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COMUNICAÇÕES PROVÍNCIA FRANCISCANA DA IMACULADA CONCEIÇÃO DO BRASIL

ESPECIAL JMJ

EDIÇÃO ESPECIAL JMJ 2013

NO PORTAL DO CORAÇÃO 1


SUMÁRIO EDIÇÃO ESPECIAL DA JMJ 2013

2 Mensagem do Ministro Provincial ESPECIAL 4 Sonho sonhado em Família JMJ

12 Entrevista com o Ministro Geral 19 Ministro Geral celebra Eucaristia no Convento Santo Antônio

20 Família reunida 22 A “Capela dos Escravos” 24 O rap toma conta da Tenda 26 Uma semana de emoções 28 Papa chega ao Rio de Janeiro 29 O momento mais tenso da visita 30 D. Orani abre oficialmente a JMJ 31 Primeira Missa do Papa em Aparecida 32 Papa inaugura ala do Hospital São Francisco 33 Encontro com os frades na Capela do Hospital 34 Papa visita favela da Varginha 35 Papa se encontra com argentinos 36 Papa preside Cerimônia de Acolhida 37 A Via Sacra em Copacabana 39 Oração do Angelus na Quinta da Boa Vista 40 Confissão com o Papa 41 Nathan, o garoto que emocionou o Papa 42 Noite Franciscana na Vigília 43 Depoimentos dos frades sobre a Vigília 46 Encontro com os religiosos e dirigentes 47 Multidão na Missa do Envio 49 Encontro com os bispos do CELAM 51 Encontro com os voluntários da JMJ 51 Despedida do Papa PROVÍNCIA FRANCISCANA DA IMACULADA CONCEIÇÃO DO BRASIL Rua Borges Lagoa, 1209 - 04038-033 | Caixa Postal 57.073 - 04089-970 | São Paulo - SP www.franciscanos.org.br | ofmimac@franciscanos.org.br

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MENSAGEM IRMÃS E IRMÃOS LEITORES, PAZ E BEM! O Papa Francisco, assim que chegou ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude, humildemente se apresentou, dizendo: “Aprendi que para ter acesso ao Povo Brasileiro é preciso ingressar pelo portal do seu imenso coração; por isso permitam-me que nesta hora eu possa bater delicadamente a esta porta. Peço licença para entrar e transcorrer esta semana com vocês. Não tenho ouro nem prata, mas trago o que de mais precioso me foi dado: Jesus Cristo!”. E diz o porquê da sua visita: “Vim para a Jornada Mundial da Juventude. Vim para encontrar os jovens que vieram de todo o mundo, atraídos pelos braços abertos do Cristo Redentor. Eles querem agasalhar-se no seu abraço para, junto de seu Coração, ouvir de novo o seu potente e claro chamado: ‘Ide e fazei discípulos entre todas as nações’.” De fato, no decorrer dos dias da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), em diferentes ocasiões e oportunidades, em cada olhar e em cada gesto, em cada homilia e em cada discurso, o Papa Francisco deixou claro que veio para entrar pelo portal do coração humano e semear no terreno de todos os corações a semente mais preciosa: Jesus Cristo! Nesta edição histórica das nossas Comunicações queremos focar a Jornada Mundial da Juventude. Jornada essa que foi abençoada e espiritualmente fortalecida pela presença profética do Papa Francisco, o primeiro Papa latino-americano. Também nesta Jornada, em comunhão com toda a Família Franciscana do Brasil (FFB), elegemos um ‘Espaço Franciscano’ onde os jovens de todas as idades, de todas as línguas e povos, encontrassem um ambiente de aproximação, de acolhida, de co-


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DO MINISTRO PROVINCIAL munhão, de oração e de partilha. E foi o que ocorreu! No ‘Espaço Franciscano’, ambiente despojado, pobre e em forma de ruínas, se encontraram as mais diversas ramificações da nossa grande Família Franciscana. Uma família que se sentiu honrada tanto pela presença do Papa que se inspirou no nosso Seráfico Pai para o seu pontificado, quanto pela presença de todos os Ministros Gerais da grande Família Franciscana. Ao longo da JMJ o ‘espaço franciscano’ mostrou o que Jacques de Vitry já havia afirmado na segunda década da vida franciscana: “O claustro desta Ordem tem a dimensão do mundo” (em História Ocidental). Esta universalidade não se reduziu apenas às cercanias do Convento Santo Antônio e à Igreja de São Francisco da Penitência, no largo da Carioca, mas se estendeu maravilhosamente para o coração da Igreja de São Sebastião, na Tijuca, dos nossos irmãos Capuchinhos. Foi lá que todos os Ministros Gerais, sentados em torno à mesma mesa, partilharam e incentivaram a grande e jovem Família Franciscana a perseverarem fiéis nos valores evangélicos abraçados por Francisco e Clara de Assis. E como gesto concreto desta universalidade, o ‘espaço franciscano’ ainda se estendeu ao Hospital São Francisco de Assis, na Tijuca. Foi lá que a grande Família Franciscana, na pessoa dos Ministros Gerais, saudou o Papa Francisco. E do coração do Papa brotaram estas palavras que nos remeteram ao início da conversão de São Francisco de Assis: “É bem conhecida a conversão do santo patrono de vocês: o jovem Francisco abandona riquezas e comodidades do mundo para fazer-se pobre no meio dos pobres, entende que não são as coisas, o ter, os ídolos do mundo a verdadeira

riqueza e que estes não dão a verdadeira alegria, mas sim seguir a Cristo e servir aos demais; mas talvez seja menos conhecido o momento em que tudo isto se tornou concreto na sua vida: foi quando abraçou um leproso. Aquele irmão sofredor foi mediador de luz (...) para São Francisco de Assis [Lumen Fidei, 57], porque, em cada irmão e irmã em dificuldade, nós abraçamos a carne sofredora de Cristo. Hoje, neste lugar de luta contra a dependência química, quero abraçar a cada um e cada uma de vocês - vocês que são a carne de Cristo - e pedir a Deus que encha de sentido e de esperança segura o caminho de vocês e também o meu”. Se na chegada ao Brasil o Papa Francisco quis entrar pelo ‘portal do coração’ de todos, ao se despedir usou uma palavra típica da nossa língua portuguesa: saudades! Saudades de tudo que ele, como pai-pastor-profeta-missionário experimentou nesta transparente visita: Saudades do Brasil, saudades do sorriso aberto e sincero que viu em tantas pessoas, saudades do entusiasmo dos voluntários, saudades da esperança no olhar dos jovens no Hospital São Francisco, saudades da fé e da alegria em meio à adversidade dos moradores de Varginha. Este mesmo sentimento também tocou o coração de todos. Todos carregamos conosco a saudade! Não a saudade de um Papa humano, despojado e de largo sorriso que voltou a Roma, mas saudade da grande utopia evangélica por ele pregada ao longo da Jornada Mundial da Juventude. FREI FIDÊNCIO VANBOEMMEL, OFM MINISTRO PROVINCIAL

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FRANCISCANOS NA JMJ 2013

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SONHO SONHADO

EM FAMÍLIA N FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM

unca participara de uma Jornada Mundial da Juventude. Tive a graça de fazê-lo pela primeira vez, já não tão jovem, na pátria amada, Brasil, e tive graça maior ainda de fazê-lo, franciscanamente, auxiliando nos trabalhos da assim chamada Presença Franciscana na JMJ. Desde já adianto que tudo correu abençoadamente bem (desculpem-

-me pelo pleonasmo): o grande número de jovens de todas as nacionalidades que passaram pelo Espaço Franciscano no Largo da Carioca, a adesão em massa da Família Franciscana ao encontro entre os Ministros e Superiores Gerais e a juventude, o fluxo dos peregrinos ao estande da Família Franciscana na Feira Vocacional, além dos inúmeros comentários positivos em torno das ações dão uma pequena mostra de que os objetivos sonhados foram alcançados. Palmas para todos! Os muitos acontecimentos importantes e simultâneos e a correria para responder às inúmeras demandas próprias de um evento desta proporção talvez dificultem a escolha do melhor método para expor, dentre tudo aquilo que trago na mente e no coração, o que seja mais importante. No entanto, partilho, nas linhas que seguem, algumasimpressões em torno do processo de preparação desta presença, dos principais acontecimentos e a da presença entre nós de “Francisco-Pai”.

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A partir desta solicitação da Província, foi convocada a primeira reunião com membros de diferentes ramos da Família Franciscana, realizada no início de maio de 2012, no Convento São Francisco, em São Paulo. Este encontro foi o embrião da Presença Franciscana na JMJ. Seguiram-se sete reuniões no decorrer de 2012 e também no primeiro semestre de 2013. Neste período, importantes fatos ocorreram: a adesão da Família Franciscana do Brasil à iniciativa, dando “carta branca” para a comissão, a decisão dos atos e espaços as serem preparados, o concurso para escolha da logomarca, a captação de recursos, a produção de material impresso e audiovisual, a presença nas redes sociais e a divisão das tarefas e dos trabalhos. Muita gente foi envolvida. Desta forma, a participação franciscana na JMJ se deu nas seguintes iniciativas:

“O cristão não pode ser pessimista! Não pode ter uma cara de quem parece num constante estado de luto”.

A COMPOSIÇÃO DA EQUIPE A partir de uma provocação do Ministro Geral da OFM à época, Frei José Rodríguez Carballo (hoje arcebispo e secretário para a Congregação da Vida Consagrada), a Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil designou um grupo de frades para uma comissão que teria como incumbência pensar e planejar ações que marcassem a presença franciscana na Jornada.

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ESPAÇO FRANCISCANO Instalado junto à Igreja de São Francisco da Penitência e do Convento Santo Antônio, no Largo da Carioca, bem no coração da Cidade Maravilhosa, foi um ponto de encontro para jovens, peregrinos, franciscanos e todos os que desejaram participar. Muito trabalho foi empenhado para transformar este espaço num lugar agradável e acolhedor. As dependências da Igreja de São Francisco da Penitência estavam em situação precária por conta de uma série de fatores históricos. Num esforço comum, a fraternidade local da OFS, a Comissão preparatória e outros voluntários se empenharam nas tarefas

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de planejamento e também na execução de trabalhos braçais (pintura, faxina, limpeza) para tornar o local um ambiente favorável ao cultivo da mística franciscana. O trabalho de decoração também foi de fundamental importância. A tenda montada, as bandeirinhas e panos coloridos, as imagens, os grandes painéis de boas-vindas, o sorriso fraterno e acolhedor de frades, religiosas, irmãos e irmãs da OFS e da Jufra tornaram o Espaço Franciscano um lugar aprazível para se visitar e onde permanecer. Tudo franciscanamente simples, sóbrio e belo. Os recursos utilizados para aluguel da tenda, do som, do tablado e para a aquisição de todo o material necessário, além do pagamento dos profissionais envolvidos, foram provenientes de doações da Missionszentrale dos Franciscanos, que financiou mais da metade das despesas, da Província de Santa Cruz (OFM-MG) e de doações de diversas congregações, fraternidades da OFS e pessoas físicas ligadas à FFB. A Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil (OFM-SC, PR, SP, RJ) assumiu a produção de todo material impresso, através da Editora Vozes e da Universidade São Francisco, a adminis-

tração do site e a mão de obra na comunicação. O apoio logístico para hospedagem coube ao Convento Santo Antônio. Com movimento constante de peregrinos de toda parte do mundo, grande parte de latino-americanos, o Espaço cumpriu com leveza e competência as propostas que para ele foram planejadas, como lugar para rodas de conversa, descanso, oração, apresentações culturais, troca de experiências e diálogo. A ampla programação artística, cultural e religiosa deu ao espaço uma feição simples, diversa, fraterna, plural e aberta ao diálogo e ao acolhimento, bem ao modo franciscano. À distância, quem passava pelo Largo da Carioca, inevitavelmente olhava para o painel gigante com São Francisco e o Papa Francisco, que possuía 17m X 7m e trazia a inscrição “Francisco está aqui”, em inglês e português. Havia ainda outro grande painel com as imagens de São Francisco e Santa Clara. Junto ao portão, dois desenhos coloridos dos jovens Francisco e Clara, junto a uma faixa de boas-vindas em diferentes idiomas. As irmãs de vida contemplativa trouxeram


“Aprendi que para ter acesso ao povo brasileiro, é preciso ingressar pelo portal do seu imenso coração”.

