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[h]a-histórico

I Eu sei, eu sei: há muita coisa errada por aqui, não é? Eu sei: é essa angústia que me invade. Eu não sei explicar direito o que é, nem de onde vem, nem o que significa. Quero dizer: o que significa talvez eu saiba, mas não queira assumir – desculpa. Eu deveria começar pelo começo. Mas é sempre difícil encontrar o começo quando você parece estar no meio de todos os acontecimentos. Você entende? Não espero que sim. Não? Por favor, você verdadeiramente não precisa de alguma das suas grandes explicações agora. Podemos combinar que só falaremos aquilo que for realmente essencial? Você entende o que eu estou pedindo? Não, não é isso. Por favor, não diga que, apesar de tudo, você entende que melhor seria se eu seguisse meu coração e encontrasse aquilo que fosse capaz de me fazer feliz. Eu passei muito tempo procurando por mim mesmo, cara – até que eu entendi que essa história de eu mesmo era uma grande farsa. Às vezes eu sinto até uma grande culpa aqui dentro cada vez que pronuncio esse pequeno encontro de duas vogais: e-u. No centro dessas vogais, um imenso vácuo. No final das contas, parece que esse mundo aqui é só uma ilusão sem sentido mesmo. Você não acha? A gente vai criando cada vez mais coisas e todas elas são só para tornar essa vida menos insuportável. Não, eu não acho que exista coisa melhor em outro mundo. O outro mundo que a gente vai conhecer é só aquele que fica embaixo da terra, quando a gente for fazer companhia para as raízes das plantas. Aí a gente vai entender como é alguém pisando em cima da gente, como é alguém mijando em você depois que ficou bêbado e não tem banheiro algum por perto. A gente vai aprender a conviver até mesmo com aquilo que a gente bota para fora depois do 1


décimo copo de cerveja. Tudo aquilo que vem junto, num jato só, e que a gente manda para fora, pela boca, porque é sempre mais forte que a gente. Nisso, é nisso que eu acredito: eu acredito que existe alguma coisa que é muito mais forte do que todos nós. Não, isso não tem nada a ver com divino, transcendental, o universo ou a energia dos cosmos. Eu estou falando daquilo que a gente não controla, mas que vem da gente, sabe? Não, acho que isso também não é amor. Eu deixei de acreditar no amor quando soube que a primeira bala tinha sido disparada: aquele era só mais um cadáver no mundo – a única diferença é que ele tinha sido feito por nós mesmos. E você ainda repetia, à la Renato Russo, que era preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. De fato, não houve amanhã para nenhuma daquelas pesso Desculpa. A gente pode começar de novo?

II Antes, eu preciso dizer que isso não significa que as coisas tendem a ser diferentes agora. Ninguém disse isso. Eu só quero recomeçar para ver se eu consigo explicar melhor algumas coisas, tudo bem? Eu vou entender se você não quiser ouvir. Deve ser horrível estar do seu lado, não é? Deve ser horrível ter que ouvir sucessivas vezes as mesmas histórias. Porque, com algumas diferenças, a merda toda é sempre a mesma. Se eu digo que não acredito mais no amor, você pode acreditar: isso não é opinião pessoal, nem é meu sintoma, caso você queira bancar uma de doutor Freud daqui para frente. Pode esquecer tudo isso, se for exatamente nisso que você estava pensando. Não sou só eu quem já não acredita. Mas acho que cada um deve saber de si. Para dizer a verdade, eu não sei de mim. 2


III Esquece. Esquece tudo. No que você está pensando agora? Supondo que você pense, é claro. Você me diz que não pensa em nada. Eu entendo. A coisa está verdadeiramente foda. A piada mais engraçada que eu ouvi nos últimos dias foi que gentileza geraria gentileza. Minha mãe acordava todo dia às 5h e deixava todo o café da manhã pronto, colocado na mesa, pensando em mim e nos meus irmãos. Ela trabalhava como empregada doméstica em um apartamento lá no centro da cidade e precisava sair muito cedo de casa todo dia. No máximo, às 5h50. O ônibus passava na rua de baixo sempre às 5h58 – dois minutos antes das 6h. Era para nunca esquecer! A gente acordava para ir à escola e, pouco tempo depois, saía meu pai, também. Minha mãe era sempre a última a chegar, no final do dia. Antes mesmo de tomar banho, ela fazia a janta para todo mundo. Às vezes, ela mesma nem comia. Ela chegava tão exausta que, depois de fazer a comida, vinha o banho e, logo em seguida, o sono. Por vezes, passava a noite na cama, mas, na maioria dos casos, ela ficava mesmo no sofá. Eu nunca soube recompensar tanta gentileza. Na verdade, eu nunca entendi que aquilo era uma gentileza... Você quer me dizer que é isso que eles chamam de um ato de amor? Então, de que serve o amor se ele é sempre aquilo que a gente nunca reconhece? Não faz mais diferença. Um dia eu acordei e finalmente percebi que todo o amor já tinha ido embora: ela tinha sido liquidada exatamente por aquele que ela mais amava.

