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Edição especial | Janeiro 2017

Dom Paulo Evaristo Arns *14/09/1921

+14/12/2016


Mensagem do Ministro Geral

“Temos mais este irmão para interceder por nós” Caro Frei Fidêncio Vanboemmel, ofm Ministro Provincial Província da Imaculada Conceição do Brasil

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com grande pesar que soube da morte do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns neste dia 14 de dezembro de 2016. Ao mesmo tempo, confiante em sua presença com Deus, quero expressar a minha profunda gratidão a Deus por este irmão que dedicou sua vida à Ordem Franciscana e à Igreja, especialmente à Igreja particular de São Paulo.

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Dom Paulo Evaristo Arns | Especial

Acredito que o Cardeal Arns nos ensinou muito com a sua vida, seus atos e seu pensamento publicado. Ele viveu uma eclesiologia nascida do Evangelho na situação concreta do povo de Deus que lutava pela sobrevivência com dignidade. Em sua obra Da Esperança à Utopia, ele expressa com clareza sua preocupação com as pessoas mais pobres da sociedade: “Nossa preocupação não é a sorte dos teólogos e sim das imensas massas de famintos e injustiçados”; e também: “A Igreja dos pobres nasce no meio de suas lutas de libertação e são estas que vão fazer surgir uma nova prática de Igreja naquele meio”.


sumário

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O Cardeal Arns antecipou aquilo em que o Papa Francisco vem insistindo. Ainda em sua obra “Da Esperança à Utopia”, o Cardeal escreveu: “A Igreja não pode permanecer confinada nos seus edifícios, nem tampouco na linguagem hermética de sua teologia oficial. Deve falar de forma a ser compreendida. É preciso que ela anuncie a essas centenas de milhares algo que lhes diga respeito, que ilumine a sua vida, que seja uma esperança como foi a passagem de Jesus entre eles”. Quero também expressar a gratidão da Ordem à Província da Imaculada Conceição por tão grande dedicação pela vida franciscana e pela evangelização numa grande área geográfica e demográfica do Brasil. Dom Paulo é fruto também desta dedicação e viveu em um período de especial contribuição da Província para com a Igreja e a Ordem, inclusive com o futuro Ministro Geral. De agora em diante sabemos que temos mais este irmão para interceder por nós, que continuamos no esforço de vivermos autenticamente o Evangelho como São Francisco de Assis, em uma “Igreja pobre para os pobres”. “Louvado sejas, meu Senhor, por nossa Irmã a Morte corporal, da qual nenhum homem vivo pode escapar … Felizes os que ela achar conforme à vossa santíssíma vontade, porque a morte segunda não lhes fará mal!” “Obrigado. Dom Paulo”! Deus continue abençoando todos os confrades desta Província! Frei Michael A. Perry, OFM Ministro Geral e Servo Roma, 14 de dezembro de 2016.

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Morre o Cardeal da Esperança Dom Angélico: “Dom Paulo vive. Seu endereço é o coração de Deus!” O emocionante adeus dos Franciscanos a Dom Paulo Homilia de Frei Fidêncio Vanboemmel Sepultamento: “Viva Dom Paulo!” “Adeus, Dom Paulo! Esperança sempre!”, editorial “O São Paulo” “Dom Paulo, apóstolo da Justiça e da Paz”, texto de D. Mauro Morelli Repercussão no Brasil e no Mundo “O último Quixote do Pacto das Catacumbas”, texto de Juan Arias “O franciscano destemido”, texto de Mino Carta “O homem que não conheceu o medo”, texto de Frei Betto “Cardeal Arns, confrade, amigo dos pobres e meu amigo”, texto de Leonardo Boff “Cardeal-profeta do Brasil”, texto de Mauro Lopes História: formação e atividades Em breve, Dom Paulo nos cinemas

Revista “Comunicações” - Especial Dom Paulo Evaristo Arns Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil Rua Borges Lagoa, 1209 - 04038-033 CEP 04089-970 | São Paulo - SP www.franciscanos.org.br | comunicacao@franciscanos.org.br Frei Fidêncio Vanboemmel, Ministro Provincial Frei César Külkamp, Vigário Provincial Frei Walter de Carvalho Júnior, secretário Érika Augusto e Moacir Beggo (texto e fotos) Jovenal Pereira (diagramação) Luciney Martins/“O São Paulo” (fotos)


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Dom Paulo Evaristo Arns | Especial


Especial

MORRE O CARDEAL DA ESPERANÇA

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ímbolo da resistência à ditadura, conhecido defensor dos pobres e dos direitos humanos, o franciscano Dom Paulo Cardeal Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo, morreu na quarta-feira, 14 de dezembro de 2016 (Festa de São João da Cruz), aos 95 anos. Internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Santa Catarina desde o dia 28 de novembro com um quadro de broncopneumonia, seu estado de saúde se agravou no dia 12 de dezembro, vindo a falecer dois dias depois, às 11h45, em decorrência de falência múltipla dos órgãos. “Comunico, com imenso pesar, que no dia 14 de dezembro de 2016, às 11h45, o Cardeal Paulo Evaristo Arns, Arcebispo Emérito de São Paulo, entregou sua vida a Deus, depois de tê-la dedicado generosamente aos irmãos neste mundo”, informou o Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, em nota divulgada às 13 horas. “Louvemos e agradeçamos ao “Altíssimo, onipotente e bom Senhor” pelos 95 anos de vida de Dom Paulo,

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seus 76 anos de consagração religiosa, 71 anos de sacerdócio ministerial, 50 de episcopado e 43 anos de cardinalato. Glorifiquemos a Deus pelos dons concedidos a Dom Paulo, e que ele soube partilhar com os irmãos. Louvemos a Deus pelo testemunho de vida franciscana de Dom Paulo e pelo seu engajamento corajoso na defesa da dignidade humana e dos direitos inalienáveis de cada pessoa. Agradeçamos a Deus por seu exemplo de Pastor zeloso do povo de Deus e por sua atenção especial aos pequenos, pobres e aflitos. Dom Paulo, agora, se alegre no céu e obtenha o fruto da sua esperança junto de Deus!”, acrescentou D. Odilo, convidando a todos a elevarem preces de louvor e gratidão a Deus e de sufrágio em favor do falecido Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns e também a participarem do velório e dos ritos fúnebres na Catedral Metropolitana de São Paulo. O arcebispo esteve internado no mesmo hospital em 2011, para tratar de uma infecção pulmonar decorrente de cirurgia para extração da vesícula. Mas se recuperou bem e surpreendia a todos pela sua disposição e serenidade, principalmente quando fez aparições em eventos celebrativos, como no último dia 27 de novembro, em que participou de uma missa na Catedral da Sé em comemoração aos seus 71 anos de ordenação presbiteral, já que foi ordenado presbítero em 30 de novembro de 1945, em Petrópolis (RJ). Ainda neste ano, celebrou outro jubileu no dia 2 de julho na Catedral da Sé: 50 anos de sua Ordenação Episcopal completados no dia 3 de julho. O Papa Francisco recebeu a notícia da morte do “venerado irmão Cardeal Paulo Evaristo Arns” com grande pesar e enviou um telegrama ao Cardeal-arcebispo de São Paulo, Dom

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MENSAGEM DO MINISTRO PROVINCIAL

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om muito pesar, a Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil recebeu a notícia da Páscoa derradeira do nosso querido Confrade e Bispo, Dom Paulo Evaristo, Cardeal Arns. Sem dúvida, uma grande perda, pois viveu intensamente a sua vida e missão franciscana em plenitude. “Amado por Deus e pelos homens”, hoje foi recebido na mansão radiante do céu porque em vida lutou como profeta em favor dos direitos de toda a criatura humana, especialmente das pessoas mais fragilizadas e oprimidas. Dom Paulo mesmo dividiu a história de sua vida em três partes: a família, a vida franciscana e a vida episcopal a serviço da Igreja. Hoje, como Ministro Provincial e em nome desta Província, louvo e agradeço a Deus pelo seu testemunho franciscano que determinou a trajetória de toda a sua vida. O seu testemunho iluminou e encorajou não só a nós, seus confrades, mas a vida religiosa e a vida dos cristãos, especialmente na América Latina, onde foi uma liderança ímpar, principalmente nas assembleias de Puebla e Medellín, da Conferência Episcopal Latino-americana. E o que dizer dos tempos da ditadura militar, quando se fez voz dos sem voz? O nosso irmão Dom Paulo passou para a Casa do Senhor, alegremo-nos por ele, que alimentou na fé seu lema episcopal: “De esperança em Esperança”. Que da eternidade, Dom Paulo interceda pela nossa Igreja para que ela continue a ser a Igreja profética do Concílio Vaticano II e a sonhada Igreja do Papa Francisco, devotada às grandes causas sociais e humanitárias. Que Dom Paulo, o incansável homem da esperança, ore pela nossa Pátria que neste momento vive uma profunda crise institucional, carente de ética e de cuidados para com os mais pobres, os doentes, os sedentos de justiça e paz. Louvado sejas meu Senhor, pela Irmã Morte, que na manhã deste dia 14 visitou e libertou Dom Paulo da fragilidade do seu corpo, para viver a plenitude da liberdade dos filhos de Deus. FREI FIDÊNCIO VANBOEMMEL

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Ministro Provincial Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil


Odilo Scherer, na manhã da quinta-feira (15/12). O Pontífice expressou a todo o clero, comunidades religiosas e fiéis da Arquidiocese de São Paulo, bem como à família do falecido, os seus pêsames pelo desaparecimento desse intrépido pastor que no seu ministério eclesial se revelou autêntica testemunha do Evangelho no meio do seu povo, a todos apontando a senda da verdade na caridade e do serviço à comunidade, em permanente atenção pelos mais desfavorecidos. “Dou graças ao Senhor por ter dado à Igreja tão generoso pastor e elevo fervorosas preces para que Deus acolha na sua felicidade eterna este seu servo bom e fiel enquanto envio a essa comunidade arquidiocesana que chora a perda do seu amado pastor e à Igreja do Brasil, que nele teve um seguro ponto de referência e a quantos partilham esta hora de tristeza que anuncia a ressurreição, uma confortadora bênção apostólica”. Quinto dos 14 filhos que Gabriel Arns e Helena Steiner tiveram, Paulo Evaristo nasceu em 14 de

setembro de 1921 na pequena Forquilhinha, na região de Criciúma, antiga colônia de imigrantes alemães em Santa Catarina. A exemplo do irmão mais velho, Frei Crisóstomo, Paulo Evaristo ingressou no seminário desta Província Franciscana da Imaculada Conceição para ser franciscano, vocação que o pai agricultor apoiou com entusiasmo, embora tentasse adiar a matrícula o mais possível, só porque as despesas do internato pesavam no orçamento. Das sete irmãs moças, três optariam pelo convento. “Paulo, nunca se envergonhe de dizer que você é filho de colono”, pediu Gabriel Arns. Muito de-

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pois, quando concluía os estudos na Sorbonne com uma tese sobre a técnica do livro segundo São Jerônimo, o frade mandou um telegrama para Forquilhinha. “O filho do colono é doutor pela Universidade de Paris e não se esqueceu da recomendação do pai”. Viveu sua vida religiosa franciscana e sacerdotal

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fiel ao lema sacerdotal “Ex Spe in Spem” (De Esperança em Esperança). Na sua trajetória de vida, semeou a esperança aos mais fracos, injustiçados, necessitados e pobres, fazendo jus ao título “Cardeal da Esperança”. Formado em Teologia e Filosofia nos Institutos Franciscanos desta Província, na década de 40, e em


Letras na França, no início da década de 50, Dom Paulo escreveu 56 livros e recebeu 24 títulos honoris causa em universidades do mundo todo. Nos anos 60, exerceu o ministério sacerdotal em Petrópolis (RJ). Ele se tornou bispo em 2 de maio de 1966, aos 44 anos, e foi nomeado arcebispo pelo papa Paulo VI em 22 de outubro de 1970. Exerceu o cargo até 1998, quando completou 75 anos. Foi substituído pelo arcebispo Dom Cláudio Hummes e se tornou Arcebispo Emérito de São Paulo. Era o mais antigo de todos os membros do Colégio Cardinalício. Como cardeal eleitor, participou de dois conclaves, os de agosto e de outubro de 1978, que

escolheram os papas João Paulo I e João Paulo II, a quem recepcionou em São Paulo em 1980. Seu corpo foi velado na Catedral da Sé, onde aconteceram Missas a cada duas horas. Em dois dias de velório, o povo fez filas para se despedir de Dom Paulo e participar de uma das 23 missas de corpo presente, enchendo sempre a Catedral. No intervalo entre as celebrações, o público pôde se aproximar do corpo de Dom Paulo, que foi sepultado na cripta da catedral, localizada no subsolo, onde estão sepultados 11 bispos, dois arcebispos, o cacique Tibiriçá, que foi catequizado por jesuítas, além do regente Feijó e o padre Bartholomeu de Gusmão, que ficou conhecido pela invenção dos balões. Dom Paulo é o terceiro arcebispo e o primeiro cardeal a ser sepultado no local. Dom José Gaspar, em 1943, foi o último arcebispo sepultado ali.

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Dom Angélico:

“D. PAULO VIVE. SEU ENDEREÇO É O CORAÇÃO DE DEUS!”

Dom Angélico abraça uma mulher que chorava diante do corpo de Dom Paulo.