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para o Espaço Franciscano a presença de Francisco, Clara e Beatriz que buscam a intimidade com o Senhor na vida de oração. Elas tiveram como principal lugar de permanência a capela rústica, de pedras à vista, especialmente montada no local onde funcionava a senzala da Igreja de São Francisco da Penitência. Ali estavam expostos o Cristo Eucarístico para adoração e também o Crucifixo de São Damião, aquele ícone histórico que teria dito ao Santo de Assis: “Francisco, reconstrói a minha casa”. Junto às Irmãs Clarissas e Concepcionistas, o peregrino tinha a preciosa chance de estar face a face com o Cristo, em oração. Diversos se emocionaram. Além dos momentos contemplativos, as irmãs também ficaram à disposição dos peregrinos para momentos de conversas, aconselhamento e acolhida. Na parte musical, o Espaço também se mostrou “sortido”, com apresentações do grupo americano El Padrecito & The Foundnation Family, da Califórnia, que trouxe Rap Cristão, do Grupo PagoJUFRA (Samba Franciscano) e de Frei Florival, além de apresentações de balés e teatros preparados carinhosamente. A Pastoral da Juventude dos Meios

Encarnación del Pozo, Ministra Geral da OFS Populares apresentou a Ciranda da Vida. Houve também danças típicas do Brasil e de outros países. Além de todo empenho na preparação do Espaço, a Juventude Franciscana atuou na montagem e apresentação da Exposição rostos e realidades juvenis: denúncias e lutas sociais. TRÊS MINISTROS, DUAS LÍNGUAS E UM SÓ CORAÇÃO... FRANCISCANO O clima de unidade entre a Família Franciscana Mundial também perpassou os momentos de oração comum realizados na tenda do Espaço Franciscano. Na manhã da quinta, dia 25 de julho, no Espaço Franciscano, num clima familiar, simples, marcado por espontâneo improviso, a Providência se encarregou de permitir que os Ministros Gerais de cada obediência se dirigissem aos jovens e à Fa-

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Da esq. para a dir.: os Gerais Frei Marco, Frei Michael e Frei Mauro mília Franciscana.Frei Michael Perry, Ministro Geral da OFM (frades menores), falou na abertura do Momento de Oração, após acender o Círio Pascal, a Luz de Cristo vivo e ressuscitado que ilumina o coração da juventude. Expressando-se em inglês, Frei Michael demonstrou muito afeto nas palavras e, olhando nos olhos de irmãos e irmãs da assembleia, enfatizou: “Você é uma maravilha de Deus”. Depois, pediu que todos se olhassem nos olhos e repetissem esta mesma afirmação entre si. Também destacou a importância de todos os seguidores de Clara e Francisco se imbuírem do espírito missionário. “Ao nos apresentarmos, devemos acrescentar ao nosso nome a palavra missionário. ‘Eu sou Michael, missionário!’” A Oração teve prosseguimento e, durante a Leitura do Evangelho, chegou ao Espaço Franciscano Frei Marco Tasca, Ministro Geral da OFMConv (frades conventuais), que se comunicou em italiano. “A ressurreição de Cristo é uma prova de que, em nossa vida, a morte não está em primeiro lugar, a tristeza

não está primeiro lugar, nossos pecados não estão em primeiro lugar, mas a esperança. A vida franciscana não pode ser desanimada ou triste”. Frei Marco também chamou a atenção para a importância do cultivo da unidade na Família Franciscana. “Viemos de lugares diferentes, usamos hábitos diferentes, mas isto é da história. O importante é que somos movidos pela mesma paixão por Cristo que moveu Francisco e Clara”. Como na oração de abertura do Espaço, os participantes de diferentes idiomas se PAPA FRANCISCO uniram para rezar o Pai-nosso, que foi recitado em português, italiano, espanhol e inglês. Próximo ao término do

“Temos de ser servidores da comunhão e da cultura do encontro. Permitam-me dizer: deveríamos ser quase obsessivos neste aspecto”.

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Frei Estêvão e Frei Fidêncio na abertura do Espaço Franciscano


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Oração dos jufristas na Tenda Franciscana momento de oração, chegou ao Espaço Franciscano o suíço Frei Mauro Jöhri, Ministro Geral da OFMCap (capuchinhos). Também falando em italiano, Frei Mauro brincou e disse que foi “pego de surpresa” para falar e também fez referência à chuva. “Fico muito feliz em ver tantos irmãos e irmãs jovens, neste dia em que louvamos a Deus pela Irmã Água que, segundo São Francisco, é muito humilde, preciosa e casta”. Os três Ministros Gerais foram muito espontâneos ao se expressarem. Falaram com o coração. Apesar de não terem sido combinadas previamente, as colocações dos Ministros Gerais conferiram a este momento alegria e sentido de unidade. Ao final, todos foram convidados a se saudar, franciscanamente, com a conhecida máxima de “Paz e Bem”. Houve festa, dança, alegria e confraternização, tudo com o tempero da simplicidade franciscana. Em outros dias, nos momentos de oração, também tiveram oportunidade de se expressar a Ministra Internacional da OFS, Encarnación del Pozo, e o Vigário Geral da TOR, Frei Amando Trujillo.

“A medida da grandeza de uma sociedade é dada pelo modo como esta trata os mais necessitados”. PAPA FRANCISCO

ENCONTRO ENTRE A JUVENTUDE E OS MINISTROS E SUPERIORES GERAIS FRANCISCANOS Foi realizado na Igreja de São Sebastião, dos Frades Capuchinhos, que ficou repleta de franciscanos e franciscanas de muitos ramos e expressões desta grande família. A acolhida dos irmãos OFMCap e o zelo na preparação de cada momento do encontro, por si só, já foram testemunho do dom da fraternidade, que não reserva nada para si, mas se entrega integralmente, em forma de serviço. No encontro, a Mesa dos Gerais foi conduzida pela jovem croata Anna Fruk, representante da Juventude Franciscana no Conselho Geral da OFS. Cada um, a seu modo, abordou o tema que fora solicitado. Os irmãos ministros, sentados lado a lado, o calor

Todos queriam uma foto com as Clarissas

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humano que emanava da assembleia, a devoção dos momentos orantes confirmavam que a unidade na diversidade é o caminho sonhado por Deus para os seguidores e seguidoras de Francisco e Clara. Dentre os temas caros a Francisco, o santo, e também o Papa, apareceram nas colocações dos Gerais: o respeito e o amor ao pobre, a necessidade de preservação da natureza e dos bens da criação, a atenção devotada e comprometida com o próximo, senso crítico e criatividade para fazer frente à cultura do descartável. COM O PAPA, FRANCISCANAMENTE, JUNTO AOS MENORES Outro momento tocante e forte da presença franciscana na JMJ foi a visita do Papa Francisco ao Hospital São Francisco, na Tijuca, às 18h do dia 24 de julho. O Hospital atualmente é dirigido pelos Franciscanos na Providência de Deus. Ali, o Papa participou da inauguração de um Centro de Recuperação para dependentes químicos, encontrou-se com doentes e, logo ao chegar, esteve na Capela do hospital para uns instantes de adoração ao Cristo Eucarístico e esteve também por alguns minutos na companhia de vários franciscanos, cumprimentando afetuosamente os Ministros Gerais dos três ramos da OFM (menores, capuchinhos e conventuais). Este foi o primeiro encontro mais próximo entre o Papa e os superiores gerais franciscanos. PRESENÇA NA FEIRA VOCACIONAL NA QUINTA DA BOA VISTA

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Os franciscanos e franciscanas também se fize-

“Os jovens não precisam só de coisas, precisam sobretudo que lhes sejam propostos aqueles valores imateriais que são o coração espiritual de um povo, a memória de um povo”. PAPA FRANCISCO

ram presentes na Feira Vocacional, realizada na Quinta da Boa Vista, na Zona Norte do Rio, um verdadeiro festival das diversas manifestações de carismas suscitados no coração da Igreja pela multiforme graça de Deus. Mais uma vez, o destaque dos seguidores e seguidoras de Francisco e Clara se apoiou na simplicidade. Um espaço de 3m x 3m, coberto de esteiras de palha, com as cores branca e marrom sobre as paredes, as imagens de Francisco e Clara, o Crucifixo de São Damião, flores discretas e a presença de um irmão ou irmã das muitas congregações e também da OFS eram um convite à oração e à contemplação do Deus Altíssimo. Muitos jovens visitaram o Espaço e puderam conhecer um pouco mais do carisma franciscano. FRANCISCO, PAPA... FRANCISCO, PAI Os discursos, gestos profundos e simbólicos, a simpatia full time, o interesse real e sincero do Papa


Francisco por quem vinha ao seu encontro, tudo foi transmitido em tempo real para o mundo todo pelos meios de comunicação. Gostaria de chamar atenção para apenas um aspecto desta presença entre nós: a paternidade. Francisco vem suprir uma lacuna no coração da humanidade, para além das diferenças religiosas, de visão de mundo e modo de pensar. Vem oferecer o olhar afetuoso que toca o simples, no pulsante coração de cada pessoa, das lembranças agradáveis e sempre presentes que têm gosto de infância. Cada beijo que Francisco dava a um pequenino, o dava em Cristo e em cada um daqueles inúmeros filhos e filhas que assistiam a seus gestos de carinho. Quem teve a graça de colecionar experiências desta natureza nos tempos de criança, conseguiu revivê-las. Quem não as teve com tanta intensidade, pode também se sentir abraçado, afagado, acarinhado por Francisco. Aqueles que vivem na pele a orfandade nos mais diversos âmbitos, por conta de negligência em suas diferentes manifestações e vertentes, encontraram no “Pai Francisco” uma voz que clamava em seu favor: crianças desassistidas, doentes, jovens, idosos abandonados e desrespeitados, dependentes químicos e moradores de rua foram presenças cativas e constantes nos gestos e pronun-

“O povo brasileiro, sobretudo as pessoas mais simples, pode dar para o mundo uma grande lição de solidariedade, que é uma palavra frequentemente esquecida ou silenciada, porque é incômoda”.

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PAPA FRANCISCO

ciamentos do Papa Francisco. Que Deus abençoe este homem que não se cansa de se recomendar às orações dos seus e que permaneça sendo para todos, indistintamente, a presença doce de Cristo Jesus. Muito mais poderia ser escrito e descrito. A Jornada Mundial da Juventude é perpassada pela mística da peregrinação e do envio. Franciscanamente, foi ocasião de revigorar e despertar nos corações a mesma paixão por Cisto que Clara e Francisco nutriram em suas vidas. Deus seja louvado por este tempo de graça, por todo amor e entusiasmo que Ele distribuiu largamente em todos estes momentos da Presença Franciscana na Jornada Mundial da Juventude.

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ENTREVISTA COM O MINISTRO GERAL

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FREI MICHAEL PERRY 12


“Se nós, os franciscanos, permanecermos perto dos pobres, descobriremos uma outra face de Deus” Moacir Beggo (*)

A Jornada Mundial da Juventude foi um tempo de graça para os franciscanos. De um lado, o Papa Francisco, que humildemente revelou ao mundo a inspiração para o seu Pontificado: São Francisco de Assis. Do outro lado, o Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores e representante do Poverello de Assis, o norte-americano Frei Michael Perry surpreendeu a todos com sua cordialidade, proximidade, simplicidade e alegria. Desde a sua eleição, no dia 22 de maio último, havia uma expectativa com relação ao novo Ministro, talvez devido ao fato de que ele pouco aparecia nas mídias. Mas bastaram algumas horas ao seu lado para quebrar qualquer distanciamento. Franciscanos e franciscanas ou simpatizantes de São Francisco descobriram logo que poderiam ter a atenção de Frei Michael. Conclusão: o Ministro Geral teve de passar por uma sessão de fotos. Todos queriam uma foto ao lado dele como lembrança. Gentilmente, Frei Michael atendeu a todos, da mesma forma que aceitou dar esta entrevista no dia 26 de julho, no Convento Santo Antônio, onde se hospedou durante a JMJ. Frei Michael fala da escolha do Papa pelo nome Francisco e tudo que representa o carisma franciscano, os desafios da Ordem Franciscana no mundo atual, a crise de vocações, o futuro dos jovens na Igreja e conta um pouco de sua vida e sua vocação. Acompanhe!

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Comunicações – Como o sr. recebeu essa maior visibilidade da Ordem Franciscana que o Papa Francisco provocou ao se inspirar em São Francisco de Assis? Frei Michael Perry – Antes de tudo, quero agradecer por essa oportunidade de falar com os frades e com toda a Família Franciscana. Depois, falando especificamente, temos o impacto da vida e da escolha do nome de Francisco feita pelo Cardeal Bergoglio, agora Papa Francisco, que é jesuíta e se inspira em São Francisco de Assis. Vejo que talvez o mais importante não é o fato de ter escolhido este nome, mas antes a sua própria vida, a coerência de sua vida. Durante todo o tempo de seu serviço, de seu ministério sacerdotal na Argentina, ele procurava sempre uma proximidade aos pobres. Eu diria que ele compreendeu algo que também Francisco compreendera na sua vida: que se nós, os franciscanos, pudermos permanecer perto dos pobres, poderemos descobrir uma outra face de Deus. E esta presença, esta face de Deus nos ajuda a entrar na profundidade da nossa vocação franciscana. Se nós não tivermos outras coisas além dessas duas palavras “sine proprio” (sem nada), que nos colocam numa relação nova de irmãos e irmãs, que mundo nós poderemos sonhar juntos? Somente assim, poderemos entrar na profundidade das bem-aventuranças. Estou certo de que, na sua vida, o Papa Francisco está vivendo as bem-aventuranças. E isto talvez seja o maior desafio: a coerência, o testemunho de um discípulo de Jesus. Comunicações - É possível ser simples nesse mundo globalizado? Frei Michael - Não, não é possível! É mais do que possível. É possível se nós pudermos de fato nos unirmos e darmo-nos as mãos, e juntos irmos ao encontro de Jesus. Volto a me referir às bem-aventuranças que se encontram no Capítulo 5 do Evangelho de São Mateus. Ali Jesus fala das pessoas que são puras de coração. Essa pureza do coração depende realmente da nossa abertura, da nossa atitude, de nosso acolhimento da presença de Jesus a cada dia. Creio

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Frei Michael conversa com os participantes do Encontro com os Gerais na Tijuca que também nós não fazemos uma escolha em viver ou não a simplicidade. É uma obrigação que vem do Evangelho. Jesus, ele mesmo, viveu esta vida. Estou certo de que também São Paulo nos convida a colocarmos tudo nas mãos de Deus, todas as preocupações, tudo enfim. Porém, para vivermos esta simplicidade, nós temos que ir, sair. Sair fisicamente, indo ao encontro dos pobres, dos sofredores, dos oprimidos. Creio que se nós fizermos esse movimento físico, talvez possamos começar o caminho mental e espiritual na direção da simplicidade. Porém, estou certo de que primeiro devemos fazer esse movimento físico, caso contrário há o risco de não chegarmos aonde o Senhor nos quer levar.

