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Editorial

Uma edição de desafios Esta é a segunda edição do jornal laboratório Projétil em 2010. E que edição! Apesar de ser apenas um experimento, nós desenvolvemos o jornal com a mesma pressão e cobranças exigidas no tão temido mercado de trabalho, que enfrentaremos daqui a pouco mais de um ano. Mas, ao contrário do que vemos aí fora, a cobrança não veio dos chefes, no caso, nossos professores. A cobrança veio de nós mesmos. Dividimos o jornal em editorias que julgamos pertinentes a você, leitor. Copa do Mundo e eleições, assuntos que são destaques neste ano e que não poderíamos deixar de lado. Culinária, por que não? Vamos mostrar que o que você come também é notícia. Ah, cultura, claro! Mas nesta edição você vai conhecer a cultura de algumas “tribos” diferentes. Afinal, o jornalismo que queremos colocar em prática é aquele que investiga, escuta e dá espaço a todos os lados. Agora vamos lá. Ir até as ruas em busca da notícia em dia de jogo de Copa do Mundo? Quem quer dar entrevista nesta hora? Mas nós fomos. Comparar o patrimônio e os gastos dos candidatos nas eleições de 2010? Você já fez isso? Nós fizemos. Saber o que o campo-grandense come? Isso é relevante? Vamos mostrar que sim. As músicas tocadas na noite da Capital, os piercings e tatuagens: você conhece por todos os ângulos? Se não, a oportunidade de conhecer melhor está nas próximas páginas. Os desafios para colocar esta edição em circulação não pararam nos problemas que toda instituição federal enfrenta: falta de computadores e de apoio tecnológico. Conquistamos isso após anos e anos de máquinas velhas, às quais somos muito gratos, pois colocamos em circulação todas as edições anteriores com elas. Na realidade, os problemas começaram com o desânimo de alunos. As dificuldades em arranjar tempo para entrevistas (afinal, ainda somos acadêmicos e não profissionais), a “cara feia” para alguns temas desta edição... Não se preocupe leitor, não chegamos às agressões físicas! Mas com certeza, esse desânimo de alguns foi o desafio que tivemos de vencer para publicar este jornal. Mas são, também, essas coisas que levam o Projétil para a frente. Porque, como acadêmicos, sabemos que o Jornalismo é um desafio diário; de levar as notícias de forma imparcial para as pessoas, de buscar aquilo que está escondido nas entrelinhas, seja de uma reportagem ou de uma placa na rua. Se ás vezes discutimos, brigamos ou desanimamos, isso também faz parte da magia do Jornalismo. E a expressão de agrado ou desagrado, dúvida e até mesmo irritação do leitor são os combustíveis que precisamos para colocar todos os anos o Projétil em circulação. E quando vemos a repercussão da publicação, esquecemos todas as dificuldades e nos preparamos para mais um jornal. Não vemos a hora de ver a sua cara, leitor! Por isso, aproveite bem esta nova edição!

Jornal Laboratório do Curso de Comunicação Social - Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – Produzido pelos acadêmicos do 3º ano de Jornalismo, sob orientação dos professores José Márcio Licerre (Planejamento Gráfico II), Mário Luis Fernandes (Edição) e Mario Marques Ramires (Redação e Expressão Oral em Jornalismo II). Jornalistas responsáveis: Mário Luis Fernandes (DRT-PR 2513) e Mario Marques Ramires (DRT-SP 12602) Produção: Alexander Onça, Aline Peixoto, Ana Luiza Vieira, Bruna Galina, Cecilia Koshiikene, Daiany Albuquerque, Denis Ramos, Eduardo Coutinho, Fernando da Mata, Gabriela Kina, Guilherme Teló, Jacinto Cunha, Júlio Lobo, Larissa Almeida, Lívia Catanho, Lucas Junot, Marcelo Blan, Marcio Evandro, Michele Abreu, Raphaela Potter, Rubens Urue, Samyra Galvão, Tânia Pardinho, Tawany Marry. Correspondência: Jornal Projétil – Departamento de Comunicação Jornalismo (DJO / CCHS) – Cidade Universitária s/nº - CEP 79070-900 – Campo Grande – MS. Fone (67) 3345-7600 – E-mail: projétil@nin.ufms.br. Tiragem: 5.000 exemplares. Impresso na Qualidade Empresa Jornalistica Ltda. (Distribuição Grátuita)

As matérias veiculadas não representam necessariamente a opinião da UFMS ou de seus dirigentes, nem da totalidade da turma.

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E nem precisa Michele Abreu

quatro provas (linguagens, matemática, ciências da natureza e ciências humanas) e 500 pontos na redação, e não ter freDe acordo com o Ministério da qüentado nenhuma aula no ensino méEducação, 20 milhões de brasileiros com dio. Essa medida pode provocar uma mais de 18 anos não concluíram o Ensiespécie de esvaziamento do Ensino no Médio. O que nem todos sabem é Médio e, com certeza, um aumento dos que é possível conseguir o diploma mescursinhos preparatórios. Afinal, é muito mo sem voltar para a sala de aula. mais prático ficar seis meses se capaciUma novidade na prova do Enem tando, sem ter avaliações, trabalhos, co(Exame Nacional do Ensino Médio) ordenadores e inspetores, do que passar deste ano está dando o que falar. Quem três anos ouvindo cobranças e reclamapassar no exame garante o diploma do ções. Essa será com certeza a opinião de Ensino Médio, basta apenas ter complemuitos jovens e adultos acostumados tado 18 anos de idade. Quem não curcom as facilidades determinadas pelo sou ou não concluiu o ensino médio poder público. pode sim conseguir Não é de certio diploma. Isso, é ficações que precisaclaro, se for aproPelas novas regras mos, mas de uma vado no Enem. do Enem, escola que se comJá dizia a miprometa com qualnha avó que as coinão precisa mais quer aluno, que se sas estão mudando. provar que fez o dedique a cada um E estão mesmo, deles, e que promoconseguir um diensino médio para va situações de ploma de concluingressar na aprendizagem cada são sem nunca ter universidade vez mais elaboradas ocupado uma das e integradas entre vagas do ensino si. O que o pais remédio é deprimenalmente precisa é de uma escola disposte para a educação do país. Não que o ta a se transformar e crescer para atencandidato não esteja apto ou não tenha der às necessidades das crianças e jomérito a obter diploma, mas como revens, em seu processo de desenvolviceber a certificação de uma coisa sem mento. Uma escola que estimule a parao menos ter passado por ela? ticipação, a pesquisa e o pensamento críO candidato pode estudar em casa tico. Uma escola democrática, que possa e fazer o Enem, que este ano será em existir realmente para todos. novembro. É preciso conseguir o mínimo de 400 pontos em cada uma das

A foto da capa da ediÁ„o 66 do Projetil È da jornalista Suzana Rozendo, ex aluna de nosso curso, e faz parte do projeto experimental ìDroga de Ruaî, video document·rio defendido em 2008.


Opinião

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Extremos A Copa do Mundo de 2010 foi uma Copa de extremos. Muito mais de sentimento do que de técnica. Mais de força, garra do que de tradição. As seleções dos Estados Unidos, Paraguai e Gana são exemplos de times que foram mais longe do que muita gente esperava. As apostas certas como França e Itália ficaram no início do caminho. Mas e a seleção brasileira? Esta é o melhor exemplo dos extremos. A torcida estava zangada. Desde as eliminatórias em que o Brasil se classificou como líder do grupo, empates e derrotas históricas para times que não ameaçavam tirar o lugar do Brasil no Mundial, como o 2x1 para a Bolívia, fizeram aumentar a desconfiança do torcedor. Quando foram anunciados os convocados então, arrisco-me a dizer, nenhum brasileiro concordou com a lista definida por Dunga. Em uma breve análise do grupo, temos aqueles que realmente fizeram a diferença no time titular. O goleiro Júlio César, o capitão Lúcio e o lateral direito Maicon foram alguns dos pilares de sustentação da equipe. Mas no meio de campo não estávamos em boa fase. Kaká não apresentou nem de longe o futebol que o consagrou no time italiano Milan. Felipe Melo chegou à seleção com uma enorme coleção de cartões amarelos e vermelhos e com o título de pior jogador da temporada na Juventus. No banco, quem poderia substituí-los? Júlio Batista? Há dois anos amargando a reserva na Europa, foi convocado por uma ótima atuação na Copa América de 2007. Kléberson? Atual reserva do Flamengo. Esta era a realidade da seleção na Copa. Mas mesmo com tantas críticas e reclamações, no começo o povo brasileiro torcia pelo Hexacampeonato. É a mágica do futebol. O torcedor passou a acreditar que a seleção tão criticada seria capaz de conquistar o título. Mas Dunga não conseguiu mudar como a torcida e permaneceu em um extremo que parecia ser só dele. O da raiva.

FIFA/EsporteSite

Raphaela Potter

Cansado das reclamações, cansado das cobranças, Dunga vetou a presença de torcedores e da imprensa nos treinos. Ah, a imprensa! Uma verdadeira guerra se formou entre Dunga e a maior rede brasileira de televisão, as organizações Globo. E, como em toda confusão que se arma, o povo brasileiro tinha que comprar a briga. E escolheu ficar do lado de... Dunga! Isso mesmo! O “burro” que não convocou Ganso e Neymar, o símbolo da desconfiança na conquista do Hexa, transformou-se em herói ao dizer algumas palavras de baixo calão para um jornalista da emissora. São os extremos aparecendo novamente. Mas, vamos pensar em tudo isso de maneira racional. A quem estamos querendo enganar? O grupo da seleção não era bom o suficiente para levantar a taça, não tocava a bola pra frente, não funcionava no meio de campo. Mas, se Luis Fabiano fazia três gols em um jogo Dunga estufava o peito, erguia a voz e dizia “vocês não falam que ele não faz gols? Está aí, um, dois, três pra vocês!”. Só faltava terminar com um “lero-lero”! O que deveria ser a alegria da vitória se transformou em troca de farpas, em brigas como aquelas de criança, que não vão a lugar nenhum. A realidade bateu a porta mais uma vez e culminou com a nossa eliminação

nas quartas de final, contra a Holanda. O time europeu venceu mais pelo nosso nervosismo do que pelo futebol que apresentou. E para nós, o que ficou? Uma Copa do Mundo estranha em que as pessoas passaram a torcer ou para o mauhumor de Dunga ou para a irritação da

Vamos pensar na Copa de maneira racional. A quem estamos querendo enganar? O grupo da seleção não era bom o suficiente para levantar a taça, não tocava a bola pra frente, não funcionava no meio de campo. Mas, se Luis Fabiano fazia três gols em um jogo, Dunga estufava o peito, erguia a voz e dizia “vocês não falam que ele não faz gols? Está aí, um, dois, três pra vocês!”. Só faltava terminar com um “lero-lero”! imprensa. O que ganhamos com isso? Nada. Apenas a renovação das esperanças em um novo técnico, uma nova equipe que trará não só o Hexa no Brasil em 2014, mas que colocará a torcida dos brasileiros em um só lado dos extremos: o da paixão pelo futebol. potter_rafha@hotmail.com


Eleições

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Candidatos afortunados

Div/Assessoria

Div/Assessoria

A ficha pode estar limpa, mas os gastos e o patrimônio ainda vão dar o que falar

Zeca do PT: de R$ 417 mil em 2002 a 2,3 milhıes este ano

AndrÈ Puccinelli: R$ 2,3 milhıes em 2006, a R$ 5,3 milhıes

Fernando da Mata

PT, pretende voltar ao executivo estadual após quase quatro anos do final de sua gestão. Documentou declaração de bens que totalizam R$ 2.299.723,00, sendo que em 2002 havia declarado R$ 417.096,27. Quem corre por fora, mas só no cacife eleitoral, é o ex-servidor estadual Nei Braga Ferreira da Cruz (PSOL), que declarou, segundo o TSE, uma casa no valor de R$ 1 milhão.

O processo eleitoral brasileiro vem alcançando avanços significativos nos últimos anos e, consequentemente, está ficando mais transparente. Neste ano, o que contribuiu para esta evolução foi a aprovação da Lei da Ficha Limpa (Lei Complementar n° 135/2010), que evidencia os casos de inelegibilidade. Mecanismos para assegurar a transparência no pleito já existiam, mas com a “ficha limpa” em vigor, tornaram-se mais rigorosos e acessíveis para a população. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) dispõe de um sistema em que o eleitor pode conhecer mais de perto cada candidato. É o DivulgaCand 2010, que pode ser acessado pelo link: http:// divulgacand2010.tse.jus.br/divulgacand2010/ . Nessa base de dados qual-

quer pessoa encontra informações sobre os candidatos de todos os estados, além dos presidenciáveis. Estão disponíveis para consulta, além de dados pessoais, certidões cíveis e criminais, previsão de gastos na campanha e as declaração de bens dos candidatos.