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esde a notícia do falecimento de Dom Paulo Evaristo Arns, no final da manhã da quarta-feira (14), a Catedral da Sé tornouse ponto de referência para bispos, religiosas, religiosos, líderes de movimentos sociais e pastorais e a imprensa. O corpo chegou por volta das 19h30, e logo em seguida Dom Odilo Pedro Scherer, Cardeal da Arquidiocese de São Paulo, presidiu uma celebração de corpo presente. Logo nas primeiras horas da manhã da quintafeira (15), o movimento era intenso na Catedral. Idosos, adultos engravatados, jovens, gente de todas as idades, crenças e classes sociais dividiam espaço no corredor central da majestosa Catedral, a fim de prestar sua última homenagem ao cardeal do povo, Dom Paulo Evaristo Arns. Foi o caso de Rezende Avelar, professor e doutor em Sociologia, que reside em Goiás. Ele estava de passagem pela capital paulista quando soube da morte de Dom Paulo, e veio à Catedral para se despedir do Arcebispo emérito. Rezende recordou a luta pela democracia e o serviço aos pobres como

características marcantes de Dom Paulo. “Dom Paulo foi muito significativo para a minha geração, pós-ditadura, e também todos nós que trabalhamos no final dos anos 80 e 90, com a Pastoral da Juventude”, afirmou. Ele ressaltou também a importância do livro Brasil nunca mais, que denunciava os crimes da ditadura militar, como um material de pesquisa e consulta, que deveria ser retomado sempre, para inspirar e resgatar a memória do povo brasileiro. “Dom Paulo, como um franciscano, fiel filho de São Francisco, foi de uma simplicidade e de um compromisso muito grandes com os pobres e isso marcou todo o período em que ele esteve à frente da Arquidiocese de São Paulo, sobretudo quando a Arquidiocese foi dividida, a pedido do Vaticano e ele, de forma muito humilde, acolheu o desejo do Papa e viu todas as mudanças acontecerem sem criar divisões, mas continuou unido à Igreja como um todo e sempre defensor do povo e do povo pobre”, disse o professor. A missa das 10 horas foi presidida por Dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo emérito da Dioce-

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se de Blumenau (SC), que foi sagrado bispo pelas mãos de Dom Paulo Evaristo Arns em 1975 e foi, por 23 anos, bispo auxiliar na Arquidiocese de São Paulo. Dom Angélico, sempre carismático, fez sua homilia próximo ao povo que lotava a Catedral, e ao lado do caixão de Dom Paulo. Logo no início, Dom Angélico afirmou: “Quero lhes dar uma notícia que pode parecer mentira, mas é verdadeira. Dom Paulo Evaristo, cardeal Arns, não está morto, está vivo, e o seu endereço agora é o coração de Deus, na eternidade, onde está nos abençoando”, e seguiu-se uma calorosa salva de palmas. Dom Angélico recordou o dia de sua ordena-

afirmou que as leituras do dia pareciam escolhidas providencialmente para este momento. “O que nos diz Deus na primeira leitura de hoje: Alegrem-se! Pois Dom Paulo, neste momento, lá do céu, os restos mortais dele aqui, está dizendo para todos nós: alegrem-se. Alegremo-nos, demos graças a Deus por esse profeta, esse pastor, que entregou a vida de modo incessante pela causa do Reino”, exortou Dom Angélico. E falou sobre o Evangelho do dia (Lc 7, 24-30), que fala da missão de João Batista, denunciando os abusos em seu tempo. A pergunta de Jesus às multidões: “O que vocês foram ver no deserto?”, foi também a pergunta do

ção episcopal, quando ele, Dom Francisco Manuel Vieira, Dom Joel Ivo Catapan e Dom Mauro Morelli foram ordenados bispos pelas mãos de Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Benedito de Ulhôa Vieira e Dom José Thurler, em 25 de janeiro de 1975 nesta mesma Catedral. “Durante 23 anos eu tive a alegria de participar daquilo que nós chamávamos de Colégio Episcopal de São Paulo, os bispos auxiliares unidos ao nosso Arcebispo Dom Paulo, num grande mutirão, congregando os padres, religiosas, religiosos, leigos e leigas, na evangelização da metrópole; tempos abençoados!”, recordou o bispo. Falando sobre a liturgia do dia, Dom Angélico

bispo emérito aos que estavam presentes na Catedral da Sé. “O nós estamos vendo?”, e recordou que o país todo e várias partes do mundo estão voltadas para a vida e o testemunho do Cardeal da Esperança. “Dom Paulo, simples, bondoso, cheio de mansidão, misturado com o seu povo, num amor de devotação, pobre, discípulo de Francisco de Assis, no palácio Arquiepiscopal ele disse: “Não é aqui o meu lugar”, e pôs à venda o palácio, e o dinheiro destinou para a compra de terrenos para centros comunitários na periferia da grande metrópole”, recordou. Dom Angélico falou ainda do trabalho em con-

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junto de Dom Paulo, sempre movimentando a Arquidiocese, relembrou as grandes assembleias diocesanas e a implementação das prioridades para a Igreja na cidade de São Paulo: Pastorais Sociais, Pastoral das Comunidades Eclesiais de Base, Pastoral Operária, Pastoral dos Direitos Humanos, Pastoral da Criança, entre outras. O bispo relembrou ainda a ação de Dom Paulo diante do golpe militar de 1964. “Eu estava aqui nesta Catedral, quando numa memorável celebração inter-religiosa, o corpo do nosso irmão Herzog adentrou aqui nesta Catedral. Da Consolação, por trabalhadores da Pastoral Operária e gente de toda

Antônio Carlos Cadão e Emil Barbour

a cidade, nós trouxemos o corpo de Santo Dias para esta Catedral, dizendo e proclamando, Santo, você continua vivo, porque foi um profeta, um profeta que se colocou a serviço”, afirmou. “Homem voltado para a justiça, apaixonado pela causa do Reino, entregou sua vida à libertação do seu povo, um legado maravilhoso”, acrescentou, e disse ainda ser testemunha da intensa vida de oração e contemplação de Dom Paulo. “Desta união com a Trindade Santa é que ele tirava energia e força para ir avante, não curvando a cabeça diante de poderosos, acolhendo humildes e moradores de rua, fazendo da Catedral a grande tribuna na defesa dos trabalhadores, dos sem-terra,

dos que são abandonados na questão da saúde e da educação, setores que correm perigo nos dias que atravessamos. Dom Paulo Evaristo vivo nos dá o seu legado, continuemos unidos em intensa participação, entregando nossa vida à causa do Reino de Deus”, concluiu. O legado deixado pelo Cardeal Arns ultrapassa as barreiras eclesiais. A prova disso era a presença de diversas pessoas de outras denominações religiosas, e até mesmo sem nenhuma crença, em suas exéquias. Aos 86 anos, Emil Barbour, dentista e poeta, esteve presente na Catedral da Sé para se despedir de Dom Paulo. Ateu, conheceu o cardeal no ato inter-religioso que denunciou a morte do jornalista Vladimir Herzog. “Eu me lembro que o exército cercou a Praça da Sé e eles filmavam do alto dos prédios as pessoas que entravam e saíam aqui da Catedral e foi uma cerimônia muito bonita, e a gente sentiu um respeito muito grande por ele, que foi um símbolo da luta pelos direitos humanos, contra a tortura e a ditadura militar”. Enfermeiro de profissão, Antônio Carlos Cadão, cristão protestante e ex-seminarista, também estava na fila para prestar a última homenagem ao cardeal emérito. “Conheci Dom Evaristo na época do seminário, através da mídia e também por causa de sua irmã, Zilda Arns, por causa da área da saúde”. Antônio afirmou que é a primeira vez que participa de uma homenagem póstuma a uma personalidade, mas por admirar a vida e as ações de Dom Paulo, fez questão de participar. “Este homem cumpriu seu sacerdócio com toda integridade, com toda beleza e com tudo aquilo que Jesus fazia, que era cuidar dos direitos humanos e das pessoas”, concluiu.

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O emocionante adeus dos Franciscanos a Dom Paulo

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Família Franciscana se reuniu na manhã da sexta-feira (16/12), às 10 horas, para prestar a última homenagem a Dom Paulo Evaristo Arns e, como destacou o Ministro Provincial, Frei Fidêncio Vanboemmel, “celebrar, no espírito de São Francisco de Assis, a visita da Irmã Morte e o mistério pascal deste nosso querido confrade e pastor”. Frei Fidêncio presidiu a celebração e teve como concelebrantes o Arcebispo de Porto Alegre e seu confrade, Dom Jaime Spengler, e o arcebispo de Ribeirão Preto, Dom Moacir Silva. Entre os religiosos presentes, o Ministro Provincial dos Frades Menores Capuchinhos, Frei Carlos Silva, e do Ministro Provincial dos Frades Menores Conventuais, Frei Gílson Nunes. A Ação de Graças dos Franciscanos aconteceu cinco horas antes do sepultamento, previsto para após a Missa das 15 horas. A celebração foi simples, mas emocionante e fraternal como se esperava dos seus confrades e da Família Francis-

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cana. Frei Fidêncio, na sua homilia lembrou que Dom Paulo rezava e repetia com muita frequência o “Cântico das Criaturas”, o hino que o próprio São Francisco pediu que os frades cantassem no momento de sua morte. No final da celebração, o Ministro Provincial repetiu o gesto e chamou todos os frades para perto do corpo de Dom Paulo. Pediu que cantassem este hino enquanto fez a encomendação do corpo. Foi difícil segurar as lágrimas neste momento! Tendo presente este hino de São Francisco, Frei Fidêncio disse que a atitude, enquanto franciscanos/as, religiosos/as e povo de Deus, neste dia em que sepultamos o corpo de Dom Paulo, deve ser a da gratidão ao “Altíssimo, Onipotente e Bom Senhor”. “Louvado sejas, meu Senhor, pela vida de Dom Paulo. Louvado sejas, meu Senhor, porque cumulaste este teu servo Dom Paulo com tantas virtudes. Virtudes enaltecidas por multidões de pessoas que aprenderam, no ouvir e ver, a amar e a


admirar este homem de Deus. Louvado sejas, meu Senhor, porque nos deste este confrade. Como São Francisco de Assis, também nós, seus Confrades, agradecemos e nos alegramos no Altíssimo e Bom Senhor porque Ele enriqueceu-nos com este “homem de tanto valor, … o companheiro tão necessário e o amigo tão fiel” (1Cel 24)”, rezou o Provincial. Frei Fidêncio explicou que Dom Paulo teve uma “passagem curta”, mas muito significativa, pela Província da Imaculada Conceição até ser nomeado bispo-auxiliar da Arquidiocese de São Paulo. Nesses 50 anos como bispo, contudo, nunca dei-

xou de visitar o Convento São Francisco, no Centro de São Paulo. “Os Frades que viveram no Convento São Francisco, nos seus 50 anos de Bispo, são testemunhas desta alma franciscana que em vários momentos significativos continuava a valorizar a fraternidade como um dos pilares do carisma de São Francisco de Assis”. O Ministro Provincial explicou que a certeza que alimentou e levou São Francisco a acolher a morte como amiga e irmã, é a proclamação desta verdade: “Felizes os que ela encontrar conformes à tua santíssima vontade”. “Creio que todas as pessoas que acompanharam Dom Paulo, certamente hoje compreendem a tamanha entrega que ele fez de si a tudo o que foi valoroso e significativo na vida dele: a família, a vida religiosa franciscana e o seu pastoreio como bispo, cuidador do povo a ele confiado, para que todas as pessoas fossem respeitadas a partir da dignidade como direito inalienável. E foi assim que a irmã Morte encontrou Dom Paulo: vivendo em conformidade à santíssima vontade, segurando na mão sua cruz peitoral para nos dizer que a ‘Perfeita Alegria’, isto é, a glória maior da vida cristã está na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”, explicou o Ministro Provincial dos Frades Menores da Imaculada. Participaram da Missa familiares de Dom Evaristo, que ressaltaram o toque franciscano da celebração.

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Frei Gilson Nunes, Provincial dos Conventuais, leu a mensagem do presidente da Conferência da Família Franciscana, Frei Ederson Queiroz, OFMCap: “A Conferência da Família Franciscana do Brasil (CFF), unida à Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil e à Arquidiocese de São Paulo, canta os louvores do Senhor pela irmã morte. A irmã morte corporal que introduziu na alegria da Ressurreição nosso confrade e bom pastor, Dom Paulo Evaristo Arns. Frei Paulo, digno filho de São Francisco de Assis, deixou-nos um rastro de fidelidade a Deus, à Igreja e aos pobres. Sua vida franciscana o mergulhou na realidade da grande cidade de São Paulo. Tornou-se a voz dos sem voz, sobretudo daqueles que foram perseguidos pela ditadura militar. Fez do púlpito sua arma pela paz e, como pai, bradava pela vida dos seus filhos, tragados pela malícia de um sistema perverso. Como seguidor do Poverello de Assis, deu a vida pelos pobres. Por isso, tornou-se conhecido como o Cardeal das Periferias, o Cardeal dos Operários, o Cardeal do Vaticano II, o Cardeal do Diálogo Inter -religioso, o Cardeal Franciscano. Sua vida simples

e próxima dos simples irradiava ternura e alegria, própria de quem vivia sob o signo da esperança. E “De esperança em esperança”, foi mais do que seu lema episcopal, foi a maneira de estar na vida irradiando confiança de quem acreditava que, para além da escuridão da noite, lindo seria o nascer de um novo dia. Hoje, um sentimento de orfandade toma o nosso coração; o filho de São Francisco levou consigo muitos segredos, sobretudo os segredos dos pobres, as lágrimas das mães, a rebeldia da juventude, o sonho de uma nova Pátria e os introduziu nos céus, junto ao trono do Cordeiro. Podemos imaginá-lo como anjo da Igreja da Pauliceia, dizendo: Amém, Amém! Vem Senhor Jesus!”. Já o Vigário Provincial da Província da Imaculada, Frei César Külkamp, leu a mensagem do Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, Frei Michael Perry, que destacou que “Dom Paulo antecipou aquilo em que o Papa Francisco vem insistindo ao pedir uma Igreja em saída” (Leia a íntegra da mensagem na pág. 2 )

ÍNTEGRA DA HOMILIA de frei fidêncio Caríssimos irmãos e irmãs, A Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, em comunhão com a Arquidiocese de São Paulo e com toda a Família Franciscana, aqui se reúne para celebrar no espírito de São Francisco de Assis a visita da “Irmã Morte” e o mistério pascal deste nosso querido confrade e pastor, o Cardeal Dom Frei Paulo Evaristo Arns. Hoje, com São Francisco de Assis, nós, franciscanos e franciscanas, queremos proclamar não sem dor, mas com muita fé, alegria e esperança, o hino que o próprio Pai Seráfico pediu que os frades cantassem no momento da sua morte. Oração que, segundo as Irmãs Franciscanas da Ação Pastoral, o próprio Dom Paulo repetia e rezava com muita frequência: Altíssimo, onipotente, bom Senhor, Teus são o louvor, a glória, a honra e toda a bênção. Só a ti, Altíssimo, são devidos; e homem algum é digno de te mencionar. (...)

Louvado sejas, meu Senhor, Por nossa irmã a Morte corporal, Da qual homem algum pode escapar. Ai dos que morrerem em pecado mortal.

Felizes os que ela achar Conformes à tua santíssima vontade, Porque a morte segunda não lhes fará mal. Louvai e bendizei a meu Senhor, E dai-lhe graças, E servi-o com grande humildade. 1. A nossa primeira atitude, enquanto franciscanos/ as, religiosos/as e povo de Deus, neste dia em que sepultamos o corpo de Dom Paulo, deve ser a da GRATIDÃO AO ALTÍSSIMO, ONIPOTENTE E BOM SENHOR. Louvado sejas, meu Senhor, pela vida de Dom Paulo. Louvado sejas, meu Senhor, porque cumulaste este teu servo Dom Paulo com tantas virtudes. Virtudes enaltecidas por multidões de pessoas que aprenderam, no ouvir e ver, a amar e a admirar este homem de Deus. Louvado sejas, meu Senhor, porque nos deste este confrade. Como São Francisco de Assis, também nós, seus confrades, agradecemos e nos alegramos no Altíssimo e Bom Senhor porque Ele enriqueceu-nos com este “homem de tanto valor, ... o companheiro tão necessário e o amigo tão fiel” (1Cel 24).


