pelo caminho, vinha pensando na história do Dr. Nunes. Era melhor se precaver. Conferiu as janelas e trancou a porta de seu quarto, pegando uma espingarda que havia atrás dela. Colocou-a ao seu lado na cama e dormiu. No dia seguinte, Sepúlveda chegou da venda com o pão debaixo do braço e com os olhos arregalados. – Que cara é essa, bem? – perguntou Margarete. Tinha por volta de um metro e sessenta, pele pálida e olhos lânguidos. – O compadre Sebastião morreu! – disse ele, com a voz baixa. Nem ele mesmo conseguia acreditar no que dizia. – Ara! Mas morreu de quê? – perguntou ela, tomando o pão de suas mãos. – Ah, mulher... Um bicho atacou ele e o filho no caminho de casa, ontem à noite. O Zaqueu disse

que

foi

lobiso-

mem... – Mas que absurdo! – disse ela, levando as mãos ao rosto. – Não acho que isso exista... 47


– Mas agora a coisa é séria... O compadre Moura já havia visto a criatura, mas ninguém tinha morrido ainda. E eu mesmo não acreditava, mas depois dessa... – disse ele, saindo de casa. Voltou minutos depois com algumas tábuas debaixo do braço, um martelo e pregos. – O que vai fazer? – perguntou ela, confusa. – Você não me abra as portas nem as janelas desta casa por nada esta noite! – disse ele, enquanto pregava as tábuas nas janelas. – Hoje vamos caçar a criatura! Depois de reforçar as janelas e portas, limpou a espingarda, que não podia falhar quando fosse necessária. O sol já estava no horizonte e Sepúlveda precisava estar pronto para a caçada. Aproximou-se da mulher, deu-lhe um beijo e a abraçou. – Eu te amo! Se algo me acontecer, saiba que sempre te amei e para sempre te amarei! – disse ele, com os olhos marejados. – Eu também te amo, querido! Não há de te acontecer nada! – disse ela, com ar tristonho. 48


O grupo reuniu-se na venda, como combinado, e saiu com armas em punho. Inclusive Zaqueu, que havia perdido o pai recentemente, estava lá, prometendo vingança. Dr. Nunes mandou avisar que tinha um sério compromisso e que infelizmente não poderia ir, mas mandou um de seus capatazes… Caminharam mata adentro, tendo somente a lua como farol. Preparavam uma armadilha para o monstro. Prenderam uma cabra numa estaca fincada ao chão, ficando à espreita. Puderam perceber o movimento brusco dos arbustos, a respiração ofegante e suas passadas que ficavam cada vez mais fortes e próximas. Finalmente, ele saltou sobre a cabra, mordendo ferozmente seu pescoço. Mal podiam acreditar no que viam... – Desgraçado! – gritou Zaqueu, saindo da tocaia e atirando na criatura, que deu um forte rugido e se embrenhou na mata novamente. – Não, Zaqueu! – gritaram eles. A atitude do moço estava pondo tudo a perder. O monstro agitava as folhas ao redor do rapaz e toda a equipe se aproximou. Temiam pelo pior. A criatura parecia estar se prepa49


rando para o ataque. – Volte aqui, seu desgraçado! – disse ele, disparando um tiro na direção da mata. Não ouviram mais som nenhum. De repente, os outros, que estavam a uma distância considerável de Zaqueu, avistaram o monstro, que caminhava lentamente e silencioso. – Não! – gritou Chico, mas era tarde. Zaqueu teve tempo apenas de virar-se e desferir-lhe um tiro, mas a criatura o devorou, assim como fez com seu pai. Os homens atiraram nela, mas o monstro fugiu para a mata. – Minha casa fica para lá! – disse Sepúlveda, preocupado com a mulher. Ela podia estar correndo perigo! Correram atrás do bicho. Avistaram-no caído já no quintal da casa de Sepúlveda e o primeiro a se aproximar foi ele, que logo viu a janela do quarto de sua mulher, completamente destruída. Ele estava ofegante e ferido, parecendo se arrastar para a casa. Seus olhos lacrimejavam e ele rugia baixinho, como um filhote na presença da mãe. – O que fez com minha mulher? – esbravejou – Volte para as trevas, monstro! – disse Sepúlveda, atirando no lobisomem. Ele deu um grande grito e ficou encarando-o, com a respiração rápida e curta. Aquele olhar lhe era familiar… A criatura foi perdendo tamanho. Seus pelos sumiam rapida50


mente. As feições femininas não demoraram a surgir e o corpo esguio de Margarete jazia moribundo em frente a seu marido. Tudo então começou a fazer sentido. As noites que ela preferia passar

sozinha

eram exatamente as sete noites da lua cheia… – Não! Margarete! – disse ele, jogando a arma ao chão e abraçando o corpo nu da esposa, chorando copiosamente. – Me perdoe... – disse ela, expirando em seus braços. – O que estão esperando? – esbravejou ele com o rosto banhado em lágrimas. - Terminem logo com isso! – disse ele, abraçando ainda mais o corpo flácido da esposa. Sua vida agora não fazia mais sentido.

O capataz de Dr. Nunes tentou detê-lo, mas Chico e Moura o impediram, pois entenderam a súplica do amigo. Sepúlveda não queria que sua mulher ficasse conhecida como o monstro. Entregou então a sua vida, para que salvasse ao menos a reputação dela.

Ficou conhecido em toda a região como o terrível lobisomem de Abaruna, morto enquanto devorava a própria mulher.

Seus amigos, com as armas, o livraram do martírio e ele tomou o lugar de Margarete.

