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Espera

Pedro SimĂŁo Mendes 0


Espera Pedro Simão Oliveira Mendes © 2017


Espera

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Prefácio O amor é como o mar: refresca corpo e alma, salga e cura as feridas. É, aparentemente, infinito e, ora revolto e selvagem, ora calmo e silencioso, é explorável à superfície ou nas suas profundezas. O amor é também como as marés: vai, e vem, por vezes cheio, por vezes vazio. E é como a chuva: leva consigo as mágoas que guardamos, apaziguando o coração. Esta Espera deu-se à beira-mar e nela trouxe à tona três amores para contar, e a dor de, na sua ausência, aguardar. E eu fui aquele metal que, esperando junto ao mar, oxidou.

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I


Espera

ferrugem (17.04.2013) forçar-me-ei a escrever. mesmo não possuindo as palavras, o vocabulário suficiente para quebrar o silêncio como o despedaça meu pensamento à velocidade da luz. não vive o sossego em mim nem tão pouco a calma de uma maré baixa. antes a incúria de uma tempestade me invade. grito só por só estar. e sem ti estou e custa tanto o respirar. resta-me a ferrugem à beira-praia, abandonada pelo mar. silhuetas perdidas na areia de um verão que não voltará. como tu, como o nosso amor. ou voltará? e o bater de asas e o levantar voo de uma gaivota e o seu choro no ar são tudo o que não posso aguentar, encarcerado na razão de a não ter. de te não ter. mas ter-te-ei afinal e não o sei? espuma que me lava ou suja os pés salgados por ti e por este caminhar. perdi-me na praia, perdi-me de ti. e de mim. já não sei voar. e o horizonte nada é se nele nada encontro. forçarme-ei a escrever teu nome na areia, vezes sem conta até que voltes. voltarás? ou até os céus proferirem o segredo de nunca regressares. não há voz nem palavras que quebrem este silêncio que não oiço em mim. duas vidas, uma vida com travo de terra e outra de mar. e a culpa é minha, que te não soube amar. colhi quatro pedras e lancei-as ao mar. olhei o chão à espera que voltassem na maré. não voltaram.

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âncora (04.07.2013) naveguei sem navegar no alto mar e encontrei um lugar pra ancorar meu coração em ti atraquei porto-seguro me ancorei e não perjuro é aqui que vou ficar.

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Espera

à velocidade da luz (08.01.2014) desejo ouvir-te os pensamentos, o interior por detrás de tuas palavras, de teu sorriso ou apreensão e ter na minha mão o saber quem és realmente e ver-te como ninguém viu, à velocidade da luz, nas imagens que enxergas de olhos fechados. viajar ao mais íntimo de ti, tal como viajo em mim à velocidade da luz, conhecer o (ir)racional que há em tua mente sempre à velocidade da luz e saber o que escondes saber o que me escondes no nevoeiro do teu silêncio que, se o rasgo, nos afasto à velocidade da luz.

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hidróxido de ferro (09.05.2014) guarnecido de um cérulo manto, fléxil nas asas de um estorninho, voo. livre, voo sobre as águas secas de um oceano que acaso mora em teu olhar. daquela chuva cujo peso lava o corpo só resta ferrugem. ferrugem e pó. é que o ar que respiramos corrói e oxida as entranhas de uma ausência. a tua.

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Espera

salgar (05.06.2014) nĂŁo te sinto mais em mim quanto o mar. e o mar estĂĄ ainda longe e nĂŁo sabe que nele vive o sal. guardei um manelo de vento numa gaveta esperando perpetuamente que o mar secasse mas ainda me salga o corpo.

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esquecimento (19.06.2014) vozes adumbram pensamentos, memórias capciosas tinindo cá dentro. cá dentro ferve uma febre, inascível, derrogada em consciência, oca, caiada, caída, esquecida.

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Espera

abraรงo (06.07.2014) adstringe-me em ti, gentil e lentamente, sem que a sombra do fundo do mar se aproxime no som das ondas e nos faรงa lamentar este abismo em que moramos.

