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MANUEL ALEGRE (1936-

Imagem ~ aqui

A.A. ~ 2010-2011 Prof.ª eli


O homem do país azul

Ninguém sabia ao certo quem ele era nem de onde tinha vindo. É de Aqui, diziam uns. De Acolá, diziam outros. Por vezes alguém insinuava: talvez tenha vindo do Além. Ele, porém, sorria. Em certas noites de festa, dizia displicente: - Sou de um país azul. Podia ser italiano, argentino, eslavo, magrebino, era difícil dizer, tinha um rosto moreno e uns olhos cinzentos. Apareceu em meados de Setembro, nesse ano de Verão prolongado. Frequentava os cafés do Quartier Latin onde costumavam americanos.

juntar-se Às

vezes

os

exilados

vinha

só,

portugueses, outras

espanhóis

acompanhado

por

e

latino-

mulheres

esplendorosas, quase sempre muito loiras, alemãs ou suecas, sempre diferentes, nunca ninguém o viu dois dias seguidos com a mesma mulher. Chegou mesmo a suspeitar-se que estivesse envolvido no tráfico de brancas. Fosse como fosse, ninguém resistia à sedução do seu mistério. Havia, é certo, sobretudo da parte dos espanhóis, alguma prevenção, senão mesmo desconfiança. Eu creio que era ciúme. Eles suportavam mal a superioridade masculina e conquistadora de Vladimir. Assim dizia ele chamar-se, sem que ninguém pudesse garantir que era esse o seu nome. Verdade seja dita que isso não era importante. Ninguém sabia ao certo quem era quem, quase todos usavam pseudónimos, alguns até sem necessidade. Era uma espécie de snobismo revolucionário e romântico, naquele tempo em que tudo se misturava, a revolução, o amor, o mistério, a aventura, por vezes a morte. De modo que Vladimir foi fazendo parte daquele povo de muitos povos feito. Sentava-se connosco debaixo das pontes, junto ao Sena, naquelas noites em que por vezes se ouvia a guitarra flamenca, uma flauta dos Andes, mais raramente uma balada portuguesa nostálgica e triste.


Em meados de Outubro, já as folhas tinham começado a cair, enchendo os boulevards de uma suave melancolia, o nosso homem deixou de aparecer. A princípio ninguém falou muito nisso. Depois começaram as perguntas, as inquietações, as diferentes teorias sobre o seu desaparecimento. Creio que foi então que a sua lenda começou. Não passa de um chulo, diziam alguns, sem grande convicção. Talvez um espião, sugeriam outros. Era tão bonito, diziam as mulheres, sobretudo as portuguesas, que, mais do que as espanholas, precisavam de afirmar a sua recente emancipação. Curiosamente, foram os espanhóis, principalmente os bascos, que tomaram a defesa de Vladimir. Estavam agora em condições de garantir, embora

não

explicassem

porquê,

que

ele

era

alguém

de

grandes

responsabilidades no movimento revolucionário mundial. E fechavam-se em copas. Não precisavam, aliás, de acrescentar mais nada. Aquele era um tempo em

que

se

acreditava

pela

necessidade

e

pelo

gosto

de

acreditar.

Precisávamos de atitudes exemplares, de grandes mistérios, de heróis, de mitos, às vezes de mártires. Por vezes um dos nossos desaparecia, era preso na fronteira, ferido em combate, torturado em Espanha, morto no Brasil. Sentíamos então uma grande revolta e ao mesmo tempo um íntimo orgulho, era um pouco de nós que estava algures a fazer História, éramos parte de, em África, na Ásia, na América Latina, mesmo na Europa, onde só alguns bascos e portugueses pensavam então que a revolução ainda era possível. Não admira que desde então passássemos a ver o dedo mágico de Vladimir em cada novo foco guerrilheiro. Um dia apareceu numa revista francesa uma reportagem sobre as guerrilhas da América Latina. E logo alguns juraram que aquele tipo (os espanhóis diziam tío)

de barba muito

negra, que se via ao lado do chefe da guerrilha venezuelana Ruben Bravo, não era outro senão Vladimir, o do país azul. Outros (ou os mesmos)


