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José Régio (1901-1969)

José Régio: aqui

A.A. ~ 2010-2011 Prof.ª eli


UMA ANEDOTA DE GAIATOS

Nos dias de mercado, às sextas-feiras, a madrinha Inácia davanos trinta reis a cada um. Meu irmão Felisberto nem sempre os gastava. Amealhando, no todo ou em parte esses trinta réis semanais, acabava por adquirir os mais variados objectos da sua cobiça. Nunca o feitio de meu irmão Felisberto se me tornou totalmente compreensível, mesmo quando, mais tarde, julguei possuir algum conhecimento das capacidade

de

economizar,

por

extravagâncias dos homens. Essa exemplo,

era

coisa

que

me

surpreendia em Felisberto, posto não soubesse então explicar porquê. Só mais tarde compreendi que o seu temperamento arrebatado e caprichoso me parecia ligar mal com a reserva, a prudência, o cálculo do indivíduo económico. Pelo contrário, eu, que sou mais velho ano e meio, quase sempre gastava logo nesse dia os meus trinta réis. Com trinta réis, nesse bom tempo, já alguma coisa se comprava no mercado! «Não gaste logo

tudo,

menino!»,

dizia-me

a

velha

Bernardina,

que

eu


acompanhava às compras. «Veja lá o seu irmãozinho como tem mais juízo…» Talvez, nesse particular. Porque em tudo mais me queria a mim parecer que meu irmão Felisberto não só não tinha mais juízo do que eu – e não era eu mais velho? – como até chegava a ter pancada na bola. (Linguagem era esta de nosso vizinho mestre Serafim sapateiro, uma das vítimas predilectas das suas diabruras.) Belo mercado, o nosso mercado das sextas-feiras, e em que todos os géneros se vendiam! Cheio de cor, de movimento, de algazarra, com as mais variadas exposições e tendas sob os grandes plátanos que em parte o abrigavam, já era uma alegria circular pelas suas ruelas, na companhia da velha Bernardina, que não comprava senão o estrito necessário mas gostava de meter o nariz em tudo. Creio que o seu prazer em tais deambulações não era muito diferente do meu. Duas tendas, porém, me atraíam a mim particularmente, e sugavam os meus trinta réis semanais: a dos folhetos de cordel e a das flores. As histórias do Sacristão Pancrácio, de Carlos Magno e seus companheiros, da Donzela Teodora, ou da Princesa Mangalona, de João de Calais ou o Pajem Gerinaldo – a pouco e pouco tinham vindo povoando a minha imaginação e engrossando a minha


biblioteca, localizada num caixote sob uma trave do sótão. Aí julgava eu poder furtá-la

– relativamente – à curiosidade do meu irmão

Felisberto. Ingénua esperança, que não perdurara mais que um momento! Nada escapava às devassas de Felisberto, cujo espírito de exploração tanto mais se excitava quanto mais houvesse a pretensão de se lhe furtar o quer que fosse. Felisberto conhecia todos os caminhos do velho casarão; passava pelos telhados como um gato; sumia-se nos buracos do soalho como os ratos; escabulhava todos os baús e caixas; arranjava chaves para abrir todas as gavetas e portas. Desta

insaciável

conhecimentos

que

actividade

investigadora

maravilhosamente

serviam

lhe o

adivinham seu

espírito

arreliador. Porque Felisberto era brincalhão, – e brincava arreliando, perseguindo, atormentando as pessoas. Com um faro notável para lhes descobrir os pontos sensíveis, além duma inesgotável fantasia no tanger esses pontos, verdadeiramente diabólicos se manifestava Felisberto nos seus dias ou momentos malignos. Sujeito, embora, a algum violento correctivo, nem nossos pais poupava então a seus instintos. Nem nossa irmã

Nelinha, que tinha três anos (e ambos

adorávamos), nem a velha Bernardina, que tinha setenta. Por mim,


já algumas vezes pensara no mais secreto da consciência: «Por que havia ele de ter nascido? Não era melhor ser só eu e a Nelinha?» Ou até, quando o meu desespero subia ao branco-rubro: «Por que não morre este diabo?» Mas Felisberto gozava duma esplêndida saúde; e outras vezes gostava eu de o ter por companheiro, quando estávamos de boas relações. A verdade inteira é que Felisberto também podia mostrar-se gentil, ser simpático e afectuoso, revelar uma imprevista imaginação amável e uma sensibilidade que, noutras ocasiões, ninguém lhe atribuiria. Apesar de tantas vezes a fazer «de fel e vinagre», (queixava-se a própria) com a velha Bernardina tinha certos dias atenções, ideias, que irremediavelmente a enterneciam. No fim de contas, ela adorava-o. Com a nossa mãe, era duma afectividade muito mais expansiva do que eu. E até comigo, sim: até comigo… Decerto lhe não poderia escapar o meu caixote-biblioteca no recanto do sótão. Espalhar todo o conteúdo do caixote pelo soalho carunchoso, ou – o que me desesperava! – ilustrar os meus livros com as irreverências do seu lápis fantasista, eram processos seus de provocar quando estava de humor agressivo. Também de se vingar


