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Natacha Rena (org.)

Territ贸rios aglomerados


Territ贸rios aglomerados

Belo Horizonte (2010)

http://projetoasas.org

Natacha Rena (org.)


Reitoria Prof. Antônio Tomé Loures Vice-reitoria Prof.ª Maria da Conceição Rocha Pró-reitoria de Ensino, Pesquisa e Extensão Prof. Eduardo Martins de Lima Pró-reitoria de Planejamento e Administração Prof. Eduardo Leopoldino de Andrade Coordenadoria Geral de Pesquisa Prof.ª Rúbia Carneiro Neves

Gerência de projetos Daniela Lemos

Diretoria de Desenvolvimento Sustentável Maria Luiza Pinto e Paiva

Consultores voluntários e sociosfundadores Prof. Dr. Waldenor Barros Moraes Filho Prof. Dr. Luiz Fernando Coelho de Souza

Superintendência de Ação Social Laura Regina

Coordenadoria Geral de Extensão Prof. Osvaldo Manoel Corrêa

Coordenação do Concurso Banco Real Universidade Solidária Eloísa Martins

Coordenadora do setor de Relações Internacionais Prof.ª Astréia Soares Batista Assessoria de Ensino de Graduação Prof. Luiz Antônio Melgaço Nunes Branco FACULDADE DE ENGENHARIA E ARQUITETURA - FEA Diretor Geral Prof. Luiz de Lacerda Júnior Diretor de Ensino Prof. Lúcio Flávio Nunes Moreira Diretor Administrativo Financeiro Prof. Fernando Antônio Lopes Reis Coordenador do setor editorial FEA-FUMEC Prof. Antônio Pertence Júnior Coordenadora Geral do Curso de Design Prof.ª Ângela Souza Lima Coordenadores por Habilitação D.Gráfico | Prof. Guilherme Guazzi Rodrigues D.Interiores | Prof.ª Maria Fernanda Loureiro D.Produto | Prof. Eliseu de Rezende Santos D.Moda | Prof.ª Gabriela Maria Torres

Professora coordenadora: Natacha Rena

Paulo Neves Rodrigues, Rafael Miranda Barbosa, Silvia Alves Ferreira Pio Martins, Rodrigo Franco Mattar

Assistente de coordenação: Bruno Elias Gomes de Oliveira

Artesãos Adson Luiz Quevedo Adrielle Silva Etelvina Xavier de Almeida Eva Souza Fátima Rodrigues Frois Maria do Carmo da Rocha Maria Elizabeth Marianne Souza Stoklasa Marilene Porto Santos Shirley Maria Araújo Suzana Marília dos Anjos Oliveira

Técnicos: Éder Jorge Almeida Éder Peixoto Emanuel Lucas Ferreira Ribeiro Maria Crisóstomo Ramos Maria Inês Rios Cláudia Aparecida Teixeira Estudantes: Alessandra Luísa Teixeira Santos, André Santos de Oliveira, Ana C. Bahia, Aruan Mattos, Bruno Elias Gomes de Oliveira, Carolina Medeiros, Cristiana Santos, Fernanda Hott, Julia de Assis Barbosa Soares, Juliana Augusta de Lima Rocha, Larissa Oliveira Duarte, Maria Lina Ceschim, Nayara Rodrigues Santos, Larissa Duarte, Lilian Gustini, Lorena Marinho, Marcela Amorim Torres,

Parceiros do projeto ASAS: Universidade FUMEC Raiz da Terra Loja Grampo Quina Galeria Café com Letras Escola Municipal Padre Guilherme Peters


PROJETO CATÁLOGO TERRITÓRIOS AGLOMERADOS T327 Territórios aglomerados / Organizadora Natacha Rena. Belo Horizonte: Ed. FUMEC - Faculdade de Engenharia e Arquitetura, 2010.

Coordenação Prof.ª Juliana Pontes Ribeiro

144 p.: il. (fotografias e grafismos). Vários autores.

Direção de arte Ana C. Bahia Prof.ª Juliana Pontes Ribeiro Prof.ª Natacha Rena

ISBN 978-85-61258-12-2.

Design/Projeto gráfico Ana C. Bahia

1. Design social. 2. Artesanato urbano. 3. Tecnologia social. 4. Artesanato solidário. 5. Criação colaborativa. I. Rena, Natacha. II. Título. CDD: 745 CDU: 745.2 Informação bibliográfica conforme a NBR 6023:2002 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT): RENA, Natacha (Org.). Territórios aglomerados. Belo Horizonte: Ed. FUMEC - Faculdade de Engenharia e Arquitetura, 2010. 144 p.: il. ISBN 978-85-61258-12-2.

Fotografias Ana C. Bahia Juliana Augusta Silvia Pio Bruno Oliveira Nayana Rodrigues Júlia de Assis Revisão de textos Maria Clara Xavier Tradução Laura Torres


sumário 01 apresentação p.12 01 presentation p.116 02 instituições parceiras p. 26 03 design e inclusão social p. 36 04 oficinas de capacitação p.78 05 desdobramentos p.96 06 depoimentos p.110 anexo coleção territórios


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apresentação


Histórico

Natacha Rena || Bruno Oliveira

É isso, uma teoria é exatamente como uma caixa de ferramentas. Nada tem a ver com o significante. É preciso que sirva, é preciso que funcione. (DELEUZE, 2006, p. 267)

Natacha Rena

é graduada em Arquitetura e Urbanismo pela EAUFMG, mestre em Arquitetura pela EAUFMG e Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC SP. Coordenadora de projetos especiais da COMUNA S.A. e de projetos socioambientais do JA.CA. Professora dos cursos de Design e Arquitetura da Universidade FUMEC e da EAUFMG. Coordenadora do programa ASAS que engloba três projetos de extensão e um de pesquisa. natacharena@gmail.com

Acreditando-se na relação essencial entre ensino, pesquisa e extensão, e na importância do envolvimento das universidades com comunidades com alto índice de vulnerabilidade social é que demos início em 2003 a uma série de trabalhos com abordagens mais críticas e políticas do design e da arte. O primeiro trabalho desenvolvido foi o projeto interdisciplinar de pesquisa Táticas de Sobrevivência, que baseou-se em um vasto levantamento de inventos — resultados das táticas e estratégias de sobrevivência — dos moradores da Vila Ponta Porã, favela pertencente à região central da cidade de Belo Horizonte. Construímos um catálogo de objetos e produtos do cotidiano que revelaram o enorme potencial criativo do cidadão comum, principalmente quando exposto a situações de precariedade econômica. A intenção foi traçar uma microcartografia de pequenas táticas de sobrevivência no cotidiano de “homens comuns e sem qualidades”: documentou-se as formas particulares de habitar e sobreviver desses moradores, que constroem um universo mágico de “gambiarras” produzindo artefatos que esbarram nos limites da arte e do design.

Bruno Oliveira é graduado em Ciência da Computação pela FUMEC e graduando do curso de Artes Plásticas (UEMG). brunogomesoliveira@gmail.com

Introdução

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As atividades relacionadas ao projeto ASAS nos anos de 2007 e 2008 estão documentadas em outro livro: RIBEIRO, Juliana Pontes; RENA, Natacha (Org.). ASAS: Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra. Belo Horizonte: Editora Faculdade de Engenharia e Arquitetura FEA-Universidade FUMEC, 2009.

O Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra (ASAS) é uma iniciativa da Universidade FUMEC (Belo Horizonte/MG) iniciada em 2007 sob a coordenação da professora Natacha Rena. Por intermédio do desenvolvimento de projetos nas áreas de ensino, pesquisa e extensão, a equipe de professores, técnicos, alunos e voluntários do ASAS busca consolidar tecnologias sociais reaplicáveis de geração de renda que atuem em uma perspectiva contemporânea da intersecção entre design e artesanato urbano. Este catálogo apresenta as atividades da equipe no projeto ASAS_ aglomeradas durante os anos de 2009 e 2010.1 Ao todo, mais de 60 alunos das quatro habilitações do curso de Design (Gráfico, Interiores, Moda e Produto) participaram do projeto como bolsistas ou voluntários, auxiliando na capacitação técnica e criativa dos artesãos moradores do Aglomerado da Serra em costura, bordado, imagem e movimento, encadernação e estamparia. Em paralelo ao desenvolvimento e execução de tais oficinas, os alunos elaboraram os artigos acadêmicos apresentados neste catálogo, visando consolidar a interface das iniciativas de ensino, pesquisa e extensão envolvidas pelo ASAS. Também serão encontrados relatos das atividades realizadas durante o processo de capacitação, assim como outras ações desenvolvidas, como as exposições (Grampo e Quina Galeria), mostras (Mostra de Design do Café com Letras), gravação de documentário (Televisão da América Latina), entre outras. Ao final deste catálogo apresentamos uma documentação com descrições detalhadas dos produtos da mais recente coleção desenvolvida pelo projeto: TERRITÓRIOS (2009). É importante ressaltar que a parceria com o programa Universidade Solidária (UNISOL) e com o Banco Real/Santander nos anos de 2008 e 2009, possibilitou um grande avanço nas ações desenvolvidas, não somente por meio do auxílio financeiro, mas também através do aprendizado de uma metodologia específica para geração de tecnologia social e avaliação de projetos, com foco na geração de renda e empoderamento de comunidades.

Os trabalhos envolvendo capacitação em artesanato e design tiveram início em 2005 com o projeto de extensão intitulado Sempre Savassi, que, com a parceria de instituições como CDL e SEBRAE, envolveu diversas comunidades de artesãos. Durante a elaboração de uma metodologia adequada para realização desse projeto, surgiu a demanda do desenvolvimento de uma pesquisa conceitual mais consistente sobre questões como artesanato e suas relações com a arte e o design. Essa investigação resultou na criação do conceito de Artesanato Urbano, visando classificar os produtos que seriam elaborados pelos beneficiários.

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RENA, Natacha (org). Coleção 9 + 1. Belo Horizonte: Editora Faculdade de Engenharia e Arquitetura FEA – Universidade FUMEC, 2008.

Territórios aglomerados: design e extensão universitária

No ano de 2006 foi realizado o projeto Artesanato Solidário no Barreiro. A capacitação em artesanato e design foi voltada para grupos de terceira idade, no intuito de promover a melhoria da qualidade dos produtos artesanais já desenvolvidos pelos núcleos produtivos existentes na região do Barreiro. A partir da proposta de criação de uma coleção de almofadas e, contando com diversas instituições parceiras (Prefeitura Municipal de Belo Horizonte; UNITEC— Nova Zelândia; ASTIB — Associação da Terceira Idade do Barreiro; entre outros), um plano de capacitação com aulas, palestras, visitas técnicas e oficinas foi oferecido para aproximadamente 30 beneficiárias. Ao final da capacitação foi lançado um catálogo do projeto contendo a metodologia e as almofadas desenvolvidas.2 A equipe também participou, em janeiro e julho de 2007, de expedições do projeto RONDON, realizado pelo Ministério da Defesa. Por meio de diversas ações nas cidades de Assis Brasil e Jequitaí, buscou-se desenvolver um processo de capacitação em artesanato como forma de geração de renda para as comunidades, utilizando-se de metodologia específica para ação de transformação dos processos produtivos em curto prazo. A força expressiva dos produtos foi resultado de um trabalho que revelou tanto as singularidades de cada um dos artesãos quanto a contaminação mútua de um intenso trabalho coletivo.

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técnico e criativo dos beneficiários, assim como oficinas que visem o estabelecimento de um processo integrado e sustentável de planejamento, gestão e produção de objetos com alto valor agregado entre os três núcleos. A equipe do ASAS se tornou verdadeiramente multidisciplinar e conta com alunos e professores dos cursos de Design de Interiores, Design de Moda, Design Gráfico, Arquitetura, Engenharia Ambiental, Psicologia, Administração e Ciências Contábeis, o que garante uma maior diversidade de ações como também um aprendizado mais rico e colaborativo.

Com o apoio da Universidade FUMEC e da FUNADESP, também foi desenvolvida, em 2007, a pesquisa de iniciação científica Artesanato Urbano, com o qual pôde-se mapear alguns importantes projetos de capacitação em artesanato e design no Brasil. O objetivo principal foi analisar os projetos da forma mais completa, desde a concepção metodológica e o plano de sustentabilidade das ações e produtos, passando pelos resultados da capacitação (produtos), até a etapa de inserção dos grupos produtivos no mercado, buscando verificar a eficácia da atuação dos designers junto às comunidades de artesãos e entender até que ponto os projetos empoderavam realmente seus beneficiários.

Além disto, iniciou-se também em 2010 a pesquisa Desenvolvimento de Tecnologia Social para realização de projetos de capacitação em artesanato e design tendo o projeto ASAS_aglomeradas como estudo de caso. Esta pesquisa pretende avaliar a metodologia utilizada nos projetos de capacitação, principalmente no ASAS_aglomeradas, para que se possa criar diretrizes para novos projetos. O objetivo desta pesquisa é investigar o processo criativo, coletivo e colaborativo desenvolvido, e parte da hipótese de que é possível identificar e listar características e procedimentos que contribuam positivamente para capacitar e formar multiplicadores do conhecimento adquirido.

Além da atuação em pesquisa e extensão, durante este processo de constituição de projetos, surgiu uma forte demanda por parte dos alunos da graduação por uma disciplina que pudesse oferecer um instrumental teórico contendo uma abordagem crítica na construção de projetos e desenvolvimento de projetos nesta área. Criou-se então a disciplina optativa Artesanato e design — visando instigar a reflexão teórica sobre a relação entre design, artesanato e arte, construindo um panorama atualizado sobre as principais ações brasileiras relevantes neste campo. Também tem sido objetivo desta disciplina preparar o aluno de design para que ele possa se tornar um profissional com potencial ativo para atuar em programas de capacitação em artesanato e em projetos de gestão cultural com caráter social.

Princípios

Também durante o ano de 2007 iniciaram-se as atividades do projeto ASAS_ aglomeradas. Como reconhecimento do trabalho e das metodologias de reposicionamento social desenvolvidas através de programas de ensino, pesquisa e extensão na Universidade FUMEC, o projeto ASAS ficou entre os dez premiados dos 212 inscritos no concurso Banco Real Universidade Solidária, com o tema Desenvolvimento Sustentável com ênfase em Geração de Renda. O prêmio de 40 mil reais foi um incentivo para a implementação do plano de capacitação ao longo de um ano. No ano de 2009, a parceria foi renovada e o projeto ASAS recebeu mais R$ 40 mil para complementar as atividades e adquirir novos equipamentos para a oficina de estamparia construída no Aglomerado da Serra. Um primeiro catálogo indexado foi lançado contendo artigos dos professores envolvidos, assim como a metodologia utilizada no projeto, depoimento dos alunos, funcionários e dos artesãos capacitados, além dos produtos da primeira coleção desenvolvida.

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(...) in the last three centuries, the word ‘craft’ has changed its meaning; in the eighteenth particular way of making things but rather a way of doing things, especially in politics. In some applications, (...) the phrase ‘the craft’ had (and still retains) the meaning of power and secret knowledge. (DORMER, 1997, p.5)

Atualmente o ASAS se tornou uma rede criativa e produtiva no Aglomerado da Serra e possui três projetos em andamento: o ASAS_aglomeradas, iniciado em 2007, que possui uma oficina completa de estamparia e uma equipe de artesãos capacitados em estamparia, encadernação e costura; o ASAS_meninas do cafezal, iniciado no segundo semestre de 2010, que é um dos núcleos produtivos da rede que foca no desenvolvimento de peças de moda à partir de modelagem, costura e bordado experimentais, além de possuir um núcleo de produção gráfica e outro de modelo e produção de moda; o ASAS_serra de bambu que possui artesãos capacitados no plantio e manejo do bambu, bem como na construção de móveis e produtos à partir do bambu “in natura”. No segundo semestre de 2010 iniciou-se um novo ciclo de capacitação para efetivar a criação de uma rede produtiva englobando os três projetos. Acredita-se que esta nova configuração irá dar mais visibilidade às ações e ampliar o mercado e o valor agregado dos produtos desenvolvidos, além da diversificação das peças e do aumento do número de artesãos envolvidos. O ASAS pretende realizar atividades de capacitação voltadas para o empoderamento

(...) nos últimos três séculos a palavra “artesanal” teve seu sentido modificado; no século XVIII era, mais do que um modo particular de construir coisas, uma maneira de conduzi-las, especialmente na política. Em alguns de seus empregos (...) a expressão “a arte” tem (e mantém ainda) o significado de poder e conhecimento secreto. (DORMER, 1997, p.5, tradução nossa).3 Acredita-se que o artesanato é uma atividade com um elevado potencial no conjunto de ações que incentivam a elaboração de políticas para geração de renda e inclusão social. O design, aliado ao artesanato, pode estabelecer-se como eixo estratégico no desenvolvimento dos territórios, empoderando comunidades em estado de vulnerabilidade social e promovendo sua autonomia criativa e de gestão. Agenciar novas produções colaborativas de artesanato em locais onde não havia uma cultura de técnicas de criação e de produção artesanal foi, e continua sendo, um dos grandes desafios deste projeto. Utilizando-se um conceito amplo de Design Social, inserido no raciocínio do conceito de Tecnologia Social, desenvolveu-se uma metodologia de criação que incitasse o trabalho coletivo e colaborativo, articulando processos inovadores que resultassem na construção de objetos contendo fortes características locais. O incentivo à elaboração de produtos com alto valor agregado surge em paralelo com o crescimento de um mercado de consumo responsável, que valoriza cada vez mais produtos com propostas estéticas contemporâneas alinhadas às tendências do universo do design sustentável e, ao mesmo tempo, produzido por comunidades de artesãos locais. Acredita-se que os processos de criação, quando bem estruturados, possam incentivar a coletividade, possibilitando a união dos grupos e a capacidade de trabalho colaborativo. Sabe-se que em comunidades muito vulneráveis socialmente é bastante difícil desenvolver um trabalho de integração devido às diferenças sociais vigentes. Como não existem metodologias publicadas e conhecidas de procedimentos coletivos e colaborativos em design e artesanato, pensa-se que é papel da universidade registrar, organizar, analisar e desenvolver informações que possam construir novas tecnologias sociais que auxiliem em projetos envolvendo design e geração de renda.


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Os favelados, embora sejam apenas 6% da população urbana dos países desenvolvidos, constituem espantosos 78,2% dos habitantes urbanos dos países menos desenvolvidos; isto corresponde a pelos menos um terço da população urbana global. (DAVIS, 2006, p. 34) O desenvolvimento de projetos socioambientais no Aglomerado da Serra é a proposta de um dos programas de extensão priorizados pela Universidade FUMEC, principalmente pelo fato de estar territorialmente próximo ao campus universitário. Portanto, a escolha do local para a realização deste projeto faz parte de uma estratégia acadêmica criada pela gestão da pesquisa e da extensão em nossa universidade.

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Localizado dentro da região sul da cidade, em um dos setores residenciais de mais alto poder aquisitivo da cidade de Belo Horizonte, onde também se encontra a Universidade FUMEC.

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Rua Coronel Jorge Dário, s/número. CEP 30240-560, Bairro Novo São Lucas, Belo Horizonte.

O local e a comunidade

Dentro da comunidade escolhida, o conjunto de vilas e favelas de Belo Horizonte denominado Aglomerado da Serra 4 o foco da ação foi na Escola Municipal Padre Guilherme Peters.5 A escola pertencente à Vila Novo São Lucas tem procurado parcerias para que seus alunos possam se apropriar de novos conhecimentos e tecnologias que os ajudem a enfrentar novas dinâmicas educacionais e de trabalho. Além de possuir turmas de alunos da Educação Infantil até a nona série do Ensino Fundamental, possui também, no turno da noite, turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Muitos programas parceiros têm aberto novos horizontes para esses alunos, que em sua maioria estão distantes de exercer uma atividade econômica por falta de capacitação específica.

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O projeto Vila Viva da Prefeitura de Belo Horizonte, considerado um dos maiores projetos de urbanização de favelas do país no momento, se propõe a urbanizar o conjunto de vilas, ligando diretamente, através de grandes vias asfaltadas, duas regiões da cidade. Mesmo que haja um investimento na melhoria das condições de vida da população local e na sua inserção definitiva no cenário urbano formal, seria preciso repensar a real questão que impossibilita com que muitos moradores do lugar não tenham acesso ao mercado de trabalho. A educação para todos e a capacitação profissional deveriam ser a base de qualquer projeto de inclusão social. Simplesmente oferecer melhores condições de habitabilidade (o que é inclusive bastante questionável quando se vê o tipo de moradia que a prefeitura oferece aos moradores deslocados de suas residências originais 6) não gera espontaneamente novas condições de trabalho e dinâmicas sociais mais justas. A região onde se encontra a Escola Municipal Padre Guilherme Peters, é bastante afastada dos principais pontos de urbanização, determinando indiretamente um menor investimento na escola e em obras na sua adjacência. Esta situação acaba por gerar um desnível de oportunidades dentro do próprio aglomerado, acentuando ainda mais as questões ligadas ao desemprego, violência e exclusão social.

O Aglomerado da Serra possui uma grande dimensão 7, o que dificulta ações eficazes em todo o seu território de combate aos diversos focos de violência e de disputas territoriais de grupos ligados ao tráfico de drogas. A ênfase da proposta em escolas municipais, começando com um projeto piloto em uma escola específica, propõe a ação em um campo fértil, o dos jovens em formação. A falta de infraestrutura, recursos materiais e capital humano nas escolas municipais são ainda um grande empecilho para que essas unidades sustentem projetos de inserção econômica e capacitação profissional adequados à realidade social e às demandas do mercado de consumo e serviços hoje, e portanto, parcerias com universidades podem auxiliar, e muito, na implementação de projetos de extensão que renda frutos evidentes, inclusive à curto prazo.

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O aglomerado possuía em 1999, segundo dados da URBEL, uma população total por volta de 37.641 habitantes, mas segundo a Secretaria de Desenvolvimento Social, 45.920 pessoas e, segundo o jornal Estado de Minas, 160.000 habitantes.

A militância atual é uma atividade positiva, construtiva e inovadora. Esta é a forma pela qual nós e todos aqueles que se revoltam contra o domínio do capital nos reconhecemos como militantes. Militantes resistem criativamente ao comando imperial. Em outras palavras, a resistência está imediatamente ligada ao investimento constitutivo no reino biopolítico e à formação de aparatos cooperativos de produção e comunidade. Eis a grande novidade da militância atual: ela repete as virtudes da ação insurrecional de duzentos anos de experiência subversiva, mas ao mesmo tempo está ligada a um novo mundo, um mundo que não conhece nada do lado de fora. Ela só conhece o lado de dentro, uma participação vital invevitável no conjunto de estruturas sociais, sem possibilidade de transcendê-las. Esse lado de dentro é a cooperação produtiva da intelectualidade das massas e das redes afetivas, a produtividade da biopolítica pós-moderna. Essa militância faz da resistência um contrapoder e da rebelião um projeto de amor. (HARDT & NEGRI, 2001, p. 436)

O projeto Vila Viva nem terminou e já é possível assitir à gentrificação do contexto imediato. Conjuntos residenciais de altissimo luxo já são planejados e se instalam em quarteirões inteiros nas proximidades do Aglomerado da Serra.

Por fim, acredita-se que seja necessário introduzir outras formas de lidar com o design que possibilitem novos parâmetros para a consolidação da produção de um campo expandido para esta disciplina, para além do tecnicismo e do mercado de produção em massa, incentivando um desenvolvimento contaminado pelo cotidiano, pela arte, pela arquitetura, pelo urbanismo, e que possa existir de uma maneira mais social e política, criando um ambiente para a existência de um design mais engajado e militante:

Na última pesquisa para a Prova Brasil o índice socioeconômico no aglomerado foi de 1.1 numa escala de 1 a 5. Além disso, outra justificativa para a escolha da Escola Municipal Padre Guilherme Peters como local de atuação é que essa foi uma das duas escolas de mais baixo índice socioeconômico da cidade, revelando uma enorme necessidade de melhorar a sua infraestrutura e estabelecer parcerias externas que complementem o processo educativo e respondam às demandas que a escola não pode atender sozinha.