IV Não, isso não está ajudando. Não, isso não me lembra absolutamente nada. Não, eu não estou fazendo nem quero fazer esforço algum. A gente não precisa lembrar aquilo que a gente não quer. Ainda mais aquilo que a gente nem sabe que sabe. Eu 3


só me lembro de alguém me dizendo que era melhor eu não usar vermelho. Não, não sei por que. Só me lembro de alguém me dizendo que as ruas estavam perigosas. Eu só obedeci. Nunca gostei de vermelho mesmo...

V A gente já pode parar? Aonde você acha que a gente vai chegar com tudo isso? Eu acho que eu já disse tudo que eu queria. Se eu acabar dizendo mais alguma coisa não será porque eu quero e isso torna essa situação toda ainda mais horrível. Você não pode me obrigar a dizer aquilo que eu não quero. Isso é tão óbvio para ser explicado. Já são 3h50. Tudo mundo está dormindo. Será que uma vez nessa vida eu posso ser como uma dessas pessoas normais? Eu só quero acordar amanhã, tomar um banho, vestir minha melhor roupa, pegar um metrô lotado pra caralho, entrar num ônibus que vai demorar cerca de uma hora para chegar aonde quero, trabalhar atrás de uma máquina por horas, dar uma pausa para o almoço, voltar para a máquina, tomar um café, ser a máquina, ir embora, encontrar alguém legal no meio do caminho, lembrar que esqueci algo de que precisava ter me lembrado antes, chegar em casa e encontrar alguém que eu amo para poder contar como foi meu dia e fingir que eu ouço como foi seu dia, só para poder compartilhar a mesma solidão e chegar à conclusão de que essa é a vida que a gente tem. E aí a gente sorri um para o outro. Até que um dia eu sugiro um casamento. Ele aceita e a gente gasta uma puta grana para forjar uma suposta felicidade e depois voltar para casa e ver que tudo continua a mesma merda, mas agora com uma aliança dourada na mão esquerda. Você sabe o que é isso? É incrível o poder de uma bijuteria. Os patrões da minha mãe eram donos de joalheria. Isso é irônico, não? Você não entende? Mesmo trabalhando para eles, minha mãe nunca teria direito a nenhuma 4


daquelas joias. Mas talvez por isso ela tenha sido um pouco mais feliz que todos eles... Já está na hora?

VI Eu perguntei se foi bom para você. Para mim? Claro, claro que sim – ao menos até certo ponto...

VII Eu menti. Foi. Foi exatamente naquele dia em que eu disse que estava tudo bem. Eu menti quando eu disse que estava tudo bem e me joguei naquela cama e a gente transou. Foi uma trepada verdadeiramente horrível. Na hora pode não ter sido tão horrível assim, mas eu estou falando do depois – daquilo que eu senti quando saí dos lençóis, tomei meu banho e voltei para casa. Com uma playlist boa no celular, a gente descobre várias coisas quando entra num ônibus, senta no banco que dá para a janela e vê o longo caminho que tem pela frente. Não, isso não tem nada a ver com amor ou não – e eu repito: não é que eu não acredite no amor. Quero dizer, eu já não sei direito. Talvez ele exista e esse não é o problema. O problema mesmo é quando ele abandona a gente logo no meio do caminho. Aí só restam duas alternativas: ou esquecer tudo e voltar para o início, com um se transformando em alguém completamente desconhecido para o outro, ou seguir em frente, com aquele pouco que restou – porque, claro, isso eu também aprendi: sempre resta alguma coisa. Para algumas pessoas, esse pouco que resta é sempre suficiente... Às vezes, chega a parecer que é a vida mesma que não quer que a gente ame: parece que ela é incapaz de reconhecer o próprio amor. Isso é pura bobagem, eu sei: quem é que vai insistir no amor e quem é que vai escutar essa eterna insistência nessas terras 5


que já conheceram campos de concentração e centros de tortura? Eu só preciso que uma coisa fique clara: ainda é importante falar sobre o amor. “O amor é importante, porra!” – aquela eterna frase tatuada no seu braço esquerdo, um pouco acima do seu cotovelo. E é por você que eu ainda falo. É por nós. Se eu falo sobre amor é só porque eu mesmo não posso dar um beijo nas ruas do centro da cidade sem ser espancado por isso. Meu amor está fora dos padrões. Sim, camarada: tudo por aqui ainda é conservador e restrito demais... (gosto, quero e prefiro acreditar que o ainda faz algum sentido e que tudo isso é só por enquanto)

VIII But you gotta have faith in people: é essa a coisa mais inteligente que você tem a me dizer? Não sei se entendi.

