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CAPA CATALOGO Adrianna eu 28 PAGINAS 4/0

Rua Bar達o de Jaguaripe, 387 Ipanema Rio de Janeiro RJ 22 421-000 Tel.: +55 (21) 2523-4696 +55 (21) 2274-8287 contato@lucianacaravello.com.br www.lucianacaravello.com.br


Adrianna eu

O MERGULHO DE NARCISO


Capa:

O lago dos cisnes 2015 20 x 30 cm Edição: Série de 30 + P.A.


Adrianna eu

O MERGULHO DE NARCISO Texto

Ivair Reinaldim

25 de setembro a 17 de outubro 2015


O MERGULHO DE NARCISO

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Do outro lado do espelho: Adrianna eu e os outros “Quanto ao espelho, ele é o instrumento de uma universal magia

que transforma as coisas em espetáculos, os espetáculos em coisas, eu em outrem e outrem em mim.” (Merleau-Ponty, O olho e o espírito, 1960) O que vemos diante de nós? Espelhos. Não apenas isso. Algo a mais, certamente. Espelhos são objetos que concentram em si o fascínio humano pela imagem refletida, mas acima disso, guardam uma dimensão simbólica, a partir da reflexão que são metaforicamente capazes de despertar. Olhar nossa própria imagem numa superfície refletidora é, em certa instância, repetir o gesto de Narciso. Não em sua literalidade, no ato de apaixonar-se por sua própria imagem, como um Outro, mas em seu caráter analítico, no reconhecimento desse “outro” como algo do qual fazemos parte, mas que é diferente de nós, justamente por representar uma natureza inconsciente. Assim, a fixação de Narciso em sua imagem é o índice de seu processo de autoconsciência. Como nos fala Merleau-Ponty, o espelho torna-se dispositivo por meio do qual um “eu” transforma-se em “outrem” (e vice-versa), misturando corpo objetivo e corpo fenomenal, uma vez que a imagem especular é extensão da relação subjetiva e sensorial com nosso próprio corpo e deste com o mundo. Mas aqui, diante de nós, não há apenas espelhos e reflexos, uma vez que toda obra não se reduz a seu objeto ou ao fenômeno que este produz. A obra possui igualmente uma dimensão simbólica, que pode ou não coincidir com a do objeto. Vejamos, então. O conjunto de trabalhos expostos – obras, em sentido estético – possui na corporeidade e na função refletidora do espelho sua substância poética. Esses trabalhos constituem um recorte da produção da artista Adrianna eu, que já há algum tempo utiliza-se de espelhos, vidros e cristais, entre outros materiais, para corporificar certos aspectos de sua investigação artística. Esses sentidos atrelados à capacidade refletidora/reflexiva do espelho parecem assumir uma função tautológica ampliada no trabalho de alguém que possui o pronome “eu” em seu nome artístico. “eu”, como afirma Adrianna, não se fecha em si, mas tem implícito um “outro”, uma identidade que só pode se constituir através de uma relação de alteridade. Para a artista, essa dimensão de troca, de contiguidade, é fundamental. ADRIANNA EU | 5