Afortunados de MS Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, todos os candidatos ao Governo do Estado e ao Senado Federal declararam bens que ultrapassam R$ 1 milhão. O atual governador do Estado e candidato à reeleição, André Puccinelli (PMDB), declarou neste ano patrimônio de R$ 5.378.828,63. Para o pleito de 2006, havia declarado R$ 2.385.699,74. O principal adversário político de Puccinelli, José Orcírio Miranda dos Santos, o Zeca do

Corrida ao Senado Quem pensa que as cifras milionárias de bens no processo eleitoral se restringem aos candidatos que pleiteiam a cadeira mais valiosa da Governadoria, está equivocado. Dos cinco políticos que vão disputar duas vagas para o Senado Federal, três possuem patrimônio que ultrapassa, com folga, a casa do milhão de reais. Destaque para Murilo Zauith

(DEM), da coligação “Amor, Trabalho e Fé”, que declarou neste ano bens que, somados, totalizam R$ 7.351.791,04. Em 2006, quando saiu para vice-governador na chapa de Puccinelli, ele tinha R$ 3.273.417,43. Os outros dois milionários locais que concorrem ao Senado são da coligação “A Força do Povo”. O deputado federal Dagoberto Nogueira Filho (PDT) tem patrimônio de R$ 2.840.511,00, sendo que quando saiu candidato para a Câmara Federal em 2006, tinha R$ 1.336.347,54. E o senador Delcídio do Amaral (PT), que tem R$ 2.563.542,00, quando concorreu ao governo do Estado em 2006, havia declarado R$ 1.285.125,99. O deputado federal Waldemir Moka (PMDB) está concorrendo ao Senado pela coligação “Amor, Trabalho


5 - Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS Portal TV Morena

(DEM) e Waldemir Moka (PMDB), da mesma coligação, gastarão até R$ 7 milhões cada. Delcídio do Amaral (PT), que não esconde seu apego ao cargo, está disposto a gastar até R$ 6 milhões. Dagoberto Nogueira Filho (PDT) declarou limite de gastos de R$ 5 milhões. E Jorge Batista da Silva (PSOL), em solidariedade ao Nei Braga, gastará também só R$ 250 mil. Blairo Maggi, por sua vez, gastará até R$ 15 milhões em sua campanha para o Senado. O gasto estimado para a campanha à Presidência da República de Dilma é de R$ 187 milhões. Serra promete gastar até R$ 180 milhões em sua jornada e o PV prevê gasto de R$ 90 milhões na campanha de Marina Silva.

Delcidio: R$ 2,5 milhıes de patrimÙnio e 6 para a campanha e Fé” e declarou ter R$ 340.997,41 em bens. Em 2006, ele tinha patrimônio de R$ 181.499,67. E o candidato do PSOL, Jorge Batista da Silva, não possui bens declarados. Comparações Há em outros estados candidatos bem mais ricos do que os nossos, como por exemplo, Blairo Maggi (PR), que concorre ao Senado por Mato Grosso, foi governador do Estado por dois mandatos e declara um patrimônio de R$ 152.470.034,00. Mas, pelo DivulgaCand 2010, André, Zeca, Delcídio, Dagoberto e Zauith são mais afortunados na vida pessoal do que os principais candidatos à Presidência da República. Dilma Rousseff (PT) declarou R$ 1,06 milhão em bens, José Serra (PSDB) informou R$ 1,42 milhão e Marina Silva (PV) humildes R$ 149 mil. Só não batem o vice de Marina, o empresário Guilher me Leal, que declarou patrimônio de R$ 1,19 bilhão. Gastos de campanha Patrimônios à parte, os candidatos também apresentaram, como de praxe, o limite de gastos para a campanha eleitoral. André Puccinelli (PMDB) informou que pretende gastar neste ano R$ 20 milhões, R$ 5 milhões a mais do que o previsto para 2006. Zeca do PT gastará até R$ 16 milhões na empreitada, investimento quase três vezes maior do que em sua reeleição para o governo do

Estado em 2002, quando declarou à Justiça Eleitoral ter gasto R$ 6.523.388,27. Nei Braga (PSOL), na humildade, gastará até R$ 250 mil. Candidatos ao Senado também gastam muito na campanha. Afinal, são duas vagas que estão em jogo. Murilo Zauith

Zelem pelo dinheiro Independente do tamanho do patrimônio, todos os candidatos devem prestar atenção, pois quem for flagrado jogando santinhos ou panfletos na rua, especialmente na véspera e no dia do pleito (3 de outubro), pode ser preso, junto com o material de propaganda e o veículo utilizado. Essa proibição foi publicada na Portaria 06/2010 pelo juiz da 35ª Zona Eleitoral, Fernando Paes de Campos.

Eleições Além de jogar dinheiro fora (ou na rua) e sujar a cidade, esse crime pode deixar também suja a ficha do candidato. É bom ter cuidado, pois o fantasma da ficha limpa está assombrando muitos candidatos e os eleitores não são tão bobos como pode às vezes parecer. Para o eleitor, é interessante ter sempre ao seu alcance esse tipo de informação sobre seus candidatos e os candidatos concorrentes. É claro que os números não esclarecem muito sobre as origens dos patrimônios. Mas podem ser interessantes para ajudar a identificar, por exemplo, quem está na politica porque tem dinheiro, quem tem dinheiro porque esta na política, quem as duas coisas ao mesmo tempo ou muito pelo contrário.

nando_damata@hotmail.com

Ter acesso a informaÁıes mais detalhadas sobre os candidatos È uma nova conquista do eleitor e da democracia brasileira.


Eleições

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Agora é que são elas

Div/Assessoria

Div/Assessoria

Mulheres querem ir pras cabeças. Os homens vão ter que engolir.

Marina Silva Aline Peixoto Lívia Catanho Depois de séculos lutando por igualdade, parece que finalmente a mulher está encontrando um grau maior de respeito na sociedade. De coadjuvante, passou ao papel de protagonista de sua própria história, mas sem deixar a feminilidade de lado. Mais do que poder ser tudo, hoje ela pode escolher se quer ser apenas mãe, profissional, simplesmente mulher, ou as três funções ao mesmo tempo. No cenário político brasileiro de 2010, desenha-se fortemente a presença feminina. Os nomes de referência serão Marina Silva (PV) e Dilma Roussef (PT), candidatas que se declaram capazes de dirigir o país e proporcionar às brasileiras um sentimento de poder ultrapassar fronteiras impostas culturalmente.

Dilma Roussef Mas que barreiras são essas? Elas verdadeiramente existem ou seria apenas uma “delicada” artimanha política? Por conta dessa dúvida fomos tirar a limpo e saímos à procura de nossos personagens. Personagens inusitados, diferentes do que nos deparamos nos matinais, como as feministas, importantes nomes políticos ou que participam ativamente nesse meio. Ao contrário, fomos buscar aqueles que dificilmente falariam sobre suas opiniões em ocasião qualquer, seja lá qual for a razão. Thiago Silveira Luz, 29 anos, recémformado em Engenharia da Computação, foi um de nossos entrevistados. Aparentemente à vontade com a nossa presença, falou com entusiasmo sobre seus projetos a longo prazo. Como todas as entrevistas, começamos falando sutilmente sobre política. Assim, chegamos ao “ponto G”, ‘você é a favor da

inserção da mulher na política?’. Com um nervosismo visivelmente à mostra, ele começou a chacoalhar as pernas, passando a mão direita por seus cabelos louros, e depois realizou o mesmo movimento com a mão esquerda. “Sou a favor. Elas estão demonstrando certa competência no cenário mundial, em assumir cargos de destaque no mercado de trabalho, como por exemplo, na advocacia, medicina, administração de empresas. Eu tenho contato com poucas mulheres no meu meio profissional, mas elas são competentes. Então não vejo problemas delas estarem tentando um espaço no cenário político”, afirma Thiago. A cadeira de fio amarela onde se encontrava, com fios soltos, estava com alguns pequenos descascados. Enquanto falava, Thiago começou a descascar mais uma parte do braço da cadeira,

denunciando um possível constrangimento. Para ele, nenhuma das duas mulheres, candidatas à presidência, estão preparadas para o cargo. “A Dilma se esconde atrás da popularidade de um homem que há oito anos está no poder e quer ‘perpetuar’ sua espécie com sua ‘trupe’ através dela. E a Marina, não conheço muito bem suas propostas. Mas não vejo nela uma pessoa com perfil e força para levar uma país pra frente”. Pelo pessimismo apresentado pelo jovem Thiago, resolvemos ir em busca de uma opinião mais concreta. Assim, em uma tarde, nas horas que antecediam um jogo do Brasil da Copa do Mundo da África do Sul, encontramos o comerciante Daniel Carvalho, 37 anos, no centro de Campo Grande. Daniel transpareceu sua opinião a partir da Lei de Cotas, a qual garante que 30% das vagas cedidas aos partidos


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Eleições

perguntarmos se arriscaria votar em uma te, Argentina e Chile, pois já possuem políticos sejam reservadas às mulheres. totalmente à vontade e não demonstrou mulheres no alto escalão da política. A Esta lei não é cumprida por todos os constrangimento algum em expor sua mulher à presidência, responde com ar corrupção não depende do gênero separtidos e, outros, simplesmente não opinião. sarcástico e tom taxativo. “Não é que eu xual e se basear neste aspecto seria um conseguem atingir o patamar de 30% de Paulo não assumiu ser machista. nunca vá votar em uma mulher. Mas teerro. Continuar a sustentar a ideologia suas vagas. Em 2006, por exemplo, as “Eu, machista??? Gosto do que é cernho minhas desconfianças. Alguns dizem patriarcal, tão propagada no Brasil, não mulheres não passaram dos 14% às vato”, conclui ele com mais uma longa que elas são mais honestas que nós hodeixa de ser outro erro”. gas eletivas no Brasil. Daniel explica, “da gargalhada. mens. Vejamos a história. Mulher do Então, questionamos Gilmar se esse mesma maneira que sou contra às cotas Se o caseiro aposentado diz gostar Garotinho, Rosane Sarney, Marta Suplicy, ano haveria a possibilidade de depositar nas Universidades Públicas, sou contra do que é “certo”, há aqueles que prefeBenedita da Silva, e a própria Dilma com seu voto e sua confiança em uma muàs cotas políticas. Cada um tem que conrem fugir às antigas regras e optar pelo as histórias dos dossiês. E ainda tem o lher para presidência. “Não digo que eu quistar seu espaço com a sua capacidanovo, ou melhor, pela igualdade. É o caso Flávio de Melo, diretor do Ibama. não votaria, mas prefiro responder dede. Se a mulher quer caso do Designer Não é ele quem está sendo investigado pois que der início à apresentação dos um lugar na polítiGilmar da Rosa, 25 pelo Ministério Público Federal (MPF), planos de governo”, afirma. ca, ela que lute por anos que ao ser por desviar dinheiro durante o manda“Eu, machista??? Em outros casos não é preciso um espaço num abordado por nós to de Marina Silva?”, finaliza ele com a Gosto do que é certo” aguardar os resultados das urnas para partido e se faça no centro da cidaquestão. saber o resultado, a exemplo do serviconhecida sobre de não se sentiu inProvavelmente, questões como esPaulo Santana dor público Fernando Oliveira, com suas capacidades. comodado, mestas deixadas por Antônio e pelos demais opiniões bem solidificadas, visto no Essas muletas polímo quando revelapersonagens da vida real, só poderemos imediatismo de suas respostas. Frases ticas só fazem a mos a nossa motidar a resposta nas urnas e nos próximos curtas, voz firme e pouca expressão. gente correr o risco de formarmos vação. “Acredito que uma presença mais anos. Contudo, não é preciso esperar “Tem coisas que homem tem mais apticandidatas deficientes que darão o peixe forte do público feminino melhoraria o mais tempo para dizer que a barreira dão pra fazer. Muitas vezes até mesmo pro povo e nunca ensinarão a pescar. Isso nível da política no Brasil. Há muitos existe ou não. pela questão física, outras emocionais. é o que mais atrapalha o desenvolvimenfatores que, do meu ponto de vista, conVaria muito”. to do povo brasileiro”. tribuem para isso: a mulher ganhou mais alirapeixoto@gmail.com Dificilmente o leque de candidatos Nestas conversas percebemos o espaço na atual gestão presidencial e nosliviabds@yahoo.com.br para ele escolher deve variar, pois ao quanto este trabalho de campo nos seria sos vizinhos já estão muito a nossa frendificultoso. Seria a tal barreira? Muitos outros homens foram abordados, mas poucos deles quiseram se revelar. Alguns simplesmente diziam: “Não, sou a favor”. E nossa pergunta em seguida era: “Então há a possibilidade de você votar ou em Marina Silva ou em Dilma Roussef ?” Eles se calavam, deixava-nos falando sozinhas, ou na melhor das hipóteses, nos enchiam de frases prontas. O mais dificultoso foi encontrarmos uma pessoa com mais idade que estivesse com disposição para dar sua opinião. O caseiro aposentado, Paulo Santana, 78 anos, é um conservador de primeira e se propôs a isso. É do tempo em que cada um tinha o seu dever previamente estabelecido, seja no lar ou fora dele, onde o homem sustentava a família e a mulher cuidava da casa e dos filhos. “A sociedade mudou muito. Perderam-se vários valores. A juventude confunde muito liberdade com libertinagem. Esta história de mulher no poder, sei não. Tenho lá minhas dúvidas, sabe... Elas já não estão trabalhando pra Simone Tebe Tatiana Azambuja Ujacow fora? Então pra que se meter na política? Nunca estão satisfeitas!”, e termina A representação feminina em nosso estado tem se intensificado cada vez mais, apesar de ainda estar longe do com uma gargalhada. ideal. Marisa Serrano (PSDB) é representante no Senado Federal e Thais Helena (PT) é vereadora. Para a maioria de nossas indagações, Nas urnas de 2010 dois nomes femininos se destacam para o cargo de vice-governadora. Simone Tebet (PMDB) o senhor Paulo nos respondia com oué um deles. Ela foi prefeita de Três Lagoas e já está confirmada como candidata a vice-governadora de André tra indagação e concluía com suas garPuccinelli (PMDB). O outro nome que terá destaque é Tatiana Azambuja Ujacow (PV), que renuncia previamente a galhadas. O som alto da televisão desua carreira de professora para uma possível candidatura como vice-governadora do candidato Zeca (PT). monstrou o quão era indiferente a nossa presença na saleta de sua casa. Ele estava Div/Assessoria

