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UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA

NILTON CARVALHO BARROS

KOINŌNIA Dimensão Espiritual e Comunitária da Fé Cristã

São Paulo 2011


NILTON CARVALHO BARROS

KOINŌNIA Dimensão Espiritual e Comunitária da Fé Cristã

Trabalho de Graduação Interdisciplinar apresentado à Escola Superior de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Teologia.

Orientador: Profº. Drº. Hermisten Maia Pereira da Costa

São Paulo 2011


B277k Barros, Nilton Carvalho Koinõnia: dimensão espiritual e comunitária da fé cristã / Nilton Carvalho Barros – 2011. 64 f.; 30 cm Trabalho Geral Interdisciplinar (Graduação em Teologia) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2011. Orientador: Prof. Dr. Hermisten Maia Pereira da Costa Bibliografia: f. 51-58 1. Igreja 2. Comunhão 3. Vida cristã 4. Espírito Santo I. Título LC BS2545.F4


NILTON CARVALHO BARROS

KOINŌNIA Dimensão Espiritual e Comunitária da Fé Cristã

Trabalho  de  Graduação   Interdisciplinar  apresentado  à   Escola  Superior  de  Teologia  da   Universidade  Presbiteriana   Mackenzie,  como  requisito  parcial   à  obtenção  do  grau  de  Bacharel  em   Teologia.       Aprovada  em  ___/___/2011    

ORIENTADOR    

_________________________________________________________________________________     Profº.  Drº.  Hermisten  Maia  Pereira  da  Costa   (Universidade  Presbiteriana  Mackenzie)


DEDICATÓRIA

À Deus, autor e sustentador da minha vida. À minha amada esposa Amanda Rocco Barros, fiel companheira e incentivadora dos meus estudos. Ao meu amado filho Pietro Rocco Barros, que completa a minha felicidade. Aos meus pais Nilton e Giovanda Barros, meus primeiros educadores que me incentivaram o gosto pela leitura e estudo.


AGRADECIMENTOS

Foram muitos os que me ajudaram a concluir este trabalho. Meus sinceros agradecimentos...

... À Deus primeiramente, meu fiel companheiro e amigo sempre presente nos momentos da minha vida, especialmente naqueles momentos de difícil empreendimento, como este por exemplo, em que muitas horas de estudo foram gastas, mas, tudo para honra e glória a Deus. Obrigado Senhor, pois, Tua graça e poder me ajudaram na clareza de pensamento e na conclusão deste trabalho que servirá grandemente para a efificação da Tua igreja no desenvolvimento da fé cristã. ... À minha amada família, esposa Amanda Rocco Barros e filho Pietro Rocco Barros, pela companhia, incentivo em meus estudos e pela paciência nas minhas longas horas de estudo, não medindo esforços para que pudésse chegar até o final da validação em Teologia. ... Aos meus pais, Nilton e Giovanda Barros, meus primeiros educadores e por me incentivarem, desde pequeno, o gosto pela leitura e estudo. ... Ao professor, pastor e amigo Tihomir Lazic, da Universidade de Oxford, Inglaterra. Conheci Lazic em um curso de inglês na Universidade Adventista do Estado de São Paulo e o agradeço por despetar-me, em suas meditações matinais e sermões, o interesse pelo estudo da Teologia da Comunhão. ... Ao professor, reverendo e amigo Hermisten Costa pela clareza em suas aulas, pela experiências de fé compartilhadas em sala de aula e pelo incentivo e sugestões para concluir este trabalho. ... Aos queridos amigos de classe pela companhia, risadas e abraços. Mais uma vez aprendi com vocês a importância da koinonia cristã.


O que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão (κοινωνίαν) conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo (1Jo. 1:3).


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 8 1. ANÁLISE DA PALAVRA KOINŌNIA E SEUS COGNATOS NO AT .…. 12 2. ANÁLISE DA PALAVRA KOINŌNIA E SEUS COGNATOS NO NT .…. 20 2.1. Koinōnia nos Escritos Paulinos .......................................................................................................... 24 2.1.1. Koinōnia com o Filho ...................................................................................................................... 25 2.1.2. Koinōnia na coleta ........................................................................................................................... 25 2.1.3. Koinōnia na fé .................................................................................................................................. 25 2.1.4. Koinōnia no Evangelho .................................................................................................................... 25 2.1.5. Koinōnia no Espírito ........................................................................................................................ 26 2.1.6. Koinōnia na Santa Ceia .................................................................................................................... 26 2.1.7. Koinōnia nos sofrimentos ................................................................................................................ 26 2.1.8. Koinōnia na cooperação do Evangelho ............................................................................................ 26 2.1.9. Koinōnia como união ....................................................................................................................... 27 2.1.10. Koinōnia na beneficência ............................................................................................................... 27 2.2. Koinōnia em Atos dos Apóstolos ....................................................................................................... 27 2.2.1. Koinōnia como comunhão fraternal ................................................................................................. 27 2.3. Koinōnia em 1João ............................................................................................................................. 27 2.3.1. Koinōnia como comunhão e comunidade ........................................................................................ 28 2.4. Considerações Pontuais ...................................................................................................................... 29

3. KOINŌNIA EM ATOS 2:42 ……………………………………………….… 31 3.1. Propósito de Atos dos Apóstolos ........................................................................................................ 31 3.2. O Pentecostes: Contexto de Atos 2:42 ................................................................................................ 33 3.3. Atos 2:42 e os Sumários ..................................................................................................................... 37 3.4. Interpretação do Primeiro Sumário ..................................................................................................... 45 3.4.1. O texto do primeiro sumário ............................................................................................................ 45 3.4.2. Considerações gerais do primeiro sumário ...................................................................................... 46 3.4.3. Considerações gerais de Atos 2:42 .................................................................................................. 49 3.5. Dimensão interna e externa de koinōnia ............................................................................................. 53

CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................ 56 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................. 58


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INTRODUÇÃO

A essência do cristianismo é apresentada no Novo Testamento através de uma única palavra: Koinōnia1. A palavra grega “κοινωνίᾳ” é melhor traduzida por “comunidade ou comunhão fraternal”2. Paulo resume o propósito da vida cristã em termos de koinōnia: “Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados à comunhão (κοινωνίαν) de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor” (1Co. 1:9). Lucas utiliza o mesmo termo para descrever o estilo de vida dos primeiros cristãos: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão (κοινωνίᾳ), no partir do pão e nas orações” (At. 2:42). João amplia o significado do termo e afirma: “O que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão (κοινωνίαν) conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo” (1Jo. 1:3). Comunhão3 com Cristo conduz à comunhão com Deus Pai e comunhão uns com os outros em Cristo. Portanto, verifica-se aqui cristianismo em uma única palavra. Em anos recentes, tem havido um crescente interesse no conceito de koinōnia, considerado um dos mais significativos conceitos eclesiológicos no diálogo ecumênico4. Qual é o significado da palavra koinōnia no Antigo e Novo Testamentos, e, em especial, no livro de Atos dos Apóstolos? Como o termo relaciona-se com a vida cristã e com a igreja?                                                                                                                           1

George Panikulam, “Koinonia in the New Testament: A Dynamic Expression of Christian Life” (Rome Biblical Institute Press, 1979), 1. P. Hennebusch, “Christian Fellowship in the Epistle to the Philippians”, The Bible Today 12 (1964), 793. 2 Veja o primeiro capítulo desta pesquisa. 3 A palavra inglesa “fellowship” descreve a condição de ser companheiro (fellow); alguém que tem o mesmo interesse que você ou está na mesma situação que você. Veja: http://dictionary.cambridge.org/dictionary/british/fellow_1?q=fellow 4 Tihomir Lazic, “A Critical Analysis and Comparison of the Concept of Koinonia within Joseph Ratzinger’s, Johm Zizioulas’s and Miroslav Volf’s Versions of ‘Communion Ecclesiology’” (Newbold College, 2008), p. 1. Ola Tjorhom, “The Ecclesioloy of Communion: On the Church as Vertically Grounded, Socially Directed and Ecumelically Committed Fellowship” (The Heythrop Journal, 2010), pp. 893-900. Lorelei F. Fuchs, “Koinonia and the Quest for an Ecumenical Ecclesiology”, (Grand Rapids, Michigan: William B. Eerdmans Publishing Company, 2007). Verna Lewis‑Elgidely, “Koinonia in the Three Great Abrahamic Faiths: Acclaiming the Mistery and Diversity of Faiths” (South Bend, IN: Cloverdale Books, 2007). Susan H. Moore, “Towards Koinonia in Faith, Life and Witness: Theological Insights and Emphases from the Fifth World Conference on Faith and Order, Santiago de Compostela, 1993”, The Ecumenical Review, Vol. 47, Num. 1 (Janeiro, 1995), pp. 3‑11. Margaret Jenkins, “Towards Koinonia in Life”, The Ecumenical Review, Vol. 45, Num. 1 (Janeiro, 1993), p. 93 e Grigorios Larentzakis, “The Unity of the Church as Koinonia: Some Reflections From an Orthodox Standpoint”, The Ecumenical Review, Vol. 45, Num. 1 (Janeiro, 1993), pp. 69‑71.


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A dificuldade, porém, encontra-se nas tentativas acadêmicas de se buscar apenas o significado etimológico do conceito bíblico de koinōnia e não em buscar compreender como o termo se relaciona na vida cristã. Nos dicionários de palavras teológicas, observa-se nos autores, dentre eles, Hauck, D. W. B. Robinson, J. Murphy-O’Connor, W. H. Mare, C. E. B. Cranfield, J. Schattenmann, Cazelles, nenhuma referência aos princípios de como o termo koinōnia relaciona-se com o cristão e com a igreja. A preocupação principal desses autores é analisar os vários significados desta palavra na literatura secular e bíblica. A partir da década de 1930, percebe-se, nos autores P. Hennebush, J. Y. Campbell, H. Seesemann, W. Bauer, George V. Jourdan, a tendência de considerar apenas os aspectos filosóficos da palavra koinōnia. Portanto, usando estas pesquisas como referências, a hipótese central desta pesquisa é demonstrar que a partir de uma breve análise etimológica e exegéticacomparativa da palavra koinōnia em Atos 2:42-47; 4:32-35 e 5:12-16, pretende-se chegar a uma compreensão do termo bem como a sua relação com a vida cristã e com a igreja. Sob esta perspectiva, a presente pesquisa reveste-se de suma importância, pois, explora o conceito de koinōnia no livro de Atos dos Apóstolos e suas implicações para a sociedade e igreja atual. Conforme observou Lazić:

Devido ao despertar existencial da busca pós-moderna por ‘felicidade’ e ‘realização’ através de um relacionamento autêntico, ‘comunidade’ e ‘comunhão’ (koinōnia) surge como principais ideias e princípios orientadores de definição contemporânea de igreja. (TIHOMIR LAZIĆ, 2008, Abstract)

A despeito do individualismo, da fragmentação da sociedade e da migração de cristãos para outras denominações evangélicas, há um novo despertar da sociedade pósmoderna em experimentar relacionamentos autênticos de uma maneira significativa e holística5; despertando, assim, novos empreendimentos teológicos com o objetivo de

                                                                                                                          5

  Veli‑Mati Karkkainen, “An Introduction to Ecclesiology” (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2002), pp. 231-233. Para uma melhor compreensão do comportamento pós-moderno, veja, Stanley J. Grenz, “Pós-Modernismo: Um Guia para Entender a Filosofia do Nosso Tempo”, (São Paulo: Edições Vida Nova, 2008).


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redefinir e ampliar as diversas categorias eclesiológicas, explorando as dimensões comunais e relacionais da realidade eclesial6. Para atingir o objetivo proposto, esta pesquisa avançará em três etapas principais: O primeiro capítulo oferecerá uma análise da palavra koinōnia no Antigo Testamento e o segundo capítulo no Novo Testamentos para se chegar a uma compreensão do seu significado. O terceiro capítulo oferecerá uma breve exegese de Atos 2:42 onde destaca-se a palavra koinōnia baseado na definição protestante do princípio da Prima-Tota-Sola Scriptura. Embora não exista ainda uma trabalho acadêmico sobre os princípios eclesiológicos e missiológicos da palavra koinōnia no livro de Atos dos Apóstolos, especialmente nas passagens bíblicas citadas, é importante mencionar que há, pelo menos, três autores, representantes dos círculos teológicos Ortodoxo, Católico e Protestante, que possuem uma perspectiva teológica mais coerente e profunda do significado de koinōnia. O metropolitano de Pérgamo, atual Bergama, na Grécia, John Zizioulas, é conhecido como uma dos mais influentes pregadores contemporâneos da Ortodoxia Oriental7, o ex-cardeal Joseph Ratzinger8, agora Papa Bento XVI, e Miroslav Volf, teólogo protestante bem conhecido que representa a tradição da “Igreja Livre” nos diálogos ecumênicos9. Finalmente, as considerações finais desta presente pesquisa permitirá o autor sugerir uma base para futuras inventigações dos princípios Eclesiológicos e

                                                                                                                          6

Stanley J. Grenz, `Ecclesiologyʹ, em The Cambridge Compantion to Postmodern Theology, editado por Kevin J. Vanhoozer (Cambridge: Cambridge University Press, 2003), pp. 252-268. Avery Dulles, “Models of the Church”, (New York: Doubleday, 2002). 7 Para uma compreensão mais detalhada sobre o perfil e a eclesiologia de John Zizioulas, veja, John Zizioulas, “Being as Communion” (Crestwood, NY: SVS Press, 1985), Eve M. Tibbs, “East Meets West: Trinity, Truth and Communionin John Zizioulas and Colin Gunton”, (dissertação doutoral, Fuller Theological Seminary, 2006), pp. 16‑18 e Zenon Skira, “Christ, the Spirit and the Church in Modern Orthodox Theology: A Comparison of Georges Florovsky, Vladimir Lossky, Nikos Nissiotis and John Zizioulas”, (dissertação doutoral, University of St. Michaelʹs College, Toronto, 1998), pp. 2‑11. 8 Para uma introdução da pessoa e obra de Joseph Ratzinger, veja Aidan Nichols, “The Theology of Joseph Ratzinger” (Edinburgh, T & T Clark, 1988). Para uma compreensão da eclesiologia Católica Apostólica Romana, veja, Joseph Ratzinger, “Church, Ecumenism and Politics: New Endeavors in Ecclesiology”, (San Francisco: Ignatius Press, 2008). 9 Veja sua autobiografia em Miroslav Volf, “Speaking Truth to the World”, Christianity Today, 43, no. 2 (1999), p. 35. Para uma compreensão eclesiológica protestante da tradição das igrejas livres, veja, Miroslav Volf, “After Our Likeness”, (Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 1998).


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Missiológicos da Comunhão (κοινωνίᾳ) para uma aborgagem alternativa de definição de igreja contemporânea.


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CAPÍTULO 1

ANÁLISE DA PALAVRA KOINŌNIA E SEUS COGNATOS NO ANTIGO TESTAMENTO

A palavra hebraica, que melhor correspondente ao grego κοινωνίᾳ (koinōnia1) e seus cognatos κοινός, κοινωνός, κοινωνέω e κοινόω (koinos, koinōnos, koinōneō e koinoō) é a palavra ‫ חָבַר‬e ‫( חָבֵר‬ḥābar, ḥābēr)2. Na língua árabe, a raiz ḥbr possuí três significados: (1) Cor e brilho; transmite a ideia de alegria e sedução. (2) Unir-se. (3) Dizer, relatório; sugere algum tipo de fenômeno sonoro. No acadiano ou assíro-babilônio, a raiz ḥbr significa, ruidoso, barulhento, companheiro, unir-se, penetrar, atravessar. No ugarítico, a mesma raiz significa companheiro, juntar-se, unir-se, clã, tribo3. No hebraico, a raiz ḥbr, é representada, basicamente, por duas palavras; sendo a segunda a mais predominante: 1. ‫( חַבֻּרָה‬ḥabburâ), ferimento, golpe e ‫( חֲבַרְבֻּרָה‬ḥābarburâ), pintas. Gênesis 4:234 (‫ לְחַבֻּרָתִֽי‬- lĕḥabburātî – por me ferir); Êxodo 21:25 (ּ‫חַבּוּרָֽה תַּחַת וּרָהחַב‬5- ḥabbûrâ taḥat ḥabbûrâ – golpe por golpe); Isaias 1:6 (‫וְחַבּוּרָה‬- wĕḥabbûrā – e ferimentos); 53:5 (‫וּבַחֲבֻרָתֹו‬ - ûbaḥăburātōw – e pelas suas feridas); Salmo 38:5, no hebraico é o verso 6 (‫ חַבּוּרֹתָי‬ḥabbûrōtāy – minhas feridas); Provérbios 20:30 (‫ חַבֻּרֹות‬- ḥabburōwt – os golpes) e Jeremias

13:23 (‫ חֲבַרְבֻּרֹתָיו‬- ḥăbarburōtāyw – suas pintas). Com esses significados, a raiz ḥbr não possuí uma conotação teológica particular; ela apresenta simplesmente a pena de talião.

