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CARTA AO LEITOR

Rua do Prado, 401 - Centro Patos - Paraíba CEP: 58700-010 Fones (83) 3423-2336 / 8852-2746

DIRETORIA Presidente: Pr. John Philip Medcraft Vice-Pres.: Pr. Wostenes L. L. dos Santos Secretário: Pr. Umbirajara Osório da Silva 1ª Tesoureira: Genilva Gusmão 2° Tesoureiro: Pr. Lindon Carlos Dir. de Patrimonio: Mis. Elizabeth Medcraft Dir. de Informática: Philip Medcraft

Grandes coisas fez o Senhor por nós Para uma iniciativa com tantas vertentes simultâneas atuantes, doze meses para comemorar um aniversário parecem poucos. Os preparativos começaram ainda em 2012, mas foi 2013 que recebeu uma série de atividades com perfis comemorativos marcando os 75 anos da ACEV Brasil. Avanço Missionário em Janeiro, Convenção Nacional em Maio, o Congresso de Missão Integral e Comemoração oficial do aniversário da Ação Evangélica em Julho. No entanto, o ano 2014 adentra tecendo a finalização dessa grande e tão planejada celebração. A expressão de alegria de um tempo festivo se consolida nessa revista, na passagem para os 76 anos da instituição. Mais que um produto institucional, ela vem como um registro histórico de parte do desenvolvimento sócio religioso do estado da Paraíba. Traz consigo o surgimento de uma denominação evangélica, nordestina, brasileira, militante do alcance do ser humano em todas as áreas da vida, como também as ações de uma igreja que reconhece sua responsabilidade social e vive a cidadania. Seja bem vindo às páginas de uma trajetória que promove a expansão do Reino de Deus!

EXPEDIENTE Editora: Gleydice Belchior Diagramação: Antonio Carlos Capa: Thiago Limeira Foto de Capa: Lindon Carlos Colaboração: Arão de Azevêdo Souza, Morgana Soares, John Medcraft e Elsie Gilbert Fotos: Acervo ACEV Brasil e James Gilbert Tiragem: 2.000 Exemplares Campina Grande - PB, Setembro de 2014

Gleydice Belchior Assessora de comunicação da ACEV


Índice

24 Viver bem no Sertão

29 Um surdo para ouvir surdos

VEJA MAIS

32 Cuidando do Jardim de Deus

34 Música em ação

Ir Onde ninguém quer ir, 8

Convívio social não transmite HIV, 31

As ações da ACEV, 10 A experiência do pastor e coordenador, 12

Para um crescimento sadio, 35 Pr. John cidadão, 37

O Evangelho transforma realidades, 20

Com a palavra, Elsie Gilbert, 38 2014 | Ação Evangélica [5


História

Escola de Ensino Fundamental Frank Dyer de Patos-PB: a primeira escola da Ação Evangélica

Setenta e seis anos de Ação e Evangelização Por Gleydice Belchior

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sertão da década de 30 não era fácil de ser desbravado pelo evangelho. Caracterizado por religiosidade dogmática, muito distante de qualquer benefício tecnológico, e bem próximo da escassez e do julgo conorelista, o sertão do nordeste era um lugar que incitava o desprezo e esquecimento para aqueles que não viviam dele. Foi nesse contexto que a Ação Evangélica (ACEV) foi fundada. Convictos do chamado de Deus e tomados pelo desejo de ir aonde ninguém quer ir, em 1938 Pr. Eduardo Mundy e sua esposa Dora vieram da Inglaterra ao Brasil. Aprenderam português e no início de 1941, os Mundys mudaram para Princesa Isabel, na Paraíba, para estabe-

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lecer a primeira sede da ACEV. “O padre local anunciou que confiava na Virgem Santa e que o evangelho protestante nunca entraria naquela cidade. Incentivado pelo líder religioso o povo dava início a uma perseguição contra os missionários que não durou muito, pois um delegado crente havia sido enviado àquela cidade um mês antes por providência divina e deu proteção policial aos missionários. A perseguição na região continuou mas não segurou a expansão da igreja evangélica na região”, conta o atual presidente da ACEV John Medcraft. Naquela época, o avanço da igreja evangélica era muito difícil e lento. Entretanto, aos poucos, lideranças brasileiras iam surgindo para fortalecer o trabalho, que já tomava forma brasileira em toda a área de

atuação da ACEV na Paraíba, Pernambuco e Ceará. Destacavam-se os trabalhos de evangelistas como Zacarias Salvador Pereira, José Paulino, Manoel Roberto das Chagas, José Pereira, Manoel Soares, José Soares, Manuel Lourenço, e Antônio Ferreira (Pirambeba), além do Diácono Vicente de Paula Conserva, Diácono Manoel Clementino, Presbítero Cesário de Paula Conserva e a Missionária Alexandrina Soares. O crescimento da ACEV, como todo trabalho no Sertão nordestino, não seguia uma linha reta de progresso constante devido ao êxodo provocado pela seca. Não havia nenhuma perspectiva de uma grande igreja evangélica sertaneja. Apenas a sede de pregar para o sertanejo sobre o amor daquele que também morreu por eles.


Chegada de Eduardo e Dora Mundy ao Brasil em 1938

História

Após a morte do Pastor Eduardo, em 1971, o Pastor Frank Dyer assumiu a presidência da ACEV. Reconhecido como um homem corajoso por suas medalhas de bravura da 2ª guerra mundial, mostrou-se servo trabalhando para o Senhor com calma, humildade e muita mansidão. Pastor Frank foi um homem exemplar de fé e fidelidade Cristã. Em 1972, veio o Pastor John Medcraft genro do pastor Frank, sua esposa Elizabeth, e sua filha Deborah ao Brasil para reforçar a liderança da ACEV, e cooperar com o seu desenvolvimento. Quando o Pastor Frank faleceu no dia 8 de Novembro de 1987, o Pastor John assumiu a presidência da ACEV. Sob sua liderança, um novo estatuto mais participativo e democrático foi elaborado. Hoje, a ACEV continua sob a presidência do Pastor John Medcraft (naturalizado brasileiro), eleito nas Convenções da Missão, e um crescente número de pastores e missionárias trabalha de mãos dadas para a glória de Deus. Em 1994, a ACEV foi reconhecida como utilidade pública municipal na sua cidade sede em Patos- PB, e como utilidade pública estadual da Paraíba, em 2004. A instituição também faz parte das seguintes redes evangélicas nacionais: RENAS (Rede Evangélica Nacional de Ação Social), Mãos Dadas (trabalhando com crianças carentes e em situações de risco), e FALE (uma rede evangélica de defesa de direitos). É parceira da EAB (missão na Inglaterra que fundou a ACEV Brasil) e da Tear Fund (Reino Unido). 2014 | Ação Evangélica [7


História

ACEV do sítio Água Grande no município de Manaíra-PB

Ir onde ninguém quer ir Por Gleydice Belchior

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Ação Evangélica Brasil é uma denominação genuinamente evangélica, nordestina e tem por filosofia a Missão Integral que é manifesta com um grande número de projetos de ação social desenvolvidos a partir de igrejas locais. Atua através de 3 pilares que possibilitam a prática da Missão Integral. Uma rede de ministérios que atua de forma integrada e simultânea: ACEV Eclesiástica, ACEV Missionária e ACEV Social. O pilar ACEV Eclesiástica atua com o cuidado dos pastores e suas famílias e do fortalecimento das igrejas em sua estrutura administrativa e litúrgica. Os obreiros e suas igrejas são visitados a fim de serem ouvidos, ou capacitados, ou mesmo receberem apoio no serviço 8] Ação Evangélica | 2014

da igreja com pregações, ministrações de cursos, reuniões administrativas para solução de problemas locais ou simplesmente encontros de comunhão. O pilar ACEV Missionária atua com o preparo teológico de líderes, com estratégias de verbalização do evangelho e implantação de igrejas. Apóia os seminários teológicos onde a ACEV está inserida, mantendo a filosofia cristocêntrica com evangelho integral; Promove um Avanço missionário anual que reúne 60 inscritos para evangelização durante 10 dias em locais selecionados segundo carência do evangelho e possibilidade de cuidado pós avanço; Fortalece pequenos trabalhos em regiões difíceis com atividades evangelísticas locais; E prepara obreiros do interior do nordeste. O pilar ACEV Social atua no su-

primento de necessidades de desenvolvimento socioambientais locais através das igrejas em parceria com as comunidades. Desenvolve vários projetos sociais que suprem necessidades específicas das regiões onde estão inseridos. Cada igreja da ACEV entende que, como parte da comunidade onde está, deve agir com responsabilidade social. Envolvendo-se com as questões que afetam o bem viver dos que fazem parte do seu contexto e ambiente, promovendo assim cidadania.

Missão Integral Entende-se por “Missão Integral” viver como Cristo viveu, pregando o evangelho, evidenciando os sinais do Reino de Deus, defendendo os direitos de todos, amando e respeitando o pobre e necessitado.