Div/Assessoria

Elas no MS


Copa do Mundo

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Fotos: Lucas Junot

Quem

N„o foi por falta de torcida que a nossa seleÁ„o deixou de fazer bonito como queria


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Copa do Mundo

sabe na próx ma Troféu, que é bom, não veio. Mas a Copa do Mundo deste ano deixou, como sempre, novos e afiados comentaristas de futebol, muita reza braba atrás do gol, pouco resultado no bolso dos vendedores de vuvuzuela, e muita gente percebendo que o país todo fica conectado mas a vida não para de todo, nem mesmo na hora do jogo.

FIFA/EsporteSite

Daiany Albuquerque Durante a Copa do Mundo o país respira futebol. É o tema das conversas nas rodas de tereré, depois das aulas e no trabalho. O jogo das massas leva milhares de espectadores para frente da televisão em um dia de partida da Seleção Brasileira. Bancos, repartições públicas, escolas, supermercados e lojas de todo o Brasil permanecem fechados durante o jogo. Nas ruas, quase não se vê carros. Essa paixão brasileira pode ser justificada por nossos cinco títulos mundiais, é a seleção que mais vezes levou a taça para casa e a única que participou de todas as Copas. No dia em que o técnico Dunga fez a convocação dos 23 homens que representariam mais de 190 milhões de pessoas, o assunto não era outro. “O Dunga não chamou o Adriano!”, dizia uma jovem no ônibus. “Você viu a convocação? Neymar e Ganso ficaram de fora”, comentava um rapaz enquan-to esperava o coletivo. A chave do Brasil não era a mais complicada. No primeiro jogo ele teria a fraca Seleção da Coréia do Norte pela frente, depois a Costa do Marfim que, apesar de não ter um bom time, contava com o joga-

QUE INVEJA!

dor do Chelsea, Drogba. Na última partida os brasileiros enfrentariam Portugal, time que poderia colocar certa dificuldade. Resumindo, a fase de grupos seria fácil para a Seleção Brasileira. Brasil x Coréia do Norte Na primeira partida as pessoas estavam confiantes. “Vai ser 3 a 0 para o Brasil. Dois do Luiz Fabiano e um do Robinho”, apostou o torcedor Marcelo Alexandre Teodoro. Pelo Escobar, um candidato a deputado estadual registrava as apostas. “Todo mundo acha que o Brasil vai ganhar, o menos otimista colocou 1 a 0”, revelou o candidato. Inicia o jogo, e o som de uma vuvuzela, que deixou muitos irritados, também. Na tela, o que se viu não agradou muito aos torcedores. Para a enfermeira Renata Martins, que saiu mais cedo do trabalho, a convocação devia ter nomes diferentes. “Ele deveria ter convocado o Adriano”, reclamou. E logo foi questionada por Marcelo. “Mas ele iria colocar no lugar de quem então?”. Sem saber o que responder, ela olhou para TV e, apontando, disse “esse daí”. Era o lateral Maicon. Indagada se ela costumava assistir a jogos, afirmou que sempre. “Sempre vejo meu ‘Mengão’”. O jogo seguia sem muitas investidas do Brasil. Em uma falta em cima de Elano, os torcedores pediram pênalti, o que o árbitro não deu, e foi agraciado com várias palavras “elogiosas” da torcida. Quase no final do primeiro tempo, a opinião dos torcedores era de que o Brasil precisava atacar. “Eles estão muito fechados, falta ir pro ataque”, desejava Greicy Kelly. Opinião também defendida por Miguel Pires. “O Brasil está bem


Copa do Mundo no jogo, mas não está atacando. Mas acho que o Dunga não deve mudar para o segundo tempo”. Afirmação que foi imediatamente desconsiderada por Marcelo. “Se eu fosse o técnico, tirava o Gilberto Silva e colocava o Nilmar, pra dar velocidade no ataque”, analisou o rapaz. No começo do segundo tempo a Seleção marcou o primeiro gol, com o lateral direito Maicon. Minutos depois em uma jogada de Robinho para Elano veio o segundo, para o delírio da torcida, que lotava a apertada Cidade da Copa. Na rodinha de funcionários de uma empresa, Andréia Rodrigues cruzava os dedos. “Não quero que o Brasil faça mais um gol, porque fiz um bolão no trabalho e coloquei 2 a 0”. Já Franciele Vasum torcia por mais dois gols, um de cada seleção. A moça contou que não costuma assistir a jogos de futebol, na verdade nem gostava. Em um lançamento longo da Coréia do Norte, quase no final da partida, veio o gol adversário para a decepção de alguns e alegria de outros. “Acho que fui a única que colocou esse placar (2 a 1). O jogo pra mim foi ótimo”, festejou Marília Gabriela.

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Brasil x Portugal Antes do jogo começar, a torcida já sabia que a seleção vinha com dois desfalques. Kaká estava fora porque cumpria suspensão pelo cartão vermelho e Elano, que recebeu entrada violenta contra os marfinenses, não se recuperou. No 1º Grupamento do Corpo de Bombeiros, os socorristas se preparavam para (tentar) assistir ao jogo. Lá, mulher também entende de futebol. “Como o Kaká não joga, o substituto deve ser o Júlio Baptista. Ele não está jogando lá essas coisa, mas é o que tem no banco”, escalou Daniela Bertão. Antes de começar o jogo, teve gente que defendeu o “jeitão” do técnico da Seleção Brasileira. “O Dunga colocou ordem na casa. Fez bem em convocar esses jogadores, eles estão jogando sério”, disse Paulo Leandro da Costa. Sobre a substituição de Robinho, ele já não teve a mesma opinião. “Ele errou, o Robinho tinha que jogar”. Quando o jogo começa, aparecem as cornetadas. “Esses Cristiano Ronaldo está cheio de querer. Não pode deixar ele joga não”, reclamou Paulo César Miranda, que continuou. “O Lúcio está se empolgando demais, vai toda hora Brasil x Costa do Marfim pro ataque”. O Brasil foi para o O jogo ficou Na partida vestiário no final do pegado, cheio de contra a Costa do faltas maldosas. Marfim o Brasil fiprimeiro tempo Em uma entrada cou um pouco mais vibrando; estava em de Felipe Melo, solto. Logo no início o atacante Luiz Rosemberg vantagem no placar e Rodrigues Hortis Fabiano marcou jogava melhor. aprovou. “Tem seu primeiro gol na hora que tem que Copa. Alguns mimostrar as travas nutos depois vinha da chuteira mesmo. Pra deixa eles o segundo da seleção e de Fabiano. Na etapa complementar o Brasil mancinhos”. Miranda mostrava-se apreensivo. marcou mais um. O jogo estava pega“Não estou gostando ali de trás”, disse e do, a Costa do Marfim dava entradas foi logo acalmado por Rosemberg. “Esse violentas e o árbitro não dava cartões, o é um jogo aberto. É assim mesmo”. que deixou Kaká irritado. Em uma enEm uma entrada de Felipe Melo em trada forte de um jogador marfinês o meia-armador foi para cima do jogaPepe, Miranda alerta: “Tira ele. Ele está nervoso, tem que tira logo senão ele vai ser dor e levou cartão amarelo. Em outro expulso”. Dessa vez Rosemberg concorlance sem bola, o camisa 10 tentou se da. “Agora ele já fez o ‘serviço’, pode sair”. proteger de uma trombada e recebeu O segundo tempo vai começar e os outro amarelo e o vermelho, porque o “técnicos de plantão” dão seu palpite. “O atleta africano simulou uma cotovela e o árbitro acreditou. Júlio Baptista, Daniel Alves ou o Gilberto Silva, qualquer um desses pode sair na Com um a mais em campo, a Cosminha opinião”, muda Air Dione Lopes. ta do Marfim arrancou um gol com Já Rosemberg faz uma análise do jogo. Drogba. Mesmo com a vitória, os bra“Eu tiraria um homem de meio de camsileiros ficaram insatisfeitos com a expo, ficaria com três atacantes. Colocaria pulsão de Kaká, que ficaria de fora da partida contra Portugal. o Grafite, ele é forte e agüenta o tranco”.

No final da partida o mesmo 0 a 0 do início e a frustração do torcedor. “Eles jogaram pelo resultado. No primeiro tempo o ataque jogou bem e a defesa médio, no segundo eles não jogaram nada”, reclamou Rosemberg. Brasil x Chile O Chile era uma das equipes que vinha encantando os espectadores por sempre buscar o gol. Isso foi o que deixou a equipe frágil nos contra-ataques. O Brasil goleou, 3 a 0, deixou a torcida feliz. Alguns diziam que agora a equipe tinha engrenado. Muitos acreditaram que o hexa viria, já que conseguiram passar tão fácil diante do Chile. Brasil x Holanda Até as oitavas de final, a Seleção Brasileira havia jogado com equipes inferiores, o que deu resultado. Mas em Copa do Mundo o time tem que mostrar estar pronto para enfrentar adversidades. Quando ficou definido as quartas de final do mundial, muitos diziam que seria um jogo difícil, porque a Holanda vinha forte, apesar de a seleção nunca ter conquistado um título mundial. O elenco holandês era composto, jogadores de qualidade como Robben, Sneijder, Van Persie, Kuyt, atletas que conseguem desequilibrar uma partida, que pode parecer perdida. Foi o que aconteceu. No primeiro tempo a Seleção Canarinho jogou melhor, criava jogadas perigosas. No melhor lance de Felipe Melo na Copa, o volante viu Robinho em boa posição e lançou para o chute de primeira do atacante que foi parar no fundo da rede holandesa. O Brasil foi para o vestiário no final do primeiro tempo vibrando, estava em vantagem no placar e jogava melhor, teria o segundo tempo inteiro para aumentar o placar. Aí era só esperar o resultado de Uruguai e Gana para saber quem pegaria nas semi. Doce ilusão. O segundo tempo veio para confirmar o que muitos jornalistas esportivos diziam: O Brasil não levou o que tinha de melhor; a seleção não tem banco para substituições; apesar de recuperado da lesão, o Kaká não vem jogando bem no Real Madrid; o Felipe Melo não sabe se controlar em campo. Tudo isso junto ajudou para que a Holanda marcasse o gol de empate antes dos 20 minutos da etapa complementar. Depois disso os brasileiros em campo sentiram o baque, e não foi pouco. Logo depois do primeiro gol, a Holanda

marcou seu segundo, em uma jogada mais do que ensaiada. A partir daí o que se viu foram brasileiros perdidos em campo. No banco não havia muita opção para o setor de criação. Elano e Júlio Baptista estavam machucados e Ramires havia recebido seu segundo cartão amarelo.