Entre os trabalhos que Adrianna eu apresenta, há O Outro, antigo espelho de mão, sem prata, cuja imagem não é refletida, transpassado por um furo e uma linha – ele inaugura e sintetiza literal e metaforicamente a percepção do espelho não como uma superfície opaca, mas transparente, como um “através”, que mais do que repetir/refletir, mostra aquilo que não se poderia ver, o que está do outro lado. Em Dourados Como a Ilusão, um conjunto de estojos de maquiagem fixados em espelho maior reafirma a identidade fragmentada frente nossa busca por construção de determinadas imagens-disfarces, máscaras cotidianas. Na série Mergulho de Narciso, espelhos de mão ganham ares barrocos, reproduzindo fantasiosamente o instante em que a superfície especular se modifica após o mergulho, através do deslocamento da água. Nesse caso, os espelhos tornam-se objetos delirantes, cujos reflexos transformam-se e modificam a imagem daquele que se coloca diante deles. Em comum nesses trabalhos, o uso de objetos antigos, desgastados pelo tempo, muitas vezes com marcas, falhas, rachaduras – o que aparece potencializado em Autorretrato da Artista, quebra-sol espelhado, decorado com gravação de elementos florais e a presença da expressão “Hei de Vencer”: embora o estado da peça reforce sua aparente obsolescência enquanto objeto de uso, a inscrição direcionada ao futuro afirma a constância projetiva de um desejo compartilhado. Por fim, incluem-se os trabalhos inéditos da série Lago dos Cisnes, imagens fotográficas de forte poder simbólico e narrativo, guardando uma dimensão fabular. Novamente as superfícies de espelhos emoldurados induzem-nos a pensar na água e no reflexo fragmentado, mas agora, posicionados no chão escuro da floresta, repleto de folhas secas, refletem o céu e a copa das árvores, mostram-nos aquilo que o enquadramento da imagem fotográfica não nos permitiria ver. Como na história homônima, em que uma princesa é transformada em cisne, a identidade da menina em pé sobre esse lago figurado encontra-se velada, ao mesmo tempo em que, ao encobrir seus olhos com as mãos, diferentemente de Narciso, parece evitar o confronto direto com alguma imagem mais específica. O espelho em muitas culturas é um instrumento de adivinhação, pois permite ver para além da realidade aparente, o que nos possibilitaria pensar na natureza do encontro que não é mediado pelos olhos, mas pela extensão do próprio corpo. Aquilo que foi visto ou deixou de ser, só pode ser fruto de uma reflexão dialógica da personagem com seu observador, o espectador, prostrado diante de tais imagens. Eis justamente o momento em que somos confrontados, tal qual Narciso, com esse Outro, perante nossos olhos. Aquilo que a imagem reflete caberá a cada um compreender.

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THE DIVE OF NARCISSUS

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From the other side of the mirror: Adrianna eu and the others “As for the mirror, it is the instrument of a universal magic

that transforms things into spectacles, spectacles into things, I into another and another into me.” (Merleau-Ponty, Eye and Mind, 1960) What do we see before us? Mirrors. Not just this. Something more, surely. Mirrors are objects that embody the human fascination with the reflected image, but beyond that, bear a symbolic dimension, based on the reflection that they are metaphorically capable of provoking. Viewing our own image in a reflective surface is, at some points, akin to the gesture of Narcissus. Not literally, in the sense of falling in love with one’s own image, as if it were an ‘Other’, but analytically, in acknowledging this “other” as something we are a part of but different from, precisely because it represents an unconscious state. Thus, Narcissus’s fixation on his own image is the index of his process of self-awareness. As Merleau-Ponty puts it, the mirror becomes a device through which an “I” is transformed into an “other” (and vice versa), mixing objective and phenomenal body, since the mirror image is an extension of the subjective and sensorial relation with our own body and of it with the world. Here before us, however, there are not only mirrors and reflections, since the whole work cannot be reduced to its object or to the phenomenon that it produces. The work also has a symbolic dimension, which may or may not coincide with that of the object. Let’s see, then. The aesthetic substance of the group of works on display—works in the artistic sense—lies in its corporeality and mirror-like function. These pieces are a sample of the work of Adrianna eu, who for some time has been using mirrors, glass, crystals and other materials to embody some of her artistic investigations. These meanings connected with the reflective/reflexive capacity of the mirror seem to take on a wider tautological function in the work of someone whose artistic name is “eu” [‘I’ in Portuguese]. “I”, Adrianna states, am not closed in on myself, but have an implicit “other”, an identity that can only be established through a relation of otherness. For this artist, the element of exchange, of contiguity, is crucial. 8 | ADRIANNA EU