Dom Paulo, depois de concluir seus estudos teológicos em Petrópolis, RJ, foi encaminhado a estudar Letras na Sorbonne, em Paris (1947-1953). Quando retornou, exerceu seu ministério como prefeito (reitor) e professor no seminário Santo Antônio de Agudos (1953-1955). Depois foi transferido a Petrópolis onde foi mestre, professor e vigário provincial (1956-1962), quando foi eleito bispo auxiliar de São Paulo, no dia 10 de maio de 1966. De todos os longos anos da sua vida, diria que a sua passagem pela Província foi quase meteórica, mas muito significativa, porque muito jovem foi chamado a ser bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo. E os frades que viveram no Convento São Francisco, nos seus 50 anos de Bispo, são testemunhas desta alma franciscana que, em vários momentos significativos, continuava a valorizar a fraternidade como um dos pilares do carisma de São Francisco de Assis. 2. Em segundo lugar, cantamos a realidade da IRMÃ MORTE “da qual homem algum pode escapar”. Sim, não sem dor acolhemos esta verdade! Contudo, a certeza que alimentou e levou São Francisco a acolher

a morte como amiga e irmã, é a proclamação desta verdade: “Felizes os que ela encontrar conformes à tua santíssima vontade”. Creio que todas as pessoas que acompanharam Dom Paulo, certamente hoje compreendem a tamanha entrega que ele fez de si a tudo o que foi valoroso e significativo na vida dele: a família, a vida religiosa franciscana e o seu pastoreio como bispo, cuidador do povo a ele confiado, para que todas as pessoas fossem respeitadas a partir da dignidade como direito inalienável. E foi assim que a irmã Morte encontrou Dom Paulo: vivendo em conformidade com a santíssima vontade, segurando na mão sua cruz peitoral para nos dizer que a “Perfeita Alegria”, isto é, a glória maior da vida cristã está na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, e poder proclamar como o Apóstolo: “Não quero gloriar-me a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”, ao qual sejam dadas honra, glória pelos séculos dos séculos. Amém” (cf. Fior 8). (...) E o que é a minha vida? Eu quero estar perto de Deus. No dia em que eu morrer, eu vou ter conseguido, eu vou estar mais perto d’Ele do que hoje estou. Então, você tem que dizer “Graças a Deus”.


sepultamento

“VIVA DOM PAULO!”

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ob aplausos, o corpo de Dom Paulo Evaristo Arns foi enterrado na sexta-feira, 16 de dezembro, às 17h10, na cripta da Catedral Metropolitana de São Paulo, na Sé. O sepultamento ocorreu após uma Missa de Exéquias, presidida pelo Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, e concelebrada por cardeais, bispos, dezenas de padres e diáconos.

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Dom Paulo Evaristo Arns | Especial

No início da celebração, o cônego Antonio Aparecido Pereira lembrou em breve mensagem que Arns abriu as portas da Igreja para os perseguidos políticos, para os moradores de rua e para as pessoas com HIV. Ele pediu que os presentes gritassem a palavra “coragem”, que muitas vezes era dita por Dom Paulo aos seus seguidores. No final da cerimônia, o caixão, que durante a celebração permaneceu em frente ao altar principal


da catedral, foi levado, sob aplausos e gritos de “viva Dom Paulo” e “coragem”, até a cripta. No local ocorreu uma breve cerimônia particular, com a presença de parentes, religiosos e autoridades. “Em tempos difíceis, de cerceamento das liberdades democráticas, de perseguição política e de graves violações da dignidade humana e dos direitos da pessoa, Dom Paulo empenhou-se pessoalmente mediando a solução de conflitos e dando amparo, coragem e confiança a muitas pessoas feridas no corpo e na sua dignidade porque lutavam por um Brasil livre e democrático”, destacou Dom Odilo na homilia da última missa celebrada no funeral. Na lápide de Dom Arns, a frase gravada foi “de esperança em esperança”. “As duas mensagens principais que a gente leva, que São Paulo e o Brasil levam, são de esperança e de coragem. Ele dizia que ‘a esperança, mesmo pequena, é o maior dom no meio de um mundo cansado’. E a segunda é de coragem, de enfrentar a ditadura, e a coragem de fazer toda a ação pastoral, principalmente com o povo da periferia”, disse, após o sepultamento, o sobrinho de Pom Paulo, Clóvis Arns Cunha. Entre as autoridades que acompanharam a despedida de Dom Arns estavam o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, o prefeito da capital paulista, Fernando Haddad, e o prefeito eleito, João Doria Jr.

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Ilustração: Sergio Ricciuto Conte / “O São Paulo”


Adeus, Dom Paulo! Esperança sempre! “

O

i, São Pedro! Me dê licença?” E Pedro, sorrindo: “Entre, Paulo Evaristo! A casa é sua!” Dá para imaginar esta cena: Paulo Evaristo Arns, o Cardeal da Esperança, o Profeta dos Direitos Humanos, depois de uma longa e incansável vida a serviço de Deus e da Igreja, entra no céu, na glória de Deus, a única que lhe interessou, porque da glória deste mundo ele sempre fugiu. Lá está agora o Cardeal Arns, que depois de ler sua biografia escrita por duas jornalistas e que salientaram apenas o homem que lutou pelo retorno do Brasil à normalidade democrática, escreveu sua autobiografia para que todos conhecessem o pastor que nunca deixou de ser. Dom Paulo Evaristo morreu. E não há como não se sentirem órfãos aqueles com quem ele se misturou nas periferias da megalópole São Paulo e sentiu as dores deles, ouviu os clamores deles, e lhes gritou: “Coragem!”; e lhes ofereceu o socorro da Igreja em inúmeras pastorais sociais. Dom Paulo Evaristo está junto de Deus. E Pedro, cujos sucessores neste mundo sempre tiveram sua obediência; São Francisco, cujo hábito marrom ele vestiu e cuja simplicidade ele imitou; Maria, a Mãe de Jesus, que ele amou com amor fiel, os santos todos, e os que foram pobres neste mundo e hoje são ricos em Deus lhe deram a merecida acolhida. Morreu Dom Paulo Evaristo Arns, o homem de muitos prêmios por sua luta pela dignidade da pessoa e que ofereceu esses prêmios todos, sem nada reservar para si, para os centros comunitários em que o povo refletia, rezava, partilhava dores, alegrias e esperanças, e que foram sementes de muitas paróquias hoje. Os sucessores de Dom Paulo, os cardeais Dom Cláudio Hummes e Dom Odilo Pedro Scherer, souberam trabalhar a bela herança pastoral de Dom Paulo. Foram seus amigos e admiradores e man-

tiveram permanente contato com ele, oraram com ele, celebraram com ele as grandes datas de sua consagração a Deus. Os padres com quem Dom Paulo dividiu as preocupações com a evangelização da cidade estão tristes. Um grande número foi ordenado por ele. Os padres estão tristes, é verdade, mas essa tristeza é iluminada pelo santo orgulho de terem sido colaboradores dele. Dom Paulo sempre amou os seus padres. E pensou até mesmo naqueles que, após uma longa folha de serviços, mereciam a gratidão da Igreja. E lá estão eles na Casa São Paulo. Os fiéis leigos vibravam com as reflexões de Dom Paulo nas celebrações da Catedral da Sé e nas grandes concentrações no centro da cidade. No seu jeito simples, ele fazia as pessoas repetirem palavras de ordem a partir da Palavra de Deus proclamada. Quantas palavras e gestos estão sendo lembrados agora. Dom Paulo, o grande comunicador, anunciou o amor e a paz que só o Cristo pode dar em muitos livros e no “Encontro com o Pastor” do jornal “O São Paulo”. Por sua comunicação tão forte e tão enraizada no Evangelho, ele viu o jornal ser censurado e a “Rádio 9 de Julho” calada. Mas, mesmo silenciado, ele foi eloquente, e sua presença, lá onde o sofrimento machucava e distorcia a imagem de Deus nas pessoas, falava mais do que suas palavras. A Arquidiocese de São Paulo se une como uma grande família para agradecer a Deus pelo dom de Deus que foi Dom Paulo para ela. A Arquidiocese de São Paulo chora a partida do seu pastor emérito, mas vai em frente, afinal de contas, o seu lema episcopal “De esperança em esperança” e a sua palavra de ordem, “esperança sempre” vão continuar sendo ouvidos diante do desafio constante de anunciar Jesus Cristo nesta cidade. Editorial do Jornal “O São Paulo” Especial | Dom Paulo Evaristo Arns

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Dom Mauro Morelli e Dom Paulo Evaristo Arns, em julho de 2016, por ocasião dos 50 anos de Ordenação Episcopal de Dom Paulo.

Dom Paulo, apóstolo da justiça e da paz

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om o coração agradecido uno-me a tantas vozes louvando a Deus pela vida do mestre, pastor e profeta arrebatado dia 14 para o Reino da Vida. Em 1968 ocorreu de fato a efetiva separação e ruptura da Igreja com o Estado. Neste contexto o Papa Paulo VI, em 1970, convoca o Cardeal Rossi a Roma para assumir a Congregação para a Evangelização dos Povos e designa Dom Paulo como arcebispo da capital paulista.

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Franciscano enamorado da Senhora Pobreza e irmão de toda a criatura, historiador e profundo conhecedor da Teologia dos Padres da Igreja dos primeiros séculos, o bispo catarinense Paulo Evaristo fora providencialmente escolhido para um pastoreio que exigiria firmeza na fé, capacidade de leitura da realidade e determinação. Paulo VI tinha um olhar penetrante. Com a presidência de Dom Paulo, o Regional paulista da CNBB reveste-se de estrutura cole-


giada promovendo o ministério da coordenação que provoca intenso intercâmbio entre as dioceses, com a participação dos presbíteros e leigos, casais e jovens. Um processo de planejamento pastoral foi inaugurado e instalado como exercício da colegialidade pastoral e da sinodalidade eclesial como instrumento de resposta adequada da evangelização às exigências e provocações da realidade dominada pela ferocidade do poder econômico. Como fruto do diálogo dos bispos com religiosos e religiosas, em assembleia conjunta, firmado o documento “Vida Religiosa na Igreja Particular”. Superando a si mesmo, o episcopado paulista assume a defesa da vida e da dignidade humana com o pronunciamento pastoral contra a tortura: “Testemunho de Paz” (Documento de Brodosqui), posteriormente reeditado como “Não oprimas teu irmão”. À frente da arquidiocese de São Paulo, Dom Paulo Evaristo, por recomendação do Papa Paulo VI, aplicando os princípios da colegialidade pastoral e da sinodalidade, encaminha um projeto inovador de Igreja nas grandes cidades em que autonomia e comunhão seriam marcas das estruturas eclesiásticas, não a independência e o isolamento. O colégio episcopal por ele presidido assume a tarefa da formação de nove dioceses com regime especial de comunhão de bens e de responsabilidades. A sinodalidade é vivenciada no processo de planejamento pastoral em que se definiam dire-

trizes e prioridades. Assim, em todas as regiões e em todos os níveis da Igreja Arquidiocesana quatro prioridades tornam-se compromisso da igreja em sua vida e missão: Comunidades Eclesiais de Base, Operação Periferia, Mundo do Trabalho e Direitos Humanos. O testemunho pessoal de Dom Paulo foi a força que aglutinou as energias da cidadania que não se dobrou diante da repressão violenta e cruel. A coerência de Dom Paulo, abrindo mão do palácio por uma simples casa, a comunhão de bens por ele praticada e incentivada, a determinação de caminhar de esperança em esperança sem se abater, de tranco em tranco com ousadia e muita coragem, fez dele o pastor amado pelos pobres, oprimidos e perseguidos. Em longos anos como emérito, sem desmerecer os que o sucederam, permaneceu sendo o bispo de São Paulo. Com a morte de Paulo VI, novos ventos sopraram e agitaram a Barca de Pedro. Em tempo de crise, a busca de refúgio e de preservação da espécie dá ensejo ao surgimento da centralização e do conservadorismo. A crise atual é mais séria e profunda do que muitos imaginam! Crise civilizatória. Assim perdemos a oportunidade de ser Igreja nos grandes centros urbanos sem esquartejar bairros e ruas, reféns de nossos feudos e estruturas inadequadas. Sinto-me honrado e privilegiado pelos dez anos de fraternidade e companheirismo com o saudoso franciscano pastor das periferias geográficas e existenciais, intrépido defensor da dignidade humana e promotor de democracia, Paulo Evaristo Arns, que me ordenou bispo. Nossa jornada começou numa carona que lhe dei em 08.12.69 para o almoço depois da ordenação episcopal do capuchinho Dom Daniel Tomasella, segundo bispo de Marília. Inúmeras viagens e memórias do meu mestre e irmão bispo Paulo Evaristo. Na comunhão dos santos interceda pela Terra da Santa Cruz neste tempo de trevas. Paz e Bem. Dom Mauro Morelli Bispo emérito da Diocese de Duque de Caxias e missionário na Serra da Canastra – 14.12.2016.

