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DelĂ­rios Holbein Menezes

PosfĂĄcio Priscilla Menezes


Primeiro subtítulo: ... de um nonagenário. Segundo subtítulo: Farrapos memorialísticos de uma longa vida vivida. Terceiro subtítulo: Verdades que só se dizem depois que se conquista imputabilidade. Quarto subtítulo: Relembranças dos muitos livros que li. Quinto subtítulo: Eu vi, e às vezes vivi!

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Proposição: o “nãodito” (ou o fantástico) não é o contrário antagônico do dito embora o dito não seja necessariamente a reprodução do objeto sobre o qual se quis dizer. O nãodito está no subjacente do objeto, é seu interior, sua “coluna do meio”, a parte não expressa seja pela linguagem seja pela técnica acadêmicas; todavia, manifestada pela penumbra da insinuação às vezes desfocada, às vezes inteligente, mas sempre poética.

[Obs. Na filosofia dialética materialista, contrário antagônico é a situação oposta de um fenômeno, contradição que carece de ser resolvida para que o fenômeno 2


se desenvolva; e essa resolução só pode ocorrer pela via revolucionária a fim de processar-se um salto em qualidade; por isso que pela forma evolucionista ocorreria apenas acumulação quantitativa.]

A antítese nem sempre é o antagônico da tese (embora represente seu contrário) e pode ser materializada por muitos meios inclusive pelas dúvidas que a própria tese possa suscitar uma vez que a antítese representa o movimento do novo que quer vir a ser. De igual modo a síntese não é o sumário da tese posto que é seu desenvolvimento; é a antiga tese modificada em qualidade

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embora conservando em quantidade algo da antiga tese; visto que em toda tese existem elementos de antítese, e em toda antítese há elementos tanto da velha quanto da nova teses. É o que a dialética quer significar com “penetração de opostos”.

Os filósofos chineses nomearam os elementos tese e antítese, de “yang” e “yin”: o primeiro é a força ativa, positiva e masculina do princípio do Universo; o segundo é a força passiva, negativa e feminina desse mesmo princípio; mas uma força não é mais importante que a outra nem pode prescindir uma d’outra; há que coexistirem ambas para

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operar-se o desenvolvimento; não existe desenvolvimento só “yang” ou só “yin”.

A própria metáfora bíblica da criação do homem, ao usar aquela linguagem “nãodita”, criou “yin” (feminino=Eva) do meio (costela) do “yang” (masculino=Adão); isso para que se tornassem forças dinâmicas iguais para gerar a Humanidade; por isso que uma força sem a outra a Humanidade não se teria criado.

Portanto, neste livro não pretendi dizer nada além do que o texto não disse.

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CapĂ­tulo primeiro e Ăşnico do Livro I.

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No céu. Quando voltei à consciência estava sob uma árvore de copa larga e fechada. Com vagar e ainda a sentir algum torpor olhei vagarosamente em volta: encontrava-me numa espécie de clareira, ou talvez extenso platô decorrente de nivelamento e aterro, ao meio do qual erguia-se uma mansão na forma de U, em estilo colonial, edificação muito bem conservada. A cercar o platô, menos na saída para uma estrada de cascalhos, um muro de pedra de cerca de 40 ou 50 centímetros de altura e aí

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pelos 30 cm de largura. Para fora do muro, mata fechada com ĂĄrvores altas que impediam ver-se o firmamento alĂŠm de um estreito cĂ­rculo.

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Solilóquio: - Terei morrido? Será isso o céu? E a casa do senhor será aquela? Onde estão os santos ministros de deus e o seu exército de arcanjos, anjos e querubins?

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Nesse cismar, eis que uma mulher alta de seus trinta anos toda vestida com mantos brancos, em passos lentos se aproxima de mim; agacha-se próximo de onde eu estou, toma minha mão direita na sua, beija-a e pergunta-me: - Quem é o Senhor? Respondo-lhe com outra pergunta: - Onde estou? Parece-me que, tal Parsifal, me perdi na floresta e desmaiei de tão cansado. - Mas o Senhor agora está a se sentir bem?

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- Não de todo. Ainda que lúcido experimento alguma prostração... - Seu nome, por favor? - Meu nome? Ora meu nome... mas como é que me chamo mesmo? Desculpa, minha senhora, esqueci. - Onde o Senhor mora? - Lembro-me de que era numa grande cidade de muitos arranha-céus, com mais de dois milhões de pessoas, uma cidade grande e suja, muito suja, e por isso malcheirosa. Por enquanto é do que me recordo.

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- Deve ser uma das cidades do Brasil dirigidas pelo partido dos trabalhadores... - Como é que é?!? - Nada não. Esqueça. Ocorreu-me a pergunta em vista de algumas notícias que recebi recente do Brasil. - Sobre o “mensalão”? - O Senhor também sabe desse tipo de sujeira? - Lembro-me de alguma coisa... Daquele tribunal que se proclama supremo... em especial do seu presidente que esbravejou alto e bom som nos microfones das tevês do meu

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País: “Nada existe acima deste Tribunal!” - Não excetuou nem o Senhor Deus? - Nem também o povo, em nome de quem todo poder é constituído, e exercido! - E há quem pense que a consciência coletiva é o décimo superior das mentes, e que tudo mais deve está debaixo dela. O Senhor Deus... - Não entendi essa. - Não entendeu? O Senhor não está a sentir nenhuma dor? - Muita dor, senhora! Muita. A dor da decepção, espasmos de frustração, agonia da 13


ingratidão, náuseas de traições..., “... o odioso sentimento de indignação que as deslealdades provocam...”, a repetir Leonardo Padura em “O homem que amava os cachorros.” - Qual é sua idade? - Nem sei direito, porém mais de noventa anos, disso estou certo. - Mas o Senhor aparenta menos idade. - Do lugar de onde eu vim aprende-se muito cedo que “as aparências enganam”. - E de qual lugar o Senhor pensa que vem?

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- Talvez do inferno! - Mas no inferno não existe ninguém vivo. Todos foram queimados no fogo purificador! - E a senhora acha que estou vivo? - Estamos a conversar, não estamos? - E os mortos não conversam entre si? - Além de muitas moradas, na Casa do Senhor Deus há muitos tipos de vidas; o Senhor Deus, por exemplo, ressuscitou seu único Filho... - A senhora acredita nessa história? Aceita que o senhor 15


deus tenha sido tão masdeísta ao ponto de sacrificar o filho único? - O Senhor tem filhos? - Acho que gerei oito, com alguns dos quais não me dou bem; e dois morreram, um natimorto e outro com dez anos. - Por que o Senhor desaveio-se com seus filhos? - Dei-lhes tudo que criamos... - O quê? - Dei-lhes a casa que fizemos / que venderam sem pudor / nem isso de tolhimento.

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- Definitivamente o Senhor não está bem! Está a delirar! - Dei-lhes todo teu acervo / tuas vestes tão bonitas / tuas joias preciosas. - Ah! Compreendi! O Senhor está a recitar um poema... - Dei-lhes por fim teu jazigo / ao lado do meu sepulcro / “Bodas de Diamante!”. -? - Leonardo Boff. - Quem é Leonardo Boff, o poeta desses tercetos? - Autor de reflexões, não de tercetos. - E esses tercetos? 17


- Os compus eu próprio em saudade de minha ex companheira, com a qual vivi e convivi 61 anos. Bodas de Diamante! - Leonardo Boff... Leonardo Boff... acho que já ouvi falar nesse nome. - “A doença chamada homem”. Esta frase é do filósofo Friedrich Nietzsche e quer dizer: o ser humano é um ser paradoxal, são e doente: nele vivem o santo e o assassino.” - Senhor, essa não é uma reflexão sadia; um Santo é um Santo e um assassino é um pecador capital!

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- “Bioantropólogos, cosmólogos e outros afirmam: o ser humano é, ao mesmo tempo, sapiente e demente, anjo e demônio, diabólico e simbólico.” - Quais antropólogos afirmam tais absurdos? - “Freud dirá que nele vigoram dois instintos básicos: um de vida que ama e enriquece a vida e outro de morte que busca a destruição e deseja matar”. - Sigmund Freud foi um herege; por isso está a pagar no Hades por sua vaidade de negar ou pôr em dúvida

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verdades eternas e imutáveis da Fé Cristã. - Parece que quem está a delirar é a senhora. No ser humano, segundo o filósofo Leonard Boff “...coexistem simultaneamente as duas forças. Por isso, nossa existência não é simples mas complexa e dramática. Ora predomina a vontade de viver e então tudo irradia e cresce.” - Não é verdade, o Homem é imagem e semelhança de Deus! - Então deus... Ora, aprendi com o cientista brasileiro, meu amigo Victor Andrade, que nada existe além do cérebro.

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- O Senhor está a citar mais um herege! Por que não cita o sábio Apóstolo São Paulo? - Portanto “... o que acontece conosco, não acontece do jeito que acontece com os outros animais, por motivo da constituição de seus cérebros.” - Todos os seres da Natureza são criação de Deus. O Livro Sagrado registra a determinação do Senhor Deus: “Produza a terra seres viventes conforme a sua espécie: animais domésticos, répteis e animais selváticos, segundo a sua espécie.” - Victor Andrade ainda escreveu: “Nos seres humanos,

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acontece diferente porque o nosso cérebro é dividido em dois hemisférios. - O Senhor especifica os seres humanos, mas a águia, por exemplo, enxerga muito mais do que os humanos. O cão tem olfato superior ao dos homens. E os morcegos portam radares próprios... - E a senhora ainda diz que somos a imagem e semelhança de deus! - O Senhor Deus... - Continua meu amigo Victor: “... o (hemisfério) esquerdo tem a função de dar consciência lógica às

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informações que lhe são transmitidas pelo direito.” - Esse Victor é neurocirurgião? -Victor é psicanalista didata, Membro Fundador da International NeuroPsychoanalysis Society. Escreveu no seu livro “Um diálogo entre a Psicanálise e a Neurociência: “... o hemisfério direito compete transmitir informações novas com conteúdo afetivo que podem ser rejeitadas (negadas) pelo esquerdo em seu apego obsessivo à ordem interna estabelecida.

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- O Senhor me parece estar muito confuso; gostaria de conversar com o Santo Médico Psiquiatra daqui da Casa do Senhor Deus? - Por quê? A senhora acha que sou doido? - Não! Desculpe se o levei a duvidar; minha missão é de Fé e Esperança! - Mas não estou a duvidar, tenho certeza! - Certeza de quê? - De que sou doido. - Não! Doido o Senhor não é! Apenas o que o Senhor está a dizer é que não é normal.

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- E o que é normal? - O seu filósofo Leonardo Boff não lhe ensinou? - Meu filósofo é também um teólogo. - Ótimo. A teologia se ocupa de Deus e da Casa do Senhor. - Mas não de um único deus. - Só existe um único Deus verdadeiro! - Não aceito isso não. Sei que meu teólogo se indigna diante da bestialidade dos homens que a senhora diz ser a imagem e semelhança... - Parece que seu teólogo não consegue alcançar a grandeza

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de Deus nem compreender o alcance do livre arbítrio. - Ele registrou em recente artigo: “Por que escrevo isso tudo? É em razão do tresloucado que no dia 5 abril numa escola de um bairro do Rio de Janeiro matou à bala doze inocentes estudantes entre 13-15 anos e deixou outros doze feridos.” - Essa lamentável ocorrência indica falta de Crença em Deus! - Meu teólogo escreveu: “Já se fizeram um sem número de análises, foram sugeridas inúmeras medidas como a da restrição da venda de armas,

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de montar esquemas de segurança policial em cada escola e outras.” - O que quer dizer que as Autoridades Constituídas já tomaram providências. - Assim não parece ao meu teólogo. Boff disse o contrário: “Tudo isso tem seu sentido. Mas não se vai ao fundo da questão. A dimensão assassina, sejamos concretos e humildes, habita em cada um de nós.” - Quem habita em cada um de nós é o Espírito Santo! - “Temos instintos de agredir e de matar. É da condição humana, pouco importam as 27


interpretações que lhe dermos.” - O Papa Francisco não pensa dessa forma. - O papa Francisco está a cometer sublimação. - A Sublimação é uma Atitude Cristã. - Meu teólogo Boff não aceita isso. Prega o contrário: “A sublimação é a negação desta antirrealidade que não nos ajuda.” - Ajuda, sim! - Porque, segundo Boff, “Importa assumi-la e buscar formas de mantê-la sob controle e impedir que inunde 28


a consciência, recalque o instinto de vida e assuma as rédeas da situação”. - Isso é coisa de Sigmund Freud, o herege que nunca teve Fé Religiosa nem respeito para com as crenças religiosas alheias. - A religião é o ópio do povo. - Ah! Essa não é ideia do Sr. Sigmund Freud! - Freud escreveu, numa carta a Albert Einstein, que tudo o que faz criar laços emotivos entre os homens, tudo o que o civiliza, toda educação, toda arte e toda competição, trabalha contra a agressão e a morte. 29


- Já começo a gostar do Senhor Freud... - Mas tal conceito sobre os homens levou-o a ser expulso da Academia de Ciência de Viena. O Complexo de Édipo, por exemplo... - O Senhor não quer ir falar com nosso Santo Psicólogo? - Essa música que estou a ouvir ao longe é de Ludwig van Beethoven, é o terceiro movimento do Quarteto nº 132, também conhecido como “Hino do Agradecimento”. - É a música preferida do Senhor Deus. - Quem está a executá-la?

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- O Quarteto dos Querubins. Esse adágio representa o agradecimento do compositor ao Senhor Deus pela recuperação dele Beethoven de séria enfermidade. - É uma das mais sublimes criações musicais de todos os tempos. Entretanto, pela complexidade da sua notação penso que Beethoven, ao invés de querer agradecer a alguém, desejou desafiar os músicos de seu tempo... - Então o Senhor acha que não é um Hino de Agradecimento ao Senhor Deus?

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- ...pretendeu desafiar os conjuntos de corda a tocarem esse adágio com a perfeição exigida pela notação. O grupo bem-sucedido poderia então ser considerado um exímio conjunto! Acho que o orgulho de Beethoven quis dar um recado: só grandes músicos serão capazes de tocar o maior compositor que o Mundo conheceu, ELE! - O Senhor distorce tudo! “Heiliger Dankgesang eines Genesenen an die Gottheit, in der lydischen Tonart”, é um agradecimento à Divindade pela recuperação que Beethoven obteve após grave

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enfermidade. Assim registra a História. - Não. Beethoven, muito senhor do seu talento, é que se tinha grande. Quando se encontrou com Mozart em Viena em 1787, não o procurou para ter aulas com Mozart, como registram alguns biógrafos, mas para desafiar Mozart, exibindo-se. - Como é que o Senhor sabe disso? - Não sei, deduzo pelo comportamento de Mozart; pelo menoscabo com que devotou à peça que Beethoven tocou para ele; considerou-a

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“muito barulhenta”, e nada disse sobre a interpretação. - Qual foi a peça? - Mozart não lhe deu muita atenção nem conselhos, nem o aceitou como aluno. Isso deve ter magoado muito a Beethoven. - Mera suposição. - Enquanto Mozart sempre se perguntava “Quem sou?”, Beethoven afirmava, “Eu sou!” - Mais conjecturas. - Em 1797 Beethoven anotou em seu caderno de notas: “Coragem! Apesar de todas as

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falhas do corpo, meu talento deve triunfar!” - Pelo que sabemos aqui na Casa do Senhor Deus, o compositor Amadeus Mozart também era ambicioso. - Na verdade, Mozart não criou nenhuma linguagem musical. - Mas na Terra, os Senhores consideram-no gênio. - Todo gênio é distorcido. Em carta de 14 de maio de 1778, Mozart afirma que para compor é preciso “permanecer na ideia”. - E o que é “permanecer na ideia”?

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- Ideias levadas às últimas consequências conduzem a nada. - O Senhor pensa complicado! - Um velhinho, de 89 anos, barbicha como eu, Rex Stout. - Esse está cá na Casa do Senhor Deus desde 1975. - E o gorducho Nero Wolfe? - Esse nunca foi criatura, foi personagem. - Também não havia espaço físico para ele aqui... - A Casa do Senhor é Infinitamente Grande! - E em que outro Universo se situa a casa de deus... se o 36


próprio Universo é finito segundo Einstein. - O Físico Albert Einstein não está na Casa do Senhor Deus. - Mas escreveu angustiada carta a Sigmund Freud intrigado com o comportamento dos homens que se proclamam filhos de deus! - Li essa carta, Einstein perguntou: “Podemos superar esta dilaceração no humano?” - E Freud respondeu: “Não existe a esperança de suprimir de modo direto a agressividade humana.”

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- Ele está enganado. Existe, sim, em se praticando o Culto ao Senhor Deus! - Freud, que era médico e sabia das coisas humanas afirmou o contrário; que nos homens “vigoram dois instintos básicos: um de vida que ama e enriquece a vida e outro de morte que busca a destruição e deseja matar.” - Talvez Freud tenha razão: agora estou a me lembrar de que Caim matou Abel...

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- Resignado, Freud terminou a carta: "... esfaimados pensamos no moinho que tão lentamente mói, que poderemos morrer de fome antes de receber a farinha". - E por falar em “esfaimados”, esta seca de agora no Nordeste Brasileiro é a septuagésima que a História registra. - E quem produz as estiagens, deus, os homens, confluências climáticas, ou o quê? - Os homens que, no exercício do seu livre arbítrio, um Santo Dom dado pelo Senhor Deus, estão a destruir a Natureza que Ele criou.

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- Dom ou Dan? - Que é isso de “Dan”? - Da dupla “Dida e Dan”. Que manda no Banco do Brasil e na Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil. - Não entendo o que o Senhor está a dizer: ora, se a Caixa é dos, por que não é o dos que manda nela, e sim a dupla Dida e Dan? - Porque assim interessa ao Ministro da Fazenda. - Quem é o Ministro da Fazenda? - Um prestidigitador contábil.