FIM 51


MIAMI 40 U

m game com gráficos retrô dos anos 1980, todo pixelado, mas também com trama surpreendente e muito, muito violento virou um fenômeno do mercado independente e abocanhou vários prêmios. Com exclusividade para o Brasil, a Contos do Absurdo entrevistou Graeme Struthers , da Devolver Digital, o responsável pelo projeto de Hotline Miami para a Dennation Games. Ele fala da criação

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do game, do momento atual do mercado indie e diz que a continuação de Hotline, que sai em 2014, deve levar os games HLM para um outro patamar: CONTOS DO ABSURDO - FALE UM POUCO SOBRE O SURGIMENTO DA ‘DEVOLVER DIGITAL’. QUEM JÁ ERA AMIGO DE QUEM, QUEM ENTROU NO BARCO DEPOIS, COMO FORAM OS PRIMEIROS PASSOS.


0 GRAUS Graeme Struthers - Toda a gangue já tinha trabalhado junta antes. Alguns de nós éramos parte da Gathering of Developers, então estávamos próximos desde o fim dos anos 1990. De tempos em tempos trabalhamos em projetos e empresas diferentes e então nos reunimos novamente com a ideia de uma empresa de produção digital e de publicação. Quatro dos caras estão em Aus-

tin, Texas, e os outros dois estão em Londres, o que é uma ótima situação para um grupo pequeno como o nosso. CONTOS DO ABSURDO - CONTE SOBRE O DESENVOLVIMENTO DE HOTLINE MIAMI. DESDE O COMEÇO VOCÊS QUISERAM ESSE VISUAL RETRÔ DE GAME DOS ANOS 1980? O QUE MUDOU MAIS DA CONCEPÇÃO INICIAL PARA O PRODUTO FINAL? 53


GS - A Dennation tinha uma noção muito forte do estilo, música e a da vibe em geral pro Hotline Miami desde o começo. O game que vimos no início só ficou cada vez melhor conforme trabalharam nele, acho que todos nós nos apaixonamos pelo game na primeira vez que o jogamos. Ele simplesmente foi realizado de uma forma espetacular.

CA - EXISTEM JOGOS MAINSTREAM BEM VIOLENTOS, COMO O GTA, MAS O JOGADOR DE HOTLINE MIAMI TEM QUE SER BEM BRUTAL MESMO. ESSA É UMA VANTAGEM DE SE PRODUZIR UM GAME INDIE? GS - Acho que não vejo ligação entre ser um game indie ou uma grande produção nesse caso. Acho que tudo tem que se manter no contexto da 54


Então nada realmente mudou, só ficou cada vez mais afiado e melhor de jogar. CA - QUAL O SEGREDO PARA UM JOGO DE GRÁFICOS MAIS SIMPLES, SEM A SOFISTICAÇÃO VISUAL DAS PRODUÇÕES DE UMA BLIZZARD OU BETHESDA, FAZER SUCESSO? GS - O segredo? Acredito que, com Hotline, o game é tão estiloso que a sim gráficos não é realmente algo que passa pela cabeça dos gamers. Games como Fez, Hotline, Braid, a lista é longa, são simplesmente grandes mundos. Acredito que o jogador vê o que vemos e que eles ficam atraídos pelo universo. Muitos dos designers de games indie cresceram jogando Super Nintendo e Megadrive - devem pensar naquela era em que tudo era a jogabilidade e o desafio. Os games deles tendem a ser super difíceis, mas você pode reiniciar e continuar tentando e no fim eles compensam bastante. Pra se tornar um sucesso, acho que os gamers procuram esse tipo de jogo e quando eles acham, contam pros amigos, postam vídeos no Youtube e movem o game pra frente; os projetistas indie adoram compartilhar games uns com os outros e falar deles para os fãs e temos alguns jornalistas fantásticos que seguem a cena indie e escrevem muito sobre isso.

história do game. Em Call Of Duty, eu posso matar literalmente milhares de inimigos - mas no contexto das guerras, isso parece fazer sentido. Mesma coisa quando saio golpeando zumbis. Então pra mim é o contexto no qual você trabalha... CA - ESSE TIPO DE GAME, COM ESSE VISUAL E ESTILO, PODE SER UMA TENDÊNCIA DURADOURA? OU É UMA MODA? GS - Acho que a Nintendo sempre fez games com esse tipo de fidelidade gráfica - então não vejo como uma moda. Acredito que, se os games são ótimos e mantém o nível de gameplay que nos empolga a todos, acho que vai estar conosco sempre. 55


CA - COMO VOCÊS ESTABELECERAM A PARCERIA PARA LANÇAR AS VERSÕES PARA PLAYSTATION E VITA? PEDIRAM PARA MUDAR ALGUMA COISA, COMO ABRANDAR A VIOLÊNCIA? GS - A Sony quis Hotline e foram muito legais em dizer que queriam exatamente o mesmo jogo e gameplay. A Dennation foi legal e temos uma ótima equipe chamada Abstraction pra trazer o game para Vita e PS3. CA - O JOGO CLARAMENTE FOI PENSADO PARA SE JOGAR NO PC. ALGUNS JOGADORES RECLAMAM UM POUCO DA ADAPTAÇÃO PARA JOGAR EM OUTRAS PLATAFORMAS. VOCÊS PENSARAM EM MEXER NA JOGABILIDADE DO GAME? GS - É sempre um desafio levar um game de uma plataforma para outra. A equipe queria que ficasse tão bom quanto possível. Alguns jogadores de PC adoraram usar os joypads, outros o teclado. Teve gente que nos disse que preferem a versão Vita ( também a acho mais fácil pra mim, tende a combinar com meu estilo de jogar). Sempre dizemos que se não pudéssemos fazer o game jogar direito e a Dennation não ficasse feliz com os controles, não o lançariamos. 56

