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A história de Maya Tenho três moedas de cinquenta centavos que devem permanecer sob meu domínio caso eu sinta fome até o quinto dia útil do mês que vem. Hoje, andando pelas ruas, enquanto contava dinheiro, ouvi uma história em minhas lembranças. É sobre uma menina chamada Maya. Enquanto a memória procurava forçosamente encontrar espaço em minha caneta, eu pensava somente que uma fome como a minha não sobreviveria a um real e cinquenta. Parei, me sentei, e, com as três moedas pratas ainda pesando em meu bolso, inscrevo a história aqui. Maya é uma menina preta, tal qual se supõe. Só posso falar sobre os meus quando sinto algo comum aos meus. Não é normal aos pretos o sentir da fome? Neste Brasil, no século XXI? Pois bem. Estou com fome e logo me toma a profunda tristeza, a angústia. Estou em lágrimas há mais ou menos quatro horas. Minhas costas doem; sinto o mundo inteiro repousar desleixadamente por sobre elas. Minha hérnia de disco, em rotação de vitrola, pulsa e me maltrata. Como se eu carregasse o salvador branco do mundo em meu útero seco. Como se, não - aconteceu mesmo desta maneira: todos os pretos do mundo responsáveis pela existência do mundo. As pretas, sobretudo, porque deram e dão-lhe colo, terra, ventre, as solas dos pés rasgada em linhas duras de incessante trabalho. dão-lhe o peito, que murcha e deixa os próprios filhos delas, também pretos, crescerem sem leite. Me disse que tinha oito anos quando aconteceu. Seu pai já havia morrido. Sua mãe andava fora de casa por este motivo, trabalhando por cinco. Inclusa a imagem do falecido, por si mesma e mais três crianças que trouxera à luz. A avó não se dava com Maya porque rejeitava a mãe dela e ambas eram muito parecidas, iguais no cabelo duro, no jeito de andar, na cavalgadura do dizer. Gritar, às vezes.


Imensos palavrões. Para não viver sempre atormentada, Maya gostava de ficar sozinha. Subia e descia os escadões dos bairros vizinhos. Iniciava novos trajetos para testar se sua mente era capaz de traçar retalhos numa colcha de mapa. Às vezes os homens assobiavam para Maya, como se a quisessem para si. Ela nunca respondia. Olhava feio, desviava o olhar carrancudo e assomava o passo. Maya não sabia que tipo de substância constituía esses bichos feios que dominavam o mundo com um tom estúpido de voz. Não faltavam pão nem leite na mesa de Maya. A avó sempre dava comida para as crianças. Não faltava carne, ainda que fosse necessário cortar em pedaços miudinhos para alimentar o lar onde vivia uma família inteira e mais uns agregados do amor. Não faltava o prato de seu João, o preto velhinho esquecido pela família que sempre andava com o corpo a tremer. Não faltava seu copo de café com leite, não faltava o belisco para o seu cachorro vira-lata. Neste caso não era amor; dona Angelina lembrava as pessoas que a misericórdia era um traço cedido diretamente por Deus. Maya não sabia quem era Deus, mas em alguns momentos sentia que, se ele existia, só poderia estar no céu ao lado de seu pai, os dois tocando atabaques para o povo dançar. E no céu da noite, que era o céu dos pretos. Mais um homem da família foi morto e Maya se quedou muitíssimo infeliz. Desde então, Maya não conseguia reconhecer os homens. Menos ainda os homens brancos, que eram muitos, embora naquele bairro de pessoas pobres. Eram os que possuíam as casas maiores. Um deles morava na casa em frente com os quatro filhos. Duas meninas, pequenas, e dois meninos mais moços. Maya passava muito tempo naquela casa. Lá tinha comida, tinha música, tinha brinquedos caros, tinha empregada, tinha uma mãe que jamais brigava com os meninos e assava carne às quintas-feiras simplesmente porque queriam comer. A única coisa que Maya comia


