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Fascículo 39

junho/2013

FRB

O mundo artístico de Speto Conheça um pouco mais sobre um dos grafiteiros mais famosos de São Paulo

Por Juliana Trombini

O grafiteiro Paulo Cesar Sil- começou a desenhar shapes. O plásticos e, principalmente, Pava é popularmente conhecido universo do skate era fechado, blo Picasso. como Speto. Ele nasceu no dia para poder desenhar shapes, era Para o Speto, o grafite é uma 19 de dezembro na zona norte necessário saber andar. Quando forma de comunicação. Tratade São Paulo. Filho de mineiro começou a fazer anúncios para se de uma mídia de fácil acesso, com paulista, desde criança já a revista “Yeah”, chegou a tra- pois está na parede, no dia-ademonstrava paixão por skate. balhar em quase todas as mar- dia das pessoas, sem a necessiAtravés de dois dade de conectar-se filmes estrangeina internet ou ligar a ros exibidos no televisão. Ele acha erBrasil em 1985, rado os artistas quereBeat Street e rem que as pessoas o Breakdance, entendam exatamente descobriu o que o que eles queriam era o grafite e fipassar, pois é uma cocou fascinado. municação pura, com Possui dois a liberdade de gostar irmãos que são ou não e interpretar artistas também. o grafite de maneiras O mais velho é diferentes. pintor e o do meio Ele ficou com um é músico e am- Eu amo muito. Trabalho do Speto apresentado na segunda edição da Bienal hiato de três anos bos também dese-Internacional Graffiti Fine Art. Créditos:Divulgação sem expor sua arte e nhavam. Então, desde pequeno, cas existentes na época. Anti- aproveito o tempo para fazer o desenho já fazia parte de sua gamente, desenho, ilustração e uma grande reflexão. Depois de vida e, com o apoio e incentivo grafite seguiam caminhos difer- ficar um tempo sem pintar nas dos pais, realizou cursos volta- entes, mas o grafiteiro trilhou ruas, ele voltou quando sentiu dos à arte. No condomínio onde pelos três simultaneamente, até que era o tempo certo de retormorava, seus colegas pediam eles virarem um ponto de con- nar. Para ele, a arte tem que ser alguns desenhos e tatuagens de vergência. realizada quando há vontade canetinha e ele cobrava pelos Seus grafites têm forte in- e não por obrigação. Também seus serviços. fluência da arte folclórica e sua deve-se buscar novos caminhos, Em 1986, começou a trabal- inspiração vem de diversos ar- técnicas e atividades para o aprihar com o skate, com ilustrações tistas, como ilustradores, fotó- moramento das habilidades e para a revista Época. Depois grafos, artesanatos, artistas também para a evolução da arte.


Tour pelos grafites de São Paulo A capital contém grande acervo de arte urbana e ganhou um guia

Por Juliana Trombini

A cidade de São Paulo pode ser considerada por alguns artistas uma grande tela branca que precisa de um pouco de tinta. Os grafiteiros transformam os muros sem graça e sem vida em arte. Não são necessários ingressos ou filas, apenas disposição para andar pela cidade em busca da arte. Para os artistas, de cinza São Paulo não tem nada. Os grafites espalhados pela cidade dão cor e alegria à capital paulista. Cada vez mais moradores da região estão apreciando essa arte que, por algum tempo, foi julgada e comparada com a pichação. A Secretaria de Turismo da cidade de São Paulo (SPTuris) percebeu isso e resolveu criar um guia para os interessados visitarem os principais pontos da arte urbana na região. Ele está disponível no site da SPTuris. São 25 dos principais pontos da capital, do bairro do Tietê a Faria Lima. O Guia da SP Turis Realizamos o tour disponibilizado para verificar o que ele podia nos apresentar. Escolhemos como ponto de partida a Praça da República, por se tratar da região que engloba a maior quantidade de marcações no mapa. A Central de Informações ao Turista (CIT), que fica ao lado da Secretaria de

Depois seguimos à Floresta Urbana que, segundo o mapa, era próxima à estação Anhangabaú. Foi, então, que os problemas do guia começaram a aparecer. A única informação que consta sobre essa floresta é que ela está localizada na Praça Paulo Kobayashi, sem endereço ou ponto de refer-

nida Consolação até o nosso ponto de partida, continuando a pedir informações sem nenhuma resposta com certeza absoluta. Próximo ao Terminal Bandeira, encontramos um funcionário da SPTuris e ele nos informou o local da praça. Ela ficava ao lado da Câmara de Vereadores de S. Paulo.