Antes mesmo do jogo terminar, ouvia-se fogos por toda a Capital, provavelmente torcedores querendo acabar com os vestígios de uma Copa que pouco lembrou os áureos tempos do futebol pentacampeão mundial. Como em toda eliminação brasileira, um culpado foi encontrado. Felipe Melo foi, para muitos, o carrasco verde-amarelo. Um dia depois alguns torcedores canarinhos ficaram mais filizes, até consolados. A Seleção Argentina foi eliminada pela Alemanha por 4 a 0. Agora é esperar 2014, e torcer para que, dessa vez, seja montado uma seleção a altura do futebol mais vitorioso no mundo. daiany_albuquerque@hotmail.com


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Copa do Mundo

joga sal grosso pelo vestiário. Ele fala que é contra mal olhado. O Aldo, goleiro do time, usa a mesma sunga desde de 2005”, revela o jogador com bom humor dizendo que muitas vezes o goleiro é alvo de piadas entres os companheiros. “Os torcedores também fazem cada coisa... No final do campeonato estadual deste ano a torcida do Comercial colocou duas velas vermelhas atrás do gol deles...” lembra Biro. Se a simpacategórico. “Qual brasileiro não gosta de tia dá certo ou não, não se sabe. Mas futebol? Só se for doente do pé ou mavale tentar! O jogo entre Naviraiense e luco da cabeça”, afirma. Na catedral Comercial terminou em 1x0 para o Nossa Senhora da Abadia - Paróquia Comercial... Santo Antônio, encontramos Sebastiana Mas superstições no futebol não são da Conceição, 64 anos. Ela diz que não uma exclusividade dos tupiniquins.. Seacompanha assiduamente os campeonagundo o inglês James Gibbs, os criadotos, mas que em se tratando de Copa res do futebol são tão supersticiosos do Mundo dá uma “forcinha” à seleção quanto os brasileiros. James conta que brasileira. E exemplifica: “Senhor Deus os britânicos têm uma sequência de afatodo Poderoso, eu sei que o senhor tem zeres antes dos jogos, praticamente um coisas importantes para cuidar mas proritual, o que, segundo ele, dá sorte ao teja nossos jogadores em campo e contime. “Comer a mesma coisa, vestir a duza os pés deles para o gol!”. mesma roupa, fazer o mesmo caminho Já as práticas supersticiosas envolaté o estádio. Na verdade os ingleses não vendo peças de roupas são quase uma são muito diferentes dos brasileiros quanunanimidade. O bioquímico Thiago Eaz do se trata de torcer pela seleção. Vocês Vital, 24 anos, é adepto dessa última. Torsó são mais barulhentos”, conclui James. cedor do Internacional, Thiago usa semPorém, nem todo brasileiro torce pre a mesma meia em todos os jogos para o Brasil. O de seu time. Ele alega estudante de Hisque quando não usa, o tória, Marcelo time perde. “No final A superstição Godoy Camda Copa do Brasil em pos, 20 anos, torestá tão presente 2009, eu não usei a ce para a Argenmeia e o Inter perdeu no imaginário tina (sim, ARpara o Corinthians”, GENTINA!), futebolístico lamenta Thiago. mesmo sendo O torcedor do do brasileiro quanto brasileiro e não Operário, Silvio o próprio futebol. tendo uma forte Eduardo, também utiligação com o liza uma peça de roupaís. Ele diz que pa como amuleto. também tem sua “Eu uso sempre a mesma camisa e não “mandinga” para dar sorte aos maiores lavo ela. Mas eu também não uso ela rivais dos brasileiros. “No primeiro jogo durante a partida, porque sempre fico da Argentina na Copa eu fiz a barba e com muito calor. Eu uso antes e depois deu sorte. Agora faço a barba em todos do jogo”, esclarece o torcedor que laos jogos!” E se a final for Brasil e Argenmenta ter perdido a tal camisa da sorte. tina? “Continuo torcendo para a Argen“Deve ser por isso que o Operário não tina. Mas eu não saio com a camisa da consegue sair da série B do CampeonaArgentina na rua. Eu sou louco mas não to Estadual”. sou burro”. Muitas manias e superstições envolVerdade ou mentira, ninguém sabe. vem jogadores e técnicos. O jogador do Mas quem vai arriscar dar “sorte” ao azar Naviraiense, Biro, alega não ter superstiquando o assunto é futebol? E quando ções e que muitas vezes chega ser represe trata da taça mais cobiçada do munendido por seus colegas por não entrar do, não importa quais métodos são utipara o jogo com o pé direito: “Eu sou lizados na hora de torcer! Não se sabe canhoto! Sempre acabo entrando com se isso tudo ajuda, mas como dizem, o pé esquerdo”, justifica do jogador. “mal não faz”. Biro narra, ainda, algumas cenas dos

Catiça, mandinga e oração

Fotos: Lucas Junot

O desespero e a paixão podem levar às mais estranhas formas de torcer

Cecilia  Koshiikene Lucas  Junot “Se macumba ganhasse jogo, o Campeonato Baiano terminava empatado”. A célebre e bem humorada frase do já falecido Neném Prancha, torcedor e roupeiro do Botafogo, entrou para história, mas não convence a todos. Em um país em que um menino ao nascer recebe um nome, uma religião e um time de futebol, a superstição é tratada, ao menos pela maioria dos torcedores, como uma coisa seríssima. “Eu estava assistindo o jogo do Corinthians contra o Bahia no Pacaembu. Estava sentado na arquibancada no meio da torcida corintiana. O Corinthains estava no ataque e, antes que o atacante chutasse a bola, eu gritei: GOL!!! A bola

foi para fora. Todo mundo da torcida começou a gritar comigo: “Dá azar!!!”. De novo o Corinthians no ataque, e de novo eu: GOL!!!. Era instintivo. Quase apanhei aquele dia. Eu não sabia que gritar gol antes da bola entrar dava azar!”, narra o estudante Lucas Marinho. Para quem é supersticioso, realmente é melhor não gritar GOL antes que ele aconteça. O jogo entre Corinthians e Bahia terminou em 0 a 1 para o Bahia. Este breve relato demonstra que a superstição está tão presente no imaginário futebolístico do brasileiro quanto o próprio futebol. Em se tratando de Copa do Mundo então, nem se fala! Durante o evento que mobiliza a nação brasileira em frente à televisão, surgem as mais variadas orações, mandingas, simpatias ou, simplesmente, manias que todos acreditam dar sorte para seu time. A palavra “superstição”, derivada do latim, superstitio, onis, designa “crença contrária à fé religiosa e à própria razão”. Etnologicamente, a palavra deriva de supersies, “sobrevivente”, “o que está sobre algo”. Inicialmente significava “vidente”, “profeta” já que o termo era empregado como referência a uma tentativa de encontrar uma explicação fora dos domínios da razão, buscando numa instância superior o sentido e a significação para um fato aparentemente inexplicável. Uma pesquisa realizada pela Revista Jangada Brasil entrevistou 150 pessoas de diversas regiões do País e listou algumas das superstições dos brasileiros. Na lista, que enumerou 84 simpatias, há superstições inusitadas como “o técnico deve queimar álcool nas portas do vestiário” e “ascender uma vela junto a uma garrafa de aguardente em um canto do gramado”. Há, ainda, uma lista de 15 objetos que “dão sorte” como fotos de jogadores, pé de coelho, além, é claro, da medalhinha do santo do time. E para saber quem irá ganhar o jogo de amanhã? Há quem acredite que se você soltar duas pipas, cada uma com a cor de seu respectivo time, a que subir mais alto ganhará a partida. Auxiliar de pastor da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), Anderson é

bastidores dos jogos do Naviraiense. “O diretor do Naviraiense, Roberto Botelho,

cecilia_koshiikene@hotmail.com junot_morrisson@hotmail.com


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A Copa no álbum

No o  da


o EscoBar, perto da UFMS, principal ponto de torcida a galera universit·ria

Fotos: Lucas Junot

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Copa do Mundo

A Copa no bolso Para muitas pessoas a Copa prometia outras alegrias além de gols. Larissa Ferreira Almeida Os setores que mais lucram em época de Copa do Mundo são aqueles relacionados à torcida, como alimentação, bebidas e venda de televisores e artigos para a copa, como camisetas, bandeiras e as famosas vuvuzelas. Algumas lojas de conveniências tiveram aumento de 50% no faturamento nos dias dos jogos e outras de artigos para a torcida repuseram três vezes seus estoques. Entretanto, outros setores como o comércio varejista, tiveram prejuízo por conta da paralisação das atividades. Dos pequenos aos grandes Tatiane da Silva, que vende camisetas, bandeiras e acessórios para o torcedor, investiu R$ 15 mil em mercadorias. Ela estendeu seus produtos em um “varal” na Avenida Três Barras. Disse que teve o lucro esperado, mas suas vendas caíram depois do terceiro jogo do Brasil. No dia das oitavas, ela havia vendido apenas 20 camisetas, que é o artigo mais procurado, ao valor médio de R$ 20 cada. O ambulante Benedito Amaro, que trabalha em frente à Universidade Federal de Mato Grosso do Sul desde a Copa de 1994, disse que o movimento “tá diminuindo, quase parando. Nos primeiros dois jogos foi bom, mas depois disso as vendas foram horríveis”. Amaro, que preferiu não informar quanto investiu em mercadorias, conta que vendeu 300 camisetas, a um preço médio de R$ 25 na estréia do Brasil. No jogo das oitavas, foi apenas uma. Mas permaneceu otimista: “É sempre assim, à medida que o Brasil avança na competição as pessoas voltam a comprar”. Além dos informais, os comerciantes também investiram em artigos para a torcida e na decoração de suas lojas. A gerente do Paulistão Atacado e Varejo, Eliane Alves, que já está na sua terceira Copa à frente da loja, disse que antes de começar os jogos já havia vendido todo o estoque.Já os artigos para festa junina encalharam: “todo mundo só quis com-

prar produtos relacionados a Copa, então, no balanço geral, não tivemos nem lucro nem prejuízo”. Em outra loja atacadista, a Brinquedão, o vendedor Adenilson Rodrigues contou que vendeu muitos produtos relacionados à Copa, mas como o terceiro jogo e as oitavas caíram no final do mês, as vendas diminuíram 80% em relação ao primeiro jogo do Brasil. Mesmo assim, a loja acaba de fazer a terceira reposição do estoque para a Copa. A festa do torcedor Empolgado com os jogos, o torcedor costuma gastar muito ao fazer festa quando a seleção brasileira entra em campo. Vilmar Chaves, proprietário das conveniências ZAP, conta que suas lojas permaneceram abertas durante todos os jogos e que o aumento nas vendas foi de 50% se comparado aos dias normais: “o que nós mais vendemos é cerveja pro pessoal comemorar”. Além da cerveja, o churrasco nos dias dos jogos também têm sido a comida preferida dos torcedores. A vendedora Lívia Ribeiro, que trabalha na Bira Churrasqueiras, contabiliza um aumento de 5% nas vendas de churrasqueiras, espetos e carvão. “Os clientes preferiram comprar churrasqueiras mais baratas para os jogos, de R$ 70 a R$ 100, e se animaram com o saco de carvão grátis que estamos dando por causa da Copa”, afirma a vendedora. Criatividade que traz lucros Alguns segmentos inusitados do comércio de Campo Grande, como salões de beleza e pet shops também aproveitaram a Copa diversificar os produtos e serviços oferecidos e aumentar suas vendas. Muitas clientes procuraram os salões de beleza para se enfeitar para os jogos, pintando suas unhas e cabelos com as cores da bandeira do Brasil. A Clínica Veterinária Clinvet apostou na criatividade para criar a promoção Entre no clima da Copa, pinte seu cão, que pinta os pêlos dos cachorros de verde e amarelo. A atendente Shaila Persides conta que muitas pessoas procuraram o ser-

viço e que o número de animais pintados só não foi maior por que o animal precisa ter pêlo longo e branco. A novidade custa de R$ 25 a R$ 50, dependendo do tamanho do animal e do lugar onde será realizada a pintura. Queda no faturamento Durante o Mundial, os consumidores preferem gastar seu dinheiro com festas e artigos para a Copa ao invés de comprar sapatos e roupas, por exemplo. Então, apesar do aumento das vendas nos bares, restaurantes, das mercadorias para Copa e alimentação, o comércio varejista no centro de Campo Grande registrou queda de 50% no faturamento, na terçafeira da estréia do Brasil na Copa, se comparado com as terças-feiras normais. A queda das vendas no shopping Campo Grande no primeiro jogo do Brasil foi ainda maior, chegou a 80%. Por causa dessa queda, no segundo jogo da seleção, que caiu num domingo, mais de 90% das lojas do Shopping não abriram depois do jogo. O empresário Nelson Pasa, proprietário da Extinpasa, apesar de torcer muito pela seleção, lamenta o prejuízo que tem por conta da paralisação das atividades. “Temos que fechar as portas no período dos jogos da seleção e com isso temos uma queda de 30% nas vendas. A mão de obra dos funcionários a gente até repõe depois, trabalhando um pouco mais nos dias em que a seleção não joga, mas com vendas não tem mais jeito”. O empresário também mandou fazer camisetas do Brasil com o símbolo da empresa para os funcionários, que custaram cerca de R$ 15 cada, mais um gasto em época de Copa. De acordo com especialistas do setor, o que se deixa de produzir no País para assistir aos jogos não é compensado pelo aumento da demanda em setores específicos.

