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O “não” é prova de amor

processo de educação dos filhos sempre foi algo difícil, mas com as mudanças do mundo nas últimas décadas, a forma de criá-los ficou ainda muito mais desafiadora do que era antigamente. Nos dias atuais, cuidar dos filhos tornou-se uma atividade cansativa, preocupante e cara, pois não basta apenas dar amor e atenção, visto que outros elementos também são bastante importantes nesse processo.

“É necessário que os pais entendam que falar ‘não’ e negar alguns pedidos dos seus filhos colabora para melhorar a educação deles” A cobrança dos filhos em cima dos pais está cada dia maior e mais agressiva. Por isso, acaba sendo natural que os eduquemos nas melhores escolas, os matriculemos nos melhores cursos, dando para eles as melhores oportunidades, tudo para poder agradá-los e dar a cada um deles uma chance maior de atingir o sucesso. Mesmo assim, uma grande parcela da nossa juventude ainda acha que tudo isso é pouco e sempre quer um pouco mais do que podemos oferecer. Essa situação acaba nos fazendo reféns do próprio estilo de criação que implantamos em nossas casas. Em muitos lares, o filho acaba tendo um papel de muito destaque na lista de prioridades dos pais. Isso pode não ser muito saudável.

Muitos pais entendem que amar é fazer a vontade dos filhos, atendendo-lhes os desejos e poupando-os das dificuldades da vida. Nós os amamos tanto, que a simples possibilidade de vê-los em sofrimentos ou agruras nos apavora e, com isso, saímos desesperados, tentando protegê-los de qualquer ameaça maior, o que os torna despreparados para enfrentar os verdadeiros desafios da vida. Muitas vezes, o nosso amor é tão grande que temos medo de perdê-lo, por isso, há o receio de falar, algumas vezes, um sonoro “não”. Muitos pais acreditam que com essas recusas, os nossos filhos se sentirão menos amados e vão desejar ir embora de nossas casas, então, com medo de que isso aconteça, nos desdobramos para atender suas vontades, custe o que custar.

“Dizer ‘não’ requer paciência e tempo, coisa que muitos pais não têm” É mais fácil atender aos desejos dos filhos dizendo um “sim”, do que lhes impormos um “não”. Se dizemos “sim”, alguns até dizem “valeu pai...” ou “legal mãe...”, mas, ao dizer um “não”, certamente virá aquela velha pergunta: por que não? E esse questionamento acaba sendo fatal para muitos pais, que não conseguem explicar com clareza porque estão negando o pedido dos filhos.

O poder de ter controle de nossos filhos

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s jovens são insistentes por natureza e vão ficar questionado os pais, tentando vencê-los pelo cansaço. Muitos pais não aguentam a pressão dos filhos e acabam cedendo, transformando o “não” em um “sim”, sinal de rendição, sinal de que os filhos são quem mandam naquela casa e sinal de que os pais não possuem controle sobre os seus filhos. Quando dizemos o “sim” para situações que o nosso coração de mãe ou pai fica apertado, estamos, na verdade, com medo do conflito. Com isso, começamos a aceitar pedidos que, com o tempo, irão evoluir e poderão ter consequências desastrosas na vida da nossa família. Se, por exemplo, uma filha de 15 anos chega e diz que vai dormir na casa do namorado, e os pais enxergam nesse fato algum perigo, têm todo o direito

de dizer um “não”. A filha pode até reclamar, chorar, xingar, dizer que vai te odiar, que quer ir embora daquela casa, mas, com o tempo, perceberá que o “não” dos pais era uma prova de amor, prova de cuidado. Imagine o contrário: a filha pede para ir dormir na casa do namorado e a mãe diz “sim”, e ainda complementa que ela já é grande e sabe o que quer da vida. A imagem que passamos é que a família não está “nem aí” para ela. Ela que faça tudo, experimente tudo e que tome cuidado para não fazer nada que venha a se arrepender depois. Quando dizemos que o “não” é uma prova de amor, estamos querendo dizer que precisamos parar de atender aos desejos dos filhos no modo automático, pois é assim que as drogas entram na vida de nossos adolescentes.