Arte em São Paulo. Um dos muros da Floresta Urbana, localizada na praça Paulo Kobayashi no centro da Capital. Créditos: Juliana Trombini

ência. Seguimos à Prefeitura de São Paulo em buscas de mais informações, mas por ser sábado, ela estava fechada. Então conversamos com os policiais do posto de atendimento em frente ao prédio. Quando informamos que o mapa pertencia à SPTuris, uma das oficiais disse: mapa serve mais para atra"Os grafites espalha- "Esse palhar do que para ajudar. Se já dos pela cidade dão confunde os moradores da capital, cor e alegria à capital imagina os turistas de outras cidades e estados." paulista." Pelo nome, ninguém conhecia a Educação, foi o primeiro local do praça e cada vez que perguntávamapa que encontramos. Um gato mos o caminho, cada oficial nos colorido com o Museu de Arte de indicava uma direção diferente. São Paulo (MASP) no fundo em Após muitas perguntas, chegamos uma das laterais da banca da CIT à Praça Franklin Roosevelt pela era um dos grafites mais famosos Avenida Augusta. Lá, encontramos da grafiteira Minhau (Camila Pa- um pequeno local, que fica acima vanelli), conhecida por grafitar, pela da Radial Leste, com alguns grafites capital, diversos gatos com as cores interessantes, inclusive da grafiteira mais vibrantes possíveis. Minhau. Então seguimos pela Ave-

Superestimação de alguns pontos do roteiro A Praça Paulo Kobayashi não faz jus ao apelido de Floresta Urbana. É um local pequeno utilizado majoritariamente por skatistas, por possuir rampas e corrimãos. Os grafites são muito bonitos, mas por pertencer ao guia, a expectativa era maior, pois passamos por outros pontos igualmente importantes durante a busca pela floresta. Seguindo ao bairro Liberdade, procuramos os dois grafites marcados no guia. Desta vez havia endereço, porém nenhum número indicando a altura. As avenidas Glória e Galvão Bueno são extensas e percorremos parte delas a partir da estação Liberdade até a divisa com o bairro Cambuci. A única arte que encontramos foi uma gueixa grafitada na parte de trás de uma banca de jornal na Avenida Glória.


Na região da Paulista, a situação não foi diferente. Nenhum dos pontos indicados no mapa foi encontrado. No cruzamento da Avenida Paulista com a Avenida Consolação, encontramos alguns grafites, dentre eles do grafiteiro Kobra, que retrata a Amazônia numa visão pessimista, com animais mortos e floresta devastada pelos incêndios e desmatamento. Pontos positivos Apesar do guia ser desorganizado, sem informações relevantes e com mapa precário, segui-lo faz com que os turistas conheçam grafites não marcados no mesmo, principalmente na região central. Alguns exemplos já citados na matéria comprovam isso. O próprio roteiro tem suas vantagens. Ele possui um pequeno resumo da biografia dos principais grafiteiros da capital, além de algumas imagens de suas principais obras. A cidade de São Paulo vai muito além dos grafites informados no guia do SPTuris. A intenção da Secretaria de Turismo foi boa, mas ainda há muito que melhorar para se tornar um guia confiável e efetivo. Street Art View Para quem quiser realizar um guia mais completo e sem risco de se perder, do site Street Art View disponibiliza a localização de quase todos os grafites da capital. Ele funciona como o já conhecido Google Maps, mas tem como objetivo apontar o maior número de grafites possíveis nos quatro cantos do mundo. Por ser feito por fãs, qualquer pessoa pode acrescentar um grafite novo ou que não constava previamente por meio da opção “adicionar arte”. Outra vantagem também é que a pessoa pode montar o roteiro da forma como desejar, escolhendo alguns bairros de sua preferência e traçando sua própria rota. Além da liberdade, a credibilidade por ser algo atualizado sempre, dá mais confiança àqueles que desejam percorrer São Paulo atrás da arte urbana.

Escolas de Grafite na Capital Por Juliana Trombini e Caio Soares

A divulgação da mídia influenciou na criação de cursos de grafite pela cidade de São Paulo, pois a demanda começou a aumentar consideravelmente. Cada vez mais instituições voltadas a este segmento estão se especializando e investindo na capital. A Escola São Paulo disponibiliza um curso de grafite com 24 horas de duração, divididos em cinco dias letivos, de terça a sábado. As aulas são disponibilizadas uma vez por semestre. O professor Apolo Torres, artista plástico e ilustrador freelancer profissional, é quem as ministra. Seu trabalho já foi exibido em galerias de vários países, como Estados Unidos, Itália e Alemanha. O objetivo da oficina é proporcionar aos interessados a oportunidade de demonstrarem suas expressões artísticas, e oferecer uma chance real de executarem projetos de intervenções urbanas, além de

ampliar na prática seus conhecimentos sobre técnicas fundamentais do grafite. Torres, docente da escola, afirma que a meta não é apenas encaminhar os alunos ao mercado de trabalho. “O intuito é mostrar que mesmo uma manifestação que já foi considerada transgressora, requer disciplina, organização e dedicação”. Nas aulas teóricas os alunos aprendem sobre a história do grafite e debatem aspectos sobre a arte urbana. Já na prática podem grafitar um muro autorizado em São Paulo, utilizando técnicas de spray aprendidas ao longo do curso. Entrevistada, a atendente do setor comercial Glenda Haack contou a respeito da demanda do curso de grafite: “A procura já é boa e cresce cada vez mais. Normalmente temos turmas entre 15 e 20 alunos”.