lfalmeida21@yahoo.com.br


Copa do Mundo

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Nem tudo é Copa Fotos: Raphaela Potter

Apesar do transe nacional, ainda há seres que se movem em suas rotinas mesmo na hora do jogo. Raphaela Potter Samyra Galvão A máxima popular impera: dia de jogo do Brasil = feriado nacional. Mas na prática, nem todos os brasileiros são privilegiados por essa equação. Seja para garantir o seu pão de cada dia ou para alimentar a fome alheia, o que nós, Samyra e Raphaela buscamos para fazer esta matéria, foi um relato daquela parcela de brasileiros que cumpriram uma jornada dupla neste 25 de junho no jogo Brasil x Portugal - a de torcedores e a de trabalhadores. Para atender ao nosso propósito, olhares atentos a todos os detalhes. Qualquer elemento humano foi sagrado para a construção deste texto, mesmo aqueles que estão tão inseridos em nossas vidas que, infelizmente, às vezes não reconhecemos. Momento pré-jogo Eram 9 horas. Na região do Parque dos Poderes, norte de Campo Grande, já não se ouvia barulho de carros ou gente nas ruas. No ponto de ônibus apenas eu, Raphaela, esperava para apanhar o transporte público. Enquanto isso, na Avenida Hiroshima, alguns carros desciam apressados com bandeirinhas tremulando ao vento. Às 10 horas, Brasil e Portugal se enfrentariam no último jogo da fase de grupos da Copa do Mundo. Vinte minutos de espera e o coletivo chega. O condutor dirigia devagar, sem pressa alguma de levar os seis passageiros ao seu destino. Quando subi, perguntei ao motorista se ele veria o jogo. Apenas sorriu e abanou a cabeça. “Tenho que trabalhar”, disse ironicamente. Retribuí o sorriso e passei a catraca. Do outro lado, os poucos passageiros estavam, em sua maioria, de verde e amarelo. No caminho, as ruas iam esvaziando. Apenas carros cruzavam as vias, já sem pedestres. Meia hora de viagem e desço na 26 de Agosto. Enquanto espero minha parceira Samyra, notei que os pequenos comércios de salgados e refrigerantes recebiam tímidos torcedores, que se ajeitavam em algum canto do lo-

Na rua vazia, taxista assiste ao jogo do Brasil enquanto espera uma improv·vel corrida

O dono da banca de revistas do centro n„o se importa com o jogo da SeleÁ„o. Nem com a falta de clientes. cal para assistir a partida na televisão comum, sem tela de LCD nem 42 polegadas. Como de costume, Samyra estava atrasada. Olhei para o relógio digital do celular. Um minuto para às 10h. Juntei-me aos tímidos torcedores e comecei a assistir ao jogo esquecendo-me da espera. Do outro lado da cidade Nesse meio tempo, eu ainda estava na Avenida Bandeirantes, a aproximada-

mente três quilômetros do local em que eu e Raphaela deveríamos nos encontrar. Não sabia ainda como ela reagiria ao meu atraso, mas temia que pudesse estar tão zangada quanto meu pai. O trânsito estava caótico, por falta de cornetas e vuvuzelas, as buzinas imperavam e o Sr. Galvão insistia nas cobranças: “Pô, não dá pra ver o hino do seu celular?” Não, pai, não dá. E a minha defesa estava armada: “eu bem que avisei, meu celular não é uma Brastemp”. Cartão vermelho dessa vez, paizão, o Brasil preci-

sou entrar em campo para você reconhecer que já passou da hora de substituí-lo. Além disso, não vejo razões para todo esse desespero.Você se esqueceu do que me disse antes de sair de casa? Vamos rever o lance. Eufórica, eu não achava nada na bagunça que chamo de guarda roupa. Por falta de uma camiseta limpa inspirada no Brasil, parto para a reserva. Para salvar o jogo, convoco Lúcia, a capitã da arrumação.. “Ô, Lúcia, você viu a minha outra pólo do Brasil?”


15 - Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS Como sempre lá vem ela, na agilidade, com a camisa já na mão. Pronta para a partida, me apresento na sala. Hora de aquecer as orelhas, ou você pensa que algum homem ia deixar barato sair de casa na hora do jogo? E ainda por cima diante de mais uma loucura de sua filha: começar seu trabalho de campo em casa, atrapalhando a empregada. Mas não tinha como sair dali sem essa tentativa: “Lúcia, por que você não vai assistir ao jogo?” E ela mais uma vez arremata: “Ih, Samyra, eu não posso ter esse capricho, tenho que trabalhar.”Eu pensei até em responder, mas seo José Galvão furou o meu passe. “Você acha que todo mundo fica desesperada que nem você para ver o jogo? A vida continua.” E continuou. O relógio marcava 10h10 quando vi Raphaela em seu traje verde, destoando na torcida de um barzinho. O jogo - Samyra, já está 1 a 0 para o Brasil. - Ah, não acredito, Rapha! - Claro que não Samyra, é só pra dizer que você está atrasada. Sem mais demora, o Corsa em que estávamos arrancou e tocou para o Paulão, tradicional bar e restaurante do centro da capital, na rua Cândido Mariano. Apesar do jogo caminhar para os vinte minutos do primeiro tempo, não havia muita gente no bar. Apenas três mesas estavam ocupadas. Mas o pouco movimento não fez com que a cozinha parasse por um instante. Fomos até lá e, em volta de panelas e fogões estavam cinco funcionários. A televisão que exibia o jogo para eles não era grande como à qual os clientes estavam assistindo. Era pequenininha, modesta, 14 polegadas. Mas para Alexandra, apenas o barulho da TV era o suficiente para desfrutar dois de seus prazeres; cozinhar e ver o Brasil em campo. Questionada se trabalhar durante os jogos da seleção é um problema, Alexandra surpreende. “Espero é que aumente o movimento!”. Fora da cozinha, um senhor de 79 anos chamou nossa atenção. Mexia algo que se parecia com uma massa e retirava de uma grande caixa alguns tomates. “O senhor não vai assistir ao jogo?”, perguntamos. “Claro, já estou assistindo!”, disse alegre. O funcionário trabalha há mais de quarenta anos no restaurante e essa não é a primeira Copa do Mundo que ele acompanha durante o expediente. “Eu gosto, o serviço não me impede de ver o jogo”. Que grande ironia; as perguntas que fazíamos a todo

momento atrapalhavam mais que o trabalho da cozinha. Em seguida fomos em busca de mais trabalhadores. Na esquina da rua 14 de Julho, uma cena curiosa; uma banca de revistas aberta e, aparentemente vazia. Sentado atrás do caixa, Ramon Medina, o proprietário, esperava que algum cliente aparecesse. Mas para sua desconfiança, nós surgimos. E ouvindo o som que trazia as notícias do jogo, perguntamos porque ele não fechou a banca. “Estou aqui há 25 anos e nunca fechei meu estabelecimento por causa da Copa”. “Mas alguém vem aqui na hora do jogo?”, perguntamos. Pasmem, Ramon disse que tem aqueles que “gastam um dinheirinho”. Andando mais um pouco, do outro lado da rua, vimos um ponto de táxi. Havia apenas um carro parado e dois motoristas. Estavam olhando fixamente para o pequeno monitor suspenso no ponto, um em pé e outro sentado no banco do passageiro com a porta do veículo aberta. Este era Jorge Luis Santos, que se disse apaixonado por futebol. Reparamos que é aquela paixão típica de Copa do Mundo. “Só torço para a Seleção Brasileira. Quando não tem Copa, o meu time é aquele que está ganhando”, enfatizou. Perguntamos se haviam corridas no meio do jogo. “Sempre tem um ou outro passageiro. Ás vezes é trote, acontece”, disse com tranqüilidade diferentemente do taxista ao seu lado. Desde que chegamos, ele não se moveu. Estava em pé, olhando fixamente para a TV. Ape-

Copa do Mundo

O ajudante de cozinha, ligado no jogo, n„o para de trabalhar. sar do jogo “morno” contra os portugueses, o motorista esbravejava sozinho com os erros dos jogadores. Com certeza, se houvesse um chamado de táxi naquele momento, seu Jorge Luís é quem atenderia. Nos despedimos e a partida continuava 0x0. Sabíamos disso porque, apesar de estarmos trabalhando, olhávamos para qualquer televisão ligada naquela hora, para saber o resultado. Uma dessas televisões era a de um salão de beleza do centro. Os funcionários estavam, aparentemente, todos assistindo ao jogo. Mas, escondida no fundo, estava a cabeleireira Vera Lúcia. Com secador e escova na mão, estava fixada no seu trabalho, o de embelezar as suas clientes não importa a situação ou hora do dia. “Eu gosto de Copa do Mundo, gosto de

Suni, da lotÈrica, arriscou 2 a 0 pro Brasil. Deu 0 a 0.

futebol e sou palmeirense! Mas não vou me negar a atender na hora do jogo. Para as mulheres, é justamente este o seu horário de folga”, explicou . Horário de folga para as clientes do salão, hora de trabalhar para nós. Voltamos às ruas e a sensação de vazio aumentava conforme percorríamos os quarteirões. Pensávamos em parar e acompanhar o resto do jogo em qualquer canto que encontrássemos. Numa porta estreita, uma tv havia paralisado cinco pessoas. Ou melhor, seis... Percebemos indícios de um rosto feminino atrás do balcão. Uma lotérica insistia em continuar aberta na hora do sufoco brasileiro. Pode-se dizer que as funcionárias que se escoravam no balcão de apostas esperavam clientes, mas a única que passava essa impressão era Suni Ferreira. A atendente nos confirmou que “não pára na hora do jogo.” Timidamente, ainda explicou “que tem gente que vem depositar”. Acostumada a fazer e receber apostas diariamente, nossa entrevistada arriscou um palpite, “2X1 para o Brasil.” Mas a previsão não se concretizou. Nem, um, nem dois, nem três, nada de gols. O jogo estava tão parado quanto as ruas pelas quais passamos. Mesmo que o Brasil já estivesse classificado, toda a torcida esperava não só que a rede balançasse, mas que a Seleção jogasse um futebol bonito contra Portugal. Não jogou. Nem naquele dia, nem depois, o que explica a eliminação na mesma fase da Copa de 2006. O carrasco desta vez foi a Holanda. E como torcedores expressaram na internet a Copa para o Brasil terminou assim: “Um Dunga, onze sonecas e 190 milhões de zangados”. potter_rafha@hotmail.com samyrayg@hotmail.com


Culinária de MS

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Nas origens dos

Sabores Diferentes culturas em Mato Grosso do Sul formam um mosaico de delicíosos sabores.