CA - O GAME TEVE ÓTIMAS CRÍTICAS E GANHOU PRÊMIOS. ISSO REFORÇA A IMPORTÂNCIA QUE O GAME INDIE TEM NO MERCADO, PERANTE A SUPREMACIA DOS GRANDES ESTÚDIOS? GS - Acho que temos sorte nos ga-


mes que a imprensa de games tem mente aberta e não está só interessada nos games grandes. Acho que nossa mídia é como a da música - eles adoram música e gostam de encontrar novos artistas e isso é ótimo pra cena indie. Com Twitter, Facebook e e-mail, todo mundo está muito mais conectado e talvez esteja em favor dos indies que a mídia pode falar direto com o criador do game. CA - COMO SE GANHA DINHEIRO COM GAMES INDIE? COMO OS TORNA FINANCEIRAMENTE VIÁVEIS COMEÇANDO DE FORMA BEM MAIS MODESTA? GS - Bom, a gente reza bastante :-) Acho que estamos sempre pensando no potencial da equipe e do game que querem fazer. Temos muita experiência também e isso ajuda. Também na Devolver, somos uma equipe bem pequena - não temos escritórios nem custos doidos e trabalhamos muito duro pra descobrir como colocar o game na frente dos gamers então acho que a coisa principal é acreditar no projeto e ter certeza de que você consegue fazer o que disse que faria. CA - O que podemos esperar da sequência de Hotline Miami, sem dar muitos spoilers?

GS - Se você gostou do primeiro game, vai adorar o segundo. Estou tão empolgado com o que estão fazendo, acho que estão levando o game HLM pra outro patamar e a trilha sonora é simplesmente fantástica. CA - GAMES HOJE SÃO A MAIOR INDÚSTRIA DO ENTRETENIMENTO E ALGUNS, COMO O PRÓPRIO HOTLINE, TÊM NARRATIVAS INTRIGANTES QUE ENVOLVEM A PESSOA ALÉM DO JOGO PROPRIAMENTE DITO. POR QUE, ENTÃO, TEM SIDO TÃO DIFÍCIL APARECER UMA BOA ADAPTAÇÃO CINEMATOGRÁFICA DE GAME? GS - Essa é uma excelente pergunta e, se eu tivesse a resposta, estaria vivendo em Hollywood e passeando por aí com Brad e George. Talvez o problema seja que em muitos games, o jogador é o herói, o cara bom ou mau. Em filmes, geralmente nos pedem para nos identificar com os protagonistas, então talvez haja uma desconexão desde o início? Sinceramente, não faço a menor ideia.

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I M A I M HOTLINE

scaras de biá m . .. e l ta u r s, violência b a de cima para baixo, ta e r c e s s n e g Mensa per spectiv a s u nos anos i o m d ia a M e s e a b in l tl a o isu chos. H e todo um v eal. Cada capítulo do s o d la e ix p gráficos a trama sur r identificado, acorm u r ta n o c a ão 1980 par otagonista, n do uma mensagem r p o m o c a ç n game come nto e recebe ma tarefa usando e m ta r a p a u u dando em se ara executar p e d uma ofee p a d e a lh c e e u q a a lh s o misterio al de sua esc mpre, a missão do im n a e d a r a se uma másc íficas. Quase ntro de um prédio. c e p s e s n e g rece vanta do mundo de r um chefão no to r ta a m e lv o ta jogador env m deve der ro é b m ta , s o s a Em alguns c ns-chave. e it r te o jogo é b o , s e le lo p u im ít s p a c te final do aparentemen estratégia. O game s o c fi rá g s e Apesar do uito reflexo m e vou o Game ig x le e , , s o o s tr lo u ti o s e e tr en muito o e crítica e, no Fantastic c li o c b ti ú s p tá u n to a F is conqu 2012 e Mais d e z z e R o n do Show . Arcade 2012 58


lady

Lobis

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Por favor, apenas diga se pode identificá-lo!

Sim, senhor! Farei o possível!

Está entre eles, senhora?

Tem algo errado aqui...

Sim, é esse moço aqui o estripador!

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Não consigo nem olhar para o rosto dele!

A senhora pode ir agora!

Já ouvi demais hoje! Mesmo com a revisão do caso!

No porão da casa, foram encontrados vários corpos das crianças desaparecidas, queimadas com ácido... Creio que temos o suficiente para mantê-lo atrás das grades!

... Partes dos corpos arrancadas e deixadas nos cantos do cômodo... Sem falar na cabeça do oficial Roberto.

Mas tem algumas questões que...

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Como assim? Ele deixa um monte de corpos largados no porão. Sendo que é doutor em cirurgia cardíaca afastado...

... Bem, ele diz nem saber por que está aqui no DP. Foi muita sorte nossa!

As vítimas conferem em aparência com a lista de alguns desaparecidos. O azar é morar perto da delatora!

Mas isso não responde a pergunta... Por que ele fazia isso? Louco é louco, mas... Bom, vamos chegar a essa resposta em breve!

Vou dar uma volta! Essa noite promete!

O assassino está preso?

Já confessou quantos foram?

Mais de vinte crianças mesmo?

Bom, sobre essa noite...

62

... Vai ser lua cheia, eu acho!


Duas horas depois, do outro lado da cidade... Querido, cheguei!

Terminou de arrumar o laboratório? Vou preparar um lanche pra nós antes da viagem... E o bebê, está dormindo? Está no sofá. Assim que descer, a gente encerra o assunto!

Tá tudo pronto! Vou tomar um banho e já volto!

Encerra o assunto...

Ahhh... Acho que a gasolina vai ser o bastante. Não precisa se preocupar com nada!

63


Por Deus! Já chega!

As coisas estão embaladas na garagem. Devemos passar na casa do Mauro?

Homem mau e cruel.