O surgimento do Lambe-Lambe Por Juliana Trombini e Rodolfo Grossi

O Lambe-lambe, originalmente chamado de poster-bomber, é um movimento artístico urbano visto em espaços públicos, sendo dividido em vários tipos: com fotografias, pinturas, xilogravuras ou cartazes colados. Segundo o artista norteamericano Shepard Fairey, em seu site OBEY, o primeiro poster-bomber é de sua autoria. Utilizando papéis adesivos na década de 1980, retratou o rosto de um famoso lutador deluta livre e ator francês, André Roussinof. Após esta criação, acabou alastrando-se pelo mundo inteiro. Nos anos seguintes, Fairey explorou diferentes tamanhos e justaposição da imagem com outras figuras marcantes da época. Em outra experiência, adicionou o fundo vermelho e a mensagem, OBEY, que significaria: não devemos obedecer, devemos questionar o poder

dos políticos e das corporações. Por uma década os pôsteres foram espalhados, com essa mensagem. No Brasil também foi usado para fins artísticos e publicitários, tendo como percursores alguns grupos artísticos conhecidos como SHN e Fefe Talavera. Não há nenhuma referência fixa para quando surgiu em nosso país, pois as informações são incertas, desencontradas e fornecidas por pessoas que vivenciaram a época nesse processo. O objetivo, como arte, é a aproveitar espaços abandonados na cidade dando uma nova função para aquele local ou objeto, causando diferentes sensações em seus observadores e um sentido diferente a seus criadores. Além de ser utilizado como uma forma de publicidade, assim como se é utilizada atualmente com a divulgação de shows e serviços pelos muros e pontos de ônibus da cidade.


A capital nada cinza Por Juliana Trombini e Rodolfo Grossi

Assim que é São Paulo. Você anda por meio dessa cidade que muitos chamam de coração do Brasil, por ser uma capital financeira, a mais populosa da América Latina e uma das mais influentes no globo. Nos deparamos com paredes, portões, bancos de ônibus cheios de rabiscos, letras desconexas, símbolos, que com suas identidades misteriosas, que até mesmo não possa ser atribuído algum tipo de sentido por nós, leigos no assunto, encobrem o cinza da Selva de Pedra Paulistana. Muitos, porém, chegam a possuir formas em representação de cenas ou até mesmo personagens importantes no nosso dia-a-dia. Diante a este borbulho cultural, conseguimos tirar de nós algum tipo de emoção, seja ela de indignação, revolta, tristeza, medo... Existem até grafites coloridos que podem nos motivar e nos encher de alegria,

com sensações assimiladas com suas origens. Na verdade, é como se a vida marcasse com esses rabiscos, anonimamente, essas paredes cinzas. Cinzas só pra nós. Quem os faz, sabem o querem dizer, sujando ou colorindo estes locais públicos, de difícil acesso, em alto de prédios marcando com suas cores e estando sempre alerta de quem os reprime, mas estão fazendo. Deste anonimato, atrevido, agressivo, pede passagem, por favor? Nem tanto. Mas não deixam por menos: entram nos vazios e os preenchem, seja um canteiro de obras até mesmo invadindo uma casa. Deixam sua marca, de maneira silenciosa. Cores ou preto e branco, letras, números, símbolos, seja o que for, eles estão lá, mudando a aparência desta metrópole. Ilustram o vazio para buscarem uma expressão, fazem o bonito, nos presenteiam com sua

beleza. E ficam assim, obrasprimas expostas para todos verem. Alguns, do anonimato saíram. Outros nem querem. E tem outros que almejam serem reconhecidos. Fazem de tudo para aparecer, mas espera aí, não era de anonimato que viviam? Então, de qualquer forma, atrás de uma marca se escondem, fazendo da São Paulo um teatro vivo. Criaturas de arte de revolta, martírio, paixão ou até mesmo de anonimato. Trazem consigo pra este teatro, uma vida urbana com mais dor e claro, cor. Imagens e cores que provocam, uma moça gritante na Avenida Tiradentes, uma coruja na Praça Paulo Kobayashi, um abstrato na Avenida Nove de Julho, em meio a esse vai e vem, vem e vai de cada paulistano, ganham nova cara, que encobrem o cinza da Selva de Pedra Paulistana.

Vida à cidade. Na avenida Augusta, assim como no restante da Capital, algumas praças e locais abandonados ganham cores graças aos grafites. Créditos: Juliana Trombini

Serviço

Curso de Grafite: Arte Urbana – Traços que dão voz à cidade. Quem oferece? Escola São Paulo, economia criativa. Onde fica? Rua Augusta, 2239 e 2074. Jardim Paulista São Paulo - SP Mais informações pelo telefone (11) 3060-3636 ou pelo site: www.escolasaopaulo.org/atividades/grafite-inverno-2013/grafite

Foca em Sampa: Grafite  

Suplemento elaborado pelos alunos da 5ª etapa do curso de jornalismo - disciplina Edição I. Orientação: Profª. Renata Carraro.

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