IX Eu me lembro. Eu me lembro de quando ele disse que me amava. Às vezes a gente precisa ceder, no meio do caminho, se não quiser ficar para trás. Escuta: um bebê está chorando no apartamento 512. Você sabe o que isso significa.

Não sabe?

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X Sim, eu me lembro de ter saído de vermelho. Ele me disse que era melhor eu trocar a camiseta, mas eu fingi não o escutar. Eu também não sabia o que poderia acontecer. Puta foi a palavra que eu mais ouvi. A ofensa não era para mim, mas sempre dirigida à minha mãe. Incrível como mesmo nas situações mais banais é sempre para uma mulher que se dirige todo nosso ódio, não é? Enquanto minha mãe limpava a privada dos pais daquela gente, eles insistiam em chamá-la de puta. Isso foi só o começo. Depois, o mesmo vermelho da minha camiseta começou a escorrer pelo meu nariz. Eu não posso dizer que participei de uma briga ou de qualquer coisa do tipo porque seria mentira. Não é briga quando são mais de cinquenta contra um. E tudo por causa de uma camiseta – ou seria por causa da cor? Mas, afinal, qual era o problema com o vermelho? Nunca descobri. Para mim, era uma cor tão primária... Eles gritavam que a nossa bandeira jamais será vermelha. Não sabia aonde queriam chegar. Um deles gritou que meu sangue era uma homenagem a um coronel. Foi aí que reparei nos meus braços: completamente ralados. Sinto um chute na costela e fico sem ar. Recebo outro soco. Sequer consigo gritar porque não acho alguém que poderia me socorrer. Polícia não existe nessas horas. A polícia estava do lado deles. “A culpa é sua por usar essa roupa. Foi você quem pediu!”, me diriam. Então esperei. Dei meu corpo e meu sangue a uma multidão raivosa, esperando que aquilo cessasse em algum momento, quando julgassem que já tinha sido suficiente por aquele dia. Meu sangue inundou a calçada da Avenida Paulista. Fui eu quem pagou o pato por algo que eu não sabia explicar direito. Desmaiei. Me lembro de acordar em um hospital, já no dia seguinte. Não sei como fui parar lá e nunca me interessei em saber. Gosto de acreditar que às vezes acontecem alguns milagres. A TV estava ligada e os noticiários nada diziam sobre 7


mim. Tudo era extremamente pacífico. Também não noticiaram que, nesse mesmo dia, havia uma manifestação no centro da cidade. Da janela do meu quarto, eu via alguns balões e uma leve fumaça. Eram vermelhos. Aquela foi a vista mais bonita dos meus últimos dias. Aquilo parecia ser o que existia de mais verdadeiro naquele momento.

XI Foi assim que ela morreu. Ele chegou bêbado em casa e estourou a cabeça dela com um martelo. Eu fugi pela janela do meu quarto, antes que ele entrasse pela porta. Tentei chamar ajuda, mas, entre a vida e a morte, às vezes o medo fala mais alto. Eu tive medo. Não daquilo que acontecia, mas do que ainda poderia acontecer. Por isso que o medo é sempre tão rasteiro: porque ele age sempre na margem dos possíveis. Nada mais era possível naquele momento. Um líquido vermelho escorria da pia do banheiro. Algo ficou perdido naquela casa e eu nunca fui capaz de reencontrar. Algumas coisas pertencem à ordem do impossível.

XII Era amor, apenas: como aquilo poderia desencadear tantas outras coisas? Eu costumava fechar os olhos e aproveitar o momento. Foi exatamente por isso que eu não vi a multidão que se formou em volta de nós dois. Quando reabri os olhos, já havia cerca de sete rapazes na minha frente. Começou com um empurrão e eu fui direto para o chão. Os chutes vieram em seguida. A gente não sabe o que pensar nessas ocasiões. Porque não bastaria me salvar, se a pessoa que eu mais amava não conseguisse ter o mesmo destino. Então, era melhor que sofrêssemos juntos: mas, céus, sofrêssemos o quê? e por quê? Eu me lembrava de todas as frases que 8


eu mesmo já tinha dito. Lembrei que, na semana passada, era eu quem estava na capa dos jornais, enquanto descia a Rua da Consolação, segurando um cartaz: “Em tempos de ódio, amar é um ato revolucionário”. Mas não houve qualquer margem revolução naquele momento. Eu era só mais aquele um que transformaria a estatística de mortos em 74%, a partir de amanhã. Rasgaram minhas roupas e disputaram para ver quem conseguiria me arrancar o mais forte grito de dor. Mas eu não gritei. Meu silêncio foi minha última forma de resistir. Depois daquilo eu morri. E quero imaginar que, em algum lugar, eu renasço agora, apenas para dizer isso. Mas só eu: ele já não pode mais voltar. E a tal revolução ficou ainda por fazer. A gente pode tentar de novo amanhã?

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