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outros lugares (15.07.2014) infido teu olhar se seduziu com cantares que teu ouvido escutou noutros lugares, infandos lugares de ausência de mim, onde apunhalaste meu coração e o coroaste, minha rainha, de negros espinhos guardados em tua mão.

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Espera

o mar que vive em ti (18.1 .2014) o mar que vive em ti revolta-se na ausência de um corpo para salgar. mas se há mar aqui, renasço na opulência do seu grave ondular.

la vie est bleu comme la mer mesmo longe, há um pouco de mar aqui. mesmo longe, há muito de ti em mim.

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Tentei tocar a chuva triste e só (24.02.2015) Tentei tocar a chuva triste e só, que só assim se a deve tocar, por ser cinzenta como o mar, por ser fria como teu olhar. Teus beijos, que já não tardam, que no tardar trouxeram mágoa, guarda-os o céu, dá-mos na água que dele, tristemente, escoa.

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Espera

ampulheta (16.1 .2015) o meu corpo, a tua voz e um lago azul por baixo de nós. os nossos medos afundam-se na água que, trémula, na sombra os engole. perco o norte e o nosso abrigo, almejo a morte e que a abraces comigo. perguntar-te em segredo quantos mundos guardas, derrubar muros e virar ao contrário a ampulheta na esperança de nascer outra vez, sem mágoas nem sombra.

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desejo ferral (19.1 .2015) desejo ferral, fero e visceral que, doentio, acotio e me assassina, que só termina em teu regaço, no teu abraço. cem credos, degredos proferidos, inventados e sofridos, gritados a uma só voz na ‘sperança de que, sós, o façamos arder, o façamos morrer.

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Espera

(de)cadência (22.01.2016) é noite, é tarde, e chove uma chuva miúda, mas constante e que enevoa o ar. relembro nesta noite invernosa uma outra, estival, onde também chovia assim. sinto a humidade do ar passar-me a pele e tocar-me os ossos, num abraço estranhamente reconfortante. elevo o rosto ao céu e sinto a carícia chovida que, caindo compassadamente, apazigua. juro que era capaz de assim ficar durante horas, talvez até amanhecer. e assim esperaria um abraço ou um beijo teus, na húmida inércia de te amar, contentando-me apenas com este abraço, este beijo, que são os que tenho e posso ter. os da chuva.

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uma luz vaga (20.03.2016) a luz vai, vaga, dançando e as cores vão desbotando ao anoitecer. e eu que já nem sei escrever, já nem a noite sei esquecer, já nem sei aquecer teu leito.

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Espera

surdina (12.04.2016) o tinir deste silêncio ensurdece e faz querer gritar, rasgar as cordas vocais para que até no vácuo me faça escutar. e quando escorre o sangue da garganta, sôfrego grito mais alto até que outra voz que cante, talvez, me cale com um beijo.

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Erosão (14.04.2016) Aguardo, inerte, que o vento me diga algo que não quero ouvir: a verdade. Que as escolhas são como espinhos de rosas a florir mas mais penosas de agarrar. Desgasto-me na brisa do tempo que passa e no meio dos altos cedros há melros que cantam sós. E a vontade de escolher não desenlaça estes nós no meio de nós.

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Espera

magenta (29.04.2016) jalnes sorrisos que me quebram e extinguem o bater cardial que ainda guardo só para ti. para lábios que se encontram o silêncio também é música. vem calar-me, meu amor.

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algo mais (07.05.2016) desenho utopias a trĂŞs dimensĂľes, de olhos fechados e em sonhos mas as cores desbotam sempre que eu preciso de mais e eu preciso sempre de algo mais

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II


Espera

há palavras que, escritas, não se deixam ouvir (16.04.2013) já me morreste sem mim ou fui eu que morri sem ti. é que a ideia de te não ter, amando-te sobre todas as coisas, ainda que isso não baste, amarga no peito. e meu leito frio aguarda teu regresso que meus lábios e todo eu seremos teus para a eternidade, se te aprouver. a verdade é que há palavras que, escritas, não se deixam ouvir. e eu, amor, não sei falar.