julgaram

apercebê-lo

num

documentário

sobre

uma

sublevação

de

camponeses no Nordeste brasileiro. Mas foi com as primeiras acções dos Tupamaros que os bascos começaram a sorrir de modo significativamente enigmático. Tempos depois vieram com uma revista mexicana que trazia a primeira grande reportagem sobre os Tupamaros. - Mira – disse um dos bascos – que te parece? Era de facto impressionante. Aquele olhar, aquele sorriso. Só a barba parecia demasiado clara, embora a fotografia estivesse pouco nítida. Era o retrato de um dos guerrilheiros urbanos capturados em Montevideu depois do rapto de um embaixador ocidental. Não trazia nome, a legenda dizia apenas: «Uno de los principales jefes terroristas». Sim, é ele, diziam todos. - Por isso é que ele dançava tão bem o tango – lembrou uma portuguesa especialmente nostálgica. Foi assim que Vladimir passou de herói a santo e mártir. Chegou a pensar-se em organizar um movimento de solidariedade, talvez um comício na Mutualité. Passados os primeiros entusiasmos, começaram a surgir as dificuldades. Solidariedade com quem, eis a questão. Ninguém sabia como se chamava Vladimir e era mais que certo que ele devia usar agora outro nome de guerra. Vladimir, o do país azul, podia ser um título de novela ou de poema, mas era talvez inadequado para um movimento de solidariedade. Surgiram depois dúvidas sobre se seria ele. Era grande a parecença, mas talvez fosse coincidência, nada mais. A fotografia estava um pouco tremida, não era possível ter a certeza. Vieram por fim as divergências ideológicas. Os latinoamericanos queriam um movimento de solidariedade com todo o continente em luta, não apenas com um preso que, ao fim e ao cabo, nem se sabia ao certo quem era.


-

Porquê

com

a

América

Latina?

contestou

um

português

recentemente chegado a Paris. – Então e a luta dos povos de Angola, Guiné e Moçambique? - A frente principal é o Vietname – recordou um velho catalão, que de quando em quando não resistia à tentação de vir contar mais uma vez a extraordinária aventura da comuna anarquista da Catalunha. De dissidência em dissidência chegou-se a novas fracturas e a novos cismas, com as inevitáveis excomunhões e os consequentes reagrupamentos. Vladimir não foi esquecido, mas era evidente que a polémica ideológica o tinha relegado para segundo plano. Ideologia antes de tudo. Aquele era um tempo de ser tanto mais quanto menos se era. Como nas religiões orientais, o ser individual devia despir-se da sua substância própria para se dissolver na grande substância alheia: o partido, a classe, a revolução. Esta tendência agravou-se consideravelmente com o advento dos maoístas. Ainda tentei remar contra a maré, apoiado sobretudo pelos bascos e catalães, incapazes, como eu, de se despojarem da individualidade própria e do impulso libertário. Já o mesmo não posso dizer de alguns compatriotas, talvez demasiado marcados pelo espírito do Concílio de Trento e da Contra-Reforma. Inútil lembrar-lhes o aviso de Antero contra o jesuíta, o fanático e o beato que trazemos dentro de nós, mesmo quando nos julgamos progressistas. Inútil citar Hegel e a sua afirmação de que a liberdade começa na consciência de que cada homem é um ser único e insubstituível. Eles disparavam-me mil citações para me provarem que é o ser social que determina a consciência e não o contrário. Tentei ainda uma outra interpretação das teses de Marx sobre Feuerbach. Respondi-lhes com os Manuscritos de 1844, que nenhum deles tinha lido. Em vão. Eles crucificavam-me com um marxismo de sotaina e de sebenta. Ainda por cima eu tinha sido apanhado a ler Camilo, Rilke, Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Camus, sobretudo Camões. Comecei a ser suspeito de heresias irreparáveis. Senti uma grande saudade daquele Setembro de folhas levadas pela morna brisa, enquanto cantávamos canções nostálgicas junto ao Sena. A harmonia tinha-se quebrado. Algo tomava agora