quando (nem chegava eu às vezes a saber porquê) se sentia provocado. Aliás, Felisberto não deixava de possuir talentos para o desenho. Assim, nos meus folhetos, aparecia uma caricatura de Carlos Magno montando um burro de orelhas formidáveis, ou da Princesa Mangalona com lunetas. Discussões violentas se seguiam a estes desacatos. Às vezes lutas corpo a corpo, em que nos engalfinhávamos com um ardor terrível a dentro dos anos e forças. Eu tinha doze anos, ele dez e meio. E foi precisamente quando fiz treze anos que entre nós se deu não qualquer luta, mas uma cena que me ficou memorável: uma dessas cenas a que as pessoas crescidas não ligam importância, mas que às vezes impressionam extraordinariamente

um miúdo. Quando

se

entenderá

que

as

experiências dos miúdos também lhes podem ser profundamente dolorosas, mesmo que a nós nos pareçam fúteis, ou simplesmente engraçadas? Não é através delas que os miúdos se tornam gente grande? Como disse, outra paixão tinha eu além da dos folhetos: a das flores; ou antes: da jardinagem. Com os meus trinta réis, nos dias de mercado, comprava também raízes de flores, que transportava para o


meu quintal. Era um pequeno quintal atrás da casa, em parte ao lado, e a que davam acesso uns degraus de pedra toscos, íngremes e musgosos. Ficava, assim, quase ao rés do telhado, o que explicava as digressões de Felisberto por essas aéreas zonas. Para mim, não poderia haver mais belo quintal no mundo! E é certo que de ali se via quase todo o casario da vila, com a facha do mar ao longe ardendo sob os poentes em chamas, ou brilhando laminada de prata sob a lua. Também o céu parecia de ali mais perto, com as estrelas trémulas quase à mão; porque mesmo à noite eu me escapulia às vezes para o meu quintal, por simples gosto, ou para apanhar caracóis

os

e as lesmas em flagrante. Nos meses de Primavera,

princípios de Verão, o meu quintal era um grande açafate de flores! A geometria

fora aí completamente desprezada; as várias espécies

cresciam, reverdeciam, floresciam na mais completa liberdade, misturando-se em caprichosas e espontâneas combinações. Ora entre essas espécies tinha eu um arbusto a que chamava as campainhas, por dar uma flores amarelas que, de facto, semelhavam pequenos sinos com badalo e tudo, pendentes dos ramos e abanando ao vento. Comprara-o pequenino, à custa do dinheiro de três feiras


que Bernardina me adiantara. Vira-o crescer como um pai vê crescer um filho. E na verdade tinha por ele a ternura humana, os cuidados amorosos, o enlevo que se tem por um ser

vivo muito delicado.

Como se não aproveitaria Felisberto, nos seus dias ou momentos satânicos, dessa fraqueza do meu coração? Espontar a torto e a direito o meu arbusto, amachucar brutalmente os seus rebentos mimosos, despi-lo das suas campainhas cor de oiro pálido, era para Felisberto, em caso extremo, um seguro meio de elevar ao rubro o meu desgosto, o meu desespero, o meu furor. Não poderiam passar tais atentados sem represálias, e sabe Deus em que poderiam consistir! Não era o que pretendia Felisberto? Os espíritos malignos que então o possuíam – exigiam luta e violência para se aplacarem. Talvez, à longa distância dos anos, houvesse eu esquecido estas coisas miúdas (que então me eram tão importantes), se para sempre mas não tivesse esculpido na memória o episódio que me propus contar. Ainda hoje, sim, ainda hoje me vejo naquela manhã do dia dos meus anos, fervendo de furor e clamando interiormente de sofrimento, de impotência, diante do meu arbusto visivelmente mutilado! Não demais, aliás. Mas sem dúvida lhe havia cortado vários


ramos floridos qualquer mão desembaraçada… que eu não hesitava em identificar. Como disse, era a manhã do dia dos meus anos. Durante o dia receberia eu vários presentes, viriam os meus primos e meu particular amigo Zé Lucas, meu pai dispensar-me-ia do estudo obrigatório, ao jantar haveria arroz-doce, bombons e o bolo de farinha de batata que mandava confeccionar