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Comunicações - Na Ordem, hoje, o sr. consegue apontar algum exemplo deste deslocamento físico na direção do pobre? Frei Michael - Eu diria que aqui, no Rio de Janeiro, há alguns exemplos de frades que estão vivendo nas favelas. E isso é muito importante. Há dois tipos de movimento de que quero falar. Diria que um é esse movimento de ir em direção aos pobres e de inserir-se entre eles. E há um outro movimento possível aqui no Brasil e em todo o território americano, que é ir em missão. E isso vale para todos os frades do mundo. Esses dois movimentos: na direção dos pobres, inserir-se entre eles, e esse movimento missionário. Nós, frades, temos dificuldades de sairmos das grandes cidades e irmos às periferias, e também

às regiões amazônicas. É impossível para nós pensarmos em viver sem internet - eu também vivo esta experiência -, mas podemos fazer essa experiência. Esses tipos de experiências em comunidades inseridas no meio dos pobres e outras novas formas evangélicas, enfim esta vida missionária pode nos ajudar a descobrir a simplicidade. Porém, a simplicidade não é um valor em si mesmo, é um serviço ao Reino de Deus. Tenho que contribuir para a transformação do mundo. Também as Palavras do Evangelho ganham seu sentido enquanto buscam a transformação do mundo. Comunicações - Há, hoje, uma crise de vocações na vida religiosa, principalmente na Europa. Como reverter esse quadro? Frei Michael - Em primeiro lugar, hoje no mundo, há uma grande crise de identidade. Não só dentro da Ordem, da Igreja, mas do mundo. Há uma profunda crise antropológica de identidade. Não quero comentar a política social no Brasil, mas não podemos ignorar que nesses últimos dois ou três meses surgiram tantas manifestações. Podemos ficar na superficialidade dizendo que isso é simples reflexo do descontentamento com o governo, com a corrupção, com a falta de trabalho, especialmente para os jovens. Recentemente, o Papa Francisco falou dessa crise global do desemprego. Estou certo de que por trás de tudo isso há uma crise de identidade humana e dos valores humanos, seja no Brasil, no México, nos


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Frei Michael ficou muito à vontade no Espaço Franciscano e sentou no chão durante a Oração da Manhã

Estados Unidos, na Ásia. Em quase todas as partes do mundo, há essa crise de identidade. Eu penso que isso não é uma consequência direta da globalização, mas faz parte do processo de globalização. Ainda podemos fazer duas leituras dessa experiência, duas maneiras de vê-la e interpretá-la: podemos fazer uma leitura negativa ou uma leitura positiva. E nós, como franciscanos, temos a obrigação de fazer uma leitura positiva, e isto porque acreditamos na Encarnação. Jesus está também presente no meio desta crise, e talvez Ele nos convide não a superarmos, mas a vivermos essa experiência e nela reaprendermos os verdadeiros valores humanos e espirituais de nossa vida. Comunicações - Como é ser representante de São Francisco? Fale um pouco de sua vida, sua história, sua família, vocação e formação. Frei Michael - Como disse há pouco, ainda não consigo imaginar que me encontro agora como servidor e Ministro Geral. Posso dizer que, antes disso, me considero um pecador e um simples frade. Como eu partilhei com os frades na Polônia, recentemente, em um encontro com mais de 200 frades da formação inicial, também vivi algumas crises na minha vida. Então, eu quero falar um pouco da minha vida. Foram tantas crises que me ensinaram muito. Quando estudava Direito na Universidade, fui con-

“Nós, frades, temos dificuldades de sairmos das grandes cidades e irmos às periferias”. FREI MICHAEL PERRY

vidado pelos protestantes para fazer uma experiência missionária numa região muito pobre nos Estados Unidos, onde havia uma comunidade de frades. Então, através desta experiência com os protestantes metodistas, descobri a experiência com os frades e os pobres, descobri que talvez Deus tivesse algo diferente para mim. Eu fui até a Universidade Franciscana, e ao seminário, para experimentar, para ver. Penso também que sou um produto da globalização no modo de ver as coisas. E assim pensava em fazer uma experiência franciscana por um tempo e, depois de um ano, faria uma avaliação e veria se continuava ou não... É um pouco estranho, porque até há poucos anos eu continuava a levar adiante esse modo de ver as coisas. Durante quase toda a minha vida franciscana, fiz o que me parecia ser o caminho que o Senhor queria me propor. Durante o estudo de Teologia queria fazer uma experiência com os pobres e então fui.

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Frei Dênis brinca com Frei Michael e o Geral responde com o mesmo gesto Vivi uma semana sem dinheiro e, quando voltei para casa, trazia comigo 500 dólares. E quando quis fazer uma experiência missionária na África, os superiores me deram autorização. Depois da Teologia, depois da ordenação, quando queria retornar à África, também estavam de acordo, então fui e fiquei dois anos como estudante, e seis anos como superior de uma missão na República Democrática do Congo. Depois, voltei aos Estados Unidos e dei aulas por dois anos numa escola de Chicago e então senti, em mim e também nos superiores, o desejo de aprofundar o estudo de antropologia e missiologia. Depois fiz doutorado em Antropologia Religiosa na Universidade de Birminghan, na Inglaterra. Terminado o curso, fui trabalhar na Con-

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ferência Episcopal Norte-americana como assessor de política internacional. Com essa experiência, os meus superiores me liberaram para trabalhar na Franciscans International em Nova York - uma organização não governamental que se compromete nas Nações Unidas pela justiça, pobreza e sustentabilidade do planeta em nome dos mais pobres -, onde pude colaborar com a Família Franciscana junto à ONU, levando as autoridades maiores a fazerem uma reflexão profunda sobre a crise e sobre as consequências de suas ações. Depois de dois anos, fui trabalhar na Cáritas dos Estados Unidos, desenvolvendo a temática da paz e da reconciliação. Depois de um ano, fui eleito Provincial da minha Província. Como a vida, às vezes, é estranha! Eu, que


vivi quase o tempo todo fora da minha Província, fui escolhido Provincial. Agora, digo assim porque a mão de Deus estava sobre mim não porque eu quisesse ter essas responsabilidades, mas porque o Senhor me confiou esse serviço. E assim, com onze meses, fui como Provincial ao Capítulo Geral, com todo um programa que havíamos estabelecido na Província para seis anos, e os frades me escolheram como Vigário Geral. Eu não queria ser Vigário Geral. Depois, com a nomeação do Frei José Carballo como arcebispo e secretário da Congregação dos Religiosos, depois de um tempo de discernimento com representantes de todas as Conferências OFM no mundo, o Senhor fez comi-

Comunicações - Quais os desafios para um jovem frade hoje? Frei Michael - Antes de tudo, quando os jovens entram na Ordem, que está presente em 112 países, fica difícil traçar os desafios, pois são um tanto diversos. Porém, em geral, há alguns desafios que parecem estar mais ou menos presentes em quase todas as partes do mundo. Um deles é a mudança da vida cotidiana anterior ao ingresso na Ordem para aquilo que propomos atualmente como forma de vida franciscana. Às vezes, esta proposta de vida dos frades aos jovens não se mostra coerente. Propomos que devemos ser homens de oração, mas muitas vezes deixamos que o sergo o que fez com o Profeta Jeviço, o trabalho, as distrações, FREI MICHAEL PERRY remias: pegou-me e me virou nos privem da oração. Assim no avesso, mais uma grande convidamos os jovens a serem surpresa na minha vida, como homens de oração e nós, no ele sempre faz! entanto, não o somos verdadeiramente. Esta é uma Essa é um pouco da minha história, mas o mais contradição que para eles é um desafio. Voltemos, enimportante para mim agora é procurar a mesma coetão, à pergunta sobre a simplicidade. Nós, frades merência na minha vida que encontro na vida de Francisnores, temos que nos perguntar sobre o nosso estilo co, também na vida do Papa Francisco, e na de Jesus. de vida. Quero saber para qual forma de vida estamos convidamos os jovens para seguir o Cristo. Todos nós, Comunicações - E a família? frades menores, devemos nos converter seja mentalFrei Michael - Nasci nos EUA de uma família mente seja no uso das coisas, e deixarmo-nos converter irlandesa. Tenho também a nacionalidade irlandesa. pelo Senhor. Porque os jovens são muito inteligentes e Sempre fui um irlandês-americano. Isso me ajudou eles veem logo as contradições. E as contradições que muito, no mundo, a ter uma identidade unificada. Eu se encontram em nossa vida provocam crises na vida tenho três irmãos e uma irmã. Oito sobrinhos e, ontem deles. E aquilo que os jovens procuram é autenticidade à noite (26), chegou o quarto sobrinho neto. Meus pais e uma coerência na vida. E também a partir dos estujá morreram faz alguns anos. dos desenvolvidos no Brasil, no México, na África e no mundo, os jovens procuram estar mais próximos dos pobres e dos sofredores. E, então, vindo para junto de nós, com o passar do tempo, eles aprendem um estilo de vida que os distancia dos pobres e dos sofredores, e isso os põe em crise. Talvez uma outra maneira de responder a isso é: não devemos deixar de nos questionar sobre esse desejo dos jovens. Eles podem nos ajudar a clarear o nosso sentido de vida. É uma graça que eles venham, mas devemos ser honestos. Eu queria acrescentar que nos nossos programas de formação temos que acentuar mais o acompa-

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“Propomos que devemos ser homens de oração, mas muitas vezes deixamos que o serviço, o trabalho, as distrações, nos privem da oração”.

Postulantes da Província tiram fotos com Frei Michael

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nhamento pessoal e isto em nível de formação inicial, e, na formação permanente, temos que fazer a mesma coisa. É preciso formar os guardiães para que eles possam formar e acompanhar os frades. Na verdade, nós todos precisamos ajudar no acompanhamento espiritual porque há tantos obstáculos com que nos deparamos, e decisões que tomamos que não são boas para nós. Precisamos de pessoas não tanto que julguem, mas nos ajudem a retomar a vida evangélica. Isso é muito importante: como formar os guardiães para fazerem isso? Quantas vezes deixamos um ou outro na Fraternidade sofrendo sem nunca perguntar: “Como você está?”. Nós comentamos entre nós: “Ele é assim”, “Ele tem problemas”, mas ninguém vai diretamente a ele perguntar: “Como você está? O que podemos fazer para ajudá-lo?”. “A tua vida vale a pena e eu tenho um compromisso para com você, porque no Corpo de Cristo se um membro sofre, to-

Gerais há um grande desejo de formar comunhão na Família Franciscana. Porque, de outro modo, essas fragmentações que fazem parte da globalização, enfraquecem o nosso testemunho. Estou certo de que, graças a Deus, nesse momento da história humana, temos a necessidade de nos ajudarmos reciprocamente. E isso faz parte da força do testemunho franciscano no mundo de hoje. Quanto aos jovens, há uma grande fome e sede por um significado na vida. Há um grande desejo de encontrar uma pessoa na vida. E esta pessoa aparece no canto oficial da JMJ, que diz: “Cristo te convida”. E foi com base numa pesquisa com os jovens que uma Religiosa, presente no encontro com os Ministros Gerais, chegou à conclusão de que muitos jovens deixam a Igreja mas não abandonam a sua procura por Deus. Eles estão procurando uma experiência espiritual profunda, que, às vezes, não se encontra na Igreja. Não a en-

dos os outros sofrem também!”.

contram, porque, muitas vezes, quando vêm à igreja encontram uma liturgia morta, uma pregação que não é bem preparada e apresentada, e uma forma de oração muito vazia. Falta alegria, energia e esperança. Eu não posso simplesmente responsabilizar os jovens porque eles estão procurando onde há vida. Eles estão procurando onde há esperança e onde há amor

Comunicações - O que o sr. achou do encontro com os Ministros Gerais e do encontro com os jovens? Qual a impressão que teve do Espaço Franciscano na JMJ? Frei Michael - Diria que entre os Ministros