o lugar da despreocupação, da aventura e do mistério de que Vladimir tinha sido um símbolo, quando chegava com as suas companheiras muito louras, secretamente cobiçadas pelos espanhóis. Durante algum tempo continuei a aparecer no Select Latin. Mas a cisão tinha-se instalado irremediavelmente. Com alguns bascos e catalães, passei então a frequentar o Dôme, em Montparnasse. Falávamos de Antonio Machado, Lorca, Oliveira Martins de quem eles gostavam. Quando bebíamos demais, acabávamos invariavelmente em Lope de Veja. Quien mato al Gobernador? Fuenteovejuna. E quien es Fuenteovejuna? Todos a la una. Por vezes recordávamos Vladimir. Quem era ele, afinal? Estaria mesmo preso em Montevideu? Pouco a pouco cada um foi indo à sua vida. O grande cisma cresceu, houve novas fracturas e novas excomunhões, fizeram-se, desfizeram-se e refizeram-se grupos, mesas, cafés. Alguns partiram, outros chegaram, agora sobretudo de Portugal, que fornecia o contingente mais numeroso, com os seus desertores das guerras africanas. Também eu acabei por partir. Dois anos mais tarde estava no Cairo, para participar numa conferência sobre o movimento de libertação de África. Passeei à beira do Nilo pensando no infante D. Pedro das Sete Partidas. Também ele por ali andara. Como ele, eu era um português errante, culpado, como ele, de não querer que o meu país trocasse a boa capa por mau capelo. Aí estava uma boa ideia: porque não fundamentar, na conferência, a crítica às guerras coloniais nessa portuguesíssima política de fixação (oposta à do transporte e da conquista), de que o infante D. Pedro foi o primeiro defensor? Visitei as Pirâmides e deixei-me fascinar pela Esfinge. Das suas órbitas vazias o tempo sorria ironicamente para mim, pobre mortal condenado a ser como a areia do deserto, poeira, nada mais do que poeira. Creio que nunca me senti tão frágil, tão transitório, tão de passagem, como nesse momento em que vi o tempo e a eternidade nas órbitas vazias da Esfinge.


Por isso ainda hoje estremeço ao recordar o sorriso com que, ao voltar à conferência, alguém me fitava, duas filas adiante da minha. Era o mesmo sorriso da Esfinge. Voltava-se para trás e olhava para mim. Senti um baque, não quis acreditar, mas não havia dúvida, já ele se levantava e me fazia sinal. Abraçámo-nos no corredor. - Vladimir. - Abdul – corrigiu ele. Perguntei-lhe por onde tinha andado. Ele respondeu-me em inglês, sempre com um sorriso: - Para lá das montanhas, num país azul. Contei-lhe a história da sua própria lenda e pedi-lhe para me dizer se era ele ou não o guerrilheiro preso em Montevideu. - Quem sabe. Montevideu é uma cidade azul. E mais não consegui. Fazia parte da delegação palestiniana e, à noite, na recepção oferecida por Nasser (que tinha uns olhos grandes, de águia real), apareceu ao lado de Arafat. Recordámos Paris e os amigos comuns, rimo-nos com o ciúme machista dos espanhóis. - As tuas mulheres? – perguntei-lhe. – Agora, que és Abdul, deves ter um harém. - Sou como os índios – disse ele, em tempo de guerra pratico a castidade. - Não acredito nesta história, tu não és palestiniano. - Quem sabe – respondeu -, já te disse que sou de um país azul. Pode ser a palestina. A Palestina é um país azul.


À noite entregou-me um poema intitulado Palestina. Estava escrito em português.

Há um nome para escrever Entre uma ferida e outra ferida Um nome como não haver Outro lugar para a vida

Há um nome para dizer Onde só morte se diz Um nome como não haver Outro nome de país

Há um nome para morrer Entre uma esquina e outra esquina Um nome para nascer Sobre o cerco e a ruína Um nome como não haver Outro sonho e outra sina Senão a força de ser Palestina.

Fiquei perturbado. Só um português podia ter escrito aquele poema. Não era uma tradução. Era um original em português. Foi o que lhe disse. - Não me digas que sabes português ou que és português. Ele riu-se.


