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Editorial

Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS - 2

F

alar sobre religiões é quase um tabu. E por que não tocar nesse assunto? Reunimos matérias que vão desde a relação da saúde e bem-estar e até mercado associado à religiosidade, mudanças pela religião, crenças geralmente colocadas à margem da sociedade por preconceito e até grupos religiosos que são consideradas arte ou filosofia de vida. Deixar de lado nossas crenças – mesmo que por um momento – depois toda uma construção de vida e identidade para ir até o desconhecido e ouvir o que ele tem a dizer, foi uma prova difícil. Com um tema vasto, tivemos muitas opções visuais a serem exploradas na disposição dos elementos na página do jornal. Parte de nossos repórteres – que em outra etapa do processo de produção foram também diagramadores – quis inovar. Entretanto, mudanças nem sempre são bem-vindas. A intenção não era mudar a essência, pois respeitamos a originalidade e os cabelos brancos do nosso jornal. A tentativa de diagramar o Projétil em um software (bem) mais atual, que possui mais ferramentas à nossa disposição e admite mais de um erro, gerou muita discussão. Uma batalha – pequena e isolada – foi travada na redação. Lutamos, sem deixar de lado por nenhum momento nossa vontade de inovar. E o que isso tem a ver com religião? Tivemos fé. Fé no nosso trabalho, no esforço dedicado por cada um. Agora, com o jornal pronto, a lição é que não importa se conseguimos ou não atualizar o processo, e sim, que lutamos com apoio mútuo, sempre acreditando no trabalho do outro. A recompensa por todo esse esforço e resistência, sem dúvida, é a leitura das matérias. Se despertarmos curiosidade e fizermos o leitor refletir sobre o que escrevemos, já é gratificante. Carol Caco

Opinião

Somos todos crentes um deus. A falta de representatividade das crenças menos populares é extremaOu praticamente todos, como foi mente prejudicial a nossa cultura. comprovado pela Organização MunQuando ignoramos vertentes de nosdial da Saúde (OMS), em 2006, ao resas raízes espirituais – ou nos referializar uma pesquisa com mais de cinmos a elas de forma pejorativa – acaco mil pessoas em 18 países. O resulbamos por excluir ou ridicularizar um tado demonstrou que o Brasil é o país grande número de brasileiras e brasida América Latina com maior porcenleiros que a elas devotam suas rezas. tagem de entrevistados que indicaram Como isso influencia no nosso coser "moderadamente" ou "extrematidiano? Antes de tudo, a questão não mente" religiosos – 80% a 90% da potrata do “politicapulação se dissemente correto” e ram tementes a Apesar de sermos um país sim de respeito: soum ser superior. majoritariamente mos iguais em direiApesar de tos e desta maneira sermos um País religioso, é exaustivo devemos ser tratamajoritariamente sempre ter de relembrar dos. O País que vireligioso, é exaustivo termos que existe por detrás uma vemos nos pertence e devemos nos sensempre que Constituição Federal tir representados relembrar que laica por ele, seja em suas somos regidos leis, moeda, mídia por uma Constiou humor. E a solução é termos tuição Federal laica, ou seja, não há discernimento. Afinal, nosso limite reuma crença oficial no Brasil. É este “dealmente termina onde o do próximo talhe” que legitima as variadas crenças começa. que vemos por aqui. Afinal, quando se trata de nosso povo, não existe apenas uma forma de deus, deusa, santos barbara.fatos@gmail.com ou orixás – ou sequer a existência de

Bárbara de Almeida

Boa leitura! Turma Projétil Religiões

Jornal Laboratório do Curso de Comunicação Social – Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Produzido pelos acadêmicos do 4º semestre de Jornalismo, sob orientação dos professores: José Márcio Licerre (Planejamento Gráfico III), Mario Luiz Fernandes (Edição I) e Juliana Feliz (Redação Jornalística IV) Editoras-chefe: Bárbara de Almeida e Carol Caco Editor de Diagramação: Raul Delvizio Capa: Carol Caco Produção: Bárbara de Almeida, Camila Fernandes, Camila Mortari, Carol Caco, Gabriel Ibrahim, Gabriela de Castro, Hannah Marques, Isadora Leiria, Jade Amorim, Jéssika Corrêa, Larissa Pestana, Luana Afonso, Natália Moraes, Patrick Alif, Pedro Centeno, Raquel de Souza, Raul Delvizio, Saulo Maciel, Tatyane Cance, Thiago Campos e Victor Sanches Correspondência: Jornal Projétil / Religiões – Curso de Jornalismo Centro de Ciências Humanas e Sociais (CCHS) – Cidade Universitária s/n – CEP 79070-900 – Campo Grande/MS Fone (67) 3345-7607 – E-mail: projetil@ufms.br Tiragem: 5000 exemplares Impressão: Feitosa e Cia Ltda (Contrato 03/2013)

AsAs matérias veiculadas não matérias veiculadas não representam necessariamente a a representam necessariamente opinião da UFMS ou de seus dirigentes, opinião da UFMS ou de seus dirigentes, nem dada totalidade dada turma. nem totalidade turma.

www.jornalismo.ufms.br


3 - Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS

Acervo Luana Stábile

Da água para o

Comportamento

VINHO Pelas experiências religiosas, pessoas mudam radicalmente suas crenças e estilos de vida Hannah Marques “A verdadeira vida encontramos em Jesus. O que aconteceu comigo foi muito além dos acontecimentos terrenos. Fui liberto no ponto de vista espiritual, não só minha carne deixou de se saciar com as substâncias, mas principalmente minha alma passou a ter fome de Deus. Impossível não mudar radicalmente depois desse choque de realidade”. Provavelmente você já ouviu alguma declaração parecida de algum conhecido, amigo ou até parente. Porém essa frase é do André Stábile, dependente químico por dez anos que resolveu sair da “vida medíocre”, como ele mesmo define depois que conheceu a igreja Batista Peniel. Ele não é o único. Muitos jovens procuram entidades religiosas para conseguirem se livrar dos vícios. A religião passa a ocupar o lugar antes preenchido pelas drogas. Para a psicóloga Camila Bellini, “as religiões impõem regras que servem como limitadores para determinadas pessoas, auxiliando-as no processo de reabilitação, passando a controlar melhor seus impulsos”. O pastor Lima,, coordenador do “Esquadrão da Vida”, entidade religiosa para recuperação de dependentes químicos e do álcool, há nove foi resgatado das ruas. “Eu fui dependente químico por 23 anos, usava pasta, crack, maconha e era alcoólatra também, não tinha nada”. Hoje Lima, ajuda mais de 60 internos e possui três unidades em Campo Grande, Nova Andradina e Baita-

porã. Ele acredita que a palavra de Deus fortalece na recuperação, porém a vontade precisa vir de cada pessoa. Buscar uma razão para a dor como experiência de crescimento e aprendizado que reflita sobre os valores morais propostos pela religião ou filosofia de vida, pode despertar nos indivíduos aqui- Casal Luana e André Stábile no seu novo lar em Florianópolis. lo que os cientistas chamam de fé intrín- Hoje eles vivem longe de seus vícios e frequentam toda semana seca. A força de enfrentamento das do- a igreja Impactar res trazidas para a vida das pessoas, como ensina o médico psiquiatra austríaco linha filosófica que lhe faça enxergar o o apelo do Pastor, eu tive um encontro Viktor Frankl, só pode ser encontrada transcendente, adquirindo a fé intrínse- com Deus. Um fato sobrenatural onde pelos indivíduos que são capazes de en- ca”. A atitude fanática é um exemplo da me senti verdadeiramente abraçado por contrar um significado, uma razão que lhe fé extrínseca, pois a pessoa adota ele, o que senti não foi apenas de cunho dogmas e compor- emocional. Eu era uma pessoa cética até justifique o sotamentos sem refle- aquele exato momento”, afirma. frimento, e a fé é tir racionalmente, Após essa experiência André foi inum poderoso ins"Fui liberto no ponto passando a agir de terno da chácara de recuperação do mitrumento gerador maneira, muitas ve- nistério Peniel, cumpriu o programa desta certeza, revede vista espiritual, zes, agressiva sem a durante sete meses onde se aprofundou lando uma capacinão só minha carne necessária reflexão nos estudos da Bíblia. Hoje vive com dade de enfrentadeixou de se saciar íntima sobre o que sua esposa em Florianópolis, ambos mumento para o é certo ou errado. daram suas vidas e o único contato que indivíduo. com as substâncias, André Stábile, André tem com seu estilo passado é na O professor mas principalmente músico e vocalista música, porém, agora gospel. de medicina Dr. minha alma passou a da extinta banda Para Iandoli, “as pesquisas mostram Décio Iandoli conCurimba, confessa: que pessoas que adquirem a fé intrínseca corda e esclarece ter fome de Deus" “Eu era usuário de vivem mais, adoecem menos e, quando que “o caminho crack, cocaína, LSD, adoecem, recuperam-se mais rápido”. tem duas mãos, ou André Stábile maconha e álcool. Uma infinidade de trabalhos científicos seja, existem os fiDivertia-me sendo confirmam isso, a ponto de escolas ameéis fervorosos, que assim, não tinha ricanas de medicina serem estimuladas a possuem a fé extrínseca e que, em determinado mo- muitos compromissos, morava com criar a disciplina de medicina e mento de suas vidas, por uma experiên- meus pais e gozava de uma vida medío- espiritualidade em seus currículos. cia desa-pontadora, passam a ser céti- cre”. Ele diz que resolveu parar depois cos; e o contrário, céticos que, também de uma recaída em que sua família e por uma experiência forte e significati- noiva o levaram à igreja Batista Peniel hannahmmarques@gmail.com va, encontram um sentido em alguma “fomos a um culto de oração e durante


Religião e Fé

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Victor Sanches

Fronteira Religião e fé apresentam conceitos definidos, Patrick Alif Victor Hugo Sanches

A manifestação religiosa e a devoção em sua essência

A religião e a fé se justificam, mas diferem nas suas essências, ideologias, filosofias e valores. Religião deriva do latim re-ligare, que significa religação com o Divino. Fé vem do latim fides e significa confiança, crença e credibilidade em algo metafísico. A psicóloga Kátia Regina Bazzano da Silva Rosi, 50, sob o ponto de vista científico, atribui à fé a um elemento físico do indivíduo, pois localiza-se em determinada região do cérebro que corresponde à vontade. Citando a “Lei do Pai”, de Jacques Lacan - O homem naturalmente precisa de uma crença no Pai Maior que realiza uma ligação com o sujeito - Kátia explica que as pessoas encontram na religião a proteção que não encontram na sociedade. O professor e geógrafo Tito Carlos Machado de Oliveira, 57, classifica-se como materialista e não tem prática religiosa, mas reconhece a importância da mesma. “A religião é um instrumento de estudo e avaliação social, por envolver a relação entre diferentes culturas. Por isso, não pode ser desconsiderada”, observa. De família católica, foi praticante até os 12 anos de idade, quando surgiram os primeiros questionamentos sobre os dogmas de sua religião. Tito alega existir dois problemas generalizados entre as religiões: “Os grupos religiosos são fundamentalistas e não solidários”, justifica. O professor acredita que a religião é filantrópica e esclarecida pela ideologia, tem seus interesses capitalistas e se adapta à sociedade. Tito afirma que não possui fé. “Classifico a fé como utópica, metafísica e individual”, finaliza.