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REPERCUSSÃO

MANIFESTAÇÕES DE PESAR Autoridades civis, religiosas e políticas divulgaram notas de pesar e solidariedade pelo falecimento de Dom Paulo Evaristo Arns. Acompanhe essas manifestações: ÍCONE DA DEFESA DOS DESAMPARADOS A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) manifesta seu pesar pelo falecimento do querido Cardeal Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo (SP). Em sua longa e frutífera existência, este nosso irmão deu testemunho da alegria do Evangelho. Em seu ministério episcopal, especialmente durante os penosos anos do regime de exceção vividos pelo Brasil, ele foi sempre um pastor símbolo da fidelidade à Palavra de Cristo e aos ensinamentos da Igreja. Dom Arns tornou-se um verdadeiro ícone da defesa dos desamparados e perseguidos. Ele jamais faltou ao seu compromisso com as comunidades da Arquidiocese de São Paulo – onde serviu como bispo auxiliar e arcebispo – e também com toda a Igreja presente no país. Sua palavra sempre trouxe especial alento ao coração dos cristãos e deu significativa contribuição na luta contra a tortura e o restabelecimento da democracia. Dom Arns, como Francisco de Assis, encontrava na prática de Jesus a motivação fundante para

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sua predileção pelos pobres e desamparados da sociedade, conforme declarou em uma de suas obras mais conhecidas: “Jesus não foi indiferente nem estranho ao problema da dignidade e dos direitos da pessoa humana, nem às necessidades dos mais fracos, dos mais necessitados e das vítimas da injustiça. Em todos os momentos, Ele revelou uma solidariedade real para com os mais pobres e miseráveis (Mt 11, 28-30); lutou contra a injustiça, a hipocrisia, os abusos do poder, a avidez de ganho dos ricos, indiferentes aos sofrimentos dos pobres, apelando fortemente para a prestação de contas final, quando voltará na glória para julgar os vivos e os mortos” (Da esperança à utopia: testemunho de uma vida). Rezemos para que o Senhor, por interecessão da Santíssima Virgem Maria, receba seu servo fiel na comunhão dos Santos. Em nome da presidência da Conferência, envio um abraço fraterno aos familiares de Dom Arns, ao cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer e a todas as comunidades da Arquidiocese. Em Cristo, Dom Leonardo Ulrich Steiner Bispo auxiliar de Brasília e Secretário-Geral da CNBB


“Ninguém o silenciava” “Foi um grande pastor da Arquidiocese de São Paulo e teve sempre uma liderança muito forte na Igreja do Brasil inteiro. Era admirado também no mundo afora, era uma figura internacional, como Dom Helder Câmara. Sua morte é uma grande perda para todos nós, mas hoje o lembramos também com alegria pelo que ele significou para o Brasil, a sociedade brasileira e a Igreja de modo particular. Se destacou no tempo da ditadura militar, quando foi bispo. Nos tempos do Presidente Médici, auge da repressão, ele o enfrentou pessoalmente para denunciar, reclamar, para pedir a cessação das torturas, das prisões, enfim… Sempre teve muita coragem, sempre o admiramos pela coragem e a lucidez. Ninguém o silenciava. Ele denunciava e fazia também. Não era só homem que falava, ele fazia, ia visitar as prisões, ira à procura dos que foram mortos e estavam desaparecidos… enfim, uma figura que o mundo conhece como grande defensor dos perseguidos”. “Era também um homem das periferias. Ele começou um grande trabalho nas periferias da Arquidiocese de São Paulo. Naquele tempo, a Arquidiocese era muito maior do que hoje… depois ela foi dividida. Havia enormes periferias e as favelas eram ainda muito mais miseráveis do que hoje. Ele começou a orientar a sua Igreja (de São Paulo) para ir às favelas, a estar lá, junto com os pobres, trabalhar com eles, defendê-los, solidarizar-se com os pobres, com os favelados, com os desempregados. Foi um homem muito dos pobres, com os pobres e para os pobres. Ele sabia que era necessário trabalhar com eles, fazer deles também sujeitos de sua própria história, acompanhando-os, apoiando-os, encorajando-os”. “No dia a dia era um homem muito agradável, muito fraterno. Convivi muito com ele, éramos franciscanos… Naquela época, eu estava no ABC e ele começou três anos antes aqui em São Paulo. De uma certa forma trabalhamos juntos nos 21 anos em que estive em Santo André. Encontrava-me muitas vezes com ele, era muito querido, muito fraterno, muito amigo. Sabia rir, sabia conviver… como um confrade franciscano. Tenho esta lembrança muito forte. Também quando eu vim para São Paulo, indicado para sucedê-lo aqui, ele sempre me apoiou. Ele sabia que eu não era como ele nem ele era como eu… éramos pessoas diferentes e nem

deveríamos tentar imitar um ao outro. Ele, certamente, me inspirou muito no trabalho, e ele sabia disso. Suas grandes linhas, no entanto, sempre ficaram e ficarão aqui dentro da nossa Arquidiocese de São Paulo. Foi um homem que inspirou e vai continuar inspirando nós todos. Não podemos esquecê-lo”. “Estava muito feliz com o Pontificado do Papa Francisco. Todas as vezes que fui visitá-lo, depois da eleição do Papa Francisco, ele sempre queria falar sobre o Papa; saber como estava. Acompanhava muito de perto”. Dom Cláudio Hummes Arcebispo, assumiu depois de Dom Paulo

“Foi um homem de deus” “Ao cumprimentar os meus veneráveis irmãos Cardeais, Dom Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, e Dom Frei Cláudio Hummes, OFM, sucessor de Dom Paulo e Arcebispo Emérito de São Paulo, bem como todo os bispos auxiliares e todo o presbitério da Arquidiocese de São Paulo, assim como a amada gente de Piratininga e paulista, bem como a Família Franciscana, em nome da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro e meu próprio, quero apresentar a Deus a prece especial para que, do céu, Dom Paulo seja intercessor do Brasil que precisa de esperança, de justiça e de paz. Recebi a notícia enquanto celebrava a Eucaristia nesse horário e já coloquei no mesmo instante a intenção pelo repouso eterno do querido irmão que partiu. Serão muitas histórias contadas sobre tão longevo cardeal, com muitos acontecimentos e fatos. Mas, sem dúvida, a grande razão de tudo o que D. Paulo realizou foi sua paixão pelo Cristo, por quem deu sua vida, e por causa d’Ele pela causa dos irmãos mais necessitados. Foi um homem de Deus que serviu à Igreja com alegria. Dom Paulo Evaristo Arns hoje recebe a coroa da glória eterna a ele reservada por tão nobre missão, que ficará eternamente gravada no coração da Igreja do Brasil e no mundo inteiro. Foi um dom universal de Deus que jamais será esquecido na vida de seu povo, povo que ele soube amar incansavelmente com a ternura e a paixão franciscana de ser e viver. Obrigado, querido Dom Paulo Evaristo, nosso irmão, cardeal da esperança. Dom Orani Tempesta Arcebispo do Rio de Janeiro

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“Não existem palavras para expressar nossa gratidão” “Dom Paulo deixa um legado muito grande para a Igreja de São Paulo, para o Brasil, para o mundo; e especialmente também para a nossa Congregação. Escreveu até um livro ‘Religiosas recomeçam sempre’, com a gravação das homilias que ele fazia para nós desde que começou a assumir a Congregação”. “Estamos tristes, mas ao mesmo tempo, dando graças a Deus por uma vida maravilhosa, uma missão linda junto aos pobres e sofredores, lutando pela justiça e pela paz, com estes governantes e estas situações todas. Um homem que não deixou nada a

“PESSOA DE CORAGEM E SIMPLICIDADE” Com pesar, acolho a notícia do falecimento do querido filho de nossa terra, Dom Paulo Evaristo Arns. Uma pessoa que marcou nossa história, em uma época muito complexa e difícil, período da ditadura militar, onde esteve sempre em defesa da democracia e dos direitos humanos. Uma pessoa de coragem e de muita simplicidade, como pastor que defendia suas ovelhas, mesmo que fosse necessário chegar às últimas consequências para defendê-las. Apascentou, por muito tempo, uma das maiores dioceses do mundo, a Arquidiocese de São Paulo, onde deixou impresso, em milhares de pessoas, o seu caráter de guia espi-

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Dom Paulo Evaristo Arns | Especial

desejar. Agora, desejamos que o Pai o receba com toda festa e, de lá, ele possa interceder por este nosso país, por este nosso mundo em conflito, em guerra e com tanta falta de paz”. “Não existem palavras para expressar tudo aquilo que gostaríamos de dizer de gratidão, de amor, a este grande homem, a este grande religioso, a este grande coração franciscano”. Irmã Maria José Mendes Superiora Geral da Congregação das Irmãs Franciscanas da Ação Pastoral, da qual D. Paulo é cofundador e junto à qual viveu seus últimos 30 anos

ritual, de homem simples e humilde, com espírito de São Francisco, próximo dos perseguidos e mais necessitados. Unidos e solidários com a Arquidiocese de São Paulo e aos familiares de Dom Paulo, celebramos, na sexta-feira, 16, às 8 horas, uma missa em sua terra natal, na igreja matriz Sagrado Coração de Jesus, em Forquilhinha. Dom Jacinto Inacio Flach Bispo da Diocese de Criciúma

PESAR PELO QUERIDO EX-ESTUDANTE “O Instituto Teológico Franciscano (ITF) manifesta o seu pesar pelo falecimento de seu querido ex-estu-


dante e professor de Literatura Cristã Antiga (Teologia Patrística), Dom Paulo Evaristo, Cardeal Arns, arcebispo emérito de São Paulo (SP). Que o Senhor, por intercessão da Santíssima Virgem Maria e de nosso Seráfico Pai São Francisco, o receba na comunhão dos santos”.

Costumava dizer que, para que essas transformações aconteçam, é importante cada um se interessar pela política e agir, no sentido de defender os direitos daqueles que mais precisam”.

Frei Antônio Everaldo Palubiack Marinho Diretor do ITF

“Quem não o conheceu e não trabalhou com ele não tem ideia da sua profecia! Ele, Dom Hélder e dez bispos fizeram a diferença!”

inspiração para A Pastoral da Criança A Coordenação Nacional da Pastoral da Criança atesta que Dom Paulo foi “o grande responsável por semear a criação da Pastoral da Criança” em 1982, projeto desenvolvido por sua irmã, a médica pediatra e sanitarista Zilda Arns Neumann, e que busca reduzir a mortalidade infantil. Em nota, a Pastoral disse que a vida do cardeal foi marcada por uma série de ações voltadas às populações mais pobres e necessitadas: “Ele foi um exemplo de que os ensinamentos cristãos se concretizam no contato com o povo, pelo viés da solidariedade, buscando a transformação das injustiças sociais.

ELE FEZ A DIFERENÇA

Pe. Zezinho

“ELE MARCA ATÉ HOJE A HISTÓRIA DO BRASIL” “Dom Paulo foi um baluarte na luta pela democracia, no combate à ditadura militar, denunciando os desmandos praticados contra lideranças e militantes de movimentos, presos e submetidos a sessões de tortura. A palavra e a postura de Dom Paulo dando guarida a perseguidos, denunciando as atrocidades e brandindo a espada da Justiça, são exemplos que marcam até hoje a história de nosso país”. Pastoral da Terra

“ELE SEGUIU O EXEMPLO DE SEU MESTRE” “O Brasil perdeu hoje um dos seus maiores símbolos na luta pela justiça. Nossa América perdeu a voz destemida que enfrentou ditaduras truculentas e o braço amigo que abrigou centenas de refugiados que eram perseguidos nos países vizinhos. […] Franciscano que era, seguiu o exemplo de seu mestre para seguir uma clara opção preferencial pelos oprimidos em sua Igreja da Libertação. Semeou e cultivou Comunidades Eclesiais de Base, revolucionou a formação dos seminários levando os futuros sacerdotes a viverem nos bairros da periferia. Impulsionou a Pastoral Operária, encorajou o trabalho da Igreja com as crianças, vocação profética de sua irmã Zilda até a morte trágica no Haiti”. Luiz Inácio Lula da Silva

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve na noite do dia 15 na Catedral da Sé. Lula conversou por alguns minutos com parentes do cardeal e o padre Júlio Lancellotti - que presidiu uma das missas em homenagem a Dom Paulo.


A LUTA PARA SALVAR VIDAS

PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

“Dom Paulo foi um claro defensor dos Direitos Humanos, constituiu o Grupo Clamor junto com o Pastor Presbiteriano Jaime Wright, uma frente de apoio solidário aos exilados e perseguidos latino-americanos. O Clamor recuperou as crianças sequestradas e desaparecidas pela ditadura argentina no norte do Chile. Ajudou centenas de refugiados a encontrar um terceiro país onde pudessem se estabelecer. Os refugiados e perseguidos que conseguíamos tirar da Argentina, os enviávamos para a Arquidiocese de São Paulo, no Brasil, onde sempre encontramos a mão amiga e solidária de Dom Paulo e do Clamor; um testemunho de vida que partia do Evangelho. São muitos os testemunhos de religiosos e leigos comprometidos com a defesa dos direitos humanos que lutaram pela dignidade dos povos e por salvar vidas. Dom Paulo é uma dessas luzes que iluminam o caminho da Vida e Verdade e sua luz permanece entre nós. Obrigado, querido irmão, e nossas orações de Paz e Bem”.

Em nota, o presidente da República, Michel Temer lamentou e destacou a trajetória de D. Paulo como defensor da liberdade e da democracia: “Dom Paulo foi um defensor da liberdade e sempre teve como norte a construção de uma sociedade justa e igualitária. O Brasil perde um defensor da democracia e ganha para sempre mais um personagem que deixa lições para serem lembradas eternamente”.

Adolfo Pérez Esquivel Prêmio Nobel da Paz

“São paulo E O BRASIL PERDEM UM GIGANTE” “Recebi a notícia da morte do arcebispo emérito de São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns. São Paulo e o Brasil perdem um gigante; eu, um amigo e conselheiro”. José Serra Ministro das Relações Exteriores

“IMPOSSÍVEL PENSAR O BRASIL SEM ELE” “Difícil, mas também não triste. Afinal de contas, um homem que passou a vida cuidando de outras vidas, um homem de 95 anos exuberou a sua história, fez com que a gente entenda até, que nos chateia que ele tenha ido, mas nos alegra pela vida que ele teve, pelo encantamento que produziu, pela autoridade que exerceu e pela esperança que ele carregou. Dom Paulo foi construindo uma eternidade durante décadas. É impossível pensar o Brasil sem ele. A nossa sociedade deve muito a Dom Paulo.” Mário Sérgio Cortella filósofo

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Dom Paulo Evaristo Arns | Especial

GovernO DO ESTADO DE SÃO PAULO Geraldo Alckmin também falou do falecimento de Dom Paulo: “Quem quer agradar a Deus precisa amar o que Ele ama: as pessoas. Esse ensinamento é de Dom Paulo Evaristo Arns. Nesta hora de dor, que o seu exemplo nos faça mais atentos aos seus valores: solidariedade, justiça, paz, ética – e coragem para defendê-los. Essa será uma grande homenagem a Dom Paulo. Pois ele também ensinou que nós vivemos, de fato, é naqueles a quem inspiramos””.