quando tinha vontade e por ter vontade era chocolate. Uma de suas tias comprava pacotes com desconto de vendedora e a menina corria de mãos cheias a procurar o tesouro escondido que derretia na saliva. Maya ficava doente na maioria das páscoas, o coelhinho de olhos vermelhos e pelos branquinhos não era seu amigo. No aniversário de uma das vizinhas tocou música bahiana. Mais cedo, antes de anoitecer, o pai delas instruíra Maya a vestir uma saia de pregas pretas. Era muito linda a saia, ele dissera. Ela, que raramente se achava bonita e que tinha o cabelo alisado por essa mesma razão, que se lavava com bastante força, com a esponja vegetal, na esperança de que a pele marrom se tornasse branca, além de vestir a saia, colocou uma calcinha branca com babadinhos e uma sandália prata com saltinho. Foi para a festa e se acabou de dançar. O dono da casa até montou uma plateia, com cerca de dez homens, que assistiram e aplaudiram Maya com olhos gigantescos. Ela se sentia bonita, talentosa, uma menina de respeito. Nada explicava, no entanto, o fato de que, quando sua mãe chegou, vendo aquela roupa, lhe dera duas palmadas dizendo você não é vagabunda, está me ouvindo bem?. Dias após aquele, quando a menina brincava na marcenaria que ficava na casa dos vizinhos, o moço mais novo se trancou com ela dentro do banheiro, lhe deu muitos beijos e esfregou seu corpo contra o dela. Maya não sabia o que era aquilo. Escapou e foi para a casa de sua avó. Noutro dia, quando foram brincar no quarto escuro de gato-mia, elas e os dois moços, Maya achou estranho que, para ser reconhecida, sua vagina era o pedaço de corpo tocado. Ainda em outro dia, não distante, quando foi para a casa das meninas, o pai pediu que ela tomasse banho de banheira com a porta aberta. A menina, que nunca havia visto uma banheira, se ensaboou bastante com suas amigas, as três imensamente animadas. Você deve estar pensando que enrolo para contar o episódio anunciado no início do escrito. Em


minha defesa, à medida que conto a história desta menina, cujo nome é Ilusão, me encolho na cadeira e não posso suportar o peso de chegar ao fim. Sinto dores absurdas. A tinta da caneta se espalha em borrões de águas que não sei serem lágrimas ou suores. Mas é inevitável, e eu conto: no último dia de brincadeira, que foi o mais difícil de escutar, Maya brincava com o moço mais novo e as duas irmãs no porão da casa enorme. Disse que queria ir embora. O moço chamou o pai. Disseram: pra você ir embora, tem que tirar a blusa. Maya, meio sem graça, tirou. As duas bolinhas duras ainda eram inofensivas. Em seguida: pra você ir embora, tem que tirar a calça. Maya tirou. Pra você ir embora, tem que tirar a calcinha e se deitar aqui comigo. Maya deitou, sem jeito, querendo desaparecer. Pensando que, se ela apertasse bem forte os olhos, acordaria do pesadelo. Apertou uma, duas, três vezes. Não acordava. O moço mais novo, nu; o pai rindo; as meninas no quarto brincando; a mãe deles, de longe, sem olhar, mas sabendo de tudo. De tudo. Silenciamento. Maya não absorvia bem as malvadezas do mundo. Embora sentisse que acontecera algo errado, não sabia qual nome dar. Nunca mais pisou na casa dos vizinhos, que ainda são os mesmos, e que, vez em quando, tem a desgraça de encontrar. Maya guardou esta história dentro de si durante doze anos. Agora, aos vinte, veio me contar. Eu pergunto a ela se está tudo bem e ela responde que jamais esteve. Que se olha no espelho e pergunta ao Deus de sua avó, dona Angelina, por que é que a fez preta e sozinha num mundo cão como este em que vivemos. Dou as mãos a ela e choramos baixo, como o chamado Espírito Santo da fé cristã. Tenho sua licença para narrar estes fatos e sinto meu dever se cumprindo, que é estar ao lado de meu povo, ser e sentir o meu povo. Contar nossas histórias


que se constroem de dores históricas. Dores que estão nos livros, muitas vezes, com nomes bonitos, com ideias de ares científicos e acadêmicos suficientes para ninguém botar defeito. Chamam miscigenação nossos estupros invariáveis. Brancos botando títulos às nossas dores como se fossem fatos descolados de realidade. Como se não fôssemos humanas. Como se cada homem nascido não tivesse sido educado pelas mãos de nossas mães e avós. Maya é uma mulher forte e sabe que o racismo existe e persiste em nossos passos de cada dia. Ela me diz que, para sobreviver, a gente tem de prestar atenção no porquê de os pássaros cantarem em suas gaiolas. Tento me levantar desta cadeira, já que cumprido meu ofício, mas não consigo. Minha fome de justiça não se sacia jamais, não se paga com a minha pobreza. Maya está profundamente dentro de mim neste momento, chorando, clamando pelas meninas sozinhas nas ruas e pedindo que o mundo seja um lugar menos monstruoso para as que nascem com um corpo e pele escura. Maya me conta esta história que é dela, é minha e provavelmente é sua, se você também nasceu mulher e preta no continente americano, no sul, na colônia brasileira. Ou se nasceu no Cairo, na Martinica, em Luanda. Agradecemos à escrita que, ao nos permitir a voz, nos limpa como nganga1. & morremos, agora, ao final desta linha, onde chora, como rios de águas vivas, a nossa existência.

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Nganga é um termo utilizado para designar “curandeiro” em alguns contextos africanos ou afro-diaspóricos.

A história de maya  
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