Religião e fé também diferem nas opiniões fora do campo científico. A estudante de Administração, Thays Hayumi dos Santos Falcão, 22, católica e adepta há oito anos do Seicho-no-ie, define religião como a ligação com Deus. “A filosofia oriental transformou minha vida para melhor”, argumenta. Thays conta dos momentos difíceis que fizeram parte de sua vida e como a doutrina ajudou a reconstituir seu lar: “Tinha ódio dos meus pais. Não conseguia respeitá-los. Na fé, encontrei o equilíbrio espiritual para respeitar o próximo. Hoje, quando entro em minha casa, penso que no meu lar somos todos filhos de Deus. A filosofia oriental me ensinou a valorizar o quarto mandamento cristão (hon-

Fé coletiva, celebração da


Religião e Fé

5 - Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS

Victor Sanches

espiritual mas permitem diferentes interpretações pessoais rar pai e mãe)”, relata a a jovem. Para Thays a fé é a força motriz que motiva as pessoas. Segundo a estudante, seja qual for a opção de crença, deve existir o respeito. “Não devemos julgar as pessoas e as outras religiões, pois cada um possui seus propósitos e valores de vida”, completa. A professora Doutora em Odontologia da UFMS, Jussara Peixoto Ennes, 48, acredita que fé são crenças pessoais que possibilitam às pessoas tentar compreender o inexplicável. Ela define religião como uma prática, necessidade individual que proporciona um bem estar. “Acredito que as religiões se complementam e, mesmo católica, busquei adquirir conhecimento em outras Victor Sanches

Consagração do Santíssimo

filosofias religiosas para manifestar meu ponto de vista com maior propriedade, respeitando a proposta de cada uma”. Na religião católica, a professora destaca a novena, a homilia e as preleções nas celebrações. No espiritismo, valoriza a prática da caridade. Já no budismo, exalta o equilíbrio que é proporcionado ao indivíduo. Jussara acredita que é possível conciliar diferentes religiões, filosofias ou crenças. Considerando as diferentes experiências de vida, culturas ou orientação familiar, a religião e a fé podem adquirir valor para os indivíduos de modo que se tornem indispensáveis: “A fé é tudo. Quem não tem fé, não tem nada”, alega a administradora Elaine Aparecida Felício Barion, 50, ao expressar a importância e o significado em possuir uma crença. Católica, Elaine sustenta valores da sua religião: “A fé pode falhar, o sofrimento vem para melhorar e não como teste divino”, opina. Para a administradora, as religiões que pertencem ao cristianismo têm a consciência e o discernimento que as demais religiões não possuem. Porém, afirma: “Não importa a religião, quem não a tem é perdido. É uma prática necessária na vida. Seria um mundo melhor se todos tivessem”, completa. Independente das diferentes opiniões referentes às religiões e manifestação da fé, a psicóloga Kátia arrisca ao dizer que no futuro haverá pessoas cada vez mais abertas aos movimentos religiosos: “Acredito que a tendência para os próximos anos é a multiplicidade religiosa e a preferência por religiões sem muitos dogmas”, supõe. patrickalif@hotmail.com victorhugo.sanches@hotmail.com

Oração dos fiéis, busca de ligação com o Divino


Comércio religioso

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Mercado da fé O comércio de artigos religiosos, dízimos e ofertas movimenta mais dinheiro do que muita gente pensa

Há setores da economia que dificilmente sofrem crises. O comércio de artigos religiosos, movido pela crença de milhões de pessoas no mundo, é um deles. Em 2013, os comerciantes souberam aproveitar a vinda do Papa Francisco ao Brasil. Somente no site da Jornada Mundial da Juventude, a movimentação foi de cerca de R$ 20 milhões. E não é só no comércio que a religião movimenta dinheiro. “Dízimo e oferta não são dinheiro. Não são bens. Não são patrimônio. Porque dízimo, oferta e dinheiro não compram a paz que Deus nos dá, que enche o nosso peito, não é verdade?” É dessa maneira que o bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), falou com seus fiéis em uma pregação sobre oferta por meio do programa Palavra Amiga. Macedo prossegue: “Quando nós honramos a Deus com os dízimos e as ofertas, estamos saindo do reino das trevas. Os dízimos e as ofertas são dados à pessoa que temos como primeiro lugar em nossas vidas”. Recentemente, um caso virou escândalo: O pastor Walter Barbosa, líder da Igreja Universal, no Equador, reclamou dos templos vazios que geram pouco arrecadação de dinheiro e afirmou que os líderes das filiais não queriam trabalhar, enquanto a igreja os sustentava. Com a grande repercussão gerada pelo escândalo, a Universal repudiou a atitude do pastor. O vínculo entre dinheiro e fé não é dos mais simples. Marlene Ferreira, fiel da Igreja Universal há mais de dez anos, é bem clara sobre o assunto. “A fé é o que nos move na vida. Ter dinheiro é vital. Sem dinheiro não podemos fazer nada. Exercemos a fé quando desde pe-

Jéssika Corrêa

Jéssika Corrêa Pedro Centeno

Em algumas religiões, a crença tem preço

quenos nos dedicamos e nos tornamos bons em algo. Não fazemos apenas por conhecimento e sim pelo dinheiro que podemos ganhar”, diz. A Igreja Universal vê como natural o enriquecimento de seus fiéis. Prega o sacrifício para obtenção de recompensas. “As doações em dinheiro, bens e a devolução de dízimos e ofertas na Igreja é uma prática natural para todo verdadeiro cristão e principalmente para os membros da Universal, que estão sempre fazendo de novo porque, naturalmente, se sentem recompensados”, justifica Marlene. Questões sobre quanto dinheiro é arrecadado e como ele é gasto ainda existem e a dificuldade para desvendálas é grande. A equipe do Projétil tentou, insistentemente, entrar em contato com o pastor da matriz da IURD, porém sem sucesso. O único que atendeu a equipe, não quis dar entrevista e pediu para entrar em contato com a catedral da Universal. Na Igreja Católica São José, o padre Antônio Ribeiro Leandro detalhou como é estruturado todo o sistema financeiro das igrejas em Campo Grande. “A Diocese de Campo Grande conta com mais de 40 paróquias e arrecada mais de R$ 1 milhão por mês. Paróquias maiores, como a São José, arrecadam em torno de R$ 160 mil e as menores por volta de R$ 3 mil”. A maioria das paróquias sofre com a falta de dinheiro, às vezes por incompetência administrativa do padre e às vezes por não receber doações. A Igreja São José mantém o “Plantão do dízimo”. Esse plantão funciona como uma secretaria onde os fiéis podem fazer suas doações. O local fica aberto durante as missas e conta com funcionários da Igreja para o recolhimento das ofertas. Aceitam dinheiro, cheque e até cartões de débito e crédito.


7 - Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS Pedro Centeno

Foto: Pedro Centeno

As doações são recebidas em dinheiro, cheque e cartão Jéssika Corrêa

Na loja, é possível encontrar livros de R$ 15 a R$ 200

Jéssika Corrêa

A loja Luz Divina comercializa artigos de seis religiões

Comércio religioso

deixa de investir na ampliação do negócio. “Criamos um site para que os clientes possam adquirir nossos produtos online. Temos página em rede social e uma cota para publicidade”, salienta. Na Livraria Kadoshi, localizada na Rua 14 de Julho, foi possível relatar parte da história de quatro pessoas que se conheceram por meio da religião, frequentam a mesma igreja e administram o estabelecimento juntas. É o caso dos casais e sócios Leonice Moreira e Nério Kadoshi e Maria Luiza Flor e Célio Antônio. “Sempre sonhamos em ter um comércio para evangelizar”, diz uma das sócias, Leonice Moreira, 33 anos, que além de comercializar artigos evangélicos, propaga o cristianismo para os clienA religião como produto tes, seja por meio da oração, indicação de livros, CDs ou DVDs. Junior Siqueira, 36 anos, gerente da Leonice revela que a crescente proloja Luz Divina, acredita que conforme a população adquire informação, acaba cocura por artigos religiosos foi decisiva para que ela e os sócinhecendo mais sobre reos transferissem o neligião e melhorando conceitos. O gerente trabalha gócio da frente do Terminal General há 15 anos na loja, um ne- “O dinheiro é ótimo, Osório para o centro gócio de família funda- desde que seja servo do há cerca de 30 e relata da capital. Eles viram do homem e não o que era hora de cresque o pai já era comercicontrário” cer. “Expandimos a ante na década 80, quando viu no mercado loja para o centro da cidade e tem dado religioso um bom camPe. Antônio Ribeiro certo. Conseguimos po para investimento. O estabelecimento atender a demanda que antes não consecomercializa artigos caguíamos”, enfatiza. tólicos, evangélicos, umbandistas, hinduístas, budistas e candomblecistas e tem Maria Luiza Flor, 36 anos, comenta que ela e os colegas de trabalho procuclientes fiéis, literalmente. “Vendemos ram dialogar com os clientes. Ela conta produtos diversificados e buscamos ampliar a diversidade dos itens. Conforme que muitos vão ao estabelecimento apenas para solicitar orações. “Há pessoas a procura foi crescendo, resolvemos exque pedem que oremos por elas. Esse é pandir”, explica Siqueira. Durante a entrevista foi possível ver um diferencial nosso e um dos motivos pelo qual elas voltam. A loja é para nos os funcionários da loja comercializarem mantermos financeiramente, mas tamdiferentes artigos das seis religiões atendidas pelo estabelecimento. Siqueira afirbém para realizarmos a obra de Deus como cristãos”, orgulha-se. ma que as velas são as mais procuradas O aposentado Jaime Antônio da e que para cada religião há um tipo específico, seja para oferendas, anjos da Cruz, 59 anos, há dez anos compra bíblias para distribuir. “A palavra de guarda ou coloridas, para energizar o Deus me motiva. Já doei bíblias para ambiente. “Procuramos atender a demanda de várias religiões e isso deu cerpessoas de várias partes do País, da Bahia ao Rio Grande do Sul”, conta no moto”, diz. mento em que havia adquirido 25 bíblias As datas comemorativas são importantes para o aumento das vendas. no total de R$ 1 mil. Ele seguiria viagem “Na semana que antecede ao fim de ano, pelo interior de Mato Grosso do Sul. arrecadamos cerca de 20% a mais em comparação às datas comuns. As pessoas fazem oferendas e presenteiam mais jessikas.correa@hotmail.com nesse período”, relata o gerente, que não petercents@hotmail.com As doações são controlado por um tesoureiro, um vice-tesoureiro, pessoas formadas em administração e pelo próprio Pe. Leandro. Segundo o padre, as doações são todas destinadas à manutenção da própria igreja e para ações sociais da instituição. Padre Leandro conta que houve sonegação de informações quando as paróquias deveriam entregar uma porcentagem das ofertas e dízimos arrecadados. Para resolver esse problema, foram estipulados valores específicos a serem repassados para a Diocese. Questionado sobre como se sente em relação ao dinheiro, padre Leandro é claro: “O dinheiro é ótimo, desde que seja servo do homem e não o contrário”.