Homem mau quer usar a toalha pra matar a moça. Ele já está muito perturbado... Ele fez algo com o nenê!

Aaaaaah!!! Minha nossa senhora!!

64


Desça aqui um pouco... Não queria passar... Que barulho é esse, querido?

Ah, não! A luz apagou?!

Seu coração dispara... como que do nada...

Mas o que é isso?!?

Corre para a sala...

Querido, venha ver o que está acontecendo! Aaaahh, o meu bebê!!

Fome imensa, mas a criança já foi sacrificada pelo pai... Só resta...

... Carne podre!

65


Não faça nada com ele!

Por favor!! Essa é boa!

O homem é mau. O que dizer dela então?! Cara!! Ela é pior do que eu era!

Deus!

NNão tinha a arma certa para reagir...

Ela já cheirava morte...

66


Moça... Não devia ter feito isso!

Ela não vai correr?! Tonta!

Eu não tenho medo de você... Venha!!

O prato da noite estava servido..

Ei, lobo mau! Desculpe interromper o jantar!

Você precisa ver o laboratório... Antes de eliminar as provas!

Minutos depois...


Vão soltar o suspeito? Creio que ela queria ganhar tempo. Por isso te acusou!

A promotoria vai tentar recurso?

Raul morreu quando?

O marido já não su´portava as atitudes dela!

Daí ele pensou em cair fora e deixar tudo pra trás, com o dinheiro dela...

... E colocaram aqueles corpos na minha casa?!

Pra isso, ele pôs fogo na casa, mas acabou sendo queimado na fuga!

Sim, você é médico. Pra ela o filho era tudo. Quando descobriu a doença dele... Enlouqueceu procurando a cura!

68

Como o senhor descobriu isso tudo... De um dia pro outro?


Tenho as minhas fontes...


UM ESTRANHO PULSA

U

m estranho pulsa dentro de mim, indomável ele aflora, senhor de mim.

A noite é toda sua e ele sempre quer mais, a morte acompanha-lhe. Estranho ele pulsa! cada molécula minha está impregnada do mal, e o mal avança. A bestialidade está nele, seu urro é terrivelmente selvagem, e o estranho destrói tudo ao seu redor.

70


DENTRO DE MIM

Fera insaciável, filho da lua, escravo da maldade. E assim será enquanto a lua cheia nascer. Salvem-se todos da fera!

Poema de Márcio Jung Ilustração: Lauro Winck 71


Olhos Vermelhos Conto de Gustavo B. Rossato - Ilustrações: Ronílson Caetano Leal

E

la respira bem devagar, fazendo o mínimo de barulho. Provavelmente, se soltar o ar com um pouco de mais peso, a criatura consiga ouvir de longe. Os olhos ficam bem

abertos e cada som diferente é ouvido com receio do suposto lobisomem estar próximo. Sim, por mais ilógico que possa parecer, a primeira imagem que sua mente associou foi com o arquétipo da figura híbrida do lobo e homem. Parte de seu corpo tem as marcas das presas, além de uma mancha roxa nos olhos. Mesmo pesando menos de sessenta quilos, ela conseguiu escapar do monstro. Era pra ser diferente. Conheceu aquele sujeito estranho em uma balada gótica. Ao som de Sisters Of Mercy, um homem por volta dos trinta anos e com uma longa barba por fazer começou a conversar com a pequena Maria.

72


Ela gostava da maneira arrastada de sua voz. Dava um ar muito masculino. Depois de meia hora, os dois se beijaram e não se separaram até o fim da festa. Na despedida, sobre a escuridão da lua nova, trocaram telefones e decidiram que aquela ficada não deveria ser o fim do casal. Maria entrou em seu carro e colocou o som da rádio. Estava cansada de ouvir músicas com temas sombrios a noite inteira. Caetano Veloso canta “Lua e Estrela” na FM. Sente uma pequena dor perto da costela. Ela lembrou em como Lúcio (o tal sujeito da festa) tinha uma pegada forte. Já em sua casa, nota uma mancha vermelha como se fosse um hematoma. Não tinha reparado em ser vítima de uma possível agressão. Nas duas semanas que se passaram, os dois trocaram mensagens de celular e conversaram pelo facebook, além de sempre mencionar em marcar um novo encontro. Ela estava com os próximos finais de semana livres mas, por motivos não revelados, Lúcio desmarcava, alegando outros compromissos. Isso irritava a jovem, levando a imaginar seu ficante em outras baladas. Finalmente, os dois decidiram marcar um encontro romântico em uma sexta-feira à noite. O restaurante italiano, o vinho e a con73


versa fluíram em olhares e gestos. Ele toca o rosto da pequena Maria e coloca o liso fio de cabelo atrás da orelha. Sente certo incomodo quando observa a prata do brinco. Ela sorri com o pequeno gesto e pergunta se gostou do brinco. “Claro, é tão lindo quanto seus olhos verdes”, diz Lúcio com um sorriso amarelo. Antes de entrar no carro, os dois começaram a se beijar freneticamente. Maria se assusta com a pegada de Lúcio. Parece estar possuído por uma força fora do comum. Gosta de morder e, às vezes, ela sente os dentes apertando sua mandíbula. O pelo da barba se estende até o peito e roça a pele delicada, causando um atrito poderoso. Ela se sente dominada por Lúcio. No carro, os dois decidem ir a um motel. A lua cheia ilumina a estrada e a claridade começa a afetar o humor do jovem rapaz. Ela percebe certo desconforto. Algo não caiu muito bem no jantar. Ele começa a rosnar e a dizer coisas sem sentido. Um discurso lunático. Algo como “Vou te engolir inteira”. Se antes ela estava gostando de tal traço de sua 74