Objetivos O território, hoje, pode ser formado de lugares contíguos e de lugares em rede. São, todavia, os mesmos lugares que formam redes e que formam o espaço banal. São os mesmos lugares, os mesmos pontos, mas contendo simultaneamente funcionalizações diferentes, quiçá divergentes e opostas. Esse acontecer simultâneo tornado possível graças aos milagres da ciência, cria novas solidariedades: a possibilidade de um acontecer solidário, malgrado todas as formas de diferença, entre pessoas, entre lugares. (SANTOS, 1994, p.16) O objetivo geral do projeto se constrói à partir do desenvolvimento de tecnologias sociais (TSs) reaplicáveis que, segundo Lassance e Pedreira (2004, p. 66), podem ser definidas como um “conjunto de técnicas e procedimentos, associados a formas de organização coletiva, que representam soluções para a inclusão social e melhoria da qualidade de vida”. Baseadas na intersecção de ensino, pesquisa e extensão em design social e buscando promover autonomia criativa e produtiva de forma sustentável nas comunidades envolvidas, tais tecnologias consolidam a metodologia do projeto e incitam discussões que subsidiam políticas acadêmicas para uma prática atrelada à necessidade de um real empoderamento dos beneficiários. Além disto, demandam um grande número de alunos capacitados para atuar de forma mais colaborativa e menos autoral, proporcionando uma mudança de paradigma no meio acadêmico. Existe uma enorme necessidade de desenvolvimento de parâmetros teóricos que possam nortear as ações no sentido de valorizar, para além do empoderamento econômico por si só, a identidade cultural de grupos e comunidades locais, promovendo a melhoria da qualidade de vida das pessoas envolvidas, assim como potencializando a construção de uma identidade cultural compatível com o território e a época em que se produz o artefato. Agregar valor aos produtos através da coleta de informações que nutram a criação de iconografias, que revelem nos produtos a localidade e a cultura de comunidades específicas faz parte do eixo metodológico adotado. Para que isto aconteça, ao longo de todo o processo, realizamos pesquisas sobre design, artesanato, arte contemporânea e outras manifestações de capacitação em artesanato e design que apresentem como parâmetros da produção nacional e internacional e possam auxiliar nas metodologias de criação e desenvolvimento de produtos.

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Como estes processos de capacitação que envolvem aulas teóricas intercaladas com oficinas criativas e técnicas são frutos de intensas pesquisas, realizam-se textos para publicação indexada, nos quais os alunos são incentivados a pensar e pesquisar temas importantes para o universo do design contemporâneo e, principalmente, que envolvam a produção deste outro design, que transcenda o raciocínio positivista e industrial vigente na academia e que se encontre na interface com parâmetros de responsabilidade social através do estabelecimento de vínculos com a comunidade, conectando de forma intensa as atividades de ensino, pesquisa e extensão.

Temas abordados durante a capacitação acabaram por contribuir para o bom desempenho das atividades de campo, e entre eles se destacaram o desenvolvimento do trabalho coletivo focado em ações colaborativas, culminando em um processo mais organizado e produtivo e também na conscientização dos artesãos e alunos bolsistas da importância deste tipo de dinâmica de trabalho (tanto no processo criativo e produtivo quanto nos processos de gestão e planejamento). Tais temas também reafirmaram a relevância do empoderamento dos beneficiários e dos próprios alunos, obtendo como resultado processos de pesquisa e criação mais dinâmicos, mais democráticos e também mais inovadores sobre a percepção dos territórios subjetivos da favela (cidade informal) e da cidade formal como um todo. Estas discussões alimentaram tanto os temas das coleções, como o aprendizado coletivo em relação às formas como nos relacionamos com estes territórios desconhecidos e pouco experimentados por quem mora e vive na cidade formal.

Indicadores e avaliação dos resultados Para finalizar seria fundamental falar um pouco de como os indicadores de avaliação constituem um aspecto muito importante na constituição da metodologia do ASAS. Esses fizeram parte constantemente da relação estabelecida com a equipe do UNISOL/SANTANDER durante o acompanhamento das ações do projeto ASAS_aglomeradas nos anos de 2008 e 2009. Incorporados de forma definitiva ao cronograma de atividades, a elaboração continuada dos indicadores enquanto parâmetro de avaliação de processos e resultados se tornou uma ferramenta crucial para o direcionamento das propostas de atuação, embasando as decisões e comprovando a eficácia ou não de tais procedimentos. Entre os principais indicadores do ASAS encontra-se a autonomia dos beneficiários e alunos, promovida através de ações que visam a consolidação dos grupos de forma coletiva e colaborativa. A autonomia dos beneficiários em relação à criação, produção e contato com clientes e fornecedores se faz tão importante quanto a formação de uma equipe executora de alunos pró-ativos e dispostos a se apropriar das estruturas e práticas do projeto ASAS. A partir da valorização das potencialidades individuais, propõe-se constituir grupos múltiplos que se fortaleçam por meio do desdobramento dos conhecimentos adquiridos e da autoria coletiva da produção. Outros indicadores também relevantes durante o desenvolvimento do projeto são a melhoria da qualidade de vida dos beneficiários diretos (participantes das oficinas) e indiretos (familiares, amigos e demais membros da comunidade), tendo como referência: qualidade dos produtos desenvolvidos (avaliação dos lojistas e dos próprios beneficiários em relação ao acabamento e ao produto como um todo); a ampliação do repertório e o olhar crítico sobre a criação; divulgação do projeto; e, finalmente, a consolidação de novas parcerias que viabilizem a continuidade dos processos de capacitação.

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A equipe executora do projeto se pautou constantemente pelo incentivo em ações colaborativas como possibilidade de trabalho, através de metodologias que incentivassem a autoria coletiva dos produtos. Percebeu-se que, de maneira indireta, estas práticas colaborativas reforçam a ideia de grupo reafirmando uma identidade local, que, mesmo sendo híbrida e multifacetada, auxilia na consolidação de uma equipe criativa e produtiva mais coesa. A partir da utilização de tais metodologias experimentais, ficou clara a importância da construção de novas estratégias de invenção para serem realizadas em projetos de capacitação em artesanato e design, tanto para o grupo de alunos (que precisam trabalhar coletivamente e pensar nas estratégias de ação do projeto como um todo), quanto para o grupo de beneficiários (que precisam entender a necessidade e a potencialidade que o trabalho coletivo pode trazer para a iniciativa).

Metodologia Essa definição que busca o desenvolvimento sustentável opõe-se ao modelo de desenvolvimento dominante, que promove a fusão de empresas, a concentração do capital e da renda, o aumento da desigualdade social, a exclusão social, a segregação urbana, (...). Mesmo nas épocas em que houve crescimento, não se reduziu a desigualdade. (...) queremos um desenvolvimento que beneficie a grande maioria da população; queremos um desenvolvimento com distribuição de renda; queremos um desenvolvimento que seja um projeto identificado com as aspirações da população e sustentado por ela. (BAVA, 2004, p. 110)8

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LASSANCE JÚNIOR, A. E.; PEDREIRA, J. S. “Tecnologias sociais e políticas públicas” In: Tecnologia social – uma estratégia para o desenvolvimento. Fundação Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 2004.

O processo de capacitação da equipe constitui parte fundamental da metodologia e se faz em um processo continuado que ocorre durante todo o período do projeto. Durante as reuniões semanais, as discussões propostas envolvem, além de questões relacionadas aos problemas cotidianos, o embasamento teórico da proposta e a contextualização das ações realizadas pelo projeto. A troca de experiências, informações e referências durante estes processos consolidam os parâmetros das ações (de ensino, de construção da coletividade, da proposição de maneiras de gestão do grupo na favela, dos eventos realizados, etc.), viabilizando o estabelecimento de relações e propostas diferenciadas. A coordenação, no entanto, precisa ter consciência de seus limites, observando quando é necessário agir firmemente e quando deixar que os alunos, junto à comunidade, tomem decisões e direções nas atividades. Este é um limite tênue e extremamente difícil de ser atingido pelo professor, porque devido ao sistema convencional de ensino no qual a maioria dos participantes foi formado, há, em geral, uma relação forte de hierarquia e centralização por parte da coordenação. Tendo a coordenação assumido este posto de supervisão e orientação do processo, permitindo um maior engajamento e autonomia dos alunos, estes últimos podem então participar mais diretamente da capacitação dos artesãos na favela, propondo direcionamentos e delineando estratégias para o próprio projeto. Desta forma, consegue-se compor um grupo de alunos presente e atuante, destacando-se por iniciativas responsáveis e eficazes para o avanço do trabalho em direção aos objetivos propostos. Ressalta-se aqui que, para capacitar alunos de design para trabalhar nesta interface com artesanato, é necessário rever a maneira na qual o estudante de design é incentivado durante o tempo todo na academia a possuir um trabalho autoral. Esta ideia precisa ser diluída em projetos com foco em criação e gestão colaborativa para que os alunos compreendam na prática as dificuldades de se trabalhar com o outro nestes processos que visam o desenvolvimento de estratégias de negociação e troca de conhecimento. É, para a maioria dos alunos que entram no grupo, uma novidade e um desafio ter como objetivo aprender com o outro, trocar experiências, negociar procedimentos para que possam surgir produtos que sejam realmente consequência de uma subjetividade coletiva, já que esta só se produz no embate cotidiano de ideias entre pessoas com origem social, cultural e econômica tão diversas.

Conclusão Por fim, acredita-se que seja necessário inventar outras formas de lidar com o design que possibilitem novos parâmetros para a consolidação da produção de um campo expandido para esta disciplina, para além do tecnicismo e do mercado de produção em massa, incentivando um desenvolvimento contaminado pelo cotidiano, pela arte, pela arquitetura, pelo urbanismo, e que possa existir de uma maneira mais social e política. Um dos pontos importantes a se compreender é que, em projetos sociais desta natureza, os discursos idealistas e utópicos, mesmo que muito bem intencionados, são extremamente difíceis de serem realizados. É preciso coragem e perserverança porque a complexidade do encontro entre vidas com dinâmicas cotidianas tão diversas está presente em todos os momentos do trabalho. Mesmo que seja fundamental pensar um projeto (ideal) com diagnóstico, objetivos, metodologia, cronograma, não há garantia alguma de resultados eficazes a curto prazo. O inesperado é uma constante, sendo assim necessário que haja uma flexibilidade enorme nas ações e uma compreensão da necessidade de se reinventar os processos lidando constantemente com frustrações, e criando novas situações para as novas realidades que se apresentam. Para finalizar, pretende-se dizer que em casos de projetos de extensão universitária, nos quais quase sempre existe uma relação cotidiana com uma comunidade em estado de vulnerabilidade social, é preciso estar atento a todo momento ao perigo do estabelecimento de relações de poder entre os alunos e professores universitários (designers) e os artesãos da comunidade. É necessário entender que o trabalho envolvendo realidades sociais díspares deve estabelecer um ambiente de troca de experiências de vida e de conhecimento. Acredita-se na potência de invenção latente nas relações geradas pela fricção entre o erudito e o conhecimento popular. Muitos resultados positivos do ponto de vista coletivo, social e pessoal, são difíceis de mensurar, mas precisam também serem mapeados e agregados aos resultados qualitativos positivos dos projetos.

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Belo Horizonte, estabelecimentos comerciais como a loja Grampo, a galeria Quina ou o Café com Letras, ou confecções de moda como a Raíz da Terra, além dos alunos, professores, membros da comunidade envolvidos, todos ganham neste processo de troca que deve ser equilibrado, gerando benefícios a todos, não num sentido capitalista exclusivamente do termo, mas num sentido mais amplo, que engloba a generosidade e a solidariedade humana dentro de um movimento de tradução, invenção e formulação de tecnologia social. Pretende-se gerar, através do encontro de instituições, profissionais e pessoas de realidades sociais e culturais diversas, atos que se dão como biopotência, que resiste aos mecanismos do biopoder estabelecido pelas relações perversas do capital contemporâneo, mesmo que como no caso do ASAS envolvendo parceiros que são evidentes representantes do capital, desde que todos ganhem com isto. Uma nova forma de militância criativa, um outro design. Todos e qualquer um inventam, na densidade social da cidade, na conversa, nos costumes, no lazer — novos desejos e novas crenças, novas associações e novas formas de cooperação. (…) Todos e qualquer um, e não apenas os trabalhadores inseridos numa relação assalariada, detêm a força-invenção, cada cérebro-corpo é fonte de valor, cada parte da rede pode tornar-se vetor de valorização e de autovalorização. Assim, o que vem à tona com cada vez maior clareza é a biopotência do coletivo e a riqueza biopolítica da multidão. (PELBART, P. P., 2003, p.139) O objetivo essencial deste tipo de projeto realizado pelo ASAS é também estabelecer uma rede de trocas desierarquizada e compreender que todos aprendem e ampliam os seus horizontes ao longo destas experiências. Nestes projetos de extensão, a consciência da atuação política deve ser evocada a todo momento para que a construção das tecnologias sociais não aconteçam de forma consciente apenas no nível técnico e burocrático, que é um risco evidente dentro das estruturas acadêmicas. Alguns movimentos, iniciativas e campanhas reúnem-se em torno do princípio da igualdade, outros em torno do princípio da diferença. A teoria da tradução é o procedimento que possibilita a sua mutual inteligibilidade. Tornar mutuamente inteligível significa identificar o que une e é comum a entidades que estão separadas pelas suas diferenças recíprocas. (SANTOS, B. S., 2006, p.198) Segundo Boaventura de Souza Santos, a construção do cosmopolitismo, que se assenta no procedimento de tradução, requer uma inteligibilidade mutual que é pré-requisito do que o autor chamaria “a mistura, autorreflexiva e interna, da política da igualdade e da política da diferença no seio dos movimentos, das iniciativas, das campanhas ou das redes.” (SANTOS, 2006, p.198) O autor trata aqui do que ele chama de luta contra-hegemônica, que são práticas de maninfesto, ou programas claros e inequívocos, de alianças que são possíveis porque baseiam-se em denominadores comuns, objetivos comuns, e que são mobilizadoras porque produzem uma ação positiva, isto é, porque conferem vantagens específicas a todos os que participam nelas em função do seu grau de participação. E é nesta consciência das vantagens para todos os atores envolvidos no processo que o trabalho do ASAS vem sendo realizado. Parceiros instituicionais como UNISOL/SANTANDER, Escola Municipal Pe. Guilherme Peters, Universidade FUMEC, Prefeitura Municipal de

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Referências bibliográficas BAVA, Silvio Caccia. Tecnologia Social e Desenvolvimento Social. In: Tecnologia social: uma estratégia para o desenvolvimento. Fundação Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 2004. DAVIS, Mike. Planeta Favela. São Paulo: Boitempo, 2007. DELEUZE, Gilles. A ilha deserta. São Paulo: Iluminuras, 2006. DORMER, Peter. The Salon de refuse. In: DORMER, P. (org.). The Culture of Craft. NY: Manchester University Press, 1997. HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Império. Rio de Janeiro: Record, 2001. LASSANCE JÚNIOR, Antonio E.; PEDREIRA, Juçara Santiago.Tecnologias sociais e políticas públicas. In: Tecnologia social – uma estratégia para o desenvolvimento. Fundação Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 2004. PELBART, Peter. Paul. Vida Capital: ensaios de biopolítica. São Paulo: Iluminuras, 2003. SANTOS, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo. Para uma nova cultura política. São Paulo: Corteza, 2006. SANTOS, Milton. O retorno do território. In: SANTOS, M; SOUZA, M. A. de; SILVEIRA, M. L. Território: globalização e fragmentação. São Paulo: Hucitec, 1994.

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instituiçþes parceiras


Universidade FUMEC BH

Diretoria geral da FEA/FUMEC Prof. Luiz de Lacerda Júnior

O princípio da conectividade nos coloca diante da noção de comunidade de aprendizagem. Nem o estudante e nem a Universidade são entidades isoladas, ao contrário, encontram-se em relação com seus pares, com a comunidade educativa e com sua comunidade ampliada que é a humanidade. Diante de uma sociedade voltada para o culto ao individualismo e à competitividade, não é difícil perceber a insustentabilidade das formas atuais de produção e os consequentes transtornos causados nos meios ambientes, econômicos e sociais. O paradigma vigente é concentrador de riqueza e distribuidor de injustiças sociais. Diante disso, nunca foi tão importante e urgente pensar e repensar a ética, enquanto campo de ação/reflexão e intervenções no mundo, capaz de operar mudanças de valores e de condições cotidianas de existência, de abrir-se para o encontro solidário com o outro enquanto diferença e apostar num futuro melhor para a vida da terra e na terra.

As demandas do nosso tempo são tão urgentes e graves que apontam para a importância de reafirmar o papel da Universidade e de fortalecer sua conectividade com as necessidades da nossa sociedade e do nosso planeta através do ensino, da extensão e da pesquisa . Promover o engajamento de seu corpo docente e discente com as causas sociais desperta em todos um profundo sentido de responsabilidade social, pois os caminhos e as transformações começam a surgir a partir do comprometimento individual com a construção de elos para uma cidadania em cadeia, que visa assegurar o direito ao presente e ao futuro. É papel da Universidade adotar uma postura profundamente crítica e construtiva em favor do desenvolvimento de uma ética planetária, possibilitando ao aluno formar uma atitude de ruptura ante o estabelecido, e tecer um projeto de vida, individual e coletiva, muito mais digna e bonita. O projeto ASAS — Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra — representa mais um elo na construção desta cadeia na medida em que através da arte e do artesanato promove o resgate cultural, a preservação de saberes, tradições, tecnologias, além de contribuir com a geração de renda e emprego, promovendo a integração social e o resgate da cidadania da população pobre. Trabalhar eticamente é exatamente isto: agir com clareza, cuidar com sensibilidade, sentir o coração secreto das coisas, produzir encantamento, dar cor, sabor, ritmo e tonalidade às vidas humanas, inaugurando em nós mesmos e no outro um novo jeito de ser e de viver no mundo.

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Coordenadoria do setor de extensão da Universidade FUMEC Prof. Osvaldo Manoel Corrêa

Um ciclo de vida compreende fecundação, germinação, gestação, nascimento, maturação. Pequenas histórias, individuais ou de grupos, dentro da grande história do mundo. Fases de um passado se fazem presentes num ser vivo, potencializado e resultante de tempo e no tempo. No caso, após um longo ritual de passagem, moradores da comunidade Vila Ponta Porã, em Belo Horizonte, veem registradas suas Táticas de Sobrevivência (2003/2004) neste Catálogo como num espelho revelador de sonhos e de resultados, e de realizações a partir do enorme potencial de cidadãos comuns. O acervo é enriquecido com um vasto levantamento de inventos, objetos e produtos do cotidiano da própria comunidade. Do Sempre Savassi Design e Cultura (2005/2006) e da articulação entre pesquisa e extensão nasceu o Primeiro Catálogo que mais tarde viria a ser “uma série”: Artesanato Solidário no Barreiro (2006/2007), em que a Coleção 9 + 1 registra a história de vida de cada artesã e conquista seu registro no Segundo Catálogo. Antes de chegar ao Aglomerado da Serra, o projeto ASAS realizou uma passagem pelo projeto Rondon em Assis Brasil (AC) e em Jequitaí (MG). Naquela cidade do Acre foram trabalhadas oficinas de capacitação em artesanato e design de produtos e mobiliários de bambu. Na cidade mineira de Jequitaí, uma coleção de almofadas registra a historicidade e a vida da comunidade. Toda caminhada exige parada para descanso e reabastecimento, e intervalos para reflexão sobre o já realizado e para a articulação de novas metas. Num desses ínterins, foi cadastrado, no CNPq, o grupo de pesquisa com interface em extensão sobre a temática “Diferenças: Arte, Design, Arquitetura”. Uma exposição realizada, em Inhotim, foi um fruto maduro da experiência em Jequitaí.

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Assim, em 2007/2008, depois de longa viagem e voos de maturação com diversos nomes, faces e interfaces, o projeto ASAS faz seu ninho no Aglomerado da Serra para gerar formas de empoderamento. E, entre uma parceria aqui, Universidade FUMEC e Unisol (Banco Real/Santander), e outra ali, FUMEC e a Escola Municipal Padre Guilherme Peters, jurisdicionada à Vila Novo São Lucas, foi possível, no espaço intramuros da universidade, realizar oficinas de serigrafias, encadernação, de corte e costura num feliz casamento entre o teórico/prático acadêmico e a prática/vivencial comunitária. E, no extramuros, a possibilidade de novos saberes para nossos alunos fora do seu status social. O encontro com uma nova realidade é sempre oportunidade de novos aprendizados e de grandes transformações em nosso ser. Toda essa rica experiência compartilhada poderá ser apreciada no Terceiro Catálogo. O Quarto Catálogo traz novos ganhos e aprendizados para a Universidade, Comunidade e Parceiros na Ação de Extensão. Não é possível enumerar, numa Apresentação, todos esses ganhos e aprendizados. Cumpre, porém, destacar, em primeiro lugar, o trabalho

coletivo focado em ações colaborativas, que culminou em um processo mais organizado e produtivo e também na conscientização dos artesãos, alunos bolsistas e professoras da importância desse tipo de dinâmica de trabalho. Em segundo lugar, além dessa dimensão coletiva, o surgimento de resultados, como consciência de grupo, melhoria da qualidade de vida, olhar crítico sobre a produção e criação, crescente autonomia em relação ao contato com clientes, fornecedores e novos parceiros, empoderamento já incorporado pelos alunos, aglomeradas, professoras e a associação como sendo de um só compartilhamento comunitário. Nossos alunos enriqueceram em escala, nesta ação de extensão, a produção de textos, transmitindo novos saberes adquiridos na prática e, principalmente, puderam dirigir um novo olhar sobre a existência humana projetando-o na sua vida assim como no fazer profissional. Nossas professoras reaprenderam a relevância do papel de coordenar, ou seja, mais do que conjugar esforços, conciliar diferenças, ser responsável por um setor ou equipe de produção de artesanato e design, elas fizeram acontecer um aprendizado eficaz a partir da convivência, graças a um gratificante trabalho a vislumbrar novas oportunidades de vida e diferentes dinâmicas sociais. Que este novo Catálogo não seja o início do fim, mas o fim do começo de uma nova era de empoderamento e consciência coletiva a ser vivida por toda a equipe a partir dessas ações de extensão, em suas vidas, como

também, pelos parceiros, clientes, e, numa dimensão verdadeiramente histórica, pelos moradores do Aglomerado da Serra. Serra, em sentido figurado, designa uma cadeia de montanhas com muitos picos e quebradas; aglomerado, sementeira de possibilidades nem sempre potencializadas, pode ser um somatório, uma soma de soma de intervenções positivas mais do que de ações beneficentes. É a Universidade FUMEC, mais do que trabalhando intramuros, trabalhando também, com responsabilidade social, toda a área circundante de seu entorno geográfico e social. Isto é fazer extensão.


UniSol - Universidade Solidária SP

UniSol e Grupo Santander Em uma comunidade as atividades de cada indivíduo estão sempre interligadas de alguma maneira. Quando um se beneficia, é muito provável que o próximo seja envolvido. Assim, os projetos sociais que se baseiam em parceria de benefícios mútuos formam “pequenas células de multiplicadores” nessas comunidades, promovendo a autossustentabilidade. Acreditando nisso, o Programa UniSol e o Grupo Santander Brasil apoiaram o projeto ASAS — Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra — vencedor do 11º Concurso Banco Real Universidade Solidária. Executado pela Universidade FUMEC, o projeto ASAS é um exemplo de iniciativas que contribuem para fortalecer a extensão universitária, evidenciando a poder da relação transformadora entre universidade e sociedade e a integração com o ensino e a pesquisa. Criado em 1996, o concurso Banco Real Universidade Solidária, agora com o nome de Prêmio Santander Universidade Solidária, atua por meio de parcerias para atingir três grandes objetivos: contribuir para a formação cidadã dos jovens universitários, proporcionando ao estudante, pela prática na comunidade, a oportunidade de rever e trabalhar sistemicamente os conhecimentos adquiridos na universidade; colocar o conhecimento das universidades à disposição das comunidades, de forma a

contribuir para a melhoria de suas condições de vida; e apoiar a extensão universitária, estimulando a troca de conhecimentos e a inserção na comunidade. Esta iniciativa apoia a implementação de projetos sociais com a participação de Instituições de Ensino Superior (IES) brasileiras, trabalhando na construção de soluções locais de desenvolvimento sustentável e comunitário, e disseminado valores de cidadania e de responsabilidade social aos jovens universitários — futuros profissionais do país. Em 14 anos de atuação, o concurso já mobilizou 94 IES, 1.340 estudantes, 178 professores e beneficiou direta e indiretamente mais de 4 mil pessoas em todo Brasil, a partir da interação entre o conhecimento acadêmico e o popular.

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Escola Municipal Padre Guilherme Peters BH

Diretoria da Escola Municipal Padre Guilherme Peters Márcia Libânio Teixeira

A escola Municipal Padre Guilherme Peters está situada dentro do Aglomerado da Serra — local de vulnerabilidade social — e a nossa missão é a de oferecer a melhor educação aos nossos alunos, o que muitas vezes é dificultado pela história de vida e de falta de perspectiva das famílias em relação a suas crianças e adolescentes. Este projeto oferecido e realizado pela Universidade FUMEC e pela Unisol, juntamente com o Banco Real, ofereceu um movimento na comunidade para que se tornassem construtores de sua independência. Nós já percebemos o quanto as aglomeradas se tornaram cidadãs do mundo — já estão se organizando para comprar uma casa, viajam de avião, conheceram outros estados e ganham seu dinheiro com seu trabalho digno e criativo que se tornou economicamente possível de ser realizado. Sinto orgulho de ter sido parte desta mudança com um simples empréstimo do espaço para que o projeto se realizasse. O mundo pode ser diferente e mais digno de se viver quando nos esforçamos para trabalhar a favor das ondas das adversidades e não contra elas.