Saúde

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Saúde e FÉ Victor Sanches

Natália Moraes É comum o relato de pessoas que encontraram a cura, ou principalmente uma melhor qualidade de vida, por meio da fé ou de determinada prática religiosa. Mais do que possíveis milagres, essas histórias possuem respaldo em pesquisas científicas, que comprovam a relação entre espiritualidade e saúde. Orações, meditação, imposição de mãos, dentre outros, são importantes ferramentas. Não necesseriamente podem profetizar curas, mas auxliam o paciente espiritualizado a obter mais resistência no organismo. Ione Ferreira, espírita há 20 anos, conta a experiência de seu neto. Ao nascer, ele passou por um parto problemático, pela falta de oxigenação no cérebro. Segundo os médicos, a criança teria sequelas. “Ele já tava com quase dois anos e não tinha coordenação motora, nem nada”, comenta Ione. O menino foi levado ao médium de cura Paulo Neto, famoso no país e que, à época, estava em Campo Gran-

Já é consenso que a crença, quando positiva, trás bem-estar. No entanto, trabalhar a espiritualidade é ainda um desafio na medicina ressalva: “se a pessoa está doente, não de. O médium realizou uma cirurgia espode deixar seu médico e a medicação”. piritual no garoto. “Quando o levamos O funcionário público Luiz Roberto (para a cirurgia), naquela noite, minha filha dormiu pouco e quando acordou, concorda com Ione. “Quando você tem fé, você muda seu campo vibracional”, ele já estava sentado na cama sozinho”, afirma. Ele explica que deverá haver uma detalha Ione. Com o acompanhamento união dos dois saberes, o espiritual e os de uma fisioterapeuta e outros tratamenconhecimentos científicos da medicina. tos, a criança engatinhou e hoje anda norLuiz é espírita, já malmente. “Os aplicou passes no médicos falavam Centro Comunhão que ele só ia se ar“Quando você tem fé, Espírita Cristã, em rastar, mas andar você muda seu Uberaba (MG), nunca”, relembra a onde pode conheavó, que não percampo vibracional” cer Chico Xavier e deu a fé na recupeaprimorar sua fé. ração de seu neto. Luiz Roberto Luiz conta que Hoje, Ione sua filha mais velha, aplica passes espiaos oito anos, teve rituais – a troca de energia de um corpo para outro – e de- um problema digestivo no estômago, e a partir da cirurgia espírita foi curada. A fende que a cura não é mérito de nenhuoperação foi realizada na cidade de ma religião, isso dependerá da fé indiviCampo Florido, a poucos quilômetros dual. Ela recomenda o tratamento espíde Uberaba. “O médium incorporado rita para enfermos, como o passe, a água utilizou o dorso da mão. A única coisa fluidificada, a leitura do Evangelho no que eu enxergava era a mão dele, mas ali lar, dentre outros. Para Ione, são elemendevia ter outras entidades trabalhando. tos que trabalham a fé, contudo, faz uma

Quando terminou, fizeram o curativo. Pediram para voltarmos após oito dias para tirar os pontos. Ao voltamos, vimos a cicatriz, bem tênue”, recorda Luiz. Para Wilton Lima, “todo ser humano tem desejo de ser amado, e muitas vezes o recurso da medicina (tradicional) é insuficiente, percebemos que a fé pode fazer diferença”. Wilton é um dos idealizadores do Grupo Cristão de Oração e Evangelismo (GCOE) do Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, que trabalha em parceria com a Capelania do hospital. Apesar do nome e da maioria dos frequentadores serem evangélicos, o grupo é aberto a pessoas de outras religiões que queiram participar. O GCOE é formado por médicos, funcionários e parentes dos doentes. Juntos promovem orações pela saúde e bem-estar dos pacientes e suas famílias. Wilton elucida que o grupo cria laços fraternos e tem sido um agente, consolando também aqueles que estão em luto. “Temos recebido pessoas com dificuldades, mas muitas vêm aqui para agradecer, sentir paz” alega.


9 - Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS Wilton relata que por meio da fé em um ser superior, curou-se da síndrome do pânico e pode encontrar um significado para sua vida. “Eu tive síndrome do pânico e, depois, fui abençoado. Existem remédios paliativos, mas não a cura”, relembra.

isso. Pesquisas problematizam esse pensamento com a construção da sociedade brasileira, que no final do século XIX adotou o padrão científico como critério de verdade, causando uma rejeição da Academia Nacional de Medicina aos curadores populares.

Ciência e fé Frequentemente há dúvidas por profissionais da saúde, sobre a eficácia concreta de recursos não inseridos na medicina convencional, como a oração. No entanto, segundo o gastroenterologista Décio Iandoli, “em termos científicos está comprovado que a fé é um fator promotor de saúde”. Décio é presidente da Associação Médico Espírita de Mato Grosso do Sul (AME/MS), e afirma que é importante conhecer as práticas religiosas do paciente, com o intuito de indicar uma medicação associada ao que o doente acredita, assim há uma potencialidade na relação médico-paciente e da eficiência do tratamento. O cirurgião torácico José Júlio Gonçalves concorda. Ele costuma perguntar aos seus pacientes se acreditam em algo, com o objetivo de complementar o tratamento. Segundo ele ,“quando tratamos apenas o corpo o paciente sente falta de outros aspectos”. José se considera cristão e também participa do Grupo Cristão de Oração e Evangelismo. “Tenho certeza que existem forças por trás dos nossos sentidos, que é a dimensão espiritual”, completa. O possível motivo para o desuso das práticas religiosas na medicina convencional, pela maioria dos que a compõe no país, reside na própria formação destes médicos, que interiorizaram

Estudos em espiritualidade Apesar de ser um país considerado religioso, não é comum na formação médica brasileira o estudo de práticas populares e tratamentos religiosos, como é o caso dos Estados Unidos, que possuem a maior literatura científica sobre o tema, com mais de 100 universidades incluindo a matéria Espiritualidade e Saúde na grade curricular. No Brasil, a pioneira em trazer o estudo da cura pela fé foi a Universidade Federal do Ceará (UFCE), em 2004, com a disciplina optativa “Medicina e Espiritualidade”. Em seguida, foram criados grupos de pesquisa em outras cidades, como em Campo Grande, com a formação de ligas universitárias que atuam em conjunto; A LIASE (Liga Acadêmica de Saúde e Espiritualidade) na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), e a LICEU (Liga de Ciência e Espiritualidade) na Universidade Anhanguera Uniderp. “Nesses grupos tentamos compreender as religiões, para ver como podemos abordar cada paciente de acordo com a sua crença. Estudamos os efeitos que podem ter no bemestar, tanto bons quanto ruins, porque a espiritualidade é positiva, mas às vezes a religião pode jogar contra a saúde”, explica Décio, um dos coordenadores dos grupos. De acordo com Lídia Gonçalves,

acadêmica de Medicina na UFMS, “cada dia mais os estudantes procuram essas questões”. Lídia é uma das fundadoras das ligas universitárias, a LIASE. Para ela, surge a vontade de se construir uma saúde mais ampliada, para humanizar a medicina também em Mato Grosso do Sul.“Conforme entramos em contato com os estudos em Espiritualidade e Saúde, vemos como traz benefícios. Precisávamos divulgar isso e o respeito e estímulo às crenças do paciente, quando positivas”, esclarece a universitária, sobre o que levou à criação dos grupos. No início de cada ano as ligas orga-

Saúde nizam um Simpósio de Ciência e Espiritualidade, para difundir o que se tem produzido sobre o tema. Em 2013, houve a terceira edição do projeto. Lídia classifica o simpósio como ação prática.“De uma maneira geral as ligas têm atividades teóricas, práticas e pesquisas”, explica. Para os interessados no tema, as reuniões da LIASE são abertas a comunidade em geral, ocorrendo nas segundas-feiras às 19h na FAMED, (Faculdade de Medicina). natalia.moraees@gmail.com

Saiba mais Jeff Levin é pesquisador do National Institute for Healthcare Research (EUA). Seu foco de estudo é classificado como epidemiologia da religião: a análise científica de como fatores espirituais previnem a ocorrência de doenças. Natália Moraes

Em “Deus, Fé e Saúde”, Levin explora as evidências entre a saúde e uma série de crenças e práticas espirituais. Recorrendo aos seus próprios estudos publicados, e também a de outros pesquisadores, o Dr. Levin mostra como o otimismo e a esperança das que professam a fé estimulam reações curativas do corpo.

