Issuu on Google+

Historias de Coração – segundo tratamento Por Sérgio Glenes e Patricia Alves Dias Episódio: o Mundo da Mata Redonda

Numa cidadela (vilarejo) muito, muito, longe daqui vivia uma menina, que se chamava Maria Soledad. Apesar de seu nome, ela nunca estava só, sempre acompanhada de bonecas, carrinhos, peões, uma flauta de bambu, um catavento e um  tapete de retalhos de fuxico... Toda a cidadela tinha apenas três casinhas:  A sua, de seu pai e sua mãe, que era de cabeça para baixo, onde o teto era encravada na terra e  as portas no céu. Eles, os pais de Soledad, sempre estavam na janela  olhando para o nada de cabeça para baixo...  A segunda, era muito acinzentada porque lá morava uma mulher gorda e seu marido, um homem  muito magro que fumava sem parar. Eles estavam sempre reclamando da canção que Soledad cantava ao rodopiar. (Para esta canção e sons, tentemos achar referências aos ritmos e sons feitos pelos índios   cubanos e tupis guaranis, indicadas por Fernando Ortiz, para acalmar El Dios Huracán – ver   Aramis)  E a última, casinha. Lá, moravam tres diferentes cães muito bravos que latiam todo o tempo e  rosnavam entre si e para a menina quando cantava ao rodopiar.  A casa estava cheia de buracos porque faltavam tijolos de tanto que os cachorros cavavam nas  paredes.  Todas as casinhas, cada uma,  tinha uma biruta no seu topo mais alto, menos a sua... Como Soledad passava todo o tempo a brincar de boneca, pular amarelinha, soprar sua flauta e  seu catavento ­ que estava sempre inerte ­ e dançar rodopiando (como se fosse uma dervishe) ao  lado de seu tapete de fuxico... nem ligava muito para o que poderia parecer a desarmonia da  cidadela. E todos os dias, para sair de casa brincar, ou ir à escola, Soledad tinha que escalar as paredes de  sua casa, porque a porta estava no lugar do teto e o teto no lugar da porta e seus pais olhando  para o nada de cabeça para baixo... Um desses dias, sem qualquer dificuldade na escalada, deixou cair seu catavento e foi para escola  a rodopiar e dançar.  Soledad não percebeu que as birutas, que estavam sempre inertes, já há tanto tempo, começavam  a se rodar... 


E a mãe, da janela olhando para o nada, olhou para Soledad e gritou: ­ Maria, tenha cuidado minha filha! (o plano de Maria Soledad indo saltitante e os ventos começando a uivar e os cataventos a rodar   devem indicar que o perigo vem com os ventos) E de repente, só naquele lugar, naquele vilarejo, chegou o (Deus) Furacão... E levou as três casinhas e todo o nada ao redor... E quando Maria, voltou para casa, a pular e rodopiar, percebeu que agora estava sozinha... Pegou o seu tapete de retalhos de todas as cores, de fuxico, que costumava brincar do lado de  fora de casa, forrou­o no nada, sentou­se desolada e começou a chorar... foi quando percebeu que chorar em nada ajudaria e que seu tapete começou a se mover muito rapidamente e um novo mundo começou a passar ao seu lado. Do nada, levado pelo furacão, aparece um belo Mar, uma bela floresta, cheia de águas e árvores,  borboletas, passarinhos, grandes e pequenos lagos com peixes e animais de todos os tipos... os  peixes voavam e os passarinhos nadavam... E a menina ao parar seu tapete, o mundo parava de mexer, a menina descia e brincava com os  seres, e cantava com os pássaros...e voltava para o tapete que continuava o caminho... (como se fossem pequena ilhas) Até que, em sua andança e rodopiança, no seu tapete, viu bem longe, num dos pedaços do  Mundo, (fora do que seria seu(s) caminho(s)), a casinha dos três cachorros. Soledad ficou muito, muito, muito feliz, porque, afinal de contas, encontrou um pouco de seu  Mundo nos três cães vizinhos...A menina pára seu tapete de retalho de fuxico e vai até a casa dos  cães que continuam a rosnar. Mas Soledad canta para eles a mesma canção que cantava ao  rodopiar e dançar e desamarra suas coleiras que servem para puxar, com esforço, a casinha dos  três cães  e  encaixa ela  bem no meio do que seria a estrada... Naquele mesmo pedaço de Mundo, escuta os resmungos do casal que continuava a brigar, seus  vizinhos... Corre em direção ao burburinho e encontra a casinha ainda mais acinzentada porque lá a mulher  gorda e seu marido, um homem muito magro fumava ainda mais sem parar. Os três juntos  carregam a casa, como uma grande caixa de papelão, para o caminho que seria a estrada e  encaixa a ultima casinha na outra, como se cada casa fosse um vagão de trem... Enquanto Soledad encaixa e (re)encaixa as casinhas, como se estivesse brincando de cubos ou  legos, pensa ouvir a voz de sua mãe a cantar sua canção... a mesma canção que Soledad cantava  para dançar e rodopiar, mas que na verdade servia para acalmar o (Deus) Furacão. Ela corre em  direção a voz e encontra a sua casa, de seu pai e sua mãe, que ainda estava de cabeça para  baixo, onde o teto era encravada na terra e as portas no céu. Eles, os pais de Soledad, que antes  sempre estavam na janela olhando para o nada de cabeça para baixo...agora estavam no ponto  mais alto na casa, abraçados (como náufragos), soprando o catavento de Soledad e cantando sua  canção.


A menina corre alvoroçada a presença de seus pais, escala a casa e os abraça. E no caminho que parecia ser a estrada do mundo, eles todos encaixam a primeira casinha que  faltava na cidadela.  O tapete de fuxico de Maria Soledad e suas bonecas e carrinhos e peões  estão na frente do conjunto de casinhas que como um trem começa a se mexer... Ao longe, vemos  que o que se mexia não era o trem de casinhas e sim o mundo que não parava de girar...  (Outros mundos vão aparecendo e girando como o Mundo da Mata Redonda e muitos e muitos...  num movimento continuo, num plano seqüência, a câmera continua a se afastar e passa por dentro  do interior de um vagão de trem que está entre esses planetas. Dentro uma vovozinha e um  menininho no seu colo, é embalado numa cantiga de nina. A câmera sai do vagão e vemos a  mesma que o trem era composto com os três vagões de casa da cidadela da Mata Redonda como  uma nave espacial no cosmo...)

FIM      


Segundo tratamento do roteiro