Page 1

ANO 1, EDIÇÃO 04

Ser aceito e encaixar-se

Para que os nossos filhos possam se sentir seguros e confortáveis, evitando assim o uso das drogas, é necessário que os pais e os amigos os aceitem e os amem do jeito que eles são

E

m um mundo cada vez mais complexo, com um ritmo de vida acelerado e uma comunicação pessoal complicada, agravada ainda mais pela tecnologia, é difícil para os jovens se encaixarem em determinados grupos sociais. E essa questão de não aceitação e pertencimento a uma turma é um dos fatores que tem levado muitos jovens até as drogas. Por pior que esse cenário seja, essa situação é rotineira na vida de diversos adolescentes, pois todos nós desejamos ser amados e admirados pelo que realmente somos, mas existem condições que incomodam e causam sofrimento, como a aparência, a timidez e a falta de dinheiro. Assim, usar drogas é uma forma de fugir desses problemas e de não encarar a realidade, uma maneira mais “fácil” de levar a vida.

“O jovem quer ser aceito do jeito que é. Ao mesmo tempo, quer fazer parte de alguma turma. Combinar essas duas coisas nem sempre é possível”

Por conta disso, muitos jovens que têm dificuldade de se aceitar, devido a sua aparência pessoal que não se encaixa nos modelos de beleza que aparecem nas revistas, no cinema ou na televisão, podem cair nas drogas. Pois, não é fácil ter cabelos ou cor de pele diferentes da maioria dos demais colegas. Ser diferente dos outros não é uma condição tranquila de se conviver e as drogas podem ser um grande alívio para esse sofrimento, um remédio milagroso que resolve “quase tudo.”

Valores tradicionais esquecidos H

oje, infelizmente, vivemos em um mundo com grande inversão de valores. Muitos jovens são admirados mais pelo que possuem, em termos de bens materiais, do que pelo que realmente são em virtudes, valores, ética e crenças. Para muitos adolescentes é muito duro perceber que na escola quem tem dinheiro, celular da moda ou tênis importado vale mais e chama muito mais atenção do que aqueles que, apesar de não terem nada disso, são honestos, estudiosos e responsáveis. É o velho dilema do “ter” ser mais importante do que o “ser”, questão muito discutida na sociedade atual, na qual, alguns

valores tradicionais de família, religião e outros conceitos importantes vêm sendo abandonados pelos adolescentes. O jovem quer ter amigos, quer fazer parte de alguma turma, quer ser ele mesmo e ser aceito do jeito que ele é na sua intimidade. Entretanto, nem sempre isso é possível. Assim, quando nossos filhos percebem que há locais na escola ou na rua onde não são bem aceitos, pode surgir um sentimento de frustração, de dor ou de rejeição. Se um jovem não consegue ser aceito como é, por algum grupo que admira, pode, em muitos casos, começar a mudar os seus comportamentos,

alterar os seus valores e variar hábitos, apenas para poder ser aceito por outros jovens que admira. Isso não deixa de ser um tipo de violência emocional, que pode trazer sérias consequências para o futuro. O jovem tímido que na escola não consegue arrumar nenhuma namorada, facilmente descobre que quem fuma maconha, bebe cerveja, usa cigarros comuns, cabula aula e ofende o professor é admirado por uma legião de seguidores. É nessas horas que muita gente começa a copiar certos comportamentos inadequados para se encaixar nesses grupos que tanto admira. Temos visto a história de muitos jovens que ficavam

em casa, nos finais de semana, fumando cigarro, tentando aprender a tragar fumaça, somente para se exibir diante dos colegas nos dias seguintes. O nosso corpo se acostuma com muitas coisas e, com isso, o que era um hábito vira um vício e depois pode se tornar um tipo de dependência química. É uma espécie de “efeito dominó”. Há muita gente que começa a beber ou fumar apenas para agradar aos outros, ser aceito pelos outros, parecer igual aos outros e, assim, enfraquecem a sua capacidade de dizer “não” a uma série de ações que podem trazer danos à saúde ou às emoções.