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MINISTRO GERAL CELEBRA EUCARISTIA NO S. ANTÔNIO A Fraternidade do Convento Santo Antônio do Rio de Janeiro e os frades, do Brasil e do exterior, que estavam hospedados no Convento por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, reuniram-se à Mesa do Senhor na sexta-feira (26/7) com o Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, Frei Michael Perry, que foi eleito representante de São Francisco há poucos meses. O Ministro Provincial, Frei Fidêncio Vanboemmel, deu as boas vindas a Frei Michael e ao Vigário Geral da Terceira Ordem Regular (TOR), Frei Amando Trujillo, e a todos da Família Franciscana presentes na celebração, explicando que o Convento em obras já tem uma história de 405 anos. Frei Michael, muito fraterno, presidiu a celebração em italiano e português. Sua homilia, em italiano, foi traduzida por Frei Diego Melo, do verdadeiro. Creio que isso deva colocar-nos em crise, a nós, franciscanos, e a Igreja, para deixarmo-nos transformar por esta experiência. Ao mesmo tempo, os jovens que vimos aqui na JMJ e na Tenda Franciscana, eles ainda encontram esperança, alegria e amor na Igreja, e esta experiência que nós vivemos aqui é cheia de energia e alegria. E tem a música que nos ajuda também a agradecer ao Senhor e há uma forma de oração que nos ajuda a nos expressarmos. Eu creio que nós, como franciscanos, inspirados pela forma de pregar de Francisco e seus primeiros companheiros, devemos procurar tocar o coração das pessoas, e res-

Serviço de Animação Vocacional da Província da Imaculada. Antes de iniciar a celebração, Frei Michael lembrou que esta era a quarta vez que visitava o Brasil. As duas primeiras viagens foram ao Norte do país e, neste ano, participou do Encontro de Evangelização da Ordem, em Canindé (CE), e agora participa da JMJ. Segundo o Ministro Geral, três dimensões do povo brasileiro chamaram a sua atenção. “A primeira é alegria fraternal, a segunda é a unidade da Família Franciscana, e a terceira é um desejo profundo de encontrar Jesus”, confessou, dizendo que essas três dimensões quer colocar em prática na sua vida e na vida da Ordem. Ele também agradeceu à Província e à Fraternidade do Convento Santo Antônio, em nome do guardião, Frei Ivo Müller, pela acolhida fraterna a ele. ponder com água e pão que satisfaçam a sede e fome de Deus. Isso requer criatividade e coragem. Mesmo cometendo erros, prefiro correr riscos a criar espaços mortos. Não nos contentamos em esperar a morte. É essa atitude com nossa vocação franciscana, com nosso desejo e futuro em Cristo. Buscamos a Cristo para descobrirmos e encontrarmos a vida. Isso nos dá esperança, alegria, criatividade e energia. Este é o nosso futuro com os jovens: nossa transformação pessoal e comunitária. (*) Colaboraram Frei Bruno Varriano, Frei Walter de Carvalho Jr. e Frei Gustavo Medella

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FAMÍLIA REUNIDA

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m dos grandes momentos do Espaço Franciscano foi o Encontro dos Ministros e Superiores Gerais na quarta-feira (24), na Igreja de São Sebastião, na Tijuca, para falar do carisma de São Francisco e Santa Clara aos jovens e religiosos (as) da Família Franciscana do Brasil e mundial. A jovem croata, representante da Juventude Franciscana no Conselho Geral da Ordem Franciscana Secular, Anna Fruk, conduziu a mesa dos Gerais. O primeiro a falar foi o Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, o norte-americano Michael Perry, citando o Evangelho de Lucas (1, 1-4), quando Jesus foi à cidade de Nazaré, entrou na sinagoga, e levantou-se para fazer a leitura. Deram-lhe o livro do profeta Isaías, onde leu a passagem que está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano de graça do Senhor.”

Frei Michael lembrou que o Espírito do Senhor está sobre nós e nos chama à liberdade, nos chama para darmos esperança ao mundo inteiro, nos chama para sermos discípulos de Jesus, nos chama para perto dos mais pobres. “E o Papa Francisco está dizendo que é preciso voltar aos pobres”, enfatizou, reforçando que é importante “para nós, franciscanos, não deixarmos os lugares fraturados esquecidos”. Segundo Frei Michael, o Espírito do Senhor está chamando para dar esperança e liberdade a todo mundo. “Vamos acreditar que o Espírito do Senhor está mesmo sobre nós. Vamos ter olhos, corações e nariz abertos para conhecer e proclamar o Evangelho”, enfatizou. Na mesma linha de reflexão do Papa Francisco, pautou-se o Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, Mauro Jöhri, que lembrou uma história do tempo de São Francisco, quando o santo repreende um frade que chamou um pobre de “fingido”. São Francisco mandou que ele tirasse o hábito, pedisse perdão e beijasse os pés do pobre. “Francisco não aceitava que se desprezasse o pobre. Um


frade nunca despreza um pobre. Franciscano nunca despreza um pobre (aplausos)”, reforçou o Ministro Geral dos Capuchinhos. “Francisco reconheceu que encontrou Cristo nos pobres. Só quando se abriu para os pobres conseguiu se abrir para Cristo. Antes os pobres lhe causavam repulsa. Os leprosos cheiravam mal. Mas, um dia, Deus o agarrou e levou para o meio dos pobres. Aquilo que era amargo se tornou doce. Não se pode dizer que se ama a Deus que não se vê e se não se ama ao pobre que se vê. Existem tantos pobres que esperam por um gesto de solidariedade e amizade. Você pode não ter dinheiro para dar a um pobre, mas poderá saudá-lo e ficar um tempo com ele”, encerrou, desejando boa caminhada. O Ministro dos Frades Menores Conventuais, Frei Marco Tasca, tratou do “carisma franciscano e a comunicação”. “Eu sei que esse tema da comunicação

O Vigário Geral da Terceira Ordem Regular, Frei Amando Trujillo, falou de ecologia e espiritualidade, um tema cada vez mais atual e um compromisso dos franciscanos. “Nós, como franciscanos, temos a obrigação de renovar a criação como um dom de Deus”. Segundo ele, o Papa Francisco convoca a todos a serem protetores da criação e não destruidores. “Estamos destruindo a natureza e, consequentemente, destruindo nossas vidas”, lamentou. Já a presidente da Confederação Internacional dos Irmãos e Irmãs Franciscanas, TOR, Deborah Lockwood, OSF, falou de fraternidade na espiritualidade franciscana. “Cada irmão, cada irmã é um presente de Deus e por isso devemos ter respeito por eles”, destacou. A simpática Ministra Geral da OFS, Encarnación del Pozo, falou com carinho da Juventude Franciscana e lembrou da dificuldade para se ter as-

vocês não conhecem mais ou sistência espiritual menos, mas conhecem muito da Primeira Ordem bem”, brincou. “Eu gostaria de no mundo inteiro. recordar um dado muito imA vice-presiportante. Deus se conectou pridente da Federação meiramente conosco. Não espedas Irmâs Conceprou que nós nos conectássemos cionistas do Brasil, a ele. E ele fez de uma maneira Ir. Lindinalva de Mamuito interessante. Mandou seu ria, disse que o desaFilho Jesus ao nosso meio. Isto fio hoje é recuperar é, se conectou conosco através o jovem que está de um corpo, com afetos, com se distanciando da PAPA FRANCISCO sonhos, com gestos concretos”, Igreja. assinalou. Quatro jovens Para ele, é claro que os fizeram perguntas meios de comunicação são uma grande oportunidaaos Ministros Gerais e, pela Província da Imaculada, de, mas é preciso vivê-los de uma maneira cristã e Frei João Pedro Inácio Silva Almeida, interpelou Frei franciscana. “Penso que São Francisco e Santa Clara Michael Perry sobre qual deve ser a postura do frade foram grandes comunicadores. Todos vocês conhemenor numa sociedade marcada pelo relativismo e cem a passagem da Perfeita Alegria e como São Fransecularismo? Segundo o Ministro Geral OFM, essa cisco expressa aquilo que está vivendo como história. realidade não deve afastar o frade do mundo. “Essas Creio que nós, de fato, somos chamados hoje a viver situações negativas fizeram Francisco se aproximar esses meios de comunicação com uma maneira difedo mundo. A tendência é se afastar, mas o frade merente. Porque temos um modo diferente de amar; um nor deve se tornar um sinal de fé, esperança e carimodo diferente de estar juntos; um modo diferente dade”, disse. de economia; um modo diferente de viver as relações. Todos os ministros (as) acenderam as velas no É isto que o mundo espera de nós: que sejamos sinal Círio Pascal e passaram a chama aos jovens em sinal de diferença. Que não sejamos iguais a todos e não de envio nesta Jornada Mundial da Juventude que façamos o que todo mundo faz, não vivamos como tem como tema “Ide e fazei discípulos entre todas as todos vivem. Somos chamados a ser sinal de diferennações” (Mt 28, 19). No encerramento, o grupo de ça. Coragem irmãos! Vamos mudar o mundo naquilo teatro da Paróquia Nossa Senhora Aparecida de Nique o mundo está esperando”, convocou. lópolis representou a vida de São Francisco de Assis.

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“Ninguém pode tocar a Cruz de Jesus sem deixar algo de si mesmo nela e sem trazer algo da Cruz de Jesus para sua própria vida”.

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A “CAPELA DOS

ESCRAVOS”

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Espaço Franciscano foi criado em frente ao conjunto da Igreja da Venerável Ordem Terceira e do Convento Santo Antônio, no largo da Carioca. A Capelinha desse espaço, que

ganhou o nome de “Capela dos Escravos”, tornou-se durante a Jornada Mundial da Juventude o local mais procurado pelos jovens, com a presença significativa das irmãs franciscanas contemplativas: Clarissas e Concepcionistas.


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Sua estrutura em pedra, nos porões da Igreja da Ordem Terceira, ganhou o Crucifixo de São Damião, o Sacrário com o ostensório adquirido em Assis, em madeira de oliva, e os bancos, lembrando as pequenas capelinhas restauradas por São Francisco de Assis no início da Ordem, entre elas, a Porciúncula e

conta Frei Basílio, afirmando que os franciscanos os tratavam muito bem, como mostram os registros do guardião de 1867, que gastou 11$560 com internação de um escravo num hospital durante nove dias. A Lei Áurea libertou os escravos em 13 de maio de 1888. O sucesso do espaço de oração levou a VOT a

São Damião. O ambiente tão acolhedor e contemplativo, contudo, tem uma história que remete ao tempo do Brasil-Colônia: era uma masmorra de escravos. Nesta época, era comum muitos conventos e igrejas contarem com escravos para as edificações. Frei Basílio Röwer atesta no livro “Páginas de história franciscana no Brasil” que em 1872 o Convento da Penha (ES) tinha 42 escravos. “A remodelação do Santuário e a construção dificílima do Convento foram principalmente obras dos escravos. Entre eles havia músicos que participavam das festas solenes ou saíam do convento para pedir doações às festas”,

manter o local como uma Capelinha.

“Cristo ‘bota fé’ nos jovens e confia-lhes o futuro de sua própria causa: ‘Ide, fazei discípulos’”. PAPA FRANCISCO

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O RAP TOMA CONTA DA TENDA

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ão poderia ser diferente. O melhor rap da Jornada Mundial da Juventude veio dos Estados Unidos. O país que criou esse gênero de música. Nesta terça-feira (23), os rappers norte-americanos El Padrecito & The FoundNation Family roubaram a cena no encerramento das atividades do primeiro dia do Espaço Franciscano. O grupo é natural da Califórnia, onde nasceu o Pe. Masseo Gonzales, franciscano conventual conhecido como “El Padrecito”, que fundou a The FoundNation Family, integrada por Nick Torres, Carlos Zamora, Alfonso Pedroza, John Davidson, Val Mural e Daniela Ruiz Somocursio, a única mulher do grupo. El Padrecito agradeceu pela possibilidade de mostrar o seu trabalho na Jornada Mundial da Juventude e elogiou o acolhimento dos brasileiros. Segundo contou, o rap entrou em sua vida como um caminho que repetem milhares de norte-americanos das

comunidades negras. “Quando tinha 19 anos, perdi metade da perna direita quando vivia nas ruas. Foi uma fase de minha vida que tive vários problemas com a polícia e me meti em muitas confusões. Mas não demorou muito e o Pai me mostrou outro caminho. Conheci a história de São Francisco de Assis e um frade me pegou pela mão e me mostrou um mosteiro, onde eu começaria uma outra vida”, contou. Segundo El Padrecito, o rap é o seu trabalho que faz com os jovens. “Através dele, muitos jovens deixam a violência”, acredita. O público, que foi chegando timidamente para o show às 18 horas, entrou no ritmo, dançou, fez coreografias e bateu palmas. A vocalista Daniela, que é peruana, roubou a cena com sua simpatia e bela voz. Rap é um estilo musical raro em que o texto é mais importante que a linha melódica ou a parte harmônica. E como demonstrou o grupo, caiu como uma luva para passar a mensagem de Jesus Cristo.