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- Que é isso de prestidigitador contábil? - Uma pessoa que transforma déficit em superávit. - Isso acontece no Brasil? - À revelia da Presidente. - Então por que a Presidente não troca o Ministro da Fazenda? - Porque um ex-presidente não deixa. - No Brasil há presidente e expresidente que mandam simultaneamente? - No Brasil faz mais de dez anos que quem manda é a política de poder da casta

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sindical do partido dos trabalhadores. - Trabalhador não é quem trabalha? - No Brasil, o partido dos trabalhadores pertence aos que não trabalham, os “boss” sindicalistas que pululam soberanos, sem vínculo com a relação de produção; e isso vem de longe, desde o tempo do finado Getúlio Vargas. - Getúlio Vargas não foi aquele Presidente que se matou? - Foi. - Qual motivo levou-o a suicidar-se?

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- Para entrar na História! - E como Presidente ele não entraria na História? - Acho que ele desconfiava que não. Depois de ter mandado matar muita gente por meio do seu chefe de Polícia, Felinto Strubing Müller... - Esse era alemão? - Tenente do exército brasileiro, promovido a capitão por Luis Carlos Prestes, comandante de uma Coluna de Revolucionários. - Mas Prestes não foi preso a mando desse chefe de polícia, Felinto Müller?

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- Prestes e sua esposa, Olga Benário; esta executada em Benburg, na Alemanha de Hitler para onde Felinto Müller a havia deportado. - Felinto Müller era nazista? - Meu teólogo Leonardo Boff explica a atitude do Müller: “A dimensão assassina... habita em cada um de nós. Temos instintos de agredir e de matar.” - Também já começo a gostar desse seu teólogo. Sim, porque a tal dimensão assassina que habita os homens preferiu Barrabás ao Filho de Deus, Jesus.

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- Mas a “dimensão assassina” não terá sido também do paideus de jesus? - Ao contrário! Foi um Santo Sacrifício, para salvar os pecadores... - Que a parte masoquista de jesus aceitou: “... não seja como eu quero, e, sim, como tu queres.” - ... para salvar os pecadores. - É. As pessoas assustadas em geral atraem a maldade dos outros. - Jesus não estava assustado ao pedir “Meu Pai, se possível afasta de mim este cálice”.

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- Qualquer aventura existe mais na narrativa do que nos fatos. - O Filho de Deus ofereceu seu Sangue em holocausto para a salvação dos homens. - A palavra sangue tem às vezes um poder maior do que a palavra morte. - Esse é pensamento seu? - É um pensamento do escritor brasileiro Luiz Alfredo GarciaRoza. - O Senhor está a ter relembranças dos livros que leu? - Assim como observamos a realidade externa, também 46


perscrutamos a realidade interna. - Que é realidade interna? - É a composta por lembranças que só adquirem significado quando repercutem na percepção. - Perceber não é tomar consciência dos objetos? - Freud: o ego emite catéxias de atenção exploratória do mundo exterior que vão encontrar o objeto a meiocaminho. - Assim também acontece com a percepção da realidade interna?

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- Freud nunca deixou claro o mecanismo de percepção da realidade interna; mas não a atribuía à percepção. - Atribuía a quê? - Separou percepção e consciência. -? - Atribuiu à consciência a qualidade de receber excitações do mundo interno. - Que significa isso? - Excitações do mundo interno constituem-se exclusivamente de sensações de prazer e desprazer.

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- O Senhor sente mais prazer aqui na Casa do Senhor Deus do que no lugar de onde vem? - Lá na minha megalópole suja e malcheirosa perdi muitas das antigas certezas, mas não cheguei à verdade nenhuma; pelo contrário, ampliei minhas dúvidas e cismas. - Que antigas certezas o Senhor tinha? - De que todos nascemos no piloto automático, mas apenas alguns assumem o comando. - Que significa essa metáfora? - Quando ganhei a aposentadoria fiquei sem

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saber o que fazer com o resto da minha vida. - A lei da aposentadoria é humana, e assim falha; só a Lei de Deus é Efetiva e Perfeita. - Os homens ao fazer suas leis pretendem estar expressando no microcosmo humano a ordem do macrocosmo. - Nos humanos, todo segredo escrito é para ser descoberto. Por analogia, todas as leis cuidam, não para serem cumpridas mas, especialmente, para não serem descumpridas; porque no Brasil há as leis que pegam e leis que não pegam.

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- Quem faz sinal para tudo, não faz sinal para nada. - O Senhor acredita que o nada existe? - O nada é uma abstração desde que não corresponda ao zero. - E por que o zero que é nenhum não deva corresponder ao nada que também é nenhum? - Engels: porque o zero é muito rico, mais rico em conteúdo do que qualquer outro número. -? - Ponha-se seis zeros ao lado direito da unidade e esta se 51


transforma em um milhão de unidades. - Essa é uma verdade dos homens, mas não é a Verdade do Deus Pai. - O zero anula qualquer outro número pelo qual seja multiplicado. - Quando eu era gente, nunca fui bom em tabuada... - Quem foi bom em tabuada foi Albert Einstein.

Já se fazia tarde. A arcanja começava a bocejar. Os lindos olhos cor de avelã aos poucos perdiam o brilho. O franzido

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na testa indicava cansaço. Perguntei: - Aqui na casa do senhor deus não se descansa? - Só aqui na Casa de Deus é que experimentamos o Descanso Profundo e Eterno! Boa-noite, Senhor! - Até amanhã.

Na manhã seguinte procuroume a Dra. Quê Escopeta, brasileira de origem italiana. E, com a empáfia comum a todos os médicos, que se julgam senhores da vida e da morte, foi logo comandando: - Preciso ver sua identidade. 53


- Identidade não se vê, percebe-se pelo conjunto de características que distinguem uma pessoa. - Refiro-me a sua cédula de identidade. Por favor! - Não tenho documento algum. Perdi todos os papéis que se encontravam no meu embornal. - O Senhor é um cavalgante? - Sou caminhante. E não me posso chamar nem de Pacífico nem de Jubiloso, talvez Desgraçado, como na “Walquíria”, de Wagner. O sofrimento dá voltas em torno de mim como um caracol em sua casa. 54


- Já conversei com a Arcanja Recepcionista, a qual me informou que o Senhor é metido a gênio. - Gênio é um tipo que faz acontecer coisas sem ter ideia de que elas vão acontecer... - O Senhor parece-me conturbado, um tanto louco! - Acertou na mosca. Meu desejo de vencer a morte que se avizinha tem-me transtornado. - Como médica, posso garantir-lhe que é impossível desviar a finalidade da morte.

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- Mas num mundo que é governado à toa pode-se contar com coincidências. - Devemos sempre desconfiar das coincidências. - Curei-me de um câncer de próstata em razão de coincidências. - Um câncer de próstata não é resultado de coincidências. - Mas a cura é. - A cura, qualquer cura, é resultado de estudos e pesquisas e tratamento. - A minha experiência de paciente ensinou-me que a cura do câncer de próstata é

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resultado direto da obstinação do canceroso. - E como se manifestou esse seu estado de obstinação? - Pela teimosia. Sou teimoso tal um jumento chucro. - No mal de Parkinson a máquina humana trepida e para; no câncer são células que não param de crescer... - Obra de deus... - O Senhor Deus nada tem a ver com isso. São sempre as circunstâncias, subproduto do livre arbítrio. - De trás para frente: meu irmão morreu... de câncer de próstata. 57


- Sabia disso. O fato está nos nossos Santos Registros. - Ele era médico e pela lógica um médico que se tem dono da vida e da morte não devia morrer. - Ora, disparate! Se médico é dono da vida e da morte, como o Senhor diz, era de se esperar que devia viver para sempre! - A espera é feita mais de fantasia do que de realidade. - Não enrole, quais foram as “circunstâncias”? - A fundamental circunstância: à beira da morte meu irmão

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disse-me: você será o próximo. - O Senhor era mais velho do que ele? - Ele era mais velho do que eu dois anos. - Que idade ele tinha quando morreu? - Setenta e poucos. - Quantos anos o Senhor tem agora? - Mais de noventa! - Havia outros irmãos? - Mais novo do que eu, dois homens e uma mulher. Os homens já morreram, nenhum de câncer de próstata. 59


- O câncer prostático não é hereditário, a medicina constata apenas que numa família onde um membro foi portador de câncer de próstata, outros têm a probabilidade de sê-lo também. -Mas na Natureza os iguais tendem a se agrupar e a expelir os diferentes... - Que o Senhor quer dizer com isso? - Em geral são os pequenos detalhes que agem sobre a vida da gente. - Que pequenos detalhes?

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- Quando meu irmão médico, já moribundo, predisse meu câncer de próstata, só a partir daí foi que eu soube que havia próstata! - Sim. - Fui consulartar-me com um urologista. O toque indicou tumoração suspeita. Aí ele pediu biópsia. - A biópsia confirmou a existência da neoplasia maligna? - Não; deu negativa. O PSA é que registrou um íncide acima do normal.

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- Identificações táteis, visuais e indiciantes são pouco confiáveis. - No ano seguinte fiz novo toque retal e nova biópsia; o índice do PSA aumentara, mas a biópsia continuava a dar negativa. - Quando é que o Senhor conheceu que era portador de neoplasia prostática? - Três anos depois da morte de meu irmão médico. Foi necessária raspagem transuretal da próstata para a biópsia registrar o câncer. - É a isso que o Senhor chama de “circunstâncias”?

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- A potencialidade para a vida ou para morte está presente, com igual intensidade, em todas as pessoas; as pessoas é que não atentam para os pequenos detalhes. - E o Senhor acha que sua obstinação, ou teimosia como o senhor denomina, é um pequeno detalhe? - O hábito é a usina da mediocridade; mas obstinação é formação superior. - O Senhor se considera superior? - Obstinado. Sem coragem não se pode fazer nada. Aqueles que não têm coragem viram as costas à vida. Quando 63


eu acho que posso parar de procurar, é justamente quando começo a procurar. - E o que é que o Senhor está a procurar aqui na Casa do Senhor Deus? - Não foi num processo de busca que me deparei com este lugar parasidíaco; perdi-me na floresta, e ao subir numa pedra para visualizar a situação, escorreguei e caí; bati a cabeça e desfaleci. O corpo não mente nem engana: quando senti fome, aos trancos e barrancos vim ter aqui. - O Senhor já comeu alguma coisa?

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- Não, mas saciei-me de sabedoria. Para mim bastou. - O Senhor Deus costuma dizer: “Os seres humanos são um sintoma de busca obsessiva de alguém ou de algum lugar que os façam felizes.” - A esse “algum lugar” ou “esse alguém”, Freud chamou de NIRVANA. - Conheço essa especulação de Freud. Até indicou o útero materno como a “situação paradisíaca”. - A senhora já leu Freud!

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- Nunca fiz psicanálise, o Senhor Deus é meu Pastor, nada me faltará! - Fizemos 30 anos! - Fizemos quem? - Minha família. Minha mulher artista plástica e mãe, e nossos filhos. Trinta anos! - O Senhor fez trinta anos de psicanálise? - A família, se somadas todas as análises individuais. - Guardo curiosidade de saber como é uma sessão de psicanálise. - Compram-se cinquenta minutos do tempo do analista.

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- Análise é um comércio, que se vende e se compra? - Não é do gênero mercantil mas se não se compra não se tem. Não há análise gratuita. - O analista conversa, pergunta, faz exames, investiga, ausculta os pacientes? - O mais das vezes fica calado, e quando fala é para dizer: “Seu tempo terminou. Até a próxima sessão.” - E como se processa o tratamento médico? - Por via da atenção flutuante. - “Atenção flutuante”? Isso não é contraditório? 67


- Provocar com a mudez manifestações de crises de culpa. - Um tanto sádico... - Talvez não sejam crises. Crise não é periódica? O permanente não é função? - A ignorância é a mais perigosa das doenças. Mas continuando com o assunto anterior: como é que o Senhor enfrentou o câncer de próstata? - De frente. A pegar o touro pelo cifre. Com a firme convicção de que a vida é mais importante do que a morte. Um dia de vida vale toda uma eternidade duvidosa... 68


- Fez cirurgia? - Fiz radioterapia. - Não ficou com sequelas? - Fiz radioterapia tridimensional. A radiação dirigida para o tumor e não sobre o órgão que abriga o tumor. A destruir assim o tumor sem nenhum efeito secundário no órgão albergueiro. - Reconheço que é um avanço da medicina moderna, a busca da interioridade, do específico e não do geral. Aliás, as especialidades médicas de hoje brotaram dessa tendência.

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- Os médicos idosos são contra as especialidades porque aprenderam nas antigas Faculdades que os seres humanos são macrocosmos; enquanto os laboratórios de agora constatam que as doenças em geral são microcósmicas. - Foi um prazer conversar com o Senhor. Agora será a vez de o Senhor falar com o Arcanjo Encarregada do setor Histórico-social. - E se eu não quiser falar? - São apenas procedimentos de rotina.

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- Aqui também funcionam as normas da burra burocracia oficial do Banco do Brasil?

A Dra. Quê Escopeta virou-me as costas de maneira abrupta, autêntica médica que é, e dirigiu-se à mansão celestial. Alguns minutos depois, de lá saiu um senhor de meia-idade, gorducho, andar lento, cabisbaixo, vestido com sapato sem graxa nem meia, calça e paletó gastos, camisa de listas, gravata-borboleta e barba por fazer. - Sou o Arcanjo Encarregado do Setor Histórico-Social. - Que significa isso? 71


- Somos o Cadastro da Casa do Senhor Deus. - Não tenho bens imóveis, não sou sócio de nada, nem pertenço à empresa comercial alguma; nem tenho dinheiro em bancos nem também no bolso... - Mas o Senhor possui um passado, e se o tem, é senhor também de uma história. Queremos saber qual é a sua história. - Para quê? - Para o Livro que o Filho do Senhor Deus está a escrever faz dois mil anos.

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- “Nada corrompe um homem de modo tão profundo como escrever um livro.” - Quem disse essa barbaridade? - Nero Wolfe. - Quem é Nero Wolfe? - Um detetive privado. - Nero Wolfe? - O Gordo. - Aqui no meu “Lap Topper” não há registro de Nero Wolfe, só de Nero Claudius Caesar Augustus Germanicus, que nasceu em 15 de novembro do ano 37 dC e

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morreu em Roma no ano 68 dC. - O meu Nero é um personagem criado pelo escritor estadunidense Rex Stout. - O Nero Cláudio também foi um personagem, aliás, um estranho e complicado personagem da História. - É, nunca se sabe o que uma conversa vai decidir... até que se a tenha realizado. - Não percebi o que o Senhor quer dizer com isso. - Nem eu próprio.

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- Sejamos objetivos, seu nome, por favor; e data e local de nascimento. - “Sou uma Sombra! Venho de outras eras / do cosmopolitismo das moneras...” - É um nome comprido demais, em extensão só perde para o nome do primeiro Rei do Brasil: Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourdon. - É, só se consegue tirar alguma coisa do pensamento

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dos burocratas se se coloca outro no seu lugar. - E a data e local do seu nascimento? - O hábito é mesmo a usina da mediocridade! Rex Stout tinha razão. - Pelo que me informaram os Assessores Técnicos do Senhor Deus, o Senhor é brasileiro, nasceu no Brasil, no Nordeste brasileiro, no flagelado Ceará. Nosso GPS é Santo e Purificado! - Qual GPS? O Global Positioning System da espionagem estadunidense ou o tupiniquim Guia da Previdência Social, sistema de 76


arapongagem da Receita Federal do Brasil? -Nosso GPS é a Guardamoria do Paraiso Santificador, que informa ao Senhor Deus sobre todas as coisas, em especial os milagres dos candidatos a Santos. - Mas os santos não são escolhidos pelo papa? - O Papa é o Chefe da Igreja de Deus, é seu Representante na Terra. - Houve uma papisa... - Isso é lenda. - Houve dois papas... - Calúnia!

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- “Houve reis e santos analfabetos, como houve nações ágrafas”. - Isso é charada? - Antônio Houaiss em uma conferência durante um encontro de escritores em Brasília. - Tenho muito que fazer, estou com a mesa abarrotada de papéis. Vamos logo: data e local de nascimento? - Escreva aí: trinta e um de fevereiro. - Pelo Calendário Gregoriano adotado em 1582 pelo Santo Papa Gregório XIII, não existe a possibilidade de

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alguém ter nascido em trinta e um de fevereiro. O Calendário Juliano estava em atraso de quase uma semana em relação ao calendário solar, por isso... - Onde você aprendeu tudo isso? - Ora, na Internet! - Estimava fosse na santa biblioteca celestial. - A Guardamoria do Paraíso Santificador possui a mais completa biblioteca do Universo! - Maior do que a da santa sé, que já é enorme?

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- A Biblioteca da Santa Sé foi criada com as sobras dos livros e documentos que guardamos na Guardamoria do Paraiso Santificador. - Estimava tivesse sido com os butins tomados dos hereges, pela santa iquisição. - Data de nascimento!! - Pois. Se o papa gregório viuse obrigado a tirar três dias do mês de fevereiro para consertar erro do seu coirmão juliano, também posso tirá-los do dia do meu nascimento. - Anotado: 28 de fevereiro. - Parece-me que tanto a mente humana quanto a não humana

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não passam de mera pilhéria. Engels disse: “o pensamento falso levado até a sua conclusão lógica, chega regularmente ao contrário do seu ponto de partida.” - Engels? Desconheço. - Friedrich Engels, alemão, escreveu um extraordinário livro: “Dialética da Natureza”, cujos direitos autorais deu-os a Karl Marx para ajudá-lo a manter-se e manter a sua família. - A Natureza é Obra de Deus! Está no Gênesis. - Obra de deus... Ora, a criação do mundo é obra do acaso! Consequência do Big Bang. 81


- O Senhor está a blasfemar! - Toda blasfêmia vista pelo retrovisor pode vir a se tornar lógica e coerente. - O Senhor é metido a engraçado... - Parece que estou é metido numa baita enrascada! - Então seja sensato e coerente e claro nas suas respostas. - Às vezes a diferença entre ser sensato ou ser tolo não depende da gente... - Depende de quê? - Nenhum homem com um pouco de juízo pode supor que

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as palavras de outro homem tenham, exatamente, o mesmo significado para ambos. - Já notei que o Senhor adora provérbios; já leu os de Salomão, filho de Davi, o rei de Israel? - Gosto do número 20, versículo 1º: “Grita na rua a sabedoria, nas praças levanta a sua voz; do alto dos muros clama, à entrada das portas e nas cidades profere as suas palavras.” - Estou a entender sua cavilação. Mas esse Santo Provérbio não justifica os movimentos de insubordinação e baderna

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recentemente acontecidos no Brasil. - O partido dos trabalhadores, quando não estava no poder, pregava: “O povo unido jamais será vencido!” - As coisas não são tão assustadoras quanto parecem, quando encaradas à luz dos ensinamentos do Senhor Deus. - Então responda-me com franqueza: a indicação do número 31 do versículo citado, dos provérbios: “Portanto comerão do fruto do seu procedimento...”, justifica as balas de borracha e as bombas de gás?

