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ANO 1 - EDIÇÃO 1 - 30 DE SETEMBRO DE 2010


EDITORIAL Construir um projeto é trabalhoso. Concretizá-lo requer trabalho dobrado. A “Prosa&Cinema” nasce das ideias de um grupo que visa inovar e preencher as lacunas deixadas pelos grandões da comunicação. A partir desta edição o cotidiano passa a ser visto com olhar cinéfilo e particular. Cada edição trará um filme diferente, que servirá como trampolim para as pautas. Ou seja, os assuntos mostrados nas cenas serão trazidos para a vida real, para a nossa aldeia. E para estrear as páginas até então brancas, levamos a você leitor um longa-metragem que consegue ser simples e ousado ao mesmo tempo. Coisas Insignificantes traz histórias a partir de objetos sem valor material. Diante desse enfoque encontramos na vida real: Pompeu e os seus objetos históricos (veja página ...), Ricardo e o amor pela coleção (veja página...), os perdidos que acabam sob os cuidados de Victor(veja página...) e a espinhosa e exemplar história da psicóloga Giovana (veja página ...). São personagens da realidade, retratados tendo como base cenas de um filme. A escolha foi inspirada no objetivo de surpreender a cada edição. O rigor de qualidade é pontuado neste editorial e deverá ser estendido aos demais. Então, caro leitor, seja bem-vindo ao universo da cultura e do cinema mesclado com o dia a dia da sociedade.

Expediente Trabalho realizado para a disciplina de “Práticas em Jornalismo Impresso” do 4º período do curso de Jornalismo da Faculdade Assis Gurgacz. Jornalista responsável/Professora: Franciele Luzia de Oliveira Acadêmicos: Douglas Fernando, Maria Fernanda Kusmirski , Maycon Corazza e Pedro Sarolli. Projeto Gráfico: Douglas Fernando Contato: (45) 8405-2725 / (44) 9960 - 4654 E-mail: prosaecinema@yahoo.com.br

ENSAIO

A maneira como as coisas insignificantes ganham sentido nas nossas vidas é a principal lição do filme. “Coisas Insignificantes” é um longa-metragem mexicano, dirigido por Andrea Martinez. Lançado em 2008, o filme traz a história de uma menina chamada Esmeralda, que tem a mania de guardar em um baú objetos que encontra, como um papel com um número de telefone, um origami de cavalo marinho, uma flecha de papel entre outras coisas. O filme gira em torno do que se passa por trás desses objetos aparentemente tão insignificantes, mas que contém histórias desde problemas entre pai e filha a câncer infantil. Esmeralda é uma menina que assumiu responsabilidades muito cedo. Além de trabalhar, a protagonista cuida de sua irmã mais nova e de sua avó, que sofre de alucinações e passa acamada quase que a trama inteira. O grande prazer da garota está em somar e observar os vários objetos que têm em um baú. O desenrolar deste belo filme circula entre algumas dessas coisas, mostrando suas histórias e contando como foram parar no baú, mostrando que várias coisas passam despercebidas por nossos olhos, nos ensinando que coisas aparentemente insignificantes podem ser dotadas de um grande significado.


achados ou perdidos ? A rotina do responsável pelo lugar que é destino do resultado da correria e falta de atenção

uma moeda e muitas histórias Alberto Pompeu, 72 anos, é um “vivente do Oeste do Paraná” que deseja manter viva a história através de objetos.

fósforos, canetas e corujas O engenheiro que herdou do pai a paixão por coleções

METADES INSEPARÁVEIS Lidar diariamente com o câncer é comum para a psicóloga Giovana Kreuz, mas não menos doloroso.


Achados ou Perdidos por Maycon Corazza e Douglas Fernando

Bizarrices são tão comuns quanto você pode imaginar. O local parece com tantas outras salas de uma faculdade particular de Cascavel. Não fosse o balcão presente logo após a porta e as mercadorias guardadas em prateleiras extensas e armários, o espaço em questão poderia muito bem abrigar alunos. Mas no lugar dos estudantes está Vitor Hugo Onofre, funcionário deste departamento chamado almoxarifado, ou na pronúncia de muitos almoXERIFADO. O que torna esse lugar usado normalmente como depósito estranho, ou bizarro como escrito no início desta reportagem? Bom, convido você a passar pro lado de lá do balcão e descobrir entre tantas coisas, como um biquíni molhado foi parar nas mãos de Vitor em uma tarde absolutamente normal. O almoxarife parece um pouco

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com Esmeralda, a garotinha que você viu descrita nas páginas desta revista, e que participou ativamente como mediadora da sua própria história e de muitas outras nas tomadas de Coisas Insignificantes. A personagem mexicana trabalhava em uma espécie de restaurante. Pessoas passavam pelo estabelecimento todos os dias: comiam, bebiam e mais de uma vez esqueciam objetos, ou simplesmente os descartavam. Atraída e seduzida por essas coisas insignificantes, a pequena em vez de jogar fora optava por guardálos em uma caixinha.