História A instituição ACEV busca alcançar todas as comunidades onde está inserida com o evangelho de Jesus Cristo para que indivíduos e famílias sejam transformadas em sua totalidade. No decorrer dos anos, o propósito de “ir aonde ninguém quer ir” gravado no coração do fundador da ACEV Brasil, Eduardo Mundy, foi transmitido com integridade e paixão para cada líder de forma que, não só se mantêm intenso, mas cresce à medida que a denominação avança. Numa perspectiva missiológica, a iniciativa atinge o objetivo de formar igrejas autóctones. Líderes locais são capacitados e reconhecidos como participantes da realidade espiritual e social de seu povo, podem construir junto, aos seus, políticas públicas e acompanhamento espiritual, causando assim o desenvolvimento integral de suas respectivas regiões. Essa atuação é nova no olhar do sertanejo, da própria igreja evangélica e da sociedade, que, em sua maioria, entende o evangelho como salvador das almas e não transformador integral de realidades. Durante anos, muitos veem a pregação do evangelho limitada a verbalização conformizada com a situação de injustiça causada pelo pecado, deixando de lado o dever de sair da zona de conforto a fim de que, como Jesus e a igreja primitiva, preguem o evangelho em ação e não somente em palavras. Essa “novidade” vivida insistentemente pela ACEV gera expectativas na sociedade de que essa atuação é de cunho meramente político e barganhador, pela cultura política herdada no Brasil. Mas, com o tempo, as comunidades percebem que o único interesse da igreja em promover ações sociais é realmente demonstrar o amor de Cristo e evidenciar seu justo Reino na terra para, pela fé, transmitir a mensagem de salvação em sua totalidade.

“Eu sou sertanejo, moro numa cidade e congrego numa igreja pequena, e a missão integral já está no sangue de um aceviano. Isso faz parte de nós. Desde criança nós vemos as necessidades das comunidades, seja onde vivemos ou convivemos.” PASTOR LINDON CARLOS

“A ACEV tem esse grande diferencial, é uma igreja que tem propósito de servir ao próximo, não está interessada em extrair o que as pessoas tem. Pelo contrário, ela está interessada em levar o evangelho, o amor de Cristo através de atitudes.” PASTOR ROBÉRIO OLIVEIRA

“O desafio da ACEV é permanecer do jeito que está, sem mudar essa vontade de querer está no sertão que é o lugar mais difícil. Pregar o evangelho para as pessoas sem olhar se o lugar tem condições de receber o trabalho. Continuar com esse trabalho sei que é difícil, sei que todos querem que a quantidade de membros aumente, crescer financeiramente. Mas o maior desafio continua sendo o de manter-se como está, sempre no sertão, indo aonde ninguém quer ir. Enfrentando as dificuldades e não desistir das coisas, mesmo que venha os problemas, não desistir!” PASTOR VALDEMY VIEIRA

“A perspectiva seria de continuarmos levando a missão integral de Jesus Cristo, ampliando mais os nossos projetos e horizontes. Levando o Evangelho de Jesus aonde ninguém quer ir. Como por exemplo, nas comunidades rurais longe dos grandes centros, cidades de pequeno porte nos interiores do nordeste e do Brasil. Será um novo horizonte a ser conquistado”. PASTOR NEMIAS OLIVEIRA 2014 | Ação Evangélica [9


Ação

10] Ação Evangélica | 2014

Marlene Vieira é moradora do sítio Caruá, beneficiada com o projeto 4 Pernas


As ações da ACEV

Ação

Por Antonio Carlos

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pós 64 anos desenvolvendo trabalhos sociais junto as comunidades na qual estava inserida, a denominação Ação evangélica percebeu a necessidade de criar uma organização não governamental, no intuito de consolidar sua atuação e abrir caminhos para captação de recursos, que garantiriam a sustentabilidade dos projetos já em andamento, e supririam novos projetos que surgem mediante dificuldades sociais dos assistidos pela ACEV. Nasce a ACEV Social, uma ONG que atua no Desenvolvimento Humano e Sócio-Ambiental da Região Nordeste do Brasil. Com 4 Programas, diversos projetos e ações, contribuindo para o cumprimento dos 8 objetivos para o Milênio propostos pela ONU (Acabar com a fome e a miséria; Educação básica de qualidade para todos; Igualdade entre sexos e valorização da mulher; Reduzir a mortalidade infantil ; Melhorar a saúde das gestantes; Combater a AIDS, a malária e outras doenças; Qualidade de vida e respeito ao meio ambiente; Todo mundo trabalhando pelo desenvolvimento). Com foco na região do Semiárido nordestino, onde a seca e a pobreza extrema são acentuadas, promovendo a qualidade de vida de pessoas e com unidades e a sustentabilidade ambiental. Atua na causa nordestina, no fortalecimento da cultura local, no desenvolvimento de lideranças comunitárias e em trabalhos realizados na zona rural e urbana.

Programa Ação Educar (PAE) suporta 21 escolas, sendo: • Uma Escola de Alfabetização; • Duas Escolas de Ensino Fundamental; • Dezoito Escolas de apoio pedagógico no estado paraibano. Programa de Capacitação de Liderança Eclesiástica (PCLE) abrange quatro iniciativas de treinamento com foco em Missão Integral: - SEP – Seminário Evangélico de Patos, - SETEBRAE – Seminário Teológico do Betel Brasileiro e Ação Evangélica, - Centro de treinamento Verdes Pastos, - CETAEPI – Centro de Treinamento da Ação Evangélica em Princesa Isabel. Programa Sertão Sustentável (PSS) essa ação envolve vários projetos: - Poços; - Cisterna; - Plantação; - 4 Pernas; - Meio ambiente Programa de Desenvolvimento Social (PDS) desenvolve seis projetos na cidade polo de Patos: - Projeto de Prevenção e Atendimento à DST/ AIDS; - Projeto Alimentação; - Projeto de Atendimento Odontológico; - Projeto Geração de Renda; - Projeto Serviço, Inclusão, Assistência e Instrução aos Surdos (SINAIS); - Projeto de Assistência a Melhor Idade (PAMI).

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Entrevista

A experiência de conciliar o pastoreio e a coordenação de projetos da ACEV Por Gleydice Belchior

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astor Wostenes Luiz Lúcio dos Santos nasceu em Itaporanga, alto Sertão paraibano, sendo o primeiro de sua família a se tornar evangélico. É graduado em Educação Física, Teologia e fez MBA em gerenciamento de projetos. Pastoreia a Igreja ACEV em Campina Grande - PB há 15 anos e é coordenador geral de projetos da ACEV Social desde 2006. Revista ACEV – Quando estudava teologia no seminário Betel Brasileiro em João Pessoa qual era sua expectativa para o exercício do ministério? Pr. Wostenes Luiz. Eu esperava ser pastor de uma igreja local, e passar anos ali trabalhando eclesiasticamente, dentro da minha “paróquia”. Visitando pessoas, aconselhando, pregando, ensinando, usando meios estratégicos de evangelismo, e vendo a igreja crescer. Revista ACEV – Como surgiu a oportunidade de trabalhar captando recursos para os projetos da ACEV? Pr. Wostenes Luiz. Nasci em Itaporanga, alto sertão paraibano. Quando adolescente fui para Campina Grande estudar, me converti, tornei-me membro da ACEV, líder da congregação em 12] Ação Evangélica | 2014

Soledade, e ingressei no seminário. Sou pastor na Ação Evangélica desde 96. Quando no seminário teológico, eu passei uma grande dificuldade financeira, perdi meus mantenedores, e preocupado falei com pastor John, e ele tentou uma ajuda através da Tearfund. Mesmo sabendo que não é comum esta organização investir em seminaristas, pastor John argumentou ver um potencial em mim para liderança, e eu sou sertanejo. Tratava-se de um possível líder nativo em potencial, e veio o investimento. Nem eu imaginava o que podia ser. Mas aos poucos fui aprendendo e me envolvendo na liderança nacional da ACEV, indicado por pastor John fiz capacitações para desenvolver projetos oferecidos pela Tearfund, marco lógico e tal. Comecei a ajudar o pastor John em elaboração de projetos, e em 2006, assumi oficialmente o coordenação geral dos projetos com o surgimento da ONG ACEV Social. Revista ACEV – O senhor é hoje pastor e coordenador geral de projetos. Como consegue conciliar? Pr. Wostenes Luiz. Pastoreio a igreja ACEV de Campina Grande, onde tem um escritório da ACEV Social, é ali que trabalho com minha equipe para elaborar, avaliar, e preparar relatórios dos nossos projetos. Mas também é lá que faço gabinetes pastorais com minhas

