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Nº12 - R$ 10,00 - Brasil

www.cidadeecultura.com.br

SANTOS

Fascinante cultura de uma cidade cosmopolita

História | Arte | Meio Ambiente | Arquitetura | Esporte | Turismo


Índice

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LINHA DO TEMPO Datas cruciais na história da cidade HISTÓRICO Um passeio pela história de uma cidade que participou ativamente dos rumos do país RELIGIOSIDADE A fé estampada em bandeiras estrangeiras MUSEUS Preservação, conhecimento e respeito demonstrados com profissionalismo e dedicação IMIGRANTES Saudade e ousadia deixaram heranças perpetuadas nos costumes IMORTAIS Aqueles que persistiram, lutaram e conseguiram PORTO Porta de entrada e saída do Brasil, suas riquezas e sua história

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58 60 68 72 76 78 86

LENDAS Verdadeiras ou falsas, não importa, elas existem ARQUITETURA Muitos estilos e várias influências espalhadas pela cidade CANAIS A salvação e orientação dos santistas PRAIAS Mar, sol e muita diversão, ponto de encontro de todos ARTESANATO Diversidade nas habilidades manuais ARTES Cidade que inspira todos os segmentos artísticos MEIO AMBIENTE Exuberância pouco conhecida, porém ao alcance de todos

104 110 116 122 124 128 130

ESPORTES Cidade com vocação aos esportes, Santos se destaca em muitas modalidades SANTOS FC Um dos principais clubes de futebol do país, traz consigo histórias carregadas de emoção GASTRONOMIA Todas as influências passadas e atuais dão à gastronomia santista um roteiro singular DADOS ESTATÍSTICOS Conheça os números que traduzem um pouco da cidade NÃO DEIXE DE VISITAR Lugares interessantes e curiosos que precisam ser vistos GENTE DA TERRA Sorriso no rosto e orgulho da cidade onde nasceram DEPOIMENTOS Um pouco sobre a personalidade desse povo alegre e empreendedor


FOTOS MARCIO ALVES

Editorial Dada sua pequena área urbanizada, Santos surpreende pela capacidade de concentrar atividades de vários setores. Sejam portuárias, comerciais, culturais, esportivas, ambientais, artísticas ou religiosas, todas são solidamente constituídas. Cosmopolita desde sempre, Santos é um retrato da preservação de sua história e da conservação de seu patrimônio, principalmente o imaterial. Existe aqui uma mescla de povos que tiveram espaço para continuar com suas tradições e ao mesmo tempo todos formarem um só povo. Descrevê-lo é tarefa árdua, pois são muitos momentos e personagens. Mas é neste pequeno pedaço de chão que grandes acontecimentos fizeram diferença no país.

EDITORIAL

COnsELhO ExECUTIvO: Ana Lucia F. dos Santos,

Eduardo Hentschel, Luigi Longo, Márcio Alves e Thabata Alves

EDITORA: Renata Weber Neiva REpORTAgEm: Alice Neiva e Nathália Weber AssIsTEnTE DE pRODUçãO: Evellyn Alves REvIsãO: Silvia Mourão COmERCIAL: Julio Masulino e Paulo Zuppa pRODUçãO gRáfICA: Purim Comunicação Visual (www.purimvisual.com.br)

pRODUçãO DIgITAL: ONEPixEL pRODUçãO AUDIOvIsUAL: Leo Longo fOTOgRAfIAs: Beto Maitino, Marcio Alves, Thabata Andrade e

Thiago Andrade

fOTO CApA: Alexandre Andreazzi ImpREssãO: Gráfica Silvamarts CIDADE & CULTURA é uma publicação anual da KM Marketing Cultural

PARA ANUNCIAR: (11) 97540-8331 CONHEÇA O NOSSO SITE www.cidadeecultura.com.br cidadeecultura

Santos 7


AlexAndre AndreAzzi

Imagem


Linha do tempo

AC

8000 sambaquieiros

Martim Afonso de sousa

1502

1584

Fundação de santos

Chegada da Esquadra de Américo Vespúcio

Revolução Constitucionalista

Abolição da escravatura

1867 Inauguração da estrada de ferro são Paulo Railway

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1888

1546 24 de janeiro de

1892 Fundação da Companhia Docas de santos

1932


1583

1584

Ataque pirata de Edward Fenton

1792 Inauguração da Calçada do Lorena

1963

1984 Pós-ditadura: eleição do prefeito Oswaldo Justo

1991

1822 Independência do Brasil

Sede das seleções da Costa Rica e do México – Copa do Mundo 2014

2014

Construção do prédio definitivo da Alfândega de Santos

Primeiro registro de exportação do café

Criação do Centro de Referência em AIDS

Santos: a “Nova Moscou” e suas quarenta greves

1934

1795

FOTOS AcervO Mueu dO POrTO / rePrOduçãO MárciO ALveS / ALexAndre AndreAzzi

Construção da Fortaleza da Barra

Santos11


Hist贸rico Antigo Mercado Municipal

vit贸ri

Fatos, lutas e


diVULgAção

aS

Escrever sobre a história de Santos é como escrever um romance cheio de grandes acontecimentos, pois, desde que sua vocação natural se estabeleceu, essa cidade foi e ainda é palco e berço de grandes modificações no rumo da história brasileira. Essa vocação vem desde a mudança do Porto de São Vicente, situado onde hoje é o bairro da Ponta da Praia, para o Lagamar do Enguaguaçu. Aí ela passa a ter importância à Capitania de São Vicente, transformando-se na porta de entrada e saída de produtos para o planalto. Uma Vila ameaçada, sempre cercada de fortes e fortalezas, podemos dizer que ela é, sem dúvida, uma das personagens principais do desenvolvimento da civilização brasileira. Santos 13


divulgação Embraport

Histórico Homem do Sambaqui

Como na maioria do litoral brasileiro, encontramos em Santos vestígios da cultura anterior à chegada dos índios: os chamados sambaquieiros. Esse povo tinha por hábito alimentar-se de peixes, moluscos e, como defesa, usavam tacapes. Recebem esse nome por construírem os sambaquis, um depósito de restos de conchas, ostras, ossos de peixes e até ossadas humanas. Em Santos, até os dias atuais, foram encontradas várias dessas formações e, como exemplo, temos o sambaqui Ilha Diana, com 1.800 anos; o sambaqui do Sandi, com 1.000 anos; o Sítio Embraport 1, com 1.160 anos; o Sítio Monte Cabrão; o sambaqui do Morro Alto; o sambaqui dos Ingleses e o sambaqui Ilhota do Chiquinho, estes dois últimos no Canal de Bertioga. Infelizmente, muitas dessas “construções” foram destruídas, principalmente pelos colonizadores, pois, devido à fossilização de seus elementos, o produto conseguido era um forte componente para a construção de casas, fortalezas e igrejas, devido a cal que produziam. Misturada ao óleo de baleia e a pedras, as edificações eram fortes e duradouras. Sambaqui

Naus portuguesas No século XV, a procura por caminhos que chegassem até a Ásia, paraíso das especiarias, fez com que portugueses e espanhóis saíssem numa caçada desenfreada por um estreito que os levassem, principalmente os portugueses, às Ilhas Molucas. Isso não só fez com que Pedro Álvares Cabral viesse às nossas terras, mas também que várias expedições fossem enviadas para o Novo Mundo. Após a descoberta do que até então poderia ser apenas uma ilha, a de Vera Cruz, o rei D. Manoel, enviou para essas bandas a armada de Gonçalo Coelho e nela o florentino Américo Vespúcio, provavelmente como cosmógrafo, com o intuito de achar uma passagem para o Pacífico. Essa esquadra aportou na Ilha de Goiaó em 22 de janeiro, data de São Vicente. Por mais de trinta anos o que se viu por esse “mare nostrum” foram expedições espanholas e portuguesas que tinham mais um motivo para explorar o litoral: não só achar um caminho pelo oeste como queriam desvendar e dominar as terras do lendário Rei Branco.

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Índios Com a chegada dos índios tupi há mil anos, os sambaquieiros sucumbiram. Além de mais numerosos, os tupis possuíam arco e flecha, poderosa arma contra os tacapes. Porém os índios que chamavam a Ilha de São Vicente de Goaió não se fixaram ali, apenas vinham para a caça, a pesca e a captação de sal. Eles habitavam o planalto (atual cidade de São Paulo) e abriram duas trilhas na Serra do Mar até chegar à praia. Alguns lugares cuja denominação ainda persiste em tupi são a Praia do Embaré, a Fonte do Itororó, o Largo do Canéu, o Canal de Bertioga, a Ilha de Urubuqueçaba, o Rio Jurubatuba, entre outros.

Martim Afonso de Souza

Rei Branco e Sierra de La Plata Quando da expedição de Cristóvão Jacques ao Rio Paraná, foi conhecida a história do Rei Branco que possuía terras repletas de ouro, prata e pedras preciosas. A história foi contada por degredados, desertores e náufragos que viviam no litoral sul do Brasil, entre a Ilha de São Vicente e Santa Catarina. Segundo os relatos dos próprios nativos, as ricas terras ficavam a mais de 1.500 km rio a dentro e chegavam às montanhas cobertas por neve (a Cordilheira dos Andes). Lá existia uma montanha feita inteiramente de prata. Essa montanha realmente existia e era Potosí – “montanha que troveja” – e foi descoberta pelo espanhol Francisco Pizarro em 1532, onde prendeu e assassinou Atahualpa, o Rei Inca Branco. Dessa montanha eram extraídos 266 mil quilos de prata por ano.

Com a notícia de riquezas no interior do novo continente, o rei João III, filho de D. Manoel, enviou o amigo de infância Martim Afonso de Souza em uma expedição exploratória para combater os franceses, e tomar posse do Rio da Prata. Quando chegou aqui encontrou João Ramalho, figura conhecida dos índios locais, principalmente de Tibiriçá, que era seu sogro, chefe dos índios Tupi.

João Ramalho O passado de João Ramalho, apelidado de “Patriarca dos Mamelucos”, é um mistério. Não se sabe se ele foi um degredado ou um náufrago. Presume-se que tenha chegado aqui mais ou menos em 1508. Sua influência entre os índios locais era tão grande que, segundo relato de Ulrich Schmidel (aventureiro alemão), Ramalho poderia reunir um exército de mais de cinco mil gentios. Primeiro homem branco a subir o planalto e gerou muitos filhos mestiços no Brasil. O jesuíta padre Manoel da Nóbrega fez com que se casasse com a índia Bartira e o governador-geral do Brasil, Tomé de Souza, o nomeou capitão-mor da Vila de Santo André. Morreu em 1580, com inacreditáveis 95 anos e foi graças à sua ajuda que as vilas do Litoral Sul, inclusive São Paulo de Piratininga, foram colonizadas.

Santos 15


Histórico Início da Vila de Santos

Ao fundo o Outeiro de Santa Catharina

Esta rocha é o resto do Outeiro de Santa Catharina e foi sobre este Outeiro que Brás Cubas lançou os fundamentos d’esta povoação, fundando ao mesmo tempo, época de 1543, o Hospital de Misericórdia, sob a invocação de TODOS OS SANTOS, que deu o nome a esta cidade e primeira instituição pia que se estabeleceu no Brazil

A Vila de Santos Junto com a armada de Martim Afonso, estava o fidalgo e explorador português Brás Cubas, que recebeu terras (sesmarias) na Capitania de São Vicente. Onde hoje é a Rua Visconde do Rio Branco, 48, Brás Cubas fundou a Vila de Santos e também a primeira Santa Casa do Brasil. Muitos atribuem o nome da cidade pelo nome dado à Santa Casa de Misericórdia de Todos os Santos. Outros historiadores dizem que o nome Santos já fora decidido pelo navegador português João Dias de Solis, que, a serviço da Espanha, passou por aqui em 1515 no dia dos Santos Inocentes. Controvérsias à parte, o que se originou foi uma cidade com grande história, sede de acontecimentos importantes que marcaram a trajetória do país. O que se viu desde o começo foi um progresso de construções que partiram do marco chamado 16 Cidade&Cultura

Outeiro de Santa Catharina, local da fundação, e se expandiu até o bairro do Valongo. Como nessa região não havia pau-brasil, os colonos construíram engenhos de cana-de-açúcar como os de Madre de Deus de Pero

Esta Cruz, que data do séc. XVIII, estava colocada na torre da Capela de São Francisco no antigo Hospital da Santa Casa, à Av. São Francisco

de Góes, situado na área continental; o engenho São João, de propriedade de José Adorno, localizado na saída da cidade, e o engenho de São Jorge dos Erasmos, na zona noroeste atual.

Engenho do Eramos Engenho São Jorge dos Erasmos – De sociedade com Martim Afonso, Pero Lopes de Souza, Francisco Lobo, Vicente Gonçalves e a família belga Scheltz, em 1534, fundaram o Engenho dos Erasmos. Com a saída de Martim Afonso, o engenho passou a ficar somente com Van Hielst e Erasmos Scheltz. Até o século XVIII, século do fim de suas atividades, esse engenho produziu cana-de-açúcar para exportação, rapadura e aguardente. As instalações englobavam uma fábrica, o escritório da administração, residências e senzalas. O terreno do engenho foi adquirido em 1943 por Otávio Ribeiro de Araújo, que loteou as terras e doou as ruínas à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. O fim do ciclo da cana-de-açúcar na região foi devido à concorrência dos engenhos do Nordeste do Brasil. Fonte: citrus.uspnet.usp.br/engenho


FOTOS MARCIO ALVES

Piratas e corsários na Vila de Santos Entre os séculos XVI e XVII, a Vila de Santos foi atacada por corsários e piratas ingleses e holandeses. “Em 1583 chegava na barra de Santos o pirata inglês Edward Fenton com uma nau e dois galeões com duzentos homens. No porto, até então desprotegido, Fenton usou o pretexto de sua chegada dizendo que sua parada era para fazer reparos em sua armada. Depoimento de Lucas Ward, vice-almirante da esquadra inglesa de Fenton em carta de 16 de fevereiro de 1584: ’Conta ele que, chegando ao porto como amigos, os ingleses entraram a parlamentar com os grandes da terra, convidando-os para uma reunião a bordo, aparecendo no dia seguinte José Adorno (então com 80 anos), Estevan Raposo, Paulo de Veras, todos senhores de engenhos locais, e mais alguns importantes, que foram banqueteados pelo almirante. Em sua retirada de bordo, foram-lhes prestadas continências militares, com salvas de artilharia, e, no dia seguinte, o mesmo almirante lhes remetia ricos presentes de sedas e veludos, como ao capitão-mor Jerônimo Leitão, presentes que lhe foram devolvidos intactos por Adorno, com a informação de que a gente de Santos não se corrompia com presentes e não se entendia com reconhecidos piratas. O velho Adorno percebera a trama e assumia a única atitude compatível com o seu caráter, aconselhada por sua experiência de longos anos. Pouco depois, reza a descrição de Ward, foi a bordo um inglês John Withall, genro de Adorno, para informar aos seus patrícios

Pirata na fachada do Museu Marítimo

Piratas ingleses

Capela de Nossa Senhora do Monte Serrat

que deviam retirar-se do porto, pois a cidade estava em preparativos militares para expulsálos em caso de negativa. Apareceram de novo José Adorno, Paulo de Veras e Estevan Raposo, declarando ao almirante que partisse, porque o capitão-mor não permitia o seu desembarque e já se apresentava para combatê-lo”. Foi após esse episódio que a Fortaleza da Barra Grande foi construída. “Na noite de Natal de 1591, a Vila de Santos foi invadida pelos comandados do corsário inglês Thomas Cavendish, quando a população assistia à Missa do Galo. Os corsários saquearam igrejas, o Convento dos Jesuítas, casas, fortes, incendiaram engenhos de cana. Roubaram cerca de 100.000 cruzados (dinheiro português da época), que era tudo o que havia no local, levaram armas e jogaram a imagem Santa Catarina no mar. Depois de ficarem aqui dois meses, seguiram viagem para o sul do continente, onde o mau tempo os obrigou a retroceder e resolveram

atacar Santos novamente. Mas, dessa vez, a Vila estava prevenida. Houve luta entre os moradores e os agressores e quase todos os que desembarcaram foram mortos.” “Outro inimigo de Santos foi o corsário holandês Jorge Van Spilbergen que comandava cinco navios. Em 1615, esse corsário invadiu os engenhos da região incluindo o São Jorge dos Erasmos... Houve um combate entre os moradores e os holandeses; alguns corsários foram mortos e muitos ficaram feridos. Vencido, Spilbergen soltou quatro prisioneiros que fizera e seguiu para o Sul levando um refém, que só foi libertado no Chile.” Fonte: Santos um Encontro com a História e a Geografia – Ângela Maria G. Frigerio, Wilma Therezinha F. de Andrade e Yza Fava de Oliveira

Santos 17


Histórico

Casa do Trem Bélico era um arsenal de guerra para fornecer pólvora e armas. Construída entre 1640 e 1656

Como cidade portuária, seis fortificações foram construídas nos séculos XVI e XVIII para evitar os ataques constantes; eram elas o Forte São Filipe ou São Luís (1557) e o Forte São Tiago ou São João (1551), na entrada do Canal de Bertioga; a Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande (1584) e o Forte Vera Cruz de Itapema (1580), ambos na Ilha de Santo Amaro; o Forte da Vila ou de Nossa Senhora do Monte Serrat (1599) e o Forte da Estacada ou Augusto (1734), estes dois últimos no território de Santos.

Bandeiras

Primeiro governador nomeado para reerguer a Capitania de São Paulo, D. Luís Antônio de Souza Botelho Mourão, o Morgado de Mateus, restabeleceu a cultura canavieira da Capitania, tanto no litoral norte como no interior. Com o resultado das safras de açúcar no planalto e do litoral incrementou as atividades da Vila de Santos e surgiu a necessidade de melhorias de transporte da carga para o Porto. Com isso, no século XVIII, foi construída a Calçada do Lorena, pelo governador Bernardo José Maria de Lorena, no alto da Serra do Mar até Santos. Nesse caminho, o açúcar e outros produtos desciam a serra por meio dos tropeiros em lombo de muares, movimentando a economia da cidade.

Após o declínio do comércio de açúcar, muitos santistas abraçaram a causa dos bandeirantes que iam atrás de ouro e de índios para a escravização. Muitos migraram para o litoral de Santa Catarina e fundando vários povoados. Com a venda de escravos indígenas no século XVII, o porto continuava funcionando como entreposto. Com a presença dos jesuítas na Vila, muitas discórdias aconteceram por conta da proteção que os mesmos davam aos índios; consequentemente, os jesuítas foram expulsos da região. Com o sucesso dos bandeirantes nas incursões pelo sertão em busca de ouro, vários montantes do metal precioso foram escoados pelo porto de Santos, que melhorou significativamente a economia

FOTOS MARCIO ALVES

O açúcar

Mapa feito por João Teixeira Albernaz - século XVII

Moenda de cana-de-açúcar. Cultivo próspero no Morro da Nova Cintra

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Ciclo do sal “Santos acompanhou a crise paulista do século XVIII, mas a situação não era das piores: além de ter sido sede da Capitania, possuía Alfândega, outras repartições públicas e o Porto, principal porta de entrada e saída da Capitania.” Fonte: Santos um Encontro com a História e a Geografia – Ângela Maria G. Frigerio, Wilma Therezinha F. de Andrade e Yza Fava de Oliveira.

O monopólio do sal português era feito em Santos. O sal era um produto raro, caro e vendido acima da tabela. Ao Brasil era vedada a exploração de sal pela Coroa Portuguesa. No início do século XVIII, Bartolomeu Fernandes Faria, oriundo de Taubaté, vem com seus escravos, abre os armazéns onde se estocavam o sal e pagou o preço justo pela mercadoria sem o ágio. Foi preso nove anos depois e morreu na Bahia antes de ser julgado. local e seu porto foi chamado de Porto do Ouro. Em 1705, Garcia Paes, abriu um caminho entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro, diminuindo muito o tempo de locomoção do ouro. Então, em 1720, o ouro passou a ser escoado pelo porto do Rio de Janeiro, deixando a Vila de Santos mais uma vez carente de recursos econômicos. DIVULGAÇÃO

Fortalezas para a defesa da Vila de Santos


Independência do Brasil Com a ida de filhos de famílias brasileiras mais abastadas para estudar na Europa, na volta os ideais iluministas trazidos em suas mentes eram colocados em prática por aqui. Talvez o caso mais pronunciado tenha sido a Inconfidência Mineira, que tinha como objetivo libertar Minas Gerais da Coroa Portuguesa. Esse intento teve como estopim os abusos de taxações das produções brasileiras por decreto da Metrópole. Mas, mesmo não obtendo sucesso, a semente da independência já havia sido plantada nas correntes políticas internas. Um detalhe muito importante foi a influência da maçonaria no processo de libertação do país. A maçonaria, uma fraternidade cujos ideais sempre foram a confraternização dos povos e a evolução humana, foi, desde sempre, uma grande participante de muitas mudanças políticas globais e esteve presente, por exemplo, na Independência dos E.U.A. Aqui no Brasil, essa influência foi uma opção de nosso Príncipe Regente, Dom Pedro. Ao lado dele encontramos as figuras de Gonçalves Ledo e José Bonifácio. O primeiro era representante da Loja “Comércio e Artes”, com ideais que exprimiam a vontade do povo, e o segundo, da Loja “Apostolado da Nobre Ordem dos Cavaleiros da Santa Cruz” que exprimia a vontade das elites, mas ambos queriam a liberdade da Colônia frente aos abusos de Portugal. A discordância não envolvia a questão da independência, mas como fazê-la. A estratégia foi elaborada pelas mãos dos maçons e o Dia do Fico foi, talvez, a primeira manifestação dessa influência direta. Veja-se esta carta de José Bonifácio, endereçada ao Príncipe Re-

Praça da Independência Homenagem ao Patriarca José Bonifácio de Andrada e Silva e seus irmãos Martim Francisco e Antônio Carlos inaugurada em 1922

gente: “Nada menos se pretende do que desunir-nos, enfraquecer-nos e até deixar-nos em mísera orfandade, arrancando do seio da grande família brasileira o único pai que nos restava, depois de terem esbulhado o Brasil, do benéfico fundador deste reino. Se V.A.R. estiver (o que não é crível) pelo deslumbrado e indecoroso Decreto de 29 de setembro (decreto que a Corte Portuguesa manda Dom Pedro I voltar para Portugal), além de perder para o mundo a dignidade de homem e de príncipe, tornando-se escravo, de certo, de um pequeno número de desorganizadores, terá também de responder, perante o céu, do rio de sangue que vai correr pelo Brasil com sua ausência...”. Dom Pedro acabou se tornando Grão-Mestre das duas Lojas, ou seja, nosso futuro Imperador era um maçon. Na visão de Bonifácio, o Brasil, com proporções continentais, não era homogêneo em seus ideais. Na Bahia, a palavra “independência” não refletia os interesses aristocratas; em Pernambuco queriam a República, assim como em muitos outros pontos. Era preciso haver um pensamento único, com muito diálogo entre as províncias, para que a Independência e a permanência de Dom Pedro no país fossem uma unanimidade. Tarefa árdua. Em janeiro de 1822, José Bonifácio foi nomeado Ministro do

Reino e dos Estrangeiros, e sua maior função foi articular o processo junto a Dom Pedro e impedir revoltas pelo país para manter a união nacional. Com todos esses obstáculos, a maçonaria elegeu Bonifácio como o primeiro Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil. No fim de agosto de 1822, chegaram notícias de Portugal de que as Cortes Portuguesas resolveram suprimir os poderes políticos de Dom Pedro, que estava em Santos visitando a família Andrada e inspecionando as fortificações da cidade, quando Bonifácio lhe escreve: “O dado está lançado e de Portugal não temos a esperar senão escravidão e horrores. Venha V. A. quanto antes e decida-se porque irresoluções e medidas d´água morna, à vista desse contrário que não nos poupa, para nada servem e um momento perdido é uma desgraça”. Essa correspondência chegou às mãos do príncipe quando este já subira a Serra do Mar e estava às margens do Riacho Ipiranga. Uma curiosidade é que a frase “Independência ou Morte” era a denominação de uma das “palestras” da sociedade secreta “Apostolado da Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz”, e muitos historiadores acreditam que era a senha para as mudanças tão necessárias na época. Santos 19


FOTOS DIVULGAÇÃO

Histórico Abolição da Escravatura

Ditadura Militar Nos tempos da ditadura que se iniciou em 1964, Santos recebeu os apelidos de “Nova Moscou” e “Cidade Vermelha”, o que não é de se admirar, pois, como cidade portuária e com sindicatos de várias categorias extremamente organizados (em 1963 foram feitas quarenta greves), o Regime Militar seria combatido sem ressalvas. A “Terra da Liberdade” não se curvaria aos desmandos da época. Porém, essas atitudes custaram caro aos santistas. Já em 1964 foi instalado

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Quilombo do Jabaquara

é considerado o maior do Brasil; chegou a abrigar cinco mil negros e foi administrado por Quintino de Lacerda. Outro ponto importante foi onde hoje está o Vale do Quilombo, na área continental de Santos. A defesa dos negros era tão grande que, em mais uma tentativa de abafar o movimento abolicionista na cidade, uma força policial de São Paulo vinda de trem foi impedida por um cerco formado por senhoras. Todas as forças foram reunidas e pessoas compravam cartas de alforria, como no caso da Loja Maçônica Fraternidade que possui registros de tais feitos. Quando finalmente a Lei Áurea foi assinada, a cidade festejou durante oito dias.

o Comando de Caça aos Comunistas de Santos – CCCS, e a cidade foi declarada Área de Segurança Nacional, sem autonomia política. Na Ilha Barnabé ficou atracado o navio - prisão Raul Soares, numa clara demonstração de força por parte do Regime que deixou manchas em nossa história. Várias entidades estudantis foram espionadas, como o Colégio Canadá com o Grêmio Estudantil Vicente de Carvalho e a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Santos, atualmente a UniSantos. Para uma cidade que sempre lutou pela liberdade, esse foi um grande abalo em suas

MARCIO ALVES

“O mulato deve ser a raça mais ativa e empreendedora, pois reúne a vivacidade impetuosa e a robustez do negro com a mobilidade e a sensibilidade do europeu” -- José BonifácioNão é a toa que Santos é considerada a Terra da Liberdade, pois sempre foi a favor da abolição da escravatura. No contexto histórico da cidade, temos passagens importantes para poder afirmar isso, como a Lei Municipal de 27 de fevereiro de 1866. Havia uma comoção generalizada entre os santistas pela causa da abolição. Não importava a classe social a que pertenciam, sempre estavam dispostos a salvaguardar a vida de um negro foragido. Com a notícia de que Santos era um local de refúgio protegido para os cativos, a quantidade deles que chegavam por aqui era enorme, e por isso foi necessária a criação de vários quilombos. O quilombo do Jabaquara

Quintino de Lacerda fez do Quilombo do Jabaquara um exemplo de resistência e liberdade para os negros

Os Tigres. Escravo que, além de carregarem água, também faziam o despejo dos dejetos no mar. Por escorrer o líquido fétido em seus corpos, eles pareciam tigres

estruturas, pois a população só pôde eleger seu prefeito vinte anos mais tarde. Navio prisão Raul Soares


Histórico Revolução de 1932 AO POVO DE SANTOS “Aos dirigentes da Milícia Cívica, neste momento decisivo para a vida nacional, vêm dirigir um caloroso apelo a todos os que amam verdadeiramente esta terra, conclamando-a a formar nas fileiras sagradas, que hão de fazer, definitivamente, a libertação da nossa Pátria. Não há, nesta hora, mais que irmãos. Todos por um e um por todos. Pela Liberdade dentro da lei, pela Lei como garantia suprema dos nossos destinos. Fraternizemos todos em volta do pendão das nossas reivindicações cívicas. Todos acorram ao nosso quartel de concentração, no Edifício da Imigração, à Rua Silva Jardim, formando no Batalhão de Honra. A postos patriotas! Pela Diretoria H. Roberto Caiuby – Secretário”

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Esse era o espírito que tinha tomado conta dos santistas na Revolução Constitucionalista de 1932. Não foram poucos os homens que

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partiram em defesa do território paulista, como também foram muitos que aqui ficaram para proteger o Porto. Muitos da terra pereceram em combate (João Pinho, Carolino Rodrigues, Thiago Ferreira, Alfredo Schammas, Januário dos Santos, Sebastião Chagas, Ivampa Duarte Lisboa, Alfredo Albertini, Eduardo Alves Durval Amaral e Dagoberto F. de Gascon). Foi com a união de forças de todas as camadas sociais que mais uma vez a cidade partiu para lutar por uma causa. Sem mais delongas, eis o que o Diário Popular de São Paulo publicou sobre os combatentes santistas. “Um oficial da Força Pública hoje chegado das linhas de frente, em palestra com um nosso companheiro de trabalho, declarou que as forças do Tiro Naval de Santos, ao lado das quais está lutando há mais de um mês, num dos setores onde mais violentas têm sido as ofensivas ditatoriais, revelaram-se de uma extraordinária bravura, comportando-se em combate com a mesma tenacidade e eficiência dos melhores soldados regulares. A galharda rapaziada do Tiro Naval de Santos, acrescentou o nosso informante, quando ocupa uma trincheira, dela não arreda pé, lutando como verdadeiros leões. ‘São ótimos soldados, posso assegurar-lhe; sabem aproveitar inteligentemente o terreno; conhecem perfeitamente o serviço de ligação e reconhecimento, como se outra coisa não tivessem feito na vida senão combater. No setor em que lutei ao lado dos denodados rapazes do Tiro Naval, eles eram comandados por um oficial, de nome Lemos, que se revelou um ótimo condutor de homens na guerra. Pode divulgar as minhas palavras: volto das linhas de frente entusiasmadíssimo com a atuação daquela galharda mocidade santense [sic]’.”

