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22 a 28 de agosto de 2007 www.nippobrasil.com.br

Fotos: Divulgação

Retrospectiva de filmes de Oshima em Paris revela sua faceta provocadora antes de O Império dos Sentidos, filme que consagrou o cineasta

Trata-se de uma escruzilhada em que as pessoas, além de privadas de comida, saúde, higiene, perspectivas e sonhos, não possuem o direito da escolha. Não há certo

nem errado. O que importa é estar vivo. O grande símbolo desse universo é a jovem Hanoko, forte, decidida e prisioneira de suas próprias tramas. Neste mundo

como suor e sangue, elementos característicos da estética crua e orgânica do cineasta. Nunca suavemente. (*de Paris, especialmente para o Zashi)

À esquerda, o cartaz da exibição da trilogia Oshima em Paris; acima e ao lado, duas cenas de Contos cruéis de juventude, rodado em 1960: o esboço de segunda chance pelo arrependimento e a frustração

A juventude rebelde de Oshima

Uma cidade de amor e de esperança, primeiro filme de Oshima

sem saída, a morte é o ponto de ebulição da busca desses jovens por liberdade. A redenção em Oshima é marcada por uma luz quente e a presença de fluidos,

exibição de O Império dos Sentidos no Brasil do início dos anos 80 foi um escândalo na comunidade nikkei. O público sentia-se agredido e incomodado com a crueza das cenas de sexo e com a maneira como perversão e obsessão se misturavam ao amor (algo recorrente na produção de outros artistas japoneses, como o escritor Junichiro Tanizaki). Era o ser humano manipulando e sendo manipulado pela busca do prazer a todo custo. Neste filme produzido em 1976, Oshima já tocava em temas tabu: sexo, ausência de limites, excessos e morte. De uma maneira explícita, o cineasta sacudiu o tapete e mostrou ao mundo o lado B dos sentimentos japoneses. O público criticava, ficava incomodado, mas o filme não deixava de ser tema de conversas e quase todo mundo foi ver. Muitos classificaram O Império dos Sentidos

A

O Enterro do Sol mostra a degradação do ser humano em um bairro pobre de Osaka

como pornogáfico. Mais fácil assim do que trazer à luz – e em uma grande tela de cinema – nosso lado sombrio. Talvez O Império dos Sentidos tenha sido o ponto alto de uma busca que o cineasta começou a fazer já nos anos 60 e que aparece intensamente (afinal, trata-se de Oshima) em seus filmes anteriores. Seus personagens quebram valores, denunciam, gritam até a morte se for preciso, para sair de uma situação de clausura imposta, seja emocionalmente (pelo amor), socialmente (combate ao tradicional e correto) ou economicamente (luta pela sobrevivência). Uma atitude oposta à imagem que temos da sociedade nipônica. INFLUÊNCIA DA NOUVELLE VAGUE Foi esta a revelação da mostra “Trilogia da juventude”, que exibiu aos cinéfilos parisienses Uma

cidade de amor e de esperança (1959), primeiro filme dele e até então inédito na França, o clássico Contos cruéis de juventude (1960), equiparado a Acossado, de Godard, e O enterro do sol (1960). Por trás das imagens, todos sugerem um Oshima rebelde e desiludido (vale ressaltar que, em sua juventude, ele foi militante) com o Japão pós-guerra que oferecia poucas perspectivas aos jovens. O cineasta escancara na tela delinqüentes juvenis que não se encaixam em fórmulas antigas e convencionais. Eles têm uma necessidade brutal de abrir caminho para algo novo – influência clara da Nouvelle Vague francesa. Os três filmes exibidos na mostra percorrem uma crescente decadência – ou redenção, já que falar de Oshima também é falar de extremos. Uma cidade de amor e de esperança conta a história do jovem Masao, que se divide entre os estudos e a busca de dinheiro após a morte de seu pai. Apesar

de dedicado, é dele que depende o sustento da mãe doente e da irmã deficiente. Ele tem o apoio de sua professora e de uma garota rica, mas as decepciona quando seu caráter é colocado a prova e Masao é flagrado mentindo para garantir sua sobrevivência. Em Contos cruéis de juventude, há um esboço de segunda chance. No filme, vemos duas irmãs de gerações diferentes. A mais velha tentou lutar contra valores da sociedade depois da guerra, mas sentiu-se obrigada a abrir mão de seus sonhos e aderir o convencional. Resta a ela o arrependimento e a frustração. A irmã mais nova rompe com tudo que sua irmã não teve coragem (ela foge de casa para viver com o namorado rebelde e termina em uma sala de aborto) de forma quase inconseqüente. O enterro do sol mostra a degradação total do ser humano em um bairro pobre de Osaka.

Contos cruéis de juventude mostra o conflito entre duas irmãs de gerações diferentes

Nagisa Oshima Nagisa Oshima é um dos maiores nomes do cinema japonês. Nascido em março de 1932, em Quioto, o artista dirigiu grandes obras cinematográficas japonesas, famosas por tratarem de temas polêmicos para a sociedade do arquipélago, mas consagradas por sua técnica apurada. Em 1966, sofreu um derrame cerebral que o deixou durante um período fora do circuito cinematográfico.

Reprodução

ERIKA KOBAYASHI/NB*


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