personalidade, agora parecia um anticlímax. Já não queria mais terminar a noite com Lúcio. “Quero voltar pra casa”, soa a leve voz de Maria. O sujeito fica irado. Ele estaciona o carro no acostamento. A luz da lua começa a banhar a pele de Lúcio. Os pelos crescem, enquanto seu corpo aumenta. As suas mãos e pés transformam em presas afiadas. Maria não acredita no que vê. O monstro ataca seu rosto e tenta agarrar seu corpo. Ele grita “Vou te comer inteirinha, pedaço por pedaço!” A voz gutural a deixa em pânico. Ela chuta a cara do lobisomem e corre desesperadamente até a mata, onde fica escondida. Sabe que não vai conseguir fugir da fera. Começa a relembrar as histórias antigas que o povo conta. Como uma ateia convicta, não acreditava em contos absurdos ou histórias sobrenaturais. Maria lista características da lenda do lobisomem. O famoso simbolismo entre a criatura e a lua cheia. Também recorda das histórias infantis. Existia um caçador em Branca de Neve que matava o lobo mau, porém não acreditava em 75


ser salva por alguém naquele lugar. Há também uma relação de fraqueza do lobisomem com artefatos de prata e se recorda da reação de Lúcio no jantar ao tocar seu pequeno e prateado brinco. Maria se levanta. O lobo percebe seu movimento a quilômetros de distância e corre até sua presa. Percebe no cheiro a ausência de medo da menina e a abraça bem devagar, como se fosse devorá-la aos poucos. Ela sente o cheiro do mal e olha nos olhos vermelho-sangue. Sua mão porta o brinco que estava em sua orelha. Ela aperta no olho direito do monstro com muita força. O lobisomem sofre com a dor se alastrando pelo seu corpo. A prata é o antidoto contra o feitiço do lobo. Com o outro brinco, faz o mesmo noutro olho. O lobisomem está cego. Chora sangue e fica de joelhos para a pequena Maria. Ela pega um pedaço de pau e começa a bater em sua cabeça sem piedade até a criatura não dar mais sinal de reação. Maria vai embora de seu encontro com o lobisomem, caminhando pela estrada em estado de choque. O sol retira o poder da transformação e retorna na imagem do jovem Lúcio. Ele está morto em uma condição bem grotesca. As 76


notícias correm anunciando um assassinato brutal na região. Os detetives conseguem achar pistas até Maria. Ela se entrega muito decepcionada, alegando ter sido violentada por Lúcio. Nunca acreditariam na metamorfose bizarra. A delegada a defende, citando casos terríveis de homens atacando às mulheres, por isso o juiz a absolve do crime como legitima defesa. Ao mesmo tempo, todos ficam assustados pela forma violenta como Maria se defendeu de Lúcio. Ela ganha fama de durona. Anos depois, decide estudar psicologia. Precisava processar tudo aquilo em anos de terapia. Começou a se interessar por Jung e também outros autores ligados à magia e metafísica. Mesmo com sua experiência terrível, ela sentia uma emoção diferente quando se lembrava daqueles olhos vermelhos. Algo dizia em seu inconsciente que havia a possibilidade de domar tal poder e conseguir um aliado diferente. Sem a violência, apenas com a mesma força. Toda sexta-feira, em noite de lua cheia, ela olha pela janela à luz da lua e escuta, ao fundo, os cães latindo. Às vezes, confunde o som com o uivo de um lobo. 77


PARTE 1

– Paris, como sempre, acolhedora e envolvente, com mil opções de

– O que você está lendo?

lazer. Conseguimos um intercâm-

– O livro secreto dos lobisomens!

bio em tecnologia de investigação

– Não vá me dizer que você acre-

científica que nos coloca em pé de

dita em lobisomens!

igualdade com os americanos.

– Ora, querido, claro que não,

Ela, Aline Nuges Linhares, bióloga

mas mesmo as lendas têm sem-

especialista em genética humana

pre algo a nos ensinar. Como foi

e biogenética. Ele, Marco Antô-

a conferência?

nio Linhares, inspetor-chefe do Departamento de Investigações

78


Criminais da Polícia Metropo-

com características inusitadas e

litana. Chegaram naquela noi-

lamento importuná-lo a esta hora,

te com uma diferença de duas

mas precisamos do senhor.

horas e, após matarem as sau-

– De que se trata?

dades em uma duradoura se-

– Bem, é complicado, é melhor o

ção de sexo, ela perdera o sono

senhor vir até aqui.

e costumava ler nessas horas.

Marco vestiu-se rapidamente e

Ele, apesar do cansaço da longa

olhou a hora: quatro da madruga-

viagem, acordou e a procurou

da. Tomou o carro e dirigiu-se ao

na cama.

endereço, um duplex em um con-

- Não vá me dizer que você acredita em lobisomens! - Disse Aline.

domínio de luxo na Zona Norte. O cadáver de uma mulher completamente nua, aparentando vinte e poucos anos, deitada de bruços na

Só então se deram conta de que

cama, sobre uma poça de sangue

nem haviam falado sobre suas

que ainda pingava sobre o tapete.

respectivas viagens. Ela jogou o

– Quem encontrou o corpo? - Per-

livro sobre o sofá e ele a tomou

guntou Marco ao tenente Wilson.

nos braços, mal podendo espe-

Marco virou o corpo com a ajuda

rar para chegar ao quarto. Mal

de Wilson. O ventre estava rasgado

haviam reiniciado as prelimi-

e dilacerado, mas não havia sinais

nares e o telefone tocou. Marco

de estarem faltando órgãos. Mar-

pegou o fone meio a contragos-

co notou arranhões, produzidos

to. Era do departamento. A voz

por pontas, como garras.

do tenente Wilson Acabava de

– Tenente! Isso parece obra de um

quebrar o encanto.

ataque de alguma fera, um lobo

– Inspetor, temos um crime

ou semelhante. Mas droga! Isso é 79


um condominio, tem câmeras Marco ordenou que, após a perícia de segurança, portaria, como do local, encaminhassem pedido de um lobo entraria aqui? Mande urgência ao responsável pela aurecolher as gravações das câ- tópsia. Wilson obedeceu e o inspetor meras de segurança. Quero ver ficou pensativo. tudo.