Pr. Wostenes acompanhando o andamento do Projeto 4 Pernas


Entrevista ovelhas. Minha secretária é muito eficiente, ela prepara minha agenda semanal de forma que equilibra meu serviço junto a ONG e a igreja. Não é fácil, por vezes preciso viajar para dar assistência a demanda da ONG e sinto falta de desenvolver melhor o pastoreio. Mas a igreja vibra pelos resultados do Reino e me apoia. Temos uma liderança fortalecida, trabalhamos em rede ministerial e com pequenos grupos, isso tem nos mantido saudáveis. Revista ACEV – Se tivesse que escolher entre as duas funções, qual seria sua opção? Porque? Pr. Wostenes Luiz. Essa pergunta é difícil. Quando vejo os resultados dos projetos, percebo o quanto é importante, e quando visito beneficiados, fico emocionado e motivado à continuar. Mas, confesso que sinto realização em pastorear. Discipular individualmente, aconselhar, equipar pessoas na igreja para fazerem diferença na sociedade, ensinar. Sou pastor. Revista ACEV - Com todos os programas e projetos desenvolvidos pela ACEV Social, muitas famílias são beneficiadas. Em suas visitas e acompanhamento dos resultados, o que realmente é considerado prosperidade para o sertanejo? Pr. Wostenes Luiz. Por experiência própria como sertanejo que sou, e pelo que vejo e ouço, a riqueza para o ser­tanejo começa com a água. Ela é fonte de vida, de força, de autoestima, de trabalho, de dignidade. Quando o sertanejo tem água, ele tem prazer em cuidar e viver em sua terra. As crianças têm tempo e saúde pra ir para escola, mesmo com todas as dificuldades principalmente para as de campos rurais, a perspectiva da vida é outra. Existe sustentabilidade, as famílias

plantam, colhem, produzem, vendem, podem comprar seus móveis, roupas, eletrodomésticos, material escolar. É impressionante perceber a mudança de ânimo quando a água chega numa comunidade. Eles se fortalecem para lutar pelos seus direitos, desejam estudo e progresso. Sem dúvida a água enriquece o sertanejo. Revista ACEV – Quais os alvos da ACEV Social? Pr. Wostenes Luiz. A ACEV sonha em manter o que faz enquanto o semiárido nordestino precisar. Mas desejamos avançar em captação de recursos para ampliar nossa atuação em desenvolvimento sustentável para o sertão do nordeste. Expandir nossas ações quanto a defesa de direitos e caminhar para maior atuação em políticas públicas, conquistando maior espaço como terceiro setor em órgãos governamentais Revista ACEV – O que significa pra você ser da ACEV? Pastor Wostenes Luiz. Realização, satisfação, serviço, utilidade, alegria. Sinto que estou no lugar certo, pelas razões certas. Identifico - me com o formato da administração eclesiástica, me regozijo com meu crescimento em todas as áreas, me regozijo com nossa participação em transformação integral de vidas. De ver comunidades que eram tomadas pela pobreza, tristeza, vícios, violência, com quase 100% das famílias transformadas. Fim do êxodo, bares fechados, maridos valorizando suas esposas, mulheres que não pre­cisam mais carregar latas d’água na cabeça por 2, 3 km e agora cultivam um jardim na porta de sua casa, crianças comendo bem, estudando, velhos sentados à porta de suas casas curtindo sua casa, sua terra... não tem preço. 2014 | Ação Evangélica [13


Educação

Os alunos do projeto vivenciam uma didática que incentiva principalmente o aprender ler e escrever

Por um futuro melhor Por Antonio Carlos

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reocupada não só com a formação cristã de povoados remotos do Nordeste Brasileiro, a ONG ACEV Social também atua no Desenvolvimento Humano e Socioambiental dessas comunidades. Através de quatro programas sociais: Programa Sertão Sustentável; Programa Capacitação de Líderes; Programa de Desenvolvimento Social e o Programa Ação Educar (PAE). Ao longo desses sete anos de existência, o PAE já dispõe de uma escola do Maternal, duas escolas de Ensino Fundamental I e 18 escolas de Apoio Pedagógico que atendem crianças e adolescentes que vivem em situação de risco e de extrema pobreza. Essas escolas estão presentes tanto na zona rural como urbana e de acordo com o contexto e necessidade de cada comunidade, desenvolvem atividades complementares. Segundo a Missionária Elizabeth Medcraft (Irª. Betinha), uma das idealizadoras do projeto, o Ação Educar surgiu como reforço para as crianças carentes de Patos, matriculadas na es14] Ação Evangélica | 2014

cola regular, que não tinham alcançado o aprendizado correspondente ao seu ano de estudo: “A gente foi vendo tantas crianças carentes que passavam de ano, chegavam até o sétimo ou oitavo ano sem saber nem assinar o nome. Como os pais, em sua maioria era analfabeta, não tinha condições de ensiná-los, vimos que eles tinham condições de ir para um reforço”, contou a missionária. O projeto começou numa sala pequena da igreja e muitas vezes as crianças chegavam a dividir a mesma carteira. No intuito de manter e melhorar a infraestrutura, o projeto adquiriu o regime de apadrinhamento como forma de manter os custos. Como material didático, merenda – para algumas crianças esta é a única refeição do dia - e uma oferta aos professores voluntários para cobrir seus gastos com transporte e alimentação. Além do conteúdo didático, proposto pelo MEC, as instituições de ensino promovem atividades esportivas, de lazer e oferecem diariamente alimentação balanceada para o público infantil assistido pelo projeto. Os resultados positivos desse trabalho já

são visíveis na vida da comunidade e principalmente na vida das crianças apadrinhadas.

Testemunho

Após cinco anos de estudo no Ação Educar do sítio Caroá, no semiárido paraibano, Fábio Bezerra, 24 anos, foi a primeira criança apadrinhada pelo PAE. “Foram anos inesquecíveis da minha vida. Agradeço a Deus cada momento que vivi: as brincadeiras, o diálogo com os professores, alunos e principalmente pela aprendizagem, a qual levarei para sempre comigo e esta, ninguém poderá tirar de mim”, ressaltou Fábio. As ações não só acontecem no cenário escolar, mas também no seio familiar das crianças e adolescentes. Através de reuniões com as mães, palestras e oficinas. O Projeto Ação Educar, ao despertar novas oportunidades de vida aos esquecidos pelos governos brasileiros, tem a certeza que as gerações vindouras terão muitos motivos para comemorar. Depois de estudar por mais sete anos em Manaíra, localizada a 460 quilômetros de João Pessoa, no Alto


Educação Sertão da Paraíba, o jovem Fábio Bezerra retornou à comunidade como professor e convicto de seu atual papel na formação educacional das crianças locais. “Aqui eles têm a oportunidade não só de aprender coisas novas, mas também de serem pessoas de bem, sábias e preparadas para a vida, pois a educação é indispensável”, declarou o professor. Ciente das dificuldades propostas pelo mundo, Fábio mostra-se disposto, pois está certo de que a fé em Deus vence qualquer obstáculo. Assim como a Irª. Betinha ao falar do futuro do Ação Educar: “Vejo que essa nova geração da ACEV tem agarrado com amor nossa missão, e acredito que o Ação Educar irá continuar, independente de nossas presenças” (referindo-se a ela e ao seu marido - Presidente da ACEV Pr. John Medcraft). Para sua sustentabilidade, o programa Ação Educar conta com padrinhos, parceiros e voluntários. Para formalizar algum tipo de ajuda bastar acessar o site acevbrasil.org.br ou manter contato pelos telefones: (83) 3337 2214 ou (83) 3423 2336. Betinha se preocupa em atender as comunidades não só com educação para as crianças, mas suprindo outras necessidades sociais

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Parceria

Por Gleydice Belchior

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o sonho à realidade, das inquietações às ações. O 1º Congresso de Missão Integral do Sertão Nordestino foi fruto de um antigo ideal da ACEV, que em seus 75 anos de missão, uniu forças com várias iniciativas evangélicas atuantes na região do semiárido do nordeste brasileiro. Um evento que não só falou do Sertão, mas vivenciou o Sertão. Construído por uma equipe de nove organizações parceiras, o evento reuniu 150 congressistas dos estados de Alagoas, Piauí, Ceará, Sergipe, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Paraíba, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul. Unidos por um Sertão sustentável como evidência do Reino de Deus no Nordeste, um público, de maioria sertaneja, com representatividade de diversas instituições, organizações e movimentos tradicionais e pentecostais para o mesmo propósito. A Fazenda Verdes Pastos, no município de São Mamede, do alto sertão paraibano, considerada reserva ambiental da região, sediou o congresso, dando aos participantes a oportunidade de uma paisagem do bioma Caatinga respeitado e bem cuidado. A hospedagem não fugiu às características sertanejas. Pequenas casas sem laje ou qualquer forro, água do poço salobra para o banho, com suave calor piedoso do mês de julho. Comidas típicas, artesanato com bordados, peças de algodão colorido, chaveiros de fuxico 16] Ação Evangélica | 2014

Do Sertão pa e couro e estandartes de estopa. Reuniões em um galpão com vista para todos os lados, onde os pássaros também participavam sem reservas cantando e se aproximando enquanto acontecia a discussão de como cuidar e conviver com nossa caatinga como prática do evangelho. O lugar recebeu em uma de suas paredes a exposição de algumas fotos de animais da Fazenda tiradas pelo pastor John Medcraft, e organizadas por Alison Worrall da Rede Mãos Dadas Nordeste.