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- !?! - Porque não existe democracia do povo, pelo povo, e para o povo; todo o poder é grupal. Pelo menos assim nos ensina da História da Humanidade. O poder há sempre sido exercido por e para uma casta, desde Moisés. - Mas na Biblioteca da Guardamoria do Paraíso Santificador existem uns livros escritos por marxista que falam em classes. - Para efeito didático, esses escritos dividiram a humanidade em classes. - Então na realidade não há classes? 85


- Não. As classes gerais especificadas por Karl Marx, operários, camponeses, burguesia e capitalistas, foram para efeito metodológico, a fim de comportar o livro que Marx estava a escrever, “O Capital”. - O capital do Senhor Deus são as Rezas e Orações. - Até a se tornarem o ópio do povo. - Aqui na Casa do Senhor dividimos a Humanidade em Crentes e ímpios. - As crenças são resultantes da função precípua do hemisfério esquerdo do cérebro humano.

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- E o livre arbítrio não é uma Dádiva Divina? - O livre arbítrio no sentido de liberdade não existe. Porque os humanos somos sempre aprisionados as nossas lembranças, e em função delas, agimos. - Lembranças são recordações ou memórias? - Registros mnemônicos. Quando duas pessoas estão a conversar, uma e outra nutrem expectativas de respostas correspondentes as suas necessidades. - Não comprendi.

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- Não há duas pessoas no mundo cujos interesses sejam idênticos. - Por quê? - Porque é difícil para cinco pessoas viverem sob o mesmo teto durante três dias sem terem arranhado a pele dos seus egos. - O Senhor pensa assim? - Meu escritor predileto, Rex Stout. - Os anteriores Irmãos em Deus que lhe inquiriram... - E eu estou a ser inquirido? - Ninguém adentra a Casa do Senhor Deus sem que

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saibamos e avaliemos sua história. - Porventura foi avaliado aquele ladrão crucificado ao lado do cristo? - Deus e seu Filho, o Senhor Jesus, são Oniscientes. Leram no coração do ladrão. - Quer dizer que também sabem tudo sobre mim? - Sabem. - Então, e por que estou a ser perguntado? - Rotina. - Rex Stout disse que a curiosidade é uma forma de

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atração mas eu acho que é de atracação. - O que o Senhor quer dizer com essa metáfora, “atracação”? É o ato de encostar embarcações aos cais? - Chegou a vez de eu dizer: Santa Ingenuidade! Estou a me referir ao ato de aprisionar, prender, essas coisas. - Aprisionar ou prender o quê ou a quem? - A mim. - Mas o que queremos aqui na Casa do Senhor Deus é a sua Salvação. - E eu estou a correr perigos? 90


- Todos os homens que não creem em Deus Todo Poderoso, correm perigo. - Quais perigos? - De ir para o Inferno. - Mas eu já moro no inferno! - Nossa eficiente Guardamoria do Paraiso Santificador diz que o Senhor reside no Brasil. - Você conhece o Brasil? - Só por meio dos nossos Satélites. - E também por espiões de batina. - Na Casa do Senhor Deus não temos espiões, não 91


concorremos com os Estados Unidos. - E a universal estrutura da igreja católica, é o quê? - São Agentes para a Salvação de almas, não espiões. - E o exército da salvação? - Essa organização não pertence ao Reino do Senhor Deus. - Mas arranca dinheiro dos trouxas em nome de deus. - Num mundo de causa e efeito todas as coincidências são suspeitas. - Essa frase era minha, só estava esperando uma deixa.

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- Essa frase é de Rex Stout. - Mas Rex Stout é o meu autor predileto e não o seu. - Na verdade nunca o li; dele sei e do seu pensar pelos pareceres da Guardamoria do Paraiso Santificador. - Aqui também fazem-se pareceres? - Resumos, sínteses, apanhados dos jornais da Terra arquivados na GPS. - Se na biblioteca do GPS daqui existem romances policiais, já começo a gostar do GPS.

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- Sabemos que o Senhor é também escritor de romances policiais. - Apenas escrevi uns três... - Editou-os? - Por conta própria, um! E nesse criei um detetive, Arsênio Lobato. - Alguma influência do Arsene Lupin do escritor francês Maurice Leblanc? - Meu detetive não é ladrão, é mulherengo. - Lupin, no livro “A agulha oca”, decifra o enígma desta frase: “Retirada do volume PT Camaradas partiram com ele e aguardarão instruções até 94


oito horas manhã PT Tudo bem PT”. - Pelo visto você leu o livro. - E o Senhor foi capaz de decifrar o mistério contido nesse enigma? - Muito fácil. - Muito fácil por quê? - Por via do efeito burrice; quando o PT entra num negócio escuso deixa sempre o rabo do lado de fora. - !?! - Pelo seu sorriso à moda “Madona”, já vi que entendeu. - O Senhor criou um só detetive? 95


- Criei dois; há também o Comissário Marximiano Engels de Jesus. - Que nome esdrúxulo! - Em razão de o método de investigação do Comissário seguir a dialética dos elos essenciais dos acontecimentos. - Que significa isso? - Promete desculpar-me se me alongar na explicação? É que envolve conceitos filosóficos. - Que conceitos? - A compreensão do mundo. Seu desenvolvimento como diminuição e aumento (ou seja, evolução) ou como

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unidade de contrários (ou seja, revolução). - Que isso quer dizer? - Como diminuição e aumento representa o evolucionismo vulgar, e as mudanças são quantitativas, de aumento e diminuição. - E da maneira dialéticamaterialista, como ocorre o desenvolvimento? - Qualitativamente, como resultado das contradições internas de cada fenômeno; tais contradições, uma vez resolvidas por via de processos revolucionários, produzem saltos em qualidade.

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- Muito palavrório. - Na sua função de descobridor das causas das ocorrências policiais, meu comissário Marximiano não perdia tempo com os fatos exteriores das ocorrências policiais – o quê? onde? como? quando? – mas sim com o interior de cada ocorrência, em especial na busca do elo essencial. - Lá vem mais palavrório... - Pensar é função superior das pessoas capazes; constatar, todos constatamos. - Está a me chamar de vulgar, eu, Provedor Celestial do Senhor Deus Criador de Todas as Coisas? 98


- Estou a informar sobre a maneira de como o meu comissário Marximiano resolvia seus casos policiais. - E ele os solucionava? - No caso que meu livro descreve, para o comissário Marximiano o elo essencial residia no “perfume de rosa” que ele sentiu no interior do carro de Mônica Lima e Silva, que capotou, matando-a. - Como fez tal dedução? - Esse intenso “perfume de rosa” deu ao comissário a certeza de que Mônica era uma mulher româtica. - Sim. E daí?

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- Os româticos vivem de fantasias e ilusões; destarte, Mônica jamais pensaria em atentar contra a própria vida, um gesto destituído de qualquer sublimidade. O desatre, portanto, não deveria ser um desastre comum, talvez uma ocorrência preparada... para parecer desastre. - Ja começo a entender: alguém preparou o carro da Senhora Mônica para ocorrer um acidente, é isso? - O começo da solução: se existia um “alguém”, quem era esse ou essa? - Estou a entender. Daí a importância de examinarem-

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se os aspectos interiores dos casos e não apenas responder o quê? onde? quando? como? - E o “perfume de rosa” constituia-se em elo essencial. - Romântica e ingênua, de alguma maneira a Senhora Mônica teria deixado o “leitmotiv”. Mas de que maneira? - Pela mais comum das maneiras, uma carta. - Carta? - Carta é a mais comum das intimidades dos ingênuos. - Mas a quem?

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- Na psicologia de Mônica, ao marido por quem era obcecada. - E o elo essencial para encontrar tal suposta carta ao marido era... - O “perfume de rosa”. - Por quê? - Em que comum lugar os românticos poem cartas “secretas” para serem obrigatória e posteriormente descobertas? - Todos os românticos agem assim? - Os suicidas românticos, para vingarem-se entre aspas dos objetos de seu afeto doentio, 102


ao cometerem suicídio “acreditam” que vão produzir nesses objetos sentimentos de culpa. - Na suposição ou eperança de que poderá trazer o objeto do afeto de volta a si. - Isso. A morte material e própria nunca é pensada como morte real e sim como modo de barganha. - Daí a razão da existência de uma carta da Senhora Mônica. - Já está pensando dialeticamente. - E o elo essencial será um livro onde os românticos

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escondem as coisas destinadas a serem descobertas? - Exatamente. - E a inter-relação dessa conjectura com o “perfume de rosa”... - O livro “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco. - E lá estava a carta da Senhora Mônica ao marido, na biblioteca da casa! - Sim, no livro de Umberto Eco. - Os suicidas românticos são bem engenhosos.

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- Porque são instintivos e não racionais. E como instintivos aprendem que os únicos segredos em segurança são os não escritos; pois quando escritos são para serem descobertos. - As coisas nunca são assustadoras quanto parecem se vistas por dentro. - Outra deixa minha. - Desculpe. Prossigamos. - Levar adiante o quê? - A feitura de sua fé-de-ofício. - Meu prontuário?

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- Sim, seu prontuário; mas não no sentido que a polícia dá a esse documento. - Também aqui na casa do senhor deus tem polícia? - Se o ponto fraco dos humanos fosse somente a besteira, ninguém seria condenado às penas do Inferno! - Isso é do “Auto da Compadecida”, do Ariano Suassuna. Uma fala do João Grilo. - Sei que é. Mas esses seus “delírios” estão prenhes de frases tiradas de livros!

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- Mas eu avisei no começo: Relembranças dos muitos livros que li. - Quer dizer, plágios. - Plágio só se efetiva quanto o trecho é ipsis litteris. Aproveitar-se das suas ideias é tudo que os escritores desejam. Sinal de que foram lidos e apreciados. E nesse caso não acontece o sofisma da “intenção presumível”... - Li alhures que sem plateia, a entrada é apenas uma chegada; vimos isso no julgamento do “mensalão”. - E eu li em Mary Westmacott que “um cachorro possui

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extraordinária capacidade de levantar o ego” dos homens. -? - Porque “para o cachorro o dono é um deus idolatrado”! - ?? - E que “... o problema do segundo filho é que é sempre o anticlímax”! - ??? - Que em geral o leitor olha o começo do livro, percebe do que se trata, salta para o fim para conhecer o desfecho e volta para o meio para saber por quê.

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- Noto que o Senhor está sempre a fazer da vida pilhéria. - A vida é que não me leva a sério. - E observo também que o Senhor é simpatizante do partido dos trabalhadores... - De jeito nem maneira! Errou! O partido dos trabalhadores é o asilo dos espiroquetas salvados do derrotado partido comunista. - Do nosso Santo GPS recebi informações de que o Senhor escreveu um livro sobre sua experiência como militante comunista.

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- Escrevi, mas nunca publiquei. - Por que? - Não sei. O livro até que foi elogiado pelos que tiveram oportunidade de lê-lo. - Pela veracidade do relato? - Pela necessidade de se criticar o comunismo, a grande frustração de toda uma geração. Servi ao partido durante mais de quinze anos. Por todo esse longo tempo nunca me deram o direito, nem a oportunidade, para analisar e criticar.

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- Mas o partido se proclamava lutar contra a ditadura e pela democracia. - A fotografia da chamada “vanguarda brasileira”, o escritor Osvaldo Peralva a divulgou no livro “O Retrato”. - Temo-lo na Santa Biblioteca da Guardamoria do Paraíso Santificador. - Peralva, e outros tantos ingênuos, éramos apenas auxiliares do comitê central. - Que era quem mandava... - Não. Quem mandava era a comissão executiva. - Então, decisões tomadas coletivamente. 111


- Não. Quem concebia as decisões era o secretário político do secretariado nacional composto de cinco camaradas pertencentes à comissão executiva. - Luis Carlos Prestes era o Secretário Político. - Na prática, era Diógenes Arruda, o “procurador” e “porta-voz” de Prestes... que estava escondido e ocupado na prazerosa tarefa de fazer filhos! - E vocês os demais dirigentes eram o quê? - Éramos paus-mandados, tínhamos que cumprir sem discutir, fazer sem perguntar, 112


porque a razão das coisas constituía privilégio do secretariado nacional. - Parecido com o que acontece aqui na Casa do Senhor Deus; só que aqui o Senhor Deus é Onissapiente, e representa a Verdade e a Vida. - Também diziam isso lá. - Quem figurava de “deus” no partido comunista? - Diógenes Arruda, vulgo Bigode. - Mas Luis Carlos Prestes era o secretário-geral. - Ele pensava que era, mas Arruda manipulava-o. A pretexto da segurança do 113


“cavaleiro da esperança”, Arruda mantinha-o em cativeiro numa fazenda nas confundas do interior do Brasil. Só Arruda sabia onde Prestes estava escondido e só Arruda comunicava-se com Prestes. - E os militantes não protestavam? - Militante, milita. Todas as coisas do mundo têm seus contrários e o contrário de herói é filho bastardo. Os militantes não passavam disso: éramos todos filhos bastardos. - Mas pelo que consta nos registros da Santa Biblioteca

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do Paraíso, tanto Arruda quanto Prestes foram expulsos... - É, foram expulsos do partido comunista, como traidores! - Quem então ficou a mandar? - O partido quebrou-se tal galho seco: sem seiva, e bichado. Os impulsos “mandonistas” de cada dirigente da executiva nacional levou-os a cada um fundar seu próprio partido comunista. - Isso lembra-me o sacerdote agostiniano Martin Lutero e a Reforma...

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- Mas na reforma protestante não surgiu nenhum Roberto Freire, surgiu? - A reforma protestante foi contra o vendedor de indulgências, Johann Tetzel, que “pregava” que os pecados podiam ser purgados por meio das indulgências que ele vendia... - A sujeira no comportamento humano é inerente à raça humana. - Só a Fé no Senhor Deus nos poderá salvar! - Na política partidária dos homens não se pode ter amigo com quem não se possa brigar,

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nem inimigo com quem não se possa fazer as pazes. - Quem disse isso? - Um destacado político cearense. Dizia também: antes da eleição voto em todos, no dia da eleição voto num só, mas depois da eleição digo que votei no que ganhou! - Pelo seu modo desabusado de criticar, o Senhor se considera superior! - Com um metro e cinquenta e oito de altura não posso ter a veleidade de querer ser superior a nada. - O Senhor me obriga a fazer uso de um lugar-comum: nos

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pequenos frascos é que estão os grandes perfumes. - Adágio popular já fora de moda. Quase tudo agora é miniatura. O nano é a medida elétrica do Século XXI, e dos futuros tempos. - Só o Senhor Deus nasceu Grande, é Grande e continuará Grande! - Amém. - O Senhor está a zombar de mim? - ...por outro lado, nano lembra-me mano; o mano médico, vinte anos antes de morrer de câncer de próstata escreveu um conto que ganhou

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o “Premio Jabuti” de Literatura, em o qual conto descreve com pormenores os padecimentos de um personagem também vítima mortal de câncer de próstata. Não é isso intrigante? - É premonição, um Dom que o Senhor Deus dá a alguns homens, por merecimento! - No caso do meu irmão parece castigo! - Por que castigo? - Porque meu irmão foi vítima de padecimentos mui semelhantes aos descritos por ele com ironia no conto premiado.

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-? - Tal qual; até a cena insignificante da sonda vesical para captar urina direto dos rins em virtude da obstrução dos ureteres. Como no conto, o coletor ficava amarrado ao pé dianteiro da cama, para não deixar o paciente ver a cor da urina. - Coincidências demais! -As cenas de morte de meu irmão e do personagem só são desconformes numa situação: sentindo-se no fim da vida o personagem sentia necessidade – talvez para não pensar no seu próximo e inevitável falecimento – de

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divertir-se com qualquer coisa, e na falta de algo risível, da sacada do apartamento onde residia, sorrindo contava os carros que cruzavam as duas pontes de Florianópolis e imaginava um estória engraçada para cada carro; enquanto meu irmão, que morava numa casa, jamais aceitou sair do seu escritório, que transformara em quarto. - Seu irmão era médico de que especialidade? - Ginecologista e Obstetra. E professor Universitário. Deputado estadual pelo PDT, nas horas vagas.

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- O Senhor se dava bem com seu irmão? - Eu o considerava meu irmão e o tratava com extrema fraternidade; mas ele era arredio e ácido comigo. Quando meus filhos criticavam-me por aceitar essa desigualdade de tratamento, eu respondia: sou irmão dele, ele é que não me tem como irmão; e isso é problema dele. - Como o seu ídolo Freud explica isso? - Como a psicanálise explica, não sei; eu compreendia e tomava como forma de rejeição. - Rejeição a quê e a quem? 122


- O inconsciente do filho desmamado capta o desmame como consequência da nova gestação em processo; e após o nascimento do irmão ou irmã transfere sentimentos de rejeição para a criança recémnascida que o substituiu nos generosos cuidados da mãe. - É o caso do Senhor e seu irmão médico? - Pode ter sido o caso da gratuita rejeição do meu irmão médico, para comigo. Ele nasceu em dezembro de 1921 e eu devo ter sido gerado nove meses depois, em setembro de 1922. De nove meses a um ano, e às vezes mais, era o

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tempo da amamentação naqueles recuados tempos. - Quando nada, uma explicação lógica. - Quando nada, uma racionalização. - Que o Senhor quer dizer com “racionalização”? - Conforme a definição do Dicionário Houaiss: “processo de caráter defensivo pelo qual um indivíduo apresenta uma explicação coerente ou moralmente aceitável para atos, ideias ou sentimentos cujos motivos verdadeiros não percebe”! - Interessante isso!