                                                                                                                          1

A transliteração das palavras e expressões hebraicas e gregas usa o padrão acadêmico da “Society of Biblical Literature.” Consulta na internet: http://transliterate.com 2 Hauck, “κοινωνίᾳ”, em Theological Dictionary of the New Testament, editado por Gerhard Kittel (USA, 1967), Vol. 3, p. 800. 3  Cazelles, “‫ חָבַר‬e ‫( חָבֵר‬ḥābar, ḥābēr)”, em Theological Dictionary of the Old Testament, editado por G. Johannes Botterweck e Helmer Ringgren (Grand Rapids, Michigan: William B. Eerdmans Publishing Company, 1980), Vol. 4, 193, 194. 4  A tradução bíblica usada é a de João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada. Quando for usada outra, será especificada. 5 A pesquisa leva em consideração a escrita da direita para a esquerda das expressões hebraicas.


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2. ‫( חָבַר חָבֵר ֶבֶחר‬ḥābar, ḥābēr e ḥeber), amarrar, juntar-se, unir-se, aliar-se, fazer uma aliança, grupo, companheiro. Ḥābar (‫ )חָבַר‬aparece 30 vezes e ḥābēr ou ḥeber (‫חֶבֶר‬ ‫ )חָבֵר‬aparece 7 vezes no Antigo Testamento6. No período de deuteronômio e dos profetas, essas palavras foram usadas no sentido negativo; como substantivo e verbo. Vejamos alguns exemplos: Em Oséias 4:17, Efraim está ligado a ídolos (‫חֲבוּר עֲצַבִּים‬- ḥăbûr ʿăṣabbîm); expressa a ideia de tornar-se companheiro de um deus: “Efraim está entregue aos ídolos; é deixá-lo.” Oséias 6:9 apresenta um bando ou companhia (‫ חֶבֶר‬- ḥeber) de sacerdotes que matam na estrada de Siquém: “Como hordas de salteadores que espreitam alguém, assim é a companhia dos sacerdotes, pois matam no caminho para Siquém; praticam abominações.” Segundo a Septuaginta7 (LXX), em 1 Samuel 20:30 há um problema textual. Em vez da raiz, no hebraico, bḥr (‫ )בֹחֵר‬, deve-se considerar a raiz ḥbr, pois, a Septuaginta usa a palavra µέτοχος8, participante; por implicação, um associado, um companheiro. Saul acusa Jônatas por ter-se associado ao filho de Jessé, Davi; tornandose seu fiel companheiro. Em Deuteronômio 18:11, aparece a expressão ‫( וְשֹׁאֵל אֹוב‬wĕšōʾēl ʾōwb – um consultor de espíritos), médium ou, de acordo com a Septuaginta, aqueles que distribui oráculos (εγγαστρίµυθος), em paralelo com a expressão   ‫( וְחֹבֵר חָבֶר‬wĕḥōbēr ḥāber – Septuaginta - ἐπαείδων ἐπαοιδήν - um encantador de encantos), encantador:

Nem encantador (‫)וְחֹבֵר חָבֶר‬, nem necromante (‫)וְשֹׁאֵל אֹוב‬, nem mágico, nem quem consulte os mortos.

Esta compreensão espiritualista ou mágica, aparece com maior freqüência em Isaías em que ‫( חֶבֶר‬ḥeber) refere-se aos encantos dos magos de Babilónia (Is. 47:9, 12). No capítulo 44:11, a palavra ‫( חֲבֵרָיו‬ḥăbērāyw), traduzido por seguidores, está em

                                                                                                                          6

Strong’s Lexicon e Hebrew concordance of the KJV. Consulta feita na internet: http://www.blueletterbible.org/lang/lexicon/lexicon.cfm?Strongs=H2267&t=KJV 7 Texto bíblico de 1Sm. 20:30 de acordo com a Septuaginta: “καὶ ἐθυµώθη ὀργῇ Σαουλ ἐπὶ Ιωναθαν σφόδρα καὶ εἶπεν αὐτῷ υἱὲ κορασίων αὐτοµολούντων οὐ γὰρ οἶδα ὅτι µέτοχος εἶ σὺ τῷ υἱῷ Ιεσσαι εἰς αἰσχύνην σου καὶ εἰς αἰσχύνην ἀποκαλύψεως µητρός σου.” Para uma tradução interlinear, veja “Kata Biblon Greek Septuagint and Wiki English Translation”, em http://en.katabiblon.com/us/index.php?text=LXX&book=1Kgs&ch=20&interlin=on. 8 Consulta na Internet, “Strong's Greek Lexicon”: http://studybible.info/strongs/G3353.


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paralelo com a palavra ‫( חָרָשִׁים‬ḥārāšîm), artífices, pois, o profeta faz aqui um jogo de palavras das raízes ḥbr e ḥrš (Cf. Is. 3:3):

Eis que todos os seus seguidores (‫ )חֲבֵרָיו‬ficariam confundidos, pois os mesmos artífices (‫ )חָרָשִׁים‬não passam de homens; ajuntem-se todos e se apresentem, espantem-se e sejam, à uma, envergonhados.

No livro de Ezequiel 1:9, 11, as palavras, ‫( חֹֽבְרֹת‬ḥōbĕrōt) e ‫( חֹבְרֹות‬ḥōbĕrōwt), significam unir. Em 37:16-19, a palavra ‫( חֲבֵרָיו‬ḥăbērāyw), significa seguidores ou seguidoras; e portanto, Israel está associado com Judá. Neste texto, a palavra possui conotação de uma feliz reunião de irmãos separados. Este sentido também está presente em Gênesis 14:3. Aqui fala-se de uma aliança no vale de Sidim9. Em Juízes 20:11, os filhos de Israel se uniram contra os Benjamitas de Gibeá por causa da afronta que eles cometeram:

Assim, se ajuntaram contra esta cidade todos os homens de Israel, unidos como um só homem (‫ כְּאִיש אֶחָד פחֲבֵרִֽים׃‬- kĕʾîš ʾeḥād ḥăbērîm p)

O sentido espiritualista ou mágico aparece novamente em Salmos 58:6, ‫חֲבָרִים‬ ‫( חֹובֵר‬ḥōwbēr ḥăbārîm) em paralelo com ‫( מְלַחֲשִׁים‬mĕlaḥăšîm), termo para encantadores. O sentido “estar ligado à” aparece em Salmos 94:20, ָ‫( הַֽיְחָבְרְך‬hayḥāberĕkā), estar aliado; isto é, aliança com o trono da iniqüidade e em Salmos 45:7, os companheiros do rei são superados pelo o Ungido, ָ‫( מֵֽחֲבֵרֶֽיך‬mēḥăbērêkā), seus companheiros. Em Salmos 122:3, a unidade de Israel é simbolizada pela firmeza com que a casa de Jerusalém está unida, ‫( שֶׁחֻבְּרָה־לָּהּ יַחְדָּֽו‬šeḥubbĕrâ-lāh yaḥdāw), que está bem unida entre si. Salmos 119:63 descreve a companhia dos justos que temem a Deus: “Companheiro (‫ חָבֵר‬ḥābēr) sou de todos os que te temem e dos que guardam os teus preceitos.” Em Provérbios 28:24, ‫חָבֵר‬10 (ḥābēr) é companheiro do destruidor: “O que rouba a seu pai ou a sua mãe e diz: Não é pecado, companheiro é do destruidor.” O mesmo sentido negativo aparece em Jó 16:4 e Jó 34:8:                                                                                                                           9

Gênesis 14:3, “Todos estes se ajuntaram (ּ‫ כָּל־אֵלֶּה חָֽבְרו‬- kāl-ʾēlle ḥābĕrû – todos estes se uniram) no vale de Sidim (que é o mar Salgado).” 10 Na Septuaginta é a palavra κοινωνός (koinōnos).


15   Eu também poderia falar como vós falais; se a vossa alma estivesse em lugar da minha, eu poderia dirigir-vos um montão (‫ אַחְבִּירָה‬- ʾaḥbîrâ – amontoar) de palavras e menear contra vós outros a minha cabeça; E anda em companhia (‫ לְחֶבְרָה‬- lĕḥeberâ) dos que praticam a iniqüidade e caminha com homens perversos?

Em Provérbios 21:9 (25:24) aparece a palavra ‫( חָֽבֶר‬ḥāber) com significado de “uma casa em comun”: “Melhor é morar no canto do eirado do que junto com a mulher rixosa na mesma casa.” Em Jó 41:6, ‫( חַבָּרִים‬ḥabbārîm) significa sócios: “Acaso, os teus sócios negociam com ele? Ou o repartirão entre os mercadores?” Em Malaquias 2:14, ָ‫( חֲבֶרְתְּך‬ḥăbertĕkā) é a companheira, a “a mulher da tua mocidade e da tua aliança”:

E perguntais: Por quê? Porque o SENHOR foi testemunha da aliança entre ti e a mulher da tua mocidade, com a qual tu foste desleal, sendo ela a tua companheira (ָ‫ )חֲבֶרְתְּך‬e a mulher da tua aliança.

No Cântico de Salomão 1:7 e 8:13 (cf. Ec. 4:10; 9:4), ‫( חֲבֵרִים‬ḥăbērîm) são os companheiros do noivo:

Dize-me, ó amado de minha alma: onde apascentas o teu rebanho, onde o fazes repousar pelo meio-dia, para que não ande eu vagando junto ao rebanho dos teus companheiros (ָ‫?)חֲבֵרֶֽיך‬ Ó tu que habitas nos jardins, os companheiros (‫ )חֲבֵרִים‬estão atentos para ouvir a tua voz; faze-me, pois, também ouvi-la.

Em Daniel 11:6, ּ‫( יִתְחַבָּרו‬yitḥabbārû) refere-se a uma aliança política:

Mas, ao cabo de anos, eles se aliarão (‫ )יִתְחַבָּרו‬um com o outro; a filha do rei do Sul casará com o rei do Norte, para estabelecer a concórdia; ela, porém, não conservará a força do seu braço, e ele não permanecerá, nem o seu braço, porque ela será entregue, e bem assim os que a trouxeram, e seu pai, e o que a tomou por sua naqueles tempos.


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Entre os fariseus, ‫( חֲבֵרִים‬ḥăbērîm) são grupos reunidos em assembléia para julgamento bem como para uma reunião de refeição11. Os peregrinos que participavam da festa da páscoa em Jerusalém formavam comunidades (‫ חַבֻּרָה‬- ḥabburâ) de ceia que imolavam um cordeiro e o comiam12. Essas comunidades farisaicas eram formadas em torno de um mestre com laços de fraternidade e de solidariedade particulares13. Em Levítico 6:2, a expressão ‫( תְשׂוּמֶת יָד‬tĕśûmet yād) foi traduzida na Septuaginta (LXX) por κοινωνίας14 (koinōnias). É a única referencia desta palavra grega no Antigo Testamento15. A seção de Levítico 5:14 até 6:7 descreve a oferta pela culpa. A oferta descrita nestes versículos estava relacionada à restituição que tinha de ser paga por causa de alguma apropriação indevida de bens ou de coisas materiais (5:16). Portanto,

Diversos tipos de situações são contempladas aqui, em que um israelita podia enganar seu conterrâneo em relação à propriedades; essa era primeiramente uma quebra de confiança contra o Senhor16.

Três tipos de ofensas aparecem nesta seção: 1.

Ofensas relacionadas às coisas sagradas (5:14-16). Refere-se a tudo aquilo que havida sido consagrado a Deus ou ao serviço dos sacerdotes e do Santuário. Todas as ofertas, todo o alimento que os sacerdotes recebiam, bem como as casas e outros bens dos sacerdotes e os dízimos a que tinham direito (Cf. Lv. 27). O que se exigia era tanto o sacrifício de um carneiro quanto o pagamento da restituição, calculada pelo valor daquilo que tinha sido tomado indevidamente mais um quinto desse valor.

                                                                                                                          11

 Cazelles, “‫ חָבַר‬e ‫( חָבֵר‬ḥābar, ḥābēr)”, em Theological Dictionary of the Old Testament, editado por G. Johannes Botterweck e Helmer Ringgren (Grand Rapids, Michigan: William B. Eerdmans Publishing Company, 1980), Vol. 4, 197. 12 Gerhard Lohfink, “A Igreja que Jesus Queria: Dimensão Comunitária da Fé Cristã” (Santo André, SP e São Paulo, SP: Academia Cristã e Paulus, 2011), 136. J. Schattenmann, “κοινωνίᾳ”, em Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, editado por Lothar Coenen e Colin Browns (São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 2000), Vol. 1, 379. 13 Jean-Yves Lacoste. “Dicionário Critico de Teologia” (São Paulo: Paulinas: Edições Loyola, 2004), 399. 14 Edwin Hatch e Henry A. Redpath. “A Concordance to the Septuagint” (Baker Books, 1998), 775. 15 Friedrich Hauck, “κοινωνίᾳ”, em Theological Dictionary of the New Testament, editado por Gerhard Kittel (USA, 1967), Vol. 3, p. 800. 16 Frederick F. Bruce. “Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamentos” (São Paulo: Editora Vida, 2008), 271.


17  

2.

Ofensas relacionadas à todos os mandamentos do Senhor (5:17-19). Significa qualquer ofensa cometida em relação ao santuário, a pessoas e objetos sagrados. Se alguém tem a consciência atribulada e suspeita que pode ter ofendido as coisas santas, mas não consegue especificar exatamente como isso aconteceu, pode trazer uma oferta pela culpa, sem a compensação de 120% e pode descansar com a certeza do perdão (vs. 18).

3.

Ofensas concernentes à relacionamentos humanos (6:1-7). São ofensas que envolvem alguma quebra de confiança entre pessoas no que diz respeito a bens. Engano sobre bens deixados aos cuidados de alguém, roubo, opressão, mentir acerca de bens perdidos que alguém tenha encontrado. Uma série semelhante de disputas é tratada pela lei de Êxodo 22:7-15.