A visita ao Programa Sertão Sustentável da ACEV Brasil levou 64 congressistas guiados pelos pastores/coordenadores dos projetos que compõem o programa, à duas comunidades beneficiadas com aspectos completamente distintos: a comunidade quilombola Fonseca, que recebeu a perfuração de um poço através da igreja e o sítio Pinheira, que também recebeu a perfuração de um poço e já avançou na implantação dos projetos “Plantação” e “4 Pernas”. Dois ônibus leito foram freta-


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Parceria 2

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ara o Sertão dos para vivência, mas só podiam ir até a cidade de Manaíra-PB. Dali por diante, somente em pau de arara. Dos mais velhos aos mais novos, todos queriam a experiência de por alguns momentos, passar pelo que os moradores da região vivem todos os dias para ir estudar ou trabalhar. Os participantes sabiam que não era turismo, mas identificação para melhor discussão da prática missionária e da disposição de ir ao Sertão não apenas para visitar mas para ficar. Às duas horas e meia de ida foi

de conhecimento mútuo entre os congressistas e de expectativa. Já a volta foi de compartilhar o impacto da vivência e de cansaço satisfatório por ter ganhado tempo vendo e ouvindo testemunhos que jamais serão esquecidos. E mais que isso, serão incentivo para reproduzir a possibilidade para várias outras comunidades sertanejas. A Ação Evangelística em São Mamede marcou o segundo dia da vivência da programação do congresso, levando os congressistas

A vivência ao Projeto Plantação no sítio Pinheira (1); as palestras (2) e os pequenos grupos de discussão (3) foi o destaque e grande diferencial do Congresso

a verbalizar o evangelho, a entregar literaturas e cópias do cordel “Não é como pé de cobra salvação de quem é crente”, feito especialmente para o momento pelo poeta e cordelista Silvano Lyra da PIB de Olinda-PE e a fazer um culto ao ar livre com a participação dos repentistas Lúcio e Francisco que participaram também de momentos culturais na Fazenda. Os expositores foram verdadeiros facilitadores provocando o público a interagir com perguntas e colocações. Um diferencial que 2014 | Ação Evangélica [17


Parceria

Líderes sertanejos de todo o Nordeste unidos por um sertão sustentavel

enriqueceu consideravelmente o evento. As mesas de debates contaram com diferentes atuações nas áreas de sustentabilidade, defesa de direitos e inclusão social. Grupos de 10 pessoas se reuniam após cada debate para pontuar seu olhar sob o subtema debatido em cada momento segundo seus contextos e identificações, com dinâmicas pré-elaboradas por seis assistentes sociais (monitoras constantes interagindo com cada grupo), que facilitaram a sis-

Parceiros

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tematização de um documento final. Um arquivo coletado que foi socializado com todos os congressistas para avaliação e conclusão final, e em seguida foi divulgado. A celebração dos 75 anos da ACEV encerrou o congresso com chave de ouro! Os congressistas saíram de ônibus da Fazenda para o centro da cidade de Patos e encontraram-se com várias caravanas de todas as igrejas da ACEV no Nordeste, e com a sociedade patoense.

Em um palco ao ar livre, a banda Sal da Terra com grande estilo regional conduziu o público à adoração ao som da sanfona, do baixo, do triangulo e da zabumba. E o pastor John Medcraft, presidente da ACEV, falou sobre os 75 anos de Missão Integral no Sertão nordestino concluindo com o desafio de continuar a caminhada desbravando novos campos missionários em terras sertanejas com o evangelho todo, para o homem todo, para todo o homem.


Parceria

Os congressistas experimentaram integração na construção de ações coletivas para o sustento do sertão, de comunhão, parceria e celebração pelo desenvolvimento provocado pelos evangélicos na região

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Capa

O EVANGELHO TR REALIDADES NO S “Com a graça de DEUS nunca mais quero sair da minha terra, pois o Projeto Plantação foi a melhor coisa que já aconteceu comigo e com minha família!” Marcos Felix

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RANSFORMA SERTÃO

Marcos, caixas d’água e estrutura do projeto Plantação

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Capa

Através dos projetos desenvolvidos pela ACEV, Pinheira vive um novo tempo

Por Antonio Carlos e Gleydice Belchior

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realidade no Sítio Pinheira, situado a 12 km da cidade de Manaíra, Sertão da Paraíba, era dura, como praticamente em todo cenário sertanejo. A escassez de água provocou sede, fome e falta de sustento para as seis famílias da comunidade. Aos poucos, um a um, saia de suas casas e terras, até que, por fim, o sítio foi completamente abandonado pela impossibilidade de sobrevivência. Na convivência com seus conterrâneos, os líderes da ACEV do município de Manaíra sabem do triste acontecimento e oferecem ajuda através da ONG ACEV Social. A proposta era tentar a perfuração de um poço para provisão de água sem custo algum para as famílias proprietárias das terras de Pinheira. A irrecusável proposta fez brilhar esperança no olhar de dona Maria de Lourdes, matriarca da família. Após 13 anos morando em São 22] Ação Evangélica | 2014

Paulo, cansado da correria e preocupado com a qualidade de vida de sua família, Marcos Félix, filho de D. Lourdes, decide voltar para a terra onde seus pais estavam morando. No intuito de tentar reconstruir sua vida na região, que já sofrera a separação de dezenas de famílias, em busca de sobrevivência.

“A Igreja trouxe tantas coisas, tantas ideias, que nós ainda teremos que trabalhar muito para implantar tudo.” MARCOS FÉLIX

Contrariando assim, as perspectivas dos mais otimistas de que aquele solo era inútil, morto para qualquer tipo de plantação que não fosse nativa da região, como o Juazeiro, Baraúna, Aroeira-do-Sertão,

Umbuzeiro, Catingueira, os cactos Mandacuru, Facheiro, Xique-Xique, Coroa-de-Frade e Caroá, entre outros tantos. Logo, o processo para implantação do Programa Sertão Sustentável (PSS) é iniciado. O coordenador do Programa, Lindon Carlos e seus assistentes Gersé de Oliveira e Robério de Oliveira, todos pastores da ACEV Brasil, visitam o local e reúnem os antigos moradores para avaliação, e nesse primeiro contato selam o acordo de iniciar a execução dos projetos. O primeiro poço perfurado, conhecido pelos moradores de Pinheira pelo nome de Amazonas, conseguiu , em meio a um solo pedregoso, jorrar água com apenas quatro metros de profundidade. Naquele momento, se extinguia a árdua e dificultosa tarefa diária de buscar água a quilômetros de distancia e em algumas vezes impróprias para o consumo humano. “Tenho 10 filhos, e carregava água de longe na cabeça, de um olho d’água (mina) em péssi-


Capa mas condições para criar todos eles. Tinha que usar aquela água para tomar banho e beber. Essa água era cheia de estercos de bode, eu tinha que cuar (filtrar num pano) para beber, tomar banho e ainda por cima era salgada”, relembrou a agricultora e mãe de Marcos, a senhora Maria de Lourdes. A partir da experiência obtida com o trabalho na horta de um japonês em São Paulo, Marcos sugeriu aos seus familiares que cultivassem verduras para contribuir com a renda e o consumo familiar. Com uma estrutura simples e completamente manual, eles construíram canteiros para o plantio de coentro e alface. A água obtida com a perfuração do poço Amazonas, agora também era responsável por um pequeno oásis, que surgia no meio daquela imensidão acinzentada. No segundo contato, os pastores da ACEV Lindon Carlos e Wostenes Santos ofereceram a implantação

do Projeto Plantação, que visa desenvolver o cultivo de hortas agro ecológicas utilizando-se dos sistemas hídricos do Projeto Poços instalados. “Não demorou muito e logo começaram a chegar às caixas d’água, os kits com todas as ferramentas agrícolas e até uma forrageira, tudo por conta da ACEV Social”, destacou Marcos Fêlix. As mudanças do local de plantio para uma parte plana da propriedade familiar e o cultivo de novas hortaliças deram um novo animo aos moradores de Pinheira: “Se o Projeto Plantação fosse apenas essas duas caixas d’água colocadas para abastecer as residências e para o plantio das hortas já seria muito para nós, mas veja que maravilha, Deus nos deu muito mais”, relatou o cunhado de Marcos, o Sr. Francinaldo Nogueira. Hoje, para Marcos Félix é como se ele tivesse o seu próprio negócio. Sua renda com a venda das verduras

fica em torno de dois salários mínimos, algo difícil de alcançar em São Paulo, devido ao alto custo de vida. Para o irmão de Marcos, o Sr. Antonio Fêlix, os projetos desenvolvidos pela ACEV eliminaram qualquer intenção ou necessidade de sair de Pinheira. Motivo de benção para D. Maria, que por quase duas décadas viveu separada de seus filhos e sem perspectivas do poder público da época em promover políticas básicas à dignidade humana. “A igreja trouxe tantas coisas, tantas idéias, que nós ainda teremos que trabalhar muito pra implantar tudo”, ressaltou Marcos. A comunidade de Pinheira creu na pregação do Evangelho, e fez questão de construir uma igreja com suas próprias mãos e recursos. E com fé proclama: “Não amemos só de palavras, mas por obra e em verdade” (I João 3, 18).