Conhecer lugares é aventurar-se pelos costumes e pela cultura do outro. E um dos primeiros contatos do visitante em uma terra diferente acontece ao sentir o gosto e o sabor dos alimentos típicos daquela região. Campo Grande está sobre a divisão de águas das bacias dos rios Paraná e Paraguai, num ponto estratégico onde se cruzam estradas que guardam vestígios de todos que por aqui passaram. E Mato Grosso do Sul faz fronteira com a Bolívia e o Paraguai, países de onde empresta aromas e misturas. Mesmo o Japão, que está bem longe, através de seus descendentes e sua culinária, também se faz presente na região, da mesma forma que a cozinha árabe. Daí a diversidade de tantas delícias presentes nos pratos mais gostosos, diversificados e apreciados nas mesas e varandas dos sul-mato-grossenses. As sopas paraguaias, o arroz carreteiro, o caldo de piranha, a chipa, a linguiça de Maracajú, o tradicional churrasco acompanhado de mandioca, apresentam cores e aromas in-

confundíveis. De sobremesa, uma mesa repleta de frutas em calda do cerrado e licores de frutas curtidas na cachaça artesanal. Churrasco infalível Como muitos dos que vinham para essas terras eram tropeiros que lidavam com gado de corte, um dos alimentos mais apreciados pelos sul-matogrossenses é hoje a carne assada acompanhada com mandioca. Os imigrantes do Sul do Brasil trouxeram esse hábito para Campo Grande e, de lá para cá, a influência nunca saiu de moda nos restaurantes. Servido em qualquer horário e dia da semana, o churrasco é um dos vícios preferidos da população, sempre servido com mandioca, arroz branco e vinagrete. Para muitos campo-grandenses, o molho de shoyo sobre a mandioca amarelinha e fumegante não pode faltar. Clóvis Canova, catarinense de origem, mora em Campo Grande há 26 anos e faz comparações entre o churrasco consumido aqui e em Santa Catarina. “ O churrasco daqui de Campo Grande é como o do sul; a única

Fotos Tânia Pardinho

Tânia Pardinho

O sob· È atraÁ„o na  Feira Central em Campo Grande diferença é o sal, porque aqui não se usa sal na mandioca e lá usamos o sal. Tirando esse detalhe, é a mesma coisa, é muito saboroso”. Para outros, no entanto, é falta de costume comer o churrasco com a tradicional mandioca. O paulista Mario Batista está há quatro meses na capital e comenta que não conhecia este costu-

me, pois, em São Paulo, “o churrasco é servido com pão”. Mas afirma que apreciou a dobradinha da carne assada com mandioca. O arroz carreteiro também é preferência dos sul-mato-grossenses. O tempero e as cores se misturam com a carne do churrasco, arroz e temperos diversos. O preparo é simples, cada um


Culinária de MS

17 - Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS do Sobá, na Feira Central da cidade. O sabor do sobá ganhou status de lei, por meio do Decreto Municipal nº9685, de 18 de julho de 2006, para o registro dos bens culturais de natureza imaterial. Esse registro no Patrimônio Histórico e Cultural é importante também para os representantes da imigração japonesa. Kleverson Yohimura e sua família vão à Feira Central todos os sábados para comer sobá: “É uma maravilha poder usufruir outras culturas no nosso país. É como se estivéssemos no Japão, além de ser nutritivo é delicioso”. O sobá campo-grandense tem um diferencial. Monalisa Costa, especialista em cozinha, explica a diferença: “O preparo é simples e o diferencial de seu aroma é o amor com que ele é produzido. Em uma panela, cozinha-se o osso de porco com água, coa-se o caldo que é temperado com shoyo, saquê, gengibre e sal. Então são colocados o macarrão e a carne, da escolha do cliente – pode ser de porco, gado ou frango; e não pode faltar a omelete picada e a cebolinha”. tanialobeca@hotmail.com

Aportaciones paraguayas A cultura paraguaia sempre esteve muito unida à capital morena. Uma porcentagem considerável da população dos bairros é composta de paraguaios e seus descendentes. Por isso, outra iguaria também muito presente na mesa dos sul-matogrossenses é a sopa paraguaia. A paraguaia Sandra Morinigo, moradora em Campo Grande há 20 anos, fala que é muito bom estar no Brasil e poder saborear um prato que recorda suas origens. “É o mesmo sabor, o mesmo tempero. Eu não estou no Paraguai, mas é como se eu estivesse lá”. A sopa paraguaia não é líquida, como pode parecer aos que não a conhecem. Sua consistência é como um suflê de milho e cebola. É uma espécie de torta muito saborosa. A chipa, também de origem paraguaia, tem formato em U, diferente do pão de queijo. E o que falar do tradicional tereré? Costume local que, segundo os próprios moradores, reforça a amizade de quem atravessa a fronteira, invadiu gradativamente a rotina da cidade. Eurico Costa explica que o tereré é a melhor saída para se refrescar nos dias de calor. “É uma bebida gelada, com gosto diferente. Além disso, une pessoas porque é no momento da rodinha que estamos mais próximos dos amigos”, afirma.

O cheiro e a memória Gabriela  Kina Reconhecer o cheiro de chuva na terra seca, de manga apanhada no pé, de comida feita à base de pequi (árvore nativa do cerrado), das árvores centenárias nos canteiros centrais da cidade que florescem em certas épocas do ano, das conservas de pimenta que são usadas como temperos de diversos pratos de nossa culinária são exemplos que revelam a existência da memória episódica, ou seja, a memória de eventos autobiográficos que podem ser lembrados conscientemente. Entretanto, a capacidade de armazenar e codificar tais sensações acontece de forma inconsciente. Por isso, trazemos em nós uma carga de memória identitária de acordo com situações rotineiras. A psicóloga Estefania Sarubi revela que as lembranças olfativas são adquiridas por meio de vivências passadas, seja um trauma ou algo que tenha proporcionado a sensação de bem estar. “Se você sentiu aquele aroma quando era criança e depois de anos, reconhece o mesmo em outro lugar ou exatamente onde morou na infância, é um indício de que isso faz parte de sua memória identitária sem necessidade de pensar em armazenar tal informação ou descartar. Isso acontece orgânica e inconscientemente”, afirma Sarubi. Para a estudante de Direito, Carmen Vilassanti, o aroma que remete à sua infância na Capital é da manga vendida pelas indígenas no Mercado Municipal. “O cheiro da manga, do pequi, da cajamanga são marcantes, pois, acredito que o leite permanece no fruto depois de apanhado direto do pé. E isso faz com que a fruta exale de forma única o aroma acentuado desses e de outros frutos”, completa. A artista plástica Mariana Gomes, nascida em Araraquara, interior de São Paulo, declara seu apreço pela comida japonesa. “Campo Grande tem o melhor sobá do mundo. É impressionante. Fui atraída pelo aroma dos temperos usados nessa comida. Enquanto morei no interior de São Paulo, nunca provei nada tão bom e caracterizante de algum lugar. O cheiro, o sabor e a forma como ele é feito, é só aqui mesmo”, define a artista. J.M. Licerre

faz de um jeito diferente, mas acaba resultando no mesmo sabor e na mesma deliciosa tradição. A lingüiça de Maracaju está ligada às famílias que vieram do triângulo mineiro. A tradição da produção da lingüiça caseira, trazida pelos migrantes, que era feita com carne suína e foi substituída pela carne bovina, é também uma das principais referências da gastronomia local. Roberto Munhoz destaca essa iguaria como um dos alimentos mais peculiares da capital. “Gosto de vários pratos, como os peixes e as carnes suculentas, mas a linguiça de Maracajú tem um sabor diferente. Foi paixão à primeira garfada”, admite. Tesouro oriental Outro prato dos mais apreciados em Campo Grande é o sobá. De origem japonesa, chegou com os imigrantes de Okinawa, uma ilha ao sul do Japão, a partir de 1908. Campo Grande é a terceira cidade do Brasil com maior número de japoneses. Alguns costumes orientais estão definitivamente arraigados na cultura local. O sobá é consumido em feiras, restaurantes e sobarias. Inclusive, é festejado anualmente no Festival

potter_rafha@hotmail.com


Vegetarianismo

Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS - 18

A opção verde na terra dos bois

Rubens Urue

Tawany Marry

Em um país que produz cerca de 14 milhões de toneladas de carne por ano, há pessoas que optam por uma vida mais saudável.

Legumes e verduras se transformam em pratos saborosos, como yakimeshi e yakisoba vegetarianos

Tawany Marry e Rubens Urue O Brasil produz cerca de 14 milhões de toneladas de carne bovina, de frango e suína por ano. Segundo Pesquisa Industrial Anual (PIA) 2008, Mato Grosso do Sul é responsável pela produção de 397.137 toneladas de carne bovina e de 278.637 toneladas de carne de aves, representando, respectivamente, 12,3% e 4,9 % da produção nacional. O Estado ficou em 2º e 6º lugar na produção desses segmentos. Apesar de forte produção, tem crescido o número de vegetarianos no Estado. E para atender essa demanda há alguns locais especializados na dieta, como da taiwanesa Emy Chung, 48 anos. A comerciante, que mora em Campo Grande desde 2001, é dona do único restaurante totalmente vegetariano da cidade. Para ela, a influência pecuária do Estado acaba minando a abertura de novos estabelecimentos do gênero. “É difícil ven-

soas que optaram por não comer carne. der comida vegetariana em terra de boi, Estima-se que 28% da população brasifalta público”, lamenta Emy Chung. leira seja vegetariana ou simpatizante da Vegetariana desde que nasceu, abriu dieta, segundo a presidente da Sociedade o restaurante com uma sócia, pois a cidaVegetariana Brasileira (SVB), Marly de não oferecia esse tipo de culinária. Além Winckler. disso, queria criar um grupo de seguidores Em Campo Grande não há dados da dieta vegetariana. A principal especialiconcretos de quantas pessoas são adepdade do local são as comidas ovo-lactotas, mas há diversos vegetariano, que não tipos de seguidores levam nenhum tipo como os que sede carne, mas po“Um vegetariano guem a dieta por dem ter ovo e leite desnutrido saúde, questões étiem sua composição. cas, ecológicas, ecoHá também alimené a pior propaganda nômicas, religiosas tos para os veganos, para a causa.” ou filosóficas. O espessoas que não contudante de Direito e somem produtos de Psicologia, Juberto origem animal como Juberto Massud Massud, 24 anos, há ovo, leite, couro, lã, Vegan há 7 anos sete segue a dieta mel, roupas, cosmévegana. Parar de ticos e remédios tescomer carne cometados em animais. çou por uma curiosidade para ver como O termo “vegetariano” começou a o corpo reagiria. Mesmo sem consumir ser propagado em 1847 pela Vegetarian leites e ovos Massud consegue suprir as Society. Desde os mais remotos tempos, carências, que a falta de proteína animal estudiosos o utilizam para designar pes-

causa no corpo humano, equilibrando a dieta com alimentos que assegurem as necessidades básicas. Além disso, ele toma injeção de Rubranova para substituir a falta da vitamina B12, presente em alimentos de origem animal como carne, leite e ovos. “Um vegetariano desnutrido é a pior propaganda para a causa”, diz o estudante. “Qualquer que seja a dieta que a pessoa decide seguir, ela deve ser equilibrada. É possível ter uma alimentação apropriada em todos os nutrientes sendo vegetariano”, afirma a nutricionista Jaira Soares, 50 anos. Segundo a profissional, os interessados em seguir essa dieta devem incluir em sua alimentação vegetais como verduras, legumes, brotos, cereais, leguminosas, castanhas, cogumelos e algas. A nutricionista diz que não há problemas nutricionais para pessoas que desejem se tornar vegetarianos imediatamente. Por uma vida mais saudável, o exvegetariano, Lucas de Camargo, 20 anos, diz ter vontade de parar de comer carne, pois assim poderia desfrutar os pontos


Opinião

19 - Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS positivos da dieta vegetariana. O vegetarianismo me ajudou muito fisicamente”, diz Camargo. Ele começou a seguir a dieta ovo-lacto-vegetariano aos 17 anos, porém voltou a comer carne por falta de apoio e compreensão dos familiares. Enquanto uns querem retirar a carne da dieta, outros como a esteticista Priscila de Arruda, 26 anos, não se imaginam sem ela. “Jamais abriria mão de ser carnívora!”. Marcele Aroca, 23 anos, também pensava a mesma coisa, mas há dois meses deixou de consumir carne vermelha e pretenda abandonar a branca, como peixe e frango, em breve. “Quando alguém falava sobre o assunto, eu não conseguia me imaginar sem ser carnívora. Porque quando se fala em vegetariano, imaginase alguém que só consome salada e fruta, mas há várias alternativas”, ensina a gerente de comunicação. Em Campo Grande, há um grupo para vegetarianos ou simpatizantes, Soci-

edade Vegetariana Brasileira de Campo Grande (SVB-CG) coordenada pelo estudante Arthur Martinelli, 19 anos. O grupo tenta divulgar a dieta por meio de manifestações e reuniões, aberta a todos os interessados. Sem ajuda do governo, a única contribuição que a SVB tem são dos associados, que contribuem com uma taxa anual de filiação no valor de R$ 54, ou de R$ 34 para jovens até os 16 anos e pessoas de baixa renda. A taxa vitalícia, R$ 1.070, é utilizada na elaboração de materiais sobre alimentação vegetariana e na realização de eventos da SVB, como o congresso. Interessados em esclarecimentos sobre a dieta vegetariana podem entrar em contato com a Sociedade Vegetariana Brasileira de Campo Grande pelo e-mail grupo-campogrande@svb.org.br ou entrar no site da SVB nacional: www.svb.org.br.

tawanyjor@gmail.com

Dó dos bichos Não apenas pela saúde, mas também pelo direito de quem não pode se defender Atualmente muito jovens deixam de comer carne por um motivo especial, o respeito pelos animais. É o caso do estudante e coordenador da Sociedade Vegetariana Brasileira de Campo Grande (SVB-CG), Arthur Martinelli, 19 anos, que segue a dieta há três anos. Na visão dele, os jovens têm procurado bastante a dieta vegetariana. A maior parte é ovo-lacto-vegetariano e resolveu aderir ao vegetarianismo em respeito aos animais. Em prol disso, a SVB-CG organiza manifestações ativistas, como, por exemplo, as manifestações “Circos sem animais” feitas na cidade em 2006 e 2007. Os manifestantes recolheram assinaturas de pessoas que eram contra animais em circo, o que pode ter culminado na aprovação do projeto de lei complementar nº 164/07, que proíbe a expedição de licenças e alvarás para espetáculos circenses que utilizem animais selvagens, domésticos, nativos ou exóticos em Campo Grande. O body piercing, Edgar Ibrahim, 25 ano, deixou de comer carne por

motivos ideológico. “Não aceito esse lance do homem ser o centro de tudo e não apoio esse tipo de crueldade pela qual os animais passam”. Sempre que pode o rapaz participa de movimentos ativistas em defesa dos bichos. O seguidor da dieta vegetariana não contribui com a crueldade que são criados e abatidos milhares de animais indefesos. Essa é a opinião da presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), Marly Winckler. “A carne que as pessoas consomem são de animais criados em condições de muito sofrimento, destituídos de seus instintos mais básicos, confinados, submetidos a tratamentos cruéis inaceitáveis”.