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design e inclusão social

Este capítulo do livro é uma reunião de textos desenvolvidos pelos alunos que participaram do projeto de extensão ASAS em 2009. A ideia foi orientar os alunos para que escrevessem um pequeno artigo sobre a experiência adquirida ao longo do projeto. Paralelamente às atividades práticas, todos leram livros e artigos relacionados aos temas da área de interesse individual e, em alguns momentos entre reuniões semanais, apresentaram para discussão coletiva as principais questões levantadas. Não consideramos ainda uma experiência acadêmica completa e alguns textos não possuem a profundidade e coerência necessária para que se tornem artigos verdadeiramente científicos. Mas, como quase todos foram alunos também da disciplina optativa de Artesanato e Design, entendemos que os registros pessoais buscaram complementar a prática e o ensino com uma outra parte da tríade acadêmica fundamental que é a pesquisa, realizando um exercício de pensar sobre o processo extensionista e registrá-lo sob a forma de texto acadêmico.


território desdobra das experiências e percepções aglomeradas

O primeiro passo para a realização deste trabalho foi a construção de um mapa da região — arredores da Vila Novo São Lucas — a ser percorrida pelo grupo. A partir de memórias coletivas e individuais e do cotidiano na comunidade, os artesãos cartografaram o espaço em que habitam: labirinto contínuo que se desdobra, desenfreado e orgânico, dentro da cidade formal — e que, paradoxalmente, está à margem, mas é interior, intrínseco à ela.

Ana C. Bahia

Partindo da ideia de que territórios não têm escala e de que se pode territorializar/cartografar praticamente tudo o que se vê — ou melhor ainda, tudo o que se sente —, a comunidade construiu, com desenhos e recortes, o “mapa vivido” dos seus percursos diários. Mapa que não é definitivo, pois “só há mapas instantâneos”:

O presente artigo se propõe a analisar e levantar questões acerca do processo de criação da coleção Territórios, idealizada e desenvolvida pelo projeto ASAS ao longo do ano de 2009 junto à comunidade Vila Novo São Lucas, no Aglomerado da Serra. É sob a luz de algumas figuras conceituais apresentadas por Gilles Deleuze e Félix Guattari em Mil Platôs, e posteriormente relacionadas no livro Estética da Ginga, de Paola Berenstein Jacques, que este trabalho levantará questões referentes à estética própria das favelas e à valorização das peculiaridades deste território, tendo em vista o artesanato e o design como catalisadores da criação de uma imagem positiva ligada ao seu local de origem. Com o objetivo de reforçar a autoestima da comunidade, instigar novos olhares, resgatar e fortalecer a identidade local a partir da investigação das possibilidades que esse espaço oferece, a coleção de produtos desenvolvida no projeto ASAS durante o ano de 2009 teve o território como tema central. Para isso nós, alunos da Universidade FUMEC e artesãos do Aglomerado da Serra, discutimos e trabalhamos temas e motivos observados dentro da favela. A partir deles, redirecionamos a nossa percepção sobre esse espaço: relacionando aspectos materiais e imateriais para estabelecermos conexões entre o contexto local e o entorno.

Contra a prática do planejamento urbano, a ideia do Labirinto nos sugere uma volta à cartografia, que reflete uma situação, acompanhando os movimentos de transformação da paisagem. Em lugar das cartografias (quase) militares do espaço real, podemos ver as cartografias da experiência do espaço, cartografias subjetivas do próprio movimento. [...] Não são as cartografias da forma do percurso, mas da experiência do percurso, da ação de percorrê-lo, de descobri-lo. (JACQUES, 2007, p.97) Ao relacionar e fazer convergirem os espaços por ela percorridos, a comunidade dialogou com os gestos que esses espaços contêm. Percorreu seus traçados íngremes e vivos para depois representá-los, enredá-los num outro olhar — atravessando a vertigem dos limites, as poéticas sobrepostas nos muros, nas frestas, nas dobras, entre uma rua e outra, entre um beco, entre outro, outros. Mediadores de experiências diversas, os exercícios de livre perambulação pela Vila Novo São Lucas fez o grupo de artesãos confrontar dinâmicas, “desenhar a favela para além do registro oficial”, como exemplificado em Silva & Souza (2002). A tentativa de deslocar e desconstruir a imagem oficial é a forma de pensar a informalidade como fruto de uma genética urbana não compatibilizada, que precisa recriar seus espaços. É necessária uma nova escrita da cidade, a história da cidade habitada, vivida. (SILVA & SOUZA, 2002, p.161) Depois de traçado o mapa, já completamente imersos nesse labirinto-favela e munidos de câmeras pinhole nas mãos — construídas em oficinas ministradas durante o projeto —, os artesãos registraram os detalhes, as surpresas, os desvios, o amontoado de fragmentos e sua infinidade de junções: estado de permanente incompletude que marca as paisagens dos aglomerados. O fragmento é a força daquilo cuja natureza não conhecemos, daquilo que não oferece nenhuma garantia de atualização. O fragmento semeia a dúvida. Ele pode ser um pedaço, uma etapa ou um todo, até, o contrário de si mesmo. (JACQUES, 2007, p.44)

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Por meio do projeto ASAS nós, alunos do curso de design, pudemos perceber a favela pelo lado de dentro e, assim, de algum modo, desmistificála, enxergá-la sob uma ótica que não aquela à qual estamos condicionados: a imagem construída e veiculada pela grande mídia, por exemplo. Paralelamente ao trabalho junto à comunidade desenvolvemos uma pesquisa acerca das construções simbólicas geradas pelas superfícies. Investigamos suas potências e exploramos suas conformações. No livro Estética da Ginga, Paola Berenstein Jacques nos apresentou a favela através da obra de Hélio Oiticica. E a partir de três figuras conceituais: o “Fragmento”, o “Labirinto” e o “Rizoma”, fomos transportados para o universo estético dos barracos e dos becos. Ao longo deste trabalho estabelecemos relações entre formas e texturas, que também podem ser vistas junto aos conceitos referentes ao “Espaço liso” e “Espaço estriado”, ambos formulados por Gilles Deleuze e Félix Guattari. O espaço estriado pode ser comparado ao tecido e representa a malha da cidade formal. É bem delimitado, pois sua largura é definida pelo quadro da urdidura, organizado e fixo. Um tecido apresenta em princípio certo número de características que permitem defini-lo como espaço estriado. [...] ele é constituído por dois tipos de elementos paralelos: no caso mais simples, uns são verticais e os outros horizontais, e ambos se entrecruzam perpendicularmente. [...] um tal espaço estriado está necessariamente delimitado, fechado [...] (DELEUZE & GUATTARI, 1997, p.180)

O espaço liso, por sua vez, pode ser comparado ao feltro, que é um emaranhado de fibras prensadas, de fios indistintos. Nesse caso, ele pode então representar as favelas, assim como todos os espaços informais da cidade. Num espaço liso ocupa-se aleatoriamente, desregradamente e por acontecimentos: o espaço liso “é um espaço de afetos, mais que de propriedades.” (Deleuze, 1997) O feltro não implica distinção alguma entre os fios, nenhum entrecruzamento, mas apenas um emaranhado de fibras [...] é infinito de direito, aberto ou ilimitado em todas as direções; não tem direito nem avesso, nem centro; não estabelece fixos e móveis, mas antes distribui uma variação contínua. (DELEUZE & GUATTARI, 1997, p.181) O espaço liso é aberto, ilimitado e descentralizado, estende-se sobre a superfície de forma rápida e desordenada. É um modelo composto por estruturas múltiplas, não lineares, horizontais e aleatórias — o que Deleuze denomina “Rizoma”: o processo, o movimento, o ímpeto. A cidade libera espaços lisos, que já não são só os da organização mundial, mas os de um revide que combina o liso e o esburacado, voltando-se contra a cidade: imensas favelas móveis, temporárias [...] nômades, restos de metal e de tecido, patchwork [...] (DELEUZE & GUATTARI, 1997, p.188-189)


[...] a relação com o espaço é a forma básica com que as pessoas vão construindo suas identidades, vão produzindo alteridade, vão se reconhecendo enquanto partes de um espaço global, num ambiente local. Enfim, o lugar em si é fomentador da identidade/alteriadade. (SILVA; SOUZA, 2002, p.162) Deve-se lembrar que tanto o espaço liso quanto o estriado contêm aspectos variáveis, cruzamentos complexos, ou seja, todos os territórios já estão de certa forma contaminados, híbridos. A cidade informal não é completamente formada por espaços lisos, pois possui dinâmicas internas de poder, conflitos e contradições. Olhar o Aglomerado da Serra e ao mesmo tempo tentar capturar, entrever e direcionar o olhar — um outro olhar — do morador sobre o território que ele habita é também considerar e estimular as discussões políticas sobre a segregação espacial, alteridade, identidade, fronteiras e diferenças culturais, pois

A partir da memória, da observação dos espaços físicos e das imagens geradas pelas superfícies na favela — o que está à tona, matéria bruta para a construção da experiência subjetiva —, os artesões do Aglomerado da Serra desenvolveram os produtos da Coleção ASAS 2009. Multiplicidades não métricas, imprevistos, linhas de fuga — a favela está sempre em movimento de territorialização e desterritorialização. Pode ser comparada a uma colcha de retalhos, a um trabalho de “patchwork” com seus sucessivos acréscimos de tecido, que remetem à construção dos barracos. Bricolagem (ou a construção em estado selvagem), reagrupamento de restos, arquitetura vernácula, sobras que são justapostas de acordo com a necessidade de cada momento — o que se vê aí é um processo ininterrupto, no qual tudo é constituído por fragmentos e de forma também fragmentária. As misturas, emendas, sobreposições e percepções aglomeradas no decorrer do projeto foram traduzidas em mapas pela comunidade de artesãos da Vila Novo São Lucas — que transformou-os em estampas para a coleção de produtos desenvolvida ao longo do ano de 2009. E como afirmou uma das artesãs da comunidade: “Agora a gente tira fotos, vê as coisas e já enxerga estampas”.

REFEFÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol.1. Rio de Janeiro: Editora 34, 1996. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol.5. Rio de Janeiro: Editora 34, 1997. GUIMARÃES, César G.; VAZ, Paulo Bernardo F.; Silva, Regina Helena Alves da; FRANÇA, Vera Regina Veiga. Imagens do Brasil: modos de ver, modos de conviver. Belo Horizonte: Autêntica, 2002. JACQUES, Paola Berenstein. Estética da ginga: a arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2007. SILVA, Regina H. Alves; SOUZA, Cirlene Cristina de. Múltiplas Cidades: entre morros e asfaltos. In: GUIMARÃES, César; VAZ, Paulo Bernardo; SILVA, Regina Helena Alves; FRANÇA, Vera (org.). Imagens do Brasil: modos de ver, modos de conviver. Belo Horizonte: Autêntica, 2002

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Passagem – sobre movimentos em fotografias no Aglomerado da Serra

Aruan Mattos Lopes O que foi construído nas oficinas de audiovisual, dentro do projeto ASAS (Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra), são exemplos pontuais do olhar cotidiano no espaço da favela. O trânsito, a fresta, o caminho, o espaço, o beco, a caixa de fósforo: ferramentas e espaços disponíveis para a produção de arte-objetos ou produtos de design. A constante permuta do “high” e do “low tech”, da cidade formal e informal. De um lado câmeras de vídeo e de fotografia tradicionais. De outro as caixinhas de fósforos pintadas com spray preto envolvendo bobinas de filmes. A motivação não é a comparação, mas sim o uso, a pesquisa, a produção e a permanência. Daí se dá o embate: se o que foi e ainda é feito na favela acontece nos dois campos do “high” e do “low”, se o que acontece é a imbricação e complementação destas áreas, não existe de fato dois lados opostos. A realização de uma oficina que quebra a dicotomia primária para se construir um emaranhado de conversas distintas e compartilháveis: ironia ou constatação da lógica do “Rizoma” na favela, construída a partir de fragmentos próprios que se correlacionam e produzem enunciados que se sustentam por criação interna, surgindo a linha de fuga: a gambiarra, o invento, a inovação da sobrevivência, a guerrilha estrutural espacial. Antes mesmo de ser uma oficina, apreende-se este núcleo audiovisual como uma construção de uma oficina enquanto processo. Problemas, alternativas, soluções e não-soluções geradas durante o movimento (e gerada pelo próprio movimento). De todo, o que se exibe em relação a todas as questões levantadas, como uma espécie de pós-movimento, não revela o movimento de fato. Exatamente pelo caráter de fluxo descompassado, onde oficinantes e oficineiros carregam cargas distintas e as conversas se fazem assimetricamente próximas, o plano de permanência deixa de ser de fixação e passa a ser de sorção, ou seja, movimento. Como uma construção: o que se troca, o que se vive, o que se desestrutura e reestrutura, o que se dialoga, o que se ambienta, o que se altera, enfim, o que existiu no percurso, não é a sua finalização de fato. Como a cidade, como a favela: organismos mutáveis.

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Os produtos gerados a partir do núcleo audiovisual no ASAS se ligam a arte-objetos ou produtos de design ou simplesmente brinquedos — comparando com aqueles que antes possuíam um valor de culto anterior à produção industrial de larga escala (BENJAMIN, 1994, p. 246). De todo modo são objetos

que possuem algum tipo de valor nostálgico genuíno no que diz respeito à sua simplicidade técnica, à sua produção artesanal; e ainda remete aos primeiros brinquedos ópticos do século XIX. No entanto, mais do que simples objetos saudosistas eles levam em sua carga mais íntima uma discussão do processo em que ele se criou. Os “flipbooks” surgem como tentativa de um “fixo-fluxo” de um espaço-tempo-território. A imagem que se transforma e desvanece a cada movimento do dedo, talvez cria o paradoxo mais próximo do movimento do projeto: o fixo e o fluxo, o não-tátil pelo tátil, o surgimento a partir de construções internas, o processo, o fluxo pelo fixo, o fixo pelo fluxo, movimentação de fotogramas inertes capturados a partir do trânsito; o movimento existe em um espaço de passagem. Entre o fixo e o fluxo a imagem aparece fotograficamente independente e como passagem virtual dependente do tempo. Como movimentos internos e externos. Não por acaso, o que está (passa) nos fotogramas apontam para este espaço de diálogos: o território de passagem. Em um primeiro “flipbook”, a imagem simula, como em uma ação cinematográfica da câmera subjetiva, o movimento de entrada por um determinado beco. Diálogos curtos e estendidos em movimento ou estagnação. A imagem da favela é por si só um discurso acerca da passagem: a desestruturação e a reestruturação, mas ainda estruturas, mesmo que passagens. Linhas retas, tortas, angulosas e curvas, desenham uma espécie de “grid” desconstruído. Formas que narram o movimento espacial na favela: a gambiarra, o invento, formas e deformidades que se entrelaçam. Concreto, tijolo e madeiras aparentes são alguns elementos primários que ressaltam algum tipo de estruturação própria. Por um lado, a imagem sugere um crescimento formal em todos os sentidos, por aglomeração e associações. Uma sugestão de que nada é retirado para se construir o novo: formas e “grids” coexistem com a estrutura original. Por outro lado, o espaço-tempo do próprio objeto se comporta como uma troca constante, uma substituição de fotogramas que criam um ritmo alucinante de transformação tradicional. A cada microssegundo uma imagem é sobreposta a outra criando a ilusão do movimento.


Nos outros “flipbooks”, o posicionamento acontece de forma diferente: a câmera se fixa e os elementos em quadro se movimentam. O trânsito na praça: crianças brincam com uma bola de futebol sobre um gramado. No corpo, vestimentas de uniformes de futebol de clubes internacionais. Não existem linhas de demarcação para dimensionar a área do jogo, nem traves ou mesmo chinelos ou pedras — comuns nas brincadeiras de rua — que as demarquem. Todo o espaço parece ser definido virtualmente em um diálogo não verbal entre as crianças, ou ainda, “um diálogo mudo, baseado em signos, entre a criança e o povo” (BENJAMIN, 1994, p. 248). Tudo indica ser estabelecido durante o movimento da brincadeira. Qualquer pré-definição espacial aparenta ser quebrada a cada instante que se irrompe a fascinação de uma jogada. No primeiro quadro, a câmera em sua posição fixa e fotográfica se desnorteia assim que a bola traça o seu primeiro trajeto. Fica evidente que em uma tentativa de estriar objetos, espaços e personagens em cena, a câmera se perdeu e a montagem posterior funciona como a construção de uma linha narrativa lógica. Ora, a edição aparece como objeto de adequação ao espaço e não o contrário. Os cortes são realizados na tentativa de narrar, ou melhor, situar o comprometimento de uma brincadeira no campo virtual. No terceiro e último “flipbook”, uma rua movimentada com motos, bicicletas e, em sua maioria, pessoas com sacolas nas mãos. A região, que possui o nome informal de “Savassinha”, é o ponto comercial desta região do Aglomerado da Serra. Fluxo ininterrupto de indivíduos e outros diversos elementos de diálogo. Elementos transitam entre formas, cores, percepções, corpos, dentre outras caracterizações formais e não-formais. Ainda aqui a extensão de acontecimentos e estaticidade transitam entre o virtual e o material. O espaço trata de um dia a dia de trânsito ininterrupto. Daí se dá uma estaticidade originária do movimento: o cotidiano, a repetição. Como aquele movimento que se repete tantas vezes que acaba se transformando em uma imagem única da recorrência, o hábito. Neste objeto o paradoxo se expande do seu espaço formal: um registro (uma fixação) do cotidiano ou uma continuação da sua repetição? Por sua vez, o próprio objeto convida a repetir a ação ilusória do movimento mais de uma vez. Dá-se uma multiplicidade variada de representações e brincadeiras. “A essência da representação, como da brincadeira, não é ‘fazer como se’, mas ‘fazer sempre de novo’, é a transformação em hábito de uma experiência devastadora.” (BENJAMIN, 1994, p. 253). O objeto, o brinquedo, a rua e o registro em conversas que se aproximam e se distanciam para a construção de um espaço em movimento de uma favela.

Por outro lado, existem ainda os objetos luminosos originados também na mesma oficina audiovisual. Trata-se de objetos compostos a partir de fotografias realizadas através da técnica pinhole: as máquinas fotográficas tradicionais são colocadas de lado neste momento e constroem-se pequenas câmaras escuras a partir de caixas de fósforos atreladas a bobinas de filmes. Nestas máquinas construídas artesanalmente o controle da luz que marca a película é quase inexistente. É a partir da prática e da intuição que se pode ter algum tipo de intento, mas ainda pouco certeiro. A entrada da luz deixa de ser acionada em um microssegundo e passa a acontecer em um espaço de tempo maior, fazendo com que as imagens não alcancem uma silhueta bem definida. As imagens se aproximam do pictórico, e apesar destes objetos não possuírem o mesmo princípio de movimento dos “flipbooks’’— a mão é desvencilhada do objeto e nenhum truque ilusório de movimento é acionado – ainda o território e o fluxo são colocados em discussão. As figuras perdem seu contorno e as formas passam a ter uma apresentação mais de flutuação do que propriamente fixação sobre o quadro. Mais uma vez, os registros fotográficos apontam para o território de passagem, de movimento. Becos, ruas, vielas, são cenários que se apresentam de forma indicativa à passagem. Cores e formas, por sua vez, são repetidas mais ou menos vezes indicando um mapeamento de forma geral da região. Entende-se assim que os produtos — “flipbooks” e objetos luminosos — narram de alguma forma como foi realizada a oficina audiovisual. Indicam ainda o território de pesquisa geral do projeto ASAS e apontam para alguns pensamentos e reflexões geradas durante o processo. Por fim, acredita-se que o núcleo gerou produtos estáveis e produtos passageiros, um ligado ao outro, mas sempre em transição.

REFEFÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BENJAMIN, Walter. História Cultural do Brinquedo. In: Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1994. DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Felix. Mil Platôs: Esquizofrenias do Capitalismo. Vol.1. São Paulo: Editora 34, 1995

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DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Felix. Mil Platôs: Esquizofrenias do Capitalismo. Vol.5. São Paulo: Editora 34, 1995

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A favela e a construção do comum

Bruno Oliveira A articulação aqui proposta se baseia no pensamento reflexivo sobre as perspectivas de transformação social de ações de empoderamento criativo em comunidades. A intersecção entre os trabalhos de Deleuze e Guattari, Hardt e Negri, Pelbart e outros auxiliou no delineamento desta interface construída entre as tensões da vida na favela e o cotidiano inventivo. Por meio da contextualização histórica da formação dos aglomerados urbanos e de suas dinâmicas estruturais e relacionais, uma rede de referências é construída visando transparecer a potência do imaginário na construção de universos possíveis e de realidades por vir (PELBART, 2003). No início do século XX, os centros urbanos, para além de restritos espaços de convivência, se tornaram as referências centrais da sociedade moderna, resultado da intensificação do fluxo de pessoas, bens, serviços, informações e dinheiro. Estas instâncias inauguradas pela crescente globalização e pela rápida industrialização da sociedade da época acarretaram em uma explosão nos contingentes populacionais e no consequente aumento dos contrastes entre realidades sociais. Na fragmentada urbe do novo século, que já não mais conseguia suprir suas dívidas sociais, surge um processo chamado de “superurbanização” (DAVIS, 2007, p.26): referindo-se a marginalização de parte da população e a contínua reprodução da segregação socioespacial se tornaram inevitáveis. Segundo Silva & Souza (2002, p. 148): Em todas as épocas, as cidades tem sido chamadas de “o lugar do progresso e da civilização”, lugares em que se integram pessoas de diferentes culturas, diferentes idiomas e credos, lugares de tolerância e convívio. Hoje em dia, se são sinônimos de sociabilidade democrática, também os são, frequentemente, de exclusão, racismo, violência, etc. E exclusão urbana significa fragmentação, isolamento, focos de pobreza e diferenças radicais.

para adequar-se a esta nova realidade. Nas frestas da malha urbana começaram a surgir barracos e casebres que, em concordância com a velocidade dos processos modernos, rapidamente se multiplicaram e iniciaram a formação do que hoje são os grandes aglomerados de vilas e favelas. Estas margens do planejamento urbano moderno se tornaram, então, representativas de todo o fenômeno urbanístico do século XX: o foco se volta para a multidão sem rosto que transborda e escorre às estruturas de controle social. Segundo Davis (2007, p. 28): As cidades do futuro, em vez de feitas de vidro e aço, como fora previsto por gerações anteriores de urbanistas, serão construídas em grande parte de tijolo aparente, palha, plástico reciclado, blocos de cimento e restos de madeira. Em vez das cidades luz arrojando-se aos céus, boa parte do mundo urbano do século XXI instala-se na miséria, cercada de poluição, excrementos e deterioração. Alternativas informais à normativa cidade formal, as favelas cresceram e se organizaram através das particulares formas de interação e sociabilidade vivenciadas por seus habitantes. Caracterizado por Jacques (2003, p.15) como um “processo singular do tratamento do espaço-tempo”, a construção do território marginalizado pode ainda ser compreendida objetivamente como uma “outra maneira de construir o espaço, que difere completamente da lógica racional e binária”: para além dos rigores formais da arquitetura, engenharia e urbanismo, as favelas surgem impregnadas da experiência cotidiana de seus citadinos. A complexidade vernácula, orgânica e impermanente de suas subversivas estruturas apresentam-se como indícios da tentativa de criação de uma identidade coletiva, em meio à adversidade imposta, como sugerem Silva & Souza (2002, p.154):

Recriando uma representação da favela como o mundo do vivido, a configuração do espaço transformase no ambiente da vizinhança […]. A vida aqui é dinâmica. [...] As relações, como a de vizinhança, criam identificações, provocando encontros, laços afetivos que estabelecem as reações efetivas em torno da luta pela valorização do espaço da favela. […]. As imagens são de uma cidade moderna que ainda reflete problemas de insalubridade, de propriedade, de diferenciação racial.