Na foto acima, participantes do Grupo Cristão de Oração e Evangelismo. As reuniões acontecem de segunda à sexta, às 12h30, no Hospital Regional


Religiões Africanas

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Preconceito enraizado Religiões de origem africana são frequentemente alvos de intolerância religiosa Camila Fernandes Camila Mortari

Acervo O Ilè Dara

Integrantes do terreiro de candomblé O Ilè Dará representando o instituto sociocultural de matriz africana no desfile do aniversário de Campo Grande

Camila Mortari

gumas pessoas ligam o candomblé à bruxaria e têm a imagem de que eles são praticantes do mal. O Candomblé é uma religião que tem Denúncias de intolerância religiosa aumentaram mais de 600% em 2012. Fo- por base a Alma da Natureza onde se ram feitos 109 registros a mais em relação cultuam os orixás, Voduns, Nkisis depenao ano de 2011,segundo a Agência Brasil. dendo da nação. Cada nação africana tem .Os grupos atingidos foram os como base o culto a um único orixá. A quilombolas, indígenas e os professantes junção dos cultos é um fenômeno brasileidas religiões e cultos de matriz africana. ro trazido pelos escravos agrupados nas senzalas. Eles nomeaOs dados são da Sevam um zelador de cretaria de Políticas de Art. 5º : Todos são santo, também conhePromoção da Igualdacido como babalorixá iguais perante a lei de Racial (Seppir). no caso dos homens Em Campo (...) e iyalorixá, para muGrande a situação não VIII: ninguém será lheres. é diferente. O Uma outra reliBabalorixá Lucas de privado de direitos por gião que sofre preconOdé, do centro de O motivo de crença ceito pelas suas raízes Ilè Dará(Candomblé é a Umbanda. O hisKetu) lamenta o fato toriador e mestrando que, diversas vezes, Constituição Federal em Antropologia pela pessoas sondam UFGD (Universidade o terreiro de candomblé para jogar pedra no telhado e se ben- Federal da Grande Dourados), Saulo Conzem ao passar na frente. A mãe de santo de Fernandes, explica que a Umbanda é Iyalorixá, Zilá de Oyá, acrescenta que al- uma herança dos indígenas e dos negros, e

Localizado na Avenida Joana Darc, no Bairro Pioneiros , foi o primeiro templo de Umbanda a ser fundado na Capital mesmo ela sendo de origem cristã ocidental , contém influência de setores da sociedade que sempre foram marginalizados. Segundo Fernandes, o preconceito acaba se tornando natural, pois muitos associam a palavra Umbanda com assombrações, “macumba” e “amarrações”. Um bom exemplo é o que acontece no bairro Santa Emília, onde há um terreiro e 14 igrejas neopentecostais próximas, o qual pode-se ver frequentemente casos de intolerância religiosa com os pais e mães de santo. Saulo relata que certa vez, uma senhora saindo de um culto neopentecostal passou em frente ao terreiro, cuspiu no chão e virou o rosto com gesto de reprovação ao ver o pai de santo. Muitas vezes o Candomblé é confundido com a Umbanda, porém possuem distinções bem definidas. A religião Umbanda foi fundada no Brasil, no Rio de Janeiro, com uma tradição espiritual que sincretiza vários elementos do catolicismo, do espiritismo e das religiões afroindígena-brasileiras. Esses espíritos formam duas grandes categorias: os espíritos de luz, que são Caboclos e Pretosvelhos, e os espíritos das trevas. O centro de Umbanda Pai Oxalá localizado no bairro Pioneiros, foi fundado há 41 anos.

O Pai de Santo Orlando Mongelli,85 anos, aposentado, atua como pai de Santo há 55 anos, e agora conta com o auxílio de seu filho, Luiz Otávio Mongelli, que apesar de ter crescido na religião Umbanda, apenas há sete anos começou a frequentar realmente e se tornou um membro assíduo. Embora eles sejam de uma religião que é alvo da intolerância religiosa, Pai Orlando afirma que não enfrentam preconceitos pela boa conduta que possuem dentro e fora do centro, e que sua religião está baseada no amor e na caridade. “É preciso ter muito cuidado com os charlatões que tem na cidade, como em qualquer outra religião sempre há os que agem de má fé”, complementa Luiz Otávio. A psicóloga Tania Aparecida Garcia, explica o fato da sociedade muitas vezes discriminar o que é diferente do meio de convívio. Segundo ela, para se debater o tema intolerância religiosa é preciso entender a diferença entre os termos “Tolerância” e “Intolerância”. O indivíduo para ser tolerante deve ser cuidadoso com o outro e respeitar suas escolhas. Significa aceitar a sua crença e a do próximo. Já o intolerante, é aquele que sendo crente ou não, possui uma visão limitada. O indivíduo ofende, agride e visualiza determinada situação


Religiões Africanas

11 - Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS

Festa dos Erês: homenagem que os candomblecistas fazem a Ibeji, orixá que representa os gêmeos (Cosme e Damião)

Denuncie somente pelo seu ângulo. Para Tania, a discriminação demonstra um comportamento direcionado aos indivíduos impulsionados pelo preconceito como: verbalizações pejorativas, evitamento de relações, ataque físico, moral e até o extermínio. Enfim, todo o tratamento que nega aos indivíduos e aos grupos a igualdade que eles merecem. As religiões sempre estiveram presentes na humanidade, pois foram as formas que os seres humanos tiveram para se comunicar com o mundo espiritual. O fato do homem ser o resultado do seu ambiente de socialização, dos conceitos e pré-conceitos que ele assimila e toma como verdadeiros, leva-o a possuir posturas que tendem a depreciar aqueles que fogem dos padrões que foram construídos e percebidos como positivos pelo seu meio. “Quando essas reações indesejadas tornam-se constantes pode estar instalada a intolerância. Seja entre pais e filhos, casais, amigos, grupos de pessoas que convivem e assim adotarmos atitudes desagradáveis, por não elaborarmos as situações de maneira “limpa” isenta de nossos

julgamentos e preconceitos que estão embasados nos nossos valores particulares os quais podem ser inadequado naquela situação. Os preconceitos são atitudes que envolvem “prejuízos”, um “pré-julgamento”, na maior parte das vezes negativo e pejorativo a membros de grupos sociais.’’ explica a psicóloga. Intolerância religiosa é qualquer atitude ofensiva a diferentes religiões. Quando ela ocorre em casos extremos, como: perseguições, agressões físicas e morais é definida como crime de ódio que fere a liberdade e a dignidade humana. A Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Constituição Federal, garantem a liberdade de expressão e de culto.De forma que, o Brasil sendo um país de Estado Laico, separa o governo da política. Não há uma religião oficial brasileira e o Estado se mantém neutro e imparcial às diferentes religiões. A liberdade religiosa está protegida e não deve, de forma alguma, ser desrespeitada. camila.fernandes@gmail.com camilla mortari@hotmail.com

Primeiramente deve-se saber onde se classifica o crime de intolerância religiosa que você sofreu. Se a perseguição religiosa acorreu no ambiente escolar, é necessário procurar o diretor(a) da escola e a Secretaria de Educação. Caso o problema não seja solucionado, recomenda-se informar a polícia. Em casos de perseguição pela Internet ou em casos extremos como agressão física é importante que a vítima não limpe ferimentos nem troque de roupas, já que esses fatores constituem provas da agressão. Além disso, a vítima deve exigir a realização de um Exame de Corpo de Delito para a avaliação da agressão. É válido lembrar que se a ofensa ocorrer em templos, terreiros, na casa da vítima, entre outros espaços, o local deve ser deixado da maneira como está para facilitar e legitimar a investigação das autoridades competentes. As denúncias no Mato Grosso do Sul são feitas pela Polícia Civil de MS – Delegacia Virtual de MS ou na rua Des. Leão Neto do Carmo, 154, no Parque dos Poderes. Nos casos de agressão física, os boletins de ocorrência poderão ser feitos em qualquer delegacia ou pela Internet.

Telefone: (67) 3318-7981 Site: www.pc.ms.gov.br E-mail: devir@pc.ms.gov.br Para saber mais, acesse www.guiadedireitos.org


Paganismo

Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS - 12

Acervo Grupo Aos Filhos da Terra

A natureza como templo Com raízes célticas e crenças politeístas, o Druidismo possui rituais mágicos e conexões diretas com a natureza Carol Caco A civilização Celta ocupou a região da Europa Ocidental a partir do segundo milênio a.C. A religião tinha como característica a crença em deusas e deuses e os druidas foram mágicos, poetas, conselheiros, curandeiros e filósofos que viviam em harmonia com a natureza e o mundo espiritual. Como legado, o druidismo traz o conjunto dessas crenças. Hugo Cezar Fernandes cursa História no campus de Aquidauana da UFMS e é adepto ao druidismo há sete

anos. Ele prefere ser chamado de Druida do Vento por ser essa sua identidade religiosa. “É quem eu sou interiormente, como eu me apresento no mundo neo pagão, religioso e espiritual”. Ele afirma que para algumas pessoas, o druidismo pode ser considerado uma filosofia de vida, mas ele encara como uma religião de fato. Para Mag gie Rodriguez, o druidismo representa tanto uma religião quanto uma filosofia de vida. Musicista e adepta ao druidismo há 11 anos, Maggie nunca se sentiu ligada à religião que conhecia: o catolicismo. “Quando

conheci o druidismo senti que aquilo foi o que sempre fez parte de mim, mesmo que eu não soubesse”, relata. Ritos O Nemeton significa “bosque sagrado” e era assim considerado pelos druidas como local para os rituais. A árvore – principalmente o Carvalho – era uma espécie de templo para os antigos druidas. “No druidismo nós geralmente fazemos nossos ritos na mata, em um campo ou em casa mesmo, pois há toda uma questão religiosa em torno do seu próprio lugar”, completa Druida do

Vento. Os ritos são iniciados com o pedido de permissão aos espíritos locais. Após a saudação às direções norte, sul, leste e oeste, há um pedido pela paz dos mundos e então é feito um convite aos ancestrais. “Nós fazemos a evocação de deuses relacionados aquele rito que vai ser feito e então nós partimos para a ação do rito. Por exemplo, se é um rito de casamento, um rito de iniciação ou até mesmo para proteção de uma criança, um rito de cura ou um rito da própria estação”, conta Druida do Vento. Após o culto à ancestralidade são


Paganismo

13 - Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS compartilhados alimentos e bebidas em que o primeiro gole é entregue a terra. O rito representa uma celebração, neste momento podem ocorrer manifestações artísticas como canto, recital de poemas, entre outros. “No encerramento agradecemos a presença dos ancestrais e das pessoas, e como de costume fazemos uma oração de proteção”, narra Druida do Vento. Há ainda elementos mágicos dentro do druidismo, e esse contato exige muita responsabilidade quanto ao direcionamento. “O objetivo pode ser transformação pessoal ou um trabalho mágico de cura para alguma outra pessoa. Eu costumo falar que o druida era o xamã dos Celtas”, diz Druida do Vento. Segundo ele, só há um tipo de magia e esta é direcionada para fins benéficos ou lesivos, com conseqüências a quem pratica para fins destrutivos. O termo paganismo A palavra “pagão” é derivado do latim paganus, que significa “homem do campo”, mas ao longo da história o termo tomou conotação equivocada em que passou a ter significado de praticante de magia negra ou de seitas malignas. “Essa penumbra histórica é um dos prin-

cipais motivos que nos coloca à margem das outras religiões”, relata Druida do Vento. Para Maggie Rodriguez, as religiões pagãs geram sentimento de estranheza porque são pouco conhecidas. “Apesar disso, nunca tive grandes problemas, exceto com extremistas religiosos”, completa.

