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O RETORNO DO INVENTOR 9 ยบ A N O C - 2 013


Feira do Livro 2013 Oficina de Textos - Projeto Livro da Turma

© Todos os direitos reservados. Proibida a cópia total ou parcial desta obra. Projeto desenvolvido na disciplina de Língua Portuguesa, pelos professores Sérgio Ricardo Lopes Fascina e Darci de Souza Baptista durante o primeiro semestre letivo do ano de 2013. i


DEDICATÓRIA 9º ANO C

Dedicamos esta obra aos escritores de todos os tempos, os quais nos trouxeram seus mundos, suas inspirações, seus medos, suas verdades e suas mentiras, suas certezas e suas incertezas, a fim de que pudéssemos, nas incertezas da vida, ter a certeza de que podemos criar! Podemos mais!

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O F I C I N A D E T E X T O S - F E I R A D O L I V R O 2 013 - P O L I E D R O - S J C

Escritos nas areias do tempo

Ilustração - homenagem à imagem de Padre José de Anchieta

Pegadas, desenhos, areia... Um escritor. Um ser humano que escreve, que cria. O mar que apaga. O tempo que nunca se esgota... o tempo que perpetua... Escrevemos nossas histórias em areias de praias diferentes, apagadas pelo mar de novas vivências, mas nunca esquecidas pelas areias que se movimentam na ampulheta do tempo. Tempo no qual vivemos e no qual escrevemos nossos dias no papel que nos cabe no mundo. Areias que acolhem nossas ideias, nossas escritas e que formam, mesmo que em minúsculas partes, uma vastidão de uma praia sem fim. Pequenos grãos, pequenas ideias, união. Imensidão. Realização. (...) Desde que iniciei meu primeiro projeto de Oficina de Pensamentos, em 2001, ainda na cidade de Curitiba-PR, com uma turma de pequenos alunos que, hoje, são grandes homens e grandes mulheres e os quais são motivo de orgulho, nunca imaginei que tomasse tal tamanho e tal forma. Atualmente, com a Oficina de Textos, doze anos depois, aqui está a prova física a qual é a união de grãos de ideias de 242 alunos do 9º ano do Ensino Fundamental - Colégio v


POLIEDRO - São José dos Campos - SP, formando 7 livros de própria autoria e mostrando que é possível ir além do horizonte além mar. Nos capítulos, palavras apagadas e reescritas com as borrachas das ondas das vontades de melhorar... Nas ilustrações, pérolas moldadas pelos ventos da criatividade, acompanhadas pelas asas inquietantes dos novos pássaros que me visitam, convivem e alçam voos para novos continentes, para suas próprias vidas. Vagas de pensamentos que vêm de longe e que vão ao longe, levando o aroma de um oceano de escritas, de leituras e de momentos. Oceano de possibilidades, de conquistas. Imensidão de agradecimento a todos vocês, pássaros. Voem! Subam! Levem consigo cada grão que lhes pertenceu, formando, nas areias do tempo, marcas de quem foram, de quem são e de quem sempre serão. Criadores de si mesmos!

Prof. Sérgio Ricardo Lopes Fascina Língua Portuguesa - 9º ano - POLIEDRO 2013.

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Da criação e outros fascínios Posso contar-lhes uma pequena história? Aconteceu alguns anos atrás, quando eu lecionava Produção de Texto para uma turma da antiga “5ª série” (sentimos que estamos, de fato, envelhecendo, quando palavras e expressões com as quais nos acostumamos a vida inteira começam, de repente, a provocar espanto nos mais jovens: “Nossa, ele ainda fala em 5ª série!” Nem vou começar a falar da vez em que um aluno do ensino médio comemorava, entre os colegas, o fato de ter ganhado uma moto dos pais como presente por seus dezoito anos recém-completados e cometi a sandice de perguntar-lhe: “Mas é moto mesmo ou é uma vespa?” Trinta e poucos rostos olharam para mim, mudos, à espera que eu confessasse, afinal, se provinha de Marte ou Saturno). Mas são digressões e eu volto à pequena história. Eram meninos e meninas em torno dos onze anos de idade, habituados ao universo macio e aconchegante do chamado curso primário, ou ciclo básico do ensino fundamental, ou seja lá como queiram chamá-lo. E viam-se abruptamente perdidos numa floresta de mais de dez professores de diferentes disciplinas, que iam sucedendo-se no horário das aulas na velocidade da porta giratória de um hotel. Tinham dúvidas sobre vii


tudo, naturalmente: desde a cor da caneta com a qual escreveriam o título de suas redações até se poderiam usar o mesmo nome do seu cachorrinho para dar nome ao cachorrinho do menino muito triste e muito sozinho que ia todo dia à escola e não sabia fazer redação e por isso ficava de recuperação todo ano, pobrezinho. Apesar das dúvidas, contudo, escreviam. Menos um aluno. Que se recusava a escrever uma linha que fosse. Ou até o fazia, porém não ia muito mais longe do que isso. Ou, se fosse mais longe, nunca chegava a lugares muito agradáveis. Odiava a atividade da escrita como um condenado à prisão perpétua deve odiar o calendário. Tentei as abordagens mais diversas: permiti que ele começasse desenhando, antes de rascunhar o texto, pois talvez o apelo à imagem acionasse dentro dele a vontade de contar uma história. Mas ele desenhou coisas impublicáveis. Decidi, então, que ele poderia criar seu texto oralmente, narrando para mim e os colegas as aventuras de suas personagens. Mas ele jogava os braços para trás do corpo, enquanto permanecia lá em pé, diante da turma, e olhava para o chão, o teto, a parede do fundo, não necessariamente nessa ordem, até finalmente dizer que “lhe tinha dado um branco daqueles”. Acuado por minha própria inexperiência ao lidar com uma situação até então inédita para mim, comecei a angustiar-me com a falta de perspectivas para o caso. Eu estava diante não só da iminência de um fracasso escolar, como também de uma novidade, pois era absolutamente novo para mim que um aluno não só acumulasse seguidas notas zero, mas sobretudo que fosse indiferente por completo ao próprio desempenho. Faço questão de destacar, por outro lado, que seu fracasso era relativo, já que obtinha resultados satisfatórios com outros professores. Reavaliei meu trabalho várias vezes naquele período, já disposto a admitir que a falha maior era minha. A verdade que se esboça-

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va, cada vez mais nítida, é que eu simplesmente não fora capaz de dar significado, na vida daquela criança, à tarefa de produzir um texto. Foi então que algo inesperado aconteceu. Certo dia, uma das coordenadoras do colégio onde trabalhava me chamou para conversar, antes da primeira aula. Contou-me sobre o drama que se iniciara recentemente na família do garoto. O avô materno, a quem era muito ligado, encontrava-se hospitalizado, em estado crítico. Não me ocorre agora qual era a moléstia, mas certamente havia uma ameaça de contaminação e a ordem da equipe médica foi proibir com veemência a visita de menores, cujo sistema imunológico ainda é vulnerável. O resultado, portanto, é que o meu aluno problemático estava impedido de aproximar-se de seu familiar mais querido. Foi fácil constatar que esse era o sentimento que os unia, pois ele só comparecera à escola por insistência dos pais e, uma vez obrigado a entrar na sala de aula, instalou-se na última carteira, meio que escondido atrás de um armário. A cabeça mergulhada nos braços cruzados. Enquanto os colegas trabalhavam em pequenos grupos com a atividade do dia, fui até ele. Conversamos o mais discretamente possível. Ele contou-me que implorara a seus pais que o deixassem faltar à aula para poder acompanhá-los até o hospital, mas eles haviam sido irredutíveis e argumentaram que, na escola, pelo menos teria com o que se distrair. Mas ele era, naquele momento, todo feito de sofrimento. Escrever seria a última coisa no mundo que estaria inclinado a fazer, e ainda assim foi o que lhe pedi que fizesse. Foi uma intuição. Se ele não podia entrar no quarto de hospital onde estava seu avô, o que ele escrevesse, sim, poderia. Então ele começou com um bilhete, não mais extenso do que cinco linhas. Usou palavras previsíveis, como “saudade”, “esperando” e “de volta”. Sugeri-lhe pedir a sua mãe que fosse a portadora da mensagem. No dia seguinte, narrou-me, visivelmente mais animado, que ela ix