Inauguração da Igreja ACEV na comunidade de Pinheira

2014 | Ação Evangélica [23


Sustentabilidade

Viver bem

no SERTÃO

Por Gleydice Belchior

U

m dos problemas provocados pela seca no Semiárido do Nordeste do Brasil é a alteração dos ecossistemas do bioma Caatinga com a substituição de espécies vegetais nativas por cultivos e pastagens. O desmatamento e as queimadas são ainda comuns no preparo da terra para a agropecuária, práticas que não só destroem a cobertura vegetal, mas também prejudicam a manutenção de populações da fauna silvestre, a qualidade da água e o equilíbrio do clima e do solo. A extração de madeira, a monocultura da cana-de-açúcar e a pecuária nas grandes propriedades (latifúndios), característi­cas da exploração econômica, contribuem para o processo de desertificação. Nesse cenário, insere-se a figura do 24] Ação Evangélica | 2014

pequeno agricultor que, por falta de recursos ambientais e materiais (de água, de alimentos e de orientações para o seu desenvol­vimento), sai, na maioria das vezes, de sua terra para buscar sustento nos grandes centros urbanos, expondo-se a situações de maior vulnerabilidade social e provocando também o “inchaço” populacional. Assim, o que ocorre não é apenas o processo de desertificação do ecossistema em si, mas também o êxodo de pessoas da região por falta de oportunidades de se desenvolverem. O relatório do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), indica que, se mantido o estado atual de degradação ambiental, é provável que o semiárido se torne mais árido até 2025. Segundo relatório sobre mudanças climáticas, a Paraíba é um dos Estados mais atingidos pela desertificação. Apro-

ximadamente 29% do território paraibano enfrenta problemas, o que afeta diretamente mais de 653 mil habitan­tes. De acordo com a organização, 70% da Paraíba já sofre, em algum grau, o processo de desertificação. O pesquisador lembra ainda que o desmatamento e as técnicas de agricultu­ra precisam ser revistos. A região possui mais da metade de sua população sob a linha demarcatória da pobreza, que de acordo com os dados do IBGE (2010), os 16,27 milhões de extremamente pobres no país estão concentrados principalmente na região Nordeste, totalizando 9,61 milhões de pessoas (59,1%), distribuídos 56,4% na área rural, enquanto outros 43,6% em áreas urbanas. Aliados a esse fator está a persistência de modelos políticos e culturais marcados pelo patrimonialismo, clientelismo e


O

Sustentabilidade

Com a água garantida, as famílias sertanejas desfrutam de momentos de lazer

anacronismo. A região sertaneja é a mais exposta aos riscos de insegurança alimentar e à deficiências nutricionais globais e específicas, bem como à fragilidade de formação de redes por grupos mais atingidos por essa realidade para diálogo com o governo a fim de melhoria do perfil de segurança alimentar e sustentabilidade ambiental na região. Uma grande seca afeta o Semiárido nordestino desde 2011 deixando metade dos 504 reservatórios monitorados pela Agência Nacional de Águas (ANA) com menos de 30% da capacidade de armazenamento de água. (retirado do site: http:// memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2013-10-13/seca-no-semiarido-deixa-acudes-em-situacao-critica-no-nordeste) O Programa Sertão Sustentável da ACEV Social estima contribuir para a adaptação das comunidades

do semiárido nordestino às atuais mudanças climáticas, para a sua autosustentabilidade, combatendo a desertificação da região em seus diversos aspectos, sob a égide da preservação do bioma e do ecossistema da caatinga do Nordeste brasileiro. Propõe desenvolver ações de sustentabilidade através da promoção do trabalho comunitário, da provisão da água de qualidade e da geração de renda. Para tanto o programa é composto por três projetos: Poços, Plantação e Cuidando do meu sertão. Com base nos relatórios e alvos da ONG, de 2013 a 2015 nove mil pessoas serão beneficiadas. “Nós temos contatos com as igrejas locais, sejam elas da Ação Evangélica ou de outras denominações. Essas comunidades ficam conhecendo o programa, através de experiências já concretizadas na comunidade. Eles entram em

contato conosco e nós começamos a fazer visitas na comunidade, fazemos contato com o líder, obreiros, pastores, missionários, agentes de saúde, presidente de associações... Pessoas interessadas no desenvolvimento das comunidades locais. Começamos uma construção, um processo de análise do lugar, um diagnostico /mapeamento do local para começar a construção do projeto. Sempre com a participação dos líderes e membros da comunidade local. Então é feita uma série de visitas, contatos e depois são analisados pela diretoria da ACEV Social. O programa não leva só uma ação, mas uma série de projetos”, ressaltou o pastor e coordenador do programa Lindon Carlos Vieira. Que forneceu à equipe de reportagem, a sequência de atividades de implementação do Programa Sertão Sustentável, como segue: 2014 | Ação Evangélica [25


Sustentabilidade PRIMEIRA ETAPA Uma equipe formada pelo coordenador, líderes e pastores da região fazem reuniões de mapeamento, avaliação e seleção junto as comunidades selecionadas pelo grau de necessidade e possibilidades. Esse processo dura apro­ximadamente 12 meses para possibilitar a empatia dos beneficiados com a ONG, e gerar um relacionamento confiável de ambas as partes.

SEGUNDA ETAPA Selecionadas as comunidades em comum acordo, seguem reuniões de construção de proposta e parceria.

TERCEIRA ETAPA Locação do Poço. Um técnico é contratado para localizar o lugar para perfuração do poço.

QUARTA ETAPA Perfuração do poço. Toda a comunidade se reúne na esperança de ver água jorrar de sua terra.

QUINTA ETAPA Teste de vazão e análise físico-química da água. Quando o poço da água é necessário fazer o teste de vazão para decidir que equipamento será montado (bomba manual ou elétrica), bem como a análise físico química da água. O teste de vazão é realizado pela empresa que perfura o poço (Yvel) que também providencia a realização da análise da água na Universidade Federal de Campina Grande – PB. 26] Ação Evangélica | 2014


Sustentabilidade SEXTA ETAPA Capacitações sobre manutenção da adutora e cuidados com a água para comunidade.

SÉTIMA ETAPA Palestras sobre meio ambiente. Pastor John Medcraft, militante na defesa e cuidado do Bioma Caatinga é o palestrante do projeto Meio Ambiente - cuidando do meu sertão. Fala do desmatamento acelerado, processo de desertificação no sertão e como preservar a natureza cuidando do meio ambiente. Também fala sobre a Moringa e o Nim, e mudas dessas plantas são distribuídas para comunidade. OITAVA ETAPA Montagem da Adutora (elétrica e hidráulica). Pessoas da comunidade junto ao pastor e técnico Gerse Oliveira são que montam todo o sistema.

NONA ETAPA Entrega oficial do Projeto à comunidade. Com culto de ação de graças à Deus, leitura de um documento oficial da entrega do poço, e várias atividades de ação social para toda a comunidade.

DÉCIMA ETAPA Caso a vazão de água do poço seja alta, inicia-se o processo de implementação do Projeto Plantação.

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28] Ação Evangélica | 2014


Luiz Carlos Mamede Carvalho é o primeiro pastor surdo da Paraíba formado em teologia no Seminário Teológico de Patos-PB

Inclusão Social

Um surdo para ouvir os surdos Por Morgana Soares

L

uiz Carlos é um homem comum do sítio Olho D´agua, município de Patos – PB, que não deixa o reflexo de sua deficiência auditiva inibi-lo de alcançar seus objetivos. Através do Projeto SINAIS (Serviço, Inclusão, Assistência e Instrução aos Surdos), realizado pela Ação Evangélica, não apenas Luiz Carlos, mas outros surdos receberam o auxílio e compreensão da Língua de Sinais.