É essa liberdade exagerada que damos para os nossos filhos, que faz com que eles tenham o primeiro contato com substâncias ilícitas que podem trazer prejuízos irreparáveis ao longo do tempo. Assim, cabe deixar bem claro para os nossos filhos que enquanto eles forem menores de idade e morarem sob nosso teto, têm o dever de acatar as regras da família. Os pais trabalharam muito para comprar aquela casa, ou são eles que pagam o aluguel, pagam as contas de água, eletricidade, pagam o supermercado e arcam com inúmeros outros gastos, logo têm todo o direito de colocar as suas regras. Os pais têm direito a ter uma noite de sono tranquila e serem poupados das loucuras de certos fi lhos ingratos e rebeldes.


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Falar “não” significa um cuidado e uma preocupação maior com os nossos filhos Q

uando dizemos que nosso filho não poderá ir em tal lugar ou participar de tal evento, isso demonstra que estamos preocupados com ele, que enxergamos os perigos que ele ainda não consegue ver, que sentimos que estamos diante de situações para as quais eles não estão preparados e, por isso, devido ao nosso amor, não permitiremos. O filho começa a fumar antes dos 18 anos e muitos pais aceitam esse fato numa boa... O filho menor de idade começa a aprender a dirigir e os pais não falam nadam, acobertam esse fato, ou ainda pior, o incentivam na prática dessa ilegalidade. O filho que não é maior de idade, contrariando a legislação desse pais, bebe e chega embriagado em casa e alguns pais acham normal e que isso faz parte da fase da adolescência. O medo que temos de contrariar nossos filhos nos leva a permitir muitas coisas que, no fundo, não gostaríamos. Se nossos filhos já são meio rebeldes

o respeito, de modo a evitar que se tornem um confronto entre pessoas. Casas que parecem a “Disneylândia” onde tudo pode, é um risco para a educação e atrapalham o desenvolvimento de valores e crenças saudáveis. Muitas vezes, a nossa casa tem de ser a “Nãolândia”, para que assinalemos de modo claro e sem nenhuma dúvida, sobre quem manda dentro daquele ambiente. A casa pertence aos pais, que têm o direito de estabelecer as suas regras. Cabe aos filhos o dever de obedecer e ser ainda gratos. Quando eles ficarem adultos, quando trabalharem e tiverem as suas próprias casas, eles poderão mudar todas as regras de acordo com suas vontades, mas, por enquanto, devem seguir os desejos dos pais. Dizer “não” é estabelecer até onde vai a autonomia deles, é prepará-los para enfrentarem um monte de “nãos” que virão ao longo de suas vidas, já que

‘As drogas entram em lares onde se diz muito sim, ou onde preferimos não falar nada, quando vemos algo que não nos agrada’ e despertam sentimentos preocupantes, precisamos agir e não esperar a situação piorar de vez. Temos que ajudar os pais a dizerem mais a palavra “não”. Não pode, não permitimos, não temos dinheiro, não concordamos, não iremos aceitar isso, não vamos mais tolerar esse ou aquele comportamento. É lógico que isso vai gerar conflitos de ideias, mas podemos controlar com o diálogo e

eles irão receber “nãos” no mercado de trabalho, nos relacionamentos, nos negócios e em todos os setores. Por isso, precisam aprender a aceitar essas situações desde jovens, para que não se tornem adultos frágeis e mimados. Durante essa primeira parte da caminhada, ainda terão a presença benéfica dos pais, como verdadeiros guardiões, verdadeiros faróis a iluminar os caminhos

‘Dizer não é colocar limites à atuação de nossos filhos’ da vida, mostrando as regiões perigosas e as armadilhas da estrada, mas no decorrer da vida, estarão sozinhos e devem aprender o que fazer para lidar com negações e frustrações. Os pais que dizem “não” a toda situação de risco, podem ter a certeza que, um dia, os seus filhos irão agradecer. O uso de drogas e o abuso de álcool aparecem em lares onde os pais economizaram muito a palavra “não”. Por mais doloroso que possa parecer, o “não” é uma grande prova de amor.