“No druidismo nós geralmente fazemos nossos ritos na mata, em um campo ou em casa mesmo” Druida do Vento Druida do Vento afirma que nunca sofreu preconceito por ser adepto a uma religião pagã, mas encontrou resistência por parte dos parentes. “Sou de uma família tradicional católica. Então você muda de religião e começa a estudar coisas que seu pai e sua mãe não conhecem. Na época em que eu entrei na faculdade tive que responder a um questi-

onário e lá perguntava minha religião. Meu pai não quis que eu colocasse o druidismo porque pensou que eu sofreria preconceito”, recorda. Grupos Caer significa “fortaleza” e é como denomina-se um grupo de estudos sobre o druidismo. Geralmente está relacionado ao nome de uma árvore, como por exemplo, o Caer Tabebuya (gênero do Ipê), localizado em São Paulo ou o Samaúma, (considerada a mãe-das-árvores pelos indígenas) de Belém, Pará. Em novembro houve o 4 º EBDRC – Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta – em Cotia, São Paulo. Segundo Marcos Reis, vice-presidente do Conselho Nacional de Druidismo e um dos organizadores, 80 participantes de todas as regiões do Brasil estiveram presentes. Palestras, debates, oficinas, danças e rituais estiveram entre as atividades. Apesar dos interessados em estudar e praticar o druidismo em Mato Grosso do Sul, o estado ainda não possui um caer. “Eu pretendo começar um grupo de estudos aqui”, finaliza Druida do Vento. carolcaco@live.com

Saiba mais Caer Tabebuya www.druidismo.com.br

No site é possível encontrar textos sobre os druidas, mitologia e lendas Celtas, ambientalismo e cronograma de encontros nacionais de druidismo.

Projeto Fisid www.fisid.finenadairbre.com

Acervo Grupo Aos Filhos da Terra

O objetivo do projeto é criar um banco de dados dos mitos atribuídos aos povos Celtas com todas as traduções disponíveis para o português e incentivar que outros ainda não traduzidos possam passar por esse processo.

Livro “Os Mistérios dos Druidas” Philip Carr-Gomm

Integrates do EBDRC reunidos em um culto à natureza

Gomm apresenta o bosque sagrado dos mistérios dos druidas, ao mostrar de que forma é possível aprofundar a ligação com o mundo da Natureza e do Espírito.


Paganismo

Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS - 14

Desmistificando o místico

Larissa Pestana

Caldeirões, velas e varinhas mágicas são exóticos para muitos, mas para os bruxos são objetos indispensáveis para“Nós a prática não de seus feitiços, rituais e magias do bem Larissa Pestana Thiago Campos A Wicca é uma prática milenar dita neopagã, pois enfatiza a conexão com a natureza. Gerald Gardner, escritor e ocultista da década de 50, teve papel fundamental dentro da religião, divulgando e popularizando a bruxaria religiosa - chamada de “Antiga Religião” ou “Velha Arte”. Gardner acreditava na Wicca como uma continuação do Paganismo Europeu no mundo moderno. Em seus dois livros sobre o assunto, refere-se à bruxaria como “a Arte” ou “Wicca”. O autor utilizou esta palavra porque, em épocas remotas, os bruxos eram conhecidos como “wiccas”, os sábios. Com o passar do tempo, ela conquistou cada vez mais espaço e respeito,

cultuamos

inclusive obtendo ramificações, como viviam das colheitas, e os festivais wiccas a natureza, a Alexandrina, propagada por Alex até hoje se baseiam nelas. nós somos a Sanders. Esta se baseia na Gardneriana, A religião estimula o desenvolvicom pequenas modificações, como por mento pessoal e coletivo por meio de natureza” exemplo o nudismo uma relação harmônica durante rituais, que é com o meio ambiente e Elizabete imposto como algo neda convivência pacífica “Nós não cessário na visão de entre as pessoas, guiada Bomfim cultuamos Gardner e opcional na na tolerância e no respeia natureza, visão de Sanders. to à diversidade. Não Na Wicca, a natuhá preconceito de gênenós somos a reza é considerada algo ro, os bruxos considenatureza” sagrado. Os bruxos enram todos como filhos xergam em seus ciclos e da natureza e aceitam processos de transfortodo ser humano como Elizabete Bomfim mação a própria maniele é em cor, nacionalifestação dos deuses. dade e orientação sexuEles acreditam que a natureza se comal. Há muitos homossexuais que sentemporta como uma mãe, pois ela acolhe, se acolhidos e aceitos pela Grande Mãe cuida e se renova. Os pagãos - que não e, por isso, tornam-se seguidores da são nada além de homens do campo Wicca.

Elizabete Bomfim, 31 anos e formada em Letras, entrou na religião Wicca por curiosidade. Começou lendo livros e frequentando centros espíritas kardecistas e, um dia, pesquisando na Internet, encontrou a palavra ‘Wicca’. Resolveu estudar e se interessou por aquilo que os praticantes chamam de “Arte”. Ela passou a fazer feitiços e sentiu-se bem ao ver que surtiam efeito. “A magia é uma forma de você falar com o universo de maneira que ele não pode deixar de ouvir”, relata. O ritual de auto-iniciação de Elizabete foi feito em uma noite de lua cheia, porque é o dia mais poderoso pela concepção Wicca. Ela se emociona ao lembrar de quando viu a Deusa, quando as nuvens se transformavam em mulheres diante de seus olhos. A Wicca dá a possibilidade de estu-


Paganismo

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Larissa Pestana

Altar Wicca com objetos que representam os cinco elementos da natureza bre os assuntos até encontrar a religião da natureza. “A Wicca me faz bem, vejo o mundo de outra maneira e aprendi a respeitar o nosso meio ambiente, a transformar meu cotidiano”, conta. Os Wiccas não creem no demônio como o mal personificado em um único ser. Para eles, o mal está em todos nós, e pode se manifestar em um simples ataque de fúria. Eles acreditam no poder da Lei Tríplice. Tudo que for feito retornará triplamente, ainda nesta encarnação. Ou seja, se o bem for desejado, o mesmo será colhido. Se o mal for plantado, ele também retornará. Existe ainda uma diferença entre bruxos e feiticeiros. O bruxo conhece as causas e os efeitos da bruxaria e pondera antes de realizar qualquer forma de magia. O feiticeiro segue a premissa de que os fins justificam os meios, e realiza suas magias sem importar-se com os danos que podem ocorrer. Para ele não importam as causas, apenas as consequências. Os encontros wiccas são feitos em um lugar chamado Coven, onde grupos de bruxos se unem eventualmente para a realização dos rituais: os sabás e os esbás. Sabás são realizados na entrada de cada

estação do ano. Esbás são rituais feitos na primeira noite de lua cheia do mês. Segundo o bruxo Donizete Espíndola, Campo Grande não possui um lugar fixo para a prática dos rituais. O único que havia frequentemente era invadido por pessoas de outras religiões, para pregar suas doutrinas e atacar os praticantes da Wicca. Atualmente as reuniões são feitas nas casas dos próprios bruxos

thcampos@outlook.com laripestana.94@gmail.com Carol Caco

dar e praticar por um ano, sem a obrigação de seguir os dogmas à risca logo que a religião é escolhida. Com isso, muitos jovens pesquisam e realizam a iniciação para se tornarem bruxos. Fabiana Filgueiras, 27 anos e acadêmica de História da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), descobriu a religião aos 16 por meio de uma amiga da escola. Quando começou a estudar Wicca, Fabiana se identificou muito, pois se considera curiosa e tem atração por estudos que a maioria das pessoas acha insólitos, como ufologia e ocultismo. Ela descobriu que ali havia coisas das quais já sabia e acreditava, por isso resolveu seguir a “Arte”. A acadêmica diz que ficou intrigada com tudo aquilo, mas por falta de material e de maturidade não deu prosseguimento. Há pouco tempo voltou a seguir a religião e, a partir de então, leva os estudos e a prática com seriedade. A estudante Stefani Pellin tem 17 anos e há cinco estuda a Wicca. Sua mãe é cristã e sempre a aconselhou a ler livros sobre ocultismo, como um modo de mostrar que ‘Satanás é malvado e Deus é bom’, gerando muita curiosidade sobre bruxaria e magia. Stefani passou, então, a pesquisar so-

e em lugares públicos, como as praças da cidade. Preconceito Segundo Elizabete, o preconceito começa com os próprios bruxos, quando começam a gostar das práticas, mas escondem de todos. Depois que superam o preconceito pessoal, vem a fase de explicar para a família e buscar a aceitação dentro de casa. “Daí em diante não temo mais nada, porque na minha cabeça isso está bem resolvido e com a minha família também. Então sei que se um dia tiver o preconceito de fora, vou estar preparada e amparada”, afirma. Stefani conta que ainda não sofreu nenhum tipo de discriminação, as pessoas que sabem de sua religião têm a mente aberta e por isso ela nunca teve problemas. Fabiana também não sofre pelo fato de que poucos sabem de sua religião. Ela conta que, em casa, não tem problema algum, mas fora dela fica receosa de se expor por conta do preconceito. Apesar disso, Fabiana usa símbolos Wicca sem medo, e quem vasculhar suas redes sociais vai saber de sua fé. “Não sei como lidar com o preconceito quando acontecer, mas sempre procuro me abster de discussões que envolvam religião e não abro o jogo pra pessoas que sei que não irão entender”, completa.

Objetos usado no altar de um casamento pagão


Islamismo

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Sob o véu do

Islã Raquel de Souza

A vida religiosa das mulheres muçulmanas em Campo Grande Gabriel Ibrahim Raquel de Souza Você sabe quem são os muçulmanos? Com certeza alguma imagem lhe veio em mente quando leu essa pergunta, mas será que você realmente sabe quem são eles? Se pensou em homensbomba, mulheres oprimidas e terrorismo, então ainda não os conhece de fato. Não se pode confundir a religião islâmica, cujos seguidores são os muçulmanos, com a cultura dos países do Oriente Médio, que muitas vezes estampam os noticiários com guerra, terror e violência contra mulheres. Essa diferen-

Caso você tenha se identificado ça, na maioria das vezes, não fica muito clara quando vemos notícias sobre com esses estereótipos, não se preocupe. Essa falta de esclaconflitos nesses países, mas é importante res- “O diamante não fica recimento é normal, principalmente devido saltar que ela existe. a mostra pra todo às ideias equivocadas Muçulmanos não são mundo ver. A nossa que são repassadas pela necessariamente áramídia e que circulam bes, sírios ou palestibeleza a gente livremente pela nos, eles podem ser de guarda pra nossa internet. Existem qualquer povo, naciofamília” vídeos que mostram, nalidade e cultura no de forma abominável mundo. São todos e errônea, cenas de viaqueles que praticam a Samia Nagib olência contra a mureligião islâmica, seguindo a Deus e aos ensinamentos do lher por homens que se dizem muçulmanos. Mas, no Alcorão, o livro que Alcorão.

orienta a fé islâmica, não são encontrados registros que preguem a inferioridade da mulher, nem à violência de qualquer tipo. Ao chegarmos à Mesquita de Campo Grande, também sabíamos pouco sobre o que iríamos encontrar e aprender. Os costumes nos confundiram um pouco de início, mas Dalal Afandi, nascida e criada no islã, se mostrou muito paciente para nos explicar e tolerar nossos descuidos. Após as orações, para os muçulmanos Salá, e o sermão do sheikh (autoridade religiosa do islã), o khutbah, reunimos as mulheres para uma conversa.


