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ANO 1, EDIÇÃO 06

Comunicação é o grande passo para estar próximo dos filhos Precisamos mudar o modo como falamos com os nossos filhos, criando uma ponte para o diálogo e não as brigas constantes

mundo mudou bastante O e a comunicação interpessoal é algo que vem se per-

dendo ao longo das últimas décadas, principalmente devido ao surgimento das novas tecnologias, como as redes sociais e ferramentas como WhatsApp, Facebook ou e-mail. Com isso, as pessoas têm uma dificuldade cada dia maior de falar dos seus sentimentos e dos seus problemas. Consequentemente, doenças como depressão e síndrome do pânico aumentam em escala preocupante.

“Para melhorar os relacionamentos em casa, procure nunca acusar, comparar e criticar o outro” Além desse aspecto físico e de saúde, essa falha na comunicação e no lidar com os sentimentos traz outros problemas. Essa dificuldade, aliás, é uns dos aspectos que mais leva os jovens a se aproximarem do mundo das drogas, pois, muitos deles não conseguem controlar os sentimentos e emoções e não

estão preparados para serem rejeitados ou terem seus planos cancelados. Não sabem lidar com a decepção ou com o fracasso. Como viver é experimentar todos os dias sensações novas e situações que desencadeiam reações que podem ir da indiferença até a raiva, temos que orientar nossos filhos a aceitar todos esses sentimentos como parte integrante do processo de viver. Se nossos filhos não aprenderem a encarar os sentimentos negativos como parte natural do processo de viver e, principalmente, não aprenderem a lidar com eles, em algum momento vão optar pelo “não sentir”, pela “fuga” de tudo que incomoda – e é assim que muitos jovens experimentam drogas ou álcool pela primeira vez. Uma das maiores fontes de sentimentos desagradáveis para muita gente está nos relacionamentos familiares. O modo pelo qual o pai ou a mãe fala tem um impacto enorme no lado emocional dos filhos e, por causa disso, podem desenvolver o desejo de experimentar álcool, drogas ou cigarro, pois, certamente, alguém entre os amigos já disse que isso alivia toda essa pressão a que estão submetidos.

Quantas brigas familiares e até separações de casais começaram com uma frase infeliz ou uma palavra mal colocada? Os métodos de educação do passado sempre primavam pelo uso da violência, onde os filhos não poderiam questionar as decisões dos pais. Todas essas ações criaram uma legião de pessoas com problemas emocionais, com dificuldades de relacionamentos, algumas vezes tímidas, outras vezes agressivas e esse modo de educar nossos filhos precisa mudar. Pois, essa educação tradicional, a qual nos últimos séculos sempre foi baseada no

medo, na vergonha ou na culpa, não funciona mais. Quantas vezes nos lembramos de pais que dizem que se os filhos não tirarem notas boas na escola vão apanhar, ou que, por eles serem “burros” e tirarem notas baixas são a vergonha da família. Ou ainda, que são ingratos por não retribuírem de modo favorável o esforço dos pais em pagar boas escolas. Essa estratégia não funciona mais nos dias de hoje. Temos que escolher novos caminhos.

“Outro fator que destrói relacionamentos: mania de se justificar irrita as pessoas e cria mais desarmonia”


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O Sedesafi o de educar sem violência desejamos um mundo melhor para todos, necessitamos conversar de modo a não produzir sentimentos desagradáveis

