Page 81

declaração que ofereça mais conforto para o povo de Deus, do que estes dois versículos. Neles o apóstolo continua com o que é não só o tema deste quarto capítulo de Filipenses, mas o tema principal de toda a epístola. Ele está preocupado com a felicidade e a alegria dos membros da igreja em Filipos, e escreveu-lhes a exortação específica de que deviam "regozijar-se sempre no Senhor" — e repetiu a exortação, dizendo: "E outra vez vos digo: regozijai-vos". Em seu grande desejo de ver essas pessoas experimentando e mantendo esse constante regozijo no Senhor, o apóstolo considerou várias forças e fatores que tendem a roubar a alegria do cristão, levando-o a um nível inferior de vida cristã. Ele tinha dito: "Seja a vossa equidade notória a todos os homens. Perto está o Senhor". Ele mostrou como um espírito irrequieto, um desejo frenético de seguir nosso próprio caminho, muitas vezes pode roubar a nossa alegria. Nestes versículos Paulo prossegue considerando outro fator que talvez seja mais problemático do que qualquer um dos demais que tendem a roubar nossa alegria no Senhor, e é o que podemos chamar "a tirania das circunstâncias", as coisas que nos acontecem. Quão numerosas são. e com que frequência nos acometem! Aqui o apóstolo trata da questão duma forma definitiva. É notável observar, com que frequência este assunto é considerado na Bíblia. Temos uma boa base para declarar que todas as espístolas do Novo Testamento abordam este problema, e foram designadas a ajudar os cristãos primitivos a vencer a tirania das circunstâncias. Eles viviam num mundo cheio de dificuldades, e tinham que sofrer e suportar muitas coisas; e estes homens chamados por Deus escreveram as epístolas para lhes mostrar como vencer essas coisas. É o grande tema do Novo Testamento; mas também é encontrado no Velho Testamento. Por exemplo, os Salmos três e quatro expressam isso com perfeição. O grande problema da vida, num certo sentido, é deitar-se para descansar e dormir. "Eu me deitei e dormi", diz o salmista. Qualquer pessoa pode se deitar, mas a pergunta é: ela pode dormir? O salmista conta que estava cercado por inimigos, e por dificuldades e provações, e o seu poderoso testemunho é que, apesar de tudo isso, ele podia se deitar e dormir, e acordar seguro e confiante de manhã, porque confiava no Senhor. Por que? Porque o Senhor estava com ele, guardando-o. Esse é o tema de tantas passagens da Bíblia, tanto do Velho como do Novo Testamento, que é obviamente um assunto de suprema importância. Sinto às vezes que não há teste maior da nossa fé e da nossa posição cristã. Ê uma coisa dizer que endossamos a fé cristã, e, tendo lido a Bíblia e absorvido a sua doutrina, dizer: "Sim. eu creio em tudo isso, é a fé pela qual eu vivo". ,\4as é outra coisa completamente diferente, permitir que essa fé nos conduza em vitória e triunfo, e mantenha nossa alegria, quando tudo parece estar contra nós, quase nos levando ao desespero. É um teste delicado e sutil da nossa posição, por ser tão essencialmente prático, tão longe da mera teoria. Estamos na posição, estamos na situação, essas coisas estão acontecendo a nós, e a questão é: qual é o valor da nossa fé nessa situação? Ela nos diferencia das pessoas que não têm fé? Isso obviamente é uma questão de grande importância, não só para nossa paz e consolo, mas também, especialmente numa época como esta, é importante do ponto de vista do nosso testemunho cristão. As pessoas hoje nos dizem que são realistas e práticas. Dizem que não estão interessadas em doutrina, não estão muito interessadas em ouvir o que temos a dizer, mas se elas vêem um grupo de pessoas que parecem possuir algo que as capacita a triunfar na vida, elas imediatamente ficarão interessadas. Isso porque sentem-se infelizes, frustradas, inseguras e temerosas. Se, estando nessa situação, vêem pessoas que parecem ter paz, calma e tranquilidade, então estarão prontas a prestar atenção ao que essas pessoas têm a dizer. Portanto, convém que consideremos cuidadosamente o que o apóstolo tem a dizer nestas declarações magistrais sobre como tratar da tirania das circunstâncias e situações — não só para nossa felicidade e contínua alegria no Senhor, mas também para nosso testemunho nestes dias difíceis. A questão parece se dividir a si mesma de forma bastante simples. Antes de tudo, o apóstolo diz que há certas coisas que devemos evitar. "Não estejais inquietos por coisa alguma." Essa é uma injunção negativa — algo a evitar. E precisamos entender bem o sentido desta expressão — "não estejais inquietos". É assim que a Edição Revista e Corrigida traduz o texto; mas a Edição Revista e Atualizada o expressa ainda melhor: "Não andeis ansiosos". "Inquieto" significa "sem quietude" — sem tranquilidade, cheio de nervosa ansiedade, com a tendência de se preocupar ou ponderar demais as coisas. É a mesma palavra que o Senhor usou no sermão do monte, na passagem de Mateus, capítulo seis: "Não andeis cuidadosos. . ." Significa que não devemos andar ansiosos, preocupados, que não devemos ponderar ou meditar demais nas circunstâncias, não ter essa nervosa solicitude a respeito da situação. Esse é o significado desse termo. A propósito, é importante compreender que em nenhum lugar a Bíblia ensina que não devemos cuidar das nossas necessidades diárias ou que não devemos usar de bom senso. Ela jamais encoraja a preguiça. Ao escrever à igreja de Tessalônica, Paulo disse que "se alguém não quiser trabalhar, não coma também". Esta palavra, "inquietos", portanto, não significa "tomar providências sábias"; ela fala de ansiedade, de preocupação desgastante e atormentadora. É isso que o apóstolo diz que devemos evitar a todo custo. Mas ele não termina com essa injunção negativa. Temos aqui uma porção profunda de psicologia bíblica. O apóstolo mostra como tendemos a cair nesse estado de ansiedade mórbida, e deixa claro que é tudo devido à atividade do coração e da mente — "E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus". Ou, como diz a Edição Revista e Atualizada: "Guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus". O problema está na mente e no coração; são eles que tendem a produzir esse estado de ansiedade, de preocupação e solicitude mórbida. Esta, como eu já disse, é uma porção profunda de psicologia, e estou enfatizando isso porque mais adiante vamos ver como é importante compreender a explicação psicológica do apóstolo a respeito desta condição, para aplicar a nós mesmos a solução que ele oferece. O que Paulo está dizendo, em outras palavras é que podemos controlar muitas coisas em nossa vida, e muitas das circunstâncias ao nosso redor, mas não podemos controlar nosso coração e nossa mente. "Este estado de ansiedade", Paulo diz, "é algo que de certa forma está fora do controle; acontece apesar de nós mesmos". Como isso é verdadeiro na experiência! Procurem lembrar uma ocasião em que vocês estiveram nessa condição de ansiedade. Lembrem-se como não podia ser controlada? Vocês ficaram acordados, e teriam dado tudo para poder dormir.. Mas suas mentes não os deixaram dormir, seus corações não os deixaram dormir. O coração e a mente estão fora de controle. Daríamos tudo para conseguir com

Depressão Espiritual - D. M. Loyd Jones  

livro evangélico

Depressão Espiritual - D. M. Loyd Jones  

livro evangélico

Advertisement