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voltar é doloroso (16.06.2013) voltar é doloroso, é um choro de alma frio que não se escuta. permanece o que foi mas o que já não é vagueia à superfície. voltam a sangrar mundo e céu, desta vez sós, desta vez longe. e no porvir, a esperança de que a dor, metálica no seu tocar, cessará e, estremecendo dará lugar a um voltar que, luzidio, não dói.

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Espera

meu acantocárpio coração (07.08.2013) meu acantocárpio coração se embala com as vozes das nuvens que no ciano céu silêncio bradam. os espinhos murcham e, caídos, se largam na areia e te deixa entrar, mariposa, no luar que coloriu o fim do mundo.

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plantaste espinhos em meu coração (10.08.2013) meu coração tem uma forquilha plantada. fizeste dele uma ilha abandonada e ele surdiu na madrugada de meu peito fora gelada. plantaste espinhos em meu coração eu já não oiço a mesma canção. vi-te na noite abandonar imortal o que criámos e, glacial, morri. a eternidade era real mas fugaz, essa névoa matinal. plantei espinhos em meu coração para o proteger de tua mão. em decadência ainda bate a cadência dum afã escarlate. plantaste espinhos em meu coração eu já não oiço a mesma canção. plantaste espinhos em meu coração que ainda bate em tua mão mas eu já não oiço a mesma canção, já não oiço a mesma canção.

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Espera

ofegar (29.08.2013) memรณrias ofegam metais presos no corpo, sentinelas dos passos que damos simultaneamente. histรณrias amanham um rasto pesado, acontecimentos que abandonamos vagarosamente. quedamos e, inertes, arfamos tentando voltar atrรกs. em vรฃo, que o tempo apaga a memรณria mas laiva apenas a dor.

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enlaço fantasias (04.09.2013) enlaço fantasias como linho embebido em mágoa, urdo prantos imaginados como algodão deitado ao vento. apaguei uma vela acesa debaixo da água onde nevou. que a realidade não é mais que sedimentos soltos, estilhaços de sonhos, ou éter que não se alcança. mas ainda há fumo e, ígnea, ainda queima, ainda ardem.

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Espera

nesta cidade não chove (16.09.2013) nesta cidade não chove. antes lacrimeja o céu. olhei-o: magnésico chorava enlutado com vinte e nove aves adejando em compasso quaternário. nu e madefacto, soltei rudimentos aluminíferos, sais acídulos que, ásperos, sanavam minha face e meu coração. vazio, aluí.

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sempiterno (12.1 .2013) são eternos a noite e o fogo. orvalho brota das cinzas. espera-me um inverno, sempiterno, longe de ti. são eternos o tempo e a morte. reverberação em nevoeiro. espera-me num inverno sempiterno, que, longe de ti, morri.

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Espera

dia de praia (07.05.2016) fui à praia sem saber porque fui à praia. já não sei o que dizem as ondas nem o significado do seu rebentar nem para que serve um barco. não sei porque é salgado o mar nem porque o sobrevoam as gaivotas nem porque é quente a areia. não sei porque fica longe o horizonte nem porque se põe o sol nele e quando o faz muda de cor. mas sei que não haverá horizonte que vez alguma alcance e que quando o mar tentar histórias contar já não lhes entenderei o sentido.

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dos desperdícios (18.05.2016) vem, desperdiça o teu tempo comigo, amor que ele passa sem o vermos e o amanhã chega sempre cedo demais. quero desperdiçar todos os meus segundos contigo e amontoar estórias eternas. é que amanhã já será tarde demais.

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Espera

sono avesso (18.05.2016) aguardo o regresso de um vento dĂ­spar para o qual nĂŁo haja abrigo como aguardo um sono avesso para parar de sonhar contigo que sĂł sonhando agora te encontro

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02:22 (21.05.2016) duas e vinte e dois, marca o relógio. a chuva cai pesada sobre ti, mas não te moves. deixas que te enxagúe o corpo e te encharque a alma. ouves a coruja na noite e sussurras uma ladainha qualquer, uma espécie de oração para a escuridão que te abraça e envolve com o seu manto frio e húmido. a mágoa que guardas dentro de ti transborda e percorre o teu rosto, mas ninguém sabe – nem mesmo a escuridão – que não é a chuva que te salga os lábios. um ruído entre o arvoredo, e a coruja pia outra vez. a noite – como a chuva – veio para ficar.

