Page 9

comigo quando digo que este é um quadro que tanto o Velho como o Novo Testamento apresentam do povo de Deus. Esses homens de Deus se sobressaíram porque, quaisquer que fossem as circunstâncias e condições, eles pareciam possuir um segredo que os capacitava a viver em triunfo, sendo mais que vencedores. Portanto, é imprescindível que examinemos o problema da depressão espiritual muito de perto. Já analisamos o problema em geral, bem como algumas de suas causas principais. Vimos que a essência do tratamento, de acordo com o salmista, é que devemos nos enfrentar a nós mesmos. Em outras palavras, devemos falar com nosso "eu" interior, em vez de permitir que ele fale conosco. Devemos assumir o controle de nós mesmos, falando com a nossa alma, como o salmista fez, perguntando: "Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim?" "Você não tem o direito de se sentir assim. Por que está tão desanimada e abatida?" Ele se enfrenta e fala consigo mesmo, discute consigo mesmo e se coloca novamente numa posição de fé. Ele se exorta a ter fé em Deus, e então está em condições de orar a Deus. Quero examinar este método defendido pelo salmista. O princípio vital é que devemos nos enfrentar e examinar a nós mesmos, e se estamos entre aqueles que parecem nunca conhecer a alegria da salvação e o gozo do Senhor, precisamos descobrir a causa. As causas podem ser muitas, e em minha opinião, a essência da sabedoria nesta questão é tratar dessas causas, uma por uma, e examiná-las em detalhe. Não devemos tomar nada por certo. Na verdade, creio que poderia ser facilmente constatado que a maior causa de problemas nesta área, é a tendência fatal de tomar certas coisas como garantidas. Quanto mais eu falo com as pessoas sobre isso, mais vejo que é este o caso. Há tantas pessoas que parecem nunca chegar a uma posição firme sobre a fé cristã, porque não chegam a uma definição clara em sua mente quanto a certos pontos primários, certas coisas fundamentais que deviam ser tratadas no princípio. Embora correndo o risco de ser mal compreendido, vou apresentar isto assim: o problema específico do qual estamos tratando tem a tendência de ser mais comum entre aqueles que foram criados e educados de maneira religiosa, do que entre os que não foram criados e educados dessa maneira. Parece afetar mais aqueles que foram criados em lares de famílias cristãs, e que sempre foram levados a lugares de adoração, do que aqueles que não foram. Há muitos que parecem atravessar a vida da forma que Shakespeare descreveu como "presos em superficialidade e miséria". Parece que nunca saem disso. Estão envolvidos na igreja, e muito interessados em assuntos cristãos; todavia, se os compararmos com a descrição que o Novo Testamento faz da "nova criatura em Cristo", veremos imediatamente uma grande diferença. De fato, eles mesmos vêem isso, e muitas vezes é a causa principal da sua depressão e infelicidade. Eles vêem outros cristãos se regozijando, e dizem: "Bem, não posso dizer que sou assim. Essa pessoa tem algo que eu não tenho" — e dariam tudo para obter o que a outra pessoa tem. Eles lêem biografias de santos que enriqueceram a vida da Igreja Cristã, e admitem logo que não são assim. Sabem que nunca foram assim, e que essas pessoas obviamente usufruíam de algo que eles mesmos nunca tiveram. Há um grande número de pessoas nessa situação infeliz. Para elas a vida cristã parece ser um constante problema, e estão sempre fazendo a mesma pergunta: "Por que não posso chegar a esse nível? Por que não posso ser assim?" Lêem livros que oferecem princípios da vida cristã, vão a reuniões e conferências, sempre em busca desse algo que não conseguem encontrar. E ficam desanimadas, sua alma fica abatida e inquieta dentro delas. Ao tratar com tais pessoas, é de importância vital certificar-se que os princípios básicos e fundamentais da fé cristã estão claros em suas mentes. Vezes sem conta, eu descobri que o verdadeiro problema delas estava nisso. Não digo que não fossem cristãs, mas eu diria que são entre os que chamo de "cristãos miseráveis" — simplesmente porque não entenderam o caminho da salvação, e por isso todos os seus esforços em geral resultaram em nada. Muitas vezes se concentram no assunto da santificação, mas isto não os ajuda, porque não entenderam a justificação. Supondo que estão no caminho certo, acham que tudo que precisam fazer é continuar nele. É um ponto interessante para investigação teológica, se tais pessoas são cristãs ou não. Eu, pessoalmente, diria que são. John Wesley é um exemplo clássico. Eu hesitaria em afirmar que John Wesley não era cristão antes de 1738; mas tenho certeza que ele não havia entendido o caminho da salvação como sendo somente através da justificação pela fé, até 1738. Em certo sentido ,ele concordara com todos os ensinos da Bíblia, mas sem captá-los ou compreendê-los plenamente. Não tenho dúvida nenhuma que, se o tivesse interrogado, ele teria dado todas as respostas corretas, até mesmo sobre a morte do Senhor Jesus; no entanto, em sua experiência ele não tinha uma compreensão clara da justificação pela fé. Foi somente depois de seu encontro com os irmãos morávios, e especialmente após uma conversa com um deles, chamado Peter Bohler, numa viagem de Londres a Oxford, que ele verdadeiramente compreendeu essa doutrina vital. Ali estava um homem que tinha tentado encontrar felicidade em sua vida cristã através do que fazia — pregando aos prisioneiros em Oxford, renunciando à cátedra que ocupava na universidade, e enfrentando os perigos de uma viagem através do Atlântico para pregar aos pagãos da América. Estava tentando alcançar a felicidade seguindo um certo padrão de vida. Contudo o seu problema todo residia no fato que John Wesley nunca tinha realmente compreendido a doutrina da justificação pela fé. Ele não tinha entendido o versículo que estamos considerando: "Concluímos pois que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei". Parece quase impossível que um homem assim, criado num lar excepcionalmente piedoso, e que passara sua vida toda no trabalho cristão, pudesse ter uma compreensão errada a respeito de um ponto tão básico e fundamental — mas assim foi! E eu diria que esta é a situação de um grande número de pessoas ainda hoje. Elas supõem estarem certas a respeito das coisas básicas, mas nunca entenderam sua justificação, e é exatamente aí que o diabo causa confusão. Agrada-lhe que tais pessoas estejam preocupadas com santificação e santidade e coisas assim, mas elas nunca encontrarão o caminho certo até que esclareçam este aspecto, e portanto é aqui que devemos começar. Não adianta tratar da estrutura, se o alicerce tem falhas. Então devemos começar por esta grande doutrina. Esta confusão é um problema antigo. Num certo sentido é a obra-prima de Satanás. Ele até nos encorajará a sermos justos, enquanto puder nos confundir neste ponto. E ele está conseguindo isso, a julgar pelo fato que as pessoas

Depressão Espiritual - D. M. Loyd Jones  

livro evangélico

Depressão Espiritual - D. M. Loyd Jones  

livro evangélico

Advertisement