“Tempo virá em que os seres humanos se contentarão com uma alimentação vegetariana e julgarão a matança de um animal inocente como hoje se julga o assassínio de um homem.” (Leonardo da Vinci)

Artigo

Violência contra a mulher A verdade que ninguém quer ver CecÌlia  Koshiikene Existe uma lenda urbana que mulheres violentadas não denunciam seus agressores. Há, sim, várias mulheres que preferem não passar pelo doloroso processo do boletim de ocorrência, mas será essa a única forma de denúncia? E mesmo que seja, todos os dias mulheres enchem as delegacias da mulher em todas as cidades do Brasil. Por que, então, todos temos a impressão de que ninguém denuncia? Muitos casos de violência contra a mulher vieram a público, porém vemos que a justiça faz muito pouco para que os agressores sejam punidos. O caso Pimenta Neves é um exemplo. O jornalista foi levado a júri popular ao ser acusado de homicídio duplamente qualificado da ex-namorada, Sandra Gomide. Apesar de ter sido condenado, Pimenta Neves aguarda o julgamento do recurso em liberdade. O pensamento comum é que por falta de iniciativa do sistema judiciário algumas mulheres deixam de delatar seus agressores. O que ocorre na verdade é que muitas mulheres sofrem assédio sexual em seus locais de trabalho e lares e, no entanto, por receio de perder seus empregos e pelo pensamento ultrapassado de que o agressor tinha o “direito” de cometer tal ato não denunciam. Muitas não sabem, por exemplo, que podem denunciar seus maridos por estupro. Ninguém deveria ser obrigado a se envolver em um ato sexual. Teoricamente, então, ao obrigar sua esposa a praticar sexo, o marido está, sim, cometendo um estupro. Segundo uma pesquisa desenvolvida pelo Banco Mundial e do Banco Interamericano de desenvolvimento a violência doméstica tem, ainda, um aspecto econômico-social, visto que um em cada cinco dias de falta ao trabalho no mundo é causado pela violência dentro dos lares. A pesquisa diz, além disso, que mulheres que sofrem agressões em casa perdem um ano O pensamento de que a cada cinco vividos, e que a violência contra mulher pode custar entre a mulher é o sexo frágil 1,6% e 2% do PIB (produto intere não tem coragem no bruto) de um país. Mas a idéia de que o marido para denunciar que é acusado de agredir fisicamené totalmente errôneo. te sua esposa só pagará algumas cestas básicas e sairá impune, é o fator que mais desencoraja cada dia mais mulheres a denunciar seus agressores. O fato é que a Lei Maria da Penha veio para que isso mudasse. Segundo a lei, os agressores de mulheres no âmbito doméstico ou familiar sejam presos em flagrante ou tenham prisão preventiva decretada. A lei diz ainda que os agressores não poderão ser punidos com penas alternativas. A verdade é que a raiz de todo este problema está, como em tudo, na educação. O pensamento machista de que a mulher deve ser submissa é a gêneses da violência contra a mulher. A falta de disciplina em casa faz com que muitos jovens abandonem as escolas, acabem nas ruas drogados, cometendo delitos como roubos, assaltos e estupro. A falsa impressão de que nada mudará faz com que nada realmente mude. É claro que há falta de esclarecimento por parte de várias vítimas. É claro que muitas vezes o sistema judiciário não faz sua parte. É claro que algumas mulheres realmente não denunciam. Mas o pensamento de que a mulher é o sexo frágil e de não tem coragem para denunciar é totalmente errôneo. A mulher quer, sim, denunciar e fazer tudo possível para que não seja agredida novamente. Ocorre que, muitas vezes, não tem ninguém quer ouvi-la.


Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS - 20

Dois prá lá , dois prá cá As noites de Campo Grande oferecem várias opçoes para quem gosta de se divertir na melhor idade

Noite no Olympia, onde a terceira idade se diverte danÁando com m˙ sicas de bom nÌvel Jacinto Rodrigues da Cunha Sair para dançar nas noites de Campo Grande não é uma atividade apenas para os jovens. Para quem chega à terceira idade e gosta de dançar, não há motivos para ficar em casa. Olympia, Via Park, Bolero, Clubes da Amizade, Sírio Libanês e União dos Sargentos são algumas opções. De sexta a domingo músicas variadas e ambientes agradáveis embalam as noites de pessoas acompanhadas ou de novas amizades ou paqueras . No Sírio Libanês, as noites de domingo recebem em média de 150 pessoas. Ruth Ribeiro, que trabalha na noite fazendo bailes há mais de dez anos, diz que a faixa etária é a partir dos 50 anos Pioneiro em Campo Grande há 15 anos, o Via Park está sempre lotado. Segundo proprietário da casa, Alvido José Hermannm, na sexta-feira, a casa recebe cerca de 500 pessoas. Aos sábados pouco mais de 400 pessoas. Alvido é responsável pelo Via Park há seis anos. A idéia era comprar a casa e deixá-la aos

cuidados de seu genro Darcy Djair Renato Medeiros, 64 anos, e Fernandes. Mas há três anos Darcy faleRegina Maris,57 anos, é um ceu, e teve que tocar o clube e tomar exemplo. Eles se conheceram gosto pela coisa. Alvido com a ajuda no Olympia há dois anos e de sua esposa Liane Hermann e sua Fimeio e desde então nunca mais lha Marcia Hermann Fernandes.”Nosso se separaram. Hoje, só frequentam a casa clube toca musicas de todos os gêneros juntos. “Além de conhecer Regina, fiz para se ouvir e dantambém amigos lá çar. Aqui temos um dentro. O ambiente é público fiel em de boa qualidade, “Hoje me sinto feliz relaçãoà presença”, sem confusões e bripor ter conhecido diz o proprietário. gas”, diz Renato, que Regina nas noites O Olympia é empresário do administrado por ramo de funilaria indo Olympia” Geraldo Luiz Nodustrial. gueira, 48 anos, que Com o funcioatua como músico, nário público AntôJosé Renato Medeiros cantor e empresário nio José da Cunha, 60 de bandas nas noianos, o “andar da tes de Campo Grande há mais de 20 carruagem” foi diferente. Frequentador anos. Segundo ele, às sextas e dominde quase todas as casas noturnas para gos há uma média de 150 frequentadores terceira idade da Capital, ele conta que e aos sábados chega a 300.” no Olympia, conheceu alguém especial, O Olympia não supera o número mas que logo separou. “Conheci uma de frequentadores do Via Park, mas viúva bem sucedida financeiramente, mas possui um diferencial para quem busca como não estava à procura de dinheiro se apaixonar. O casal de namorados José e sim de conhecer pessoas, ficamos jun-

tos durante um ano. Depois veio o desgaste da relação e resolvemos nos separar”.Sempre gostei de dançar e de paquerar nos bailes noturnos desta cidade. Faço isso desde 1989", diz ele. Osvaldo Cação, 65 anos, advogado, também frequenta os bailes para terceira idade, mas vai também em festas de jovens onde toca outros tipos de música. “Gosto de curtir o som dos jovens, de dançar com eles e não me sinto discriminado por eles”, enfatiza. Já o motorista de táxi Cláudio de Souza Eapinelli, 46 anos , não frequenta os bailes que não seja os da terceira idade. Segundo ele, “os jovens não aceitam a presença de pessoas fora da faixa etária deles, te deixam completamente isolados num canto das festas”, reclama o motorista. jr.cuhna@globo.com

Fotos: Guilherme Telô

Noite


Música

21 - Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS

MS download A nova cara da nossa música autoral, acessível pela internet

Alexander Onça

Sem medo de rótulos, eles vêm criando um novo movimento. Respeitam os que deram início a esse trabalho, entendem que Mato Grosso do Sul é a terra do boi, mas querem fazer a diferença. Para eles, música regional não precisa estar presa aos costumes tradicionais ou exaltação de belezas naturais locais, mas à realidade. Essa é a Geração 10 que busca nas novas mídias a fuga da dependência de gêneros comerciais. Com mudanças na difusão e também na temática das músicas, o que esse novo movimento promete é maior fidelidade com o que acontece no cotidiano dos músicos que acabam por depender de editais e couverts. A linguagem urbana passeia pelos universos particulares do samba, rock, reggae e outros gêneros ainda pouco apreciados pela maioria no Estado.”Tenho muito esse lance da descrição narrativa. Eu saio, vejo e escrevo da minha maneira aquilo que vi”, diz Erick Barem, compositor e vocalista da banda Sarravulho. A necessidade de meios alternativos faz várias bandas e artistas se unirem para criar composições, fazer shows e até dividir espaço juntas, como acontece na rádio web eai.fm - que permite acesso livre tanto aos “fazedores” de música quanto ao público. “Um espaço na web é tão importante quanto o local físico, o que nos motiva é o nosso espaço em comum. Através da eai.fm você pode ter acesso ao trabalho de todos os artistas que estão envolvidos com a gente”, afirma Rafael Coelho, idealizador da rádio e produtor musical da banda Curimba, uma das bandas de Campo Grande que investiu na divulgação pela internet. “Resolvemos investir neste tipo de divulgação porque dá pra criar possibilidades, levar pra qualquer tipo de público conhecer. Além do limite de localização geográfica, que não é mais problema”, diz um dos membros da “Família Eaí”, o baixista da Curimba, Adrian Okumoto, banda que é representante ferrenha dessa nova geração juntamente com as bandas

,

Menos regionalismo e mais realismo marca a GeraÁ„o 10 Sarravulho, Louva Dub, Dombrás, o cande uma identidade musical no Estado. tor Vinil Moraes e vários outros artistas. Embora esse reconhecimento da Todos utilizam ferramentas de mídias história da música seja pertinente e conssociais como Mystante, a geração 10 pace, Twitter, Youexpõe outro lado: tube e Orkut. “Reconheço o traba“O retrato da geração lho de quem iniciou A Geração 10 não está inovando este caminho, mas o de músicos de hoje completamente. movimento agora é é o retrato da cidade, Eles fazem a mesoutro. O retrato da que cresceu.” ma coisa que músigeração de músicos cos como Délio e de hoje, é o retrato Delinha, Zé Corrêa da cidade, que crese Zacarias Mourão ceu”, defende o comfaziam desde a década de 40, só que com positor Erick. Suas letras possuem desoutras mídias, conforme se pode consde citações à obra Felicidade Clandestitatar na obras “Os pioneiros – A origem na, de Clarice Lispector, a cenas comuns da música de MS” (2010) do jornalista é do dia a dia. músico Rodrigo Teixeira e “A música de Outros grupos fazem parte dessa MS: História e vida” (2009), de Maria geração, como o Coletivo Cultural Bida Glória Sá Rosa e Idara Duncan; que gorna Produções; um grupo de produexplicam toda a trajetória da construção tores e músicos que se juntaram para

organizar suas produções artísticas e são ligados a um movimento nacional chamado “Circuito Fora do Eixo”. Há também quem divulgue o próprio trabalho sem pertencer a uma coletividade. A banda Midnight Purple, é um exemplo. Através de sites como Reverb Nation e Facebook, conquistou fãs em países como Estados Unidos, Inglaterra, Japão e Canadá. “Tem muita gente aqui criando movimentos artísticos de qualidade, são de várias gerações e tem objetivos parecidos com os nossos, mas que não estão com a gente”, afirma o produtor Rafael, que faz o papel de intermediário no cenário da música independente. “Esse movimento é um reflexo da necessidade que os músicos sentem de fugir do estilo que marca a cara do MS em outros estados”, conclui. alexander_onca@hotmail.com


Comportamento

Tinta, agulhas e bisturi: modificação corporal

Luma Santos de Oliveira

Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS - 22

Prática perdura por milênios e está cada vez mais presente na sociedade, apesar do preconceito.