2

ANO 1, EDIÇÃO 04

Uso de drogas para agradar aos outros Muitos dos nossos filhos, seja por timidez ou medo, usam drogas para serem aceitos em um determinado grupo

M

uitas vezes temos dito que os filhos tímidos, os filhos por adoção e os filhos que sofrem bullying na escola são os mais vulneráveis às drogas e ao álcool, pois além dos novos hábitos que surgem na tentativa de serem aceitos, há ainda outro fato curioso: muitos jovens, devido a todos esses fatores, desenvolvem uma forte dor emocional, sentem um vazio interior e não sabem que caminho devem seguir para serem queridos, tanto pelos amigos quanto pela família. Com isso, sentem medo e ansiedade e, nesses momentos, se alguém lhes convidar a beber alguma bebida alcoólica podem vir a se sentir muito bem. Muitos descobrem que bebida alivia as frustrações e torna a vida mais suportável. Outros encontram segurança segurando um cigarro entre os dedos e, alguns, acabam experimentando maconha ou outras drogas para encontrar novas sensações de prazer e alívio em suas vidas sofridas.

de tal maneira impregnado na memória da criança que se alguém na escola disser que ela é feia e chata, algo dentro dela diz o oposto: você é linda e agradável. Dessa forma, ela não desenvolve sentimentos desconfortáveis e, naturalmente, não precisará do auxílio de drogas, cigarros ou bebidas para encontrar a sua autoafirmação e a sua confiança de acreditar no próprio potencial. No mundo da dependência química existe uma palavra

“Elogie seus filhos! Procure sempre ressaltar o que eles têm de bom e não permita que os outros destaquem os seus defeitos!” É, por tudo, isso que os pais, desde muito cedo, devem fortalecer a autoestima dos filhos. Quando os pais criam o hábito de escutar os filhos com regularidade, sem lhes cortar o raciocínio, sem criticá-los, julgá-los ou compará-los com alguém, surgem as condições ideais para evitar que a droga e o álcool entrem em suas vidas. Se uma mãe, desde muito cedo, diz todos os dias que ama a filha e que ela é linda, isso fica

muito importante. Preste bem atenção neste novo termo. Essa palavra é a “assertividade”, ou seja, a capacidade de manter uma opinião firme, mesmo que outras pessoas digam algo em contrário. Na prática, é ser você mesmo, ainda que os outros achem que você não está bem ou que a sua personalidade seja fraca. Imagine a seguinte situação: a sua filha resolve ir à escola com uma blusa amarela e alguém diz

que ela está feia daquele jeito. Se a moça não tiver assertividade, é capaz dela voltar para casa e trocar de roupa para se sentir melhor. Nesse caso, a opinião do outro foi mais forte que a sua escolha anterior. Se, entretanto, recebe a mesma crítica e diz que apesar de outra pessoa achar que a blusa amarela não ficou legal, ela está se sentindo bem daquele jeito e que vai continuar usando a blusa amarela que escolheu ante-

riormente, essa seria uma resposta assertiva e de confiança que a criança adquiriu em casa, com o apoio e o amor dos pais. Muitos jovens entram para o mundo da droga pela falta de assertividade. Eles até sabem que experimentar drogas não é legal, mas se algum amigo chama para usar, mesmo desejando dizer “não”, acabam dizendo “sim”, e experimentam para não desagradar ao amigo, com medo de perder a sua amizade ou o seu respeito. Literalmente, é o que em linguagem popular é descrito pela expressão “Maria vai com as outras”, ou seja, a opinião do outro é mais forte que a dele. É o agir por impulso, sem pensar nas consequências, sem medir os impactos que uma decisão possa ter em sua vida. O nosso papel de pais é ensinar

nossos filhos a serem mais assertivos, a não sacrificarem os seus valores e ideais para agradar outras pessoas. Que todos eles têm muitos talentos e dons que serão reconhecidos pelas pessoas certas nos momentos certos; é embutir em suas cabeças que são amados e aceitos, sem precisar das drogas. Precisamos ensiná-los a respeitar as diferenças dos outros para que as suas diferenças sejam respeitadas. E se forem pressionados a fazer algo que a consciência desaconselha, é preciso orientá-los a se sentirem à vontade para partilhar essas coisas com os seus pais. Eles precisam saber que em suas casas existem pessoas que irão escutá-los e que vão acolhê-los com amor e respeito. Com essas ações, os pais estarão trilhando caminhos que afastam as drogas da vida dos seus filhos.