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omo falar com os filhos, chamando-os às devidas responsabilidades e corrigindo seus defeitos, sem ser agressivo? Está é a grande questão na área da educação familiar e que muita gente vem debatendo nos últimos anos, tendo sido tema, inclusive, de congressos de psicólogos. Nos últimos anos, surgiu um movimento mundial que segue a linha de um psicólogo americano chamado Marshall Rosenberg, que escreveu um livro intitulado “Comunicação Não Violenta”, facilmente encontrado em qualquer livraria. Esse livro lança uma nova esperança na arte de se comunicar e ter uma relação mais direita e harmoniosa com os filhos. O segredo de uma boa comunicação não são as palavras usadas e sim a boa conexão. Temos de estar conectados aos sentimentos e necessidades dos outros. Segundo Marshall Rosenberg, a causa da violência que existe no mundo é o nosso desejo de julgar, condenar, culpar e comparar as pessoas, acreditando que isso provoque mudanças nos comportamentos. Outro aspecto a ser observado: nunca critique uma pessoa aflita, porque ela precisa de sua presença e do seu silêncio. Na Comunicação Não Violenta, também chamada de CNV, evitamos rotular pessoas. Dizer frases como: “Você está errado!” ou “Você não faz nada certo”, já representa agressão e toda agressão, normalmente, é respondida de modo nada respeitoso, se não for em palavras, pelo menos em pensamento, e isso gera grande efeito colateral na cabeça dos jovens. A criança é muito sensível às palavras ditas pelos familiares e amigos. Dizer a uma criança que ela é feia, que desse jeito não vai

dar em nada na vida, ou que ela é preguiçosa ou burra, pode gerar muitos sofrimentos emocionais que poderão ser aliviados por álcool, drogas ou cigarros. Muitas vezes, os pais, na tentativa de incentivar os filhos, acaba levando-os a caminhos perigosos. Da próxima vez que seu filho fizer algo que você considere “errado”, diga para ele que você “discorda” de sua ação, pois dizer que o outro está errado é um julgamento e falar que discorda é apenas uma opinião. Se ele quiser saber o porquê, você dará as suas explicações e isso vai fazer com que ele as ouça com muito mais atenção. Outra coisa que fere muito a sensibilidade do jovem dentro de casa é a questão da comparação. Muitos pais, na tentativa de estimularem os filhos a terem uma situação melhor, dizem algo assim: “Filho, veja como você está! Seu primo já entrou na faculdade e você nem terminou o Ensino Médio. Desse jeito você vai ficar para trás...” Poucas pessoas suportam, pas-

sivamente, serem comparadas com outras. Isso diminui a autoestima e cria uma profecia negativa que pode ser usada como um modelo mental permanente: “Até a minha mãe sabia que eu não iria dar em nada na vida!” O cérebro humano é interessante. Ele odeia injustiças. Basta alguém ver uma injustiça e já se coloca na posição de juiz, pronto a falar mil coisas e condenar ao sofrimento, acreditando que a dor pode mudar as pessoas e reparar seus erros. Quando dizemos que alguém está errado, isso significa que quem falou está certo, e se o outro está errado, merece ser punido e se ninguém for puni-lo, algo dentro de nós, talvez no nosso lado não consciente, vai criar mecanismos de punição, desprezo, rejeição, fazendo o outro sofrer pelo que nos fez de mal. Esta estratégia é muito ruim na educação dos filhos, pois não desenvolve relações autênticas, criando condições para surgir as mentiras, as meias verdades, as omissões, além de permitir que fiquemos numa zona de negação de

nossa própria realidade. Quando os pais estudam a Comunicação Não Violenta, criam um mecanismo no qual, podemos dizer claramente para nossos filhos quais foram os seus comportamentos que consideramos inadequados, quais foram os sentimentos produzidos e o que pedimos que seja feito de modo diferente. Uma das causas das brigas familiares é que temos o hábito de falar primeiro de nossos sentimentos, verdadeiramente “soltando os cachorros sobre o outro”, gritando, gesticulando, ameaçando, para só depois falarmos dos fatos que provocaram tamanha indignação. A CNV sugere que diante de algo que nos desagradou, falemos primeiro do fato, descrevendo o que aconteceu, como se tivéssemos vendo uma foto ou assistindo um vídeo, depois iremos falar dos sentimentos que aquele comportamento nos ocasionou, explicando quais foram as nossas necessidades que não foram atendidas e terminamos com um pedido razoável.

Esta fórmula Fato-Sentimento-Necessidade-Pedido faz verdadeiros milagres no campo dos relacionamentos. Vejam o exemplo: “Júnior, quando entrei em casa e observei as suas meias jogadas pelo chão e sua roupa espalhada pela sala, eu fiquei muito chateada, pois necessito de organização dentro desta casa para poder cumprir todas as minhas tarefas de mãe. Eu desejo te pedir que recolha essas roupas antes de servirmos o jantar. O que você acha disso? ” É bem melhor falar assim do que gritar e ameaçar e, certamente, teremos mais chances de sermos ouvidos. Procure conhecer a Comunicação Não Violenta e você irá perceber quantas coisas maravilhosas irão acontecer dentro do seu lar.


