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Artigo Científico: “Fora de controle - Inflamação desencadeada pela Sepse danifica o coração” Publicado em: <http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=4167&bd=1&pg=1 em Junho de 2010>

Por Guilherme Rozante Haddad e Ricardo de Paula Rocha

Resumo Crítico “Sepse – Uma triste realidade que poderia ser evitada”

O artigo científico “Fora de controle – Inflamação desencadeada pela sepse danifica o coração” divulgado por Salvador Nogueira e pela FAPESP em junho de 2010 apresenta um estudo detalhado e específico a respeito dos efeitos e danos da sepse no coração e sua relação com o índice de mortalidade da doença. A sepse é uma infecção generalizada causa por bactéria ou vírus, acompanhada por uma inflamação agressiva contra os órgãos que deveria proteger, a qual atinge 18 milhões de pessoas em todo o mundo. Médicos e pesquisadores do Brasil e de outros países apresentaram evidências convincentes de que o risco de morrer aumenta muito nos casos em que o coração é o órgão mais danificado, a taxa de óbito chega a 80% nesses casos comparados aos 20% quando não há dano cardíaco. Na pesquisa para a descoberta de um tratamento mais eficaz para a sepse, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, coordenados pelo patologista Marcos Rossi e pelo farmacologista Fernando


Cunha encontraram um caminho promissor para proteger o coração, ganhando assim tempo para que o corpo se recupere para combater a infecção. A partir do estudo com ratos de laboratório (metabolismo semelhante ao humano), este grupo observou em escala molecular que os danos causados no músculo cardíaco decorrem da ação do óxido nítrico liberado na inflamação o qual danifica a parede das células, tornando-as mais permeáveis ao cálcio, elemento químico que, se super dosado, leva a morte celular ou a diminuição da capacidade do coração de bombear sangue. Rossi utilizou em seus testes os chamados bloqueadores dos canais de cálcio, medicamento que impede a absorção de cálcio e que já é utilizado no controle da pressão arterial e na regulação do ritmo cardíaco. Em parceria com pesquisadores do Albert Einstien College of Medicine, em Nova York, grupo de Cunha e Rossi observou que os animais tratados com medicamento sobreviveram ao primeiro dia ao contrário dos animais com sepse sem medicamentos os quais morreriam em menos de 24 horas. Durante o processo de pesquisa Rossi percebeu que na maioria dos casos os corações haviam passado por mudanças radicais, eram diferentes, meio flácidos, o que indicava em vida haviam apresentado problemas no funcionamento.

Essa

característica

observada

era

resultado

de

uma

modificação importante da estrutura do coração, pois houvera uma redução expressiva na quantidade das proteínas responsáveis por manter as células do coração fortemente unidas. Apesar de necessitarem mais testes e experimentos antes de administrar o tratamento aos humanos, os resultados obtidos podem significar uma transformação importante na maneira de lidar com o problema, uma vez que em geral, tenta-se combater os agentes infecciosos apenas com antibióticos e antivirais. Paralelamente à pesquisa de Ribeirão, um grupo da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, do qual participa um médico brasileiro, tratou os


camundongos com um composto que impedia que os comunicadores químicos que alimentam a inflamação deixassem a corrente sanguínea e chegassem aos tecidos, reduzindo, assim, o nível de dano no organismo das cobaias. Com esse tratamento os pesquisadores conseguiram bloquear os efeitos nocivos da inflamação no hospedeiro e estabilizar os vasos sanguíneos, apresentando um novo método de tratamento: em vez de atacar o patógeno (agente causador da doença), podemos manipular o hospedeiro para cooperar na luta contra a infecção. Outro trabalho foi elaborado por pesquisadores da Universidade de Glasgow, na Escócia, em parceria com farmacologista José Carlos Alves Filho da equipe de Cunha, no qual foi administrada a camundongos com sepse uma proteína produzida naturalmente pelo sistema imunológico, a qual atua como um comunicador químico de ação antiinflamatória: a interleucina 33 ou IL -33. Essa proteína além de reduzir a inflamação no organismo sem eliminá-la no foco original de infecção estimula a migração de neutrófilo, células de defesas que eliminam as bactérias eficientemente. Os resultados dessa pesquisa foram muito satisfatórios, visto que apenas 20% das cobaias tratadas com esta proteína morreram vítimas da sepse, enquanto 80% dos camundongos que foram tratados com um composto inócuo morreram. Estes pesquisadores afirmam que este mesmo efeito deverá ser observado nos seres humanos, pois os neutrófilos são menos ativos nas pessoas que desenvolvem quadros mais graves de sepse. Outro integrante da equipe de Cunha e de Rossi, o farmacologista Fernando Spiller, semanas antes havia demonstrado que a utilização do sulfeto de hidrogênio ou ácido sulfídrico (H2S) também estimula a migração de neutrófilos e de leucócitos (outro grupo de células de defesa) para a área inicial de infecção. Dentre as quatro pesquisas elaboradas e abordadas no artigo, esta é a que parece ser mais eficaz, visto que eliminou as bactérias e reduziu a