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Espera

vacuum (02.06.2016) no momento em que a tua voz se calou choveu como se o céu chorasse por mim por saber que o mar que salga meus olhos secara enquanto um vazio preenchia meu coração.

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estes meus dias, em metades (07.06.2016) passo metade dos meus dias a pensar em ti e a outra metade a pensar porque penso em ti ainda quero um abraço preciso de um abraço teu

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Espera

semblantes (10.06.2016) s찾o estranhos e novos os semblantes que me rodeiam e, julgando, me observam. n찾o sei o que vou parecer nem o que vou ser, mas n찾o quero estar s처. contudo, estou.

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o amor cabe numa caixa de cartão (12.06.2016) guardarei, meu amor, o que resta de nós numa caixa de cartão. é que as memórias são frágeis na mente e, entretanto, morreu meu coração.

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Espera

in memoriam (13.06.2016) Rememoro a tua presenรงa em tudo que vejo. Rumino a ideia de ti, de nรณs, num rodopio eterno como o era nosso amor outrora. Agora, nรฃo passa de um suspiro murmurado ao vento, que o levou.

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De todo o mar que trazia em mim (04.07.2016) De todo o mar que trazia em mim, resta apenas o sal que guardo nos olhos. De todos os sonhos que tive, restam vertigens. De todo o amor, memĂłrias e laivos de dor ainda.

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Espera

tricô (04.07.2016) vou aos poucos soltando as amarras do passado e novos fios enlaçando. mas nunca fui bom com as mãos e se há nós que vou criando, há outros que não se desfazem. novelos mnésicos, rastilhos prestes a arder.

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Cicatriz (23.07.2016) Tatuei-te a ferro em brasa no coração que, agora frio, te enverga como cicatriz. Ainda dóis.

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Espera

plĂşvio (24.08.2016) antes chovesse e na calmaria que o mar fizesse me trouxesse alguĂŠm para amar.

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IrĂ­dio (26.09.2016) Ainda te levo comigo. Pesas-me tanto.

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Espera

Espera (25.10.2016) Aguardo só que o tempo passe e longe um lugar onde ninguém por mais que tente me vá encontrar. Aguardo só no tempo que passa demasiado devagar um alguém que espontaneamente me queira amar.

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em sonhos, ainda (27.10.2016) às vezes penso em ti ainda como se fosses minha e a nossa música tocasse ainda será que podemos ser aquilo que vive nos sonhos ainda? talvez se o tempo passar e mais ninguém houver ainda

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Espera

Muros (1 .12.2016) Reler na tinta frĂĄgil das paredes dos dias as palavras que nunca me disseste e morrer com cada sĂ­laba.

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Pedro Simรฃo Mendes

das datas (23.12.2016) quando se tenta apagar da tinta das memรณrias as datas que anos demoraram escrever hรก algo que, moendo, cรก dentro faz doer.

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III


Espera

fervor (07.07.2016) fervo. sou mente e corpo ferventes e, no teu suor, efervescentes dissipando a calma do dia numa ânsia crescente de te tocar o corpo por dentro. chove, e nada arrefece, nada acontece. oxalå haja noite que nos queime assim. tomara a noite queimar-nos assim.

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arquear (07.07.2016) na sofreguidĂŁo do meu corpo pelo teu curvo-me em ti e vergo os muros do suor que ferve na pele pedindo apenas para entrar em ti.

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Espera

desfibrilhador (23.07.2016) nu, arrefeço e só, desapareço. é nas noites quentes de Verão que o sangue ainda pulsa na epiderme e o coração que já não bate reanima no frenesim de outro corpo tocar.

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termas (23.07.2016) este balançar da carruagem traz a moleza ao meu corpo. e o aroma a suor do teu deixa-me louco. as águas quentes de Budapeste não queimam metade do toque dos teus lábios nos meus.

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Espera

lima e hortelã (20.08.2016) a imersão descontroladamente fresca que no Verão desesperadamente refresca os sentidos. e a tua pele e os teus lábios ainda os sinto em mim.