Luma Santos de Oliveira

Chocar visualmente, transpor os limites, se libertar dos padrões... São vários os motivos que levam as pessoas à

Alargamento no lÛbulo e na parte interna da orelha.

fazer nos outros. Desde pequeno eu demodificação corporal, prática milenar de senhava.” Luiz começou panfletando alterar partes do corpo, muitas vezes de para um estúdio e logo fez sua primeira forma definitiva. As técnicas de modifitatuagem. Hoje, tem cerca de 50% do cação mais difundidas são as tatuagens, corpo fechado pelas tattos, incluindo os piercings e os alargadores, embora mãos, dedos e o pescoço, lugares onde existam muitas mais. Nenhuma outra tripouca gente tatua, além de alargadores bo tem sua representação de identidade grandes nas orelhas e médios no septo tão aparente quanto os “modificados”, nasal e nos cantos da boca. quem leva a body modification realmente Para a socióloga às ultimas conseKim Hewitt, o signiquências. O que os ficado das modificaidentifica como tri“Os participantes ções é muito maior bo não é apenas um do que um simples acessório, um tipo se estigmatizam para adorno. “Elas reprede roupa, um pendemonstrar uma sentam um processo teado, mas o seu de iniciação em alpróprio corpo, sua atitude confrontacional gum meio, os partipele, suas orelhas e e desafiadora em cipantes de fato se esnarizes modificados. tigmatizam para deLuiz Eduardo, relação às normas monstrar uma atitu20 anos e tatuador sociais.” de confrontacional e há 4, tem piercings desafiadora em reladesde os 11 e semção às normas socipre quis ser profisais, mas o principal é reivindicar abertasional da área. “Sempre me identifiquei mente uma identidade pública”. muito Quando eu era criança eu via nos Mas há outras visões. Leandro é uma outros e achava demais, dizia que queria das pessoas mais envolvidas com body ser tatuador, mesmo sem ter noção neart em Campo Grande. “A cada modinhuma de como era ser tatuado, e nem

ficação eu conquisto mais um pedacinho do meu corpo. Tudo na vida muda e se você não mudar também, você está estagnado. E isso não é um bom sinal...”. Em 2007 fez um workshop em São Paulo onde aprendeu 10 técnicas, entre elas os implantes intradermais, subcutâLuma Santos de Oliveira

Bruna Galina Guilherme Telo Michele Abreu

As tatuagens est„o entre as modificaÁıes mais difundidas.


Opinião

Guilherme Teló

23 - Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS

Luiz Eduardo tatuando um cliente em seu est˙dio. abrange os brincos, adorno praticamente obrigatório às mulheres, muitas vezes é colocado antes do bebê completar um ano de idade. Luiz finaliza: “Uma vez uma senhora me abordou do nada e perguntou com o tom completamente irritado o que me levava a fazer “essas coisas”. Eu perguntei pra ela: o que te leva a cuidar da vida dos outros? As pessoas se indignam ao ponto de parecer que você está dentro da casa delas, que elas te sustentam, pagam as suas contas e te vestem. Temos que andar com lado a lado com o preconceito, não tem jeito. Mas uma hora isso vai acabar. Pode não ser hoje, mas vai acabar”. gui_telo@hotmail.com bru_galina@hotmail.com mika_abreu@hotmail.com Cícero Rodrigues Araújo Neto

neos e a bifurcação lingual. Trabalha no ramo há 4 anos, e faz principalmente piercings, dos quais já fez 10 mil perfurações. “Em campo grande a cena é fraca, mas ela existe.” diz, orgulhoso de sustentar a si e aos seus dois filhos apenas com este trabalho. Nem sempre a transformação visual é bem aceita pelas pessoas ao redor. As tatuagens foram, por muito tempo, consideradas “coisa de bandido” e apesar de estarem incorporadas à nossa cultura hoje, o estereótipo ainda prejudica quem tem muitas, e em lugares visíveis. “A modificação corporal está mais presente do que nunca. E nem digo de tatuagem, piercings. Se formos falar de modificação extrema, tem a lipoaspiração, o silicone... A mais extrema e invasiva pra mim é a lipoaspiração.” defende Leandro. O conceito também

Leandro realizando um alargamento, de 0 para 10mm.

Mais do m e s m o Marcelo Blan Estreou no início de junho o videoclipe Alejandro da cantora norteamericana Lady Gaga. Esse é o terceiro single do álbum The Fame Monster. A expectativa pelo lançamento desse vídeo era grande, devido às polêmicas que sempre acompanham o trabalho da cantora. Ela, que é considerada a nova Madonna, assim como também eram consideradas, Britney Spears, Christina Aguilera, Gwen Stefani, dentre tantas outras, divide algumas semelhanças com a “rainha do pop”, ambas são de origem italiana, tiveram forte influência católica, começaram a carreira em pequenos bares nova-iorquinos, nos seus trabalhos são observados diversos elementos religiosos, além de um forte apelo sexual. Mas afinal, por que tantas “novas” Madonna’s surgem a cada dia, ao invés de inovarem, será que não há mais nada de novo para se criar? Madonna esgotou todas as possibilidades para as novas artistas? Estou falando aqui de Madonna, mas poderia citar também novos Michael Jackson, Beatles, Elvis, todos modelos de inspiração, e de excelência naquilo que melhor faziam, entreter o publico. No clipe de Alejandro, por exemplo, Lady Gaga bebeu o que pôde na fonte, usou simbolismo religioso como o crucifixo, convocou diversos dançarinos gays para coadjuvarem, usou sutiãs personalizados e “tentou” dar nova roupagem a coreografias já conhecidas pelo público de Madonna, todos esses elementos são encontrados em “Like a Prayer” e “Vogue”, ambos produzidos há cerca de duas décadas. Enquanto uma ala dos fãs recebe com duras críticas a esses “novos” artistas, outros, mais nostálgicos, sentemse realizados por encontrar em artistas contemporâneos aquilo que os cativou em artistas consagrados. Querem sair um pouco do campo musical, vamos então aos cinemas, ao menos três dos filmes em cartaz já são conhecidos nossos de longa data: Robin Hood, clássico da literatura e que já foi adaptado às telas diversas vezes; Fúria de Titãs, filme cult do início da década de 80; e Alice no País das Maravilhas, outro clássico da literatura e que

também conta com diversas adaptações para o cinema. Prova de que o que é bom permanece, é o fenômeno “beatlemania”, que de tempos em tempos aparecem trazendo à mídia todo o talento do quarteto de Liverpool. O intuito, além de claro gerar lucro às gravadoras, é fazer com que as novas gerações conheçam o trabalho do grupo. O mesmo ocorreu recentemente com o cantor Michael Jackson, de maneira trágica, mas serviu para mostrar que mostrou que talento resiste ao tempo. Pode-se ver crianças de todas as idades dançando hits de trinta anos atrás. Muitos que se auto-intitulam “cult” dão às costas para a cultura pop, que abrange todos os campos artísticos, mas é inegável que ela influi as nossas vidas por diversos meios, e ter um senso-crítico mais analítico é garantia de que um produto de qualidade chegue ao nosso meio, peneirando aqueles que realmente são artistas, ainda que reciclando, fazendo o novo em cima do velho, afinal, saber “recriar” também se tornou arte. Como um consumidor voraz do pop de vanguarda, não vejo mal algum na nova e predominante forma de recriar arte, só espero vê-lo feito com esmero. Para se tocar numa obra de arte e ousar dar uma nova visão sobre ela, tem que se mostrar capaz e digno para tal proeza. Boas vindas sejam dadas de novo ao antigo!


Futebol

Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS - 24

Operário F.C. Fotos: Moisés Palácios

Glória do futebol sul-mato-grossense, o Operário amarga, ainda na segunda divisão, os piores dias da sua história. Daiany Albuquerque O Operário Futebol Clube, time de maior tradição no Estado, vive neste ano uma das páginas mais triste de uma gloriosa história. A permanência na Série B do Campeonato Estadual. O clube começou bem na competição, conseguiu patrocinador e montou bom grupo. A diretoria resolveu trazer de volta um dos melhores técnicos de Mato Grosso do Sul, Baianinho, último treinador campeão pelo clube. O antigo patrocinador, Champs, tinha voltado a fornecer material esportivo aos atletas, mas, era só. Segundo o vice-presidente da Federação de Futebol do Estado (FFMS), Marcos Tavares os problemas com alimentação e hospedagem dos jogadores continuavam. “O Operário não muda. No jogo contra o Maracaju, eu tive que ir até a cidade (Maracaju) para pagar comida e hotel pros garotos. Mas, fazer o quê? Estadual sem Comercial e Operário não tem graça”, explicou Tavares. O presidente do Galo continua o de sempre, Toni Vieira. Que, aliás, protagonizou uma situação polêmica no começo do ano. A eleição para presidente da agremiação. No pleito havia apenas uma chapa competindo, a de Toni. De acordo com o presidente da torcida organizada Garra Operariana, Américo Ferreira, o local onde os interessados em disputar a eleição deveriam comparecer para registrar a chapa estava coberto de mato e um senhor recebia os candidatos dizendo que o terreno era dele há tempos, porque o clube havia perdido na justiça por acumular dívidas.

ApÛs a derrota pro Maracaju, desespero da torcida e jogadores.

QUE TRISTEZA! Indignados com a situação, membros da TGO plantaram o pé em frente ao Clube Libanês, local onde seria a votação, e impediram que os associados entrassem para escolher o presidente. “Ninguém entrou pela porta da frente, e depois do horário marcado para o encerramento, funcionários do clube assinaram uma ata que declarava que nenhum sócio votou na eleição”, afirmou Américo. Porém, no dia seguinte, Toni

Vieira figurava como o presidente eleito pela maioria dos votos. Como, ninguém sabe até hoje. Toni prometeu para a imprensa que faria uma coletiva explicando a forma que se deu a eleição, o que não aconteceu. Da primeira etapa da competição o Galo saiu ileso, não perdeu em nenhum jogo (apenas um empate). Já nas quartas de final, a “rinha” começou com uma derrota fora de casa. E logo para o líder

da competição, o Ponta Porã. Com essa derrota, o sonho de voltar para a elite do futebol sul-mato-grossense começou a naufragar, já que o Maracaju estava na mesma situação do Operário, havia vencido duas e perdido outra (justamente para o clube da Capital). O Galo ainda tinha chance, apesar de estar atrás do Maracaju, jogaria contra o Sidrolândia, lanterninha da competição, era vitória certa. Em tese. No estádio Municipal da cidade interiorana não foi o que se viu. No início do primeiro tempo veio um gol do time da casa e, logo depois, outro, o que piorava a situação do Operário. Os jogadores tentaram, insistiram e conseguiram marcar o primeiro do Galo e depois veio o ponto de empate. Mas e esperança acabou no terceiro gol do Sidrolândia. Aos trancos e barrancos e empurrado pela torcida, que sempre compareceu nas partidas, o Operário tinha chances reais de voltar a Série A. Restava saber se o Galo ainda tinha fôlego, e verba, para enfrentar a etapa final do Estadual, ou se a Federação é quem iria “bancar” o clube para que a equipe voltasse à elite do futebol. Na partida decisiva a torcida foi ao Morenão e o time estava completo. Dois gols separavam o Galo da Série A. Do outro lado, o Maracaju só precisava segurar o jogo para se classificar para a final do Estadual. A partida seria difícil. E foi. Um gol no primeiro tempo acendeu a chama da esperança nos torcedores. Era só fazer mais um e o Galo voltaria. Mas na etapa final o placar continuou o mesmo. O time de maior tradição do Estado continua na segunda divisão. Ou não. Como o vice-presidente da federação disse, “Estadual sem Operário e Comercial não tem graça”. Por isso, muitos estão dizendo que a FFMS pode dar um “jeitinho” para que o Galo volte à elite do futebol sul-mato-grossense. O que só saberemos no próximo capítulo da novela operariana. daiany_albuquerque@hotmail.com


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