Page 48

suficiente para dizer ao Senhor: "Se és tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas", e sai do barco. Que coisa magnífica! Sim, mas olhem para ele alguns minutos mais tarde, clamando amedrontado. Isso sempre foi característico em Pedro. Quando o Senhor estava falando sobre Sua morte, e como Ele iria ser abandonado, Pedro não hesitou em dizer: "Ainda que todos se escandalizem em ti, eu não me escandalizarei"; mas não demorou para ele negar que conhecia o Senhor, com pragas e juramentos! É isso que eu chamo de "mentalidade de Pedro" — instável, o tipo de pessoa que está no topo da montanha ou no mais profundo vale, ou cheio de entusiasmo e vibração, fazendo-nos sentir que não estamos fazendo coisa alguma, ou então totalmente desencorajado, ameaçando abandonar completamente a vida cristã. Vocês conhecem esse tipo de pessoa. A que se deve isso, qual é a causa dessa alternação entre êxtase supremo e miserável fracasso? A resposta é que se deve ao temperamento. O problema desse tipo de pessoa é que ela tende a agir sem pensar; sua fé não está baseada em suficiente reflexão. O problema é que ela não pondera nas coisas, não deixa as idéias amadurecerem. Este era o problema de Pedro. Nos Evangelhos, ele é sempre o primeiro a se apresentar como voluntário. Tomem por exemplo o incidente no capítulo 21 de João. Os discípulos tinham pescado a noite inteira sem conseguir coisa alguma, e então o Senhor aparece na praia. Ao ouvir as palavras de João, "é o Senhor", Pedro imediatamente cingiu-se com a túnica e pulou na água para ir ter com Ele. Ele sempre era o primeiro, o primeiro em tudo, e esse era o seu problema. Temos uma perfeita ilustração disso mesmo após o Pentecoste, no segundo capítulo da Epístola aos Gálatas. Ele ainda era o mesmo homem impulsivo, e Paulo teve que repreendê-lo pelo fato dele não ter esclarecido a questão da justificação pela fé como deveria ter feito. Ele não tinha desculpa, porque foi o primeiro homem a admitir os gentios na Igreja Cristã. Vocês se lembram do incidente com Cornélio. Lendo o registro do capítulo 10 de Atos, encontrarão Pedro elevando-se a magníficas alturas. Foi uma coisa extraordinária, um judeu trazer um gentio para a Igreja Cristã. Mas ele voltou atrás em Antioquia, e quando aqueles mensageiros de Tiago chegaram ali, ele dissimulou, e Paulo teve que resistir-lhe face a face. Qual era o problema com Pedro? Era o seu velho problema; ele aceitou a posição sem avaliar todas as suas implicações. Esse é invariavelmente o problema com este tipo de pessoa — essa energia, essa capacidade de decisão, essa impulsividade tende a levá-las a fazer coisas intuitivamente em vez de avaliá-las e compreendê-las e captá-las; e o resultado são essas violentas variações em sua vida espiritual; ora, isso é uma causa muito comum de depressão espiritual e é por isso que estamos tratando dela. Isso me leva ao segundo ponto que quero enfatizar, e é o ensino deste incidente a respeito de dúvidas: "Homem de pouca fé, por que duvidaste?" Este é um ensino importante — e graças a Deus por ele. A primeira coisa que aprendemos aqui é que nós mesmos às vezes produzimos nossas próprias dúvidas. Ninguém pode negar que este foi o problema de Pedro nesta situação. Ele produziu suas próprias dúvidas ao olhar para as ondas. Ele foi de encontro a dificuldades que não precisavam ter surgido. Não foi como se o Senhor tivesse dito a Pedro: "Pedro, tenha cuidado! Você sabe o que está fazendo?" Não, nenhuma palavra foi dita; Pedro mesmo, ao olhar para as ondas, produziu as dúvidas. Que sejamos muito cuidadosos aqui. Muitas vezes vamos de encontro à depressão, caímos em dúvidas ao nos intrometermos com coisas que deveriam ser evitadas. Estou me referindo a certos