conseguira ficar com o avô por alguns minutos, tempo suficiente para ler as palavras do neto. Apesar de inconsciente sobre a cama, de alguma forma o garoto acreditava que seu avô as ouvira. Então, como quem não quer nada, perguntei-lhe como seria se, em vez de um mero bilhete, sua mãe levasse uma carta. Seus olhos iluminaram-se com a fagulha de uma ideia: queria contar ao velho amigo que fora selecionado para a equipe de futebol do colégio, e até competiriam com outras escolas. O pai não gostava de jogar bola; o avô é que lhe ensinara as regras do esporte, a história dos grandes times e, acima de tudo, ensinara a amar aquelas linhas brancas pintadas sobre o gramado. Com o passar dos anos, fomos perdendo contato, o que é um pouco o resumo da vida de todos nós. Lembro-me, entretanto, de que muitas cartas foram redigidas naquele ano e endereçadas àquele quarto hospitalar. E aumentaram em extensão e qualidade depois que o avô do menino recuperou a consciência e pôde ele próprio ler cada uma delas. Seu neto, aliás, estava convencido de que nelas estava o segredo da cura. Não sei se essa cura foi definitiva ou apenas uma ilusão à qual nos agarramos quando desejamos desesperadamente que um ser amado sobreviva. Como disse, perdemos contato. Todavia, meu coração aquieta-se quando me lembro do essencial, em toda essa história – e o essencial é que as palavras escritas, para aquele meu aluno que se tornou tão especial, passaram a ter peso, sabor, cheiro, brilho, calor, saudade. Passaram a significar. Quando meu colega de área, Professor Sérgio Fascina, me propôs o trabalho de criação coletiva de uma obra de ficção, integrada ao nosso projeto anual de Língua Portuguesa para o 9º ano, aceitei imediatamente porque reconheci nessa ideia o objetivo maior da Produção de Texto no contexto escolar. O objetivo que transcende a aquisição de regras e exceções gramaticais, o domínio das técnicas de cada modalidade redacional e a ampliação do vocabulário, embora todos esses elex


mentos contribuam para a competência linguística de nossos alunos. Nada se compara, no entanto, ao fascínio da criação: essa maravilhosa possibilidade de gerar outros mundos e viver outras vidas, uma viagem que se inicia no olhar com que contemplamos nosso próprio mundo e nossas vidas mesmas. Prof. Darci de Souza Baptista Língua Portuguesa - 9º ano - POLIEDRO 2013.

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CAPÍTULOS CAPÍTULO 1 - AVIÃO DE PAPEL CAPÍTULO 2 - CHORO DE AMOR CAPÍTULO 3 - TRAIÇÃO DE AMIGO CAPÍTULO 4 - A GRANDE CORRIDA CAPÍTULO 5 - REALIDADE DE SONHO CAPÍTULO 6 - VOLTA DO RENEGADO CAPÍTULO 7 - PROCURA CAPÍTULO 8 - INTERMINÁVEL FINAL xiii


AUTORES CAPÍTULO 1 - Ana Carolina Mintz, Júlia Mendes, Letícia Teixeira, Nicole Spinardi CAPÍTULO 2 - Ana Carolina Pacheco, Ângelo de Luca, Rafael de Vasconcelos, Vinícius de Oliveira, Vitória Camerano CAPÍTULO 3 e 6 - Eduardo Resende, Guilherme Dutra, Gustavo Carnevale, João Abreu, Mateus Garcia, Nícolas Teixeira CAPÍTULO 4 - Arthur Toledo, Bruno Santos, Guilherme Payão, Gustavo Canhisares, Lucas Jansen, Mario de Paula CAPÍTULO 5 - Felipe Rodrigues, Júlia dos Santos, Leonardo Alves. Luíza Nogueira, Nícolas Fernando CAPÍTULO 7 - Amanda Diniz, Daniela Alvez, Ana Caroline Ribeiro e Rebeca Zimmermann CAPÍTULO 8 - Isabela Baltazar, Maria Clara Costa, Mariana Carvalho. Sophia Melo

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AVIÃO DE PAPEL Dobrei duas pontas daquela folha de jornal, fazendo-as se encontrarem quase no meio. Dobrei de um lado, dobrei do outro. “Dessa vez tem que funcionar!” - pensava freneticamente. Subi na cadeira em que estava sentado, soltando um longo suspiro de convicção, deixei que o aviãozinho voasse de minhas mãos, indo diretamente ao chão,

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encontrando-se com os outros milhares de aviões de papéis. Despenquei na cadeira, novamente.  - Desisto... – sussurrei.  Fixei meu olhar na vela que parecia dançar à leve brisa que passava pela janela aberta no cômodo ao lado.  Estou aqui no Sítio da Cascavel, e, por mais que eu tente o dia todo ficar rasgando os meus jornais e dobrando-os para formar um avião, nenhum plana com facilidade! Ainda sinto que serei o herói dos céus, mostrarei aos homens que nós podemos dominá-lo. Ainda tenho projetos de poder fazer história, A História.  Sei que o mérito de descoberta desse maravilhoso meio é dos  irmãos americanos Wright, que efetuaram o primeiro voo em 17 de dezembro de 1903, uma data extremamente importante para mim, que ainda pretendo realizar o sonho de poder ser considerado o primeiro brasileiro a levantar voo de alguma aeronave funcionando a gasolina. Sou o sexto filho de meus pais – Henrique Dumont e Francisca de Paula Santos – vindo na ordem: Henrique, Maria, Virgínia, Luís, Gabriela, eu, Sofia e Francisca. Da minha história, ainda não há muito que contar, com exceção de que minha paixão pelo ar vem desde criança, quando, com apenas um ano de idade,  furava balõezinhos de borracha para ver o que tinham dentro. Sempre que tenho uma idéia nova, anoto, em meus cadernos, alguns rabiscos ou desenhos que depois me façam lembrar. Aos sete  anos,  eu já guiava os locomóveis  da fazenda, ajudando meu pai em seu trabalho diário e, aos doze, divertia-me como maquinista da locomotiva, mesmo que fosse  capaz de fadigar um homem com o triplo da minha idade. Nunca estive satisfeito com o chão, sempre explorava os céus com o olhar.   

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“Vivi ali uma vida livre, indispensável para formar o temperamento e o gosto pela aventura. Desde a infância eu tinha uma grande queda por coisas mecânicas e, como todos os que possuem ou pensam possuir uma vocação, eu cultivava a minha com cuidado e paixão. Eu sempre brincava de imaginar e construir pequenos engenhos mecânicos que me distraíam e me valiam grande consideração na família. Minha maior alegria era me ocupar das instalações mecânicas de meu pai. Esse era o meu departamento, o que me deixa muito orgulhoso”. 

  Desde que li as obras do escritor francês Júlio Verne, nasceu um sonho de conquistar os céus,  os mares e tudo o que o romancista dizia com tanta felicidade, talvez seja a minha vez de brilhar. Ele é o precursor do gênero de ficção científica, tendo feito predições em seus livros sobre o aparecimento de novos avanços científicos, como os submarinos, máquinas voadoras e viagem à Lua. Já passava da meia-noite há muito tempo, e nada que eu fizesse iria me alegrar... era incrível como isso estava me possuindo cada vez mais, uma vez que  eu precisava conseguir fa17


zer meu primeiro projeto funcionar para que meu sonho começasse a tomar um passo de cada vez. Parecia estar perto, só faltava algum detalhe tolo para que eu acertasse tudo. - Querido, que horas são? – perguntou minha mãe com uma voz sonolenta.  - Já passa da meia-noite. – minha voz saía rasgando da garganta.  - E por que não foi dormir? Olhei em seu rosto, que era iluminado apenas pela vela a minha frente, todo amassado pelo sono, com o cabelo preso e todo bagunçado. Tentei sorrir ao ver a imagem de uma bela dama, lutadora e vencedora, exemplo de  tudo o que quero para mim no futuro. Ela forçou um sorriso e se sentou ao meu lado, acariciando meus cabelos.  - Você precisa descansar...  - Eu vou... Depois que conseguir fazê-los voar!  - Alberto, você precisa parar com... – ela percebeu que nada do que falasse me faria mudar de idéia;  estava decidido.  Seu olhar foi ao chão, vendo todos os aviões de papéis, formando um grande entulho. Olhou-me atravessado e se levantou rapidamente atrás de alguma coisa, voltando com uma pequena folha de jornal, dobrando de um lado, dobrando do outro, fazendo os mesmos procedimentos que eu. Ao se levantar da cadeira, fechou os olhos como se enfeitiçasse o avião com seu amor e,  em seguida,  deixou-o despencar nos ares, indo parar do outro lado da sala. Eu estava perplexo, horas tentando fazer e não conseguia uma única vez! Não consegui fingir o meu susto e ainda a olhava perplexo; riu baixo,   lançando-me  um sorriso.  - Posso contar um segredo?  Apenas confirmei com a cabeça.  - Você é um garoto sonhador, como seu pai, seu avô, seu bisavô... Mas há algo diferente entre você e eles – ela fez uma pausa,  olhando 18


