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massapĂŞ 2013

Priscilla Menezes


Para Francisca Jarina Antunes de Menezes


1: rio de janeiro – ouro preto – catas altas – belo horizonte – salvador – recife – olinda – fortaleza – massapê

2: valença – massapê


1


Lembro da minha avó dizendo que, quando criança, gostava de ficar deitada na terra olhando para o céu de Massapê.


O sertão é dentro. É um mover das águas do corpo, o globo ocular versus o chão duro versus o couro frágil do topo da cabeça versus o fôlego cravado nas pernas. Teus pés já andaram sobre o seco, na lama rara, no mangue sobre as raízes altas e enfim no sal do mar. Refaço teu caminho pelo avesso, do fim para o princípio. Nascida nesse solo de calores, muito mais tarde tu andarias pelo meu quintal à procura de pequenos caracóis, com vontade de sentir o calor de uma vida sob o pés. Teu cabelo, uma natureza onde transbordavam nuvens, catedrais, agouros, manchas de cor, um imenso bestiário. No teu cabelo navegavam teus filhos, os de carne embalados pela tua voz e os de tinta retorcidos em teus dedos aparentados com tudo que caminha para o interior da terra.


Eu me gasto contra os dias, a barriga dividida em dois: parte incontido apetite, parte esmerado jejum. Eu queria recobrir a estrada da minha voz e ao mesmo tempo me calar sem fim, em plena e silenciosa devoção. E nada mais que um descaso à lógica, aos cuidados e ao tempo conhecido. Contra o tempo, eu me desmonto. Deixo os braços pelo chão e dou às pernas um galope desordenado, um passo delirante. Vou atrás de um gesto sóbrio que perfure minha vida. Exato como o golpe final de uma tourada: os chifres do bicho perfurando a carne de um homem vivo, esse tipo de elegância.


O ar denso da manhã recente revela a vocação sombria de toda terra. Tudo é desterro, todo chão leva ao exilo. Depois os dias passam banais, entre feiras, engarrafamentos, almoços a quilo, bolhas no pé. Sento-me em uma igreja e temo pela minha vida, o canto gregoriano arranhado no cd me enjoa, meus ossos se desmontam, e eu invento uma oração que é assim: bendita face deformada de Deus, besta de mil cabeças, sei que não é teu onisciente olho que me acompanha, mas tua enorme boca voraz. Sei que deveria fazer minhas preces diante da janela. O mundo infindável lá fora, esse altar maior. Agradeço pelas boas coincidências, pelas noites mal dormidas, pela sujeira, e pela enorme compaixão. Te peço apenas que me deixe estar à altura do meu caminhar, solene e agreste, como esse chão.


Estranhos sonhos me devoram, durmo sozinha com uma fera dentro. Equilibro os pesadelos nos ombros a cada dia. Me lavo com o sabão e me purifico no sol bruto da manhã. Mas não escapo do apetite que me revira as escamas, a penugem, as tripas mais profundas. Arde a inquietude nos meus olhos. Me multiplico em vinte, sou o menino que vende bala no trem, sou a senhora que faz o sinal da cruz quando passa pelo cemitério e tosse na hora do amém, sou o vendedor de caranguejos, sou a mulher misteriosa que se embriaga sozinha pelos bares. Receio as viagens noturnas, temo um assalto, um deslize qualquer. Mas me embriago de coragem travando uma batalha silenciosa entre os ossos das minhas costelas.


Em Massapê, tudo é calor e mansidão. O céu quase tomba, pesa. Nuvens maravilhosas dançam um balé lentíssimo. Quando visito a casa da moradora mais antiga da cidade, sinto que estou num lugar muito especial. O acaso foi minha fortuna, o que me trouxe a esse instante precioso. Dona Maria de Lourdes nunca conheceu minha avó, não há lembrança qualquer da minha família , mas ganho de presente a vida de Maria: nunca estudou porque preferia brincar, não casou porque não era seu destino, passou o resto de seus dias cuidado de sua irmã que não tem a luz dos olhos, é devota de todos os santos e nunca mexe em nada da casa, quer deixá-la do jeito que seus pais a fizeram. Quando peço para fotografá-la, diz que não se acha bonita e não gosta de fotos, mas que aceita posar pra mim com uma condição: virar-se de costas.