A hierarquia espacial já tão característica das metrópoles do novo século tornou-se ainda mais crítica durante esta crise da urbanidade. Os cidadãos marginalizados, excluídos dos espaços “nobres” da cidade e destituídos de seus contextos socioculturais, se viram forçados a buscar alternativas

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Também importante é a observação da dinâmica organizacional deste território “outro”, construído e habitado pelo outro (JACQUES, 2003, p.9) e a maneira como ela se transborda sobre os universos relacional e estético dos “aglomerados”. De forma sistemática, Jacques propõe três figuras conceituais que podem auxiliar na compreensão desse processo: “do corpo à arquitetura, o Fragmento; da arquitetura ao urbano, o Labirinto; e do urbano ao território, o Rizoma” (JACQUES, 2003, p. 16); elaboradas a partir de seus habitantes e suas moradias, passando pelo desenrolar dos meandrosos becos e vielas do morro e chegando à expansão rizomática da favela sobre as frestas da cidade. Faz-se necessário pontuar a conexão intrínseca entre tais figuras, associadas a partir do incessante empilhamento de camadas e significâncias, compondo um real palimpsesto que se concretiza em diversas outras análises e transparece, sob um olhar atento, nas próprias relações humanas e proposições estéticas dos moradores das favelas. Por meio da sobreposição recursiva do conceito deste “urbanismo outro” para instâncias mais subjetivas, torna-se possível a analogia com as reflexões sobre a natureza das formas de Kandinsky, nas quais propunha observar a composição do mundo de forma estética (KANDINSKY, 1997 p. 31):

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Também podemos considerar o “mundo” inteiro como uma composição cósmica completa, por sua vez composta de uma quantidade infinita de composições autônomas cada vez menores, todas compostas em última análise, tanto no macrocosmo como no microcosmo, de pontos [...]. Ainda sobre a perspectiva múltipla e sobreposta do universo relacional das favelas, pode-se afirmar que uma identidade local nunca é realmente formada. De fato, as favelas surgem da incessante busca de seus moradores por uma sensação de pertencimento, coesão social e reconhecimento individual (PESAVENTO, 2007, p. 1). Entretanto, a lógica que aqui se instaura é outra. A construção dessa identidade não encontra seu estágio terminal devido a transformação contínua do espaço da favela que agrega à carga identitária de seus habitantes uma perspectiva efêmera e incompleta da realidade, sem que se tornem menos concretas as relações constituídas no plano subjetivo desses espaços. Inaugura-se, então, a figura da multicolorida “multidão” (HARDT & NEGRI, 2005, p. 12):

A multidão é composta de inúmeras diferenças internas que nunca poderão ser reduzidas a uma unidade ou identidade única – diferentes culturas, raças, etnias, gêneros e orientações sexuais; diferentes formas de trabalho; diferentes maneiras de viver; diferentes visões de mundo; e diferentes desejos. A multidão é uma multiplicidade de todas essas diferenças singulares. A realidade incompleta das favelas demanda, de seus moradores, um enfrentamento diferenciado do problemático cotidiano à margem da cidade formal. “Na medida em que a multidão não é uma identidade (como o povo) e não é uniforme (como as massas), suas diferenças internas devem descobrir o comum que lhe permite comunicar-se e agir em conjunto” (HARDT; NEGRI, 2004, p. 14). A percepção deste conjunto como potência transformadora torna-se necessário para que a produção da subjetividade e do comum (HARDT; NEGRI, 2004, p. 247) alcancem novos patamares no enriquecimento da realidade coletiva. À margem da cidade e do capital contemporâneo, este processo de construção do comum se encontra em potência, e novos modelos de mundo e de realidades possíveis se inauguram e transformam-se a todo momento: relações, estruturas, referências e dinâmicas construídas à partir do atravessamento de múltiplos vetores de subjetividade, compondo e antecedendo a própria constituição do real. Segundo Hissa (2006, p. 116), a imaginação seria “uma faculdade de representação, de construção, de combinação de imagens; é sempre leitura e, como tal, é leitura que cria, recombina e interpreta”. Por meio da constituição deste arsenal de imagens possíveis o imaginário talvez passe a ser percebido não como instância irreal, “mas como a câmara de produção de uma realidade por vir” (PELBART, 2003 p. 134). Segundo Hissa (2006, p.118):

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A imaginação desempenha diversas funções fundamentais, entre as quais merecem ser salientadas a função crítica e a função criadora. [...] É de fato à criatividade que a imaginação se associa, sendo um dos pré-requisitos indispensáveis à construção de novas respostas ou de novos arranjos interpretativos do mundo. A função criadora da imaginação permite ultrapassar o dado, o agora, o imediato, originando o que não era visível e nem existente, mas em que se reconhece [...] o que deveria ser revelado. Tomar esta força-invenção (Pelbart, 2003) como significante local e torná-la o eixo central de um processo de empoderamento de uma comunidade se faz extremamente pertinente: ao se incorporar esta inventividade em uma metodologia de desenvolvimento local, a própria potência do comum viabiliza a constituição de uma outra dinâmica social. “Cada variação, por minúscula que seja, ao propagar-se e ser imitada torna-se quantidade social, e assim pode ensejar outras invenções e novas imitações, novas associações e novas formas de cooperação (Pelbart, 2003 p.23).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DAVIS, Mike. Planeta Favela. São Paulo: Boitempo, 2007. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 1. São Paulo: Editora 34, 2009. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 5. São Paulo: Editora 34, 2008. GUIMARÃES, César; VAZ, Paulo Bernardo; SILVA, Regina Helena; FRANÇA, Vera (org.). Imagens do Brasil: modos de ver, modos de conviver. Belo Horizonte: Autêntica, 2002. HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Multidão: guerra e democracia na era do Império. Rio de Janeiro: Record, 2005. HISSA, Cássio Eduardo Viana. A mobilidade das fronteiras: inserções da geografia na crise da modernidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006. JACQUES, Paola Berenstein (org.). Apologia da Deriva: escritos situacionistas sobre a cidade. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003. JACQUES, Paola Berenstein. Estética da Ginga: a arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003. KANDINSKY, Wassily. Ponto e Linha sobre Plano. São Paulo: Martins Fontes, 1997. PELBART, Peter Pál. A vertigem por um fio: políticas da subjetividade contemporânea. São Paulo: Iluminuras, 2003. PELBART, Peter Pál. Vida Capital: ensaios de biopolítica. São Paulo: Iluminuras, 2003. PESAVENTO, Sandra Jatahy. Cidades visíveis, cidades sensíveis, cidades imaginárias. Revista Brasileira de História, São Paulo, Vol. 27, n° 53, p. 11-23, 2007.

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SILVA, Regina H. Alves; SOUZA, Cirlene Cristina de. Múltiplas Cidades: entre morros e asfaltos. In: GUIMARÃES, César; VAZ, Paulo Bernardo; SILVA, Regina Helena Alves; FRANÇA, Vera (org.). Imagens do Brasil: modos de ver, modos de conviver. Belo Horizonte: Autêntica, 2002

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Como são aceitas as interferências urbanas na favela

Carolina Rios de M. Moreira O primeiro registro de um estudo sobre favelas, ou algo próximo a isso foi em 1805 com Survey of Poverty in Dublin [Estudo da pobreza em Dublin], de James Whitelaw (DAVIS, 2006, p.31), o que nos leva a crer que elas surgiram muito antes do que as pessoas em geral imaginam. A maioria das pessoas acredita que o fenômeno de crescimento desordenado de aglomerados é algo que se inicia depois da Segunda Guerra Mundial. Realmente há uma diferença significativa do antes e depois da guerra, as favelas passaram a crescer mais desenfreadamente, com o êxodo rural, dentre outros fatores. Segundo Mike Davis, a grande diferença entre estes períodos é o modo como o governo passa a tratar este “problema” urbano. Antes da Segunda Guerra os governos criaram diferentes políticas e leis para tentar acabar com as favelas, tentando sem sucesso transferir os moradores para conjuntos habitacionais em outras regiões; os governos socialistas como Cuba e China tentaram abrigar essas famílias de outras formas, mas não passaram de teorias. Então, no período pós-guerra, outras medidas foram tomadas: devido ao fracasso dos planos anteriores, os governos passam a tentar interferir nas favelas sem destruí-las, e sim tentando urbanizá-las, mantendo-as no mesmo local, com o intuito de apenas melhorar as condições de vida de seus habitantes. Mas para que isso fosse possível, os investimentos de empresas, ONG’s e cooperativas, assim como doadores internacionais, passaram a ser fundamentais.

As favelas crescem desordenadamente e seguem a prática do “construa você mesmo”, como observado por John Turner (apud DAVIS, 2006, p.39), arquiteto inglês, que parte para o Peru em 1957 e fica fascinado com a capacidade de organização e construção com habilidade e inteligência das comunidades. A partir das décadas de 1970 e 1980 surgem muitos projetos arquitetônicos do estado, mas como analisado por Paola B. Jacques, em seu livro A estética da Ginga, “os arquitetos passaram a intervir nas favelas existentes visando transfomá-las em bairros” e isso acaba impondo sua própria estética, quase sempre a da cidade dita formal. Afinal, as favelas em suas constantes formações não são fixas como as cidades ditas formais, sua complexidade espacial se mistura a sua temporalidade, com uma cultura sem centro e instável. Em Belo Horizonte 46 mil pessoas habitam o Aglomerado da Serra, maior favela da cidade com uma área de 1,4 milhões de metros quadrados. O Aglomerado faz limite com o Hospital da Baleia, o Parque das Mangabeiras e com os bairros Paraíso, Santa Efigênia, São Lucas e Serra. Situada na zona centro-sul de Belo Horizonte, a favela se divide em oito vilas — vila Nossa Senhora da Conceição, vila Marçola, vila Santana do Cafezal, vila Novo São Lucas, vila Nossa Senhora de Fátima, vila Fazendinha, vila Nossa Senhora do Rosário e vila Nossa Senhora Aparecida. Em 2007, foi desenvolvido e aprovado o programa de reformas no Aglomerado, o Vila Viva, que engloba obras de saneamento, remoção de famílias, construção de unidades habitacionais, erradicação de áreas de risco, reestruturação do sistema viário, urbanização de becos, implantação de parques e equipamentos para a prática de esportes e lazer. Após o término da urbanização, a área será legalizada com a emissão das escrituras dos lotes aos ocupantes. As obras começaram em fevereiro de 2008 e estão previstas para terminar em 2011. Este projeto é um exemplo que pode ser avaliado como é aceita a interferência que vem de fora, com o intuito de melhorar a vida desses habitantes. Nem sempre algo que visa ajudá-los é considerado por eles desta forma, pois como formam uma parte da sociedade que sempre foi excluída; os seus habitantes formam uma comunidade fechada e desconfiada e, muitas vezes, com razão, afinal foi um longo processo até que esses aglomerados fossem considerados pelo Governo e pela população como parte da sociedade e da cidade, com direitos assim como qualquer outro morador da cidade formal.

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O projeto Vila Viva foi muito criticado pelos moradores, porque inicialmente ninguém acreditava na melhoria que poderia trazer, e se a promessa do estado de reabitá-los em um lugar melhor seria cumprida. Segundo pesquisa da URBEL, 75% dos moradores do aglomerado preferiram continuar em suas casas e o restante optou pela indenização em torno de 20 a 22 mil reais. São muito poucos os que optam por mudar para os apartamentos, e esses acabam vendendo o imóvel e indo para o interior com o dinheiro da indenização. No Aglomerado da Serra é muito comum casas que têm algum comércio funcionando no primeiro piso ou no quintal, às vezes até alugados para outras pessoas, então isso também causa certa resistência. Assim como a professora Nilma Alves, de 26 anos, que alega vários fatores prejudiciais, muitos outros moradores também se posicionaram “Eu não tenho vontade de morar nos prédios, aqui em casa tem área, tem espaço, tem três quartos, pra mim, apartamento é sem espaço. Eu tenho um quintal, tenho uma loja, que estava alugada. Eu perdi uma fonte de renda, agora a loja está parada porque nós vamos sair. Aí a gente não aluga mais. Aqui em casa todo mundo vai perder o emprego”(Vila Viva: intervenção radical no Aglomerado da Serra , disponível em Favela é isso aí: http://www.favelaeissoai.com.br/noticias.php?cod=59). Assim como Nilma, muitos outros moradores enfrentam os mesmos problemas. Outros apenas desconfiam e nem cogitam a probabilidade, como Dona Eva, que faz parte do projeto ASAS (Artesanato Solidário do Aglomerado da Serra), e que acha que os prédios ficaram prontos muito rápido, que não se mudaria para lá, pois, ao seu ver, não parecem seguros. O projeto ASAS, por sua vez, é um projeto de extensão da Universidade Fumec, coordenado por Natacha Rena, no qual alunos do Curso de Design ministram aulas e “workshops” de costura, encadernação, estamparia, dentre outros, para capacitar um grupo de artesãs, para que essas possam ter uma fonte de renda com os produtos criados a partir das técnicas aprendidas. A intervenção proposta para a comunidade pelo ASAS é cercada de cuidados: passa primeiramente por uma avaliação da proposta a ser abordada, com todos os critérios necessários para este fim. São marcadas reuniões com o grupo da comunidade que pretende fazer parte do projeto e explicado os mínimos detalhes: como será executado o projeto, quais setores da comunidade poderá fazer parte do mesmo e como tudo funcionará, de forma que fique claro para os participantes todo o processo. Os objetivos devem ser claros e expostos logo no começo das atividades. Os resultados também são expostos e a transparência é a melhor aliada do processo. Com este projeto, o que se busca é o crescimento na formação educacional e profissional, tanto para as aglomeradas quanto para os alunos da FUMEC. Dando condições aos participantes para que desenvolvam novas habilidades, novas formas de agregar valores a suas atividades, que poderão ser transformadas em acréscimo da renda familiar e também em melhoria da autoestima de cada um, dando condições dos mesmos se sentirem inclusos na sociedade e elevar o desenvolvimento pessoal e profissional.

Em se tratando de um projeto que apresenta diversidade de participantes, entre alunos da FUMEC e artesãos do Aglomerado, todos apresentam visões próprias, algo que é causado, principalmente, pelas diferenças inegáveis entre esses grupos. Este é um dos motivos que leva a aceitação de um grupo tão distinto ali dentro, um pouco difícil, para ambas as partes. É um exercício de aprendizagem, de como lidar com essas diferenças socioculturais da melhor forma possível. Não se trata apenas de aceitar as diferenças, mas muito mais de compreenssão, entender as opiniões diversas, por mais que soem absurdas para alguns. Toda esta forma de trabalho, este crescimento pessoal para todos os envolvidos, quebra os paradigmas de uma relação frágil entre calaborador e colaborado. Como analisado pelas próprias artesãs, o projeto mudou muitas coisas na vida delas, principalmente na questão de compreensão mútua e em como lidar com outros grupos. Um dos objetivos do ASAS é fazer com que estas artesãs prossigam com seus processos de criação e conclusão de produtos qualificados, e continuem a gerar renda a partir disso. E esta jornada sem uma interferência muito radical da FUMEC começa principalmente nos relacionametos comerciais e parcerias que serão feitos por meio de um membro da comunidade. Além disso, o projeto é reconhecido internacionalmente por outros grupos que trabalham com comunidades carentes, muitos deles visitam a escola onde o ASAS atua, e a reação dos visitantes e da comunidade é sempre muito gratificante. Vemos que realmente a imersão em um projeto social não se trata apenas de ir para a favela e ajudar do modo que cada um sabe. Há todo um envolvimento necessário e muitos desafios pela frente, muitos deles marcados por discussões que talvez não levem a nenhuma conclusão, mas que servem para começarmos a perceber que cada grupo tem uma opinião, e é muito importante conseguir fazer uma ponte entre esses dois mundos, estabelecendo relações de confiança e dedicação, além de estar sempre aberto a questionamentos vindos de todas as partes, principalmente de você mesmo.

REFEFÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DAVIS, Mike. Planeta Favela. São Paulo: Boitempo, 2006. Vila Viva: intervenção radical no Aglomerado da Serra. Disponível em: http://www.favelaeissoai.com.br/noticias.php?cod=59

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JACQUES, Paola Berenstein. Estética da ginga: a aquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2007.

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Convívio e experiências: trajetórias de vida do projeto ASAS

A tentativa de reconstruir a realidade buscando melhores condições representa mais que o sustento próprio, é também uma forma de melhorar a sociedade que os cerca e atenuar as desigualdades sociais. “Toda a oportunidade é válida, alguma coisa irá nos servir.”, afirma Suzana Marília dos Anjos Oliveira, funcionária da Escola Municipal Padre Guilherme Peters, integrante há dois anos do ASAS, “Fico muito feliz em poder repassar aos alunos da escola o que aprendemos no projeto, eles adoram!”.

Lilian Gustini Simões O projeto ASAS (Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra), formado a partir de uma parceria entre a Universidade Fumec e o Unisol/Banco Real, é descrito por um grupo de universitários e moradores do Aglomerado da Serra (periferia de Belo Horizonte), que objetivam migrar e conciliar conhecimentos acadêmicos e populares. O processo percorrido defronta-se com caminhos e princípios distintos consequentes da oposição entre origens. Entretando, a trajetória estabelecida por responsabilidades, convivência e aprendizagem mútua, cruza fronteiras e preconceitos e se direciona à uma só finalidade: a formação profissional. Adquirir habilidades e capacidades formais, dispor de interesses, atitudes e bons comportamentos são objetivos básicos e função social da escola. É compromisso da mesma, preparar indivíduos produtivos e formar cidadãos respeitáveis. À procura pela escola, mesmo nas classes mais favorecidas, advém da expectativa de uma vida financeira satisfatória e da realização profissional. Nas favelas, apesar de parte da população se entregar ao tráfico e a marginalidade, a visão de um futuro melhor e honesto é atribuído, em geral, ao estudo. No caso do projeto ASAS, o anseio de aprender um ofício e poder utilizá-lo em benefício próprio consiste na motivação inicial dos participantes das oficinas oferecidas. Tornar-se autônomo em uma produção artesanal e criativa é sinônimo de estar apto a competir no mercado de trabalho, o que eleva a autoestima e a renda familiar:

Nas escolas públicas, o relacionamento entre professores e alunos é marcado por contradições. Normalmente, essa relação está associada à conflitos e a falta de respeito, intensificando a distância social e psicológica entre ambos. Imaginava-se, então, que o convívio entre universitários e aglomerados pudesser ser motivo de repulsa: O rico aparece, basicamente, de duas formas: a primeira é a do outro ideal, aquele que possui uma identidade, uma forma de vida e uma experiência que se almeja. Essa figura aparece às vezes ligada a um padrão de educação e comportamento — que o pobre não tem. (...) parecem buscar uma relação de aproximação, de identificação com o outro- rico. (...) A segunda forma sob a qual a figura do rico aparece é a do outro opressor. Aquele que é a fonte — ou o elemento perpetuador — das imagens e das práticas que geram a exploração, o preconceito e a exclusão social. (GUIMARÃES et al, 2002, p. 179-180) As diferenças culturais que poderiam causar desconforto e opressão não impediram que surgisse um sentimento de amizade e carinho entre as partes. A gratidão dos aglomerados e a consciência dos universitários em estarem vulneráveis à erros e apredizagem tornou possível o acesso e respeito mútuos. Maria Elizabeth Arce Alcocer, participante da oficina de costura relata: “Gostava muito de observar e senti segurança. Nunca tive noção de costura e, agora que aprendi, estou aperfeiçoando.” Em meio a trocas de experiências e ao interesse em buscar novas informações, os aglomerados passaram a frequentar eventos de arte e design, estreitando as relações culturais e aos poucos se inserindo em ambientes elitizados. As exposições das Aglomeradas — marca designada ao setor de criação dos produtos do projeto ASAS — em lojas de design como a Grampo e a Quina (ambas em Belo Horizonte) serviu de oportunidade para os aglomerados mostrarem seus trabalhos e assegurou firmeza aos artesãos. A gratificação e o reconhecimento obtidos superaram barreiras econômicas e sociais. Para quem se sentia excluído da sociedade, mostrar-se perante a mesma de forma igualitária elevou a questão ao ganho de status.

As dificuldades impostas pelas condições econômicas, embora reconhecidas, não impedem que os alunos esforcem-se para conseguir qualificação e habilitação na tentativa de superar as condições de vida adversas. Mover obstáculos que se colocam para a superação dessas dificuldades pode ser o único meio de ter acesso às oportunidades culturais e materiais que hoje lhe são negadas. (GUIMARÃES et al, 2002, p. 201-202) 59


Inerente à identidade da favela é a boa convivência entre os moradores. A vizinhança mantém relações de solidariedade e confiança, além de compartilharem das mesmas situações. Formar um grupo de qualquer que seja o valor gera disputas internas e desentendimentos. E por mais que os aglomerados não fujam à regra, os laços de convivência foram sempre lembrados como motivo de permanência na associação que se atou. Manter os laços com um lugar significa reafirmar um modo de vida e, na construção das redes de solidariedade e das relações afetivas, tecer uma identidade. (...) Essas relações se estendem para além das necessidades materiais e são colocadas num plano afetivo — a comunidade é tomada como uma extensão da família. (GUIMARÃES et al, 2002, p.170-171) É evidente que a harmonia do grupo envolva interesses profissionais e facilite o desenvolvimento do trabalho, mas a amizade garantiu também a distração e fuga da rotina. As conversas descontraídas omitiram os problemas pessoais, enquanto o desabafo serviu de consolo, gerando, involuntariamente, quase uma terapia de grupo. “Todos têm histórias pra contar. Às vezes tudo é motivo pra rir e se distrair. Quando não venho sinto falta”, confessa Eva Fátima Souza, integrante da oficina de audiovisual.

O percurso traçado pelos universitários é, inicialmente, o oposto da trajetória dos aglomerados. Por cumprimentos de horários ou até mesmo por motivos financeiros, a primeira relação com o projeto fundamentou-se direta e profissionalmente. A obrigação das reuniões iniciais, a responsabilidade em estabelecer tarefas e o envolvimento tímido dos primeiros contatos provocaram interesses inseguros, divergentes e indefinidos. No decorrer do projeto, com a realização das oficinas e o resultado concreto das atividades, é que se percebeu a importância da ação solidária como meio de aprendizagem e responsabilidade social. O campo de visão se ampliou ainda mais com as experiências de vida contadas pelos aglomerados. O orgulho de ver-se responsável pela felicidade e conhecimento adquirido pelo outro tornou a ação prazerosa, livre do sentido puro de obrigação. Apesar da diferença entre culturas e realidades, o interesse recíproco em formar-se e reafirmar-se profissionalmente orientou universitários e aglomerados em uma mesma direção. A troca de experiências e informações culturais, adquiridas pelo convívio, gerou um ensinamento e crescimento de vida que nenhuma educação acadêmica poderia proporcionar. O que parecia formar histórias distintas depara-se com desejos e expectivas semelhantes, cruzando origens opostas com destinos comuns.

REFEFÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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GUIMARÃES, César; VAZ, Paulo Bernardo; SILVA, Regina Helena; FRANÇA, Vera (org.). Imagens do Brasil: modos de ver, modos de conviver. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.

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Design e artesanato

Lorena Marinho Duarte Este artigo tem como objetivo mostrar como o design o e artesanato podem andar juntos. O que focar e como devemos agir diante dessa junção para que o produto final tenha o resultado desejado. Um programa de design e artesanato deve criar condições e autonomia projetual para os artesãos. Isso significa ter condições de pensar na criação de produtos, e a melhor forma de fazê-lo é que respondam à suas necessidades. Alguns designers são conscientes disso e tentam, no contato com os artesãos, realizar essa proeza — fazer com que eles criem objetos moldados às suas necessidades, antes de tudo. (LEON, 2005, p.66) Não é fácil, mas é possível. Aplicar aos artesões uma visão de designer é um desafio. É preciso fazê-los enxergar a gama de possibilidades que o ambiente em que estão inseridos oferece. Transformar o óbvio em algo novo e sofisticado. O processo inicial de uma coleção é a coleta de dados, experiências, sensações e imagens. No projeto ASAS foi trabalhado a valorização do território, a fim de usufruir dos seus recursos. Cada artesão possuia um caderno de processos, preenchido a medida em que iam coletando essas informações sobre o território em que vivem, sempre atentando aos detalhes. A tarefa não é simples, foi preciso trabalhar com os artesões essa mudança do olhar, da percepção de sentidos, fazê-los perceberem o inusitado, o diferente e o curioso. Através desse olhar é possível trabalhar diversas possibilidades. É importante também que a tomada de decisões não esteja somente na mão de artistas e/ou designers profissionais, pois é fundamental a participação da comunidade e sua inserção nesse ambiente, já que o objetivo é a aquisição da autonomia e a participação de todos durante todo o processo.