– O que o senhor acha? - Perguntou

– Espere! - Marco aproximou Wilson. a cabeça da parte dilacerada, – Wilson, quem fez isso foi muito mais abaixo das costelas.

hábil ao atacar. Só a autópsia pode-

– Está faltando alguma coisa rá revelar alguma coisa. Ninguém aqui. Mas isso vai ser trabalho viu nada, não há digitais, nada que para o legista.

sirva como ponto de partida.

– Olhe isto! - Falou. Ao mover – Não lhe parece uma mordida poos cabelos, um corte profundo derosa aqui no pescoço? sobre a nuca chamou a aten- – Sim! Mas pelo estrago teriam que ção. - Acho que ela já estava ser mandíbulas poderosas. morta quando teve o ventre di- – Vai ver que foi o chupa-cabras. lacerado.

Uma vizinha ligou e, como ninguém atendeu, resolveu entrar. A porta da sala estava aberta. Os vizinhos não ouviram nenhum barulho.

Resmungou Wilson. Marcos lembrou a conversa com a esposa. – Ou um lobisomem? – Cruz credo, inspetor! Quando eu era pequeno, minha avó contava histórias de lobisomens. Eu morria de medo.

Marco deixou o tenente Wilson en80


carregado da burocracia e voltou para casa, pensando sobre o caso. Lembrou que não havia roupas junto ao cadáver. Ela já estava nua quando foi atacada. Deve ter tirado voluntariamente. Mas, se foi atacada por alguma fera, por que faria isso? Tentou dormir um pou-

óculos, quase na ponta do nariz. Franziu a testa ao ver o Inspetor. – Inspetor, temos aqui um belo mistério. – Bem, posso imaginar - Retrucou Marco. – Olha, inspetor, ela morreu cerca de uma da madrugada. Estes

orifícios

foram

causa-

dos por presas, provavelmente retráteis, como de algumas serpentes. Aparentemente, ela não reagiu. Quando foi atacada, estava tranqüila ou dormindo. Agora vem o pior.Ela estava grávida, talvez com dois ou três meses de gestação, não há como saber. O útero foi extraído. – O senhor diria que... co, mas a cena que vira teimava em

– ... Que o útero foi extraído ci-

questionar seus conhecimentos.

rurgicamente, como se faria em

O dia já estava raiando e Aline já

um órgão para transplante.

havia saído. Vestou-se e rumou

– O senhor deve estar brincan-

para o departamento.

do.

O doutor Alfred levantou os olhos

– Não estou! Não consigo pen-

sobre as pesadas lentes de seus

sar em algo diferente. Veja! As

81


características

do

ataque consigo imaginar uma razão para isso.

são de um animal feroz, mas – Transplantar o útero? Mas como e a extração do órgão foi fei- por quê? ta com extremo cuidado. Eu Aline riu! diria profissionalmente. – Doutor! Vamos pedir o exame de DNA o mais urgente possível. Mas. francamente, DNA de lobisomem? – Olhe inspetor, também não creio em lobisomens, mas isto aqui é muito estranho e algo me diz que não termina por aqui. – Certo! Também acho que teremos mais dores de cabeça. Marcos ligou para Aline e pediu-lhe que acompanhasse o exame de DNA. À noite, durante o jantar, comentaram o caso. – Então! O que você acha? Perguntou Marco. – Querido, não houve agressão sexual no caso. O assassino queria o útero dela. Não 82


– Ora, impossível, o cordão umbilical rompeu-se e provavelmente ele vai transplantar um feto morto.

- Querida! Monstros não existem, mas estamos diante de uma criatura misteriosa. Na manhã seguinte, mais dois casos haviam sido registrados: um em uma pequena localidade do interior e outro na capital, desta vez na Zona Sul.

PARTE 2 O inspetor acabava de falar das dificuldades do caso numa entrevista coletiva quando o celular tocou. Era Aline. – Querido! Você não vai acreditar. Tudo leva a crer que se trata de um alienígena. Veja! O DNA cujos residuos puderam ser examinados possui uma cadeia genética cerca de 50% maior que a humana. Além disso, apenas –

alguns cromossomos coincidem com os nossos. Ao contrário dos seres humanos eles possuem 34 cromossomos e não os 23 que 83


possuímos. Trata-se de uma en-

sua voz, ele fugiu. A mulher ata-

tidade provavelmente bastante

cada estava só. Isto faz pensar que

inteligente e com capacidades

ele ataca pessoas sozinhas?

acima do padrão humano.

– Você quer dizer mulheres sozi-

– Só me faltava esta! Um Lobi-

nhas? Veja! Nos três casos conhe-

somem alienígena.

cidos, as mulheres eram jovens, oito

bonitas e estavam sozinhas. Vou

horas de uma noite quente

mandar expedir um alarme para

quando Marco e Aline se encon-

que as mulheres não fiquem em

traram..

casa sozinhas e não saiam à rua

Eram

aproximadamente

sem companhia. – Porque demorou?