Segundo o texto hebraico, a expressão ‫( תְשׂוּמֶת יָד‬tĕśûmet yād), usada unicamente em Levítico 6:2(5:21), significa penhor ou segurança17 confiado a alguém; e a palavra ‫( פִקָּדֹון‬piqqādōwn), significa depósito18 de bens. A ideia básica de ‫( פִקָּדֹון‬piqqādōwn) é a de que alguma coisa é deixada sob os cuidados ou atenção de alguém. A palavra aparece três vezes no Antigo Testamento. Duas vezes em Levítico (6:2, 4) e uma vez em Gênesis 41:36, em que o termo se refere a um estoque de alimentos que José recomendou que Faraó acumulasse para o período da fome vindoura. Dessa forma, segundo a consideração do contexto, a tradução do texto hebraico de Levítico 6:2 seria:

‫כִּי תֶחֱטָא וּמָעֲלָה מַעַל בַּיהוָה וְכִחֵשׁ בַּעֲמִיתֹו בְּפִקָּדֹון אֹֽו־בִתְשׂוּמֶת יָד אֹו בְגָזֵל אֹו עָשַׁק אֶת־עֲמִיתֹֽו‬ ׁ‫נֶפֶש‬ Nepeš (Pessoa) kî (se) teḥĕṭāʾ (ela peca) ûmāʿălâ (e ela comete) maʿal (violação) byhwh (contra Yahweh) wĕkiḥēš (e ele engana ou nega) baʿămîtōw (contra o seu próximo) bĕpiqqādōwn (o que este lhe deu em depósito) ʾōw- (ou) bitśûmet yād (em penhor confiado) ʾōw (ou) bĕgāzēl (rouba)ʾōw (ou) ʿāšaq (extorquiu) ʾet-ʿămîtōw (o seu próximo)19. Quando alguma pessoa pecar, e cometer ofensa contra o SENHOR, e negar ao seu próximo o que este lhe deu em depósito, ou penhor, ou roubar, ou tiver usado de extorsão para com o seu próximo;

                                                                                                                          17

R. Laird Harris. “Theological Worbook on the Old Testament” (Chicago: Moody Press, 1980), Vol. 2, 872. 18 Willem A. VanGemeren. “New International Dictionary of Old Testament Theology & Exegesis” (Grand Rapids, Michigan: Zondervan Publishing House, 1997), Vol. 3, 663, 664. 19 John R. Kohlenberger III. “The Interlinear NIV Hebrew-English Old Testament” (Grand Rapids, Michigan: Zondervan Publishing House, 1987), 278, 279 e consulta na internet: http://interlinearbible.org/leviticus/6-2.htm


18  

Uma outra compreensão de ‫( תְשׂוּמֶת יָד‬tĕśûmet yād) está relacionada com a tradução que Septuaginta faz do termo para κοινωνίας (koinōnias). Segundo este entendimento,

O termo aqui traduzido como penhor [‫( תְשׂוּמֶת יָד‬tĕśûmet yād)] envolve violações referentes à confiança que deve haver entre sócios [κοινωνίας (koinōnias)]. Portanto, está em foco alguma desonestidade praticada contra um sócio, em algum negócio ou empreendimento, com o intuito de fraudá-lo quanto à parte que lhe cabe legitimamente20.

O ponto extremamente significativo em todas as passagens bíblicas citadas acima é que as palavras hebraicas ‫ חָבַר‬e ‫( חָבֵר‬ḥābar, ḥābēr) não são usadas para relacionamento com Deus. Elas podem ser usadas para a união com deuses (Cf. Os. 4:17), mas nunca para a união do homem com Yahweh, o Criador dos céus e da terra. George V. Jourdan obeserva:

Em nenhum lugar no Antigo Testamento, ḥābēr e seus cognatos significam o relacionamento do homem para com Deus. Na literatura Judaica, kοινωνός tomou o lugar do Hebraico ḥābēr, e, como ele, era descritivo do vínculo de união que existia entre associados em uma obra má (Cf. Is. 1:23; Pv. 28:24), bem como existia entre os adoradores de Deus. É notável que ḥābēr tinha que ver com o relacionamento do homem para com o homem21.

A razão disto é a distância que o israelita sente de Deus, isto é, a consciência da distância entre um Deus santo e o homem. O israelita está em uma relação de dependência com Deus e a Ele pertence, como um servo, mas ele nunca vê a si mesmo como o ‫( חָבֵר‬ḥābēr) de Deus. Na Septuaginta (LXX) não aparece a palavra κοινωνίας (koinōnias) com o significado de relação (união) do homem com Deus22. Embora a alegria da comunhão está presente em Deuteronômio 12, a distância entre Deus e o homem é enfatizada pela palavra ‫( לִפְנֵי יְהוָה‬lipnê Yahweh) perante o Senhor (vs. 7, 12, 18).                                                                                                                           20

Russell N. Champlin. “O Antigo Testamento Interpretado Versículo por Versículo” (São Paulo: Hagnos, 2001), Vol. 1, 495. 21 George V. Jourdan, “koinōnia in 1 Cor 10:16”, JBL 57 (1948), 111, 112. 22 Hauck, “κοινωνίᾳ”, em Theological Dictionary of the New Testament, editado por Gerhard Kittel (Grand Rapids, Michigan: Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1967), Vol. 3, p. 801.


19  

Esta distância não é difícil de ser entendida quando se percebe que na maior parte das tradições religiosas, o medo é a primeira emoção quando alguém se aproxima de Deus. Os hindus, por exemplo, oferecem sacrifícios no templo. Os mulçumanos quando se ajoelham se inclinam tanto que suas testas tocam o chão. Conforme observou Philip Yancey,

Certamente os judeus associavam o temor com a adoração. A sarça ardente de Moisés, as brasas vivas de Isaías, as visões extraterrenas de Ezequiel — uma pessoa “abençoada” por um encontro direto com Deus esperava sair dele chamuscada ou reluzente, ou talvez meio aleijada como Jacó. Esses eram os felizardos: as crianças judias também aprendiam histórias da montanha sagrada no deserto que se comprovou fatal para todos os que a tocaram. Manusear a arca da aliança de maneira errada era morte certa. Se alguém entrasse no Lugar Santíssimo, nunca sairia vivo de lá. Para as pessoas que criaram um lugar santo separado para Deus no templo e se encolhiam de medo de pronunciar ou soletrar o nome dele, ele [Jesus Cristo] fez uma surpresa aparecendo como um nenê na manjedoura23.

Além disso, a consciência da santidade de Deus despertava nos escritores bíblicos o sentimento de impureza, pequenez e imperfeição; revelando, assim, o pecado presente em seu ser: A santidade de Deus realça nosso pecado, dando-nos consciência de nossa pequenez e impureza; a perfeição absoluta de Deus revela nossos pecados e nossas imperfeições. O brilho da glória de sua majestade torna mais patente as nossas manchas espirituais. Foi esta a experiência de Isaías diante da revelação de Deus: “Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos!” (Is. 6:5). ... Alem de Isaías, outros servos de Deus ilustraram essa fato: Moisés, Jó, Ezequiel, Daniel, Pedro, Paulo e João (Vd. Ex. 3:6; Jó 42:5, 6; Ez. 1:28; Dn. 10:9; Lc. 5:8; 1Tm. 1:15; AP. 1:17), dentre outros, tiveram, de modo doloroso, a percepção de sua pequenez, e impureza diante de Deus, que é puro de olhos e não pode tolerar o mal (Hc. 1:13)24.

                                                                                                                          23 24

Philip Yancey. “O Jesus Que Eu Nuca Conheci” (São Paulo: Editora Vida, 1998), 39. Herminsten M. P. da Costa. “A Tua Palavra é a Verdade” (Brasília: Editora Monergismo, 2010), 100.


20  

CAPÍTULO 2

ANÁLISE DA PALAVRA KOINŌNIA E SEUS COGNATOS NO NOVO TESTAMENTO

Antes de considerar o termo koinōnia no Novo Testamento, é importante ressaltar que a versão da Bíblia hebraica para o grego koiné, conhecida como Septuaginta, não fornece qualquer antecedente adequado para o uso distintivo em Paulo. Na tradução para o grego koiné dos livros do Antigo Testamento, a menção da palavra koinōnia e seus cognatos é muito raro. Κοινωνός (koinōnos) é usado quatro vezes, κοινωνία (koinōnia) uma única vez e κοινωνέιν (koinōnein) quatro vezes1: 1. Koinōnos aparece em: a. Malaquias 2:14:

καὶ εἴπατε ἕνεκεν τίνος ὅτι κύριος διεµαρτύρατο ἀνὰ µέσον σοῦ καὶ ἀνὰ µέσον γυναικὸς νεότητός σου ἣν ἐγκατέλιπες καὶ αὐτὴ κοινωνός σου καὶ γυνὴ διαθήκης σου. E perguntais: Por quê? Porque o SENHOR foi testemunha da aliança entre ti e a mulher da tua mocidade, com a qual tu foste desleal, sendo ela a tua companheira e a mulher da tua aliança.

b. Isaías 1:23:

οἱ ἄρχοντές σου ἀπειθοῦσιν κοινωνοὶ κλεπτῶν ἀγαπῶντες δῶρα διώκοντες ἀνταπόδοµα ὀρφανοῖς οὐ κρίνοντες καὶ κρίσιν χηρῶν οὐ προσέχοντες. Os teus príncipes são rebeldes e companheiros de ladrões; cada um deles ama o suborno e corre atrás de recompensas. Não defendem o direito do órfão, e não chega perante eles a causa das viúvas.

c. Provérbios 28:24:                                                                                                                           1

George Morrish, “A Concordance of the Septuagint” (Grand Rapids: Zondervan Publishing House em parceria com Samuel Bagster and Sons Ltd., primeira publicação em 1887), 139.


21   ὃς ἀποβάλλεται πατέρα ἢ µητέρα καὶ δοκεῖ µὴ ἁµαρτάνειν οὗτος κοινωνός ἐστιν ἀνδρὸς ἀσεβοῦς. O que rouba a seu pai ou a sua mãe e diz: Não é pecado, companheiro é do destruidor.

d. 2 Reis 17:11:

καὶ ἐθυµίασαν ἐκεῖ ἐν πᾶσιν ὑψηλοῖς καθὼς τὰ ἔθνη ἃ ἀπῴκισεν κύριος ἐκ προσώπου αὐτῶν καὶ ἐποίησαν κοινωνοὺς καὶ ἐχάραξαν τοῦ παροργίσαι τὸν κύριον. Queimaram ali incenso em todos os altos, como as nações que o SENHOR expulsara de diante deles; cometeram ações perversas para provocarem o SENHOR à ira.

Conforme analisado no item sobre o Antigo Testamento, koinōnos representa a raiz hebraica ḥbr; no texto de Malaquias 2:14, significa companheira e refere-se a esposa; e, nos outros dois textos, Isaías 1:23 e Provérbios 28:24, refere-se a companheiros ou associados desagradáveis. Em 2 Reis 17:11, no entanto, ou os tradutores leram ḥbr (‫ חֲבֵרִים רָעִים‬- ḥăbērîm rāʿîm – uniões perversas) em lugar de dbr (‫ דְּבָרִים רָעִים‬  - dĕbārîm rāʿîm – ações perversas), ou eles escreveram errado koinōnos em lugar de κοινά (koina – comum, ações impuras)2. Uma outra hipótese pode estar relacionada a uma identificação errada de consoantes presente no próprio texto hebraico, o que levou a frequentes trocas das consoantes laringais ‫( א‬ʾalef), ‫( ה‬he), ‫ח‬ (ḥet) e ‫( ע‬ʿajin)3. 2. Koinōnia ocorre uma única vez em Levíticos 6:24:

ψυχὴ ἐὰν ἁµάρτῃ καὶ παριδὼν παρίδῃ τὰς ἐντολὰς A alma que sempre peca e ignorando ignora os mandamentos κυρίου καὶ ψεύσηται τὰ πρὸς τὸν πλησίον ἐν παραθήκῃ do Senhor e mente em relação ao próximo em assunto de confiança ἢ περὶ κοινωνίας ἢ περὶ ἁρπαγῆς ἢ ἠδίκησέν ou em relação à parceria e em relação à apreensão, e ele injustiçou τι τὸν πλησίον. de alguma maneira o próximo.

                                                                                                                          2

Stuart D. Currie, “Koinōnia in Christian Literature to 200 A. D.” (Michigan: Emory University Microfilms, 1962), 16. 3 Michael Tilly, “Introdução à Septuaginta” (São Paulo: Edições Loyola, 2009), 71. 4 Spetuaginta Intelinear Grego/Inglês. Consulta na internet: http://apostolic.interlinearbible.org/leviticus/6.htm


22   Quando alguma pessoa pecar, e cometer ofensa contra o SENHOR, e negar ao seu próximo o que este lhe deu em depósito, ou penhor, ou roubar, ou tiver usado de extorsão para com o seu próximo.

Os tradutores da LXX acrescentaram a palavra κοινωνίας (koinōnias) e mantiveram a palavra παραθήκῃ (parathēkē), “em assunto ou matéria de confiança ou depósito5”, como tradução da expressão hebraica ‫( תְשׂוּמֶת ָדי‬tĕśûmet yād), “em penhor confiado”. Na história da critica textual, há pelo menos três motivos para este acréscimo da versão grega de Levítico 6:2 (LXX, 5:21): (1) simplesmente uma interpretação livre do texto hebraico recebido, (2) um texto hebraico recebido independente da tradição do Texto Massorético ou (3) um acréscimo de uma letra ou de uma palavra grega6. A terceira hipótese é a mais autêntica, pois, a palavra koinōnia, como um adicional à compreensão do texto hebraico recebido, expressa o significado comercial de parceria ou arrendamento em comum7. 3. Koinōnein aparece quatro vezes em: a. 2 Crônicas 20:35:

καὶ µετὰ ταῦτα ἐκοινώνησεν Ιωσαφατ βασιλεὺς Ιουδα πρὸς Οχοζιαν βασιλέα Ισραηλ καὶ οὗτος ἠνόµησεν. Depois disto, Josafá, rei de Judá, se aliou com Acazias, rei de Israel, que procedeu iniquamente.

b. Jó 34:8:

οὐχ ἁµαρτὼν οὐδὲ ἀσεβήσας ἢ ὁδοῦ κοινωνήσας µετὰ ποιούντων τὰ ἄνοµα τοῦ πορευθῆναι µετὰ ἀσεβῶν. E anda em companhia dos que praticam a iniqüidade e caminha com homens perversos?

b. Provérbios 1:11:                                                                                                                           5

Sir Lancelot C. L. Brenton, “The Spetuagint with Apocrypha: English” (London: Samuel Bagster & Sons, Ltd., 1851), 97. 6 Michael Tilly, “Introdução à Septuaginta” (São Paulo: Edições Loyola, 2009), 71, 73. 7 Stuart D. Currie, “Koinōnia in Christian Literature to 200 A. D.” (Michigan: Emory University Microfilms, 1962), 17.


23   ἐλθὲ µεθ᾽ ἡµῶν κοινώνησον αἵµατος κρύψωµεν δὲ εἰς γῆν ἄνδρα δίκαιον ἀδίκως. Se disserem: Vem conosco, embosquemo-nos para derramar sangue, espreitemos, ainda que sem motivo, os inocentes.

c. Eclesiastes 9:4:

ὅτι τίς ὃς κοινωνεῖ πρὸς πάντας τοὺς ζῶντας ἔστιν ἐλπίς ὅτι ὁ κύων ὁ ζῶν αὐτὸς ἀγαθὸς ὑπὲρ τὸν λέοντα τὸν νεκρόν. Para aquele que está entre os vivos há esperança; porque mais vale um cão vivo do que um leão morto.

Em Jó 34:8, κοινωνήσας (koinōnēsas) significa alguém que partilha o caminho com malfeitores, em 2 Crônicas 20:35, ἐκοινώνησεν (ekoinōnēsen) é usado para descrever a parceria de Josafá com Acazias, em Provérbios 1:11, κοινώνησον (koinōnēson), uma interpretação livre do hebraico, significa tornar-se cúmplice no crime e em Eclesiastes 9:4, κοινωνεῖ (koinōnei), procedente da raiz hebraica ‫( חבר‬ḥbr), traz o significado de estar entre os vivos8. Embora outros autores tenham estudado o conceito de koinōnia no Novo Testamento9, uma análise cuidadosa do termo foi realizado especialmente por Heirich Seeseamann e J. Y. Campbell10. Campbell chega a conclusão de que a palavra kοινωνός e seus cognatos expressa, em primeiro lugar, a ideia de participação:

                                                                                                                          8

Stuart D. Currie, “Koinōnia in Christian Literature to 200 A. D.” (Michigan: Emory University Microfilms, 1962), 17. 9 Friedrich Hauck, “Kοινωνίᾳ”, em Theological Dictionary of the New Testament, editado por Gerhard Kittel (Grand Rapids, Michigan: Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1967), Vol. 3, 789-809; George V. Jourdan, “koinōnia in 1 Cor 10:16”, JBL 57 (1948), 111-124; C. E. B. Cranfield, “Fellowship, Communion”, em A Theological Word Book of the Biblie, editado por Alan Richardson (New York, 1953), 81-83; D. W. B. Robinson, “Communion; Fellowship”, em The International Standard Bible Encyclopedia, editado por Geoffrey W. Bromiley (Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1979), Vol. 1, 752-753; G. B. Funderburk, “Comunhão” e W. H. Mare, “Comunhão de Bens”, em Enciclopédia da Bíblia (São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2008), Vol. 1, 1112-1115; J. Eichler, “Comunhão, Ter, Repartir, Participar” e J. Schattenmann, “κοινωνίᾳ”, em Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, editado por Lothar Coenen e Colin Browns (São Paulo: Edições Vida Nova, 2000), Vol. 1, 373-381. 10 J. Y. Campbell, “Kοινωνίᾳ and Its Cognates in the New Testament”, JBL 51 (1932), 352-380.