“FICAMOS MENORES” “O nome de D. Paulo Evaristo veio a mim através do livro Brasil Nunca Mais. Era uma narrativa dramática do uso da tortura no Brasil da ditadura. Ele escreveu o prefácio. O livro era estarrecedor. Depois o conheci como autor erudito, analisando São Jerônimo e os livros do final do Império Romano. Admirei muito sua ação a favor dos direitos humanos, bem como sua irmã, Zilda Arns. Encontrei-o apenas uma vez. Era um homem de voz suave, pouco reveladora da pessoa que havia gritado com generais. Era um homem de fé, de convicções humanistas e com olhar comprometido com as margens da sociedade, com os excluídos. Morreu um homem justo. Ficamos menores”. Leandro Karnal filósofo e historiador, escreveu no Facebook

“ETERNAMENTE DENTRO DE NOSSOS CORAÇÕES” “Dom Paulo Evaristo Arns, um grande corintiano. Você estará ‘eternamente dentro dos nossos corações’. Para demonstrar seu amor pelo clube, Dom Arns escreveu um livro com o título “Corinthiano, graças a Deus!” Sport Club Corinthians Paulista


O jornalista Vladimir Herzog morreu no dia 25 de outubro de 1975, durante uma sessão de tortura, na rua Tomás Carvalhal, 1030, no bairro do Paraíso, em São Paulo, num prédio utilizado pelo Destacamento de Operações Internas – Comando Operacional de Informações do II Exército. O Sindicato dos Jornalistas assumiu a frente da reação e estudantes da USP entraram em greve. Cinco mil pessoas foram à Catedral da Sé para um ato ecumênico organizado por Dom Paulo Evaristo Arns, pelo reverendo James Wrigth e com a participação do rabino Henry Sobbel, no que seria o primeiro grande protesto contra a tortura em muitos anos.

“Ele deu o colo que ela precisava” Dom Paulo. O que dizer dele? Um herói? Um exemplo a ser seguido? Possuidor de valores que desejamos para toda a sociedade? Para mim era mais do que isto. Resumo relembrando o dia 31 de outubro de 1975. Termina o ato ecumênico. Eu, com 9 anos tentando entender, processar tudo aquilo. E como filho mais velho, cuidar da minha mãe (Clarice) que estava destruída.

Vem dom Paulo e a acolhe. Diz para minha mãe: “Chora, põe tudo para fora” (como testemunham as fotos acima). Ele deu o colo que ela precisava. Ele é para nós algo além de tudo que ele é para todos.

“O Brasil perdeu um grande cidadão, a Igreja um líder, os pobres um defensor e, eu, um amigo. Na época dura do autoritarismo, quando era difícil ter coragem, Dom Paulo não calou. Ainda hoje me recordo de sua voz e de suas palavras na missa decorrente do assassinato de Vladimir Herzog pela repressão política, quando Dom Paulo ousava desafiar os poderosos. E assim foi sempre. Na pastoral que dirigia aos trabalhadores - e mais de uma vez participei de seus debates, via-se o pastor que levava na alma os preceitos de João XXIII, da opção preferencial pelos pobres. Na Comissão de Justiça e Paz punha a funcionar na prática a luta pelos direitos humanos. O Brasil chora hoje pela morte de um grande homem. Que seu exemplo de frugalidade e decência sirva de inspiração no momento de reconstrução moral pelo qual precisamos passar.”

Ivo Herzog Instituto Vladimir Herzog

Acervo Presidente Fernando Henrique Cardoso


REPERCUSSÃO na imprensa

A morte de Dom Paulo Evaristo Arns repercutiu em toda a imprensa brasileira e internacional “SÍMBOLO DA LUTA CONTRA A DITADURA” “Símbolo da luta contra a ditadura, o arcebispo emérito de São Paulo dedicou sua vida à justiça social”, publica a revista “Carta Capital”.

“ESCREVEU SUA HISTÓRIA DE CORAGEM” A manchete do jornal “O Globo” diz: “Dom Paulo

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Dom Paulo Evaristo Arns | Especial

Evaristo Arns: o ‘arcebispo da esperança’ se despede”. E completa: “Influente e ousado, líder católico escreveu sua história de coragem na luta contra a ditadura militar”.

O MAIOR LÍDER DA IGREJA CATÓLICA BRASILEIRA O “El País” classifica Dom Paulo como “o carde-


al da esperança” e o “maior líder da Igreja Católica brasileira”. O jornal lembra que Dom Arns enfrentou militares no período da ditadura no Brasil e defendeu a periferia.

ÍCONE PROGRESSISTA A “Folha de São Paulo” destaca o cardeal como “ícone progressista da Igreja no Brasil”.

“O HOMEM QUE A DITADURA NÃO SILENCIOU” O jornal “Estado de São Paulo” diz que Dom Paulo Evaristo Arns foi “o homem que a ditadura não silenciou”. “Último dos grandes líderes da Igreja Católica dos anos 1970, o cardeal dedicou a vida aos pobres e à defesa dos direitos humanos”, destacou o diário.

Washington Post O jornal americano “Washington Post” lembrou que o cardeal era uma das vozes mais proeminentes da Igreja Católica na América Latina e morreu após travar uma longa luta contra problemas pulmonares e renais. Arns “ficou famoso por desafiar os líderes da brutal ditadura militar de 1964-1985 e pela sua luta contra a tortura na América Latina”.

Daily Mail A atuação do Arcebispo no caso da morte do jornalista Vladimir Herzog, torturado durante a ditadura militar, mereceu nota no jornal britânico “Daily Mail”. Segundo a publicação, “Arns será enterrado na catedral de São Paulo, onde em 1975 ele organizou um dos atos mais abertos de desafio à dita-

dura do Brasil, orando com outros líderes religiosos e culpando o regime pelo assassinato do jornalista Vladimir Herzog, preso político do regime. Os oficiais disseram que Herzog tinha cometido suicídio na cadeia, mas Arns rejeitou essa versão durante a missa, apesar da pressão feita por tanques e por soldados fora de sua igreja. Os membros conservadores da Igreja e os líderes militares o consideravam um perturbador”.

rede ABC News A rede “ABC News”, também dos EUA, afirmou que “Arns frequentemente falava sobre valores democráticos durante a Missa, protegia ativistas em suas igrejas e liderava uma iniciativa nacional contra a tortura. Arns também ameaçou excomungar os investigadores policiais que se recusaram a fornecer informações sobre prisioneiros políticos”.

El Confidencial Na Espanha, o “El Confidencial” falou que o Cardeal Arns era considerado uma das figuras mais importantes da Igreja católica latino-americana e esteve entre os ‘‘papáveis” que participaram do conclave de 1978, quando foi eleito o Papa João Paulo II.

o Clarín Já o “Clarín”, da Argentina, relembrou a trajetória de Arns. “Sua ação pastoral foi dirigida em direção aos marginalizados e ao mundo do trabalho. No período da ditadura, ele foi um dos escritores do livro ‘Brasil Nunca Mais’ e ‘Tortura Nunca Mais’ contra os abusos da ditadura. Ele havia recebido em 1977 o título de honoris causa, juntamente com o ex-presidente dos EUA Jimmy Carter, da Universidade de Notre Dame”.

La Prensa O “La Prensa”, do Panamá, lembrou do seu trabalho na Pastoral da Infância, em conjunto com sua irmã, Zilda Arns, e a versão espanhola da “Agência Sputnik” destacou os inúmeros prêmios e honrarias recebidos por ele, incluindo o Prêmio Nansen do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), o Prêmio da Paz Niwano (Japão), Letelier-Moffitt e Prêmio dos Direitos Humanos (Estados Unidos).

Especial | Dom Paulo Evaristo Arns

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O último Quixote do Pacto das Catacumbas Juan Arias *

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morte do arcebispo emérito de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, levou o último Quixote do “Pacto das Catacumbas”, selado por 41 bispos presentes ao Concílio Vaticano II, que fizeram juramento de “viver como pessoas comuns”, sem pompa nem riqueza. Em 1959, quando o Papa João XXIII convocou de surpresa o Concílio Vaticano II, mais de três mil bispos de todo o mundo foram a Roma para discutir o futuro da Igreja, que na época havia se distanciado do mundo. Faltaram apenas os bispos que estavam na prisão nos regimes comunistas do Leste da Europa. Entre aquele exército de prelados tinha de tudo, desde os mais conservadores, entre eles os espanhóis, que nutriam a esperança de que depois do Concílio “as águas voltariam ao seu curso”, aos mais progressistas que, como João XXIII, compareceram ao Concílio com uma esperança de renovação, como, por exemplo, os brasileiros, que se distinguiram por seu apoio à chamada “Igreja dos pobres”. Entre os brasileiros, destacou-se o recémfalecido arcebispo emérito de São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns, que tinha 40 anos na época. Eu assisti às sessões do Concílio como enviado especial do jornal “Pueblo”, de Madri, em plena ditadura franquista. Lembro-me do jovem bispo brasileiro, sempre próximo do grupo de bispos mais abertos e entusiasmados com aquela primavera da Igreja, especialmente aqueles dos países do norte da Europa. O bispo brasileiro fazia parte dos 41 padres do Concílio que se reuniram no silêncio das catacumbas de Domitila para fazer um juramento de fidelidade às ideias renovadoras do Concílio. Foi o chamado “Pacto das Catacumbas”. O documento consistia em 13 promessas, entre elas a de, ao voltar do Concílio, viver em suas dioceses como as pessoas simples, sem palácios ou roupas vistosas, sem bens próprios,

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compartilhando a vida da classe trabalhadora. Ali foram lançadas as primeiras sementes da futura Teologia da Libertação, da luta pelos direitos humanos e da defesa dos esquecidos e perseguidos da sociedade, que teria sua maior força na América Latina. Dom Paulo demonstrou até a morte sua fidelidade àquele Pacto nas Catacumbas de Roma, onde se esconderam os primeiros cristãos perseguidos, entre eles Pedro e Paulo. Como outros bispos brasileiros – Dom Helder Câmara e Dom Antônio Fragoso –, Dom Paulo vendeu o palácio episcopal para comprar terrenos nos bairros pobres na periferia das cidades, onde levantou comunidades, enfrentou a ditadura militar e dedicou grande parte da vida a cuidar dos presos políticos e a defender os direitos humanos. Seu trabalho pastoral se desenvolveu principalmente nas favelas pobres de São Paulo. Religioso franciscano, culto e de uma profunda espiritualidade, especialista no estudo da história dos primeiros séculos do cristianismo, Dom Paulo acabou sendo perseguido pelos dois poderes: o de sua própria Igreja, quando o Papa João Paulo II desmembrou a diocese de São Paulo e o recriminou dizendo: “a Cúria sou eu”, e o dos militares golpistas. Morreu convencido de que o acidente de carro que sofreu no Rio foi uma tentativa de assassinato. Foi fiel até o fim às palavras proféticas de João XXIII quando, ao anunciar a convocação do Concílio Vaticano II afirmou que “a voz do tempo é a voz de Deus” e criticou aqueles que qualificou de “profetas de desventuras”. Dom Paulo sempre esteve atento à voz de seu tempo e militou nas fileiras daqueles que preferem apostar na esperança e não no pessimismo. *Texto de Juan Arias publicado no jornal “El País”. Arias é jornalista e escritor espanhol, estudou filosofia, teologia, psicologia, línguas semíticas e jornalismo na Universidade de Roma, Itália. Na Biblioteca Vaticana, descobriu o único códice existente escrito no dialeto de Jesus, procurado há vários séculos. É autor de vários livros, publicados em mais de dez idiomas. Atualmente, é correspondente do El País no Brasil.


O franciscano destemido Mino Carta *

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esde o dia em que conheci Dom Paulo, tive por ele admiração e carinho. Tempos ásperos de ditadura, costumava visitá-lo no seu sobrado do Sumaré, para conversar sobre o Brasil sitiado pelo exército de ocupação e, em geral, sobre as coisas da vida. Quando o general Ednardo D’Avila Melo assumiu o comando do II Exército, Dom Paulo me contou ter recebido o quatro-estrelas. “Pareceu-me bem intencionado”, comentou. Tempos depois, admitiu: “Não era”. A amizade de Dom Paulo me confortava. Dirigia então a redação da revista “Veja”, submetida a censura feroz e nem sempre me permitia sorrir. Ao cardeal confessava minha angústia, ele me convidava a considerar quantos ensinamentos eu poderia extrair da situação adversa. Devo-lhe ter entendido que mesmo uma miúda informação, despercebida pelas tesouras censoriais, representava um legado para o futuro. De fato, deveria representar, mas reconheço que também me enganei. Naquele tempo, entretanto, de súbito ganhei uma fé inabalável. A ilusão, às vezes, é de enorme ajuda. Dom Paulo foi defensor altamente qualificado dos presos políticos, e nesta sua advocacia dos Direitos Humanos amiúde tomou o rumo de Brasília para recorrer à intercessão do general Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil do ditador Ernesto Geisel, sabidamente contrário à tortura. O cardeal carregava para aquele gabinete do Palácio do Planalto listas de desaparecidos e não arrefecia na insistência da sua peroração. Em uma entrevista que fiz com ele para “Carta Capital” na sua primeira versão, mensal, Dom Paulo contou que certo dia Golbery caiu em lágrimas, condoído e envergonhado pelo seu relato. Ao deixar o arcebispado de São Paulo ao completar 75 anos, Dom Paulo tornou-se inquilino de um próprio da Igreja, em meio a árvores sussurrantes, atrás do Museu de Arte Sacra. Lá fui visitá-lo mais de uma vez. Observei em uma delas: “O senhor está em forma excelente”. Sorriu, disse: “Eu me cuido”. E levou-me até um pequeno cômodo apinhado de aparelhos de ginástica. Em outra ocasião, proporcionou-me uma cena hilariante. Falavame de um encontro mais ou menos recente com João Paulo II, e não deixou de imitá-lo com tarimba teatral. O papa já não era o vigoroso ex-esquiador que fez

sua primeira viagem ao Brasil em 1980. Muitos anos depois, Dom Paulo esteve com um pontífice combalido, frágil desde o atentado ocorrido anos antes, fala arrastada, marcada pelo forte sotaque polaco, cabeça pensa como se lhe saísse do meio do peito. O imitador foi fiel ao modelo, de quem não perdoava certas prepotências cometidas contra a Igreja latino-americana, a leniência com a Cúria Romana e o apoio dado a monsenhor Marcinkus no comando do IOR, o banco destinado até à lavagem de dinheiro mafioso, disfarçado do Instituto das Obras da Religião. Passagem importante da minha existência de jornalista e de cidadão envolve Dom Paulo. Outubro de 1975, a equipe de jornalistas da TV Cultura, comandada por Vlado Herzog, é acusada de subversão vermelha, e convoca a atenção dos esbirros da ditadura. Um dos colegas do grupo, Luis Weis, procura-me na “Veja”. Pede emprego, e não hesito em atendê-lo. Menos de duas semanas após, madrugada de fechamento, somos alcançados pela informação de que Vlado será entregue ao DOI-Codi de manhã, sábado 25 de outubro. Entendo que a sorte de Weis também está selada e faço algumas ligações em busca de negociação. Sem êxito. Telefono para Dom Paulo. O governador nomeado, Paulo Egydio Martins, está em viagem e o cardeal incumbe-se de localizá-lo. No começo da tarde, Dom Paulo me transmite o seguinte recado do governador: “Siga imediatamente para Santos e ali encontre o secretário da Segurança, coronel Erasmo Dias, no Estádio da Vila Belmiro, e peça que volte para São Paulo para assumir o controle da situação”. Serei breve: executei a tarefa, não encontrei o coronel, ausente da Vila há duas semanas. Naquele mesmo instante, Vlado já fora assassinado sob tortura na masmorra do terror de Estado. Ao receber a mensagem de Paulo Egydio, que pacatamente o cardeal me transmitia, eu comentara com a devida rapidez de reflexos: “Dom Paulo, pelo amor de Deus, se me apresento ao coronel Erasmo, ele me prende”. Ouvi a seguinte resposta: “A mensagem é essa, quanto a Deus, deixe-o em paz, eu entendo bem mais dele do que você”. Acho que disse “d’Ele”. * Mino Carta, jornalista e escritor, é o editor da “Carta Capital”. Dirigiu as equipes de criação da Quatro Rodas (1960), Jornal da Tarde (1966), Veja (1968) e CartaCapital (1994). Foi, ainda, diretor de redação das revistas Senhor (1982), IstoÉ/Senhor (1988) e IstoÉ (1989).