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O trabalho no bem protege e eleva a estima das pessoas Pais que incentivam seus filhos a fazer trabalhos voluntários são exemplos de boa educação e os afastam das drogas

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ós pais, que temos filhos adolescentes, sabemos os perigos que muitos locais possuem, por conta da presença de drogas e álcool. Assim, se um trabalho de prevenção não for bem feito, esse filho poderá estar em contato direto com essas substâncias, seja na escola, no clube ou na casa dos amigos. Por conta disso, quando se pensa na prevenção em relação ao uso de drogas, o primeiro passo a ser dado é chegar antes, criando as condições e meios para desestimular uma primeira tentativa de experimentar algo diferente.

“Filho que aprende desde pequeno, pelo exemplo dos pais sobre, o trabalho voluntário não chega à droga; ele não precisa, a droga não faz sentido, a vida dele tem significado” A experiência nos tem ensinado que a escola, em alguns casos, se tornou um ponto de estímulo ao uso de alguns tipos de drogas. Portanto, a tarefa de prevenir o uso de drogas precisa ser aceita como missão primordial dentro da família. O problema precisa ser enfrentado no interior da nossa casa, com conversas sinceras, estabelecendo limites e, acima de tudo, muito amor, já que somente disciplina não consegue dar conta dessa questão. Convivendo com o tratamento de usuários de drogas, percebemos

que existem fatores que protegem e fatores que impulsionam o uso de alguma substância psicoativa. Assim, é preciso saber o que fazer e o que não fazer, para conseguir manter o seu filho longe do uso de drogas. Uns dos aspectos mais importantes na recuperação do usuário de drogas é o desenvolvimento do prazer em ajudar ao próximo. Talvez, o caminho mais seguro é levá-lo a descobrir o prazer que existe em ajudar outras pessoas. Ao falarmos em prevenção às drogas, temos que falar da necessidade de ensinarmos, desde cedo, aos nossos filhos que ajudar ao próximo, além de ser um dever, ainda é fonte de grande prazer e de satisfação para nossa alma, além de ser prática que desenvolve nossa espiritualidade e nos aproxima de Deus. Ou seja, ajudar o próximo apenas tem pontos positivos e, por isso, devemos fazer esse tipo de ação. O filho que cresce vendo os pais se engajarem em alguma causa nobre tende a copiar o mesmo caminho e desenvolve valores e amizades mais saudáveis, que formam um muro de proteção contra comportamentos inadequados. O jovem que aprende a ser útil desde pequeno, que sabe que pode contribuir de alguma forma para um mundo melhor, começa a desenvolver um propósito para sua existência. A droga entra na vida de jovens que não tem um propósito bem definido, que não sabem o que querem da vida nem o que desejam ser no futuro. As drogas nada mais são do que uma saída para uma vida sem sentido. Por isso, a importância de ensinar nossos filhos o prazer de ajudar uns aos outros.

A importância do trabalho voluntário

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no trabalho no bem que encontramos amizades mais indicadas para nos estimular na aquisição de valores nobres e que ficarão impressos em nossas almas pelo resto da existência. O jovem necessita sentir que ele faz parte de algo maior, que suas ideias revolucionárias podem contribuir para solução de inúmeros problemas e que ele necessita de espaço próprio para manifestar todo seu potencial. Cabe aos pais o dever de criar condições adequadas para que os filhos expressem de maneira natural todos seus talentos e dons, mas, colocando tudo isso a serviço do bem.

Em uma sociedade, na qual o valor das coisas materiais importa muito, o jovem se sente atraído para exibir o que possui como forma de chamar a atenção de outras pessoas. Nesse contexto, pode optar pelo comportamento agressivo ou desleixado, tatuando o corpo de inúmeras formas, bebendo demais ou, no pior dos casos, usando drogas. No fundo, tudo isso expressa o seu grande desejo de ser admirado. Esses comportamentos geram alguma admiração dos seus colegas mais próximos, mas não admiração de qualidade, já que a maior fonte de admiração com qualidade é o trabalho voluntário.