24   A ideia primária de kοινωνός e seus cognatos não é o de associação com outra pessoa ou outras pessoas, mas de participação em algo em que outros também participam11.

Seeseman classifica o termo koinōnia em quatro grupos: 1. Koinōnia com o genitivo de coisa. 2. Koinōnia com o genitivo de pessoa. 3. Koinōnia com o dativo de pessoa. 4. Koinōnia com a preposição prós, eis, peri, en12. Seesemann, no entanto, nega qualquer aspecto comunitário de koinōnia. De acordo com ele, o termo pode denotar três diferentes significados13: 1. Ação de partilhar ou contribuir (2Co. 9:13; Rm. 15:26; Hb. 13:16). 2. Participação (1Co. 1:9; 10:16; 2Co. 8:4; Fp. 1:5; 2:1; 3:10; Fm. 6). 3. Comunidade (Gl. 2:9; At. 2:42; 1Jo. 1:3, 6, 7). Embora mencione o significado de comunidade, Seesemann acredita que não há nenhum texto importante de Paulo que apresente este conceito. Koinōnia ocorre ao todo 18 vezes: 13 vezes nos escritos do apóstolo Paulo, 1 vez em Atos dos Apóstolos e 4 vezes em 1 João. O texto grego usado é o de Westcott e Hort em lugar do Textus Receptus, pois, segundo Pedro Apolinário:

O Textus Receptus – Expressão latina proveniente de uma frase da edição do Novo Testamento (1633) dos irmãos Boaventura e Abraão Elzevir. A base do Textus Receptus foi o grego do Novo Testamento de Erasmo, em que se basearam as traduções em alemão e inglês, inclusive a KJV (1611). Por ser um texto bizantino, baseado em pequeno número de manuscritos, a Crítica Textual achou melhor substituí-lo por textos melhores como o de Westcott e Hort. A frase latina significa em português texto recebido14.

2.1. Koinōnia nos escritos Paulinos

                                                                                                                          11

Ibid, 353; Heirich Seesemann, “Der Begriff koinōnia im Neuen Testament” (Giessen 1933). Heirich Seesemann, “Der Begriff koinōnia im Neuen Testament” (Giessen 1933), 14. Citado por George Panikulam, Koinōnia in the New Testament: A Dynamic Expression of Christian Life. (Roma: Pontifício Instituto Bíblico, 1979), 2. 13 Ibid., 2. Jürgen Roloff, “A Igreja no Novo Testamento” (São Paulo, SP: Editora Loyola, 2005), 112. 14  Pedro Apolinário, “História do Texto Bíblico” (São Paulo: Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia, 1990), 28. 12


25  

2.1.1. Koinōnia com o Filho Para Paulo, é o objetivo da vida cristã:

“πιστος ο θεος δι ου εκληθητε εις κοινωνιαν του υιου αυτου ιησου χριστου του κυριου ηµων.” “Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados à comunhão (κοινωνιαν) de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor” 1Co. 1:9.

2.1.2. Koinōnia na coleta

“ευδοκησαν γαρ µακεδονια και αχαια κοινωνιαν τινα ποιησασθαι εις τους πτωχους των αγιων των εν ιερουσαληµ.” “Porque aprouve à Macedônia e à Acaia levantar uma coleta (κοινωνίαν) em benefício dos pobres dentre os santos que vivem em Jerusalém” Rm. 15:26 (Cf. Rm. 12:13): “µετα πολλης παρακλησεως δεοµενοι ηµων την χαριν και την κοινωνιαν της διακονιας της εις τους αγιους.” “Pedindo-nos, com muitos rogos, a graça de participarem (κοινωνιαν) da assistência aos santos” 2Co. 8:4. “δια της δοκιµης της διακονιας ταυτης δοξαζοντες τον θεον επι τη υποταγη της οµολογιας υµων εις το ευαγγελιον του χριστου και απλοτητι της κοινωνιας εις αυτους και εις παντας.” “Visto como, na prova desta ministração, glorificam a Deus pela obediência da vossa confissão quanto ao evangelho de Cristo e pela liberalidade com que contribuís (κοινωνιας) para eles e para todos” 2Co. 9:13.

2.1.3. Koinōnia na fé

“οπως η κοινωνια της πιστεως σου ενεργης γενηται εν επιγνωσει παντος αγαθου [του] εν ηµιν εις χριστον.” “Para que a comunhão (κοινωνια) da tua fé se torne eficiente no pleno conhecimento de todo bem que há em nós, para com Cristo” Fm. 6.

2.1.4. Koinōnia no Evangelho


26   “επι τη κοινωνια υµων εις το ευαγγελιον απο της πρωτης ηµερας αχρι του νυν.” “Pela vossa cooperação (κοινωνια) no evangelho, desde o primeiro dia até agora” Fp. 1:5.

2.1.5. Koinōnia no Espírito

“η χαρις του κυριου ιησου [χριστου] και η αγαπη του θεου και η κοινωνια του αγιου πνευµατος µετα παντων υµων.” “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão (κοινωνια) do Espírito Santo sejam com todos vós” 2Co. 13:13. “ει τις ουν παρακλησις εν χριστω ει τι παραµυθιον αγαπης ει τις κοινωνια πνευµατος ει τις σπλαγχνα και οικτιρµοι.” “Se há, pois, alguma exortação em Cristo, alguma consolação de amor, alguma comunhão (κοινωνια) do Espírito, se há entranhados afetos e misericórdias” Fp. 2:1.

   

2.1.6. Koinōnia na Santa Ceia

“το ποτηριον της ευλογιας ο ευλογουµεν ουχι κοινωνια εστιν του αιµατος του χριστου τον αρτον ον κλωµεν ουχι κοινωνια του σωµατος του χριστου εστιν.” “Porventura, o cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão (κοινωνια) do sangue de Cristo? O pão que partimos não é a comunhão (κοινωνια) do corpo de Cristo?” 1Co. 10:16.

2.1.7. Koinōnia nos sofrimentos

“του γνωναι αυτον και την δυναµιν της αναστασεως αυτου και κοινωνιαν παθηµατων αυτου συµµορφιζοµενος τω θανατω αυτου.” “Para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão (κοινωνιαν) dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte” Fp. 3:10.

2.1.8. Koinōnia na cooperação do Evangelho


27   “και γνοντες την χαριν την δοθεισαν µοι ιακωβος και κηφας και ιωαννης οι δοκουντες στυλοι ειναι δεξιας εδωκαν εµοι και βαρναβα κοινωνιας ινα ηµεις εις τα εθνη αυτοι δε εις την περιτοµην.” “E, quando conheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que eram reputados colunas, me estenderam, a mim e a Barnabé, a destra de comunhão (κοινωνιας), a fim de que nós fôssemos para os gentios, e eles, para a circuncisão” Gl. 2:9.

2.1.9. Koinōnia como união

“µη γινεσθε ετεροζυγουντες απιστοις τις γαρ µετοχη δικαιοσυνη και ανοµια η τις κοινωνια φωτι προς σκοτος.” “Não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos; porquanto que sociedade pode haver entre a justiça e a iniqüidade? Ou que comunhão (κοινωνια), da luz com as trevas?” 2Co. 6:14.

2.1.10. Koinōnia na beneficência

“της δε ευποιιας και κοινωνιας µη επιλανθανεσθε τοιαυταις γαρ θυσιαις ευαρεστειται ο θεος. “Não negligencieis, igualmente, a prática do bem e a mútua cooperação (κοινωνιας); pois, com tais sacrifícios, Deus se compraz” Hb. 13:16.

2.2. Koinōnia em Atos dos Apóstolos 2.2.1. Koinōnia como comunhão fraternal

“ησαν δε προσκαρτερουντες τη διδαχη των αποστολων και τη κοινωνια τη κλασει του αρτου και ταις προσευχαις.” “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão (κοινωνια), no partir do pão e nas orações” At. 2:42.

2.3. Koinōnia em 1 João


28  

2.3.1. Koinōnia como comunhão e comunidade

“ο εωρακαµεν και ακηκοαµεν απαγγελλοµεν και υµιν ινα και υµεις κοινωνιαν εχητε µεθ ηµων και η κοινωνια δε η ηµετερα µετα του πατρος και µετα του υιου αυτου ιησου χριστου και ταυτα γραφοµεν ηµεις ινα η χαρα ηµων η πεπληρωµενη και εστιν αυτη η αγγελια ην ακηκοαµεν απ αυτου και αναγγελλοµεν υµιν οτι ο θεος φως εστιν και σκοτια ουκ εστιν εν αυτω ουδεµια εαν ειπωµεν οτι κοινωνιαν εχοµεν µετ αυτου και εν τω σκοτει περιπατωµεν ψευδοµεθα και ου ποιουµεν την αληθειαν εαν δε εν τω φωτι περιπατωµεν ως αυτος εστιν εν τω φωτι κοινωνιαν εχοµεν µετ αλληλων και το αιµα ιησου του υιου αυτου καθαριζει ηµας απο πασης αµαρτιας.” “O que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão (κοινωνιαν) conosco. Ora, a nossa comunhão (κοινωνια) é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo. Estas coisas, pois, vos escrevemos para que a nossa alegria seja completa. Ora, a mensagem que, da parte dele, temos ouvido e vos anunciamos é esta: que Deus é luz, e não há nele treva nenhuma. Se dissermos que mantemos comunhão (κοινωνιαν) com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão (κοινωνιαν) uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” 1Jo. 1:3-7.

Paulo é o autor que mais usa a palavra koinōnia no Novo Testamento. Jourdan observa:

São Paulo é o escrtior que tem usado mais frequentemente koinōnos, koinōnein, konōnia e sua composição sygkoinōnos e sygkoinōnein. Ao mesmo tempo, ele introduziu um significado de qualidade espiritual para cada palavra, distinto de vários graus de poder e intensidade15.

Paulo utiliza o termo koinōnia para significar comunhão religiosa dos crentes em Cristo. Em seus escritos, percebe-se basicamente duas características: (1) A ênfase primária é que koinōnia é uma vida cristocêntrica e (2) ele nunca emprega koinōnia como uma partilha individual de alguém em Cristo. Ele sempre utiliza para a partilha de alguém em Cristo com o próximo. Portanto, koinōnia nos escritos de Paulo possui um forte senso comunitário, pois, uma comunidade se forma quando há participação em algo em comum. Segundo Jourdan:

                                                                                                                          15

George V. Jourdan, “koinōnia in 1 Cor 10:16”, JBL 57 (1948), 112.


29   Quando São Paulo quis indicar a interioridade da "comunhão" para cada cristão individual fê-lo por meio de uma outra frase: ἐν Χριστῷ εἶναι (en Christō einai)16

Segundo o apóstolo Paulo, a comunhão com Cristo é para a salvação e a comunhão uns com outros é o ideal da comunidade cristã17. O forte senso comunitário da igreja também é descrita pela composição da preposição συν (syn) utilizada por Paulo em seus escritos18. Ele falou sobre o conforto recíproco pela fé que teria com os romanos quando fosse visitá-los (Rm. 1:12 συµπαρακληθῆναι – symparaklēthēnai) e pediu-lhes que unissem a ele em fervorosa oração em favor de seu ministério em Jerusalém (Rm. 15:30 – συναγωνίσασθαί – synagōnisasthai). Ele descreveu os Filipenses lutando com ele na causa do evangelho, da mesma forma que os atletas competem lado a lado (Fp. 1:27 - συναθλοῦντες – synathlountes; Cf. 4:3) e sendo companheiros de imitação dele (Fp. 3:17 – Συµµιµηταί – Symmimētai). Os cristãos sofrem juntos com Cristo e serão glorificados juntos com Ele (Rm. 8:17 – συµπάσχοµεν – sympaschomen - συνδοξασθῶµεν – syndoxasthōmen), enquanto compartilham dos sofrimentos e alegrias uns com outros (1Co. 12:26 – συµπάσχει – sympaschei; Cf. Fp. 2:17). Eles são co-herdeiros de Cristo (Rm. 8:17 – συγκληρονόµοι – synklēronomoi; Cf. Ef. 3:16). Paulo descreve seus cooperadores como companheiros de prisão (Rm. 16:7 – συναιχµαλώτους – synaichmalōtous; Cf. Cl. 4:10; Fm. 23), conservo (Cl. 1:7 – συνδούλου – syndoulou; Cf. Cl. 4:7), cooperadores (Rm. 16:3 – συνεργούς – synergous; Cf. Rm. 16:9, 21; Fp. 2:25; 4:3; Fm. 1) e companheiro de lutas (Fp. 2:25 – συστρατιώτην – systratiōtēn; Cf. Fm. 2). 2.4. Considerações pontuais O termo koinōnia e seus cognatos possuem um significado peculiar no Novo Testamento. No Antigo Testamento, koinōnia aparece uma única vez em Levítico 6:2. No entanto, esta ocorrência, que é uma tradução do hebraico para o grego koiné                                                                                                                           16

Ibid., 113. Para uma consideração desta palavra, veja Efésios 1:12 e Pilipenses 1:23.  George Panikulam, “Koinōnia in the New Testament: A Dynamic Expression of Christian Life” (Roma: Pontifício Instituto Bíblico, 1979), 5.   18 W. Grundmann, “σύν – µετά with the Genitive”, em Theological Dictionary of the New Testament, editado por Gerhard Kittel (Grand Rapids, Michigan: Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1971), Vol. 7, 786, 787. 17


30  

realizada, segundo Flávio Josefo, por setenta tradutores judeus no terceiro século antes de Cristo19, é um acréscimo para, talvez, ampliar a ideia da expressão ‫( תְשׂוּמֶת יָד‬tĕśûmet yād), “em penhor confiado”. No hebraico, a melhor palavra para expressar o conceito grego de koinōnia são as palavras ‫( חָבַר חָבֵר חֶבֶר‬ḥābar, ḥābēr e ḥeber), amarrar, juntar-se, unir-se, aliar-se, fazer

uma

aliança,

grupo,

companheiro.

Embora

estas

palavras

apareçam

constantemente no Antigo Testamento, elas não denotam o relacionamento do homem para com Deus como sendo o Seu companheiro. Elas significam apenas o relacionamento interpessoal entre os homens. Na Septuaginta (LXX), koinōnia e seus cognatos aparecem aproximadamente nove vezes; um número pequeno quando comparado com o Novo Testamento em que o termo aparece 18 vezes. Mas, todas estas nove ocorrências sugerem uma comunhão entre homens; nunca do homem e Deus. No Novo Testamento, ao contrário, koinōnia é usado treze vezes por Paulo e denota comunhão com Deus e com o próximo. O senso comunitário entre os cristãos, de acordo com Paulo, é possível quando, em primeiro lugar, o cristão desenvolve a comunhão com Deus. O significado de koinōnia, portanto, é especial no Novo Testamento: comunhão religiosa dos crentes em Cristo. A presente pesquisa não pretende elaborar uma exegese de todos os textos paulinos em que ocorre a palavra koinōnia, pois, este propósito é bastante exaustivo e pertenceria a uma dissertação futura. No entanto, tal esforço exegético não desclassifica o significado de koinōnia analisado até o presente momento, pois, os textos bíbicos apresentados são claros no significado do termo. Portanto, como propósito principal desta pesquisa, o próximo capítulo analisará o termo koinōnia no livro de Atos dos Apóstolos.