Os trabalhadores manuais constroem objetos para um mundo que não é seu, e tais objetos, na avidez contemporânea por novidades, tendem a ser simbolicamente superados em pouco tempo. (LEON, 2005, p.66) Após essa mudança de olhar, essa visão amplificada sobre o mundo a sua volta, a elaboração de um projeto diversificado para uma linha de produção fica mais fácil. É necessário, a partir desse momento, a preocupação com a qualidade dos produtos. Essa, porém, requer tempo e persistência. É preciso empenho e treinamento e o processo é longo e exaustivo. Normalmente, produtos artesanais com um design mais apurado possui uma clientela mais exigente daquela que os produzem. Neste caso, o nível de qualidade deve ser superior. A busca por novas coleções de produtos, com novos conceitos, deve ser constante. No mundo de hoje, o consumo se faz cada vez mais evidente, e a procura por novidade é incansável. Além da qualidade, deve ser trabalhada a agilidade na produção. Estimular o reconhecimento das qualidades e dos valores relacionados com um produto local — qualidades referentes ao território, aos recursos, ao conhecimento incorporado na sua produção e à sua importância para a comunidade produtora — é uma forma de contribuir para tornar visível à sociedade a história por trás do produto. Contar essa “história” significa comunicar elementos culturais e sociais correspondentes ao produto, possibilitando ao consumidor avaliá-lo e apreciá-lo devidamente. E significa desenvolver uma imagem favorável do território em que o produto se origina. (KRUCKEN, 2009, p.22) Para que o casamento entre o artesanato e o design funcione é necessário que as interferências propostas sejam inseridas em todo o processo produtivo e não somente na finalização do produto, como embalagens e etiquetas. A forma de agregar valor ao produto vai muito além disso, é preciso valorizar os recursos locais, resgatar a cultura e a identidade do território envolvido. Segundo Eduardo Barroso, “as características do território podem significar oportunidades ou ameaças, vantagens ou restrições, cujo proveito ou superação dependerá da disposição e determinação de sua população.” (BARROSO: 2009). Caberá ao artesão identificar essas características e filtrá-las. Essa fase é de suma importância para a elaboração do projeto, de um conceito. O design auxilia na padronização da linguagem aplicada, definição de conceitos, objetivos e diretrizes. E isso é importantíssimo para agregar valor ao produto. O estudo do tema, a pesquisa, as alternativas geradas para a concepção de um protótipo final, tudo isso é essencial para a diferenciação do produto no mercado. A tradução das imagens de elementos cotidianos, expressões e comportamentos em algo material, criativo e original é um dos objetivos do design. E com visibilidade no mercado se torna eficiente o processo produtivo. Através desse processo se adquire empoderamento, constroem-se parcerias, compartilha-se os resultados, e convergem-se demandas locais e não-locais.

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A visão de designer possibilita a capacidade de criar novos modelos de referência e de associar com estilos de vida de valores diversificados. Para que o consumidor reconheça o valor agregado ao produto, em que muitas vezes a sua realidade foge completamente da realidade do território onde ele foi produzido, é de extrema importância que haja de forma eficiente a comunicação entre esses dois mundos, através de marcas, embalagens, tags e outros. Essa mediação é necessária e envolve muita sensibilidade e responsabilidade. O consumidor busca informações que possibilitam identificar as qualidades do produto, sua história, os elementos culturais e sociais em que se encontram. O design encontra o tema da transição em direção à sustentabilidade, de modo potencialmente fértil. É cada vez mais evidente a necessidade de mudança de estilos de vida e dos modelos produtivos para reduzir o impacto ambiental. (KRUCKEN, 2009, p.14) Não é possível pensar em artesanato sem pensar em sustentabilidade. No mundo de hoje é cada vez mais exigido essa transformação de comportamento, hábitos e modos de viver. “É muito bom ver que o que eu aprendi pode ser passado para frente.” (Mariane, aluna do projeto ASAS). No projeto ASAS foi trabalhado o “compartilhar”, o grupo de artesões foi dividido em três, cada qual em uma oficina (corte e costura, encadernação e audiovisual). O objetivo era capacitar cada grupo em áreas diferentes, para que houvesse a troca de informações e experiências entre eles. Os alunos da oficina de costura ficaram resposáveis por costurarem em máquina a capa dos cadernos feitos na oficina de encadernação, sendo que esses últimos encadernaram os “flipbooks” dos alunos da oficina de audiovisual, e assim por diante. Apesar das oficinas funcionarem no mesmo horário e em lugares diferentes, impossibilitanto um aluno de participar de mais de uma oficina, tivemos muita troca de experiências e um trabalho final coletivo, integrando dessa forma as três oficinas. O conhecimento adquirido durante o processo de conceitualização de um projeto, a execução dos produtos, a troca de experiências durante a produção, pode e deve ser passado adiante. O projeto ASAS tem como um dos objetivos transformar os artesões em multiplicadores. A partir disso, é possível criar uma rede de associação, objetivando a inserção social e a geração de renda.

REFEFÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARROSO, Eduardo. A imagem gráfica de um território. Disponível em: <http://eduardobarroso.blogspot.com/2009/09/imagem-grafica-de-umterritorio.html/>. Acesso em: 20 de novembro de 2009. KRUCKEN, Lia. Design e território: valorização de identidades e produtos locais. São Paulo: Studio Nobel, 2009. 64

LEON, Ethel. Design e artesanato: relações delicadas. In: Revista D’Art, 12o ed. São Paulo, 2005.territorio.html/>. Acesso em: 20 de novembro de 2009.

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Leitura sociológica sobre a favela

Canclini usa, em seu livro Culturas Híbridas um termo específico para definir tal disseminação cultural, ele a chama de “democracia audiovisual”. Nesse momento Canclini passa a fazer uma análise da memória histórica e uma crítica ao momento em que a cultura massiva e midiática (televisiva) passa a substituir a herança do passado e as interações públicas.

Maria Lina Cheschim

O projeto ASAS, realizado no Aglomerado da Serra durante 2009, fez com que comunidade e Universidade criassem laços de conhecimento e coletividade. Alunos universitários passaram a entender mais o sistema de relacionamentos que ocorre dentro das comunidades, e as aglomeradas (como são chamadas as artesãs do grupo ASAS) passaram a ter mais contato com certos conhecimentos que podem ser adquiridos apenas dentro de centros de estudo. Este artigo procura explicar, em linguagem formal, o meio em que o projeto atua, seu funcionamento, sua teia de relacionamentos, suas prioridades, etc. Fazendo, assim, com que outras pessoas possam, como os estudantes acima citados, compreender melhor o cotidiano dessas comunidades. A modernidade é conhecida por ser um tempo de desenvolvimento tecnológico, linear, burocrático e com poucas oportunidades, e é nesse momento do desenvolvimento que surgem os assentamentos informais de grupos, conhecidos como favelas. As favelas são dotadas de uma cultura própria e bastante peculiar, uma verdadeira miscigenação de costumes e conhecimentos considerados “populares”. Grande parte desses conhecimentos vem da mídia televisiva. Tal meio de comunicação funciona basicamente como a “política de pão e circo” usada na Roma antiga para distrair os escravos. Como nenhum outro meio de comunicação, a televisão transmite uma cultura de rápida compreensão e consideravelmente “leve”, para que os indivíduos esqueçam as condições em que vivem e/ou trabalham. O tempo livre dos setores populares, coagidos pelo subemprego e pela deteriorização salarial, é ainda menos livre por ter que preocupar-se com o segundo, ou terceiro trabalho, ou em procurá-los (CANCLINI, 1998, p. 288).

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Nas favelas é preciso relevar que tal meio de desenvolvimento de conhecimentos é quase recente e ainda atua com máxima força. Levando em consideração a modernização tardia da América Latina (tópico também tratado no livro Culturas Híbridas), e os problemas na renda dos moradores destes aglomerados, pode-se arriscar dizer que a supervalorização da cultura televisiva ainda é generalizada (fato que já está em decadência na cidade formal). As favelas também são conhecidas no mundo inteiro por sua inicial anomia, como são consideradas informais, a maioria dos governos tem dificuldade de manter o controle sobre a população aglomerada, ou seja, não sabe quantos são, o que fazem ou onde moram. Logo, a dominação legítima, aquela que realmente ocorre no local, ou em suas sub-regiões é sempre decidida tradicionalmente (de acordo com a “ordem do eterno”, o comodismo e/ou conformismo) ou carismaticamente (que vem da graça e do poder de conquista de alguma pessoa). Neste momento é necessário ressaltar que a mídia televisiva exerce uma dominação carismática sobre toda a população que atinge, cobrindo os “vazios” deixados pelo desenvolvimento e pela falta de encaixe dessas misturas culturais anteriormente citadas (referência ao estudo de Flusser, e sua terceira catástrofe, livro O Mundo Codificado: por uma filosofia do design e da comunicação, São Paulo, 2007). Ainda discorrendo sobre o comportamento dos moradores das favelas, é necessário citar Michel de Certeau e seu livro A Invenção do Cotidiano. Neste livro Certeau faz uma divisão entre instituições em geral, nomeando-as como “estratégicas”, e pessoas comuns não-produtoras, nomeando-as como “táticas”, dois conceitos-chave, nos quais todo o estudo sociológico sobre esses indivíduos se resume.


Sem ter posses, a tática é caracterizada como ágil e flexível e se baseia na arte da improvisação para conseguir o que quer. Ela não depende de um fundo próprio, e sim do coletivo, e explora furos no sistema, se infiltrando, tomando espaço, porém sem dominar. Misturando-se sutilmente ao grupo estratégico, a tática se torna quase imperceptível, e neste ponto configura-se grande parte de seu poder. Essa separação idealizada por Michel de Certeau tange outro filósofo que não deve ser deixado de lado; Émile Durkheim (Durkheim apud OLIVEIRA et. al., 2007), é conhecido por seus estudos sobre a Integração Social, e separa a população em dois modos de Pressão Social, ou seja, a dominação de um grupo sobre um indivíduo. Primeiramente temos a Solidariedade Social Mecânica, em que o indivíduo se liga ao grupo através da semelhança e sofre pressão por “sair da linha” (referência imediata à tática). E em segundo temos a Solidariedade Social Orgânica, em que todos formam um único ser maior dentro do qual cada um exerce uma função para que ele se mantenha “vivo”, o que pressiona os indivíduos desse grupo é o regimento do mesmo (referência direta à estratégia). Durkheim também define dois conceitos ainda muito atuais, o primeiro trata do modo pelo qual cada grupo se traduz, se encherga, refletindo imediatamente a sociedade em que vive, a Representação Coletiva. A partir desse conceito é fácil compreender a moda e o comportamento diferenciado deste grupo. O Segundo é a Mobilidade Social, outro estudo que se divide em duas partes: Mobilidade Vertical, é aquela em que a pessoa cresce ou cai socialmente , e a Mobilidade Horizontal, quando as pessoas mudam de cidade, por exemplo. As favelas começaram, quase todas, a partir a Mobilidade Horizontal, pessoas que mudam para as cidades atrás de Mobilidade Vertical, porém, ao chegarem lá, não conseguem melhorar de vida e se afundam cada vez mais na falta de oportunidades da sociedade Moderna/Pós-Moderna.

Agora se faz necessária uma observação: dentro dos aglomerados, quase não existe mais fome ou frio. O senso de comunidade e de solidariedade dessas pessoas deve ser notado, copiado, e aplaudido pela sociedade formal. O número de pessoas passando por essas necessidades básicas fora das favelas é muito maior do que dentro delas. É em um ambiente como esse, de culturas variadas que se misturam e se modificam diante de um televisor, de grupos que se dividem de acordo com o modo que se veem, e de pessoas com alto nível de solidariedade, capazes de se infiltrar em qualquer espaço, que atua o projeto ASAS — Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra. Tal projeto, realizado por alunos e professores da Universidade FUMEC, visa promover um maior conhecimento artístico, estético, artesanal e cultural, resultando no desenvolvimento e na aplicação do design na vida dos alunos/moradores da favela. Assim, esses moradores podem passar a se representar de maneiras diferentes, inserindo-se melhor na sociedade formal e abrindo espaço para chegar à uma qualidade de vida razoável. A tentativa do projeto é de fazer com que o trabalho das artesãs envolvidas, e recém descobertas, possa representar a cultura miscigenada de onde vem, porém de forma melhorada. Utilizando aplicações variadas dos conhecimentos passados pelos alunos da Universidade FUMEC, o objetivo é que seus produtos alcancem algum destaque no mercado consumidor exigente das classes A e B, as quais não só podem consumir, mas procuram produtos com valor agregado.

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Neste meio de coletividade foram criadas três oficinas, a de Costura e Bordado, a de Encadernação artesanal e a de Audiovisual, dentre as quais o grupo das aglomeradas se dividiu. A intenção deste momento foi de inter-relação, já que ninguém podia fazer duas, ou mais oficinas (que ocorriam no mesmo horário em locais diferentes da Escola Municipal Padre Guilherme Peters). Os alunos universitários propuseram que os conhecimentos adquiridos fossem passados entre os grupos, fora do horário de aula e que os produtos finais fossem produzidos pelas três oficinas em conjunto, reforçando a ideia de dependência e coletividade. Ao mesmo tempo, em outro dia da semana e outro horário, ocorria a Oficina de Criatividade, na qual a memória dos moradores dos aglomerados foi reavivada, facilitando a criação dos conceitos dos trabalhos finais. É necessário pontuar que a influência televisiva não foi ignorada por completo (uma vez que isso não é possível de ser feito), mas foi remanejada e redirecionada para seu melhor aproveitamento.

Com este projeto é quase impossível não perceber a alternação de significados que ocorre entre os alunos e os artesãos. É notável a interpretação diferenciada que ocorre sobre um mesmo signo, objeto ou aspecto. Isso, segundo Émile Durkheim (Durkheim apud OLIVEIRA et. al., 2007), é devido aos conhecimentos prévios da episteme (saber) misturados às experiências estéticas (primeira sensação que se tem ao conhecer algo novo) de cada um dos grupos envolvidos, pessoas com o mesmo tipo de vivência enxergam o mundo de forma semelhante, logo, para a realização do projeto, houve muita compreensão de todos os lados (aglomeradas, alunos universitários e profissionais da área). A qualidade dos produtos e da organização do projeto é uma junção de todos os fatores sociais previamente citados. As culturas populares miscigenadas geram todo o conhecimento que as artesãs trazem. Esses conhecimentos foram aproveitados por inteiro pelos alunos da FUMEC e aplicados diretamente em trabalhos e oficinas. Neste ponto se faz necessária uma breve explicação da metodologia do projeto, para que o entendimento do mesmo seja completo. O conceito projeto se baseia diretamente no empoderamento das aglomeradas como um grupo. Para chegar lá foi necessário que os alunos se organizassem da mesma maneira, tomando, de certa forma, o controle e recorrendo à coordenação apenas em momentos de grandes indecisões e/ou problemas. O exemplo dado pelos alunos foi muito bem percebido e seguido pelas artesãs que, por sua vez, passaram a procurar cada vez menos os alunos para a resolução de questões básicas.

Ainda nesse momento, foi trabalhada a relação dessas pessoas com os lojistas, e expositores. Deve-se considerar o modo como os moradores das favelas são capazes de se encaixar em ambientes variados, como eles aprendem rapidamente e como se relacionam com facilidade (tática). Ao fim do processo, o grupo de artesãs no Aglomerado da Serra é perfeitamente capaz de seguir sozinho. O ponto de vista, tanto delas quanto dos alunos e professores da Universidade FUMEC, mudou esteticamente, socialmente, coletivamente e de muitas outras maneiras. Foi um trabalho muito gratificante para os três grupos, e de aprendizado imensurável.

REFEFÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CANCLINI, Néstor Garcia Culturas híbridas. São Paulo: Edusp, 1998. CERTAU, Michel. A invenção do cotidiano. Petrópolis: Vozes, 1994. OLIVEIRA, Maria Gardênia Monteiro; BARBOSA, Maria Lígia de Oliveira; QUINTANEIRO, Tânia. Um toque de clássicos. UFMG, 2007. BERGER, Peter Ludwig. Perspectiva sociológica: uma visão humanística. Vozes: Petrópolis, 1998.

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FLUSSER, Vilém. O mundo codificado: por uma filosofia do design e da comunicação. Cosac Naify: São Paulo, 2007.

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Luxo aglomerado

Sílvia Pio O seguinte artigo apresenta uma visão de uma não habitante do Aglomerado da Serra que conceitua e dialoga com a relação entre a estética arquitetônica da favela e a estética das roupas e do consumo de moda. Este texto analisa o consumo comparado a evolução dos produtos de luxo e seu direcionamento para a massa, mapeando então a lógica do consumo desses produtos pelos moradores do aglomerado. As favelas têm datada sua criação ainda no século passado, com a tentativa de tornar a capital, então Rio de Janeiro, uma cidade com mais características europeias, assim, com medidas extremas, a cidade foi esvaziada dos negros e pobres. A alternativa era ocupar os morros de difícil acesso e de improvável ocupação da monarquia e todos os seus servidores (ZALUAR, 2004, p. 07). Diferentemente do que aconteceu no Rio de Janeiro, o Aglomerado da Serra tem seu início com habitantes vindos do interior de Minas Gerais, principalmente das cidades Rio Casca, Teófilo Otoni, Raul Soares e Montes Claros, a procura de oportunidades na capital. As construções eram de caráter extremamente provisório e refletia a dificuldade desses novos moradores em se adaptar (URBEL, acesso em: 02/11/2009). Analisando diretamente as construções, a maioria se encontra em obras e sempre com um aglomerado de materiais ao redor, com a sensação de que está para ser mudado algo, ou que a mudança ainda está acontecendo. Paola Beresntein, em Estética da Ginga, classifica as construções como “fragmentos” que são construídos com restos de materiais encontrados na cidade formal, chamaremos assim aquela parte da cidade que não é favela e nem aglomerado, que possui organização de construção e na construção. As primeiras casas do Aglomerado da Serra que foram construídas com folhas de zinco, tábua e papelão. Os barracos ou fragmentos, são transitórios, estão em constante mudança, sempre há uma nova parte a ser construída ou mudada, há sempre algo a ser melhorado.

(...) a grande diferença entre abrigar e habitar vem do fato de que abrigar é da ordem do temporário do provisório, enquanto habitar é da ordem do durável e do permanente. (BERENSTEIN, 2003, p. 26) A construção dos barracos como abrigos faz relação com a bricolagem, com o uso de materiais diversos e restos, com a captação permanente desses materiais, com a atemporalidade e com a construção infinita. A bricolagem (BERENSTEIN, 2003, p.24), assim como o trabalho de “patchwork”, é de caráter provisório, estão sempre em alteração, tem apenas a intenção de abrigar um corpo, assim como as roupas. As roupas são uma outra forma de se abrigar e de se mostrar ao externo. É através delas que somos classificados e identificados. Observou-se que ao contrário do que acontece com a construção dos barracos, nas roupas não existe constante mudança e nem constante construção, as roupas são extremamente bem acabadas sem sequer resquícios de emendas como no “patchwork”. As roupas e toda a composição da moda, em qualquer indivíduo, têm função de gerar identidade, de identificar, não só perante os outros mas também a si mesmo. Determinados grupos são identificados a partir da cor e estilo que se vestem, outros apenas por acessórios, isso ocorre em qualquer parte da cidade, na cidade formal e nos aglomerados. Os jovens são mais bem identificados dessa forma, pois passam pela transformação física e psicológica na fase da adolescência, isso contribui ainda mais para a construção do “abrigo roupa” (BERENSTEIN, 2003 p.26). Nessa fase o abrigo o identifica e o classifica, e essa classificação é de extrema importância para a sua afirmação diante do resto da sociedade. A roupa então tem uma função de proteção, quase se funde ao corpo, uma forma de escudo aos transtornos da adolescência.

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marcas e mantinham um acesso de massa a esse produto. Os magazines são o melhor exemplo, pois fazem cópias de peças de luxo, com material de aparência similar ao original, porém com qualidade inferior. As camisas de futebol, tanto de times nacionais quanto de times internacionais, são peças garantidas nos armários de adolescentes e adultos do aglomerado. As crianças são marcadas pelo consumo de calçados de personagens de desenhos animados, mesmo que de material emborrachado, a presença de tal personagem garante a satisfação e a certeza de um consumo de produtos que são direcionados a um público de renda mais alta. O luxo, não sendo algo exclusivo das classes altas e dos poucos que concentram dinheiro, tornou real a vontade de pessoas de baixa renda de adquirir esses produtos e de usá-los de forma a se destacar em seu meio e também de se confundir em outros meios. Com certa democratização do luxo, alguns setores ficaram abalados com o questionamento sobre qual seria o valor agregado nos produtos que realmente os diferenciasse de outros e que justificasse seu valor. A valorização do feito a mão e de pequenas imperfeições nas peças que as caracterizam como exclusivas foram aderidas a esse mercado, o que não é bem aceito no mercado de massa, pois a produção em série impede tal detalhamento e o próprio consumidor não absorve essas imperfeições como valorização do produto, mas sim como defeito. Passando por todo o processo de popularização e democratização do luxo surge um novo tipo de estabelecimento, os grandes magazines (LIPOVETSKY, 2003, p. 16). Em meados do século XX, são os magazines os grandes responsáveis pela sofisticação da moda para a massa e da facilidade de compra. Criam então o sistema de crediário (JÚLIO, 2005, p.85), em que não é necessário o pagamento a vista; o parcelamento e o prazo nas compras deram acesso a uma maior parte da população de massa. Com os cartões de crédito dos magazines

As roupas assim como a moda têm uma função de exibição muito além da função de abrigo. O exibicionismo com a roupa se dá na ostentação de modelos, cores, acessórios e principalmente de marcas. A marca, o nome da empresa, ou do estilista que vem estampado na etiqueta, é muito mais importante do que a roupa que sustenta aquela etiqueta (LIPOVETSKY; ROUX, 2003, p.43). E essa ostentação não se limita apenas a roupas, mas também a acessórios, e muitas vezes a acessórios menosprezados pelo uso do cotidiano, mas que quando agregado a uma marca tem seu valor disparado.

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As marcas, e principalmente o mercado de luxo que muitos não imaginam, são frequentes nas ladeiras e becos dos aglomerados. Muito antes de chegar aos aglomerados, o mercado de luxo teve alguns ajustes para atender a um público maior. Foi criado um segmento de semi luxo (LIPOVETSKY; ROUX, 2003, p. 45), seriam então segundas linhas das grandes marcas, porém com a mesma sofisticação de modelos, mas com material e acabamentos que não se encaixam ao mercado de luxo, ou até mesmo novas marcas que copiavam modelos de luxo das grandes

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A vaidade dentro do Aglomerado da Serra é nítida em qualquer esquina e em qualquer faixa etária. A forma como os barracos são feitos, e o ar de inacabado não se reflete no comportamento em relação ao vestuário. A perfeição e a vaidade nas roupas existem como uma forma de se autoafirmar dentro de um grupo, nesse caso um grande grupo, a cidade formal. a facilidade de compra cresce ainda mais. Os cartões não são mais exclusivos de cada magazine, pode se realizar compras em qualquer loja, o limite dado a esse cartão é feito aleatoriamente, a princípio é dado um limite básico e de acordo com o fluxo de compra esse limite cresce, aumentando a quantidade das compras e a facilidade do pagamento. Atualmente os grandes magazines oferecem também serviços financeiros, permitem que pequenos empréstimos sejam feitos através desse mesmo cartão. Com a abertura da aceitação desses cartões de créditos adquiridos nos magazines, a população dos aglomerados veriam ali uma nova forma de conseguir consumir o luxo. Todos os produtos que ficavam apenas no imaginário, passam a ser realidade. Produtos não apenas de moda, mas de necessidade básica, como eletrodomésticos e eletrônicos, que são consumidos direto das lojas, e sempre com os melhores benefícios e aparência de produtos novos e de ótima qualidade. O valor nessas compras não limita a escolha do produto, lembrando sempre da facilidade de crédito que surgiu.

Georg Simmel, que afirmava já em 1923 que a moda tinha uma dupla função, a de reunir ou de religar um grupo e de o separar ou de o distinguir, ao mesmo tempo, dos outros grupos sociais (LIPOVETSKY; ROUX, 2003, p. 119) Essa necessidade de afirmar-se, e de mimetizar a cidade formal, muito pelo contrário, não é uma forma de negar a origem ou menosprezar o local onde vive. Há em um grande grupo de moradores dos aglomerados um grande orgulho de residir ali, principalmente nos moradores antigos, onde qualquer conversa retorna ao passado e a história de como tudo aquilo nasceu e as dificuldades que enfrentaram. Eles se orgulham e contribuem muito para a melhoria do local, tanto física e psicológica, com apoio e incentivo de projetos sociais, projetos de capacitação profissional, entre outros que contribuem para o crescimento de cada morador.