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04// ACHADOS OU PERDIDOS?

Na vida real, Vitor trabalha há três anos na faculdade. Por ali, também passam pessoas em número mais significante. Elas comem, bebem, estudam, conversam, fumam e esquecem... é uma bolsa deixada aqui, uma caneta perdida por ali, e um documento lá. Como ócio do ofício, Vitor recebe essas coisas perdidas; e proibido de jogar fora as guarda em um armário. O almoxarifado também é o “achados e perdidos” da instituição. No filme temos a chance de ver através dos olhos do diretor como os objetos possuem histórias por trás de si. Conhecer estas histórias e ver como elas se relacionam com a da guardiã dos objetos é o que mais encanta. Com Vitor é um pouco diferente.


ACHADOS OU PERDIDOS ? // 05 “Melhorou bastante. Antes de ser desta forma as coisas ocupavam mais de um armário. Ficavam por aí até 6 meses esperando alguém vir buscar. Aí dei a ideia de diminuírem o tempo para trinta dias e eles aceitaram”, explicou.

descuido mesmo, porque no concurso você leva o documento, acaba colocando embaixo da carteira e esquece. Mas como essas pessoas são de longe, não compensa vir buscar”, explicou. Havia também no meio daquele amontoado, alguns livros, que por sinal são caros, como o VadeMécum do curso de direito. Esses acabam ficando mais tempo guardados e caso mesmo assim o dono não vá atrás o material é doado à biblioteca da faculdade. “Mas geralmente aparece. Geralmente eles vêm buscar”, afirmou. Durante a conversa Vitor pareceu se divertir com a função que desempenha. Em nenhum momento se mostrou estressado ou algo do gênero, devido a qualquer situação relacionada ao trabalho. Pelo contrário, ficou quase o tempo todo dividindo sorrisos com palavras. No entanto, Vendo aquele monte de coisas risada mesmo ele deu quando faresolvi contar, principalmente os lou de um bendito estojo preto, cadernos, que tinham maior vol- rabiscado com errorex. É o carma ume. do “achados e perdidos”. Já foi per- 1,2,3,4,5...24,25,26 cadernos – dido umas tantas vezes e reaposterminei, enfim. sado outras. O contato é tanto que Surpreendente. Matematica- o almoxarife sabe até o apelido do mente quase um caderno é perdido dono da “coisa”: Betinho. por dia. Identidades são 20; cartei“O estojo dele está aí faz uns 10 ras de motorista (CNH) 13, fora as meses. Ele sabe que está aqui. Já certidões de nascimento, CPF’S, perdeu várias vezes e veio parar de títulos de eleitor e afins. novo aqui. Eu aviso ele: ‘o seu es“Grande parte dos documentos tojo está lá’. Ele sabe que está aqui, são esquecidos em concursos re- não vem buscar por que não quer.” alizados aqui. São pessoas de fora, Os objetos chegam diariamente de outras cidades. Neste caso é por através de zeladoras e monitores.

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Ao contrário dos cacarecos - como diria minha avó - da tela de cinema, os do almoxarifado não valem nada sentimentalmente. Prova disso são as próprias coisas em questão. Antes de realizar a entrevista pedi a Vitor que ele abrisse o armário onde os objetos se exilam. E então diante dos meus olhos estavam o resultado da desatenção ou/e descuido dos acadêmicos. Não ficaria feliz somente em conversar com o personagem, perguntar quais são os objetos que chegam até ali, e outras coisas do gênero. Sou obrigado a fazer outro pedido, desta vez quase que um desafio. - Posso tirar essas coisas daí e dar uma olhada? Ele ficou quieto e me olhou de um jeito contrariado que lembrou minha mãe quando provocada. Antes de qualquer reação nova, emendei. - Prometo que guardo tudo como estava – dou minha última cartada. - Tudo bem, vai lá – disse pegando alguns cadernos. Tinha muita coisa. No chão ficaram espalhados: cadernos, bolsas, estojos, canetas, lápis, borrachas, chaves, livros, documentos, blusas, jalecos etc. Isso que mudanças foram feitas para diminuir o acúmulo de objetos. Há cerca de três anos eles ficam apenas durante um mês guardado no almoxarifado à espera do dono; depois alguns vão para doação, outros como documentos, são encaminhados aos Correios ou tomam outro destino.