                                                                                                                          19

Flávio Josefo, “Seleções de Flávio Josefo – Antiguidades Judaicas” (São Paulo, SP: Editora das Américas, 1974), 136.


31  

CAPÍTULO 3 KOINŌNIA EM ATOS 2:42

A palavra koinōnia aparece uma única vez em Atos dos Apóstolos (At. 2:42). O segundo capítulo de Atos forma uma unidade e desenvolve três temas: (1) o evento do Pentecostes (vs. 1-13), o sermão de Pedro (vs. 14-40) e o estilo de vida da comunidade cristã primitiva. Koinōnia aparece junto com as expressões “doutrina dos apóstolos”, “partir do pão” e “orações” para explicar o estilo de vida dos primeiros cristãos. No verso 42, um dos principais sumários em Atos, o termo koinōnia fica sem explicação. O objetivo deste capítulo é explicar o significado de koinōnia, seu contexto, sua provável origem e seu paralelo nos três diferentes sumários: Atos 2:41-47; 4:32-35; 5:11-16.

3.1. Propósito de Atos dos Apóstolos

Atos dos Apóstolos, um título adotado no segundo século da era cristã, tem como seu autor Lucas. Em 175 d. C, o Cânon Muratoriano afirmou que Lucas é o seu autor, descrevendo sua nacionalidade como sírio, natural de Antioquia e médico por profissão; ainda nesta época, o prólogo antimarcionita também registrou que o próprio Lucas é o autor de Atos, e fizeram o mesmo, Clemente de Alexandria, Orígenes, Tertuliano, Eusébio e Jerônimo1. A evidência externa, portanto, é forte e unânime ao declarar Lucas como o autor de Atos dos Apóstolos. O livro foi escrito no ano 62 d. C; isto é, antes da destruição do templo de Jerusalém no ano 70 (d. C), depois das viagens missionárias de Paulo e de sua prisão em Roma, e, consequentemente, foi o ano da libertação de Paulo da prisão romana2. Kistemaker observa:                                                                                                                           1

Simon J. Kistemaker, “Comentário do Novo Testamento, Atos” (São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2006), Vol. 1, 39. 2 Alpha Omega Ministries, Inc. “Bíblia de Bosquejos y Semones” (Grand Rapids, Michigan: Editorial Portavoz, 2003), Vol. 6, 9. Simon J. Kistemaker, “Comentário do Novo Testamento, Atos” (São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2006), Vol. 1, 41.


32   Os escritos de Lucas são desprovidos de qualquer indicação de que o autor esteja apresentando história em vez de profecia. Se cremos que Jesus disse palavras de genuína profecia acerca de Jerusalém uns 40 anos antes de sua destruição, podemos datar a composição tanto do Evangelho como de Atos para antes de 70 d. C. ... Aceitamos como genuína profecia as palavras registradas no discurso acerca da destruição de Jerusalém pronunciadas pelo próprio Jesus (Mt. 24; Mc. 13; Lc. 19:41-44; 21:5-36). E para a compilação de Atos sugerimos uma data anterior a 19 de Julho de 64 d. C., quando Roma foi queimada e as perseguições de Nero contra os Cristãos tiveram início. Uma data posterior ao verão de 64 teria feito Lucas alterar o final de Atos3.

Além destes fatos, outro evento histórico confirma a veracidade do ano 62 d. C como sendo a data provável para a composição de Atos dos Apóstloas, a saber, Lucas foi companheiro de Paulo em sua segunda viagem missionária (At. 16:10; 20:5-21; 27:1-28:16). O livro de Atos não é primariamente uma obra teológica, descrevendo a vida e o pensamento da Igreja no ano 90 d. C., período conhecido como “catolicismo primitivo”, mas, é antes, uma autêntico relato histórico do cristianismo primitivo, pois, Lucas foi companheiro missionário de Paulo e um historiador competente, que elaborou o seu relato com base tanto na experiência pessoal como na pesquisa pessoal4. Na introdução do Evangelho bem como em Atos, Lucas afirma ter obtido informação dos “que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ministros da palavra” (Lc. 1:2), e que havia investigado pessoalmente os assuntos sobre os quais iria escrever. Em seu Evangelho, Lucas fornece referências de tempo para demonstrar que a mensagem de seu evangelho é fundamentada em fatos históricos (Lc. 1:5; 2:1; 3:1) e em Atos, o livro foi escrito como cronologia de acontecimentos que são relacionadas em ordem seqüencial: Antes do Penteconte (At. 1:1-26), a igreja em Jerusalém (At. 2:18:1a), a igreja na Palestina (At. 8:1b-11:18), a igreja em Antioquia (At. 11:19-13:3), a primeira viagem missionária (At. 13:4-14:28), o concílio de Jerusalém (At. 15:1-35), a segunda viagem missionária (At. 15:36-18:22), a terceira viagem missionária (At. 18:23-21:16), em Jerusalém e Cesaréia (At. 21:17-26:32) e a viagem e permanência em Roma (27:1-28:31)5.                                                                                                                           3

Simon J. Kistemaker, “Comentário do Novo Testamento, Atos” (São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2006), Vol. 1, 44. 4 George Eldon Ladd, “Teologia do Novo Testamento” (São Paulo, SP: Exodus Editora, 1997), 296. 5 Simon J. Kistemaker, “Comentário do Novo Testamento, Atos” (São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2006), Vol. 1, 60.


33  

A preocupação de Lucas também era fornecer teologia em Atos. Um grande número de assuntos teológicos são tratados nos vários discursos registrados em seu livro: Deus em palavra e ação (At. 2:22-24, 32-36; 3:13-15, 22; 4:10; 5:30-32; 10:28, 34-42; 13:17-37, 48; 15:7-10; 17:24-31; 18:6-10; 20:27, 28), Jesus Cristo (At. 1;24; 2:22, 36; 3:13, 14, 22, 26; 4:10, 27, 30; 5:31, 42; 7:56; 8:5; 9:20; 17:3; 18:5), o Espírito Santo (At. 1:2, 5, 8, 16; 2:4, 6, 8-11, 17, 33, 38; 4:8, 31; 5:3, 32; 6:3, 5; 7:51, 55; 8:15, 17-19; 8:19, 29, 39; 9:17, 31; 10:38, 44, 45, 47; 11:12, 15, 16, 24; 13:2, 4, 9, 52; 15:8, 28; 16:6, 7; 18:25; 19:2, 6; 20:22, 23, 28; 21:11; 28:25), a igreja (At. 2:38, 39, 42; 4:34; 6:1-6; 14:23; 15:4, 12, 22, 41; 16:5; 21:17-19) e escatologia (At. 1:8, 11; 3:19, 20; 10:42; 17:31). Portanto, Lucas ao desenvolver a sua história, sua seleção de dados e assim também construir a sua teologia, tanto em seu Evangelho como em Atos dos apóstolos, ele tinha o propósito de convencer Teófilo de que ninguém poderia prejudicar a vitoriosa marcha do evangelho de Cristo (Lc. 1:1-4; At. 1:1-3). Lucas demonstra que Deus desejava espalhar o evangelho e enviou o Espírito Santo para promover a causa do reino. Em seu primeiro livro, ele revela que Jesus é o Messias a respeito de quem os profetas do Antigo Testamento profetizaram e que viria para cumprir as promessas messiânicas. Em seu segundo livro, ele retrata como o evangelho entra no mundo e como o nome de Jesus Cristo é proclamado a todas as nações. 3.2. O Pentecostes: Contexto de Atos 2:42 O capítulo 2 versículo 42 de Artos está inserido na perícope da promessa do derramamento do Espírito Santo, o Pentecostes, que começa em Atos capítulo 2 versículo 1 e termina no versículo 47. A manifestação do Espírito nos apóstolos e na comunidade dos crentes recebe repetida ênfase ao longo de todo o capítulo. A palavra grega πεντηκοστῆς (pentēkostēs) significa “qüinquagésimo”. O uso da palavra Pentecostes para designar a festa religiosa dos judeus é um uso posterior do Antigo Testamento6. O livro de Tobias 2:1 e 2 Macabeus 12:31, 32 mencionam a festa do Pentecostes:

                                                                                                                          6

Roland De Vaux, “Ancient Israel: Its life and Institutions” (London: McGraw-Hill, 1961), 493-495.


34   “Durante o reinado de Assaradon, voltei para minha casa, e minha mulher Ana e meu filho Tobias me foram restituídos. Em Pentecostes, que é uma festa nossa, a santa festa das Semanas, foi-me preparado um bom almoço. Reclinei-me para comer” (Tb. 2:1 – Bíblia da CNBB) “Por isso, Judas e os seus agradeceram a eles e os exortaram a que continuassem a mostrar-se benignos, também no futuro, para com seus irmãos de raça. Assim é que chegaram a Jerusalém, estando já próxima a festa das Semanas. Depois da festa chamada Pentecostes, marcharam contra Górgias, governador da Iduméia” (2Mc. 12:31, 32).

Os judeus celebravam o Pentecostes como a Festa das Semanas cinquenta dias depois da Páscoa (Lv. 23:15, 16; Dt. 16:9-12). Eles a chamavam também de Festa da Colheita, ocasião na qual apresentavam os primeiros frutos da colheita de trigo (Êx. 23:16; Nm. 28:26). Em um período posterior7, o Pentecostes também era uma festa de lembrança da aliança que Deus estabeleceu com Israel cinquenta dias depois da libertação do Egito (Êx. 19-20; Dt. 16:12). Um momento especial da festa era com relação a ‫( תֹּורָה‬tōwrâ). A tōwrâ, a Lei, era uma conceito chave em Israel8. A obediência a Lei trazia bênçãos e prosperidade e a desobediência, destruição (Dt. 11:26-28; 30:8, 15-19). Baruc, escrevendo para a comunidade de Israel no cativeiro babilônico, também falou sobre a desobediência aos mandamentos do Senhor como a causa para a escravidão em terra inimiga (Bar. 3:9, 10). A desobediência constante de Israel para com a Lei de Deus seria resolvida por meio da promessa da nova aliança de Deus com o Seu povo (Jr. 31:31-34; Ez. 36:2232). Segundo Jeremais, a nova aliança seria estabelecida por um ato de Deus em colocar na mente e no coração dos israelitas a Sua Lei. A nova aliança, portanto, aponta para uma transformação interior pela ‫( תֹּורָה‬tōwrâ), pois, ela ocupava uma função importante na sociedade de Israel direcionando todas as suas atividades9. Outra característica da nova aliança relacionava-se ao conhecimento experimental de Deus pelos israelitas como Salvador e Perdoador:

                                                                                                                          7

Frederick F. Bruce, “Hechos de los Aposteles” (Argentina: Nueva Creación, 1998), 66. A. Van S., “Lei”, em O Novo Dicionário da Bíblia, editado por J. D. Douglas (São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1991), Vol. 2, 914-918. 9 Ibid, 914-918. 8


35   Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao SENHOR, porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o SENHOR. Pois perdoarei as suas iniqüidades e dos seus pecados jamais me lembrarei (Ez. 31:34).

O profeta Ezequiel, contemporâneo de Jeremias durante o exílio babilônico, destaca outro conceito presente na nova aliança. Ele menciona um novo coração, um novo espírito10 e um coração de carne em contraste com um coração de pedra. A ênfase do profeta é destacar a nova disposição do Israel escatológico em obedecer a ‫תֹּורָה‬ (tōwrâ). Isto é evidente quando Ezequiel afirma que Deus colocará o Seu Espírito dentro11 de Israel: “Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez. 36:27). A expressão “porei dentro de vós o meu Espírito” está em rigoroso paralelismo com a expressão de Jeremias “porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração” (Jr. 31:33 – Almeida Corrigida e Revisada Fiel). O Espírito, portanto, é apresentado em Ezequiel como um poder divino eficaz que transforma o povo de Israel escatológico em um novo homem obediente aos estatutos e juízos de Deus. Assim como na profecia da nova aliança, no evento do Pentecostes há um derramamento do Espírito Santo: “Todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At. 2:4). A obra do Espírito Santo nos apóstolos e na primeira comunidade cristã é manifestada claramente ao longo de todo o segundo capítulo de Atos. Em conformidade com a                                                                                                                           10

Em Ezequiel 36:26, a expressão hebraica ‫( וְנָתַתִּי לָכֶם לֵב חָדָשׁ וְרוּחַ חֲדָשָׁה אֶתֵּן בְּקִרְבְּכֶם‬wĕnātattî lākem lēb ḥādāš wĕrûaḥ ḥădāšâ ʾettēn bĕqirbĕkem), “Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo”, está em paralelismo com o expressão do versículo seguinte ‫( רוּחִיוְאֶת־ אֶתֵּן בְּקִרְבְּכֶם‬wĕʾet-rûḥî ʾettēn bĕqirbĕkem), “Porei dentro de vós o meu Espírito”. A expressão ַ‫( וְרוּח‬wĕrûaḥ) aparece no Antigo Testamento 38 vezes com diferentes significados: “o Espírito de Deus”, “vento”, “o Espírito do Senhor”, “o Espírito [de Deus]”, “fôlego”, “o espírito do meu entendimento”, “ar”, “Santo Espírito” (Gn. 1:2; Ex. 10:13; Nm. 11:31; Jz. 6:34; 1Sm. 16:14; 1Rs. 18:12, 45; 1Rs. 19:11; 1Cr. 12:18; 2Cr. 24:20: Jó 4:15; 8:2; 12:10; 20:3; 27:3; 37:21; 41:16; Sl. 11:6; 51:10, 11, 12; Pv. 18:14; 25:14; Ec. 3:19, 21; Is. 41:16; 42:5; Ez. 3:14; 11:19, 24; 13:11; 18:31; 19:12; 36:26; 37:1, 8 e Zc. 5:9). De acordo com o contexto em que a expressão ַ‫( וְרוּח‬wĕrûaḥ) está inserida, ela pode ter uma conotação de Espírito de Deus, do Senhor ou simplesmente Espírito [de Deus]. Em Salmo 51:10f (final) aparece a expressão ‫( וְרוּחַ נָכֹון חַדֵּשׁ בְּקִרְבִּֽי‬wĕrûaḥ nākōwn ḥaddēš bĕqirbî), “renova dentro de mim um espírito inabalável”. A Bíblia Viva traduz esta expressão da seguinte forma: “coloca dentro de mim pensamentos e desejos limpos e sinceros”. Quando colocamos em paralelo a expressão de Salmo 51:10f com Ezequiel 36:26m (meio) percebe-se a real conotação da expressão em Ezequiel: Salmo 51:10f: ‫ וְרוּחַ נָכֹון חַדֵּשׁ בְּקִרְבִּֽי‬// ‫ וְרוּחַ חֲדָשָׁה אֶתֵּן בְּקִרְבְּכֶם‬Ezequiel 36:26m. A Bíblia Viva traduz Ezequiel 36:26m de modo semelhante à Salmo 51:10f: “Darei a vocês um coração novo, com novos pensamentos e desejos. Darei a vocês um espírito novo”. Portanto, a expressão em Ezequiel possuí um sentido de novos pensamentos e desejos pela ação divina no Israel escatológico. Veja http://biblecommenter.com/ezekiel/36-26.htm 11 A palavra hebraica ‫( קֶרֶב‬qereb) significa “no meio”, “entre”, “interior”. Em Salmos 5:9; 49:11 e 64:6, ‫( קֶרֶב‬qereb) significa “pensamento íntimo” para destacar a mente e o coração como a sede dos pensamentos e desejos. Veja Gesenius's Lexicon: http://www.blueletterbible.org/lang/lexicon/lexicon.cfm?Strongs=H7130&t=KJV


36  

profecia da nova aliança de Ezequiel 36:24, há uma numerosa multidão de pessoas de todos os países representados no Pentecostes:

Ora, estavam habitando em Jerusalém judeus, homens piedosos, vindos de todas as nações debaixo do céu... E como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna? Somos partos, medos, elamitas e os naturais da Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia, da Frígia, da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia, nas imediações de Cirene, e romanos que aqui residem, tanto judeus como prosélitos, cretenses e arábios. Como os ouvimos falar em nossas próprias línguas as grandezas de Deus? (At. 2:5, 8-11).