- Quem sabe. Portugal também é um país azul. E mais não disse. Confesso que me irritei. Só o respeito pelas regras conspirativas me impediu de fazer uma cena. Teria sido uma indelicadeza qualquer tentativa para o forçar a desvendar um pouco do seu mistério. E assim nos separámos. Hasta siempre, disse ele. Até sempre, respondi eu. Meses mais tarde, em Argel, passeava pela Rua Didouche Mourade, depois de ter visto o filme de Francesco Rossi, em que aparece a figura daquele pioneiro da revolução argelina, assassinado na sua cela. Pensava na fragilidade da vida humana e na efemeridade de todos os poderes e de todas as coisas e lembrava-me da história contada por um dos meus amigos argelinos sobre o seu encontro com Didouche Mourade. Tinha sido no princípio dos princípios, ainda o Front de Libération Nationale era quase desconhecido da opinião pública, mas já Didouche era um dos homens mais procurados pela polícia. Nesse tempo ainda o povo não estava directamente envolvido na luta de libertação, os revolucionários não viviam como peixes na água e a vida de um clandestino era extremamente dura. Um dia, o meu amigo, que viria a ser oficial da A.L.N. (Armée de Libération Nationale), encontrou Didouche Mourade e dormitar no banco de um jardim público, na praça que hoje se chama dos Mártires. «Parecia um mendigo», disse-me ele, «a barba por fazer, a camisa esfarrapada, ali sentado cheio de sono e de fome. Senti uma grande compaixão, mas de repente compreendi: assim mesmo, tal como estava, Didouche Mourade, era já a Argélia.» Nunca esqueci esta história e era nela que meditava, subindo a rua Didouche Mourade, depois de ter visto A Batalha de Argel, quando, subitamente, dou de caras com Vladimir, aliás Abdul, agora trajando uma sahariana e acompanhado por um poeta angolano meu amigo.


Saudou-me fraternalmente, falando em francês. O angolano estava espantado. - Vocês conhecem-se? - De ginjeira – respondi-lhe em português. - Então ele não havia de conhecer o Albuquerque? – disse, em francês, piscando-me o olho, Vladimir, ex-Abdul e, agora, pelos vistos, Albuquerque. Encolhi os ombros e ri-me. Já nada me podia espantar, nem sequer se ele me dissesse que se chamava o meu próprio nome e não era ele mas eu. Combinámos encontrar-nos num dos restaurantes da Pêcherie, junto do porto, quase às portas da Casbah. Quando ele chegou cerca das oito (estávamos, se não me engano, em Abril), já as luzes tremulavam nos barcos ancorados e no Almirantado, ao fundo, à esquerda. Os homens passeavam no largo, em frente da mesquita, ou sentavam-se nas esplanadas dos cafés, jogando dominó e bebendo chá de menta. Cheirava a Mediterrâneo e peixe frito. Por vezes vinha na brisa um perfume de jasmim dos jardins interiores da Casbah. Era um daqueles fins de tarde de Argel que me traziam sempre um misto de serenidade e nostalgia. Por ali andara Cervantes, durante catorze anos de cativeiro. Talvez em tardes assim ele pensasse no pôr-do-sol em lugar da Mancha. Era o que me consolava em horas de crepúsculo e saudade. Tinha já bebido meia garrafa de Medea, rosé, bastante fresco, quando finalmente Vladimir se sentou. - Com que então Albuquerque? – disparei-lhe logo, depois de termos escolhido uma espetada de camarão. - É a minha homenagem ao império português. Albuquerque foi o maior – disse -, o único que teve um sonho e uma estratégia. Confesso que me fascina: a sua paixão por Goa, a obsessão de Ormuz, o projecto de mudar o


curso do Nilo e levar a Caaba para Lisboa. Se o tivessem deixado fazer o que queria, o mundo não seria o mesmo. Cabe-me agora realizar o seu sonho ao contrário – concluiu, levantando o copo, não sei se à minha saúde, se à nossa amizade, se em memória de Albuquerque. - Andaste a estudar as nossas coisas. A história do Império, sim, um pouco. Aliás, sabes tão bem como eu que não é possível mudar o mundo sem conhecer e até certo ponto refazer a história do passado. - Como assim? - Por exemplo, quando visitaste as Pirâmides, sentiste, segundo me contaste, a extrema transitoriedade da vida. - Sim – reconheci. – E daí? - É uma atitude típica de um ocidental. Contém em si mesma uma gravíssima deformação da História. - Essa agora – indignei-me eu. Mas ele não se alterou. - Sim, pensaste no homem, na vida e na morte em termos individuais, metafísicos,

abstractos.