Toda essa facilidade encontrada na compra de produtos eletrônicos e eletrodomésticos transfere-se também para roupas e sapatos, não somente nos grandes magazines. Outras lojas também facilitam o pagamento, principalmente no setor de calçados. Dentro do aglomerado a forma que se veste e o calçado que se usa importa, principalmente, no momento de se misturar na cidade formal. A vontade de consumir o luxo para os aglomerados não é tratada da mesma forma que para as outras classes. No aglomerado, o luxo e a ostentação (LIPOVETSKY; ROUX, 2003, p. 122) de marcas não é para se mostrar superior aos outros, o significado é de simples falta de identificação de sua origem. É uma maneira de se mimetizar na cidade formal, de se misturar à cidade e não ser classificado ou identificado como favelado. REFEFÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BERENSTEIN, Paola. Estética da Ginga. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003. GARDIN, Cibele. Sobre Têxteis e Subtextos. Trabalho de Conclusão de Curso. Rio de Janeiro: SENAI/Cetiquit, 2007. JÚLIO, Carlos Albert. A Arte da Estratégia. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005. LIPOVETSKY, Gilles; ROUX, Elyette. O Luxo Eterno. França: Editions Gallimard, 2003. URBEL. Histórico do Aglomerado da Serra. In: Portal Prefeitura de Belo Horizonte. Disponível em: http://portalpbh.pbh.gov.br Acesso em: 02/11/2009. 76

ZALUAR, Alba; ALVITO, Marcos. Um Século de Favela. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004.

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oficinas de capacitação


Encadernação Oficineiros: Lorena Marinho (texto) Maria Lina Cheschim

Ser responsável por uma oficina no projeto ASAS foi mais que uma responsabilidade. Nunca lecionei na minha vida. Foi preciso aprender para ensinar. A pouca experiência que tinha com encadernação foi suficiente para que essa oficina caísse em minhas mãos, porém foi preciso correr atrás de materiais, aprender o que não sabia e o mais importante: aprender a ensinar. A princípio, minha oficina seria dividida em 3 etapas: encadernação, serigrafia e toy art de papel. Foi necessário montar um cronograma, pesquisar tipos diferentes de encadernação, fazer lista de materiais e criar um método para que tudo isso fosse passado para frente. Mas como definir a quantidade certa de materiais para que nada faltasse e nem fosse desperdiçado? Foi complicado, sentia que estava com uma grande responsabilidade em minhas mãos. No começo foi difícil, alunos e professores inexperientes, sobra de papel, de linha... A forma que encontrei para reutilizar esses materiais foi dando como dever de casa a criação de capas e formatos inusitados. Alguns resultados ficaram bem interessantes. Foi um começo gostoso, de descobertas e de aprendizagem. O primeiro dia no aglomerado foi de apresentação das oficinas. Os responsáveis pelas três oficinas oferecidas (bordado e costura, audiovisual e encadernação), fariam uma breve apresentação do conteúdo e no final haveria um lista a ser preenchida com a escolha que cada aluno faria. Me lembro que havia toda uma expectativa, será que minha oficina foi bem recebida? Estarão eles interessados? A resposta foi positiva. Na semana seguinte começarmos as aulas com quatro alunos. A aula foi tranquila, o alunos interessados e um clima amigável. Ao longo da oficina tivemos variações de alunos, muitos vinham e iam, chegamos a ter oito alunos num mesmo dia. As aulas eram sempre práticas, e todos os dia confeccionávamos algum tipo de caderno. No decorrer das semanas fui percebendo que poderíamos focar mais nas encadernações, já que as meninas que participaram do ASAS no ano anterior ficariam responsáveis em transferir o conhecimento adquirido pela oficina de serigrafia para os novos integrantes do projeto. Por causa dos feriados nossa carga horária foi prejudicada. A oficina agora seria apenas de encadernação, poderíamos explorar outras costuras e focar na qualidade dos produtos. 80

aula 1: tipo cola e borboleta

aula 3: tipo capa dura com tecido

Começamos com uma apresentação básica sobre papéis, livros e criatividade na confecção de cadernos. Logo depois ensinamos as encadernações mais simples, a com cola e a borboleta. Posteriormente utilizamos a encadernação com cola na finalização dos “flipbooks” (oficina de audiovisual), porque um dos nossos objetivos era a interação entre as três oficinas do projeto.

Este tipo de caderno exige muito cuidado e paciência para que tenhamos certa qualidade. Foi uma aula difícil. Colocamos os alunos para cortarem os papéis, o tecido, o calandrado e prepararem todo o material que usariam na confecção. Alguns hesitaram, alegando não possuírem tais habilidades. Começamos então a descobrir as habilidades de cada um. No final estavam todos ajudando uns aos outros. Aprendemos que a coletividade e a insistência são importantíssimas para o nosso trabalho. O resultado foi razoável, mas insistimos no treinamento fora da sala de aula.

aula 2: tipo japonesa Com seis alunos, obtemos um resultado muito bom nessa aula. A encadernação japonesa, fácil, porém sofisticada, chamou a atenção dos alunos. Fizemos um caderninho com uma costura simples e outra em zig-zag. O resultado foi muito bom, tanto nos executados em sala de aula quanto nos deveres de casa.

aula 4: tipo costura exposta com tiras de couro Aula bastante agitada, com oito alunos. Utilizamos tiras de couro de diferentes tipos e cores, escolhidas por eles. Os alunos gostaram muito deste modelo, devido a exposição da costura.

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aula 5: tipo costura exposta (ou copta) O interessante dessa encadernação foi que após vários dias de treino os próprios alunos descobriram uma forma de finalizar a costura melhor do que a ensinada. Isso foi ótimo. A prática e a persistência os levaram à um resultado superior. Esse foi um exemplo de aula onde quem aprendeu foi o professor. Nas aulas seguintes ficamos por conta das exposições,

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na confecção de protótipos e dos materiais para a venda. A aula 5 foi importante para a familiarização dos alunos com a costura, a mesma utilizada nos cadernos da coleção passada e atual. Conseguimos aperfeiçoar o modelo e o acabamento. Tivemos um resultado excelente.

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Bordado e costura Oficineiros: Silvia Pio Juliana Augusta de Lima Rocha (texto)

Ensinar em uma oficina do projeto ASAS o que aprendemos na faculdade! Sabíamos que não seria fácil, afinal para lecionar professores passam anos estudando além de possuírem um certo dom. Já nós éramos três estudantes, cada uma com seu nível de prática e conhecimento o que facilitou bastante. Silvia, já estava prestes a se formar, fazendo seu Trabalho de Conclusão de Curso, Lilian já costurava, sempre fazia seus próprios trabalhos de faculdade. Já eu, Juliana, acho que era a que menos sabia de costura das três. Entretanto, ainda bem, ninguém viu essa diferença como uma dificuldade. Tivemos que estudar e trocar informações sobre o que iríamos ensinar. Já no início acabamos aprendendo bastante com as pesquisas. Entre erros e acertos em cronogramas e decisões, finalmente resolvemos que iríamos dividir a oficina em três. O início seria ensinar a trabalhar na máquina de costura, avaliando qualidade de acabamento e aprendendo dicas. Na segunda etapa a modelagem seria ensinada, aprendendo a fazer um molde industrial e suas variações. Depois, a peça seria fechada e assim um produto estaria pronto. Em sua terceira e última etapa iríamos ensinar bordados diferenciados, detalhes focados em traços de linhas. Foi necessário montar um cronograma de datas e prazos, pensar em o que pedir para as artesãs fazerem em casa, pesquisar tipos diferentes de bordados, mostrar trabalhos de artistas, fazer lista de materiais e criar um método de como passar o nosso conhecimento para elas. O começo até que foi mais fácil do que imaginávamos. Claro que tivemos dificuldades, nunca tínhamos dado uma aula antes e, assim como nós, elas também possuíam níveis de aprendizado diferentes. Algumas já costuravam há anos, outras nunca tinham nem ligado uma máquina de costura. Mas com o tempo uma foi ajudando a outra e todas, inclusive nós, conseguiram bons resultados.

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aula 1: conhecendo o instrumento de trabalho Começamos ensinado o básico. Como ligar a máquina de costura, como passar a linha na agulha e aprender a controlar a velocidade da máquina. Tendo como material o papel, as artesãs costuravam o papel, desde a linha reta até curvas. Algumas com mais facilidade, já nessa aula, passaram a costurar no tecido. Tentamos ao máximo igualar as alunas em conhecimento e técnica. Em um segundo momento, as artesãs aprenderam a trabalhar com uma nova máquina, o overloque. Apesar de ser um equipamento barulhento e rápido, as meninas tiveram facilidades. Tendo como dever de casa o treino na máquina, para aprender a controlá-la.

aula 2: técnicas de costura, orientação sobre pontos e noções básicas de acabamento Nesta aula ensinamos técnicas de costura para facilitar a montagem de um produto. Dicas importantes também foram dadas para acabamento. Ensinamos alguns macetes usados por costureiras profissionais para que os produtos fiquem mais bonitos. As meninas também aprenderam sobre os diferentes pontos de uma máquina de costura e quando usá-los.

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aula 3: corte e costura – modelagem A aula de modelagem esteve entre uma das aulas mais difíceis, pois a modelagem na confecção de um produto é tudo. É preciso fazer o molde para depois pensar em cortar tecido e costurar, para finalmente ser transformado em um produto. Por isso todas as atenções eram necessárias nesse momento. As meninas aprenderam a cortar um molde industrial, a visualizar o produto — neste caso uma camiseta baby look e uma regata — no papel. Ainda nessa aula aprenderam a cortar o molde no tecido, distinguindo frente e verso.

aula 4: fechamento da peça e variações em cima do molde básico Com o molde feito na aula passada, e já cortado no tecido, no primeiro momento desta aula as artesãs aprenderam a fechar a peça. Pregar manga, arrumar a gola, fazer a base. Sempre com as dicas de acabamento dadas em aulas anteriores.

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Em um segundo momento desta aula elas aprenderam a fazer a variação dos moldes. Tendo o molde básico é possível modificar a gola, aumentar a manga, além de aprender a fazer a variação de tamanhos.

aula 5: entre pontos Neste momento entramos em outro ciclo das oficinas. As meninas começaram a aprender a bordar pontos diferentes. Mostramos peças de artistas e associações que trabalham o bordado de forma peculiar. Ainda nessa aula demos início à produção do mostruário pessoal. Em retalhos de tecidos as meninas aprenderam a fazer diversos pontos. Os deveres de casa primavam pela prática dos pontos. Assim, cada uma deveria bordar uma imagem. Elas também perceberam que não é necessário a imagem estar toda bordada para que o produto seja valorizado, pelo contrário, os bordados eram sempre em detalhes para que tivesse um diferencial. As aulas de bordados se estenderam por mais dois dias. Terminado o ciclo de oficinas, a partir deste momento o nosso foco era colocar as aulas em prática. A confecção dos produtos era o principal dever de casa. Com exposição marcada, elas colocaram em prática todas as dicas dadas por nós e as que elas adquiriram com o tempo.

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Imagem e movimento Oficineiros: Aruan Mattos Lopes (texto) Ana C. Bahia

As oficinas de imagem e movimento aconteceram durante todo o ano de 2009. A oficina foi inicialmente composta por 6 alunas entre 18 e 60 anos. Após as primeiras três aulas o número de alunas foi reduzido a 3 e assim se estabeleceu até o seu encerramento.

aula 1: introdução à história da fotografia e construção das câmeras Após o primeiro dia de apresentações dos oficineiros e dos beneficiários, as aulas de imagem e movimento deram início com uma apresentação teórica sobre a história da fotografia. Neste momento, foi exposto o desenvolvimento da câmara escura e seus desdobramentos até se chegar à concepção da máquina fotográfica. Em seguida foi proposta a construção de câmeras fotográficas artesanais de pinhole com caixas de fósforos e bobinas de filme. As câmeras pinhole caracterizam-se pelos seus materiais ordinários e o não-uso de qualquer tipo de lente, utilizando-se apenas de um micro buraco de agulha para a entrada de luz em sua câmara escura.

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aula 2, 3 e 4: trabalhos de campo, registros Na segunda, terceira e quarta semana de aula começaram os trabalhos de campo no Aglomerado da Serra. Oficineiros e beneficiários percorrem por diversas vias, becos, praças e casas na favela, afim de provocar maior imersão no território. Foram realizados registros com as máquinas de pinhole desenvolvidas na primeira aula, além de vídeos com câmeras de mini-dv tradicionais.

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aula 5: atividade paralela (ofina na Casa do Baile) A sexta aula foi organizada no espaço cultural Casa do Baile. Esta aula foi uma parceria organizada entre os projetos ASAS e 111 BH — Belo Horizonte pelo Buraco da Agulha. Além dos beneficiários primeiros da oficina de imagem e movimento, compareceram ainda os beneficiários das demais oficinas e diversos alunos da Escola Municipal Padre Guilherme Peters. Nesta ocasião foi realizado oficina de pinhole com latas, caixas e papéis fotográficos. Nas duas semanas seguintes, foram selecionadas e editadas as cenas para a produção dos “flipbooks”. Ao fim, foram escolhidas três cenas que definiram os seus respectivos produtos finais. Neste momento foram preparados os arquivos finais para impressão. Os “flipbooks” foram finalizados com capas e encadernações realizadas na oficina de encadernação.

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As fotografias em pinhole, por sua vez, compuseram os chamados objetos-luminosos. Estas peças são compostas pela ampliação e impressão das fotografias realizadas com as câmeras ordinárias. Em um segundo momento é encomendada a um técnico em maquetes a fabricação de caixas em papel calandrado com medidas específicas. As fotografias impressas são então dispostas nestas caixas e ainda são montados circuitos de LED`s direcionais. A fabricação destes produtos foi realizada em todas as semanas subsequentes até a montagem da exposição na Quina Galeria, localizada no edifício Maletta no centro da cidade de Belo Horizonte.

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Criatividade Oficineiros : Bruno Oliveira (texto) Ana C. Bahia

A metodologia do projeto ASAS se estrutura a partir de um processo de capacitação múltiplo, que engloba não só o aprendizado e aprimoramento de técnicas (estamparia, costura, bordado e encadernação), mas também a formação criativa dos artesãos. Acredita-se que a autonomia real dos beneficiários e de seus grupos produtivos só pode ser alcançada por meio deste empoderamento conjunto (técnico e criativo), além do desenvolvimento do capital humano, da ampliação do repertório dos artesãos e da valorização de novas formas de se perceber a próprio entorno e o trabalho coletivo e colaborativo como potências de construção de novas realidades. Para a segunda coleção ASAS_aglomeradas, tomou-se como ponto de partida o território. Durante as oficinas de criatividade, diversas atividades foram propostas para elaborar discussões sobre as relações territoriais construídas no cotidiano da favela, além de aulas teóricas de história da arte, teoria da forma e cor, entre outras. Valorizando dinâmicas de trabalho coletivas e processos criativos colaborativos, os desenhos e estampas foram produzidos a várias mãos, buscando eliminar a autoria das imagens e incentivar a formação de um grupo produtivo mais coeso. O processo de criação das estampas desta coleção foi pautado pela construção de diversos mapas coletivos em tecido e papel, em grandes e pequenos formatos, com colagem, desenho, pintura e bordado. Para além do racionalismo cartesiano encontrado em mapas, os artesãos foram incentivados a elaborar novos mapeamentos subjetivos, que lidassem com outras territorialidades e estruturas invisíveis não contempladas em bases cartográficas comuns. Ao se trabalhar com essa construção colaborativa de narrativas coletivas, instituiu-se um processo de troca de experiências territoriais e um entrelaçamento de percursos e histórias.

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Ao final do processo de capacitação proposto pelos oficineiros, as beneficiárias desenvolveram uma série de estampas a partir de cartografias semânticas elaboradas durante o processo criativo. Os artesãos, em continuidade às discussões construídas nas oficinas, propuseram novas

alternativas para a utilização das estampas: camadas de cores e imagens sobrepostas, redes de nós e ligações entre palavras e desenhos. Comprovando sua autonomia criativa, o grupo de beneficiárias inaugurou, para a equipe de oficineiros, um novo parâmetro para o processo de capacitação: o empoderamento criativo e técnico não deve ser distanciado e os beneficiários devem ser incentivados a construir novas estratégias e processos a partir da contaminação dos saberes.

aula 1: introdução ao processo criativo e início do primeiro mapa coletivo (tecido) Durante a primeira aula houve uma breve contextualização sobre metodologia criativa e sobre o caderno de processos, que os acompanharia por toda a oficina. Discutiu-se também com o grupo de beneficiários a proposta de tema para a nova coleção: Territórios. Limites, bordas e fronteiras vistas de outra forma: iniciou-se a construção de uma nova cartografia subjetiva associadas à experiência dos espaços da favela em um mapa desenhado, pintado e bordado coletivamente em tecido.

aula 2: frotagem A proposta desta aula foi discutir a forma como os artesãos percebiam o próprio espaço cotidiano. Após terminar o mapa iniciado na aula anterior, os alunos foram incentivados a buscar texturas com giz de cera pela escola. Posteriormente, foram incentivados a trabalhar de forma coletiva sobre as frotagens coletadas, criando novas formas a partir das texturas.

aula 3: cor e forma Nesta aula os beneficiários foram apresentados a diversas referências (trabalhos de arte, design e artesanato) e, por meio de análises das imagens mostradas, discutiu-se teorias relativas à utilização de cor e forma. Após a discussão, houve uma prática sobre cor, com tintas (círculo cromático), e sobre forma, com recortes de papel. 93


aula 4: desenho Incentivados a trazer referências, desenhos e novas anotações no caderno de processos todas as aulas, esta aula se iniciou com a apresentação dos cadernos de cada um, discutindo ideias e a sua utilização como estampa para a coleção. Neste dia os artesãos também tiveram uma prática de desenho livre, com discussão de referências ao final do dia.

aula 5: mapa semântico Nesta aula introduzimos o conceito de “deriva”, elaborado pelo Movimento Situacionista, que surgiu na década de 60, na França — e a partir do qual os jovens da época propuseram aos cidadãos a construção coletiva dos espaços das cidades nas

quais habitavam. Nesta aula também apresentamos aos beneficiários exemplos de uso da tipografia como imagem nas artes moderna e contemporânea. Após a teoria, um grande mapa do Aglomerado da Serra, composto por recortes de textos e texturas, foi construído coletivamente.

aula 6: história da arte e definição da cartela de cores da coleção Esta aula foi composta por uma aula teórica sobre a História da Arte dos séculos XX e XXI, discutindo referências de cada período e estabelecendo relações com a produção contemporânea. Na segunda parte da aula, houve uma conversa sobre mercado e público-alvo e as suas implicações sobre as definições de estampas e cartela de cores dos produtos. Finalmente, a partir das pesquisas realizadas pelos alunos em seus cadernos de processos, definiu-se a cartela de cores da coleção.

aula 7: definição das estampas Durante a última aula da oficina de criatividade os artesãos tomaram a frente do processo de criação das estampas e eles mesmos selecionaram, nos mapas e imagens construídas coletivamente, aquelas que seriam mais adequadas para a coleção com o tema Territórios. No final desta oficina os artesãos já tinham a arte-final das estampas da coleção prontas.

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desdobramentos


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No dia 10 de setembro de 2009 fizemos uma mesa redonda sobre design e inclusão social na Mostra de Design do Café com Letras. Esta mesa redonda possuía o objetivo de apresentar e discutir os projetos de capacitação em artesanato e design e a importância política do designer nos processos de reposicionamento social, utilizando processos sustentáveis de geração de renda, dentro de um conceito amplo de design solidário. Mediação: Natacha Rena (Universidade FUMEC) Palestrante 1: Ana Maria Queiroz de Andrade (Imaginário Pernambucano/UF Pernambuco)
 Palestrante 2: Gabriela Torres (FUMEC/Talentos do Brasil/BH)
 Palestrante 3: Heloísa Crocco (Laboratório Piracema de Design/ Porto Alegre) e Fernando Maculan (A&M Arquitetura/BH) Neste evento contamos com a participação das artesãs do ASAS e também dos alunos da FUMEC envolvidos no projeto. No ano anterior, em 2008, também em uma mesa sob a curadoria da Professora Natacha Rena, tivemos a presença dos designers Paula Dib e Eduardo Barroso, para tratar do tema DESIGN SOCIAL. Site da Mostra de Design do Café com Letras: http://www.mostradedesign.com.br/

lançamento da coleção 2008 na loja de objetos de design Grampo

mesa redonda design e inclusão social na Mostra de Design do Café com Letras

setembro 2009

Foram meses de preparação, dias de produção exaustiva, reuniões e mais reuniões nas quais o assunto era único: nossa primeira exposição. Nosso primeiro contato com a loja de design Grampo, foi tímido. Após a coordenadora do projeto, Natacha Rena, entrar em contato com a Patrícia Naves, uma das sócias da loja, explicando o projeto e pedindo o apoio, marcamos um primeiro encontro e levamos junto duas aglomeradas (Schirley e Suzana), e dois alunos da Universidade FUMEC (Lina e Bruno), para falarmos sobre a data de abertura da exposição, sobre a cara dos produtos, dentre tantas outras coisas. Por alguns segundos duvidamos se conseguiríamos montar uma exposição que alcançasse o nível de qualidade da loja. Saímos desta primeira reunião super agitados e cheios de ideias para a exposição, mas, principalmente, preocupados em realizar uma produção no nível estético e qualitativo que a loja exigia dos produtos. Na nossa reunião seguinte com todos do grupo na Universidade FUMEC, levamos uma retrospectiva da visita para o resto do grupo, fazendo com que todos participassem igualmente do processo, do pensamento e da conceitualização da exposição. Lá, lançaríamos nosso primeiro catálogo. Como sempre, o encontro com nossos colegas universitários foi produtivo. Ideias surgiram instantaneamente, e a montagem do evento daria certo com qualquer uma delas. Então, Natacha Rena sugeriu que o grupo pensasse uma proposta de exposição utilizando caixas desmontadas de papelão (um material barato e fácil de transportar), com estampas dos produtos na superfície das caixas; e daí empilharíamos estas caixas desordenadamente no espaço da loja Grampo, fazendo uma analogia ao crescimento desordenado da cidade informal. Todos concordaram, já que parte das nossas inspirações e referências, para auxiliar as aglomeradas na escolha dos temas e gerar iconografia dos produtos, era o próprio território e as características singulares da favela. Esta proposta se encaixou muito bem, tanto com o nosso conceito, quanto com o visual da loja. Depois dessa reunião trabalhamos muito para conseguirmos cumprir todos os prazos e tarefas: finalizar o catálogo, escrever os relatórios para a UNISOL e produzir a coleção, que seria lançada, com estoque para vendas. Decisões sobre o buffet tornou o grupo mais unido em um momento importantíssimo do projeto. A exposição estava marcada para sábado, dia 12 de setembro de 2008, e faríamos parte da programação sugerida pela Mostra de Design do Café com Letras. Foi quando, no dia 11 pela manhã, o buffet escolhido por nós nos ligou e cancelou o serviço.

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Com tudo pronto fomos montar a exposição. Passamos o dia na loja, colando caixas, tirando o plotter antigo da parede, decidindo encaixes, e reorganizando a loja. O dia pareceu leve, a montagem realizada em grupo foi agradável e produtiva. Logo estava tudo pronto para o dia seguinte. O dia 12 foi muito movimentado, além de receber tantos convidados, recebemos a visita do nosso avaliador da UNISOL, David. Primeiramente ele ficou observando tudo como um comprador comum da loja. Em seguida chamou nossos beneficiários/artesãos para uma conversa, da qual saiu satisfeito com as informações que obteve. Depois chegou a nossa vez: David se reuniu com grupo de alunos da FUMEC para conversar sobre o projeto.

Nossa reunião de trabalho semanal virou um caos absoluto. Ligávamos para vários buffets da cidade tentando encontrar algum que se dispusesse a nos atender. Por fim, na última hora conseguimos um novo bufett que nos atendeu perfeitamente. Nos dividimos em equipes, cada qual com uma função: alguns responsáveis pela produção do evento, outros pelo material gráfico, outros pela divulgação e acessoria de imprensa. Além de todo esse trabalho, estávamos esperando pela equipe da UNISOL, que viria nos avaliar um dia antes da exposição — o que acabou acontecendo só no dia mesmo do coquetel de lançamento da esposição.

Conversamos com ele sobre a formação do nosso grupo, e de como nos relacionávamos. David nos revelou que de todos os grupos participantes do UNISOL, naquele momento, o nosso era o que tinha um grupo mais unido e os alunos mais empoderados e empolgados. Este foi um ponto forte na avaliação do ASAS como um todo, e uma maneira interessante de nos fazer entender que a forma aparentemente desorganizada com que trabalhávamos era, na verdade, uma sintonia que gerava um processo de harmonia no caos. Foi realmente um dia feliz. Além disto, vendemos muitos produtos e a recepção do público foi bastante positiva. Por fim, a Grampo continua nossa parceira e nos apoiando, dando ideias quanto à melhor forma de expor os produtos para que tenham visibilidade. Também nos dão retorno sobre a qualidade de acabamento das peças, cartela de cor, etc. Aproveitamos a oportunidade para registrar nossos agradecimentos à Patrícia e Manoela, proprietárias da Grampo, à Naiara, uma de suas funcionárias que nos ajudou muito.Agradecemos também ao David, nosso avaliador da UNISOL, que nos mostrou o quanto tudo tinha mais qualidade do que pensávamos. Essas pessoas não só nos proporcionaram uma oportunidade considerável de produção, mas uma nova noção de autoconhecimento do grupo, incluindo a coordenação e os beneficiários.