Outra característica da nova aliança é o perdão dos pecados (Jr. 31:34; Ez. 36:25). Ela também é mencionada em Atos 2:38:

Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo.

Assim como há instrumentos da aliança no Antigo Testamento12, há instrumentos da obra do Espírito Santo: os apóstolos (At. 2:42; 4:33, 35; 5:12). A promessa da presença transformadora do Espírito Santo no Israel escatológico, levandoo à obediência aos estatutos e juízos de Deus, é o mesmo Espírito que produz perseverança nos cristãos da igreja primitiva para com os ensinos dos apóstolos: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações” (At. 2:42). Portanto, agora o povo de Deus é reconstituído! E o próprio termo koinōnia indica os vários aspectos peculiares desta comunidade. Conforme observou Lohfink:

Segundo as Escrituras, a vinda do Espírito de Deus é um fenómeno do fim dos tempos: o Espírito é descrito como a dádiva de Deus à comunidade escatológica, mais ainda: como a força de Deus que cria realmente o Israel escatológico (cf. Is. 32:15; 44:3; Ez. 11:19; 36:26, 27; 34:14; Jl. 2:28-31). As experiências profundamente impressionantes do Espírito na comunidade primitiva tinham de aprofundar a consciência já despertada por Jesus: agora

                                                                                                                          12

Walther Eichrodt, “Theology of the Old Testament” (Philadelphia: The Westminster Press, 1961), Vol. 1, 289-452.


37   acontece a realização escatológica, agora o povo de Deus é reconstituído! Não é por acaso que Lucas, no contexto de sua narrativa dos acontecimentos do Pentecostes, citam em lugar de destaque (de forma levemente modificada) Joel 2:28-31. Provavelmente, a comunidade primitiva já interpretou muito cedo com este texto os fenômenos carismáticos que nela aconteciam (profecias, visões, milagres de cura) como dons do Espírito Santo concedidos ao Israel verdadeiro, escatológico. Por isso é impossível falar da autocompreensão da Igreja primitiva sem se ocupar com a experiência da presença viva do Espírito em seu meio13

Através da vida cultual, a comunidade do Antigo Testamento demonstrava sua aceitação e reconhecimento de Deus. De modo semelhante, a comunidade cristã primitiva expressa sua aceitação e reconhecimento de Deus pela prática do quebrar o pão e pela oração (At. 2:42). As características mencionadas do segundo capítulo de Atos proporcionarão uma explicação do termo koinōnia. 3.3. Atos 2:42 e os Sumários O texto bíblico de Atos 2:41-47 faz parte, do que Dibelius sugeriu de, um dos principais sumários14, generalizações de incidentes típicos que servem como conectores dentro do gênero literário da narrativa. A informação de Lucas sobre a igreja cristã primitiva é feita por cinco narrativas extensas e três sumários. As narrativas são Atos 2:1-40; 3:1-4:31; 4:36-5:11; 5:12-42; 6:1-8:3. Estas são as maiores unidades literárias desta seção do livro de Atos e dentro destas unidades há pequenos sumários conectados15. Os sumários são os seguintes: Atos 2:41-47; 4:32-35; 5:11-16. O contexto imediato de todos os sumários está relacionado com a manifestação do Espírito Santo. O contexto imediato do primeiro sumário é o derramamento do Espírito Santo e o sermão de Pedro. O sermão de Pedro, a oração da comunidade e o preenchimento da comunidade pelo Espírito Santo formam o contexto imediato do segundo sumário. O julgamento de Ananias pelo pecado contra o Espírito Santo constitui o contexto do terceiro sumário.

                                                                                                                          13

Gerhard Lohfink, “A Igreja que Jesus Queria: Dimensão Comunitária da Fé Cristã” (Santo André, SP e São Paulo, SP: Academia Cristã e Paulus, 2011), 124, 125. 14 Martin Dibelius, “Studies in the Acts of the Apostles” (New York: Scribner, 1956), 9-10. 15 Gregory E. Sterling, “Athletes of Virtue: An Analysis of the Summaries in Acts”, em Journal Of Biblical Literature, Vol. 113, Nº 4, 1994, 679.


38  

Através dos sumários, no contexto da manifestação do Espírito, Lucas descreve o crescimento da igreja cristã primitiva em diferentes fases do Espírito Santo. Os sumários, por outro lado, são uma resposta à pessoa de Cristo proclamada pela primeira vez ao povo. A atividade do Espírito Santo faz com que os padrões de vida não sejam uma uniformidade absoluta, mas, sim uma unidade essencial, deixando espaço para novas iniciativas e percepções. A comunidade recém-nascida é apresentada nos sumários com suas novas realizações e desejos. Repetições e um paralelismo rigoroso são visíveis nos sumários. Estas repetições e paralelismos, no entanto, não deveria levar o leitor a concluir que estes sumários são apenas repetições feitas por Lucas ou um diferente redator em três diferentes circunstâncias. Lucas está descrevendo o crescimento da primeira comunidade cristã sob a direção do Espírito Santo. No primeiro sumário, especialmente nos versos 41 e 42, Lucas define em termos gerais os principais elementos que constituem a vida dos primeiros cristãos. Os conceitos que são deixados sem explicação nestes versos recebem interpretação no mesmo sumário e nos outros dois sumários. Entendido desta maneira, observa-se um progresso no entendimento nos três sumários. O testemunho dos apóstolos sobre Jesus Cristo ressuscitado e a oferta voluntária de bens materiais recebem ênfase singular no segundo sumário; diferentemente do primeiro sumário. Do mesmo modo, o terceiro sumário apresenta os resultados da vida da igreja cristã primitiva sobre o próximo. Ele também finaliza as declarações gerais porque tem como seu antecedente imediato os exemplos concretos de Barnabé e Ananias. Os sinais e as maravilhas são descritos em termos gerais e recebem uma atenção especial na cura do coxo de nascença (At. 3). O crescimento da comunidade primitiva, portanto, motivado por Deus, recebe repetidas ênfases nos três sumários. A própria perspectiva de Lucas em relação aos sumários possuem uma função específica. Os sumários, de forma geral, apresentam claramente uma estrutura literária e um paralelismo16. Este paralelismo ajuda entender melhor o texto e especialmente o termo koinōnia. Em primeiro lugar, apresentamos o texto do primeiro sumário e então os textos paralelos do livro de Atos dos Apóstolos e do Evangelho de Lucas17:

                                                                                                                          16

Henry J. Cadbury, “The Beginnings of Christianity: The Acts of the Apostles” (London: Macmillan, 1920-33), Vol. 5, 392-402. 17 Gregory E. Sterling, “Athletes of Virtue: An Analysis of the Summaries in Acts”, em Journal Of Biblical Literature, Vol. 113, Nº 4, 1994, 680, 681.


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Primeiro Sumário (At. 2:41-47)

Textos Paralelos

41a18 Então, os que lhe aceitaram a 8:12 Quando, porém, deram crédito a palavra foram batizados

Filipe, que os evangelizava a respeito do

οι µεν ουν αποδεξαµενοι τον λογον αυτου

reino de Deus e do nome de Jesus Cristo,

εβαπτισθησαν

iam sendo batizados, assim homens como mulheres. οτε δε επιστευσαν τω φιλιππω ευαγγελιζοµενω περι της βασιλειας του θεου και του ονοµατος ιησου χριστου εβαπτιζοντο ανδρες τε και γυναικες

16:14, 15 Certa mulher, chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia. Depois de ser batizada, ela e toda a sua casa, nos rogou, dizendo: Se julgais que eu sou fiel ao Senhor, entrai em minha casa e aí ficai. E nos constrangeu a isso. και τις γυνη ονοµατι λυδια πορφυροπωλις πολεως θυατειρων σεβοµενη τον θεον ηκουεν ης ο κυριος διηνοιξεν την καρδιαν προσεχειν τοις λαλουµενοις υπο παυλου. ως δε εβαπτισθη και ο οικος αυτης παρεκαλεσεν λεγουσα ει κεκρικατε µε πιστην τω κυριω ειναι εισελθοντες εις τον οικον µου µενετε και παρεβιασατο ηµας.

18:8 Mas Crispo, o principal da sinagoga, creu no Senhor, com toda a sua casa; também muitos dos coríntios, ouvindo, criam e eram batizados. κρισπος δε ο αρχισυναγωγος επιστευσεν τω κυριω συν ολω τω οικω αυτου και πολλοι των                                                                                                                           18

 Onde começa o primeiro sumário? No versículo 41, 42 ou 43? Há três razões para começar no versículo 41: (1) A expressão οι µεν ουν do versículo 41 é uma formula favorita em Atos para significar uma nova unidade de continuidade em relação ao antecedente (1:6; 5:41; 8:4, 25; 9:31; 11:19;1 3:4;1 5:3, 30; 16:5; 23:31). (2) O versículo 42 inícia com um assunto que deve ser fornecido pelo versículo 41. Quem persevera na doutrina dos apóstolos? Na comunhão? No partir do pão? E nas orações? As quase três mil pessoas que foram batizadas no Pentecontes (v. 41). (3) O versículo 41b está conectado com o versículo 47b, isto é, o início e o término do primeiro sumário.


40   κορινθιων

ακουοντες

επιστευον

και

εβαπτιζοντο. 19:5 Eles, tendo ouvido isto, foram batizados em o nome do Senhor Jesus. ακουσαντες δε εβαπτισθησαν εις το ονοµα του κυριου ιησου

41b havendo um acréscimo naquele dia 2:47b Enquanto isso, acrescentava-lhes o de quase três mil pessoas.

Senhor, dia a dia, os que iam sendo

και προσετεθησαν εν τη ηµερα εκεινη ψυχαι ωσει

salvos.

τρισχιλιαι.

ο δε κυριος προσετιθει τους σωζοµενους καθ ηµεραν επι το αυτο.

5:14 E crescia mais e mais a multidão de crentes, tanto homens como mulheres, agregados ao Senhor, µαλλον δε προσετιθεντο πιστευοντες τω κυριω πληθη ανδρων τε και γυναικων

6:7 Crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos;

também

muitíssimos

sacerdotes obedeciam à fé. και ο λογος του θεου ηυξανεν και επληθυνετο ο αριθµος των µαθητων εν ιερουσαληµ σφοδρα πολυς τε οχλος των ιερεων υπηκουον τη πιστει

9:31 A igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judéia, Galiléia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor, e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número. η µεν ουν εκκλησια καθ ολης της ιουδαιας και γαλιλαιας

και

σαµαρειας

ειχεν

ειρηνην

οικοδοµουµενη και πορευοµενη τω φοβω του κυριου και τη παρακλησει του αγιου πνευµατος επληθυνετο

11:24b E muita gente se uniu ao Senhor. και προσετεθη οχλος ικανος τω κυριω

12:24 Entretanto, a palavra do Senhor


41  

crescia e se multiplicava. Ο δε λογος του κυριου ηυξανεν και επληθυνετο

42 E perseveravam na doutrina dos 1:14 Todos estes perseveravam unânimes apóstolos e na comunhão, no partir do em oração, com as mulheres, com Maria, pão e nas orações.

mãe de Jesus, e com os irmãos dele.

ησαν δε προσκαρτερουντες τη διδαχη των

ουτοι

αποστολων και τη κοινωνια τη κλασει του αρτου

οµοθυµαδον τη προσευχη συν γυναιξιν και µαριαµ

και ταις προσευχαις

τη µητρι [του] ιησου και συν τοις αδελφοις αυτου

παντες

ησαν

προσκαρτερουντες

2:46 Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, καθ ηµεραν τε προσκαρτερουντες οµοθυµαδον εν τω

ιερω

κλωντες

τε

κατ

οικον

αρτον

µετελαµβανον τροφης εν αγαλλιασει και αφελοτητι καρδιας

6:4 e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra. ηµεις δε τη προσευχη και τη διακονια του λογου προσκαρτερησοµεν

Lc. 24:35 Então, os dois contaram o que lhes acontecera no caminho e como fora por eles reconhecido no partir do pão. και αυτοι εξηγουντο τα εν τη οδω και ως εγνωσθη αυτοις εν τη κλασει του αρτου

43a Em cada alma havia temor.

5:5b sobrevindo grande temor a todos os

εγινετο δε παση ψυχη φοβος

ouvintes. και εγενετο φοβος µεγας επι παντας τους ακουοντας

5:11 E sobreveio grande temor a toda a igreja e a todos quantos ouviram a notícia destes acontecimentos. και εγενετο φοβος µεγας εφ ολην την εκκλησιαν και επι παντας τους ακουοντας ταυτα

19:17 Chegou este fato ao conhecimento de todos, assim judeus como gregos


42  

habitantes de Éfeso; veio temor sobre todos eles, e o nome do Senhor Jesus era engrandecido. τουτο δε εγενετο γνωστον πασιν ιουδαιοις τε και ελλησιν τοις κατοικουσιν την εφεσον και επεπεσεν φοβος επι παντας αυτους και εµεγαλυνετο το ονοµα του κυριου ιησου

Lc. 1:65 Sucedeu que todos os seus vizinhos ficaram possuídos de temor, e por toda a região montanhosa da Judéia foram divulgadas estas coisas. και εγενετο επι παντας φοβος τους περιοικουντας αυτους και εν ολη τη ορεινη της ιουδαιας διελαλειτο παντα τα ρηµατα ταυτα

43b e muitos prodígios e sinais eram 5:12a Muitos sinais e prodígios eram feitos por intermédio dos apóstolos.

feitos entre o povo pelas mãos dos

πολλα δε τερατα και σηµεια δια των αποστολων

apóstolos

εγινετο

δια δε των χειρων των αποστολων εγινετο σηµεια και τερατα πολλα εν τω λαω

44a Todos os que creram estavam juntos.

2:47c os que iam sendo salvos.

παντες δε οι πιστευσαντες επι

τους σωζοµενους

44b e tinham tudo em comum.

4:32c tudo, porém, lhes era comum.

ειχον απαντα κοινα

αλλ ην αυτοις παντα κοινα

45a Vendiam as suas propriedades e bens, 4:34b porquanto os que possuíam terras distribuindo o produto entre todos

ou casas, vendendo-as, traziam os valores

και τα κτηµατα και τας υπαρξεις επιπρασκον και

correspondentes

διεµεριζον αυτα πασιν

οσοι γαρ κτητορες χωριων η οικιων υπηρχον πωλουντες εφερον τας τιµας των πιπρασκοµενων

45b distribuindo o produto entre todos, à 4:35b então, se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade.

medida que alguém tinha necessidade.

και διεµεριζον αυτα πασιν καθοτι αν τις χρειαν

διεδιδετο δε εκαστω καθοτι αν τις χρειαν ειχεν

ειχεν

46a Diariamente perseveravam unânimes 1:14 Todos estes perseveravam unânimes no templo

em oração, com as mulheres, com Maria,

καθ ηµεραν τε προσκαρτερουντες οµοθυµαδον εν

mãe de Jesus, e com os irmãos dele.

τω ιερω

ουτοι

παντες

ησαν

προσκαρτερουντες


43   οµοθυµαδον τη προσευχη συν γυναιξιν και µαριαµ τη µητρι [του] ιησου και συν τοις αδελφοις αυτου

5:12b E costumavam todos reunir-se, de comum acordo, no Pórtico de Salomão. εν τω λαω και ησαν οµοθυµαδον παντες εν τη στοα σολοµωντος

5:42 E todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e de pregar Jesus, o Cristo. πασαν τε ηµεραν εν τω ιερω και κατ οικον ουκ επαυοντο διδασκοντες και ευαγγελιζοµενοι τον χριστον ιησουν

Lc. 24:53 e estavam sempre no templo, louvando a Deus. και ησαν δια παντος εν τω ιερω ευλογουντες τον θεον

46b partiam pão de casa em casa e 2:42 E perseveravam na doutrina dos tomavam as suas refeições

apóstolos e na comunhão, no partir do

κλωντες τε κατ οικον αρτον µετελαµβανον

pão e nas orações.