06// ACHADOS OU PERDIDOS? - Sim, com a parte de cima e debaixo. - Era avantajado? – caiu na gargalhada. - Não, era pequeno - disse rindo. - Como pode isso ter parado aqui cara? – questiono. - Sei lá. Não tem como entender, não mesmo! Acontecimentos como esse tornam esse almoxarifado diferente de tantos outros. Ali é o destino do resultado de muito descuido, correria e outras hipóteses difíceis, inclusive, de serem apontadas.

e aqui + uma. DOUGLAS FERNANDO

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Da mesma forma todos os dias pessoas procuram pelos perdidos. Porém, além da exceção do estojo largado que virou quase um mascote do departamento, outro objeto permaneceu por um tempo extra até ser doado. Vitor se lembra apenas de alguns detalhes daquela tarde. Ele estava ali como em tantos outros dias. Uma funcionária chegou como era de praxe. E o que impressionou foi o objeto que ela trazia nas mãos - Um biquíni molhado cara! - Estava completo? – pergunto sem conseguir mais segurar a risada.

CORRERIA OU DESATENÇÃO? “Na pressa do cotidiano e com tanta coisa na cabeça, as pessoas perdem e muitas nem voltam pra buscá-las”, afirma Vitor.


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EM BREVE


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08 // Uma moeda e muitas histórias

Uma moeda e muitas histórias por Maycon Corazza

Passado, presente e futuro se misturam facilmente em uma breve conversa. Com a lógica de um contador, paixão de colecionador e coração de avô, Beto Pompeu, cabelos grisalhos, voz rouca e suave, tenta traçar o caminho dos objetos que vem guardando há anos. Hoje, o homem de 72 anos diz aguçar a vontade dos netos para que no futuro eles prossigam com a arte de colecionar. “É claro que só o tempo pode dizer se esses netos vão preservar [os objetos]. Eu espero que sim. Vai ser um orgulho muito grande se isso acontecer”, diz entusiasmado. A preocupação é justificável, afinal os objetos significantes acolhidos por Seu Beto são formados simbolicamente de histórias, e acumulam valor sentimental que não pode ser medido com cifras. São: selos postais, livros históricos, máquinas de contabilidade, equipamentos da comunicação, dinheiro de diferentes épocas e países – em cédula e moeda -, mapas, livros contábeis, equipamentos de topografia e muitas armas, ocupando vários cômodos da casa dos Pompeu.


o gatilho na história // 09 Enquanto os descendentes ainda se preocupam com as brincadeiras, mamadeira e tudo aquilo que faz parte do mundo de qualquer criança – neta ou não de um amante da História – Seu Beto realiza mudanças. No primeiro andar do prédio localizado na Rua Souza Naves, no Centro de Cascavel, em que mora há 49 anos, funcionará o atual projeto de Seu Beto: um museu. O local vai abrigar a herança que o amante da contabilidade espera deixar para os netinhos. Na noite de uma terça-feira de lua cheia e amarelada fomos recebidos pelo pioneiro cascavelense Alberto Pompeu. Vestido com roupa social impecável, ele abriu o portão que dá acesso tanto a carros quanto a pedestres. O nosso entrevistado se mostrou muito prestativo desde o primeiro contato, e naquele momento não foi diferente. - Olá, vamos entrando, vamos entrando, disse Seu Beto. No início da garagem estavam dois carros repousando. Após o espaço usado para guardar os veículos se formou um extenso corredor, por onde Seu Beto seguiu explicando: “No local onde ficavam algumas coisas da coleção será a ampliação de uma loja que é nossa inquilina. Eles me pediram espaço e eu resolvi deixar ali para eles”, aponta mostrando uma área marcada por um risco de poeira, indícios de que ali havia uma parede de madeira que antes isolava o ambiente. “Como tive que fazer isso resolvi começar a montar o museu para abrigar todas

as minhas coisas. Faltava um pontapé inicial e acho que ele foi dado”, contextualiza nos convidando para seguirmos até a área do museu vindouro. Atrás de uma porta de madeira um espaço escuro se fez ver. A luminosidade que conseguia se infiltrar entre brechas não era suficiente. Seu Beto entrou e foi acendendo as lâmpadas, uma a uma. O formato antigo - o interruptor fica junto ao equipamento - necessita de que alguém faça esse serviço. Era uma lâmpada acesa, uma explicação, mais uma acesa, outra explicação. Com memória de dar inveja a qualquer elefante o anfitrião desenhava com palavras a planta arquitetônica. - “Veja aqui já estão algumas madeiras”, aponta para o chão. “ O carpinteiro começou a fazer as prateleiras. Só não sei ainda onde

vai ficar cada coisa. Por enquanto, olha só, grande parte está em caixas, mostra para algumas pilhas ao lado de prateleiras que já continham alguns objetos”. Para explicar como pretende que seja o museu, Seu Beto nos convida a sentar em uma mesa bem diferente destas que compramos atualmente. Madeira legítima, com certeza. “Aqui neste mesa recebo amigos frequentemente para contarmos estórias e ampliarmos o nosso conhecimento”. Era difícil de darmos continuidade a uma conversa ininterrupta. Por todos os lados havia coisas que mereciam algumas palavras de Seu Beto.