“Não tenho ouro nem prata, mas trago o que de mais precioso me foi dado: Jesus Cristo!”. PAPA FRANCISCO

Frei Florival cantou na Tenda e também para o Papa FREI FLORIVAL O paranaense Frei Florival Mariano de Toledo já colhe os resultados do seu primeiro CD de cantos franciscanos. Por causa da beleza de suas composições e da sua voz, cantou para o Papa Francisco no Hospital São Francisco, durante a inauguração de uma ala para dependentes químicos. Na Tenda, ele apresentou os sucessos do CD “Perfeita Alegria”, que tem arranjos de Tião Oliveira, filho do violonista capixaba Maurício de Oliveira e de Washington Negrão, que acompanhou com o violão os concertos na JMJ. Frei Florival, que é natural de Umuarana, no Paraná, e ingressou na Ordem Franciscana em 1994, já fez várias participações como músico e cantor em diversos trabalhos musicais.

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CIRANDA DA JUFRA O dia chuvoso no Rio de Janeiro não tirou o ânimo dos jovens jufristas do Brasil, que foram responsáveis pela animação na tarde da quinta-feira (25) no Espaço Franciscano, em frente à Igreja da Venerável Ordem Terceira, no Largo da Carioca. Os jovens brasileiros abriram esse momento com “ofício divino da juventude”. Todos os jovens se reuniram num grande círculo para rezar e refletir sobre a sua missão como jufrista e divulgadores do carisma de Francisco e Clara de Assis. Em seguida, eles promoveram a “Ciranda da Vida”, fazendo coreografias com cantos e danças. A participação dos jufristas terminou com um “PagoJufra”, que atraiu jovens de outros países, como os argentinos. Para os jufristas, a JMJ é um espaço celebrativo, mas também participativo, de construção, de troca experiências e partilhas. Especialmente de dialogar com jovens do mundo todo.

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UMA SEMANA

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urante todos os dias da Jornada Mundial da Juventude, a qualquer hora, lá estava o Papa Francisco na TV com seu sorriso espontâneo, seu carro despojado, sempre acenando para o povo com a janela do carro aberta, abraçando, beijando e deixando mensagens que tocavam o coração dos jovens e do mundo inteiro. O povo do Rio de Janeiro foi privilegiado por tê-lo bem perto e nem se importou de o

Santo Padre carregar multidões à Praia de Copacabana durante as grandes celebrações, já que o local escolhido em Guaratiba, o Campus Fidei, acabou se tornando inviável depois da chuva constante que caiu no Rio de Janeiro trazendo uma onda de frio, a mais forte das últimas décadas. Bastou desembarcar no Rio e o povo brasileiro teve uma pequena mostra do que seria estar com o Papa de 23 a 28 de julho na JMJ: “Aprendi que para ter


A DE EMOÇÕES

acesso ao povo brasileiro é preciso ingressar no portal imenso de seu coração”, afirmou Francisco, que disse ter vindo ao Rio “nos braços abertos do Cristo Redentor”. E a frase que ficará na história: “Não tenho ouro nem prata, mas trago o que de mais precioso me foi dado: Jesus Cristo”. A cada compromisso no Rio, os jovens do mundo inteiro estavam próximos do Pontífice. A pausa foi dada na quarta-feira, quando o Papa deixou a Cidade Maravilhosa para celebrar a Santa Missa

no Santuário de Aparecida. “Quanta alegria me dá vir à casa da Mãe de cada brasileiro, o Santuário de Nossa Senhora Aparecida”, confessou, garantindo que volta ao Brasil em 2017, por ocasião dos 300 anos da devoção a Nossa Senhora Aparecida. A linguagem simples, com expressões comuns, do homem da rua, como “colocar mais água no feijão” ou “boto fé nos jovens”, contribuíram ainda mais para tocar o coração dos fiéis. As constantes alusões aos problemas sociais e a questões dolorosas, como a lembrança do incêndio na Boate Kiss durante a Via Sacra de sexta-feira ou o acidente fatal dos jovens da Guiana Francesa que vinham para JMJ, convenceram a muitos do seu real interesse e envolvimento pelos dramas humanos. “Foi assim que ele conquistou a Argentina, ao visitar favelas e zonas de risco, desde quando era um padre jesuíta”, comentou a jornalista argentina Laura Cerezo, da Rádio Cadena 3. Quem caminhou pelas ruas da praia de Copacabana, entre os mais de 3 milhões de peregrinos que passaram horas embaixo de chuva para conseguir um bom lugar e assim poder ver de perto o papamóvel, pôde presenciar a comoção geral do público. Choro, gritos de alegria, empurrões e mais empurrões para ter as mãos estendidas na tentativa de tocar o papa, nem que fosse na sua veste. O Papa caminhou à vontade pelo povo, especialmente entre os mais pobres, como foi o caso da visita à favela da Varginha, no Rio de Janeiro, quando surpreendeu e fez desaparecer qualquer distância protocolar, para o desespero dos seguranças, que temiam pela presença do Papa nas zonas de perigo no meio da multidão. Francisco subia e descia do papamóvel com tranquilidade, para beijar uma criança ou fazer uma foto com um favelado. O pequeno Nathan, de 9 anos, foi um exemplo e comoveu todo mundo ao beijar e abraçar o Papa: “Santo Padre, quero ser sacerdote de Cristo”, disse. Uma semana que valeu por anos de catequese. O legado que o Papa Francisco deixa desta viagem, com suas homilias, discursos, entrevistas, serve como Norte para uma Igreja Católica que nos últimos anos vivia envolta em problemas. Esse legado, certamente, vai contribuir para o fortalecimento da Igreja e, quem sabe, ajudar o mundo a se libertar mais do ódio, das desigualdades, das injustiças, da falta de amor.

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22 DE JULHO – CHEGADA DO PAPA

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Desde cedo, o povo já dava mostras de que acolheria o Papa Francisco, na sua primeira viagem internacional, como muita alegria, carinho e festa. E não foi diferente. Por volta das 17 horas, na Catedral Metropolitana, o Papa desceu do carro fechado e passou para o papamóvel, quando pôde finalmente estar mais próximos dos jovens.

uma recepção calorosa ao Papa que conquistou o mundo. A passagem do Pontífice foi rápida, mas será inesquecível para os jovens esse primeiro contato. Enquanto o povo esperava o Papa, brasileiros e argentinos monopolizaram as atenções desfilando em grupos pela outra faixa da avenida do Chile, numa “guerra” sadia da fé.

A multidão gritou sem parar o nome do papa e palavras de carinho como: “Papa, eu te amo”, “a juventude é do Papa”, “uh uh uh o Papa é nosso”. Durante todo o percurso de papamóvel - avenida República do Chile, avenida Rio Branco, rua Araújo Porto Alegre, avenida Graça Aranha, avenida Nilo Peçanha e avenida Rio Branco -, o povo deu

De um lado, os argentinos cantavam “soy argentino...”, e do outro os brasileiros respondiam “sou brasileiro....”. Mas bastou o Papa aparecer, e todos se uniram num grito só. Antes de chegar à Catedral, o Papa viajou no banco traseiro do carro fechado, mas manteve a janela totalmente aberta na maior parte do tempo.


Sonho belo O sucessor de Pedro vem, e eu sei, Ser o Francisco de hoje para a Igreja, E ser fiel ao que Jesus deseja, Ser simples, pobre, sem reger por lei!...

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Sonha reger a Igreja por amor, Nela abrigar os justos e também, Os pecadores que a ela, pobres vêm, Para apagar seu sofrer, sua dor!... Papa Francisco inspira um sonho belo, Sinal de amor, a luz do Poverello, Para restaurar a Igreja do Senhor. Toda essa força, símbolo “Francisco” , Traz desafio para o papa e risco, Porque Francisco incomoda e é Profeta!... FREI WALTER HUGO DE ALMEIDA

O MOMENTO MAIS TENSO DA VISITA

A comitiva do papa Francisco foi acompanhada por carros da Polícia Federal, da Guarda Municipal do Rio e da Polícia Militar. O Papa Francisco foi recepcionado pela presidente Dilma Rousseff, pelo governador do Estado, Sérgio Cabral, e pelo prefeito da capital, Eduardo Paes, entre outras autoridades. Um coral com crianças e jovens de três paróquias do Rio saudou o líder maior da Igreja Católica com o hino da atual edição da Jornada Mundial da Juventude. Depois, cantaram uma música, em português, espanhol e inglês, com o refrão “Abençoa, abençoa, abençoa este povo que te ama, abençoa, abençoa, Papa Francisco, o teu povo abençoa”.

A situação mais tensa aconteceu logo na chegada do Papa. O carro que o levava até a catedral ficou preso num engarrafamento na Av. Presidente Vargas. Fiéis viram o automóvel parado, quase sem seguranças por perto e se aproximaram numa tentativa de tocar o Papa. Muitos conseguiram, como uma mulher que entregou a criança para o Pontífice pela janela do carro. Francisco a beijou e a devolveu à mulher. Os guarda-costas se desdobraram para fazer um frágil cordão de isolamento em torno do argentino. Poderia ter acontecido um episódio grave. Por sorte, não ocorreu. Nem a Secretaria Municipal de Transportes tampouco a Polícia Federal assumiram a responsabilidade pelo erro.

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DIA 23 - ABERTURA OFICIAL DA JMJ Duas horas depois, O arcebispo mandou a Cruz Peregrina e o Ícoainda uma “saudação afetuone de Nossa Senhora, sa” para o Papa emérito Bento dois símbolos da JornaXVI, que anunciou a escolha da Mundial da Juventudo Rio de Janeiro como sede de, chegarem à Praia de da Jornada em 2011. “ViveCopacabana, tomada por mos este tempo forte de peremais de 500 mil jovens grinação. Jesus Cristo é semcatólicos. O arcebispo pre atual, sobretudo para os do Rio de Janeiro, Dom jovens que buscam a verdade, Orani Tempesta iniciou a justiça e a paz”, completou a Santa Missa de aberDom Orani, em cerimônia tura da Jornada Mundial retransmitida em 30 telões da Juventude no dia 23 espalhados pela praia. de julho. Já o papa Francisco “Celebro pelos jopassou o dia em repouso no vens desempregados, peSumaré, residência da Arquilos jovens sem família, diocese, após a longa viagem PAPA FRANCISCO pelos jovens sem pátria, de Roma ao Brasil e o passeio pelos jovens sem direitos pelas ruas da cidade seguido ou pelos que perambulam pelo encontro com autoridapelas ruas de nossas cidades ou se encontram des, na segunda-feira. detidos”, afirmou Dom Orani, que lembrou das Também a comitiva do Pontífice, que recrianças e adolescentes mortos na frente da Igrealizaria um passeio até o Cristo Redentor, acaja da Candelária e em outras “tristes chacinas” bou cancelando a visita devido à frente fria que ou acidentes, como o incêndio na boate de Santa chegou ao Rio de Janeiro e só deu trégua no doMaria (RS). mingo.

“Creio que é preciso estimular uma cultura do encontro, em todo o mundo, de modo que cada um sinta a necessidade de dar à humanidade os valores éticos de que a humanidade necessita”.

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24 DE JULHO - APARECIDA E HOSPITAL “Também para vocês e para todas as pessoas repito: nunca desanimem, não percam a confiança, não deixem que se apague a esperança. A realidade pode mudar, o homem pode mudar. Procurem ser vocês os primeiros a praticar o bem, a não se acostumarem ao mal, mas a vencê-lo com o bem”. PAPA FRANCISCO

No terceiro dia do Papa Francisco em solo brasileiro, ele celebrou sua primeira Missa no Brasil, na Basílica de Nossa Senhora Aparecida. E deu uma boa notícia: estará de volta em 2017, quando o Santuário Nacional vai comemorar 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida no Rio Paraíba. A declaração foi dada durante discurso na Tribuna Bento XVI, logo após a missa de duas horas. O convite partiu do arcebispo Dom Raymundo Damasceno. Na tribuna, pediu desculpas por não falar “brasileiro”, disse que falaria em espanhol e se desculpou novamente. Em todos os intervalos das falas, foi aplaudido. “Uma mãe se esquece de seus filhos? Ela não se esquece de nós. Ela nos quer e cuida de nós”, disse o Papa, antes de pegar a imagem de Nossa Senhora em suas mãos e apresentá-la aos fiéis, abençoando-os, assim como fez no final da Missa, quando saudou 100 cadeirantes próximos ao altar central e líderes de outras religiões. Depois, deixou o local no papamóvel rumo ao Seminário Bom Jesus, onde almoçou e descansou antes do retorno ao Rio. Cerca de 60 pessoas entre seminaristas e membros da comitiva do Vaticano almoçaram com o pontífice. Após a refeição, pediu que todos os garçons e cozinheiras fossem ao refeitório. Ele agradeceu a todos pela refeição e ainda pediu que rezassem por ele. Depois, tomou um chá e deixou o Seminário.