Década de outras revoluções As revoluções armadas passaram e a vida voltou a seguir seu rumo com mais democracia e liberdade de expressão, mas o ímpeto para coisas novas sempre ficou arraigado no santista e, em outras mudanças que ocorreram no mundo, Santos embarcou de cabeça, principalmente na área cultural. Nos anos 1980, a explosão musical do rock nacional fez da cidade um grande palco para todas as bandas emergentes. Lembremos aqui dos shows realizados no Clube Regatas Santista, no Heavy Metal, no Caiçara, entre outros. A cidade entra na onda dos patins com várias pistas ao som de Rita Lee e, por muito tempo, a música era uma constante. Outra reviravolta aconteceu: a AIDS, que atingiu a sociedade covarde e silenciosamente. Mas, como sempre, a reação foi rápida e o Sistema de Saúde implantou o Programa Municipal de DST/ AIDS, programa pioneiro no país com a distribuição gratuita de antirretrovirais e seringas descartáveis. Em 1991 criou também o Centro de Referência em AIDS – CRAIDS, aumentando ainda mais a prevenção e a ajuda aos infectados. Santos se torna uma referência mundial. Como podemos ver, a sociedade santista como um todo zela por sua integridade, mesmo nas adversidades e consegue, por sua união, enfrentar problemas de toda ordem.


Religiosidade

Liberdade de fé expressada

FOTOS MARCIO ALVES

Altar-mor da Igreja Anglicana All Saint’s Church - 1918

nos mais variados templos Escrever sobre a religiosidade em Santos é falar sobre uma grande variedade de crenças. Como cidade portuária, porta de entrada para muitos estrangeiros, Santos se tornou um caldeirão de crenças e credos dos mais variados países. Por todo o lugar vemos muitas igrejas que desempenham um papel importante para os que ali procuram a paz espiritual. De católicos a zen budistas, passamos por mesquitas e até templos da Ordem Rosa Cruz. Essa mescla delineia a identidade libertária que sempre distinguiu Santos desde seus primórdios. Uma verdadeira comunhão, com Alá, Buda, Cristo, Oxalá ou simplesmente Deus.

Nossa Senhora do Monte Serrat Padroeira oficial da cidade desde 1954 por ato oficial e coroada em 8 de setembro de 1955, ocasião em que foi instituído feriado municipal. No ano de 1614, os holandeses invadiram a cidade e o povo se refugiou no morro São Jerônimo, próximo à capela da Santa, e foram salvos do ataque por um desmoronamento que soterrou os invasores; logo após, a escolta abandonou a cidade. A ela foi atribuído o milagre e por isso tornou-se reconhecida como protetora da cidade.

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Altar-mor da Capela Nossa Senhora do Monte Serrat


Mesquita Islâmica de Santos Pouca gente sabe que existe em Santos uma crescente e ativa comunidade mulçumana, formada a partir dos anos 1950 por imigrantes árabes, originários principalmente da Síria e do Líbano. Os mulçumanos da Baixada Santista são reunidos pela Sociedade Beneficente Islâmica do Litoral Paulista, com sede à avenida Afonso Pena, 309. A Sociedade foi fundada em 1977. O líder espiritual da comunidade é o xeique Mohamed el-Jubul. Fonte: Mesquita Islâmica de Santos

Basílica Menor de Santo Antônio do Embaré Em 1875, Antônio Ferreira da Silva Junior, Visconde do Embaré, primeiro morador do bairro homônimo, fundador da Associação Comercial de Santos, construiu uma pequena capela em sua chácara em frente à praia para devoção a Santo Antônio. Dois anos depois, o Visconde faleceu e a obra da capela ficou parada por 25 anos. Em 1912, o padre Gastão de Moraes terminou-a e, em 1915, a capela foi elevada a igreja. Demolida, outra maior foi erguida em seu lugar; tornou-se basílica menor, e as obras foram concluídas em 1946. A solenidade foi marcada pelo bispo D. Idílio José Soares.

Interior da Mesquita Islâmica de Santos

Primeira Igreja Presbiteriana de Santos Em 15 de junho de 1924 transferiu-se de Juquiá para Santos, com sua família, o irmão Augusto Pereira França, tendo vindo antes dele o irmão João Bernardino com seus pais, em casa de quem o reverendo James Smith havia pregado algumas vezes. Mediante serviço individual do irmão Augusto, algumas pessoas aceitaram o evangelho, das quais duas se uniram à Igreja Batista e duas ao Exército da Salvação. Impressionados com a falta de um trabalho da Igreja Presbiteriana em Santos, apesar de já existir nesta cidade um bom número de crentes presbiterianos, os irmãos Augusto e sua esposa, dona Laura, resolveram iniciá-lo, começando a realizar cultos regulares na avenida Afonso Pena, 548; que hoje ocorrem na rua Marquês de São Vicente, 100.

Santos 25


Religiosidade A italiana, natural da cidade de Canelli, então uma jovem de 1,66 m, loira, pele muito clara, magra, olhos castanhos e grávida de seis meses, foi encontrada morta, dentro de um baú. Maria Fea conheceu seu marido, Giuseppe Pistone, italiano, em uma viagem de navio que ia da Itália para a Argentina, em 1925. Ela ia visitar sua família que residia em Buenos Aires e ele, que havia recebido uma herança de seu pai, ia tentar nova vida na cidade. Contra a vontade da família, em fevereiro de 1928, Fea se casou com Pistone e mudaram-se para São Paulo, pois ele ia trabalhar para o seu primo que já estava estabelecido no comércio onde vendia salames e vinhos. Pistone queria sociedade com o primo e mentiu a ele dizendo que sua mãe enviaria o dinheiro necessário para entrar no negócio. Maria Fea, ciente da situação financeira do marido, sabia que ele mentia ao primo e que não tinha mais dinheiro a receber. Desiludida, ela escreveu uma carta à sogra, expondo toda a sua indignação com a falta de caráter do marido. Ele descobriu a carta e, depois de uma discussão violenta, esganou, sufocou e asfixiou a esposa com um travesseiro. Para se livrar do corpo, Giuseppe a colocou em um enorme baú junto com suas roupas e espalhou pó de arroz para disfarçar o cheiro. Viajando de trem para Santos em outubro de 1928, despachou a mala no porto em nome de Francisco Ferrero, para a cidade Bordeaux na França. Quando o baú de 87 kg foi içado pelos marinheiros do vapor francês a Massilia, atracado no armazém

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1 Santuário Santo Antônio do Valongo - 1640 | 2 Gruta Nossa Senhora de Lourdes | 3 Interior da Igreja Nossa Senhora do Rosário fundada pela Irmandade dos Homens Pretos em 1822

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Jazigo de Maria Mercedes Pistone Féa Cemitério da Filosofia

FOTOS MarciO aLVES

Maria Mercedes Fea ( ? – 1928)

14, ele caiu, se desmontou e revelou o cadáver, já em estado avançado de decomposição. Imediatamente, o delegado Armando Ferreira da Rosa foi acionado e em 24 horas o crime foi esclarecido. Preso, o marido disse que sua esposa o traía e por isso a matou; na época, esse tipo de crime era perdoado. Mas, após mais investigações, ficou apurado que a morte tinha ocorrido por causa de uma carta. “O crime da mala”, como ficou conhecido, chocou o país. Maria Fea foi enterrada no Cemitério da Filosofia, em Santos. Giuseppe cumpriu pena de 22 anos e faleceu em 1956. O baú se encontra em exposição no Museu do Crime em São Paulo. O túmulo da Maria Fea é muito visitado por religiosos que a consideram uma santa e mártir e lhe atribuem muitos milagres e graças alcançadas. Uma capela foi erguida em sua homenagem.

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Museus

A sabedoria do passado

Cafeteria do Museu do Café

FOTOS MARCIO ALVES

influenciando o presente

Museu do Café Se falarmos em um clássico, é o Museu do Café. Sua localização estratégica na confluência das ruas XV de Novembro e Frei Gaspar nos remete ao passado sem nem ao menos adentrarmos o Museu. Parece que estamos na metade do século XIX quando observamos as ruas estreitas e de paralelepípedo, com construções que marcaram a história do país. Por essas pequenas ruas, transitavam fortunas vindas do interior, 28 Cidade&Cultura

transportadas por trens que paravam um pouco mais adiante, na Estação do Valongo. Muita elegância nas mulheres vestidas com seus longos vestidos e chapéus de abas largas, os homens, engravatados e também usando chapéu, muitos de panamá. Eles estavam no meio de um turbilhão econômico, turbilhão esse que abria definitivamente as portas do Brasil para o mundo. Não éramos apenas um país extrativista, tínhamos o “ouro negro” e de qualidade. Firmas estrangeiras abriam suas portas, bancos internacionais de renome instalavam filiais, corretores de café formavam uma nova elite com força econômica. Os Barões do Café vinham a todo momento fiscalizar a entrega de produtos. Os estivadores formavam a fila dos combatentes, carregando nas costas sacas e mais sacas, cada qual pesando 60 kg. Surgiam os “puxas-sacos” – os que carregavam os sacos para esta ou aquela empresa. A aduana fervilhava, despachantes trabalhavam feito loucos para embarcar tudo. Um frenesi tão grande que fez surgir o imponente prédio da Bolsa Oficial de Café. Este tinha de estar à altura de seus feitos; nada poderia se menor nem menos grandioso, pois o valor do trabalho e dos investimentos no campo tinha de ser recompensado. Enquanto o café saía, os imigrantes chegavam para essa corrida pela terra. Era o Estado de São Paulo se transformando, criando oportunidades para ser o que é hoje. No interior, ferrovias rasgavam a mata; na capital, surge a avenida


Vitral A Epopeia dos Bandeirantes no teto do Salão do Pregão da Bolsa de Café

Salão do Pregão da Bolsa de Café

Corretor de Café Paulista e tudo convergia justamente nessas duas ruas: XV de Novembro e Frei Gaspar. E foi por meio da Associação dos Amigos do Museu do Café do Brasil, constituída pelas principais entidades de classe, além de torrefadores, produtores, exportadores, comerciantes, corretores e uma gama de outras associações, jurídicas ou não, do setor cafeeiro, que se acreditou na viabilização do Museu do Café. “Ainda hoje a incursão ao seu interior surpreende qualquer visitante pelo requinte e a qualidade dos materiais empregados, sobretudo no grande Salão do Pregão onde, no passado, funcionou o pregão, com sua diversidade decorativa presente no extenso painel pintado por Benedicto Calixto, na claraboia de vitral realizado pela Casa Conrado e nos pisos de mármores construindo um imenso mosaico em diversas cores e formas.”. Fonte: www.museudocafe.com.br

Torre de 40 metros do Palácio Oficial da Bolsa de Café com os 4 gênios simbolizando a Indústria, o Comércio, a Lavoura e a Navegação

“A distância e a dificuldade de comunicação entre as zonas produtoras e portuárias possibilitou a formação de uma classe que intermediava a relação fazenda-porto. Inicialmente esse papel foi feito pelos comissários de café, homens de confiança dos fazendeiros, cujas funções se estendiam do financiamento dos produtores à venda do café ao exportador. Esses comissários, assim como as firmas comerciais e os donos de armazém, podiam ter empregados, chamados corretores. O crescimento do volume das negociações fez aparecer outra categoria de intermediários nos centros exportadores, como Rio de Janeiro e Santos. Denominados ‘zangões’, eram corretores do café disponível na praça que podiam trabalhar, sem exclusividade, para diferentes compradores ou vendedores de café, ganhando uma comissão sobre o valor negociado. Eram grandes fontes de informação, sabendo as cotações diárias e a situação do mercado na praça antes das divulgações oficiais. Mesmo após a função de comissário de café desaparecer, esses corretores permaneceram atuando em diferentes categorias, fosse representando seus clientes do interior, trabalhando na rua para escritório de outros corretores, revendendo café para as exportadoras, trabalhando com câmbio, ou negociando nas Bolsas de Mercadorias.” Fonte: www.museudocafe.com.br

Santos 29


Museus Museu de Arte Sacra de Santos Sant’Ana Mestra Sant’Ana Mestra, mãe da Virgem Maria, Mãe de Cristo. A iconografia de Sant’Ana Mestra comumente é representada por Sant’Ana na posição de Mestra em Fachada do Museu relação a sua filha Maria, visando o ato de arte Sacra no de instruí-la. Há duas identificações: Morro do São Bento Sant’Ana pode estar em pé, com a Virgem em seus braços, ou sentada, com Maria em seu colo ou em pé ao seu lado, mas em ambas as situações Sant’Ana está carregando um livro, elemento representativo fundamental. Pode-se entender que, quando Sant’Ana esta em pé, ela está ensinando a Maria os ensinamentos religiosos, referentes a orações e às sagradas escrituras. Já quando Sant’Ana Mestra está sentada, isso indica que ela está ministrando à Virgem ensinamentos comuns, referentes ao comportamento e àalfabetização.

Conceito histórico A Capela de Nossa Senhora do Desterro foi doada para a Ordem de São Bento, que estava se instalando em Santos, por volta de 1649. A partir de 1650 iniciou-se a construção do Mosteiro Beneditino, anexado à capela, porém as características atuais datam de 1725. O formato da construção chama-se ciclópica. Composto de rochas, sambaqui e óleo de baleia, o edifício é similar a uma fortaleza, o que se nota pela grossura das paredes, que têm aproximadamente 1 metro. O Mosteiro possui três pavimentos e um claustro, que é um pátio interno, local onde havia um pequeno jardim, com plantas ornamentais, horta e flores. O lugar contém as celas (quartos), o refeitório e a sala do capítulo, o lugar onde todos os monges se reuniam para decidir as atividades diárias (oração, trabalho, estudo), além de haver um espaço reservado para hospedaria. Em 1874, época de muitas epidemias em Santos, o Mosteiro de São Bento cedeu um recinto para servir de enfermaria para abrigar os doentes, dessa forma auxiliando a Santa Casa de Santos. Entre 1958 e 1968, o edifício funcionou como o Instituto São Vladimir, um internato para refugiados russos. O Museu de Arte Sacra de Santos – MASS – foi fundado oficialmente em 11 de julho de 1981, idealizado pelo antigo bispo diocesano de Santos, Dom David Picão (18/08/1923 – 30/04/2009). 30 Cidade&Cultura

Nossa Senhora da Conceição A imagem de barro cozido de Nossa Senhora da Conceição, datada de 1560, de autoria de João Gonçalo, é considerada uma das mais raras e valiosas esculturas do Brasil, pois é a primeira imagem documentada produzida em território brasileiro; foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (IPHAN). Nota-se que a imagem é oca, o que nos remete à expressão “santa do pau oco”. Essa expressão provém de uma época do Brasil colonial em que os colonizadores portugueses mandavam fazer imagens ocas para que ali dentro colocassem todas as preciosidades do Brasil. As pessoas fingiam que estavam fazendo procissões com a imagem do santo e a levavam recheada de riquezas até as naus, que seguiam rumo a Portugal, realmente saqueando o Brasil. Mas a imagem em questão, de Nossa Senhora da Conceição, não pode ser considerada uma “santa do pau oco”; isso é um mito até porque a expressão “pau oco” sugere leveza ao carregá-lo, diferentemente do barro. Aliás, majoritariamente as imagens feitas em barro cozido são ocas, pois, se fossem maciças iriam trincar no transporte.


Capela de Nossa Senhora do Desterro A Capela de Nossa Senhora do Desterro é datada de 1640 e foi construída nas terras do Mestre Bartolomeu Fernandes Mourão, ferreiro que veio para o Brasil na armada de Martim Afonso de Souza (1532). Ele é considerado o pai da metalurgia brasileira. Nossa Senhora do Desterro é representada com a Sagrada Família, indicando o momento do retorno da fuga do Egito, um momento de paz e alegria, pois está desterrando todos os males e transportando a família para uma vida nova; por isso é considerada padroeira dos imigrantes.

Cruz Processional A cruz processional, exposta na Sala da Paixão de Cristo no Museu de Arte Sacra de Santos, é uma cruz utilizada em procissões religiosas, seja de cunho festivo ou litúrgico. Existe uma diferença entre cruz e crucifixo: a cruz é apenas um objeto em cruz sem o corpo de Cristo; já o crucifixo é uma cruz com o corpo de Cristo; provém de “Cruci Fixo” = Cristo fixado na cruz. É interessante notar que, na cruz em questão, claramente não há o corpo de Cristo, mas ao centro há um símbolo, o qual seria uma custódia, um objeto utilizado para expor o Santíssimo em procissões, ou seja a hóstia consagrada. Isso significa que, mesmo que o corpo figurativo de Jesus não esteja na cruz, sua carne está representada. Fonte: Museu de Arte Sacra de Santos

Santa Catarina de Alexandria

FOTOS MarciO aLVES

A imagem de Santa Catarina de Alexandria, talhada em madeira, datada de aproximadamente 1540, é considerada ícone da religiosidade do povo santista. A imagem foi posta na Capela de Santa Catarina de Alexandria, edificada pelo casal de portugueses Luiz de Góes e Catarina Andrade de Aguillar. Esta foi a primeira capela construída em Santos, também por volta de 1540, e estava localizada no sopé do Outeiro de Santa Catarina; atualmente a capela não existe mais, somente o outeiro. Quando, em 1591, a Vila de Santos sofreu uma invasão de corsários ingleses, eles saquearam a Vila e no final destruíram a Capela de Santa Catarina, pegaram a imagem da santa e a lançam ao mar. Porém um milagre aconteceu: após 72 anos, em 1663, a imagem foi resgatada, involuntariamente, pelos escravos que estavam pescando no mar. No meio da rede e dos peixes a santa ressurgiu novamente, sendo considerada a primeira padroeira da cidade de Santos por conta do seu aparecimento milagroso.

Imagem com cabelo humano Três raríssimas imagens: duas do Senhor Bom Jesus dos Passos e uma imagem de Nossa Senhora das Dores, todas em madeira policromada e com um diferencial: cabelo humano. O fato curioso é que não se sabe a origem do cabelo, mas existem especulações; provavelmente provém de freiras, até porque em algumas ordens elas raspam a cabeça em negação à vaidade, e consequentemente o cabelo poderia ser utilizado para a produção de imagens religiosas, ou supostamente o artista que fez a escultura estava pagando uma promessa para alguém e utilizou o cabelo dessa pessoa. Artisticamente, o propósito do uso de cabelo humano seria uma aproximação do realismo, pois a intenção dos santeiros era dar vida às imagens. Santos 31


Museus

interior do Museu do Mar

Museu do Mar

de visitantes. Com a Expo Museu do Mar na Escola, que é levada a escolas da região, os alunos contemplam a biodiversidade marinha com acompanhamento de biólogos e contam também com uma mesa de toque – permitindo o contato direto com espécies taxidermizadas – e um tanque de contato – possibilitando aos estudantes a oportunidade de manipular com a devida orientação dos profissionais algumas espécies vivas, tais como estrelas-do-mar, ouriços, anêmonas e paguros-eremitas. Onde: rua república do Equador, 81– Ponta da Praia

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Fonte: Museu do Mar

FOTOS MarciO aLVES

Inaugurado em 30 de junho de 1984, o Museu do Mar reúne um dos maiores e mais diversificados acervos de biologia marinha do Brasil. Dentre suas principais atrações destacam--se o tubarão-baleia (o maior peixe do mundo, único em exposição na América do Sul), o tubarão-anão (Squalioluslaticaudus, o menor tubarão do mundo), o raro tubarão Odontaspisnoronhai (com apenas três exemplares em exposição no mundo), o albatroz-viageiro (a maior ave marinha do mundo), a concha gigante Tridacna Gigas (o maior molusco bivalve do mundo), e muitas outras curiosidades. Além do acervo científico, o Museu do Mar exibe ainda aquários marinhos com belíssimos peixes dos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico. Em trinta anos de atividades abertas ao público, a entidade atinge a marca de 1 milhão

centolla-caranguejo originário da Patagônia (chile). É encontrada em até 150 metros de profundidade


Museus

Museu de Pesca

(Museu do Instituto de Pesca)

Museu de Pesca - O maior esqueleto de baleia da espécie Fin exposto no mundo com 23m. de comprimento

Museu de Pesca Fachada

Texto: pesquisador científico Roberto da Graça Lopes, jornalista Antônio Carlos Simões, Mônica Doll Costa

A função básica do Museu do Instituto de Pesca é desenvolver ações científico-culturais, levando a comunidade a se conscientizar da importância da preservação e utilização racional do ambiente aquático. O Museu do Instituto de Pesca é importante como veículo de divulgação técnico-científica na área da pesca, da aqüicultura, da biologia e ecologia aquáticas, apoiando a atuação formadora das escolas e atendendo ao público turista. Funções que assumem maior importância ainda em razão do reduzido número de entidades do gênero existentes no País. Em vista disso, muita gente costuma vê-lo como uma instituição ligada a alguma secretaria de turismo, desconhecendo o fato de ele pertencer ao Instituto de Pesca, órgão ligado à pesquisa científica em recursos aquáticos renováveis (pesca e aqüicultura), que integra a Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta) da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

34 Cidade&Cultura

FOTOS MôniCA DOLL COSTA

Atribuições do Museu de Pesca

Museu de Pesca - Exposição Científica Embarque na Aventura da Pesca - instrumentos de pesquisa e petrechos de pesca


Origem do Prédio O Museu tem, também, um outro importante papel ao se relacionar com a Cidade de Santos desde os primórdios de seu surto desenvolvimentista, uma vez que sua sede atual, construída no local de uma fortificação datada do século XVIII (Forte Augusto), abrigou inicialmente a Escola de Aprendizes-Marinheiros, depois uma Escola de Pesca e um dos primeiros Institutos de Pesquisa na Baixada Santista. E é muito relevante manter vivas essas referências ao passado, aclarando sempre para a comunidade a importância do Museu como patrimônio histórico e cultural desde sua origem. O grande edifício que sedia o Museu tem estilo eclético, característico da época em que foi construído (1908), no qual as grandes obras refletiam a influência de diferentes estilos arquiteturais clássicos. Apesar de sua importância histórica, apenas em setembro de 1986 iniciou-se um processo para tombamento do imóvel junto ao CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado), sendo esse processo concluído somente em 7 de abril de 1998, quase treze anos depois, com o tombamento oficial do imóvel.