Islamismo

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Raquel de Souza

Nosso cuidado para cumprimentáternas, ela continua usando o hijab e falas virou piada, e Dalal brincou: “Não zendo as cinco orações diárias mesmo tem nenhuma bomba aqui embaixo do sem a supervisão de ninguém. “As pesvéu!”. Longe disso, debaixo do véu (em soas comentam: seus pais não estão aqui, árabe hijab) descobrimos mulheres que você pode tirar. Mas eu quero usar” estudam, trabalham, têm liberdade para Outra questão polêmica, quando se escolher seus maridos trata do islamismo, é e, mais importante, a poligamia. Isso são felizes. Não se existe no Alcorão, “Homem, marido, sentem oprimidas, mas para que um não bate em mulher, marido possa escoseguem os preceitos da religião – inclusilher mais uma esponão encosta a mão ve o uso do hijab – tem que haver um na mulher, nem ergue sa, por escolha própria e motivo. A impossifalam das dificuldabilidade de ter filhos a mão pra mulher” des que enfrentam com a primeira mucom senso de humor lher, por exemplo. Flávia Michele apurado. Para que isso aconteMas não há nada ça, a primeira deve Os preceitos islâmicos são passados de geração para geração de engraçado no preconceito, que ainnão só autorizar como é ela quem esda existe. As pessoas olham de maneicolhe a segunda esposa. O homem deve tato com a religião islâmica. ra diferente, contudo elas se sentem proCampo Grande, não encontramos neter como sustentar as duas mulheres, e Abandonamos preconceitos e nos tegidas. “É uma proteção pra mulher nhum caso. tratá-las da mesma forma. Se essa já foi surpreendemos com o que vimos e ouna verdade, em todos os sentidos. Pro“O conhecimento abre seus horiuma prática comum na época do provimos na Mesquita. Segundo Nassim tege a gente do sol, do frio e dos olhazontes, em qualquer coisa que você fifeta Maomé, hoje parece ser apenas res maliciosos”, afirma Samia Nagib. zer na vida”, afirma Flávia Michele. Dhaher, funcionário público que faz esuma possibilidade remota. Tanto que, tudo do Alcorão a fim de se tornar “O diamante não fica a mostra pra Aprendemos isso através do nosso conentre os frequentadores da Mesquita de sheikh, quem quiser conhecer mais sotodo mundo ver. A nossa beleza a genbre os muçulmanos encontrará as porte guarda pra nossa família”, completa. tas abertas, independente da religião. “A Questionadas sobre qual é o tratamenmesquita é um espaço público”, explito que as mulheres recebem em casa, ca. “Qualquer um, até não muçulmaelas são unânimes em afirmar que são nos, pode vir conhecer o espaço e parmuito respeitadas. “Homem, marido, ticipar dos eventos e atividades”, não bate em mulher, não encosta a mão complementa Nassim. na mulher, nem ergue a mão pra mulher”, define Flávia Michele, advogada e revertida (no islamismo não há congabriel.ibh.2@gmail.com versão, e sim reversão) ao islã há seis raquelsj@ibest.com meses. “A mulher é a alegria da casa”, complementa. As mulheres são instruídas para cuidarem da casa e dos filhos, mas poServiço dem trabalhar, se quiserem. Flávia, por exemplo, é advogada. “Eu sou livre. Toda sexta-feira são Meu marido sabe que a obrigação dele realizadas orações às 13 é o sustento. A minha eu sei também, horas, sábados e dominque eu preciso saber administrar a casa”. gos de manhã são ofereciSão livres também para estudar. É o caso de Nafissa Ibrahim, estudante das aulas de árabe e aos do curso de Engenharia da Computasábados, também, aulas ção da Universidade Federal de Mato de Corão, nas quais são Grosso do Sul (UFMS). A fim de reaensinados os princípios lizar o sonho de estudar fora, Nafissa saiu da Nigéria, atravessou o Oceano da religião. Todos os Atlântico e chegou ao Brasil sem saber serviços são abertos à falar muito bem o português. Veio de comunidade. A Mesquita uma família extremamente rigorosa nos fica localizada na Avenida costumes islâmicos e ainda assim obteve o apoio dos pais para sair do país. América, número 65, Provando que as mulheres seguem os bairro Vila Planalto. Mesquita Luz da Fé, localizada na avenida América, 657 preceitos da religião sem pressões exGabriel Ibrahim


Perfect Liberty

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21 raios de pura liberdade A fé deu origem a mais de 4.200 religiões pelo mundo, cada uma com seus respectivos valores e práticas. Uma delas é a Perfect Liberty

Raul Delvizio Ser religioso exige uma atitude de fé, de crer em incertezas à procura de respostas. Quando religião é o assunto, a impressão que geralmente fica é de que haverá mais espaço para reflexão, discussão – do eu, do homem, da natureza, da vida. Muitas religiões preocupam-se mais com essa vertente, a de reconhecer para compreender. Porém, a Instituição Religiosa Perfect Liberty (Perfeita Liberdade ou simplesmente PL), igreja de origem japonesa, vê nessa dinâmica um caminho repleto de peculiaridades. O primeiro inusitado da religião

dos peelistas, como são chamados os fiéis da PL, é de que tudo tem uma razão – literalmente – de ser. Para cada situação negativa que alguém enfrentar, chamada de Mishirassê (desventura, infortúnio), que pode surgir na forma de perdas, dívidas ou doenças, haverá um determinado Mioshiê (instrução, orientação), isto é, um Ensinamento Divino. Supomos que uma pessoa, atrasada para o trabalho, não atravessa pela faixa de pedestres e é atropelada por um veículo. Por sorte apenas quebra a perna. Esse acontecimento ruim (Mishirassê) tem uma orientação específica (Mioshiê) que, no caso, será determinada pelo próprio fato (atropela-

O sol de vinte e um raios, chamado de Omitamá, é o símbolo para todos os fundamentos peelistas

mento), seu motivo (travessia fora da faixa), situação (atraso no trabalho), lugar e horário, sentimento pessoal enfrentado (dor, angústia, medo da demissão), dentre outros. Uma solicitação de Mioshiê pelo próprio fiel é enviada ao Japão, e lá o atual Oshieoyá-samá (líder da PL) atende cada Mishirassê-Mioshiê e reenvia para onde o peelista estiver. Mais do que uma resposta, a devolução indica uma efetiva justificativa para, daí sim, um caminho de reflexão. “É uma religião extremamente prática. Os ensinamentos não são parábolas ou historinhas que você mesmo tenha que desvendar. É mais simples: faça isso e o pratique”, explica a peelista

Juliana Peters, que desde sua juventude é integrante da PL de Campo Grande (MS). Mestre Mauro Cordeiro, missionário da PL campo-grandense, vai além: “Na PL discutimos o presente. Fazer hoje a diferença. A gente precisa se sentir útil, ter felicidade. Não podemos ficar atrelados ao passado ou ao futuro. É o aqui e o agora que mais importam”, afirma. O par Mishirassê-Mioshiê trata-se do ponto central da doutrina peelista, que é baseada em fundamentos orientais do Zen Budismo e Xintoísmo. Na madrugada de 29 de setembro de 1946, por meio de uma intercessão Divina, Tokuchika Miki, o segundo Oshieoyá-


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Dias de glória Cada dia do peelista é resultado da benção Divina. Para agradecer à Ele, o fiel aprimora seus vícios emocionais e

Seiti (Terra Sagrada) de Arujá, no estado de São Paulo. O lugar, de dimensões grandiosas, acomoda facilmente um público com mais de 20 mil peelistas. Acima, cerimônia de Kyosso-sai no auditório campal, em frente ao Omitamá

rauldelvizio@gmail.com

Serviço A Instituição Religiosa Perfeita Liberdade da capital fica localizada na Rua São Geraldo, 421, bairro Vila Carvalho. A PL está sempre de portas abertas a receber curiosos. Os horários de funcionamento são de segunda à domingo, pela manhã das 6h às 11h e à tarde das 14h às 19h. Quando é dia de cerimônia, o horário de funcionamento vai até mais tarde, a partir das 19h. Aos sábados e domingo há atividades complementares de confraternização.

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Os 21 raios de sol Como já dito, a Perfect Liberty traduz sua cultura religiosa por meio dos seus 21 preceitos. Conforme Mestre Mauro, “todos [os preceitos] estão interligados. Eles estão emaranhados e não podem ser visualizados separadamente. Sem eles não há a total Orientação Divina”. O Omitamá, como é chamada a simbologia da PL, se dá pelo sol com 21 raios, representando a vida, a luz, o guia, isto é, Deus e Sua intercessão em cada preceito peelista. Juliana Peters fala sobre o preceito que mais admira. “Agir ao perceber. Assisti várias palestras sobre a PL e esse é o preceito que me deixa mais curiosa. Ao pressentir, perceba-se e faça, siga o que você sentiu. Isso representa um canal direto com Deus. É o que mais me intriga”, admite. A peelista comenta que caso você não “dê ouvidos” a essa intuição, esse contato com Deus vai se estreitando ao ponto que, um dia, deixe de existir. “E é verdade. Sentiu? Siga, faça, não deixa para depois”.

espirituais, como raiva, tristeza, pressa, receio, apego, teimosia, entre outros, por meio da oração, o shikiri. “Meu pai, apesar de não ir muito à PL daqui, religiosamente faz sua benção matutina em frente ao oratório”, comenta Juliana. O ato de “fazer um shikiri” pode acontecer de manhã ou à noite na igreja ou então dentro da própria casa do fiel, já que ao entrar na comunidade todos recebem alguns objetos sagrados. Inclusa nessa oração está o oyashikiri, palavra positiva, poderosa, que dá força a quem dizê-la. “O oyashikiri é uma expressão caso o fiel esteja com algum problema e gostaria de receber uma benção”, diz Mestre Mauro. Juliana conta que durante o parto do bebê, ela frequentemente exclamava “oyashikiri” para atravessar aquele momento de dor e que tudo no final ficasse bem. Deu certo. Todo o dia 1º, 11º e 21º de cada mês há celebrações especiais na Perfect Liberty, respectivamente as cerimônias do Dia da Paz, Dia dos Antepassados e Dia do Agradecimento. Já o dia 1º de Agosto é marcado pela cerimônia de Kyosso-sai. Esse evento homenageia os fundadores da PL. São utilizadas vestimentas próprias, tanto para o homem quanto para a mulher, e o mestre da comunidade realiza uma cerimônia especial e lê a palavra que o atual Oshieoyá-samá dá para todas às igrejas peelistas do mundo.