2


Um choro retido umedecendo o avesso da pálpebra. Farejava o passado como um incêndio ao longe. A saudade lhe visitava as pernas, capturando seu equilíbrio, em ondas. Nas noites acendia velas para espantar os demônios de dentro da sua cabeça. Às vezes se deitava no chão do casebre, as janelas fechadas, seu peito tremendo como uma terra traiçoeira, a dor visitando os olhos, escorrendo pelos dedos que marcavam paredes com uma tinta estranha. Fazia uns desenhos do fundo do mar, esse que nunca conheceu nem pela superfície. Nos primeiros dias, achou que ia enlouquecer. E enlouqueceu. Bebeu cachaça do gargalo desafiando homens brutos no boteco, deixou-se violar, foi espancada, regozijou na lama, acordou despida em estranhas camas. Andou nua pela cidade de manhã, era Godiva sem segredo. Depois decidiu trancar-se durante dias em seu quarto, uma quarentena. Tremeu de amor, chorou de ternura, soluçou diante de sua grossa solidão. Ninguém poderia a conhecer, nada chegaria perto de seu coração emaranhado. Depois os dias se acalmaram, abandonou o quarto, lavou a louça suja, deixou os lençóis ao sol. Já não precisava combater as feras com pontapés, acolheu cães em sua casa, dava-lhes leite, água e dormia com eles nas noites de lua cheia. Sentiu seu ventre crescer, temeu ter engravidado de algum desastre, mas depois notou que tinha engordado, que suas carnes recobriam seus ossos com mais firmeza, mais vigor. Não achou ruim, quis ficar ainda maior, e ficou. Trocou suas roupas antigas por grandes panos de algodão que amarrava ao modo das gregas. Para combinar, prendia os cabelos grossos no topo da cabeça, e fazia para si joias de cascas de besouro, ossos, dentes de onça, cogumelos ressecados, espinhos reluzentes. E então deixou de sentir vontade de se marcar por mãos estranhas, de fazer a língua arder com bebidas fortes, criou rituais diários, pequenas liturgias que sustentavam seus dias. Tomava banho de lama escura, alimentava cobras na boca, cobria


seu rosto de mariposas - e a máscara durava apenas um instante - costurava mantos enormes com os quais recobria o telhado onde se deitava para descansar e tentar acostumar os olhos com o sol. Então decidiu que era hora de abrir o baú. Depois de dias, encarou de novo aquela imagem, a mulher que havia guiado sua direção até ali. Viu que o pequeno espelho que tinha herdado agora havia se quebrado em muitos. Espalhou os cacos pelo chão e se encarou. Era anêmona, moeda, um olho, um pedaço de nariz, um cabelo que cai no rosto, um colar de contas, um mamilo escuro, pedaço de orelha nua, olhos aguados, boca dilatada, era saliva, era as dobras de um braço, era um pé cansado, era carne recobrindo osso, era pele opaca e constante, era espasmo, era provisória e fraca, era uma torre. Achou também um batom carmim com o qual decidiu enfeitar a cidade a redor, deixando-a menos ocre, mais feroz. Um oratório que ocupou um canto de sua casa, diante do qual gostava de dançar. Então se lembrou da estrada, os muitos dias sob a chuva e o caminho até ali. Entendeu que era preciso guardar parte de seu tesouro apenas para si e que não haveria agouro para lhe dar direção, que nenhuma voz do passado a definiria e o caminho seria sua escolha. O oráculo, seus próprios pés. Então foi possível rir. Lavou-se no rio. A água passava e nada tinha solidez. Era meio-dia e subitamente o mistério era uma enorme alegria e então foi alegre até o fim.


massapĂŞ 2013


Massapê