Museu de Pesca - Triunfo de Baco - arte esculpida em concha da espécie Cassis cornuta (origem Itália de 1936, autor desconhecido)

Museu de Pesca - Sala dos Tubarões, em destaque a raia manta de 4m. de envergadura

De Forte a Escola de Aprendizes-Marinheiros A história do terreno onde hoje está instalado o Museu começa com o antigo Forte Augusto (fortificação que entrou em atividade em 1734 para defesa de uma das entradas do estuário de Santos) que cruzava fogo com a Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande (do outro lado do canal, na Ilha de Santo Amaro), ambos pertencentes ao Ministério da Marinha. Em 1893, o Forte Augusto sofre ataques, acaba em ruínas e é desativado naquele fim de século, sendo então aproveitado apenas como depósito de material bélico. Entretanto, devido à posição privilegiada a beira-mar, o terreno da antiga fortificação da Ponta da Praia foi apontado como local ideal para a construção da Escola de Aprendizes-Marinheiros do Estado de São Paulo, organizada pelo Ministério da Marinha. A finalização do prédio desse estabelecimento de ensino data de 1908, com sua inauguração ocorrendo em 5 de maio de 1909, funcionando ininterruptamente até 1931, quando foi extinta por ordem do Governo Federal. Cedeu lugar à Escola de Pesca (oriunda do Guarujá) que, por sua vez, em 1932, recebeu o nome de Instituto de Pesca Marítima.

Santos 35


Museus

FOTOS MARCIO ALVES

Reprodução do Capitão Edward John Smith (1850-1912), que comandou oTransatlântico Titanc

Pintura de Carlos Alfredo Hablitzet - óleo sobre tela

Museu Marítimo Em setembro de 1993, a Sociedade Museu do Mar recebeu o acervo do extinto Museu Histórico Naval de São Vicente, guardando e conservando todo o material coletado e catalogado pelo engenheiro civil e estudioso de assuntos marítimos Carlos Alfredo Hablitzel (19201988), em seus 45 anos de pesquisas. Então, a Sociedade Museu do Mar passou a desenvolver o Projeto Museu Marítimo e, em 2005, inaugurou o Museu Marítimo, um dos mais importantes acervos de história marítima e arqueologia submarina do país. Com aproximadamente 240 metros quadrados dedicados à exposição, utiliza elementos cenográficos que permitem aos visitantes “viajar no tempo”, interagindo com modelos de marinheiros, piratas e capitães. O visitante conhece a história de diversos naufrágios ocorridos na costa brasileira; tem contato com materiais resgatados do fundo do mar por mergulhadores; aprecia antigos equipamentos de mergulho e pinturas em óleo sobre tela, da autoria de Carlos Alfredo Hablitzel, retratando relevantes episódios navais brasileiros e estrangeiros, além de maquetes e modelos de navios famosos, junto com um acervo documental, livros, revistas especializados. Onde: Avenida Governador Fernando Costa, 343 Ponta da Praia 36 Cidade&Cultura

Equipamentos de mergulho antigos

Garrafas encontradas em escavações em áreas portuárias que datam do séc. XIX


Imigrantes

Acervo Museu do Porto

Aos que chegaram

MArcIo ALves

Hospedaria de Imigrantes de santos

Os espanhóis Assim como muitos italianos, os espanhóis vieram para as bandas do Brasil entre a década de 1880 e 1950, com aumento expressivo de imigrantes nos anos 1930 por conta da Guerra Civil Espanhola, com o objetivo de melhorar suas condições de vida. Eram oriundos principalmente da Andaluzia e da Galícia, e a maioria tinha como destino as fazendas de café no interior do Estado de São paulo, mas muitos acabaram se estabelecendo nas cidades, formando uma força motriz que impulsionou o desenvolvimento industrial. Em Santos, a colônia espanhola se unificou e constituiu o Centro Español y Repatriación, já em 1885. Dois fatos relevantes para a comunidade espanhola foram o resgate dos náufragos do navio príncipe de Astúrias, em Ilhabela (o maior naufrágio da costa brasileira em número de óbitos) e a transformação do Centro em um hospital para atender as vítimas da gripe espanhola. Fundaram também o Jabaquara Atlético Clube. 38 Cidade&Cultura

e construíram

um país

Nada fácil a tarefa de sair de seu país de origem para embarcar em um sonho cujo fim é desconhecido. para trás ficaram suas famílias, suas casas, seus costumes, suas histórias. O porto de Santos foi, para muitos de nossos antepassados, o primeiro passo para uma aventura, muitas vezes sem possibilidade de retorno. Mas, graças a essa gente que teve a ousadia de mudar, de tentar, é que nosso país foi construído. Aos poucos, esses traços que dividem as nações estão de apagando e o que fica está apenas em fotos e histórias do passado longínquo de nossos avos e bisavós.

Gripe espanhola pandemia que começou na primeira Guerra Mundial e se alastrou mundo afora. Recebeu vários nomes, dependendo do país que acometia. No Brasil, foi chamada de gripe espanhola porque muitos espanhóis contraíram a doença. Nos anos de 1918 e 1919, o país tomou atitudes enérgicas proibindo aglomerações de pessoas e também intensificou a publicidade em relação à higiene pessoal dos brasileiros. No Brasil, foram registradas aproximadamente 300 mil mortes relacionadas à epidemia. Estima-se que a gripe espanhola tenha vitimado 20 milhões de pessoas, ou 1,5% de toda a população mundial da época. Essa doença dizimou mais vítimas do que a primeira Guerra Mundial e foi, sem dúvida, uma das mais devastadoras pandemias da história.


Imigrantes

Com o objetivo de dar maior assistência aos milhares de italianos que aqui desembarcavam, devido ao grande fluxo imigratório ocorrido a partir do fim do século XIX, foi constituída a Società di Beneficenza Italiana, em 22 de agosto de 1897. Com o advento da Segunda Guerra Mundial, todas as entidades desse gênero foram fechadas e o prédio da Società Italiana, em Santos, foi entregue à guarda do Consulado da Suíça, como representante dos direitos italianos, até o fim do conflito em 8 de maio de1945, após o qual ela se restabeleceu com o nome de Societá Italiana Di Santos, uma agremiação não governamental e sem fins lucrativos. Com o passar das décadas,

Os ciganos Originários da Índia, chegaram ao Brasil em 1574, com João Torres, no Rio de Janeiro, sem dizer que eram ciganos, depois de terem sido expulsos de Portugal e enviados para as colônias. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, um considerável número de famílias ciganas imigrou dos países do Leste Europeu e se estabeleceu com o comércio de burros, cavalos, e artesanato de cobre e se apresentando em circos, vivendo em barracas e praticando o nomadismo. Hoje, são 800 mil ciganos encontrados nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste. São organizados em grupos: os Calon e os Rom que estão no Brasil formam subgrupos denominados Kalderash – se dizem “puros” e alguns ainda são nômades; Macwaia ou Matchuai, vindos basicamente da Sérvia, vivem sedentários em grandes cidades; Horahane, de origem turca ou árabe, desenvolvem atividades semelhantes

s

+ ImIgrAnte

1 Com o domínio dos católicos no início da Vila, os não católicos eram enterrados em outros locais. Hoje a campa 358 do Cemitério do Paquetá abriga os restos mortais dos protestantes | 2 Sakura Cerejeira - homenagem aos imigrantes japoneses que embarcaram no Porto de Kobe e vieram no navio Kasatu Maru, 1908, em Santos

40 Cidade&Cultura

ela foi se moldando à realidade do momento e dos novos anseios da comunidade de italianos e oriundi (descendentes) residentes em Santos e região. Diminuíram as imigrações e os que aqui estavam, migraram para outros estados. Hoje sua prestação de serviços está voltada para a parte cultural e o ensino do idioma, além de promover eventos que proporcionam aos associados e à população em geral um conhecimento mais profundo da Itália, seus costumes, culinária, mercado, turismo e vários outros aspectos. Sua atual presidente, Célia Bertolini, é a primeira mulher a ocupar este cargo nos 117 anos de existência da sociedade. Onde: Av. Ana Costa, 311. aos Matchuaias; Lovaria, um grupo de poucas pessoas que se dedica ao comércio e à criação de cavalos e é basicamente sedentário; e os Rudari, também em número reduzido, dedicados ao artesanato de ouro e madeira, sedentários. O Dia Nacional do Cigano, comemorado em 24 de maio, é uma homenagem à sua padroeira, Santa Sara Kali. Para o povo cigano, é muito importante o sentimento de pertencer a um grupo, a um clã ou tribo, e cumprir o código da etnia. Os seus dialetos (romani, sinto, caló, entre outros) são ágrafos, ou seja, não possuem escrita e o nomadismo é reconhecido como uma referência da identidade cigana. Em Santos, a comunidade cigana é grande e luta para sua valorização como um povo trabalhador e digno. As ciganas se apresentam no Morro da Nova Cintra para falar de suas origens e de sua cultura. Lindas e coloridas, dançam e entusiasmam os que assistem. Falam de suas crenças e mostram em seus sorrisos bondade e amor ao receber as pessoas.

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FOtOs mArCIO ALVes

Os italianos


Imigrantes

Com o objetivo de dar maior assistência aos milhares de italianos que aqui desembarcavam, devido ao grande fluxo imigratório ocorrido a partir do fim do século XIX, foi constituída a Società di Beneficenza Italiana, em 22 de agosto de 1897. Com o advento da Segunda Guerra Mundial, todas as entidades desse gênero foram fechadas e o prédio da Società Italiana, em Santos, foi entregue à guarda do Consulado da Suíça, como representante dos direitos italianos, até o fim do conflito em 8 de maio de1945, após o qual ela se restabeleceu com o nome de Societá Italiana Di Santos, uma agremiação não governamental e sem fins lucrativos. Com o passar das décadas,

Os ciganos Originários da Índia, chegaram ao Brasil em 1574, com João Torres, no Rio de Janeiro, sem dizer que eram ciganos, depois de terem sido expulsos de Portugal e enviados para as colônias. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, um considerável número de famílias ciganas imigrou dos países do Leste Europeu e se estabeleceu com o comércio de burros, cavalos, e artesanato de cobre e se apresentando em circos, vivendo em barracas e praticando o nomadismo. Hoje, são 800 mil ciganos encontrados nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste. São organizados em grupos: os Calon e os Rom que estão no Brasil formam subgrupos denominados Kalderash – se dizem “puros” e alguns ainda são nômades; Macwaia ou Matchuai, vindos basicamente da Sérvia, vivem sedentários em grandes cidades; Horahane, de origem turca ou árabe, desenvolvem atividades semelhantes

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1 Com o domínio dos católicos no início da Vila, os não católicos eram enterrados em outros locais. Hoje a campa 358 do Cemitério do Paquetá abriga os restos mortais dos protestantes | 2 Sakura Cerejeira - homenagem aos imigrantes japoneses que embarcaram no Porto de Kobe e vieram no navio Kasatu Maru, 1908, em Santos

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ela foi se moldando à realidade do momento e dos novos anseios da comunidade de italianos e oriundi (descendentes) residentes em Santos e região. Diminuíram as imigrações e os que aqui estavam, migraram para outros estados. Hoje sua prestação de serviços está voltada para a parte cultural e o ensino do idioma, além de promover eventos que proporcionam aos associados e à população em geral um conhecimento mais profundo da Itália, seus costumes, culinária, mercado, turismo e vários outros aspectos. Sua atual presidente, Célia Bertolini, é a primeira mulher a ocupar este cargo nos 117 anos de existência da sociedade. Onde: Av. Ana Costa, 311. aos Matchuaias; Lovaria, um grupo de poucas pessoas que se dedica ao comércio e à criação de cavalos e é basicamente sedentário; e os Rudari, também em número reduzido, dedicados ao artesanato de ouro e madeira, sedentários. O Dia Nacional do Cigano, comemorado em 24 de maio, é uma homenagem à sua padroeira, Santa Sara Kali. Para o povo cigano, é muito importante o sentimento de pertencer a um grupo, a um clã ou tribo, e cumprir o código da etnia. Os seus dialetos (romani, sinto, caló, entre outros) são ágrafos, ou seja, não possuem escrita e o nomadismo é reconhecido como uma referência da identidade cigana. Em Santos, a comunidade cigana é grande e luta para sua valorização como um povo trabalhador e digno. As ciganas se apresentam no Morro da Nova Cintra para falar de suas origens e de sua cultura. Lindas e coloridas, dançam e entusiasmam os que assistem. Falam de suas crenças e mostram em seus sorrisos bondade e amor ao receber as pessoas.

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Os italianos


Imortais

Uma terra de pessoas que lutaram

pela sociedade brasileira Santos é uma cidade que realmente gerou filhos comprometidos com as mudanças sociais, seja pelo desbravamento, pela poesia e até pela luta de um império. São o orgulho de cidadãos ou mesmo de grupos empenhados em conquistas sociais, com igualdade e liberdade de pensamentos. Impossível listar aqui todos os que marcaram época. Então, destacamos os que fundamentaram e ainda fundamentam a personalidade desta cidade.

Português, natural da cidade do Porto, veio para o Brasil em 1531 com a expedição de Martim Afonso de Souza. Em 1536, recebeu sesmarias (distribuição de terras destinadas a agricultura e criação de gado), e foi o maior proprietário de terras da Baixada Santista. Em 1543 fundou o primeiro Hospital das Américas, a Santa Casa de Misericórdia de Todos os Santos, nos moldes da Santa Casa de Lisboa, assim como uma capela em homenagem a Santa Catarina. Transferiu para o Valongo o porto. Construiu o Forte São Filipe na Ilha de Santo Amaro e participou ativamente na defesa da Capitania contra os ataques de índios e piratas. Em 26 de janeiro de 1546 fundou a Vila de Santos.

Vicente de Carvalho

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Brás Cubas

Vicente de Carvalho (1866 – 1924) Formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, de São Paulo, Vicente Augusto de Carvalho dedicou-se ao jornalismo, à política e ao comércio de café. Além de poeta, era um romântico autêntico, traço evidenciado em suas poesias cheias de melancolia, emotividade e uma pitada de ironia. Tendo o mar como pano de fundo para suas obras, recebeu a alcunha de “Poeta do Mar”. Como republicano ferrenho, destacou-se no jornalismo por contribuições marcantes aos jornais Diário de Santos e Diário da Manhã. No final da vida dedicou-se à publicação de poemas na revista A Cigarra.

FOTOS MARCIO ALVES

Brás Cubas (1507 – 1592)


Bartolomeu de Gusmão (1685 – 1724) Nascido em Santos, Bartolomeu de Lourenço adotou o nome Gusmão em homenagem ao preceptor e protetor jesuíta Alexandre de Gusmão. Foi sacerdote, diplomata, lecionou física e matemática e foi o inventor de balões de ar aquecido, evento outorgado com a primeira patente concedida a um brasileiro. Recebeu do governo holandês a patente pela criação de uma máquina de drenagem de água para embarcações em alto-mar, e construiu uma máquina artesanal para direcionar a água através de um cano longo até um reservatório. Conhecido como o Padre Voador, foi precursor da aeronáutica por suas contribuições científicas.

Bartolomeu de Gusmão Mosaico do tipo romano do século II - tessela, encontrado ao redor do monumento de Bartolomeu de Gusmão na Praça Rui Barbosa. Uma verdadeira raridade e de suma importância histórica

José Bonifácio de Andrada e Silva (1783 – 1838) É árdua a tarefa de resumir tão nobre cidadão que, antes de receber o epíteto de “Patriarca da Independência”, era um legítimo brasileiro, defensor de uma sociedade castigada e fadada a ser um reduto extrativista de Portugal. Como verdadeiro abolicionista, libertou todos os escravos de sua propriedade, o sítio de Outeirinhos, em 1820. Movia-o a visão da integridade nacional. Lutava pela independência brasileira como um todo, com a inclusão dos índios, a reforma agrária com a extinção dos latifúndios improdutivos. Também era contra o analfabetismo e, para isso, queria a educação primária para todos. Defendia a criação de mais institutos educacionais de 3º grau, colocando em pauta a luta social na justiça brasileira. Foi preso, exilado e depois se tornou o tutor do imperador D. Pedro II. Seus pensamentos amadurecidos principalmente por sua trajetória na Europa fizeram dele um visionário que sabia do potencial do Brasil

como um país com capacidade de se desenvolver sem os laços opressivos da Coroa portuguesa. Bonifácio foi para o Brasil o cidadão mais influente de sua época e transformou toda a sua teoria em realidade. Seus percalços, que enfrentou com um desprendimento altruísta, foram superados com dignidade, sempre fazendo valer suas intenções. Ocupando os mais altos cargos, combateu as intrigas e fez reverberar todo o patriotismo que carregava dentro de si. Cursou Direito e Filosofia Natural na Universidade de Coimbra; foi pioneiro na proteção das mulheres grávidas; em Paris, estudou Mineralogia e Química; na Saxônia, formou-se em Metalurgia, Mineralogia, Geologia e Orictognosia; na Suécia, foi membro da Real Academia de Ciências de Estocolmo, e recebeu a Cadeira de Metalurgia na Universidade de Coimbra. Foi precursor da ecologia, ao escrever sobre a importância do reflorestamento de Portugal.

Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva (1773 – 1845) Irmão de José Bonifácio, foi juiz, desembargador e político, e, com o pseudônimo de “Philagiosetero”, publicou vários artigos em prol da independência do Brasil. Mais conhecido no meio político como Andrada Machado, lutava contra o despotismo colonial. Formado pela Universidade de Coimbra em Filosofia e Direito, ficou preso durante quatro anos por sua participação na Revolução Pernambucana, em 1817. Deputado na

Assembleia Constituinte de Lisboa, sempre defendeu o Brasil e representou São Paulo na Assembleia Constituinte brasileira de 1823. É exilado no mesmo ano, após romper com D. Pedro I que dissolvera a Constituinte. Retorna ao Brasil em 1828. Como deputadogeral do Estado de São Paulo, participa do Movimento da Maioridade de D. Pedro II. Foi também Ministro do Império em 1845, por Pernambuco. Santos 43


Imortais Alguns livros de Martins Fontes

José Martins Fontes (1884 – 1937)

José Martins Fontes

Formado em Medicina no Rio de Janeiro, começou a escrever para os jornais Gazeta de Notícias e País, além da revista A Careta. Participou da Comissão de Obras do Acre e publicou um Estudo sobre a Higiene Rural do mesmo Estado. Voltou a Santos em 1915, passando a se dedicar à medicina e à literatura. Em 1930, tornou-se sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa. Foi atuante na luta contra a gripe espanhola que assolou a cidade em 1918.

Martim Francisco Ribeiro de Andrada (1775 – 1844) Bacharel em Matemática e doutor em Ciências Naturais pela Universidade de Coimbra, em 1820 foi nomeado secretário do Governo Provisório da Província de São Paulo. Contribuiu muito para a independência do Brasil, propagando os ideais da liberdade. Como secretário de Estado dos Negócios da Fazenda, permaneceu no governo até 1822. Esse primeiro mandato, que durou dezoito meses, foi marcado pela disputa de poder entre Martim Francisco e o grupo da maçonaria, sob o 44 Cidade&Cultura

comando de Joaquim Gonçalves Lêdo. Em 1823, após a dissolução da Constituinte por D. Pedro I, é exilado e embarca para a França junto com seus dois irmãos; em 1828 volta para se defender no Rio de Janeiro em processo de crime de sedição, do qual é absolvido. Eleito deputado pela Província de Minas Gerais, reata com D. Pedro I. Em 1840, luta pelo Movimento da Maioridade de D. Pedro II e, após a vitória, é chamado para integrar o Conselho da Coroa.


FOTOS MARCIO ALVES

Maçonaria Não é a alguma pessoa em particular que este espaço será dedicado, e sim a uma entidade que sempre lutou bravamente pelo desenvolvimento social desta cidade. A maçonaria está bastante presente com suas inúmeras Lojas, além de atuar na maioria das casas assistenciais. Aparece como pano de fundo em todos os grandes acontecimentos de Santos e do Brasil, sempre ligada a nomes de destaque que fizeram desta a terra da caridade e da liberdade. Não citaremos aqui todas as Lojas Maçônicas que Santos tem, mas, se olharmos atentamente, elas estão por todo lado, com sua arquitetura inconfundível. Um exemplo é o Panteão dos Andradas, onde estão os restos mortais desses célebres santistas: Bonifácio, Antônio Carlos e Martim Francisco. A associação de ideais que norteiam a maçonaria formou um conjunto de cidadãos que incutiram na cidade as nobres atitudes sociais que permitiram elevar o patamar de desenvolvimento de muitos brasileiros.

Templo Loja Fraternidade

Panteão dos Andradas

Wilma Therezinha Fernandes de Andrade

principalmente na preservação e não demolição de vários edifícios históricos de Santos, como é o caso do Teatro Coliseu Santista.. Sua dedicação Historiadora formada pela Faculdade “Sedes à cidade está acima de tudo. Nas escolas em que Sapientiae” da PUC – Pontifícia Universidade Ca- atuou, implantou o Roteiro Histórico para os alutólica de São Paulo, especializada em História da nos conhecerem detalhadamente os locais que Antiguidade e com mestrado e doutorado pela viraram marcos. Escreveu diversos livros relacioUSP com trabalhos relativos à cidade de Santos, nados ao tema central de sua vida, e está sempre é uma apaixonada pela história de sua cidade. colaborando para a divulgação desses textos, que Depois de ter lecionado para praticamente meta- são um verdadeiro patri- mônio da cidade. Dada a de dos santistas por mais importância de Santos na de 51 anos, é uma unanihistória do Brasil, tornamHistoriadora Wilma Therezinha F. de Andrade midade em relação a cada se igualmente patrimônio detalhe da cidade. Seus linacional. Santos deve a vros são uma referência soesta corajosa historiadora bre Santos e sua pesquisa uma grande parcela de resempre foi séria em busca conhecimento, pois, o seu da verdade. O amor à sua trabalho foi valorizar o pasprofissão surtiu efeitos sado glorioso da cidade.

Santos 45


Vista aérea do armazém 30 - cais do Macuco - 1957

Vocação natural para

cidade de entreposto Geografia Para entendermos melhor por que o Porto de Santos conquistou seu lugar de destaque ao longo da história do Brasil, precisamos conhecer a geografia local. Quando da chegada da armada de Martim Afonso de Sousa à Ilha de São Vicente, observou-se que esse não seria o melhor local para o desenvolvimento do comércio marítimo por se tratar de área espraiada. Brás Cubas, após um reconhecimento do local, percebeu que, se transferissem o porto para o interior do estuário, no Lagamar do Enguaguaçu, os navios atracados ficariam mais protegidos das intempéries e de ataques de piratas, pois o maciço de 46 Cidade&Cultura

São Vicente formado pelos morros representava um abrigo ideal; assim se consolidou o primeiro trecho do que viria a ser o maior porto do país. Esse local ficou conhecido como Valongo (local de venda de escravos). A ilha era chamada pelos índios de Goaió, que significa “lugar de fornecimento de provisões”. Antes mesmo de Brás Cubas organizar o local, surgiu a vocação de cidade como um entreposto, dadas suas características favoráveis ao comércio marítimo. Com seu solo de difícil manuseio para a agricultura devido a terras alagadiças e salobras, Santos abraçaria essa vocação e faria dela seu sustento social e econômico.

AcerVo Museu do Porto

Porto de Santos


Ciclo do açúcar

transatlântico alemão PFalz, atracado no Porto do Bispo. 1893

Motivados pela grande exportação de rapadura pelo Porto de Santos, os engenhos de cana-de-açúcar estavam a todo vapor com a produção gerada, porém, com a crescente criação de novos engenhos na região nordeste e a proximidade dessa região em relação à Europa, há um declínio vertiginoso na movimentação de cargas.

Calçada do Lorena Com a expansão do açúcar no interior do estado de São Paulo, o governador Bernardo José Maria de Lorena entendeu que era necessária a abertura de um caminho mais adequado para a chegada da produção ao porto de Santos. Inaugura então em 1792 a “Calçada do Lorena” para que os muares (mulas) pudessem transitar sem os infortúnios de uma simples trilha. “Trata-se do primeiro corredor de exportação brasileiro” (Wilma Therezinha F. de Andrade). Lorena também exigiu que o açúcar produzido no litoral norte do estado não fosse mais para o porto do Rio de Janeiro, mas que viesse para o porto de Santos.

Ciclo do ouro Com a descoberta de ouro no interior de Minas Gerais, o porto de Santos é acionado para a sua exportação. “Uma coisa que pouca gente sabe é que Santos teve uma casa de fundição, algo necessário ao pagamento do quinto para a Coroa Portuguesa, ou seja, 20% da produção” (Wilma Therezinha F. de Andrade). Mas, em 1706, Garcia Paes abre um novo caminho para o escoamento do mineral precioso, que passa para o porto do Rio de Janeiro.

MArcIo AvLes

Ciclo do sal Com a declaração do monopólio do sal por parte de Portugal, de 1631 a 1801, segundo o qual todo o sal consumido no Brasil deveria ser importado de Setúbal, Santos se torna uma praça de comércio intensa, com direito a revolta diante dos preços abusivos do produto no câmbio negro. Nesse período o porto fica conhecido como Porto do Sal.

remanescente da época dos tropeiros local para amarrar montaria

Os antigos atracadouros eram os chamados trapiches, feitos de madeira, verdadeiras pontes que ligavam a terra firme aos navios ancorados. Eles começaram a ser demolidos por volta de 1892, com a organização do porto. Existiam os trapiches Belmarço, Paquetá, Brasil, o da Alfândega que era o maior, Augusto Leuba & Cia., Roberta Dale, entre outros.

Acervo Museu do Porto

Trapiches

Santos 47


Porto de Santos

Ciclo do Café Rua XV de Novembro

Ciclo do café Em 1795 é registrada a primeira exportação do ouro negro através do porto. Com o aumento das pessoas com maior poder aquisitivo na Europa e nos Estados Unidos, o consumo de café cresceu exponencialmente com a criação, principalmente em Paris, de casas para o consumo da bebida. Com a construção da estrada de Ferro São Paulo Railway, apelidada de “A Inglesa”, a produção passa a ser escoada em apenas 4 horas de viagem. Todavia não só o percurso deveria ser facilitado, mas também deveria haver a criação de uma infraestrutura adequada com um porto “modernizado”.