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Há tantas situações no Brasil e no mundo que reclamam atenção, cuidado, amor, como a luta contra a dependência química. Frequentemente, porém, nas nossas sociedades, o que prevalece é o egoísmo. São Debaixo de uma chuva torrencial, o Papa tantos os “mercadores de morte” que seguem a lógichegou à Tijuca, onde inaugurou uma ala no Hosca do poder e do dinheiro a todo o custo! A chaga pital São Francisco de Assis para dependentes quído tráfico de drogas, que favorece a violência e que micos. Da capela da unidade de saúde até o palco semeia a dor e a morte, exige da inteira sociedade montado para a celebração, Francisco abraçou doum ato de coragem, afirmou. entes, distribuiu bênçãos e acenou para os convidaO Papa criticou a possibilidade de legalizados. A uma criança com deficiência física, mostrou ção das drogas, “tão discutida na América Latina”. o porquê de ter escolhi“É necessário enfrentar do o nome Francisco os problemas que espara guiar a Igreja: “Me tão na raiz do uso das abençoe”, pediu o papa. drogas, acompanhando O relato é de Frei Franquem está em dificuldacisco Belotti, fundador de e dando esperando da Associação Lar São no futuro”, disse. Francisco de Assis na Emocionados, PAPA FRANCISCO Providência de Deus, ex-dependentes químiadministradora do hoscos deram testemunhos pital, que passou todo o na cerimônia de inautempo da visita ao lado guração do centro de reabilitação. Receberam abrado Pontífice. ços do Papa. “Sei, pelo sofrimento e humilhação que O Papa iniciou seu discurso citando São passei, o quanto é importante que bons samaritanos Francisco de Assis, padroeiro do hospital, e sua vida e outros Franciscos se compadeçam de nós”, afirmou de dedicação, dizendo que “não são as coisas, o ter, um deles que viveu 17 anos sob o vício das drogas e os ídolos do mundo a verdadeira riqueza e que estes 10 deles como morador de rua. não dão a verdadeira alegria, mas sim seguir a CrisFrei Francisco, diretor do hospital, apresento e servir os demais”. tou ao Papa a missão do centro de tratamento. “San“Abraçar. Precisamos todos aprender a abrato Padre, a lepra dos nossos dias se chama droga”, çar quem passa necessidade, como São Francisco. disse. PAPA INAUGURA ALA DO HOSPITAL SÃO FRANCISCO

ESPECIAL JMJ

“Precisamos todos aprender a abraçar quem passa necessidade, como São Francisco”.

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ESPECIAL JMJ

Frei Dênis Mariano conversa com o Papa; “Não tenho palavras para descrever”. NA CAPELA COM OS FRADES Antes do cerimônia, o Papa teve encontro reservado com os frades na Capela do Hospital. “Um franciscano tocando violino. Quanta alegria”, disse, ao entrar na capela recém-reformada, na qual franciscanos tocavam violinos e órgão. Durante os 10 minutos que permaneceu no local, ajoelhou-se em frente ao sacrário enquanto os freis cantavam ‘Oh Providência’.

Frei Dênis Mariano falou desse encontro com o Papa. “É uma experiência que não tenho palavras para descrever”, contou. “Nesse encontro, eu tive a coragem de sair do meu lugar e me dirigir ao Papa. Dei-lhe de presente um Tau e disse-lhe: ‘Santo Padre, o sr. é para nós uma grande referência. Nós nos inspiramos no sr.’ Mas ele pegou na minha mão, apertou e disse assim: ‘Vocês, franciscanos, são para mim uma inspiração’”, contou o jovem frade.

Os pronunciamentos do Papa na JMJ estão reunidos num Especial no site www.franciscanos.org.br

O PENSAMENTO DO PAPA FRANCISCO Discursos, homilias e entrevistas

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ESPECIAL JMJ

25 DE JULHO – VISITA À VARGINHA

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Com muita chuva, o Papa começou o quarto dia no Brasil com agenda cheia. Celebrou no Sumaré, e em seguida abençoou as bandeiras olímpica e paraolímpica no Palácio da Cidade, em Botafogo. Sua visita à Favela de Varginha, no Complexo de Manguinhos, foi um dos momentos mais emocionantes do dia. Ele foi para lá no papamóvel, cumprimentou os fiéis, novamente abençoou algumas crianças e foi muito aplaudido e aclamado pela população. Na capela São Jerônimo Emiliani, fez uma pequena oração e depois saiu a pé pela comunidade, sempre acompanhado de muita gente. O jovem Rangler Irineu dos Santos, que representou os moradores na comunidade de Varginha, fez um discurso de saudação ao Papa. Ele falou das imensas dificuldades enfrentadas pelos moradores e do descaso das autoridades. Disse também que após o anúncio da visita do Papa, os governadores passaram a olhar para a comunidade.

No final da visita, o Papa Francisco fez um discurso no campo de futebol que é usado pelos moradores. O Pontífice começou dizendo que gostaria de estar em todas as casas, tomar até um cafezinho, mas como o Brasil é muito grande ele escolheu a comunidade de Manguinhos para representar todos os bairros do Brasil. Sorridente e solícito com os fiéis, Francisco discursou fortemente contra as injustiças sociais e ainda defendeu a “cultura da solidariedade”, que seria exemplo na sociedade brasileira. “É importante saber acolher; é algo mais bonito que qualquer enfeite ou decoração. Isso é assim porque quando somos generosos acolhendo uma pessoa e partilhamos algo com ela – um pouco de comida, um lugar na nossa casa, o nosso tempo - não ficamos mais pobres, mas enriquecemos. Sei bem que quando alguém que precisa comer bate na sua porta, vocês sempre dão um jeito de compartilhar a comida: como diz o ditado, sempre se pode “colocar mais água no feijão”! E


mais habitável, mas sim a cultura da solidariedade”, enfatizou. Além de algumas melhorias realizadas pelo governo do Estado, o Sumo Pontífice doou para a comunidade a quantia de 20 mil euros para ser investida em melhorias na região. COM OS HERMANOS Os jovens argentinos invadiram o Rio de Janeiro. Com tanto carinho recebido pelos compatriotas, o Papa Francisco resolveu incluir, às pressas, na sua agenda, um encontro com os jovens de seu país. O evento, antes do almoço, durou 30 minutos e a Catedral do Rio de Janeiro acabou ficando pequena e cerca de 10 mil argentinos tiveram de acompanhar o evento do lado de fora. O plano inicialmente divulgado era de que o Papa celebraria uma Missa. No entanto, Francisco se restringiu a um discurso de improviso. Os fiéis foram identificados por crachás, em que constavam nome, nacionalidade e endereço de hospedagem. A entrada foi feita por ordem de chegada. O Papa Francisco afirmou em seu discurso de improviso que a Igreja Católica precisa sair às ruas. “Eu quero agito nas dioceses, que vocês saiam às ruas. Eu quero que a Igreja vá para as ruas, eu quero que nós nos defendamos de toda

vocês fazem isto com amor, mostrando que a verdadeira riqueza não está nas coisas, mas no coração!”, disse para delírio dos moradores da favela. “Não é a cultura do egoísmo, do individualismo, que frequentemente regula a nossa sociedade, aquela que constrói e conduz a um mundo

acomodação, imobilidade, clericalismo. Se a Igreja não sai às ruas, se converte em uma ONG. A Igreja não pode ser uma ONG”, disse Francisco, em espanhol. “Eu peço desculpas aos bispos e aos padres se isso pode gerar uma confusãozinha para vocês também”, afirmou em seguida.

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PRIMEIRO CONTATO COM A MULTIDÃO

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Com chuva e frio, um milhão de jovens se reuniu em Copacabana para a Cerimônia de Acolhida do Papa Francisco nesta JMJ. “Sempre ouvi dizer que os cariocas não gostam de frio e da chuva. Mas vocês estão mostrando que a fé de vocês é mais forte que o frio e a chuva. Vejo em vocês a beleza do rosto jovem de Cristo e meu coração se enche de alegria”, disse o Papa. O Papa assistiu a uma encenação teatral, ouviu temas da música brasileira e de canções religiosas. Depois, o Papa voltou a falar para os jovens. Pediu a todos que tenham mais fé, para encontrar um caminho de alegria e esperança. “Bote fé. O que significa? Quando se prepara um bom prato e vê que falta o sal, você então bota sal, falta azeite, então bota azeite. Botar, ou seja, colocar, derramar, e assim também em nossa vida. Bote fé e a vida terá um sabor novo”, disse o Papa Francisco. Segundo o Pontífice, o dinheiro não traz a verdadeira felicidade. “Ter dinheiro e poder podem oferecer um momento de embriaguez. A ilusão de ser felizes. E terminamos empanturrados, mas não alimentados. A juventude tem que ser forte, alimentar-se da sua fé, e não empanturrar-se de outra coisa”, disse. O dia terminou com a notícia de que a Jornada terminaria em Copacabana. Depois das

“Os pais costumam dizer por aqui: ‘Os filhos são a menina dos nossos olhos’. Que bela expressão da sabedoria brasileira que aplica aos jovens a imagem da pupila dos olhos, janela pela qual entra a luz, regalando-nos o milagre da visão! O que vai ser de nós, se não tomarmos conta dos nossos olhos?”. PAPA FRANCISCO

chuvas intensas no Rio de Janeiro, o “Campus Fidei” ficou alagado e sem condições de receber os peregrinos. O Comitê Organizador e a Prefeitura agiram rápido para refazer toda a programação em Copacabana.


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26 DE JULHO

A VIA SACRA EM

COPACABANA

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A

Via Sacra, um dos atos centrais da Jornada Mundial da Juventude, levou um público de 1,5 milhão de pessoas à praia de Copacabana. O Pontífice repetiu o caminho do dia anterior e percorreu três quilômetros no papamóvel, do Forte de Copacabana até o palco de 3.800 metros quadrados montado no Leme. Ele acenou para os fiéis que lotaram a Avenida Atlântica, beijou crianças e abençoou as centenas de milhares de peregrinos. Um dos momentos mais emocionantes da passagem do Papa foi quando ele desceu do papamóvel, abençoou uma réplica da estátua de São Francisco e colocou uma pomba branca na imagem. O público ao redor foi ao delírio. Já quase no Leme, o Pontífice voltou a descer do carro para abençoar um grupo de cadeirantes. O elenco da Via Sacra teve a participação

sofrem”, “estudante cadeirante”, “jovem das redes sociais”, “presidiário ou jovem da pastoral penal”, “jovem com doença terminal”, “jovem deficiente auditivo” e “jovens da África, América do Norte, da América Latina e do Caribe, da Europa, da Ásia e da Oceania”. Todos esses temas foram representados em um cenário que remontou à cidade antiga de Jerusalém, comum percurso usado nas procissões do século XVI. Segundo o diretor artístico da JMJ, Ulysses Cruz, este foi o cenário escolhido porque possui marcos históricos que fazem parte da tradição católica. As cenas da Via Sacra foram representadas por atores voluntários e personalidades católicas, totalizando cerca de 500 pessoas. “O caminho da cruz é um dos momentos fortes da Jornada Mundial da Juventude”, disse o Papa que também recordou o gesto de João Paulo II que, no

de Ana Maria Braga, Cássia final do ano 2000, confiou Kiss Magro, que emocionou aos jovens que levassem a o público com a sua intercruz pelo mundo inteiro pretação de Maria, Mãe de no movimento de evangeJesus. A cantora Elba Ramalização que fazem em torlho preferiu não ler o texto e no das jornadas mundiais. interpretá-lo. A encenação, “Ninguém pode tocar na dirigida por Ulisses Cruz, cruz de Jesus sem deixar contou ainda com os atores algo de si nela e sem trazer Eriberto Leão, Murilo Rosa, algo dela para sua vida”. Lívian Aragão e Narjara TuEm seguida, o Papa pediu reta para breves participaque todos se deixassem ções especiais. tocar por 3 perguntas: O O ato também conque vocês deixaram na tou com o cortejo da Cruz cruz nesse tempo em que Peregrina, que passou por ela atravessou o país? O todas as estações. Essa proque ficou da cruz na vida PAPA FRANCISCO cissão era formada por 30 de vocês? E qual é o sencoroinhas, 36 oficiais da tido da cruz de Jesus para Marinha, 100 voluntários todos? com bandeiras, 40 voluntários com matracas, além O Papa fez uma oração pelos jovens vítimas da guarda de honra da cruz, formada por 20 jovens da tragédia em Santa Maria, no Rio Grande do sul, representando as etnias dos cinco continentes. que deixou 242 mortos no incêndio na boate Kiss, Ocupando aproximadamente 900 metros do em 27 de janeiro deste ano. canteiro central da Avenida, as estações da Via Sacra A pedido do Papa, 35 catadores de papel da de Jerusalém, também conhecida como Via DoloArgentina participaram da Via Sacra nesta Jornada rosa ou Via Crucis, fizeram referência a 14 temas Mundial da Juventude. O Papa pediu que buscassem diferentes: “jovem missionário”, “jovem convertido”, os catadores argentinos, conhecidos como “cartone“jovem de comunidade de recuperação”, “jovem faros”, e que fossem convidados a subir ao camarote, lando em nome das mães”, “seminarista”, “religioque tinha capacidade para 1.500 pessoas. Antes, o sa que luta pela vida (contra o aborto)”, “casal de Papa também havia convidado trabalhadores argennamorados”, “jovem falando pelas mulheres que tinos para assistir a sua posse.

“O discípulo de Cristo não é uma pessoa isolada em uma espiritualidade intimista, mas uma pessoa em comunidade para se dar aos outros. Portanto, a missão continental implica pertença eclesial”.

