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Mais uma vez devo indicar que a causa desta falta de equilíbrio, receio que muito frequentemente, cai sobre o pregador ou evangelista. Em geral, cristãos desequilibrados são produtos de pregadores ou evangelistas cuja doutrina não possui suficiente equilíbrio, vigor ou integridade. Através dos nossos estudos, vemos cada vez mais como são importantes as circunstâncias do nascimento de um cristão. Às vezes penso que alguém deveria pesquisar e investigar o relacionamento entre a vida posterior do cristão e os meios ou métodos empregados na sua conversão. Tenho certeza que seria muito significativo e interessante. As crianças em geral herdam características dos pais, e recém-convertidos tendem a apresentar características parecidas com as pessoas que foram usadas por Deus na sua conversão. Além disso, o tipo de reunião na qual se deu a conversão tende a influenciar a vida posterior do cristão. Isto acontece com mais frequência do que imaginamos. Já mencionamos isto num dos capítulos anteriores, e é muito importante em relação ao assunto que agora estamos considerando. É isto que explica a existência de diferentes tipos de cristãos que apresentam certas características. Todos os membros de um grupo em geral são muito parecidos, e existe um certo caráter comum entre eles, enquanto que outros são diferentes. Ora, até onde isto é uma realidade para nós, até que ponto possuímos estas características peculiares associadas a algum tipo particular de ministério, esta é a extensão da probabilidade de sermos vítimas desta falta de equilíbrio que, em última análise, vai se manifestar em infelicidade e miséria. O apóstolo Paulo levanta este assunto, ao escrever aos cristãos de Roma, pois o mesmo sempre causa problemas de ordem prática. Não podemos saber ao certo se ele imaginou esta situação para poder rebatê-la, ou se ela realmente existia em Roma. Pode ser que realmente havia pessoas que diziam: "Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante?" Pode ser também que o apóstolo Paulo, após estabelecer sua doutrina da justificação pela fé, tenha pensado: "Há um perigo em deixar o assunto assim. Algumas pessoas poderão dizer: "Pois bem, deveremos então permanecer no pecado, para que a graça seja mais abundante?" Ele diz que, onde o pecado abundou antes, a graça foi muito mais abundante. Havia pessoas na Igreja Primitiva que argumentavam assim, e ainda hoje existem pessoas que tendem a fazer a mesma coisa. Elas tomam a seguinte atitude: "Bem, conforme esta doutrina, não importa o que o homem faça. Quanto mais ele peca, tanto mais Deus será glorificado ao perdoá-lo. Não importa o que cu faço, pois sendo cristão, estou coberto pela graça". Mas, o que o apóstolo Paulo nos diz sobre isso? Ele responde que só pode pensar assim quem não entende o ensinamento. A pessoa que compreendeu o ensinamento nunca faria deduções deste tipo; seria impossível. Paulo responde imediatamente: "De modo nenhum; vocês que estão mortos para o pecado (é isto que venho' pregando), não podem mais viver nele". O cristão está agora "em Cristo", portanto ele não só morreu com Ele, mas também ressuscitou com Ele. Só pode fazer uma pergunta terrível como esta — "devemos permanecer no pecado para que a graças seja mais abundante?" — o homem que realmente não compreendeu o ensinamento. O objetivo do apóstolo neste capítulo é mostrar a importância de compreender o equilíbrio da verdade, a importância de tomar para si o evangelho como um todo e de ver que, se realmente o compreendemos, ele nos levara inevitavelmente a certas consequências. Gostaria de dividir o assunto resumidamente. Há certos princípios enunciados aqui. O primeiro é que a depressão espiritual, ou infelicidade na vida cristã, é muitas vezes devida à falha em perceber a grandeza do evangelho. O apóstolo fala sobre "a forma de doutrina a que fostes entregues" e se refere ao "padrão de ensinamento". As pessoas muitas vezes são infelizes na vida cristã porque encaram o cristianismo e toda a mensagem do evangelho em termos inadequados. Algumas pessoas pensam que o cristianismo é meramente uma mensagem de perdão. Se lhes perguntarem o que é o cristianismo, responderão: "Se você crê no Senhor Jesus Cristo, os seus pecados são perdoados". E param por aí. Não vão além disso. Essas pessoas são infelizes devido certas coisas em seu passado, e ouvem dizer que Deus quer perdoá-las através de Cristo. Elas recebem o perdão e param ali mesmo — esse é todo o seu cristianismo. Outros concebem o cristianismo apenas como moralidade. Estes acham que não têm necessidade de perdão, mas buscam um estilo de vida exaltado. Querem praticar o bem neste mundo, e para eles o cristianismo é um bom sistema moral e ético. Tais indivíduos estão destinados à infelicidade. Certos problemas, que não são resolvidos pela moralidade, inevitavelmente surgirão em suas vidas — a morte de um ente querido, problemas em algum relacionamento pessoal. A moralidade e a ética não podem ajudá-los nestes casos, e aquilo que eles consideram o evangelho é inútil nestas situações. Eles se tornam infelizes quando recebem algum golpe porque nunca tiveram uma visão adequada do evangelho. Tiveram somente uma visão parcial; viram somente um aspecto dele. Outros se interessam pelo cristianismo por acharem que é algo bom e bonito. Ele exerce um apelo estético sobre tais pessoas. É nesses termos que eles descrevem o evangelho, e toda a sua mensagem é para eles algo muito lindo e bom, e se sentem melhor ao escutá-lo. Estou colocando todos estes pontos de vista parciais e incompletas em contraste com aquilo que o apóstolo menciona como "forma de doutrina", "padrão de ensinamento", a grande verdade que ele elabora nesta epístola aos Romanos com seus poderosos argumentos e proposições e. seus vôos de imaginação espiritual. Isso é o evangelho — todas as "infinidades e imensidades" (para citar uma frase de Thomas Carlyle) desta epístola, e das epístolas nos Efésios e aos Colossenses — esse é o evangelho. Devemos ter vima compreensão precisa destas coisas. Mas alguém pode dizer: "Quando falam sobre a epístola aos Efésios ou a epístola aos Colossenses, certamente você não estão falando sobre a mensagem do evangelho. Pela mensagem do evangelho, falamos às pessoas a respeito do perdão dos pecados." Em certo sentido, isto está correto, mas em outro sentido, está errado. Eu recebi uma carta de um homem que assistiu aqui a uma reunião de domingo à noite e ele disse que fez uma descoberta; descobriu que num culto evangelístico também havia algo para os convertidos. Ele disse: "Eu nunca linha compreendido que isso poderia acontecer. Não sabia que num mesmo culto, uma mensagem evangelística podia ser pregada nos não-crentes, e que ao mesmo tempo haveria uma mensagem para os convertidos, a qual poderia perturbá-los". Ora aquele homem estava fazendo uma grande confissão. Ele estava me revelando qual era o seu ponto de vista do evangelho até aquele ponto. Tinha uma compreensão parcial, incompleta, selecionando apenas uma ou duas coisas. Não, a maneira certa de evangelizar é transmitir "todo o conselho de Deus". Mas as pessoas dizem que estão muito ocupadas, ou que não podem seguir tudo aquilo. Eu gostaria de lembrar-lhes que o apóstolo Paulo pregava esse tipo de coisa a escravos. "Não foram chamados muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento". Isto foi o que ele lhes deu — esta tremenda apresentação da

Depressão Espiritual - D. M. Loyd Jones  

livro evangélico

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