tipos de literatura, ou à tolice de nos aventurarmos em certos argumentos que vão além da nossa capacidade intelectual. Isto é muito importante. Há pessoas que são tolas o suficiente para se engajar em discussões sobre ciência, apesar de pouco ou nada saberem a respeito. Em vez de evitarem isso porque não têm conhecimento suficiente, elas mergulham na discussão, e já conheci pessoas cuja fé foi abalada porque fizeram isso. Em outras palavras, elas deviam ter permanecido firmes na verdade que conheciam, sem tentar se envolver em questões científicas em que não são competentes. Assim, às vezes nos conduzimos à dúvidas, e precisamos ser cautelosos para não procedermos dessa maneira. A segunda coisa — e eu dou graças a Deus por isso — é que dúvidas não são incompatíveis com a fé. Muitas vezes, em minha experiência pastoral, encontrei pessoas muito infelizes porque não captaram esse princípio. Certas pessoas pensam que, depois de alguém se tornar cristão, ele nunca mais deveria ser assaltado por dúvidas. Mas não é assim; Pedro ainda tinha fé. O Senhor lhe disse: "Homem de pouca fé". Ele não disse: "Pedro, porque você duvidou, você não tem fé". Isso é o que muita gente pensa e diz, por ignorância, e está muito errado. Embora tenham fé, podem ser perturbados por dúvidas, e existem muitos exemplos disso, não só nas Escrituras, mas também na história da Igreja. Na verdade, eu até diria, com o risco de ser mal-interpretado, que se alguém nunca foi perturbado por dúvidas em sua vida cristã, tal pessoa deveria examinar novamente os fundamentos de sua experiência, e se certificar de que não está gozando uma falsa paz, ou descansando no que eu chamaria de crença presunçosa. Leiam as vidas de alguns dos maiores santos que já viveram neste mundo e descobrirá que eles foram assaltados por dúvidas. O Senhor aqui certamente nos dá a palavra final a respeito — dúvidas não são incompatíveis com a fé. Podem ter dúvidas, e ainda assim ter fé, uma fé fraca. Para colocá-lo de outro modo, e este seria meu próximo princípio, se as dúvidas nos controlam, isso é uma indicação de que nossa fé é fraca. Foi o que aconteceu com Pedro. Sua fé não tinha se desvanecido, mas porque era fraca, a dúvida o controlou e o subjugou, e ele foi abalado. Se tivéssemos feito a Pedro certas perguntas naquele momento de terror e alarme, ele teria dado respostas ortodoxas cada vez. Se lhe tivéssemos feito perguntas sobre a pessoa do Senhor, tenho certeza que ele teria dado a resposta correta, mas naquele momento essas dúvidas o controlavam. Sua fé ainda estava presente, porém, de acordo com o ensino do Senhor aqui, quando nossas dúvidas nos controlam, isso é uma indicação de que nossa fé é fraca. Nunca deveríamos permitir que isso acontecesse. Dúvidas vão nos atacar, mas isso não significa que devemos permitir que nos controlem. Jamais devemos permitir isso. Como podemos evitá-lo? O antídoto, é — muita fé. Se é "pouca fé" que permite que os homens sejam controlados por dúvidas, então o antídoto deve ser "muita fé" — ou grande fé. É isso que é enfatizado aqui acima de tudo o mais. Quais são as características dessa grande fé? A primeira é um conhecimento do Senhor Jesus Cristo e do Seu poder, e uma confiança firme e estável nisso. Pedro, como já vimos, começou bem, e isso faz parte da essência da verdadeira fé. Aqui estava um homem com os outros discípulos no barco, e com a tempestade rugindo à sua volta. O mar e o vento eram contrários, e o barco estava sendo jogado pelas ondas, e sua situação estava começando a se tornar desesperadora. Mas subitamente o Senhor apareceu, e quando eles O

Depressão Espiritual - D. M. Loyd Jones  

livro evangélico

Depressão Espiritual - D. M. Loyd Jones  

livro evangélico

Advertisement