para os lados para ter certeza de que ele não chegaria perto – quando você sonha, vai atrás e se dedica, quer, a todo custo, realizar o seu sonho, no que está completamente certo. Seu pai quase desistiu de tudo, mas voltou atrás. Você puxou a mim, mas não sou tão sonhadora, na verdade, meu único sonho era me casar e ter lindos filhos e não foi difícil realizar esse sonho. – ela sorriu  e  me roubou  um sorriso – Já você,  querido, percebo que anda um pouco quieto, tentando demais e se  esquecendo do principal motivo, do principal necessário para funcionar...  Olhei-a desentendido.  - O amor, querido. Além do amor também é preciso acreditar, e você não me pareceu acreditar quando fez esses outros milhares de aviões. Se o seu sonho é voar, você precisa mostrar que é capaz de realizar esse sonho, mas não para eles – apontou para a janela – para você! Se você não acredita em si mesmo, quem acreditará?  Senti um frio tocar a minha espinha.  Ela tinha razão... como pude me esquecer de que,  antes de mostrar a eles, era preciso mostrar a mim mesmo?  Sorri, pegando um avião do chão, girando-o na mão.  - Virar a noite não vai fazer você conseguir chegar a algum lugar, meu amor.  - Eu sei, mas sinto que está tão próximo!  - Talvez o “próximo” esteja debaixo de seu nariz, querido... Já olhou em volta? Tudo em volta está coberto de ar, sua maior paixão, por que não abusar um pouco mais dessa situação? – ela se levantou e beijou a minha testa. – Limpe isso antes de dormir! – apontou para os jornais no chão.  - Não poderia se esquecer, não é?  - Instintos de mãe. – piscou,  entrando em seu quarto. 

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Fui atrás do lixo,  levando os jornais em forma de avião para jogálos, e voltei para a mesa atrás da vela,  para me guiar até o quarto. Deitei-me na cama e fiquei olhando para o teto, pensando no que minha mãe dissera; eu também tinha um sonho. Não só o de conquistar os céus... Refiro-me a sonhos amorosos... Eu também sonhava que,   um dia,   encontraria uma linda moça e,   com ela,  teríamos lindos filhos. Caso não conseguisse realizar o primeiro sonho, tentaria este de reserva. Quem não adoraria estar rodeado de crianças,     ouvindo-as  chamarem-no de “papai”? Principalmente se fosse para apresentar meu novo projeto a eles...  o que seria algo mais incrível ainda.  Mesmo que demore, sei que,  quando acontecer,  vai ser algo para ser lembrado, quero fazer história no Brasil, quero estar registrado. Mostrar que sou a prova viva de que o ser humano não tem limites e que ainda chegaremos à Lua, como o Júlio Verne citou em sua literatura... Aliás, seria muito legal que um dia alguém pudesse chegar lá.   “Com o Capitão Nemo e seus convidados explorei as profundidades do oceano, nesse precursor do submarino, o Nautilus. Com Fileas Fogg fiz em oitenta dias a volta ao mundo. Na Ilha a hélice e na Casa a vapor, minha credulidade de menino saudou com entusiástico acolhimento o triunfo definitivo do automobilismo, que nessa ocasião não tinha ainda nome. Com Heitor Servadoc naveguei pelo espaço.”    Meus olhos passaram a percorrer o quarto pelo mínimo que a vela iluminava, e encontrei uma parede com várias de minhas pipas e com vários de meus pequenos aeroplanos movidos por hélices acionadas por molas de borracha torcida, o que me fez levar os pensamentos à França. País pelo qual sou apaixonado. 20


Por todas as obras literárias que leio, apaixono-me, sendo que a última que li foi a de Camille Flammarion e Wilfrid de Fonvielle, na qual pude conhecer a história da navegação aérea;  mostrou-me que,  na França,  o balão a hidrogênio havia sido inventado.  Quem sabe, um dia, consigo.  Quem sabe, um dia, ainda poderei ter o meu nome estampado na capa de um livro, e, em êxtase instantâneo, poderei mostrar, a todos, quem realmente sou e quem realmente trouxe a liberdade dos céus a todos, e mostrar,  para meus filhos,  o mesmo que a minha mãe mostrou a mim. Voltei à cozinha, em passos rápidos; estava convencido de que, agora, conseguiria... Puxei mais uma folha de jornal, cortando-a em um quadrado perfeito, dobrei ao meio e levei as pontas a ele. Agora sabia. Virei de um lado, dobrei, virei do outro, dobrei. Estava quase pronto! Mordi os lábios inferiores e enruguei os cenhos, finalmente. Levantei-me da cadeira e segurei o avião com precisão; ao jogá-lo, ele deslizou levemente pelos ares, fazendo um leve ziguezague à brisa. Sorri ao vê-lo pousar levemente no carpete. Ouvi aplausos, ali estavam meus pais, sorrindo, e seus olhos transpareciam confiança e orgulho. Esse era o meu destino, e, agora, eu acreditava nisso.

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CHORO DE AMOR Santos Dumont estava nervoso de tanto pensar em seu projeto que tirou o fim de semana de folga. Era uma noite quente de sábado, com muitas estrelas no céu, a noite perfeita para descanso. Havia um novo bar perto de sua casa o qual o inventor nunca tinha visitado; por falta de opções, decidiu conhecer o lugar.

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Quando chegou lá, estava bem movimentado, mais do que ele esperava, por ter sido inaugurado no mesmo mês. Não era um bar muito grande, mas cabia muita gente, aliás, havia tanta gente que ele até se sentiu desconfortável por estar tão mal vestido... Era dividido em três partes: tinha uma parte externa que estava lotada, uma área com sofás e com mesas, e o bar, onde ele viu uma mulher muito bonita, sentada. Ela era alta, loira e tinha um par de olhos muito escuros e comuns, eram quase pretos, mas o hipnotizaram. Não era nem um pouco daquelas mulheres perfeitas que todos os homens querem, mas havia algo nela que chamava todos à atenção. Ele mesmo não conseguiu tirar os olhos da mulher um segundo, desde que chegou ao local. Decidiu se sentar ao seu lado para conhecê-la: - Será que eu posso lhe pagar uma bebida? – disse ele, numa tentativa de ser generoso! - Eu já tenho uma, mas obrigada pela oferta. O homem pediu uma bebida para ele e os dois começaram a conversar. - Como é seu nome? - Maria D’ávila, e o seu? - Santos... Santos Dumont. - Santos Dumont? O do avião? - Sim, o próprio. Então, o que está achando da noite? - Começou a melhorar. Pelo que o homem percebera, ela se interessou por ele. Santos nem podia acreditar! O futuro casal conversou a noite inteira e , depois, ele a deixou em sua casa, ela se despediu com um abraço e entrou. No dia seguinte, Santos não parava de pensar nela, então, como já sabia onde a bela mulher morava, sem nenhuma vergonha, logo bateu na porta: 23


- Santos? O que você está fazendo aqui? – disse ela, surpresa! - Vim buscá-la para um passeio neste domingo à tarde! O que você acha? - Eu acho uma ótima ideia; pode entrar enquanto me arrumo. Fique à vontade. – disse ela, indo em direção ao quarto. Depois de um tempo esperando, ela veio à sala com um vestido vermelho, parecido com o que estava na noite anterior, só era mais básico, sem todas aquelas pregas e detalhes que havia no outro. Era linda!