τροφης

ησαν δε προσκαρτερουντες τη διδαχη των αποστολων και τη κοινωνια τη κλασει του αρτου και ταις προσευχαις

20:7 No primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o fim de partir o pão, Paulo, que devia seguir viagem no dia imediato, exortava-os e prolongou o discurso até à meia-noite. εν δε τη µια των σαββατων συνηγµενων ηµων κλασαι αρτον ο παυλος διελεγετο αυτοις µελλων εξιεναι τη επαυριον παρετεινεν τε τον λογον µεχρι µεσονυκτιου

20:11 Subindo de novo, partiu o pão, e comeu, e ainda lhes falou largamente até ao romper da alva. E, assim, partiu. αναβας δε [και] κλασας τον αρτον και γευσαµενος


44   εφ ικανον τε οµιλησας αχρις αυγης ουτως εξηλθεν

46c com alegria e singeleza de coração,

14:17 contudo, não se deixou ficar sem

εν αγαλλιασει και αφελοτητι καρδιας

testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo o vosso coração de fartura e de alegria. καιτοι ουκ αµαρτυρον αυτον αφηκεν αγαθουργων ουρανοθεν υµιν υετους διδους και καιρους καρποφορους εµπιπλων τροφης και ευφροσυνης τας καρδιας υµων

47a louvando a Deus e contando com a 4:33b e em todos eles havia abundante simpatia de todo o povo.

graça.

αινουντες τον θεον και εχοντες χαριν προς ολον

χαρις τε µεγαλη ην επι παντας αυτους

τον λαον

5:13b porém o povo lhes tributava grande admiração. αλλ εµεγαλυνεν αυτους ο λαος

Lc. 2:52 E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens. και ιησους προεκοπτεν τη σοφια και ηλικια και χαριτι παρα θεω και ανθρωποις

47b Enquanto isso, acrescentava-lhes o 2:41b havendo um acréscimo naquele dia Senhor, dia a dia, os que iam sendo de quase três mil pessoas. salvos.

και προσετεθησαν εν τη ηµερα εκεινη ψυχαι ωσει

ο δε κυριος προσετιθει τους σωζοµενους καθ

τρισχιλιαι

ηµεραν επι το αυτο

5:14 E crescia mais e mais a multidão de crentes, tanto homens como mulheres, agregados ao Senhor, µαλλον δε προσετιθεντο πιστευοντες τω κυριω πληθη ανδρων τε και γυναικων

11:24b E muita gente se uniu ao Senhor. και πιστεως και προσετεθη οχλος ικανος τω κυριω

(Cf. 6:7; 9:31; 12:24). Esta estrutura literária e o paralelismo ajudarão na interpretação do primeiro sumário e especialmente do termo koinōnia.


45  

3.4. Interpretação do primeiro sumário O primeiro sumário necessita ser analisado juntamente com o seu paralelismo dos outros dois sumários. Portanto, será apresentado o texto completo do primeiro sumário e o texto paralelo em parêntesis. 3.4.1. O texto do primeiro sumário Atos 2:41a: “Então, os que lhe aceitaram a palavra foram batizados” 2:41b: “havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas” (At. 2:47b; 5:14). 2:42: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações” (At. 2:46). 2:43a: “Em cada alma havia temor” (At. 5:11). 2:43b: “e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos” (At. 5:12). 2:44: “Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum” (At. 2:47; 4:32, 34). 2:46: “Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração” (At. 242). 2:47a: “louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo” (At. 4:33b; 5:13b). 2:47b: “Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos” (At. 2:41b; 5:14; 11:24b). “Então, os que lhe aceitaram a palavra foram batizados, havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas. E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos.


46  

Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos.” (At. 2:41-47). 3.4.2. Considerações gerais do primeiro sumário O primeiro sumário está elaborado em conexão com o versículo 41 e o versículo 47, isto é, marca o início e o fim da perícope. Depois, são apresentadas quatro características em que a igreja primitiva permaneceu perseverante: (1) na doutrina dos apóstolos, (2) na comunhão, (3) no partir do pão e (4) nas orações. A narrativa continua com os sinais e maravilhas operadas pelos apóstolos, a manifestação externa de koinōnia com a partilha de bens materiais, a perseverança no templo, o partir do pão em casa e o louvor a Deus. Esta sequência provê uma pista para a interpretação, pois, as quatro características são deixadas sem explicação no versículo 42. No entanto, o versículo 42 não é interpretado pelos outros dois sumários. O primeiro sumário têm uma explicação destes quatro elementos pelo paralelismo com os outros dois sumários. No versículo 41, há uma transição. A expressão οι µεν ουν (oi men oun) conclui uma perícope e introduz uma nova perícope. No entanto, o assunto desta nova perícope está relacionada com o assunto antecedente. Portanto, há uma ligação harmoniosa entre os assuntos de toda uma seção. A expressão οι µεν ουν (oi men oun) aparece também em Atos 1:6 com este significado. O verbo ἀποδέχοµαι19 (apodechomai) aparece no Novo Testamento unicamente em Lucas e Atos e significa recepção amigável. Lucas refere-se ao sermão de Pedro uma ênfase especial na aceitação por parte dos ouvintes. O aparato grego preparado por Kurt Aland e Barbara Aland traz uma nota de rodapé muito interessante. O aparato crítico refere-se a substituição da palavra αποδεξαµενοι (apodexamenoi) pela                                                                                                                           19

W. Grundmann, “Dechomai...”, em Theological Dictionary of the New Testament, editado por Gerhard Kittel (Grand Rapids, Michigan: Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1971), Vol. 2, 55.


47  

palavra πιστευσαντες (pisteusantes) realizada pelo Códice de Beza20 (Codex D). Isto significa dizer que as pessoas não apenas aceitaram de forma amigável o sermão de Pedro; ela acreditaram, demonstraram fé na Palavra de Deus. O termo ἐβαπτίσθησαν (ebaptisthēsan), “batizados”, refere-se a resposta de Pedro do versículo 38: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo.” Pedro estabelece a norma da nova ordem salvífica em relação ao contexto histórico da nova aliança, isto é, as quatro condições salvíficas da nova aliança em Jeremias e Ezequiel. O arrependimento (µετανοέω – metanoeō) é a condição essencial da aliança. Jeremias 31:18 (Cf. 24:27) diz: “Bem ouvi que Efraim se queixava, dizendo: Castigaste-me, e fui castigado como novilho ainda não domado; converte-me, e serei convertido, porque tu és o SENHOR, meu Deus”, e Ezequiel 18:32 afirma: “Porque não tenho prazer na morte de ninguém, diz o SENHOR Deus. Portanto, convertei-vos e vivei.” A conversão de Israel é uma condição para se achegar a Deus. O arrependimento em Lucas significa abandonar o mau caminho e entrar na vida21. Esta é uma condição essencial da salvação em Cristo. O batismo (βαπτίζω – baptizō) também refere-se a um dos temas da aliança. No Antigo Testamento, a lavagem ritual, prescrita pela lei, tornava alguém limpo da impureza e apto para a adoração (Nm. 19:2-10; Dt. 23:10). O profeta Zacarias profetiza sobre uma fonte de água a jorrar que removerá o pecado e a impureza de Israel: “Naquele dia, haverá uma fonte aberta para a casa de Davi e para os habitantes de Jerusalém, para remover o pecado e a impureza.” Em Ezequiel 36:25 a purificação através da água antecede uma restauração e renovação interna da relação de aliança: “Então, aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei.” Este ato simbólico em Ezequiel significa uma purificação das impurezas morais e especialmente da idolatria. Portanto, o batismo em Jesus Cristo possuí a mesmo significado de renovação de vida. O perdão dos pecado (ἄφεσις ἁµαρτία - aphesis hamartia) é um outro tema da aliança que está em íntima ligação com a purificação. A renovação do                                                                                                                           20

Wilson Paroschi, “Crítica Textual do Novo Testamento” (São Paulo, SP; Edições Vida Nova, 1993), 51, 84, 85. 21 Hans Conzelmann, “The Theology of St. Luke” (Philadelphia: Fortress, 1960), 226.


48  

relacionamento de aliança com Deus exige a eliminação dos fatores que impedem a renovação e põem em perigo este relacionamento. Jeremias 31:34 afirma: “Pois perdoarei as suas iniqüidades e dos seus pecados jamais me lembrarei.” Isto é, uma eliminação definitiva da hostilidade e punição resultantes da violação da aliança com Deus22. O dom do Espírito Santo (δωρεὰν τοῦ ἁγίου πνεύµατος - dōrean tou hagiou pneumatos), segundo Lucas, é um princípio da vida cristã. É a novidade da nova aliaça visto por Ezequiel. É o Espírito que origina o novo padrão de vida entre os membros da comunidade resconstituída. É o Espírito que torna a comunidade em uma comunidade de salvação. Dunn observa:

Não é nenhum acidente que a palavra koinōnia primeiramente ocorra imediatamente depois da narrativa do Pentecostes, em Lucas (At. 2:42); e certamente, em Atos, é a experiência do Espírito que conduz os discípulos indviduais para a real participação na nova comunidade (2:38s; 8:14-17; 10:44-48; 11:15-17; 19:1-6). A importância fundamental da experiência compartilhada do Espírito na condução da comunidade cristã é até mesmo mais clara em Paulo (1Co. 12:13; 2Co. 13:14; Fp. 2:1; Ef. 4:3). E nos Escritos Joaninos precisamos recordar somente que um dos testes da vida dentro da irmandade era a experiência do Espírito (1Jo. 3:24; 4:13)23.

Considerando a estrutura temática e literária, a descrição de Pedro da nova ordem de Salvação apresenta conexões com o tema da nova aliança. A expressão “havendo um acréscimo” (προσετέθησαν – prosetethēsan – At. 2:41) indica em Atos o crescimento da igreja cristã primitiva (At. 2:47; 4:14; 11:24). Lucas também utiliza as palavras αὐξάνω (auxanō), crescer, aumentar, e πληθύνω (plēthynō), multiplicar, para indicar o crescimento da comunidade cristã (At. 6:1, 7; 12:24; 19:20). A ideia de crescimento têm como contexto histórico o Antigo Testamento. O crescimento e a multiplicação é apresentado como fruto das bênçãos e do amor de Deus (Gn. 1:22, 28; 8:17; 9:1; 17:1). Está conectado ao tema da aliança como em Gênesis 9:1s e 17:1s. Em Jeremias, multiplicação e crescimento recebem uma conotação escatológica (Jr. 3:14-17; 23:3). Após o anúncio da nova aliança, o profeta descreve o crescimento e a prosperidade de                                                                                                                           22

 Ibid, 228. James D. G. Dunn, “Unidade e Diversidade no Novo Testamento: Um Estudo das Características dos Primórdios do Cristianismo” (São Paulo, SP: Editora Academia Cristã, 2009), 313. 23


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Israel (Jr. 31:38-40). A mesma ideia é desenvolvida por Ezequiel, imediatamente após o anúncio da aliança (Ez. 36:28). O primeiro sumário, portanto, apresenta o crescimento da igreja cristã primitiva pela ação de Deus. Tendo como fundo histórico o Antigo Testamento, Lucas apresenta no primeiro sumário os temas da nova aliança. Neste contexto, a função do Espírito Santo proporciona uma ênfase renovada. 3.4.3. Considerações gerais de Atos 2:42 Lucas introduz, como resultado imediato da obra do Espírito Santo, a contínua perseverança da comunidade cristã primitiva: “E perseveravam” (ἦσαν δὲ προσκαρτεροῦντες - ēsan de proskarterountes). Com esta expressão, Lucas introduz a atitude da igreja primitiva: fidelidade perseverante. Esta contínua perseverança manifesta-se através de quatro diferentes características: (1) doutrina dos apóstolos - διδαχῇ τῶν ἀποστόλων - didachē tōn apostolōn, (2) comunhão - κοινωνίᾳ koinōnia, (3) partir do pão - κλάσει τοῦ ἄρτου - klasei tou artou e (4) orações προσευχαῖς – proseuchais. O conteúdo do sermão de Pedro é sobre o plano da salvação em Cristo. Deus manifesta esta salvação através de Sua palavra. Esta Palavra incessantemente comunica salvação e faz da comunidade uma comunidade salvífica (At. 2:47). Como mensageiros de Sua Palavra, Deus escolhe os apóstolos e lhes comunica o poder de Seu Espírito Santo que transforma-os em arautos de Sua Palavra (At. 2:14, 6-40). A contínua atividade dos apóstolos aparece repetidamente nos sumários. Eles proclamam a salvação em cristo (At. 2:4, 6, 7, 11, 14, 31), eles testificam do Senhor ressurreto (At. 2:40), e como confirmação da Palavra que pregaram, eles operam sinais e maravilhas (At. 2:43; 5:12). Os capítulos 2 ao 5 de Atos, fornecem um testemunho amplo dos ensinos dos apóstolos. O conteúdo de seus ensinos é sobre a salvação em Jesus Cristo. Eles ensinam esta bendita salvação no poder do nome de Jesus Cristo (At. 4:17, 18; 5:28, 40). Dessa foma, o ensino bem como atestam os sinais divinos, estavam conduzindo a comunidade cristã à pessoa de Jesus Cristo. A perseverante fidelidade da igreja primitiva aponta para o resultado imediato da permanente presença do Espírito na nova aliança: “Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os


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observeis” (Ez. 36:27). Ezequiel profetiza sobre a obediência a vontade de Deus. O Espírito Santo, portanto, é o que dá condições necessárias para a obediência da comunidade cristã. Dessa forma, a profecia da nova aliança se cumpre na comunidade cristã pela ação do Espírito. Assim como os profetas interpretaram a vontade de Deus no poder de Yahweh, assim também os apóstolos são investidos com o poder do Espírito Santo para interpretar o plano salvífico de Deus em Jesus Cristo, o Messias. Os dois elementos que são mencionados por último, no qual a comunidade adere constantemente, constitui a vida cúltica da comunidade: partir do pão e orações. Estes dois elementos recebem um esclarecimento nos versículos 46, e 47: “Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos.” O termo grego καὶ τῇ κλάσει τοῦ ἄρτου (kai tē klasei tou artou), “e no partir do pão” está em um rigoroso paralelo com o versículo 46. Isto significa que o partir do pão refere-se a Santa Ceia seguida de uma refeição. O mesmo termo encontra-se em Lucas 24:27-35 para o partir do pão da Santa Ceia com os discípulos em Emaús. O versículo 35 afirma: “καὶ αὐτοὶ ἐξηγοῦντο τὰ ἐν τῇ ὁδῷ καὶ ὡς ἐγνώσθη αὐτοῖς ἐν τῇ κλάσει τοῦ ἄρτου” (Então, os dois contaram o que lhes acontecera no caminho e como fora por eles reconhecido no partir do pão). Portanto, a expressão grega τῇ κλάσει τοῦ ἄρτου (no partir do pão) em Atos, é um termo técnico adotado pela igreja cristã primitiva para referir-se a Santa Ceia seguida de uma refeição. Um modelo de oração comunitária é apresentado em Atos 4:21-31 e a menção da prática comum de oração no templo (At. 2:46; 3: 1, 4; 4:24; 5:12). Tentativas têm sido feitas para uma compreensão da palavra koinōnia no Novo Testamento. Basicamente existem quatro opiniões: (1) Koinōnia como partilha de bens materiais. Esta opinião é aceita, por exemplo, pelos autores, E. Haenchen, “The Acts of the Apostles”, (Oxford, 1971), 191-193, E. Conzelmann, “Die Apostelgeschichte”, (Tubingen, 1972), 37 e J.Y. Campbell, “Koinônia and its Cognates in the New Testament”, (Journal of Biblical Literature, 51, 1932), 374. Segundo a compreensão desses autores, a palavra Koinonía significa partilha de bens materiais. No entanto, essa compreensão modifica a profundidade espiritual que o autor de Atos dos Apóstolos apresenta nos


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três blocos de texto em que ele usa diferentes expressões: (a) Atos 2:44 (cf. 4:32): “Todos os que creram estavam juntos...” – Almeida Revista e Atualizada 2ª Edição - (Texto grego: “πάντες δὲ οἱ πιστεύοντες ἦσαν ἐπὶ τὸ αὐτὸ...” - SBL Greek New Testament - Transliteração: “Pántes dè hoi pisteuontes êsan epì tò autò...” –Tradução literal: “Todos então os que criam estavam em o mesmo...” – Tradução aproximada: “Todos os crentes eram unidos...” – Paulo Sérgio e Odayr Olivetti, “Novo Testamento Interlinear”, Ed. Cultura Cristã, 464); Atos 2:46 (cf. 2:42): “...perseveravam unânimes...” - Almeida Revista e Atualizada 2ª Edição (Texto grego: “...προσκαρτεροῦντες ὁµοθυµαδὸν...” – SBL Greek New Testament – Transliteração:

“...proskarteroûntes

homothymadòn...”