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Escutar é mais importante que aconselhar

Quando não ouvimos o que nossos filhos têm a nos dizer, criamos um ambiente de “dor emocional”, que abre o caminho para as drogas

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ós pais possuímos o hábito de dar conselhos aos nossos filhos, por sermos mais experientes e por querermos o melhor para eles, o que é ótimo. O problema é que, muitas vezes, na ânsia de falar, acabamos não escutando o que os nossos filhos têm a nos dizer, e isso acaba sendo péssimo para criar uma relação familiar de confiança e com boa comunicação. Quando se trata de drogas, esse quadro é ainda pior, por conta do tabu que ainda existe com esse tema. Prova disso, é que muitos jovens que destruíram suas vidas nas drogas e no álcool, repetem frequentemente a frase: “Na minha casa, ninguém queria me ouvir.” Isso ocorre porque adoramos dar conselhos e sugestões na vida dos nossos filhos. Sempre temos uma resposta pronta para qualquer situação, e no desejo de dizermos o que pensamos, o mais rapidamente possível, impedimos o nosso filho de expressar toda a sua dor, sua angústia e seus medos, assim, sem o desejar, o caminho para as drogas vai ficando mais aberto. Quando uma criança encontra um ambiente onde ela não consegue ter coragem de expressar os seus sentimentos mais delicados, de modo natural, criam-se as condições para desenvolver o que chamamos de “dor emocional”. A dor emocional nasce de uma sensação de não ser ouvido, do

fato que os nossos sentimentos e necessidades não são importantes para os outros e que, portanto, temos pouco valor e não somos amados naquela casa ou naquela família, como desejaríamos ser. Quando nossos filhos são muito pequenos, crianças ainda, nossas opiniões exercem um poder muito grande na área da educação e a tendência é que toda ideia vinda dos pais esteja certa e deva ser inteiramente absorvida, pelo menos, era assim que funcionava antigamente. Acontece que nos dias atuais, com tanta informação disponível na internet e nas mídias sociais, nossos jovens estão sendo impelidos a serem adultos cada vez mais cedo. Essa nova geração não aceita “ser mandada”. Quer ter opinião própria, quer falar, quer ser ouvida, que discutir, debater e não aceita apenas receber conselhos, sem poder expor suas opiniões. Assim, se nós que somos pais não escutamos nossos filhos, quem os escutará nos seus momentos de dor? Melhor ainda é perguntarmos: quem seu filho procura nas horas em que está triste ou em grande solidão, se a família não dá o apoio que ele necessita? É nessas horas que os amigos da escola ou os colegas da rua exercem uma grande influência, pois muitos sabem que diante de situações de raiva, mágoa, medo ou luto, bebida e álcool ajudam a superar esse momento.

A importância de ouvir o que seu filho tem a lhe dizer Q

uantas vezes, nossos filhos nos procuram para conversar sobre algo muito grave, e assim que começam a falar, nós já os cortamos, levantamos a voz, dizemos que eles estão errados e que nós temos a solução, basta eles fazerem desse ou daquele jeito? Se nós interrompemos o filho quando ele está desabafando a sua dor, estimulamos que ele fique quieto da próxima vez ou se aprofunde num quadro de timidez, que o acompanhará para o resto da vida. Com isso, a tendência desse filho usar drogas ou álcool, para se “soltar” e se sentir mais livre, aumenta consideravelmente. Pegamos um exemplo de um livro muito antigo, no qual encontramos uma situação interessante: o filho acaba de chegar da escola e vai direto até a cozinha onde sua mãe

prepara o jantar. Para surpresa da mãe, ele diz: “Mamãe, hoje eu sei que a senhora me ama.” A mãe, surpreendida, pergunta como ele chegou a esta conclusão e o seu filho diz com toda naturalidade: “Mãe, eu sei que a senhora me ama, pois quando eu venho conversar sobre algo importante, a senhora para tudo que está fazendo para me ouvir!”