- O que achou? – perguntou a mulher. - Está maravilhosa... Então, vamos? – perguntou Santos. Concordou com a cabeça e os dois saíram em direção ao parque. No trajeto, suas conversas eram focadas em seu projeto, pois ela estava realmente interessada nisso e ele adorava ter alguém ao seu 24


lado que entendesse do assunto. Foi uma tarde longa, divertida e com assuntos superinteressantes. Durante aquele mês, eles ainda saíram juntos, várias vezes; viraram melhores amigos, depois, namorados... criaram uma ligação muito forte em pouco tempo, mas uma certeza ele tinha: de que se apaixonou por ela desde a primeira vez em que a viu. Depois de muito tempo juntos, ele estava acabando seu trabalho e, quando a convidou para jantar em sua casa, comentou algo, já que os dois adoravam conversar sobre isso: - Maria, eu estou quase acabando o projeto, acho que vai realmente dar certo. - Sério? Não acredito! Você mantém tantos segredos sobre isso... já estou há tanto tempo esperando para ver... Por favor, mostre-me onde você os guarda. Eles passaram por uma abertura no chão que havia por baixo do tapete e foram até o porão; lá estavam todos os trabalhos dele. Maria ficou maravilhada e não conseguia dizer uma palavra, não conseguia parar de olhar para tudo aquilo: - Nossa, isso é magnífico! Não consigo acreditar que você escondeu de mim por todo esse tempo. - Desculpe-me, é que sou realmente inseguro com o que faço... Você é a única pessoa que sabe. - Isso é inacreditável! Mas eu confio em você... Vai dar certo. Eles subiram as escadas; ambos estavam muito cansados, então logo foram dormir. A sua linda namorada passaria a noite na casa de Santos. Ele subiu na sua frente, pois, como de costume, ela foi pegar um copo de água para levar ao quarto. Muito tempo depois, aquela formosura ainda não tinha aparecido... Dumont achou estranho e foi olhar o que estava acontecendo. Quando foi até a cozinha, não achou ninguém... começou a procurá25


la pela casa inteira e não achou nem sequer uma sombra. Ele já estava agoniado quando se lembrou de que tinha um lugar que ainda não olhara. Desceu correndo para o porão e viu uma cena que o magoou muito. Maria estava roubando seus projetos, colocando todos os papéis em uma bolsa grande, o mais rápido que podia. - O que está acontecendo aqui? – Santos disse, inconformado. Maria, sem dar nenhuma resposta, saiu correndo e pulou a janela, mas deixou a bolsa para trás. Ele nem tentou correr atrás de sua amada... apenas se sentou no chão e começou a chorar de raiva, de tristeza, de amor, tanto fazia. Apenas começou a chorar. Nunca imaginou que Maria pudesse fazer aquilo, pois ele a amava com todo coração e ela só queria o lucro de seu projeto. Aquilo realmente o abalou. Depois daquele dia, ele nunca mais foi capaz de amar tanto alguém como fez com Maria e passou a se dedicar apenas ao seu trabalho.

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TRAIÇÃO DE AMIGO Em uma chuvosa tarde de sábado, na França, um homem chamado Pierre andava encapuzado, na calçada. Esse homem acabara de se encontrar com uma mulher, alta e loira... Ele contava uma história na qual seus pais haviam sido mortos por ingleses e, por isso, odiava a Inglaterra , querendo muito se vingar. Pierre, também conhecido por Gustave (nome do arquiteto 27


que criou a Torre Eiffel), era arquiteto e frequentava uma mercearia que, por coincidência, Santos Dumont também frequentava. Certa vez, na fila de pagamento, eles se conheceram: - Olá. - disse Santos Dumont. - Oi, Como vai? - Bem, e você? - Bem também. O que faz? - Sou arquiteto, e você? - Sou projetista, e será que você poderia me ajudar em meus projetos? - Claro, o que você projeta? - Eu crio algumas invenções. Agora, por exemplo, estou projetando um chuveiro de água quente. Você quer me ajudar? -Claro! Então eles foram a caminho da casa de Santos, um cada vez mais apreciando as ideias do outro. Quando chegaram à casa do aviador, o homem ficou impressionado com as invenções as quais haviam sido criadas por Dumont, até que ele viu algo que o chamou à atenção, algo enorme coberto por uma lona. -O que é isto? - perguntou Pierre. - Nada não. - respondeu Santos Dumont. - Vamos! Não precisa esconder de mim. - Bem, eu planejo revelar este projeto apenas ao público. - Mas... - Por favor, não insista. Gustave estava inconformado com a situação e ficou abalado. Depois de subirem do porão, onde o brasileiro guardava suas invenções, Dumont, então, percebeu que estava atrasado para uma reunião. Quando os dois saíram da casa, o francês percebeu que o brasileiro não havia trancado a porta. 28


- Bem... Até depois de amanhã, pois agora eu tenho uma reunião, e ela vai demorar bastante. – disse Santos Dumont, suspirando. - Portanto, até lá. – disse o homem. Quando Pierre chegou a casa, ficou pensando, durante a noite inteira, um modo através do qual poderia se vingar da Inglaterra, e, ao mesmo tempo, vinha à tona sua vontade de descobrir o que poderia haver debaixo daquela lona. Perguntava-se se o que a mulher lhe tinha dito era verdade... (...) No dia seguinte, mais curioso do que nunca, aproveitando-se das circunstâncias, ele foi até a casa de Dumont, abriu a porta e se dirigiu até o local onde estava a lona, e, quando a puxou, lá estava: uma espécie de aeronave, com o nome 14bis escrito em sua lateral; ficou muito indignado com aquilo. Logo ele avistou o projeto e, a cada folha que via, mais se surpreendia e imaginava como poderia usar o 14bis contra a Inglaterra. Não demorou muito e ele já começava a desenhar armas e bombas nos desenhos de Santos. De repente, o brasileiro chegou furioso e viu “seu 29


amigo” mexendo em seu projeto, com o 14bis totalmente descoberto. O então ladrão, Pierre, surpreso com a chegada de Dumont, logo perguntou: - Por que voltou tão cedo? - O que está fazendo aqui? - disse o aviador, zangado. - Eu posso explicar... - Saia de minha casa agora, antes que eu chame a polícia! O homem saiu correndo em direção à porta, com o projeto escondido em seu casaco, porém o criador do 14bis percebeu isso e o impediu de furtá-lo, tomando o projeto dele. O brasileiro se assustou com o que viu e sentiu medo. Lembrou-se do triste epsodio com Maria, do qual nunca se esqueceria... Após trocar as alterações feitas pelo ladrão, ele foi até a polícia e fez a denúncia de que um francês, chamado Pierre, entrara em sua casa e tentara roubar seus projetos. Gustave foi preso e Dumont ficou mais aliviado para colocar em ação o 14bis... No dia 7 de novembro de 1906, o brasileiro inventor preparava-se para ser o primeiro sul-americano a voar em algo mais pesado que o ar. Para isso, marcou para dia 19 a sua primeira exibição sobre a qual ficou preocupado, não sabia se iria dar certo. Dito e feito, no dia 19 estava ele lá com seu 14 bis pronto para voar! Estava nervoso, porém ele começou a acreditar cada vez mais em seu projeto, reviu os cálculos cautelosamente e deixou de lado a probabilidade de que o voo poderia não dar resultado e o avião não voar. Ao ajeitar-se para dirigir a sua “máquina voadora”, ficou feliz, pois era um sonho que tinha desde que era criança. As pessoas que estavam assistindo à tentativa começaram a fazer a contagem regressiva. E a única coisa que ele fez foi fechar os olhos e pilotar a máquina.

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Quando os abriu, sentiu o vento no rosto e viu que estava voando. Mesmo sendo por pouco tempo, Santos achou que era uma eternidade. Ao pousar, todos saíram correndo em sua direção, perguntando a ele qual era a sensação de voar pelos céus. O piloto só disse que estava maravilhado e que todos deviam ter essa oportunidade um dia... Do outro lado da cidade, após pagar a fiança, o ladrão estava andando na calçada e viu o “homem que dominou o céu” nas fotos dos jornais; logo bateu um desejo enorme de vingança. Aproveitou-se quando Dumont estava conversando com várias pessoas, foi até a casa dele novamente e copiou o projeto 14 bis. Pierre, com muita raiva, destruiu o próprio 14bis. Quando terminou seu trabalho sujo, saiu da residência rapidamente, para que fosse mais difícil para o brasileiro perceber quem havia destruído o avião. Pouco tempo depois, Pierre viajou para os EUA, para ver se encontrava um comprador para o que havia roubado. Até que encontrou dois irmãos apaixonados pelo céu, os irmãos Wright. Ele foi conhecendo-os e propôs-lhes uma oferta pelo que havia obtido de forma suja e ilícita. Eles aceitaram a proposta. Após modificarem o projeto e construírem o ‘’seu próprio avião’’, eles voaram. Enquanto isso, Santos Dumont reconstruiu o 14bis, que voaria somente mais tarde... Em 1908, a notícia de que dois homens voaram se espalhou rapidamento pelo mundo... tal herói não era Santos Dumont, e sim os Wrights, que afirmavam ter ‘’voado’’ em 1903, porém sem público... Só em 1908 eles voaram com plateia para comprovar seu feito (ainda assim com o uso de uma catapulta). Deste modo, espalhou-se a ideia errada pelo mundo de que os estadunidenses voaram primeiro. O ladrão sentiu-se vingado, porém ainda queria mais... Com o passar do tempo, o meliante voltou para a França e lá...