Bom, com o novo buffet contratado, toda a parte de divulgação e convite prontos, inclusive as caixas sendo estampadas só faltava, então, a montagem e nossa confiança de que tudo daria certo.

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exposição na Quina Galeria

novembro 2009

A ideia da exposição de luminárias com imagens em “pinhole” dos artesãos do Aglomerado da Serra surgiu depois de um bate papo descontraído com Aruan Matos, designer gráfico, que nos apresentou o projeto ASAS. A exposição foi um sucesso e com isso conseguimos dar mais visibilidade ao trabalho que o projeto vem executando no aglomerado da Serra. A exposição trouxe mídia espontânea em jornais e blogs, divulgando e valorizando ainda mais o ASAS. A partir desta exposição a Quina Galeria iniciou uma parceria tornando-se um novo ponto de vendas para o ASAS e com isso novas encomendas de produtos foram feitas, promovendo ainda mais a inserssão do projeto no mercado consumidor. Para o segundo semestre de 2010 realizaremos nossa segunda exposição com o lançamento de uma nova coleção dando continuidade a essa nossa parceria, sendo uma forma bem bacana de poder ajudar e divulgar um trabalho tão interessante, e social enfatizando a verdadeira identidade de uma comunidade. Rodrigo Furtini Cardoso Artista plástico, Designer e Proprietário da Quina Galeria Ayrton Ribeiro de Mendonça Filho Designer e Proprietário da Quina Galeria

Quina Galeria Ed. Maletta - Rua da Bahia, 1148, sobreloja 06, Centro, Belo Horizonte, MG www.flickr.com/quinagaleria www.twitter.com/quinagaleria

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palestra sobre o ASAS para um grupo de curadores do FORMING IDEAS

março 2010

O projeto ASAS foi apresentado pela coordeanadora do projeto Natacha Rena e pelo assistente de coordenação Bruno Oliveira para um grupo de curadores ingleses que estiveram no Brasil em março de 2010. Financiados pelo Forming Ideas — Curatorial Development Programme —, que organiza debates sobre práticas contemporâneas em artesanato, formando uma rede internacional de parceiros. A visita do grupo ao Brasil trouxe alguns curadores que estão interessandos em novas práticas em artesanato e design, principalmente se tiverem uma interface com a arte contemporânea. Eles não estão interessados em artesanato tradicional e, portanto, o interesse maior foi conhecer projetos socialmente engajados e que cruza diversas disciplinas. A equipe de curadores que assitiram a palestra sobre o projeto ASAS no escritório A&M foi composta por: NN JONES DEIRDRE FIGUEIREDO KELDA SAVAGE MARTINA MARGETTS STEPHEN BEDDOE MICHELLE BOWEN YVONNA DEMCZYNSKA RICHARD EDWARDS MELANIE KIDD CHRISTINE LAWRY JACKIE LEE SARAH ROBERTS DAVID SINCLAIR

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Agenciamento de tecnologia social desenvolvida a partir de projetos de pesquisa e extensão em artesanato e design. Adota-se o conceito de design social no sentido de desenvolver processos criativos coletivos que incitem o trabalho colaborativo, resultando na construção de objetos inventivos e com fortes características da identidade local. É uma constante nos projetos o foco na autonomia criativa e produtiva para que haja um real empoderamento das comunidades.

oficina de pinhole no Festival Eletronika 2010

palestra no Oi Futuro sobre design, artesanato, criação coletiva e tecnologia social 106

maio 2010

Natacha Rena (coordenadora do projeto), Bruno Oliveira e Aruan Mattos (alunos da Univerdidade FUMEC) e Shirley Maria Araújo e Suzana Marília dos Anjos Oliveira (aglomeradas) ministraram a oficina de pinhole na favela, no evento CIDADE ELETRONIKA que aconteceu em maio de 2010. A oficina teve o objetivo de construir percursos fotográficos no Aglomerado da Serra possibilitando a profissionais e estudantes apreender tanto as técnicas de fotografar em pinhole (desde a confecção da câmera com caixinha de fósforo até a revelação do filme e impressão das fotos) quanto o espaço singular da favela através de uma visita guiada pelas aglomeradas. No primeiro dia houve uma aula teórica inicial sobre a história e conceitos básicos de fotografia, e sobre a dinâmica do processo de fotografia pinhole. Além da aula teórica, no primeiro dia também foram confeccionadas câmeras a partir de caixas de fósforo. No segundo dia foi realizada uma visita ao Aglomerado da Serra e, durante as caminhadas, os visitantes realizaram percursos fotográficos a partir de um mapa de becos e vielas do aglomerado. No terceiro dia os filmes foram levados para revelação e a impressão das fotografias em laserfilm que foram utilizadas na exposição final. No quarto dia todos se reuniram na Escola de Arquitetura da UFMG para desenhar coletivamente o mapa da favela que foi projetado na parede frontal de vidro com o auxílio de um retroprojetor. Ao mesmo tempo foram construídos os circuitos (led e bateria) que ficaram anexados às fotografias para serem fixadas no mapa, demarcando os percursos realizados.

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participação na série de documentários“Caminhos”realizada pela TAL (Televisão da América Latina)

junho 2010

O ASAS participou da série de documentários “Caminhos”, realizada pela TAL, em junho de 2010 A TAL — Televisão da América Latina é uma organização social de interesse público, sem fins lucrativos, dedicada à produção e distribuição de conteúdos, que neste momento encontrase empenhada em produzir uma série de 10 episódios para televisão, em parceria com o Governo Federal, através do Ministério da Cultura, voltados à apresentação de experiências positivas no campo da economia da cultura. Os programas têm por objetivo apresentar a área de cultura como ambiente de alta diversificação (segmentos e cadeias produtivas) e grande potencial gerador de emprego e renda e, neste sentido, uma plataforma de inclusão cidadã e alternativa de sobrevivência, especialmente para a juventude das classes C, D e E. A série de programas irá apresentar casos bem sucedidos que demonstrem resultados na transformação de vida dos indivíduos e grupos sociais deles participantes, protagonizados por personagens vindos das classes C, D e E que habitem em zonas de periferia das grandes cidades brasileiras. As áreas enfocadas são, prioritariamente, mas não exclusivamente, os segmentos de moda, artes visuais, artes cênicas, design, fotografia, audiovisual, cultura digital, animação, música e culinária. Buscando abordar experiências em Minas Gerais, o projeto ASAS – Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra — foi selecionado por ser um ótimo exemplo de como trabalhar geração de renda aliada à economia criativa. A equipe técnica passou uma semana em Belo Horizonte para realizar registros e entrevistas com todos os envolvidos no projeto e quaisquer agentes que contribuam para o sucesso do empreendimento.

FICHA TÉCNICA Direção executiva: Malu Viana Coordenação Programa Mais Cultura Audiovisual: Mário Borgneth Roteiro: Hilton Lacerda Diretor episódio ASAS: Wagner Morales

ASAS Autor: Ice Band - Hudson Carlos letra de RAP sobre o projeto ASAS composta especialmente para o documentário da série CAMINHOS (TAL).

Oh! Minas Gerais, suas riquezas são demais uai, vai além das montanhas artesanato solidário; aglomerado, serra dando asas às suas ideias, mostrando para o mundo a cultura da nossa terra com parceria de pessoas que acreditam no sonho da periferia, sem treta, por entre caminhos e ruelas tortas fomos abrindo nossas portas. Demorô, já é, pessoas, arte e alegria, parceria de pé porque artesanato solidário fortalece no salário. Junto com a arte a vida na periferia acontece na mais perfeita harmonia. Artesanato solidário, correria, é arte com alegria.

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depoimentos


Gente, é demais! Vocês não tem noção da coisa. Sair em jornais, dar entrevistas,conhecer pessoas, discutir sobre design, viajar, fazer um documentário... Comunidade acorda em quanto é tempo, pois o tempo não vai esperar você! Até parece que estamos no ramo há muito tempo. É muito bom ser comparada com outros artistas. Sem saber, o que eu fazia já tinha um conceito. Neste ano estamos formando a rede ASAS. Isso vai tornar nossos produtos mais sustentáveis e dar sustentabilidade aos participantes. Para o ano de 2011 quero estar em outro país com a grife Aglomeradas dando workshops e fazendo exposições. O melhor foi receber a notícia da premiação ao lado dos meus pais, foi demais! Também recebi propostas de trabalho para formar outros grupos em outra cidade. Agradeço a Deus, a todos da Fumec, escolas e parceiros pelo aprendizado. Quando estampo um tecido, é porque já fui estampada por ele.

O projeto foi ótimo com a parceria da Fumec que me deu a capacidade de aprender mais e ter conhecimento. Aprendi a criar o meu próprio produto, pois aprendi a dar mais valor para o meu trabalho. O meu tema é o Aglomerado da Serra. Agradeço a Deus pelo conhecimento, paciência e sabedoria que ele tem me dado. Suzana Marília dos Anjos Oliveira

O projeto me trouxe um novo olhar dentro da perspectiva do design artesanal, ou seja, o artesanato que faço hoje tem outro conceito. Tornei-me uma pessoa mais ponderada e confiante. O mais interessante foi mesclar minhas atividades do Coletivo Criarte com o ASAS. Assim meus trabalhos foram tendo uma forma mais prática e objetiva. O melhor de tudo é que surgiu novamente a vontade de voltar a estudar. Schirley Maria Araujo

O trabalho desenvolvido pelas aglomeradas é muito importante para esta comunidade. A maneira como a arte e a criatividade são colocadas nas telas é muito interessante. Quando conheci as meninas não imaginei que fariam tanto sucesso. O trabalho de orientação dos professores da Fumec é muito importante, e também algumas palestras. Comecei um trabalho voluntário com o grupo ainda um pouco lento, e pretendo poder ajudar mais. Acho importante que as pessoas que estão à frente do grupo, por serem mais antigas, tenham segurança e evitem desgastes desnecessários por situações que podem ser evitadas. Denise Rangel (voluntária)


Participar do Asas é muito gratificante! Especialmente no que tange a um projeto social de sucesso. No Asas pude aprimorar meus conhecimentos sobre redes sociais, voluntariado educativo e cidadania. Contribui sobremaneira na minha formação de “coaching” social, pois já realizo várias atividades em diversas ONGS de Minas Gerais. Elisângela Maria de Jesus

O Aglomeradas é uma realização. Sinto-me muito orgulhosa de participar de um projeto com tanta criatividade e beleza. Aprendi muito com a Shirley e Suzaninha, que são exemplos de força de vontade e de luta. Sou grata também aos professores da Fumec que nos auxiliaram e auxiliam sempre e com tanto cuidado e zelo que nos faz admirá-los ainda mais. Marianne Souza Stoklasa

O que é este projeto o nome já diz: vamos voar, subir, caminhar até o céu. Tenho pouco tempo no projeto, mas tenho a visão de um grande progresso. Uma grande bola de neve em que o projeto é a bola pequena e os nossos trabalhos são a neve. Assim, vai chegar uma hora em que a bola será enorme. É um grande prazer trabalhar com os profissionais dos ASAS. Amo de verdade fazer o que faço aqui dentro. Obrigada ASAS_aglomeradas por me dar a oportunidade de conhecer o projeto e as pessoas que dele participam. Marilene Porto Santos

Acho bom o projeto, mas tenho muito que aprender, pois entrei agora. Com a renda da produção, quero poder comprar minhas máquinas de costura. Fátima Rodrigues Frois


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01 presentation

A cluster of territories: design and academic extension

Natacha Rena || Bruno Oliveira Natacha Rena holds a Bachelor of Architecture and Urbanism degree from EAUFMG, a Master of Architecture degree from the EAUFMG and a Ph. D. in Communication and Semiotics from PUC-SP. Coordinator of special projects of COMUNA S.A. and of socio-environment projects of JA.CA. Professor of Design and Architecture, Fumec University and EAUFMG. Coordinator of the ASAS project, which comprises three extension projects and a scientific research project. natacharena@gmail.com Bruno de Oliveira holds a Bachelor in Computer Science from the Fumec University and is currently studying Fine Arts at UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais). brunogomesoliveira@gmail.com

Introduction The project ‘Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra’ (ASAS) [Solidary Craftwork at Aglomerado da Serra] is an initiative of the FUMEC University (Belo Horizonte/MG), which began in 2007 under the coordination of professor Natacha Rena. By means of developing projects in the area of education, scientific research and extension programs, the team of professors, technicians, students and volunteers of ASAS seeks the consolidation of income generating re-applicable social technologies able to perform in the contemporary perspective of the intersection between design and urban craftwork. This catalog presents the activities carried on by the team of ‘projeto ASAS_aglomeradas’ throughout the years of 2009 and 2010 1. In total, more than 60 students of the four areas of the Design Course (Graphic, Interiors, Fashion and Product) participated in the project, as scholarship holders or volunteers, helping with the technical and creative empowerment of the craftsmen of ‘Aglomerado da Serra’, in sewing, embroidery, image and movement, bookbinding and textiles printing. In parallel with the planning and conduction of these workshops, the students wrote the articles presented in this catalog, with the intention of consolidating the interface between the educational initiatives, scientific research and extension programs presented by ASAS. There will also be presented accounts of the activities carried on during the empowerment process, as well as other events, such as design exhibitions (Grampo and Quina Gallery), shows (Café com Letras2 Design Show), the filming of a documentary (TAL — Televisão da América

Latina/Latin America Television), among others. In the end of this catalog we present detailed descriptions of the products of the two collections created by ASAS until the present moment: NATUREZA NA FAVELA [Nature at the Favela] (2008) and TERRITÓRIOS [Territories] (2009). It is worth mentioning that the partnership with the program Universidade Solidária [Solidary University] (UNISOL) and with Banco Real/Santander in the years of 2008 and 2009 has enabled a great improvement, not only due to the financial aid given, but in relation to the learning of an specific methodology employed in the generation of social technology and the evaluation of projects focusing on income generation and empowerment of the communities.

Record A theory is exactly like a box of tools. It has nothing to do with the signifier. It must be useful. It must function.(DELEUZE, 2004, p. 208) Believing in the essential relationship between education, scientific research and extension programs, and in the importance of the involvement of the universities with communities with a high level of social risk, we have started, in 2003, a series of works with a more critical and political approach to art and design. The first work was the interdisciplinary research project Táticas de Sobrevivência

[Survival Tactics], which was based on the gathering of extensive data about the ‘inventions’ - - the results of survival tactics and strategies - - of the residents of ‘Vila Ponta Porã’, a favela located on the downtown area of Belo Horizonte. A catalog of products and objects was built, revealing the enormous creative potential of the common citizen, chiefly when exposed to economically precarious situations. The intention was to draw a micro-cartography of the daily small survival tactics of the ‘common men without distinction’: the particular ways of living and surviving found by these residents, which build a magical universe of ‘gambiarras’3 , making artifacts that touch the boundaries of art and design. The the extension project Sempre Savassi [Always Savassi], in which many craftsmen communities participated, began in 2005, having as partners institutions such as CDL 4 and SEBRAE5 ; the works were directed to craftwork and design training. During the delineation of an adequate methodology, a demand for a more consistent research on issues such as the relationship between craftwork, art and design came forth, which resulted in the creation of the concept of Urban Craftwork, its objective being to classify the products created by the beneficiaries of the project. In the year of 2006, the project Artesanato Solidário no Barreiro [Solidary Craftwork at ‘Barreiro’ – a neighborhood of Belo Horizonte] was conducted. Capacity training in art and design was directed to groups of senior citizens, aiming to improve the quality standards of the items already produced by the residents. The proposal was the creation of a cushion collection; with the participation of many partner institutions (the City Hall of Belo Horizonte; UNITEC – New Zealand; ASTIB – Associação da Terceira Idade do Barreiro [Barreiro Association of Senior Citizens]; among others), a capacity building program - - which provided courses, conferences, technical visits and workshops - - was offered to approximately 30 beneficiaries. A catalog containing the employed methodology and pictures of the cushions created by the craftsmen was launched after the conclusion of the program6. In January and July of 2007, the team also took part on the expeditions of ‘projeto RONDON’, organized by the Ministry of Defense. The intention was to developed, through varied actions in the towns of Assis Brasil and Jequitaí, a capacity building program as a means of income generation for the communities, employing a specific methodology to the

action of transformation of the production processes in the short-term. The expressive force shown by the products was the result of a work which revealed both the singularities of each individual and the cross-pollination which results from an intense collective work. With the support of FUMEC University and of FUNADESP 7 it was developed, in 2007, an undergraduate research mentorship program - - Artesanato Urbano [Urban Craftwork] - - which mapped some important Brazilian art and design capacity building programs. The main objective was to make a full analysis of these projects, including their methodological conception and the sustainability plan for the actions and products, the results of the project (products), and the step concerning the placement of the team in the market. The objective was to verify the effectiveness of the participation of the designers within the craftsmen communities, and to understand to which extent the projects actually helped in the empowerment of their beneficiaries. Beyond the activities related to scientific research and extension, the undergraduate students have shown, throughout the process of constitution of the project, a yearning for an academic subject that could offer a theoretical instrumentation with a critical approach to the creation and conduction of projects in this area. This demand led to the creation of the optative subject ARTESANATO E DESIGN [Craftwork and Design], its attempt being to instigate reflection on the relationship between design, craftwork and art, building an up-to-date panorama of the main relevant Brazilian actions in this field. It is also one of the aims of this optative subject to train design students to become professionals with an active potential to take part in craftwork empowerment and cultural management programs with social character. The activities of projeto ASAS_aglomeradas also began in 2007. As an acknowledgment of the work and of the social relocation methodologies developed by FUMEC University (through education, research and extension programs), the ASAS project was among the ten prize-winners of the competition launched by Banco Real/Universidade Solidária, with the theme ‘Sustainable Development with emphasis in Income Generation’. The competition had 212 projects enrolled. The prize of R$ 40,000.00 (forty thousand Brazilian Reais, which is equivalent to 23,353.57 U.S. Dollars 8)


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was an incentive for the implementation of a training plan of one year duration. In 2009, the partnership was revamped e the ASAS project was given more R$ 40,000.00 to carry on with the activities and purchase new equipments for the textile printing workshop built at ‘Aglomerado da Serra’. A first indexed catalog with articles written by the professors involved was launched, with the description of the methodology employed, personal accounts of the students, staff members and empowered craftsmen, as well as pictures of the products created in this first collection. At present, the ASAS project became a production and creation network at ‘Aglomerado da Serra’ and has currently three projects being conducted: ASAS_aglomeradas, which began in 2007, and has a complete textile printing workshop, and a team of craftsmen trained in textile printing, bookbinding and sewing; ASAS_meninas do cafezal, which began in the second semester of 2010, and is one of the production centers of the network, focusing on the creation of fashion items based on experimental pattern making, sewing and embroidery, with two production centers: graphic production and pattern and fashion production; ASAS_serra de bambu, with craftsmen trained in the growing and handling of bamboo, as well as in the building of furniture and products from this material ‘in natura’. In the second semester of 2010 a new training season began, aiming to put into effect a production network that would include the three projects. We believe that this new configuration will grant more visibility to the actions, broaden the market to the products and increase their added value; moreover, it will lead to the diversification of the items and increase the number of craftsmen involved. ASAS intends to carry out training programs directed towards the technical and creative empowerment of the beneficiaries, as well as workshops aiming to establish an integrated and sustainable process of planning, management and production of objects with a high added value, involving the three centers. With students and professors of courses like Interior Design, Fashion Design, Graphic Design, Architecture, Environmental Engineering, Psychology, Business Administration and Accounting Sciences, the ASAS team became truly multidisciplinary, what assures not only a vast diversity of actions but also a richer and more collaborative learning experience. Moreover, the research Desenvolvimento de Tecnologia Social para realização de projetos de capacitação em artesanato

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e design [Development of Social Technology concerning the conduction of craftwork and design empowering projects] also began in 2010, with projeto ASAS_aglomeradas as its case study. This research aims to evaluate the methodology employed in the empowerment projects, mainly in the ‘ASAS_ aglomeradas’, in order to create guidelines for the forthcoming projects. The aim of this research is to investigate the collective and collaborative creation process, parting from the hypothesis that it is possible to identify and list characteristics and procedures that can positively contribute to empower and educate multipliers of the acquired knowledge.

Principles

We believe that creation processes, when well structured, are able to stimulate a sense of collectivity, bringing different groups together and increasing the capacity of collaborative work. It is known that in those communities with a high level of social vulnerability the development of a work of social integration is not an easy task, due to the social differences in force. Considering that there are no published - - or known - - methodologies regarding collective and collaborative processes concerning craftwork and design, we think that it is the role of the university to register, organize, analyze and gather data about these processes, so that new social technologies directed to help the projects involving design and income generation can be built.

(...) in the last three centuries, the word ‘craft’ has changed its meaning; in the eighteenth century particular way of making things but rather a way of doing things, especially in politics. In some applications, (...) the phrase ‘the craft’ had (and still retains) the meaning of power and secret knowledge . (DORMER, 1997, p.5)

Lastly, we believe that it is necessary to introduce new ways to deal with design, so that new guidelines for the consolidation of the creation of an expanded field for this subject will appear, beyond the technicalities and the mass production market, encouraging a type of development cross-pollinated by everyday life, art, architecture, urbanism, which can exist in a more social and political way, creating an environment for the beingness of a more committed and militant design:

We believe that craftwork is an activity with a high potential in the set of actions which motivate those creation policies aimed to income generation and social inclusion. Design, associated with craftwork, can be an strategic axis in the development of the territories, empowering those communities in a social vulnerability state and promoting their creative and management autonomy. To encourage and conduct new collaborative productions in areas without previous culture of creation and production techniques was, and still is, one of the major challenges of the project. Working with a broad concept of Social Design, and with the reasoning of the concept of Social Technology, a ‘creation methodology’ has been developed, with the proposal of inciting collective and collaborative work, articulating innovative processes that could lead to the construction of objects bearing strong local traits. The support to the elaboration of products with a high added value appears in parallel with the growth of a responsible consumer market, which increasingly acknowledges the value of products with contemporary aesthetic proposals, aligned with sustainable design trends and, concomitantly, produced by local craftsman communities.