mortalidade entre os camundongos tratados com o composto para 13%, enquanto 80% das cobaias não tratadas morreram devido à sepse. Pesquisas são realizadas por especialistas de todo o mundo, no entanto os resultados e avanços obtidos são praticamente insignificantes no trajeto até a melhoria e controle da sepse. Enquanto aguardamos e/ou mobilizamo-nos no combate a essa doença, milhares de pessoas ao redor do mundo ainda morrerão, principalmente nos países em desenvolvimento como o Brasil. No Brasil, por exemplo, dos 41 bilhões de reais investidos com terapia intensiva pelo SUS em 2003, 17 bilhões foram destinados ao tratamento de 40 mil pacientes com sepse, dos quais 227 mil morreram. Este fato contradiz a realidade brasileira e as estatísticas a respeito das mortes provocadas pela doença. Com um valor tão exorbitante, seria esperado que as taxas de mortalidade da doença fossem bem menores do que são, comparadas a outros países em desenvolvimento como o Brasil. Visto isso, podemos e devemos questionar o motivo pelo qual o governo prefere gastar bilhões de reais no tratamento de uma doença, a qual mata mais da metade dos pacientes tratados, ou seja, para o governo, mais da metade dos 17 bilhões de reais investidos são “perdidos”. Esse fato provavelmente ocorre devido à troca de interesses políticos e econômicos, a superfaturação e o descaso público, os quais já são nossos velhos conhecidos. Apesar do investimento em pesquisas, tecnologias e novos tratamentos para a doença serem muito mais acessíveis, viáveis e benéficas aos pacientes, aos cofres públicos e à toda população, o governo não o faz pelo simples fato de que deve-se existir um acordo com as indústrias farmacêuticas que saem lucrando com toda essa história. Quanto mais pacientes em um longo tratamento, mais remédios são necessários e maior o lucro dessas indústrias com a venda de medicamentos. Este é, portanto, o grande problema das nações emergentes: além dos investimentos no setor da saúde serem, muitas vezes insatisfatórios, o setor de


pesquisa, ciência e tecnologia ainda é ignorado, o qual não é tido como prioridade devido a um pensamento retrógrado, imediatista que visa mais os interesses particulares e capitalistas do que o bem-estar de suas populações. Para exemplificar este processo, o atual governo brasileiro, ao definir o Orçamento da União para 2011, reduziu em R$1,7 bilhão os investimentos somente para o setor de Pesquisa, Ciência e Tecnologia. Países com o mesmo perfil que o Brasil, ainda tendem a valorizar os feitos internacionais, enquanto relegam o trabalho dos profissionais nacionais. Grupos de pesquisa como os de Rossi e Cunha, escassos no Brasil, são obrigados a buscar apoio, incentivo monetário e reconhecimento em instituições, universidades e países estrangeiros, uma vez que não o recebem do seu próprio governo. O mesmo ocorre quando estes necessitam divulgar os resultados de suas pesquisas, a maioria das revistas científicas de credibilidade ainda são estrangeiras, em sua maioria, norte americanas ou européias. Diante disso, somos obrigados a vender nosso trabalho a outras nações para comprá-los posteriormente a elevado custo devido à falta de tecnologia e apoio nacional, sendo obrigados a viver o déficit e o retrocesso em relação aos setores de saúde e tecnologia, enquanto milhões de pessoas morrem vítimas da sepse. De acordo com uma pesquisa do Instituto Latino-Americano da Sepse (Ilas) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), no Brasil, a situação atinge níveis ainda mais preocupantes: pacientes de hospitais públicos com infecção generalizada precisam aguardar o dobro do tempo para receber diagnóstico e tratamento e têm risco de morrer 30% maior que o de pessoas internadas em instituições particulares. A doença é a principal causa de morte nas UTIs brasileiras, superando até mesmo o enfarte e o câncer. Segundo dados do Ilas, quase 60% dos brasileiros que adquirem sepse acabam morrendo - índice muito superior à


média mundial de 30%. A pesquisa também mostrou que apenas 27% dos médicos sabem reconhecer a doença. O descaso com a grande massa populacional brasileira por parte dos órgãos governamentais responsáveis, a falta de investimentos, os profissionais não capacitados, a falta de infra-estrutura e a ausência de medidas preventivas, do auxílio e tratamento adequado aos pacientes com a doença, são fatores que elevam a taxa de mortalidade brasileira, ridicularizam o sistema público de saúde nacional, impedem o desenvolvimento e praticamente inviabilizam a elevação do Brasil à categoria de país desenvolvido, além de contribuir para morte de inúmeras pessoas, as quais se tivessem a assistência necessária,

poderiam

ter

sua

vida

prolongada.

Referências Bibliográficas: Banco de Saúde, Sepse. Disponível em: <http://www.bancodesaude.com.br/sepse/sepse> Acesso em 10 de Abril de 2011 Mdsaude, O QUE É SEPSE E CHOQUE SÉPTICO? Disponível em: <.http://www.mdsaude.com/2009/01/o-que-e-sepse-sepsis-e-choqueseptico.html> Acesso em 10 de Abril Mdsaude, O QUE É INFLAMAÇÃO? O QUE É UM ABSCESSO?. Disponível em:< http://www.mdsaude.com/2008/11/o-que-o-pus-o-que-um-abscesso-oque-uma.html> Acesso em 10 de Abril Saúde Plena, Sepse mata seis vezes mais que trânsito. Disponível em: < http://www.divirtase.uai.com.br/html/sessao_45/2010/08/17/ficha_saudeplena_saude/id_sessao= 45&id_noticia=27449/ficha_saudeplena_saude.shtml> Acesso em 10 de Abril O Vale, Terapia contra sepse na rede pública demora mais. Disponível em: <http://www.ovale.com.br/cmlink/o-vale/brasil/terapia-contra-sepse-na-redepublica-demora-mais-1.45179> Acesso em 10 de Abril

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