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Projecto Bebé + Temática da Saúde Enfermeira Sónia Rocha

Parto: Preparar ou fazer Acreditar? Na Sociedade Portuguesa vive-se, hoje em dia, o que se chama de “partofobia”, a maioria das mulheres grávidas têm dificuldade em aceitar o nascimento como momento natural e fisiológico na sua vida. É difícil encontrar mulheres que afirmem convictamente que o nascimento dos filhos foi uma das melhores senão a melhor experiência da vida delas. Embora acredite que existam algumas, estas raramente falam no assunto ou exprimem os seus sentimentos. O mais usual é encontrarmos relatos de nascimentos traumáticos, física e psicologicamente para a mulher e família. O Parto é um acontecimento meramente fisiológico na vida mulher. O desenvolvimento e sobrevivência da espécie humana depende do sucesso este momento. Existem locais no mundo em que as taxas de cesariana já ultrapassam os 90%, imaginando que estas cesarianas são mesmo necessárias, se a tecnologia que conhecemos deixasse de existir (por exemplo uma guerra) todos esses bebés e suas mães provavelmente morreriam por falta de assistência. A OMS (Organização Mundial de Saúde) defende que a taxa de cesarianas não deveria ultrapassar 10 a 15% do total de nascimentos, na medida em que esta implica maior risco de complicações para a mãe e bebé. Em Portugal a taxa de cesarianas é mais do dobro da recomendada, e para além do número elevado de cesarianas, temos os partos instrumentados com uso de ventosa e/ou fórceps, e nos restantes são raros os partos sem qualquer intervenção (por exemplo soros, epidural, …). Qualquer intervenção introduzida no trabalho de parto e parto pode levar a mais intervenções, e cada uma delas poderá aumentar o risco de complicações. Com o objectivo de diminuir as taxas de mortalidade e morbilidade materna e neonatal a OMS preconiza desde há muito que todas as grávidas tenham acesso a um curso de preparação para o nascimento. De que maneira poderão estes cursos contribuir para um maior bem-estar da mulher grávida e do casal?

Existem vários modelos de cursos de preparação para o nascimento, o que pode criar alguma confusão e dificuldade na escolha. O método mais vulgarizado é o método psicoprofiláctico, desenvolvido por Nikolaiev, em 1949 na Rússia, tendo sido importado por Lamaze para o mundo ocidental. Em Portugal, este método é amplamente utilizado. No entanto, o seu sucesso é

Av. da República nº 872, 2º andar – sala 2.6 / 4430-190 V.N.Gaia T: 966 470 355|geral@projectobebemais.com www.projectobebemais.com |projectobebemais.blogs.sapo.pt


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questionável, uma vez que tem sido utilizado com o objectivo principal de condicionar a mulher para o parto hospitalar, tal qual ele acontece, sem nunca ter por base as possíveis escolhas da mulher / casal para o nascimento. Isto é, a mulher é “programada” para aceitar como normal tudo o que acontece durante o trabalho de parto e parto, devendo sentir-se feliz e grata pelas orientações externas que recebe. Este método tem sido abandonado a nível internacional, inclusive pelo próprio Instituto Lamaze, que rapidamente concluiu que o acompanhamento contínuo e apoio à mulher durante a gravidez, parto e pós parto, juntamente com o fornecimento de informação sobre a fisiologia de tudo o que envolve o processo de nascimento, e acima de tudo dar ferramentas à mulher tais como técnicas de relaxamento e auto-confiança, permitiam não só obter melhores taxas de partos normais sem qualquer intervenção clínica, menor número de complicações, como também melhores índices de satisfação da mulher / casal. Na Bélgica, com o desenvolvimento do parto dentro de água, surgiu um novo método de preparação para o nascimento utilizando a água como ambiente. Este método conta já com vários anos de experiência, com resultados muito positivos quer na satisfação da mulher / casal, quer nas estatísticas das maternidades onde é amplamente utilizado, independentemente do parto se consumar na água. Por exemplo, a maioria dos casais que recorre à maternidade de Oostend na Bélgica, faz este tipo de preparação, que consiste essencialmente, em técnicas respiratórias e de relaxamento dentro de água. Esta maternidade apenas realiza cerca de 12% de cesarianas, 20% de epidurais e 60% de todos os partos são na água, apresentando melhores resultados que os outros hospitais no diz respeito às taxas de mortalidade e morbilidade materna e neonatal1. Este método – Preparação Aquática para o Nascimento, já foi introduzido em Portugal (distrito do Porto), por quatro enfermeiros obstetras, embora cada um de forma independente, que efectuaram formação na Bélgica. Fazendo parte destes formadores e pela experiência adquirida no trabalho com casais, este método permite uma melhor experiência de gravidez, parto e pós-parto, contribuindo para o aumento da satisfação da mulher / casal nesta etapa tão especial da vida.

