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nas epístolas deste grande e poderoso apóstolo dos gentios. Não há nada mais enganador, ao se ler as cartas do apóstolo Paulo, do que presumir que, depois de terminar o assunto que o levou a escrever, ele ao mesmo tempo terminou de proferir coisas grandes e poderosas. Devemos sempre examinar com atenção os pós-escritos deste apóstolo. Nunca se sabe quando ele vai incluir uma jóia preciosa. Em qualquer lugar, em todo lugar, desde a introdução até os pós-escritos de suas cartas, há em geral um discernimento espantoso da verdade, ou alguma profunda revelação doutrinária. Estamos aqui, de certa forma, olhando para o pós-escrito desta carta. O apóstolo terminou o assunto que se propusera a apresentar no final do versículo nove, e agora está apresentando seus agradecimentos pessoais aos membros da igreja de Filipos por sua bondade para com ele pessoalmente, pela oferta que tinham enviado. Mas como já vimos, o apóstolo não podia fazer isso sem imediatamente se envolver em doutrina. Por mais ansioso que estivesse para lhes agradecer, ele está ainda mais ansioso por lhes mostrar, e mostrar a outros, que sua suficiência estava em Cristo, e quer fosse lembrado ou esquecido pelos homens, ele sempre estava completo no Senhor. E é em relação a isso que chegamos neste versículo treze. Afirmo que esta é uma declaração assombrosa: "Posso todas as coisas naquele que me fortalece". É uma declaração caracterizada ao mesmo tempo por um tom de triunfo e de humildade. Ele parece estar se vangloriando, mas se examinarmos esta declaração a fundo, perceberemos que é um dos tributos mais gloriosos e notáveis que Ele rendeu ao seu Senhor e Mestre. É uma dessas afirmações paradoxais em que este apóstolo parecia se deleitar; de fato, é a simples verdade, afirmar que a verdade cristã sempre é essencialmente paradoxal. Ela ao mesmo tempo nos exorta a nos regozijarmos e gloriarmos, e no entanto a sermos humildes e modestos. E não há contradição, porque a glória do cristão não está em si mesmo, e sim no Senhor. Paulo gostava de dizer isso. Vejamos, por exemplo, sua declaração em Gálatas 6:14: "Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo". Ou, em outra passagem: "Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor". Aqui temos a exortação, por um lado, para que nos gloriemos; sim, mas sempre e somente nEle. Ora, esta declaração pertence a essa categoria particular, e talvez a melhor maneira de a examinarmos, é citar uma outra tradução. A Edição Revista e Corrigida é, de certa forma, bastante correta, mas realmente não comunica a nuança particular de sentido que o apóstolo queria transmitir. Ela diz: "Posso todas as coisas naquele que me fortalece". Mas sugiro que uma tradução melhor do texto seria: "Sou forte para todas as coisas naquele que constantemente me infunde força". Isso nos dá o sentido exato — "Sou forte, ou sou fortalecido para todas as coisas naquele que constantemente me infunde força". Isso nos dá o sentido exato — "Sou forte, ou sou fortalecido para todas as coisas naquele que constantemente me infunde força". O que o apóstolo realmente está dizendo não é tanto que pode fazer certas coisas, ele mesmo, mas que ele é capacitado a fazer certas coisas, na verdade todas as coisas, por Aquele que lhe infunde a Sua força. Em outras palavras, temos neste versículo a explicação completa e final do que Paulo estava dizendo nos versículos precedentes, onde afirma: "Já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome, tanto a ter abundância como a padecer necessidade". Vimos que nessa passagem o apóstolo estava dizendo que chegara a aprender. Nem sempre fora capaz de fazer isso. Paulo teve que aprender como viver contente em qualquer situação, como ser auto-suficiente, como ser independente das circunstâncias e do ambiente. Ele teve que aprender, e na verdade diz que fora "iniciado" no segredo de como fazer isto. Esse é o sentido de "estou instruído", e vimos algumas das formas em que o apóstolo tinha sido guiado. Vimos que ele veio a ter esse conhecimento pela experiência, por raciocínio e argumentação lógica de sua fé cristã, e mediante cultivo de um conhecimento pessoal íntimo do Senhor, olhando para Ele e Seu exemplo grandioso. Entretanto, é aqui neste versículo treze que temos a explicação final e definitiva. O segredo real, Paulo diz, que eu descobri, é que sou forte, ou sou fortalecido para todas as coisas naquele que constantemente me infunde a Sua força. Essa é a explicação definitiva. E nem preciso lembrar que esse é o ponto ao qual o apóstolo sempre retorna. Paulo nunca desenvolveu um argumento sem voltar a isso. Esse é o ponto ao qual ele sempre traz cada argumento e discussão, tudo sempre acaba e se concentra em Cristo e com Cristo. Ele é o ponto final. Ele é a explicação da existência de Paulo e de toda a sua perspectiva de vida. Essa é a doutrina que ele nos apresenta e recomenda aqui. Em outras palavras, ele está nos dizendo que Cristo é todo-suficiente para cada circunstância, para cada eventualidade e para cada possibilidade. E naturalmente, ao dizer isso, ele está nos apresentando aquela que, de muitas formas, pode ser descrita como a doutrina fundamental do Novo Testamento. Afinal, a vida cristã é uma vida, é um poder, é uma atividade. Temos a tendência de nos esquecermos disso. Não é apenas uma filosofia, não é um ponto de vista, não é um ensino ou doutrina que adotamos e tentamos pôr em prática. É tudo isso, mas é algo infinitamente mais. A própria essência da vida cristã, de acordo com os ensinos do Novo Testamento, é que ela é um imenso poder que entra em nós; é uma vida, se preferirem assim, que está pulsando em nós. É uma atividade, e uma atividade que vem de Deus. O apóstolo já enfatizou isso em diversos lugares desta epístola mesmo. Quero mencionar alguns. No primeiro capítulo ele diz que está confiante "que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até o dia de Jesus Cristo" (versículo 6). "Quero que pensem"; Paulo está dizendo, "a respeito de si mesmos como cristãos dessa maneira. Vocês são pessoas em quem Deus começou a operar; Deus entrou em vocês, e está operando em vocês". Isso é o que os cristãos realmente são. Não são apenas pessoas que adotaram uma certa teoria e estão tentando colocá-la em prática; é Deus fazendo algo neles e através deles. Ou então, vejam o capítulo dois, versículos doze e treze: "Operai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade". É segundo a Sua boa vontade que Deus está operando em nós tanto o querer como o efetuar — nossos pensamentos mais elevados, nossas aspirações mais nobres, nossa tendência à justiça, vem de Deus, é algo que é trazido à existência em nós pelo próprio Deus. É a atividade de Deus, não nossa, e é por isso que Paulo nos diz, no capítulo três, versículo dez que sua ambição suprema na vida era "conhecê-lo, e o poder da sua ressurreição..." O tempo todo ele está interessado nesta questão do poder e da vida.

Depressão Espiritual - D. M. Loyd Jones  

livro evangélico

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