– Mas você acha que o defeito no

– Tive que participar de uma

satélite tem algo a ver?

reunião de emergência com um

– O coronel Maia informou que o

coronel do exército. Adivinhe!

satélite era na verdade de prprie-

Na noite anterior ao primeiro

dade dos americanos. Deixou de

assassinato, um satélite militar

funcionar exatamente sobre esta

deixou simplesmente de funcio-

cidade. Se essa coisa veio do espa-

nar e o Coronel Maia acha que

ço, podem ter usado o satélite para

tem ligação com o aparecimen-

desovar o embrulho que aguardou

to do estranho assassino.

até que anoitecesse para sair em direção à Terra. O satélite parou

- Só me faltava esta! Um lobisomem alienígena! – Mas espere! Quando ouviu

84

exatamente às 0:00h. Quer apostar como foi desligado? – Faz sentido.

– O coronel informou que amanhã


parte uma nave de Cabo Canaveral para tentar consertá-lo.

Na manhã seguinte, ao chegar ao escritório, Marco foi informado de que mais quatro cadáveres haviam sido encontrados. A diferença desta vez é que os pares estavam em lugares diferentes, mas só uma das vítimas havia sido seviciada. A mais jovem e bonita. A outra simplesmente havia sido morta. – Inspetor! Somente foram atacadas mulheres, principalmente em curto estado de gestação. Nenhuma que estivesse acompanhada de um homem.

– Wilson! Parece que nosso alvo não gosta da presença masculina, senão teria me atacado. - Falou Marco, coçando a cabeça.

– O que vamos fazer? – Não sei! Veja, nós temos homens espalhados pela cidade toda. Patrulhas rodando a noite toda e nada. O Exército deslocou um bom contingente de homens do batalhão de operações especiais. As câmeras de vigilância espalhadas pela cidade não registraram nada. Já se passaram dias e não temos nada. Francamente, não sei o que fazer. É como combater um inimigo invisível.

parte 3 Foi então que mais um acontecimento estranho veio juntar-se a lista das façanhas da fera.

– Alguma coisa cresceu aqui dentro e saiu rompendo as barreiras. A seguir, simplesmente abriu o sepulcro e saiu por aí. A voz do outro lado da linha pare85


cia ofegante.

– O que temos aqui, doutor?

– Inspetor! O túmulo da primeira

– Veja! O cadáver foi conservado

mulher... – A sepultura foi vio-

intacto. Não há sinais de decom-

lada. Foi violada de dentro para

posição. Alguma coisa cresceu

fora! E tem mais...

aqui dentro e saiu rompendo as

– Mais o que?

barreiras. A seguir, simplesmen-

– O cadáver está intacto. Apenas

te abriu o sepulcro e saiu por aí.

um rombo na região vaginal.

– Você quer dizer que um filhote

– Ok! Mande o cadáver para o

foi gerado aí dentro?

Instituto Médico Legal. Estou

– Exatamente! Ao retirar o útero

indo para lá.

original, o agressor o substituiu

Marco chegou diante do Dr. Al-

por um estranho similar que não

fred e seus pesados óculos. Ele

notei na primeira autópsia e que

apenas olhou para Marco, ba-

foi introduzido na cavidade ute-

lançando a cabeça.

rina. Provavelmente se alimenta das paredes do reto e desenvolve-se ai dentro. Depois abre caminho rasgando tudo à sua volta. Aparentemente, possui uma força

despro-

porcional ao seu próprio nho. 86

tama-


– Meu Deus, isso é uma péssima futebol de salão. Na manhã do dia notícia. Precisamos agir rápi- previsto, o bebê alienígena comedo. Vamos ter nos próximos dias çou seu trabalho rumo à liberdanascimentos contínuos dos des- de. Era horrível ver como dilaceracendentes desta fera. Mas como va o corpo da vítima. Finalmente gera os embriões? Precisaria de livre, podia agora ser observado uma companheira.

pela primeira vez e era uma visão

– Não se for um hermafrodita. aterradora, mesmo para um bebê. Como ele não tem onde depositar Tinha aparência física semelhano embrião em alguém de sua es- te ao corpo humano, mas a capécie, utiliza-se deste método.

beça lembrava figuras egípcias

– Esta agora!

de homens com cabeça de lobos.

Depois de uma longa reunião en- Mas possuía asas, como as asas de tre médicos e o pessoal da polí- morcegos. Ensaiou um voo, mas cia, foi determinado que a próxi- bateu contra o vidro. Esbarrava ma vítima a dar a luz, se assim na parede de vidro e voava em se pode dizer, seria mantida sob círculos. Então todos viram estarvigilância. Era preciso verificar recidos uma figura projetando-se como o fato iria ocorrer. Calcu- contra a parede de vidro que exlando o tempo de gestação, um plodiu em pedaços. Era o adulto cadáver foi colocado em uma cú- furioso. Ele então cuspiu um lípula de vidro galvanizado cober- quido verde contra o próprio fita por uma rede de aço. Seria im- lho, que caiu agonizando. Apesar possível escapar dali. Os demais dos vários tiros desferidos pelos cadáveres

continuavam

sendo militares, ele continuava voando

mantidos em uma ampla sala e atacand. Tinha a aparência de onde antes havia uma quadra de um homem com compleição físi87


ca perfeita, apenas a cabeça de

mou-se, olhando incrédulo para a

um lobo. Nas pontas superiores

companheira, ainda com a arma

das asas, possuía ferrões como

pendente da mão direita.

chifres pontiagudos, que usava

– O que você fez? - Perguntou

contra seus atacantes. O gran-

Marco.

de salão parecia um campo de

– Já ouviu falar em ultrassom?

batalha e os tiros eram inúteis.