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ORAÇÃO DO ANGELUS NA QUINTA DA BOA VISTA O Papa Francisco de intérprete entre o Papa iniciou suas atividades Francisco e aqueles que não apostólicas na sexta-feira, falavam espanhol. Além de às 9 horas, na Quinta da Paula, estavam no encontro Boa Vista, onde aconteceu mais dois brasileiros, uma a Feira Vocacional. No lofrancesa, um português, cal, o Pontífice rezou com um mexicano, um argenti15 religiosas da Ordem de no, uma russa, uma ameriPAPA FRANCISCO Madre Teresa e, em seguicana, uma australiana, um da, atendeu a confissão de cingalês e um neozeolandês cinco jovens. nascido na Índia. Ao meio dia, o Pontífice conduziu, do balcão Já à tarde, o Papa se encontrou com jovens do Palácio São Joaquim, a Oração do Angelus para que cumprem medidas socioeducativas, no Palácio centenas de fiéis que aguardavam em frente ao loSão Joaquim. Papa Francisco recordou da chacina cal. Na oração, saudou os avós. “Crianças e anciãos da Candelária e repetiu várias vezes: “Nunca mais constroem o futuro dos povos. As crianças porque violência, só amor”. Os jovens entregaram a Francislevarão adiante a história, os anciãos porque transco um rosário com uma grande cruz, com os nomes mitem a experiência e a sabedoria. Esse diálogo ende todas as vítimas da chacina da Candelária, que tre as gerações é um tesouro que deve ser consercompletava 20 anos naquela semana. vado e alimentado”, enfatizou o Papa Francisco no Em 23 de julho de 1993, um grupo de hodiscurso do Palácio São Joaquim. mens atirou contra 70 moradores de rua na escadaDepois almoçou com 12 voluntários, como ria da igreja da Candelária, matando oito pessoas, contou a jovem colombiana Paula Garcia, que serviu sendo seis menores de idade.

“A austeridade é necessária para todos. Trabalhamos a serviço da Igreja”.

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CONFISSÃO COM O PAPA O Papa Francisco atendeu a confissão de cinOs confessionários foram projetados pelo arco jovens durante a Jornada. O local escolhido para quiteto espanhol Ignácio de Ozono. o atendimento foi na Feira Vocacional, na Quinta da Inspirado pela vista do Corcovado, a partir Boa Vista, no dia 26 de julho. do bairro da Gávea, zona sul do Rio de Janeiro, os Os jovens ‘sortudos’ confessionários são forsão três brasileiros, um vemados por duas placas nezuelano e um italiano. cruzadas de madeira branFuncionário da Prefeitura ca, apoiadas uma na outra. de Paracuru, no Ceará, o No alto da estruperegrino Renan Souza, de tura, a cruz que lembra 22 anos de idade, foi um ainda mais o monumento dos brasileiros escolhidos inspirador. O projeto foi para se confessar com o pensado de forma que o Papa. “Ele realmente é o penitente fique de joelhos PAPA FRANCISCO santo padre do povão”, tese o sacerdote sentado. temunhou. Ozono conta que As confissões aconcomeçou o projeto logo teceram também em frenque viu a notícia da existe do Convento Santo Antônio do Largo da Cariotência de confessionários durante a JMJ. Após a fica, onde foram instalados 35 confessionários. Na nalização do conceito, a projeção da estrutura e os Quinta da Boa Vista foram instalados 65 locais de cálculos de sustentação, o arquiteto entrou em conconfissão. Para atender a todos os peregrinos, 1.500 tato com o Comitê Organizador Local (COL) e ofesacerdotes se cadastraram para ministrarem o sareceu o serviço. Esta é a primeira JMJ do arquiteto cramento da reconciliação. que já vive no Brasil há 38 anos.

“Não há cruz, pequena ou grande, da nossa vida que o Senhor não venha compartilhar conosco”.

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NATHAN,

O GAROTO QUE EMOCIONOU O PAPA Um dos momentos mais emocionantes da Jornada Mundial, entre centenas, foi quando o pequeno garoto Nathan, de apenas nove anos, conseguiu furar o cerco da segurança, e acenou para o Papa Francisco. Um auxiliar da guarda suíça ergueu o menino, e ele deu um caloroso abraço no Papa Francisco, dizendo: “Santidade, quero ser sacerdote de Cristo”. O Papa Francisco se emocionou com as palavras de Nathan, como mostraram as imagens divulgadas pelo pool e registradas por fotógrafos. Então, o Papa disse a Nathan: “Vou rezar por você, mas peço que também reze por mim. A partir de hoje sua vocação está concretizada”, disse o Papa, enquanto o menino chorava copiosamente. Natan veio com a sua mãe, Ana Paula Brito, e seu padrasto Agnor Carlos de Oliveira, da cidade de Cabo Frio (RJ) para ver o Papa Francisco. “Estávamos fazendo o trajeto para Copacabana, queríamos ver o Papa mais próximo, mas quando passamos pelo bairro da Glória percebemos que o Papa estava ali, então, imediatamente, estacionamos, nos aproximamos da grade e

esperamos sua passagem. Quando Natan o viu, foi ao seu encontro, os seguranças tentaram impedi-lo, mas o Papa já estava chamando-o. Foi muita emoção, naquela hora parecia que uma extensão de mim era ele. Nunca imaginava que o Natan iria”, contou a mãe. O menino garante que antes de estar com Papa, já desejava ser sacerdote: “Quero ser padre desde os meus sete anos de idade. Depois que eu falei com ele, tive certeza no meu coração. Foi muito emocionante, por isso eu chorei demais. Tocou fundo meu coração”, confessou Nathan de Mello Brito. Segundo a mãe, o nascimento de Nathan foi uma graça alcançada depois de uma promessa: “Tive toxoplasmose. Sonhava engravidar, mas a doença me impedia. Sempre que via uma grávida pedia a Deus que me abençoasse com essa graça. Fiz uma promessa para Nossa Senhora Aparecida e um ano depois eu engravidei do Nathan. Quando ele nasceu, com apenas cinco meses, eu o levei à Basílica de Aparecida, onde fiz a travessia da passarela ajoelhada, com ele no carrinho, para ela o abençoar e pagar minha promessa”, contou Ana. Segundo ela, o nome significa presente de Deus.

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27 DE JULHO - VIGÍLIA

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NOITE FRANCISCANA

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Depois de se encontrar com os frades no Hospital São Francisco de Assis, a Jornada Mundial da Juventude teve mais uma noite franciscana. Diante de três milhões de pessoas, os primeiros passos do Movimento de Assis, liderado por Francisco, foram representados durante a cerimônia, quando os jovens construíram uma igreja e um grupo de frades - entre eles, seis frades da Província da Imaculada: Frei Evaldo Ludwig, Frei Ronaldo Faustino, Frei Claudinei Maciel, Frei Jean Carlos Ajlouni Oliveira, Frei Reinaldo Menezes, Frei Leonidas Inácio Felix e Frei Leandro Costa - saudaram o Papa representando o primeiro grupo que acompanhou São Francisco na reconstrução da igrejinha de São Damião.

“Olhando para vocês presentes aqui hoje, me vem à mente a história de São Francisco de Assis. Diante do Crucifixo, ele escuta a voz de Jesus que lhe diz: ‘Francisco, vai e repara a minha casa’. E o jovem Francisco responde, com prontidão e generosidade, a esta chamada do Senhor: repara a minha casa. Mas qual casa? Aos poucos, ele percebe que não se tratava de ser pedreiro para reparar um edifício feito de pedras, mas de dar a sua contribuição para a vida da Igreja; tratava-se de colocar-se ao serviço da Igreja, amando-a e trabalhando para que transparecesse nela sempre mais a Face de Cristo”, explica o Papa no início de seu discurso. O cantor Luan Santana cantou a Oração de


“Que ninguém fique privado do necessário, e que a todos sejam asseguradas dignidade, fraternidade e solidariedade: esta é a via a seguir”.

ESPECIAL JMJ

PAPA FRANCISCO

deram depoimentos de como a religião mudou a vida deles em algum momento. Um deles contou que largou as drogas graças à Igreja. Outro rapaz comentou as dificuldades que enfrenta morando em uma comunidade pobre do Mato Grosso do Sul. A Vigília só terminou às 10 horas do domingo. Mesmo com o frio e o vento, os jovens dormiram na praia de Copacabana.

São Francisco de Assis. O Pontífice chegou por volta de 18h35 a Copacabana para participar da vigília junto com os jovens que integraram ao longo do dia uma caminhada de 9,5 km da Central do Brasil, no centro da capital, até a praia. E o Papa deixou uma mensagem para marcar a vida dos jovens: “Sejam cristãos autênticos e não cristãos de fachada”, começou. “O verdadeiro Campus Fidei é o coração de cada um de vocês. Somos o campo da fé de Deus. Queridos jovens, o Senhor precisa de vocês. Sigam as notícias do mundo e vejam que muitos jovens saíram para as ruas para ter uma civilização mais justa. São os jovens os protagonistas da mudança. Vocês são o futuro do mundo. Sejam o futuro dele”. Após uma rápida apresentação, vários jovens

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DEPOIMENTOS

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Frei Jean Carlos Oliveira O que posso dizer é que não há como exprimir em palavras o que significou aqueles dias de JMJ. Foram momentos intensos de fé e esperança. Ter a oportunidade de estar tão perto do Papa e escutar suas palavras simples, precisas e necessárias foi uma emoção igualmente indescritível. Espero ter a oportunidade de participar de mais JMJ’s daqui pra frente.

Frei Claudinei Bustamante

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“Quando eu recebi o convite para participar da Vigília, fiquei muito contente e com o coração acelerado por estar perto do nosso pastor universal, o Santo Padre, o Papa Francisco. Dois momentos ficarão para sempre marcados na minha vida e são fundamentais para o estado de vida que me propus abraçar. A homilia do Papa sobre a parábola do semeador, convocando a sermos sementes que germinam amor, generosidade, fraternidade entre os irmãos, e o seu pedido a todos o jovens: “Jovens, sejam missionários na construção de uma nova Igreja”! Depois, ele pediu para todos os jovens presentes repetirem bem alto: “Querem que a Igreja seja restaurada”? Todos os jovens responderam: “Queremos!”, fazendo alusão à reconstrução de São Damião por Francisco. Enfim, guardarei para sempre esse momento que tive com o Papa em minha caminhada, e sempre lembrarei de suas palavras em meu coração”.

Frei Leônidas Inácio Félix “Tive a graça de participar de um momento muito especial durante a JMJ, com a apresentação de 13 franciscanos, dirigida pelo Diretor Artístico Ulisses Cruz. Nós, tonsurados e revestidos com o hábito de Francisco, tentamos trazer presente o início da família franciscana; estive cerca de 5 metros do Papa Francisco, no palco de Copacabana. Senti que a história iniciada por Francisco continua na vida da nossa Igreja. Lembrei que, para restaurar a Igreja de Cristo, é preciso unir as nossas forças, dar as mãos, trabalhar, sofrer, sorrir e cantar ao Deus que nos ama, com seu amor de Pai. Evidentemente que este exercício começa no coração de cada um, quando somos capazes de amar, perdoar e acolher o nosso irmão. E Francisco de Assis nos ensina esta experiência de vida; é o modelo, por excelência, Ele é o primeiro evangelizador. Hoje, esta figura evangélica encontramos na pessoa do Papa Francisco: humilde, com o coração voltado totalmente para Deus. A JMJ certamente renovou a vida de muitos fiéis”.


Frei Evaldo Ludwig Como imaginar a energia de uma multidão com mais de 3 milhões de pessoas? Só subindo no grande palco de Copacabana. É claro que tudo no início tinha como motivação estar perto do Papa Francisco. Todo cansaço, dor nas costas, pernas, fome e até fazer a tonsura se transformaram num forte arrepio com aquele mar de pessoas que estavam no nosso horizonte. Foi mágico e sagrado o conjunto da participação. Outro ponto encantador foi o relacionamento com todas as pessoas que participaram

ESPECIAL JMJ

da vigília, pessoas de diversos lugares e com histórias bonitas. Formamos uma família em torno da amizade, que com muitos jamais vai acabar porque a experiência desse dia é eterna.

Frei Leandro Costa

Frei Ronaldo Faustino

Foi emocionante nossa participação.