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- “Pegue esse livro”, aponta para um livro em cima da mesa, próximo a mim. “Veja só de que data ele é”. - “1926”, leio na capa. - “Veja só, essa é uma das relíquias que eu tenho”, exclama com orgulho. Durante toda a nossa conversa ele mostrou mais alguns livros. Chama a atenção para o fato de que ele conhece o conteúdo de todos eles, sabe explicar, contextualizar, isso mostra que além de colecionar, ele também consome cultura. “Todos os que caíram na minha mão já eram. Claro que quando os livros começam a ficar chatos eu pulo algumas coisas”, confessa. Sabendo um pouco mais sobre a história do Cabeza de Vaca e de outros personagens da história do Paraná, podemos continuar com a do nosso paranaense em questão. Montar um museu não é tarefa fácil. Você tem que organizar tudo da melhor forma, catalogar e fazer outros procedimentos típicos da atividade. Saber o que pretende fazer parece ser o início, e isso Seu Beto já tem na ponta da língua. “Dentro do museu vamos ter uma mapoteca – isso é idéia ainda talvez nós mudemos isso - , uma biblioteca só de livros antigos, um setor para a contabilidade, um para a coleção de armas – dividida em armas longas, curtas, espadas, punhais. Esse não ficará junto aos outros por questão de segurança. Teremos também a área filatélica [coleção de selos] e da numismática [coleção de dinheiro]. Meu museu terá esses setores. En-

algumas peças DO MUSEU:

Livro sobre a primeira guerra mundial, que Seo Pompeu conserva como ouro.

tão, quem gosta de dinheiro vai ver dinheiro e assim por diante.” O espaço será aberto ao público, possivelmente mediante agendamento. Seu Beto diz que receberá a todos como recebe os amigos: da melhor forma possível. O projeto deve atender principalmente escolas e vai ampliar o roteiro cultural cascavelense, que, diga-se de passagem, é vergonhoso perante outras cidades. Para que tudo fique como imagina, Seu Beto pretende fazer um curso de museologia. “Quero ter mais conhecimento. Vou visitar também outros museus, e quero ver como se faz as fichas, como se cataloga, se expõe melhor e se divide por setor”.

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10 // uma moeda e muitas histórias


Uma moeda e muitas histórias // 11 DOUGLAS FERNANDO

Mas, visitar a casa de Beto Pompeu e não ter contato com as relíquias bélicas é como ir à Itália e não comer macarrão. Esses objetos são o ponto alto das coleções, os xodós de Pompeu. Subimos alguns degraus e chegamos a um determinado cômodo*. Os cadeados são destrancados e as portas abertas como se fossem as cortinas de um palco. O espetáculo estava começando. São inúmeras armas que representam a ele fragmentos preciosos da História e até mesmo da sua própria vida. Na ampla sala, armas estão dispostas de todos os jeitos: em suportes, guardadas em quadros pela parede, apoiadas, em cima de balcões, fora é claro, as que ficam trancadas a “sete chaves”. Em meio ao arsenal, uma mesa de escritório, estantes com livros sobre armas, outra mesa – essa comprida - e uma geladeira escondida atrás de uma parede divisória, compões o ambiente. Sob um armário estavam três espadas, uma delas é acima de tudo especial. Usada na guarda francesa a espada sabre está entre as armas prediletas do colecionador. “Um imigrante alemão trouxe essa espada da Alemanha e me vendeu. Ela pertenceu aquele período em que os franceses invadiram a Rússia, passando pela Alemanha. E um indivíduo deve ter perdido essa daqui, com certeza morreu. Você sabe que essa espada deve ter matado muita gente! Mas hoje