Na infância, Luiz Carlos e sete primos, todos surdos, desenvolveram um dialeto próprio para se comunicarem melhor. A família de Luiz, tentando ‘protegê-lo’, não o deixava estudar ou mesmo ir para cidade. Dizia que ele seria maltratado e que não valia a pena tentar sair de casa. Mas, ele não se deu por satisfeito, e aos doze anos saiu de casa no sítio e foi para casa da avó na cidade de Patos. Os problemas então começaram a surgir quando começou a frequentar a escola de sinais em 1994, e descobrir que lá

também existiam outros surdos que se comunicavam com “gestos” que para ele eram desconhecidos ainda. Enfrentou problemas ao lidar com o público ouvinte, e sobre isso diz: “Eu incentivei os surdos para que pudéssemos ter o nosso point de encontro, mas quando a sociedade ouvinte nos via conversando nós parávamos de conversar, porque todo mundo ficava olhando pra nós e tínhamos vergonha. E aí quando os ouvintes paravam de olhar, então voltávamos a conversar, porque ficávamos com vergonha 2014 | Ação Evangélica [29


Inclusão Social

Pastor Luiz Shoeps dedicou sua vida aos surdos desde 1994 e foi responsável pela inclusão social da categoria na região

de estar conversando com as mãos e não com a voz”. O Projeto SINAIS trouxe melhorias significativas para a vida de Luiz Carlos, que com a assistência passou a se comunicar através da Língua de Sinais e não de gestos de sua própria invenção. Apesar das dificuldades enfrentadas na compreensão da língua portuguesa, pois é extensa para os surdos, ele consegue se comunicar adequadamente. “Hoje, eu tenho o meu trabalho, sou casado e sou responsável pelo grupo de surdos da cidade, e encorajo o ministério na igreja de Patos. Sempre tive o desejo de continuar aprendendo e por isso eu fui fazer o curso de Letras-Libras e me formei. Também sou professor e ensino em São José do Egito-PB. A minha vida mudou muito, e eu reconheço que sou mais adulto e sei que eu posso e tenho capacidade de ensinar pra ajudar as pessoas a se desenvolverem”, comentou Luiz. Luiz Carlos também cursou teologia, e é o primeiro pastor surdo da região. Sua vida encoraja outros surdos e também ouvintes não apenas na igreja Ação Evangélica onde é membro, mas na sociedade em que está inserido, conduzindo-os a prosseguir na busca de seus sonhos, objetivos e ideais, sendo ele mesmo um 30] Ação Evangélica | 2014

exemplo de superação a ser seguido.

Desafios

Pastor Luis Alberto Schoeps foi o protagonista na inclusão social dos surdos na cidade de Patos. Ele fala sobre o contexto em que encontrou o grupo: “Ao chegar em Patos descobri que os surdos não sabiam a Língua dos Sinais, e nem os professores! Ai eu fui simplesmente fazer uma visita a escola especial, a partir daí comecei a ir todos os dias. Então eu comecei a ensinar aos professores a Língua de Sinais e aos próprios surdos. Comecei a fazer este trabalho comunitário durante um bom tempo na escola, e depois eu acabei sendo contratado. O projeto surgiu justamente na Escola Especial Irmã Benigna em Patos.” Schoeps é natural de São Paulo, estudou Teologia em João Pessoa onde também aprendeu língua de Sinais. Ele pretendia estudar e voltar para São Paulo, ir para sua igreja ajudar dois surdos que congregavam fielmente naquela comunidade, mesmo sem ter alguém que interpretasse para sua língua. Mas foi convidado para trabalhar na ACEV em Patos-Pb, e quando chegou lá, encontrou não apenas dois, mas cinquenta surdos! Comovido ficou, e introduziu

pela primeira vez a língua de sinais naquela cidade. Segundo o pastor, o maior desafio foi organizar a escola para especiais, pois todos os portadores de necessidades especiais estavam misturados, e os professores fingiam ensinar língua de sinais e os alunos fingiam aprender. Separou as turmas por necessidades e focou nos surdos. Pastor Schoeps disse ter investido em dar uma língua para os surdos por uma motivação maior, que era pregar o evangelho. Depois de quatro anos de investimento pôde falar do evangelho e alguns aderiram ao protestantismo. Hoje há um grupo de 30 surdos na igreja da ACEV Patos. A inclusão foi evidente e explícita na sociedade patoense. Por questões pessoais pastor Schoeps foi para Inglaterra unir-se aos seus familiares. Mas deixou um conselho para seu aluno e discípulo Luiz Carlos: “Não se detenha só na comunidade surda de Patos, existem surdos em Teixeira, Imaculada, Matureia, Princesa Izabel, Olho d’agua, pelo sertão aí a fora, que nem tem uma língua. Eles precisam ser alcançados, precisam ter a dignidade de saber que são cidadãos brasileiros, que nasceram num país.” Luiz Carlos está seguindo o seu conselho.


Defesa de Direito

Convívio social não transmite HIV Por Antonio Carlos Com a sede na cidade de Patos (PB) e atuando em 15 cidades do estado paraibano, o Projeto de Prevenção e Atendimento a DST/HIV é desenvolvido pela Igreja Ação Evangélica (ACEV) desde 2009. Através de mobilizações, ações sociais e palestras educativas para as mais diversas faixas etárias, a iniciativa tem como propósito contribuir para a redução do número de casos de DST/HIV no Sertão Nordestino. Por meio de parceiras com ONG’s, instituições privadas e órgãos públicos, o projeto obteve conquistas significativas na região. Como relata a assistente social e coordenadora do Projeto Marah Danielle. “Em parceria com os jovens da REDE FALE, desenvolvemos uma campanha a nível nacional, através da assinatura de 7 mil Cartões Ore e Envie. Reivindicando ao governo estadual, a implantação do SAE (Serviço de Atendimento Especializado) na cidade de Patos”, disse. Poucos meses depois, o serviço foi implantado na cidade e mais de 80 pessoas (a nível do Sertão paraibano) que vivem com o vírus optaram pelo tratamento. Hoje, elas têm um acompanhamento especializado com médicos infectologistas. Outra conquista significativa foi à realização do “I Seminário Igreja Local e os desafios da AIDS”, em Patos, em 2012. O evento contou com a participação da ONG Diaconia, de membros do governo estadual e municipal, algumas Igrejas Evangélicas locais e de três pessoas que vivem com HIV na Missão Amós em Recife (PE).

Marah Danielle investe seu tempo em preparo de multiplicadores, palestras às comunidades sertanejas e atendimento aos que vivem e convivem com HIV no sertão paraibano

Na ocasião, deram depoimentos de como é revelar sua sorologia para igreja e como este tema pode ser trabalho no contexto evangélico, entre outras temáticas. “A repercussão do seminário contribuiu muito para o fortalecimento do projeto e levou a sociedade paraibana a rever seus conceitos e atitudes diante destas pessoas”, destacou a Coordenadora Marah Danielle.

Segundo Marah Danielle, apesar de já ter se passado 30 anos da doença e ser uma doença muito debatida, as pessoas da cidade de Patos, ainda têm uma concepção muito discriminatória com relação as pessoas que vivem com HIV. As pessoas que recebem atendimento relatam que sofrem muito preconceito. Para continuar enfatizando que através do contato físico não se transmite HIV/AIDS, o projeto conta com a ajuda de alguns órgãos públicos. “A gente faz a divulgação junto aos centros onde atende as pessoas, o CTA (Centro de Testagem e Acompanhamento) e o SAE, onde tem médicos especializados que atendem a essas pessoas. Através do diagnóstico elas são orientadas a procurar a ACEV social,” disse Marah. A ação com os que vivem e convivem com HIV no sertão paraibano se estende com capacitação de líderes locais da região. Acontece através da capacitação de multiplicadores em prevenção, das igrejas da ACEV, que atuam em comunidades na prevenção e no atendimento as pessoas que vivem com HIV/AIDS. A coordenadora do projeto enfatiza que sua motivação é o evangelho: “O evangelho é tudo, é o amor de Deus. A gente viver aquilo que aprendeu, viver Cristo, demonstrar o amor às pessoas sem hipocrisia, com empatia.” Ressaltou Marah. Com um trabalho inovador e sem pretensões proselitistas, a ACEV é uma instituição religiosa pioneira no desenvolvimento de uma ação para pessoas que vivem com DSTS/HIV no Sertão Paraibano. Mesmo assim, a igreja está convicta de que muito ainda precisa ser feito para que o Reino de Deus seja evidenciado no Nordeste Brasileiro. 2014 | Ação Evangélica [31


Natureza

Cuidando do ja

Por John Medcraft

J

á que “Do Senhor é a Terra e tudo que nela existe” e que desde o início Deus deu a incumbência ao ser humano para cuidar dela e classificar os seres vivos, assim exigindo conhecimento deles, é impressionante ver como muita gente não leva a sério estas responsabilidades. A nossa displicência vem do berço, mas podemos nos corrigir e correr atrás do prejuízo. Como Cristão isto é essencial. Eu vejo como a minha criação e educação me incentivou ainda criança a apreciar a natureza criada por Deus. Pois todos os finais de semana meus pais me levavam aos parques verdes de Londres e na minha escola primária sempre ouvíamos programas ambientais da rádio BBC. Assim fica uma lição para os pais de hoje tirarem seus filhos do vídeo game, pelo menos um pouco e andarem com eles observando a natureza, coletando flores e folhas, observando a fauna, aprendendo os nomes das árvores e simplesmente valorizando tudo que Deus criou ao nosso redor e que muitas vezes ignoramos. Aos oito anos de idade, ganhei um livro da minha escola como prêmio pelo meu progresso nos estudos e dentro do livro eu vejo que naquele tempo eu já desenhava minha sonhada fazenda, em lápis grafite, nas folhas do livro em branco! Morando há 42 anos no sertão paraibano e já naturalizado brasileiro, sou consciente do fato que o clima, flora e fauna na caatinga são bem diferentes daqueles onde nasci e me criei, mas descobri há muito tempo que cada bioma tem suas próprias belezas, se observarmos ou se prestarmos atenção. Cada vez mais vejo como a caatinga é bela e fascinante. Como Cristão luto para conscientizar pessoas quanto a isso e procuro ser um exemplo Cristão “cuidando do jardim” que Deus nos deu. Os Cristãos precisam ser líderes no cuidar da terra que é do Senhor, mas muitas vezes ficamos longe disso. Abertamente agredimos a natureza e pensamos que este tipo de pecado é numa categoria menos séria ou até descartável. Entretanto, com este descaso estamos destruindo o que Deus deseja que cuidemos, como parte da missão integral da Igreja.