Militancy today is a positive, constructive, and innovative activity. This is the form in which we and all those who revolt against the rule of capital recognize ourselves as militants today. Militants resist imperial command in a creative way. In other words, resistance is linked immediately with a constitutive investment in the biopolitical realm and to the formation of cooperative apparatuses of production and community. Here is the strong novelty of militancy today: it repeats the virtues of insurrectional action of two hundred years of subversive experience, but at the same time it is linked to a new world, a world that knows no outside. It knows only an inside, a vital and ineluctable participation in the set of social structures, with no possibility of transcending them. This inside is the productive cooperation of mass intellectuality and affective networks, the productivity of postmodern biopolitics. This militancy makes resistance into counterpower and makes rebellion into a project of love. (HARDT & NEGRI, 2001, p. 413)

The area and the community Residents of slums, while only 6 percent of the city population of the developed countries, constitute a staggering 78.2 percent of urbanities in the leastdeveloped countries; this equals fully a third of the global urban population. (DAVIS, 2006, p. 23)

The development of socio-environmental projects at ‘Aglomerado da Serra’ is the proposal of one of the extension programs prioritized by FUMEC University, mainly because it is located in an area next to the campus of the university. Therefore, the choice of this site for the conduction of the program is part of the academic strategy developed by our university research and extension management team. Once the choice was made - - the community of the group of villages and favelas called Aglomerado da Serra9 - the center of the action was at the district school ‘Escola Municipal Padre Guilherme Peters10. The school, located at ‘Vila Novo São Lucas’, has been looking for partnerships which will help its students to grasp new and different types of knowledge and technologies, what would help them to face the new educational and labor dynamics. It offers PreSchool and Elementary School classes, and also evening classes for adults (‘Educação de Jovens e Adultos’ (EJA)/ Youngsters and Adults Education). The students, which in their majority are far from performing any kind of economic activity due to the lack of specific training, are being helped by these partners to spread their wings. The project ‘Vila Viva’, created by the City Hall of Belo Horizonte, considered one of the major Brazilian projects of urbanization of favelas at present, proposes to urbanize the set of villages by creating big paved access roads that will directly link two areas of the city. Even if there is an investment in order to increase the improvement of livelihoods of the local population and its definite placement in the formal urban scenario, it would be necessary to ponder over the real reason that prevents many village dwellers from entering the labor market. Education for all and professional training should be the cornerstone of any social inclusion program. To merely offer better housing conditions (which actually is a quite refutable statement when one looks at the type of housing offered by the City Hall to those dwellers that were removed from their prior houses11) does not spontaneously


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generate new labor conditions and fairer social dynamics. The area in which ‘Escola Municipal Padre Guilherme Peters’ is located is quite far from the main urbanized spots, which indirectly determines lower investments in the school and construction works in its surroundings. This situation leads to an unevenness of conditions among the dwellers of ‘Aglomerado da Serra’, emphasizing even more the issues regarding unemployment, violence and social exclusion. ‘Aglomerado da Serra’ occupies a great area12 , what hinders effective actions to be taken in all its extension – those actions concerning combating the many violence foci and the territorial disputes between drug-trafficking groups. The emphasis of the proposal in district schools, starting with a pilot plan in a specific school, places the action in a fertile soil: the youngsters. The lack of infrastructure, material assets and human capital at the district schools is still a great obstacle for the support of projects of economic integration and professional empowerment adequate to the social reality and the present demands of the consumer and service rendering markets. This is the reason why partnerships with universities can help, and a lot, in the implementation of extension projects that will actually bear fruit, even in the short-term. In the latest ‘Prova Brasil’13 survey, the socioeconomic index of ‘Aglomerado da Serra’ scored 1.1 on a scale of 1 to 5. Therewith, another reason for choosing the district school ‘Escola Municipal Padre Guilherme Peters’ was due to the fact that, among all the schools of Belo Horizonte, it was one of the two schools with the lowest scores, revealing a great need to have its infrastructure improved and also to establish external partnerships to complement the educational process and answer to those demands that the school, alone, cannot fulfill

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Objectives The territory, today, can be made of continuous places or places in a network. They are, though, the same localities which create the networks that create the ordinary space. They are the same localities, the same spots, but they have, simultaneously, different functioning, perhaps diverging and opposite. This simultaneous happening, made possible thanks to the miracles brought by science, creates new solidarities: the possibility of a solidary happening, despite all the types of difference, among people, among places. (SANTOS, 1994)14 The general objective of the project is built from the development of re-applicable social technologies which, according to Lassance & Pedreira (2004), can be defined as a “set of technics and procedures, associated with types of collective organization which represent solutions for social inclusion and increase in the standard of living15.” Based on the intersection between education, academic research and extension programs in social design, and seeking to promote sustainable creative and production autonomy in the involved communities, such technologies consolidate the methodology employed in the project and propel discussions which supplement academic policies for actions coupled with the need of a real empowerment of the beneficiaries. Moreover, they request a large number of students trained to act in a more collaborative and less authorial way, enabling a paradigm shift in the academic milieu. There is a great need for the development of theoretical guidelines that can steer the actions in the direction of acknowledging the value of the cultural identity of local groups and communities, beyond the economic empowerment in itself, thus enhancing the creation of a cultural identity compatible with both the territory and the period of time in which the artifact is produced. It is part of the methodological axis to add value to the products by gathering information that will nurture the creation of iconographies which represent, in the products, the locality and the culture of the specific communities where they are made. In order for this to happen, we conducted, throughout the whole process, researches on design, craftwork, contemporary art and other manifestations of craftwork and design training which are regarded as parameters of local and international

production, and which can contribute to the creation of methodologies and products. As these capacity training processes which involve classroom practices and technical and creation workshops are the results of intense research, texts for indexed publications are written, in which the students were encouraged to think over and research important subjectmatters for the universe of contemporary design and, mainly, which involve the creation of this ‘other’ design, able to transcend the industrial and positivist approach that prevails in the academy, and which is also in an interface with parameters of social responsibility, establishing bonds with the community, and connecting, in an intensive way, education, research and extension activities. The subject-matters approached during the capacity building processes led to a good performance in field activities, and among them, the conduction of collective work with focus on collaborative actions was distinguished, culminating in an organized and productive process and also in the awarenessraising, among craftsmen and scholarship holders, about the importance of this kind of working dynamics (both in the creation and production processes as in the management and planning ones). Such subject-matters also reassured the relevance of the empowerment of craftsmen and of the students themselves; the results were more dynamic and democratic research and creation processes, which are also more innovative in regard to the perception of the subjective territories of the favela (informal city) and of the formal city as a whole. These discussions were useful not only for the creation of the themes for the collections but also for the collective learning experience, in the sense of how we relate to these territories, rarely experienced and unknown to those who live and dwell in the formal city.

Indicators and evaluation of the results To conclude, it is fundamental to point out that evaluation indicators constitute a very important facet in the delineation of the methodology employed by ASAS. They were always present in the relationship established with the UNISOL/ SANTANDER team during the following of the activities of the ASAS_aglomeradas project in the years of 2008 and 2009. Irrevocably merged with the timetable of activities, the continuous elaboration of indicators as parameters for

the evaluation of processes and results became a major tool in directing the proposals for the actions to be carried through, being the ground for the decisions and confirming or not the effectiveness of such procedures. Among the main indicators of ASAS, one is the autonomy of beneficiaries and students, promoted through actions which aim to the consolidation of groups in a collective and collaborative fashion. The autonomy of the beneficiaries in relation to the creation process, production and contact with customers and suppliers is as important as the training of an implementation team of pro-active students, willing to seize the structures and practices of the ASAS project. From the acknowledgment of individual potentialities, the proposal is to set up multiple groups, capable of empowering each other both by unfolding and sharing the acquired knowledge and by the collective authorship trait of the items created. Other relevant indicator detected throughout the conduction of the project was the increasing in the improvement of livelihoods of both direct and contingent beneficiaries, the first, those who participated in the workshops, and the latter their relatives, friends and the other members of the community. The references were: the quality of the products (according to the evaluation of the shopkeepers and beneficiaries themselves, regarding the finishing and the product as a whole); the broadening of the creation repertoire and of a critical regard upon it; promotion of the project and, finally, the consolidation of new partnerships that will ensure the continuation of the training processes.

Methodology This definition, which seeks sustainable development, stands in opposition to the dominant model of development, which promotes the merging of enterprises, the concentration of capital and wealth, the increase in social inequality, social exclusion, urban segregation, (…) Inequality was not reduced even in the periods of economic growth.(...) we want a development that benefits the great majority of the population; we want a development with distribution of wealth; we want a development as a project which identifies itself with the needs of the people, and which is supported by them. (BAVA, 2004) 16 17


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The training process of the team is a cornerstone of the methodology employed, built in a continuous process, throughout the whole duration of the project. During the weekly meetings the discussions ranged from issues related to everyday life problems to the theoretical basis of the proposal, and about how to contextualize the actions carried through during the project. The sharing of experiences, information and references throughout these processes consolidated guidelines for the actions (regarding education, the building of collectivity, the proposal for the management of the group at the favela, the events carried on, etc.), enabling distinguished relationships and proposals to be established. The coordinators, though, must be aware of their limits, observing carefully when to hold fast and when to let the students - - among and with the community - - make their decisions and lead the activities. A blurring boundary, indeed, and, for the professors, it is extremely difficult not to trespass it; the majority of the participants was educated in the conventional education system, usually marked by the centralization of the decisions and by strong hierarchical relationships. The coordinators, having assumed this role of supervision and guidance, allowed a greater autonomy and involvement of the students, the latter thus being able to participate, in a more direct way, in the training of the craftsmen at the favela, proposing guidelines and delineating strategies for the project itself. In this way it is possible to assemble an attentive and participating group of students, distinguished by responsible and efficient initiatives for the progress of the work towards the proposed goal. It is worth pointing out that, in order to train design undergraduate students to work in this interface with craftwork, it is necessary to revise the manner in which they are stimulated throughout all their academic experience to create authorial works. This idea must be diluted in projects with focus on collaborative management and creation, so that the students can experience, in practice, the difficulties in working with other people in these processes, which aim to the develop negotiation strategies and to the sharing of knowledge. This is, for the majority of the students participating in the project, both a novelty and a challenge: having as an objective to learn with the other, to share experiences, negotiate procedures so that new products can come into existence; products that are the real consequence of a collective subjectivity, which is only possible by means of the daily clash of ideas among people with different social, cultural and economic backgrounds.

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The implementation team of the project was constantly guided by the idea of motivating collaborative actions as a work alternative, and employed methodologies that stimulate collective authorship. It was noted that, in an indirect way, these collaborative practices, by reassuring the local identity, reinforced the concept of a ‘group’, and that this identity, even being a crossbred and multifaceted one, is an auxiliary in the consolidation of a more cohesive creative and productive team. From the usage of such experimental methodologies, it has become evident the importance of creating new ‘invention strategies’ to the design and craftwork capacity building projects, both for the students (who need to work collectively and think over action strategies for the project as a whole), and for the beneficiaries (who need to understand the necessity of working collectively and the potentialities that this kind of work can bring on for the initiative).

Conclusion Lastly, we believe that it is necessary to introduce new ways to deal with design, so that new guidelines for the consolidation of the creation of an expanded field for this academic subject, beyond market technicalities and mass production, encouraging a development that is crosspollinated by everyday life, art, architecture, urbanism, and which can exist in a more social and political way. One of the important points to be understood is that, in social projects of this nature, utopias and idealized discourses, although well-intentioned, are very difficult to be put into practice. Courage and perseverance are needed to face the ubiquitous presence of the complexity brought forth by the encounter of lives with such different everyday dynamics. The fact that a (ideal) project is carefully thought over, i.e., its objectives, methodology employed, its timetable, is no guarantee that effective results will come forth in the short-term. The unexpected is a constant, a great amount of flexibility being thus necessary, and also the understanding of the need of re-inventing the processes, constantly dealing with frustrations, and creating new situations for the new realities that appear. To conclude, we would like to say that, concerning university extension projects, in which a daily relationship with a community in a state of social vulnerability nearly always

exists, one needs to be aware of the risk of establishing power relations - between the students, professors (designers) and the craftsmen. It is important to understand that a work which involves people coming from different social realities - - with wealth and income disparities - - must create an environment in which knowledge and life experiences are shared. We believe in the ‘invention potency’ that is latent in those relationships generated by the friction between scholarly knowledge and common sense. Although it is difficult to evaluate many of the positive results in the collective, social and subjective arenas, it is a fact that they also need to be mapped and added up to the positive qualitative results of the projects. The main objective of this type of project conducted by ASAS is also to establish a non-hierarchical sharing network, and to acknowledge that all those involved learn and broaden their perspectives throughout the experiences. In these extension programs, awareness concerning political actions must be constantly evoked, in order to prevent the conscious construction of social technologies to happen only on technical and bureaucratic levels, which, with regard to academic structures, is an evident risk. Some movements, initiatives and campaigns gather around the principle of equality, others around the difference principle. Translation theory is the procedure by which mutual intelligibility is fostered. To render mutually intelligible means to identify what unites and is common to entities that are separate by 18 their reciprocal differences. (SANTOS, B. S. S., 2006) According to Boaventura de Souza Santos, the construction of cosmopolitanism, which lay in the concept of translation, requires a mutual intelligibility, which is a prerequisite of what the author calls “the internal, self-reflexive mix of the politics of equality and the politics of difference among movements, initiatives, campaigns, networks.”19 (SANTOS, 2006, p.19820) Here the author is dealing with what he calls counterhegemonic struggle, which are Manifesto practices - or clear and unequivocal blueprints - of alliances that are possible because they are based on common denominators and common objectives; they are mobilizing because they yield to a positive sum, i.e., because they grant specific advantages to all those participating in the practices

according to the extent to which they are involved. It is under this awareness, shared by all the actors involved in the process, that the ASAS project is being carried through. Institutional partners like UNISOL/SANTANDER, ‘Escola Municipal Pe. Guilherme Peters’, FUMEC University, the City Hall of Belo Horizonte, retail shops like Grampo, Quina Art Gallery or Café com Letras, and ready-to-wear labels like ‘Raíz da Terra’, students, professors and the community members involved in the project: all of them profit from this sharing process, which must be balanced and generate ‘benefits’ to all sides - not exclusively in the capitalist usage of the word, but in a broader sense, including human solidarity and generosity, within a movement of translation, invention and formulation of social technology. The aim, by promoting the encounter of institutions, professionals and people from diverse social and cultural backgrounds, is to generate actions that configure themselves as a biopotency, resisting those biopower mechanisms established by the perverse relationships of contemporary capitalism, even in those situations – like the ASAS project - involving partners that are clearly representatives of the Capital, since all the participants benefit from this situation. A new model of creative militancy, another design. All and every one ‘invent’, in the social density of the city, in conversations, in the habits, in leisure moments – new desires and new beliefs, new associations and new collaborative ways. (…) All and every one, and not only the wage-earning workers, possess the ‘invention-power’, each brain-body is a value source, each part of the network can become a vector of appreciation and self-appreciation. Therefore, what comes to the surface, in an increasingly clearer way, is the biopotency of the collective and the biopolitical richness of the crowd21.(PELBART, P. P., 2003, p.139)


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Endnotes 1

The data concerning the activities related to projeto ASAS during the years of 2007 and 2008 can be found in: RIBEIRO, Juliana Pontes; RENA, Natacha (Org.). Asas: Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra. Belo Horizonte: Editora Faculdade de Engenharia e Arquitetura FEA—Universidade FUMEC, 2009.

2

Café com Letras is a restaurant and bookshop which also holds art exhibitions, being an important place in the cultural scenario of Belo Horizonte.

3

‘Gambiarra’ is a colloquial word in spoken Brazilian Portuguese. The closest translation to English would be ‘jerry-rig’, meaning a way to create or fix things in an unconventional way, using whatever is at hand. It is generally used as a noun. [Translator’s note]

4

CDL – Câmara de Diretores Lojistas. Retailing and service rendering trade association.

5

SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Brazilian Service of Support for Micro and Small Enterprises).

6

RENA, Natacha (org). Coleção 9 + 1. Belo Horizonte: Editora Faculdade de Engenharia e Arquitetura FEA – FUMEC University, 2008.

7

FUNADESP Fundação Nacional de Desenvolvimento do Ensino Superior Particular. Non-profit civil foundation for the development of private Higher Education.

8

According to Universal Currency Converter www. xe.com/ucc/, October of 2010.

9

Placed in the south side of Belo Horizonte, in one of the residential areas with higher purchase power of the city, where the FUMEC University is also located.

10

Coronel Jorge Dário Street, no number. Area code (CEP) 30240560. Bairro Novo São Lucas, Belo Horizonte, Minas Gerais.

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11

The ‘Vila Viva’ project has not yet been concluded and it is already possible to witness the gentrification of the area. Luxury residential condominiums are already being planned and set up in huge blocks in the surroundings of ‘Aglomerado da Serra’.

12

According information provided from URBEL (Companhia Urbanizadora de Belo Horizonte), the urban development corporation of the city , the total population of Aglomerado da Serra, in 1999, was around 37.641 inhabitants, but according to data from the Social Development Office there were 45.920 dwellers; the local newspaper ‘Estado de Minas’ pointed out that the number of inhabitants was actually around 160.000.

13 ‘Prova Brasil’ is a diagnostic assestment system that works on a large scale, developed by the National Institute of Education Studies Anísio Teixeira. Its aim is to evaluate the quality of education offered by the Brazilian educational system using standardized tests and socioeconomic surveys. 14

Our Translation. Original text in Portuguese: “O território, hoje, pode ser formado de lugares contíguos e de lugares em rede. São, todavia, os mesmos lugares que formam redes e que formam o espaço banal. São os mesmos lugares, os mesmos pontos, mas contendo simultaneamente funcionalizações diferentes, quiçá divergentes e opostas. Esse acontecer simultâneo tornado possível graças aos milagres da ciência, cria novas solidariedades: a possibilidade de um acontecer solidário, malgrado todas as formas de diferença, entre pessoas, entre lugares. (SANTOS, 1994, p.16)

15

Our translation. Original text in Portuguese: “... conjunto de técnicas e procedimentos, associados a formas de organização coletiva, que representam soluções para a inclusão social e melhoria da qualidade de vida”. LASSANCE & PEDREIRA, 2004, page 66.

16 LASSANCE JÚNIOR, A. E.; PEDREIRA, J. S. “Tecnologias sociais e políticas públicas” In: Tecnologia social – uma estratégia para o desenvolvimento. Fundação Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 2004 . 17

Our translation. Original text in Portuguese: “Essa definição que busca o desenvolvimento sustentável

opõe-se ao modelo de desenvolvimento dominante, que promove a fusão de empresas, a concentração do capital e da renda, o aumento da desigualdade social, a exclusão social, a segregação urbana, (...). Mesmo nas épocas em que houve crescimento, não se reduziu a desigualdade. (...) queremos um desenvolvimento que beneficie a grande maioria da população; queremos um desenvolvimento com distribuição de renda; queremos um desenvolvimento que seja um projeto identificado com as aspirações da população e sustentado por ela. (BAVA, 2004, page 110).

18

Our translation. Original text in Portuguese: “Alguns movimentos, iniciativas e campanhas reúnemse em torno do princípio da igualdade, outros em torno do princípio da diferença. A teoria da tradução é o procedimento que possibilita a sua mutual inteligibilidade. Tornar mutuamente inteligível significa identificar o que une e é comum a entidades que estão separadas pelas suas diferenças recíprocas. (SANTOS, B. S. S., 2006, p.198)

19

In: Theory, Culture & Society, 2001. Nuestra America: Reinventing a Subaltern Paradigm of Recognition and Redistribution. Web. http://scholar.google.com/schola r?q=%22call+the+internal,+self-reflexive+mix+of+the+politi cs+of+equality%22

20

BIBLIOGRAPHY BAVA, Silvio Caccia. Tecnologia Social e Desenvolvimento Social. In: Tecnologia social – uma estratégia para o desenvolvimento. Fundação Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 2004. DAVIS, Mike. Planet of Slums. London: Verso, 2006. DELEUZE, Gilles. Desert Islands and Other texts (1953 -1974). ed. D. Lapoujade and trans. M. Taormina, New York: Semiotext(e), 2004. DORMER, Peter. The Salon de refuse. In: DORMER, P. (org.). The Culture of Craft. NY: Manchester University Press, 1997. HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Empire. Cambridge & London: Harvard University Press, 2000. LASSANCE JR, António E.; PEDREIRA, Juçara S. Tecnologias sociais e políticas públicas. In: Tecnologia social – uma estratégia para o desenvolvimento. Fundação Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 2004. PELBART, Peter Pál. Vida Capital. Ensaios de biopolítica. São Paulo: Iluminuras, 2003.

This is the reference for the passage in the original text in Portuguese. In: A gramática do tempo. Para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez, 2006. The english version was extracted from the link above.

SANTOS, B. S. A gramática do tempo. Para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez, 2006.

21

SANTOS, Milton. O retorno do território. In: SANTOS, Milton; SOUZA, Maria Adélia de; SILVEIRA, Maria Laura. Território: globalização e fragmentação. São Paulo: Hucitec, 1994

Our translation. Original text in Portuguese: “Todos e qualquer um inventam, na densidade social da cidade, na conversa, nos costumes, no lazer – novos desejos e novas crenças, novas associações e novas formas de cooperação. (…) Todos e qualquer um, e não apenas os trabalhadores inseridos numa relação assalariada, detêm a força-invenção, cada cérebro-corpo é fonte de valor, cada parte da rede pode tornar-se vetor de valorização e de autovalorização. Assim, o que vem à tona com cada vez maior clareza é a biopotência do coletivo e a riqueza biopolítica da multidão. (PELBART, P. P., 2003, p age 139)


agradecimentos Agnaldo Rocha, Aguinaldo de Paulo, Aruan Mattos, Ayrton Ribeiro de Mendonça Filho, Betina Flávia dos Anjos Oliveira, Bruno Alexandre dos Anjos Oliveira, Bruno Golgher, Camilo Martinez, Cassius Silva , Luiz Coelho de Souza, Cristina Provezano, Daniela Gontijo, Daniela Lemos Camelo, Débora Gonçalves, Débora Mattos, Edna Aparecida dos Santos, Edson Ermelino Lima, Elizete de Almeida, Eloisa Martins, Felipe Giffoni da Silva, Flávia Regaldo, Frederico Guimarães, Gabriel Zea, Gezane Costa, Gilberto Cabido, Igor Amorim Moraes, Igor Rios, Jansey Valdez de Lima , Joanna Sanglard, Jordan Sebastião de Paiva, Jorge Sebastião de Paiva, Juliana Myhra , Letinha Maria Schimit, Luana Anastácia Ananias, Lucas Bambozzi, Lucia Helena dos Santos, Manoela Beneti, Marcelo José Araujo, Márcia Libânio, Maria Helena Anastácio, Maria Lúcia Araújo, Maria Lucia Araújo, Marize Monteiro de Castro, Milton Pereira Araújo, Miriam Alves, Naiara Cristina de Jesus Silva, Naiara Faria, Neia Aparecida Miranda, Nuan Possolati Lopes, Otavio Pupo, Patrícia Faria, Patrícia Naves, Pedro Moraes, Prof. Alexandre Lopes, Prof. Alexandre Menezes, Prof. Antonio, Fernando Batista, Prof. Eduardo Martins, Prof. Eliseu de Rezende Santos, Prof. Flávio Lima, Prof. Flávio Negrão, Prof. Flavio Vignoli, Prof. Guilherme Guazzi, Prof. Osvaldo Manuel Corrêa, Prof. Rafael Neder, Prof. Stela Maris, Prof. Tadeu Sampaio, Prof. Antônio Fernando Batista dos Santos, Prof. Walter Alves, Prof.ª Guadalupe Machado Dias, Profª Adriana Tonani, Profª Ângela Souza Lima, Profª Cássia Macieira, Profª Gabriela Maria Torres, Profª Juliana Pontes, Profª Maria Fernanda Loureiro, Reinaldo Santana, Renato Baeta Sacramento, Rita Lessa Cardoso, Rodrigo Marra, Rogério Barbosa, Rogério Pio, Roseana dos Santos Sabem, Simone Moura, Tânia Porto, Vicente Esteve Franco, Wagner Morales, Walison Alves de Moura, Waldenor Barros Moraes Filho. Equipe Cedro Cachoeira Têxtil Festival Cidade Eletronika Gráfica Imagem Color Pastelaria Marília de Dirceu (buffet do coquetel de lançamento da coleção 2008)

apoio


anexo

coleção territórios O grupo Aglomeradas surgiu em 2007, a partir de oficinas de capacitação do projeto ASAS — Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra. O ASAS é uma atividade extensionista da Universidade FUMEC em que alunos, professores e artesãos do aglomerado visam criar uma rede produtiva e criativa que desenvolve produtos socioambientais dentro dos preceitos da economia solidária e da participação colaborativa.

Os produtos da coleção territórios foram criados a partir de processos criativos de uma pesquisa realizada com referências iconográficas coletadas na favela. O valor agregado das peças produzidas em técnicas diversas (estampas, bordados e encadernação manual) fica evidente na complexidade das imagens produzidas para esta coleção, que reflete as bricolagens e a desordem labiríntica típicas da cidade informal. Constrói-se uma identidade híbrida e coletiva do grupo Aglomeradas.

aglomeradas@projetoasas.org


Jogo Americano

tamanho 35cm X 45 cm (unidade) composição 100% CO peso 73,5 g (unidade)

Guardanapo

tamanho 40 cm X 40 cm (unidade) composição 100% CO peso 36,2 g (unidade)

Porta Copos

tamanho 10 cm X 10 cm (unidade) composição 100% CO peso 8,65 g (unidade)


Lenço

Avental

composição 100% CO

(com detalhes bordados à mão) tamanho 60 cm X 90 cm bolso 35cm X 45 cm

Lenço Grande tamanho 140cm X 40 cm peso 42,07g Lenço Pequeno tamanho 70cm X 70 cm peso 32,71 g

alças 135 cm x 4 cm peso 373,24 g


Almofada

(com detalhes bordados à mão) acabamento zíper de metal composição 100% CO

Almofada Pequena tamanho 45 cm X 45 cm espessura 4 cm peso 213,22 g Almofada Grande tamanho 65 cm X 65 cm espessura 4 cm peso 325,49 g

Bolsa

(com detalhers bordados à mão) composição 100% CO forro 100% CO tamanho 100 cm X 100 cm peso 323,23 g


Caderno

Estojo

(encadernação artesanal com fio encerado; capa dura — papel calandrado revestido em tecido estampado)

(com detalhes bordados à mão) composição 100% CO acabamento zíper de metal tamanho 24 cm X 24 cm /

Bloco

(encadernação em espiral transparente 0,2 cm x 9 cm, capa dura—papel calandrado)

65 folhas craft e sulfite / folhas internas estampadas peso A4 502,09 g peso A5 254,13 g peso A6 128,24 g

bolso com zíper (11,5 cm X 24 cm) / bolso aberto (12 cm x 16 cm) peso 52, 4 g tamanho 24 cm X 24 cm espessura 1,5 cm peso 117,32 g


Este livro foi composto em DIN Schrift e Tetria LT. O miolo é impresso em papel Reciclato 90 g e papel Offset 120 g. A capa em papel Color Plus Pastel 240 g com aplicação de relevo seco. Impressão e acabamentos por Artes Gráficas Formato. Tiragem: 1000 exemplares.


Catálogo Territórios aglomerados