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A GRANDE CORRIDA Chega o dia da corrida; todos estão presentes em Paris, na França, para prestigiar a corrida de máquinas voadoras. Estão apreensivos, porque nunca viram como essas máquinas voavam. Entre os competidores, estava lá o glorioso e internacional Santos Dumont, que estava confiante na corrida, pois demorou anos para produzir novamente o protótipo que usaria nesse dia. Tudo estava a seu favor. 32


Dada a largada, todos os aviões decolaram com dificuldades e estavam a aproximadamente quarenta metros do chão, fato que preocupou a todos. A corrida era longa, uma vez que cruzariam a Europa de ponta a ponta, com várias escalas, porquanto acabava o combustível e também não poderiam armazená-lo nas aeronaves, já que, se colocassem nelas galões de combustível extra, voariam mais baixo e com menos velocidade.

Durante o evento, vários pilotos não conseguiram manter a altitude e também a direção do aparelho no percurso, chegando a se perder no meio do oceano. Enquanto isso, na disputa pelo primeiro lugar, estava ele, Santos Dumont, e Pierre atrás. Este estava com pouco combustível porque o tanque de gasolina do ladrão estava com um vazamento. Depois de um tempo, esse vazamento começou a trazer sérias consequências à máquina voadora do sujeito invejoso, pois era ape-

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nas uma cópia da máquina de Santos Dumont e, para piorar sua situação, havia um grande risco de explosão. Com esse fato inesperado pelo ladrão, o verdadeiro criador da máquina, que estava em primeiro lugar, percebeu esse risco e decidiu aproximar-se para que Pierre escapasse desse risco, pulando de seu avião ao avião do competidor trapaceiro. O invejoso quase caiu, mas o aviador experiente fez uma manobra com a qual recuperou a direção de voo, o que acabou causando um prejuízo ao brasileiro. Dumont fez de tudo para mantê-lo na rota, porém o projeto era incorreto e inacabado, de sorte que o avião estava com partes faltantes que não foram roubadas do projeto, e por isso começou a se desmantelar e caiu próximo à chegada. Todos viram isso, inclusive sua amada Maria, que estava escondida para não ser vista depois de ter também prejudicado Dumont. Ela, nesse instante, parou e pensou sobre o que havia feito e sobre o que estava acontecendo... Pensou um pouco em seu antigo amor e em que seu amado se sentia melhor vencendo a corrida do que salvando a vida de uma pessoa. Ficou aí um grande mal-entendido entre todos os presentes... Logo após, os competidores se aproximavam da chegada, onde ninguém estava orgulhoso com a atitude de Santos, mesmo sabendo que a culpa da morte do competidor Pierre não tinha sido sua.

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REALIDADE DO SONHO MANCHETE!

Santos Dumont conquista os ares com sua mรกquina voadora!

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– O QUÊ?! – disse o padre – Como esse homem ousa desafiar o Deus Todo Poderoso?! Isso é um sacrilégio! Esse herege merece a morte! – Mas Padre, tu não achas que estás exagerando? Quero dizer, ele apenas voou por alguns segundos. – Tu estás insinuando que estou exagerando?! Por acaso queres morrer na cruz ao lado dele?! – Perdoa-me minha ousadia, Padre, não tinha a intenção de insultar-te ou de insultar a Deus. – Perdoo-te por tua insolência. Todavia, não podemos deixar esse homem impune! Vamos persegui-lo em nome de Deus! Enquanto isso, Santos Dumont já caía nos braços de Morfeu. (...) Eu me via num lugar bem escuro; não conseguia enxergar nada. De repente, os postes se acenderam e eu percebi que estava na rua. Então, percebi que estava correndo, sem rumo, seguido por muitas pessoas com vestimentas brancas. Sem pensar, escondi-me em um beco. Mas um dos perseguidores me achou. Não consegui ver sua face, mas reparei que ele estava segurando uma cruz. Lentamente, ele foi chegando mais perto, enquanto eu recuava. Então me deparei com um muro. Ele chegava mais e mais perto, enquanto meu coração disparava, quando ele me alcançou... – Cocoricó! – o galo cantou, eram seis horas de uma manhã estranha... silenciosa por demais. – Mas que sonho mais bizarro! Se eu não me engano, eles eram padres. Eu tenho que parar de me preocupar tanto com a Igreja. Mas vamos simplesmente esquecer isso, porque, em apenas algumas horas, eu estarei com minha amada Maria D’ávila... - mas mal sabia Du36


mont que esse seria seu último encontro com a linda jovem... Ela, depois da corrida, voltou a se aproximar do inventor, pedindo milhões de desculpas e explicando que tudo não passara de um mal-entendido. Como o brasileiro era benevolente, deixou tudo de lado e voltaram a se relacionar... Dumont se vestiu como se estivesse indo a um baile da realeza. Pegou sua maleta, seu chapéu e seu relógio e partiu para o centro da cidade. Estava andando pela calçada quando, de repente, foi cercado por um mar de repórteres. Ele tentou fugir, mas, àquela altura, já não podia escapar. Num instante, Dumont perdeu a visão e sentiu seu corpo ser levado, seu sentidos se esvaíam, sua última sensação era de ser carregado. Quando recuperou seus sentidos e sua visão, percebeu que estava em um lugar escuro, úmido e mal-cheiroso. Ele percebeu que havia um monte de brinquedos roídos e destruídos. Estava na antiga fábrica 37


de brinquedos. Suas mãos estavam amarradas a uma cadeira e ele estava cercado por homens em vestes religiosas formais. Dumont deduziu que fossem ministros da Igreja. De alguma forma, aquela cena lhe parecia muito familiar... parecia algo relacionado aos dias anteriores. – Mas o que está acontecendo? – perguntou Dumont. – Eu é que faço as perguntas, senhor Dumont. – disse o Padre, que também estava presente. Dumont não tinha esquecido seu sonho, então já lançou: – Mas eu sempre fui fiel à Igreja, Padre. Paguei o dízimo sem atrasos, esforcei-me para não cometer altos pecados... – Não te esforçaste o suficiente, pois cometeste um dos piores! Tu desafiaste a Deus! Tu invadiste os jardins do Paraíso com tua máquina herege! Sacrilégio! Tu mereces a morte! Inteligentemente, Dumont pegou o canivete que ganhou de D’ávila, o qual estava no bolso de trás de sua calça. – Então, o que preferes? Colaborar conosco e sobreviver ou ser um herege teimoso e ter uma morte lenta e dolorosa? – O que eu prefiro? Eu prefiro fugir! – e, nesse mesmo instante, ele se livrou das cordas e correu em direção à saída. Os ministros bloqueavam a saída e estavam cercando Dumont, mas este alcançou uma corda e subiu para o próximo andar, enquanto os ministros subiam as escadas. Sem outra escapatória, Dumont se lançou da janela e aterrissou em uma pilha de feno. Fugindo sem olhar para trás, o sol já estava se pondo quando Dumont chegou à cidade, mas os ministros haviam-no seguido até lá. Santos, já ofegante pela corrida, escondeu-se num beco, onde esperou que ninguém o achasse. – Acabou! Agora pagarás por teus pecados!