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- Também é assim aqui na casa do senhor seu deus? - Na Casa do Senhor Deus não há lugar para rejeição. Aqui tudo é Amor e Bondade! - Há um apartamento vago para mim? - É para avaliar e decidir do seu destino que os Santos Auxiliares do Senhor Deus estão a inquiri-lo. - E se eu levar pau nos exames? - Vai para o Purgatório, para purificar-se. A depender do resultado do seu julgamento poderá ou não viver a Vida Eterna.

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- Mais eu não quero viver a vida eternamente; desejo apenas completar o centenário que tanto pode ser de nascimento quanto de vida vivida. - Que significa isso de vida vivida; há vida não vivida? - Em termos psicanalíticos, considera-se vida a vida uterina. - E também segundo os Santos Princípios da Casa do Senhor Deus. - A proibição do papa ao aborto... - Com base no Sexto Mandamento do Senhor Deus,

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comunicado ao Povo de Deus pelo Santo Profeta Moisés: “Não matarás”. - Quer dizer que Moisés antecipou-se a Freud na compreensão do começo da vida? - Foi o Filho do Senhor Deus, Jesus Cristo, que estendeu o significado dos “Dez Mandamentos de Deus”. - Quando garoto frequentei por três anos a escola dominical presbiteriana; jovem, li a Bíblia ao lado da História do PCUS; adulto, rejeitei os absurdos da Bíblia; mas agora ancião consulto-a sempre que necessário. É o

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livro mais antigo da Humanidade; e o mais sábio, sabendo-se lê-lo. - O Senhor Jesus ao estender as sumárias Leis de Deus à intenção, completa em São Mateus 5:28 os Santos Mandamentos de Deus. - Quer dizer, o homem não é somente o que faz mas também a sua intenção de fazê-lo. Porque o pensamento é a matéria do cérebro e o ato, apenas realização. Isso é puro Freud! - E há também a tal “intenção presumida” de que o Senhor já nos falou.

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- Reinvenção do presidente da corte suprema acima da qual nada mais existe. - Ele pensa assim talvez por influência do anjo rebelde Lúcifer. - Li alhures que deus não tirou de Lúcifer seu poder angélico. - Óbvio. Da mesma forma como o Brasil não foi descoberto pelo português Pedro Álvares Cabral; o Senhor Deus já o tinha feito quando fez a Terra e o Céu. - Mas está a ser “reinventado” pelo sumo sacerdote das leis brasileiras cuja pose e aspiração aristocráticas levaram-no a pescar até nas 129


águas turvas da constituição fascista de Mussolini. - Os culpados no processo AP 470 são inocentes? - Os culpados do mensalão são culpados! - E por que o Senhor volta-se contra quem os condenou? - Volto-me contra quem condenou sem prova nos autos, com base na intenção presumida ou na abrangente dinâmica dos fatos. - No seu entender o Senhor José Dirceu não era o chefe? - Era o Chefe da Casa Civil, e como tal é difícil entender desconhecesse a manobra de 130


poder do partido dos trabalhadores em cuja agremiação política Zé Dirceu exercia efetiva liderança; mas conhecer não quer dizer fazer, praticar. - Saber de um erro e nada fazer para corrigi-lo é compactuar com o erro. - Moralmente, sim; mas não do ponto de vista das leis humanas, e, em especial, sem provas nos autos. - Todos os condenados foram julgados à revelia das provas dos autos? - Apenas o considerado “o Chefe”, Zé Dirceu. Por pinimba pessoal do presidente 131


do tribunal que se vangloriou ao proferir a sentença de condenação: “Nada existe acima de nós”. - O que levou o Presidente da Corte a atitudes tão evidentemente ácidas para com o Sr. José Dirceu? - Aqui se permite imaginar? - “Não farás para ti imagem...” - Não, não é isso. Refiro-me aos possíveis motivos da atitude hostil do presidente da corte em relação ao Zé Dirceu. - Na verdade, na verdade, na casa do Senhor Deus estamos a tentar entender esse

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comportamento do Sumo Sacerdote. - Pedindo perdão por usar o achismo, acho que por trás dessa animosidade há uma resposta. - Uma resposta de quem e a quê? - Zé Dirceu, oriundo do partidão, e nele educado, assimilou como nenhum outro o mandonismo vigente na executiva do partido comunista. - Mas, pelos nossos registros, o Sumo Sacerdote da Corte Suprema nunca foi militante do Partido Comunista.

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- Imagino animosidades surgidas devido a algum comentário pouco lisonjeiro do Zé Dirceu ao então candidato a ministro da suprema casa. - Isso no tempo da indicação do nome do Advogado para compor a mais alta Corte do País. - Por esse tempo a lista de candidatos a Ministro do Supremo deve ter passado pelo crivo do Zé Dirceu, que poderá ter opinado contra. - Só por isso? - E também é sabido que Zé Dirceu não é chegado à cor preta... só à vermelha. 134


- Muito possível um comentário desairoso do Sr. José Dirceu contra a cor do Advogado candidato. - Daí a vendeta. Não está no santo livro dos provérbios, mas sei de um adágio popular dos humanos que diz: “a vingança é um prato que se come frio”. - As palavras do Santo Livro dos Provérbios são palavras de Deus! - E o Zé Dirceu entrou numa “fria”! - Que é “entrar numa fria”? - O ministro presidente deulhe o troco com a subjetividade

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da “intenção presumida”, e carregou nas penas. Aliás, o ministro encarna bem a figura bíblica do “sumo sacerdote”. - O Filho de Deus, Jesus Cristo, não respondeu a Pilatos. Aceitou o julgamento e a condenação. - Entre nós humanos grande parte das pessoas sábias na lei dos homens considera o julgamento do mensalão um ato político e não de justiça. - Mas o Senhor acredita que houve de fato tentativa do Partido dos Trabalhadores de permanecer no poder pelo viés da compra de votos?

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- Houve. Da mesma forma como houve compra de votos de deputados e senadores para a manobra que tornou possível no Brasil a reeleição para presidente da república. - Aqui na Casa do Senhor Deus sabemos que manobra semelhante foi também perpetrada para transferir a capital do País para Brasília. - Em qualquer país dos humanos as leis são pensadas e feitas para favorecer castas. - Por isso as leis dos homens são falhas ou convenientes. Só as Leis de Deus são Absolutas porque Justas!

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- Ora, se a negação da vida está essencialmente contida na própria vida, os fatos da vida também. - Que o Senhor entende como “negação da vida”? - A morte. - Mas a morte pode vir a ser o começo da Vida Eterna. - A morte é sempre a decomposição de organismos vivos; de todos os organismos vivos, e não somente do homem. - Está escrito: “Porque tu és pó e ao pó hás de voltar" (Gênesis. 3:19). Entretanto,

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aos homens o Senhor Deus deu-lhes uma Alma Imortal. - Desde que se tome alma como energia, concordo. Desse ponto de vista, a energia dos mortos sobrevive. Ou transforma-se. - “No princípio era o Verbo...”, do Evangelho Segundo São João. - Aliás, o verbo está a ser muito maltratado por escribas oportunistas nestes tempos de supremacia do “marketing”. - Reconheço que a mágica da Internet universalizou e nivelou a mediocridade.

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- Que pariu escritores de sucesso tipo Paulo Coelho. - Seu irmão médico, escritor laureado com o “Prêmio Jabuti” de Literatura, escrevia bem? - Contava histórias muito bem, era engenhoso com o que narrava, mas escrevia um pobre Português. - Mas pertencia a Academia de Letras de Santa Catarina! - Zé Sarnei faz parte da academia brasileira de letras, entretanto... - Aqui na Casa do Senhor Deus, seus Porta-vozes Profetas e Evangelistas em

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que pese terem sido pessoas simples, inspirados pelo Espírito Santo conseguiram escrever corretos e bons Textos Sagrados. - A bíblia é mais um livro de poesia do que de prosa. - Qual o motivo de o Senhor classificar assim o Livro de Deus? - Pela liberdade literária dos livros da bíblia. Sem compromisso com a realidade objetiva. - De que modo? - Pelo uso excessivo de parábolas e metáforas e profecias.

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- Mas as Parábolas e Metáforas e Profecias foram escritas em Hebraico Bíblico... - Aí é que está: o hebraico bíblico é o dialeto do judaísmo. - É a Língua de Deus! - O hebraico bíblico difere do hebraico moderno tanto na gramática quanto no vocabulário; até na fonologia. Dialeto um tanto inventado, quiçá oportunista, que poucos dominavam, e assim não se pode saber se os livros escritos nesse hebraico foram bem escritos à luz da gramática hebraica moderna.

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- Para o Senhor Deus, escrever correto é escrever segundo a Sua Santa Verdade. - É o que faz o Paulo Coelho; a gramática coelhista não segue regras de vernáculo nenhum senão do dialeto de faturar grana. - Aqui na Santa Biblioteca do Paraíso temos alguns livros do Escritor Paulo Coelho. - O que não honra a santa biblioteca; o ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, andava com um livro do Paulo Coelho debaixo do sovaco... - Por que o Senhor não usa a palavra axila? 143


- Pelo mesmo motivo de um antigo deputado federal por Sobral usar fiofó em vez de ânus. - Que motivo? - Ignorância. Certa vez o tal deputado ao receber em casa uma visita solene, para se mostrar erudito e havendo esquecido o termo ânus, na presença da visita solene perguntou alto e bom som ao filho: - Menino, qual foi o apelido que o médico botou no fiofó de tua mãe? - E de que doença sofria a mãe? - Hemorroida.

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- É o mesmo deputado que se hospedava no Hotel Serrador, na Cinelândia? - É outro. Embora ambos de Sobral. - Igualmente ignorantes? - No Brasil, deputados e senadores são políticos, não precisam ser letrados. A estória do Hotel Serrador não envolve sinonímia, mas sim concordância verbal. Perguntado pelo viva-voz da recepção do Hotel em que estava hospedado quem era fulano de tal dos anzóis, gritou lá da sua poltrona no hall de entrada: É eu!

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- Aqui na Santa Biblioteca da Casa do Senhor temos todas as gramáticas de todas as línguas da Terra. - Até do cearês? - Do linguajar cearense temos dois dicionários e um vocabulário. - Conheço o “Orélio Cearense”, de Andréa Saraiva e o “Dicionário Cearense”, do Marcus Gadelha. - O “Vocabulário Popular Cearense”, do professor Raimundo Girão, é um livro de grande responsabilidade, criteriosa compilação feita com base em abundante leitura e muito estudo dos 146


bons mestres da língua portuguesa. - O Ceará tórrido e hostil e flagelado compensa-se ao tentar ser “um corpo com células de criatividade por todos os lados e um grupo de células de humor por todo o corpo”, como escreveu Cândido Neto na orelha do “Orélio”. - Os cearenses estão até a pleitear terem um Santo próprio ... - Sei disso. Meu santo padim pade ciço. Poderoso chefão! - Mas há muitas dúvidas na Santa Comissão de Querubins responsável pela apuração da 147


conduta e dos milagres necessários à Santa Beatificação. Dúvidas sobre certos atos praticados ou consentidos pelo referido Padre. - Em Jaguaruana, minha terra natal, propala-se à boca pequena a respeito de um pacto do padim ciço com Lampião. - A Santa Comissão de Querubins jamais apurou a veracidade de tal acusação. Ao contrário, apurou que o Padre Cícero Romão Batista, em vez de armas e munições deu Santos Rosários a Lampião e seus asseclas, advertindo-os de que só 148


utilizassem os Santos Rosários depois de largarem o cangaço. - Mas Lampião foi promovido a capitão pelo governo! - Foi. Mas não pela deputado Floro Bartolomeu nem por influência do Padre Cícero e sim pelas mãos do funcionário público Pedro de Albuquerque Uchoa, integrante do batalhão patriótico criado pelo governo federal para combater a Coluna Prestes. A Coluna Prestes foi um brilhante feito estratégico e tático!

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- A coluna Prestes foi a primeira grande ilusão e erro de Luis Carlos Prestes. - Houve outras ilusões e erros? - A quartelada de 1935. Que representou três grandes mentiras e nenhuma verdade. - Aqui na Casa do Senhor Deus estamos interessados em compreender razões humanas. - As três mentiras: primeira, Antônio Maciel Bonfim, nome de guerra Miranda, era secretário geral do PCB no tempo da quartelada de 1935. Nessa qualidade, inventou e enviou informações para o 150


Komintern (Terceira Internacional) sobre a situação pré-revolucionária no Brasil de 1935. Louvado nessa invencionice de Miranda, o Komintern despachou Prestes, que estava em Moscou, de volta ao Brasil para liderar o partido e assumir o comando da revolução socialista. - E as outras duas mentiras? - Que o movimento de massa da pequena-burguesia denominado Aliança Nacional Libertadora não estava, como informara Miranda à Moscou, a ser dirigido pelo partido comunista; era um movimento popular capitaneado pelos remanescentes do tenentismo 151


da Revolta dos 18 do Forte de Copacabana (1922), da Comuna de Manaus e Coluna Prestes, ambas revoltas de 1924. - E a terceira mentira? - Antônio Maciel Bonfim, vulgo Miranda, que se tinha secretário geral do PCB, não o era, e talvez nunca o tenha sido. Luis Carlos Prestes de há muito já fora cooptado pelo Komintern para assumir o cargo de secretário geral, e foi nessa condição que Prestes, desprezando e isolando Miranda e seu grupelho, assumiu a direção do partido e o comando da quartelada de 1935. 152


- Mas isso não é uma mentira, é um fato histórico. - A grande e preocupante enganação é o fato de o Prestes ter sido nomeado, por Moscou, chefe de um partido da classe operária sem nunca ter sido operário e nem ao menos militante de qualquer outro partido operário. - Atitude de menoscabo para com os comunistas brasileiros! - E evidência do “dedo de Moscou”. - Vladimir Lenin, Mao Tsetung, Ho Chi Minh e outros dirigentes de revoluções socialistas vitoriosas também 153


não eram operários... Descendiam da pequenaburguesia. - Mas todos eles militaram por muito tempo nos partidos comunistas de seus países, e foram escolhidos chefes pelos comunistas de seus países; o vietnamita Ho Chi Ming, por exemplo, foi um dos fundadores do Partido Comunista Francês. - E a única verdade? - A única verdade é que o materialismo-dialético de Luis Carlos Prestes não passava de metafísica-kantiana. A grande paixão de Prestes sempre foi a matemática; Prestes

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acreditava que o número é real tal como existe em si mesmo. Tanto que na prisão da Rua Frei Caneca, onde passou mais de dez anos numa cela isolada, estava a escrever um compêndio... de matemática! - Só por isso? - No fundo, todas as atitudes de Prestes à frente do PCB possuem caráter messiânico, de salvador do Brasil; para Prestes quem errava era o partido e não ele. Inconscientemente se julgava um messias... - Aqui na Casa do Senhor Deus nós sabemos que é fácil falar na terceira pessoa. E

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quanto à atuação do Senhor no Partido Comunista? - Sempre fui sub, do quarto escalão. - Que isso significa na prática? - Posso pedir um tempo? - Que é pedir um tempo? - Um interregno, uma pausa, descanso. - O Senhor está a se sentir cansado? - Ao contrário, receio que possa estar a cansar... - Os Santos Arcanjos nunca cansam, estamos acostumados, a Humanidade 156


é complexa demais, e problemática. Está sempre a carecer dos cuidados dos Eleitos do Senhor Deus. - Somos um saco, né?

O burocrata mor, ou seja, o Arcanjo Encarregado do Setor Histórico-Social da Casa de Deus que se sentara a meu lado numa cadeira especial de alumínio, que abria e fechava sob pressão, e a trouxera consigo debaixo do braço – lembrei-me imediatamente do genial e esquisito pianista Glenn Gould, o qual sempre portava consigo, para os concertos que dava, cadeira de

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modelo igual –, o gentil e paciente Arcanjo levantou-se, fechou a cadeira, tomou de sua pasta de executivo, cumprimentou-me com vigoroso aperto de mão e dirigiu-se à sede do palácio celestial.

E desse palácio surgiu outro Arcanjo. Dirigiu-se a mim. Esperei. Anunciou-se: - Sou o Arcanjo do Senhor Deus Encarregado dos Assuntos Sindicais. - Até aqui?!? - Até aqui o quê?

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- Mas você não pertence ao partido dos trabalhadores, pertence? - Não entendo o que o Senhor quer significar com partido dos trabalhadores. - Nem eu. Trabalhador é quem trabalha, é parte da relação de produção, é a parte explorada que ganha enquanto a parte que explora é a que paga. - O Senhor não está a trocar os termos? - Talvez. Porque a mais-valia é o tanto da exploração, mas valia mais que a exploração fosse maior a fim de os explorados ganharem mais...

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- Muito confuso! - É confuso, sim. Vou tentar explicar: para produzir dada mercadoria há que se ter meios de produção ou ferramentas de trabalho. Porém tais meios eles por si só não produzem mercadorias nem riquezas, necessitam de alguém que os manipule; a esse alguém chama-se de trabalhadores ou força de trabalho. Essa operação custa dinheiro, e então surge necessariamente o capitalista, que é aquele que tem o dinheiro e paga, mas não faz parte da relação de produção... - Aqui na Casa do Senhor Deus não há dinheiro e nem 160


força de trabalho; todos temos tarefas e funções. E o Senhor Deus é nosso Pastor, por isso nada nos falta! - Mas lá de onde vim não é assim. Muitos trabalham para poucos, os poucos ganham muito e os muitos que trabalham ganham pouco. - Mas isso é injusto! - E perverso. - Quem criou esse jogo injusto de relacionamento? - Quem criou todas as coisas dos céus e da terra? - O Senhor Deus é o Criador dos céus e da terra. Está escrito no Livro Santo do 161


Senhor, no Segundo Capítulo do Primeiro Livro de Moisés, Versículo quatro. - Portanto... - Com a desobediência de Adão e Eva o Senhor Deus criou o trabalho: “No suor do rosto comerás o teu pão.” - Até que enfim descobri quem inventou o trabalho... - Mas quem se apropriou da força do trabalho foram os bolchevistas... - Concordo inteiramente. Para os bolchevistas o trabalho é um dever social, quem não trabalha não come, estava no

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preâmbulo da constituição da união soviética. - Isso devido à desobediência... - Mas só a partir dessa desobediência pode o homem ser fecundo e crescer e multiplicar-se, como, aliás, tinha ordenado Deus em Gênesis 1:21 antes da desobediência... - O Senhor está a fazer confusão... talvez com algum propósito. - Com o propósito de compreender e desfazer a confusão que não foi criada por mim.