“Todo jovem tem talentos e dons que serão reconhecidos pelas pessoas certas, nos momentos certos”


ANO 1, EDIÇÃO 04

3

Educar é ensinar pelo exemplo

É necessário que os pais deem bons exemplos com boas ações, para que os filhos não caiam no caminho das drogas e do álcool

E

ntre os diversos desafios que enfrentamos nas nossas vidas, a tarefa de educar os nossos filhos é com certeza umas das missões mais árduas e simultaneamente mais prazerosas que o Universo coloca diante de nossos passos e das nossas tomadas de decisões. Ser pai ou mãe não é uma empreitada fácil, já que nossos filhos possuem personalidades próprias, além de gostos e aptidões diversas. Por causa disso, quando pensamos em educação, temos que buscar individualizar o que ensinamos para os nossos entes queridos, com maneiras diversas para tratar cada pessoa, de um jeito especial e único. Muitos pais entendem que educar é apenas mandar o filho para uma boa escola, fazê-lo aprender alguma língua estran-

geira ou praticar algum esporte. Mas é vital executar muito mais do que esses pequenos passos se quisermos garantir uma educação de qualidade para os nossos filhos. Visto que, ainda que tudo isso possa ser muito importante, educar é bem mais do que isso – educar é transmitir aos filhos os valores e princípios corretos que vão guiá-los em seus caminhos. A parte financeira é apenas uns dos pilares de uma boa educação. Por conta da complexidade do mundo atual, para sermos bons pais não basta mais dar comida, roupa, médico e dentista. É necessário preparar nossos filhos para o mundo real que existe fora de nossas casas ou longe de nossos condomínios. É importante instruí-los para a dureza da vida.

“É fundamental educar antes que os filhos cresçam e formem suas próprias opiniões”

E

studos já comprovaram que até os 10 anos de idade os filhos são muito influenciados pelo comportamento dos pais. Após esse período, essa influência entra em declínio e aumenta muito o valor da opinião dos amigos da escola, da rua ou da turma do futebol na formação de gostos e tendências. Por isso, tudo que o que os pais desejam transmitir em termos de educação deve ser feito, prioritariamente, até os 10 anos de idade. Depois disso, perde-se a

melhor oportunidade na área da educação e os pais passarão por aquela fase rebelde do filho adolescente, na qual ele não escuta nada do que os mais velhos falam. E por mais que a escola possa transmitir muitos conhecimentos e informações, ensinar os valores éticos e morais e dar a verdadeira educação devem ser tarefas prioritárias da família. Mas, infelizmente, as famílias parecem que não estão preparadas para cumprir com essa missão da educação.

Onde é que uma criança de 5 anos aprende a xingar, gritar, fazer birra ou mentir?

O

s comportamentos e atitudes dos pais exercem um poder enorme na mente infantil. Por causa disso, podemos dizer que educar é tarefa que se faz usando o recurso do exemplo. Muitas das palavras que falamos nossos filhos irão esquecer ou ignorar. Muitos de nossos conselhos e opiniões serão desprezados, mas tudo aquilo que fizermos através de atos ou ações ficará gravado na mente das crianças por muito tempo. Na questão da prevenção ao uso de drogas, os princípios não são diferentes. Se desejamos filhos saudáveis e longe das drogas e do abuso do álcool, devemos começar a dar o exemplo dentro de casa, desde bem cedo. É muito difícil convencer um jovem a parar de fumar maconha se o seu pai, em

casa, fuma cigarros comuns. É estranho falarmos nos perigos do alcoolismo, se em nossa casa existe muitos lugares onde há bebida alcoólica e no churrasco de domingo, os pais ficam bêbados na frente dos próprios filhos. O jovem consegue enxergar perfeitamente essas incoerências e utiliza esses argumentos para justificar suas primeiras experimentações com as drogas ou com álcool. Ele pensa: “Se o meu pai toma uma cerveja, porque eu não posso tomar também ?” É importante enfatizar que os filhos aprendem a usar drogas muito mais em casa do que na rua. Sempre tem alguém na família que fuma, outro que bebe, mais algum que toma remédio contra depressão, outro que usa medicamentos para emagrecer ou para dormir. Esses são os seus exemplos.