FOTOS ACeRVO FuNdAçãO BeNediCTO CAliXTO

O porto maldito No início do século XIX, com a peste atacando maciçamente o povoado de Santos, Vicente de Carvalho (santista), então secretário do Interior do Estado, em 1892, começa a se mexer para solucionar o grave problema que poderia vir a afetar o porto, levando-o a talvez ser fechado e sua movimentação transferida para São Sebastião. Para se ter uma noção exata do problema, com 30 mil habitantes, a taxa de mortalidade chegava aos alarmantes 11,87%. Foram 60 anos de grande angústia para os moradores da cidade. Com isso todo o fluxo da imigração não permanecia em Santos e região, sendo quase que imediatamente transferida para o planalto e o interior do Estado. Esse quadro não se alterou até que Saturnino de Brito entrou na história e o reverteu com seu genial plano de saneamento e urbanização da cidade e concomitantemente do porto, por meio da construção dos canais.

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Praia da Rampa do Consulado - Porto de Santos, 1882 - óleo sobre tela Benedicto Calixto

Jacinto - estivador de apelido Sansão suportava em seus ombros 300kg de café - imortalizado no Museu do Café

1892 - O navio inglês Nasmith atracado nos primeiros 260 metros de cais construídos

Porto organizado Em 1888, os senhores José Pinto de Oliveira, Cândido Gaffrée, Eduardo Palassin Guinle, João Gomes Ribeiro de Aguilar, Alfredo Camilo Valdetaro, Benedito Antônio da Silva e Barros e Braga & Cia. ganham a concorrência para exploração do porto por noventa anos. Então, em 1889, é criada a Empresa das Obras de Melhoramentos do Porto de Santos. Em 7 de novembro de 1890 é assinado o Termo de Concessão com a criação da Companhia Docas de Santos. Em 1892 foram concluídas as obras dos 260 metros de cais, sendo inaugurado assim o primeiro trecho de porto organizado do país, com a atracação do navio inglês Nasmith. decreto n° 9979 de 12 de junho de 1888 - documanto da Concessão para o novo Porto de Santos


Estrada de Ferro São Paulo Railway

Estrada de Ferro São Paulo Railway O grande visionário que foi o Barão de Mauá, planejando o incremento da produção e da exportação no estado de São Paulo, consegue a concessão para construir uma ferrovia ligando o Porto de Santos à cidade de Jundiaí. Porém, sua tarefa não seria fácil, devido à verdadeira muralha representada pela Serra do Mar, com 800 metros de altura, o que tornaria o empreendimento uma das tarefas de engenharia mais exigentes do país. Após os estudos feitos pelo engenheiro ferroviário inglês James Brunlees, foi contratado o engenheiro Daniel Makison Fox, que já tinha experiência na construção de ferrovias no País de Gales e nos Pirineus. A conclusão a que se chegou para transpor a serra seria por meio de cabos de aço, dividindo-a em quatro declives, com inclinação de 8% cada, de quatro patamares cada um, com uma casa de força e uma máquina a vapor. Com essa conclusão positiva, fundou-se a empresa São Paulo Railway – S.P. R., iniciando as obras no

Fim do século XIX

ano de 1869. Outros obstáculos a serem superados eram os rios Mogi e Cubatão; para tanto construíram-se pontes que totalizaram 150 metros de comprimento. Na Serra do Mar não foram utilizados explosivos devido ao grande risco que o solo apresentava; as escavações foram feitas por cunhas e pregos de aço. Uma verdadeira loucura. Assim a S.P. R. foi inaugurada em 1867. A intensa produção do café no interior do Estado, no entanto, fez surgir a necessidade de mais uma linha paralela à antiga, com mais dois quilômetros. “Para a tração das composições dos trens, cada um dos cinco planos inclinados foi dotado de máquinas fixas de 1.000 hp instaladas em cavernas. Essas máquinas controlavam o sistema de cabos endless hope, ou “sem-fim”, que impulsionavam, pelos planos inclinados, as composições. Esse sistema era controlado através da simultaneidade de composições que subiam e desciam a rota, criando, assim, um contrapeso (cada composição compensava, com seu peso, a outra; qualquer diferença de peso era compensada pela potência da máquina fixa, já que durante o percurso da serra a locomotiva não atuava).No deslocamento da composição, de um plano para outro, uma máquina chamada “locobreque”, que acompanhava os vagões, possuía uma tenaz que se prendia ao cabo impulsor até a seção seguinte, onde se realizava a mudança de cabo, e assim sucessivamente até o pé da serra. O sistema foi inaugurado em 1901”. Fonte: História de Santos-Polianteia Santista, Francisco Martins dos Santos.

Em 1946, a Estrada de Ferro São Paulo Railway passou para as mãos do Governo Federal e, em 1957, passou a ser denominada Rede Ferroviária Federal S.A. – RFFSA. Santos 49


Porto de Santos

Grupo Guinle & Cia “A família Guinle inicia os seus negócios, na praça do Rio de Janeiro, ainda na segunda metade do século XIX, em 1871, quando Eduardo Palassin Guinle resolve abrir uma loja de tecidos importados, no centro da cidade, tendo como sócio Cândido Gaffrée. Já no ano seguinte, em 1872, os dois sócios ampliam os seus negócios para o ramo de ferrovias, incluindo, à época, a construção de estradas de ferro no Nordeste, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em 1888, a Gaffrée & Guinle obtém a concessão para a construção do novo porto de Santos, em disputa com diversas empresas concorrentes. Mais tarde, a mesma dará origem à Companhia Docas de Santos, que terá Cândido Gaffrée e Eduardo Palassin Guinle como seus principais acionistas. Os negócios que envolviam a construção do porto de Santos passaram a ser as principais atividades dos Guinle na década de 1890. Em 1899, os Guinle adquirem, em localidade próxima a Petrópolis, uma queda d’agua no rio Paquequer, “com o objetivo de construir uma hidrelétrica para fornecer eletricidade ao Rio de Janeiro”. Contudo, esse plano fora adiado, em função da então construção do porto de Santos. Nesse mesmo ano, foi fundada em Toronto, no Canadá, aquela que seria a maior concorrente dos Guinle no setor elétrico,

FOTOS AcervO MuSeu dO POrTO

Obras da nova represa de Itatinga - 1937

cândido Gaffrée e eduardo Guinle

a companhia Light and Power, voltada inicialmente para a praça de São Paulo, com a denominação jurídica de São Paulo Tramway, Light and Power. A disputa com a Light and Power teria início a partir da própria capital de São Paulo. Em 1901, a Gaffrée & Guinle recebeu autorização para instalar uma usina hidrelétrica no rio Itatinga, destinada a fornecer eletricidade para o Porto de Santos. Ainda naquele ano, quando a usina já estava em funcionamento, tentariam fornecer o excedente de energia elétrica produzida para a cidade de São Paulo, objetivando ingressar naquele mercado. Contudo, seriam barrados pela força do monopólio da Light and Power, que naquela altura já havia absorvido a Companhia de Água e Luz do Estado de São Paulo por meio de controle acionário, tomando, então, para o seu domínio, as concessões que esta última detinha. As estratégias dos Guinle foram, por um lado, ampliar o máximo possível seus negócios – todos ligados aos serviços públicos e de infraestrutura, isto é, a tríade transportes, energia e portos – para outros estados da federação, estendendo a sua ação territorial no país. No estado de São Paulo, as ações da Gaffrée & Guinle se deram, sobretudo, a partir da cidade de Santos, e da atuação dos Guinle através da Cia. Docas de Santos, incorporada ao patrimônio da companhia. Para fornecer a energia e os serviços necessários ao funcionamento do porto de Santos e da cidade foi construída, inicialmente, a usina de Itatinga, a 31 km de distância do Porto, na Serra do Mar. A capacidade projetada poderia atingir até 60.000 cavalos de potência, energia essa suficiente para atender, em 1912, às necessidades do porto e da cidade de Santos e fornecer eletricidade a outras localidades e cidades do estado de São Paulo. Fonte:www.ub.edu/geocrit/Simposio/cMOliveira

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MArcIO AvLeS

Installação Hydro-electrica de Itatinga - collocação da nova roda Pelton na Turbina n° 5 - transcrito como no verso da foto de 1937


MARCIO AVLES

Pier dos Práticos de Santos

Praticagem Navegação e praticagem são duas atividades que caminham juntas, pois não há como atracar um navio sem os conhecimentos prévios das condições de um porto. No Brasil, oficialmente a praticagem se dá com a abertura dos portos com D. João VI. Em Santos, a organização dessa profissão começa no ano de 1870, porém, a regulamentação da praticagem acontece somente em 1961 e a Marinha do Brasil torna-se o órgão gestor da profissão. Os comandantes dos navios não têm total conhecimento dos detalhes das águas próximas de um porto. O fundo do canal de navegação possui obstáculos, como relevo variado abaixo da superfície, muitas vezes próximo do

casco, calado de acordo com o tamanho do navio, dependendo de seu peso e carga. As rotas dentro de um porto e em terras próximas têm de ser bem definidas. Qualquer falha pode ter graves consequências. Os práticos são altamente qualificados. A praticagem do Estado de São Paulo é a ZP 16 e conta com um suporte de mais de cem funcionários, atua 24 horas por dia, 365 dias por ano, mesmo em condições climáticas difíceis. Organiza a entrada, a saída e a movimentação de navios dentro do porto e coordena o tráfico marítimo, gerenciando todos os riscos navais em águas restritas. Também é responsável pelo balizamento e a fiscalização das normas das autoridades marítimas e portuárias. Possui uma frota de lanchas de barra, porto e postes de amarração.

Figura do estivador

Estivadores

Escrever sobre o porto de Santos e não citar as atividades da estiva é deixar uma lacuna bem grande em sua história. Esses trabalhadores incansáveis sempre tiveram lugar de destaque no embarque e no desembarque das mercadorias. Essa força braçal era medida pelas horas de produção, pois antigamente o estivador ganhava por hora; quanto mais horas trabalhasse, mais ganharia. Atualmente, é óbvio, essa realidade é diferente, além da tecnologia implantada com a modernização de máquinas. Várias lendas surgiram no cais, como a do Jacinto apelidado de Sansão, que conseguia suportar muitas sacas de café em seus ombros. Santos 51


Porto de Santos

Pátio entre o Armazém 12 e 9 escritótio - 1947

Desenvolvimento do porto “Em julho de 1892, novo decreto autoriza o prolongamento do cais, de Paquetá até Outeirinhos. Com mais essa ampliação autorizada, a extensão se estenderia a 5.021 metros, incluindo-se aí trecho contratado para execução na Ilha do Barnabé, de 301 metros. Entre a atracação do navio Nasmith, em 2 de fevereiro de 1892, e a conclusão do contrato com a entrega do cais até Paquetá passaram-se dezessete anos. Em maio de 1909, estava assentada a última pedra da murada de cais, numa extensão contínua de 4.720 metros, da rampa do Valongo até o cais da Mortona. Nesse período, a movimentação de cargas cresceu de 124.734 toneladas, em 1892, para 1.569.844 toneladas em 1909, elevando o coeficiente de utilização de cais para 506 toneladas por metro por ano. Foi em 1909 que o porto de Santos atingiu um recorde de exportação de café, com mais de 13 milhões de sacas,

FOTOS AcervO MuSeu dO POrTO

vista aérea do Porto década de 1960

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índice que se manteria por várias décadas. O porto experimentou um período de grande ascensão até 1913, um ano antes do início da primeira guerra mundial. A partir daí, e até 1919, enfrentou sua primeira crise, com a depressão que resultou em um fluxo de importação duas vezes maior que o de exportação. Em 1918, equilibra-se a balança comercial e, em 1928, o porto atinge uma movimentação de mais de 3 milhões de toneladas. Vinte anos após a entrega do cais até Outeirinhos, estava concluído o cais da Ilha do Barnabé, com apenas 40 centímetros de espessura, dez vezes menor do que os quatro metros utilizados no cais da margem direita. Era o primeiro cais de concreto armado na América do Sul. A partir de 1931, o porto sofre os efeitos da crise econômica mundial iniciada com a quebra da bolsa de Nova York, em 1929, e intensificada no país com a Revolução Constitucionalista de 1932, que acaba provocando o bloqueio do porto, reduzindo a movimentação naquele ano para 1.803.855 toneladas. Até 1939, verifica-se novo crescimento, atingindo-se nesse ano 4.296.035 toneladas, elevando Santos à categoria de porto de primeira classe. Com a deflagração da II Guerra Mundial, o porto passa a apresentar, novamente, um movimento reduzido, reflexo, principalmente, da queda das exportações cafeeiras, que atingem, em 1942, seu menor índice desde 1897. Em 1944, a situação já se normalizava e o porto voltava a atingir mais de 4 milhões de toneladas. A partir de 1945, o porto cresce não só com o aumento da extensão, com a construção do cais do Saboó, mas, também, com a substituição dos antigos guindastes hidráulicos de fabricação alemã (os primeiros a operar no porto) por 47 unidades inglesas da Stothert & Pitt,


Descarregador Pneumático guindaste sugador - para trigo de Paquetá - 1936

MARCIO AVLES

O Portuário - homenagem ao trabalhador do Porto - 1996, na Av. Eduardo Guinle. Com 12 m. de altura, 2 t, armação de metal, lâminas de poliestireno. Criação de Vito D’ Alessio e Juvenal Irene

Locomotiva Lavoura, responsável pelo transporte de aterro para a expansão do Porto

MARCIO AVLES

destinados, também, para aparelhar o cais do Saboó. Com esse impulso, em 1953, é registrado novo recorde, com mais de 7 milhões de toneladas movimentadas e um coeficiente de utilização ultrapassando 1.000 toneladas por metro por ano. A partir de 1955, com a construção das refinarias da Petrobrás em Cubatão e em Capuava, aumentava a demanda do transporte de petróleo e derivados, elevando em quase 100% o movimento nesse período. Nas últimas décadas, o porto registrou grandes ampliações, melhoramentos e modernização, com a entrada em funcionamento de diversos terminais privativos, de terminais especializados para contêineres, fertilizantes e granéis líquidos, novas ligações ferroviárias – mais de 100 quilômetros de trilhos –, melhoria e reaparelhamento de seu sistema viário. Em 8 de novembro de 1980, com o fim da concessão da Companhia Docas de Santos, a administração e seu acervo passou a pertencer à Companhia Docas do Estado de São Paulo (CODESP), sociedade de economia mista que, até março de 1990, permaneceu sob controle da Empresa de Portos do Brasil S.A. (PORTOBRÁS). Com a extinção daquela holding do sistema portuário em março de 1990, a CODESP passou a ser vinculada diretamente ao Ministério dos Transportes e, mais recentemente, à Secretaria de Portos (SEP). A CODESP cuidou de retomar os investimentos na atividade portuária, através de obras e aquisição de equipamentos. Na área de investimentos, o destaque maior cabe ao Terminal de Contêineres (TECON), na margem esquerda, inaugurado em agosto de 1981. Em outubro de 1982 começavam a chegar ao porto os 24 guindastes de grande porte adquiridos na Alemanha, marcando o efetivo reaparelhamento do porto. Posteriormente houve a ampliação do Terminal de Granéis Líquidos da Alamoa, com mais dois pontos de atracação. Os terminais privativos passaram a ser implantados no porto de Santos a partir de 1968, com a inauguração do terminal privativo da Cosipa, em Cubatão, com cais de 300 metros de extensão. Outras grandes empresas procuraram o mesmo caminho. Em 25 de fevereiro de 1993 é promulgada a Lei dos Portos (8.630/93) e, em 1997, a Codesp deixa de exercer atividades de operação de cargas, assumindo o papel de administradora e autoridade portuária de Santos. A mão de obra operacional da empresa é transferida para o Órgão Gestor de Mão de Obra (OGMO) instituído pela Lei dos Portos, assim como o Conselho de Autoridade Portuária (CAP)”. Fonte: www.portodesantos.com.br/imprensa.php

Santos 53


Porto de Santos Alfândega do porto de Santos

Equipamento de inspeção subaquática - bombeamento de oxigênio pela superfície

Museu do Porto de Santos Instalado em 1º de setembro de 1989, nas antigas residências dos engenheiros da Cia. Docas de Santos que por aqui passaram para a construção do porto, moradias estas bem conservadas, o Museu do Porto abriga grande parte da história do Brasil com verdadeiras raridades que podem ser vistas aos que se interessam pelas nossas riquezas. Vale a pena uma visita monitorada para compreender a magnitude de mais uma de nossas fronteiras. Fotos, documentos, equipamentos, peças em geral e curiosidades compõem o seu rico acervo. FOTOS MARCIO AVLES

Antes da Alfândega de Santos, tivemos a de São Vicente; depois, com a mudança do porto para o estuário, iniciam-se os trabalhos aduaneiros. O primeiro local da alfândega foi em uma casa comprada de José Adorno, anteriormente a 1550. O provedor-mor da fazenda real foi Antônio Cardoso de Barros que, 1553, pediu a Brás Cubas que este edificasse um novo prédio que deveria ter “duas casas por baixo de 30 palmos de largo e 40 de comprido cada uma; do mesmo comprimento e largura seriam também as outras duas, por cima assobradadas, cobertas de telhas e bem emadeiradas, de pedra e cal, com um tabuleiro entre elas e o mar, da compridão (sic) das mesmas casas, à maneira de cais, onde, se fosse necessário, por-se-ia artilharia, se se pudesse fazer; haveria uma varanda sobre o tabuleiro, para que a artilharia ficasse ao abrigo da água e do sol”. A Alfândega teve mais outras sedes, até que em 1934 foi inaugurado o prédio definitivo na Praça da República, construído pela Cia. Docas de Santos.

ACERVO MuSEu dO PORTO

Livro de registro de todos os orçamentos do século XIX

Antigo Edifício d Alfândega Pça da República Telégrafo de Bordo

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Fachada do Museu do Porto


Transbrasa

Terminal automotivo em 1984

Com determinação e muito trabalho:

o sucesso como consequência Há 40 anos, o que para muitos seria ousadia, para Bayard era a certeza de que sua capacidade transformaria uma realidade. Nos idos 1974 foi fundada a Transbrasa Transitária Brasileira S/A que em poucos anos, por falha no gerenciamento, começava a dar sinais de fracasso. Em uma palestra sobre entrepostamento de mercadorias, feita em 1977 pela Agesbec (acionária da Transbrasa), o então gerente da Empresa Despachos Aduaneiros Maia, Sr. Bayard Freitas Umbuzeiro Filho, foi convidado a gerenciar a Transbrasa devido as suas pertinentes colocações que demonstravam um profundo conhecimento na área de logística. Com o saneamento das dívidas e ajustes necessários, Bayard conseguiu alavancar a empresa e também comprar parte das ações da mesma. Em 1981, a Transbrasa tornou-se a primeira arrendatária da Cia. Docas do Estado de São Paulo. Em 1988, Bayard já possuía 100% das ações tornando-a Ltda.. Após a promulgação da Lei de Modernização dos Portos, em 1993, a Trans56 Cidade&Cultura

brasa conseguiu o alfandegamento do seu terminal, o que representou uma nova fase, ganhando um fôlego ainda maior e consolidando-se como uma das melhores empresas retroportuárias de Santos e do Estado de São Paulo. E o que deu certo deve continuar, tanto é que os três filhos de Bayard começaram a seguir os passos do pai desde cedo. Mas nem pensar em altos car-

Cuidado ao cliente Desenvolvimento de “ProjectCargoes”, seja na exportação ou importação, tornou-se a especialidade da Transbrasa. Os estudos das necessidades de prazo e de custo ao cliente, somados às características das mercadorias, permitem que o cliente obtenha sempre a melhor relação custo/benefício.


Publieditorial

Infraestrutura

• Área total para armazenagem totalmente calçada com 53.000 m²; • Moderno sistema informatizado de Gerenciamento Operacional; • Armazém coberto para Cargas Soltas com 6.000 m²; • Instalações exclusivas à DRF-SRF – Alfândega de Santos; • Frota própria para todos os tipos de carga; • 180 Tomadas para Contêineres Refrigerados ou Insulados.

Fotos DIVULGAÇÃo tRANsBRAsA

gos. Bayard Neto começou aos 17 anos como varredor de contêineres, Roberto aos 15 anos no setor de vistoria e reparo de contêineres e Andrea no Marketing. Com a experiência adquirida, hoje seus filhos gerenciam a empresa. Com a filosofia empresarial voltada ao aprimoramento constante dos métodos de atendimento aos seus clientes, associada à política de valorização de seu quadro de profissionais, a empresa prima pela sua excelência no trato aos funcionários, sempre incentivando o aprendizado e qualificação profissional, incentivo às práticas esportivas e medicina preventiva.

Projetos Ambientais • Aquisição de equipamentos e veículos modernos dotados de motores com injeção eletrônica de combustíveis; • Controle de Gerenciamento de Combustíveis (biocombustível); • Planos de manutenção de frotas e maquinários preventivos e corretivos; • Teste de opacidade da frota; • Re-refino de óleo diesel; • Co-processamento de madeira; • Plano de controle e gerenciamento de resíduos; • Projeto “Papa Lâmpadas” (descontaminação e reciclagem); • Coleta Seletiva; • Reciclagem de materiais: papel/papelão; • Preservação da mata do entorno; • Manutenção de galerias pluviais; • Reciclagem de cartuchos de tinta/toner, baterias/automotores; • Unidos a profissionais de valores e interesses ambientais comuns, criaram a Fundação Marlim Azul - Fundamar que já realizou diversos projetos de proteção e educação ambiental, dentre eles o mais novo "A Luz da Lula".

transbrasa Anchieta 1977

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Lendas

As coisas são mais estranhas

MONTAGENS ShuTTErSTOck, rEPrODuÇÃO E MArcIO AVLES

do que parecem A Pedra da Feiticeira Lá pelos idos de 1850, vivia pelas bandas da rua 7 de Setembro, esquina com a av. Senador Feijó, uma velha que a população chamava de feiticeira ou bruxa. Ela vivia solitariamente e só saía à noite, sempre suja e rota, e ninguém ousava falar com ela. Supunham que era uma mulher envolvida com um militar do Sul. Infelizmente, o tal soldado foi embora e a deixou solteira e com filhos, que ela abandonou. Isso para a época era um disparate. Diziam que ela subia em uma pedra e lá do alto, vestida com uma suja bata de algodão e com um chapéu de palha na cabeça, saltava sobre o fogo e, gargalhando, falava palavras incompreensíveis e espalhava água e cinzas sobre as labaredas. Viveu o seu próprio exílio e foi encontrada em um buraco que recebeu o nome de “Buraco da Velha”, onde seu corpo se achava em alto grau de decomposição.

A verdadeira proteção Graças a Nossa de Monte Serrat é que, em 1614, quando os moradores de Santos foram atacados por invasores, estes subiram o monte de mesmo nome à procura de abrigo e, quando os invasores ali subiram, uma avalanche de pedras os fez sucumbir e os que restaram vivos fugiram. Foi nesse ataque que atribuíram o primeiro milagre à Santa que se tornou padroeira da cidade.

O Rato que virou sobrenome Francisco José Ribeiro era proprietário de uma importante casa comercial de secos e molhados que ficava na rua Setentrional, no Beco do Arsenal, hoje Praça da República. Esse estabelecimento tinha um grave problema com roedores de todos os tamanhos e formas. A infestação era tamanha que o local foi apelidado de “Armazém do Rato”. Seu Francisco, então conhecido como Sr. Rato, não se fez de rogado. Por meios legais, acrescentou “Rato” ao seu sobrenome e passou a se chamar Francisco José Ribeiro Rato. Rato deixou vários descendentes com esse nome e veio a falecer em 1854. 58 Cidade&Cultura


O Fantasma do Paquetá Moleques... Falar de fantasmas em cemitério é coisa comum, mas falar que, neste caso, a polícia teve a incumbência de prender um, isso já é outra história. Pois foi o que aconteceu com o caso do Fantasma do Paquetá que as pessoas viam na entrada principal do campo santo. Diziam que era uma jovem que levava consigo um lenço com o qual secava os olhos marejados e cobertos por um véu; depois o jogava na porta do cemitério e sumia. As queixas de sustos e medos foram tantas que o então major Evangelista de Almeida, em 1900, enviou um pelotão de praças da cavalaria prender a tal aparição, mas os curiosos que invadiram o local foram brutalmente afastados à base de chicote. Esse caso foi noticiado e alvo de recriminações pela imprensa local e também pela população. Ah! O fantasma sumiu.

Pelas tubulações de água do Monte Serrat, a molecada que morava ali descobriu que, ao falarem, suas vozes chegavam pelos tubos nas saídas das bicas que ali existiam. Com essa descoberta, assustavam inúmeras mulheres que vinham pegar água e a essas vozes atribuíam como “milagres”. Sabendo do poder que tinham nas mãos, as crianças começaram a pedir oferendas, como guaraná, entre outras coisas. Mas susto mesmo eles davam no apagador de lampiões que, ao escutar uma conversa dos meninos sobre um filme a que tinham assistido, que dizia “Foge Cristo, que lá vem o Diabo com a lança”, o pobre coitado do apagador ficava a lutar com a assombração, dando várias pancadas no ar e também em muros. Moleques...