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“D. PAULO, O homem que não conheceu o medo” Frei Betto*

20 de janeiro de 1970. Dom Paulo Evaristo Arns obteve, enfim, permissão para visitar os frades dominicanos encarcerados no Presídio Tiradentes, em São Paulo. Franciscano, o bispo auxiliar do cardeal Agnelo Rossi era responsável pela Pastoral Carcerária. Diante do diretor do presídio, narramos ao prelado nossas prisões, torturas, interrogatórios e ameaças recebidas.

21 de outubro de 1970. O Papa Paulo VI declarou que o método de torturas se espalhava pelo mundo como uma epidemia, sem referência direta ao Brasil. Citou, porém, “um grande país” no qual se aplicavam “torturas, isto é, meios policiais cruéis e desumanos para extorquir confissões dos prisioneiros.” Acrescentou que esses meios “devem ser condenados abertamente”. 22 de outubro de 1970. Ao desembarcar em Guarulhos, procedente de Roma, o cardeal Agnelo Ros-

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si, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), declarou que “no Brasil não existe perseguição religiosa, e, sim, uma campanha de difamação dirigida do exterior contra o governo brasileiro.” Segundo o Cardeal, ao condenar a tortura o Papa não se referia ao Brasil. Na tarde do mesmo dia, Dom Rossi foi destituído pelo Vaticano do Arcebispado de São Paulo e nomeado prefeito da Congregação de Evangelização dos Povos, em Roma. No mesmo ato, o Papa nomeou Dom Paulo Evaristo Arns para suceder a ele à frente da Arquidiocese paulistana.

23 de outubro de 1970. Recebemos, no Presídio Tiradentes, a visita de Dom Paulo. Concedeu-nos a honra de sua primeira visita pastoral como novo arcebispo. Dali partiu para o retiro que antecedia a sua posse, a 1º de novembro de 1970.

21 de novembro de 1970. Fomos despertados às seis da manhã pela visita de Dom Paulo. Veio elebrar conosco no Presídio Tiradentes. O altar, um caixote vazio de maçãs; o cálice, um copo america-


no; o templo, uma cela apertada; os fiéis, prisioneiros em sua maioria.

Janeiro de 1971. Dom Paulo denunciou a prisão do padre Giulio Vicini e da agente pastoral Yara Spadini. Encontrados com manifestos de protesto contra a morte do operário Raimundo Eduardo da Silva — que se achava recolhido ao Hospital Militar à disposição das autoridades policiais —, foram torturados no Deops. O arcebispo invadiu a repartição e conseguiu avistar-se com os dois, que lhe mostraram as marcas das sevícias. Indignado, mandou afixar em todas as paróquias da arquidiocese nota em defesa dos presos e de denúncia das torturas sofridas.

5 de maio de 1971. O general Médici recebeu, no Palácio do Planalto, Dom Paulo, que lhe relatou casos de torturas. O ditador, com a rispidez que o caracterizava, não se fez de rogado e reiterou: “Elas existem e vão continuar porque são necessárias. E a Igreja que não se meta, porque o próximo passo será a prisão de bispos…”

23 de dezembro de 1971. À tarde, hora das visitas, Dom Paulo foi ao Presídio Tiradentes. Percorreu cada uma das celas. Demos a ele uma grande cruz de couro — a Comenda do Cárcere — pirografada com versículos do Evangelho, trechos do Documento de Medellín e nomes de todos os revolucionários assassinados. Gravamos: “O Bom Pastor é aquele que dá a vida por suas ovelhas.”

12 de maio de 1972. Dom Paulo, nosso mediador na greve de fome coletiva, esteve na Penitenciária do Estado, onde nos encontrávamos misturados aos presos comuns. Não nos permitiram vê-lo. Segundo o diretor, só podemos falar com os advogados. Porém, soubemos que o arcebispo advertiu-o de que está historicamente comprovado que medidas de isolamento carcerário geralmente precedem a eliminação física... Em encontro com o juiz Nelson Guimarães, do Tribunal Militar, o arcebispo questionou-o: “O senhor sabe que é responsável pela vida dos presos?”. O juiz auditor assentiu: “Assumo a responsabilidade se vierem a morrer”. Dom Paulo retrucou: “Meu filho, assume

dois ou três dias. Depois, não assume mais. Sua consciência passa a martirizá-lo. E que contas dará o senhor perante si mesmo e perante Deus?”. O juiz respondeu de cabeça baixa: “O senhor tem razão.”

Vladimir Herzog suicidado. Dom Paulo decidiu celebrar missa solene na Catedral da Sé em homenagem a ele. Judeus que apoiavam a ditadura tentaram demover o Cardeal: “Por que missa para Herzog? Era judeu!”. Dom Paulo respondeu: “Jesus também.” O cardeal Paulo Evaristo Arns era um dos homens mais corajosos que conheci. Imbuído da fé que caracterizou seu patrono e modelo, Francisco de Assis, jamais pensou no próprio sucesso. Sua vida dedicada ao próximo veio a público, com riqueza de detalhes, na obra “Dom Paulo Evaristo Arns — um homem amado e perseguido”, de Evanize Sydow e Marilda Ferri. Se a História da independência do Brasil não pode ignorar Tiradentes, nem o movimento ecológico, Chico Mendes, a resistência à ditadura que nos governou 21 anos deve muito à figura ímpar de Dom Paulo. O mesmo cuidado amoroso que São Francisco dedicava aos pobres e à natureza, Dom Paulo estendeu às vítimas da repressão. O livro Brasil: Nunca mais é uma radiografia irrespondível da ditadura, graças à iniciativa de Dom Paulo e do pastor Jaime Wright, que promoveram uma devassa nos arquivos da Justiça Militar. Analisaram o conteúdo de mais de um milhão de páginas de processos políticos. A anistia ainda evita que torturadores paguem por seus crimes. Mas, graças a esses dois pastores, não se apagarão da memória brasileira o terror de Estado e o sofrimento de milhares de vítimas. Dom Paulo Evaristo Arns rezou, com a vida, a oração de São Francisco de Assis, adaptada aos nossos tempos: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver… repressão e pobreza, que eu leve liberdade e justiça”. * Frei Betto, frade dominicano, ex-preso político, é escritor, autor de “Minas do Ouro” (Rocco), entre outros livros.

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Cardeal Arns, confrade, amigo dos pobres e meu amigo

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stas foram as palavras lidas ao povo numa missa com o povo antes do sepultamento de Dom Paulo Evaristo Arns, na sexta-feira, na Catedral de São Paulo. “Querido confrade, amigo dos pobres e meu amigo, meu mestre e promotor de minha vida de teólogo, Dom Paulo Evaristo Arns. Morrer, não é morrer. É atender a um chamado de Deus. Deus o chamou e o Sr. foi contente ao seu encontro. Lá encontrará, estou seguro, os milhares de pobres, refugiados, torturados e assassinados que o Sr. defendeu, protegeu e por eles arriscou sua própria vida. Jamais esquecerei o tempo de Petrópolis nos começos dos anos 60 do século passado, quando juntos, nos fins de semana, praticávamos a pastoral de periferia no bairro do Itamarati, o seu amor aos pobres dos morros e o carinho para com as crianças. Ainda não terminei de lhe agradecer a coragem com a qual tomou a defesa da Teologia da Libertação e de minha pessoa no diálogo que tivemos com o então Cardeal Joseph Ratzinger logo após o interrogatório a que fui submetido em Roma. Na minha presença e junto com o Card. Dom Aloysio Lorscheider, o Senhor testemunhou que a teologia que nossos teólogos fazíamos em favor dos pobres e com eles era boa para as comunidades e significava um bem da Igreja local que devia ser defendido por seus pastores. Por isso justificava sua presença em Roma. Sempre me animou e apoiou em minha atividade teológica. Guardo até hoje como um sacramento o bilhete que me deixou na mão antes de subir ao navio que me levava para estudos na Europa: “Caro confrade Frei Leonardo: gostaria que soubesse isso:-

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queremos dar-lhe o melhor porque a Igreja do Brasil precisa do melhor. Você também sabe que foi enviado em nome de Deus. Viva e estude por Ele e para Ele. “Nisi Dominus aedificaverit domum in vanum laborant qui aedificant eam”: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam”. Quero ser fiel a este mandato pelo tempo que me resta de trabalho útil a serviço da fé e da libertação dos sofredores deste mundo, da salvaguarda da vida e da preservação da Mãe Terra. Se é verdade o que diz o poeta “que morrer é fechar os olhos para ver melhor” então, agora, querido Dom Paulo, o Senhor estará vendo a Deus a quem sempre serviu, face a face, participando da festa com todos os libertos e bem-aventurados do céu. Com minhas preces diante do Senhor e com saudades, peço que, lá junto do Pai e Mãe de bondade, olhe para todos nós e nos ajude a seguir o exemplo luminoso que nos legou. De seu antigo aluno e amigo, Leonardo Boff” Petrópolis 15 de dezembro de 2016.


Cardeal-profeta do Brasil

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ão é possível olhar para a história do Brasil na segunda metade do século XX, sem ver Dom Paulo Evaristo Arns. Ao lado de Dom Pedro Casaldáliga, Dom Helder Câmara, Dom Antônio Batista Fragoso, Dom José Maria Pires e outros, Dom Paulo compôs a linha de frente de uma Igreja popular, comprometida com os pobres, os direitos humanos e a luta contra o regime militar brasileiro instalado com o golpe de 1964. Os teólogos formuladores da Teologia da Libertação no Brasil eram interlocutores frequentes de Dom Paulo e os demais bispos e cardeais, alguns deles leigos e outros sacerdotes ou religiosos: Carlos Mesters, Frei Betto, Leonardo Boff, Ivone Gebara, José Comblin, entre outros. Em maio de 1966, foi nomeado bispo auxiliar do então cardeal arcebispo de São Paulo, dom Agnelo Rossi, e a partir de então sua ligação com a maior cidade do Brasil tornou-se profunda. Estimulava a criação de centenas de núcleos das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), visitava com frequência os presos da Casa de Detenção e, em 1969, foi designado por Dom Agnelo Rossi para acompanhar os frades dominicanos e outros religiosos na prisão. Ao visitá-los e a outros presos, constatou que todos eram torturados –a experiência marcou Dom Paulo. Um ano depois, em 1970, o Papa Paulo VI nomeou-o arcebispo de São Paulo – os dois tiveram uma amizade sólida, que foi decisiva anos depois na defesa de Dom Pedro Casaldáliga, perseguido e odiado pelo regime militar brasileiro e pela cúpula conservadora da Cúria romana. Dom Paulo procurou o Papa para interceder por Dom Pedro e a resposta de Paulo VI tornou-se famosa: “Mexer com Pedro é mexer com o papa”. Os militares não gostaram nada da nomeação de Dom Paulo, menos ainda quando ele tornou-se Cardeal, em 1973, no auge da repressão governamental. Ato contínuo à sua nomeação como cardeal, ele criou a Comissão de Justiça e Paz, que funcionava na Cúria Metropolitana e tornou-se o pólo de resistência, refúgio, solidariedade e ações legais em defesa de prisioneiros e desaparecidos políticos, seus familiares. Em 1975, quando o jornalista Wladimir Herzog

foi morto sob tortura na sede do II Exército em São Paulo, em 25 de outubro, Dom Paulo uniu-se ao rabino Henry Sobel (Herzog era judeu) e ambos lideraram as celebrações religiosas até o enterro, debaixo de intensa pressão do regime militar, que desejava que sua versão de “suicídio” prevalecesse. O culto na catedral da Sé, presidido por Dom Paulo, sob intenso cerco das forças de repressão, que reuniu milhares de pessoas, é um dos marcos da vida brasileira. Em 30 de outubro de 1979 sofreu um duro golpe com o assassinato pela polícia de Santo Dias da Silva, seu amigo pessoal, operário metalúrgico, líder da Pastoral Operária e das Comunidades Eclesiais de Base. O velório e enterro de Santo ocorreu novamente sob pressão violenta do regime militar e, mais uma vez, Dom Paulo liderou as celebrações religiosas. O lema de Dom Paulo como bispo, arcebispo e cardeal – “De esperança em esperança” – foi uma inspiração em sua vida sacerdotal. Ele dizia que São Francisco era “o encanto de toda minha vida” e que seu desejo último era “ser padre na vida eterna”. A última aparição pública de Dom Paulo Evaristo Arns foi uma homenagem, na noite de 24 de outubro, no Teatro da Pontifícia Universidade Católica (Tuca), na capital paulista, pelos seus 95 anos de vida, comemorados no dia 14 de setembro. A cerimônia foi marcada por relatos de ações de Arns contra a ditadura militar, nas décadas de 60 e 70, e em defesa dos direitos humanos. O Papa Francisco enviou uma mensagem especialmente para a comemoração. Mauro Lopes, jornalista Especial | Dom Paulo Evaristo Arns

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HISTÓRIA

FORMAÇÃO E ATIVIDADES

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uinto dos 14 filhos que Gabriel Arns e Helena Steiner tiveram, Paulo Evaristo nasceu em 14 de setembro de 1921, na pequena Forquilhinha, na região de Criciúma, antiga colônia de imigrantes alemães em Santa Catarina. Sua formação religiosa começa no Seminário menor em Rio Negro (PR), onde fica de 1934 a 1939. – Veste o hábito franciscano no Noviciado em Rodeio, SC, em1940.