The works Adrianna eu presents include The Other, an old unreflecting unsilvered hand mirror, threaded on a string. This literally and figuratively sparks and sums up the perception of the mirror not as an opaque surface, but transparent, a kind of “throughway”, which, beyond repeating/ reflecting, shows something that cannot be seen, what is from the other side. In Gilded like Illusion, a group of make-up kits fastened to a larger mirror re-affirms our fragmented identity in our search to build up certain disguise-images, everyday masks. In the Dive of Narcissus series, hand mirrors even acquire Baroque airs, fancifully reproducing the instant in which the mirrored surface is changed after the dive, by the displacement of the water. In this case, the mirrors become delirious objects, whose reflections are transformed and modify the image of that which stands before them. A feature these works have in common is the use of old objects, worn down by time, stained, chipped, cracked—as appears powerfully in Self-Portrait of the Artist, a mirrored sun visor, decorated with a floral pattern the presence of the expression “I will win”: although the condition of the piece reinforces a sense of its apparent obsolescence as an object of use. The inscription referring to the future affirms the projected constancy of a shared desire. The exhibition also includes previously unseen works from the Swan Lake series, powerfully symbolic and narrative photographic images, retaining a fable-like quality. Once again the surfaces of framed mirrors make us think of water and a fragmented reflection, but positioned now on the dark floor of a forest, full of dried leaves, reflecting the sky and the treetops, showing us what the framing of the photographic image does not allow us to see. As in the story to which the title refers, in which a princess is transformed into a swan, the identity of the girl standing over this figurative lake is hidden, while, by covering her eyes with her hands, different from Narcissus, she appears to be avoiding a direct confrontation with any more specific image. In many cultures, the mirror is an instrument of divination, since it allows us to see beyond apparent reality, enabling us to think of the nature of a meeting that is mediated not by the eyes but by the extension of one’s own body. That which has been seen or has ceased to be can only be the fruit of a reflective dialogue between the character and the observer, the viewer, prostrate before such images. This is precisely the moment in which we are confronted, like Narcissus, with this other before our eyes. Anyone can understand what the image reflects.

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Pag. 11 Dourados como a ilusão 2015 40 x 84 x 10 cm

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Quem vê cara, não vê coração 2015 56 x 81 x 10 cm


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O outro 2005 11 x 30 x 1 cm

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O Mergulho de Narciso 2014 32 x 26 x 31 cm

Pags. 16/17 Eu e vocĂŞ 2015 30 x 17 x 4 cm

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O vazio em mim 2012 34 x 35 x 22 cm

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Auto retrato da artista 2015 46 x 14 x 2 cm

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O lago dos cisnes 2015 80 x 53 cm Edição: Série de 20 + P.A.

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O lago dos cisnes 2015 80 x 120 cm Edição: Série de 10 + P.A. Pags. 22/23 O lago dos cisnes (detalhe) 2015 80 x 53 cm Edição: Série de 20 + P.A.

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Adrianna eu Formação / Education Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV) - 2003/2006 Arte e Filosofia - Museu da República, Prof. Auterives Maciel - 2003/2007 Grupo Alice (Coordenação: Brígida Baltar e Pedro Varela) - 2011/2013

Residência Internacional / International Residency 2008 - Galeria Real - Amman / Jordânia.

Exposições Individuais Selecionadas / Solo Selected Exhibitions 2005 Paço Imperial - Exposição comemorativa dos 20 anos do Paço - “Trabalhos Recentes”/ RJ

Exposições Coletivas Selecionadas / Selected Group Exhibitions 2006 Escola de Artes Visuais do Parque Lage- “Em torno da Pintura” / RJ Incorpo(r)ações - performances / RJ Riocenacontemporânea / RJ Quarta Mostra Maringá de Arte sem Barreiras - FUNARTE / SP Festival Brasileiro Além dos Limites - FUNARTE - Brasília / DF Paixão - Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea / RJ Mostra de Vídeoperformances Latino-Americana na Bienal “Performers” - Primeira Bienal Internacional de Performance - Galeria Ojo de Bueu - Instiituto Arcos - Santiago Chile The Bolivarian Dream - Mostra de vídeo-arte Latino Americana Contemporânea, organizada por Hoffman’s House, Centro Cultural La Moneda - Santiago - Chile Arte-Pará / 2006 - Primeiro Prêmio 2007 Abre-Alas - Galeria “A Gentil Carioca” / RJ Primeiro Encuentro Entre Dos Mares - Bienal São Paulo - Valência - Espanha 2008 A Imagem do Som do Samba - Paço Imperial / RJ Morro das Artes - IPHAN - “Intervenções Urbanas” - Morro da Conceição / RJ Paço Imperial - Exposição Morro das Artes - IPHAN - Instalação / RJ Poética da Percepção - MAM / RJ 2011 Gigante por la propia naturaleza - IVAM Instituto Valenciano de Arte Moderno / Espanha Só para os raros, só para loucos - Galeria Jaqueline Martins / SP Novísimos - IBEU / RJ 24 | ADRIANNA EU