Imposto do quê? “Era um tributo absurdo que onerava a situação econômico-financeira do comércio da época, nem sempre folgada. Havia a famosa Ponte do Consulado, onde atracavam embarcações nacionais e estrangeiras; ficava pelas imediações do Largo do Gusmão. Era velha e caiu de podre. Durante muito tempo, a Recebedoria de Rendas cobrava o imposto decorrente da utilização dessa ponte, de que não havia o mais leve vestígio, demolida como coisa inútil ou monstrengo.” A diretoria da Associação Comercial de Santos, segundo Olao, “em 1892, na gestão do Dr. Antônio Carlos da Silva Teles, representou ao governo do Estado pleiteando a revogação da lei que criara o tal imposto, atendendo aos reclamos do comércio. Até o fim da administração daquela diretoria, o governo não havia respondido à Associação. Como se vê, pagava-se um imposto sobre um serviço que não existia!” Fonte: Almanaque de Santos, 1971 – Olao Rodrigues

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Arquitetura

A diversidade dos estilos

Câmara de Santos - antigo Quartel dos Bombeiros em estilo neogótico de 1909, projetado por Maximiliano Hehl - Pça Mauro Batista de Miranda

conta a história de um país Ao passearmos pela cidade de Santos, podemos observar com olhar mais atento entre suas construções espalhadas por todos os bairros muitas edificações que representam ícones da arquitetura brasileira. Se formos ao centro da cidade, teremos uma gama imensa de construções que vão do

Chalés madeirenses A cidade recebeu também muita influência de imigrantes, como os portugueses da Ilha da Madeira, com suas moradias encontradas até os dias atuais nas encostas dos morros. Quando os madeirenses chegaram aqui por volta de 1885,

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barroco ao modernismo em menos de uma quadra. Muitas delas conservadas e outras à espera de um propósito. Como Santos é uma cidade muito antiga, se comparada à maioria das outras cidades brasileiras, e também com localização estratégica, além de um porto sempre muito ativo, aqui

e encontraram as terras baixas praticamente alagadiças, não tiveram dúvidas, construíram suas moradias nas encostas, como em sua terra natal. Podemos ver esse tipo de construção principalmente no Morro São Bento. São chalés de madeiramento colocado sobre pedras fixas, com terraceamento.

se estabeleceram pessoas que investiram em suas casas ou em seus comércios conforme o estilo da época em que ali chegaram. Infelizmente não há espaço para detalharmos os diversos tipos de construção, mas tentaremos dar uma pequena amostra do que poderemos ver e conhecer.

Chalé madeirense com terraceamento


Belas-artes O prédio dos Correios e Telégrafos (1924) e, com maior destaque, a Bolsa Oficial de Café,que hoje abriga o Museu do Café e foi descrita no livro AB – Arquitetura do Brasil – Patrimônio 1 da seguinte forma: “A grandiosidade do pórtico de entrada de granito é ornada com oito colunas dóricas, encimadas por um frontão franqueado por duas estátuas recostadas que representam Mercúrio, deus do comércio e Ceres, deusa da agricultura, simbolizando a riqueza e a fecundidade da terra... Na parte central, as arcadas são abundantemente decoradas com guirlandas de folhas e grãos da rubiácea, que traduz a importân-

Em estilo Beaux-arts ou estilo belas artes, o prédio dos Correios e Telégrafos data de 1924

Bolsa Oficial do Café - estilo Belas Artes - um dos pontos altos da arquitetura santista

FOTOS MARCIO AVLES

Barroco Sete clássicos exemplos do que ainda está preservado do estilo barroco são: a Igreja Nossa Senhora do Monte Serrat (1605); o Santuário Santo Antônio do Valongo (1640); o Mosteiro de São Bento (1650); a Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo (1599); a Casa do Trem Bélico (neste caso temos divergências em relação à data da construção que pode ser 1640 ou 1734, data do primeiro registro do imóvel); o casario da rua Frei Gaspar, 6 (1818) e a Casa da Câmara e Cadeia (1869).

cia do intenso movimento das transações do café... O terceiro andar do edifício possui um recuo que lhe dá um caráter monumental, pois o alinhamento está, em geral, separado da linha da fachada restante por terraços... O interior do edifício é decorado com objetos de bronze franceses, cristais belgas, vitrais luxuosos. Os móveis são de jacarandá. Destacam-se ainda no Salão de Pregões, na parede lateral, obras de Benedito Calixto que retratam Santos em três épocas: 1545, 1822 e 1922...”. Esse monumento, que dá a dimensão exata da riqueza que o café proporcionou ao país, foi tombado em 21 de setembro de 1981.

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Arquitetura Estilo Luiz XV

Modernismo Orgânico Um exemplo desse estilo é o Edifício Verde Mar (1957), “criado para receber a burguesia paulistana que desejava um retiro no litoral, a fim de evitar longas viagens ao Rio de Janeiro. Artacho Jurado então repetiu um modelo conhecido, o do Edifício Bretagne, também de sua autoria, localizado na capital paulista e projetou, mesmo

Edifício Verde Mar representação do Modernismo Orgânico de 1957

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Palácio José Bonifácio - construído em 1939 - é o Paço Municipal

cio. Além das estátuas na entrada (Hermes e Minerva, representando o comércio e a indústria, assim como a sabedoria, implantadas posteriormente) e de vitrais com identificações técnicas, apontando a localização dada inicialmente para os setores, nota-se certa relação, que parece ser proposital, de alguns símbolos relaciona-

sem nenhuma graduação na área, 168 apartamentos, divididos em 14 andares, com salas exclusivas para jogos de cartas, oito elevadores, grandes salões de festas e até um playground interno, tudo com uma decoração orgânica e exclusiva. Os apartamentos do edifício, frontais e de fundos com 85m² e laterais com 38m², foram vendidos em tempo recorde, em 1957, e o local virou sinônimo de luxo no país. Os compradores eram empresários bem-sucedidos, seduzidos pela ideia de morar em um apartamento em Santos, em uma época que a cidade era considerada altamente sofisticada, com cassinos e as melhores festas do cenário brasileiro.” Fonte: www.turismosantos.com.br/ engnode/5087

dos à maçonaria, instituição de grande influência sobre Bonifácio e Dom Pedro I, por exemplo. Nomes estes que tiveram participação ativa em movimentos como os da Independência, a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República. Fonte: http://www.santos.sp.gov.br/comunicacao/historia/paco.html

FOTOS MARCIO AVLES

Paço Municipal de Santos Palácio José Bonifácio. “... em 1907 foi escolhido o trecho onde hoje fica a Praça Mauá para a construção do Paço Municipal. Um decreto (nº 268, de 12 de julho daquele ano) considerou os terrenos daquela área de utilidade pública para fins de desapropriação, que acabou tendo início em 1908, terminando somente em 1927, devido à falta de recursos... A edificação do Paço é repleta de simbolismo, não formalizado em documentos, mas percebido quando a observação leva em conta, por exemplo, o passado filosófico e de importância histórica de personagens como José Bonifá-

Chalés em madeira típico de da cidade

Chalé de Madeira Não esquecendo que Santos era uma cidade alagadiça e que foi aterrada aos poucos, os chalés de madeira que encontramos espalhados pelos bairros da antiga periferia são constituídos de madeira no corpo, telhas de barro e encontram-se suspensas do chão sobre pilares, que impedem a invasão da maré. Hoje, essas construções são um marco da arquitetura santista e os poucos que restaram foram tombados.


Arquitetura

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FOTOS MARCIO AVLES

Ícones da arquitetura local

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1 Casa da Frontaria Azulejada - em estilo neoclássico de propriedade do exportador Ferreira Netto, construída em 1865 - R. do Comércio, 93 | 2 A porta central é encimada por rica cartela composta de volutas. As paredes externas tem expessura de 60cm. - R. Frei Gaspar, 40 | 3 Em estilo Barroco temos o edifício Santo Antônio do Valongo - 1640 | 4 Composição simples de 3 faixas. Planta em forma triangular - R. Frei Gaspar, 41 | 5 Construção de 1886 de casa acastelada de propriedade do médico e abolicionista Giovanni Éboli, no Outeiro de Santa Catharina | 6 Edifício com notável trabalho em ferro nas portas e janelas com peitoril ornamentado - R. XV de Novembro, 104 | 7 Estação de Trem Sorocabana de 1945 - estilo Neocolonial | 8 Teatro Guarany - construído em 1882 - estilo eclético | 9 Casa de José Bonifácio com platibanda maciça ornada com pináculos e águia romana de voo abatido sobre cartela - R. XV de Novembro, 103 e 109 64 Cidade&Cultura


FOTOS MARCIO AVLES

Canais

Canal 3

Esqueça

Norte, Sul, Leste e Oeste o Riacho São Jerônimo (sob a Praça dos Andradas), o Rio Saboó (ao lado do Cemitério da Filosofia), o Rio Lenheiros (Conjunto Habitacional Mário Covas), o Rio Conrado (Ponta da Praia), o Rio dos Soldados (Rangel Pestana), o Rio Dois Rios (do Morro do Jabaquara até

Estação Elevatória do Porto - 1911 68 Cidade&Cultura

ACERVO PALáCIO SATuRnInO dE BRITO

ACERVO PALáCIO SATuRnInO dE BRITO

ACERVO PALáCIO SATuRnInO dE BRITO

Em sua paisagem natural, a cidade era cortada por vários rios e ribeirões, como o Rio Branco ou o Córrego Cachoeirinha, no José Menino (Barão de Penedo), o Ribeirão São Bento ou o Riacho Macaia (do Morro ao Convento Valongo); o Riacho do Itororó (Monte Serrat),

Inauguração do canal da Rangel Pestana

Ponte sobre canal


ACervo PAláCio SAturnino de Brito

a rua Galeão Carvalhal e o outro, do Macuco até o Canal 3), o Jabaquara (Engenho dos Erasmos), o São Jorge (da Zona Noroeste até o Rio Casqueiro), o Rio dos Bugres (marca a divisa entre Santos e São Vicente juntamente com o Rio da Divisa) e, na área continental de Santos, os rios Quilombo, Jurubatuba, Sandin, Diana, Macuco e Busca-Vidas. Como podemos perceber, em uma área de 280 km², sendo 85% na zona continental e apenas 15% na insular, é de se imaginar quanto as terras da ilha eram alagadas. A realidade dos moradores até o início do século XX era de um imenso caldeirão de doenças contagiosas. Junto com a intensa e angustiante proliferação de mosquitos, mais o lixo, as fezes, e o clima quente e úmido Santos acabou conquistando o estigma de Porto Maldito por conta das epidemias aqui vividas e transmitidas (só a febre amarela, entre 1890 e 1900, dizimou 6.400 pessoas, ou seja, metade da população de Santos então). Essa situação fez com que muitas pessoas que moravam no lado do estuário, abrigado dos ventos e das tempestades vindas do mar, migrassem para a parte da baía onde o clima era melhor. Consequentemente, projetos urbanísticos começaram a “pipocar” para tornar a cidade uma urbe habitável. No contexto nacional, era de suma importância para o governo brasileiro que Santos se tornasse viável, pois o escoamento do café era feito por aqui. Nesse período de migração surge o famoso sanitarista Francisco Saturnino Rodrigues de Brito, eleito pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental, o Patrono da Engenharia Sanitária Brasileira. Com seu plano de saneamento implantado, depois de muita briga com a Câmara Mu-

Canal 6 Av. Joaquim Montenegro

Saturnino de Brito

Distância entre canais Canal 1 Canal 2 Canal 3 Canal 4 Canal 5 Canal 6 Canal 7 Ferry Boat

Canal 1 saída 650 1.700 2.520 3.240 4.110 5.580 6.180

Canal 2 650 saída 1.050 1.870 2.590 3.460 4.930 5.530

Canal 3 1.700 1.050 saída 820 1.540 2.410 3.880 4.480

Canal 4 2.520 1.870 820 saída 720 1.590 3.060 3.660

Canal 5 3.240 2.590 1.540 720 saída 870 2.340 2.940

Canal 6 4.110 3.460 2.410 1.590 870 saída 1.470 2.070

Canal 7 5.580 4.930 3.880 3.060 2.340 1.470 saída 600

Ferry Boat 6.180 5.530 4.480 3.660 2.940 2.070 600 saída

Santos 69


Usina Terminal - 1910

nicipal, Saturnino de Brito transformou a cidade e a elevou a patamares de outras, com maior qualidade de vida no país. Seu plano consistiu em canais de drenagem até a construção da Ponte Pênsil para dar suporte aos emissários de esgoto da cidade. “Contudo, Brito não se limitou ao saneamento, apresentando também proposta de plano urbanístico, de caráter geral, baseado nos princípios de higiene e embelezamento das cidades que, segundo Andrade (1991), apoiava-se no pensamento do urbanista austríaco Camilo Sitte. Esse plano, denominado Planta de Santos, foi apresentado à Câmara Municipal em 1910, por iniciativa do próprio engenheiro.” (site Novo Milenium). Vale a pena consultar suas obras no Museu Saturnino de Brito, hoje instalado na sede da SABESP à Av. São Francisco. Os esgotos passaram no século XX a ser conduzidos por encanamentos inclinados enterrados no solo, usando o efeito de gravidade, até estações elevatórias, que bombeiam esses esgotos para uma altura maior, permitindo assim reiniciar o percurso até alcançar as estações de tratamento e despejo dos efluentes. Na

ACervo PAláCio SATUrnino de BriTo

Canais Canal 1 – Av. Senador Pinheiro Machado; Canal 2 – Av. Bernardino de Campos; Canal 3 – Av. Washington Luiz; Canal 4 – Av. Siqueira Campos; Canal 5 – Av. Almirante Cochrane; Canal 6 – Av. Coronel Joaquim Montenegro; Canal 7 – Av. General San Martin. realidade, o porto e o sistema de saneamento foram remodelados concomitantemente. A necessidade de um era a prioridade do outro. Com as idas e vindas de pessoas aliadas a essas duas grandes obras, de saneamento e o porto, Santos se tornou uma cidade turística, pois sua bela orla constituía um verdadeiro prazer aos que por aqui passavam. Mais do que um programa sanitário para a cidade, os canais se transformaram, na linguagem do santista, em “pontos cardeais” de localização. É muito interessante como as pessoas se localizam: “Moro entre os canais 5 e 6”, “A rua tal fica próxima ao canal 1”, “Passando o 2, na segunda quadra”, e assim por diante.

Ilha das Palmas As grandes empresas de navegação tinham muito medo de que sua tripulação se contagiasse com tais doenças. Então, foi proposto à cidade que se instalasse um lazareto (na realidade, lazareto vem do bíblico Lázaro, e significa um local para isolamento de doentes; aqui, porém, recebe o sentido contrário, ou seja, quarentena para os sãos), a fim de abrigar os marinheiros. A cidade de fato pleiteava a construção do lazareto na Praia do Góes (na cidade do Guarujá), pois, pelos estudos feitos, essa praia tinha melhor qualidade do ar, mas o espaço foi efetivamente criado na Ilha das Palmas. Fonte: revista Cidade & Cultura – Guarujá

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Sistema de Comporta


MarCiO alVeS

Praias

Linda paisagem,

um convite para caminhar...

Nathália Weber

Praça 9 de Julho

O maior jardim de praia do mundo Cartão-postal e orgulho dos santistas, o jardim da orla da praia de Santos foi idealizado em 1914 pelo engenheiro sanitarista Francisco Rodrigues Saturnino de Brito. Em 1922, após um movimento liderado pelo poeta Vicente de Carvalho e o prefeito Joaquim Monte72 Cidade&Cultura

negro, conseguiram a cessão da área da Marinha. Mas foi apenas em 1930 que as obras do primeiro trecho começaram. A extensão do jardim foi sendo ampliada por toda o orla até a década de 1950 e, nos anos 1960, o arquiteto Armando Martins Clemente projetou o traçado curvilíneo dos canteiros que hoje conhece-


Caminhada

MarCiO alVeS

Vista panorâmica das praias de Santos

Farol do Canal 6

Nathália Weber

mos. Com 5.335 metros de comprimento, largura de 50 metros, 218.800 m² e 719 canteiros com variadas espécies de flores, passeios internos e externos, ciclovias, alamedas com palmeiras, diversas espécies de arbustos, chapéus-de-sol e longos gramados, o jardim de padrão único emoldura toda a faixa de areia. A história e os filhos ilustres da terra também foram eternizados ao longo do jardim, em 35 esculturas e bustos formando um museu a céu aberto. Por sua exuberante beleza e grandeza, é reconhecido pelo Guinness Book como o maior jardim frontal à orla da praia em todo o mundo e tombado pelo Condephaat. Todos os santistas agradecem ao visionário Saturnino de Brito que, por sua perspicácia, nos ofereceu um lugar de lazer inigualável. As praias de Santos são chamadas de José Menino, Gonzaga, Boqueirão, Embaré, Aparecida e Ponta da Praia. Muitas pessoas acham que as areias servem somente para “lagartear”, ou seja, se expor ao sol durante várias horas, mas isso não é verdade. Esse local é propício para as mais variadas atividades esportivas, culturais e de lazer. É aqui que as pessoas podem se divertir com grupos de amigos, seja em barracas de associações ou somente em uma cadeirinha. São idas e vindas de caminhantes pela beira d’água ou no jar-

Santos 73


Praias

Navio Recreio Um fato interessante que ocorreu no ano de 1971 foi o encalhe do então navio Recreio nas areias da Ponta da Praia. Na maré baixa podemos observar os restos “mortais” de um navio que outrora foi palco de muitas histórias relevantes no turismo brasileiro. Chamado inicialmente Carl Hoepcke, um navio de cargas e passageiros que aportava sempre em Florianópolis, após um incêndio e depois de sua reforma foi rebatizado de Recreio. Uma vez em Santos, ficou ancorado em frente à Praia do Góes, funcionando como uma boate que fazia a festa dos frequentadores. Num dia de tempestade, suas amarras se soltaram e ele veio a encalhar na praia, próximo ao Canal 6. Por muito tempo foi uma visão comum aquele “estranho” inquilino nas areias santistas. Aos poucos foi sendo desmontado, porém parte de seu casco ainda mora na orla.

heRtz OlIVeIRA

dim. São os revigorantes banhos de mar ou o simples contemplar do pôr do sol. É admirar os grandes navios entrando e saindo do Canal do Porto com seu peculiar apito. É esbarrar sempre com gente conhecida. É tomar um suco refrescante e até uma caipirinha. Bom mesmo é um lindo dia de sol para desfrutarmos de tantas opções de descontração que tornam mais leve nossa alma.

“Na Onda da Capoeira” Como espaço democrático e fervilhando cultura, a praia nos proporciona algumas imagens interessantes, como a apresentação de uma enorme quantidade de pessoas jogando capoeira. Esse grupo é a união do Naturarte, Raízes de Vila Nova e Herança Cultural, pela iniciativa dos coordenadores Daniella Costa (Professora Dani), Ronaldo Alves (Mestre Ron) e o Valter Santos (Professor Batata), respectivamente. Nos núcleos jogavam também capoeiristas de todo o Brasil. Com a intenção de promover a capoeira, encontraram nas areias da praia um excelente palco, que virou atração para todos que tiveram o privilégio de ver os mestres Catitu, Buiú, Geraldo Bahiano, Juliana e Dani. No evento intitulado “Na Onda da Capoeira”, a orla mais uma vez brilhou com essa mostra cultural genuinamente brasileira.

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NAthálIA WebeR

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NAthálIA WebeR

FOtOS MARCIO AlVeS

+ PRAIAS

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1 1961 em comemoração ao IV Centenário da Morte de Padre José de Anchieta - escultura de Caetano Fraccarolli | 2 Farol do Canal 4 | 3 Mastro na Rampa Náutica | 4 Postos de Salvamento com lei de 1926 - foram construídos em toda a orla de Santos | 5 Monumento erguido em 1960, feito por Aníbal Martins Clemente em comemoração ao 5° Centenário da morte do infante Dom Henrique, o Navegador 74 Cidade&Cultura


FOTOS NaThálIa WeBer

Artesanato

Tradição passada

Tsuru da Yuka

por mãos experientes Origami Essas peças delicadas, feitas de minúsculas dobraduras, nos chamaram muito a atenção. O origami, como se sabe, é uma arte milenar no Japão onde foi concebida como uma brincadeira. Porém, a criatividade humana não tem limites e a coisa toda se transformou em uma arte transmitida de geração em geração. Hoje, o que vimos são essas formas

interessantes que podemos encontrar, por exemplo, na barraca Yuki que utiliza muito o tsuru, um símbolo japonês que significa boa sorte, felicidade, saúde e paz. No início, o origami de tsuru era usado apenas como decoração. Mais tarde foi associado às orações e oferecido nos templos, juntamente com pedidos de proteção. Nas festas de Ano-Novo, casamento, nascimento e outras comemorações, a figura do tsuru está presente nos enfeites.

Bordadeiras do Morro do São Bento Bordados da Ilha da Madeira

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De mãos firmes e com uma paciência regada a arte e criatividade, as bordadeiras do Morro de São Bento formam um grupo muito característico de preservação de costumes. Vindas da Ilha da Madeira com os corações repletos de esperança, encontraram no bordado uma forma de ganhar a vida para ajudar na renda da família. Para os moradores da cidade, seus bordados eram sinônimos do novo e do chique. O trabalho no linho, no organdi e no algodão dava vida às colchas, a toalhas de mesas, passadeiras, lenços e lençóis, e faziam com que as senhoras da elite santista ansiassem por tê-los. Tanto é que se tornaram uma tradição na cidade, tradição que veio nas malas e nas mentes dessas imigrantes que trouxeram uma rica e importante fonte de turismo de sua ilha natal.


MARCIO AVLES

Moenda de cana de 1951

FeirartSantos – SESC e Boqueirão

Alambique da Nova Cintra Foi com um enorme sorriso nos lábios que Arlindo Gomes Barros, 72 anos, nos recebeu em sua linda casa no alto do Morro da Nova Cintra. Lá se encontra o último dos alambiques que outrora foi um dos sustentos econômicos do local. Atualmente, é só perguntar onde fica o alambique do Chico sem Palavra, que logo nos indicam o lugar. Seu Chico, pai de Arlindo, veio para o Brasil saído da Ilha da Madeira em 1919 para trabalhar em um sítio no Morro. Veio pela “Carta de Chamada” que era um documento no qual estava o local onde o imigrante ia trabalhar, com quem e onde ia morar. Com o tempo, Chico comprou as terras do sítio e montou um alambique que ficou famoso pela qualidade, pois a sua cachaça, chamada “Morrão”, vinha de cana plantada nas terras íngremes, o que tornava o líquido mais doce, já que não armazenava tanta água em suas raízes. Já Arlindo mantém todos os maquinários do alambique e fabrica sua “Morrão” para os amigos. Conta-nos que desde pequeno já ia para a lida, onde os bois eram a força motriz do engenho até 1951. Outra relíquia guardada, prestes a ser restaurada, é o velho Chevrolet de 1928. Foi o primeiro carro a subir o Morro da Nova Cintra, em 1938.

Desde 1973, época áurea do movimento hippie no Brasil, a feira de artesanato se tornou ponto de compras não só para turistas, mas também para os moradores. Antes, os santistas a chamavam de “feira hippie”; hoje, é a “feirinha”. Considerada a primeira feira de rua do gênero do Brasil, encontramos de tudo, inclusive comidas típicas de várias regiões brasileiras e de outros países. Começou onde está até hoje, em frente à Av. Conselheiro Nébias e, dado seu sucesso, na Praça em frente ao SESC, porém ao longo do tempo passou por muitas modificações e adequações. No começo, os expositores, que eram em sua maioria hippies, expunham seus trabalhos em esteiras no chão. Atualmente, são montadas barracas. Vale a pena conferir alguns trabalhos muito originais.

Artesanato cigano Das variadas formas de bijuterias encontradas no artesanato cigano, as mais interessantes são as feitas de moedas porque têm toda uma simbologia por trás. A moeda representa sorte e prosperidade. O lado da “cara” significa o físico do ser humano e o lado da “coroa” representa o espiritual. Se as moedas fizerem parte dos adereços das saias das ciganas representarão a fortuna da família. Além de uma forma de carregar valores, também mostrava o poder econômico da família.

Chevrolet 1928 Primeiro automóvel a subir o Morro da Nova Cintra em 1938

MARCIO AVLES

MARCIO AVLES

Cigana Aurora Boreau da Yago Bijoux

Santos 77


Em todos os cantos,

interior da Casa da Frontaria azulejada na R. do Comércio, 93 abriga o arquivo Público Municipal

em todos os corações Uma das cidades mais culturais do país, Santos é berço das artes mais variadas. São muitos os artistas locais que tiveram vulto em suas carreiras. Além disso, é uma cidade com infraestrutura cultural grande, com os teatros Coliseu, Municipal Brás Cubas, Guarani, Sesc, Rosinha Mastrângelo e a Concha Acústica. Em cada canto também vemos a preocupação de preservar a memória da cidade, como o Museu da Imagem e do Som, a Fundação Arquivo e Memória de Santos, a Sociedade Humanitária dos Empregados no Comércio de Santos, o Instituto Histórico e Geográfico de Santos – que abriga os literatos --, entre outros. Há os artistas que trazem nas veias o talento para oferecer alegria ao povo, por exemplo, Plínio

interior da Sociedade humanitária dos empregados no Comércio de Santos

Nathália WebeR

Fundação arquivo e Memória de Santos

apresentação da OSeSP nas areias da praia do Gonzaga

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Marcos, Gilberto Mendes, Lolita Rodrigues, Eduardo Alaor Pereira (radialista), Bete Mendes, Ney Latorraca, Alexandre Borges, Nuno Leal Maia, Jarbas Teixeira (“A Voz de Veludo”), Alayde Camargo, conhecida como Dindinha Sinhá, radialista da Rádio Atlântica, Carlos Alberto Soffredini, Carlos Monfort, Cláudio Mambert, José Antônio Rezende de Almeida Prado, Juliana Silveira, Rubens Ewald Filho, Margarida Rey, Oscar Magrini, Paulo Vilhena, Rui Ribeiro Couto, Sérgio Mamberti e tantos outros. Bandas que fizeram muita gente sair do chão como a Jornal do Brasil com Julinho Bittencourt, Ayrthon Boka e Biela; e Charlie Brown Jr.