Formação Universitária Filosofia: Curitiba, 1941-1943 Teologia: Petrópolis, 1944-1947


Especialização e pós-graduação Licença em Letras: estudos brasileiros, latinos, gregos e história antiga; Universidade de Paris (Sorbonne), 1947 – 1950 Pedagogia: Instituto de Pedagogia de Paris, 1950 – 1952 Literatura Antiga: Instituto de Altos Estudos, Paris, 1950-1952 Estágios: 3 na Alemanha, 2 na Inglaterra, 1 na Holanda, 1 na Bélgica, 1 nos Estados Unidos e 1 no Canadá, 1948-1950 Doutorado em Letras: Universidade de Paris (Sorbonne), em 03/05/52, com a distinção maior, “très honorable” para a tese: La technique du livre d’après Saint Jérome Teses secundárias: Les Confessions de Saint Augustin dans l’oeuvre de Saint Bonaventure; Thesaurus Linguae Latinae.

Cargos e atividades

1946-1966  rofessor no Ginásio de Rio Negro (PR), 1946. P Professor de francês e letras clássicas; Seminário Santo Antônio, Agudos (SP), 1953-1955. Fundador da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Bauru, 1954. Professor de língua e literatura francesa: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Bauru, 19541955. Professor e Orientador da Campanha de Aperfeiçoamento do Ensino Secundário, do Ministério da Educação e Cultura: Juiz de Fora e Curitiba 1955-1957 Professor de Literatura Cristã e História da Igreja Antiga: Instituto de Teologia de Petrópolis, 1956. Mestre de Clérigos e prefeito de estudos: Ordem dos Frades Menores, Petrópolis, 1956-1966. Capelão da Comunidade de São José Operário, Itamarati, Petrópolis, 1956-1966. Professor de Didática geral: Faculdade de Filosofia de Petrópolis, 1958. Jornalista (não-profissional): registro na 14º Delegacia Regional do Trabalho: Petrópolis, 19611966. Vice-Provincial da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, 1962-1966.

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 embro da Comissão Internacional para reforma M das Constituições dos Frades Menores: Roma, Itália, 1966.

1966-1970  Papa Paulo VI o nomeou bispo auxiliar de Dom O Agnelo Rossi em São Paulo, 02/05/66. Foi Ordenado bispo em Forquilhinha, SC, em  03/07/66. Atuou como vigário episcopal da Região Norte (Santana), 1966-1970. Em Santana começou trabalho orgânico e integrado com padres, religiosos e leigos, preocupado com a formação permanente do clero e do povo. Criou a “Missão do Povo de Deus”, passando um tempo em cada paróquia da região com uma equipe para multiplicar os ensinos do Concílio Vaticano II. Dessa missão, surgiram Ministros da Palavra que levaram a “Semana da Palavra”, em 8 etapas, para as ruas da arquidiocese, evangelizando a cidade, formando comunidades eclesiais de base (CEBs) e multiplicando grupos de rua. Membro da Comissão Central da CNBB, setor educação, 1967-1971. Membro do Secretariado do Vaticano para os  Não-Crentes, 1968-1983. Em 1969, a pedido do Cardeal Rossi, acompanhou o episódio dos Seminaristas dominicanos que foram presos pelos militares porque ajuda-

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vam universitários contra a ditadura e passou a defendê-los. Jornalista (não profissional) em São Paulo, 19661976.

1970-1975  º Arcebispo Metropolitano de São Paulo, nome5 ação em 22/10/70 e posse em 01/11/70. Grão-chanceler da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), 01/11/70 a 22/05/98. Grão-chanceler da Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, 1/11/70 a 22/05/98.


residente do Amparo Maternal, maternidade P mantida pela Arquidiocese de São Paulo para acolher as mães carentes e/ou solteiras que não são assistidas por nenhum tipo de previdência social pública ou privada, 1970 – 1998. Presidente da Regional Sul-1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), 1971-1975; Em janeiro de 1971, denunciou a prisão e tortura de dois agentes de pastoral, o padre Giulio Vicini e a leiga Yara Spadini. Apoiou Dom Hélder Câmara e Dom Waldyr Calheiros que estavam sendo pressionados pelo regime militar. O “São Paulo”, semanário arquidiocesano, começa a avaliar, em 1971, a relação da Igreja com o Estado e sofre prolongada censura. Em 1972, como presidente do Regional Sul-1  da CNBB, reuniu todos os bispos do Estado de São Paulo em Brodosqui, publicando, a seguir, o primeiro dos documentos contundentes da Igreja sobre os direitos humanos, “Testemunho de Paz”, com grande repercussão. Em 1972 lançou a “Operação Periferia” para servir as áreas mais carentes da cidade de SP. Criou a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese que patrocinou, entre tantas iniciativas, a publicação do livro “Meu Depoimento sobre o Esquadrão da Morte”, de Hélio Bicudo. Em 05/03/73 ocorreu sua investidura como ter-

O LEGADO DA DITADURA

“Os efeitos da revolução ainda não acabaram. Foram herdadas dela, entre outras coisas, as relações que hoje temos com os operários e com as forças armadas. A revolução também agravou o problema da distribuição de renda. Como disse o próprio general Médici, o Brasil ficou mais rico, mas o povo se tornou mais pobre. A revolução empobreceu o povo e o Estado, que se tornou mais esbanjador e menos capaz de distribuir as riquezas.” Em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo” em 2008

ceiro Cardeal de São Paulo, em Roma, nomeado pelo Papa Paulo VI. Deixou o Palácio Pio XII em 1973 para morar em casa simples no bairro do Sumaré. Os US$ 5 milhões da venda do palácio foram aplicados na construção de 1.200 centros comunitários na periferia da cidade. Presidiu, na Catedral, em 30/03/73, a “Celebração da Esperança” em memória do estudante

Especial | Dom Paulo Evaristo Arns

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universitário Alexandre Vannucchi Leme, torturado e morto pelo regime militar no cárcere. Em 1973 assumiu como Igreja-Irmã a prelazia de Itacoatiara, no Amazonas, enviando padres, irmãs e agentes de educação para desenvolver projetos com as comunidades predominantemente indígenas da região. Realizou, em novembro de 1973, a “Semana da Paz na Terra”, para a defesa dos Direitos Humanos. Sofreu a perempção da rádio da Arquidiocese, a Rádio Nove de Julho, por decreto assinado pelo Presidente Médici em 01/11/73 apesar de os próprios órgãos governamentais haverem elogiado, poucos dias antes, os relatórios enviados e o desempenho técnico da rádio. Em 26/10/73, na antiga Cúria Metropolitana na Praça Clóvis Bevilaqua, centro de São Paulo, participou, juntamente com o reverendo Jaime Wright, do lançamento da 1ª edição do folheto ecumênico sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos, publicado pela Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE). Participou do Sínodo Mundial dos Bispos sobre Evangelização, em Roma, 1974. Membro da Sagrada Congregação para os Sacramentos e o Culto Divino, 1974-1988. Acompanhado de familiares de presos políticos foi a Brasília em 1974, para encontro com o general Golbery do Couto e Silva, quando apresentou dossiê sobre 22 casos de desaparecimentos.

1975-1980  m 1975 começou nova etapa arquidiocesana, E obtendo da Santa Sé a nomeação de quatro novos bispos auxiliares: Dom Joel Catapan, Dom Angélico Bernardino, Dom Francisco Vieira e Dom Mauro Morelli, formando o Colégio Episcopal e influenciando decididamente na pastoral com a regionalização mais bem estruturada. Presidiu a Assembleia Arquidiocesana em novembro de 1975, que aprovou as 4 prioridades de seu 1° Plano de Pastoral: CEBs, Periferia, Mundo do Trabalho e Direitos Humanos. Constituiu e aprovou a Comissão Arquidiocesana de Pastoral dos Direitos Humanos e Marginalizados. Começa a fazer apelos em prol da anistia. Em 1975 participou do Colóquio Internacional e

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Interreligioso realizado em Bellagio (Itália), com o tema: “Fome e alimentos para o futuro do mundo. Presidente da Regional Sul – 1 da CNBB: 2° mandato 1975 – 1979. Celebrou em 31/10/75, na Catedral da Sé, o histórico culto ecumênico em memória de Wladimir Herzog, jornalista morto na tortura dos porões da ditadura militar. Com o episcopado do estado de São Paulo lançou, em novembro de 1975, a declaração “Não oprimas teu irmão”, que reiterava a denúncia e condenação da tortura. Recebeu dois bispos para a arquidiocese em 1976: Dom Antonio Celso Queiroz e Dom Luciano Mendes de Almeida. Juntamente com Adolfo Pérez Esquivel, tomou medidas práticas em favor das vítimas da “guerra suja” na Argentina, a partir do golpe militar de 1976 naquele país. Empossado como jornalista militante pela ABI (Associação Brasileira de Imprensa) em São Paulo, em 30/05/76. Recebeu, juntamente com o Presidente norte-americano Jimmy Carter, título de Doutor Honoris Causa em Direito, da Universidade de Notre Dame, Indiana, USA, 1977. A PUC foi invadida pela polícia comandada pelo coronel Erasmo Dias, com enormes prejuízos pessoais e materiais. Participou, em 1977, do Colóquio Internacional e Interreligioso realizado em Lisboa, com o tema “A nova ordem econômica e as religiões”. Defendeu Dom Pedro Casaldáliga, ameaçado de expulsão do país. Apoiou a Ato da Penha, 18/09/77, em solidariedade aos perseguidos pela ditadura, organizado por 20 entidades laicas, que produziram o documento “Epístola dos Leigos pela Justiça e Libertação”. Visitou o Paraguai em 1977 para conhecer o trabalho do Comitê Ecumênico de Igrejas, tornandose o 1° cardeal a visitar aquele país. Cedeu uma sala da cúria metropolitana, em 1977, para o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), a fim de atender o crescente fluxo de refugiados políticos vindos de países vizinhos no Cone Sul (Argentina, Chile e Uruguai, principalmente) onde a repressão militar

O PÊNDULO DA HISTÓRIA

“Existe uma guinada conservadora em todo o mundo, tanto na política e na economia - por isso nós sofremos tanto no Brasil - quanto também na religião. O pêndulo da História vai para um lado, depois para outro lado. Mas não podemos, por causa disso, abandonar nossos deveres essenciais de defesa da dignidade humana e dos direitos da pessoa. Acredito que as correções da História virão, mas virão sempre sob pressão das pessoas.” Em entrevista ao Jornal do Brasil em 1985

era pior que no Brasil. Organizou a Comissão de Ecumenismo e Diálogo Interreligioso (CEDRA) em 05/10/77. Deu início ao curso de bacharelado em teologia para leigos, em 1978. Apoiou em 1978 o movimento “Custo de Vida”. Apoiou, em junho de 1978, a organização CLAMOR – Comitê de Defesa dos Direitos Humanos no cone Sul. Realizou em 1978, e com a Comissão Arquidiocesana de Pastoral dos Direitos Humanos e Marginalizados, a Semana dos Direitos Humanos, no teatro da Universidade Católica (TUCA), sob ameaças do secretário de Segurança Pública. Participou, em novembro de 1978, como um dos principais palestrantes, do Simpósio Internacional sobre Direitos Humanos, organizado pela Vicaría de la Solidaridad, da Arquidiocese de Santiago, Chile. Em dezembro de 1978, lançou a cartilha Humildes contra a Violência, preparada pela Comissão Arquidiocesana de Pastoral dos Direitos Humanos e Marginalizados. Durante esse ano, reuniu-se várias vezes com juízes e promotores públicos para discutir a aplicação da Justiça na linha dos direitos humanos. Encontrou-se com o presidente Jimmy Carter, no Rio de Janeiro, 30/03/78.

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Ao lado do pastor presbiteriano Jaime Wright, coordenou o projeto “Brasil Nunca Mais”, que reuniu documentos e denunciava a prática de crimes cometidos por agentes de Estado contra presos políticos. Em livro, relataram métodos de tortura e acusações ilegais. Em 1972, criou a Comissão Brasileira Justiça e Paz, que articulou denúncias contra abusos do regime militar.

 m companhia de Dom Tomás Balduíno, Bispo E de Goiás, pediu ao CEDI (Centro Ecumênico de Documentação e Informação, e este elaborou, em dezembro de 1978, o documento “Repressão na Igreja do Brasil, reflexo de uma situação de opressão”, com ampla divulgação. Apoiou a Comissão Arquidiocesana de Pastoral dos Direitos Humanos e Marginalizados em sua ajuda à greve dos metalúrgicos do ABC, a qual foi marcada pela morte, em 30/10/79, atingido por bala de policial, do operário Santo Dias da Silva, agente de pastoral da Arquidiocese de São Paulo. O enterro de Santo Dias foi presidida por D. Paulo, apoiado por grande manifestação popular nas ruas do centro de São Paulo. E m julho de 1979, com o comparecimento  maciço da mídia, Dom Paulo deu entrevista na qual anunciava que o Comitê de Defesa dos Direitos Humanos nos Países do Cone Sul (CLAMOR) havia localizado em Valparaíso, Chile, as crianças Anatole e Vicky, o que prenunciava a localização posterior, pelas Avós da Praça de Maio, de mais de 50 crianças, cujas mães tinham sido exterminadas pela repressão na Argentina. Participou, em 1979, da 3a Assembleia dos Bispos Latino-Americanos (CELAM), em Puebla, México.

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 m 04/09/79 fez pronunciamento em culto ecuE mênico em solidariedade ao povo argentino.