E aí vai a pergunta: você que é pai ou mãe, para de fazer tudo que está fazendo para ouvir seu filho, ou é daquelas pessoas que conversam com eles olhando o celular, vendo a tela do computador, ou penteando o cabelo? Nossos filhos querem atenção e atenção exclusiva nestes instantes tão preciosos.


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Falta de comunicação É necessário aprendermos a controlar nossa ansiedade e ouvirmos pacientemente nossos filhos extravasarem suas mágoas, suas raivas e todo tipo de dor que tenham trazido da rua ou que estejam enfrentando dentro do seu coração. Há tantos jovens padecendo de

E, por mais difícil que pareça, nós precisamos ouvi-los desabafar todo esse estoque de rancor, sem interferir e até incentivando essa fala, ajudando-os a pensar nas possíveis soluções que eles irão tomar no dia seguinte a esses acontecimentos que tanto os irritam.

‘Essa falta de comunicação acaba criando em nossos filhos uma sensação de insatisfação e raiva, as quais podem acabar revertendo em atitudes radicais, como o uso de drogas ou álcool’ fortes conflitos sexuais, de desejos e sensações que não combinam com o que os outros sentem, que desejam falar de seus sonhos e frustrações, que querem compartilhar os segredos dos primeiros amores e das primeiras decepções, que querem falar da raiva que sentem por algum colega de escola ou da sua insatisfação com algum professor.

O fato de ouvirmos não quer dizer que concordamos nem que estamos prontos a apoiá-los incondicionalmente. Podemos ouvir um filho falar por 30 minutos, explicando as razões de um eventual pedido, e, com a maior tranquilidade, após ouvi-lo pacientemente, podemos dizer, simplesmente, “não pode” no final de todo esse processo.

Na rua ou no bar sempre existe alguém disposto a ouvir alguém em sofrimento ou revolta. Conselhos na rua é o que não falta. Os filhos, depois de certa idade tendem a ouvir mais os amigos do que os pais, e ficar dando conselhos caseiros irritam e os afastam mais ainda; esse não é o caminho ideal a se seguir. Os pais não perdem o poder por escutarem seus filhos, pois essa

escuta é vista como atenção, como cuidado. Podemos até sugerir algum tipo de solução, mas sem impor as nossas ideias. Nossos filhos estão no mundo para aprenderem a viver com todos tipos de adversidades, por isso precisamos parar para conversar mais sobre sentimentos e menos sobre os fatos. Se o filho chega da escola com

Ronaldo Campos, especialista em dependência química, é o responsável pela redação do PROJETO ILUMINAR. “A ideia é tirar o foco da prevenção da escola e colocá-lo dentro da família. A solução depende dos pais.” Dimas Moraes, Provedor do FUNDO DE BENEFICÊNCIA EIKO OSAKA DE MORAES, mantém o PROJETO ILUMINAR. “Nossa intenção é receber projetos que ajudem as pessoas a se ajudarem, e, este projeto é uma maneira de fazer algo em benefício das pessoas, com maior abrangência”.”

raiva do colega e começa a falar o que aconteceu, devemos ouvir e assim que for possível, podemos perguntar: “Filho, quais foram os sentimentos que surgiram naquele momento? Tente me explicar o que você sentiu. Fale dos seus sentimentos, eu quero ouvi-los.” Lembramos que as drogas e o abuso de álcool aliviam as dores internas daqueles que não encontram alguém que os ouçam. Ouvir ao próximo é um ato que cura muitas feridas da alma. Muita gente procura os consultórios médicos e psicológicos apenas para serem ouvidas. Deve ser, por isso, que o ser humano tem dois ouvidos e uma só boca. Muitas doenças são apenas palavras não ditas... Finalmente, vale recordar que as drogas entram mais facilmente em lares onde este processo de escuta não esteja sendo exercido. Escutar é um ato de amor. Assim, como pais devemos sempre escutar e escutar.

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