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- Já me haviam prevenido de que o Senhor é comunista, ateu. - E à toa. - É à-toa, como consta do “Novo Manual de Português”, de Celso Luft, ou à toa? - Agora, depois do novo acordo ortográfico, de janeiro de 2009, o hífen foi eliminado, a forma correta é, pois, à toa. - Estar à toa significa estar a esmo, sem fazer nada, não é? - Correto. Dei-lhe o significado de estar a vagabundar. - O Senhor não tem ocupação?

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- No Brasil, depois dos noventa anos de vida nossa única pré ocupação de macróbios é nos manter vivos! - Mas as falas de todos os governos brasileiros que temos arquivadas no Arquivo Celestial do Senhor Deus dizem da preocupação das Autoridades com os anciãos. - Mentira deslavada! - Essa mentira deslavada ocorre em todos os países do mundo? - Não. Só no Brasil, porque só no Brasil a velhice é uma praga que precisa ser combatida e eliminada.

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- Por que uma praga? - Pela paga... - Isso é um trocadilho? - É uma aliteração. - Repito a pergunta: por que no Brasil a velhice tem que ser eliminada? - Porque alegam que custamos muito aos planos de saúde, pesamos demais no orçamento da união e dos estados, e, quando mais precisamos nos é negada assistência médica de qualidade. Aliás, os próprios médicos preferem nos ver longe de seus consultórios. - Observo que o Senhor reclama demais. Não foi por 166


acaso que me preveniram que o Senhor é comunista. - Não sou, fui; nem para ser comunista sirvo mais. - O Senhor é comunista desde jovem? - Desde quando tive conhecimento de que no regime comunista cada pessoa seria obrigada a produzir riqueza de acordo com sua natural capacidade, mas só receberia benefício na conformidade de suas necessidades. - Se é assim, então aqui na Casa do Senhor Deus temos o comunismo!

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- Se é assim, então aqui é o único lugar do universo onde se pratica o comunismo. - A União Soviética não era um país comunista? - Não. A URSS foi um país socialista. - E qual é a diferença entre comunismo e socialismo? - No socialismo, cada pessoa é obrigada a produzir riqueza de acordo com sua natural capacidade, mas recebe remuneração correspondente a essa capacidade. - Não percebo a diferença. - Nota-se que você é sindicalista. No Brasil o 168


sindicato é uma organização dirigida por uma pessoa “esperta” – o presidente – que, em geral, perpetua-se no cargo; vive às custas dos trabalhadores associados e do imposto sindical obrigatório. Os marxistas chamamos-lhes a eles de “lúmpemproletários”. - As pessoas associadas ao sindicato pagam imposto para ser do sindicato? - E não só o imposto sindical senão também uma mensalidade que é descontada na magra folha de pagamento mensal do trabalhador; e, nos acordos trabalhistas, generosa percentagem é ainda

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malandramente incluída a favor dos sindicatos. - Para que esses pagamentos? - Para que os presidentes e diretores dos sindicatos tenham automotores de luxo, viagem, às vezes com a família, a pretexto de congressos de trabalhadores; com todas as despesas pagas e... - Ainda tem mais? - ... e, sem despender um centavo, sejam candidatos a cargos eletivos nas casas legislativas! - O Senhor é trotskista? - Sou marxista anarquista.

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- Anarquista é o mesmo que ser anarquizado? - Anarquista, segundo a definição do dicionário Houaiss, é quem “sustenta a ideia de que a sociedade existe de forma independente e antagônica ao poder exercido pelo Estado”. - E o Estado o que é? - No Brasil o estado é uma engenhosa e complexa e multifacetada engrenagem para cobrar impostos. - Só para isso? - No Brasil, maiormente sim. - Não serve para mais nada?

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- Para enriquecer a casta que estiver no poder. - Casta? - De caráter hereditário. - Determinado por genes? - Transmitido por sucessão. O presidente, no fim do seu mandato, escolhe seu sucessor o qual, no fim do seu período de governo, entrega de volta a presidência ao anterior presidente, até ambos completarem curtos períodos de vinte anos. Getúlio, militares, petistas... - Petistas é o quê? - Rescaldo do finado partido comunista. 172


- Esse comunismo parece onipresente. - Quem é onipresente é a miséria! - Desde quando o Senhor é comunista? - Para usar uma metáfora psicanalista, desde o útero de minha mãe. Mundanamente, desde a década 40 do Século passado. Entrei no PCB em 1946. - Foi compelido, catequizado ou cooptado? - Fui por vontade própria. Na rua em que eu morava, defronte de minha casa havia uma célula do partido

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comunista então na legalidade. Faz muito tempo, mas ainda me recordo do nome: Célula 25 de Março. Por mera curiosidade atravessei a rua e fui assistir a uma reunião. - Impressionou-se com o que ouviu! - Impressionei-me com o baixo nível teórico dos comunistas. Então eu já lera alguma coisa de Lênin, lera o “Manifesto Comunista” de Marx e a “Dialética da Natureza”, de Engels. - Os membros da célula não discutiam os princípios marxistas?

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- Os membros daquela célula o máximo que sabiam era o nome de Stalin; ignoravam até o seu prenome, Iosif... - Discutiam então o quê? - Nada. O secretário político da célula lia um papel em que estavam arroladas tarefas, e distribui-as entre os participantes. - Tarefas de educação política? - Tarefas de passar rifas, vender os jornais do partido, fazer pichação em muros, comparecer às manifestações públicas programadas pelo comitê estadual ou municipal ou distrital do partido; essas 175


coisas práticas do cotidiano partidário. - O Senhor aceitou alguma tarefa? - Foi aí que começou tudo: no fim da reunião, a pessoa que a presidira dirigiu-se a mim, agradeceu a minha presença e perguntou se eu gostaria de colaborar. - E o Senhor? - Respondi: por que devo colaborar? Com o quê? Para que fim? Qual era o objetivo político das tarefas? Por exemplo: a pichação da palavra de ordem “Abaixo a ditadura de Dutra”. Ora, o presidente Eurico Gaspar 176


Dutra tinha sido eleito em escrutínio legal e legítimo e democrático, eleição realizada sob a supervisão do tribunal eleitoral. - Que respondeu o presidente? - O secretário político argumentou que o General Dutra era remanescente da ditadura de Vargas, fora seu Ministro da Guerra. Respondi: mas o partido comunista participou da campanha “Queremos Getúlio”. - Verdade histórica. - Perguntei: os senhores aqui não discutem e analisam as tarefas que recebem da direção do partido? O secretário 177


político respondeu: discutimos o modo de como realizar as tarefas. A razão política das tarefas compete à direção do partido. - Aqui na Casa do Senhor Deus também não discutimos as missões que recebemos porque o nosso Deus e Senhor é onisciente e, assim, infalível. Não erra nunca! - Os comunistas também pensavam assim com relação ao “pai” Stalin, a quem consideravam sábio e infalível. Houve até aquele célebre telegrama de Prestes a Stalin, chamando-o de Guia e Pai dos comunistas do mundo inteiro.

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- No caso desse telegrama de Prestes, era culto à personalidade de Stalin, bajulação; no nosso caso em relação a Deus é Devoção, Fé, Crença. - Aí eu respondi ao secretário político da célula: uma palavra de ordem é uma conclamação, e uma conclamação só pode ser estabelecida se corresponder à realidade, se mantiver relação com as necessidades de desenvolvimento de uma dada sociedade, se estiver em consonância com as condições objetivas existentes no momento, e se puder ser compreendida pela massa a

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quem é dirigida; senão vira palavrório. - Em um livro escrito por um comunista li: “A prática sem a teoria é cega; a teoria sem a prática é inoperante.” - Então você leu a “História do PCUS” que, enganosamente, se propalou ser da lavra de Joseph Stalin? - E não foi? - Nunca foi. Stalin apropriouse de um manuscrito da “História da Revolução”, produzido por Lev Kamenev, Nikolai Bukharin e Grigori Zinoviev. - E assumiu a autoria?

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- A bem da verdade, não assumiu, mas depois que expulsou do partido esses três companheiros, e mandou assassiná-los, deixou que os puxa-sacos atribuísse a ele a autoria da “História do PCUS”. E é nessa “História”, onde há um capítulo sobre teoria e prática, que está a frase citada por você. - Vamos continuar... - Sim. O secretário político saiu com a generalidade de que no Brasil a luta política era pela completação da revolução democrático-burguesa, para por fim aos resíduos feudais ainda existentes.

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- Compreensão mecanicista baseada na teoria do materialismo histórico a respeito do determinismo na sucessão das etapas de desenvolvimento das sociedades. - Teoria que Lênin houvera espatifado com a tomada do poder num país de maioria camponesa, e com imensos restos feudais; a contrariar também, e destarte, a Segunda Internacional que sustentava que a tomado do poder só poderia acontecer nos países da Europa aonde se haviam completado a revolução democrático-burguesa.

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- A historia do desenvolvimento social é sempre um vir a ser. - !?! - Seu espanto talvez decorra de o Senhor julgar que os cristão são metafísicos. Do ponto de vista do desenvolvimento da História, somos evolucionistas. O Livro de Deus mostra que os cristãos são evolucionistas. - Oportunistas. A trajetória da igreja romana, de adaptação dos seus rígidos dogmas aos hábitos e estágios de desenvolvimento das várias sociedades, comprova a

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assertiva. Mas o mesmo já não ocorre com o judaísmo... - O que o Senhor quer significar como “judaísmo”? - Civilização e cultura judaicas; as crenças religiosas, dogmas e rituais praticados no Estado de Israel de hoje, dogmas e rituais que diferem do islamismo dos povos do Oriente Médio e do catolicismo da América Latina. - O Senhor Deus e seu Único Filho estão muito preocupados com a situação no Oriente Médio. - Que situação?

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- De guerras e destruição. As terras por onde Jesus Cristo passou e as cidades em que viveu e pregou a Palavra de Deus estão sendo destruídas... em nome do próprio Senhor Deus! - A bestialidade humana está a ir além da crueldade dos primatas, dos quais descendemos. - O homem é criação do Senhor Deus! - A psicanálise de Freud fala dos instintos de vida e de morte comuns a homens e animais selváticos...

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- O homem não descende dos animais selváticos, é criação de Deus! - Você refere-se à criação do mundo segundo o absurdo do Gênesis? - Sim. Mas absurdo, não! - Meu professor na Escola Dominical da Igreja Presbiteriana de Fortaleza, diante do nosso espanto com a sumarização quase mágica do Gênesis sobre a formação do Universo... - Quando a Palavra de Deus em Gênesis diz que “em princípio criou Deus os céus e a terra” está a querer significar que criou um corpo 186


celeste, o planeta Terra. Está no versículo 10 do primeiro capítulo do Livro Gênesis. - ... na verdade meu professor ensinava que a palavra usada nas sagradas escrituras foi “Bereshit” e não “Bareshit”; “Bereshit” quer significar “Em princípio”, enquanto “Bareshit” significa “No princípio”. - E seu professor está certo. Aprendemos na Escola Superior de Teologia da Casa do Senhor Deus que a preposição usada no Livro do Gênesis foi “bet” (Em) e não “bat” (No).

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- Meu professor ia mais longe: a palavra “Bereshit” em hebraico é formada pelo verbo “Reshit” com a preposição “Bet”; esta preposição possui o significado de “criar do nada”. Ou seja: “Em princípio... - Mais uma vez correto. Tem sentido lato de “mais ou menos”, “ pode ter sido assim”. - O professor dizia que a preocupação do Livro do Gênesis fora moral, e não cosmogônica. - Concordo. O versículo 1 do Capítulo 1 da Palavra de Deus deve ser entendido como

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“pode ter sido assim” ou “mais ou menos assim”. - Até que enfim concordamos em alguma coisa. - Esse texto não é o mais antigo das Sagradas Escrituras, é até o mais recente, tem cerca de 2700 anos. Nesse tempo, se algum autor escrevia “Em princípio” estava a querer chamar a atenção para o uso de signos, do simbólico (“Era uma vez...), do que para o texto como narração. - Tanto que a descrição no Gênesis mais parece uma canção; tem até refrão: “Foi a

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tarde e a manhã do primeiro dia.”! - “Foi a tarde e a manhã do segundo dia” quando se criou “os céus e a terra”. - “Foi a tarde e manhã do terceiro dia”, quando a Terra começou a produzir. - Nesse tempo, a indústria fundamental era a olaria. Tudo era feito de barro. - Por outro lado, deus criou tudo tão só pela “palavra” (o “Dabar” hebraico, o “Logos” grego, o “Verbo” latino)! Da boca prá fora, como o povo diz.

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- Mas o Senhor Deus condescende em ser oleiro, mergulha as mãos no pó da terra e esculpe Adam, que em hebraico quer dizer Humanidade. - E beija esse homemhumanidade para lhe soprar o hálito de vida, o vento de deus, o “ruah” hebraico. - Certo! - Mas, por favor, agora me permita um ato de afeto e justiça: aprendi tudo isso com o emérito professor em teologia, Ricardo Labuto Gondim, em homenagem a quem tiro meu boné de couro de preá.

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- Devolver a Cesar o que é de Cesar. - Dar ao autor de “Deus no Labirinto” o mérito de ter-me esclarecido sobre o aparente absurdo do “Gênesis”. - Na verdade, essa é a simbologia por trás do Texto Sagrado do Gênesis! - A Humanidade é a mais alta expressão do desenvolvimento da matéria! - A Humanidade é a mais alta expressão do Amor de Deus! - Mas não passamos de um vaso de barro... de esperanças. - A Humanidade é depositária do “ruah” de Deus. Como cada 192


parte de Deus é o todo em si, cada pessoa tem dentro de Si a Luz do Criador. - Daí a evolução qualitativa do gênero humano, que supera o lema do “olho por olho” subtraído do código de Hamurabi. - Daí a beleza inconversível e talvez inapreensível do “amai os vossos inimigos”. - Mas o fundamentalismo, que é expressão da ortodoxia, destrói a beleza do afeto, que só foi resgatava e recriada com Sigmund Freud. - E como esse pseudo recriador entende a beleza do afeto? 193


- Segundo meu amigo Victor Andrade, só no útero materno o ser humano (ainda feto) vive o estado de “narcisismo” (felicidade) total e absoluto. - O estado de felicidade total e absoluta só se pode viver aqui na Casa do Senhor Deus! - Meu amigo e cientista Victor diz que o nascimento do feto – a arrancada abrupta do estado nirvânico total e absoluto – irá subverter o estado nirvânico do bebê, que então inicia “um movimento selfcentrífugo na direção dos órgãos mais diretamente estimulados durante o nascimento – coração e pulmões, além da pele” – como, aliás, ocorre em 194


toda situação de sofrimento físico. - Muito complicado! - A vida humana é que é complexa. E sofrida desde o nascimento. - De fato o Senhor Deus havia previsto esse sofrimento... - O senhor deus decretou o sofrimento da mulher e não do feto. Em Gênesis 3:16 está escrito: “Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos.” - Esse sofrimento decorre da desobediência; que se não

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verifica no ser em estado de gestação. - Justificação supérflua. Não aceito. Prefiro a explicação do meu amigo Victor Andrade: “A saída do ambiente aquático e bem delineado do útero e o lançamento em um ambiente aéreo e não delimitado provocarão uma sensação de desintegração...” - Desculpe-me. Estamos a esquecer a finalidade desta inquirição. - Nos sindicatos o comum é falar abobrinhas...

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Com essa provocação o Arcanjo Encarregado dos Assuntos Sindicais levantouse, pegou sua mala de executivo, revestida de couro de carneiro, pôs no bolso do lenço os óculos de leitura com armação de casco de tartaruga, endireitou a gravata estilo italiano, voltou-se e se dirigiu à sede da Casa do Senhor. Fiquei a pensar: as coisas celestiais assemelham-se bastante com as coisas terreais.

E da suntuosa Casa de Deus saiu um senhor de vasta cabeleira, cara de santo e jeito de Maestro ou cara de Maestro 197


e jeito de santo, redundância, por isso que todo Maestro tem a parecença de condutor de almas, intérprete que é de criações alheias (como se dele fossem), sentenciador do tempo e do ritmo e da intensidade das obras musicais dos grandes compositores eruditos. E muito mais: julgam-se “ministros” em corte suprema das intenções presumidas da escrita musical – acima dos quais, acreditam, nada mais existe (remember Hebert Von Karajan) – uma vez que se têm intérpretes absolutos da Obra Musical.

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- Você deve ser o querubim encarregado da música celestial, não é? - Errou! Não sou Querubim, sou Santo, que é uma categoria superior; sou o “Kapellmeister” da Casa do Senhor Deus. - Quer dizer, não é um “kapellmeistermusik” qualquer? - Não existe um “kapellmeistermusik” qualquer, todos os Maestros somos Regentes de Orquestras. - Desculpe-me, estava a referir-me a músicos sem

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imaginação. Que nesses tempos de agora pululam... - Aqui na Casa do Senhor Deus só tocamos música erudita. - Erudito ou eruditismo? - A música que se executa aqui na Casa do Senhor Deus segue as regras de composição greco-romano, aliás, normas concebidas por inspiração do Espírito Santo... - Missas, réquiens e oratórios, coisas assim? - Não! - Releve-me a ignorância, mas eu nuca entendi essa tripla

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divisão para músicas de caráter litúrgico. - Porque não estudou direito. Missa é uma composição que, em geral, divide-se em três partes: Primeira parte, Kyrie, Gloria in excelsis e Credo; Segunda parte: Santus e Benedictus; e, Terceira parte, Agnus dei. - E réquiem? - Réquiem é a música composta com a finalidade de fazer parte do ofício dos mortos, e principia sempre com o “réquiem aeternum dona eis”. Não segue a liturgia das Santas Missas.