Ele tinha ouvidos sensíveis como

Já havia vários soldados feridos

os cães. pois precisava deles para

por seus esporões. Então Aline

identificar o som rebatido pelo so-

surgiu em uma porta lateral,

nar, como os morcegos, para voar

portando uma arma estranha

no escuro. Estávamos testando

até para os militares. Havia

esta arma para uso dos fazendei-

uma espécie de refletor na par-

ros, que perdem muito gado ataca-

te frontal do cano. Ela abaixou-

do por hematófagos. O que fiz foi

-se, apoiando-se sobre o joelho

exagerar um pouco na baixa fre-

direito, caprichou na pontaria,

qüência. O suficiente para detonar

mas ninguém ouviu nada. Ape-

com os ouvidos.

nas ela ouviu o suave clique do

– Genial! Enfim, temos uma arma

gatilho. A fera girou sobre si

capaz de dar conta desta coisa.

mesma e estatelou-se no chão.

Bem você e seus colegas terão ago-

Caída sobre as próprias asas

ra muito a aprender sobre essa

com os olhos arregalados. Ver-

criatura. Talvez sua cadeia gené-

tia sangue pelos ouvidos. Marco

tica nos forneça subsídios impor-

ergueu-se, segurando o braço

tantes para melhorar a nossa. Se

ferido, atingido pelo esporão. O Lobisomen, ou seja lá o que fosse, estava morto. Ele aproxi88

com as lendas temos a aprender, imagine com uma mistura real de lobisomem com vampiro...


omen

Lobis

89


Jundiaí, 00:00

Vai, vai!! Não para, não para!!

Fala baixo! Você vai acordar os mortos com essa gritaria! Engraçadinhooo!!

A T I E LH

A CO

Você deve dizer isso...pra todas as tuas namoradas!

Você é a mulher da minha vida, Carol!

Seu tarado... vem!

Maravilhaaaa!!!

90


Desafio o próprio inferno pra ficar contigo hoje!

Que romântico! Merece uma chupeta!

Hoje vou tirar a barriga da miséria...

Acho que vou tirar outra coisa dessa miséria...

Meu Deus do céu!!

91


Viu só?! Fechou a venda e nem lembrou de tirar a etiqueta!

Que diabo tá acontecendo?!

Peraí, querida! Você faz parte da barganha também!

Posso ajudar?

NEssa nuvem é esquisita... Parece que tá descendo!

Tentando sair sem pagar? Seus peitos tinham uma cara tão honesta...

92


Tentando pedir ajuda pros mortos?

Alguém me ajuda, por favor!

Que feio, lobo! Fazendo cobrança em terreno alheio! Isso não é bom pros negócios. Trato é trato!

Tem uma coisa sagrada no nosso ramo.

Quem compra deve receber!

Toninho do Diabo! Um lambe-rola descarado protegido do chefe! Sou independente! Meu território é qualquer poste em que eu mijar!

Não aceito monopólio de almas!!

Tudo bem, eu também manjo de capitalismo selvagem! Minha melhor capa!!

93


Eu sou um mito universal, uma lenda que transcende culturas e gerações! e gerações!

ganhei vida eterna em troca de almas! Com a humanidade fazendo tanta merda, ainda vou estar aqui depois que o sol apagar!

Negócio melhor que esse, só ser dono de igreja! De jeito nenhum largo essa teta! A lei do mercado é a lei do mais forte!

Bom, já que tamos no mercado negro...

Toninho tem a habilidade de manipular as chamas negras, uma energia de trevas absolutas que só os seres do inferno sabem usar.

94


Reclama no Procon. O lá de baixo é bem melhor.

Nãão!! Sou imortal!! Isso é competição desleal...

Ele não vai te ajudar...

Lamento, não dou assistência... V-você veio me ajudar?

Meu Deus... Meu Deus...

... Só faço a cobrança.

95


96


ENCONTRO Por Alexandre Winck - Ilustração de Lauro Winck

N

ão tive medo ao encarar o lobisomem. Pelo contrário, tomou conta de mim uma calma vigorosa, uma determinação serena. Tive a certeza inabalável que

aquela criatura grotesca, hedionda, era de fato minha amada, a belíssima Lillian. Mesmo sua íris vermelha como um por-de-sol sanguíneo, suas presas capazes de romper um cabo de aço, seu corpo que parecia ter o dobro do meu tamanho e seu uivo exasperante não me enganaram. Consegui vislumbrar, como um vulto na névoa, seu olhar de menina levada, os lábios polpudos, os seios desproporcionais, generosos, o perfume natural que sobrepujava qualquer essência fabricada. Até a pelagem era tão fina e delicada que simularia com perfeição o toque sedoso e profundo de sua pele e cabelos. Reconheci facilmente em sua expressão e lnguagem corporal o seu apetite insaciável, mas não por alimento ou combate, e sim por amor. Se ela viesse a me dilacerar, seria no êxtase da paixão, e não posso imaginar para minha existência, nesta ou em qualquer outra vida, final mais feliz.

Dei um passo a frente, olhei fundo em seus olhos, e disse seu nome. 97


omen

Lobis


ESPECIAL Publisher Daniel Vardi Editor-chefe Alexandre Winck Conselho editorial: Alexandre Winck, Bira Dantas, Carlos Henry, Daniel Vardi, Francisco Tupy, Mario Mancuso e Rodrigo Garcia Diagrmação e letras: PUBLIGIBI Projeto Gráfico: Publigibi sob projeto inicial de Isabella Sarkis Criador Mario Mancuso Todos os direitos autorais pertencem aos respectivos autores, não podendo ser reproduzida sob quaisquer aspectos sem a devida autorização dos mesmos. As opiniões e fatos aqui expressos são totalmente de responsabilidades dos autores, não significando necessariamente a opinião da revista. www.contosdoabsurdo.com.br

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Contos do Absurdo Especial 1  

A Maldição da Lua Cheia, um especial da revista Contos do Absurdo somente com Lobisomens e ainda uma entrevista exclusiva com o criador do m...

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