Quanto mais nos dedicamos a ajudar aos outros, mais prazer sentimentos, mais segurança interior se desenvolve e, com isso, cresce a autoestima, melhora a auto eficácia e, consequentemente, surge uma legião de admiradores que passam a fazer parte dos nossos relacionamentos. O jovem necessita sentir que ele faz parte de algo maior, que suas ideias revolucionárias podem contribuir para a solução de inúmeros problemas e que ele necessita de um espaço próprio para manifestar todo esse seu potencial.


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Ajudar o próximo é um poderoso efeito na formação do caráter

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preciso estabelecer a generosidade como uma virtude a ser desenvolvida desde muito cedo. O filho que é criado em grandes condomínios ou que frequenta escolas diferenciadas se afasta da realidade do nosso país e, mais para frente, vai se sentir impotente ou indiferente à dor do próximo, tornando-se uma pessoa egoísta, fechada e, no final das contas, triste com a sua própria realidade. Isso é trágico para a família, pois filhos que não desenvolvem a compaixão pelos outros mais necessitados, tendem, também, a não ter muito interesse pelos pais, quando estes ficarem mais velhos e

doentes. É um ciclo vicioso que não acaba. Se desejamos uma sociedade mais justa e livre da criminalidade e das drogas, é importante começarmos agora a fazermos algo nesta direção. É, por isso, que enfatizamos a necessidade dos pais se empenharem na prática da caridade e do hábito de socorrer a dor alheia. Uma das características mais comuns dos usuários de drogas é a ingratidão. Temos que ficar atentos para identificar em nossos filhos esse sentimento desagradável e que gera consequências trágicas no futuro dele e da nossa própria família. O usuário de drogas é alguém que só pensa nele, que

só reflete na sua dor ou na sua necessidade de prazer. Com isso, ele normalmente se torna indiferente ao sofrimento dos pais, nem se preocupa com as desarmonias familiares que causa, pois a sua vida não tem propósito. Ele sente um eterno vazio interior e ainda tem baixa autoestima, por isso, não liga para nada. Quando aproximamos nossos filhos do trabalho do bem, do trabalho voluntário, das

grandes causas da humanidade, nós estamos plantando sementes poderosas de proteção a uma vida desregrada e sem valores. Cabe aos pais a iniciativa de começar essa tarefa. O mundo está repleto de oportunidades de se fazer o bem, apenas é necessário incentivar nossos filhos a aceitá-las. Lembramos sempre que fazer o bem não é apenas destinar algum dinheiro a alguma instituição. A maior doação é em-

Ronaldo Campos, especialista em dependência química, é o responsável pela redação do PROJETO ILUMINAR. “A ideia é tirar o foco da prevenção da escola e colocá-lo dentro da família. A solução depende dos pais.” Dimas Moraes, Provedor do FUNDO DE BENEFICÊNCIA EIKO OSAKA DE MORAES, mantém o PROJETO ILUMINAR. “Nossa intenção é receber projetos que ajudem as pessoas a se ajudarem, e, este projeto é uma maneira de fazer algo em benefício das pessoas, com maior abrangência”.”

prestarmos o nosso tempo e os nossos talentos para ajudar em algum setor. Para realmente fazer o bem, é necessária a nossa presença física, o nosso suor e, por vezes, até algumas lágrimas. Nessas horas, é importante que possamos ter a presença de nossos filhos ao nosso redor. Não há efeito mais poderoso na formação do caráter de um jovem do que ver pais e mãe empenhados em ajudar alguém. As lições de desapego devem começar dentro de casa. Se apenas trabalhamos para comprar coisas e reter objetos, estaremos passando a imagem de que o egoísmo e a indiferença compensam. É aí que nascem os embriões da corrupção e da criminalidade. Mas, ajudar o próximo, compartilhar nossas facilidades e dividir uma parte de nossa riqueza transitória, nos engrandecem perante a vida e tornam os nossos filhos mais conscientes de sua missão.

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Jornal Iluminar - Edição 06  

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