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- Expressão latina que significa... - Em Portugês significa “Dailhes o Repouso Eterno”. - Enquanto oratório... - Oratório é um conjunto de peças musicais sobre assuntos religiosos de cunho dramático, assuntos quase sempre tirados da Bíblia Sagrada que é a Palavra do Senhor Deus. - Músicas para serem executadas nas igrejas. - Não. Errou! Músicas para serem tocadas fora das Santas Igrejas, em teatros e

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auditórios sem qualquer cenário nem vestes litúrgicos. - Criadas no período barroco. - Não. Músicas que se contrapõem ao recitativo estático em o qual o conjunto musical serve apenas de acompanhamento ao Bel Canto. - Obra revolucionária, o Maestro Harnoncourt... - O Maestro Nikolaus Harnoncourt referiu-se à música barroca como “requintada e esotérica”, e ser ela “o ponto final e culminante da evolução de quase dois séculos”. E o que evolui não revoluciona. 203


- Pois. É justamente por representar “ponto final” de uma etapa que dá caráter revolucionário à música barroca: por isso que o “ponto final” de uma mesmice enfadonha. - Com o barroco a música deixou de ser apenas canção e dança. Evoluiu, não representou movimento de revolta. Não destruiu nada. - Mas na França e na Itália o barroco expressou-se como uma arte autônoma, que iria resultar na elaboração da sonata e do concerto; e mais tarde, da sinfonia. A música saiu das igrejas e invadiu os salões. 204


- Não. O Senhor está mais uma vez equivocado. A música jamais saiu das Santas Igrejas; a música passou a ser também executada em salões feudais e nas salas públicas destinadas para concertos musicais: anfiteatros, teatros, auditórios etc. Movimento que não eliminou, acrescentou; evoluiu, portanto. - Evolução, para usar sua palavra, que representou o adeus aos cantos gregorianos, e foi quase sua extinção... Surgiram os instrumentos e com esses os conjuntos musicais.

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- Algumas Santas Igrejas dos anos 900 dC já adotavam o “organum”, que adicionou ao cantochão uma ou mais vozes. - Mas “organum” não é o instrumento que se conhece hoje pelo nome de “órgão”. - Não, não é; repito: “organum” é a natural evolução do cantochão. Com a adição de outras vozes e alguns ritmos. - Não se pode precisar quando surgiram os instrumentos musicais. Entretanto o Maestro Harnoncourt considera possível que a “... simples imitação sonora de

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ruídos de animais” canoros possa ter sido a origem. - Talvez por isso, por tentar imitar a Santa Natureza criada pelo Senhor Deus é que os instrumentos antigos possuíam sonoridade diferente, com timbres agradáveis ao ouvido... - Peraí, pelo que aprendi com meus poucos estudos de Física, timbres são dados fixos de cada tom musical, e específico para cada instrumento. Um Fá produzido por um violino cria uma dada estrutura de harmônicos, mas o mesmo Fá, se gerado pela flauta, cria outra estrutura de 207


harmônicos; embora ambos os tons sejam a nota Fá. - Sim, mas os instrumentos musicais de um mesmo tipo podem soar diferentes e possuir caráter próprio; isso ocorre devido a sua mecânica de fabricação. - Mas você disse que os instrumentos antigos tinham timbres agradáveis, e não é bem assim. - Então por que é? - Primeiro, nem todos os instrumentos musicais antigos possuíam timbres eufônicos; segundo, porque timbre é resultado, representa o som característico de um dado 208


instrumento, é a expressão da curva harmônica de cada tom de um dado instrumento. - Observo que o Senhor está a querer ensinar Padre-Nosso a vigário. Seja. De fato, um violino Stradivarius soa mais agradável do que um violino moderno. Daí custarem tão caro. - Não. Não soam obrigatoriamente “mais agradável e, se custam mais caro, deve-se ao fator raridade; a raridade é um dos componentes que produzem os preços. Mais raros os objetos de arte, mais caros.

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- Todos os violinos, quando emitem uma nota Fá, estão a criar igual estrutura harmônica. - Agora chegou a minha vez de esclarecer! Um Fá produzido por um violino moderno soa diferente (mas não necessariamente melhor) de um Fá produzido por um Stradivarius (embora as curvas harmônicas sejam iguais) porque... - Êpa! Sabe dizer por que isso acontece? - Sei. Em virtude do formante. Formante resulta do modo peculiar de como um dado instrumento é fabricado; ou

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seja, é determinado pela relação mútua dos materiais empregados na fabricação de cada unidade de dado instrumento: madeira, plástico e metal; também, do tipo de cola, da solda, do verniz etc. Por isso, dois violinos de alta qualidade, um Stradivarius e um Guarnerius, ambos fabricados no Século XVII por artífices da mais alta competência, soam diferentes. Assim, pois, não é pela antiguidade nem pela qualidade do artesão, é em decorrência do modo de fabricação e do material empregado.

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- O cravo tem sonoridade diferente do seu sucessor, o moderno piano de concerto. - Não, parece que você está a tergiversar. Foi o pianoforte que sucedeu ao cravo. - Desculpe o engano. Concordo. O primeiro pianoforte foi construído em 1709; Bartolomeo Cristofori deu a ele o nome de “gravicembalo col piano e forte”. - Que quer dizer “cravo com suave e forte”. - O pianoforte da época de Wolfgang Mozart cobria apenas cinco oitavas, e

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pesava 175 libras, cerca de 80 quilos. - Enquanto o piano moderno cobre seis oitavas e pesa o dobro. - Oitava, não sei se o Senhor sabe, é o intervalo, ascendente e descendente, entre as sete notas da escala diatônica: Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e Si. - Sabia. Isso quer significar que no teclado do pianoforte o Dó (ou qualquer outra nota) repete-se cinco vezes, enquanto no teclado do piano moderno, repete-se seis. - Até que o Senhor não é tão ignorante em música quanto eu imaginava. 213


- A modéstia me inibe de dizer-lhe “muito obrigado”. - Mas desconfio que o Senhor não sabe que também há diferenças sonoras, em especial de afinação, entre os chamados “grand pianos” modernos para concertos. - Não sabia não. - Pois aprenda. As mais afamadas marcas são: Becstein, Bosendorfer Imperial, Fazioli F308 (o número 308 refere-se aos três metros e oito centímetros do seu comprimento. É o maior piano de concerto do Mundo), Steinway D e Yamaha.

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- Interessante... essa cultura inútil. - Não é cultura inútil. E tem mais: somente os pianistas virtuose, os Maestros, os afinadores de piano e alguns técnicos em gravação conseguem estabelecer diferenças de sonoridade entre tais marcas. - Gosto muito das “Sonatas” para piano de Beethoven. - O gênero musical sonata nasceu na Itália. De início, em oposição à cantata e à tocata. - Qual a diferença entre cantata e tocata?

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- Vejo com satisfação que o Senhor é curioso, gosta de aprender. - Gosto de aprender, mas não sou curioso. - Cantata é a composição feita para vozes humanas, enquanto tocata destina-se a instrumentos. - Nunca entendi a razão da nomenclatura estabelecida por Bach nos seus prelúdios e fugas. - São 48 Prelúdios e 48 Fugas. Um prelúdio serve de introdução a uma fuga. Mas o Senhor quis referir-se às suítes de Johann Sebastian Bach, não é verdade? 216


- Sim. E o que é courante? - Um movimento de uma suíte. Suíte são movimentos de dança. Courante é um tipo de dança antiga de origem francesa em a qual os dançarinos movimentam-se de forma lenta e em círculo. - E gavota? - Uma dança do tipo minueto, mas bem mais rápida. - Minueto? - Dança de origem francesa caracterizada por movimentos lentos e compassados de pessoas em grupo. - E bourrées? 217


- Dança executada em tempo duplo, exigindo movimentos rápidos e vivos; de origem francesa. - E forlana? - Ainda movimentos de dança, mas rápidos; de origem italiana. - Quer dizer, todas as partes de uma suíte são concebidas para dançar-se... - Não. As suítes não são para se dançar. São sequências musicais compostas a partir de danças antigas. - Também não consigo estabelecer a diferença entre ópera-bufa e ópera-cômica.

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- A diferença é sutil; a óperacômica é composta com a finalidade de produzir risos; enquanto a ópera-bufa, ainda que nela preponderem tipos burlescos, há uma história, um leit motiv, que faz da peça um drama cantado. Mozart foi o grande mestre da óperabufa.

O santo kapellmeister da Corte Celestial olhou para seu “metrônomo” de horas tipo relógio de pulso, bateu na testa larga, passou as mãos na vasta cabeleira já em desalinho, e saiu sem despedir-se. Fiquei a pensar: o modo de comportamento celestial 219


assemelha-se bastante com o modo de comportamento terreal...

De macacão velho, folgado e um tanto sujo, boné a cobrir a careca, óculos espessos revelando miopia de grau elevado, mãos calejadas mas firmes, nos dois pulsos a moda relógio dois esquisitos aparelhos: um multímetro miniatura e um mini decibelímetro. Riso fácil, dentes perfeitos, lábios finos, olhos azuis ou... - Você deve ser o serafim encarregado da reprodução do

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som musical aqui da casa do senhor, acertei? - Em parte. Sou o Arcanjo Encarregado da Audiofilia Celestial. - Também aqui existem audiófilos? - Existimos os que nos utilizamos da música em conserva para que não falte permanentemente boa música em redor do Senhor Deus. - E há igualmente os chamados equipamentos eletrônicos “high-end”? - Não, nem “low-end”. Temos “apparatus” de um único elemento condutor, revestido

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de especiais nuvens consolidadas; “apparatus” que desempenha o papel de acoplador, aumentador e transformador, uma espécie de fone de ouvido que funciona sem eletricidade hidráulica nem térmica nem eólica, apenas pela poderosa energia do afeto ao qual damos o nome de “dai-e-darse-vos-á.” - Uma espécie de lei de Talião... - A Lei de Talião babilônica, do Código de Hamurabi, de 1780 aC, correspondia, na ação de reciprocidade do crime e pena, à lei do “olho por olho, dente por dente”. Na 222


Santa Lei de Deus que regula o Afeto, o “DAR” do Filho de Deus representa a reciprocação do Seu Santo Afeto para com a Humanidade. - Concordo, e aplaudo. Sempre considerei que o afeto é sentimento de duas mãos: o dar deve ser do tamanho do receber e o receber do dar; ou seja, o ato de receber deve corresponder entrega afetiva do recebedor ao doador; porque reciprocar é a forma como se materializam os dois aspectos do afeto. - O Senhor Deus deu seu único Filho para ter de volta as

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Criaturas que Ele próprio criara. - Mas as ingratas criaturas que deus criou preferiram Barrabás... Judas preferiu as quarenta moedas... - Leornardo Padura reconhece: “... descobrir a futilidade de todos os orgulhos humanos e a dimensão exata de sua insignificância cósmica diante do poder essencial do eterno.” - Parodiando: pois foi com pesar e muita tristeza que senti na própria carne a insignificância das palavras diante dos atos; pois quem

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seus afetos negociam comete sempre ingratidões. - É “... o odioso sentimento de ingratidão que as deslealdades provocam.” Ainda Leonardo Padura. - O afeto ou catéxias ou libido, que é a força vital, o princípio da vida humana, ramifica-se em amor e ódio ou prazer e desprazer ou instinto de vida e instinto de morte. Já o desafeto representa o predomínio do ódio sobre o amor. - Esse predomínio consubstanciou-se por meio do beijo de Judas na face do Filho de Deus.

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- E é por esse fato que desprezo o beijo na face, em geral hipócrita e falso. - E qual a forma do beijo que o Senhor considera representar um ato de afeto? - O beijo nos lábios! E agora chegou a minha vez de citar Leonardo Padura: “... a mãe... costumava depositar ... na comissura dos lábios do filho... beijos úmidos ... para que o sabor doce da saliva permanecesse ... na boca por mais tempo...”. - Por que a ingratidão é uma das doenças mais difíceis de curar.

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- Pois na Ilha do Desterro, lá na minha casa terrena, o predomínio da ingratidão materializou-se na mesquinhez que presidiu a venda do Ateliê de Pintura de Jarina Menezes – que guardava o melhor da obra dessa extraordinária artista – em troca de quarenta moedas podres... Em consequência, toda a obra de uma vida está a se estragar por falta de abrigo próprio... - Isso porque na verdade não havia empatia entre os herdeiros e a obra da artista... - Baixa-fidelidade.

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- E assim voltamos ao tema da alta-fidelidade. - Que parece ser o objetivo deste encontro. - O que os terrenos chamam de alta-fidelidade (fidelidade absoluta do som) aqui na Casa do Senhor Deus nós denominamos de autofidelidade, isto é, fidelidade ao próximo como a si mesmo. Porquanto, se nos amamos, que é nossa obrigação primeira, estamos a amar também quem nos criou, o Senhor Deus. - E é também de barro que o oleiro divino fabrica a conserva musical aqui no céu?

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- É de fio. - Fio metálico como nos tempos dos primeiros gravadores de som? - Fio de lã de nuvem. Nuvens que produzem a chuva, chuva que molha a terra, terra que produz os frutos... Louvado seja o Senhor Deus! - E as enchentes e os maremotos e as tsunami. - Regra geral, enchentes e maremotos são consequências da ação predatória do homem sobre a Santa Natureza criada por Deus no Primeiro Dia da Criação.

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- Ou acomodação e aperfeiçoamento da obra de deus... que não se mostrou tão perfeita assim... - Tal como num livro em preparação, como neste que o Senhor está a criar, muitas vezes pode ocorrer que o criador do livro torne-se criatura, e o livro tome as rédeas da narração. - Você tem razão, neste livro isso já aconteceu muitas vezes. Quando menos eu esperava estava a escrever o que não pensara escrever; e uma vez, o que não devia ou convinha escrever.

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- O que o Senhor não devia ou não convinha escrever? - Por exemplo: que na Terra não há rico fora da desonestidade; porquanto todo rico da Terra foi, antes, um desonesto! - Desonesto em relação às leis? - De deus e dos homens. Desonestos por índole e pendor. - O Senhor tem provas disso? - Não sou supremo nem me considero acima de todas as coisas, mas as provas abundam; não as tenho comigo porque não sou

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processo nem jornal, e nem arquivo público; mas tanto processos arquivados quanto os arquivos dos jornais estão aí para provar que um rico, qualquer rico, sua fortuna adveio de desonestidades. - Pode dar algum exemplo? - Aqui no Ceará, por exemplo, a base da fortuna dos ricos de agora vem de desonestidades praticadas por parentes antepassados. - Quem foram eles? - Uma dessas riquezas foi constituída pela via de licenças de importação fajutas. No Brasil houve um tempo em que licenças para importação 232


de mercadorias só poderiam ser autorizadas por departamento competente sediado no Rio, e concedidas para importação de aparelhos e remédios destinados a hospitais e casas de caridade. Entretanto, nesse mencionado tempo tais licenças foram desonestamente modificadas por um funcionário de Fortaleza a serviço do empresário corruptor, alteradas para contemplar importação de tecido de linho ou máquinas de costura. - O Senhor tem prova disso? - Está nos jornais da época, e nos arquivos do Banco do Brasil. Escândalo que até 233


determinou a extinção da CEXIM e à criação da atual CACEX. E tem mais. - Tem? - Outro rico do Ceará aumentou sua fortuna com manobras desonestas com o objetivo de apropriar-se de bancos particulares. - Santa Mãe de Deus! - Ainda outro: pela via ignóbil da utilização de artigos de alimentação, como o açúcar, por exemplo, avariados pelo sal marinho no decorrer do transporte de Pernambuco para o Ceará. Nos armazéns do comerciante o produto avariado era misturado com 234


produto não danificado com o fim de diminuir o índice de contaminação; depois dessa maquiagem, era vendido como se bom e puro fosse. Com isso, esse empresário ganancioso recebia das seguradoras a indenização correspondente à avaria, e dobrava o ganho com a venda aos consumidores do produto misturado como se estivesse em bom estado. - Mas isso é mais que estelionato, é atentado contra a vida! - Tem ainda mais. Existem os grileiros que, à sombra do poder apoderaram-se das terras devolutas dos morros do Mucuripe que pertenciam aos 235


antigos povoadores uma vez que doadas, em regime de sesmaria, pelo Imperador do Brasil. - O Senhor tem prova de tudo isso? - As provas encontram-se nas páginas dos jornais dos anos da década de 50 do Século passado. Quem duvidar que vá à biblioteca pública ou arquivos de jornais, e pesquise. E sobre as terras do Mucuripe e adjacências, que levante nos cartórios a origem e a legitimidade das certidões de propriedade dos inúmeros lotes, hoje valiosas propriedades de uns poucos.

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- E sobre as manobras desonestas para apropriação de bancos particulares, quer esclarecer com mais detalhes? - Infelizmente, essas manobras jamais foram noticiadas pelos jornais. Portanto, não posso provar nem indicar onde estão as provas; e as pessoas que me contaram tal falcatrua, já faleceram. Entretanto, essas pessoas disseram-me que uma das manobras consistia em o grande capitalista cearense depositar no pequeno banco particular grande quantidade de dinheiro sob a promessa verbal de não sacá-lo em menos de seis meses; os donos do banco, garantidos por essa

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promessa verbal, emprestaram o dinheiro ao público com prazo de até 120 dias. Disseram-me ainda os saudosos e queridos falecidos, que o grande capitalista, antes de 90 dias, emitiu um cheque de alta quantia contra um dos tais bancos. Ora, como não havia numerário em caixa disponível para pagar o cheque visto que o depósito fora todo aplicado em empréstimos populares, o grande capitalista pressionou os diretores do banco, ameaçando-os de protestar o cheque caso não fosse pago em quarenta e oito horas. Apavorados, os diretores do banco viram-se obrigados a ceder suas ações 238


ao grande capitalista que, assim, passou a ser o único dono do banco. - O Santo Filho do Senhor Deus advertiu: “Mas ai de vós, os ricos!” - O homem de Nazaré foi um sábio! Ainda que tenha cometido o pecado da reciprocidade dependente. - Que é isso da “reciprocidade dependente”? - A cada atitude, os mandamentos cristãos atribui uma dada obrigação; ”Como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também.”; “Dai, e dar-se-vosá”. E assim por diante. 239


- É a reciprocidade divina. - É a reciprocidade condicionada. Para receber é preciso dar! - Mas isso não corresponde a Lei de Talião? - Ora, se o afeto é via de duas mãos, o receber terá sido decorrente de um dar. - Não é assim que se deve entender este mandamento bíblico: “Como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o também.” - Mas o “dai e dar-se-vos-á” significa ter que dar para depois receber. Primeiro vem

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o dar, depois, e em consequência, o receber. - O Senhor Deus, primeiro deu a vida do seu único Filho... - Por isso que deus é uma abstração... ou um bobo. - Ora, o Senhor está na Casa do Senhor Deus, mais respeito! - Não. Estou sentado nesta pedra dura faz mais de quarenta e oito horas... - Conversou com Santos, Arcanjos, Querubins e Anjos. - Conversei com pessoas que se diziam santos, arcanjos, querubins e anjos. A inquirirem-me! Nem no tempo 241


da ditadura militar passei por isso. - O Senhor foi preso por ser comunista? - Salvamo-nos, minha mulher e eu, mercê de circunstâncias muito especiais. - Pela Santa vontade do Senhor Deus! - Por puro acaso. Um amigo de infância, amizade mui consolidada, na idade adulta tomou rumo diferente e até oposto ao meu: tornou-se combatente operante anticomunista enquanto eu assumia posto de comando na hierarquia regional do partido comunista; e minha 242


companheira Jarina Menezes era Presidente da Federação das Mulheres do Ceará, uma organização a serviço do PCB. - Tudo quanto os militares torturadores andavam à caça... - Num certo dia, meu saudoso compadre e amigo, Vicente de Paula Gaspar (louvado seja para sempre!), em companhia de um padre da arquidiocese do Ceará estavam em uma sala do palácio episcopal a folhear os arquivos do então departamento de ordem política e social – DOPS – para escolher nomes para suas tarefas contrarrevolucionárias.