2012 Break up Galeria ZAK / Itália 2013 Sem fronteiras / Museu Artur Bispo do Rosário de Arte Contemporânea / RJ Nossa exposição de desenhos SESC / Brasília / DF Museu Benjamin Constant “Amor, “ / RJ 2014 Galeria Luciana Caravello - “Primeiro estudo: Sobre amor” / RJ 2015 XXX Fuorifestival / Itália

Coleções Públicas / Public Collections Galeria Real / Amman / Jordânia Museu Romulo Maiorama / Pará / Brasil MAR Museu de Arte do Rio / Rio de Janeiro / Brasil

Feiras / Art Fairs Art Rio 2011 / 2012 / 2013/ 2014 /2015 SP Arte 2014 / 2015 Pinta 2014

Agradecimentos / Acknowledgements Bernardo Mosqueira Bianca Bernardo Claudia Hersz Claudio Aun Dona Norma Douglas de Freitas Emerson Guimarães Fernanda Lopes Francisco Freitas Gilles Bonnecarrere Graça Léo Ayres Lisette Mourot Mara Fainziliber

Marcio Fainziliber Marcia Andrade Oliveira Mariana Zanato Marly Guedes Cavalcante Maykson Cardoso Osvaldo Luiz Gaia Oyama Achcar Paulo Pessanha Renato Santana Robson Bolsoni Rose Bahiana Sonia Bialowas Tomas Martn Osowicki

E a todos aqueles, que de alguma forma me ajudaram a tornar possível essa exposição. ADRIANNA EU | 25


O MERGULHO DE NARCISO FICHA TÉCNICA [CREDITS] Texto [Text]: Ivair Reinaldim Fotos [Photos]: Leonardo Ramadinha Fotos [Photos]: O Lago dos Cisnes: Robson Bolsoni Tratamento de imagem [Photos graphic editing]: O Lago dos Cisnes: Pessanha Design - Sinergia Criativa Modelo [Model]: Marcinha Assessoria de imprensa [Press]: Ester Lima - Básica Comunicação Design do catálogo [Catalogue designer]: Bitty Nascimento Silva Pottier Design do convite [Invitation designer]: Julia Vaz Tradução [English version]: Paul Webb Impressão e acabamento [Printing office]: Barbero - Graphus

LUCIANA CARAVELLO ARTE CONTEMPORÂNEA: Direção artística [Artistic director]: Waldick Jatobá Vendas [Sales]: America Cavaliere (externa) e Ronaldo Simões Produção [Logistics/Exhibitions]: Julia Vaz Assistente de Produção [Assistant]: Caio Paiva Financeiro [Finance]: Valeria de Araujo Teixeira Montador [Assembler]: Fabio Francisco de Paula Apoio [Support]: Francinato Araujo Pereira 26 | ADRIANNA EU


A história da galeria Luciana Caravello Arte Contemporânea, inaugurada em 2011, se mistura com o percurso profissional da marchand Luciana Caravello. Desde 1998, Luciana vem trabalhando com arte contemporânea, representando vários artistas visuais do Rio de Janeiro e outras regiões do Brasil, comprometidos com pesquisas sobre suportes variados. O espaço atual tem uma arquitetura privilegiada, adaptada para receber exposições de artistas consagrados e artistas emergentes, sempre mostrando o que há de melhor na arte contemporânea nacional. Assim, a galeria desenvolve uma programação consistente, cujo objetivo principal é destacar a constância da linguagem artística, evidenciando o contraste de trajetórias consolidadas com a ousadia e o frescor das experimentações mais de vanguarda.

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www.lucianacaravello.com.br


CAPA CATALOGO Adrianna eu 28 PAGINAS 4/0

Rua Bar達o de Jaguaripe, 387 Ipanema Rio de Janeiro RJ 22 421-000 Tel.: +55 (21) 2523-4696 +55 (21) 2274-8287 contato@lucianacaravello.com.br www.lucianacaravello.com.br


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