Tradução

literal:

“...perseverando unanimente...” – Tradução aproximada: “...com um só propósito...” - Paulo Sérgio e Odayr Olivetti, “Novo Testamento Interlinear”, Ed. Cultura Cristã, 464); Atos 2:47b (cf. 5:14): “...dia a dia...” – Almeida Revista e Atualizada 2ª Edição – (Texto grego: “...καθ’ ἡµέραν ἐπὶ τὸ αὐτό.” – SBL Greek New Testament - Transliteração: “...kath heméran epì tò autó.” – SBL Greek New Testament – Tradução literal: “...cada dia em o mesmo.” - Tradução aproximada: “...dia após dia na igreja...” - Paulo Sérgio e Odayr Olivetti, “Novo Testamento Interlinear”, Ed. Cultura Cristã, 464 - Paulo Sérgio e Odayr Olivetti, “Novo Testamento Interlinear”, Ed. Cultura Cristã, 464); Atos 4:32a: “Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. ...” – Almeida Revista e Atualizada 2ª Edição – (Texto grego: “Τοῦ δὲ πλήθους τῶν πιστευσάντων ἦν καρδία καὶ ψυχὴ µία. ...” – SBL Greek New Testament – Transliteração: “Toû dè pléthous tôn pisteusánton ên kardía kaì psykè mia. ...” – Tradução literal: “Da então multidão dos que creram era coração e alma uma. ...” – Tradução aproximada: “A multidão dos crentes vivia unida, com um só coração e uma só alma. ...” - Paulo Sérgio e Odayr Olivetti, “Novo Testamento Interlinear”, Ed. Cultura Cristã, 472). A partilha dos bens materiais era unicamente o resultado dessa realidade espiritual. (2) Koinōnia como a “comunhão da refeição” ou a festa comunitária conhecida como αγάπη (agapē). Essa ideia é proposta por Joachim Jeremias em seu livro “The eucharistic words of Jesus” (New York, Scribner, 1966), p. 120. Ele entende Atos 2:42 como sendo a primeira liturgia da igreja cristã primitiva. Em sua primeira tentativa para compreender o texto bíblico, ele aceitava a ideia da coleta dos bens materiais como uma ato de caridade. Depois, passou a aceitar a ideia de uma refeição comunitária “ágape” seguida da Eucaristia. Essa visão, porém, carece de


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entendimento. O autor de Atos dos Apóstolos está descrevendo a vida dos primeiros cristãos e não uma liturgia. Reduzir a palavra comunhão como sendo uma prática comunitária seguida da Eucarista significa desconsiderar uma análise textual e estrutural de Atos 2:42-47. (3) Koinōnia como comunhão apostólica. Essa teoria é proposta por Franz Mussner, “Die Una Sancta nach Apg” (Praessentia Salutis, 1967), 212-222. Essa interpretação relaciona a palavra koinonía com a expressão “διδαχῇ τῶν ἀποστόλων” (didakhê tôn apostólon – doutrina dos apóstolos) para significar uma comunhão de lealdade existente entre os apóstolos; também conhecida como “Comunhão

Hierárquica”.

Segundo

ainda

tal

entendimento,

a

palavra

“προσκαρτεροῦντες” (proskarteroûntes - preseverando) se aplica unicamente à doutrina dos apóstolos. Contudo, a palavra “perseverando” aplica-se igualmente o todos os quatro elementos: (a) “διδαχῇ τῶν ἀποστόλων” (didakhê tôn apostólon – doutrina dos apóstolos); (b) “κοινωνίᾳ” (koinonía – comunhão fraternal, (c) “κλάσει τοῦ ἄρτου” (klásei toû ártou – partir do pão) e (d) “προσευχαῖς” (proseuchaîs – orações). O artigo “καὶ” (kaì – e) aparece antes das quatro expressões e funciona como um artigo de adição, ou seja, adiciona a expressão anterior com a seguinte. Finalmente, (4) koinōnia como comunidade ou comunhão fraternal. Esse ponto de vista é defendido pelos autores H. Seesemann, Hauck, W. Bauer, A. Wikenhauser, F. Zorell e M. Zerwick. Portanto, a opinião de que koinōnia em Atos dos Apóstolos significa comunidade ou comunhão fraternal está mais perto de uma correta explicação. A comunhão fraternal têm seu fundamento na fé, em referência ao ensino dos apóstolos. Ela expressa-se no culto, no partir do pão e nas orações, e têm sua concreta ralização externa na partilha dos bens materiais. Portanto, como resultado da obra do Espírito Santo, esta comunhão fraternal possui uma dimensão espiritual. Comunhão fraternal não deve ser vista meramente como a partilha de bens materiais. Tal sentido não aparece no Novo Testamento. Para Paulo, a partilha de bens materiais era um resultado da comunhão fraternal entre os membros da comunidade primitiva. Dessa forma, koinōnia implica unidade de coração e propósito entre os cristãos da igreja primitiva, pois, é um significado antigos que aparece nos capítulos de Atos (1:14; 2:46; 4:32). A unidade de espírito ou de


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propósito manifesta-se em um conjunto comum de bens materiais (2:44, 45; 4:3237). Mas, há uma outra razão para o significado proposto do termo koinōnia. Especialmente no primeiro sumário, o tema da nova aliança aparece frequentemente. Por exemplo, no contexto da festa do Pentecostes, há o derramamento do Espírito Santo, a condição para entrar na nova aliança (arrependimento, batismo e perdão dos pecados – temas da nova aliança), a conexão com a perseverança nos ensinos dos apóstolos e o novo culto da comunidade reconstituída. Assim como por meio da transformação interior da lei (Jr. 31:33) e da permanência do Espírito (Ez. 36:27), Yahweh faria um novo Israel, assim também Deus agora reconstitui Seu povo em uma comunidade por meio da obra e da permanência do Espírito Santo. É o Espírito que forma e valida a comunidade em sua realização espiritual e externa. Portanto, comunhão fraternal é a síntese de vida desta comunidade de salvação. 3.5. Dimensão interna e externa de koinōnia Lucas explica koinōnia nos sumários sob duas diferentes perspectivas. Em primeiro lugar, ele começa com o fundamento espiritual de koinōnia e então, como resultado, a sua manifestação externa. Mesmo quando o autor menciona a manifestação externa com a partilha dos bens materiais, a realidade espiritual sempre é intencionado. No primeiro sumário, antes de mencionar a partilha dos bens materiais, aparece a seguinte versículo: “Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum” (παντες δε οι πιστευσαντες επι το αυτο ειχον απαντα κοινα - pantes de oi pisteusantes epi to auto eichon apanta koina – At. 2:44). Da mesma forma, temos o seguinte no segundo sumário: “Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum” (του δε πληθους των πιστευσαντων ην καρδια και ψυχη µια και ουδε εις τι των υπαρχοντων αυτω ελεγεν ιδιον ειναι αλλ ην αυτοις παντα κοινα - tou de plēthous tōn pisteusantōn ēn kardia kai psychē mia kai oude eis ti tōn yparchontōn autō elegen idion einai all ēn autois panta koina – At. 4:32). Para definir koinōnia como fundamento espiritual, Lucas emprega três diferentes frases nos sumários para expressar a dimensão interna: (1) “estavam juntos” (επι το αυτο - epi to auto – At. 2:44, 47), “era um o coração e a alma” (ην καρδια και ψυχη


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µια - ēn kardia kai psychē mia – At. 4:32) e “unânimes” (οµοθυµαδον – omothymadon – At. 2:46; 5:12). Todas estas frases ou expressões enfatizam a unidade dos primerios cristãos. O fundamento ou a base espiritual de koinōnia também é vista pelas qualidades que os membros da comunidade recebem. Em Atos 2:44 a frase “estavam juntos” é antecedida pela palavra “creram” (πιστευσαντες – pisteusantes). Da mesmo forma em Atos 4:32 antes da frase “era um o coração e a alma” aparece a palavra “creram”. Em Atos 2:46, “perseveravam” na fé (προσκαρτερουντες – proskarterountes; e no versículo 44 faz referência a “creram”) antecede a palavra “unânimes”. Estas qualidades são diferentes atitudes que brotam da fé em Jesus Cristo. Esta atitude peculiar cristológica produz a dimensão eclesiológica. Portanto, koinōnia (Comunhão fraternal) em Atos 2:42 e em relação aos sumários denota unidade, unaminidade de propósito (coração). Estas atitudes da comunidade estabelece as bases para a partilha de bens materiais (2:44, 45; 4:32, 34, 35). A dimensão interna e externa de koinōnia pode ser vista também no uso do pronome recíproco ἀλλήλων (allēlōn). Segundo Lohfink, o Dicionário Teológico do Novo Testamento de Kittel-Friedrich, que até menciona preposiçõe isoladas, não dedica nenhum artigo a allēlōn24. Esta pequena palavra faz parte importante da teologia da comunidade cristã antiga: Ter carinho uns para com os outros (Rm. 12:10). Ter a mesma estima uns pelos outros (Rm. 15:14). Acolher-se uns aos outros (Rm. 15:14). Admoestar-se mutuamente (Rm. 15:14). Saudar-se uns aos outros com o ósculo santo (Rm. 16:16). Esperar uns aos outros (1Co. 11:33). Ter igual solicitude uns com os outros (1Co. 12:25). Colocar-se a serviço uns dos outros (Gl. 5:13). Carregar o peso uns dos outros (Gl. 6:2). Consolar-se mutuamente (1Ts. 5:11). Edificar-se mutuamente (1Ts. 5:11). Viver em paz uns com os outros (1Ts. 5:13).                                                                                                                           24

Gerhard Lohfink, “A Igreja que Jesus Queria: Dimensão Comunitária da Fé Cristã” (Santo André, SP e São Paulo, SP: Academia Cristã e Paulus, 2011), 148.


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Procura o bem uns dos outros (1Ts. 5:15). Suportar-se uns aos outros com amor (Ef. 4:2). Ser bondosos e compassivos uns com os outros (Ef. 4:32). Submeter-se uns aos outros (Ef. 5:21). Perdoar-se mutuamente (Cl. 3:13). Confessar uns aos outros, os pecados (Tg. 5:16). Orar uns pelos outros (Tg. 5:16). Praticar o amos fraternal (1Pe. 1:22). Ser hospitaleiros uns para com os outros (1Pe. 4:9). Revertir-se de humildade nas relações mútuas (1Pe. 5:5). Estar em comunhão uns com os outros (1Jo. 1:7).


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CONSIDERAÇÕES FINAIS

A palavra koinōnia no Novo Testamento é a essência do cristianismo. A palavra grega “κοινωνίᾳ” é traduzida por “comunidade ou comunhão fraternal”. Paulo resume o propósito da vida cristã em termos de koinōnia (1Co. 1:9), Lucas utiliza o mesmo termo para descrever o estilo de vida dos primeiros cristãos (At. 2:42) e João amplia o significado do termo (1Jo. 1:3). Comunhão com Cristo conduz à comunhão com Deus Pai e comunhão uns com os outros em Cristo. Portanto, cristianismo em uma única palavra. O conceito de koinōnia é considerado hoje um dos mais significativos conceitos eclesiológicos no diálogo ecumênico. Especialmente três autores, representantes dos círculos teológicos Ortodoxo, Católico e Protestante, possuem uma perspectiva teológica mais coerente e profunda do significado de koinōnia. O metropolitano de Pérgamo, na Grécia, John Zizioulas, é conhecido como uma dos mais influentes pregadores contemporâneos da Ortodoxia Oriental, o ex-cardeal Joseph Ratzinger, agora Papa Bento XVI, e Miroslav Volf, teólogo protestante bem conhecido que representa a tradição das “Igrejas Livres.” A palavra hebraica, que melhor correspondente ao grego κοινωνίᾳ e seus cognatos κοινός, κοινωνός, κοινωνέω e κοινόω são as palavras ֶ‫( חָבַר חָבֵר רחֶב‬ḥābar, ḥābēr e ḥeber), que significam amarrar, juntar-se, unir-se, aliar-se, fazer uma aliança, grupo, companheiro. O ponto extremamente significativo é que as palavras hebraicas ḥābar, ḥābēr e ḥeber não são usadas para relacionamento do homem para com Deus. A razão disto é a distância que o israelita sente de Deus. Esta distância não é difícil de ser entendida quando se percebe que na maior parte das tradições religiosas, o medo é a primeira emoção quando alguém se aproxima de Deus. Além disso, a consciência da santidade de Deus despertava nos escritores bíblicos o sentimento de impureza, pequenez e imperfeição; revelando, assim, o pecado presente em seu ser. O israelita, portanto, está em uma relação de dependência de Deus e a Ele pertence, como um servo, mas ele nunca vê a si mesmo como o ‫( חָבֵר‬ḥābēr) de Deus.


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Na Septuaginta também não aparece a palavra koinōnia com o significado de relação do homem com Deus. Portanto, a Septuaginta não fornece qualquer antecedente adequado para o uso distintivo no Novo Testamento. Koinōnia, no Novo Testamento, ocorre ao todo 18 vezes: 13 vezes nos escritos do apóstolo Paulo, 1 vez em Atos dos Apóstolos e 4 vezes em 1 João. Paulo é o autor que mais usa a palavra koinōnia no Novo Testamento. Em seus escritos, percebe-se basicamente duas características: (1) A ênfase primária é que koinōnia é uma vida cristocêntrica e (2) ele nunca emprega koinōnia como uma partilha individual de alguém em Cristo. Ele sempre utiliza para a partilha de alguém em Cristo com o próximo. Portanto, koinōnia nos escritos de Paulo possui um forte senso comunitário. A comunhão com Cristo é para a salvação e a comunhão uns com outros é o ideal da comunidade cristã. O senso comunitário entre os cristãos, de acordo com Paulo, é possível quando, em primeiro lugar, o cristão desenvolve a comunhão com Deus. A palavra koinōnia aparece uma única vez em Atos dos Apóstolos (At. 2:42). O texto bíblico de Atos 2:41-47 faz parte de um dos principais sumários que são generalizações de incidentes típicos que servem como conectores dentro do gênero literário da narrativa. Os sumários são os seguintes: Atos 2:41-47; 4:32-35; 5:11-16. O contexto imediato de todos os sumários está relacionado com a manifestação do Espírito Santo. Através dos sumários, no contexto da manifestação do Espírito, Lucas descreve o crescimento da igreja cristã primitiva em diferentes fases do Espírito. Repetições e um paralelismo rigoroso são visíveis nos sumários para descrever o crescimento da primeira comunidade cristã. Dessa forma, koinōnia, em Atos dos Apóstolos, possui o significado de comunidade ou comunhão fraternal. A comunhão fraternal têm seu fundamento na fé, em referência ao ensino dos apóstolos, ela expressase no culto, no partir do pão e nas orações, e têm sua concreta ralização externa na partilha dos bens materiais. Portanto, a igreja cristã primitiva tinha uma dimensão essencialmente espiritual e como conseqüência uma dimensão comunitária. A despeito do individualismo, da fragmentação da sociedade e da migração de cristãos para outras denominações evangélicas, há um novo despertar da sociedade pósmoderna em experimentar relacionamentos autênticos de uma maneira significativa e holística; despertando, assim, novos empreendimentos teológicos com o objetivo de redefinir e ampliar as diversas categorias eclesiológicas, explorando as dimensões comunais e relacionais da realidade eclesial.


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Koinonia: Dimensão Espiritual e Comunitária da Fé Cristã