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Estatística Nacional Belga de 2004, cedida pela Associação Aquanatal – www.aquanatal.be Av. da República nº 872, 2º andar – sala 2.6 / 4430-190 V.N.Gaia T: 966 470 355|geral@projectobebemais.com www.projectobebemais.com |projectobebemais.blogs.sapo.pt


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Qualquer método, no entanto, segundo Michel Odent, conhecido Obstetra francês, defensor do respeito pela fisiologia do parto, perde a sua utilidade a partir do momento que é generalizado a todas as mulheres. Cada mulher é única, a sua história, as suas vivências, a sua experiência de vida, o seu conhecimento, influenciará todo o processo de nascimento e ditará o seu sucesso ou insucesso. Este é o motivo pelo qual cada mulher deveria ser acompanhada durante a gravidez, parto e pós-parto pelo mesmo profissional de saúde. A própria OMS defende os benefícios do acompanhamento contínuo (pelo mesmo profissional) durante todo o processo de nascimento – gravidez, parto e pós-parto. Em Portugal o mais vulgar é a mulher / casal efectuarem a vigilância da gravidez com um profissional de saúde (habitualmente médico obstetra), a preparação para o nascimento com outro (habitualmente enfermeira(o) obstetra ou outros profissionais), o parto com outros profissionais (enfermeiros obstetras ou médicos obstetras do serviço de urgência) e pós-parto ainda com outros (enfermeiros do centro de saúde). De acordo com a OMS, “Países industrializados nos quais parteiras são os provedores de cuidados de saúde primários de mulheres saudáveis durante o parto têm resultados maternos e neonatais mais favoráveis, incluindo menores taxas de mortalidade perinatal e menores taxas de cesariana, que os países nos quais muitas mulheres saudáveis, ou a maioria delas são atendidas por obstetras durante a gravidez.”2 As Parteiras (os) ou Enfermeiros Especialistas em Saúde Materna e Obstetrícia (ou Enfermeiros Obstetras), são os profissionais competentes para acompanhamento da gravidez, parto e pós-parto de mulheres saudáveis com gravidez de baixo risco, pelo que, a mulher / casal deveria procurar e escolher a parteira (o) que os pudesse aconselhar e preparar para o parto, assim como, acompanhar durante e após o nascimento. A parteira (o) deverá utilizar os recursos e conhecimento de que dispõe, adaptando a cada mulher / casal, no sentido de construir e delinear o plano de nascimento, indo de encontro aos desejos e expectativas de cada cliente em particular. Está provado cientificamente que um nascimento sem violência (segundo a perspectiva do nascimento fisiológico a cesariana é uma forma violenta de nascer) promove uma maternidade plena,

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ENKIN M [et al] – Guia para atenção efetiva na gravidez e no parto. 3ª Ed. Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 2004, Cap. 3, p.12. Av. da República nº 872, 2º andar – sala 2.6 / 4430-190 V.N.Gaia T: 966 470 355|geral@projectobebemais.com www.projectobebemais.com |projectobebemais.blogs.sapo.pt


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assim como crianças mais felizes, mais saudáveis e mais equilibradas emocionalmente. As mulheres segundo as leis da natureza, como fêmeas mamíferas que são, estão preparadas para fazer nascer, o bebé preparado para nascer, e se assim não for, a sobrevivência da espécie humana estará seriamente comprometida. A função da parteira (o), para além despistar a existência de complicações, não é mais do que garantir à mulher que ela, apenas com o seu corpo, seja capaz de fazer nascer o seu bebé, de forma saudável e gratificante, senão mesmo prazerosa!

Sónia Rocha ___________________________________________________________________________________

Tema desenvolvido por: Sónia Rocha | Enf Especialista Saúde Materna e Obstetrícia |Formadora de Cursos de Preparação Pré-Natal Aquática |Conselheira em Aleitamento Materno OMS / UNICEF

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