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Todavia, não podemos avançar para nossa consideração principal, por mais importante que seja, sem observar um assunto preliminar que é absolutamente vital e essencial. Voltando ao incidente da tempestade no mar, a primeira coisa que observamos é a pessoa, a personalidade, se preferir assim, do nosso bendito Senhor. Aqui, mais uma vez, Ele Se destaca em toda a plenitude da Sua deidade. Nós O vemos em pessoa caminhando sobre as ondas turbulentas, e O vemos capacitando também o Seu servo, o apóstolo, a fazer o mesmo. Novamente O vemos dando ordens e controlando os elementos. Começamos desta maneira porque não podemos considerar a questão da fé, nem alcançar uma verdadeira compreensão dela, se não tivermos uma visão clara a respeito dEle. Não estamos falando de uma fé qualquer, estamos falando acerca da fé cristã, e uma preliminar essencial a qualquer consideração deste assunto, é que tenhamos uma visão clara acerca da pessoa do nosso bendito Senhor. Não há mensagem cristã à parte daquela que proclama que Jesus de Nazaré é o unigênito Filho de Deus, o Senhor da glória, o Senhor Jesus Cristo; e aqui nós O vemos sobressaindo-Se no esplendor da Sua glória, manifestando e provando ser o Mestre do universo, o Senhor dos elementos. Come çamos com isso porque o propósito único dos Evangelhos é apresentá-lO. É também absolutamente vital em qualquer consideração do nosso assunto, demonstrar que a razão de todos os nossos problemas é o nosso fracasso em compreender o que Ele é. Contudo, é igualmente claro que o propósito especial de registrar este incidente é chamar a atenção para o que aconteceu com Pedro. Vemos o Senhor em toda parte nos Evangelhos, em Sua glória e em Sua deidade, porém cada incidente por sua vez salienta algo peculiar, alguma coisa especial; e claramente o aspecto especial aqui é o incidente na medida em que afeta particularmente o apóstolo Pedro. Pedro começa muito bem — magnificamente até. Então entra em dificuldades, e acaba pessimamente. Essa é a cena. Pedro, que a princípio parecia cheio de fé, termina como um infeliz malogro, clamando em desespero. Quão rapidamente tudo aconteceu! Dizem que uma das características singulares deste mar, é o aparecimento repentino de tempestades. Pode estar calmo num momento, e no próximo aparece um temporal violento. Isso aconteceu com o mar nessa ocasião, e também aconteceu com Pedro — uma mudança súbita de toda a situação. Do modo como vejo este incidente, a coisa essencial é observar cuidadosamente o que aconteceu, e o que deve ser enfatizado é que a grande diferença entre o milagre de acalmar a tempestade e este incidente aqui, é que lá, a tempestade veio como mais um fator para perturbar os discípulos — o Senhor adormeceu, e então veio a tempestade — porém aqui neste incidente, no que diz respeito a Pedro, não é esse o caso em absoluto. Nenhuma novidade, não há nada de novo. A tempestade já havia começado, já rugia antes que o Senhor Se aproximasse dos discípulos ou do barco. O barco, como sabemos, estava no meio do mar, agitado pelas ondas, e o Senhor estava orando sozinho na encosta do monte. Esse é o ponto que devemos destacar — que aqui os discípulos estavam no barco sem o Senhor, e a tempestade estava rugindo, e então repentinamente Ele aparece e temos este incidente. O que precisamos lembrar é que Pedro não tinha nenhum elemento novo com o qual tivesse que lutar depois de sair do barco. Ele não saiu do barco e pisou em águas serenas e depois é que veio a tempestade; a tempestade já estava lá antes do Senhor aparecer perto do barco. Considero este um ponto muito importante. Não havia nenhum elemento novo como da outra ocasião, contudo Pedro encontrou dificuldades e ficou infeliz, assustado e desesperado. A pergunta é: por quê? E a resposta é que o problema estava inteiramente em Pedro. Nosso Senhor nos dá um diagnóstico muito preciso: era "pouca fé". "Homem de pouca fé, por que duvidaste?" É a "pouca fé" abrindo as portas à dúvida. Temos aqui, então, uma série de lições importantes que podemos aprender, e se as aprendermos e captarmos, elas nos pouparão de muitos ataques de depressão espiritual. Antes de tudo, devo chamar a atenção para o que sou obrigado a descrever como a mentalidade de Pedro, ou, se preferirem, o temperamento de Pedro. Muitas vezes já tivemos de enfatizar o fato de que, quando somos convertidos e salvos e nos tornamos cristãos, nosso temperamento não muda; ele permanece exatamente o mesmo que era antes. Não nos tornamos outras pessoas; continuamos a ser nós mesmos. Todos podemos dizer: "Vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim", e embora acrescentemos: "e a vida que agora vivo na carne vivoa na fé do Filho de Deus", contudo esse "eu" é sempre o mesmo. Sempre seremos nós mesmos, e ainda que nos tornemos cristãos, continuamos a ser quem éramos. Cada um tem seu temperamento distinto, suas características próprias; e como resultado, todos temos nossos problemas específicos e particulares. Há certos problemas que são fundamentais e comuns a todos nós, e mesmo nossos problemas particulares estão sujeitos à categoria geral de pecado e dos resultados da queda, mas nos chegam de formas diferentes e variadas. Todos estamos familiarizados com esse fato. Todos os membros da Igreja não são iguais, ou os membros de qualquer grupo, por menor que seja; todos temos certas coisas a respeito das quais precisamos ser particular e excepcionalmente cuidadosos. Outras pessoas nem se deixam perturbar por essas coisas. Ah, sim, mas elas têm outras áreas com as quais precisam tomar cuidado. A pessoa explosiva precisa vigiar seu temperamento com cuidado, e a pessoa fleumática e letárgica precisa ser cuidadosa porque sua mentalidade é tão frouxa que tende a não se manifestar quando devia fazê-lo. Em outras palavras, todos temos nossas áreas específicas de dificuldades, e em geral elas surgem do temperamento específico que Deus nos deu. Na verdade, posso ir ainda mais longe, neste contexto, e dizer que provavelmente a coisa que mais precisamos vigiar é o nosso ponto forte. Todos temos a tendência de falhar, em última análise, no nosso ponto mais forte! Ora, eu creio que isso era uma realidade no caso de Pedro. A grande característica de Pedro era a sua energia, sua capacidade de decisões rápidas, sua personalidade ativa. Ele era entusiasta e impulsivo, e era isso que constantemente lhe causava problemas. É muito bom ter uma natureza dinâmica. Alguns dos maiores homens que o mundo já conheceu, se os entendo corretamente pela leitura das suas biografias, alcançaram proeminência principalmente por sua energia; não por sua capacidade intelectual, nem por sua sabedoria, mas por sua absoluta energia. Observem isso ao ler as biografias de muitos dos chamados grandes homens. Energia é uma grande qualidade, e geralmente é acompanhada por uma capacidade de decisão. No entanto, era justamente isso que estava constantemente causando problemas a Pedro. Muitas vezes leva a uma vida cristã instável, uma vida cristã em que falta equilíbrio. Que perfeita ilustração temos disso aqui! Observem Pedro quando ele reconhece o Senhor no começo deste incidente. Ali está ele no barco, em meio à tempestade. Ele tem fé

Depressão Espiritual - D. M. Loyd Jones  

livro evangélico

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