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Isso é cristianismo? É claro que não! Cristianismo é bom senso, e muito mais — porém inclui o bom senso. "Ah", você diz, "mas eu ouço isso do mundo!" Bem, se ouve, então aja de acordo! O próprio Senhor Jesus disse que os filhos deste mundo são mais sábios em sua geração do que os filhos da luz. Ele elogiou o servo injusto, e eu estou simplesmente fazendo a mesma coisa. O mundo, do seu ponto de vista de sabedoria comum, está perfeitamente certo nesta questão. Sempre é errado hipotecar o presente ao passado, é sempre errado permitir que o passado atue como um freio sobre o presente. Deixe que o passado morto sepulte os seus mortos. Não há nada mais repreensível, a julgar pelos critérios comuns de pensamento, do que permitir que algo que pertence ao passado seja causa de fracasso no presente. E uma preocupação mórbida com o passado faz exatamente isso. As pessoas que estou descrevendo estão fracassando no presente. Em vez de viver no presente e prosseguir na vida cristã, elas ficam lamentando o passado. Sentem-se tão mortificadas pelo passado que nada fazem no presente. E isso é muito errado! Meu .terceiro argumento, do ponto de vista do bom senso e sabedoria humana, é este: se você realmente crê no que diz a respeito do passado, e se realmente lamenta o fato de ter desperdiçado tanto tempo no passado, então devia compensar isso no presente. Não é uma questão de bom senso? Aqui está um homem que vem a você no mais completo abatimento, dizendo: "Se eu não tivesse desperdiçado tanto tempo!" O que eu lhe digo é isto: "Você está compensando esse tempo perdido? Por que está desperdiçando suas energias me contando sobre o passado que não pode ser desfeito? Por que não concentra suas energias no presente?" E falo com veemência porque esta condição deve ser tratada com severidade, e a última coisa que se deve dar a essa pessoa é simpatia. Se você está sofrendo dessa condição, examine-se a si mesmo sob o ponto de vista de simples bom senso. Você está agindo como um tolo, de forma irracional, está desperdiçando seu tempo e suas energias. Você realmente não crê no que está dizendo. Se lamenta um passado desperdiçado, compense-o no presente, dedique-se inteiramente a viver no presente. Foi o que Paulo fez. Ele diz: "Por último foi visto também por mim, como um fora do tempo". Ele na verdade estava dizendo: "Eu perdi muito tempo, outros se adiantaram a mim". Mas ele pôde continuar e dizer: "Trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus, que está comigo". Aí esta, então,- o argumento — aí está a maneira de tratar disso do ponto de vista do bom senso e da sabedoria humana comum. Isso é suficiente, ou devia ser suficiente, mas mesmo assim vamos prosseguir. O cristão, eu afirmo, nunca é menos do que o incrédulo, ele sempre é mais. Ele devia ter todo o bom senso e a sabedoria do incrédulo, mas ele tem mais uma coisa além disso. E aqui então chegamos à declaração do grande apóstolo, e ao ensinamento do Senhor na parábola dos trabalhadores na vinha, em Mateus, capítulo 20. Vamos ver o que o apóstolo tem a nos dizer. Já vimos o que ele tinha a dizer sobre o grande pecado da sua vida, e vamos descobrir a mesma coisa em relação a este problema. O apóstolo estava dando um relatório das aparições do Senhor depois da ressurreição. Sua preocupação imediata é a respeito dessa grande doutrina, mas é assim que ele se expressa: "E por derradeiro de todos me apareceu também a mim". O apóstolo sem dúvida lamentava o fato de ter ingressado na vida cristã tão tarde. Vamos deixar bem claro o que ele quer dizer com "derradeiro de todos". Ele quer dizer que foi o último dos apóstolos a ver o Senhor ressurreto. Todos os outros O tinham visto juntos em diversas ocasiões. Paulo não estava com eles nessas ocasiões; era um blasfemo e perseguidor nessa época. Então "derradeiro de todos" significa o último dos apóstolos. Mas não somente foi ele o últimos dos apóstolos, ele foi literalmente a última pessoa a ver o Senhor ressurreto. Ninguém mais viu o Senhor ressurreto com olhos humanos desde que o apóstolo Paulo O viu na estrada de Damasco. Ele "foi visto uma vez por mais de quinhentos irmãos". Nós nem sequer sabemos seus nomes, mas Ele Se revelou a eles e às demais testemunhas registradas aqui. Mas a última pessoa a vê-lO foi Saulo de Tarso. O que aconteceu na estrada de Damasco não foi que Paulo teve uma visão — muitos tiveram visões desde então — porém ele literalmente viu o Senhor da glória. E isto é o que ele diz aqui: "E por derradeiro de todos me apareceu também a mim". Isso é o que fez dele um apóstolo, o fato de que ele foi testemunha da ressurreição. Contudo o que está enfatizando é que ele foi o último de todos. E como se não bastasse, ele acrescenta: "E por derradeiro de todos me apareceu também a mim, como a um abortivo". Havia algo anormal, extemporâneo a respeito do seu nascimento espiritual. Ele não era como os outros. Os outros tinham ouvido os ensinamentos do Senhor, haviam estado com Ele o tempo todo, estiveram presentes na crucificação, viram quando foi sepultado, estiveram como Ele por quarenta dias após a ressurreição, e estiveram com Ele na ascensão. Estiveram com Ele desde o começo até o fim. Entretanto, Paulo ao contrário, tivera um nascimento espiritual de certa forma anormal, extemporâneo; ele viera de uma forma estranha, singular, e "por derradeiro de todos". Isso é o que ele diz a respeito de si mesmo. E naturalmente ele só podia pensar nisso com pesar. Ele devia ter estado ali entre eles desde o princípio, tivera a possibilidade, tivera a oportunidade; mas ele havia odiado o evangelho. Ele "tinha imaginado que contra o nome de Jesus nazareno devia ele praticar muitos atos". Tinha considerado Jesus um blasfemador, e tentou exterminar Seus seguidores bem como a Igreja. Ali estava ele, do lado de fora, e todos os outros estavam dentro. Todavia, "por derradeiro de todos", e desta forma estranha, ele entrou. Como teria sido fácil para ele gastar o resto da sua vida em remorsos inúteis sobre o seu passado! Ele diz aqui: "E por derradeiro de todos me apareceu também a mim, como a um abortivo. Porque eu sou o menor dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, pois que persegui a igreja de Deus". Era tudo verdade, e ele o lamentava profundamente; mas isso não paralisou Paulo. Ele não passou o resto da sua vida sentado num canto, dizendo: "Eu fui o último a entrar. Por que fiz isso? Como podia tê-lO rejeitado?" É isso que fazem as pessoas que estão sofrendo de depressão espiritual. No entanto Paulo não fez isso. O que o assombrava era a graça maravilhosa que o capacitara a entrar. E assim ele entrou na nova vida com um zelo tremendo, e ainda que "por derradeiro de todos", num certo, sentido ele se tornou o primeiro. Qual então é o ensino bíblico? Vamos examinar o que o apóstolo ensina, à luz da parábola do capítulo 20 de Mateus, pois ambos os textos dizem a mesma coisa. O que importa acima de tudo, caso você seja um cristão, não é o que foi outrora, mas o que é hoje. Isso parece ridículo? É tão óbvio que a coisa importante não é o que você foi, mas o que é. Sim, é muito óbvio quando colocado desta forma, mas como é difícil ver isso quando o diabo está nos atacando! O apóstolo disse que ele não era digno de ser chamado apóstolo, porque tinha perseguido a

Depressão Espiritual - D. M. Loyd Jones  

livro evangélico

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