FOtOS MaRCiO alVeS

Artes


AlexAndre AndreAzzI

Benedicto Calixto de Jesus

A Pinacoteca foi criada por lei municipal em 1986 com o objetivo de difundir e incentivar as artes, proporcionando conhecimento por meio da promoção de diversas atividades culturais e educativas, como mostras de artistas nacionais e internacionais, cursos de técnicas artísticas, estímulo a estudos e pesquisas específicos, e para abrigar a exposição permanente de obras do consagrado artista brasileiro Benedito Calixto que imortalizou em suas telas, como nenhum outro, épocas importantes da história de Santos. O primoroso e rico acervo está exposto em um luxuoso palacete, conhecido carinhosamente pelos santistas como “O Casarão Branco”, na orla da praia do Boqueirão, e é o registro vivo de um período glorioso da era do café da história santista. A casa foi construída em 1900, em um terreno de 6,6 mil m² por Anton Carl Dick, um alemão e, em 1910, foi vendida ao Barão do Café, Francisco C. Pires. Entre 1913 e 1921 foi a sede do Asilo dos Inválidos, quando a casa foi resgatada por Francisco que a reformou em estilo neoclássico, com vitrais nas fachadas, escadarias em mármore de Carrara, corrimãos de ferro maciço e salões suntuosos, ornados com belíssimas pinturas. Residiu com sua família até o ano de 1935, ano de perda de grandes fortunas devido à desvalorização do café, fato que culminou com a venda da casa para o espanhol Antônio Canero que nela permaneceu até 1979. nesse ano, a Prefeitura de Santos declarou o imóvel como patrimônio histórico e de utilidade pública. Único remanescente das residências dos barões de café e um dos bens mais representativos da cidade, o casarão foi finalmente eternizado e hoje é um importante centro de cultura servindo aos santistas e aos turistas como uma importante fonte de promoção e divulgação das artes.

fotos ACervo fundAção BenedICto CAlIxto

Pinacoteca Benedicto Calixto

nasceu em Itanhaém em 1853 e faleceu em Santos em 1927. Desde os 8 anos de idade se interessou por pintura. Iniciou sua carreira em cidades do interior de São Paulo, auxiliando na restauração de imagens sacras de igrejas. Em 1881, vem para Santos trabalhar na decoração do teto do Teatro Guarany. Em 1883, viaja a Paris para estudar desenho e pintura com grandes mestres. De lá traz uma câmera fotográfica que passou a utilizar para compor seus quadros. Produziu inúmeras marinhas, painéis de temas religiosos para igrejas, pintou vistas de antigos trechos das cidades de São Paulo, Santos e São Vicente, dedicou-se a estudos históricos da região e como preservar seus patrimônios, e publicou A Vila de Itanhaém; como historiador, publicou Capitanias Paulistas, além de ter atuado também como cartógrafo.

Igreja do Carmo óleo sobre tela Benedicto Calixto

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Maestro Beto Lopes e família

FOTOS DIVULGAÇÃO

Conversar com o maestro Beto é uma tarefa muito agradável, pois, apesar dos seus 56 anos, tem a vitalidade de uma criança de 10. Então, após uma linda apresentação, onde todos da sua família também cantaram e tocaram, veio a hora da fotografia. Tarefa hercúlea: foi como um cão pastor tentando reunir suas ovelhas, cada um dizendo uma coisa, andando, gesticulando, brincando, rindo de tudo. Momentos incríveis que só acontecem quando se unem ideias com a leveza da música por trás de cada uma delas. Desde pequeno, o maestro Beto, nascido no bairro de Vila Belmiro, já se familiarizava com a música por meio de seu pai violonista e de sua mãe, pianista. Logo cedo descobriu que tinha ouvido absoluto e, mesmo assim, foi fazer engenharia na UNICAMP. Mas não só isso ele queria; a música estava em suas veias e também fez curso de regência na mesma universidade. Durante dezessete anos exerceu a carreira de engenheiro e depois atendeu incontestavelmente o chamado da música. Seu talento e sua carismática personalidade o transformaram no mais respeitado regente de orquestra de Santos, conseguindo assim montar, coordenar e gerenciar várias orquestras na cidade. Assistir a uma apresentação do maestro Beto é sentir que a música sai de suas mãos, não ocupadas pela batuta, mas é sentir cada nota musical fluindo em seus gestos. Sua esposa, Carmensita Perez, é cantora mezzo soprano, e, como o marido, iniciou cedo sua carreira musical, aos 5 anos, quando acompanhava os pais que faziam parte do Coral Lírico de Santos. Desde então, enveredou pela dança no Balé e no Coral Jovem até os 19 anos, depois fez curso de canto e conseguiu aprimorar a qualidade técnica dos dias atuais. Ela brilha nos palcos como uma diva, com elegância e delicadeza. Seus filhos, Pablo e Diego, já trilham as veredas da música.

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MARCIO ALVES

Artes

Pintores que embelezam o Gonzaga Há 21 anos, com a reunião de dez artistas plásticos, surgiu uma iniciativa que tornou o passeio dos transeuntes mais agradável. Esses pintores expõem sua arte na calçada da Av. Ana Costa, próximo à praia. Durante onze anos expuseram na Ponta da Praia e depois foram para o Gonzaga. Lá estão eles, munidos de paletas e pincéis, alegrando todos que passam. São, em sua maioria, pinturas a óleo sobre tela com temas variados. O sucesso é tanto quanto é tradicional sua exposição constante. Muitos quadros já foram vendidos, não só para o Brasil inteiro, mas também para o Japão, os EUA e toda a Europa. Esses artistas são: Jair Veríssimo, Maria Inês Veríssimo, Gilda Conceição Massotti, Eliane Soledade, Maria Cecília Passos, Gilberto Faccinelli, Mário Sérgio Ferreira, Rosa Maria Zacarias Ferreira, Eugênia Rocha, Ludemar Victor.

Fotógrafo Alex Almeida Com formação em jornalismo, o fotógrafo e documentarista Alex Almeida trabalhou em jornais locais santistas e posteriormente seguiu carreira no jornal Folha de S. Paulo, também passando pela agência internacional Reuters, onde publicou seus trabalhos nas principais mídias mundiais como Time, Paris Match e The Economist entre outras. Atualmente como fotógrafo independente atua no registro documental das culturas do Brasil e do mundo, tendo reconhecimento por trabalhos na África, em Cuba e outros países.


Artes Coral Gregoriano de Santos Por: Waldemar Tavares Jr., historiador O Coral Gregoriano de Santos, Schola Cantorum Sanctosensis, surgiu em 1972 a partir do interesse de alguns ex-seminaristas, a maioria do extinto Seminário Menor de S. Paulo, que ficava em Pirapora do Bom Jesus-SP e era dirigido pelos Cônegos Premostatenses. Com o passar do tempo, outros cantores foram se interessando e ingressaram no grupo. A coordenação desde aquela época está a cargo de Constantino Bento Junior que, além de fundador, é o membro mais antigo do coral. O Coral Gregoriano de Santos é o mais antigo do gênero no Brasil. Atualmente é composto de pouco mais de 20 integrantes com idades entre 15 e 84 anos. O uniforme utilizado lembra o hábito de monges ou frades medievais, e é usado nas cerimônias religiosas como se fossem roupas litúrgicas de uma irmandade religiosa. Desde 1988, o Coral Gregoriano de Santos participa da Missa das 11h no segundo domingo do mês na Igreja Conventual do Carmo (Pça Barão do Rio Branco). O Canto Gregoriano tem raízes antiquíssimas. Em parte, sua história se inicia com o próprio cristianismo, pois no século I a Igreja utilizava o canto sinagogal (dos judeus) na salmodia do Antigo Testamento e, com o passar do tempo, influências das melodias greco-romanas foram moldando os aspectos técnicos. Cou-

Coral Gregoriano de Santos

be ao Papa Gregório Magno, no século VI, a organização do repertório então existente. Como o pontífice era um monge beneditino, ele acabou estruturando a liturgia em sua época após uma grande reforma e por isso, em sua homenagem, ficou assim denominado aquele modelo de música vocal em tetragramas. A pauta moderna (pentagrama) surge mais tarde, no século XII e a escala musical (dó, ré, mi...) foi elaborada a partir das primeiras sílabas de cada estrofe de um Hino a São João Batista. A partir do final da Idade Média, a polifonia começa a tomar espaço no culto católico. Mesmo após o Concílio Vaticano II (1962-65) ter autorizado o uso do vernáculo na liturgia, o canto gregoriano e o latim continuam a ser referências para o culto oficial católico, devendo ser promovidos, ensinados e utilizados pelos fiéis e pelas comunidades religiosas, conforme o desejo várias vezes manifestado nas últimas décadas pelos papas e por diversos documentos da Sé Apostólica. O Coral Gregoriano de Santos utiliza para ensaios o Liber Usualis, hoje um livro não mais editado. Sua missão, como associação leiga com personalidade jurídica, é a preservação de um tesouro não apenas litúrgico, mas artístico e musical não somente da Igreja Católica Apostólica Romana, mas da humanidade, pois o canto gregoriano é um patrimônio cultural que legou à música uma estrutura técnica, apreciada ainda em nossos dias.

Laércio Alves Sempre trabalhando com materiais recicláveis, um dia recolheu rolos de fios de cobre e, analisando-os, descobriu que ali havia muitas possibilidades artísticas. Desse encontro surgiram as peças que tanto chamam atenção para seu trabalho. Formado em Desenho Artístico e em Cenografia, Laércio executa suas peças com uma delicadeza diferente. Tendo o Santos F. C. como time do coração, Laércio explica que “a beleza de uma boa

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Sigmund Freud - Busto em arame de alumínio - 2011

jogada se materializa em poesia e manifesta-se no ousado e no inesperado, na genialidade humana que se autossupera!”. Desenvolveu uma nova técnica também em chapas de alumínio que, para alcançar forma e movimento, devem ser chapas finas para as estampagens profundas – como no processo usado na produção de carrocerias de automóveis. Suas esculturas podem ser vistas em seu ateliê, no Memorial do Santos F. C. e na Feirart Santos.


Trovadora Carolina Ramos Com dezesseis livros publicados, membro da Academia Santista de Letras e da Academia Feminina de Letras, Carolina enveredou pela senda das trovas na década de 1960, e desde então se destacou como a primeira mulher a receber o prêmio “Magnífica Trovadora” em Nova Friburgo, no ano de 1973, com o tema “Silêncio”. Ei-lo: “Sempre acolho de mãos postas E, humilde, tento aceitar O silêncio das respostas Que a vida não sabe dar”

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Carolina nos explicou que a trova com regras nasceu na Idade Média, na França, e depois se espalhou pela Europa. No Brasil chegou por intermédio dos franceses, portugueses e espanhóis. Grandes poetas brasileiros passearam pela trova, que

Troféu Maurice Legeard

Caio Blat Homenageado em 2013 pelo Curta Santos

Curta Santos O Curta Santos -- FESTIVAL DE CINEMA DE SANTOS -- é um festival com mostras competitivas e não competitivas de curtas-metragens, e uma mostra especial de longas inéditos na região, que revela ao público a essência e a identidade do audiovisual realizado no litoral paulista. Dá oportunidade à exibição de novas produções sobre os momentos áureos dos grandes artistas e a títulos filmados nas cidades. Criado em 2002 por sugestão do jornalista e cineasta José Roberto Torero e da atriz Bete Mendes, e idealizado

foi enriquecida com o contato com os repentistas. No Rio de Janeiro cria-se o Grêmio Brasileiro dos Trovadores. Aqui a trova tomou um espaço considerável no meio artístico e está acontecendo um movimento inverso, ou seja, nós estamos indo para a Europa levando talentos reconhecidos. A estrutura da trova é bem interessante, pois, diferentemente da poesia, a trova era relegada a segundo plano. Ela é a síntese absoluta: é um poema com 4 versos de 7 sons silábicos cada um, rimando o 1° com o 3° e o 2° com o 4°, e tem que fazer um sentido completo.

pelo saudoso Toninho Dantas, o Curta Santos faz parte do calendário cultural local, e é o evento mais esperado da região. Além da repercussão no litoral paulista, o evento firmou-se no calendário de festivais audiovisuais do país, pois já conta com seu nome no Guia Brasileiro de Festivais de Cinema e pertence ao Fórum dos Festivais. O festival também gera oportunidades no mercado de trabalho cinematográfico, ao englobar quase 160 profissionais entre pré e pós-produção. Além do aspecto social que proporciona a inclusão pelos conhecimentos difundidos em cursos e oficinas, também possibilita a formação de agentes culturais. É um dos festivais com maior índice de público do Brasil. A direção geral está sob o comando de Ricardo Vasconcellos. Até hoje soma mais de 1 milhão de espectadores diretos. Fonte – Curta Santos

Vencedores Curta Santos

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Artes tras. No ano seguinte foram convidados a participar do filme Se Meu Dólar Falasse, estrelado por Grande Otelo e Dercy Gonçalves. O segundo álbum veio em 1971, conhecido por Expresso 21. Lobão assume o vocal, em substituição a Zé Luís. Estes dois álbuns, hoje em dia, integram as listas dos mais procurados por colecionadores, inclusive internacionais, sendo que o segundo tem sua capa publicada no livro 1001 Records Collector Dreams, do pesquisador austríaco Hans Pokora. Em 1972, a banda lançou um compacto simples, chamado Quem Manda Nesse Mundo É o Dinheiro. O sucesso comercial veio quando o grupo assinou contrato com a Philips. A canção “Rainbow”, lançada em compacto pela nova gravadora, alcançou as paradas de sucesso, entrou na trilha sonora da novela “Anjo Mau” da Rede Globo e, com ela, o grupo obteve a primeira colocação no “Globo de Ouro”. A faixa também foi apresentada especialmente no programa “Fantástico”. Em 1977, gravaram mais um compacto, Pamela Poon Tang. A faixa desse single também faria parte da compilação Sua Paz Mundial -- Volume 4. Com um público fiel, que lota todas as suas apresentações, a banda hoje executa -- com perfeição -- sucessos dos Beatles (sua especialidade) e de outros grandes artistas dos anos 1970, como Creedence Clearwater Revival, Elton John, America, Deep Purple, Bee Gees, e até de grupos mais recentes, como o R.E.M. Formação atual: Violão/Guitarras/Voz -- Lobão; Violão/ Guitarras/Back -- Edu; Violão/ Guitarras/Back -- Lando; Contrabaixo/Back – Aguinaldo; Bateria/Percussão/Back e Voz -- Hélio Teclados/Programação/Gaita/Back; Teclado e Voz -- Lapetina e Sax/Flauta/Back – Alex.

Blow Up Em 1965, nascia em Santos, no bairro do Macuco, o grupo The Black Cats, formado pelos amigos Robson, Hélio, Tivo, Zé Luís, Nelson e Adalberto. Com muito talento, os garotos ensaiavam e depois reproduziam versões fiéis dos discos que chegavam do exterior ao Porto de Santos. Na onda da Jovem Guarda, começaram a tocar em bares e clubes da região. A fama local levou os rapazes a se apresentarem no programa “Almoço Musicado” de Hugo Santana, na extinta tevê Excelsior. Logo em seguida, conheceram o cantor e compositor mineiro Zegê (mais tarde conhecido por Zé Geraldo), que os convidou a acompanhá-lo em seus shows e gravaram dois compactos pelo selo Mocambo. Três anos depois, por já existir outro grupo com o nome Black Cats, mudaram para Blow Up, baseado em um filme homônimo do cineasta italiano Antonioni. Em 1969, assinaram contrato com a gravadora Caravelle, e gravaram o seu primeiro disco, chamado Blow Up. O álbum mesclava composições cantadas em português, com versões em inglês, como “Time Of The Season”, da banda Zombies, “Let Me”, de Paul Revere & The Raiders, “My Special Angel” da Vogues, entre ou-

Fonte: Divulgação Blow Up

Banda Aliados

Fildzz, que superou um câncer, a banda voltou com força total nos CDs: Te Encontro por Aí, Beijo, Me Liga, Somos Todos Nós e 5° Elemento. “É magnético vê-los no palco! São capazes de levar a plateia da loucura às lágrimas, de uma música pra outra. Raras vezes vi isso na minha vida.” -- Marcos Mion.

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O nome escolhido pela Banda Aliados retrata bem o conteúdo e a mensagem que ela passa aos seus ouvintes, que se tornam cúmplices dos sentimentos do grupo. Iniciou sua carreira em 2000 e atualmente conta com Fildzz (vocal), Rafa Borba (bateria), Oliver Kivitz (baixo) e Dudu Golzi (guitarra). O primeiro CD foi o Aliados 13 com as músicas “Sem Sair do Lugar” e “Sorrindo”, esta última parte da trilha da novela Malhação, da TV Globo. Dois anos depois lançaram o CD A Dose Certa com a música “Sereia”, que projetou definitivamente a banda no cenário musical brasileiro. Apesar dos percalços ocorridos com o vocalista


Meio Ambiente

Bairro de Monte Cabr達o

terri

Segredos em um vasto


MARCIO ALVES

Santos é um município considerado por muitos apenas uma ilha, mas a realidade é outra, pois a cidade é formada por ilhas e um trecho de continente. A ilha mais conhecida é a que concentra a maior parte da população, das atividades comerciais, das praias e o porto, porém existem outras menores, localizadas à margem esquerda do estuário. Junto com o continente formam a área continental de Santos. Para se ter uma ideia do tamanho dessa área ainda pouco conhecida, ela é seis vezes maior do que a Ilha de Santos e faz divisa com Cubatão, Santo André, Mogi das Cruzes, Bertioga e Guarujá. O acesso rodoviário é feito através da rodovia Dom Domenico Rangoni e pela rodovia Prestes Maia, antiga Rio—Santos.

tório


Meio Ambiente Vista do Monte Serrat para a área continental

Ilha de Bagres Trata-se de um grande banco de lodo situado no Largo do Canéu, abrigando aves aquáticas como garças-azuis, guarás (com cerca de ¼ da população do Sudeste brasileiro), colhereiros, biguás, tucanos, papagaios, talha-mares, batuírasde-bando e gaviões - asa-de-telha; seus arredores são ricos em mexilhões.

acErVO icOnOgráFicO Ong ParcEL

Essa região foi muito próspera com o cultivo da banana. Ainda é possível vermos várias ruínas de senzalas, capelas, casas-grandes e também alambiques, cujos proprietários geralmente eram portugueses que se instalaram em grandes fazendas. Ainda sobrevivem muitas lendas e mitos gerados por indígenas e escravos que por aqui padeceram. A vida dos moradores era difícil, pois, sem as vias de acesso rodoviário, a única saída era enfrentar as trilhas no meio da mata e o mar, em barcos a remo. Isso era sobremaneira difícil, principalmente para aqueles que sofriam de alguma doença, pois o único lugar onde obter atendimento era a Santa Casa de Misericórdia de Santos. A sobrevivência vinha da pesca nos rios e do cultivo da terra; luxo não existia. Hoje essa área está dividida em doze bairros, cada um com seu charme especial. Então, o que iremos mostrar aqui é um pouquinho da riqueza cultural e ambiental dessa porção de terra encravada nos morros e encostas da Serra do Mar, com rios que deságuam na Baía de Santos e no Canal de Bertioga.

FOTOS MarciO aLVES

Ilha Diana

Bananais

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Com uma comunidade tipicamente caiçara, a Ilha Diana está bem na foz do Rio Diana e do Canal de Bertioga, contornando a Base Aérea de Santos, a apenas 20 minutos de barquinha. A maioria dos habitantes é descendente de cinco antigas famílias de pescadores. A maioria trabalha na pesca e no porto. A arquitetura local é marcada pela construção de chalés e carrega a tradição dos imigrantes portugueses do século XIX. A ilha possui Centro Comunitário, Posto de Saúde, Escola Municipal de Ensino Fundamental e uma pequena capela. A grande atração é a festa do Senhor Bom Jesus da Ilha Diana, que acontece no dia 6 de agosto e tem procissão, missa, campeonato de futebol e pratos típicos como a tainha, o lambe-lambe e panqueca de marisco do mangue.


Ilha Barnabé Saindo pelo terminal que fica atrás do prédio da Alfândega na Praça da República, podemos pegar as barquinhas que vão, uma para a Ilha Barnabé e a outra para a Ilha Diana. A Ilha Barnabé não é aberta a visitantes, pois lá se concentram terminais de produtos químicos. Essa propriedade da União é administrada pela Companhia Docas do Estado de São Paulo. Está localizada na enseada de Santa Rita, uma passagem do Rio Jurubatuba. Seu nome atual se deve a ter pertencido a Barnabé Francisco Vaz de Carvalhaes, cujo solar em ruínas e no qual havia intensa movimentação social ainda existe. No século XX começa a construção dos depósitos químicos, o que salva Santos dos perigos decorrentes da movimentação de produtos inflamáveis.

Nossa Senhora das Neves

ruínas no bairro vale do Quilombo

Vale do Quilombo No quilômetro 67 da Rodovia Cônego Domênico Rangoni fica a entrada do Vale do Quilombo e já se pode sentir uma atmosfera diferente. Cercado pelos meandros da Mata Atlântica, podemos dizer que este vale ainda é um refúgio, como seu nome sugere. A história pulsa dentro das matas e seus moradores parecem viver como no início do século passado. Tecnologia não existe; o que se vê é capacidade de sobrevivência e o respeito do homem pelo meio ambiente. Aqui é possível se fartar com a natureza e a boa comida ainda dos tempos do sítio, com galinha criada solta e peixe com banana. Da antiga fazenda ainda existem ruínas dos tempos da escravidão. Muitos sítios arqueológicos já foram tombados por ali. No meio da trilha encontramos a barragem da Cosipa, um lugar para desfrutar das águas límpidas do Rio Quilombo.

ruínas coloniais da capela de nossa Senhora das neves - óleo sobre tela - Benedicto calixto

Santos 89

AcervO FundAçãO BenedicTO cAlixTO

FOTOS AcervO icOnOgráFicO Ong PArcel

rio Quilombo

Também chamado de Sítio das Neves, localiza-se junto à Enseada de Santa Rita, na entrada do Rio Jurubatuba. Foi nessa região que, em 1532, Pero de Góis instalou o sítio Madre de Deus e o entregou a seu irmão Luiz de Góis que, em 1546, nele fundou o famoso Engenho da Madre de Deus. Segundo alguns dados, esse foi o primeiro sítio do Brasil. O bairro fica na margem esquerda da Rodovia Cônego Domênico Rangoni, entre os quilômetros 72 e 73, e distante 27 km do centro de Santos. Muita história existe nesse local, pois em 1884, na Capela Nossa Senhora das Neves, ocorreu um incêndio que foi controlado pelo pessoal que estava no Valongo, ou seja, do outro lado da margem. Nossa Senhora das Neves era padroeira dos escravos e o feitor do engenho, Antônio Joaquim, foi considerado o autor desse sinistro, ateando fogo na capela de adoração dos cativos. Ao descobrirem o criminoso, não tiveram dúvidas: embeberam-no em querosene e seu fim foi o mesmo que o da capela.


Meio Ambiente

Sítio Itabatatinga

Iriri O início da ocupação do bairro do Iriri, na Área Continental, se deu entre 1850 e 1860, com as primeiras plantações de banana na região. Em 2.000, o local tinha 23 moradores. A área do bairro é de 1.278.322,47 m2. A energia elétrica chegou por aqui somente em 2008. A origem do nome vem de fazendas existentes na região. Os pontos característicos do bairro são a Cachoeira do Iriri, a Fazenda Iriri e o Sítio Iriri.

Búfalos Murrah - Estância Diana na área continental de Santos

Guarapá No bairro de Guapará, a 33 km do centro de Santos, temos algo inusitado: uma criação de búfalos da raça Murrah. Essa criação substituiu as plantações de banana na década de 1970. Hoje ainda existe a sede da fazenda de 1929, da família de Jaime Vasques. Outra curiosidade é que esse é o maior bairro do Município de Santos (considerando as áreas insular e continental): o Guarapá tem 6.991 km².

Trindade

O bairro Trindade ainda é um reduto sem ocupação humana e fica encostado ao bairro de Monte Cabrão. Possui uma área de 4,99 km². 90 Cidade&Cultura

De 1930 a 1935, a chácara pertenceu a João Esteves Martins que, nos fins de semana, levava dezenas de pessoas para fazerem piqueniques por lá. O pessoal preparava o almoço e o servia na Gruta Esteves, em mesas de pedra. No sítio existem as ruínas de um alambique.

Monte Cabrão Na esquina da antiga Piaçaguera com a Rio—Santos, já avistamos Monte Cabrão, um bairro restrito entre a beira do rio e o pé do morro. Muitos dizem que seu nome vem do formato de uma cabra, mas disso ninguém tem certeza. Ao entrarmos pela estradinha já avistamos a lagoa, onde habitavam jacarés. Na praça encontramos a Escola Rural de Monte Cabrão, a policlínica, o coreto e um belo campo de futebol, onde o Esporte Clube Monte Cabrão, com sua cor vermelha, recebe vários times da região. O futebol é bem valorizado, e se transforma num bom divertimento para os seus torcedores. Andando pela rua estreita, está a Capela de São Pedro Pescador, cujo design interior difere muito da maioria, por ser moderno, com afrescos pintados por missionários. Todo dia 29 de junho o bairro fica em festa, pois é o dia do seu Padroeiro. Ainda existem muitos chalés de madeira, como os da Ilha Diana, e um exemplo é a casa amarela que foi construída pela antiga Companhia Docas de Santos e está à espera de restauração. Muitos trabalhadores que não viviam da pesca e trabalhavam no porto iam e vinham nas barquinhas das Docas.

FOTOS MarciO aLVES

interior da Gruta dos Esteves


Caruara - último bairro que faz divisa com Bertioga

Caruara O bairro Caruara era uma fazenda bananeira à beira do canal de Bertioga que, a partir de 1950, se transformou em vários sítios. Hoje, a maior parte da população da Área Continental mora nesse bairro que tem uma boa infraestrutra com policlínica, escola,

academia de ginástica, biblioteca e um comércio variado. Assim como os moradores são oriundos de vários locais, também possui atividades diversas como a pesca, a catação de caranguejo, o artesanato, pilotagem etc. Antes da construção da Rio—Santos, só era possível chegar ao bairro atravessando o Canal de Bertioga, do lado do Guarujá.