1980-1984  efendeu líderes sindicais operários nas greves D de 1980. Com o estímulo do Grão-chanceler, os estudantes, professores e funcionários da PUC-SP realizaram a 1ª eleição para escolha do reitor da universidade. Acolheu, em fevereiro de 1980, a 4ª Conferência da Associação Ecumênica de Teólogos do Terceiro Mundo, com a participação de 140 delegados de 42 países. Acompanhou o Papa João Paulo II em sua 1ª visita ao Brasil, em 1980. Em São Paulo, entre outros atos, João Paulo II falou no estádio do Morumbi para 200 mil operários, em 03/07/80. Em 1981 participou do encontro ecumênico internacional em Estocolmo, Suécia, denominado “Semana Ecumênica de Desenvolvimento”. Apoiou a campanha contra o desemprego, em 1981. Orientou as comunidades da Arquidiocese no  movimento pelas eleições diretas, com a cartilha e slides sobre Fé e Política. Participou em 24/03/81 do culto ecumênico no 1º aniversário da morte de Dom Oscar Romero,


arcebispo assassinado de El Salvador. Participou no Natal de 1981 do culto ecumênico da Esperança, com a participação de refugiados políticos dos países do Cone Sul. Participou, como membro fundador, da Comissão Independente Internacional das Nações Unidas para Questões Humanitárias, criada em decorrência da resolução 34/136 de 14/12/81 da Assembleia Geral da ONU (esta comissão iniciou suas atividades em outubro de 1982), sendo o único religioso, em todo o mundo, eleito para esta comissão. Entregou ao Papa João Paulo II, em janeiro de 1983 em Roma, um exemplar do livro Desaparecidos en Argentina, publicado pelo CLAMOR. Eleito membro do Secretariado do Sínodo Mundial dos Bispos, no Sínodo de outubro de 1983, mandato expirado em 1987. Em 1983 participou, em Uppsala, Suécia, da  “Conferência Mundial Sobre Vida e Paz”, que tratou do desarmamento nuclear, prestigiada com a presença do rei e da rainha da Suécia. Foi membro do Serviço Internacional pelos Direitos Humanos, com sede em Genebra. É membro do Serviço Paz e Justiça na América Latina (SERPAJ-AL). Organizou, em setembro de 1984, na Arquidiocese de São Paulo, a 1º Semana Fé e Compromisso Social – que se tornaria em evento anual – para refletir sobre alguma forte questão social e detectar possíveis soluções e encaminhamentos. O tema foi “A pastoral da Igreja no Brasil e os ensinamentos sociais do Papa João Paulo II”.

1985-1990  ez o discurso de abertura do Congresso InterF nacional de Entidades de Benemerência Não Governamentais, patrocinado pela ONU, em Dakar, África, 19/05/85. Membro da Pax Christi Internacional, junho de  1985. Recebeu, em 1985, a Medalha Nansen do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), no Palácio das Nações, em Genebra. Realizou, com o apoio financeiro do Conselho Mundial de Igrejas e a coordenação do Rev. Jai-

me Wright, o projeto Brasil: Nunca mais, contendo informações obtidas nos arquivos militares oficiais sobre o uso institucionalizado da tortura durante o regime militar dos anos 1964-1985. O livro-resumo, lançado em 15/07/85, permaneceu 91 semanas consecutivas nas listas dos 10 mais vendidos de não-ficção. Em 1987 doou todo o acervo acumulado do BNM ao arquivo Edgard Leuenroth da UNICAMP; 25 coleções de 12 volumes com 6.891 páginas cada coleção, a 14 entidades no Brasil e 11 no exterior; 548 rolos de microfilmes e mais de 100 disquetes ao “Latin American Microform Project (LAMP)”, em Chicago, EUA. Em 1985 foi convidado pelas Igrejas da África do Sul a pronunciar uma série de conferências dentro da campanha “End of Conscription” (Fim da Convocação Militar), mas foi barrado pelas autoridades daquele país no momento em que se dirigia, para embarque em Joanesburgo, ao aeroporto de São Paulo. Estimulou a criação, que ocorreu em 03/10/85, do Centro Santo Dias de Direitos Humanos da Arquidiocese de São Paulo, a fim de coordenar e ajudar a resolver problemas locais de vários cen-

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A VELHICE

“O idoso brasileiro ainda não recebeu da nação o respeito que merece. Mas em todo caso acho que o brasileiro não tem ainda o sentido do tempo; não descobriu a capacidade do idoso; não demonstra ainda o devido respeito por aquilo que foi feito, para o que pode fazer, para o que está fazendo ou que deve ainda fazer para a geração que vive agora e a que virá depois de nós.” Em entrevista à revista do Sesc em 2014

tros regionais de defesa dos direitos humanos que surgiram como resultado da primeira reunião continental de bispos patrocinada pelo SERPAJ-AL. Em 1986 começou a falar contra a dívida externa. Ajudou a fundar, em 15/03/86, a Agência Ecumênica de Notícias (AGEN). Em 26/10/86 presidiu a celebração ecumênica pela Paz, na Praça da Sé. Em 1987 lançou o Projeto Esperança, campanha para conscientização sobre AIDS na Arquidiocese de São Paulo. Participou, em 20/05/87, do culto ecumênico em solidariedade ao povo da África do Sul e outros povos oprimidos do Terceiro Mundo. Recebeu do governo da França, em 09/05/87, o título de Comendador da Legião de Honra, entregue na Cúria pelo embaixador da França no Brasil, presente a primeira-dama Danielle Mitterrand. Tornou-se presidente, em 1987, do Comitê Latino -americano de Peritos pela Prevenção de Tortura (CEPTA). Integrou a Comissão Internacional Sul-Sul, dirigida pelo ex-presidente da Tanzânia, Mwalimu Julius K. Nyerere, em 1987. Em outubro de 1988, falou na II Assembleia Geral do Conselho Latino-americano de Igrejas (CLAI), em Itaici (SP). Foi o único religioso nomeado, em janeiro de  1988, para o Comitê Honorário da Campanha Europeia pela Interdependência e Solidariedade Norte-Sul, mantida pelo Conselho da Europa a

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convite do rei da Espanha, Juan Carlos I.  briu a 1ª Conferência Pan-Americana sobre ReA lações Católico-Judaicas. Teve o território da Arquidiocese de São Paulo dividido pelo Vaticano, em 1989, com a criação de 4 dioceses desmembradas: Osasco, São Miguel Paulista, Campo Limpo e Santo Amaro, com novos bispos, passando a Arquidiocese a ter 6 regiões episcopais. Em 17/12/89 foi o negociador para a libertação do empresário Abílio Diniz, sequestrado por um grupo de chilenos, argentinos, canadenses e brasileiro. Foi indicado oficialmente para o Prêmio Nobel da Paz de 1989. Participou da Romaria da Terra no Maranhão, em 1990. Recebeu, em 1990, o Prêmio Juca Pato de Intelectual do ano, pelo livro Clamor do Povo pela Paz. Em 25/01/90 celebrou culto ecumênico na catedral da Sé juntamente com Dom Robert Runcie, arcebispo da Cantuária, o “papa” da Igreja anglicana. De 23 a 28/07/90 participou, em Princeton, EUA, da Assembleia Internacional Interreligiosa em favor da criança carente, patrocinada pelo UNICEF (Fundo das Nações Unidas para Crianças).

1991-1995  articipou, oferecendo a Catedral católica de São P Paulo, do ato multirreligioso pela Paz no Golfo Pérsico, promovido pelo jornal “Folha de S. Paulo”, em 17/02/91. Participou em 10/04/92, em Campos de Jordão, do congresso internacional patrocinado pela entidade multirreligiosa World Conference on Religion and Peace (WCRP), com sede em Genebra, proferindo palestra sobre: “A responsabilidade das religiões face ao meio ambiente e desenvolvimento”. Criou, em 1992, os Vicariatos de Comunicação e dos Construtores da Sociedade e, em 1993, o Vicariato para o Povo da Rua. Participou de encontro interreligioso com o Dalai Lama, na Catedral da Sé, em 09/06/92. Em 02/08/92 celebrou missa em ação de graças,


na catedral da Sé, pelos 20 anos da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese. Participou da 4ª assembleia dos Bispos Latino -Americanos (CELAM), em Santo Domingo, República Dominicana, em outubro de 1992, onde sofreu grave acidente automobilístico. Inaugurou a Casa São Paulo para padres idosos e professores de Teologia, em 25/02/93. Celebrou, no Ginásio do Ibirapuera, os 250 anos da Diocese de São Paulo (06/12/1745) e o jubileu de ouro da sua ordenação sacerdotal, em 03/12/1995.

1996-2000 Recebeu, do presidente da República Fernando Henrique Cardoso, em 09/07/96, a assinatura de decreto declarando nulo o ato de perempção da Rádio Nove de Julho, de 1973. Inaugurou a Casa de Oração do Povo de Rua, no bairro da Luz, em 28/06/97, construída com o dinheiro do Prêmio Niwano da Paz – espécie de Nobel alternativo do Japão – conquistado em 1994. Presidiu a 13ª Semana Fé e Compromisso Social, em 1997, sobre “O resgate das dívidas sociais”. Tornou-se Arcebispo Emérito de São Paulo em 24/05/98, passando a dedicar parte de seu tempo à promoção da população da Terceira Idade.

 m 28 anos de arcebispado, criou 43 paróquias; E construiu 1.200 centros comunitários; incentivou e apoiou o surgimento de mais de 2.000 Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) nas periferias da metrópole paulistana, particularmente nas atuais dioceses sufragâneas de São Miguel, Osasco, Campo Limpo e Santo Amaro, além das regiões de Belém e de Brasilândia, e assinou sete Planos de Pastoral, com prioridades sempre eleitas democraticamente pelas comunidades. Teve sua atuação, acima descrita, reconhecida por inúmeras entidades, cidades e instituições através de prêmios, títulos e homenagens. Ao entregar o comando da Arquidiocese a seu sucessor D. Cláudio Hummes continuou a produzir 18 programas radiofônicos semanais para a Rádio América e diversas emissoras, tendo deixado apenas, como é óbvio, a alocução semanal “Encontro com o Pastor”. Os artigos para jornais continuaram – a pedido dos editores – em ritmo semanal: para “Notícias Populares”, “Diadema Jornal/ Diário do ABCD” e “Diário Popular”. Participou, em São Paulo, das celebrações oficiais pela beatificação de Frei Antonio de Sant’Ana Galvão, primeiro beato brasileiro – outubro e novembro de 1998. Coordenou, a convite do governo federal – Ministério de Previdência Social –, a parte religiosa dos

Presidenta Dilma Rousseff durante visita ao Arcebispo Emérito de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns. (Taboão da Serra - SP, 18/05/2012)

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Frades se reúnem em almoço festivo com Dom Paulo Evaristo Arns após celebração dos 50 anos de Ordenação Episcopal.

eventos sobre o Ano Internacional do Idoso, com destaque para a celebração multi-religiosa havida na igreja da Consolação em 18/11/1999. Participou da pré-inauguração das instalações  da nova fase da Rádio Nove de Julho em março/1999 e da reinauguração da mesma emissora em outubro/1999, 26 anos após o silêncio imposto pela ditadura militar e a árdua luta da Arquidiocese para reaver a sua rádio. Celebrou a missa de 30º dia do falecimento de Dom Hélder Câmara em Recife-PE, 27/09/1999. Teve sua biografia Dom Paulo, em homem amado e perseguido lançada pela Editora Vozes, de auditoria das jornalistas Evanize Sydow e Marilda Ferri, 05/08/1999. Recebeu, neste período entre 1996-2000, 43 homenagens incluindo 2 cidadanias, 6 doutorados honoris causa, 9 prêmios, 7 medalhas e comendas, 4 títulos de sócio honorário e 15 diplomas e honrarias diversas.

2001 em diante  omeado representante da sociedade civil no N Conselho Deliberativo do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo – março/2001. Nomeado Membro Titular do Conselho da Cátedra UNESCO do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo – abril/2001. Participou do Consistório dos Cardeais em Roma, maio/2001. Lançou sua autobiografia Da esperança à utopia

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– Testemunho de uma vida, pela Editora Sextante, ao completar 80 anos, setembro/2001. Lançou o livro Corintiano, graças a Deus pela Editora Planeta, abril/2004. Relançou, “revisto e atualizado, o livro de 1974 Nova Forma de Consagração da Mulher, agora com o título Consagração da Mulher para Tempos Novos pela Paulus Editora, 2003. Mantém o programa diário “Meditação com Dom Paulo” na Rádio Nove de Julho, 1600 AM, São Paulo. Lançou o livro Conversa com São Francisco pelas Edições Paulinas, junho/2004. Lançou o livro Mulheres da Bíblia, em parceria com Frei Gilberto Gorgulho e Ana Flora Anderson, pelas Edições Paulinas, dezembro/2004. Lançou o livro La tecnica del libro secondo San Gerolamo pela Edizioni Biblioteca Francescana, Itália, maio/2005. Lançou o livro Dez caminhos para a perfeita alegria pela Editora Santuário, julho/2005. Lançou o livro Um padre em sete morros abençoados pela Editora Santuário, novembro/2005. Lançou o livro Estrelas na noite escura – Pensamentos pela Editora Paulinas, março/2006. Relançou, revisto e atualizado, o livro de 1988 O Rosário na Bíblia e na vida do Povo, pela Editora Ave-Maria, junho/2006. Foi empossado “Presidente de Honra” do Conselho Consultivo da Representação da ABI – Associação Brasileira de Imprensa – em São Paulo, 20/06/06.


EM BREVE, DOM PAULO Nas telonas

S

ua história, contada em dois livros lançados pelo jornalista Ricardo de Carvalho, O Cardeal e o Repórter e O Cardeal da Resistência, chegará às telas do cinema com o filme “Coragem – As muitas vidas de Dom Paulo Evaristo Arns”. Dirigido por Carvalho, o documentário – coproduzido pela Globo Filmes e o primeiro a ser feito sobre o arcebispo – retrata sua resistência ao regime militar e está prestes a ser concluído. Ex-repórter da Folha de S.Paulo, Carvalho conheceu Dom Paulo em 1976 por conta de sua intensa relação com a imprensa. Relata o diretor: “Ele foi, sem dúvida, a mais importante fonte de informações contra o regime militar. Como jornalista que é, Dom Paulo não errava uma e tudo que dizia ou denunciava, vinha com provas, relatos... Foi assim quando o pastor Jaime Wright, ligadíssimo a Dom Paulo, me passou, em 1978, a conta-gotas, a primeira lista de desaparecidos políticos checadas em diferentes fontes”. A ditadura brasileira (1964-1985) é mais lembrada pela cara de seus algozes e menos pelos rostos daqueles que lutaram para livrar o país do autoritarismo e da violência dos militares. Entre eles, está o de Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo, que foi o quinto arcebispo da cidade entre os anos 60 e 70 e mais tarde recebeu o título de cardeal. O religioso, que completou 95 anos no dia 14 de setembro, é conhecido como “o inimigo número um da ditadura brasileira” depois de décadas de luta contra as torturas praticadas nos anos de chumbo e em prol das “Diretas Já”. Filho de imigrantes alemães, nascido em 1921, em Forquilhinha (Santa Catarina), Dom Paulo chegou a ser fichado no Dops (Departamento de Ordem Política e Social) em 1979. Em 1985, o Cardeal criou a Pastoral da Infância com o apoio da irmã Zilda Arns, que morreu realizando trabalhos humanitários no Haiti, vítima do forte terremoto que destruiu parte do país, em 2010.


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Com espdompaulo  
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