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samá, desenvolve os 21 preceitos que amparam a PL. Bem antes disso, seu pai, Tokuharu Miki, concedeu ao filho a responsabilidade de tomar conta da religião que criou, a Hito-no-miti (“caminho do homem”). Nas mãos do primogênito, a religião que era do pai muda do japonês para o inglês, a fim de exportar globalmente o ato da fé e a renovação da esperança. Oficializa-se então a Perfeita Liberdade. Ainda hoje o objetivo maior dessa religião é trazer a Paz Mundial, visto que na época de sua criação as pessoas sofriam com as devastadoras consequências da 2ª Guerra Mundial. Isso é o que mais motiva os peelistas a seguirem com suas vidas, já que “vida é arte”. Esse primeiro preceito da PL “significa ter uma mostra de como você pode viver melhor. Faça isso, da melhor forma possível, sem preguiça no que faz”, é o que Juliana entende. Agora, com seus 36 anos, um casamento consolidado e um filho pequeno para cuidar, ela sabe mais ainda o que isso lhe representa. “A vida é o palco da mais perfeita obra de arte, e não pode ser facilmente desperdiçada”, revela.

Perfect Liberty

Apesar do inusitado estilo arquitetônico, a Torre da Grande Paz foi erguida àqueles que perderam suas vidas nas guerras pelo mundo. O monumento, localizado em Tondabayashi, província de Osaka, no Japão, faz alusão aos vários caminhos que o homem tem em sua vida. Esses diferentes percursos, por vezes tortos, indecisos e difíceis, dão a uma única direção: a de Deus


Saúde

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O lugar da religião nos hospitais

Bárbara de Almeida

Bárbara de Almeida Em Campo Grande existem diversos hospitais que tem alguma religião responsável pela administração. Tem pra todo gosto: espírita, evangélico, católico, adventista, entre outros. Porém, engana-se quem considera a intervenção espiritual como algo recente ou restrito de nossa Capital: a maioria dos hospitais primitivos já era administrada por ordens religiosas. A cientista social campo-grandense Tábata Brás acredita que a falta de investimento do governo, aliada ao princípio do amor ao próximo presente na espiritualidade, faz com que a capital sulmato-grossense tenha uma alta proporção de hospitais que tenham algum tipo de investimento religioso: “o SUS - Sistema Único de Saúde, não tem como,

sozinho, atuar no combate às doenças e proporcionar um bom atendimento, principalmente aos excluídos, e o Estado não tem a competência necessária para administrar o volume disponível de recursos. Impõe-se então a necessidade de que a iniciativa privada - no caso, instituições religiosas - colabore responsavelmente, visando estancar essa deficiência dos órgãos governamentais”, declara a socióloga. Então, mesmo que seja inesperado ser encaminhado pelo SUS – ou pelo plano de saúde particular – a um lugar religioso de Campo Grande, isso tem grandes chances de acontecer. Mas a espiritualidade dentro destas instituições não presentes apenas na parte administrativa. “Tenho observado a expressiva presença da religião em meio aos nossos doentes. O paciente, ao ser

admitido, na maioria das vezes está portando ou um rosário, fita, medalha, gravura de algum santo, crucifixo ou um patuá”, declara Miranildes de Abreu Batista, enfermeira do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (UFG), em seu artigo publicado na Revista Brasileira de Enfermagem. Segundo Miranildes, “a espiritualidade do paciente é colocada à prova durante sua passagem pelo hospital, principalmente em casos que envolvam as Unidades de Tratamento Intensivo – UTIs. A proximidade da morte angustia o ser humano, que então busca, na experiência religiosa, algo que legitime a situação em que se encontra”. Afinal, como a crença pode influenciar na cura, no tratamento ou no dia a dia de sua internação? Confira ao lado a história de dois hospitais que tem suas

administrações comandadas por grupos religiosos. Hospital São Julião O Hospital São Julião é um centro de referencia para tratamento dermatológico na América Latina e está em Campo Grande desde a década de 40. Criado pelo ex-presidente Getúlio Vargas junto a mais 34 unidades por todo o País, tinha como objetivo original abrigar apenas os portadores de hanseníase do Estado. Afastado da cidade e com pouco incentivo financeiro federal, em seus primeiros anos o hospital não possuía estrutura para comportar os pacientes que ali estavam. “Era uma situação precária, os doentes acabaram numa terra sem lei”, conta Amilton Alvarenga, administrador do São Julião há cinco anos. A ajuda religiosa no São Julião co-


Saúde

21 - Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS meçou em 1969, quando um grupo de católicos italianos da Operação Mato Grosso passaram a trabalhar no antigo leprosário, participando do processo de recuperação física e social do São Julião, voluntariamente. Formou-se, a partir de então, uma associação de benfeitores provenientes da Itália para dirigir e man-

ter as atividades do hospital, o que continua até hoje. Mantido pelo SUS e administrado pela Igreja Católica, o hospital evoluiu e agora atende diversas especialidades médicas, possuindo inclusive um centro cirúrgico. “A situação social do hospital melhorou efetivamente em 1986, quan-

Vida de entrega Bárbara de Almeida

A irmã Aura Martina Suarez dedica sua vida aos pacientes do Hospital São Julião há 25 anos. Colombiana, a freira trabalhou com comunidades indígenas do Amazonas e em escolas da Bolívia antes de chegar ao Mato Grosso do Sul. Martina se especializou em enfermagem para trabalhar no São Julião, assim como muitas outras irmãs na época. Desde então a religiosa assiste os pacientes tanto como enfermeira, como por conselheira espiritual. Apesar de seguir a doutrina católica, ela afirma que todas as religiões são aceitas no local: “a missão de um religioso é a evangelização, mas aqui respeitamos a diversidade de culto”, declara.

do a cura foi descoberta e a comunidade perdeu o medo de adentrar no hospital, agora sem o perigo de contágio” afirma Amilton. Atualmente a religião se faz presente dentro do São Julião com a assistência espiritual fornecida pelas irmãs do local. Além disto, o hospital abriga dois espaços religiosos: a capela, construída em 1972, onde se realiza as missas católicas semanais, e o Centro Espírita Paulo de Tarso, reservado para cultos diversos. Hosp. Adventista do Pênfigo (HAP) Mesmo há 63 anos em Campo Grande, muitas pessoas não sabem o motivo deste nome. Pênfigo é uma doença caracterizada pelo aparecimento de bolhas no tórax rosto e couro cabeludo, popularmente conhecida por “Fogo Selvagem”. O HAP teve sua origem em 1947, quando Alfredo Barbosa de Souza, pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia, vendo sua esposa Áurea de Souza sofrer com pênfigo, veio ao Mato Grosso do Sul buscar uma cura que haviam anunciado na época. A visita levou Alfredo a conhecer Isidoro Jamar, um farmacêutico argentino residente em Sidrolândia/MS, que disponibilizou sua receita caseira para a cura do fogo selvagem. Iniciou-se então todo o processo de criação do HAP, que a principio constituiu-se de apenas uma enfermaria e tratava somente casos de pênfigo. Hoje o hospital é um dos maiores

hospitais particulares de Mato Grosso do Sul, com reconhecimento internacional no setor dermatológico. Além de atendimento geral realizado por convênios e consultas particulares, o hospital ainda oferece o tratamento para quem possui pênfigo gratuitamente. Igual ao São Julião, a administração do HAP garante oferecer tratamento isento de discriminação religiosa. Apesar de também manter uma capela no local e oferecer suporte espiritual para os pacientes que assim desejam, o maior diferencial que a religião adventista efetivamente trás para seus clientes é a alimentação vegetariana, tanto para os enfermos como para os funcionários. Assim, além de manterem o padrão adventista no cardápio, a administração “segue estudos atuais da própria Organização Mundial da Saúde – ONU, que concluíram ser a dieta vegetariana mais adequada para enfermos, pois deste modo os pacientes tendem a ter melhoras significativas no tratamento”, explica Eliane Bezerra do Nascimento, nutricionista da equipe do hospital. No HAP também há o Centro Vida Saudável, uma espécie de SPA médico que desde 1987 trabalha com medicina de prevenção. Totalmente particular, o tratamento consiste em apresentar novas rotinas aos pacientes, tanto alimentares como de atividades físicas, para realização de mudanças saudáveis no estilo de vida da população. barbara.fatos@gmail.com

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Em constante ampliação, a nova sede do HAP no centro de Campo Grande foi inaugurada em 2011


Oriente

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As doutrinas do século XX Com menos de um século de criação, as religiões japonesas entram no dia-a-dia de muitos brasileiros

A filosofia de vida criada no século XX pode ser aplicada facilmente no dia-a-dia. Tanto a Seicho-no-ie quanto a Mahikari mostram: se a pessoa tiver mente e coração abertos, ela pode receber Deus de outras formas em sua vida, e não apenas de uma religião antiga. Seicho-no-ie “Seicho-no-ie é amor infinito, é provisão infinita, é alegria infinita e é har monia infinita”. Assim, Ana Carmem Martins, 37 anos, e líder dos jovens na Seicho-no-ie de Campo Grande, define a religião que freqüenta fielmente desde os 15. Conhecida por suas revistas, a Seicho-no-ie foi criada em 1º de março de 1930, por Masaharu Taniguchi e se mundializou a partir da Segunda Guerra Mundial. Não tem rigidez de conceito, e pode ser considerada uma

filosofia ou religião. Seu objetivo é despertar no coração das pessoas a verdade de que todos são filhos de Deus e fazer por meio dos atos que o mundo se torne um lugar melhor.. Procurada principalmente por pessoas que buscam orientação e paz de espírito, Ana Carmem explica: “na vida você vai passar por dificuldades, mas a Seicho-no-ie te dá uma base espiritual, e você tem a resposta na literatura dela. Você tem resposta pra tudo!”. Baseado no cristianismo, budismo e xintoísmo, os encontros dessa religião misturam rituais, músicas, pequenas palestras e relatos. Ana Carmem diz que com Masanobu Taniguchi, atual presidente, alguns rituais foram mudados para melhor se adequar a cultura de cada país em que a religião se encontra. Diferentemente de várias religiões tradicionais, a Seicho-no-ie rejeita a expressão “tem de ser assim” pois considera que nada deve ser forçado e ensina a viver naturalmente a vida como ela é.