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– Droga! – xingou, enquanto recuava inutilmente até chegar ao fim do beco, o mesmo beco sem saída de seu pesadelo. Ele não tinha escapatória. Quando tinha certeza de que iria morrer ali, uma voz familiar disse: – Rápido! Segure minha mão! Ele segurou a mão do estranho sem pensar duas vezes e saiu dali. Quando se virou para agradecer, percebeu que o estranho era D’ávila!! – Amor! Você salvou minha vida! Obrigado! – Deixe os agradecimentos para depois, agora você precisa encontrar um lugar seguro, corra! Você não tem muito tem... – Dumont a interrompeu com um beijo apaixonado. – Eu sei... se alguma coisa acontecer comigo, saiba que eu a amo, e que nunca a esquecerei... Adeus. D’ávila deixou escapar uma lágrima e Dumont a limpou, antes de pular para o outro lado do muro e começar a correr, sem rumo ou direção. Quando olhou para trás, viu que os ministros já o haviam alcançado e, após alguns minutos de corrida, viu-se encurralado em um penhasco. – Desista! Tu não tens para onde fugir! Agora aceita tua morte como o herege que és! E vais para o inferno! – De fato não tenho para onde ir, mas, ao menos, se morrerei, morrerei fazendo o que eu faço de melhor, voando! – exclamou Dumont e pulou, enquanto os ministros e padres o observavam, atônitos. Essas foram suas últimas palavras. Pelo menos nesta vida.

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VOLTA DO RENEGADO Santos Dumont acordou num lugar cheio de luz, depois de tanto sofrimento, e se sentiu melhor do que nunca. Percebeu que suas roupas estavam limpas e macias. N達o sentia mais a dor da queda... Percebeu que havia um senhor de cabelos brancos e de roupa branca ao seu lado. O brasileiro estava no ch達o, at辿 que o senhor estendeu a m達o. 40


- Não tenha medo; sou um amigo. Dumont segurou sua mão... Ela dava uma sensação de segurança e de bem-estar. Levantou-se. - Quem é o senhor? - Sou seu anjo. - Eu estou morto, não é? - falou para o senhor, com um tom calmo, já sabendo a resposta. - Sim, mas este não é o paraíso. - Isso é o quê, então? - É um plano espiritual. - Por que não posso entrar no paraíso? - Você ainda tem mais uma missão. – terminar o que você começou deveria ser a missão... Santos pensou... – Sabe o que fazer, apenas veja ali embaixo e você entenderá. – o aviador olhou para baixo, através de um buraco no chão largo de mármore branco e deu para ver um lugar escuro. Determinado, esperando mais explicações, pediu: - Você pode me falar como e o que eu vou terminar? - Vai descobrir em breve. – ele olhou para o anjo com impaciência... anjo que apontou para a escuridão. Ao olhar, lembrou-se do lugar. Tinha a sensação de um “dejavú”, pois já o conhecia. Percebeu que era noite, com lua cheia e fria, como o corpo de um defunto e com cheiro também de morto. Via-se num cemitério, um cemitério cheio de lápides e de estátuas velhas. Ouviam-se vozes cantando em uma língua desconhecida a distância. Dumont começou a acreditar que essa era sua missão. O som foi aumentando, as vozes em coro tétrico... sentiu que não era boa coisa. Ao enxergar mais perto, instintivamente, escondeu-se, mas se lembrou de que estava morto e não tinha de quem se esconder. Viu uma lápide que era recente e uma cova aberta com corpos ali. “Recente41


mente enterrados, deduzo pelo cheiro...” pensou o aviador, vendo figuras encapuzadas, t as quais estavam perto de uma cova. Uma delas deu um passo à frete e ordenou que parassem de cantar. - Amigos! – o que parecia o líder falava bem alto para chamar à atenção todos os encapuzados. - Hoje à noite, vamos ressuscitar o espírito que nos ajudará em nossa busca pela imortalidade, em nome de Lúcifer... Que nos dará poder, que nos ajudará a ter o que é nosso e de mais de ninguém. – o líder tirou o capuz. Dumont o reconhecera! Foi um dos seguidores da seita religiosa que o matara. Agora ele sabia qual era sua missão: impedir o plano de ressuscitar esse espírito das trevas.

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Nesse meio tempo, o que comandava o grupo estava agora fazendo o que Dumont entendeu como um ritual, para ressuscitar o morto. O aviador olhou mais perto. (...) Todos ficaram quietos... apenas o mais experiente cantava, aproximando-se da cova com corpos já em avançado estado de putrefação. Santos ficou surpreso com o que o homem fez. O suposto religioso sacou uma faca e arrancou, um por um, os corações das vítimas. - O que ele está fazendo?! - Sacrifício para seu salvador das trevas; em troca, oferece a vida de um espírito – respondeu o anjo. - Que espírito? - O fato de ser anjo não que dizer que sei de tudo, pode ser qualquer um. Nosso herói se perguntou: “Quem pode ajudar esse grupo e o que eles querem?”. - Levante! – gritou o homem do mal; de repente, uma mão surgiu da cova de um morto-vivo. Ele saiu da terra. Ao se levantar, Dumont reconhecera-o: era o ladrão. - O mestre deu a você mais uma chance; se falhar, voltará para as profundezas. - Sim, tudo pelo mestre. – disse em uma voz mais demoníaca do que antes. - Você nos ajudará em nossa causa, eliminar os aviadores existentes e criar novos, que nos obedeçam, e, assim, dominaremos o mundo! Utilizaremos as máquinas voadoras como máquinas de destruição em massa! Já temos os projetos, precisamos de que você os execute. Daremos os materiais, tempo, o que precisar, e você não precisará voltar para aquele buraco.

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PROCURA Estou escrevendo aqui para contar uma coisa sobre minha vida… uma que ninguém sabe. Logo após minha morte, a perícia foi até minha residência para pegar pertences e levá-los ao museu da aviação, mas acabaram achando meu projeto, que, infelizmente, não consegui mostrar ao mundo na sua totalidade.

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Após

um tempo discutindo, a perícia resolveu entregar o meu plano. Odiei a ideia, pois somente eu poderia mostrar esse trabalho à população. Então, decidi voltar à Terra, como um espírito, para resgatar minha invenção. Tive que bolar um plano para poder entrar na orbe terrestre, mas não contava com os imprevistos que viriam a seguir.      Assim que amanheceu, consegui passar pelo Umbral e eu comecei a me aproximar da crostra terrestre. Depois de algumas horas tentando entender que eu não era mais uma pessoa encarnada, eu desci mais. Senti-me muito estranho, pois não conseguia conversar com as pessoas e estava me sentindo sozinho.

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Enquanto me adaptava, ia experimentando diferentes sensações na nova dimensão onde me encontrava. Quais? Por exemplo, a sensação de atravessar a parede não era muito boa… Parecia que eu não me recomporia do outro lado! Durante um bom tempo, fiquei vagando pela cidade até que eu encontrei uma placa mostrando onde era o museu. Tive que esperar até anoitecer, para que ninguém notasse que o projeto havia desaparecido, pois minha intenção era retirar meus documentos daquele lugar.. Mas como? Como eu faria algo no plano físico se agora eu era apenas uma consciência? Tinha anoitecido, fiquei esperando todos saírem para entrar, mas esperei um tempão para abrir a porta. Eu não podia mais abri-la, tinha esquecido de que eu era um espírito, e lembrei que eu podia atravessar paredes. Consegui entrar e fui direto à procura do meu aparelho. Foi então que vi alguns guardas-noturnos conversando sobre um novo projeto que havia chegado:        - Você já viu o que acabou de chegar?        - Projeto?        - Sim! É um projeto do Santos Dumont o qual a polícia encontrou na casa dele assim que ele morreu. Por falar nisso, tudo já está no cofre.                Saí andando por todas as salas, à procura do cofre e, finalmente, achei. Porém não achei as chaves para abrir… fiquei possesso! Até que, porque eu era um espírito… escorreguei e caí dentro do cofre. Tudo era muito grande e o local parecia mais uma enorme sala de preciosidades! Logo após ter visto o que me pertencia dentro de um caixa ao longe, peguei a papelada e saí do cofre. Assim que eu saí, vi que havia muitos guardas e, então, comecei a dar voltas pelo museu. Vi projetos de Bartolomeu de Gusmão, o planador controlável de George Cayley, Samuel Pierpont e vários outros… Fiquei deslumbrado com 46


tantos modelos diferentes que eu nunca tinha visto. Só tinha ouvido falar. Depois de um tempo vagando, como uma boa alma penada que eu era, percebi que os guardas se retiraram para comer. Foi aí que aproveitei e fui correndo com os planos em mãos, quando um vigia viu o projeto se mexendo sozinho… Com medo, ficou paralisado, sem saber que, na verdade, era eu quem o estava segurando. O problema é que ele não me via! Cambaleando, saiu correndo para contar para os outros guardas o que estava acontecendo, mas, na hora em que eles chegaram, eu já estava na porta, indo embora.            A noite estava linda, as estrelas brilhavam muito, nunca vi algo parecido com aquilo, e me bateu uma saudade, um aperto no coração por não poder mais ficar na Terra. Queria poder andar nos aviões modernos, mas, infelizmente, eu não podia. Então eu recebi um sinal, avisando que eu tinha que subir, tinha que voltar para o meu lugar e, quando eu estava subindo, fiquei pensando o que ia fazer com esse projeto… Queria deixar bem claro que dei minha vida à aviação e que fiz de tudo para proporcionar maneiras de o homem sair do chão, de o homem “voar” e de se sentir livre. E eu acho que consegui mostrar isso para o mundo! Além disso, o mais importante: consegui mostrar do que eu sou capaz. 47