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Tangente (20.08.2016) imaginar tocar-te a alma com o corpo e senti-la queimar como o sol na pele faz-me contigo sonhar e querer, a teu lado, acordar. e que farei sem ti, quando o Outono chegar?

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Espera

outonada (21.08.2016) quero chamar-te, meu Outono, para que chegues rápido e fiques sempre comigo. esta bucólica saudade em que, envolto, me perco faz sentir-me menos pessoa e mais Natureza. mas a música acabará eventualmente e o ruído a substituirá. quero chamar-te meu Outono mas foste apenas o meu Verão e as folhas das árvores já estão a mudar de cor.

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Borboletear (21.08.2016) Vejo-te no bater de asas de uma borboleta: um instante que, caĂłtico, me transformou. Tento apanhar-te, mas logo levantas voo, e o instante, perdido, tĂŁo breve como nosso respirar.

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Espera

Marejada (21.08.2016) Houve mais em ti do que conheci no mar. E mesmo que nĂŁo me salgues o corpo, ardes-me ainda nos olhos.

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Nefelibata (14.09.2016) Não te tenho no cinzento dos dias. Extingues-te vagarosamente no passar das horas. Nunca te tive no azul dos dias nem vi este fugaz passar das estações. Ainda não entendo o branco das noites e nelas aguardo sonhando.

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IV


Espera

Uma tarde no rio (04.09.2016) E, de repente, não havia mais nada – o mundo era só água, árvores e céu. O meu corpo flutuando sobre o insuflável, levemente banhado pela água gelada do rio que, lento, corria; o sol queimando a pele e os olhos; e a calmaria do céu azul sobre nós, por vezes escondida pelo balançar da copa verdejante das árvores. Ele arrastava-me com a maior das calmas do mundo, rio acima, para um lugar mais sossegado, longe da correria e dos gritos das crianças que brincavam na água. Como se a tarde fosse eterna, deixei-me levar. De olhos fechados, podia sentir o peso ocioso da água na pele e nos cabelos arrastar-me para o limbo entre o sono e o sonhar acordado. E como se ele adivinhasse este meu quase onírico navegar, resolvia refrescar-me o peito e o rosto com algumas gotas de água, para não me deixar adormecer. E eu abria os olhos com o estremecer espasmódico dos meus músculos, e pude ver que as gotas de água, vítreas, traziam em si o arco-íris. E depois fechava os olhos outra vez, e o mundo era só eu e a água e aquele vagaroso arrastar. Aquela tarde pode não ter sido eterna, mas ainda vive na memória, fresca como a água do rio. E os seus lábios também.

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Pedro Simão Mendes

Quando chegas (26.09.2016) Sempre que me deito não há noite que valha a pena Sempre que desperto não há tempo que valha a pena Mas quando chegas não há tristeza que valha a pena E sorrio.

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Espera

Demersal (26.09.2016) Descobrir o mar aos poucos distrai-me da praia que deixei para trรกs. 26.09.2016

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Pedro Simão Mendes

Enxergar (02.1 .2016) Vê. Com os olhos Com as mãos Com a boca Vê-me. Faz-me ser teu como se o quisesses verdadeiramente.

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Espera

formiga (02.1 .2016) não sei muito mais do que a formiga quando só procuro os teus lábios por serem tão doces

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Pedro SimĂŁo Mendes

em rede (18.1 .2016) liga-te a mim, energiza-me com o teu precipitado toque e criemos sem que exista um universo sĂł nosso.

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Espera

quebradiço (1 .12.2016) sinto-te grave no timbre que quebra o silêncio sempre que teus lábios me tocam. sabes-me a pouco.

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Pedro SimĂŁo Mendes

desta praia (16.12.2016) estou atracado em ti. oh, e como ĂŠ belo o mar visto daqui.

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Espera

este Dezembro (20.12.2016) Dezembro, Inverno nas mãos e as mãos nos bolsos nos teus bolsos à procura de algo quente. mas é cedo ainda e as mãos caladas cessam o movimento na madrugada.

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Pedro Simão Mendes

quieto (20.12.2016) quieto aguardo o voo do tempo só para te encontrar em mim outra vez ainda tremem as mãos perdidas na atmosfera da tua pele.

