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O cristão deve saber por que ele é cristão. O cristão não é alguém que simplesmente diz que algo de maravilhoso lhe aconteceu. De maneira nenhuma; ele está apto e pronto para "dar uma razão sobre a esperança que está nele". Se não pode fazer isso, deve certificar-se melhor da sua posição. O cristão sabe por que ele é o que é, e em que pé está. A doutrina foi apresentada a ele, ele recebeu a verdade. Ela veio à sua mente e deve sempre começar em sua mente. A verdade chega à mente e ao entendimento iluminado pelo Espírito Santo. E depois que o cristão compreende a verdade, ele a ama. Ela comove o seu coração. Ele vê o que ele era, vê a vida que vinha levando, e a odeia. Se alguém enxerga a verdade quanto à sua escravidão pelo pecado, odiará a si mesmo. Depois, ao enxergar a gloriosa verdade sobre o amor de Cristo, ele vai querê-la, vai desejá-la. Assim o coração é envolvido. Enxergar a verdade realmente significa que somos comovidos por ela, que nós a amamos. Não pode ser de outra forma. Se enxergamos a verdade com clareza, vamos senti-la. E isto leva ao passo seguinte — o nosso maior desejo será praticar e viver a verdade. Este é todo o argumento de Paulo. Ele diz: "A sua conversa sobre permanecer no pecado é inadmissível. Se vocês compreendessem a sua união com Cristo, que foram plantados com Ele na semelhança da Sua morte, e portanto ressuscitados com Ele, então jamais pensariam em falar assim. Vocês não podem ser unidos' com Cristo e ser "um" com Ele, e ao mesmo tempo perguntar: "Permaneceremos no pecado?" Será que esta grande verdade me dá licença para continuar fazendo aquelas coisas que antes eram atraentes para mim? Claro que não! É inconcebível. O homem que sabe e acredita que ele "ressuscitou com Cristo", inevitavelmente desejará caminhar nesta nova vida com Ele. É assim que Paulo coloca o seu grande argumento e demonstração, e disso eu tiro a minha conclusão final: que ao lidar com esta área, devemos compreender que quando falamos aos outros, não devemos abordar diretamente o coração. Vou mais adiante; a vontade também não deve ser abordada diretamente. Este é um princípio muito importante que devemos "ter em mente, tanto no tratamento pessoal, como na pregação. O coração deve ser influenciado sempre mediante o entendimento — primeiro a mente, depois o coração, e em terceiro lugar a vontade. Não temos o direito de atacar diretamente o coração dos outros, e nem mesmo o nosso. Eu conheci homens de vida perversa que encontravam falso conforto (para a sua própria condenação) no fato de que ainda conseguiam chorar e comover-se emocionalmente numa reunião religiosa. Eles argumentavam: "Eu não posso ser totalmente mau, ou então eu não reagiria desta maneira". Mas esta é uma dedução falsa — a sua reação emotiva era produzida por eles mesmos. Se fosse uma resposta à verdade, as suas vidas teriam sido mudadas. Não devemos abordar nunca o coração ou a vontade do homem diretamente. A verdade é recebida através da maior dádiva de Deus ao homem, isto é, a mente e o entendimento. Deus criou o homem segundo a Sua própria imagem, e não há dúvida de que a parte principal desta imagem é a mente com sua capacidade de compreender a verdade. Deus nos deu este dom, e é através dele que Ele nos envia a verdade. No entanto, que ninguém pense, de modo algum, que tudo termina no intelecto. Começa ali, mas depois continua. Ele então toca o coração e finalmente o homem entrega a sua vontade. Ele obedece sem lamentações e sem falta de vontade, e sim, de todo o coração. A vida cristã é uma vida perfeita e gloriosa, que envolve e cativa a personalidade inteira. Oh, que Deus nos faça cristãos equilibrados, homens e mulheres de quem possa ser dito que estão obedecendo totalmente, de coração, à forma de doutrina que nos foi entregue. 5. AQUELE PECADO "Mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim, que sou o principal, Jesus Cristo mostrasse toda a sua longanimidade, para exemplo dos que haviam de crer nele para a vida eterna". I Timóteo 1:16 No capítulo anterior, consideramos as pessoas que são infelizes e nunca realmente se regozijam em sua vida cristã, porque fracassam em manter um equilíbrio entre a mente, o coração e a vontade. Paulo fala a esse respeito na Primeira Epístola a Timóteo, dizendo que devemos "conservar a fé e a boa consciência, rejeitando a qual alguns fizeram naufrágio na fé. E entre esses foram Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para que aprendam a não blasfemar" (I Timóteo 1:19-20). Essa falta de equilíbrio é uma das grandes causas, não só de infelicidade, mas de tropeços e fracassos na vida cristã. Há pessoas que se espantam com isso. Elas têm uma visão volúvel e superficial da vida cristã, achando que, se alguém preencheu um cartão de decisão, ele é um cristão, e deve, portanto, ser perfeitamente feliz. Mas, como a experiência e a história da Igreja Cristã claramente demonstram, esse não é o caso, e se adotamos essa perspectiva superficial, não vai demorar para que tenhamos problemas. O fato é que sempre há cristãos enfrentando algum tipo de problema, por várias razões, e não podemos ler as epístolas do Novo Testamento sem constatar a verdade do que estou dizendo. Se crer e aceitar a salvação fosse tudo que é preciso, então as epístolas não teriam sido necessárias — na verdade, de certa forma nem haveria necessidade da Igreja. As pessoas seriam salvas e viveriam felizes para o resto das suas vidas como cristãs. Todavia, temos abundante evidência de que este não é o caso. Essas pessoas no Novo Testamento tinham crido, e se tornaram cristãs, e no entanto foi necessário que os apóstolos Paulo, Pedro, João e outros lhes escrevessem cartas, porque elas estavam enfrentando problemas de um tipo ou outro. Estavam infelizes por várias razões, e não estavam se regozijando na vida cristã. Alguns destes cristãos estavam sendo tentados a olhar para trás, para a vida da qual tinham sido salvos; outros enfrentavam tentações mais sérias, e ainda outros sofriam cruéis perseguições. Assim, a própria existência das epístolas do Novo Testamento nos mostra que abatimento e infelicidade são condições que afetam o cristão. Existe nisso, portanto, um estranho tipo de consolo, ainda que muito real. Se alguém que está lendo minhas palavras está enfrentando algum problema, deixe-me dizer isto: o fato de que você se sente infeliz ou perturbado não significa que não seja um cristão. Na verdade, digo mais: se você nunca teve problemas em sua vida cristã, eu duvido seriamente que realmente seja um cristão! Existe o que se poderia chamar de falsa paz, assim como há também crença no engano. Todo o Novo Testamento, bem como a história da Igreja através dos séculos, dão testemunho eloquente de fato de que esta é uma "batalha de fé", e não ter qualquer perturbação em sua alma está, portanto, longe de ser um bom sinal. Na verdade, é um sério sinal de que algo está radicalmente

Depressão Espiritual - D. M. Loyd Jones  

livro evangélico

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