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INTERMINÁVEL FINAL No velho museu de aviões, em Paris, onde as mais famosas antiguidades da aviação estão, o vulto da história anda por entre eles. Alberto Santos Dumont admira outras grandes invenções, como as suas, as quais foram roubadas por Pierre, aquele ladrão miserável. Mas tudo iria mudar, e Dumont sabia disso... Pelo menos, como espírito, pressentia! 48


Pierre estava voltando, aliás ele já estava ali. Lógico que ele sabia que nem ele, nem o ladrão poderiam morrer novamente. Contudo, havia uma regra entre as almas penadas que ainda vagavam por este mundo para um acerto de contas: se você conseguisse derrotar seu inimigo, sua alma se libertaria, enquanto a outra seria obrigada a vagar por aí, sem rumo e sem salvação, revivendo toda a dor que causou aos outros enquanto vivo. Dumont se virou lentamente e viu, depois de anos e anos, seu velho inimigo desfigurado pelo tempo. Como que automaticamente, reviu imagens de uma época passada, tempo em que toda a angústia começou, quando sua maravilhosa invenção foi roubada, tempo em que seu grande amor foi diluído. Uma raiva enorme foi subindo pelo corpo dele, consumindo cada parte de sua mente e se voltando a uma única lembrança, tudo aquilo era culpa do “homem” que se encontrava a sua frente. Todas as perseguições religiosas, as guerras, a finalidade errônea de seu projeto, tudo isso seria culpa de Pierre, e aí Dumont se lembrou de tudo o que o infeliz causou, incluindo a sua morte, pois ele era o espírito do mal que controlava aquele maldito padre das trevas. E, como por um impulso, ele falou entre os dentes, colocando, aos poucos, todo o calor do ódio que sentia por Pierre: – Você está vendo isso? Todas as guerras, bombas, mortes de inocentes? Todas as catástrofes mundiais? É tudo culpa sua! O meu projeto do 14 Bis era para o bem! Mas você o roubou e o usou para espalhar o ódio e a destruição! - o ladrão sorriu. Sorriu! Ele, na verdade, deu uma leve gargalhada sarcástica, balançou a cabeça e Dumont jurou que já tinha visto aquela cena antes. – Minha culpa? Há, há! Você devia é me agradecer! (...) Ódio? Destruição? Não são coisas boas, mas foram necessárias para a evolução da humanidade, é um preço que se paga. E eu levei todo o crédito por você! As pessoas acreditam que eu inventei e que eu ensinei os ir49


mãos Wright a voar... E que o causador, assim como você acha, de tais catástrofes, fui eu, porém quem inventou foi você. Digamos que, se eu não roubasse seu projeto e você levasse o crédito por ele, inevitavelmente iriam utilizá-lo nas guerras e o culpado passaria a ser você! Alberto ficou chocado, pois, de uma forma ou de outra, aquele miserável tinha razão, a culpa também era dele: é lógico, quem inventara a máquina fora ele! Não queria aceitar, mas Pierre só antecipou o que era inevitável, pois o ladrão não fora o único a pensar em uma finalidade horrível para o projeto de Dumont. Como ele poderia aceitar que, na verdade, todas as guerras e catástrofes eram culpa dele? Que quem ocasionou toda a angústia e perseguição as quais ele sofreu fora ele mesmo? Não iria aceitar! Uma dor inexplicável surgiu em seu peito. De fato, se já não estivesse morto, iria se matar com as próprias mãos. Então outra imagem aterradora veio a sua mente, que só fez seu coração não existente se despedaçar ainda mais; ele pensou em sua amada, aqueles olhos negros na pele clara e cabelos loiros tão densos que pareciam raios de luz tão fortes como os raios do sol. Ele a perdera para aquele ladrão, ele a corrompera e também a roubara! E, dessa vez, não fora culpa de Santos Dumont! Voltando um segundo mais tarde para a realidade, ele falou mais uma vez, cuspindo ódio diante do ladrão: –Agradecer-lhe? Pelo quê, exatamente? Por você literalmente destruir a minha vida? Você causou minha morte e também destruiu o meu amor! – Destruí? Ela nunca o amou e você simplesmente não entende isso! Eu a usei para chegar até você! Há, há! Ela já estava corrompida muito antes de você a conhecer! Ela trabalhava para mim e foi quem me ajudou a roubar o tão precioso projeto de Alberto Santos Dumont! 50


Ele ficou sem chão; mais uma vez, o ladrão tinha razão. Recompondo-se como que por milagre , disse: – Chega de falar! Nós dois sabemos muito bem por que estamos aqui e por que voltamos para este mundo. Temos que acabar logo com isso e eu proponho um duelo ; um duelo usando exatamente o motivo da confusão. – Você? – Não! Aviões! Eu os inventei, mas você implantou armas neles, então é isso que iremos usar! Pierre não pensou duas vezes, olhou em volta e viu que tinha modelos a sua escolha. Então, correu em direção a um P-47 Thunderbolt, um dos aviões mais utilizados na Segunda Guerra Mundial e com um incrível poder de fogo. Quando entrou, foi logo reconhecer os comandos da nave para poder decolar. Já Alberto ficou meio perdido, pois sempre se recusou a entrar em um avião armado, mas não tinha escolha. Olhou por todos os lados e viu aquelas máquinas gigantes, com turbinas. Lógico que não eram nada modernas para as pessoas da época em que eles se encontravam, aquilo era praticamente um museu, porém, para ele, tudo aquilo era moderníssimo, e quanto tempo fazia que Dumont não pilotava! Certamente havia uns bons anos. Vendo que seu adversário já estava se preparando para pilotar, ele viu, no fundo do galpão, jogado em um canto, um Breguet 14, um  biplano  francês, que foi uma aeronave de  bombardeiro  usada na Primeira Guerra Mundial.  De repente, uma sensação de nostalgia tomou conta de Dumont, pois ele já vira um avião daqueles quando estava na França, muito antes de ser utilizado na Primeira Guerra... Foi quando o maior pesadelo de sua vida aconteceu: seu projeto e seu sonho foram utilizados para propagar o mal, e foram Breguets 14 como aquele, com bombas, que 51


sobrevoaram populações, levando a morte para ser atirada em outros países, matando inocentes. Mas ele tinha que acabar logo com isso, uma vez que ansiava por descansar em paz, e, afinal, ele não estaria matando nenhum inocente, mas, sim, fazendo um favor à humanidade e a si mesmo. Tomando coragem, correu para o avião, enquanto ouvia seu inimigo já decolando. Alberto tentou reconhecer os comandos, porém não lembrava muito bem, e, como que automaticamente, começou a apertar os botões e o Breguet começou a se movimentar, dirigindo-se para a pista de decolagem e foi ganhando velocidade em direção ao céu. Quando já estava a uns vinte metros do chão, tomou conhecimento do que estava fazendo, mas Dumont tinha se esquecido da sensação de voar e, por um momento, ele se sentiu vivo novamente. Enquanto isso, Pierre, que viu seu inimigo tendo dificuldades para controlar seu avião, decidiu atacar e começou a atirar nele. Alberto, despertando de seus pensamentos, desviou-se dos tiros e aumentou sua altitude. Foi tomado pela coragem e pela raiva, lançando uma bomba na direção do ladrão, o qual se desviou com facilidade e berrou: – Você terá que fazer muito melhor que isso se quiser me derrotar, meu caro inimigo! Alberto foi tomado pela raiva e deu meia-volta a toda velocidade, sobrevoou o galpão de aviões e se virou para o rival. O ladrão voou mais alto e, fazendo uma manobra altamente arriscada, deu uma “cambalhota” no ar, indo parar na frente de Dumont. Os dois, sincronizadamente, começaram a atirar, vindo um ao encontro do outro, e, quando estavam prestes a se chocar, Alberto abaixou seu avião enquanto o ser negativo ia ganhando altitude. Logo após, eles fizeram a mesma manobra novamente, voaram um pouco mais alto e se posicionaram um de frente para o outro, recomeçando 52