Cabuçu-Caetê Localizado próximo a Caruara, Iriri e Trindade, a região de Cabuçu tem como ponto principal a Fazenda Cabuçu, com entrada situada às margens da Rodovia Rio—Santos e que conta com um roteiro de trilha ecológica, com córregos, cachoeiras, e fauna e flora exuberantes. A fazenda é uma referência histórica para a Baixada Santista, pois, no período de colonização, o lugar serviu de abrigo à Companhia de Jesus que montou um posto de catequese para os índios. Na primeira metade do século XX, a região foi ocupada por grandes plantações de bananas, cuja produção era transportada por vagonetes até as proximidades do Rio Cabuçu, e dali, por meio de barcos, até o Mercado Municipal de Santos. Já o Caeté conta com um mirante que se situa a dois quilômetros da Fazenda Cabuçu. O acesso ao local se dá por uma trilha em aclive, de 1.200 metros, e permite a observação dos ecossistemas da mata pluvial de encosta, os manguezais, o Canal de Bertioga e a área urbana de Santos.

Santos 91


Meio Ambiente

FOTOS MarciO aLVES

Bairro Monte cabrão

Bromélia

Decompositores

Fauna e flora Com alto índice pluviométrico, a Área Continental é regada por vários rios como o Diana, o Jurubatuba, o Quilombo e o Iriri Macuco que, com suas corredeiras, cria recantos maravilhosos, como o Poço Verde. A riqueza é tanta que quase 70% da região é considerada área de proteção ambiental por estar em meio à Mata Atlântica com sua diversidade de cores e formas e rodeada pela Serra do Mar. Ao caminharmos na mata, reparamos que o chão é fofo. Com a queda de folhas e troncos, mais a alta umidade e seres decompositores, é formada a serrapilheira, uma camada repleta de minerais que irão alimentar as raízes de plantas e árvores. Descendo junto com os rios entramos em outra formação: o mangue, que está localizado no estuário e segue ao longo do Canal de Bertioga. Esse ecos-

Siri azul

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Sapo de chifre - endêminco do Brasil, encontrado na serrapilheira

Poço verde Bairro caruara

Hibisco

sistema é berçário para muitas espécies de animais, por isso o mangue é uma Área de Preservação Permanente. Possui apenas três tipos de arvores: mangue-bravo ou vermelho, mangue-seriba ou seriúba e mangue-branco. Essas árvores podem chegar a até 20 metros de altura. Seu solo é bastante rico em nutrientes e matéria orgânica com características lodosas e é composto de raízes e material vegetal parcialmente decomposto, por isso a sua cor é escura. Entre as raízes das plantas, temos os caranguejos que são crustáceos que adoram comer peixes e matéria orgânica. No meio do caminho encontramos o ganhamum e o uçá. Este último virou símbolo da Área Continental. Apesar de ser uma das primeiras cidades brasileiras, Santos ainda tem muito a se descobrir, a se conhecer, a preservar e a mostrar. Na ilha, prédios, shoppings, hipermercados, teatros e cinemas, mas Santos não acaba no mar. A cidade floresce na serra, abrindo um mundo novo. É a Santos rural e caiçara. Santos de contrastes, contrastes que sempre marcaram sua história.

Bacupari

Jacas

Santos 93

Acervo iconogrAfico ong PArcel

ostras


Laje de Santos

A apenas 40 km da costa está localizado o Parque Estadual Marinho denominado Laje de Santos, o primeiro do Estado de São Paulo, criado em 1993 pelo decreto estadual n° 37.537, com a finalidade de assegurar integral proteção à fauna, à flora e à beleza cênica de seu ecossistema, considerado pelos especialistas um importante passo para a proteção e a conservação da diversidade da vida marinha do Estado. Com uma área de 5 mil hectares, o parque compreende a laje, uma formação rochosa que se destaca no mar com 33 m de altitude, 550 m de comprimento e 185 m da largura. Com um formato que lembra uma baleia, tem formações rochosas submersas (parceis), além dos rochedos conhecidos como calhaus e um farol de sinalização da Marinha. O local é muito frequentado por mergulhadores e fotógrafos do país inteiro devido às condições especiais de visibilidade de até 35 metros de profundidade e à grandiosidade das mais variadas espécies que impressionam pela quantidade e pelo tamanho e que desfilam pelo local despreocupadamente. É possível nadar na companhia de grandes peixes como barracudas, garoupas, meros, tartarugas, tubarões e, nos meses de inverno, com as

alexandRe andReazzi

Santuário em alto-mar arraias-jamantas, um espetáculo à parte. Trazidos pelas correntes marinhas da Antártida, podemos apreciar o gracioso balé dos lobos-marinhos e dos pinguins. O fundo do mar é repleto de corais, esponjas, estrelasdo-mar, crustáceos, moluscos, moreias e polvos, e a Laje é ainda um extraordinário sítio reprodutivo de aves como gaivotas, fragatas, atobás e trinta-réis. A visita é aberta ao público com prévio agendamento e, mesmo que você não seja um mergulhador, só o passeio de lancha, que dura aproximadamente 1h30m já vale a pena. Pelo caminho é possível avistar aves marinhas, golfinhos, cardumes, tartarugas e os mais afortunados podem até ter um encontro com baleias. Um passeio único e inesquecível, em um dos locais mais ricos e belos da costa brasileira.

ilha Urubuqueçaba FotoS Renato RoCha JoRge

Ilha Urubuqueçaba Cardume (enxada)

94 Cidade&Cultura

Essa pequena ilha está situada quase na divisa entre Santos e São Vicente. Urubuqueçaba, em tupi, significa local de pouso para urubus.


Orquidário

Lago Central do Orquidário que abriga tartarugas e carpas

Uma floresta urbana exuberante

96 Cidade&Cultura

ShuTTERSTOCk

Trilha do Mel no Orquidário

FOTOS MARCIO AVLES

A história da implantação do Orquidário de Santos é curiosa e inusitada e se dá quando o Sr. Júlio Conceição falece no ano de 1938. Considerado o primeiro orquidófilo do Brasil, residia em uma chácara de 22.000 m² conhecida como Parque Indígena, cuja entrada principal ficava na Av. Conselheiro Nébias. Colecionador de inúmeros exemplares de árvores e plantas exóticas, manteve 90 mil orquídeas em sua propriedade, espécies admiradas por todos os moradores. Em decorrência do seu falecimento, a chácara foi loteada e seu acervo de plantas foi entregue à Prefeitura como era o desejo do proprietário. Para abrigar essa coleção, o prefeito de Santos à época, Sr. Antônio Gomide Ribeiro dos Santos, convocou o Sr. Inácio Manso Filho, técnico responsável pelas orquídeas no Parque Indígena e solicitou um estudo para a construção de um novo parque que ocuparia uma área de 24.240 m², no Bairro do José Menino, doada em 1915 pelo Governo do Estado de São Paulo e que estava desocupada. Então, em 1945, o Orquidário foi entregue à população santista com belos jardins, vegetação com espécies brasileiras e exóticas, exemplares de árvores da Mata Atlântica, árvores frutíferas e medicinais, pérgulas e viveiros, além de um pavilhão de exposição das orquídeas e um lago de 1.180 m². No decorrer dos anos, a estrutura do parque foi melhorada e adaptada para receber animais. Hoje, o parque abriga aproximadamente 450 animais de várias espécies, um importante

centro de zoologia com hospital veterinário com todos os recursos necessários para atendimento dos animais, um auditório para cursos e palestras, um jardim sensorial onde se podem sentir os aromas e as texturas das mais variadas plantas, e um terrário. A impressão que temos ao visitar o Orquidário é a de entrarmos em uma enorme floresta onde o frescor, a umidade e os sons dos animais impressionam. É preciso caminhar com cuidado porque constantemente cruzamos com animais que passeiam livremente pelo parque e vamos sentindo uma calma, um aconchego, uma magia, um encanto que não deixa ninguém se sentindo sozinho diante de uma natureza tão exuberante.


Para se conhecer aos poucos É assim que se conhece o Jardim Botânico Municipal Chico Mendes, implantado em uma área de 90 mil m², com um acervo vivo de 330 espécies vegetais catalogadas, com destaque para as da Mata Atlântica, espécies da Amazônia, bosques de pau-brasil, árvores de madeira de lei, e 65 qualidades de palmeiras, inclusive a imperial, usada exclusivamente para a arborização da Av. Ana Costa. Caminhar por suas alamedas é sentir a suavidade da natureza, observando as plantas que estão distribuídas em coleções temáticas, em bosques, em canteiros de espécies ornamentais e nas áreas de produção de mudas. O Jardim Botânico conta ainda com imensa área de lazer com playgrounds, parque infantil e campo de futebol, mesas para piquenique, espaço para atividades educativas, cursos e oficinas para difundir a importância da preservação ambiental, salas de exposições, trilhas e ludoteca ecológicas. Toda essa atividade teve início em 1925, no antigo Horto Municipal, que ficava ao lado da Santa Casa, onde os jardineiros da Prefeitura cultivavam mudas para abastecer os jardins da praia, as praças, os parques e as vias urbanas arborizadas. Em 1973 foi transferido para o atual local, na rua João Fraccaroli s/n, Zona Noroeste, em 1994, se transformou em Jardim Botânico. 98 Cidade&Cultura

Abricó-de-macado

Fotos LuciAnA cArdoso

Jardim Botânico Chico Mendes


Aquário Municipal Pacu - invade florestas inundadas para comer as frutas que caem das árvores. Vive em rios subtropicais

Uma viagem aos encantos do mar Projeto pioneiro no país, o Aquário de Santos, localizado no bairro da Ponta da Praia, foi inaugurado em 1945, por iniciativa do Prefeito Antonio Gomide Ribeiro dos Santos, para abrigar variada coleção de espécies vivas ligadas ao ambiente marinho. Essa obra foi considerada arrojada para a época e, devido à sua importância, o Presidente da República, Getúlio Vargas, esteve presente ao evento. Vale ressaltar que essa foi uma gestão cujo foco principal consistia em investir no potencial turístico da cidade, portanto outras obras de envergadura foram inauguradas, como os Postos de Salvamento nas praias, a Ponte dos Práticos, a abertura da Av. Saldanha da Gama, o Orquidário, e trechos do que se tornou o maior jardim de orla de praia do mundo. Idealizado com 1.000 m², hoje o Aquário de Santos conta com uma área de 3.515 m² e é muito respeitado no mundo científico pelo trabalho realizado por veterinários e biólogos ao longo de seus 60 anos dedicados ao estudo da vida marinha em cativeiro. Também foi pioneiro na reabilitação de pinguins, experiência que norteou a criação do protocolo de atendimento a essa espécie no país e, em parceria com o projeto TAMAR, marca as tartarugas para identificação das rotas migratórias. Mantém 4 mil animais expostos em habitats fielmente reproduzidos em 1,1 milhão de litros de

água doce e salgada, filtradas diariamente. Pelas próprias características do parque, a qualidade da água é questão fundamental para a saúde dos animais e por isso é tratada com tecnologia de ponta e está classificada entre os melhores padrões internacionais. Visitar o Aquário de Santos é como entrar em contato com um mundo desconhecido. Vislumbrando coreografias elaboradas, ficamos maravilhados com o colorido exuberante de tantas vidas pulsando em todo o seu esplendor, experiência que nos leva a repensar nossa relação de responsabilidade com os mares e os rios de nosso planeta. Citrinelo - apresenta coloração que o confunde com o ambiente

Tubarão lixa encontrado em águas rasas tropicais, se alimenta de moluscos, crustáceos e peixes

FOTOS MARCIO AVLES

Lobo marinho chamado Abaré é a grande atração

Essa pequena ilha está situada quase na divisa entre Santos e São Vicente. Urubuqueçaba, em tupi, significa local de pouso para urubus.

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Pinguin de Magalhães em recuperação


Morros

FOTOS MARCIO AVLES

Vista do Morro Santa Maria

De cima a vista é sempre melhor Apesar de santos ser considerada uma cidade plana, muitas pessoas que a veem desconhecem uma outra realidade que está bem acima do nível do mar. Trata-se dos muitos morros que a cidade possui, onde se encontram cerca de 35 mil habitantes, na sua maioria descendentes de lusitanos que por aqui fixaram residência longe das

terras alagadiças. Ao visitá-los, a impressão é que estamos em outro lugar, distante da praia, onde a vida tem um cotidiano de cidade interiorana. Vamos citar aqui algumas curiosidades sobre os principais morros de santos, ainda que os menores – Boa Vista, Caneleira, santa Maria e Chico de Paula – sejam igualmente interessantes.

Santa Terezinha seu primeiro nome foi Cotupé. Mais tarde, Francisco Loureiro, que comprou terras ali, ergueu a capela para santa Terezinha do Menino Jesus. Com o tempo, as pessoas passaram a chamar esse morro de Morro de santa Terezinha.

Fontana

Capela de Santa Terezinha no alto do Morro Santa Terezinha

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o morro recebeu esse nome porque suas terras pertenciam à família Fontana e foi no sopé desse morro que foi construída a santa Casa de Misericórdia de santos, ali situada durante 100 anos. Na parte posterior temos o Morro do Bufo, que muita gente diz que não existe, mas, na Planta do Conjunto dos Morros de santos, esse local está devidamente marcado.


Monte Serrat o governador-geral do Brasil, D. Francisco de Souza, em 1602, mandou construir uma capela para Nossa Senhora do Monte Serrat por conta do episódio da invasão do pirata holandês Van Spilbergen. Daí a denominação desse morro.

Marapé Em tupi, significa “caminho do mar”. É uma alusão ao caminho que os índios percorriam do estuário à beira-mar.

Jabaquara Local do maior quilombo da cidade.

Vista da escadaria do Morro da Nova Cintra

Vista de cima do Monte Serrat

Saboó o nome Saboó vem da corruptela de Ça-oóg que, em tupi, significa cabelo retirado. Não havia vegetação no seu cume.

São Bento recebeu esse nome pela ocupação do mosteiro ali construído pelos padres beneditinos. Em fevereiro de 1846, o morro recebeu a ilustre visita de D. Pedro II e sua esposa, a imperatriz Tereza Cristina. Até hoje existe uma rocha gravada com a data da vinda do casal imperial.

Da Penha Seu nome original era Valongo, porém o povo apelidou-o de Morro da Penha devido a uma rocha saliente em seu sopé.

Pacheco Nova Cintra No começo, era chamado de Tachinho; depois, com a vinda dos portugueses, deram-lhe o nome de Nova Cintra em referência à cidade de Cintra, em Portugal. No morro temos a Lagoa da Saudade, onde muitas pessoas pescam e nadam. Mas cuidado com o jacaré! Por incrível que pareça, entre 2004 e 2005 apareceram três jacarés que foram devidamente retirados de lá. Além disso, há quem diga que a lagoa na realidade é a boca de um vulcão.

o senhor Pacheco era um português que adquiriu muitas terras nesse morro onde cobrava aluguel de tudo, até de pasto para muares e cavalos.

Casario

Santos103


FOTOS MARCIO ALVES

Esportes

pedalar... Remar, correr, caminhar,

A vida ao ar livre que o santista tem o privilégio de desfrutar facilita em muito a prática dos mais variados esportes. As ruas planas são um convite ao movimento. Por isso, e pelo mar banhando suas praias, Santos é conhecida como “a cidade mais esportiva do Brasil”. Seja nas instalações dos clubes ou em caminhadas na praia, o santista tem ao seu dispor uma quadra poliesportiva a céu aberto.

Stand Up Paddle - mais nova modalidade a contagiar. Santos começa a despontar no cenário com atletas de nível e com tradições no surfe


O futevolei nasceu nas areias de Copacabana por acaso; na verdade, surgiu como opção para burlar a proibição de se jogar futebol na praia, que, na década de 1960, não era permitido. Mas a vontade do exjogador Octávio de Moraes e seus amigos de praticar era tanta que Tatá, como era conhecido, teve a ideia de usar uma quadra de vôlei passando a bola para o outro

Remo Os clubes, hoje existentes na Ponta da Praia, guardam um tesouro valioso do esporte nacional. Devido à geografia da cidade, o esporte de maior destaque a partir do século XX foi o remo, a modalidade esportiva mais antiga introduzida no país e já praticada em Santos antes de 1893. O remo despertou em Santos a vocação para o esporte, com a fundação de várias agremiações: o Clube de Regatas Santista, o Saldanha da Gama, o Vasco da Gama e o Clube Internacional de Regatas, que impulsionaram de forma significativa a construção naval para a prática esportiva e valorizaram a profissão de mestre-carpinteiro especialista em

barcos de corrida. Todos os clubes, além dos dedicados ao remo, promovem até os dias de hoje tradicionais provas desportivas. No início, as provas eram disputadas no estuário entre o Valongo e a Alfândega; hoje, ocorrem na baía de Santos.

Equipe de remo com Custodio Gonçalves de Azevedo

DIVULGAÇÃO

Futevolei

lado da rede com os pés, sem ser incomodado pelas autoridades. No início, a partida era disputada por um time de cinco jogadores de cada lado e as regras foram criadas conforme iam surgindo os impasses do jogo. Lentamente o esporte foi invadindo outras praias do Rio de Janeiro e, em meados dos anos 1980, o interesse dos patrocinadores e da imprensa foi despertado. O esporte, por ser praticado na areia, agradou os santistas, e hoje muitos adeptos de reúnem nas quadras no Canal 6 para treinos e campeonatos.

Santos 105


Esportes

Na década de 1930, os irmãos italianos Danadellis chamavam a atenção nas praias de Santos quando jogavam uma bola um para o outro usando dois artefatos semelhantes a um pandeiro, com aro de madeira e tampa de couro, medindo cerca de 40 cm de diâmetro. Logo as pessoas se interessaram pelo passatempo e assim nasceu o tamboréu, genuíno esporte santista com inúmeros adeptos. O esporte evoluiu, fixaram a quadra em 17 metros,

Canoa havaiana ou outrigger “Muito mais que um esporte, um estado de espírito” é como esta modalidade é definida pelos canoístas. Os havaianos e os polinésios introduziram a prática esportiva, há cinquenta anos e, na década de 1990, o atleta santista Fábio Paiva importou a primeira canoa havaiana. A cidade tem grande importância no cenário nacional desse esporte, pois foi pelo Porto de Santos que chegou a primeira embarcação, batizada Lanakila (“vencedora”, em havaiano), que serviu de molde para a fabricação das atuais 200 canoas espalhadas pelo país. Em 2001, a cidade sediou o primeiro campeonato da categoria que recebeu o nome de Aloha, com todos os rituais da cultura polinésia, como o batismo das canoas, danças com vestimentas originais e agradecimentos. O bairro da Ponta da Praia concentra as garagens e os píeres, onde podemos encontrá-las. São longas, medem 14 metros, têm 50 cm de largura e um estabilizador lateral chamado ama, fixado por dois suportes, os yakos. Essa estrutura permite que a canoa fique estável e possa enfrentar até mares revoltos. Para um bom desempenho no mar, as remadas devem ser compassadas com sincronismo entre os esportistas. A embarcação leva seis remadores e cada um tem uma função determinada. O primeiro, ou voga, que vai na frente, dita o ritmo e a velocidade, e o último é o responsável pela direção do barco. A cada sequência de remadas estabelecidas, um integrante grita “hip” e, na sequência, todos gritam ”ho”, invertendo o lado das remadas. Como uma sinfonia de movimentos, 106 Cidade&Cultura

este esporte agrega muito mais do que preparo físico, ao desvendar encantos da natureza ao alcance de poucos, rejuvenescer a alma e despertar o espírito de coletividade e solidariedade. Praticante de um esporte baseado em uma filosofia de vida, a medalhista olímpica canadense Silken Laumann declara: “O remo não é apenas o que eu faço, é uma parte significativa do que eu sou... as remadas rio abaixo me mostraram quão dura pode ser a vida, quanto pode tardar para se alcançar o que se quer e, ironicamente, quanto alcançar o que se quer pode ser a parte menos importante da experiência”.

Fotos Marcio aLVEs

Tamboréu

criaram regras e desenvolveram uma rede exclusiva para a modalidade. Nos anos 1950, a Prefeitura de Santos deu cunho oficial a esse esporte criando uma subcomissão para regulamentá-lo e, na mesma época, surgiu a Liga Santista de Tamboréu. O Clube Atlético Santista foi o primeiro a oferecer uma quadra de saibro, coberta e específica para a prática desse esporte. A equipe de Santos sempre entra em campeonatos internacionais, realizados na França e Itália, e obtém resultados de pódio.


Surfe Em 21 de janeiro é comemorado em Santos o “Dia do Surfista”. Cidade-berço no país desse esporte, o surfe chegou aqui pelas mãos de Thomas Ernest Rittscher Júnior, que trouxe dos Estados Unidos a revista Popular Mechanic que ensinava a fabricação de pranchas chamadas de tábuas havaianas. Desde os polinésios, o surfe conquistou o mundo com sua descida radical pelas ondas e também consagrou vários nomes importantes em Santos como os prestigiosos José Roberto dos Santos Fernandes e Picuruta Salazar. Ao lado do Emissário Submarino, o observador tem até uma arquibancada para apreciar as peripécias desses atletas incansáveis que conhecem como ninguém a intempestiva movimentação do mar.

“10 Km da Tribuna” Há mais de 25 anos, a prova “10 km da Tribuna” faz a alegria do povo santista. Ela é dividida entre os corredores praticantes desse esporte e os entusiastas que correm para celebrar a festa. Todos os anos, boa parte da cidade se mobiliza para receber os atletas nacionais e internacionais e tentar mostrar um pouco de suas “habilidades” na corrida. São mais de 16 mil corredores nesta competição que é considerada a mais tradicional prova de 10 km da América. Pelo asfalto já correram nomes como Vanderlei Cordeiro de Lima, Marílson Gomes da Silva, Ronaldo da Costa e o angolano João N’Tyamba.

Regata Santos-Rio

Hoje a técnica e o profissionalismo sobressaem no esporte da regata de oceano. O que antigamente era uma aventura de descobrimento, hoje exige do atleta conhecimentos específicos e coragem para chegar ao término de cada prova. A prova Santos—Rio é um desses desafios. Criada há mais de cinquenta anos, reúne atletas de todos os cantos do país e do mundo. Ultrapassando lugares mais abrigados como lagoas e baías, a vela náutica conquistou os sete mares.

Triatlo

O triatlo teve sua origem no Havaí, no ano de 1977, quando o então comandante da Marinha Americana John Collins criou o “Ironman”, uma prova de resistência que poucos se arriscavam em disputar: nadar 3.800 metros, pedalar 180 quilômetros em volta da ilha de Oharo e correr mais 42 quilômetros em Honolulu. O primeiro torneio Ironman contou com a participação de 15 superatletas, sendo que 12 concluíram a prova. Dada a repercussão do esporte, os norte-americanos e os europeus resolveram, em 1988, organizar um campeonato mundial, convencionando o percurso em 1.500 metros de natação, 40 quilômetros de ciclismo e 10 quilômetros de pedestrianismo, denominando-o de triatlo olímpico. Um ano depois, acontecia o primeiro Campeonato Mundial de Triatlo, realizado na França. A principal característica do triatlo é que pode ser disputado ao ar livre, em contato direto com a natureza, aliando o esporte com a participação do público, além de combinar três modalidades esportivas. Em 1992, foi criado o Triatlo Internacional de Santos que acontece todos os anos na praia do Boqueirão, reunindo grandes nomes nacionais e internacionais do esporte, que disputam distâncias olímpicas de 1,5 km de natação, 40 km de ciclismo e 10 km de corrida para tentarem vencer a competição. Fonte de pesquisa Acervo e História do Triatlo.

Santos 107


Esportes

Divers University

Conexão e desconexão de flange

Treinamento de manutenção, retirada e recolocação de hélice de navio

FoTos RenaTo RoCha JoRge

Com um novo conceito para formação de mergulhadores, a escola forma pessoas para trabalhar nos mercados offshore e onshore. A Divers University é o único centro para formação de profissionais atuantes em atividade hiperbárica da América Latina detentor das duas maiores certificações para mergulho comercial do mundo: Associaton of Diving Contractors Internacional (ADCI) e Internacional Marine Contractors Association (IMCA). Sua infraestrutura conta com piscina semiolímpica, tanque operacional para treinamento com 5.0 m de profundidade, sistemas de mergulho para ar comprimido até 50 m (incluindo sinete), simulador de sino de mergulho, ROV (Remoted Operated Vehicle) para inspeção e monitoramento subaquático, estação de recargas para ar e misturas gasosas artificiais, câmara hiperbárica, entre outros. Atualmente, está inserida em duas linhas de pesquisas científicas: aspectos fisiológicos relacionados ao ambiente hiperbárico, colocação e monitoramento de recifes artificiais. Dentre aqueles que utilizam ou utilizaram os serviços da Escola em vários setores da sociedade, citamos: 1° Batalhão de Forças Especiais do Exército, Academia Militar das Agulhas Negras, Brigada de Aviação do Exército, Bases Aéreas de Santos, Campo Grande Manaus, Santa Maria, Recife e Rio de Janeiro; Polícia Federal, Polícias Civil e Militar do Estado de São Paulo.

Esporte italiano da década de 1980, trazido para o Brasil em 2008, por Leopoldo Correa e pelo carioca Adão Chagas, vice-presidente da Federação Carioca de Beach Tênis, pioneira no país. Santos é o maior point da modalidade, difundida através da Associação Santista de Beach Tênis, contando com várias quadras para a prática desse esporte. A contagem, a técnica do voleio e do saque são do tênis; o resto é uma mistura de vôlei, frescobol e badminton. Praticado em ambiente de ótimo astral e descontraído, os participantes aliam agilidade, reflexo e um condicionamento físico invejável.