Isadora Leiria

Sr. Teruya frequenta a Mahikari em Campo Grande há 27 anos

Jade Amorim

Isadora Leiria Jade Amorim

A oração é a essência dos rituais na Seicho-no-ie Mahikari A Sukyo Mahikari é outra vertente japonesa procurada por pessoas que desejam se curar de doenças ou até mesmo para encontrar a tão desejada paz espiritual. Foi o caso de Nelson Teruya, 52 anos, que a procurou por causa das fortes enxaquecas que sua esposa sofria. “Enxaqueca não se cura, trata-se. Recebendo a energia, ela foi se sentindo bem, e então eu conheci a Mahikari.” Há 27 anos praticando a filosofia, Nelson é hoje coordenador das atividades relativas à doutrina. Chamada também de Arte Mahikari, Nelson explica que “é um fundamento que transcende a questão da crença, pois qualquer pessoa pode praticar a Mahikari, independente de sua filosofia de vida, posição social ou composição étnica”. Em um mundo materialista e egocêntrico, onde as pessoas estão perdendo a compaixão com o próximo, a Mahikari mostra que é possível haver harmonia na sociedade atual. Pela imposição da Luz, proporciona-se bem estar à pessoa, e a partir dela se demonstra espiritualidade e solidariedade ao pró-

ximo. A energia transmitida pela imposição das mãos é chamada de Okiyome, e é responsável pela limpeza do corpo, alma e mente. Essa doutrina também é procurada para a solução de problemas e preocupações. “Isso não significa que você não vai ter problemas. Você vem aqui para poder ultrapassar as dificuldades e viver em harmonia consigo, com o próximo e com a natureza”, diz Nelson. E não são apenas adultos que vão em busca da Luz. Jovens e crianças se identificam com os ensinamentos e doutrinas divinas da Arte, porque ao receberem o Okiyome, tornam-se pessoas mais calmas e demonstram a diferença no dia-a-dia. A Mahikari oferece as respostas que a pessoa necessita para conseguir entender a origem de seu sofrimento, como explica Nelson. “Existem algumas perguntas ao longo de sua vida que você quer saber a resposta, e mais de 60% das pessoas sofrem porque não sabem a origem disso.” dora-leiria@hotmail.com jadeafranco@gmail.com


23 - Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS

Frequência da fé

Na sintonia da religião O uso das rádios para evangelizar Gabriela de Castro Luana Afonso A Rádio Educação Rural foi ao ar em Campo Grande em 11 de outubro de 1977. Com o intuito de formar e informar os trabalhadores do campo, seu criador foi o primeiro bispo da cidade: Dom Antônio Barbosa, que via no rádio a oportunidade de levar a palavra da igreja às paróquias do interior do estado de MS. Parte dessas mensagens são difundidas a fim de atrair mais fieis, sabendo que há um público que espera as palavras de bem e paz transmitidas nas redes religiosas. A função da rádio não é mais só educar. As músicas e propagandas publicitárias tomaram conta dos aparelhos radiofônicos em que até o jornalismo perdeu espaço. Grupos religiosos inundam o domínio das mídias, tendo como principal objetivo evangelizar e catequizar o público. O conhecido “Marketing Religioso” reduz a essência

Luana Afonso

Adamo Antonine, locutor e apresentador da Rádio Imaculada Conceição

da fé e dá lugar aos fins econômicos cessário os meios de comunicação para que os grupos administrativos religioa religião. A mídia é necessária para a sos procuram. divulgação do evangelho. O foco é alNo Brasil há cerca de 9 mil emiscançar todos, até as pessoas sem relisoras de rádio, entre FM, AM, gião”. educativas e comunitárias. Em Mato Mirtes diz que a prioridade da faGrosso do Sul são 140 emissoras, 80 mília deve ser o momento de união. A FMs, 34 AMs, 11 tecnologia tem de ser educativas (FMs) e algo positivo na vida 15 OTs (ondas trodas pessoas. “Devepicais), segundo o mos tomar cuidado “A mídia é Ministério das Copara não dar tanta necessária para a municações. abertura ao individudivulgação do A principal ráalismo. Aqui na rádio dio religiosa do esImaculada existe o evangelho” tado é a Imaculada momento em que Conceição com todos se reúnem em Mirtes Ramos transmissão 24 houma mesa para conras. Mirtes Ramos, versar, ter um contajornalista e responto. Temos que nos sável pela sua prolembrar de que para tudo tem-se um dução, confirma: “O rádio é importanlimite. Não devemos nos conectar te ainda mesmo que a tecnologia crescom o mundo e nos desconectar da ça cada vez mais. Abrangem locais onde família”. nem toda modernidade alcança”. Ela Adamo Antonine, jornalista e racomplementa: “Já é extremamente nedialista, percebeu que as pessoas ligam

para a rádio em busca de salvação e melhoria de seus problemas financeiros ou de saúde. “Quem está com problemas, precisa ser ouvido, precisa ouvir uma pessoa amiga. E aqui elas têm isso. Nós caminhamos em meio a multidões de pessoas solitárias. É gratificante quando fazemos pequenas coisas, que ajudam tanto as pessoas. São coisas que nosso salário não paga”, conclui Adamo. Para sobreviver aos novos tempos, o rádio se adaptou à internet, com transmissões on-line e programas interativos em que o público entra em contato com os radialistas por meio de e-mails. A Rádio Vaticano é um site com notícias, informações sobre o Papa e transmissões ao vivo. Orações, boletins e mensagens fazem parte da programação exibida pelo site disponibilizado pelo próprio Vaticano (www.pt.radiovaticana.va). gabrielasdecastro@gmail.com luanapafonso@hotmail.com


Bola de Neve

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Nem tão diferente assim! Mesmo rotulada pelo “tudo pode”, Bola de Neve é rigorosa nos seus dogmas religiosos Saulo Maciel Tatyane Cance A igreja Bola de Neve causa curiosidade por sua fama de ser diferente e “liberal”, mas nem sempre tudo o que parece, é. Cristã protestante, a denominação é forte no Sul e Sudeste do Brasil, sendo conhecida também pelos seus membros famosos, como Monique Evans, Fernanda Vasconcellos, Danielle Winitts, entre outros. Foi fundada por Rinaldo Luís de Seixas Pereira, o apóstolo Rina, após sair da igreja Renascer em 2000. Apesar de já possuir filiais em todos os estados brasileiros, em Campo Grande a igreja chegou tímida e ainda luta para ganhar adeptos. O pastor Felipe Nather, responsável pela congregação na cidade, conta que o diferencial da denominação é a aceitação. Para ele, a igreja não tem discriminação com o que é considerado “diferente”. “Esse preconceito é algo que não reina, não fala mais alto na nossa igreja. É a nossa estratégia de conquistar as pessoas e passar esse amor de Deus”, explica. Apesar da fama de liberal, a doutrina, que ganhou esse nome em menção a uma bola de neve que quanto mais rola, mais cresce, possuiu os mesmos dogmas das igrejas protestantes (não concorda com o sexo antes do casamento, tatuagens, entre outros). Desde sua criação, a denominação se destaca entre o público jovem por ser ligada ao esporte. O apóstolo Rina era surfista e usava sua prancha como

Culto ministrado em São Paulo: uma das marcas da igreja é o púlpito no formato de prancha púlpito para pregar aos seus colegas de surf, o que acabou se tornando a marca mais forte da denominação. De acordo com o pastor Felipe, que comanda a igreja na capital há pouco mais de um mês, o apóstolo a criou por sentir em seu coração a necessidade de uma igreja diferente, que aceitasse o jovem pelo que ele é. Pollyane Souza, assistente de admi-

Neve seguem o mesmo sistema da maioria das igrejas protestantes. Porém, todo o dinheiro arrecadado nas filiais é depositado direto na conta da sede em São Paulo. “Nós fazemos um depósito e vai se formando um caixa. Quando precisamos de algo, ligamos e pedimos – se o caixa der, deu; se não, espera”, afirma o pastor Felipe. A igreja, quando pequena, recebe

A Bola de Neve, em São Paulo, possui uma praça de alimentação onde as pessoas podem lanchar e acompanhar o sermão em telões nistração de 29 anos, conheceu a Bola de Neve quando estava separada do marido. Foi convidada a um culto e se surpreendeu com a maneira como eles cantavam (a louvação é com músicas no estilo Reggae, nada comum em outras denominações). “Achava estranho o jeito que as pessoas cantavam e se vestiam, mas na verdade o que não entendia era como elas podiam continuar do mesmo jeito por fora e serem totalmente transformadas por dentro”, lembra. Dinheiro na igreja O dízimo e as ofertas na Bola de

apenas uma ajuda de custo mínimo para as despesas. “Eu não tenho salário. A igreja tem uma ajuda da sede”, comenta. O pastor, que vive do seu trabalho como artista plástico, conta que pastores só são remunerados quando suas igrejas chegam ao número mínimo de 100 membros. Psicologia Para a psicóloga Luciane Damico, 33 anos, as igrejas, em geral, tendem a crescer em meio aos jovens porque a família atual está em crise. Segundo ela, o jovem procura ser aceito de ver-

dade, do jeito que é, e é nesse momento que a igreja entra, dando todo um apoio emocional do qual a maioria dos adolescentes sentem falta. “A igreja prega essa aceitação porque muitos jovens acham que não vão se encaixar pelo que são. Então as igrejas acolhem no começo, dão conforto e estrutura, e isso é tudo o que eles precisam”, afirma. Ainda segundo Luciane, apesar de pregar algumas modernidades, a igreja é conservadora e sempre será. Ela tem seus dogmas e suas crenças que jamais serão alteradas. “Não gostamos de ser regrados, mas são justamente as regras que nos transmitem a mensagem de que estamos sendo cuidados, inconscientemente. Então é nisso que eu acredito que a igreja se baseia. Ela aceita, mas com o tempo, espera a ‘transformação’ dos jovens.” “Psicologicamente, eles estão dando um limite que os pais não dão dentro de casa. Estão cativando e impondo certos valores e depois de tudo, o jovem vai começar a viver de acordo com seus dogmas”, finaliza. saulogabriel05@gmail.com tatyanecance@gmail.com


Projetil 79