a descarregar mais projetis de ódio. Porém, Dumont perdeu o controle e os dois aviões se chocaram, causando uma grande explosão e terminando a batalha épica dos dois inimigos. (...) Ele não poderia crer, ele perdera para Pierre. Novamente, fora derrotado e, dessa vez, perdeu com sua própria invenção. Isso era humilhante... o que ele faria? Por onde ele vagaria pelo mundo? Foi quando ele percebeu algo muito estranho: onde estava o inimigo? Olhou para baixo e lá só viu o resto dos dois aviões em chamas... Alberto novamente se lembrou de que estava apenas como espírito... Era apenas mais um vulto na noite. Olhou para trás e viu que seu inimigo não estava melhor que ele. Era isso! Os dois perderam e não tinham salvação! “Que ótimo”, Dumont pensou; além de passar uma eternidade vagando por aí, teria de ficar junto à última pessoa no mundo de quem queria ficar perto, o causador de toda a confusão, o ladrão. Mas, quem sabe, nem tudo estaria perdido? Ele foi em direção ao vulto no céu, foi em direção ao seu maior inimigo, e os dois começaram a batalhar, com trocas de raios de energias... uns mais claros, de Dumont, e outros totalmente negros, os do inimigo maldoso. Contudo, como eram duas almas perdidas, não se machucavam, muito menos sentiam alguma coisa, mas nenhum deles tomou conhecimento disso, afinal, estavam tomados por tamanho ódio que mal conseguiam pensar. Suas vidas se transformaram em uma caça um ao outro. Desde o roubo do projeto, os dois eram culpados pelas mortes de inocentes, porém ninguém admitia isso. O ódio os cegou e o que eles não viram foi que, no mundo, há guerra, pois os homens só colocam culpa no outro e alimentam ódio no coração, deixando-os cegos ao 53


fato de que o assunto é, muitas vezes, tão simples e tão fácil de ser resolvido. Eles gastaram suas vidas fazendo isso e, agora, passariam uma eternidade fazendo o mesmo, brigando, colocando a culpa um no outro. E, até hoje, pode-se escutar, no antigo galpão de aviões, como sussurros no vento, a briga sem fim de Alberto Santos Dumont e de Pierre, ladrão do 14 Bis.

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P R Ó LO G O

DEPOIMENTOS Tive um rendimento grande, pois aprendi uma forma diferente de criar um texto. Aplicando o método do mapa de ideias ou mapa conceitual, o qual consiste em colocam, em ordem, as ideias para um texto melhor. Esse método me ajudou muito na organização de fatos e melhorou muito minha escrita. MATEUS AFRÂNIO Em questão de aprendizado, estou aproveitando este trabalho ao máximo para adquirir maior conhecimento possível. Além de estar aprendendo a matéria, também aprendi sobre Santos Dumont e , é claro, sobre aviação! ANA CAROLINA PACHECO

passar para o ensino superior, é necessário escrever um bom texto e o livro ajudou a melhorar a escrita. Por fim, fazer esse trabalho foi muito diferente de todos, afinal, quando eu teria a oportunidade de escrever um livro? Todas as etapas foram ótimas e cada um participou do seu jeito, dando um excelente resultado! JÚLIA MENDES

Com este trabalho, aprendi muito mais sobre aviação, como trabalhar em grupo e como ultrapassar limites da minha imaginação. Aprendi que o avião não é só uma máquina que voa. Aprendi sobre sua história. Aprendi que não devemos fazer tudo sozinhos... quando temos amigos A experiência de escrever um para nos ajudar. Por fim, aprendi livro foi ótima, pois sempre so- a não estabelecer limites à minha mos os leitores e “estar do outro imaginação; devo imaginar uma lado” é muito bom! Isso, no futu- infinidade de ideias! ro, servirá bastante, pois , para FELIPE GATTO 55


PROJETO LIVRO DA TURMA 2013

Objetivo compartilhado com os alunos (produto final) Um livro (romance) por sala de aula, onde os alunos, em grupo, produzissem um capítulo que comporia uma obra única por turma, seguindo um enredo criado por eles. Justificativa Ao se trabalhar com produção de textos em todos os anos do ensino fundamental, médio, superior e até em níveis mais avançados, nota-se a necessidade imprescindível de uma atividade que contemple um produto final e que seja para um público real, dentro de uma demanda real. Tal fato é muito presente em diversas referências bibliográficas da área, o que leva docentes a criarem projetos educacionais que incitem o despertar da escrita no meio discente, num trabalho paralelo ao de formação teórica sobre gêneros discursivos e teorias adjacentes, além de sobre o uso da Língua Portuguesa. Para tal, aproveitando o ensejo da Feira do Livro 2013, o que se apresenta, através desta obra finalizada, é a proposta de produção de um livro (romance) por sala de aula dos alunos 242 do 9º ano. Além de uma prática de produção de texto, houve o imprescindível objetivo de a atividade proporcionar interações entre os pares e entre as áreas, como aconteceu durante todas as etapas, como preconizado nos PCNs. Nesse contexto, houve a parceria da gramática, explorando as estruturas linguísticas e textuais, com a área de artes, quando da confecção da capa e das ilustrações da obra; com a área de literatura, estudando gêneros, nuances, estilos e possibilidades literárias; e com a área de desenho geométrico a qual possibilitou instalações realilvi


zadas com poliedros, também sobre o tema central proposto para este ano letivo. Ademais, tal atividade reforçou a prática da interação entre alunos atuantes, centro das ações, num compartilhamento constante de ideias dentro de cada grupo e entre grupos, assim como entre os grupos e seus professores. Além de todo o contexto de produção já descrito, apresentou-se a manipulação de ferramentas digitais no processo, uma vez que existiu produção tanto manualmente como digitalmente, inclusive com a confecção de mapas mentais e conceituais, fato que alinha o projeto com as mais utilizadas técnicas de escrita no mundo acadêmico e profissional. Outrossim, houve grande pesquisa sobre o tema de 2013 “PALAVRAS NO AR: O HOMEM, A LITERATURA E O SONHO DE VOAR” e a necessidade da versão definitiva em formato digital, utilizando a tecnologia a favor do maior engajamento estudantil. Finalizando, todos fizeram um texto manuscrito com relatos onde os alunos puderam expor etapas, angústias e conquistas neste ano letivo, e durante a confecção do livro. O resultado está nas suas mãos, prezado leitor. Deleite-se com palavras escolhidas para você. A todos, meu sincero agradecimento, Prof. Sérgio Ricardo Lopes Fascina 25 de maio de 2013 “Nossa maior fraqueza está em desistir. O caminho mais certo de vencer é tentar mais uma vez.” - Thomas Edison

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CONTRACAPA

Uma folha de papel e um menino sonhador: primeiro ele dobra duas pontas e quase as faz se encontrar no meio; depois de outras duas dobraduras – pronto! –, o aviãozinho já pode decolar. Mas a pequena aeronave faz uma curva no ar e despenca no chão... a criança que um dia foi Alberto Santos Dumont chega a pensar que seu sonho é uma ilusão bem tola; ainda bem que ele conta com sua mãe, cujas palavras de incentivo e carinho o impedem de desistir. Anos depois, lá está ele em Paris, prestes a comover toda a Europa com seu projeto 14 Bis. Já não é mais um menino; agora adulto, alterna as horas dedicadas ao seu invento com as horas passadas ao lado de uma bela e misteriosa mulher, Maria. Por que ela insiste em conhecer os detalhes da nova máquina voadora? O mistério, o suspense e a aventura intensificam-se ainda mais quando entra em cena Pierre, um inimigo que fará o desafio de Santos Dumont de voar parecer pequeno. Enquanto isso, como pano-de-fundo, os palcos da Segunda Guerra Mundial e do portal espiritual entre a vida e a morte. Embarque nas páginas escritas pelos alunos do 9º C para voar com o pai da aviação!

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O RETORNO DO INVENTOR