Como

se

aqueles

monumentos

tivessem

sido

construídos para dar forma à tua própria ideia de eternidade. Eu, quando lá fui, vi a História, os escravos, o chicote, a opressão, a servidão do homem pelo homem. - Bravo, Fanon não diria melhor. Mas ele fez um sinal de paz. Trocámos de novo os copos, pedimos outra garrafa, a noite prometia.


- Há uma coisa que não cola – disse-lhe. - O quê? - Tu também és ocidental. - Mas eu sou Albuquerque. E soltou uma gargalhada. Bebemos mais um copo. - Tenho um presente para ti – disse ele. E tirou do bolso um pequeno livro de um poeta para mim então desconhecido: Wallace Stevens. - É um poeta americano, escreveu um dos mais belos poemas da poesia moderna – disse ele, enquanto folheava o livro, à procura. – Olha, The Man with the Blue Guitar, é um poema em vários cantos, magnífico. E leu alguns versos.

They said «You have a blue guitar You do not play things as they are.»

The man replied «Things as they are Are changed upon the blue guitar.»

Agradeci-lhe, comovido, não sei se pelos versos, se pelo gesto. - O homem da guitarra azul – murmurei quase só para mim. - Esse homem sou eu – disse ele num português impecável. E estava sério.


Eu já tinha aprendido a tratar com ele. Por isso não mostrei nenhuma surpresa, convencido de que era essa a melhor forma de eventualmente o levar a abrir-se um pouco. - É um livro que tem andado comigo – acrescentou. – Quero que fiques com ele. Fez uma pausa, olhando o mar. - Devemos dar aos amigos aquilo de que mais gostamos – disse. Tive o pressentimento de que ele estava com vontade de falar e por isso calei-me. Deixei-o saborear a espetado e o Medea. Durante uns minutos comemos e bebemos em silêncio. Mas não me enganei. Daí a pouco ele retomou, de novo em francês. - Andei por Angola. - Ah sim – disse eu, no tom mais neutro possível. Sim, Angola é um país azul. E sorriu. Olhou outra vez o mar, depois prosseguiu: - Está difícil. Angola é muito grande, o acesso ao Norte é muito complicado para o MPLA, por causa da posição dos congoleses. Mas é aí que está o povo combatente. Bebeu um gole de café e acendeu um cigarro. - Vou dizer-te um segredo: vai haver uma revolução em Portugal. Mais tarde ou mais cedo uma parte do exército vai revoltar-se. O Amílcar Cabral tem razão: a luta de libertação é um acto de cultura. Eu creio que num duplo sentido. Libertando-se, o povo oprimido conduz o opressor a libertar-se também. No caso português isso é muito nítido, dada a natureza do sistema. O processo de emancipação nacional dos povos das colónias vai provocar a


queda do regime em Portugal. Acredita no que te digo, vai haver uma revolução no teu país e essa revolução vai abalar a Europa e a África. Havia na sua voz uma grande convicção. Senti um arrepio, e não sei porquê, acreditei. Era quase uma profecia, algo que tinha a força de um destino. Confidenciou-me que partia no dia seguinte, mas não disse para onde. Passeámos ainda um bocado, aventurámo-nos até pelas ruas da Casbah, evocando amigos comuns, os velhos tempos de Paris e aqueles pequenos nadas que constituem a arte de uma amizade exigente, que nunca deve forçar o equilíbrio entre a intimidade e a reserva. Tempos depois, começou a falar-se da presença de Che Guevara na Bolívia. Eu tinha-o conhecido durante a sua passagem por Argel e lembravame por vezes do que então me dissera: No te vayas en Europa, Chico, Europa es una puta vieja. Havia nessa altura um grande fascínio pelas guerrilhas latino-americanas. Alguns sonhavam fazer da serra da Estrela a Sierra Maestra portuguesa. Não era só uma opção revolucionária, era sobretudo um desejo de festa e de aventura. Não admira por isso que as notícias sobre a presença do Che na Bolívia tenham provocado uma grande exaltação. Um pouco de nós estava algures no meio da selva. Por vezes alguém declamava:

A grande

humanidade disse basta e pôs-se a caminhar. Andava-se de boina e cabelos compridos e acreditava-se que cada foco guerrilheiro estava condenado a transformar-se em revolução vitoriosa. Havia quem avisasse que Cuba tinha sido a excepção e não a regra. Mas aquela era uma geração que vivia embalada ao ritmo do seu próprio entusiasmo. - Para lá das montanhas há um país azul, dizia por vezes Vladimir. Quem sabe se não estaria agora num acampamento guerrilheiro, no alto de uma montanha, algures na Bolívia?


Em Outubro de 1968, eu estava de novo em Paris. Foi aí que recebi a notícia da morte do Che. Apareceu então nos jornais o seu retrato de Cristo Guerrilheiro, como mais tarde o poeta o cantaria. Olhando bem aquele rosto de olhos semiabertos, confesso que por vezes via Vladimir e não o Che. Não ousei confessá-lo a ninguém, mas um dia encontrei uma amiga que tinha conhecido bem o homem do país azul e não resisti. - Que achas? – perguntei, mostrando-lhe o retrato. - Sei o que queres dizer, também tive as mesmas dúvidas. Mas não. Já o vi depois. Ele não estava na Bolívia. Ela não me quis dizer mais nada e eu não insisti. Mas nunca consegui olhar a fatídica fotografia sem um arrepio. Sim, agora eu sabia que era o Che, mas podia jurar que era também o Vladimir. Não me perguntem porquê. São coisas que não se explicam. Na Primavera de 1974, eu estava de novo em Argel. Muita coisa tinha mudado: Amílcar Cabral estava morto, Allende também. Com eles algo morrera dentro de nós. Nem canções de vitória, nem marchas triunfais nas Áfricas e Américas da nossa imaginação. Exílio, prisões, guerra. E o tempo que passava e não passava. Em certas tardes melancólicas, passeando em Bab-El-Oued, junto ao mar, eu recordava por vezes o último encontro com Vladimir. Como se tivesse sido ontem, como se nunca tivesse sido. A minha própria vida parecia-me uma história fantástica e eu perguntava-me se não seríamos todos personagens de ficção. Mas ali estava o Mediterrâneo, com o seu cheiro de fritos e de menta, seus barcos, sua gente e seu azul, aquele azul que talvez tenha sido a última pátria de Teixeira Gomes, no seu retiro em Bejaia. Quanto tempo ainda? Catorze anos tinha durado o cativeiro de Cervantes, treze, até à morte, o exílio do ex-Presidente português. E eu?


Na manhã do dia 25 de Abril, acordei estremunhado, com o telefone a tocar. - Lisboa está tomada – dizia uma voz muito ao longe. Perguntei quem era. - A revolução está na rua – dizia a voz -, a revolução está na rua e tu a dormir. - Quem fala? - Não importa quem fala, o que importa é o que está a acontecer. Aquela voz: belisquei-me com força para ter a certeza de que não estava a sonhar. - Vladimir? - Lisboa está tomada – repetiu a voz -, a vitória é certa, eu tinha-te avisado. - Deixa-te de brincadeiras, onde é que tu estás? - Qual brincadeira, nunca falei tão a sério, Lisboa é uma cidade azul. Já não havia dúvidas, só podia ser ele. - Onde é que tu estás? – perguntei quase aos berros. - Algures, sob outros céus. Ainda hoje não sei se a ligação foi cortada ou se foi ele que desligou. Nunca mais tive notícias de Vladimir, o do país azul.

Manuel Alegre, O Homem do País Azul


capa e contracapa (pormenor) ~ 2.ª edição

capa e contracapa ~ 6.ª edição


 Manuel Alegre

 biobibliografia

 Instituto Camões ~ cantar a liberdade

 quase um auto-retrato


MANUEL ALEGRE, O Homem do País Azul