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Casaca de couro (Pseudoseisura cristata)

Flor nativa


ardim de Deus

Natureza

Pois o Cristão tem que estar combatendo o desmatamento, a caça, o tráfico da fauna, o derrame de lixo e qualquer outra coisa que destrói o nosso mundo. Temos que primeiramente dar exemplo nisso não desmatando e sim plantando árvores. Nunca devemos caçar a fauna silvestre, colocar pássaros em gaiolas ou jogar lixo irresponsavelmente pela janela do veículo quando viajamos. Mas ao mesmo tempo em que damos exemplo individualmente, precisamos nos organizar coletivamente para combater tudo que é praticado para destruir o que Deus criou. Temos que cobrar das autoridades a atuação efetiva do IBAMA, da SUDEMA e da polícia ambiental. Na nossa fazenda e reserva ecológica em São Mamede (PB) a nossa experiência está sendo rica. Quando a compramos em 1978 o dono de uma serraria veio propor a compra das Craibeiras (Tabebuia aurea) plantadas na beira do riacho. Fiquei indignado com a proposta, não vendi e hoje estas árvores estão constantemente se multiplicando através das suas sementes de tal forma que é impossível contar! Quando a árvore está em flor é linda, atraindo insetos e aves. No resto do ano sempre dá uma sombra excelente. A nossa experiência também é que quando a gente não desmata, mas sempre planta mais árvores, como também não permitimos a caça ou o acúmulo de lixo, com a passagem de tempo, o número de espécies aumenta na propriedade, especialmente na área, cada vez maior, de reserva onde não é permitida a entrada de animais domésticos como bovinos, caprinos ou ovinos. Inclusive na área da reserva a proliferação de plantas e flores nativas se multiplica também e isso, por sua vez, atrai mais fauna. Assim o Gato Vermelho, o Guaxinim, a Raposa, o Preá, o Mocó e o Tatu-Peba são moradores fixos na reserva além de uma quantidade enorme de aves. A Fazenda e Reserva Verdes Pastos são, portanto, além de um Centro de Treinamento da ACEV, um local maravilhoso para retiros e onde funciona uma igreja da ACEV e uma escola do Ação Educar, uma demonstração viva de que a caatinga preservada é linda e do Senhor! Caburé (Gleucidium cristata)

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Cultura

Ministério em gravação ao vivo no teatro municipal de Campina Grande - Paraíba em 2008

Música em ação

A

música está presente em toda comunidade evangélica, é uma das marcas do cristianismo e, na era pós-moderna, se tornou recurso de grande influência social devido a proporção de crescimento da indústria fonográfica cultural. Dentre os expoentes da Ação Evangélica outro destaque está na expressão cultural. O ministério de louvor da ACEV do bairro Catolé, em Campina Grande-PB, chamado Tenda do Encontro, já gravou 4 CDs e um DVD autorais. Dois de seus álbuns foram gravados ao vivo no teatro municipal Severino Cabral, com participações especiais do pastor Paulo Cezar do Grupo Logos de São Paulo, e do cantor Maximiliano Moraes, ex componente do Diante do Trono. Seus trabalhos fonográficos são de produção própria. Os músicos são todos da mesma igreja e estão juntos desde 1998. Além dos even34] Ação Evangélica | 2014

tos de gravação que superlotaram o Teatro municipal de Campina Grande, o grupo promove eventos de capacitação para líderes de música e suas equipes, de igrejas evangélicas locais, nas regiões do Cariri, Brejo e Sertão do nordeste. O grupo organiza também o “Enconto de Adoradores”, iniciativa que atrai aproximadamente 400 inscritos de diversas denominações e localidades para palestras e oficinas na área musical. Esse evento acontecerá em sua terceira versão em novembro de 2014, com a presença de representantes de Nashville (EUA) da World Music Mission, ACT - Artists in Christian Testimony intl e do Movimento Lausanne - Congresso Mundial de Missões. O maior objetivo do grupo musical é a evangelização através das artes e, para tanto, compartilha de programações evangelísticas com o ministério delegenda dança Celebração e o ministério de teatro da ação Evan-

gélica do bairro Catolé, em Campina Grande. Dentre as programações evangelisticas está a Caravana Sertão Transformado que, anualmente, reúne um grupo de 50 pessoas e passa o feriado da Semana Santa em uma cidade do interior, selecionada com um ano de antecedência para os preparativos. Apresentações artísticas simultâneas (música, teatro e dança, com o tema: Paixão de Cristo) acontecem dentre as atividades da caravana. Um novo projeto de gravação intitulado “EU LUTAREI” está em andamento. Este trabalho trará a mensagem do evangelho integral de fé e obras. Dentre as treze músicas selecionadas do repertório autoral do grupo, três são de estilo regional nordestino. A expectativa é que mais uma gravação de DVD ao vivo acontecerá no final do ano, caso o grupo consiga completar o valor do custo do projeto.


Capacitação

Momento de capacitação da ONG A Rocha para líderes da ACEV sobre Cristianismo e Meio Ambiente na fazenda Verdes Pastos – São Mamede-PB

Para um crescimento sadio Por Gleydice Belchior

A

Ação Evangélica promove, anualmente, a Convenção Nacional, um evento que reúne os líderes de todas as igrejas locais e delegados escolhidos pelos membros de cada igreja para representá-las. Composta a Assembleia geral, quatro a cinco reuniões em um final de semana do mês de maio acontecem para apresentação de relatórios chamados eclesiásticos, que expõem estatisticamente a situação de crescimento de cada campo. Na sequência, a pauta pré-concebida pela diretoria nacional, que abre espaço com antecedência para que os líderes enviem sugestões, segue sendo discutida. Outros relatórios são apresentados, como financeiro e de alcance evangelístico. Desse evento administrativo derivam outros para capacitação

e fortalecimento da liderança, por consequencia, suas comunidades. Anualmente, acontecem outros eventos para o bem comum da ACEV. São eles:

Avanço Missionário

Essa iniciativa reúne 60 inscritos para, durante 10 dias do mês de janeiro, evangelizar e prestar serviços em uma comunidade selecionada pela Assembleia da Convenção Nacional. Líderes internos interessados apresentam campos alvos para receber o avanço, expõem as necessidades desses campos, que geram critérios para escolha de qual lugar será beneficiado. Um dos critérios primordiais é a assistência que a comunidade escolhida terá para os avanços, é necessário acompanhamento para garantir os resultados. O avanço missionário acontece desde 1998. 2014 | Ação Evangélica [35


Capacitação Encontro de Líderes Todos os anos nos mês de setembro, os líderes e suas famílias se reúnem na Fazenda Verdes Pastos, em São Mamede-PB, para comunhão e momentos devocionais. São dias para relaxar, compartilhar e firmar amizade. Nesse evento, os líderes se entusiasmam em acompanhar gerações vivenciando a visão da ACEV.

Líderes da ACEV com suas famílias no EDL de 2013

Retiro Espiritual O período de carnaval para a ACEV Brasil é tempo de busca coletiva da presença de Deus e aprendizado da Bíblia Sagrada. Aproximadamente 400 pessoas dos campos da ACEV no Sertão se encontram na Fazenda Verdes Pastos, e durante três dias vivem uma programação que agrega palestras, louvores, lazer e apresentações artísticas para descoberta de novos talentos. Há 32 anos esse evento é promovido. Momento de Louvor

Congresso Nacional de jovens O crescimento intenso nos últimos anos trouxe à Ação Evangélica muitos jovens. A necessidade de prepará-los e fortalecê-los para o futuro e desafios sociais provocou a promoção do Congresso Nacional de Jovens. Em diferentes lugares escolhidos a cada ano na Convenção Nacional, uma comissão composta por jovens de diversas igrejas da ACEV elaboram todo o evento. Da escolha e contato com preletores a toda logística e gerenciamento financeiro, tudo é por conta da juventude. Além dos eventos anuais fixos, a Instituição investe em eventos pontuais para capacitação dos líderes em diferentes 36] Ação Evangélica | 2014

áreas como defesa de direitos, saúde, educação, meio ambiente, gerenciamento e elaboração de projetos, e teologia, firmando parcerias com outras organizações também evangélicas que atuam com foco em responsabilidade social.