madrinha Inácia. Um

dia feliz, em suma; tanto mais que só o fazer anos ainda então me era um prazer. Há várias semanas andava eu a sonhar com esse dia! Talvez para o tornar mais longo, e o saborear melhor, me levantara muito cedo – com excepção de Bernardina, ainda toda a gente dormia na casa – e, como sempre que me levantava cedo, subira ao quintal. A manhã alvorecia fresca e deleitosa. Ainda hoje me lembro de ouvir um passarinho chilrear no limoeiro do canto. Logo ao subir os toscos degraus musgosos eu o notara, pois me parecera que ele me saudava pelos meus anos. Depois de o deixara de ouvir: a onda de fúria e dor que em mim se levantara afogava tudo mais; - eu estava ali como se o mundo, incluindo eu próprio, fora reduzido ao cachoar dessa onda. Por certo, não era a primeira vez que tal sucedia; nem o meu arbusto fora verdadeiramente lesado na sua


vitalidade. O meu espanto, porém, era tanto mais vivo, tanto mais doloroso, porquanto, nos últimos dias, nenhum desentendimento sério se ateara entre mim e Felisberto. Há bastante tempo, mesmo, que ele não tocava no meu arbusto. Quase pudera eu supor que renunciara a essa provocação cruel. A sua injustificável reincidência, e precisamente no dia dos meus anos (como se ele escolhera esse dia para

a

mais

fundo

me

ferir),

aparecia-me

como

pura

monstruosidade! Os meus olhos caíram então sobre um pequeno machado que servia a Bernardina para rachar a lenha. E, agarrando-o como doido, caí a machadadas brutais sobre o meu arbusto das campainhas de oiro, decepando-o a torto e a direito, às cegas, arquejante, como se fora ele o culpado; ou como nesse momento desejaria fazer a meu próprio irmão. A dor e o ódio multiplicavam as forças – aquilo já me parecia uma festa! Uma festa dos diabos! Não sei se entretanto chorava; mas gritava dentro de mim: «Não hás-de tornar mais! Não hás-de tornar mais!» Pensava sempre em meu irmão. E soluços me sacudiam, me despedaçavam como convulsões de epiléptico. Por fim, já nem podia manejar o machado; já feria as mãos nos últimos


galhos esfarpados do arbusto; continuava, porém, a partir, agora com as próprias mãos feridas, e pisava aos pés os destroços da arvorezinha e as plantas em volta. Quando vim a mim daquela espécie de ataque, já os primeiros raios de sol tinham penetrado no meu quintal, e doiravam pedaços da verdura. «Bons dias, sol!» parecia dizer o passarinho, que de novo ensaiava as suas variações no limoeiro do canto. Ou seria eu que de novo podia ouvi-lo? O dia dos meus anos anunciava-se esplêndido. Todo o céu vinha clareando, e prometia uma imperturbável pureza. A facha do mar lá longe era ao mesmo tempo baça e luminosa. Eu olhava agora em redor como assombrado. Mal podia acreditar no que sucedera, e até a naturalidade familiar de tudo que estava olhando me parecia estranha ou misteriosa, vagamente ameaçadora. Toda a raiva que me revolvera havia caído, como se uma turva corrente se houvesse escoado através dos meus gestos alucinados. Eu sentia-me exausto, vazio, sem ódio, e só pensava em dizer brandamente a meu irmão: «Anda, vai lá ver as campainhas! Vai lá ver!» Desci as escadas de pedra sem saber para onde ir, ou antever que dia poderia ser esse meu dia de anos. Decerto não voltaria agora ao meu quarto – ao


nosso quarto – onde Felisberto devia dormir ainda, na sua cama ao lado da minha. Teria tempo de lhe dizer brandamente: «Anda, vai lá ver as campainhas! Vai lá ver!» Deslizei pelo corredor – só ouvia a Bernardina já lidando na cozinha – e entrei numa pequena sala esteirada, quase nua de móveis, onde brincávamos em crianças, e ainda agora: porque Felisberto e eu ainda éramos crianças, não é verdade? Só mais velhos que a Nelinha. Uma pequena mesa redonda, que não era ali usual, fora trazida para a sala das brincadeiras. Em cima da mesa estava uma bela jarra (da sala de visitas), composta com ramos floridos das campainhas; e, encostado à jarra, um vistoso rectângulo de cartolina branca, sobre o qual reconheci, a lápis de cor, entre caprichosos arabescos, a caligrafia ainda pouco segura de meu irmão: PRENDA DE ANOS JURO QUE NÃO TORNO A CORTAR

José Régio, “Uma anedota de Gaiatos”, in O Vestido Cor de Fogo, Biblioteca Básica Verbo, 6. Livros RTP


Documentos autógrafos de José Régio - aqui


 José Régio

 Casa Museu – Vila do Conde  José Régio e os mundos em que viveu  Museu José Régio - Portalegre  Poemas-teatro  Releituras – Cântico Negro

JOSE REGIO, "Uma anedota de gaiatos"  

José Régio, "Uma anedota de gaiatos", in O Vestido Cor de Fogo~ leitura complementar para o 12.º ano ~ e.e. ~ António Arroio ~ Prof.ª eli