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- A Missão Católica Anticomunista... - Ao passar as fichas que eram centenas, surpreendido deu com minha ficha. Ficou nervoso. Apreensivo foi até à letra J e lá estava a ficha de sua comadre Jarina. Adveiolhe de imediato duas certezas: a fraternidade e o afeto estavam acima de qualquer outra convicção, e, tinha porque tinha que destruir as duas fichas. Mas o padre ali presente... - E o Senhor ainda não acredita no poder do Senhor Deus.

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- Vicente raciocinou e agiu depressa. Lembrou-se de que haviam chegado informes da atividade comunista na cidade portuária de Camocim. Nervoso, perguntou ao padre onde ele tinha posto a carta que viera de Camocim. O padre informou que a pusera no cofre do palácio. Diante dessa informação, compadre Vicente pediu ao padre o favor de ir buscar a tal carta para ele poder comparar nomes. Quando ficou a sós, pegou as duas fichas, de Jarina e minha e pôs dentro da camisa, entre a camiseta de algodão e a camisa social. E na hora do almoço, quando foi fazer a refeição em sua casa, tirou as duas fichas e 245


queimo-as no fogão a lenha que então se usava. - Obra de Deus! - É a segunda vez que o senhor insinua isso; será que deus o abstrato preocupar-se-ia com dois comunistas escrachados? - Todos somos Filhos de Deus! - Por essas circunstancias, e mais, como já residíamos então no Rio de Janeiro, e Jarina não exercia nenhuma atividade política lá, e eu, no rigor da clandestinidade estava ligado exclusivamente ao secretariado nacional do Partidão, por tais eventualidades humanas, escapamos! 246


- Louvado seja o Senhor Deus e seu Amado Filho.

- Você também vem inquirirme? – perguntei ao jovem Anjo que se achegou a mim, e, sem espanar a sujeira natural da mureta, sentou-se na pedra onde eu estava sentado; riu seu riso largo e espontâneo de jovem sem recalques, a mostrar os fartos dentes da generosa boca; calça jeans, sapato-tênis de plástico, camisa 10 da seleção brasileira, disfarçada cicatriz de “piercing” no nariz proeminente, olhar tristes de santo, um rosário de alvas e pequenas pedras de marfim 247


enrolado no punho a molde pulseira, porém simples como a verdade; a fazer mímica e em tom de recitação respondeu a minha pergunta: - “Tua pele é sombra, poça d’água no escuro. Pressinto teu cabelo emaranhado. Que cultivas entre os fios? Sementes, filtros de amor, ossos de reis assassinados, uma pirâmide com a Esfinge dentro? Quais perguntas enroladas nesses nós? Com tua testa sustentas a noite, o riso dos homens tontos, a alegria de todo deslize. Rasga o dia com teus dentes. Guardas uma onça dentro da tua boca tensa, anunciam

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insurreições os teus quadris. No peito, um milhão de pernas correndo com a alegria da revolta. Se coloco o ouvido rente a ti, escuto o farfalhar de asas, o mar revolto, o rugir da terra, um grito de pavor. Agitam minhas pernas pensar nas tuas afundando a terra escura. Queima a minha boca pensar na tua garganta aberta para o dia ainda tão sem fim.” - Mas esse é um trecho de um texto de minha neta Priscilla, divulgado no seu blog www.errotacito.blogspot.com. br!

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- É, sim. Participo intenso da vida intelectual terrena pela pena de sua neta; ela é minha psicógrafa. - Minha neta tem talento bastante para não necessitar de ajuda alheia, nem mesmo daqui do além. - A noção humana do Além... - Desculpe. Força do hábito de espernear. No meu país nada é genuíno, nem nós próprios que somos mistura do cruzamento de raças diferentes. - João Grilo... - O personagem do Ariano Suassuna?

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- O esperto mameluco que o avô de Priscilla recriou para fazê-la crescer. - Quando chegou à Ilha do Desterro, Pris tinha apenas cinco anos! Olhos sem brilho, corpo sem viço, choramingava na mesa sem querer ingerir nada. Para fazê-la comer comecei a inventar casos com base no personagem das histórias de Trancoso que minha avó Aninha contava. O personagem central desses casos era João Grilo . - E fê-la crescer mesmo! Priscilla é hoje uma talentosa criadora de textos densos e enigmáticos. Como este:

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“A pele que avança é mesmo minha, um tipo de dança que inventei, é assim: fecho os olhos no quarto escuro ou no meio de uma avenida louca, coloco as mãos em forma de prece bem rígidas rente ao rosto. Dentro da boca, a língua dança. Todo o resto denuncia um corpo penitente, até meio santo. Tipo desses que meditam enquanto o querosene aguarda o fósforo riscar. Mas minha invenção é a língua bailarina. Avança e recua em direção ao céu da boca, as gengivas, ao escuro da garganta. Quando danço, minha pele alteia, ganha uma

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vida toda dela. Meus ossos repousam dentro de um corpo que não cessa de nascer.” - Remete-me à Clarice Lispector, com nuanças contraponteadas: o fato e o símbolo; a frase que afirma / a sentença que sugere; o significado definido / o entendimento conjecturado; uma estrada de rodagem / um caminho nas nuvens; a crueza do cotidiano / a leveza do ser poetizado; a ironia nas situações descritas / as situações irônicas apenas subentendidas; a amargura subjacente nas palavras escolhidas com um dado fim atemorizante / a doçura

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vocabular sem finalidade senão a beleza da língua culta. Porém em ambas, tão só composições literárias; não são gritos de dor, são pensamentos pacientemente organizados; pensamentos que são a matéria dos cérebros humanos. Ouça, por exemplo, Clarice: “Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de

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espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.” - Escute Priscilla: “Cultivo a rigidez de uma mulher diante do atirador de facas. Ando rija entre os porteiros de Copacabana, os entregadores de panfletos, as meninas lindas de vestidos leves. O medo do assédio, o medo da água na boca, dissimulada

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seriedade. Reajo alucinada aos homens que catam coisas do chão, vejo sobre eles o manto dos profetas, dos santos, dos espertos. Preciso me cuidar para não acabar como eles, só eu e a rua plena, que tremor.” - A mágica que eu era obrigado a fazer, os esforços verborrágicos para encompridar as histórias até o prato de Priscilla esvaziar-se; porque a cada frase do conto de carochinha improvisado eu punha uma colherada cheia de comida na pequena boca da pequena Pris. Ao fim de três meses, minha neta engordara cinco quilos!

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- Tão empolgado o Senhor fica com a neta, que esqueceu que lá atrás deixou uma frase minha sem comentários. - Qual? - A noção humana do Além... - Como se o além fosse o mundo dos espíritos. - Os jovens da Casa do Senhor entendem e aceitam que o espírito não é alma, é energia cósmica. - Freud achava que o espírito é o inconsciente humano. - Que o Senhor Deus deu aos homens após a desobediência, para contrabalançar suas fantasias plenipotenciárias. 257


- Como assim? - O inconsciente é o freio invisível do Senhor Deus, é o barro do qual o homem foi feito pelo Oleiro Divino, é o pó a que todos os humanos voltarão. É, em resumo, a sensatez do meio-termo! - Meio-termo a que Priscilla metaforicamente se reporta no seguinte trecho: “Calma, não larga ainda do meu braço. Eu te guiei com os olhos, agora me leva um pouco pela escuridão. Vou fechar as pálpebras e você me diz alguma coisa da cegueira enquanto me leva até a porta de tua casa. Um dois três e já.”

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- Meio-termo a que o Apóstolo de Jesus, São Paulo, por metáfora estabeleceu no já citado versículo 11 do capítulo 13 da Primeira Epístola aos Coríntios: “Quando eu era menino... , quando cheguei a ser homem...”. A desrazão e a razão. - O hemisfério esquerdo do cérebro, e o direito. - O Senhor deu a entender em outro ponto de sua inquirição que só o ser humano possui cérebro com dois hemisférios. - É. E errei. Até recebi mensagem do meu amigo psicanalista Victor Andrade, a quem tenho levado parte das

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conversas que aqui tenho tido. Victor esclareceu: “O que diferencia o ser humano não é o fato de possuir dois hemisférios, pois os outros animais também os possuem. A diferença é que no ser humano o hemisfério esquerdo possui uma função especializada que permite a verbalização e a consciência da subjetividade (consciência do "eu"), enquanto os outros possuem apenas a consciência primária, de natureza perceptiva. O hemisfério esquerdo humano é analítico e racional, ao passo que o direito permaneceu com a função anterior comum aos demais

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animais, sendo a sede da intuição, da sensibilidade e da empatia. Por isso, uma lesão cerebral que leva à incapacidade de falar e mesmo de raciocinar logicamente, se não atingir o hemisfério direito pode permitir que o indivíduo trauteie uma melodia ou mesmo xingue palavrões (neste caso, as palavras não expressam ideias, mas emoção, no caso, de raiva). Por aí, você vê que o ganho em capacidade analítica representa perda em capacidade afetiva. Por isso, os animais costumam ter uma "inteligência emocional" mais aguda que os humanos, pois mantiveram os dois 261


hemisférios intactos. No dia em que o ser humano dominar amplamente esse conhecimento, dará tanta atenção ao desenvolvimento do hemisfério direito quanto ao esquerdo, pois toda a educação tem privilegiado a esfera cognitiva da mente (hemisfério esquerdo). Por isso, meus netos (filhos da Yasmin) foram "alfabetizados" também em música: ao entrarem para a escola convencional, também passaram a aprender piano e violino, de modo que desde cedo aprenderam a ler notas musicais e também a apreciar os grandes mestres da música.” 262


- Todos os Santos e Arcanjos e Querubins e Anjos da Casa do Senhor Deus sabem ler a escrita musical. - Um dia antes de me perder nesta grande floresta que circunda este belo lugar ouvi a “Quinta Sinfonia” de Anton Bruckner – que compôs algumas sinfonias tidas pelos críticos como teológicas – na interpretação da orquestra “Staatskapelle Belin”, sob a regência do judeu Daniel Barenboim. Produz uma emoção de quase fazer chorar. - Soube que o Senhor apreciou bastante o terceiro movimento do “Quarteto Opus 132” de Beethoven, executado 263


ontem pelo Quarteto dos Querubins, a pedido do Senhor Deus. - Tido como o agradecimento do Compositor, ao senhor deus, pela cura de Beethoven de uma maléfica doença. - Versão que o Senhor contestou. - A imaginação dos musicófilos, ajudada pela necessidade de os fazedores de opinião de se tornarem famosos, criou também a lenda de que a “Sexta Sinfonia” de Von Beethoven são relembranças da vida campesina. - E não são? 264


- Primeiro ocorreu uma confusão involuntária: a Quinta Sinfonia de Beethoven foi, por algum tempo, denominada de Sexta, e a Sexta de Quinta, misturada essa decorrente de terem sido as duas peças compostas (terminadas) quase ao mesmo tempo. E por ter sido a Sexta apresentada em público primeiro do que a Quinta, ainda que na mesma noite de 22 de dezembro de 1808. Mas nas partituras originais o compositor restabeleceu a cronologia. - As verdades das partituras são inquestionáveis.

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- Nas partituras Beethoven ficou em dúvida com respeito à intenção da sua Sexta Sinfonia: de início indicou-a como sendo "... memórias da vida campestre." Algum tempo depois, quando descreveu o significado dos cinco movimentos, fez uma observação intrigante. Expressou: "Mais expressão de sensações do que pinturas." Quer dizer, mais drama e menos enlevo. Mas não vacilou quanto ao intento da Quinta Sinfonia. Dela ele afirmou, categórico: "Assim bate o destino à porta." - O que importa é o caminho e não para onde ele nos conduz.

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- Será que na vida estamos indo ou vindo? - Gosto deste bate-bola. Explica mais que livros inteiros. Aliás, os homens em geral não sabem de verdade o que é importante. - Para mim, ancião, o que conta na vida é a experiência! - O que de fato importa é o sentimento que uma dada coisa provoca; não a forma da coisa ou como ela é feita. - Mas não são as chamadas “coisas importantes” o tipo de coisas que nos deixam recordações.

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- O Senhor sente assim porque não é jovem. - Quando se atinge a idade dos noventa anos é então que se sabe que a vida é divertida. - Ao contrário, sabemos aqui na Casa do Senhor Deus que quando se atinge noventa anos angustia-se por experimentar que defeitos e falhas tornam-se motivos de desamor. - Os jovens pensam que os velhos são tolos, mas os velhos sabem que os jovens é que são tolos. - Não me ofendeu. As palavras duras só ferem quando não são claras. De 268


mais a mais, o Senhor está a citar Agatha Christie - Cada um de nós é como vive e o que lê. - Aceitando os infortúnios quase sempre os homens os expulsam. - Quando se conhece o perigo não se arisca coisa alguma. - A autocompaixão é um trabalho muito absorvente... - A esperança mentirosa que todo jovem tem é a mesma esperança mentirosa que todo velho um dia teve. - Aprendemos aqui na Casa do Senhor Deus que é possível conseguir qualquer coisa que 269


se deseje, se realmente se deseja com todas as forças. - Para se conseguir o que se deseja é preciso pagar um preço ou assumir um risco, e, por vezes, ambas as coisas. - Alguns ensejam a rejeição pela confiança que nutrem nos próprios julgamentos. - Ora, se temos conhecimento e julgamos com base nele, por que precisamos acreditar? - Acreditar no melhor de alguém é fazer o melhor por esse alguém. - Pois eu acho que é melhor odiar a deus do que à

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Humanidade. Deus pelo menos é uma abstração...

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Clarice Lispector versus Priscilla Menezes.

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Clarice Lispector: “Não suporto meios termos. Por isso, não me doo pela metade. Não sou sua meia amiga nem seu quase amor. Ou sou tudo ou sou nada. Dizem que a vida é para quem sabe viver, mas ninguém nasce pronto. A vida é para quem é corajoso o suficiente para arriscar e humilde o bastante para aprender.”

Priscilla Menezes: “O corpo da única mulher que olhei sabe como era? Comprido, espesso, negro, brilhante, violento. Tinha umas cicatrizes no quadril. A prima que se despia nos banhos de cachoeira, que

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deixava frestas milagrosas nas portas dos banheiros, a prima que cruzava as pernas lentamente. Quando cheguei ela já tinha um filho e esperava outro. Eu me embolando para dentro e ela colocando uns corpos no mundo fora. Cegar foi assim, minha filha, o mundo de relance, o corpo de uma mulher linda e depois só a notícia dos nascimentos e das mortes. Vê só, cegar não foi muito diferente de viver. A minha casa é aqui.”

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Suíte contraponteada: a jovem e o ancião; avô versus neta.

Minha neta, você escreveu: “Abandonar a subjetividade como estrutura, é pensar uma subjetividade fraturada, estatelada, transformada pelo acaso.” - Ainda que estrutura, concreta ou abstrata, como definição seja a “organização, disposição e ordem dos elementos essenciais que

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compõem um corpo” (corpo que também pode ser concreto ou abstrato). O que não pode é ser uma estrutura sem finalidade, sem nutrientes para o corpo, tão só destinada a sustentar um não corpo transformado pelo acaso (circunstâncias) ou por leis naturais em algo não verdadeiro, apenas imaginado por mentes privilegiadas. Voto contra. Você escreveu: “Não quero falar de mim, quero inventar na minha fala.” - Toda fala (ou toda escrita) é fala própria, pessoal, e, às vezes, particular. Mas não deve ser praticada como 276


dialeto, muito menos em “gíria” para pequenos grupos de... “iluminados”. Voto contra. Você escreveu: “É preciso exercitar a rebelião. Recusarse a ficar preso a regras.” - A rebeldia é a essência do desenvolvimento, de qualquer desenvolvimento, do de apenas dois passos à frente embora seja-se obrigado, por força de circunstâncias, vez que outra dar-se um passo atrás. Além de exercitá-la há que se a organizar. E não se entenda “organização” como “arrumação”. Arrumar é burocratizar; enquanto organizar é estabelecer 277


objetivo, meios e número. E também momentos. Por isso que nem todos os momentos transformam-se em o momento. Voto a favor. Você escreveu: “Cair, para perder o medo da queda. Inventar intimidade com a queda, para perder o medo da queda. Inventar a queda, para deixar de morrer, caindo.” - Eu trocaria de verbo, em vez de “cair” eu tiraria o prefixo “ca” e ficava com o verbo universal IR, verbo que pode ser de qualquer gênero: transitivo, intransitivo, pronominal, hermafrodita confesso e juramentado, o 278


escambau, desde que..., pois é, desde que não nos tornemos “lobrigadores”. Porque ver passar não é passar. Voto a favor, mutatis mutandis. Você escreveu: “As operações ficcionais dão-se como montagens entre o improvável e o plausível.” - Voto a favor. Tudo no Universo é um vir a ser em ponto de intermezzo: nem É, porque nada em movimento É, está a ser e se está a ser, não é, SERÁ! Trocando em miúdos: o presente não existe uma vez que agora (e o meu agora já será diferente do seu agora) já estamos no passado do presente ali atrás escrito; e o 279


“SERÁ” é uma abstração como todo futuro. Logo, minha Querida, só há uma realidade: O PASSADO! Você escreveu: “Penso que todo acontecimento possui potência para além da verificação de suas verdades factuais, pois constroem um campo de veracidades próprias.” - O diabo é que a verdade é quase abstrata de tão complexa. Vê-se um objeto ali sobre a mesa; mas esse objeto não é ele em si, pronto e acabado, e imperativo; é a representação dele no cérebro de cada um; é o resultado das ondas de lúmenes que o objeto 280


irradia, que se encontram a meio-caminho com catéxias (ondas exploratórias) emitidas pelo cérebro do circunstancial observador. Ora, não existem dois cérebros humanos iguais (os gráficos das encefalografias estão a indicar) nem dois momentos de lúmenes semelhantes; logo... o que eu vejo num dado instante é diferente do que o que você vê, e o objeto, assim, pois, pode ser diferente do que vemos... para nós dois ambos; e tomese como diferente, nuanças. Ora, bolas! Voto a favor. Você citou: “Somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente.”