“Foi uma experiência singular. Não

Nossa emoção começou na manhã de sábado: enquanto o Papa saia da Catedral do Rio de Janeiro, eram feitas, em nossas cabeças, as tonsuras. Quem cortou nosso cabelo foi um Irmão da Toca de Assis: Irmão Francisco. De algum modo, experimentamos o que os frades de antigamente experimentavam. A tonsura foi um pedido do próprio diretor do “ato artístico”. Nos sujeitamos a isso sem nenhuma reserva. Poxa, a tonsura seria o preço de estar ao lado do Papa Francisco. Contudo, como era quase previsível, as emissoras nos descreveram como sendo da Toca de Assis, o que não me é uma ofensa! Este estereótipo é correspondente ao seguimento deles. A confusão é justa. Estar frente a frente com o Papa foi estar mais perto de toda a positividade que ele nos transmite. Olhei bem no seu rosto num momento da encenação, e pude ter certeza da paz que ele nos transmite. Do palco, percebíamos o silêncio que este homem causava. Muita gente atenta a cada palavra. Simplesmente incrível. Estar encenando diante da multidão, ainda mais falando em gestos de nosso Pai Seráfico, foi magnífico. O franciscanismo tomou conta das reflexões de todos naquela noite. Foi um privilégio para cada um de nós.

imaginávamos poder nos aproximar tanto assim do Papa. Estar no palco e vendo aquela multidão gritando a uma só voz foi algo incrível, inesquecível. Os maiores ensaios foram todos malogrados por causa da chuva, inclusive no Campus Fidei, perdemos até mesmo peças importantes para a apresentação. Chegamos a pensar que a apresentação não sairia, pois tudo caminhava contra nossas expectativas. No final, tudo deu certo, a chuva parou, o sol brilhou e conseguimos realizar com sucesso a encenação. Muito nos alegrou como a figura de São Francisco é forte na vida dos jovens. Infelizmente, ainda é um Francisco apresentado sem a sua total profundidade. Apesar da labuta dos ensaios, e de termos mostrado um Francisco que não queríamos tanto, porém o nosso Chiquinho ultrapassa todas as barreiras e somos gratos pela oportunidade. A figura do Papa é uma figura muito carismática de que a Igreja carecia há tempo. Um líder que deixa uma clareza de Jesus Cristo, simples, humano e de um amor pela Igreja autêntica. Quiçá, a partir desse grande encontro, possam surgir mais operários comprometidos com o anúncio do Evangelho”.

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ESPECIAL JMJ ENCONTRO COM OS RELIGIOSOS O Papa Francisco celebrou uma Missa fechada na manhã do sábado, 27, para cerca de 700 bispos, 3.200 padres e diáconos, 400 religiosas e 500 seminaristas. Em sua homilia, o Santo Padre destacou três aspectos essenciais para a vivência da vocação de pastorear

De acordo com o Pontífice, os sacerdotes e religiosos precisam sempre renovar o primeiro amor. A vocação também, segundo ele, exige um sair de si e colocar-se a serviço do outro, especialmente os de longe, os que não costumam ir à Missa. “Esses são convidados

o rebanho de Cristo: chamados por Deus, chamados a anunciar o evangelho e chamados a promover a cultura do encontro.

VIP”, disse. E ainda, é preciso que tenham a coragem de ir contra ao que ele chamou de cultura eficientista e do descarte.

ENCONTRO COM DIRIGENTES DA SOCIEDADE CIVIL

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No encontro com membros da Sociedade Civil no Teatro Municipal na manhã do sábado, 27, o Papa Francisco estimulou o diálogo construtivo. Estiveram presentes representantes de diversos setores, como líderes políticos, intelectuais, diplomatas, autoridades militares e artistas. O evento foi um dos atos especiais da Jornada Mundial da Juventude (JMJ Rio2013). O Sumo Pontífice recebeu no palco duas etnias indígenas, um representante do candomblé, um pastor presbiteriano, um representante islâmico, seis embaixadores representando as diferentes regiões do mundo, uma médica cardiologista e uma deficiente visual. Depois, o público ficou encantado com a surpresa que se seguiu: várias crianças, de diferentes idades, cercaram o Papa, que as abraçou e abençoou. E ele surpreendeu mais uma vez. Francisco colocou o cocar de um dos

índios Carajás que o cumprimentou e acenou para a plateia, fazendo todos rirem automaticamente. Um desses índios foi Adriano Carajá, que conta como foi importante o momento. O jovem Walmyr Júnior, da Pastoral da Juventude, foi chamado a dar seu testemunho de vida e, ao mesmo tempo, representar tantos que não tiveram a oportunidade de estar ali como ele. Órfão de pai e mãe, ex-usuário de drogas e morador do Complexo da Maré, Júnior falou aos presentes como foi sua experiência de superação e como decidiu doar sua vida à Igreja. Duas horas depois, no refeitório do Centro de Estudos do Sumaré, o Santo Padre almoçou com os cardeais brasileiros, representantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a comitiva que o acompanha.


ESPECIAL JMJ

MULTIDÃO DE

3,7 MILHÕES

NA MISSA DO ENVIO

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ESPECIAL JMJ

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Evangelizar sem medo foi a missão que o Papa Francisco destinou a todos os jovens durante a homilia da Missa de Envio da Jornada Mundial da Juventude no domingo, 28. “Não tenham medo de ser generosos com Cristo, de testemunhar o seu Evangelho, a sua fé”, disse. Uma multidão de 3,7 milhões de pessoas tomou conta da Praia de Copacabana desde o início da Vigília no sábado. Segundo o Pontífice, O Senhor convida os jovens a serem discípulos em missão! “Ide, sem medo, para servir”, ensinou. “Sabem qual é o melhor instrumento para evangelizar os jovens? Outro jovem! Este é o caminho a ser percorrido por vocês!”, acrescentou. Papa Francisco disse ainda que o Senhor envia os jovens às outras pessoas para que possam levar o Cristo a todos, inclusive aos que parecem mais distantes e mais indiferentes. “O Senhor procura a todos, quer que todos sintam o calor da sua misericórdia e do seu amor”, explicou. É necessário ainda não ter medo de anunciar o Evangelho. Papa Francisco lembrou que o profeta Jeremias também teve medo, mas Deus o fortaleceu. “Não tenham medo! Quando vamos anunciar Cristo,

Ele mesmo vai à nossa frente e nos guia. Ao enviar os seus discípulos em missão, Jesus prometeu: ‘Eu estou com vocês todos os dias’”. “Jesus não nos trata como escravos, mas como homens livres, amigos, como irmãos; e não somente nos envia, mas nos acompanha, está sempre junto de nós nesta missão de amor”, disse em outro trecho da homilia. O Papa Francisco disse ainda que, para servir, é necessário cantar ao Senhor Deus um canto novo. “Qual é este canto novo? Não são palavras, nem uma melodia, mas é o canto da nossa vida, é deixar que a nossa vida se identifique com a vida de Jesus, é ter os seus sentimentos, os seus pensamentos, as suas ações. E a vida de Jesus é uma vida para os demais. É uma vida de serviço”, ressaltou. O Santo Padre pediu pela Igreja da América Latina para que nela anúncio ressoe com uma força renovada. O arcebispo do Rio de Janeiro, D. Orani Tempesta, agradeceu a presença do Santo Padre na JMJ Rio2013 e destacou que os ensinamentos do Papa Francisco ficarão nos corações de todos. “Temos certeza de que os peregrinos que para cá vieram foram


tomou chimarrão. Sempre entre sorrisos, ele acolheu aos que lhe davam demonstrações de carinho. A presidente Dilma Rousseff se encontrou com papa Francisco após Missa de Envio: o Pontífice agradeceu “pelo acolhimento generoso” e pela disposição em fazer com que a primeira visita dele ao país fosse tranquila.

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COM OS BISPOS DO CELAM O bispo seja um pastor próximo do povo, não seja prepotente nem tenha a psicologia de príncipe, mas ame a pobreza exterior e interior: foi a exortação do Papa Francisco feita na tarde de domingo, no Rio de Janeiro, ao Comitê de Coordenação do CELAM, o Conselho Episcopal Latino-Americano. O Santo Padre fez votos de uma “revolução da ternura” na Igreja. Renovação interna da Igreja e diálogo com o mundo atual. São os dois “desafios” que a Missão

confirmados e aprofundaram sua fé no encontro com Jesus Cristo, e retornam empenhados a serem evangelizadores de outros jovens e da sociedade”, ressaltou. Durante o percurso até o palco de Copacabana, o Papa Francisco beijou crianças, recebeu diversos presentes, como terços, camisas e bonés, e ainda

Continental na América Latina e Caribe é chamada a acolher. O Pontífice os indicou ao referido Comitê do Celam com o olhar voltado para a Conferência de Aparecida, inaugurada em maio de 2007 por Bento XVI. A premissa para uma renovação interna da Igreja é a conversão dos pastores, âmbito no qual, ressaltou o Santo Padre, “estamos um pouco atrasados”: “Esta conversão implica crer na Boa Nova, crer em Jesus Cristo portador do Reino de Deus, na sua irrupção no mundo, na sua presença vitoriosa sobre o mal, crer na assistência e guia do Espírito Santo, crer na Igreja, corpo de Cristo e prolongadora do dinamismo da Encarnação.” O Papa sugere aos pastores um exame de cons-

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ciência, pede-lhes que sejam não simples administradores, que conduzam uma “pastoral da misericórdia” voltada a recuperar quem se distanciou, que envolvam os fiéis leigos superando toda e qualquer tentação de manipulação ou indevida submissão. Dialogar com o mundo atual – segundo desafio para a Missão Continental – significa, segundo Francisco, ouvir as perguntas existenciais do homem de hoje, conhecer a sua linguagem, fazer uma “fecunda mudança” com a ajuda do Evangelho, do Magistério e da Doutrina Social da Igreja. “Os cenários e os areópagos são os mais variados. Numa mesma

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cidade existem vários imaginários coletivos que configuram ‘cidades diferentes’”, explicou o Pontífice: “Se permanecermos somente nos parâmetros da ‘cultura de sempre’, na realidade uma cultura de base rural, o resultado será a anulação da força do Espírito Santo. Deus está em todas as partes: é preciso saber descobri-lo para poder anunciá-lo no idioma de cada cultura; e em toda realidade, toda língua, há um ritmo diferente.” Ademais, o Papa Francisco sugere “lucidez e astúcia evangélica” diante de algumas tentações às quais a missionariedade é submetida.


ESPECIAL JMJ

COM OS VOLUNTÁRIOS Antes de regressar a Roma, o Papa Francisco encontrou-se, no final da tarde do domingo com os voluntários da Jornada para agradecer-lhes “pelo trabalho e dedicação” com que acompanharam, ajudaram e serviram aos milhares de jovens peregrinos presentes no Rio de Janeiro naquela semana. “Com os sorrisos de cada um de vocês, com a gentileza, com a disponibilidade ao serviço, vocês provaram que ‘há maior alegria em dar do que em receber’”, destacou o Pontífice. Francisco disse que o trabalho realizado pelos jovens voluntários lembrou-o da missão de São João Batista, que preparou o caminho para Jesus. “Cada

“PARTO COM SAUDADES” O Papa Francisco despediu-se do Brasil na noite do domingo, às 19h21, após discursar na Base Aérea do Galeão, Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro. “Parto com a alma cheia de recordações felizes”, disse. Ele cumpriu uma intensa agenda de eventos e pediu empenho na renovação da Igreja. O motivo principal da visita foi a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), que chegou a reunir 3,7 milhões em Copacabana, segundo a organização. E foi em um dos eventos na praia que o Papa anunciou que a próxima JMJ será em 2016, em Cracóvia, na Polônia. No discurso de despedida, o Papa disse que já está com saudades, agradeceu aos voluntários e lem-

um, a seu modo, foi um instrumento para que milhares de jovens tivessem o ‘caminho preparado’ para encontrar Jesus. E esse é o serviço mais bonito que podemos realizar como discípulos missionários: preparar o caminho para que todos possam conhecer, encontrar e amar o Senhor”. O Santo Padre pediu ainda aos jovens que sejam sempre generosos com Deus e com os demais, pois “não se perde nada”, pelo contrário, é grande “a riqueza da vida que se recebe”. E concluiu pedindo aos jovens que não se esqueçam de nada do que viveram naqueles dias de jornada e pediu as suas orações. “Podem contar sempre com minhas orações, e sei que posso contar com as orações de vocês”.

brou de locais que visitou durante a estada no país. Antes, rumo ao Galeão, fez um sinal de coração com as mãos aos fiéis. “Parto com a alma cheia de recordações felizes. Essas, estou certo, se tornarão oração. Neste momento, já começo a sentir saudades. Saudades do Brasil, deste povo tão grande e de grande coração, deste povo tão amoroso”, agradeceu Francisco. O vice-presidente da República, Michel Temer, afirmou que o Papa “não encantou apenas os jovens”. “Voltou a despertar a fé em todos os brasileiros”, disse. “Um verdadeiro evangelizador, como Cristo. (...) Quando voltar ao Brasil, ao que me parece, em 2017, não precisará bater nas portas, porque elas estão permanentemente abertas.”

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ATÉ

2017

EM APARECIDA

Esse argentino Apareceu ao povo o Papa: Feliz, Simples, humilde a todos surpreendendo, Lembrando o pobre, São Francisco de Assis, Como a apontar, esperança, e prometendo... Como a sonhar, do pobre ao pobre, uma Igreja, Sair de Roma, pra levar para o mundo A mensagem que Jesus nos deu, deseja Que lei se torne pra um coração profundo!... Esse argentino vai virar nossa Igreja, Na direção do Povo Santo na rua, E que assim seja sempre, sim, que ela seja Uma Igreja pobre e para o pobre, louvor!... Fora de Roma e pelo mundo a pregar O que Jesus deixou: - Um Reino de amor. FREI WALTER HUGO DE ALMEIDA

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