108 Cidade&Cultura

MaRCio aLVes

Tênis de praia


DivUlGaÇÃO

Natação Santa Cecília “Maior potência esportiva universitária do País, a Unisanta é apontada pela Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) como referência nacional, chegando a ser comparada às grandes instituições de ensino norte-americanas, pelo seu arrojo, estrutura e desempenho nas piscinas e em águas abertas. Em águas abertas, destacou-se com o Projeto Travessia Oceânica Laje de Santos – Renata Câmara Agondi, que se tornou a Maratona Aquática Internacional de Santos – Unisanta /

Troféu Renata Agondi e, com chancela da FINA, o evento integrou o Circuito Mundial de Águas Abertas, os 10 km Marathon Swimming World Cup Fina. Considerada referência em termos de organização e, sobretudo, segurança, teve início em setembro de 2005 e despontou como alavanca propulsora das maratonas no Brasil. O Complexo Educacional Santa Cecília foi escolhido para ser uma das instalações desportivas aptas a receber atletas olímpicos pelo Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos do Rio de Janeiro 2016 (COB)”. Fonte: www.unisanta.br

Daia Oliver - r7.cOm

Barcelona, 1992... “O quarto adversário era ninguém menos que o campeão mundial Udo Quellmalz, da Alemanha. Contrariando todas as probabilidades, Rogério sai mais uma vez vencedor. Com a autoconfiança reforçada, o judoca voltou ao tatame tranquilo e seguro para vencer o húngaro Jozsef Csak e conquistar a sonhada medalha de ouro olímpica. No final da luta, Rogério caiu de joelhos no chão...”

shUtterstOck

Rogério Sampaio

Montain Bike Downhill Em Santos, a primeira edição do Downhill Urbano aconteceu em 2003 e desde então é realizada anualmente, nas escadarias do Monte Serrat, que alia trechos de média e alta dificuldade, com muitas curvas e saltos, um percurso íngreme de 417 degraus e 650 metros de extensão, percorrido em pouco mais de um minuto. Esta prova se firmou como o marco inicial das competições da modalidade, tornando o Brasil o segundo país no mundo a efetuar oficialmente uma prova dessa categoria. O principal desafio do atleta é controlar a velocidade, aliando adrenalina, perigo e emoção. Santos 109


Santos Futebol Clube

Estádio Urbano Caldeira

Com técnica e disciplina,

dando o sangue com amor

“SPORTS Um novo clube de football Vários sportsmen desta cidade estão empenhados em organisar um poderoso club de football, tendo já para isso, conseguido um vasto e esplendido terreno de propriedade do sr. J.D. Martins, à rua Aguiar de Andrade, no Macuco, onde será installado o ground da nova sociedade esportiva. A comissão organisadora do clube compõe-se dos três esforçados cavalheiros seguintes: Mario Ferraz de Campos, Raymundo Marques e Argemiro de Souza Júnior. Essa comissão, 110 Cidade&Cultura

no desempenho da árdua tarefa que se impõe, está percorrendo o nosso alto commercio para acquisição de socios, tendo já conseguido alistar para mais de 200 pessoas. No próximo domingo, às 2 horas da tarde, haverá uma reunião na séde do clube Concordia, para serem apresentadas as bases do novo clube, eleita a sua directoria e tomadas outras deliberações attinentes aos fins da nova

agremiação esportiva. Era já sensível a falta, entre nós, de um bom clube dedicado ao bello sport do football. Acreditamos que o novo clube venha preencher essa lacuna.” A primeira sede social do Santos FC localizava-se no Largo do Rosário, 14 – atual Praça Rui Barbosa –, e era mais conhecida como “Pombal”. Lá o clube ficou no período de 1912 a FOTOS MARCIO ALVES

Pelas mãos dos esportistas Francisco Raymundo Marques, Argemiro de Souza Júnior e Mário Ferraz de Campos foi enviado à imprensa da cidade de Santos um comunicado que foi publicado no Diário de Santos no dia 9 de abril de 1912:

Painel do Memorial das Conquistas do Santos Futebol Clube


Bola do primeiro Campeonato Paulista, quando o Santos ganhou de 2X0 do Corinthians

1918. No início do ano de 1913 surge em Santos, transferido da capital para trabalhar na Alfândega como escriturário, Urbano Villela Caldeira Filho, com 22 anos de idade. O jovem nascido em Florianópolis no dia 16/9/1890 chegava à cidade com vontade de jogar futebol, pois gostava muito de praticar esse esporte, tanto que, em São Paulo, Urbano tinha fundado alguns times de futebol. Os santistas sonhavam grande, e subir a serra para enfrentar os times da capital paulista foi a proposta da diretoria. Já no segundo ano de sua existência, a agremiação passa a participar do Campeonato Paulista, mas a estreia não é muito boa: os jogadores comentavam sem entusiasmo a amarga derrota pelo acachapante placar de 8 a 1 diante do fortíssimo time do Germânia no campo do Parque Antártica. O único jogador que se mostrava satisfeito era Harold Cross que marcou o gol de honra do time santista.

O soco no ar de Pelé, sua marca registrada de comemoração de gol. Esquina da Av. Epitácio Pessoa com a Av. Almirante Cóchrane

Coutinho é considerado o Gênio da Pequena Área, fez 380 gols em 457 jogos. Atribui toda a habilidade do Santos a amizade entre os jogadores e a brilhante coordenação do técnico Lula

Porém, na sequência do campeonato, houve outro placar deveras animador: uma goleada sobre o Corinthians, novamente no campo do Parque Antártica, pela contagem de 6 a 3. Só que duas novas goleadas no campeonato diante do S. C. Internacional e do Americano fazem com que a diretoria desista de prosseguir atuando na capital porque as despesas com as passagens de trem eram bastan-

Luís Alonso Pérez -Técnico Lula - treinador dos Santos FC de 1954 a 1966

te elevadas e o clube não tinha como bancar as viagens dos atletas a São Paulo. Já com o uniforme listrado nas cores branca e preta e com shorts branco, o time venceu o Campeonato Santista e conquistou o primeiro título importante em sua história. São jogadas seis partidas e o time sai invicto do torneio para alegria dos torcedores locais que acompanhavam o time que usava o nome da cidade com galharSantos 111


Santos Futebol Clube dia. Os atletas Adolpho Millon Júnior e Arnaldo Silveira são convocados para defender o Selecionado Brasileiro e, na Argentina, conquistam a Copa Rocca. Década dos 100 gols No time comandado pelo diretor geral de esportes Urbano Caldeira, a novidade é a chegada de um grupo de garotos vindos do Brasil FC que era conhecido como o time Gota de Leite, em função da pouca idade dos garotos que atuavam na equipe. Eram eles Nabor, Batista, Omar, Camarão, seu irmão Siriri e Abel. Juntamente com esses garotos surge outro jovem de raro potencial chamado Araken Patusca e é com eles que, no ano de 1927, o Santos forma o seu grande e talentoso ataque que marcou época no futebol paulista e brasileiro, ficando conhecido como o time do Ataque dos 100 gols. A imprensa carioca, encantada com o elenco praiano, chamou o clube de “O Campeão da Técnica e da Disciplina”, tal o comportamento do grupo dentro e fora das quatro linhas. O Santos não venceu o campeonato paulista de 1927 porque na partida final Um dos primeiros uniformes do Peixe

do certame foi vencido pelo Palestra Itália, na atual Vila Belmiro, pelo placar de 3 a 2. Neste campeonato em 16 partidas, o time marcou 100 gols, um recorde que até hoje não foi superado em partidas do campeonato paulista, com uma média assombrosa de 6,25 gols por jogo. Na década seguinte, no ano de 1935, o Santos FC conquista pela primeira o Campeonato Paulista ao vencer o maior arquirrival em sua casa pelo placar de 2 a 0 com gols de Raul e Araken Patusca. O sonho começou O ginásio de esportes no estádio é inaugurado com a presença do governador de todos os paulistas, Ademar de Barros, o que causa motivação e júbilo entre os associados. E, a partir de 1952, o clube passa a ter em suas dependências todos os serviços que antes eram prestados aos sócios na

Títulos conquistados: Campeonatos Estaduais: 20 (1935, 1955, 1956, 1958, 1960, 1961, 1962, 1964, 1965, 1967, 1968, 1969, 1973, 1978, 1984, 2006, 2007, 2010, 2011 e 2012) Campeonatos Regionais (Rio-São Paulo): 5 (1959, 1963, 1964, 1966 e 1997) Campeonatos Nacionais: 8 (1961, 1962, 1963, 1964, 1965, 1968, 2002 e 2004) Copa do Brasil: 1 (2010) Copa Conmebol: 1 (1998) Taça Libertadores da América: 3 (1962, 1963 e 2011) Mundial Interclubes: 2 (1962 e 1963) Recopa Sul-Americana: 2 (1968 e 2012) Recopa Mundial: 1 (1968)

sede da rua Itororó, 27. A Vila Belmiro agora sim é por completo a morada do Santos Futebol Clube. Luis Alonso Peres, o Lula, assume no ano de 1954, o comando da equipe principal, que ganha respeito entre os treinadores adversários. O primeiro título internacional vem coroar o brilhantismo da equipe motivada no torneio organizado pela Federação Paulista de Futebol que, na partida final, viu o Santos vencer o New Old Boys no Pacaembu pelo placar de 5 a 2. O ano de 1956 entra na história do clube por ter sido o ano em que um garoto franzino de pernas finas e olhar ingênuo chegou à Vila Belmiro trazido de Bauru por um ex-jogador de nome Waldemar de Brito. O garoto tem 15 anos e já no dia 7 de setembro desse mesmo ano faz sua primeira apresentação no time principal na histórica partida disputada em Santo André, vencida por 7 a 1 com a ajuda do garoto chamado Edson Arantes do Nascimento, apelidado Pelé. Ele marcava então seu primeiro gol com a camisa que, nos anos seguintes, iria imortalizar perante o futebol mundial. Jogar no time principal do Alvinegro era o que mais queria o garoto Pelé que, na concentração no estádio santista, também era chamado de “Gasolina’ por alguns jogadores mais velhos. Daí em diante e até sua última partida, em 1974, Pelé é o titular absoluto da camisa 10 do alvinegro. A imprensa estrangeira, assombrada com o futebol mágico do garoto Pelé, o chama pela primeira vez de “Rei do Futebol’, apelido que ele iria carregar com justiça pelo restante de sua carreira monumental. Ao lado de Pelé passa a atuar outro jovem de incontestável qualidade futebolística: Antônio Wilson Honório, ou simplesmente Coutinho, que formaria ao lado do Rei uma dupla que para sempre se tornaria na memória dos abnegados santistas a


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O adeus do Rei

Aqui é um dos locais mais agitados de torcedores do Santos F.C.

imagem perfeita de dois atletas dotados da mais alta habilidade para jogar futebol, criando suas inacreditáveis tabelinhas. Marcar gols às pencas é a especialidade do time praiano no ano de 1959, quando marca em 99 partidas jogadas a incrível soma de 342 gols assinalados, com Pelé marcando 100 gols nessa temporada. Na artilharia do campeonato paulista, Pelé passa a ser o goleador máximo em 1957, 1958 e 1959; vale lembrar que, ainda em 1954, outro avante santista, Del Vecchio, também foi o artilheiro do certame, com 22 gols. No período de 1950 a 1959, os jogadores que mais se destacaram foram: Pelé, Pepe, Coutinho, Dorval, Zito, Dalmo, Hélvio, Urubatão, Ramiro, Fiote, Jair, Pagão, Negri, Tite, Walter Marciano e Nicácio. O time marcou 1.848 gols e sofreu 1.051, em 654 partidas, acumulando 399 vitórias, 103 empates e 152 derrotas. Eleito por toda a imprensa mundial como o melhor time de futebol de todos os tempos, com um ataque que jamais será esquecido pelos torcedores do alvinegro e que soa com uma doce e suave melodia ao ser entoado, eram quatro ases e um coringa: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Esse ataque demolidor e insuperável atuou junto em 97 partidas com 68 vitórias, 11 empates e 18 derrotas. Fonte: Guilherme Guarche – Coordenador do Centro de Memória e Estatística do Santos Futebol Clube.

O momento que nenhum torcedor santista queria que existisse chegou carregado de emoção e tristeza, na noite do dia 2 de outubro de 1974, noite na qual a Vila Belmiro chorou ao ver o seu filho pródigo despedir-se do futebol na partida contra a Ponte Preta. Ainda nesse ano, na Copa do Mundo disputada na Alemanha, o Santos cedeu dois jogadores ao Selecionado Nacional: o ponta-esquerda Edu e o zagueiro Marinho Perez. Após essas convocações, o clube só voltaria a ceder jogadores ao selecionado nacional 36 anos depois, na Copa do Mundo da África, com o jogador Robinho. No período inicial após a saída do Rei Pelé, a primeira alegria veio com a conquista do Torneio Hexagonal do Chile, em 1977, sob o comando de Urubatão Calvo Nunes. Mas a alegria maior nessa década é a conquista do Campeonato Paulista de 1978, disputado no meio do ano seguinte e que deu ao Santos o seu 14º título, vencido com um grupo de jovens atletas que ficou conhecido como “Os Meninos da Vila”, um grupo de garotos que encantou a imprensa pela velocidade e pela categoria imposta em suas partidas no certame, todos capitaneados pelo competente Chico Formiga, que mesclou na equipe jogadores experientes como Clodoaldo, Vitor, Aílton Lira, Gilberto Sorriso, Joãozinho, Neto e Nelsinho Baptista com os meninos Juary, João Paulo, Pita, Nilton Batata, Rubens Feijão, Zé Carlos, Toninho Vieira, Claudinho dentre outras jovens promessas, quase todas oriundas dos times de base. O artilheiro máximo do time volta a pertencer ao elenco praiano e desta feita seu nome é Juary, que marcou 29 gols. E assim, 100 anos depois, o Santos Futebol Clube continua seu brilho com estrelas que vão, mais tarde, ficar eternizadas no Hall da Fama santista com mais uma geração de craques como Neymar, Ganso, Arouca, Edu Dracena, Léo, Rafael, André, entre outros. E, até o fechamento desta matéria, o time que fez parar uma guerra em 1969 contabiliza 12.022 gols em sua trajetória.

Memorial das Conquistas do Santos Futebol Clube

Santos 113


Gastronomia

A variedade

em várias línguas A gastronomia em Santos é variada e recebeu muitas influências desde que a cidade começou a existir. Hoje, o que se vê é uma diversidade cultural de restaurantes que oferecem vários pratos típicos de outros países. No princípio, foram utilizados ingredientes naturais como faziam os indígenas que sabiam das maravilhas das frutas, da mandioca e dos peixes. Até hoje, quando vamos a uma feira de 116 Cidade&Cultura

rua, é comum as pessoas pedirem cabeças de pescado para o preparo do pirão. Com a colonização portuguesa, conhecemos o açúcar utilizado de variadas maneiras, especialmente nas sobremesas. Depois chegaram espanhóis, italianos, ingleses, japoneses e a “salada” ficou completa. Mas, o que mais é curioso e ressaltado, é a utilização da farinha de mandioca e da banana na alimentação diária de muitos

santistas. E parte desses ingredientes compõe o prato típico da cidade: a Meca Santista, composta de peixe meca, camarão, risoto de pupunha e farofa de banana. Hmmm... Outros pratos também fazem parte desta cultura, como nos bairros Vale do Quilombo e Caruara que têm a Corvina com Banana Verdolenga, e os deliciosos brigadeiros com casca de banana, típicos da área continental. Como se pode notar, a banana


Caldo Verde do Restaurante Almeida

é o centro das atenções. Não é à toa que essa fruta tem tanto destaque por aqui, já que sua história está intimamente ligada à vida dos moradores. Como cidade portuária, o escoamento da banana, tanto do litoral sul como do norte do Estado de São Paulo, era feito pelo porto. Na cidade existia uma indústria de produtos derivados da banana, a Leoneza Comercial e Industrial, fundada em 1904, símbolo da riqueza proporcionada por essa fruta no início do século XX. Ainda podemos ver muitos bananais nos morros e na área continental de Santos.

Pastéis variados do Café Carioca

MARCIO ALVES

Bife de Chorizo Ao Chopp do Gonzaga

FOTOS DIVULGAÇÃO

Meca Santista Restaurante Mar Del Plata

Bolinho de bacalhau Último Gole Restaurante e Choperia

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Gastronomia

Camarão à Grega Restaurante São Paulo

Brigadeiro de casca de bananas m. Cabrão Paula

FOTOS DIVULGAÇÃO

Não podemos deixar de citar os frutos do mar cujas receitas foram incrementadas pelos espanhóis. Em toda a cidade podemos encontrar diversos restaurantes oferecendo uma gama de pratos à base dessas iguarias fenomenais. Desde um belo caranguejo na cerveja até uma complexa paella legitimamente espanhola. E, na ponta, temos os pratos com peixe cru introduzidos pela culinária japonesa, com seus temakis, sushis e sashimis que já se incorporaram à alimentação local. A boemia é outro fator que faz com que por toda a cidade encontremos vários bares e botecos servindo o que há de melhor em forma de porções. O santista, por natureza, é um amante da vida noturna e tem por hábito reunir-se com os amigos em volta da mesa para um bom bate-papo, regado a cerveja e muitos petiscos de dar água na boca, como bolinhos de bacalhau, iscas de peixe, provolone à milanesa e por aí vai. É chegar, sentar e pedir, depois deixar o tempo passar em boa companhia, tomando uma “fresca”. Agora, se observarmos as esquinas de Santos, vamos, em uma grande parte delas, topar com um carrinho de pastel, outra mania local. São grandes e recheados com os mais variados sabores. Interessante a quantidade de pessoas que almoçam ou jantam pastel. Dica: camarão com requeijão. Então, se você estiver disposto, o que não vai faltar são alternativas gastronômicas em Santos. Prepare seu estômago e curta cada um dos deliciosos pratos servidos com ingredientes frescos e da melhor qualidade.

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Joelho de porco com batatas e chucrutes - Bar Heinz

Roda de ralar mandioca

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Carrinho de pastel

mARCIO ALVES

Bolo de mousse de Chocolate Confeitaria Joinville


Porco- Costelinha, barriga e bacon artesanal (defumado na casa) com cama de canjiquinha e shimeji fresco ao molho de jabuticaba

Cozinha Contemporânea

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Chapéu-de-sol árvore típica de beira de mar, é conhecida como amendoeira-da-praia, castanhola, sete-copas, entre outros. Especificamente em Santos, seus frutos são chamados de cuca, enquanto que no resto do mundo são chamados de amêndoa. Seus frutos são muito apreciados por morcegos. A sua madeira é vermelha, sólida e resistente à água e era utilizada para fazer canoas na antiga Polinésia. Os moradores antigos de Santos usam suas folhas para fins medicinais.

DiVulGaÇÃo

Com a troca de informações somada à diversidade do mundo globalizado, a gastronomia tomou um impulso de conhecimento de vários ingredientes que hoje são acessíveis a todos. A facilidade de incorporar novos sabores a pratos tradicionais e também de dar a eles uma nova apresentação, transformou, principalmente nos maiores centros urbanos, a culinária. Os primeiros que ousaram sair do tradicional foram os grandes Chefs de renome internacional que, com muita pesquisa, criaram um novo estilo. E, a essa mistura de várias origens, damos o nome de Cozinha Gastronômica. Em Santos, um ingrediente estudado para compor pratos é a famosa cuca, fruta da árvore chapéu-de-sol, que margeia toda a extensão do jardim da praia. Concluindo, hoje a culinária volta a ser a alquimia, conferindo aos chefs o poder de transmutação dos sabores.

RaPhael CRisCuolo

Gastronomia


MaRcio alvEs

Dados estatísticos

Data de Fundação

Pessoas Residentes

Gentílico

Clima

Localização Geográfica

Rodovias de Acesso

24 de janeiro de 1546

santista

Baixada santista Longitude: 46° 19’ 39” O Latitude: 26° 53’ 13” s Altitude: 2 metros

Cidades Limites santo André, Mogi das Cruzes, Bertioga, Guarujá, são Vicente e Cubatão

Área Total 280,674 km²

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419.400 (censo 2010)

Tropical

Anchieta – BR 050 ou sP 150 que recebe o acesso da Rodovia dos Imigrantes – sP 160, da rodovia Padre Manoel da Nóbrega – sP 55 e da rodovia Cônego Domênico Rangoni – sP 248

Densidade Demográfica (habitantes/Km²) 1.494,26 hab/km²

Porto de Santos

Ranking: 41º do mundo em movimentação de carga TEU Área: 7,7 milhões m² Extensão de cais: 13 km Terminais: 59


não deixe de visitar

Deque dos Pescadores

Cine Posto 4

Um charme na orla da praia e extremamente agradável é o Cine Posto 4. Desde 1991, ele oferece a todos uma alternativa cultural para filmes de arte estrangeiros de qualidade, com ingresso muito barato. Tem 48 lugares e ar-condicionado. Vale a pena conferir. Fica na orla, na altura do Canal 3.

Com uma passarela de 75 metros de extensão, o Deque dos Pescadores proporciona aos seus frequentadores imagens maravilhosas, principalmente da entrada e da saída dos navios. O local também é equipado com uma cantina. Bom lugar para passar os fins de tarde e saborear o pôr-do-sol. Fica na av. Bartolomeu de Gusmão próximo ao número 192.

“O Pneu Furou” Ela é bonita e divertida. Colocada no meio da ciclovia, na altura do Canal 6, esta obra é uma iniciativa do Projeto Arte na Rua, do artista plástico Rica.

Museu Pelé

No antigo Casarão Duplo do Valongo, que abrigou a Prefeitura Municipal e a Câmara entre o final do século XIX e 1939, o Museu Pelé está nascendo aos poucos, não apenas para preservar a história do jogador, mas também a da própria cidade. Com um acervo de 2,3 mil peças do Rei, além de cafeteria, bar, lojas e galeria de arte, ainda podemos desfrutar de uma vista do Porto.

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Programa “Conheça os Morros de Santos” Programa que visa a integração entre os morros e a Cidade. O ônibus, com ar refrigerado, sai da Praça das Bandeiras, sempre aos sábados às 15h30. Percorre os Morros de São Bento e Nova Cintra. Nesse passeio você assiste a apresentação do Rancho Madeirense, dança típica da Ilha da Madeira.

Mercado de Peixe

NATháLIA WEbER

Localizado na Ponta da Praia, em frente ao terminal da balsa, é muito procurado por santistas e turistas pela qualidade e variedade dos pescados. O agito é constante nesse mercado; os vendedores expõem seus produtos em alto e bom som, as pessoas escolhem os peixes e se admiram com a quantidade de frutos do mar, e as garças brancas em grande número, espalhadas por toda a redondeza, tentam pegar um pescado das bancas sem nenhuma cerimônia e já são consideradas sócias dos comerciantes. Recentemente, o espaço foi todo remodelado, embelezando ainda mais esse lugar tão pitoresco da cidade.

Catraias

FOTOS MARCIO AVLES

Um passeio interessante é esse: as catraias são embarcações pequenas e rápidas que as pessoas utilizam para a travessia entre Santos e Guarujá. Elas passam por baixo do Porto por um túnel estreito. Vale a emoção. Praça Iguatemi Martins s/n – Vila Nova.

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não deixe de visitar

Arena Santos

Um lindo passeio no Monte Serrat é o que oferece o bonde funicular, em operação desde 1927. O serviço foi instalado por uma sociedade de imigrantes espanhóis. No alto do Monte ficava o cassino que funcionou até a proibição do jogo no Brasil, em 1946. No alto do morro temos a Igreja de Nossa Senhora de Monte Serrat, o salão de festas do antigo cassino, com decoração da época, e um mirante com vista panorâmica de 360° da cidade. Imperdível.

Restaurante-Escola Estação Bistrô Se você quiser um lugar charmoso para almoçar, não deixe de ir ao Restaurante Estação Bistrô. Todo decorado em estilo inglês de 1867. Os pratos são feitos com requinte e primor. Um projeto da UNISANTOS, em parceria com a Prefeitura de Santos e o Ministério do Turismo, para a inclusão de jovens. Vale a pena. Onde: Largo Marquês de Monte Alegre, s/n – Centro.

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Ciclovia da orla Com 7.874 metros, a ciclovia começa na divisa de São Vicente e acaba na av. Mário Covas Junior. Bem sinalizada e com boa iluminação noturna, além de ser uma via de acesso para os trabalhadores, dá aos que ali estão a passeio uma boa oportunidade de descontração com o mar ao lado, além do necessário exercício físico.

Mercado Municipal Palco de grande movimentação econômica na cidade, hoje ainda guarda em sua memória a importância que tem para a comunidade santista. Datado de 1947, em estilo art déco, e ampliado em 1955, tem agora um segundo pavimento. No local são realizados eventos como a Festa da Banana e Festivais da Sopa e do Caranguejo. Onde: Praça Iguatemi Martins s/n – Vila Nova.

FOTOS MARCIO AVLES

Bonde Funicular

Bem estruturado complexo esportivo, a Arena Santos oferece à população uma área de 11.000 m², sendo 5.137 m² de área coberta, com estacionamento para 400 veículos, 5.000 assentos, ginásio multiúso, duas arquibancadas retráteis que, retiradas, dão lugar a um palco com 370 m², alojamento para hospedar até 80 atletas, sala de musculação e cozinha com restaurante. Onde: av. Rangel Pestana, 184 - Vila Mathias.


Gente da Terra

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FOTOS MarciO aLVES


MARCIO ALVES

Santista

A arte de saber viver com qualidade O jeito santista de ser é raro e leve. Descontraído, com humor acima de tudo. Seu modo de falar singular diferencia seu linguajar do de outras cidades. Um molejo nas palavras: “tu” vai ali, “tu” não vai aqui – é o jogo na Vila e, se não der, nada como uma cerveja nos bares espalhados por todos os bairros... É o apelido de todos... É o papo nas filas descontraídas de qualquer que seja a espera, o dominó nas praças, o jogo de tranca nos clubes, a água-de-coco depois da corrida e o corre-corre do dia a dia. Ser santista é poder falar alto, 130 Cidade&Cultura

rir de qualquer coisa, é poder usar chinelos e ainda ser chique. Ser santista é pura descontração, mesmo com todas as preocupações, e quando fica bravo já coloca o “Jabaquara em campo” e acaba o assunto. É cruzar a “linha da máquina” e, em vez de ir ao centro, ele vai à “cidade”. E foi nesse jeito de ser que transformou, lutou e muitas vezes mudou o rumo da história. É raro, é leve e é feliz! Renata Weber Neiva


Santos/SP  
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