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- O afeto (amor) é um fenômeno. A “lei” fundamental dos “fenômenos” é seu dele movimento constante e contraditório. Que parte do SER para o VIR A SER a fim de criar um temporário outro SER que já traz em seu bojo elementos contrários ao seu temporário status de SER, o qual, pela lei universal do movimento, constituirá outro SER... assim até que a decomposição (a morte, amém) os separe. As incompreensões de hoje serão, pois, as compreensões de amanhã! Voto a favor.

282


Você citou: “Enquanto eu imaginava que Deus é bom só porque eu sou ruim.” - A gente é aquilo que necessitamos ser. E o quantum e o caráter desse “necessitamos” não depende de nossa vontade nem de nossas vãs filosofias; depende de nossas estruturas emocionais, do balanceamento – que é pessoal e intransferível – entre nossos instintos de vida e de morte, de construção e destruição, de amor e de desamor. E quem mete a colher nessa panela é o senhor SUPEREGO, o Loge (quebragalho) do “Ciclo do Anel” de

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Richard Wagner; para bem de nossa sobrevivência. Voto a favor. Você escreveu: “Mas me embriago de coragem travando uma batalha silenciosa entre os ossos das minhas costelas.” - A coragem é sempre um estágio do medo. Não há o corajoso só nem o medroso só. Somos sempre mocinho e bandido no “western” da vida pessoal. O ato de coragem ou a atitude de covardia constituem-se bebedeiras ocasionais. Voto a favor. Você escreveu: “Do pai herdei um olho no avesso da pele, da

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mãe os ossos que se escondem.” - Primeiro: o pai não é quem faz, é quem cria! E você foi criada pela “mãepai”. Com os dois olhos em casa e o corpo inteiro na rua. Posto que provedora exclusiva. Educando e educanda; fazer para aprender ou aprender, fazendo. Os ossos do esqueleto com um cérebro prenhe de afeto. Deu no que deu: um talento! Voto contra. Você escreveu: “Quando eu era criança, sempre queria ir mais além do corpo.”

285


- Como por exemplo: subir tateando prenhe de medo no “flamboyant” do quintal, ascender os toscos degraus da escada improvisada que seu avô fez especialmente para você ver o mundo de outro plano, mais alto, mais além. Voto a favor. Você escreveu: “Manter a alma em estado puro é mantêla bruta.” - Por incrível que pareça, a alma existe. Não é o espectro imaterial que as religiões nos oferece; é a corrente elétrica cósmica que circula pelo Universo e o mantém desequilibrado desde o evento do big bum. E o ser humano é 286


a mais alta realização desse cataclismo, o que já é notável! Mesmo porque o seu bruto quer significar o mesmo que champagne brut, ou seja, sem doçura artificial... Voto a favor. Você escreveu: “Míope e vulgar, poucas combinações são mais providenciais.” - Inconvenientes, não sei, pois “míope e vulgar” já é dose! Existem ignorante e falastrão; ladrão e “nouveau riche”; Academia Brasileira de Letras e Paulo Coelho; ou José Sarney etc. É, “todo vira-lata é altivo porque é rei da sua vadiagem”, ou vulgaridade. Voto a favor.

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Você, para finalizar essa arenga, escreveu: “O fracasso é também uma potência. O desvio dita a norma. A infâmia pode ser grande virtude.” - E a mentira uma grande verdade. O beijo na face lembra traição; o beijo na boca nos remete aos lençóis; só o beijo nos lábios é puro afeto. Voto a favor.

Cai o pano...

288


Sextilhas trissílabos tônicos (Para minha neta Priscilla Menezes).

Era uma vez... eu contava prá você, pequena, histórias de João Grilo.

Hoje trago histórias cabeludas, emoções opostas, problemas. 289


Era uma vez... brincava, criança, na casa de madeira cor de rosa.

Hoje, moça, brinca com palavras surreais com sentido subjetivo.

Era uma vez... pé ante pé 290


da escola de inglês ia prá casa comigo

a brincar, sorrindo, inocente e pura, e feliz. Criança!

Hoje, adulta viaja sozinha, tímida, com medos; 291


vence-os!

Massapê, vó Jarina, fim do mundo! Saudades. Não foi aqui! Não foi não!

As flores às vezes desabrocham em monturos. Em ruínas nada cresce.

“Olhai os 292


lírios do campo!” Do nada floreiam, disse Jesus.

O nada é tudo? O zero é nada? um zero à direita

de qualquer número decuplica seu valor! 293


Onde o nada? Não existe!

Outrora menina tímida. Duvidosa agora! Saudade!

Saudade! Quem dera voltassem os tempos! Inocência. Esperança!

294


Espera esperança! “Olhai os lírios do campo!” E espera!

Fim do Livro.

295


Posfácio: A dança ou A anatomia dos Anjos Priscilla Menezes Há uma outra versão que diz que quando ele chega ao céu os anjos dançam. Incontáveis querubins andróginos o saúdam com um baile de samba

de

malandragens,

gafieira.

Entre

inversões,

travadas,

zigue-zagues, abraços

e

enroscos, os anjos riem. Ele fica de canto, só olhando, os pequenos pés afundando as nuvens fofas. De vez em quando um querubim tropeça e é a maior troça. Aos anjos só é permitido fazer festa quando uma alma alegre é acolhida. Suas grandes asas atrapalham um pouco a movimentação, mas também criam uma impensada forma de erotismo. As penas roçam os olhos angelicais, acariciam seus braços, por vezes se prendem por um instante entre suas pernas. Quando dançam, os anjos elaboram seu

complicadíssimo

sexo.

Feito

de

purezas

296


dilatadas e perversas conjunturas de cócegas e ânsias. Quando acontece esse baile, é possível que na terra chova, ou que ventanias exageradas varram as ruas e os campos nus. O tremor dos anjos bailarinos afeta a terra sobremaneira, por isso é sabido no céu que alegria é a força mais perigosa que há. A

anatomia

dos

anjos

é

uma

coisa

interessante. Uma espécie de maquinaria, um labirinto de carne e voo. Quando ele chegou ao baile, impressionou-se primeiro foi com aqueles corpos. Diferente do que se pensa, os anjos não são menos carnais que os humanos. São apenas corpos densos que o Misterioso dotou com longas asas. Pura humanidade alada. Não são perfeitamente belos e santos, talvez um pouco pálidos e entediados, isso sim. Uma anja que já tinha cansado de dança chegou perto dele e lhe deu boas-vindas: - O céu dança sua vida. Esteja em casa. Olhou bem para a anja e viu que parecia uma mulher do norte, uma cabocla, mistura de negra 297


com índia, de lábios grossos, cabelo escuro e olhos puxadinhos. Suas asas não eram perfeitamente brancas, tendiam mais para um ocre sutil. Outros anjos tinham as asas cor de chumbo; essas, em sua opinião, as mais garbosas. A anja-cabocla lhe olhava com certo interesse amedrontado, um ar de dissimulação. Quando conseguiu falar, perguntou: - Mas o que é isso, afinal? - Esse é o céu em festa. Sempre que sobe até nós uma alma verdadeiramente alegre, temos permissão

do

Misterioso

para

dançarmos

e

ouvirmos músicas populares. Lá pelo quinto dia, também poderemos beber vinho. Sim, porque a festa durante vinte dias e vinte noites terrestres. O Misterioso fica meio contrariado, porque diz que o vinho bebido assim para a festa, e não na sagrada comunhão, é homenagem aos deuses antigos, é Bacanal,

entende?

Mas

trato

é

trato.

Nós

sustentamos as arquiteturas celestes, vigiamos o obscuro e a claridade do humano, levamos mensagens para o mundo inferior, passamos dias 298


meditando diante de claridades, assistimos ao balé do Espírito que insiste em tremular sobre as águas por um velho hábito. Em troca de tudo, podemos fazer festas quando uma alma verdadeiramente alegre vem até nós. É a Lei. Ele estava estarrecido. Um pouco com aquela história toda, com aqueles tratos, com o fato de ser ele a alma alegre. Mas, sobretudo, porque a anjacabocla era uma perdição. Como podia uma anja ser assim tão sensual? Os lábios carnudos, o sotaque do norte, um hálito de cajá. Havia muitas coisas que, aquela altura, desejava saber, uma delas era se lhe seria permitido flertar com aquela anja, ou mesmo chegar a toca-la. Ali, era preciso reaprender tudo, até a arte do cortejar. - Escuta, como é o teu nome ? - É Lidiane. - Ô Lidiane, não tá parecendo que essa festa é para mim não. Eu não estou entendendo nada, será que alguém pode me explicar alguma coisa ? - Você sabe dançar? 299


Não sabia. Mas notou que ali, sobre as nuvens, seus pés adquiriam uma sabedoria própria. A gafieira foi substituída por um Fox Trot, percebeu que conseguia dar incríveis giros, viradas e twists. Dançou por muitas horas, parando apenas quando passava um avião muito perto da nuvem onde estava. Os anjos estavam acostumados, mas ele levava um enorme susto cada vez que isso acontecia. Quando anoiteceu, começaram a dançar um forró arrasta-pé e os ânimos se exaltaram. Sentiu que era hora de buscar alguma explicação. Notou que um anjo bastante andrógeno observava tudo de canto.

Magro,

negro,

alto,

cabelos

começando a virar um black power

cheios, e traços

bastante delicados, deixando em dúvida o gênero da criatura em questão. Decidiu puxar assunto. - Oi, você também não dança forró? - Na verdade danço muito bem, eu queria mesmo era falar com você. Tinha a voz aguda e aveludada, mas ainda poderia apostar que era um rapaz. Sua era belíssima 300


e reluzia sobre a noite estrelada. Tinha olhos que cintilavam, como quem olha para algo perigoso ou muito fascinante. Sua asas eram alvas, belíssimas, usava uma camiseta preta de algodão e calças justas também pretas. Seus sapatos pareciam pantufas, só que mais modernas. O anjo continuou: - Eu vi você dançando. É de fato uma alma alegre. Apenas os alegres conseguem dançar em meio a incompreensão. - Mas eu não gosto de não entender. Você pode me explicar como é o céu? Por que eu estou aqui e como será minha estadia? - Olhe, aos anjos é vedada a possibilidade de dizer verdades. Segundo as Misteriosas Leis, dizer verdades

é

arremessaria

um

dos

direto

ao

pecados

capitais,

submundo,

para

nos que

ardêssemos, corpo e asa, na caldeira dos Contadores de Verdade. - Mas então, terei que ficar aqui sem nada saber? - O Misterioso, porém, tem misericórdia. 301


Deixa que nos comuniquemos com o que há de mais puro no ser: o corpo. Por essa ele não esperava. Não parecia do caráter de Deus considerar o corpo superior às verdades

metafísicas,

aquilo

o

surpreendia

verdadeiramente. Mas ainda não entendia como faria para obter qualquer informação. Estava cansado, com fome, queria um pouco de privacidade e, além de tudo, começava a sentir os sinais de uma enxaqueca terrível. - Mas então, como você se comunica pelo corpo? - Você pode tocar em mim, cada parte do meu corpo, e do seu também, tem um pensamento. Está nos Secretos Escritos que o ser humano se engana muito acreditando ser a cabeça o centro da razão. A razão é elétrica, sanguínea, corre na pele. Basta que você toque na parte do meu corpo que quiser que verá o que meu corpo pensa e sabe.

302


Aquilo

mais

parecia

roteiro

de

pornochanchada. Um argumento metafísico, até sublime, mas que só pode funcionar com algum tipo de sacanagem. Sentia que aqueles anjos estavam tirando uma com a cara dele. Mas o anjo estendeu sua bela mão e, sem pensar muito, ele o tocou. Foi como se seu corpo fosse tragado para dentro de uma esfera luminosa. Primeiro só conseguia enxergar a luz, aos poucos sua visão foi voltando ao normal. Quando pode olhar, viu que estava em outra nuvem, esta isolada e silenciosa. Olhava para baixo e, estranhamente, podia ver tanto à distância, como de perto, dependendo apenas do seu desejo de ver. De repente, soube. Entendeu a fragilidade dos mistérios alémvida. Como se levasse um choque, ele recebeu um lampejo revelador: os anjos são aquilo que querem ser. Em verdade, os anjos eram apenas homens e mulheres que acreditavam, em vida, que quando morressem virariam anjos. O Mistério, de fato, era a fé. Dependia da criatividade de cada mente 303


fervorosa o seu destino na Eternidade. Mas “fé” ainda não era a palavra certa, mais do que crer, era preciso desejar. Os anjos eram aqueles que desejavam sê-lo. Então a Lei secreta que rege o universo era o desejo. Daí uma certa androginia na maioria dos corpos angelicais, fruto desse desejo bruto que transborda o gênero como é entendido na Terra. Os Anjos, acima de tudo, eram os que desejavam para muito além do corpo. Queriam ser meio

macho,

meio

fêmea.

Queriam

o

dom

impensado do voo. Queriam a carne em brasa toda suspensa em penas. Queriam ser a própria medida do impossível. Com outro choque, soube então porque não lhe coube esse destino: nunca em vida havia desejado ser anjo após a morte, bem pelo contrário, se sentia muito mais tentado a dar uma olhada no que se passada no submundo, nas obscuras e fervorosas câmeras do Outro.

Então, com a

sensação de um súbito arremesso, viu-se em uma nuvem muito alta, de onde já não podia saber mais 304


nada da Terra. Soube que estava muito perto do limite onde se pode chegar sem se queimar no Sol. Soube que estava só. Ali, o esclarecimento que havia obtido lhe parecia uma triste notícia. Se os homens viviam, após a morte, aquilo que em vida desejavam viver, por que é que ele estava ali naquele céu banal repleto de clichês? Nunquinha que em vida tinha desejado isso para si. Então, como se um soco no estômago lhe tirasse o fôlego, veio-lhe a resposta: o texto. Era de conhecimento do Misterioso, esse grande amante das letras, que ele havia deixado por escrito um longa descrição de como seria sua experiência no Além. Havia descrito, em um belo texto, longos acontecimentos em um céu como aquele: feito de nuvens, anjos e a notícia de um Deus ausente. Seus anjos eram burocratas falastrões que, por ora, apenas dançavam. Estava tudo planejado

para

que,

em

seguida,

tivesse

a

oportunidade de viver o céu assim como ele havia desejado, a ponto de tê-lo criado por escrito. Sentiu 305


então o fervor da raiva subindo-lhe pelo corpo: eles não haviam entendido nada! Acontece que seu desejo não era pelo céu, mas pelo texto! Seu texto, por sua vez, não era confissão de um desejo escuso, nem atestado de nenhuma fé. O sentido do texto se fazia na escritura e só texto poderia revelar o seu próprio mistério, quem o escreve pouco sabe sobre ele. O escritor só sabe de uma coisa: do irresistível chamado da escrita. Seus temas, seus argumentos, suas aporias nada mais são que vias por onde percorrer para frequentar o texto.

Esse sim, seu verdadeiro

interesse. Quando voltou à nuvem, o anjo estava com os olhos arregalados pois havia compreendido que o Misterioso – pasmem – tinha cometido um engano. Não era aquele, pois, o destino-desejo daquele homem. O anjo silenciosamente recolheu sua mão e pediu que ele o seguisse. Andaram na direção de uma pequena torre de pedras que, até então, não havia notado. Dentro dela, havia uma escada em 306


formato caracol, que descia rumo a uma escuridão indevassável. O anjo disse: - É preciso corrigir um engano. Seu destino é outro. Esse você encontrará quando descer por essas escadas. Ele sentiu um novo ânimo lhe afetar o corpo, mas também um certo medo. O que encontraria ali? O anjo continuou: - Aqui é o paraíso dos escritores: a biblioteca. Nunca soube como é de fato, pois não é o meu. Olha, a verdade é que todos vamos ao paraíso depois da vida. Não importa se o sujeito deseja o inferno e vai para lá, pois em verdade aquele inferno é a sua delícia, seu ardor. Houve um erro, digamos, de interpretação de texto. O Misterioso, através dos meus olhos, deu-se conta disso agora quando você acessou os Mistérios. Seu desejo não era o céu como escreveu, mas o próprio escrever. E é por isso que você vai ser transferido. Mas saiba que você conseguiu aquilo que talvez todos os escritores desejam: você confundiu a ordem perfeita do 307


Mistério. Agora descerá em direção aos Mistérios da Biblioteca. Boa viagem. Enquanto ia descendo as estreitas escadarias, sentiu um fervor de orgulho animando o peito: conseguira, trapaceara o próprio Deus. Sempre tinha tido admiração por João Grilo, esse astuto enganador, e agora havia superado mesmo a mais brilhante de suas façanhas. E não sabia bem como, só sabia que tinha sido assim. Antes de mergulhar no obscuro e encontrar seu definitivo e correto Paraíso, pode ouvir a Misteriosa Gargalhada. Deus ria de seu próprio engano. Quanto a ele, estava orgulhoso e animado, mas lamentara uma única coisa: não poder mais dançar com Lidiane. Ô Anja deliciosa!

308


Delírios