“Tudo isso vai ensinando aos filhos que se houver algum tipo de dor ou sofrimento, desconforto ou tristeza, basta usar alguma coisa que tudo melhora rapidamente” Muitos filhos são tímidos por natureza e facilmente aprendem que a bebida e a droga os ajudam a ficarem mais “normais”, descolados e próximos das pessoas que mais admiram. É a estratégia de tomar uma cerveja para ter coragem de conversar com a menina mais bonita da festa. Conhecemos inúmeras histórias de pais que ensinaram os filhos a beberem bebidas alcoólicas desde muito cedo. Ainda tem outros que pediam para os filhos acenderem um cigarro comum, além daqueles que mandavam os filhos irem ao bar da esquina comprar pinga ou um maço de cigarros. O jovem que cresce vendo tudo isso vai associar esses comportamentos como ações normais e saudáveis. Se o pai ou a mãe usam essas substâncias, o filho vai querer também utilizar para imitar, copiar ou até afrontar os próprios pais.


4

ANO 1, EDIÇÃO 04

Ensinar os valores da família e saber ouvir os filhos Os pais querem que os filhos sejam educados, mas precisam passar por meio de suas ações e dos seus comportamentos exemplos que os filhos possam seguir Pais que falam a verdade, que utilizam a estratégia do amor, que exercitam a arte de escutar, que vivem e participam de alguma religião ou fazem algum tipo de trabalho voluntário estão melhor preparados para enfrentar os desafios de uma educação voltada para o estabelecimento de valores. Se desejamos filhos educados, calmos e esforçados, precisamos dar exemplos nessa direção. A prática de conversas em família é um exemplo de comportamento super saudá-

vel a se passar. Nas casas em que existe diálogo, os conflitos são superados com mais facilidade. Além disso, o carinho e a atenção que o marido dá para a esposa, ou vice-versa, sinaliza para o filho de que naquela casa há muito amor e que ele pode usufruir desse sentimento tão genuíno. O filho precisa ver o pai andando ao lado da mãe de mãos dadas na rua, trocando beijos e abraços. Isso cria um ambiente favorável ao desenvolvimento das mais nobres virtudes.

“Pais sempre ensinam muito mais pelo exemplo, pelas atitudes e ações do que pelas palavras” Um grande exemplo saudável que os pais podem dar é criar o hábito de escutar seus filhos nos momentos delicados da vida. Escutar sem criticar, sem gritar, sem acusar.

A escuta cheia de bondade no olhar desenvolve na criança a autoestima e a autoconfiança. Se a criança se sente ouvida, ela entende que sua opinião e suas ideias são importantes e

Ronaldo Campos, especialista em dependência química, é o responsável pela redação do PROJETO ILUMINAR. “A ideia é tirar o foco da prevenção da escola e colocá-lo dentro da família. A solução depende dos pais.” Dimas Moraes, Provedor do FUNDO DE BENEFICÊNCIA EIKO OSAKA DE MORAES, mantém o PROJETO ILUMINAR. “Nossa intenção é receber projetos que ajudem as pessoas a se ajudarem, e, este projeto é uma maneira de fazer algo em benefício das pessoas, com maior abrangência”.”

isso favorece muito o diálogo entre os membros da família. Os pais necessitam usar de autoridade, mas sem serem autoritários, de forma que os filhos os vejam como guias, como exemplos de conduta a serem seguidos em todas as situações. O ato de mandar não educa, porque isso é escravidão e não gera nenhum tipo de benefício na vida dos nossos filhos. Por isso, a única forma verdadeira de educar para a vida é através dos bons exemplos! Sejamos todos nós fontes de bons exemplos, para que quando não estivermos mais perto de nossos entes queridos, eles possam se recordar de todos nós, como exemplos inspiradores para as suas caminhadas.

Profile for projetoiluminar

Jornal Iluminar - Edição 04  

Jornal Iluminar - Edição 04  

Advertisement