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Espera

anoxia (23.12.2016) nunca pude contar as vezes em que não te soube ouvir. mas sei que foram demasiadas. e agora que te sinto fugir, queria ter-te decorado os lábios e saber na ponta da língua todas as palavras que deles saíram. e agarrar-te. e num abraço quente trazer-te para o fundo do mar e que aqui ficasses comigo até o oxigénio se nos acabar.

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Pedro Simão Mendes

azedume (23.12.2016) A iminência do abandono faz-se sentir no abdómen. É como o borboletear da paixão, mas com gosto amargo no palato. Mas é a certeza que dói mais. Far-me-á falta o teu abraço, e o teu calor neste Inverno que chegou.

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Espera

abstinência (28.12.2016) a ânsia de te ter em mim faz tremer o corpo e esta fome que não acaba senão contigo.

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Pedro Simão Mendes

verdejante (28.12.2016) desfaço-me no esverdear do teu olhar quando te sinto entrar em mim como se me perdesse vagueando numa floresta verdejante. e o sol nos teus olhos e os teus lábios secos pedindo um beijo são tudo o que basta para que te queira, quem sabe, amar.

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Índice Prefácio..................................................................................................................... 4 I ................................................................................................................................... 6 ferrugem......................................................................................................... 8 âncora............................................................................................................. 9 à velocidade da luz ................................................................................ 10 hidróxido de ferro ......................................................................................1 salgar ............................................................................................................. 12 esquecimento.............................................................................................. 13 abraço............................................................................................................ 14 outros lugares .......................................................................................... 15 o mar que vive em ti .......................................................................... 16 Tentei tocar a chuva triste e só ................................................17 ampulheta ..................................................................................................... 18 desejo ferral................................................................................................ 19 (de)cadência................................................................................................20 uma luz vaga ............................................................................................. 21 surdina......................................................................................................... 22 Erosão ......................................................................................................... 23 magenta....................................................................................................... 24


algo mais..................................................................................................... 25 II .............................................................................................................................. 26 há palavras que, escritas, não se deixam ouvir .............. 28 voltar é doloroso .................................................................................. 29 meu acantocárpio coração ..............................................................30 plantaste espinhos em meu coração........................................... 31 ofegar ........................................................................................................... 32 enlaço fantasias ...................................................................................... 33 nesta cidade não chove ................................................................... 34 sempiterno ................................................................................................. 35 dia de praia .............................................................................................. 36 dos desperdícios .................................................................................... 37 sono avesso............................................................................................. 38 02:22 ........................................................................................................... 39 vacuum ........................................................................................................40 estes meus dias, em metades......................................................... 41 semblantes ................................................................................................. 42 o amor cabe numa caixa de cartão ......................................... 43 in memoriam.............................................................................................. 44 De todo o mar que trazia em mim............................................ 45 tricô .............................................................................................................. 46


Cicatriz ........................................................................................................ 47 plúvio ............................................................................................................. 48 Irídio.............................................................................................................. 49 Espera .........................................................................................................50 em sonhos, ainda ..................................................................................... 51 Muros........................................................................................................... 52 das datas................................................................................................... 53 III ............................................................................................................................ 54 fervor ........................................................................................................... 56 arquear ....................................................................................................... 57 desfibrilhador............................................................................................. 58 termas ......................................................................................................... 59 lima e hortelã...........................................................................................60 Tangente ...................................................................................................... 61 outonada ..................................................................................................... 62 Borboletear ............................................................................................... 63 Marejada ..................................................................................................... 64 Nefelibata ..................................................................................................... 65 IV............................................................................................................................. 66 Uma tarde no rio ................................................................................. 68 Quando chegas ....................................................................................... 69


Demersal ..................................................................................................... 70 Enxergar .......................................................................................................71 formiga.......................................................................................................... 72 em rede ...................................................................................................... 73 quebradiço ................................................................................................. 74 desta praia ............................................................................................... 75 este Dezembro ....................................................................................... 76 quieto .............................................................................................................77 anoxia ........................................................................................................... 78 azedume ...................................................................................................... 79 abstinência .................................................................................................80 verdejante.................................................................................................... 81



Espera