Por motivos de segurança, não pudemos exibir fotos de todo armamento. No entanto, conseguimos um pequeno registro no meio de diversos objetos. nós a usamos para abrir champanhe. Um símbolo da vitória. Os legendários de Napoleão quando retornavam da batalha, tomavam o vinho deles – champanhe – e com pressa de beber sacavam a espada, rancavam de uma vez a ponta da garrafa e tomavam no bico.” O fio da espada se foi juntamente com os inúmeros champanhes abertos. De volta ao seu lugar privilegiado, a espada repousa solenemente. Próximo ao local fica a arma mais valiosa para o anfitrião chamada carinhosamente de número 1. “Ela pertenceu a meu pai. Tem um valor

sentimental muito grande; financeiramente não vale nada, mas é muito importante para mim” Todo o conhecimento sobre as armas foi adquirido pelos próprios livros que formarão a biblioteca. A utilização dos diferentes objetos para o próprio enriquecimento cultural torna Beto um aspirante de professor. Com propriedade ele disseca os assuntos, busca citações em livros e reflete sobre os acontecimentos que existem por de trás de cada gatilho. Como bom brasileiro, Seu Beto não poderia deixar de contrapor armas brasileiras e de outras nacionalidades, com as dos hermanos.


“São uma porcaria, material ruim. Como tudo que é argentino elas são mas brasileiras e de outras nacio“Ganhamos essa”, comemora nalidades, com as dos hermanos. como se o resultado tivesse aca“São uma porcaria, material ruim. bado de sair. “Era um golpe, um Como tudo que é argentino elas truque safado. Nós estávamos com são ruins. Se derrubar uma delas medo de perdermos [a coleção]”, no chão quebra facilmente”, alfin- afirma. eta com dose de bom humor. O susto passou e felizmente o A conversa é interrompida quan- acervo continua intacto e devidado Seu Beto faz uma oferta ten- mente legalizado. Cada arma está tadora. “Não querem tomar um registrada pelo Exército. Exigência vinho do porto?”, deixa no ar. Não da lei e do próprio colecionador. poderíamos deixar de aceitar, prin“Eu como contador sou um cara cipalmente depois da insistência que tenho que andar sempre muito do nosso entrevistado. “Vou pegar dentro da linha. Na parte fiscal sou para vocês. Esse vinho se toma de muito rigoroso, sempre fui com as pouquinho”, fala enquanto entrega minhas empresas, meus clientes e as miniaturas de taças. Abastece tal. Então, eu sei como fazer. Esta cada um daqueles reservatórios foi a primeira coleção que se regise pede um brinde. “É quase uma trou aqui na região. Um oficial do tradição. Quando recebo visitantes Exército e eu tivemos que aprensirvo um pouco de vinho do porto. der a fazer.” A conversa fica mais solta, as pesÉ engraçado como a vida brinca soas voltam para casa mais satisfei- com as pessoas sem que elas pertas. E além de tudo é delicioso”. cebam. Toda essa história contada Sob a doçura do vinho ele fala até o parágrafo anterior: os projesobre um assunto que já o preocu- tos para o futuro, a preocupação pou. Em 2005 Seu Beto teve toda com os herdeiros das coleções, e a coleção ameaçada – sem exceção o empenho de Seu Beto, começou – com a realização do plebiscito do com uma naturalidade inimaginávdesarmamento. A questão foi dis- el. cutida a nível nacional. E é claro “Algumas armas foram deixadas que Seu Beto foi contra; ele man- pelo meu pai e nós também prattém, inclusive, o adesivo da cam- icávamos muito tiro ao alvo. E a panha “Desarmamento: NÃO” co- gente foi partindo para a aquisição lado em um dos armários. Foi uma de armas com melhor qualidade e campanha difícil, mas que terminou praticando outras modalidades de com a vitória daqueles que com- tiro. Como eu tinha armas antigas, partilham da mesma ideia que ele. o acúmulo de peças foi aconteA nível nacional 63,94% foi contra cendo. Eu fui ganhando de muitos o desarmamento, e coincidência ou amigos, já que nessa época existia não, na região Sul foi registrado o muitas armas antigas ainda na mão maior índice de rejeição à proposta: da população”, explica. 79,59%. 12// uma moeda e muitas histórias

ruins, Perguntado sobre se ele acreditava que tudo teria sido uma sequência espontânea, ele respondeu: “ Foi automático. Não houve propósito, foram conseqüências, uma coisa levou a outra. Ou então uma sequência de fatos que foram me levando até o que tenho hoje”.

Sensato, Seu Beto jamais pagou por um objeto valor estrondoso. Sempre com uma mão no bolso e outra na consciência, ele consegue negociar e adquirir produtos de “primeira qualidade”. A técnica utilizada é saber onde procurar e pechinchar. “Eu nunca paguei muito caro, pois quem quer se desfazer oferece condições. Nós não podemos, nenhum cidadão pode, desviar re-


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