Seminários Teológicos A ACEV Brasil participa, efetivamente, da diretoria do SEP (Seminário Evangélico de Patos), tem um seminário na cidade de Campina Grande em parceria com o Betel Brasileiro, o SETEBRAE (Seminário Teológico do Betel Brasileiro e Ação Evangélica) e outro em Princesa Isabel, o SETAEPI (Seminário Evangélico Teológico da Ação Evangélica em Princesa Isabel).

1° Turma de Formandos do SETAEPI (acima); Jovens quebrantados no Congresso de 2013 (abaixo)


Pr. John vivência com prazer as riquezas do sertão

Perfil

Pr. John cidadão Por Gleydice Belchior

J

ohn Philip Medcraft nasceu em 31 de janeiro de 1949, filho de George William Medcraft e Margaret Elsie Medcraft, natural de Londres – Inglaterra. Casado com Elizabeth Medcraft, desde 1969, tem quatro filhos e sete netos. É conhecido por todos como ‘Pastor John’. Nasceu num lar evangélico e completamente apaixonado pela obra missionária. Seus pais já o levaram à igreja com poucos dias de nascido e sempre foram a pé, empurrando o carrinho de bebê para poupar o dinheiro do ônibus e colocar na coleta para missões. Sua igreja crescia e com ela os campos missionários na Inglaterra, Egito, China, Bélgica, África e o Brasil. O missionário de sua igreja no Brasil morava com sua família na mesma rua da sua casa, possibilitando uma aproximação entre as famílias e consequentemente entre ele e o Brasil. Ainda não havia ouvido falar do

Nordeste até que conheceu Betinha. Filha de missionários também enviados ao Brasil, Elizabeth volta para Londres para estudar e conhece o pastor John em um encontro na igreja. Namoram e casam, e tudo que John ouvia cotidianamente era de como o Nordeste é, da cidade de Patos, do Sertão, da Ação Evangélica, do Brasil. O que aqueceu ainda mais seu antigo desejo de vir ao Brasil fazer missões. Em 3 de agosto de 1972 pastor John, Betinha e sua filha Déborah chegaram no Brasil. “O lugar e até o clima não eram estranhos para mim! Era do jeito que eles haviam me contado!”, diz John. Pastor Frank, seu sogro, foi como um pai para ensiná-lo em tudo no início do seu ministério. Trabalharam juntos até a sua morte, em 1987, quando pastor John assumiu a presidência da Ação Evangélica no Brasil. John causou grandes mudanças administrativas na Instituição, elaborou novo estatuto, agregou novos líderes, todos nacionais e estendeu a

equipe de trabalho fazendo a ACEV expandir totalmente envolvida pela filosofia bíblica de Missão Integral tão bem transmitida por ele. Pastor John é um apaixonado pelo Nordeste, a Paraíba e seu Sertão, por zona rural, pela Caatinga e pela missão integral da Igreja. Tem nacionalidade dupla: Britânica/Naturalizado Brasileiro. Também é empresário, Professor, agropecuarista e ambientalista. Defensor há décadas do meio-ambiente, se tornou fotógrafo de aves da Paraíba e do sertão em geral publicando suas fotos na internet (http://www.wikiaves.com. br/perfil_john4969). Ninguém é mais sertanejo do que esse inglês! Que fez do sertão do nordeste do Brasil sua terra, que faz desse povo sua gente. Ele e todos os seus filhos e netos moram na cida­ de de Patos, na Paraíba. Hoje, pastor John vive a percorrer o chão do semiárido nordestino por puro prazer de viver seu grande sonho missionário: pregar o Evangelho no Brasil.

2014 | Ação Evangélica [37


Opinião

Com a palavra, ELSIE GILBERT

“V

ejo o movimento evangélico como um grande rio cheio de afluentes. A qualidade da água vai depender do percurso que o rio faz ao longo de seu caminho para o mar. Em alguns lugares o lixo tóxico de grandes cidades quase o mata, em outros, talvez mais afastados ou com o auxílio de recursos naturais diversos o rio se revitaliza. São muitos afluentes, são vários percursos feitos, cruzando montanhas e vales, matas verdes, cerrados, sertões. Tudo vai desaguar num grande mar. A qualidade da água em cada ponto da jornada pode ser mais ou menos cristalina e o rio pode estar mais ou menos sadio. Assim também é o movimento evangélico. É por isto que descobrir uma vertente do movimento evangélico tão cheia de vida no sertão nordestino é uma experiência tão refrescante! São três quartos de século de presença evangélica numa região árida e carente em muitos aspectos mas que também apresenta grande resiliência e tenacidade. O trabalho iniciado pelos missionários ingleses Eduardo e Dora Mundy em 1938 que hoje é conhecido como ACEV (Ação Evangélica) enfrentou talvez os mesmos desafios de outros trabalhos missionários da mesma época: uma forte e tradicional resistência católica, escassez de recursos, especialmente de obreiros, e a notória distância de grandes centros urbanos e dos recursos modernos ali existentes. Mas o caminho que a ACEV fez ao longo deste tempo tem algo especial que pode ajudar a toda a igreja brasileira! Vamos parar de debater e passar a demonstrar nosso amor? A ACEV ficou fora do grande debate “fé versus obras” que afetou grande parte da igreja evangélica brasileira descendente das missões norte-americanas de influência mais fundamentalista a partir do final da Segunda Guerra Mundial. Para os Mundy, era impossível não atender às necessidades físicas do povo a quem buscavam ministrar o amor eterno e infinito de Deus. E eles transmitiram esta visão para os líderes que os sucederam. Quando conversamos com os pastores e líderes atuais, descobrimos pessoas que não conseguem separar a fé das obras e nunca tiveram problemas teológicos com isto. Este é o caso, por exemplo, do Pr. Gerse Oliveira, que não só ministra as verdades espirituais nos fins de semana na ACEV de Princesa Isabel, PB, mas também é um técnico de montagem na construção das caixas de água. E como o espiritual e o físico são aspectos de uma única realidade, ele não se surpreende quando

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enfrenta grande perseguição espiritual (ao ponto de receber ameaças físicas) porque está empenhado em levar água limpa para a Comunidade do Fonseca, um quilombo que fica no município de Manaíra, PB. Gerse sabe também que a sua integridade, sua coragem, seu empenho e a sua humildade falam muito mais alto do que palavras para os comunitários acostumados com as falcatruas e promessas vazias de uma liderança política municipal oligárquica e preconceituosa. Vamos acolher todas as crianças? Em segundo lugar, a ACEV acolhe as crianças e os adolescentes. Por ocasião do I Congresso Nordestino de Missão Integral ocorrido em São Mamede, PB, entre os dias 9 e 13 de julho de 2013, tive oportunidade de trabalhar com uma equipe de jovens voluntários na cobertura jornalística do evento. Fiquei impressionada com a seriedade e dedicação do grupo. Na semana seguinte haveria um evento evangelístico para jovens e adolescentes na ACEV Campina Grande, PB, que contou com 200 participantes. São indicadores de que as igrejas da ACEV sabem reter o seu maior tesouro: as crianças. Mas eles não se limitam ao trabalho com as crianças de suas igrejas. O projeto Ação Educar, um projeto de apoio escolar para crianças mais vulneráveis, é um bom exemplo de como a igreja gosta e quer ajudar a todas as crianças, de dentro e de fora. Vamos levar a sério a subsistência do nosso povo? Em terceiro lugar, a ACEV desenvolve um trabalho de fixação da família sertaneja no campo por meio da construção de poços, da agricultura familiar, e do manejo de pequenos rebanhos de animais bem adaptados ao clima árido do sertão nordestino. Ouvir a história de famílias que conseguiram voltar para seus sítios e que vivem da terra com o auxílio de tecnologias alternativas é uma grande alegria. Não dá para fazer isto sem parar e pensar sobre o mundo criado por Deus, sobre o meio-ambiente, sobre o nosso papel como mordomos dos recursos naturais. Toda esta reflexão é feita com grande propriedade pelo atual presidente da ACEV, Pr. John Medcraft. E finalmente, o povo da ACEV tem uma identidade única. Chamam-se de avevianos, vestem a camisa da denominação com entusiasmo e têm orgulho do caminho que fizeram ao longo dos anos numa trilha suada, cheia de pedregulhos. Nisto também podemos aprender com eles. Vamos praticar a gratidão pela história de Deus conosco?”


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Revista Ação Evangélica  

A revista Ação Evangélica é uma publicação especial em comemoração aos 76 anos da Igreja Ação Evangélica (ACEV) no Brasil. A revista de cunh...

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